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RELEMBRANDO LINDA RODRIGUES

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Linda ainda hoje é considerada uma das cantoras que mais celebraram a chamada fossa ou dor-de-cotovelo

Linda Rodrigues trazia seu adjetivo até em seu nome artístico como é possível atestar a partir da foto acima. Cantora e compositora, a artista carioca nascida em 1919 como Sophia Gervasone é considerada por muitos como uma das maiores celebrantes da chamada canção “dor-de-cotovelo” ao longo dos anos em que atuou em discos e espetáculos. Vale lembrar que o seu primeiro registro fonográfico ocorreu em 1945 pela gravadora Continental. Neste primeiro 78 rotações a artista gravou os sambas “Enxugue as lágrimas” (Elpídeo Viana e Correia da Silva) e “Abaixo do nível” (Osvaldo dos Santos e Odaurico Mota). No ano seguinte a marcha “Atchim” (J. Piedade e Príncipe Pretinho) e o samba “Claudionor” (Cândido Moura e Miguel Bauso). Ainda nos anos de 1940, período que antecede sua forte representatividade a um gênero, a cantora chega ainda a gravar ritmos distintos como a rumba “Jack! Jack! Jack!” (canção de autoria de Haroldo Barbosa e Armando Castro) e o samba “Mais um amor, mais uma desilusão” (composição do paulista de Jacareí José Maria de Abreu).

A década seguinte vem como a mais representativa de sua carreira a partir de alguns registros fonográficos que entrariam para a história da artista como uns dos seus maiores sucessos. De início, em 1951, grava pelo selo Star, o samba canção “Os dias que lhe dei” (composto pelo carioca Newton Teixeira e Airton Moreira) e o samba “Raça negra” (feita a quatro mãos pela compositora Ailce Chaves e por Paulo Gesta). No ano seguinte registra o samba “Lama” (de autoria de Paulo Marques e Alice Chaves), tal canção viria a ser não apenas o maior sucesso da carreira fonográfica da artista, mas também um dos sambas-canções mais celebrados no repertório, digamos, de fossa. Neste mesmo ano a cantora também fez o registro do bolero “Nossos caminhos“.

Ao longo dos anos de 1950 fez inúmeros registros fonográfico, dentre os quais, em 1953, pela gravadora Sinter, o samba “Sombra e água fresca” (Geraldo Mendonça e Russo do Pandeiro), a marcha “Bambeio mas não caio” (Elvira Pagã, Ailce Chaves e Paulo Marques), o samba “Sereno cai” (Raul Sampaio e Ricardo Galeno), a marcha “Tá tão bom” (Três Amigos), o samba “Ninguém me compreende” (de autoria do alagoano José Fernandes de Paula, o Peterpan), o samba-canção “Vício” (de sua autoria e José Braga que também se tornou um grande sucesso de sua carreira).

Pela gravadora Todamérica ainda registrou a marcha “Rico é gente bem” (Rebelo, Rupp e Ari Monteiro), o samba “Folha de papel” (Paulo Marques, Sílvio Barcelos e Ari Monteiro), os sambas-canções “Farrapo humano” (de sua autoria e Ailce Chaves), “Queimei teu retrato” (Noel Rosa e Henrique Brito), “Pianista“, (Irani de Oliveira e Ari Monteiro) e “Comentário barato” (Jaime Florence e J. Santos). Sem contar os sambas “Violeta” (Mirabeau e Dom Madrir), “Recompensa” (Tito Mendes, Nilo Silva e Osvaldo França), “Chorar pra que” (Aldair e Silva Jr.), “Quando o sol raiar” (o capixaba Mirabeau, Sebastião Mota e Urgel de Castro), “Sereno no samba” (Aldair e Dora Lopes) e “Tem areia” (esta última composta por Linda e por José Batista, e registrada na RCA Victor em 1959 juntamente com a “Marcha da folia” feita por ela, Aldacir e Silva Jr.).

Ao longo dos anos de 1960, já com a carreira sedimentada a partir de suas singulares interpretações, gravou os sambas-canções “Negue” (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos), “Tenho moral” (de sua autoria e Castelo), “Companheiras da noite” (samba-canção de sua autoria, Ailce Chaves e William Duba). É dessa década também o LP “Companheiras da noite” no qual interpretou diversos sambas-canções, dentre eles, “Lama“, “Negue“, e “Cigarra Noturna“.

Deixo aqui para os amigos leitores duas canções que fazem parte do gênero que deu projeção ao nome da artista falecida em 1997. A primeira trata-se do clássico “Lama“, de autoria de Paulo Marques e Ailce Chaves e gravada na Continental em 10 de abril de 1952, com lançamento em maio-junho do mesmo ano, sob n.o 16559-A, matriz C-2839:

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A segunda trata-se do samba-canção “Mais um amor, mais uma desilusão“, de exclusiva autoria de José Maria de Abreu, gravado na Continental por Linda Rodrigues em primeiro de julho de 1948 e lançado entre esse mês e o de setembro do mesmo ano, disco 15926-B, matriz 1901. Regravado um ano mais tarde por Orlando Silva:

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OS AMANTICIDAS – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Batizada a partir de uma das faixas presente no disco Às Próprias Custas S.A (1983) do cantor e compositor Itamar Assumpção, Os Amanticidas chegam como titulares no time da nova vanguarda paulista

Formado por Alex Huszar (voz e baixo), João Sampaio (guitarras, bandolim e cavaquinho), Joera Rodrigues (bateria) e Luca Frazão (violão de sete cordas), Os Amanticidas estreiam no mercado fonográfico de modo independente com um álbum que conta com a participação de nomes como Arrigo Barnabé e Tom Zé. Gravado com apoio do ProAC, com produção de Paulo Lepetit, “Amanticidas”, primeiro álbum do quarteto, chega expondo tudo aquilo que os garotos absorveram, condensaram e transformaram de modo bastante original nas dez faixas autorais presentes no disco.

Um detalhe interessante a ser observado é que mesmo influenciados pelos mais distintos elementos sonoros, o amálgama que os jovens conseguem formar neste projeto não os fazem perder a unidade, pelo contrário, todas as influências substanciaram a trilha do novo caminho que os músicos buscam de modo inovador como foi possível conhecer recentemente aqui mesmo em nosso espaço a partir da pauta “DA DURA POESIA CONCRETA DE SAMPA EIS QUE SURGE OS AMANTICIDAS SOB A INSÍGNIA DA VANGUARDA PAULISTA”. Hoje os jovens retornam aos nossos holofotes para este bate-papo exclusivo onde tratam dos mais distintos temas como vocês poderão conferir logo abaixo. Excelente leitura!

Acho que a primeira pergunta que convencionalmente fazem a vocês é o modo como se conheceram e como resolveram formar os “Amanticidas”. Como tudo isso ocorreu?

Na verdade três membros da banda, Alex, Joera e Luca, se conhecem desde os tempos de colégio, tocavam juntos desde essa época. Aí o Alex entrou em música na Unicamp, conheceu o Sampaio por lá e teve a ideia de juntar a banda. A gente acabou tocando juntos pela primeira vez no fim de 2011, e em 2012 começamos a fazer shows por São Paulo.

Quem conhece um pouco da biografia de vocês sabe que o nome do quarteto surgiu a partir de uma das canções presentes na discografia do Itamar Assumpção. Por que é que vocês foram buscar o nome do grupo de um disco lançado há mais de três décadas atrás?

Acho que a gente foi buscar no Itamar porque desde o começo da banda, quando nosso som não tinha ainda a cara própria que foi sendo construída nesses anos de ensaios e shows, a gente já tinha claro que o trabalho do Itamar era uma referência pra de alguma forma nos guiar na direção dessa identidade. O jeito que ele e o Tom Zé, principalmente, trabalham as canções são a base a partir da qual a gente tenta construir o nosso jeito.

Quando e como aconteceu o primeiro contato de vocês com os materiais fonográficos da chamada Vanguarda Paulista?

Pra todos nós foi a partir dos nossos pais, que pertencem à geração que acompanhou de perto a Vanguarda, frequentando o Lira Paulistana e tal. Então desde muito cedo ouvimos em casa os discos de Grupo Rumo, Premê, Arrigo e, claro, Itamar. Mas a gente só foi dar mais atenção pra esses artistas enquanto influência pro nosso próprio trabalho mais pra frente, na adolescência, quando começamos a decidir fazer isso da vida.

Fazer essa comparação do trabalho de vocês com o da turma da Vanguarda Paulista incomoda?

Não incomoda porque a gente não entra muito nessa de comparar. Temos total consciência do quanto devemos a eles (não por acaso o Paulo Lepetit, baixista do Isca de Policia, produziu o disco), mas estamos tentando começar nossa própria trajetória, num outro contexto, outro circuito. Também não achamos de forma alguma que estamos continuando a partir do que eles deixaram, porque afinal boa parte dos artistas daquela cena ainda estão por aí, lançando trabalhos novos e originais.

Foram cerca de quatro anos do surgimento do grupo até o lançamento do primeiro álbum. Neste ínterim quais as maiores dificuldades para a concretização deste marcante passo de vocês?

Bom, a maior dificuldade foi a nossa própria inexperiência. Na parte musical nós tivemos ajuda do Lepetit pra lidar com os problemas, então o desafio maior acabou sendo a parte burocrática que a gravação de disco envolve (registro das músicas, contato com fábricas para prensagem e etc.). Alem de outras dificuldades que todo artista enfrenta pra botar seu trabalho no mundo: algumas roubadas, frustrações, pouca grana, muito ensaio…

Quais foram os critérios para a escolha das dez faixas presentes no disco?

Na verdade foi bem simples, porque como é o primeiro disco ele registra um período mais longo do nosso trabalho. Tem canções ali compostas há vários anos, até antes da banda existir. Ao longo desse tempo a gente foi ajeitando cada uma nos shows e ensaios, montando o repertório com calma até sentir que tinha chegado o momento de registrar.

Assim como algumas referências musicais do grupo, vocês buscaram seguir um caminho fonográfico independente. É fato que a dificuldade é grande, mas a liberdade para a produção vem na mesma proporção (“Clara Crocodilo” é um exemplo). Para se ter essa liberdade na produção vale o preço pago?

Hoje em dia o mercado está bem diferente do que naquela época, se reorganizou de uma maneira que facilita a produção independente. Não que ainda não haja todo tipo de dificuldade, mas com a internet ficou mais viável conseguir um alcance legal pro trabalho sem precisar de meios tradicionais como gravadora, selo etc. Então esse caminho veio de uma forma bem natural pra gente, não foi uma escolha tão pesada; sempre soubemos que era isso que fazia mais sentido.

As diversas influências presentes no álbum não faz de “Amanticidas” um disco sem identidade sonora, pelo contrário, percebe-se a composição de uma unidade bastante coerente. Que tipo de cuidado vocês buscaram tomar para que tantas influências não acabassem descaracterizando este álbum de estreia?

A gente busca a unidade não tanto na composição, afinal como dissemos tem coisa no disco que foi composta antes da banda surgir, mas muito no arranjo. O resultado final das canções soa muitas vezes totalmente diferente do material bruto que chegou a partir de quem compôs. E isso a gente trabalha exaustivamente nos ensaios, tentando ao longo desses anos formular um jeito nosso de fazer arranjo, que, esse sim, parte muito do que a gente identifica nos jeitos do Itamar, do Tom Zé e outros.

O disco conta com a participação de dois relevantes nomes da nossa música que são o Tom Zé e o Arrigo Barnabé. Como surgiram estes convites e a ideia de inseri-los neste debute fonográfico de vocês?

Os convites vieram a partir do Paulo Lepetit, produtor do disco, que ouviu as faixas e na hora achou que combinavam com eles. A parte que o Tom Zé participa, verdade seja dita, era uma homenagem explícita a ele (o que só faz com que a participação fique mais especial ainda), mas o Arrigo em “Traste” foi uma ideia do Lepetit que a gente nunca tinha imaginado e acabou encaixando perfeitamente.

O show de lançamento do “Amanticidas” ocorreu recentemente. Como será a divulgação deste álbum daqui pra frente? Já há datas confirmadas para apresentação fora do eixo Rio-São Paulo?

A gente tem investido bastante na divulgação pela internet, porque achamos que as chances de alcançar gente que normalmente não nos conheceria é maior. E quanto aos shows, fizemos por enquanto dois no interior do estado de SP, além do lançamento na capital. Nos próximos meses temos mais três shows já confirmados aqui em São Paulo: dia 04/09 no Teatro Décio de Almeida Prado, 05/10 no CEU Sapopemba e 22/10 no CEU Butantã. Além disso faremos um show dia 10/09 em São Luiz do Paraitinga e um no Rio de Janeiro no dia 28/10. Fora do eixo Rio-São Paulo ainda não temos nenhum show confirmado, mas esperamos ter em breve.


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OS AMANTICIDAS

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O quarteto paulista chega ao mercado fonográfico apresentando as suas mais distintas influências a partir de uma hibrida sonoridade que não os fazem perder a identidade

Reza a lenda que em 1960 na boate Cave, na rua da Consolação, em São Paulo, o multifacetado Vinicius de Moraes, revoltado com o barulho que fazia o público durante apresentação do amigo e parceiro Johnny Alf , solta uma frase que viria a ressoar na música paulista até os dias atuais (mesmo sendo dita sob mero impulso): “São Paulo é o túmulo do samba”. Mais de cinco décadas após a infeliz declaração a sonoridade paulista modificou-se, e com o passar dos anos acabou ganhando adornos que fazem dela hoje ser respeitada em todo o país. Sem dúvida São Paulo hoje é visto como um dos centros urbanos onde a efervescência musical faz-se mais presente, e muitos contribuíram para que a música paulista alcançasse este status nos mais distintos momentos, principalmente a partir da inserção de algumas ideias inovadoras ao longo destes anos, merecendo destaque o movimento cultural ocorrido na capital paulista entre 1979 e 1985 batizado de Vanguarda Paulista.

Era outubro de 1979 quando, na rua Teodoro Sampaio, bem na altura da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, o pequeno teatro Lira Paulistana abre suas portas para dar voz e vez a artistas que emergiam naquele momento na cena paulistana. Tinha início ali um movimento que, logo em seguida, ganharia projeção nacional a partir de uma proposta que buscava mostrar uma forte veia experimental – tanto musical quanto poética e cênica. Vale registrar também outra característica marcante desse movimento: um espírito de independência em relação à indústria fonográfica. Naquele momento os holofotes voltavam-se para nome que viriam a escrever seus respectivos nomes na cena musical brasileira a partir dos mais distintos projetos. Nomes como Vânia Bastos, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Eliete Negreiros, Cida Moreira,Tetê Espíndola e grupos como Rumo, Língua de Trapo e Premeditando o Breque surgiram nessa leva.

Hoje, 36 anos após o marco fonográfico inicial com o lançamento dos álbuns “Clara Crocodilo” (disco que virou até dissertação de mestrado), do cantor, pianista e compositor Arrigo Barnabé, e de “Beleléu, Leléu, Eu”, do cantor e compositor Itamar Assumpção junto com a banda Isca de Polícia, uma outra geração de músicos, cantores e compositores buscam condensar toda essa influência sofrida a partir destes e outros projetos surgidos na época e que mostram-se, ainda nos dias de hoje, verdadeiras usinas sonoras ao misturar dodecafonismo, música erudita pop, rock entre outras experiências. Bebendo destas fontes, a nova geração da música paulista vem dando a sua contribuição a partir dos mais distintos trabalhos como o que hoje chega aqui ao nosso espaço.

Advindos desta nova cena musical independente que vem crescendo na capital paulista (batizada por muitos como “nova geração da Vanguarda Paulistana”), Os Amanticidas (nome que é referência explícita a “Amanticida”, música que Itamar Assumpção gravou em 1983 em seu LP “Às próprias custas S.A.”) surgiu em 2012 e tem como integrantes Alex Huszar (baixo, canto, composição e arranjado), João Sampaio (guitarra, composição, arranjo, vocal, cavaquinho e bandolim), Joera Rodrigues (bateria, canto e arranjo) eLuca Frazão (violão de sete cordas, arranjado, composição e flauta). Ao longo destes anos os integrantes do quarteto tem estabelecido distintas parcerias com nomes que reforçam a afirmação de que foram substancialmente influenciados pela gama de artistas de outrora da cena musical paulista a partir de parcerias com como Juçara Marçal, Suzana Salles, Banda Isca de Polícia, Alzira E,Filarmônica de Pasárgada, Suzana Salles, Vange Milliet e Orquídeas do Brasil. Com esta vasta experiência já achavam que era hora de um registro fonográfico.

Gravado com apoio do ProAC, com produção de Paulo Lepetit, “Freguesia”, primeiro álbum dos jovens músicos, chega expondo tudo aquilo que o quarteto absorveu, condensou etransformou de modo bastante original nas dez faixas autorais presentes no disco. É possível observar neste trabalho algumas características que provavelmente venham a se tornar uma marca registrada do grupo ao longo dos anos e das próximas produções fonográficas, uma delas são os adornos utilizados nos arranjos presentes no projeto. Percebe claramente que o grupo trabalha exaustivamente o arranjo de cada uma das músicas presentes no disco. “Nós sempre evitamos pegar a solução mais fácil”, diz Alex Huszar, “pensamos o arranjo como parte da composição”, chamando a atenção a unidade presente a partir de todas as canções. Em sua sonoridade há influências de nomes que vão de Jards Macalé a Paulinho da Viola, perpassando por nomes como Os Mutantes, Arrigo Barnabé, Siba, Metá Metá e Tom Zé.

Apesar de beber na fonte da vanguarda paulista, o quarteto Os Amanticidas apresenta-se de modo inovador, trazendo para a realidade atual aquele tipo de tratamento da canção – por exemplo, a linha baixo do dobrando a linha do violão ou guitarra, como fazia Itamar Assumpção a partir das dez canções que compõem o disco. Por falar nas faixas, nove são composições autorais (seis assinadas porAlex Huszar, duas por João Sampaio e uma por Luca Frazão) – sendo uma delas um poema deCarlos Drummond de Andrade musicado por Alex Huszar. E a outra é uma música de Talismã, nome de referência do samba paulistano. Trazem, todas elas, a força da juventude dos quatro músicos. Nas letras, na sonoridade, na expressão vocal. Aliás, curioso observar que, igualmente aos jovens músicos paulistas, Drummond estava na casa dos 20 anos quando escreveu “Quero me casar” (publicado em 1930 no livro “Alguma Poesia”).

Em referência explícita às suas influências, no disco Os Amanticidas têm como convidados especiais Arrigo Barnabé (em “Traste”) e Tom Zé (em “Pisadeira”). Outros músicos em participações especiais foram a flautista Clara Kok e o tecladista Rafael Montorfano. Este primeiro disco já cheou “às boas lojas do ramo” e às principais plataformas digitais. Portanto é preciso estar atento, pois alguma coisa acontece na cena cultural paulista para além do cruzamento da Ipiranga com a avenida São João.

Como aperitivo deste novo trabalho, uma das canções presentes no disco. Trata-se da canção “Freguesia”, de autoria de João Sampaio:

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RELEMBRANDO SÔNIA SANTOS

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Radicada nos EUA, a cantora destacou-se nas trilhas de novela nos anos de 1970

Carioca de Ramos, bairro de classe média da Leopoldina na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, Sônia tem por berço uma região que tem além de antigos engenhos de cana-de-açucar, chácaras e olarias que remontam ao século XVIII, um local com forte ligação a grandes nomes da música brasileira e seus compositores a partir de nomes como o dos compositores Pixinguinha, Villa-Lobos e, mais recentemente, Zeca Pagodinho e Almir Guineto (estes últimos ligados ao Cacique de Ramos, que também é o berço de grupos como o Fundo de Quintal). Fundadores de uma associação religiosa no bairro, os pais de Sônia esporadicamente realizava shows com o objetivo de angariar recursos para manter a instituição e, no meio das apresentações, lá estava Sônia apresentando-se entre as crianças. Depois destas primeiras incursões ela continuou envolta e apaixonada por música, apresentando-se em diversos contextos, dentre eles alguns bailes na noite carioca (após ingressar na Orquestra do Maestro Cipó, lendário grupo que fez histórias nos bailes cariocas).

Nestas noites quentes e sonoras do Rio de Janeiro surgiu para Sônia a oportunidade de migrar para uma outra Orquestra de Baile, desta vez para uma que não restringia o seu sucesso apenas ao Rio de Janeiro. Tal orquestra tratava-se do conjunto do multi-instrumentista Zito Righi. Como o próprio nome sugere, o conjunto era comandado pelo próprio por Zito e percorria as mais distintas estradas em todo o país. Vem desse período o seu primeiro registro fonográfico: trata-se de “Poema rítmico do malandro“, composição da própria Sônia Santos com arranjos do Righi. Presente no álbum “Alucinolandia”, lançado em 1969, a canção foi o primeiro sucesso da artista carioca. Em uma de suas apresentações em parceria com zito, Sônia foi abordada pelo então presidente da Som Livre João Araújo (que ganhou muito mais projeção como pai do cantor e compositor Cazuza do que pela descoberta de relevantes nomes para a nossa MPB) que após uns breve elogios questionou-a se não queria gravar o seu primeiro LP.

Como artista da Som Livre (gravadora pertencente ao grupo de Globo de comunicação), Sônia teve a propulsão do seu nome através das diversas trilhas de novelas as quais teve o seu nome associado. Só no ano de 1974 teve sua voz incluída em dois folhetins. Na trama “O Espigão“, participou da trilha sonora cantando “Você vai ter que me aturar” (parceria de Reginaldo Bessa com Nei Lopes) assim como também em “O Rebu“, onde cantou “Porque” (parceria do saudoso Raul Seixas com Paulo Coelho). Gravou o primeiro LP em 1975, produzido e arranjado por Guto Graça Mello. Ano disco é possível encontrar nomes como Assis Valente, Jorge Ben, Élton Medeiros e Cristóvão Bastos. O segundo LP, “Crioula” foi lançado em 1977 também pela Som Livre, de onde desvinculou-se para ingressar na RCA (gravadora responsável por dois compactos na carreira da artista: o primeiro com os registros de “Brasileirinho” (do Waldir Azevedo e do Pereira Costa) e novamente “Porque” (Raul Seixas e Paulo Coelho); Já o seguinte é dedicado ao Jorge Ben. Ao longo dos anos de 1980 gravou o terceiro LP, “Brasileirinha”, de forma independente e mudou-se em definitivo para Los Angeles nos EUA.

A princípio mudou-se por insistência do irmão sob a alegação de que só iria para lá se fosse para apresentar-se na Broadway (não sabia ela que semanas depois de sua ida, de fato ela iria parar nos palcos de lá. Desde então vem sedimentando uma exitosa carreira nos palcos americanos a partir de trabalhos solos e projetos em parceria como “Bossa, Ballds & Boleros” (com o tecladista Pablo Medina) e a série “Brasil Brazil“, em parceria com a também cantora Ana Gazolla e que já conta com três volumes. A dupla também registrou o DVD “Brasil Brazil Ao Vivo – Syracuse Jazz Festival“.

Para os amigos leitores destaco duas faixas na voz de Sônia. A primeira trata-se de “A lavadeira” (canção composta em trio por Eros Fidélis, Jon Lemos e Roberto Correia) e presente no seu segundo LP:

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Já a segunda trata-se de “João ninguém“, canção presente no mesmo álbum de 1977 e composta por Paulo Menezes / Milton Legey:

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RELEMBRANDO HORACINA CORRÊA

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Além de cantora, Horacina também foi vedete

Horacina Corrêa nasceu no Rio Grande do Sul no dia 05 de outubro de 1924. Sendo mais uma das que inspiraram-se em Carmem Miranda para dar vazão ao sonho de ser cantora, começou sua carreira nos anos de 1930 imitando a pequena notável nas emissoras de rádio a qual se apresentava ainda adolescente lá pelo final dos anos de 1930. Antevendo um futuro artístico promissor para Horacina, o empresário Walter Pinto (famoso pela produção de shows de vedetes durante as boêmias décadas de 1940 e 1950 na então capital federal) resolve contratar a pretensa cantora para ser uma de suas atrações artísticas. Em um breve resumo biográfico, pode-se dizer que Walter foi o principal responsável pelo universo encantador do Teatro de Revista e seus importantes espetáculos, assim como também protagonista por polêmicas e quebras de tabus como, por exemplo, a vinda para o Teatro de Revista Brasileiro, da artista Ivaná, primeiro transexual de grande sucesso nos espetáculos franceses.

Em um período em que a televisão não existia no Brasil, o grande passatempo e diversão das pessoas era ir ao teatro e Walter e suas vedetes, dentre elas a famosa Virginia Lane, dominava os teatros cariocas. Neste período como vedete foi uma das atrações do Teatro Recreio e chegou a fazer várias excursões, inclusive para a Argentina, onde era muito apreciada. Segundo o pesquisador Antônio Epaminondas no livro Brasil brasileirinho, a mulata “gostava mesmo era de viajar, principalmente para a Argentina, onde realizou temporadas consecutivas, tendo prestígio em Buenos Aires comparável ao de Carmen Miranda nos Estados Unidos”. Neste período atuou em espetáculos como o “Quem inventou a mulata?” e filmes como “Cortiço” e “É com esse que eu vou”no qual cantou a canção “Salve, Ogum” (de autoria de Pernambuco e Mário Rossi).

Após obter sucesso no teatro teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico no Brasil, 78 RPM este lançado em 1945 pela Gravadora Continental contendo as canções “Eu sou o samba” e “Presunção” (ambos compostos por Amado Régis e Gadé). Vale registrar que cerca de oito anos antes, na Argentina, a cantora registrou em disco ao lado da Orquestra de Paulo Coelho a música “Alto da Bronze“, de autoria do próprio Paulo Coelho e de Plauto de Azambuja Soares (o Foquinha). Se levarmos em consideração a quantidade de registros fonográficos de Horacina podemos afirmar que a sua carreira fonográfica foi bastante curta, gravando apenas quatro 78 RPMs e dois LPs (Sendo o último em 1956 pela Musidisc, uma homenagem aos compositores Noel Rosa e Vadico com a orquestra de Leo Peracchi). Somando-se seus registros em disco, Horacina conta, entre 1945 e 1947, com três discos em 78 RPM (somando-se aí cinco músicas); além desses registros, participou, em 1951, do LP de 10 polegadas que o maestro Fon-Fon gravou em Londres com sua orquestra, nunca lançado no Brasil e também de mais dois LPs de 10 polegadas pela Musidisc.

Nestes LP’s contou com o acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto regional, no qual cantou o samba “Sai da roda”, de Amado Régis e a marcha “Pato enjeitado“, de Amado Régis e Américo Seixas. Em outubro de 1956 gravou apenas o lado B do disco 15.763 em 78 rpm que trazia no lado A a cantora Emilinha Borba cantando o samba “Madureira”. Nesse disco, cantou com acompanhamento de Severino Araújo e sua orquestra Tabajara o samba “Está muito bom!”, de Henrique de Almeida e J. Diniz Mabial. Depois deste registros nunca mais fez nehum registro em disco.

Segue para audição dos amigos leitores o primeiro registro fonográfico da artista gaúcha. A canção “Alto da Bronze” foi registrada na Argentina oito anos antes da cantora estrear em disco Brasil. A música é de autoria de Paulo Coelho e Foquinha como dito anteriormente:

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Já a segunda faixa para audição é a “Eu sou o samba”, Lado A do primeiro disco brasileiro de Horacina, e como citado anteriormente lançado pela Continental em outubro de 1945:

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RAUL BOEIRA E MÁRCIA BARBOSA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Lançado recentemente, “Cada qual com seu espanto” é a primeira parceria fonográfica entre Raul Boeira e sua esposa Márcia Barbosa

Hoje retomo a abordagem do bem sucedido álbum “Cada qual com seu espanto”, lançado recentemente pelo cantor e compositor Raul Boeira em parceria com a sua esposa, a professora-pesquisadora de letras na Universidade de Passo Fundo Márcia Barbosa. Segundo álbum da carreira de Boeira, “Cada qual com seu espanto” chega ao mercado fonográfico após oito anos do lançamento do primeiro disco e vem, assim como “Volume Um”, recebendo os mais distintos e e sinceros elogios tanto da crítica especializada quanto do público. Composto por treze faixas o disco apresenta letras substanciadas pelos mais distintos temas, sentimentos e sensações e, a exemplo do seu álbum de estreia, “Cada qual com seu espanto” foi novamente gravado no Rio de Janeiro sob a direção musical do Dudu Trentin e conta com a presença de alguns dos maiores instrumentistas da música popular brasileira como foi possível atestar recentemente aqui mesmo no JBF a partir da pauta publicada sob o título “NO ESPANTOSO TEMPO EM QUE A DEBILIDADE SUPERA A QUALIDADE NA MPB, RAUL BOEIRA REITERA O SEU TALENTO”.

Hoje, novamente o casal tem seus nomes em evidencia aqui em nosso espaço a partir desta entrevista generosamente concedida. Um bate-papo informal onde Raul nos fala sobre suas reminiscências musicais, características de destaque em relação ao primeiro disco e sobre as suas primeiras composições. Já Márcia nos diz se houve algum tipo de apreensão ao incursionar pelo campo da composição, nos diz quais nomes tornaram-se suas maiores influências na hora de escrever as letras para o disco e se o fato de ter atuado como compositora a fez “tomar gosto” pela coisa. Essas e outras curiosidades estão relatadas logo abaixo neste gostoso e exclusivo bate-papo. Excelente leitura a todos!

Raul, em nossa primeira conversa não tive a oportunidade de questionar a respeito de suas reminiscências musicais. Gostaria de aproveitar esse nosso reencontro aqui no JBF para saber como e quando você se deparou com a música.

Raul Boeira – Eu nasci em 1956, em Porto Alegre. Meu pai era acordeonista (gaiteiro, como se diz aqui no sul), bem como alguns de seus irmãos, todos amadores. Nos encontros de família sempre havia cantorias e dança. Em casa, o rádio tocava o dia inteiro. Depois, na metade dos anos sessenta, a TV mostrava todos aqueles programas, Jovem Guarda, O Fino da Bossa, os festivais da Record, Simonal, Os Incríveis, Chacrinha, os programas de Flávio Cavalcanti, Som Livre Exportação, Dean Martin Show, os cartoons dos Beatles, os Concertos para a Juventude. Eu tinha uns doze, treze anos e tudo aquilo já me interessava. Aos quinze, comecei a trabalhar como auxiliar de escritório, e, com o primeiro salário, comprei um violão usado. Com dois amigos, Ico e Marcus, aprendi a tocar Beatles, Santana, Stones, essas coisas. Mas eu já trazia dentro da minha mente toda aquela música que ouvira antes de chegar ao instrumento: a bossa, tropicália, música orquestrada americana, os concertos, a soul music, que começava a chegar ao Brasil… E com aqueles acordes mais simples do rock não era possível tocar uma música mais elaborada, com balanço. Aos dezessete já estava tirando músicas de Caetano, Chico, Jobim. Havia, enfim, encontrado a minha praia.

Apesar de não viver da música, o Raul traz uma bagagem de quase quatro décadas dedicadas à composição. Houve algum tipo de apreensão de sua parte ao incursionar por um terreno que você até então não conhecia (apesar de tão familiarizada com as letras)?

Márcia Barbosa – Não. Em nenhum momento, eu fiquei apreensiva, porque a nossa vida em comum tem sido marcada por várias sessões de audição comentada de música e de leitura compartilhada de poesia. Então, fomos aprendendo um com o outro, e a nossa parceria foi sendo construída gradativamente. Assim, o momento em que eu comecei a fazer letras para as melodias compostas pelo Raul não foi, exatamente, um ponto de partida, e sim um instante de chegada ou o resultado – quase que natural, eu diria – de um longo processo. Além disso, o fato de termos começado essa parceria apenas pelo prazer de compor, sem prazos ou metas, me deu muita liberdade. A ideia do CD surgiu só quando tínhamos todas as canções prontas.

E as primeiras composições? Em que circunstâncias surgiram?

Raul Boeira – Em 1974, a família se mudou para Passo Fundo, uma cidade de porte médio no interior do Rio Grande do Sul. Logo ao chegar, fiquei amigo de uma rapaziada que tocava em conjuntos de baile, mas na hora da folga queria mesmo era tocar MPB. Nessa época, eu já estava comprando discos de jazz, Hermeto, Gismonti, Joe Pass… e mostrava a eles, que passaram a estudar com os raros métodos americanos que se conseguia (Berklee School, Joe Pass Method…) e partiram para música instrumental contemporânea. Rapidamente se transformaram em ótimos instrumentistas e ganharam o mundo: Alegre Corrêa, Ronaldo Saggiorato, Dudu Trentin, Guinha Ramires… Eu trabalhava e estudava, e não tinha como me dedicar a ponto de alcançar o mesmo nível técnico. Pensei: eu nunca vou tocar tão bem como esses caras; meu negócio é ficar em casa e fazer as minhas canções.

A literatura sempre teve uma convivência harmoniosa com a música de qualidade. Cito como exemplo nomes como Maiakovski e Carlos Drummond de Andrade que ganharam versões feitas por compositores como Caetano Veloso, João Bosco e Paulo Diniz. O seu interesse pela música se deu a partir desta realidade?

Márcia Barbosa – Sim e não. A música e a literatura surgiram na minha vida simultaneamente, e muito cedo, bem antes de eu aprender a ler. Meu pai, hoje com 83 anos, sempre foi um leitor, gostava de contar histórias e dizer poemas que guardava na memória ou lia em voz alta. Ao mesmo tempo, sempre foi um amante da música. Eu ouvia os sonetos de Camões (que ele ainda sabe de cor) e, também, Piazzolla, Gilberto Gil, Caetano, Chico Buarque, João Bosco, Villa Lobos e os eruditos. Então, a minha convivência com a música e com a literatura vem daí. Na infância e nos anos que se seguiram, o meu interesse pela literatura me aproximava cada vez mais da música e vice-versa, a ponto de eu ter me tornado professora universitária e ter me concentrado, como pesquisadora, no estudo da poesia lírica, um gênero que se caracteriza pela musicalidade.

Tolstói disse “se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”. E esse aspecto, por vezes, evidencia-se em seu trabalho, mesmo havendo uma grande abrangência rítmica em suas produções. Esse aspecto é algo que você busca evidenciar em suas letras ou geralmente é algo que surge no decorrer da composição de modo espontâneo?

Raul Boeira – Talvez Tolstói tenha razão. Mas, para mim, as questões são: o que é uma aldeia? Qual é, afinal, a minha aldeia? É possível, hoje, se delimitar alguma aldeia? Uma aldeia é apenas um território? Eu penso em português, falo em português. Aprendi a tocar e a compor ouvindo Gil, Joyce, Ivan Lins… Eu sou um compositor de música popular brasileira, antes de qualquer coisa. Não sei tocar os ritmos gaúchos, não tenho intimidade com o vocabulário ou com as temáticas. Algumas menções ou expressões, como por exemplo, mate, pago, mundo veio (velho), negrinho do pastoreio, são espontâneas, estão na letra porque cabem na cena que a canção ilustra. Mas há, neste novo disco, duas canções que dizem respeito a questões de ordem cultural, de certo modo polêmicas, localizadas, que estão em discussão há algum tempo no nosso estado. São elas: “Complexo de Épico II” e “Funk a contrapelo”. Nesses dois casos, claro que as canções são fruto de reflexão e posicionamento. A primeira, que, ritmicamente, remete a uma quase milonga, propõe o abandono da visão idealizada (épica) do passado do RS. E é muito interessante o papel do arranjo; ele complementa o texto ao criar uma sonoridade marcial (clarins e tambores), mas sempre atravessada pelo tom melancólico que relativiza e questiona a versão grandiosa dos fatos. A segunda é um funk dançante que contraria uma ideia existente no RS: a de que um certo determinismo geográfico pode ser transferido para o âmbito cultural, a fim de justificar uma espécie de separatismo/isolamento da música feita aqui no sul em relação à MPB.

A primeira faixa de “Cada qual com seu espanto” é uma explícita homenagem ao seu pai, que segundo a letra relata, foi o responsável por leva-la ao universo literário. Neste contexto literário quais tornaram-se as suas maiores influências na hora de escrever as letras para o disco?

Márcia Barbosa – O diálogo com textos literários, que perpassa as letras do disco, não foi planejado; foi aparecendo à medida que eu escrevia, como se as expressões, os versos, as ideias ou imagens tomados emprestados dos autores fossem solicitados pela própria melodia e estivessem ali, à espera de uma recriação, graças à intimidade que fui adquirindo com a literatura e ao repertório que fui construindo, sem perceber, ao longo de muitos anos. Bem, mas os autores que se manifestaram na criação das letras foram, entre outros: Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, Cyro Martins.

“Volume Um”, seu álbum de estreia, você o definiu como “hora da verdade”; Agora, oito anos após esse lançamento, você volta ao mercado fonográfico com “Cada qual com seu espanto”. A expectativa para este segundo lançamento se deu na mesma proporção do primeiro?

Raul Boeira – A minha primeira canção é de 1977. Trinta anos depois, decidi produzir o “Volume Um”, como uma espécie de inventário. Ao definir o repertório, na triagem, consegui eleger as doze que foram para o disco e que considero de um bom nível. Mas, no fundo, percebi que a obra deixava a desejar, especialmente no quesito letra. Fiquei um tanto decepcionado e decidi dar um tempo. Em setembro de 2014, Márcia ouviu umas gravações caseiras que continham muitas composições com melodias perfeitamente acabadas mas sem letras, e propôs que começássemos a escrever por pura diversão. A brincadeira deu tão certo que, em dois meses e meio tínhamos dezessete canções muito boas. Só aí é que passamos a pensar em fazer um disco.

Quando você decidiu começar a compor houve algum tipo de critério adotado para a elaboração das letras?

Márcia Barbosa – Eu escrevi letras para melodias prontas, o que deixou claro para mim, desde o início, que fazer uma letra e fazer um poema (algo a que eu estava acostumada) são processos completamente diferentes. O primeiro critério foi: a melodia e o ritmo é que sugerem as temáticas possíveis, ao instaurarem um clima, uma atmosfera, um sentimento. O segundo critério foi: o número de versos, o tipo de estrofe e a métrica estabelecem alguns limites (o meu conhecimento prévio desses elementos nos estudos de literatura facilitaram as coisas), determinando o que “cabe” no espaço daquela canção. O terceiro critério foi: as palavras e frases precisam soar bem (algumas, ainda que digam o que desejamos, são eliminadas porque não soam bem), o que me levou a decorar a melodia e criar os versos cantando (em voz alta ou mentalmente). Depois disso, cada letra era “testada” pelo Raul, que cantava acompanhado do violão. Nesse momento, nós víamos se o casamento entre a palavra e a música havia se realizado plenamente ou se havia necessidade de modificar alguma passagem, substituir alguma palavra.

Quais as características que você destacaria deste lançamento em relação ao primeiro disco além de sua parceria com a Márcia Barbosa?

Raul Boeira – No “Volume Um”, há canções feitas durante um período de trinta anos. E o disco foi gravado no decorrer de um ano, com músicos diferentes em cada faixa. Em “Cada qual com seu espanto”, as canções foram feitas em dois meses e as gravações se deram em três semanas. Além disso, gravamos com uma banda só, e alguns convidados. Esses fatores garantiram que o novo trabalho ganhasse em unidade. Esse disco acendeu em nós o desejo de continuarmos fazendo música e, quem sabe, outros discos.

Acho que a pergunta que não quer calar a muitos é a seguinte: Você tomou gosto pela composição? Podemos esperar outras investidas suas nessa área?

Márcia Barbosa – Eu gostei muito de fazer letras e não pretendo parar por aqui. Não apenas o processo individual foi prazeroso, mas também o “trabalho” a dois. Esse processo foi muito interessante e enriquecedor nas letras que fizemos em parceria e nas conversas que tivemos nas diversas etapas da composição: a escolha e a abordagem do tema, a consciência dos limites estabelecidos pela música, os ajustes.

Maiores Informações:

Facebook (Página Oficial) – Raul/Márcia

Serviço:

Cada qual com seu espanto (Raul e Márcia Barbosa)
Preço: R$ 30,00 (Pode ser solicitado pelo facebook ou pelo email raulboeira@gmail.com)

Para aqueles residentes fora de Passo Fundo (RS) o álbum pode ser enviado pelos Correios sendo acrescido ao valor do produto R$ 4,90 (valor da postagem de 1 CD por carta registrada – registro módico). O pagamento pode ser feito mediante depósito ou TED em conta corrente do BB ou do Banrisul.


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RAUL BOEIRA REITERA O SEU TALENTO

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Em parceria com a esposa, o cantor e compositor volta ao mercado fonográfico com “Cada qual com o seu espanto”, disco que rediz o seu vigor autoral e interpretativo.

Lenitivo. Talvez este seja o adjetivo mais apropriado para definir o novo projeto fonográfico de Raul Boeira, cantor e compositor gaúcho que buscou depurar ainda mais o seu talento ao longo dos últimos oito anos. Um hiato assentido por aqueles que ansiosamente aguardavam um novo projeto fonográfico dentro dos moldes do “Volume um”, seu álbum de estreia que somou à época os mais distintos e e sinceros elogios tanto da crítica especializada quanto do público. Enquanto em seu primeiro disco Boeira dividiu a assinatura das composições com parceiros como Alegre Corrêa e Mário Falcão, desta vez o novo projeto tem como cerne a parceria musical do cantor e compositor com Márcia Barbosa, sua esposa, professora-pesquisadora de letras na Universidade de Passo Fundo e que agora, oportunamente, estreia também no contexto fonográfico como compositora imbuída de toda a proposta sonora e estética que adorna o disco.

Trata-se de uma perfeita simbiose que expande-se para além do contexto pessoal e que agora é exposto de modo público para a alegria de todos aqueles que já conheciam Raul Boeira e agora passam a acompanhar a parceria de ambos. Essa união chega como uma espécie de amálgama, que foge do tradicional conceito do regionalismo tão atrelado à música gaúcha para a surpresa de muita gente, e acaba por fazer jus, de modo muito apropriado, ao título que a dupla escolheu para batizar o projeto: “Cada qual com o seu espanto”. Não que a sonoridade que permeia a música da região não se faça presente, mas ela faz-se esteio para uma gama de gêneros que a musicalidade do artista em questão abarca nas treze faixas que fazem parte deste projeto que busca ir de encontro a uma ideia existente no RS: a de que um certo determinismo geográfico pode ser transferido para o âmbito cultural.

Raul, que foi influenciado por nomes como Jimi Hendrix, The Beatles, Pink Floid, Milton Nascimento, Chico Buarque, Ivan Lins, Gilberto Gil entre outros grandes artistas da música, soube apreender aquilo que letras e melodias se propunham a partir dessas e outras grandes referências. Vale salientar que essas influências foram fundamentais para fazer com que a musicalidade do compositor destoasse da tradicional música produzida no Rio Grande do Sul, fazendo com que o seu trabalho fuja das delimitações geográficas de sua região, como é possível observar em toda a extensão do disco a partir de faixas que trazem para o seu universo sonoro, por exemplo, a batida do funk. É uma música que vai de encontro aos conceitos que determinam delimitações geográficas para as expressões culturais em suas mais variadas formas como afirma o próprio Boeira: “Não aceito o convite de me engajar à estética do frio”.

Desse modo, e se auto definindo um músico amador, o cantor e compositor passeia com muita propriedade entre os mais variados nuances dos distintos gêneros que constituem o seu modo de compor. São melodias substanciadas pelo samba (e seus mais variados desdobramentos), toadas, frevos, milongas e até mesmo o funk (como já citado); formando de modo coerente a unidade que faz da obra do artista gaúcho um diferencial dentro da música do seu estado como já foi identificado, por exemplo, pelo músico austríaco Joe Zawinul, que em seu álbum Zawinul 75th (detentor do Grammy 2010 de melhor álbum de jazz contemporâneo) registrou o samba “Clariô” (uma parceria de Boeira com Alegre Corrêa). Avesso à carreira musical, Raul prefere suar bicas no esmerado ofício da composição à estar sobre um palco: “Não gosto de palco. Padeço de uma certa “tecnofobia”… não gosto de coisas ligadas perto de mim, equipamentos, cabos… sou desplugado total, 100% acústico”, costuma dizer.

Composto por treze faixas o disco apresenta letras substanciadas pelos mais distintos temas, sentimentos e sensações, a exemplo de “Iniciação”, uma emotiva homenagem ao Ruy Barbosa, pai de Márcia, responsável maior por despertar na compositora o gosto pela literatura como fez questão de enfatizar nos versos finais da composição: “E antes mesmo que eu soubesse / o que é literatura / o mestre Ruy me iniciava / nos passos dessa aventura…”; Há também a abordagem aos mais distintos temas, a exemplo de “Povaréu”, canção cujo o tom é dado pela celebração da pluralidade e das diferenças em detrimento ao preconceito e a intolerância infelizmente ainda tão em voga em nossa sociedade. A preservação do meio ambiente vem através da faixa “Meu rio”, samba-canção impregnado de figuras de linguagem que aguça o senso crítico do ouvinte a partir de uma letra carregada de ironia e sarcasmo.

Temas comuns aos grandes centros urbanos também são abordados em faixas como “A cidade sumiu” (que denuncia a poluição visual descontrolada) e “Aos que chegam”, uma saudação em forma de frevo aos imigrantes e refugiados que buscam tentar a sorte em outros centros urbanos afim de uma vida sem maiores atropelos. Já “Vamos” e “Meio aéreo” tratam-se de duas baladas funk, a primeira descreve a parceria na vida e na música entre os autores e a segunda celebra o fazer música como forma de seguir brincando ao longo da vida. O disco segue com “No fundo do topo”, que inspirado na obra “A euforia perpétua”, do francês Pascal Bruckner, discute o modo como as pessoas se tornam reféns da vaidade e da busca pelo sucesso a qualquer preço. O disco ainda traz as faixas “Ventos”, “Na pausa”(que endossa toda a leveza presente no disco) e “Complexo de épico II”, uma canção melodicamente estruturada a partir de incursões pelo universo milongueiro e marcial (com direito a clarins e tambores) e uma letra que propõe o abandono da visão épica do passado do RS.

“Uma crítica a essa idealização que, de certa forma, nos aprisiona, encobre o que é o nosso estado. É a canção em que mais me utilizo daquilo que minha formação em literatura me proporciona” como observa a autora. Por fim o disco ainda conta com “O poema dentro da casca”, bossa que traz Celso Fonseca ao violão e nos vocais.

A exemplo do seu álbum de estreia, “Cada um com o seu espanto” foi gravado no Rio de Janeiro e tem novamente Dudu Trentin como responsável pela direção musical. A respeito desta parceria (que antecede a incursão do cantor e compositor pelo universo fonográfico) Dudu conta que, ao contrário do Volume Um, gravado de maneira fragmentada por vários instrumentistas, num processo de mais de um ano, este novo projeto (que segue a linha mais clássica da Música Popular Brasileira) foi registrado em apenas dez dias e traz uma única banda base em todo o repertório. No rol de músicos que dão vazão a abrangente e coesa sonoridade deste projeto, conceituados musicistas que vem nas últimas décadas corroborando de modo resistente para a história da música popular brasileira de qualidade a exemplo de Jurim Moreira(bateria), Celso Fonseca (violão e voz), Jessé Sadoc (flugelhorn), Bruno Santos (trompete),Marcelo Martins (sax tenor), André Vaconcellos (baixo), Ian Moreira (percussão), Eduardo Farias (pianos, teclados e arranjos) e Marco Vasconcellos (violões, guitarra e arranjos).

Trabalhos como “Cada qual com o seu espanto”, faz o malfadado cenário musical brasileiro revigorar-se, nos levando a crer que nem tudo existente na atual música popular brasileira é escasso de qualidade ou tem por finalidade o que muito tem se apregoado no contexto musical atual: uma espécie de alienação que não lança um olhar crítico a nossa sociedade. Ainda bem que quando quase estava convencido de que o Volume Um seria volume único, o destino conspirou a favor da arte e fez com que os caminhos de Raul Boeira cruzasse com os de Márcia Barbosa, e dessa comunhão surgisse este projeto fonográfico. Nada de rebenque, bombacha, guaiaca, lenço ou tirador quando se há todo um ecletismo a ser explorado dentro da música popular brasileira como eles foram capazes de enxergar. Para quem impressionou-se com a qualidade musical presente no “Volume Um” de fato não há de se espantar com este novo álbum que traz em seu bojo características que o destaca. Pérola para poucos, “Cada qual com o seu espanto” endossa ainda mais (e de modo veemente) um jargão pra lá de conhecido dentro da música popular brasileira: “Toca Raul!”

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Facebook (Página Oficial) – Raul Boeira e Márcia Barbosa

Serviço:
Cada qual com seu espanto (Letras de Raul e Márcia Barbosa)
Preço: R$ 30,00 (Pode ser solicitado pelo Facebook ou pelo email raulboeira@gmail.com). Para aqueles residentes fora de Passo Fundo (RS) o álbum pode ser enviado pelos Correios sendo acrescido ao valor do produto R$ 4,90 (valor da postagem de 1 cd por carta registrada – registro módico). O pagamento pode ser feito mediante depósito ou TED em conta corrente do BB ou do Banrisul.


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Célia Villela ajudou a difundir o rock no Brasil

Hoje quero pedir licença aos amigos leitores para trazer nesta coluna o nome de uma das precursoras do rock no Brasil. De carreira efêmera, Célia da Conceição Villela nasceu em 24/11/1936, em Belo Horizonte (MG) e chegou a gravar alguns discos em 78 RPM e outros raros LP’s entre as décadas de 1950 e 1960, quando decidiu afastar-se da vida artística. Em sua biografia consta que Célia iniciou a sua carreira aos quatro anos de idade, quando foi levada por sua mãe a um programa infantil das Emissoras Associadas de Belo Horizonte. Essa sua participação no programa agradou tanto que passou a ser atração fixa do mesmo, com a aprovação dos pais até se tornar profissional por volta do ano de 1947, quando tinha 10 anos, ganhando 50 cruzeiros por apresentação.

No início de sua adolescência, a moda musical em evidência na época era o baião (ritmo este que tinha como seu maior representante o cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga). Seguindo essa tendência, em 1950, aos 13 anos, Célia Villela foi eleita a Rainha do Baião de Minas Gerais, e passou a ter seu programa próprio na Radio Guarani de Belo Horizonte, que se chamava “Aí Vem o Baião”, irradiado das 20:00 hs às 20:30 hs. A partir dos anos de 1950 deu início aos seus registros fonográficos. Antes do primeiro registro foi contratada pela Radio Tupi do Rio de Janeiro na mesma época em que estava iniciando o curso científico. Tal condição a obrigou a mudar-se para a então capital federal (acompanhada pela mãe) afim de dar continuidade à carreira artística. Nessa época o seu salário girava em torno de 3.500 cruzeiros mensais e ela, vendo que precisava ganhar mais, aceitou um convite de Carlos Machado, o grande empresário do teatro burlesco, para ingressar no seu elenco. Tinha então quase 15 anos, mas aumentou a idade nos documentos para 18 anos e conseguiu que seu pai lhe concedesse a emancipação.

Gravou seu primeiro disco, em 78 rpm, em 1955, pelo pequeno selo Santa Anita (selo responsável pelo lançamento do LP “O tal”, primeiro long play na carreira do saudoso Moreira da Silva). Nesta primeira oportunidade de registrar em disco a sua voz gravou os baiões “Minas Gerais”, de Elias Salomé, e “Noivado do Paulinho”, de Castro Perret e Armando Roberto. Em seguida, gravou as marchas “Baile dos casados”, de autor desconhecido, e “Tô com o diabo no corpo”, de Waldir Machado e Rômulo Paes. Posteriormente foi contratada pela gravadora Todamérica, por onde gravou em 1956, o fox-trot “O resto eu faço”, de Wilson Batista e Antônio Nássara, e o samba “Hermengarda”, de Alberto Ribeiro. Ainda ao longo dos anos de 1950 gravou o choro “Menosprezando”, de Paulo Aguiar, e o samba “Félix Fidélis”, de Alberto Ribeiro e Radamés Gnattali.

Ao longo de sua carreira ainda teve uma efêmera passagem em boites cariocas como a Beguin, night-club existente no Hotel Glória, onde ganhava em torno de 7.000 cruzeiros. Ao lado de Carlos Machado teve a oportunidade de atuarem boates no Brasil e no Exterior a partir de excursões diversas, dentre elas para lugares como San Juan, Curaçao, Caracas e Puerto Rico; E países como os EUA, Uruguai, Argentina e até em Cuba, onde trabalhou muito tempo. Em uma dessas excursões, no Hotel Tamanaco de Caracas, a maior parte do elenco feminino ficou gripada e Célia Villela, além de seus papéis, teve que fazer o das outras. O trabalho exaustivo prejudicou sua saúde e em San Juan de Puerto Rico ficou uma semana acamada, com pneumonia, fato este que repetiu-se tempos depois e a fez abandonar as apresentações em boates. Antenada com novas tendências musicais, após sua passagem por Puerto Rico, trouxe um novo ritmo que começava a fazer sucesso por lá e que se chamava cha-cha-cha. Quis gravar o cha-cha-cha mas ninguém lhe deu ouvidos.

E por fim, a partir dos anos de 1960 (quando foi contratada pela gravadora RGE) começou a mudar seu repertório, enveredando então pelo nascente rock and roll gravando diversas canções, dentre as quais, “Conversa ao telefone” (versão de “Pillow talk”), “Trem do amor” (versão de “One way ticket to the blues”), “Passo a passo” (Step by step), “Quando o amor vem” (In between teen), dentre outras versões. Entre os autores de suas gravações há nomes como José Messias, Fred Jorge, Erasmo Carlos, Miguel Gustavo e ninguém menos que o Rei Roberto Carlos, que assinou a composição “Acho que me apaixonei”, parceria sua com Édson Ribeiro. Nessa mesma década ainda chegou a ser contratada pelas gravadoras RCA Victor e Musidisc e, no auge de seu sucesso, apresentou o programa de TV “Célia, Música e Juventude” na TV Continental do Rio de Janeiro. Dirigiu ainda os programas de rádio “Na roda do rock” pela Rádio Globo, e, posteriormente, na Rádio Guanabara. Pouco depois, casou-se com o guitarrista e líder do conjunto The Angels, Carlos Becker e abandonou a carreira artística.

Deixo aos amigos leitores duas canções da saudosa cantora falecida em 2005. A primeira trata-se de “Viu, foi pior”, gravada por volta de 1965 e de autoria da dupla Orlandivo e Roberto Jorge:

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A segunda faixa trata-se da canção “Passo a passo” (Step By Step), canção de autoria de Ollie Jones e Billy Dawn Smith. Aqui trata-se de uma versão composta por Fred Jorge. Esta faixa também foi gravada pelo grupo americano The Crests:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Em quase quatro décadas de carreira, cantor Nuno Roland foi grandes de sua época

Reinold Correia de Oliveira, que ficou conhecido nacionalmente por Nuno Roland, é considerado por muitos como um dos grandes cantores da época de ouro da música popular brasileira. Não é pouco se levarmos em consideração que em tal período estavam também em atividade nomes como Carlos Galhardo, Orlando Siva, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Nascido em Joinville, município localizado a cerca de 180 quilômetros da capital de Santa Catarina, Reinold iniciou a sua carreira artística em Porto Alegre, capital do estado vizinho. Costumava dizer que o pontapé inicial de sua carreira se deu quando apresentou-se, ao lado da Jazz Band do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, em uma emissora radiofônica da capital gaúcha e teve a oportunidade de se destacar como cantor.

Em uma época em que assinar contrato com uma rádio representava um significativo passo na carreira de um artista, ainda com o nome de Reinold de Oliveira, Nuno assinou o seu primeiro com apenas 19 anos. Ainda no início da década de 1930, passou a se apresentar como cantor profissional em um cassino situado na cidade de Passo Fundo, município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul. É válido registrar que ao longo deste período em que esteve residindo no Rio Grande do Sul, Nuno (ou melhor, Reinold de Oliveira, pois o nome artístico com o qual ficou conhecido em todo o território nacional só viria após a sua saída do Rio Grande) teve a oportunidade de conhecer o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, de quem acabou tornando-se amigo.

Por volta de 1934 o cantor e compositor Reinold de Oliveira resolve ir ao Sudeste, mais precisamente para São Paulo, objetivando a sedimentação de sua carreira junto aos grandes nomes da música popular existente na época. De início, apresentou-se na Rádio Record (sempre atuando na base de cachês). Nesse período tem a oportunidade de conhecer a turma do Regional do Garoto, que o levou para a Rádio Educadora Paulista, onde teve a oportunidade de ter o seu primeiro contrato assinado. Sua passagem pela capital paulista foi de aproximadamente dois anos e, foi na então “terra da garoa” (como a cidade é carinhosamente chamada por muitos), que Reinold adotou o nome artístico de Nuno Roland (por sugestão do diretor artístico da Rádio Educadora Paulista).

Foi ainda em São Paulo que teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico, pela então gravadora Odeon. No 78 RPM estavam presentes a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê”. Na capital paulista o intérprete alcançou relativo sucesso, e pensando em alcançar um status ainda maior, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. Já como Nuno, em 1936, muda-se para a então Capital Federal, e lá assina contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração da emissora em 12 de setembro daquele ano. Suas primeiras gravações no Rio de Janeiro aconteceram na Columbia em dois discos. Neles estavam presentes o samba-choro “Coitadinho do pachá”, “Morena do samba”, a valsa “Enquanto o luar está contente” e “Não posso te dizer adeus”. Ainda na década de 1930 gravou canções como os sambas “Amor por correspondência”, de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, “Seja o que Deus quiser”, de Mário Morais e Vadico, a marcha “Mulher fatal”, de Antenógenes Silva e Osvaldo Santiago, a marcha “Guarda essa arma!”, de Ataulfo Alves e Roberto Martins e a valsa “Iracema”, de Bendito Lacerda e Aldo Cabral. Sem contar que tornou-se crooner da Orquestra do Copacabana Palace Hotel, onde atuou por 11 anos.

Para deleite dos amigos leitores duas canções. A primeira a valsa “Mil corações”, da lavra dos compositores Ataúlfo Alves e Jorge Faraj e registrada por Nuno em 1938:

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A segunda canção trata-se de “Perdão, meu bem”, registro de 1939 e de autoria de Armando Marçal-Alcebíades Barcellos:

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E TUDO O MAIS QUE HÁ DE LIRISMO, POESIA E CANDURA

xico

Em projeto pautado na delicadeza, o compositor Xico Bizerra reitera o seu vigor autoral e volta ao mercado fonográfico em álbum duplo

Em 2013 Xico Bizerra lança “Luar Agreste no Céu Cariri”, projeto imbuído de comoção devido ao estado de saúde em que se encontrava o responsável maior por aquela façanha: Dominguinhos. Responsável por onze das doze melodias existentes no décimo disco da série Forroboxote, o saudoso músico garanhuense passava naquele momento por complicações em seu estado de saúde que infelizmente resultaram em sua prematura partida, marcando “Luar Agreste no Céu Cariri” como seu último projeto fonográfico. Agora, após um hiato de três anos, o compositor cearense (e cidadão recifense) Bizerra volta ao mercado apresentando o álbum duplo “Valsas, canções e tudo o mais que há”, disco que reitera sua verve cancioneira e poética e o faz ser um dos mais representativos compositores da atualidade.

Para falar sobre “Valsas, canções e tudo o mais que há” faz-se necessário tempo. Não aquele tempo que se desdobra conforme a teoria de Jean Pierre Garnier fundamentado em leis da física, mas o tempo da delicadeza (como bem dito pelo poeta) capaz de nos fazer entender que o amor amadurece e mostra-se passivo de modificações sem perder o prumo ou esvair-se. Aquele tempo capaz de nos fazer perceber que o amor é semente, e que esta semente quando jogada em terra fértil mostra-se apta a gerar distintos frutos e raízes a partir das mais variadas veredas, onde faz-se possível o surgimento de substantivos e adjetivos delimitados apenas em seu sentido etimológico, pois no campo das sensações não há como se mensurar. Essa afirmação mostra-se verdadeira a partir dos registros fotográficos capitados pela esposa do compositor, Duce Bezerra, a partir de imagens substanciadas pela mesma candura no que tange também às canções.

Dividido em “O mais íntimo de mim” e “Um amor maior que imenso”, “Valsas, canções e tudo o mais que há” é composto por 30 faixas que como o próprio título sugere, nos induz aos mais variados gêneros musicais a partir de distintos intérpretes que somados chegam ao número de trinta e cinco. São discos pautados em uma proposta estética que busca ter por cerne aquilo que há de mais simplório como o próprio compositor enfatiza: “Ele é uma tentativa de realizar meu sonho de fazer um disco com músicas em que fossem suprimidos os acordes sinuosos, as firulas superficiais, os eletrônicos dispensáveis, os arranjos suntuosos e as máquinas afinadoras milagrosas. Quis tirar, com isso, a roupa da canção, despi-la, e deixá-la assim exposta, quase nua, sem adornos desnecessários”. A abrangência atribuída aos gêneros musicais presentes no disco estende-se também aos intérpretes que vão desde nomes de projeção nacional como Alaíde Costa (“Estrada longa”), Dominguinhos (“Musa”), Socorro Lira (“Bisbilhotice”),Elba Ramalho (“Cria (Canção de ninar a vida que vem)”), Flávia Bittencourt (“Casinha de Gravatá“). Os discos ainda contam com nomes comoo da fadista Rosa Madeira (“Romance do senhor fado com a moça canção do Pajeú“), Irah Caldeira e Geraldo Maia (em duo na faixa “Eternamente nós“), Marcos Lessa (“Todo amor que há“), Paulo Matricó (“Casa da lua menina“), Maria Dapaz (“Teus olhos nos meus“), Almério (“Quase silêncio“), Gabi Buarque (“Tecelã”) entre outros.

Ao lado de Xico, quem assina as canções presente nos álbuns são nomes como Chico César, Dominguinhos, Maria Dapaz (doze faixas), Ananias Júnior, Bráulio Medeiros, Luciano Magno, Beto Hortis, Carlos Villela, Juliano Holanda, Adalberto Cavalcanti, Leninho de Bodocó, Socorro Lira, Rosaura Muniz e Gennaro.

Responsáveis pelos adornos sonoros do projeto nomes como Dominguinhos (acordeon), Spok (sax), Juliano Holanda, Fred Andrade e Luciano Magno (arranjos, viola e violões), Rostan Junior, Elvis Alexandre, Tadeu Junior e Renato Nogueira (percussões), Quarteto de cordas Encore (Fabiano Menezes, Emmanuel de Carvalho, Nilzete Galvão, Rafaela Fonseca e Carlos Santos), Sandro Haick (violões, arranjos e piano), Mozart Ramos (flauta), Neném (zabumba, triângulo e agogô), Lucas Crasto (baixo e vocais), Beto Hortis e Gennaro (arranjos), Alex Sobreira (violão de sete cordas), Romero Medeiros e George Aragão (arranjos e pianos), Fabinho Costa (flugel), Wálter Areia (baixo), Maurício Cezar (arranjos, pandeiro, ganzá e piano), Cláudio Almeida (violão), Luizinho (acordeom), Vanutti Macedo (arranjo, violão, piano e moringa), Carlos Ferrera (arranjo de voz e vocais), Rafael Marques (bandolim), Bráulio Araújo (baixo), Guto Santana (gaita), Claudinho Tomé (arranjo, acordeom e piano), Claudeir Tomé (violão, baixo e guitarra), Jeferson Cupertino (baixo acústico), Júlio César Mendes (acordeom), Apolo Natureza (violões), Daniel Coimbra (cavaco), Guilherme Eira (violão), entre outros.

E assim, com a anuência de grandes parceiros, intérpretes e musicistas, Xico reafirma seu talento e vem escrevendo a sua história dentro da música popular brasileira sempre pautada na sensibilidade em seu grau mais elevado a partir de canções que, além de destacá-lo como um dos mais representativos compositores nordestino da atualidade, nos faz atinar que mesmo no tresloucado tempo no qual vivemos sempre é possível nos ater às minuciosas doçuras existentes na vida independente dos substantivos aos quais vamos somando a nossa história. Astuto, Xico traz consigo o clínico olhar de quem consegue observar nestes pequenos detalhes as mais simplórias sutilezas fazendo das mesmas uma espécie de força-motriz capaz de nos transcender para um estado de poesia como é possível perceber de modo cada vez mais recorrente em sua obra, Se sua condição de avô chega como esteio maior para essa inspiração. O amor é isso. É ser simples, é ser pai, é ver sua história ser acompanhada por outros pés, é ter o aconchego daqueles que a pouco chegaram, mas já se fazem imprescindíveis para nós.

É tudo uma questão de ponto de vista, como bem frisa as imagens que ilustram o encarte do álbum. São imagens que se esforçam para traduzir o mais intimo de compositor com aquele que ele define como amor maior que imenso, que e o seu neto Bernardo. Sem contar as canções presentes em “Valsas, canções e tudo o mais que há”, que longe de ser uma vã tentativa, consegue transpor para as pautas musicais o olhar de um compositor em consonância com o lirismo, a poesia e toda a candura que o projeto requer. Por isso, antes de emitir qualquer opinião acerca deste novo disco faz-se preciso aguardar a emoção decantar para só depois expressar qualquer opinião a respeito de “Valsas, canções e tudo o mais que há”, um disco que mostrou-se capaz de atender, do modo mais abrangente possível, ao propósito do seu idealizador: fazer com que o disco possa ser apreciado pelo coração e seus acordes sejam entendidos pela alma.

Para que o público do JBF tome conhecimento deste primoroso trabalho segue abaixo uma das faixas presentes no disco intitulada “Musa”, composição de Xico em parceria com Gennaro:

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Maiores Informações:
Site Oficial – Forroboxote 
Passadisco – Passadisco 


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UM POUCO DO REMENDO DO NOVO ÁLBUM DE RENATO BARUSHI

Sob a égide de quatro artísticas plásticos e a participação especial de um músico portenho, o músico mineiro chega ao seu segundo álbum

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Intitulado “Remendos”, o segundo projeto fonográfico do cantor, compositor e instrumentista cataguasense Renato Barushi aproxima-se da data do seu lançamento oficial. O sucessor de “Renato e o mercado” faz jus ao seu título ao trazer em sua concepção distintos olhares que acabam por formar uma coerente unidade como já sé possível observar a partir de um projeto gráfico que apresenta alguns artistas plásticos e seus respectivos modos de observar o trabalho elaborado pelo músico mineiro. São quatro nomes que, segundo o próprio Renato, procuram expor a partir de técnicas distintas suas respectivas visões acerca da representação do álbum. A capa (que pode ser vista a partir da imagem acima) é assinada por Fabiano Banna, enquanto o encarte e as demais artes ficam a cargo de nomes como Leandro Silveira, Renatta Barbosa e Emerson Morais. Como afirma Barushi: “O disco é um pedaço de si doado por cada artista em sua concepção”.

Com dez canções autorais (oito em parceria com o Robson Pitchier e duas solo), “Remendos” procura também fazer jus ao título a partir de uma sonoridade aglutinadora quando apresenta na concepção de suas faixas os mais diferentes afluentes que vem, ao longo dos anos, desaguando na verve do artista desde o início de sua carreira como vocalista, instrumentista e compositor junto a banda ”Machinari”. É possível afirmar isso a partir da ficha técnica do álbum, que conta com antigos companheiros musicais do início da carreira até novas e entrosadas parcerias como é o caso da intérprete Angélica Diniz, da doguitarrista argentino Daniel Sanmartin. Ao lado da Banda Maitá é possível afirmar que Renato Barushi, quatro anos depois, ampliou toda a heterogeneidade melódica registrada naquele “mercado” que o fez reconhecido pela crítica especializada ao ser pré-selecionado para o Prêmio da Música Brasileira à época do lançamento e o hoje o coloca como um dos ascendentes nomes da atual música mineira.


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RELEMBRANDO DIL MELO

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Autora do hino do Maranhão, Dilu como compositora teve inúmeros intérpretes

De uns dias para cá tenho procurado dar uma ênfase maior a alguns artistas que em dado momento foram representativos para a nossa cultura, mas que hoje praticamente caíram no limbo do esquecimento. Em um primeiro momento procurei trazer alguns intérpretes do gênero masculino que tiveram a sua ascensão maior na chamada época de ouro de nossa música, período este que abrange os anos de 1930 e 1940. No entanto seria absurdo limitar-me apenas em intérpretes masculino, uma vez que temos no rol dos maiores nomes de nossa música uma infinidade de cantoras que surgiram também nesse período de ouro da MPB. Por isso hoje darei início a abordagem de algumas cantoras que deixaram seu legado na histórias da música brasileira a partir não apenas de exímias interpretações, mas também através de histórias interessantes como algumas que venho registrando nesta coluna.

Para dar início a abordagem de nossas artistas, trago um nome que é bem provável que poucas pessoas saibam de fato quem ela foi (e se me referir a ela pelo nome de batismo menos ainda…). Trata-se de Maria de Lourdes Argollo Oliver, ou simplesmente Dilú Mello, artista maranhense que começou a estudar música e violino quando ainda tinha cerca de cinco anos de idade. Pouco tempo depois deu início aos estudos também do violão com sua mãe D. Nenê e de piano com Elizéne D’Ambrósio. Familiarizada com os instrumentos, não foi difícil entre seus experimentalismos fazer a sua primeira composição quando ainda tinha dez anos. O resultado dessa experiência foi uma dolente valsinha, a primeira composição de muitas que viriam posteriormente. Vale também registrar que aos 13 anos tirou diploma no Conservatório de Música de Porto Alegre, recebendo medalha de ouro pela impressionante técnica demonstrada em tão pouca idade. Por falar em técnica e talento vale deixar registrado que após realizar um concerto no Teatro Colon, na Argentina, recebeu um prêmio do governo argentino para viajar por todo o país divulgando seu talento e o de Angelito Martinez, à época um precoce e promissor pianista.

Um fato curioso de sua carreira é que apesar do promissor futuro que poderia ter na música clássica, aos terminar seus estudos de canto lírico resolveu abandoná-la para dar vazão à sua paixão pela música dos tropeiros do sul. Foi neste período que a artista passou a dedicar-se a música regional gaúcha e de países vizinhos. Nesse período a família muda-se para Rio de Janeiro, então capital federal. Em um sarau foi ouvida cantando e tocando violão pelo maestro Martinez, que impressionou-se com o seu talento e a levou para tocar na Rádio Cruzeiro do Sul. Foi aí então que teve início a sua carreira radiofônica a partir de apresentações a exemplo das Rádios Kosmos (São Paulo) e Rádio Nacional (com a qual tinha contrato). Seu primeiro disco veio em 1938 com as faixas “Engenho d’água” (“Cena brasileira”, de sua autoria e Santos Meira e “Coco babaçu”, também de sua autoria), fato que só viria a ocorrer seis anos depois, quando em 1944, gravou seu segundo disco, acompanhada de Antenógenes Silva ao acordeom. Nesta década ainda registra canções como o xote “Planta milho”, o calango “Cesário”, o coco “Sapo cururu”, a valsa “Lá na serra”, o xote “Fiz a cama na varanda” (canção esta que acabaria ganhando o gosto popular ao longo dos anos a partir de interpretações de nomes como Inezita Barroso, Dóris Monteiro, Nara Leão entre outros).

Dona de múltiplos talentos, atuou no Cassino Atlântico, realizou a gravação dos mais variados gêneros musicais, tocou acordeom (recebendo da imprensa inclusive da a denominação de “Rainha do Acordeom”) e compôs canções ao longo de décadas de carreira que viria a ganhar as mais distintas vozes ao longo dos anos a exemplo do Hino do Maranhão.

Como de praxe ficam aqui duas canções para deleite do público leitor. A primeira trata-se do xote “Qual o valor da sanfona”, de autoria da própria Dilu em parceria com J. Portella. Segundo informações esta gravação foi feita no dia 31 de julho de 1948, porém só lançada em março-abril do ano seguinte:

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A segunda canção vem a ser “Fiz a cama na varanda”, clássico xote de sua lavra. Com acompanhamento do Conjunto Tocantins a canção foi lançada em abril de 1943:

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RELEMBRANDO NUNO ROLAND

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Em quase quatro décadas de carreira, cantor foi grandes de sua época

Reinold Correia de Oliveira, que ficou conhecido nacionalmente por Nuno Roland, é considerado por muitos como um dos grandes cantores da época de ouro da música popular brasileira. Não é pouco se levarmos em consideração que em tal período estavam também em atividade nomes como Carlos Galhardo, Orlando Siva, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Nascido em Joinville, município localizado a cerca de 180 quilômetros da capital de Santa Catarina, Reinold iniciou a sua carreira artística em Porto Alegre, capital do estado vizinho. Costumava dizer que o pontapé inicial de sua carreira se deu quando apresentou-se, ao lado da Jazz Band do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, em uma emissora radiofônica da capital gaúcha e teve a oportunidade de se destacar como cantor.

Em uma época em que assinar contrato com uma rádio representava um significativo passo na carreira de um artista, ainda com o nome de Reinold de Oliveira, Nuno assinou o seu primeiro com apenas 19 anos. Ainda no início da década de 1930, passou a se apresentar como cantor profissional em um cassino situado na cidade de Passo Fundo, município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul. É válido registrar que ao longo deste período em que esteve residindo no Rio Grande do Sul, Nuno (ou melhor, Reinold de Oliveira, pois o nome artístico com o qual ficou conhecido em todo o território nacional só viria após a sua saída do Rio Grande) teve a oportunidade de conhecer o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, de quem acabou tornando-se amigo.

Por volta de 1934 o cantor e compositor Reinold de Oliveira resolve ir ao Sudeste, mais precisamente para São Paulo, objetivando a sedimentação de sua carreira junto aos grandes nomes da música popular existente na época. De início, apresentou-se na Rádio Record (sempre atuando na base de cachês). Nesse período tem a oportunidade de conhecer a turma do Regional do Garoto, que o levou para a Rádio Educadora Paulista, onde teve a oportunidade de ter o seu primeiro contrato assinado. Sua passagem pela capital paulista foi de aproximadamente dois anos e, foi na então “terra da garoa” (como a cidade é carinhosamente chamada por muitos), que Reinold adotou o nome artístico de Nuno Roland (por sugestão do diretor artístico da Rádio Educadora Paulista). Foi ainda em São Paulo que teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico, pela então gravadora Odeon. No 78 RPM estavam presentes a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê“.

Na capital paulista o intérprete alcançou relativo sucesso, e pensando em alcançar um status ainda maior, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. Já como Nuno, em 1936, muda-se para a então Capital Federal, e lá assina contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração da emissora em 12 de setembro daquele ano. Suas primeiras gravações no Rio de Janeiro aconteceram na Columbia em dois discos. Neles estavam presentes o samba-choro “Coitadinho do pachá“, “Morena do samba“, a valsa “Enquanto o luar está contente” e “Não posso te dizer adeus“. Ainda na década de 1930 gravou canções como os sambas “Amor por correspondência“, de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, “Seja o que Deus quiser“, de Mário Morais e Vadico, a marcha “Mulher fatal“, de Antenógenes Silva e Osvaldo Santiago, a marcha “Guarda essa arma!“, de Ataulfo Alves e Roberto Martins e a valsa “Iracema“, de Bendito Lacerda e Aldo Cabral. Sem contar que tornou-se crooner da Orquestra do Copacabana Palace Hotel, onde atuou por 11 anos.

Ficam aqui duas canções registradas pelo intérprete na década de 1930, mais precisamente em 1938. A primeira trata-se de “Covardia“, canção de autoria de dois ícones do cancioneiro popular brasileiro (Ataulfo Alves e Mário Lago):

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A segunda trata-se da valsa “Mil corações“, canção de autoria também de Ataulfo, só que desta vez em parceria com Jorge Faraj, gravada no dia 28 de março de 1938 e lançada em julho do mesmo ano sob a matriz 5787:

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RELEMBRANDO FRANCISCO EGYDIO

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Em oito décadas de vida, Francisco Egydio foi intérprete de inúmeros sucessos ao longo de sua carreira

Assim como muitos de sua geração, o cantor Francisco Egydio deu início a sua carreira artística a partir das grandes emissoras de rádio existentes em uma época em que a televisão ainda engatinhava em nosso país. No início da década de 1950 assinou contrato com a Rádio Excelcior e logo em seguida fechou também com a gravadora Copacabana, por onde teve a oportunidade de lançar o seu primeiro disco em 1953. Nesta estreia teve a oportunidade de registrar dois sambas: “Rascunho brasileiro”, de autoria de Polera, e, “Sem palavras”, de M. Mores, E. S. Discepolo e Nelson Figueiredo. Esta acompanhada por Alfredo Grossi e Sua Orquestra Típica, aquela com acompanhamento da orquestra de Nozinho. No ano seguinte fez o registro das canções “Espanhola tentação” (uma marcha de autoria de José Roy e Rodrigues Filho) e “Nosso amor morreu” (samba composto por Avaré e Wilson Roberto), sem contar duas canções de autoria de Oscar Gomes Cardim em homenagem ao quarto centenário da cidade de São Paulo: “Terra bandeirante” e “São Paulo das bandeiras”.

A primeira metade da década de 1950 propiciou ao artista diversos registros fonográficos pela gravadora Copacabana tais quais o clássico samba “A Bahia te espera”, de Herivelto Martins e Chianca de Garcia, os sambas “Operária”, de Francisco Ávila, e “A diferença”, de Celso Vilaça, e a marcha “Sombra e água fresca”, de José Roy, Arlindo de Oliveira e Orlando Monello. Na segunda metade da década o cantor transferiu-se para a gravadora Odeon e por lá registrou diversos gêneros musicais tais quais bolero (“Vera Cruz”, de S. Cahn, H. Friedhofer e Ghiaroni), mambo (“Quem será?”, de Beltran Ruiz com versão de Lourival Faissal), partido alto (“Samba de nego”, de Heitor dos Prazeres e Kaumer Teixeira Camelo), sambas (“Joquei clube”, de Antonio Rago e João Pacífico, “Pingo d’ água”, de Beduíno e Conde, “Viva o Santos”, uma homenagem de Júlio Nagib ao Santos Futebol Clube, campeão paulista daquele ano, e “A voz do morro”, de Zé Kéti, no segundo registro desse clássico samb) e marchas (“Se essa nega fosse minha”, de Elzo Augusto e Gentil Castro). Ainda na década de 1950 em parceria com o também cantor Roberto Paiva gravou o LP “Polêmica – Wilson Batista X Noel Rosa – Roberto Paiva e Francisco Egydio” lançado pela Odeon, com capa do caricaturista e compositor Nássara. Nessa briga que resultou em alguns dos maiores clássicos do samba brasileiro, interpretou os sambas “Rapaz folgado”, “Palpite infeliz”, “João Ninguém”, todas de Noel Rosa, além de “Feitiço da Vila”, de Vadico e Noel Rosa.

No início da década seguinte especializou-se em gravações de músicas românticas a partir de registros como os presentes no LP “Creio em ti” e o LP “Francisco Egydio vive os sucessos de Lupicínio Rodrigues”, um tributo (em vida) ao compositor gaúcho no qual interpretou alguns dos clássicos de sua lavra tais quais “Se acaso você chegasse”, “Nervos de aço”, “Nunca”, “Vingança”, “Cadeira vazia”, entre outras. Já da metade da década em diante participou de diversos discos coletivos dedicados ao repertório de carnaval (registrando marchas como “Eu vou ferver”, “Quem bate” , “Vou deixar cair”, “Pra frente”, “Garota moderna”, entre outras) e chegou a gravar um LP no qual predominou versões de músicas estrangeiras de sucesso. Nos anos setenta teve sua voz em trilhas de novelas (“Meu rico português”, da TV Tupi), registrou clássicos como “Risque”, de Ary Barroso, “Caminhemos”, de Herivelto Martins, “A volta do boêmio”, de Adelino Moreira, e “Cinco letras que choram (Adeus)”, de Silvino Neto; participou do LP “Sambas de enredo das Escolas de samba do Grupo 1”, de São Paulo, lançado pela Continental interpretando o samba-enredo “Sonho de um Rei negro”. Vale registrar que Egydio em sua extensa carreira (gravou mais de vinte discos em 78 rpm além de vários LPs pelas gravadoras Odeon, Chantecler e Continental, além de participar de diversas coletâneas) foi o primeiro cantor a receber o o Troféu Imprensa na categoria cantor em uma carreira que conta com registros fonográficos (além dos já citados) de canções como “Pedacinho por pedacinho”, “Adivinhão”, “Sorris”, “É desconfiança”, “Cinco letras”, “Greve de amor”, “Coração de fera”, “Até parece castigo”, “Por um beijo de amor”, entre outras.

Segue aos amigos leitores duas canções na voz do saudoso intérprete. A primeira é uma canção que faz parte do rol dos grandes sucessos de nossa MPB, “Cadeira vazia” de autoria de Lupicínio Rodrigues. Essa e outras canções de autoria do compositor gaúcho podem ser encontradas no álbum Francisco Egydio – Vive Os Sucessos De Lupicinio Rodrigues, gravado em 1962:

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A segunda canção trata-se de uma marchinha carnavalesca que fez enorme sucesso na voz do cantor quando o mesmo a registrou em disco em 1970. “Gelinho (Me Dá Um Gelinho Aí)“, trata-se de uma canção de autoria de Manoel Ferreira e Ruth Amaral:

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RELEMBRANDO… NILTON PAZ

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Intérprete, Nilton em sua primeira gravação estourou no carnaval de 1939

Dando continuidade a preservação da memória de nossa música popular brasileira, hoje trago outro nome que não tenho visto com a notoriedade que merecia. Trata-se do cantor Nilton Paz, que deu início à sua carreira fonográfica no finalzinho da década de 1930, quando aos vinte anos registrou a canção “Pirolito”, uma marcha de autoria do saudoso João de Barro (Braguinha) e do cantor e compositor carioca Alberto Ribeiro. Tal registro fonográfico ocorreu no início de janeiro (bem em cima da folia de momo) e foi lançada praticamente às vésperas do carnaval pela Columbia (disco 55013-A, matriz 120) e mesmo havendo esse lançamento as vésperas do carnaval, a canção acabou tornando-se uma das campeãs da festividade daquele ano. Esse enorme sucesso fez a composição atravessar diversas décadas no gosto popular (tanto que até os dias atuais é lembrada). Um fato curioso sobre essa gravação é a omissão do nome da cantora Emilinha Borba (que à época, aos dezesseis anos, participava dos vocais de gravações distintas em busca de dar início ao ofício que a consagraria nas décadas seguintes).

Outro registro válido é que tal canção foi feita para o longa-metragem musical “Banana da Terra” (produzido por Wallace Downey com roteiro do autor João de Barro e de Mário Lago, além da direção de Ruy Costa). Este filme além de contar com esse grande sucesso registrado por Nilton também traz diversos outros números musicais nas vozes de alguns dos maiores sucessos da época, tais quais Carlos Galhardo, Dircinha e Linda Batista, Alvarenga, Orlando Silva, entre outros. Ainda é válido o registro de que este longa é responsável por uma das mais emblemáticas parcerias de toda a história de nossa música: o encontro entre Dorival Caymmi e Carmen Miranda, que no filme interpreta a canção “O que é que a baiana tem?”, de autoria do mestre baiano e que entrou no longa em substituição a canção “Boneca de piche”, de autoria de Ary Barroso e Luiz Iglesias. Tal composição, mesmo fora do filme, alcançou grande sucesso com Carmem Miranda e Emilinha Borba.

Depois deste arrebatador sucesso como intérprete, Nilton Paz (então com vinte anos), fez ao longo dos anos posteriores diversos outros registros, tais quais “Quem é essa morena?” (Francisco Malfitano e Frazão), “Que rei sou eu” (Herivelto Martins e Waldemar Ressurreição), o hino “Alegria do nosso Brasil”, e as marchas “Meu Barraco” e “Havaiana”. Vale registrar que paralelo à carreira de intérprete, o artista incursionou também pelo cinema, o que o fez acreditar em uma possível carreira internacional (o que acabou fazendo-o optar por mudar-se para os Estados Unidos afim de dar continuidade a este desejo). Apesar da experiência em películas brasileiras (a exemplo do filme “Pif-Paf”) e a tentativa da Metro Goldwyn Mayer em torná-lo ator, a sua carreira no cinema norte-americano não vingou.

Dentre as curiosidades existente nessa incursão de Nilton Paz pelo cinema, há uma história curiosa sobre o intérprete: Desde a gravação de “Pirolito”, o intérprete começou um flerte com a jovem Emilinha Borba. Nos anos seguintes o flerte acabou por tornar-se um “namorico”. Linda, Emilinha acabou por chamar a atenção do diretor de cinema norte-americano Orson Welles, que estava no país para gravar tomadas do filme “It’s All True”. Neste período, o diretor não arredava pé do Cassino da Urca, e apesar de estar mantendo um caso amoroso com Linda Baptista, não deixava de dar diversas investidas na então “namorada” do Nilton, que não gostou nem um pouco dessa situação. Reza o folclore que cantor brasileiro, incomodado com os bilhetes endereçados a Emilinha, interpela o cineasta de 2 metros de altura, que auto denominando-se “Rei do Café”, dizendo-lhe que se ele, Orson Welles, era o “Rei do Café”, então, ele, Nilton Paz era o “Rei das Porradas”. O recado foi muito bem apreendido por Welles pelos relatos da época.

Ficam aqui dois registros do saudoso cantor. A primeira trata-se de “Pirolito”, a sua primeira gravação já citada ao longo do texto:

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Já a segunda vem a ser “Quem ver cara”, uma composição de Francisco Malfitano e Erastótenes Frazão com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto. Assim como a canção anterior, esta também foi lançada em 1939:

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RELEMBRANDO MAURICY MOURA

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Nascido em São Vicente-SP, se vivo o intérprete estaria completando 90 anos em janeiro passado

Hoje estava a passear pelas redes sociais e me deparei com um álbum do saudoso Mauricy Moura, cantor que se vivo estivesse estaria completando nove décadas de existência ao longo deste ano. Então resolvi trazer ao longo deste mês nomes da nossa música que não merecem estar no ostracismo que hoje se encontram. Selecionei, dente tantos, quatro nomes para abordar ao longo deste mês que tiveram seus momentos de ascensão dentro do nosso cancioneiro e hoje infelizmente são lembrados apenas pelos saudosistas como eu, que procuro garimpar materiais e nomes que, de um modo ou de outro, caíram no limbo do esquecimento (característica infelizmente tão constante em nosso país).

Mas, vamos ao que de fato interessa: rememorar a boa música e os grandes intérpretes do nosso país. Como primeiro nome série de saudosos e esquecidos cantores relembro o nome deste intérprete paulista que que começou a carreira participando de distintos programas de rádio (a exemplo do “Programa de Dª. Dindinha Sinhá”, na Rádio Atlântica, de Santos, e teve, ainda na infância, como sua primeira grande incentivadora a própria mãe, que segundo dizem possuía profundos conhecimentos da arte vocal. Essa característica que fazia parte de sua mãe talvez tenha corroborado de modo significativo para que ela estimulasse Mauricy a participar, juntamente ao irmão Maurício, do Conjunto Calunga (Tal grupo, além dos irmãos Moura, era formado por Gentil da Silva, Edésio Resende e Jarina Resende, depois substituídos por Avelino Tomaz e Rachel Tomaz). Foi a partir da experiência neste grupo que profissionalizou-se como solista do conjunto e, posteriormente, começou a apresentar-se em distintos espaços, além de diversos outros programas de rádio.

Sempre orientado por Dona Georgina (sua mãe), o ainda menor Mauricy apresentou-se em locais como o antigo Cassino Ilha Porchat (sob autorização do juiz de menores para abrilhantarem as noitadas) e outros “shows” por esse Brasil afora. Com a dissolução do conjunto, Cicica (como o artista era carinhosamente chamado) ingressou na Rádio Atlântica de Santos. Nesse período tem a oportunidade de ir para São Paulo pelas mãos do “caboclinho do Brasil” Silvio Caldas para fazer parte do “cast” da Rádio Excelsior. Posteriormente vai para a Rádio Record, onde tem a oportunidade de conquistar o famoso troféu “Roquete Pinto” como revelação do ano.

A sua estreia em disco se deu em 1952, pela Sinter, gravando dois sambas-canção: “Maria da Piedade“, de Evaldo Rui, e “Não digas nada“, de David Raw e Victor Simon. Em gravações posteriores teve o acompanhamento de nomes como os dos maestros Lírio Panicalli e Guerra Peixe. Dentre suas façanhas chegou a registrar, como intérprete, canções de autores como Newton Mendonça, Blota Jr, Evaldo Rui, Hervê Cordovil, Vinícius de Moraes, João Pacifico, Adoniran Barbosa, Cyro Monteiro, Edith Piaff e Lupicínio Rodrigues. Foi o responsável pelo primeiro registro em disco do até então desconhecido compositor Antonio Carlos Jobim, assim como também pelo registro de clássicos do nosso cancioneiro como “Meus tempos de criança” e “Chove lá fora“, clássico de Tito Madi dentre os mais de quinze discos que deixou gravados.

Por essas e outras Mauricy Moura acabou tornando-se um dos mais expressivos nomes da noite de sua época e não merece o ostracismo que hoje encontra-se. Não havia dentro da noite paulistana um notívago boêmio que o desconhecesse. Segundo consta em alguns depoimentos, suas apresentações eram marcantes, pois quando soltava a sua voz o silêncio se impunha e o barulho desaparecia. Não era à toa que era considerado por Silvio Caldas, Alfredo Borba, Ciro Monteiro, Elizeth Cardoso, Evaldo Rui, Wilson Batista e outros cultores da nossa música, como o mais completo seresteiro do Brasil.

Mauricy morreu aos 51 anos de idade no Hospital Santa Verônica em São Paulo, a 23 de agosto de 1977. Partiu fora do combinado como costuma dizer o nosso magnânimo Rolando Boldrin, deixando saudosos fãs de suas interpretações e uma indelével marca dentro do cancioneiro popular brasileiro ao longo de quase quatro décadas de carreira. Aproveitando a oportunidade de relembrar esse saudoso intérprete deixo aqui para os amigos leitores duas canções registradas magistralmente pelo saudoso intérprete.

A primeira trata-se de “Meus tempos de criança”, canção da lavra do não menos saudoso Ataulfo Alves. Faz-se vale a divulgação desta gravação por ser do artista, a primeira gravação desta música:

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A segunda canção trata-se de “Somos iguais”, gravação de 1964 (mesmo ano do registro de Altemar Dutra). A canção foi composta por Evaldo Gouveia e Jair Amorim. É válido o registro de que os arranjos, a flauta e o piano são do alquimista sonoro Hermeto Pascoal:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 19

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Dentre as curiosidades abordadas ao longo das últimas postagens estão algumas referentes ao saudoso cantor, instrumentista e compositor Jessé. Na postagem já publicada tive a oportunidade de falar um pouco sobre o início da carreira deste nome que arrebatou milhares de fãs ao longo de sua carreira, principalmente apos participar de um dos festivais musicais promovidos pela Rede Globo, onde de modo singular deu voz a canção “Porto Solidão“. Outra canção citada ao longo da postagem anterior foi “Estrelas de papel“, canção composta para que Jessé participasse de um festival internacional ocorrido nos EUA e de onde o artista voltou aclamado pelo juri como vencedor e, diversas categorias.

Um fato curioso desta participação ocorreu envolvendo o nome do então presidente norte-americano Ronald Reagan, que por acreditar que a letra tratava-se de uma homenagem a ele mandou um telegrama agradecendo ao artista brasileiro. Detalhe: a letra tratava-se de uma homenagem a Charlie Chaplin… e Jessé acabou por esquecer os troféus no aeroporto de Nova York.

Além dessa exitosa composição, o artista acabou por registrar em disco também mais algumas composições de sua lavra como é o caso das canções “Vento forte” (parceria com Onofre), “Cantar“, “Minha cidade“, “Farsante” e “O sorriso ao pé da escada” (outras parcerias com Elifas), “Oração da noite“, uma versão para a canção “Adágio D’Albinoni“, entre outras. Por falar em versão, Jessé é responsável por todas as presentes em seu disco “Ao meu pai”, lançado em 1985 pela RGE e que traz temas religiosos.Vale salientar que aos dez anos de idade o então pequeno Jessé já tocava violão e órgão na Igreja organizada pelo pai acompanhando hinos e louvores, o que de certo modo acabou por facilitar o seu ingresso no contexto da composição.

Antes do estrondoso sucesso com “Porto Solidão“, Jessé foi músico de baile (como costumava se auto definir) e neste período que antecedeu sua carreira solo (durante quase 15 anos) chegou a ter alguns registros fonográficos, dentre eles, alguns ao lado do Placa Luminosa (grupo que ajudou a fundar ainda em Brasília). Um registro dessa época que fez relativo sucesso na época foi a canção “Velho Demais“, cujo compositor é o piauiense Clodô Ferreira, em parceria com o baiano Zeca Bahia (um dos autores de “Porto Solidão“) e fez parte da trilha sonora da novela global “Sem lenço, sem documento”, exibida na emissora carioca entre os anos de 1977 e 1978. Sem contar a sua incursão na música internacional como Tony Stevens e registros como “If you could remember“.

Apesar do reconhecimento do público, Jessé nunca ao longo de sua carreira obteve o merecido reconhecimento da chamada crítica especializada. O descaso da crítica rendeu um texto escrito por Silvio Lancelloti à época de sua apresentação no Teatro da Universidade Católica: “Durante 15 dias, Jessé encheu a plateia do “TUCA”, o Teatro da Universidade Católica, no final de fevereiro, com o primeiro espetáculo de fato em sua carreira. E só o companheiro Zuza Homem de Mello, do “Estadão” e da “Jovem Pan”, lhe deu a merecida atenção“.

Outra queixa exposta na época veio do seu maior parceiro, Elifas Andreatto, o extraordinário artista gráfico que dirigiu a celebração de Jessé: “Eu convidei duas dezenas de jornalistas para assistirem ao show. Ninguém, mas ninguém mesmo, apareceu. Não queriam escrever? Tudo bem? Mas, ao menos, deveriam ter aparecido para ver o que idealizamos e o que fizemos“. E por incrível que pareça ainda hoje essa tal crítica especializada parece ignorar a existência dessa figura que, graças aos ardorosos fãs, não acabou caindo no ocaso.

Deixo para os amigos leitores (assim como ao longo da semana passada), mais duas canções para audição deste singular intérprete. A primeira trata-se de “Voa Liberdade“, canção de autoria de Eunice Barbosa, Mário Maranhão e Mário Marcos:

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A segunda é “If you could remeber“, gravação da época em que Jessé apresentava-se como Tony Stevens. Canção composta sob melodia da Sinfonia da Cantata 156 em fá maior, de Johann Sebastian Bach.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 19

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Nascido em Niterói, o carioca Jessé Florentino Santos foi criado em Brasília, de onde saiu para São Paulo já adulto. No período em que residiu na Capital Federal teve a oportunidade de corroborar com desejo do pai, que tinha a intenção de fundar uma Igreja no local onde moravam. De fato o pai realizou tal desejo ao fundar a Igreja Presbiteriana independente do Cruzeiro, onde Jessé arregaçou as mangas aos nove anos de idade e deu uma de carpinteiro, ajudando além de carregar os instrumentos, construir os primeiros assentos do local. Foi nesta Igreja as suas primeiras incursões no universo musical. No entanto foi a partir do sr. Cesarino, vizinho do pretenso artista, que obteve os seus primeiro aprendizados musicais teóricos.

Jessé, como ficou conhecido nacionalmente a partir dos anos de 1980, começou a sua carreira na década anterior ao seu estrondoso sucesso nacional quando atuava como crooner em boates e casas de eventos de todo o país em grupos como o Corrente de Força e o Placa Luminosa (mesmo grupo que anos mais tarde viria a estourar em todo o território nacional a partir da execução da canção “Fica comigo“). Ainda nos anos de 1970 chegou a gravar em inglês canções como “If You Could Remember” (entre outras) sob o pseudônimo de Tony Stevens. No entanto, apesar de tal registro fonográfico o sucesso e o seu nome de batismo só viria a ser revelado ao grande público em 1980, no Festival MPB Shell da Rede Globo com a música “Porto Solidão” (canção oferecida pelo autor Zeca Bahia a nomes como Gilliard e Fábio Jr., que se negaram a gravar), sem dúvida alguma o seu maior sucesso.

Com esta interpretação, o então concorrente além de ganhar o prêmio de melhor intérprete também teve a oportunidade de lançar, pela RGE, seu primeiro LP de título homônimo ao seu nome e que trazia, além de “Porto Solidão“, faixas como “Voa liberdade” e “Palavra de honra“, de autoria de Accioly Neto. Ao longo dos dois anos posteriores fez dois registros fonográficos que mantiveram o seu nome em evidência em todo o território nacional, até que em 1983 Jessé ganha o XII Festival da Canção Organização realizado em Washington.

O Brasil não tinha representante para o festival, Jessé resolveu por conta própria participar. No entanto para isso precisava de uma canção para levar aos Estados Unidos. Na véspera da viagem, por volta das 21 horas pega o seu irmão e vai para casa dar início a composição. Por volta das 23 horas liga para Elifas Andreato e pede que ele escreva uma letra para a nova composição. Elifas, mesmo acreditando que não daria conta, acaba por escrever uma letra para Jessé e a manda para o intérprete por volta das 02 horas da madrugada. Sete horas depois, às 09 da manhã, Jessé embarca para os EUA para arrebatar o jurado de modo ímpar, o cantor e compositor traz para o Brasil os prêmios de melhor intérprete, melhor canção e melhor arranjo para “Estrelas de Papel“, canção de parceria inusitada entre o próprio intérprete e o artista plástico Elifas Andreato. A dupla ainda foi responsável pela composição da canção “Uma mulher“, também gravada pelo cantor.

De voz muito potente, Jessé sempre chamou a atenção do grande público por interpretações viscerais e emotivas, o que o acabou tornando bastante popular. Dentre seus registros fonográficos estão composições de nomes como Tom Jobim, Wagner Tiso, Chico Buarque, Belchior, Milton Nascimento, Sá e Guarabira, Angela Rô-Rô, Capiba, Fernando Brant, Jonh Lennon, Paul MacCartney, Pablo Milanés, Caetano Veloso, Carlinhos Vergueiro, Guilherme Arantes, Silvio Caldas, Orestes Barbosa entre outros ao longo dos anos em que atuou em palcos de todo o país, assim como também nos 12 discos que deixou como legado, dentre eles os álbuns duplos “O sorriso ao pé da escada” e “Sobre todas as coisas”.

Jessé faleceu após um trágico acidente automobilístico no dia 29 de março de 1993 no município paulista de Ourinhos quando estava a caminho do Paraná, onde iria se apresentar. Acompanhado da esposa (que estava grávida de cinco meses), o artista perdeu o controle do carro e capotou, fazendo com que a esposa perdesse o bebê e também ficasse em estado grave. Transferido para a santa casa municipal. o cantor que no acidente sofreu traumatismo craniano não resistiu e acabou tendo morte cerebral. Após decretada a sua condição, teve o seu corpo transferido para São Paulo afim de atender ao seu último desejo: a doação dos seus órgãos.

Deixo aqui para os amigos leitores duas canções citadas ao longo do texto. A primeira trata-se do estrondoso sucesso “Porto solidão“, gravada por Jessé como dito em seu álbum de estreia em 1980:

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A segunda trata-se “Estrelas de Papel“, canção que trouxe ao cantor e compositor os louros internacionais:

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NOVAS SENSAÇÕES EM MAIS UM VOLUME DA TRILOGIA CAMELÃO

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O músico brasiliense apresenta o segundo volume do projeto “Camaleão”, um disco totalmente autoral que reafirma não apenas o seu talento, mas principalmente o seu compromisso com a música brasileira e suas mais variadas vertentes

Nome de destaque na música instrumental brasiliense Ademir Junior vem alçando vôos cada vez maiores a partir de adjetivos que o fazem destacar-se para além das fronteiras do seu Estado. Empunhando o seu instrumento, Ademir vem ao longo dos últimos anos sedimentando uma carreira coerente e imbuída de verdade, características que o acabam destacando entre os grandes nomes da música instrumental nacional a partir de execuções precisas, inovados arranjos e uma discografia coerente com a sonoridade que acredita e procura divulgar pelos palcos aos quais tem se apresentado ao longo dessas mais de duas décadas de carreira entre a música secular e a música cristã. Seu interesse pela música vem ainda de sua tenra infância, quando ao lado do pai o pequeno Ademir deu início aos seus estudos musicais.

Após esta primeira experiência tem a oportunidade de participar de bandas como a do SESI, a Banda Sinfônica da Escola de Música (onde torna-se solista) e a Orquestra Cristã de Brasília, espaço onde desenvolve de modo mais intenso as suas habilidades musicais e o seu interesse pelos estudos do saxofone, principalmente a partir de sua inserção na UNB aos 18 anos. Com um talento, rapidamente o musicista desenvolvesse métodos e técnicas próprias para a execução do saxofone , fazendo-o destacar-se para além de nossas fronteiras. Um exemplo para esta afirmação se deu recentemente, quando a Europa rendeu-se ao seu talento e Júnior tornou-se o primeiro saxofonista brasileiro de jazz a ser endorser da Selmer (a mais tradicional fábrica de saxofones do mundo) e da Vandoren (fábrica de boquilhas e palhetas). O convite se deu após uma apresentação em um festival em Rouen, na França e um show na Selmer, em Paris.

Hoje, além de mestre na improvisação, o músico também é maestro e exerce a função de educador. Sem contar que desde 2013 vem na elaboração e divulgação de um projeto audacioso cujo título escolheu por nome Camaleão. Tal ideia surgiu em forma de trilogia e o primeiro volume (“Camaleão I”) chegou em 2013, ano em que o músico completou 25 anos de carreira de carreira. Além de comemorar as bodas de prata de Ademir com a música, “Camaleão I” traz como marca aquilo que constituiu a carreira do músico brasiliense desde o início de suas atividades como músico: a capacidade de integrar-se aos diversos gêneros existentes de modo uníssono, não só mesclando de modo harmonioso todas as expressões sonoras que absorve ao seu redor, mas também transformando isto tudo que assimila em algo maior, que busca fugir daquilo que é convencional adicionando peculiaridades bastante pessoais a esta nova expressão sonora que produz.

Nesta trilogia a qual se propõe Ademir, o primeiro volume trouxe nove canções permeadas pelos diversos estilos que estruturam a formação musical do artista, fazendo jus a um título que caiu como uma luva para o projeto a qual se propõe: agregar os diversos ritmos que estruturam e estruturaram a sua formação musical. Agora, dois anos após o pontapé inicial deste projeto, o músico volta ao mercado fonográfico com o segundo de uma trilogia chancelada por características ímpares. Batizado de “Sensações”, este novo álbum do artista brasiliense traz consigo ora características que o assemelha ao projeto anterior, ora novas perspectivas para o futuro deste projeto. Em “Sensações” talvez seja possível acreditar que tal álbum e suas dez canções sejam eixo central dessa trilogia que busca enfatizar as diversas sensações que a música exerce em cada um daqueles que ela atinge. Título mais apropriado para este volume não poderia haver.

Nesse trabalho Ademir Junior demostra todas as suas habilidades e vai além do instrumento que o fez ganhar projeção nacional e internacionalmente. Além de tocar o seu saxofone tenor, o músico executa no álbum clarineta, o seu primeiro instrumento a partir dos diversos gêneros musicais que formam a colcha de retalho sonoro existente em nosso país. Ritmos como o baião, o afoxé, o xote e o maracatu permeiam as canções presentes no disco. Filho de nordestinos, em “Sensações” Ademir busca homenagear suas tradições, a música e cultura da região a partir das 10 novas composições que mostram grande riqueza melódica, harmônica e rítmica. Fruto da vitória o Prêmio Cássia Eller, pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura), “Sensações” traz Ademir como diretor artístico, arranjador e solista executando Sax Tenor, Clarineta e EWI. Além disso, o projeto conta com nomes como Moises Alves (Trompete), Marcos Wander (Trombone), Alex Carvalho (Guitarra), Carlos Pial (Percussão), Hamilton Pinheiro (Baixo Elétrico), Guilherme Santana (Bateria) e Marcelo Corrêa (Piano Elétrico); sem contar as participações especiais de Sidmar Vieira (Trompete), Mario Morejon El Indio (Trompete) e Junior Ferreira (Acordeon).

Apesar de “Sensações” trazer em seu cerne uma predominância rítmica a partir dos gêneros musicais advindos do Nordeste a partir do legado de nomes como Sivuca,Hermeto Pascoal, Luiz Gonzaga e Dominguinhos. O disco mantém, assim como o volume anterior, uma proposta (ou talvez um compromisso assumido de modo inconsciente pelo artista) de trazer como característica principal a possibilidade de juntar ao seu redor os mais distintos gêneros e ritmos. É um produto aglutinador e capaz de se transformar em muitos ao abarcar toda a sonoridade que constitui o artista fazendo jus ao título “Camaleão”. A possibilidade de aglutinar os mais distintos gêneros e mesclar diferentes estilos desvencilhando-se de rótulos e títulos habilitando as mais distintas sensações acaba por também justificar o subtítulo escolhido de modo tão certeiro.

Para o artista a justificativa para o subtítulo é bastante plausível quando diz que “A música é a passagem para o mundo perceptivo da mente, virtual, metafísico ou espiritual, como cada um prefere chamar, e é onde os 5 sentidos aguardam ansiosos suas novas Sensações”. Desse modo, este novo álbum abre novas perspectivas e portas dantes entreabertas para o reconhecimento do artistas como um dos mais promissores talentos de sua geração. É um disco que galga mais um passo para a bem sucedida trilogia proposta pelo músico brasiliense, reforçando de modo substancial a entrada de Ademir Junior para figurar no hall dos grandes nomes da música instrumental brasileira.

Para audição dos amigos leitores duas canções, A primeira trata-se de “Xote candango”:

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Já a segunda trata-se de “Mexidão”. Ambas as canções são de autoria do artista apresentado:

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OLORÓ!

NANÁ

Vítima de um câncer de pulmão, morre Naná Vasconcelos, ganhador de oito Grammys e considerado um dos maiores percussionistas do mundo

Em yorubá, oloró tem por significado festa. Contexto este que acredito fazer parte da chegada de Naná Vasconcelos hoje em outras pairagens. Não acredito que haja outra situação para receber um artista da grandeza de Naná. Feliz foi Gabriel, o pensador ao saber do falecimento deste músico irrepreensível: “Não vou estranhar se os trovões, os ventos e as chuvas passarem a soar bem melhor, em combinações inusitadas de ritmos, depois da chegada do mestre Naná Vasconcelos ao céu”. Senhor de todos os ritmos neste planeta, Naná resolveu assumir as percussões celestiais não sem antes deixar como legado para os que aqui ficam uma carreira pontuada por amizades sonoras em todos os cantos do planeta desde que deu início a sua carreira ainda na década de 1960.

Mesmo rodando todos os cantos do planeta o músico pernambucano foi um dos mais fiéis seguidores da máxima de Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Nascido em Recife, Juvenal de Holanda Vasconcelos ganhou o apelido de Naná dado pela avó em reverência a Nanã, que no candomblé é a mãe dos orixá. Desde criança convivia com instrumentos em casa devido ao pai, que tocava violão e o introduziu no contexto musical no início da adolescência. Por volta dos doze anos Naná já atuava tocando bongô e maracas em grupos musicais. Um pouco mais velho chegou a tocar bateria em alguns cabarés e ser percussionista da banda municipal de sua terra natal. Logo em seguida, por volta de 1967, seguiu para o Rio de Janeiro objetivando seguir carreira artística. Na “cidade maravilhosa” gravou dois LPs com Milton Nascimento e, no ano seguinte, junto com Geraldo Azevedo, viajou para São Paulo para participar do Quarteto Livre, que acompanhou Geraldo Vandré no III Festival Internacional da Canção. De volta ao Rio de Janeiro, formou o Trio do Bagaço, com Nélson Angelo e Maurício Maestro, apresentando-se, com o grupo, no México, a convite de Luis Eça. Vem desse período a sua escolha pela percussão e, em especial, pelo berimbau.

Atuou na trilha sonora de “Pindorama”, filme de Arnaldo Jabor. Nessa época, conheceu Gato Barbieri, com quem viajou para Nova York (EUA) para a gravação de um disco. Nos Estados Unidos tem a oportunidade de mostrar todo o seu talento a partir da participação em diversos festivais de jazz, e atuar ao lado de alguns dos maiores nomes da música internacional da época. Cidadão do mundo, Naná apresentou-se em países como França, Suíça, Escócia, Polônia, Alemanha entre outros países do continente Europeu muitas vezes ao lado do Quarteto Iansã. Na África foi buscar inspirações através de pesquisas que resultaram em seu primeiro LP intitulado “Africadeus”. Ainda na Europa, compôs a trilha sonora de uma novela para a televisão francesa com temas brasileiros. Em Portugal gravou um disco no dialeto angolano quimbundo.

Em 1972, retorna ao Brasil e apresentou, no Teatro Fonte da Saudade. Nessa apresentação, interpretou o repertório de seu disco “Africadeus” e uma bachiana de Villa-Lobos, regendo um coral e atuando como único músico do show. No ano seguinte, gravou seu segundo LP, “Amazonas”, lançado pela Philips, mesclando o ritmo brasileiro ao folclore africano.

Em seus projetos soma-se parcerias com nomes como Egberto Gismonti (com quem trabalhou durante oito anos e gravou os discos “Dança das cabeças” e “Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos & Walter Smetak”), Pat Metheny, Gilberto Gil, B.B. King e Paul Simon. Sua discografia é composta por títulos como “Fragmentos”, “Minha Loa”, “Dança das cabeças”, “Saudades”, “Isso vai dar repercussão” (em parceria com o não menos saudoso Itamar Assumpção), “Visions of Dawn” (Ao lado de Joyce e Mauricio Maestro), entre outros. Seu últimos trabalhos fonográficos foram os álbuns 4 elementos (solo) e Café no bule (parceria com Zeca Baleiro e Paulo Lepetit).

Ganhador de oito grammys, a simplicidade de Naná paradoxalmente o fez um gigante no exercício do seu ofício, um mestre que deixa como legado lições percussivas e aprendizados também como ser humano. Para mim, além de todos esses adjetivos a ele atribuídos ao longo do dia, soma-se o modo polido como ele sempre procurou tratar a todos, a simplicidade a o sorriso cativante que mesmo após o diagnóstico do câncer não o abandonou. Responsável durante 15 anos pela abertura oficial do carnaval de Pernambuco, e a frente de projetos como o “Voz nagô”, “língua mãe”, o “ABC musical” e o “Flor do Mangue”; Naná deixa hoje uma lacuna impreenchível na música global.

Ọdàbó, Naná! Adupé!


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PORCELANA, ARQUÉTIPO DE DELICADEZA, TÉCNICA E BOM GOSTO

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Em disco que celebra um profícuo encontro musical, Alaíde Costa e Gonzaga Leal debruçam-se, de modo atemporal, sobre a música brasileira, fazendo também incursões na música contemporânea portuguesa

Não é de hoje que esta dupla vem encantando a distintos públicos, em especial o público pernambucano a partir de apresentações tanto na capital quanto em cidades do interior do Estado. Em uma época regida por características que prezam o imediatismo, em uma sociedade cada vez mais avassaladora no sentido mais pejorativo da palavra, esse encontro musical entre Alaíde Costa e Gonzaga Leal chega primeiramente como um afronto a esses tempos modernos e posteriormente um como alento para os ouvidos mais apurados.

É uma contenda entre o apuro estético e o atual mercado fonográfico. Uma contenda onde a coerência, adjetivo que pauta a carreira desses dois artistas há décadas, dificultosamente vence todos os estorvos existentes a partir de um seleto repertório, interpretações impecáveis, uma sonoridade construída de modo cativante a partir de gabaritados músicos e melodias que por suas respectivas qualidades corroboram para tudo isto. Amizade construída por afinidades, a dupla vem desde dividindo vocais desde o convite feito por Leal à artista carioca em 2006 para participar do álbum “E O Nosso Mínimo… É Prazer” para interpretar a faixa “Meiga presença”, de autoria da dupla Paulo Valdez e Otávio de Moraes.

Desse encontro, anos depois surgiu o espetáculo que daria origem a este álbum que trata-se não apenas de uma celebração por quase uma década de encontros musicais, mas principalmente de um presente de aniversário do artista pernambucano a esta artista considerada a dama da canção brasileira (título mais que merecido a esta mulher que traz a sua história intrinsecamente ligada à música popular brasileira ao longo dos últimos sessenta anos) pelos seus oitenta anos.

Pernambucano da cidade de Serra Talhada, Gonzaga Leal vem nas últimas quatro décadas escrevendo a sua história na cena teatral e musical do estado a partir de projetos diversos que abrangem espetáculos musicais como “Quando a dor não tem razão”, o recital “Aparição”, o espetáculo “Gonzaga Leal canta Heitor Villa-Lobos e declama Manuel Bandeira”, sem contar os álbuns “Minha adoração: um tributo a Nelson Ferreira”, “Gonzaga Leal cantando Capiba… e sentirás meu cuidado” entre outros títulos que reiteram o compromisso intuitivamente assumido pelo artista em manter-se fiel as suas escolhas. Essa fidelidade expressasse de modo visceral e singular em cada disco que apresenta, pois é possível afirmar que sua discografia é constituída por um mosaico do seu universo particular. Em seu mais recente projeto solo, o próprio título afirma isso, não é aà toa que o disco chama-se “De mim”.

Já Alaíde Costa nasceu no Méier, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Suas pretensões artísticas revelaram-se ainda na infância quando participou de diversos programas de rádio existentes na época. Sua estreia como cantora foi em um circo, logo em seguida, aos 13 anos, venceu um concurso de melhor cantora jovem interpretando a canção “Confesso”, composição que na época fazia parte do repertório da cantora Linda Batista. O concurso promovido por Paulo Gracindo, no seu programa Sequência G3, da Tupi, do Rio de Janeiro, foi o pontapé inicial para uma série de notas máximas conquistadas em quase todos os programas de calouros aos quais apresentava. Apesar disso, Alaíde não possuía a voz que predominava nos estúdios de gravações na época. Seu canto suave e afinado não tinha vez diante da potência vocal de muitas contemporâneas suas e isso, por conseguinte, acabou prejudicando a sua inserção no mercado fonográfico de imediato. No entanto, pouco tempo depois conhece João Gilberto e por conseguinte acaba conhecendo a grande maioria dos artistas que iriam protagonizar o movimento da Bossa Nova, dentre eles Oscar Castro Neves que a apresenta a Vinicius de Moraes e este ao ascendente Tom Jobim, construindo a partir daí uma sólida e coerente musical nos últimos cinquenta anos.

Gravado entre o primeiro semestre e o início do segundo semestre deste ano no estúdio Muzak, “Porcelana” contou com um time de primeira linha da música pernambucana nesta celebração. Encabeçando os arranjos os talentosíssimos Maurício Cezar e Marcos FM. Ambos arranjadores também participam do disco como instrumentista. De um lado, Maurício fica responsável pela execução dos pianos; enquanto FM pelos baixos. Outros nomes que corroboraram de modo imprescindível para a bela tecitura sonora e para que o álbum tivesse um refinado acabamento foram os percussionistas Sérgio Cassiano, George Rocha e Tomás Melo, os contrabaixistas Cacá Barreto e Marcos FM, o bandolinista Rafael Marques, o acordeonista Julio Cesar, o maestro e violonista Claudio Moura, o músico Adilson Bandeira (sax-tenor, clarinete e clarone), o violoncelista Fabiano Menezes, o baterista Ebel Perrelli, o Guitarrista Breno Lira, o piano de Kelsen Gomes, a Orquestra Quebra-Mar e o trompete de Flávio Oliveira.

Assim se faz “Porcelana”, uma espécie de arquétipo de delicadeza, técnica e bom gosto. Falo dessa definição enquanto presente porque a cada nova audição das faixas existentes tem-se a impressão de novas descobertas e, por conseguinte, novas e parciais sensações neste disco que exerce uma espécie de magnetismo qdo início ao fim a partir de interpretações impecáveis de ambos. Um produto que traduz a perfeita sincronia entre dois talentos que apesar das peculiaridades de cada fazem-se uníssono a partir de um repertório que abrange nomes como o do cantor, compositor, multi-instrumentista e ator Sérgio Pererê (“Oiá”), canções de domínio público como “Omi Imalé”, fados como “Meu amor abre a janela” (composto pelo saudoso músico Armando Machado que ganha letra do escritor e poeta português Tiago Torres da Silva), e nomes como Capiba (“Quando se vai um amor”), Alceu Valença (“Solidão”), Moisés Santana (“Porcelana”), Zé Miguel Wisnik e Swami Jr. (“Fim do ano”), João Cavalcanti (“Frevo do contra-êxodo” e “Em tempo”), Caetano Veloso e Orlando Morais (“Divinamente nua, a lua”), Socorro Lira (que assina “Delicado” e traz em parceria com Consuelo de Paula a composição “Água doce no mar”), Zeca Afonso (“O meu menino é d’ouro”) e a dupla Rubens Nogueira e Luiz Salgado (que assinam “Bem-me-quer”, parceria que conta também novamente com o nome de Consuelo de Paula).

De um lado, um Gonzaga Leal em sua melhor forma a partir de verdadeiras e viscerais interpretações; Do outro Alaíde Costa, uma artista que dispensa maiores apresentações, e que vai chegando as oito décadas de vida trazendo consigo uma coerência sonora que ainda a permite a alcunha de diva quase seis décadas depois do seu primeiro registro fonográfico. Trata-se de uma perfeita simbiose iniciada nos palcos pernambucanos e que agora eterniza-se em um disco também caracterizado pela refinada produção, tal qual a variedade de cerâmica homônima ao título do projeto.

Para os amigos leitores deixo a canção que abre o disco, um medley que une duas canções: a primeira é uma composição de Sérgio Pererê cujo título é “Oiá” (Cantiga de Sansanhe); já a segunda é “Omi Imalé“, canção de domínio público.

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MÁRCIO CELLI – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Músico faz show hoje no Renascença

Em seu terceiro projeto fonográfico intitulado “Da minha janela”, Márcio Celli extravasa o seu lado autoral abarcando os mais distintos gêneros musicais brasileiros

Depois de dois excelentes projetos fonográficos, Márcio Celli atualmente vem divulgando o seu mais recente álbum, cujo título faz uma alusão ao seu universo particular. Composto por doze canções, álbum “Da minha janela” traz entre parcerias e composições de sua lavra sambas, ijexás, bossas dentre outras sonoridades que formam este singular amálgama sonoro que apresenta-se com características que sobrepuja o convencional o credenciando à conquista de um merecido espaço dentro do cenário musical brasileiro com o devido merecimento como pudemos conferir aqui ao longo do último mês através da pauta “UMA JANELA DE VISÃO AMPLA E IRRESTRITA”. Hoje o cantor e compositor volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo para falar um pouco sobre sua carreira fonográfica, projetos a ser concretizados ao longo de 2015, suas reminiscências musicais, a sua relação com a cantora e compositora Rosa Passos entre outros temas. Excelente leitura!

Você poderia falar um pouquinho de suas reminiscências? Qual a lembrança mais remota do seu envolvimento com a música?

MC – Minha família sempre gostou muito de música e meu irmão, Luciano Celli, garimpava o que havia de melhor na MPB. Por isso posso dizer que a lembrança mais remota do meu envolvimento com a música é a de escutar tudo que o meu irmão ouvia. Tive algumas tentativas frustradas de formar bandas na adolescência e também de estudar violão. Cantava em festividades escolares, em grupos de jovens da Igreja Católica, etc. Nunca tive dúvidas de que queria ser cantor e algumas coisas fiz bem cedo. Aos 14 anos de idade iniciei os estudos de técnica vocal com a mestra Déa Mancuso. Com 16, fiz a carteira da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil). Com 18 gravei a primeira canção e já estava no palco.

Em alguns aspectos pode-se dizer que a música gaúcha acaba-se por tornar-se notória por apresentar uma sonoridade bastante peculiar, pautada no nativismo e no tradicionalismo platino e você chega com uma música que acaba por quebrar alguns preceitos sobre essas características a partir de bossas, sambas e ijexás presentes no álbum. Essa escolha é proposital?

MC – Não é uma escolha, é a minha essência. Nunca fiz parte do tradicionalismo gaúcho. A música nativista tem o seu belo e suas peculiaridades, é verdade, mas desconheço até o vocabulário. Sou nascido e criado em Porto Alegre, sempre fui urbano e minha ligação com a música tradicional se dava, no máximo, em visitas a Santana do Livramento, cidade do interior do Estado do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, onde passava as férias escolares na casa de minha avó materna. Sou gaúcho, mas acima de tudo Brasileiro, assim como a minha música.

“Um novo tom”, seu primeiro disco, já traz características que pautam a sua carreira até os dias atuais: a qualidade na escolha do repertório e a questão do não vinculo a gravadora alguma. Você acredita que no mercado fonográfico atual essa dualidade presente em seu primeiro projeto encontra-se ainda mais evidente?

MC – Somos dependentes de muitas coisas mesmo estando fora de uma gravadora. Meu segundo álbum, “Márcio Celli canta Adriana Calcanhotto” saiu através de uma, mas tive liberdade para fazer o disco da maneira que eu queria, assim como o terceiro e mais recente “Da Minha Janela”, que teve o financiamento do FUMPROARTE através da Secretaria Municipal da Cultura/Prefeitura de Porto Alegre. Tudo mudou muito até aqui e mudará cada vez mais. Ainda estamos garimpando novos caminhos, novas possibilidades para este “ser independente”. Fazer parte da estrutura que uma gravadora pode proporcionar é sempre bem-vindo para uma boa divulgação do trabalho. Mas isso tudo só vale a pena se existir liberdade artística e esta liberdade ainda é o prós maior de ser um artista independente.

Em “Márcio Celli canta Adriana Calcanhotto”, você trouxe duas canções inéditas da lavra da artista. Como se deu a ideia deste projeto?

MC – O projeto saiu dos palcos para o CD homônimo. O show rolou por mais de três anos antes de virar disco e teve Direção Cênica de Morgada Cunha, bailarina, coreógrafa , conhecedora íntima da obra de sua filha Adriana e uma das maiores incentivadoras para que este projeto fosse gravado. Eu e Adriana nos conhecemos há muito tempo, fizemos aulas de canto com a mesma professora. Na época eu ainda era adolescente e queria gravar a primeira música para mandar para as rádios locais. Adriana, residindo em Porto Alegre e ainda não conhecida do grande público, me mostrou várias de suas canções. Apaixonei-me imediatamente por todas e escolhi “Enguiço”, que veio a ser título do primeiro disco gravado por ela dois anos depois. Fui o primeiro cantor a gravar Adriana Calcanhotto. Tenho muita coisa inédita daquela época. Até hoje quando vou cantar alguma dessas canções, preciso avisá-la imediatamente, pois algumas, ela nem lembra que fez (risos). Com o samba “Viu?” foi exatamente assim e “Tardes” foi indicação da própria Adriana.

Conte-nos um pouco acerca da recepção da Adriana em relação a esta homenagem.

MC – Não é exatamente um disco de homenagem, a Adriana nem gosta desse tipo de coisa. É um disco de um interprete gaúcho cantando uma compositora gaúcha e que em minha opinião é uma das maiores compositoras brasileiras. Ela já tinha conhecimento do projeto desde o show e gostou do resultado do disco também, inclusive assinou a contracapa.

No álbum Da Minha Janela é possível ver que há os mais distintos parceiros nas diversas faixas existentes. Como se dá o seu processo de composição em parceria?

MC – Normalmente faço o poema. Ele vem inteiro e intuitivamente com o endereço certo do parceiro. Claro que sempre penso em colegas com quem me identifico musicalmente e creio que esta energia seja fundamental para que a canção nasça. Por vezes, parceiros me mandam a melodia e eu faço o poema, criando assim o processo inverso ao qual estou acostumado.

E solo? Existe algum rito ou metodologia a seguir na hora de compor?

MC – Quando faço letra e música costumo dizer que é total ligação com o espiritual, principalmente por eu não tocar um instrumento e a canção chegar pronta. Gravo imediatamente no celular para não esquecer. Acho ótimas todas às formas de composição que tem acontecido comigo e só posso garantir que a inspiração vem de “lá” para cá. Por isso agradeço sempre aos Deuses da música.

Você vinha de projetos que apesar de pinceladas autorais geralmente atuava também como intérprete de outros compositores, agora neste álbum você vem com a sua música e ideias de modo pleno. Por que só agora dar vazão total ao lado autoral?

MC – Passei por um processo de maturação. Ser intérprete dos melhores compositores da música brasileira nos torna, no mínimo, exigentes e até que nos coloquemos no mesmo setlist do show, leva algum tempo. Mas eu amo interpretar e costumo dizer que o intérprete veio primeiro e que ele é primordial para o compositor.

Rosa Passos hoje não cansa de elogiar o seu trabalho e considera-se (como já tornou público em uma de suas apresentações) sua madrinha artística. Como se deu a sua aproximação com a cantora baiana?

MC – Rosinha foi um dos melhores presentes que a vida me deu. Sou fã incondicional do seu trabalho e tento seguir seus “Passos” a risca. Tive contato com Rosa através do radialista Robson Ribeiro, que assim como ela, reside em Brasília-DF. Desde então esta “Madrinha” amada e dona de uma generosidade sem tamanho, não só assinou a contracapa do meu mais recente trabalho, “Da Minha Janela”, como divulgou o CD em Rádios Europeias e, como se não bastasse, me elegeu seu “Afilhado” musical. Eu amo Rosa Passos.

O que podemos esperar do Márcio neste ano de 2016?

MC – Continuo divulgando o CD “Da Minha Janela” com novas canções autorais inseridas no roteiro. Tenho algumas apresentações aqui em Porto Alegre, uma delas o show “De Bossa em Samba”, projeto que tenho ao lado de um dos meus mais assíduos parceiros de composição, Roberto Haag. No final de maio estarei em São Paulo para algumas apresentações em alguns SESCs e outros projetos. Minha produtora (Ge Zaffani – Solo Cultural) reside em São Paulo, assim como os músicos Marcos Davi e Cau Karan, violonistas, amigos especiais que me acompanham sempre nessas temporadas, o que facilita muito o meu acesso ao centro do País. Fui convidado pelo carioca Reginaldo Mil para participar do CD “Pelo Verde Contra o Câncer”. Um lindo projeto eco beneficente, coordenado pelo Grupo Música Verde. 15 músicas cantadas e tocadas por importantes artistas da MPB farão parte deste trabalho. (Jane Duboc, Vânia Bastos, Roberto Menescal, Lucinha Lins, Victor Biglione, Zé Canuto, Toninho Ferragutti, Marcos Davi, etc.) Gravei a canção chamada “Grandheza”, que estará no CD. Quero muito poder mostrar o meu trabalho nas mais diferentes cidades. Levar a música brasileira para ouvidos atentos e abertos ao novo. Este ano terei a honra de dividir o palco com Rosa Passos, em São Paulo, a data ainda será divulgada.


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UMA JANELA DE VISÃO AMPLA E IRRESTRITA

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Márcio Celli mostra a visão sonora que tem do mundo a partir de ângulo bastante particular

O autor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe deixou como legado entre contos e poesias algumas antológicas frases, dentre elas, uma que dizia que os olhos são as janelas para a alma. Frase mais que adequada para justificar o o título deste terceiro projeto fonográfico do cantor, compositor e radialista Márcio Celli, dando-o uma conotação bastante especial. Visto como um promissor talento da música gaúcha, Celli tem-se destacado além das fronteiras gaúchas com trabalhos carregados de verdade e sensibilidade. Aluno de Déa Mancuso (mestra em técnica vocal e professora de vários nomes da música gaúcha, entre eles Adriana Calcanhotto, Flora Almeida e Muni), o artista teve sua estreias nos palcos na década de 1990 no show “Bem Agosto”, no palco do Porto de Elis ,em Porto Alegre; chegando a gravar com as cantoras Glória Oliveira e Flora Almeida, canções que tiveram radiodifusão em várias emissoras do Estado Gaúcho. Posteriormente migrou para São Paulo onde teve a oportunidade de apresentar-se na noite em espaços como o Bar Armazém, Ilha Porchat, Olympia entre outros até vir, em outubro de 1998, o seu primeiro álbum. Depois do álbum “Um novo tom”, lançado de modo independente em 1998 onde interpreta nomes como Gilberto Gil e Marina Lima, e do projeto “Márcio Celli canta Adriana Calcanhotto”, onde o gaúcho faz uma releitura do dez canções da lavra da cantora e compositora conterrânea sua, sendo duas destas inéditas: Viu? e Tardes. Com apresentação da própria Adriana Calcanhotto o disco percorreu estados como Ceará, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins sempre respaldados em elogiosas críticas da crítica especializada e grande aceitação do público ávido por músicas que prezam pela qualidade e bom gosto.

Agora, depois de alguns anos deste o conceituado lançamento em homenagem a umas compositoras de maior destaque na música nacional contemporânea, o cantor apresenta, sob financiamento do Fumproarte (Secretaria Municipal da Cultura/Prefeitura de Porto Alegre), o álbum “Da minha janela”, um disco onde tem a oportunidade de extravasar de modo pleno o seu lado autoral em parceria com alguns nomes que permeiam o universo sonoro do artista. Trata-se de um projeto que traz em seu cerne a preocupação de apresentar ao público uma sonoridade pautada na qualidade sonora que faz da música brasileira uma referência em todo o mundo. Sofisticada, a sonoridade essencialmente nacional presente no álbum a partir de gêneros como sambas, bossas, baladas entre outras ganha destaque maior a partir das interpretações docemente afinadas de Celli. O álbum é composto por doze canções, dentre elas “Samba de novo” e “Nem tô”, parcerias com o músico paulista Sonekka. A segunda trata-se de uma despojada canção onde o intérprete esnoba a amada enquanto a primeira enaltece a seu modo um dos gêneros musicais mais populares existentes no país. O samba ainda ganha vez em “Sambamba” (canção em parceria com Danny Calixto) e “Samba assim” (escrita a quatro mãos com Monica Tomasi). O disco ainda conta com parcerias com nomes como Bebeto Alves (“Janela (da minha janela)”), Patrícia Mello (“Avenida vazia”), Zé Caradípia (“Por querer mais”) e Roberto Haag (“Quieto”). Da lavra exclusiva de Márcio Celli, o álbum apresenta quatro canções: são elas “Canção para dois”, “Mãe do vento”, “Uma bossa” e o Ijexá “Recado pra Oxum”, apresentando deste modo toda a versatilidade deste ascendente artista.

Gravado no estúdio Transcendental audio em Porto Alegre, a ficha técnica deste mais recente trabalho do cantor e compositor gaúcho é constituída por músicos como o dos instrumentistas Jefferson Marx (Violões, produção musical e arranjos), Edu Martins (baixo elétrico), Luiz Mauro Filho (teclado), Giovanni Berti (percussões), Marquinhos Fê (bateria), Amauri Iablonovski (flautas), Milene Aliverti (violoncelo), Rafael Ferrari (bandolim) e Matheus Kleber (acordeon). Quem complementa a ficha técnica deste projeto fonográfico são nomes como Leo Bracht (pós-produção, gravação e mixagem), Gerson Roldo e Fernando Antunes (fotografias), Carlos Freita (masterização) e Rosana Silveira (criação gráfica). Sem contar Luciano Celi na produção executiva entre outros nomes não citados que contribuíram de algum modo para constituir toda a beleza sonora presente em “Da minha janela”, além, é claro, da “chama poderosa dos vencedores” que segundo Calcanhotto acompanha o artista em questão ao longo de sua coesa carreira.

Talvez aconteça de modo inconsciente, mas o bojo do trabalho do que é produzido por Márcio parece fugir daquela tradicional musicalidade existente em seu estado. No entanto em hipótese alguma a sonoridade produzida pelo artista perde em qualidade. Pelo contrário, aquilo que aparenta ser uma fuga é na verdade a aglutinação dos mais distintos gêneros e ritmos que compõem a música popular brasileira como um todo e não apenas da tradicional música existente no Rio Grande do Sul. Assim, aglutinando outras influências e abarcando gêneros e ritmos plenos e verdadeiramente brasileiros, pode-se afirmar que o cantor e compositor gaúcho acaba formando uma identidade sonora bastante própria e contemporânea, ganhando um um vigor especial ao deixar transparecer uma proposta musical de beleza vanguardista que abarca as mais distintas influências em uma unidade maior. E esta macro sonoridade existente na música produzida por Celli acaba o credenciando à conquista de um merecido espaço dentro do cenário musical brasileiro como ele vem galgando ao longo destes últimos anos. A admiração, o reconhecimento e o respeito de grandes nomes que fazem da música popular brasileira ele já possui. A exemplo pode-se citar a instrumentista, cantor e compositora Rosa Passos, que o considera afilhado musical e que costuma definir o timbre do artista como bálsamo aos ouvidos ao afirmar que “Márcio Celli tem uma voz leve, feliz e que acaricia os ouvidos de quem a escuta.” Outra cantora que declara-se fã do trabalho do gaúcho é a própria Adriana Calcanhotto, que dentre os diversos elogios registrados preconiza acompanharmos a carreira do cantor: “É assim o Márcio, e nós ainda vamos ouvir falar muito a respeito.”


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CLAUDIA AMORIM – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Em descontraído bate-papo a cantora e compositora carioca revela-nos peculiaridades sobre sua carreira, dentre as quais a participação dos músicos Luis Cláudio Ramos e do saudoso Perinho Santana

Certa vez o Mario Quintana escreveu: “O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar. Quem a encontra salva-se a si mesmo”. E o que falar quando através de uma talentosa intérprete a música contextualiza-se sem tirar nem por ao poema do grande literato gaúcho? Pois bem, talvez não seja necessário falar, mas ouvir e captar a mensagem trazida por esta artista nascida no Rio de Janeiro e que já conta com três álbuns em sua coesa carreira musical. Assim como o poema de Quintana, “Sede”, terceiro e mais recente álbum de Claudia Amorim, deixa de modo subentendido transparecer essa ideia. De modo análogo a imagem de uma garrafa próxima ao mar no projeto gráfico do disco é a maior tradução dessa afirmação além de outras características como pode-se conferir aqui mesmo em nosso espaço através da pauta “CLÁUDIA AMORIM SACIA SUA SEDE EM PROFÍCUAS FONTES”. Hoje a artista volta ao nosso espaço para uma informal e descontraída conversa onde aborda, dentre diversos assuntos, a sua parceria com nomes como Luiz Claudio Ramos, Danilo Caymmi e Perinho Santana; a participação de sua filha, a sua atuação como produtora entre outros assuntos. Excelente leitura para quem a mensagem trazida pela artista.

Você iniciou a sua carreira ainda bastante jovem ao participar de dublagens e outros eventos mais voltados para a área da publicidade e da propaganda. A ideia de seguir carreira como cantora surgiu a partir desses projetos ou você viu a partir deles a oportunidade de ascensão dentro do contexto ao qual queria alcançar, que era a ser cantora?

Claudia Amorim – Não partiu dessa experiência como vocalista não. Eu decidi que queria cantar aos 10 anos. Meu primeiro trabalho com dublagem foi aos 11 ou 12 não me lembro bem e com publicidade aos 13. Mas era muito tímida, tinha vergonha de cantar sozinha, então só participava de coros. Mais tarde fiz parte de um Quinteto Vocal chamado Cor e Canto, cantamos profissionalmente por 6 anos. Foi com este grupo que trabalhei com Tavito, Sandra de Sá e num disco da Leila Pinheiro. O Cor e Canto era o vocal deles. Até que um dia, o Danilo Caymmi e o produtor Mairton Bahia ouviram uma gravação minha e disseram que eu tinha um timbre de voz muito peculiar, que minha voz era muito bonita, com um vibrato delicado e uma dinâmica muito legal, que eu devia ser solista. Que eu devia cantar sozinha até porque cantar em grupo é muito complicado em termos de administração de carreira, de desavenças e coisas e tal. Resolvi tentar e parti pra carreira solo. Tinha amadurecido não o suficiente, que cantor se faz no palco, mas achava que estava na hora e fui. Danilo me deu 2 músicas de presente pra gravar, um delas entrou no meu primeiro cd, e fez comigo meu show de estreia. Devo a ele muito, sou muito grata.

Antes de sua carreira solo você atuou durante alguns anos como back vocal de alguns nomes da MPB. Como surgiu essa oportunidade?

CA – A nata da MPB frenquentava o Bar que o Cor e Canto cantava. Naquela época ( eu cantei dos 17 aos 22 com o grupo) a noite do Rio era muito agitada, havia um grande investimento em bares com música ao vivo e o Club 1, onde a gente cantava, era point de todos os artistas. As pessoas iam la, ouviam a gente e chamava pra ser coro deles. Foi assim com Tavito e com a Sandra de Sa. Tavito na época levou a gente pra gravar um mundo de anúncios pra radio e Tv e foi ele quem botou a gente no coro da música Anima no cd Alma de Leila Pinheiro. Ficou a coisa mais linda do mundo.

Qual foi o momento em que você decidiu que era hora de abandonar a segunda voz e partir para a carreira solo?

CA – Houve algum acontecimento específico? Momento de vida mesmo, amadurecimento natural do canto e a intervenção do Danilo Caymmi como falei na resposta um. Queria mais liberdade de trabalho artístico também, escolher o próprio rumo da minha vida como cantora.

Em seu primeiro disco (“Dia branco”) você assina uma versão de uma canção do Cantor e compositor espanhol Pedro Guerra. De lá para cá não há em seus discos mais nenhum registro de canções e/ou versões de sua lavra. Há alguma razão específica para isso?

CA – Ainda não sinto que seja o momento de compor, ainda não despertou em mim essa veia. Mas vai acontecer, já estou sentindo que vai. De toda forma tenho tanta admiração pelos compositores que nós temos que gosto da ideia de ficar anos escolhendo repertorio pra gravar. Meu caminho na música não é compor é cantar. Composição seria algo bem secundário. No momento não to me preocupando com isso. Na época do Pedro Guerra, eu estava indo a Espanha com muita frequência e ouvindo muitos artistas de la. Amei o trabalho do Pedro e queria gravar mas não em espanhol então pensei: ” porque não fazer uma versão?” Pedi ajuda pra uma amiga poetisa, Ivana Barreto, e fizemos juntas a letra que foi aprovada por ele. Foi uma experiencia ótima que me aproximou de Pedro Guerra de quem gosto muito.

“Sede”, seu mais recente trabalho, apresenta característica que o assemelha, em dado momento, aos seus discos anteriores. Seja a partir da escolha de um excelente repertório ou até mesmo por conta de sua sonoridade, que perpassa pelas mais diversas regiões do país. É mais ou menos por aí a proposta do disco?

CA – É sim, mas a grande força sonora vem do Rio e Nordeste, os ritmos afro-nordestinos e a música carioca, em especial o universo Buarquiano e tudo que o influenciou que me influencia também. O som e a cultura do nordeste já estavam em mim desde que nasci, sou neta de baiana, e amo o nordeste. A música e os artistas de lá sã muito criativos, cheios de ritmos e letras em geral com um toque de sofrimento por ser mesmo uma região mais carente e sofrida. Mas o povo nordestino é forte, trabalhador, lutador e eu adoro. Alem disso, o SEDE é o resultado dos meus últimos 5 ou 6 anos de shows e gravações e do meu trabalho com o trio eu + Perinho Santana + Renato Piau, dois nordestinos que trouxeram qualidade e influencias de la pra mim. Agora somos dupla, Perinho faleceu em 2012 logo após o lançamento do cd que ele produziu com tanto esmero e cuidado. Mas minha parceria com Renato Piau cresce a cada trabalho, a cada projeto, temos muita identidade artística.

Este projeto traz, entre as inúmeras características a participação de sua filha em uma das faixas presentes no disco. Este já seria o primeiro sinal de um possível encaminhamento para a vida artística?

CA – Hahahahaha, seria. Ela canta muito bem, tem uma voz linda, senta no piano e toca sem ter tido nenhum estudo, mas acho que ela não vai seguir essa carreira não. Muita luta, muita dificuldade, muita frustração. Tem que ser muito carne de pescoço. Ate o momento ela segue a parte administrativa ligada à cultura. Cursa Administração com foco em Entretenimento na ESPM e trabalha numa rádio de ponta aqui do Rio. Temos uma empresa de produção cultural que gerencia minha carreira e outros projetos chamada Rit’me Produções Artísticas juntas. Descobri que adoro produzir.

Este disco conta com dois arranjadores, e um deles é o Perinho Santana. Pouco tempo depois do lançamento do disco o Perinho veio a falecer. Qual a marca maior (ou aquela característica que você acha mais perceptível) deixada por ele neste que foi um dos seus últimos projetos?

CA – As maiores características de Perinho são o extremo bom gosto nos arranjos, nas soluções que ele arruma pra musica, a guitarra maravilhosa que ele tocava e o suingue. Perinho era o rei do suingue. Fez esse cd com muito empenho, carinho e esmero, pensando na parte artística e na parte comercial sem perder o bom gosto. Como a gente já trabalhava juntos ha muitos anos, ele conhecia bem o meu jeito de cantar, a minha proposta como artista, o que eu queria dizer nas letras e no projeto como um todo.

Como se deu a ideia de convidar o Luiz Claudio Ramos?

CA – Em 2007 fui convidada pra produzir junto com a Guitarra Brasileira, empresa do Renato Piau, um show em homenagem a Chico Buarque. Tínhamos carta branca pra escolher quem a gente quisesse pra compor o elenco e a parte técnica. Esse show foi realizado pela OAB RJ, o presidente da OAB na epoca, Dr. Wadih Damus, era fã incondicional de Chico e do Luiz Claudio. Eu era fã do Luiz de ficar doida vendo ele no palco e o Piau já tinha trabalhado com ele. Então não tinha duvida, era ele. Ele aceitou o convite, montamos todo o lindo espetáculo que ocupou uma noite no Canecão com uma plateia gigante que lotou o lugar, 16 pessoas no palco, uma equipe enorme. Foi a coisa mais linda do mundo aquele espetáculo. Foi uma aula de produção e de canto pra mim. Você pode imaginar que quase infartei depois né? Tanto trabalho em cima de mim, mas foi excelente. Conseguimos trazer pro projeto uma parte da banda que acompanha o Chico, em especial o Wilson das Neves, baterista, e ainda botamos eu, Quarteto em Cy, Ruy Faria e Chico Faria como os interpretes. Assim conheci o Luiz e ficamos amigos. Quando fui fazer o cd, convidei pra dois arranjos e a escolha de uma musica do Chico foi inevitável já que ele arranja Chico Buarque há mais de 20 anos. Essa foi uma das minha parcerias profissionais das quais mais me orgulho. Aprendi imensamente com ele e realizei o sonho de estar pertinho de meu ídolo. Outro artista que eu era e sou louca e pirada de tanto ser fã, é Geraldo Azevedo. A vida também me deu a felicidade de ter ele no meu primeiro cd cantando comigo. Como diz o Wilson das Neves: ô sorte!!

E escolha das faixas produzidas por ele? Quais foram os critérios mais relevantes?

CA – Ele ser especialista no universo Buarquiano do qual faz parte ha mais de 20 anos e a outra foi amor a Dominguinhos mesmo que eu e ele tínhamos.

Além do palco, você também tem um trabalho paralelo a ele ao lado da Taissa Maia na questão da produção artística a partir da Ritme. Você poderia nos contar, além de como é atuar nesse lado burocrático, um pouco mais sobre a Ritme Produções Artísticas?

CA – Hoje em dia o artista tem que se produzir. Parece que virou uma exigência do mercado de uns tempos pra ca. A produção do seu próprio trabalho virou um braço do trabalho artístico. Não existe mais aquela figura do artista que fica em casa só criando, pensando, musicando, sem que ninguém possa atrapalhar… Essa figura definitivamente acabou. Hj os artistas se produzem, gravam seus próprios cds, tem estúdios, escritórios, fazem seus próprios acertos de distribuição…enfim. Nesse contexto surgiu a Ritme Produções Artísticas, minha empresa de produção cultural em sociedade com a Taissa Maia. Com o tempo a gente foi diversificando e atendendo outros artistas, principalmente na parte de consultoria de novos trabalhos e projetos especiais. Hoje a Ritme tem duas outras empresas parceiras que se associam quando necessário: a Guitarra Brasileira de Renato Piau e a SPPS Marketing. Eu também adoro produzir. E o artista que se produz e gerencia sua própria carreira tem um controle muito maior sobre o seu trabalho.

Em sua discografia há longos hiatos de um projeto para o outro. Você pretende manter-se neste contexto ou aqueles que acompanham a sua carreira já podem sonhar com algo novo em um intervalo de tempo menos que os sete anos entre o álbum “…Para entender as estrelas” e “Sede”?

CA – Hahahahah não sei. O nome desse hiato, amigo, é grana. Eu produzo meus discos e negocio depois. Sem grana não tem cd. De toda forma sinto que um cd precisa de um tempo grande pra ser trabalhado e pra vir o caminho artístico natural do disco seguinte entende? Não sei se eu conseguiria fazer um por ano, não sei se eu teria demanda artística pra isso. O tempo grande é em função de poder também trabalhar um cd por uns 3 anos ou 4 e levar tempo pra pensar no projeto seguinte e na escolha de repertorio que no meu caso demora um pouco, porque garimpo muito com compositores novos, a nova safra entende? Testo muito novas canções no show também. Por enquanto, algumas ideias pro novo trabalho ja estão começando a pintar. Vai ter novidade pra 2015. Com certeza meu novo clipe sairá no ano que vem. Fora projetos interessantes que tenho com outros artistas, Angela RoRo e Renato Piau são os mais presentes. Gostaria muito também de realizar algum show com Vander Lee, meu amigo ha anos. Tenho dado entrada em editais. Aguardem novidades. E o novo clipe vai chegar. Só gostaria de concluir dizendo que tenho a honra de trabalhar com gente muito experiente e que só aprendo com eles a cada trabalho. Aprendo também a cada projeto bem sucedido e a cada frustração. Essa é a maior felicidade de fazer parte da MPB, conhecer e trabalhar com tantos talentos, famosos ou não, arranjadores, produtores musicais, cantores, músicos e técnicos de alto nível. Sou abençoada nesse sentido. E aproveito também pra dizer que tem muita coisa boa na MPB, muita mesmo, que não aparece porque a grande mídia não deixa. Somos ainda o país que faz uma das melhores músicas do mundo. E temos grandes compositores novos e cantores novos também. Brigada Bruno, adorei falar contigo.


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CLAUDIA AMORIM SACIA SUA SEDE EM PROFÍCUAS FONTES

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Respaldada pelos músicos Renato Piau e Perinho Santana, Claudia Amorim bebe as mais límpidas poesias e melodias nas fontes inesgotáveis de nossa música

Neste país de dimensões continentais não é de se estranhar que muitos talentos não cheguem ao conhecimento do grande público de imediato. Em meio a tanta banalidade existente em nossa música ainda há quem prefira não se render a banalidade e busca sempre seguir pelos caminhos mais tortuosos em pró de sua satisfação pessoal e musical. Apesar das agruras, neste contexto é possível encontrar novos nomes que utilizam das mais variadas formas para destoarem-se de modo positivo dentro desta cisão bastante evidente em que se encontra a música brasileira da atualidade. Nosso espaço preza por apresentar nomes que trazem em sua trajetória esta característica de modo bastante evidente em sua estrada como é o caso desta artista hoje em questão: Claudia Amorim. Com uma carreira iniciada ainda na infância gravando jingles e spots para rádio e tv, além de programas televisivos como “O clube do Mickey”, a artista por um longo período foi back vocal de nomes como Tavito e Sandra de Sá, só aventurando-se em carreira solo quando conheceu o cantor, instrumentista e compositor Danilo Caymmi, que a presenteou com uma composição e com ela dividiu o palco, participando de sua estreia como solista. Neste longo percurso no qual a artista vem seguindo seu canto se viu longe de amarras e gêneros, e desta não delimitação surgiu uma cantora dinâmica e impregnada de boa música, sobretudo de música brasileira. Aguerrida, a cantora procura não render-se a desleal conjuntura que embate, pelo contrário, em seu mais recente trabalho ela procura levar a sua proposta sonora ao mundo, ideia esta que o próprio projeto gráfico do disco deixa transparecer quando apresenta em sua capa uma garrafa contendo uma mensagem.

Sua carreira fonográfica teve início em 1999 quando participou ao lado de nomes como Bernardo Lobo, Marcos Assumpção, Zeca Baleiro, Zé Ricardo, Pedro Mariano entre outros na série “Novo canto” lançada pela Dabliú Discos. Na ocasião a artista interpretava a faixa que viria batizar o seu primeiro álbum solo um ano depois: “Dia branco”. Lançado em 2000, o disco além do clássico composto por Renato Rocha e Geraldo Azevedo (que participa do álbum dividindo os vocais com a cantora na faixa “Retirante”) , traz em seu bojo mais oito faixas e a participação especial de nomes como Danilo Caymmi e Delia Fisher sob a batuta do conceituado Lui Coimbra e da Patrícia Vergara. Depois de um hiato de seis anos a artista volta ao mercado fonográfico com “… Para entender as estrelas”, um disco produzido em Natal (RN) e no Rio de Janeiro, trazendo novamente a presença de Geraldo Azevedo assinando duas faixas: “América futura” (escrita a quatro mãos com o poeta e compositor Capinam) e “Inclinações musicais” (outra parceria entre o artista pernambucano e Renato Rocha) e nomes como Guilherme Arantes (“Cuide-se bem”), Caetano Veloso (“Saudosismo”), Vinicius de Moraes (“Sem mais adeus”), Tom Jobim e Chico Buarque (“Sabiá”) entre outros, reiterando o seu compromisso com a música brasileira de qualidade assim como também com a beleza estética a qual o seu canto condicionou-se neste período de afastamento dos estúdios de gravação. Essa condição a conduziu a participação do Prêmio da Música Brasileira em 2007 como um dos álbuns pré-selecionados para a edição daquele ano. Agora, depois de outro intervalo significativo, a artista vem apresentando mais um projeto fonográfico. Trata-se do álbum “Sede”, disco ao qual vamos nos prender e que mostra mais uma vez que a música apresentada pela artista traz, desde o início, em seu bojo uma característica peculiar: sua música não faz concessão à qualidade.

Este terceiro álbum continua a retratar a sonoridade existente no Brasil de modo cada vez mais abrangente. Lançado pelo selo Guitarra brasileira (de propriedade do músico e compositor Renato Piau) e distribuído pela Tratore, o disco parte de um seleto repertório composto por nomes que vão do panteão da MPB a emergentes compositores da nova geração. Com doze faixas, o álbum produzido e arranjado pelo saudoso músico Perinho Santana e pelo violonista e compositor Luiz Claudio Ramos apresenta emergentes compositores a exemplo do capixaba Rud Jardim (autor do afoxé “Zabelê”) e do potiguar Manassés Campos, que assina “Ai que saudade.” Esses dois autores trazem no bojo de suas composições características bem marcantes na discografia da artista a partir de sons imbuídos de África e nordestinidade. Outros nomes presentes dessa nova lavra de compositores da música brasileira são Zeca Costa (que traz “Meu lado esquerdo”), Marco Jabu (autor de “Sonhoso”, faixa que conta com a participação especial da filha da artista), Mário Seve e Mauro Aguiar (com “Pandemia”). O disco ainda apresenta faixas assinadas porVander Lee (“Do Brasil”), Simone Guimarães (“Água funda”), entre outros. Nomes expressivos de nossa música também fazem-se presentes assinando canções como “Você vai me seguir”, composta para a peça Calabar, o elogio da traição de autoria da dupla Chico Buarque e Ruy Guerra; Sandra de Sá (com “Demônio colorido”) e a dupla nordestina Anastácia e Dominguinhos que assinam “Tenho sede”, tema bastante pertinente com a temática do disco. Com cores vivas e bastante, digamos, solares, o projeto gráfico do álbum vem assinado por Luciana Lumyx, que soube muito bem traduzir de modo genuíno a proposta estética e sonora do álbum.

Em uma espécie de bastião do apuro estético em defesa da brasilidade em sua melhor potência, os trabalhos elaborados por Cláudia são bastante abrangentes. Mapeiam a sonoridade as mais distintas sonoridades existentes a partir de conceituados e talentosos compositores a partir dos mais distintos gêneros existentes em nosso país como se é possível analisar a partir de sua curta discografia. No entanto, esse abarcamento não a faz perder uma das características mais evidentes em seu trabalho: uma coerente (e porque não dizer condizente) qualidade muito bem alicerçada em sua formação musical. A artista interpreta um Brasil uníssono, sem distinção. Sua sede é de sol, de mar, de caatinga, de litoral e sertão. Sua sede é de música brasileira sem delimitações e rótulos, mas repleta de exigências para saciá-la. O que a conduz a esta condição são os mais diversos adornos existentes em nosso cancioneiro nesta ânsia de versos e melodias. Bebendo da fonte dos grandes nomes da nossa música e de promissores talentos, Cláudia Amorim mostra-se aglutinadora e um forte elo entre a tradição e a contemporaneidade através das arestas que seu canto competentemente lapida. Apesar da artista perpassar pelas mais diversas influências existentes na construção de sua sonoridade sem delimitar-se, mostra-se perceptível um forte elo entre seus projetos e a música nordestina. Seja músico ou compositor, a região faz-se sempre presente nos projetos da carioca. Sem fazer concessão, Cláudia mostra-se uma hábil competente intérprete ao conseguir fazer-se esse vigoroso elo. Nesta ânsia, só é possível afirmar uma coisas: que, ao se tratar do talento e da sede desta artista, não há fonte, por mais inesgotável que seja, que consiga saciar, banhar ou até mesmo mensurar aquilo que a constitui.

Fica para os amigos leitores duas canções presente neste mais recente trabalho da artista. A primeira trata-se do clássico “Tenha sede“, de autoria de Anastácia e do saudoso Dominguinhos:

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A segunda é de autoria de Chico Buarque e Ruy Guerra. Trata-se de “Você vai me seguir“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 17

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Em uma das últimas postagem sobre as histórias e estórias de nossa música eu trouxe Alaíde Costa e abordei um pouco sobre o início de sua carreira e as dificuldades que a cantora teve para se firmar no mercado fonográfico brasileiro. Hoje trago novamente o nome desta cantora, que sem dúvida alguma foi um dos nomes femininos fundamentais e mais importantes para a divulgação e consolidação do movimento da Bossa Nova a partir de antológicas gravações como “Estrada Branca” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), “Minha Saudade” (João Donato e João Gilberto) e “Lobo Bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli). A sua relação com o movimento bossa novista é tão intenso que começa a apresentar-se em festivais temáticos Brasil afora. Após se apresentar-se em um desses eventos, o 1º Festival de Bossa Nova realizado na capital de São Paulo, a cantora resolve transferir-se definitivamente para São Paulo. Neste mesmo período conquista ao lado de seu amigo e parceiro Geraldo Vandré o comando do programa “No Balanço do Samba” na televisão Tupy (SP).

Na década de 1960 tem a oportunidade de lançar alguns LP’s, dentre eles o “Alaíde, Canta Suavemente” e “Alaíde, Jóia Moderna” (ambos pela RCA Victor). Este segundo álbum, datado de 1961, tem um fato curioso: nele se encontram os primeiros arranjos gravados de Baden Powell. Em 1963 lança o LP “Afinal … Alaíde Costa” pela gravadora Audio Fidelity , e em 1964, ela lança o seu maior sucesso, o clássico “Onde está Você” (Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini). Esta canção é responsável por momentos inesquecíveis na carreira da artista como uma apresentação ainda na década de 1960 no palco do Teatro Paramount (SP). Lá a artista obteve uma verdadeira consagração popular, sendo delirantemente aplaudida no meio da interpretação desta canção que ainda hoje, meio século depois, é uma das que não pode faltar nas apresentações da artista até os dias atuais. O sucesso da composição de Oscar e Luvercy oportunizou Alaíde assinar um contrato com a TV Record e participar de todos os seus principais programas, Festivais, shows e viagens.

Apesar do estrondoso sucesso, no final dos anos de 1960 a cantora em dado momento distancia-se dos holofotes, só retornando ao lado do cantor e compositor Milton Nascimento em 1972 quando volta a sua antiga gravadora Odeon, para participação especial no antológico álbum “Clube da Esquina”, onde, ambos interpretam em dueto o samba “Me deixa em Paz” (Monsueto e Airton Amorim), que permitiu ao grande público reencontrar-se com a querida intérprete que logo em seguida teve que se retirar novamente da cena artística para se submeter a duas cirurgias, para correção de seus problemas auditivos. Ao retornar a cena artística Alaíde protagoniza alguns antológicos álbuns de sua discografia como o lançado em 1982 ao lado de Hermínio Bello de Carvalho. Batizado de “Águas Vivas – Alaíde Costa, canta Hermínio Bello de Carvalho”, o disco saiu de modo independente. Este mesmo disco anos depois ganharia uma versão em CD lançada na França e só anos depois ganharia uma edição digital também aqui no Brasil pela Warner.

Apesar de sua escassa discografia se comparada a quantidade de anos que tem de carreira, Alaíde traz entre os títulos lançados verdadeiras obras primas da discografia nacional como são os casos dos discos “Amiga de Verdade”, lançado em 1988 e que conta com as participações de grandes nomes da MPB Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Paulinho da Viola, MPB4, dentre outros; o álbum “Alaíde Costa & João Carlos Assis Brasil” (que acabou por render dois volumes), o CD “Rasguei a minha Fantasia”, o CD “Bossa Nova Legends”, “Tudo que o Tempo me Deixou” (disco que lhe valeu em 2006 a indicação ao Grammy Latino, na categoria de “Melhor CD Romântico”), “Canções de Alaíde” e agora, recentemente e ao lado do cantor e compositor Gonzaga Leal, o álbum “Porcelana“, disco que de certo modo comemora os oitenta anos da cantora e compositora.

Fica aqui para deleite do público leitor duas canções presentes no álbum “Canções de Alaíde“, lançado em 2014.

A primeira canção trata-se de “Canção do breve amor“, de autoria de Alaíde com Geraldo Vandré:

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A segunda canção, uma parceria entre Alaíde e Antonio Carlos Jobim, trata-se de “Você é amor”:

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QUE SE VOLTEM NOVAMENTE OS HOLOFOTES

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Nome presente em diversas trilhas sonoras das dramaturgias nacionais ao longo dos anos 1990, Edmon Costa tenta retomar o espaço alcançado a duas décadas atrás

Há quem julgue a década de 1990 como uma década perdida dentro da música popular brasileira devido à enxurrada de produtos comercialmente descartáveis com que as grandes gravadoras preenchiam as prateleiras as seções de cd’s das grandes lojas de departamento Brasil afora. Diferente das décadas anteriores onde a música produzida pelos artistas em evidências faziam-se, por suas qualidades, perenes; a grande maioria da sonoridade tão executada e propagada na última década do século XX não tinha fôlego para resistir (raras as exceções) por mais que alguns semestres. No entanto, pode-se dizer quem nem tudo foi perdido. Expressivos nomes surgiram nessa leva. Uns permanecem ainda hoje escrevendo a história da música de qualidade como é o caso de nomes como Chico César, Zeca Baleiro e até mesmo Lenine, que apesar de alguns projetos fonográficos na década anterior só a partir dos anos de 1990 firmou-se como cantor e compositor. Outros nomes, apesar do talento, não tiveram a mesma sorte. Acabaram sem chance ao passar pelo clivo de uma industria cultural tacanha que leva em consideração ao avaliar determinados trabalhos características que atendem mais a expectativa do mercado do que necessariamente dos amante da boa música como é o caso do artista aqui em questão: Edmon Costa, cantor que ao longo dos anos de 1990 teve seu trabalho conhecido pelo grande público a partir da Rede Globo nas trilhas sonoras de suas novelas. De 1991 à 1994, o músico teve seu nome inserido em diversos folhetins, dentre os quais “O dono do mundo” (1991), “Olho no olho” (1993), “Quatro por quatro” (1994) e “Cara e coroa” (1995). Além dessa façanha, Edmon também chegou a participar de outros programas da grade da emissora carioca, a exemplo do extinto “Planeta Xuxa” e do show anual “Criança Esperança”. Vale ressaltar ainda a sua participação no coral que cantou junto com Stevie Wonder em um a das apresentações do músico americano aqui em nosso país ainda nos anos 90.

Com essa bagagem e talento é de se estranhar a ausência do Edmon Costa na crista da onda de nossa música popular brasileira. O que consequentemente acaba gerando uma incoerência no cenário musical nacional, uma vez que atesta-se de modo veemente que não basta o talento e é preciso algo mais que o sucesso momentâneo para manter-se em evidência. Nascido no Rio de Janeiro em meio ao universo protestante, o pequeno Edmon teve seu destino traçado de modo semelhante a alguns dos grandes nomes do soul mundial. Rapidamente inserido neste cenário, o futuro cantor logo estava dando os seus primeiros passos na música cantando em coros gospeis. Daí em diante foi galgando espaços cada vez mais significativos a partir de trabalhos diversos, dentre os quais a sua participação em bandas como Fanzinee Sindicato do Soul. Na década de 1990 surge a oportunidade de gravar o seu primeiro álbum solo via Sony Music. O destaque deste debute fonográfico foi a canção “Coração de gelo”, faixa também presente na novela “O dono do Mundo” como tema do personagem Herculano, interpretado pelo ator Stênio Garcia. Já o seu segundo disco saiu pela Polygram tendo como grande destaque para duas canções: “Toda Noite” e “Tocar você”, a primeira tema musical presente em “Olho no olho”, teledramaturgia global exibida às 19 horas de 6 de setembro de 1993 à 8 de abril de 1994; já a segunda foi escolhida como a canção tema de abertura da novela “Cara ou coroa”, outra produção da Rede Globo exibida no horário das 19 horas entre outubro de 1994 e julho do ano seguinte. De lá pra cá chegaram ao mercado mais três álbuns contendo a assinatura de Edmon e que reforçam o seu talento a partir da escolha de um seleto repertório que abrande alguns dos maiores da música.

Recentemente, em busca de uma nova oportunidade de levar a sua música ao público de norte ao sul do país, o o artista subiu ao palco do “The voice Brasil” cantando a clássica “Samba de verão”, de autoria dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. A partir de uma peculiar interpretação conseguiu chamar a atenção de dois dos quatro jurados participantes. Edmon conseguiu “virar a cadeira” de Lulu Santos e Claudia Leitte. Sem contar o baiano Carlinhos Brown, que arrependeu-se de não ter virado a sua cadeira para o artista carioca: “Eu me arrependi. É uma das vozes mais surpreendentes”. Apesar de não lograr êxito na edição a qual participou a presença do artista carioca no programa acabou tornando-o lembrado novamente e isso, é claro, acaba por gerar novas possibilidades abrindo-o portas que acabaram fechando-se nos últimos anos devido justamente a essa falta de oportunidade e abrangência.

Atualmente o artista vem apresentando o show “Do samba ao soul”, onde atende aos mais distintos gostos musicais procurando pautar-se sempre na coerência e qualidade das canções escolhidas. Com um repertório que abrange nomes de destaque dentro da música nacional e internacional, o artista carioca vem mostrando toda a sua versatilidade, sensibilidade e talento a partir de um repertório bastante diversificado que busca apresentar nomes como o dos grupos Brilho (“Noite do prazer”) e Banda Black Rio (“Maria Fumaça”); Cassiano (“Coleção”), Djavan (“Flor de lís” e “Samurai”), Stevie Wonder (“Superstition”) entre outros destaques do samba e do soul. Mesmo não tendo levado o título da edição a qual participou, Edmon pode considerar-se um vitorioso por ter tido a oportunidade de voltar à mídia assim como também aos olhos dos saudosos fãs que não o viam há tempos. Esta nova chance também possibilitou ao seu trabalho a oportunidade de chegar ao conhecimento das novas gerações, plantando através do seu talento a tal semente que corre-se o risco de brotar a qualquer momento. Sem sombra de dúvidas voltar a mídia através de um programa televisivo que tem uma média de audiência entre 17 e 22 pontos (a julgar pela última temporada) renova a esperança de Edmon Sebastião Silva Costa ou simplesmente Edmon Costa de reviver os áureos tempos vividos no início dos anos de 1990 onde sua voz e talento abarcava os mais distintos corações de norte ao sul do país.

Aos saudosista leitores amigos deixo aqui para audição uma das canções gravadas por Edmon Costa ao longo dos anos de 1990 e que fez parte da trilha sonora da novela “Quatro por Quatro”, trata-se da canção “Se eu me apaixonar”:

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O ANTROPOFÁGICO CLÁUDIO BRASIL

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Performático, o cantor e compositor, Cláudio Brasil metamorfoseia-se entre grandes nomes do rock nacional, Caetano Veloso e uma forte e marcante presença de palco

Quando a Tropicália surgiu no final da década de 1960 vinha apresentando uma proposta estética bastante inovadora para a época. Sob influência das mais diversas correntes artísticas o movimento aglutinou distintas fontes para a sua formação seguindo sob influência das correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira e a partir daí misturando manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais. O movimento de fato chegou com uma proposta estética e vanguardista ao fundir as mais diversas influências. A tropicália foi um movimento iconoclasta, que almejava a música sem rótulos e fronteiras. Sua vontade era fundir as diversas vertentes da canção popular, da música brega à de protesto em uma verdadeira festa estética. E essa fusão não apenas marcou uma época, mas toda uma geração de músicos que viria posteriormente. A chamada MPB nunca mais seria a mesma após tal acontecimento.

Bebendo da fonte de um dos principais afluentes desse movimento, o cantor e compositor Cláudio Brasilvem em ascendente carreira em Pernambuco. Com um timbre vocal que assemelha-se ao do ídoloCaetano Veloso, o artista iniciou a sua carreira na década de 1990 na capital pernambucana ao formar a banda de pop rock Esquinas Paralelas. Essa banda contava com a adesão do irmão e de um amigo de Cláudio, chegando inclusive a gravar em 1993, de forma independente, o álbum “Negro pode ser também teu canto.” À época do lançamento a imprensa pernambucana destacou o trabalho como um dos precursores da cena musical local enfatizando o modo independente como o álbum havia sido feito.

Na década em que a música sertaneja e o axé ganharia uma parcela significativa do mercado fonográfico nacional, o Esquinas Paralelas aproveitou a onda do momento e passou a tocar em trios elétricos e a viajar por todo Nordeste. Neste verdadeiro laboratório, o músico passou uma década que o fez quebrar estigmas e rótulos a partir do ecletismo ao qual foi submetido nessa época. Essa experiência entre axés e micaretas fez Cláudio desenvolver uma versatilidade sonora que hoje lhe é peculiar e que foi extremamente relevante para a sua trajetória musical a partir de experiências como a sua incursão em projetos como a banda Dionísio (trabalho onde era mesclado rock’n’roll e teatro de uma forma inusitada) e a Bacamarte (projeto que mesclava poesia nordestina com uma pegada punk hard core) entre outros projetos solos.

Em 2007 seu trabalho ganha uma visibilidade maior quando resolve atender aos apelos dos amigos e fãs e começa um trabalho voltado para o repertório de Veloso. Sua voz similar ao do grande ídolo e as fontes das quais bebeu acabou gerando um novo modo de interpretar a obra do já multifacetado Caetano. Capitaneando esse projeto, Cláudio fundiu a MPB ao rock, e deu uma nova cara ao repertório do artista baiano. O próprio Caetano reconheceu essa inovação quando, no carnaval de 2009, assistiu ao espetáculo do grupo chegando inclusive a dividir o palco com Cláudio em uma das apresentações no Recife e fez elogiosos comentários acerca dessa reconstrução de sua obra. O magnetismo que o grupo exercia sobre o público, as performances inusitadas do vocalista e a híbrida sonoridade foram características responsáveis para que as portas abrissem-se plenamente na noite recifense. Dentre os fãs declarados da banda nomes como o saudoso produtor e compositor Carlos Fernando e o escritor Jomard Muniz de Brito. A banda, deixou como legado um DVD gravado no Pátio de São Pedro, um dos pontos turístico e artístico do Recife.

A inquietude de Cláudio no palco traduz um pouco da personalidade do artista pernambucano. Envolto em diversos projetos, o cantor e compositor conduz a banda Maior Abandonado e Tio Mau Também capitaneia o grupo Os Caetanos, grupo acaba de lançar o primeiro DVD gravado recentemente na Rua da Moeda, no Recife Antigo. Neste registro áudio visual, além de abordar a obra do autor de clássicos da MPB como Sampa, Leãozinho e Qualquer Coisa, o DVD apresenta a inédita Tudo é permitido. Sem contar, que o artista ainda conduz uma coesa carreira solo de modo bastante prodigioso como se é possível atestar a partir, por exemplo, do seu álbum autoral Transe, disco que traz dez faixas de sua lavra. Gravado no Recife o disco tem como tema central o amor, este mesmo sentimento que Cláudio vem dedicando à música ao longo destas últimas duas décadas e o revigora para enfrentar todos os estorvos que surgem ao longo de sua trajetória. Mesmo não sabendo que não é fácil, obstinadamente Cláudio não deixa-se abater e vem coerentemente conduzindo sua trajetória. A luta é grande, mas o artista pernambucano busca forças e coragem em versos e melodias como a que certa vez escreveu o seu grande ídolo: “Por isso uma força me leva a cantar Por isso é que eu canto, não posso parar.”

Ao longo de 2015 o artista lançou o álbum “Tudo é permitido“, disco que contém além de composições próprias, incursões pela obra do tão reverenciado Caetano Veloso. Para audição dos amigos leitores fica aqui então duas canções deste disco (ambas de autoria de Caetano Veloso).

A primeira trata-se de “Nosso estranho amor“:

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A segunda faixa trata-se de “Tigresa“, canção gravada pelo autor no álbum “Bicho”, de 1977:

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MARCOS FREDERICO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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O músico mineiro volta ao nosso espaço para abordar diversos temas, dentre eles a sua predileção por instrumentos de corda e o seu mais recente projeto fonográfico intitulado “Entoando Loas” nesta informal conversa

Hoje temos de volta ao nosso espaço o virtuoso músico e compositor mineiro Marcos Frederico para uma conversa exclusiva sobre projetos, carreira e sua biografia musical. Natural de Belo Horizonte o bandolinista, além de dominar outros instrumentos atua também como produtor musical a partir do estúdio que possui, o Liquidificador Estúdio de Áudio como foi possível conferir a partir da matéria “ENTRE A CONTEMPORANEIDADE E A TRADIÇÃO UM BANDOLIM ENTOA LOAS”. De modo solícito, Marcos aporta desta vez em nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde fala, dentre outras coisas, de sua carreira internacional, a possibilidade de um registro ao vivo e sobre a sua predileção e envolvimento com instrumentos de cordas desde a infância. Uma imperdível leitura e oportunidade ímpar para quem quer conhecer mais um pouco sobre este novo talento da música instrumental brasileira. Excelente leitura!

Como se deu o seu envolvimento com o violão e o bandolim?

Marcos Frederico – Comecei a tocar violão aos 14 anos, foi um presente do meu pai. Depois estudei no Palácio das Artes e fiz aulas com quem eu considero meu grande mestre, o cara que abriu minha cabeça: Celso Moreira. Bandolim veio em seguida, mas de uma forma autodidata. Como já tinha uma boa digitação, o processo de aprendizado foi um pouco mais fácil. Peguei um bandolim emprestado com um amigo para gravar umas frases em 2 canções e acabei me apegando seriamente com o instrumento. Isso há 12 anos.

Por que a predileção por instrumentos de corda?

MF – Desde criança, sou fascinado por guitarras. E eu sabia que ter um violão poderia ser o primeiro passo pra conseguir uma guitarra. Aí vem aquela coisa de digitação. Você pega um baixo, um cavaco, um bandolim e começa a brincar. O som vai ficando legal… Mas quero muito tocar piano um dia. E assim passar pro acordeon, etc..

Levando em consideração que o bandolim é um instrumento de menor difusão no meio musical brasileiro qual foi a reação dos mais próximos quando você optou por ele?

MF – Apesar de pouco difundido, é um instrumento muito respeitado. Tanto pela história, quanto pela beleza do timbre. As pessoas sempre me apoiaram muito na escolha.

Em nosso país há um paradoxo muito evidente em relação a música instrumental de boa qualidade aqui produzida. Nos mais distintos festivais voltados para este segmento sempre há um público cativo e expressivo, no entanto os espaços para a divulgação desta mesma música são cada vez menores em todos os canais. Como você avalia esse paradoxo?

MF – Na verdade a nossa música instrumental nunca recebeu o devido reconhecimento. Portanto, isso não me espanta nem um pouco. Estamos acostumados… Se essa falta de divulgação afetasse a nossa produção não haveria essa efervescência atual. Devemos pensar nesse público cativo e expressivo, criando novos canais. Nesse mercado, além de compor e tocar, temos que ter uma criatividade extra para administrar nossa carreira. No meu caso, uma ideia que vem dando certo e é uma excelente saída para a música instrumental é o áudio visual.

Você tem em seu currículo três álbuns gravados: “Sinuca tropical” (2007), “Onze” (2011) e agora “Entoando loas”. O que diferencia este seu mais novo projeto dos demais?

MF – Eu acredito que o Entoando Loas é uma continuação do Onze. É um disco feito imediatamente na sequência. Existe uma distância entre esses dois e o Sinuca Tropical, que na verdade é um apanhado de gravações distintas, quase uma coletânea. Tem a evolução natural também, como compositor e instrumentista.

“Entoando loas” é um projeto essencialmente autoral. Você poderia nos contar como é o seu processo de composição?

MF – Não tenho regra. Já fiz música passeando com meu cachorro, música por correspondência, dirigindo na estrada, andando no centro, dormindo, às vezes com um instrumento na mão, às vezes sem… A criação não tem hora. Se você programa demais pode dar errado.

Neste mais recente projeto há presente duas faixas que foram registradas ao vivo no teatro da biblioteca pública de Belo Horizonte e que contam com a participação do francês Nicolas Krassik. Esses registros ao vivo podem ser considerado o cerne de algum projeto posterior? Você tem pretensões de algum projeto ao vivo?

MF – Recentemente tive uma proposta de fazer um ao vivo, mas nada concreto ainda. É diferente de estúdio. É ali, na cara. Nunca tinha pensado nisso, mas agora essa vontade existe. Estou produzindo 3 álbuns autorais de estúdio simultaneamente para 2016. Vamos ver onde entraria o ao vivo.

Como tem caminhado a sua carreira internacional? (Uma vez que, desde o lançamento de “Sinuca”, seu primeiro álbum, você mantém apresentações na Europa e em países da América do Sul, como a Argentina.)

MF – Em abril desse ano fiz duas apresentações em Paris e tenho convites para 2016, ainda sem confirmação. Mas é uma carreira possível e muito interessante, uma vez que eles adoram nossa música.

Você também atua na produção dos seus trabalhos e hoje mais ainda a partir do Liquidificador Estúdio de Áudio indo da inspiração a transpiração. Você pretende lançar novos nomes a partir do seu estúdio?

MF – Você acaba de me dar uma grande ideia! Vamos ver se consigo conciliar.


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ENTRE A CONTEMPORANEIDADE E A TRADIÇÃO, UM BANDOLIM ENTOA LOAS

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Em álbum essencialmente autoral, o músico Marcos Frederico desnuda-se de modo pleno em seu terceiro projeto

Disseminado por Vilvaldi em Veneza, na Itália, ao longo do século XVII, o bandolim desembarcou no Brasil vindo de Portugal ao final do século XVIII e se popularizou no país a partir, principalmente do choro ao longo do século XIX. Instrumento com oito cordas agrupadas de duas em duas, o bandolim encontrou em nosso país um fértil campo para a difusão de sua envolvente e inebriante sonoridade a partir de exímios executores r grandes solistas. Vários foram os nomes que corroboraram para que o instrumento ganhasse projeção no meio musical brasileiro e um dos mais importantes para isso foi sem dúvida o do carioca Jacob Pick Bittencourt e o do pernambucano Luperce Miranda. Pioneiro, este nos anos de 1920 integrou o grupo Turunas da Mauricéia, e na década seguinte criou o regional que levava seu nome atuando junto a ele em rádios, na gravadora Parlophon e acompanhando nomes expressivos de música popular da época tal qual Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis. Já o segundo por ter tanta afinidade com o instrumento que executava que acabou por adotá-lo em seu nome artístico tornando-se Jacob do Bandolim. Responsável pela autoria de choros como Noites Cariocas, Doce de Coco, e Receita de Samba, Jacob ganhou visibilidade não apenas a partir de suas composições e exímias execuções ao instrumento, mas também por ser responsável pela criação do regional Época de ouro, grupo de fundamental importância para a música popular brasileira e responsável pela defesa do choro ao longo dos anos de 1960, época esta que a bossa nova reinava quase que modo absoluto. De lá para cá o instrumentista fez escola e deixou além do legado musical, uma influência que paira e ainda permanecerá de modo perene dentro da música brasileira.

Desde então a música popular veio ganhando cada vez mais adeptos do instrumento, onde alguns, nos últimos anos, ganharam destaque como é o caso do instrumentista e compositor Hamilton de Holanda e do artista que hoje aporta em nosso espaço para deleite do público leitor: o mineiro Marcos Frederico. Natural de Belo Horizonte, além de compositor, o bandolinista integra o grupo Siricotico, é produtor musical e também domina outros instrumentos de corda como o violão, onde estudou-o junto com teoria musical na Fundação Clóvis Salgado, em Minas Gerais. Em 2007, o músico lançou seu primeiro projeto fonográfico. Lançado também no exterior com o apoio do Clube do Choro de Paris, o disco ganhou o título de “Sinuca tropical” e conta com a participação de alguns nomes do clube do choro de Belo Horizonte como o do jurista e compositor Carlos Walter e da acordeonista Elisa Behrens na execução de faixas como “Beldade” e “Deixa chorar”, composições da lavra do artista. Em dezembro de 2011 lançou o seu segundo álbum denominado de “Onze”, que foi gravado estúdio Liquidificador e conta com 11 faixas autorais incluindo aí parcerias com Gabriel Guedes, Gustavo Maguá, Rômulo Marques entre outros. O disco teve seu lançamento no Museu de Artes da Pampulha em Belo Horizonte e foi apresentado não apenas no Brasil como também no Exterior. Na biografia do artista ainda contabiliza-se prêmios como o de melhor instrumentista na décima edição do Prêmio BDMG Instrumental em 2010 e sua participação em alguns dos mais importantes eventos de música existentes não apenas no Brasil, assim como também em pairagens internacionais como a 16ª Cúpula de Mercocidades em Montevidéu; o 8º Prêmio Nabor Pires Camargo Instrumentista, em Indaiatuba (SP); o Show do Centenário de Godofredo Guedes; o 9° Festival Tudo é Jazz em Ouro Preto; o Festival Musique Du Monde, em Paris, entre outros.

Recentemente chegou ao mercado o seu terceiro álbum intitulado “Entoando Loas”, mais um disco marcado por adjetivos que pontuam de modo bastante significativo a carreira do músico mineiro nos mais diversos aspectos. Das oito faixas que constituem o disco, algumas foram selecionadas para a trilha sonora da série “Museus de Minas” da Rede Minas de TV. Gravado em grande parte no Liquidificador Estúdio, o disco apresenta duas faixas que foram registradas ao vivo no teatro da biblioteca pública de Belo Horizonte com a participação do violinista francês radicado no Brasil Nicolas Krassik. Trazendo em sua essência sonora Minas Gerais, “Entoando Loas” traz em sua ficha técnica nomes como o de Flávio Henrique (acordeon, piano e acordeon), Carlos Walter (violão), Dado Prates (flauta), Felipe José (violoncelo), Rafael Martini (piano), Felipe Bastos (bateria), Aloízio Horta (baixo), Daniel Pantoja (flauta). Ricardo Acácio (percussão) e Thiago Delegado (violão). O projeto gráfico ficou a cargo de Júlio Abreu e da Leonora Weissmann e os responsáveis pelas fotografias foi Élcio Paraíso, neste álbum que, segundo o próprio artista, trata-se de uma celebração à vida.

Já estando presente na lista dos mais expressivos instrumentistas da música brasileira de sua geração,Marcos Frederico funde a tradição da música mineira com a contemporaneidade; conseguindo mesclar de modo bastante harmonioso todas as influências que permeiam o seu trabalho com a originalidade que lhe é peculiar. Essas características acabam por embeber o trabalho do músico mineiro com adjetivos bastante fortes que, de certo modo, imbuem a sua produção musical com uma original e singular identidade sonora. A música sem dúvida pulsa forte em sua veia. Da mais simplória às cavas, a boa música encontra em seu corpo um porto seguro e permite-se transportar em acordes e melodias por intermédio dos ágeis movimentos de seus dedos em números que emanam leveza e compromisso estético. Expressando-se de modo virtuoso e original, Marcos mostra-se despretensiosamente hábil e capaz de transitar pelos mais diversos gêneros que aventura-se. Com propriedade, seu instrumento o conduz (e consequentemente também nos leva) as mais diversas pairagens sonoras existentes em execuções muito carregadas de pessoalidade e leveza. Uma leveza quase pueril e que acaba por nos envolver e nos encantar de modo inebriante. Tais características acaba gerando uma certa expectativa em torno desse jovem artista que parece não incomodar-se com tal responsabilidade, pelo contrário, tal condição acaba oportunizando-o a uma produção cada vez maior e diversificada, indo das trilhas aos jingles (como o que lhe deu o primeiro lugar no concurso de da rádio UFMG Educativa). Parece que o contexto de fato o é favorável, pois tal responsabilidade o artista parece tirar de letra, ou melhor, tirar em notas musicais.

Para que os amigos leitores tenham a oportunidade de ouvir o artista trago aqui uma das canções presentes no set list de sua apresentação no programa Instrumental Sesc Brasil. Trata-se de uma composição de sua autoria intitulada de “Fado Nordestino“. Fica aqui meus votos de um excelente 2016 para aqueles que nos acompanharam ao longo deste ano. Abraços sonoros!

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CARMEM DI NOVIC – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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A virtuosa instrumentista volta ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde aborda diversos temas referentes a sua biografia musical e carreira

Com profunda afinidade com o instrumento que escolheu para exercer o seu ofício, Carmem Di Novic desdobra-se não apenas como compositora, mas também como instrumentista, musicoterapeuta e intérprete. Apesar de ter nascido no Paraná foi no centro-oeste que vem desenvolvendo sua carreira exercendo os papéis de diretora e professora por longa data na academia a qual fundou e que leva seu nome nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além de apresentar o “Programa Carmem Di Novic”, na Rádio Educadora de Colíder da região. Com zelo e maestria a musicista vem apresentando um trabalho que vem recebendo os mais distintos elogios tanto da crítica quanto do público. Dentre suas produções fonográficas, Di Novic conta com títulos como “Recital de Violão”, (lançado em 2004), “Caminhos de Amor” (1995) e “Carmem Di Novic interpreta Urany Larangeira” . Recentemente a musicista lançou o álbum “Recital de Violão – ll Carmem Di Novic”, como vocês puderam tomar conhecimento aqui mesmo no Musicaria Brasil a partir da pauta O VIOLÃO COM UM TOQUE FEMININO. Hoje, de modo bastante gentil, a artista volta para um bate-papo exclusivo onde aborda diferentes temas como suas reminiscências musicais, o seu o meu amor e respeito ao violão, um novo projeto autoral que pretende lançar em breve, entre outros assuntos. Vale a pena conferir!

A música é algo que sempre esteve presente em sua vida? Qual a lembrança mais antiga do seu envolvimento com ela?

Carmem Di Novic – Sim, meu pai foi acordeonista e desde criança me incentivou a participar de coral na igreja, escola e cantar nas reuniões de família. Aos 9 anos de idade ingressei na minha primeira Escola de Música no Paraná e já me apresentava nas audições de final de ano e datas festivas.

E o violão? Quando foi que você de fato decidiu que ele a acompanharia?

CDiN – Tendo gravado em 1996 meu primeiro CD, com músicas populares de minha autoria, senti a necessidade de avançar nos estudos do instrumento e aprimorar minhas composições e técnica interpretativa. Mas foi em 2000, ao retornar do Intercâmbio de Grupos de Estudo que fiz em Wisconsin- Estados Unidos, que resolvi seguir carreira Superior de Violão Erudito, para expandir e divulgar aqui no Brasil um repertório violonístico conhecido e respeitado em vários países desenvolvidos.

Quais os nomes que espelhou-se para dar continuidade a esta ideia e que ainda hoje influencia o seu trabalho?

CDiN – Meu saudoso Mestre Professor Urany Larangeira, violonista e compositor, foi sem dúvida, meu grande incentivador à arte do Violão, acompanhando toda minha trajetória musical, me orientando até me conduzir ao Bacharelado e Pós-Graduação no Rio de Janeiro, onde então estudei com outros renomados professores e concertistas como Paulo Pedrassoli, Valmyr de Oliveira e respeitáveis musicoterapeutas como Dra. Lia Rejane Barcellos, Dra. Marly Chagas e Mt. Martha Negreiros.

Sua experiência no Rio de Janeiro a oportunizou entrar em contato com um nome imprescindível em sua carreira: Urany Larangeira, a quem você recentemente dedicou o álbum. Quais os critérios que a levaram a prestar essa grande homenagem ao seu ex-professor e como se deu a escolha do repertório?

CDiN – O CD “Carmem Di Novic interpreta Urany Larangeira” foi um projeto em parceria com a família Larangeira- representada pela viúva, Sra. Helena Ribeiro Larangeira, em 2010, alguns anos após seu falecimento. Fiz um estudo e levantamento de sua obra musical escrita em partituras para violão solo, que reúne lindos choros e valsas e outras peças clássicas, as quais eu já conhecia, havendo até mesmo tocado com o referido violonista, entre outras peças inéditas. Como ele sempre me dizia que eu seria a continuadora de sua obra, resolvi gravar e divulgar parte dessa maravilhosa obra violonística, homenageando esse exímio e admirável compositor brasileiro.

Como você chegou ao Mato Grosso? Foi fácil fixar-se “na terra” de outra grande instrumentista brasileira, que foi Helena Meirelles, conquistando o respeito e reconhecimento dos conterrâneos da saudosa artista?

CDiN – Vim ao Mato Grosso do Sul ainda jovem, após concluir a Faculdade de Letras em Umuarama e Conservatório Musical, juntamente com meus pais e implantei minha Academia de Música, trabalhando por longa data. As pessoas aqui são extremamente musicais e receptivas à arte. A Fundação de Cultura tem me contemplado com bons projetos culturais para intensificar e ampliar cada vez mais meu trabalho atual, ao qual me dedico, como Concertista e Produtora Fonográfica. Dei continuidade aos meus estudos no Rio de Janeiro para estudar Bacharelado em Música e Pós –Graduação em Musicoterapia, tendo concluído em 2010.

O universo do violão ainda é visto como predominantemente masculino, no entanto trabalhos como o seu acaba quebrando essa engessada visão sobre o instrumento, Em algum momento você sentiu em sua carreira algo referente a esta hegemonia?

CDiN – Acho que o meu amor e respeito a esse sublime instrumento, o Violão, superam qualquer preconceito ou barreira, conduzindo-me sempre a caminhos que tem me impulsionado a nunca desistir e seguir em frente com extrema dedicação à arte. E, muitas vezes, o fato de ser uma mulher violonista tem facilitado a formação de um público variado, de diferentes classes sociais e faixas etárias, como jovens, crianças e adultos. Meu empenho e objetivo, é poder ajudar as pessoas a vivenciarem bons momentos de paz e harmonia que a música pode oferecer, seja participando de meus concertos ou ouvindo meus CDs.

No álbum “Recital de violão” você transita entre o erudito e o popular de modo muito harmonioso sem deixar-se rotular nem por um nem por outro. Como você consegue equilibrar-se nesta tênue linha?

CDiN – Como disse, meu desejo é de chegar ao coração das pessoas com minha música, que elas possam desfrutar do potencial terapêutico e restaurador que a música tem. Portanto, busco interpretações variadas, visando sempre o aprimoramento técnico e elevação espiritual, pra que eu possa exteriorizar meus sentimentos através dos sons, seja qual for o estilo musical apresentado.

O ex-presidente Lula sancionou a Lei 11.769 determinando a obrigatoriedade da música nas escolas de educação básica de todo o país. No entanto o que se vê seis anos depois ainda deixa muito a desejar A aprovação da Lei foi sem dúvida uma grande conquista para a área de educação musical no País. Você como discente acredita que estamos no caminho certo ou o caminho não é bem por aí e por isso estamos sem avanços significativos na área?

CDiN – Sem dúvida, é muito importante a educação musical nas Escolas, porém, deve ser bem elaborada e diversificada, para que seja atrativo e interessante. Tem que se investir em bons profissionais e haver mais recursos para produções artísticas nas Escolas, como corais, grupos, orquestras, etc. Não pode ser um estudo “técnico” apenas, mas formar e preparar apreciadores musicais, que saibam produzir, ouvir e transferir para sua vida a “afinação”, harmonia e equilíbrio que a música proporciona.

No Mato Grosso e Mato Grosso do Sul você criou academia de música que levam seu nome. Você poderia nos contar um pouco como surgiu a ideia de implantar tais projetos?

CDiN – Pensei em expandir o estudo da música e fomentar o interesse pela mesma. Vários alunos que passaram pela Academia de Música Carmem Di Novic, seguiram carreiras como duplas, bandas, solistas ou cantores religiosos. Em outros casos, contribuiu para o o desenvolvimento pessoal de crianças e adolescentes. Sinto-me feliz por isso, mas atualmente dedico-me a concertos e gravações musicais, tendo transferido a outros profissionais a continuidade a esse trabalho acadêmico por mim iniciado.

Já estamos chegando em 2015 e neste ano que está prestes a começar você completa duas décadas de carreira fonográfica. Há alguma comemoração em vista?

CDiN – Realizei esse mês em Campo Grande, um Concerto Musical apresentando as músicas dos últimos CDs gravados e estou preparando um novo CD autoral intitulado: “Musicoterapia em Canções por Carmem Di Novic”, que pretendo lançar. Obrigada!!!


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O VIOLÃO COM UM TOQUE FEMININO

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Violonista, musicoterapeuta, compositora e intérprete, Carmem Di Novic transita como poucos entre o erudito e o popular

O violão, instrumento tão marcante na música popular brasileira, tem uma história longa. Há quem diga que o mesmo tenha surgido a aproximadamente dois mil anos antes de Cristo. Segundo alguns arqueologistas, placas de barro encontradas na antiga Babilônia e que trazem figuras seminuas tocando instrumentos musicais comprovam isto, pois tais desenhos registrados são muito similares ao violão como hoje conhecemos e que teve a sua origem a partir da lira, instrumento de cordas usado pelos antigos Gregos e Egípcios. No Brasil, o primeiro instrumento de cordas que se tem notícias foi a viola de dez cordas ou cinco cordas duplas, muito popular entre os lusitanos. Precursora do violão, dizem que tal viola chegou aqui em nosso país por intermédio dos jesuítas portugueses que utilizavam o instrumento ao longo das celebrações de catequese e desde então o “pinho” vem contabilizando anos de história. Nas grandes cidades ganhou o nome de violão e vem com o decorrer do tempo acompanhando os mais distintos gêneros musicais existentes como, por exemplo, as modinhas, os chorinho entre outros.

Já ao adentrar pelos rincões do país ganhou outras denominações tal qual o de viola caipira, sendo instrumento imprescindível na execução de alguns temas da região. Nessa longa jornada, vários foram os nomes que contribuíram para tornar o violão um instrumento referencial dentro da música popular brasileira, e dentre eles pode-se citar figuras como Américo Jacomino, Quincas Laranjeira, Villa Lobos (através do seus 12 Estudos para violão), Gismonti, Baden, Yamandu, Henrique Annes, João Pernambuco, Dino 7 Cordas, Zé Menezes, Canhoto, Raphael Rabello e tantos outros que corroboraram e continuam a contribuir de modo relevante para escrever a história do violão em nosso país, tornando-o uma das grandes marcas de nossa música ao redor do planeta.

Predominantemente masculino, pode-se afirmar sem sombra de dúvidas que o violão também ganhou adeptas. Entre as mulheres alguns nomes se destacam ao empunhar tal instrumento, dentre eles Badi Assad, Rosinha de Valença, Helena Meirelles, e o da artista que hoje trazemos ao Musicaria Brasil para o conhecimento do público leitor: Carmem Di Novic. Nascida no Paraná, Di Novic iniciou os seus estudos ainda criança em sua terra natal, ao longo dos anos foi desenvolvendo suas habilidades musicais a partir de muito estudo e dedicação. Bacharel em Violão e pós-graduada em Musicoterapia pelo Centro Universitário do Rio de Janeiro, Carmem hoje é uma das grandes referências do violão feminino existente em nosso país não apenas por atuar como instrumentista, mas também por exercer brilhantemente a função de compositora, intérprete e musicoterapeuta.

Além disso, a artista já chegou a atuar como produtora e apresentadora do “Programa Carmem Di Novic”, na Rádio Educadora de Colíder, além de exercer os papéis de diretora e professora por longa data na academia a qual fundou e que leva seu nome nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Por coincidência, hoje Carmem atua na mesma terra da já citada Helena Meirelles, instrumentista que com zelo e maestria levou a música brasileira, através de sua viola, para todo o planeta e foi considerada pela revista Guitar Player como uma das 100 melhores instrumentistas do mundo. Dentre suas produções fonográficas, Di Novic conta com títulos como “Recital de Violão”, que lançado em 2004 traz a musicista interpretando grandes nomes da música clássica e “Caminhos de Amor” (1995), projeto que conta com algumas canções autorais como “Poliana” e “Meu Sertão” (canção que também faz parte da compilação “The Essential Mato Grosso” lançada em 2005 por conta das comemorações do “Ano do Brasil na França”.)

Sua discografia ainda conta com os refinados títulos “Carmem Di Novic interpreta Urany Larangeira”, onde a partir de treze faixas a artista presta mais que uma justa homenagem àquele que além de seu professor foi um exímio compositor e intérprete. Músico virtuoso, o itaperunense Urany Larangeira, deixou como legado composições dos mais diversos gêneros, dentre eles, choros e valsas, como os os que Carmem apresenta ao grande público. Lançado em 2011 sem muito alarde, o álbum ultrapassa a simples intenção de homenagem e chega como um dos grandes álbuns instrumentais dos últimos anos onde se é possível atestar tal afirmação a partir de interpretações diversas tais quais “Choro à Helena” (1976), a valsa “Carmem” e o choro “Pagão”, composto em 1963, sendo esta a composição mais antiga presente no disco.

Recentemente a musicista lançou o álbum “Recital de Violão – ll Carmem Di Novic”, disco que contou com o apoio do Fundo de Investimentos Culturais (FIC/MS) e é composto por 27 faixas, entre composições da lavra da artista e interpretações de grandes nomes da música instrumental brasileira como Canhoto, Dilermano Reis, João Pernambuco,Zequinha de Abreu, Heitor Villa Lobos entre outros, atestando em definitivo o seu talento tanto como compositora assim também como intérprete.

Expressando sempre seu amor e dedicação à arte, Di Novic expressa um virtuosismo que inebria e envolve àqueles que tem a oportunidade de conhecer o seu trabalho e atuação. Intercambiana nos Estados Unidos, chegou a realizar naquele país inúmeras apresentações musicais em diversa cidades de Wisconsin-USA, mostrando-se uma virtuosa representante de nossa música instrumental e atestando em definitivo que o talento não tem fronteiras nem barreiras. Em um universo musical predominantemente masculino, o violão executado por Carmem quebra tal estigma destacando-se de modo sobrepujante entre os grandes instrumentistas nacionais da atualidade.

Seja autora, cantora ou intérprete dos grandes mestres da música, Di Novic mostra um trabalho bastante condizente com aquilo a que se propõe desde o início de sua carreira: reunir, de modo coerente, autores populares e clássicos de diferentes épocas, estilos e nacionalidades, que marcaram a história do instrumento e nessa fusão não apenas deixar-se influenciar em suas composições, mas também dá o seu toque na obra dessas influências. Talvez essa condição possibilite-a expressar a história da música popular em dualidade com os notórios e grandes compositores de âmbito mundial de modo contagiante e envolvente, fazendo daqueles que tem a oportunidade de conhecer o seu trabalho fiéis admiradores de uma arte que por si só já faz-se bastante expressiva, e que nas mãos habilidosas de Carmem Di Novic ganha características ainda mais relevantes. Ela sabe o que faz e de modo arguto, alia a sensibilidade feminina à sua arte.

Fica aqui para os amigos leitores dois números da artista apresentados no espetáculo “Clássicos ao violão por Carmen Di Novic e convidados” realizado em Campo Grande-MS em 2014. A primeira trata-se da composição de Paulo Gallo, “Dança Paraguaia”. Esta faixa conta com a participação do músico Arapiraca:

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A segunda canção trata-se do clássico “Son de carrilhões”, de autoria do João Pernambuco:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 16

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A artista completou 80 anos no último dia 8

Alaíde Costa é considerada por muitos a grande dama da canção brasileira. Título mais que merecido a esta mulher que traz a sua história intrinsecamente ligada à música popular brasileira ao longo dos últimos sessenta anos. Nascida no Méier, bairro localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide começou a cantar ainda na infância em alguns programas de rádio existentes na época. Sua estreia foi em um circo, logo em seguida, aos 13 anos, venceu um concurso de melhor cantora jovem interpretando a canção “Confesso“, composição que na época fazia parte do repertório da cantora Linda Batista. O concurso promovido por Paulo Gracindo, no seu programa Sequência G3, da Tupi, do Rio de Janeiro, foi o pontapé inicial de uma bem sucedida incursão por alguns programas de rádio da época, dentre os quais o Arraia Miúda, apresentado por Renato Murce, na Radio Nacional. Daí em diante vieram participações em diversos programas de rádio da época, incluindo aí os programas de Ari Barroso e do Arnaldo Amaral, onde a sua participação foi sempre vitoriosa. Apesar de ganhar a nota máxima em quase todos os programas de calouros aos quais apresentava-se, Alaíde não possuía a voz que predominava nos estúdios de gravações na época. Seu canto suave e afinado não tinha vez diante da potência vocal de muitas contemporâneas suas e isso, por conseguinte, acabou prejudicando a sua inserção no mercado fonográfico de imediato.

Depois de ouvir inúmeras vezes que cantava bem, mas não tinha voz, finalmente em 1956 lhe surge a oportunidade de ingressar no mercado fonográfico por intermédio da gravadora Mocambo. E para a surpresa de muitos, neste seu primeiro disco de 78 RPM Alaíde já se mostra uma artista completa. Juntamente com “Nosso Dilema” (Hélio Costa e Anita Andrade) o disco conta com o samba-canção “Tens que Pagar”, de autoria da intérprete em parceria com Airton Amorim. O disco não obteve o esperado sucesso, no entanto rendeu-lhe um convite do técnico de som Odeon para ser crooner do Conjunto Copacabana na Dancing Avenida (RJ), mesmo local, em que anteriormente, já haviam atuado, na mesma função as cantoras Elizeth Cardoso e Angela Maria. Nesta mesma época tem a oportunidade de conhecer o legendário Aloysio de Oliveira que leva a cantora à Odeon, propiciando a artista gravar em 1957 o seu segundo 78 RPM com as faixas “C’est La Vie” (Edward R. White – Mack Wolfson – Vrs. Nely B. Pinto) e “Tarde Demais” (Hélio Costa – Raul Sampaio), faixa esta que a propiciou o gosto pela fama pela primeira vez e a fez receber algumas premiações, dentre as quais todos os de cantora revelação. Sem contar as diversas capas de revistas as quais ilustrou, dentre as quais “Radiolândia”, “Música e Letra”, “Revista do Disco”, dentre outra e participações em programas diversos de rádio e TV.

Ao final dos anos de 1050 a cantora tem a oportunidade de conhecer João Gilberto por intermédio de Aloysio de Oliveira. Por conseguinte acaba por conhecer a grande maioria dos artistas que iriam protagonizar o movimento da Bossa Nova, uma vez que João Gilberto acreditava que o estilo suave e moderno de Alaíde seria interessante ter para embasar aquele movimento que vinha surgindo e ganhando espaços cada vez mais significativos não apenas em nosso país, mas ao redor do mundo. O resultado deste entrosamento foi sua transferência para a gravadora RCA Victor, onde, finalmente lança o seu primeiro LP de 12 polegadas sob o título de “Gosto de Você” e a oportunidade de aproximar-se do então jovem músico Oscar Castro Neves que a apresenta a Vinicius de Moraes e este ao ascendente Tom Jobim. Uma passagem interessante nesta amizade com Vinicius de Moraes se deu no início dos anos de 1960. Apaixonada por pianos, Alaíde sempre teve o desejo de aprendê-lo, mas esta vontade sempre esbarrava na condição de não ter um. Ciente deste desejo em aprender a tocar o maestro Moacir Santos sugere que Alaíde peça ao Vinicius para ceder o piano que possuía para que o maestro pernambucano corroborasse, sempre que possível, para que a cantora e compositora carioca aprendesse o instrumento. O resultado dessas aulas pode ser encontrada no álbum que a artista gravou com Oscar Castro Neves em 1973. Trata-se da faixa “Amigo Amado“, melodia composta por Alaíde e letra presenteada pelo poetinha.

Aos amigos leitores do JBF ficam aqui duas belíssimas canções. A primeira trata-se de “Onde está você“, de autoria da dupla Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorin. Tal canção, Alaíde Costa apresentou-a pela primeira vez em 25 de maio de 1964, no show “O fino da bossa“:

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A segunda faixa trata-se de “Quando tu passas por mim“, canção de autoria da saudisa dupla Antônio Maria e Vinicius de Moraes. Esta faixa foi gravada por Alaíde em duo com o pianista João Carlos Assis Brasil:

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GERALDO AMARAL CONTINUA A PLENO VAPOR

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Parceiro de nomes como Geraldo Azevedo e Renato Rocha, Geraldo Amaral coleciona em sua biografia musical um rol de grandes intérpretes de sua obra

Assim como outro grande nome da música pernambucana, Geraldo Amaral nasceu no agreste do estado de Pernambuco, mais precisamente na cidade de Garanhuns, município localizado a cerca de 230 km da capital pernambucana e berço natal do saudoso José Domingos de Moraes, o Dominguinhos. A família resolve mudar-se para a cidade do Recife quando o jovem Geraldo estava com cerca de dezesseis anos e na capital de Pernambuco o jovem começa a desenvolver a sua trajetória musical a partir do conjunto “Os Ermitões” em parceria com Robertinho de Recife. O grupo que era inspirado na Jovem Guarda (ascendente movimento musical da época), em pouco tempo mudou a formação original e foi rebatizado com o nome de “Os bambinos”, aglutinando a influência dos Beatles ao trabalho musical.

Ao longo dos anos de 1970 o grupo fez um relativo sucesso na capital pernambucana, animando bailes e diversas festas. A popularidade era tanta que o grupo chegou a ser batizado como “os Beatles nordestinos”. Em “Os Ermitões” Geraldo Amaral era contrabaixista e cantor do grupo e nas guitarras Robertinho. Vem dessa época também a sua participação no grupo LSE – Laboratório de Sons Estranhos, grupo este fundado por Aristides Guimarães e ligado ao movimento Tropicalista. O grupo surgiu com uma proposta performática musical bastante ousada e irreverente para a época, o que acabou ocasionando um afronto ao conservadorismo da sociedade recifense de então. Da estreia em Recife, o grupo logo seguiu para a cidade do Rio de Janeiro, numa produção de Gal Costa, com arranjos musicais de Macalé, Naná Vasconcelos e Maurício Maestro. No entanto Geraldo Amaral preferiu protelar a sua ida à cidade Maravilhosa para um pouco depois, uma vez que no Recife a cena musical fervilhava com nomes como Geraldo Azevedo, Quinteto violado, Naná Vasconcelos e Alceu Valença, que começavam a se destacar.

Geraldo Amaral esteve na cidade maravilhosa pela primeira vez acompanhando Alceu Valença e Geraldo Azevedo e tempos depois, por volta de 1978, resolveu estabelecer-se definitivamente nela vislumbrando oportunidades maiores que em sua região de origem. E de fato essa mudança para o Rio de Janeiro acabou não apenas propiciando novas oportunidades em sua carreira como também a consolidação de parceria com artistas diversos, dentre os quais a do cantor e compositor garanhuense com o petrolinense Geraldo Azevedo, músico contemporâneo seu que acabou tornando-se o seu maior parceiro e um grande amigo. Ao chegar no Rio de Janeiro tratou logo de manter-se no segmento que o havia impulsionado a ir tão longe. Formou uma banda que resgatava o forró pé-de-serra a partir do repertório de alguns dos principais nomes do gênero (como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga) até o lançamento de sua carreira solo pouco tempo depois.

É válido registrar que com este grupo Geraldo Amaral chegou a fazer uma participação especial no filme “Bye Bye Brasil” (1980) de Cacá Diegues. A carreira solo como cantor e compositor veio após o término da banda e durante esse período teve a oportunidade de tocar em diversos locais que formam a cena alternativa carioca, possibilitando-o a ampliação de suas parcerias com outros nomes da cena musical. Dentre esses nomes, um dos mais profícuos encontros deu-se com o também cantor, músico e compositor Renato Rocha, que viria a se tornar um autor conhecido a partir de canções como “Dia branco” e “Bicho de sete cabeças”, parcerias suas com Geraldo Azevedo. Com Rocha, o pernambucano Amaral compôs, dentre outras, músicas como “Arte longa”, “Galo cantor”, “Sambas antigos” e “Noites de outono.”

Outros conterrâneos foram de fundamental importância para que a carreira de Geraldo Amaral se firmasse no “Sul maravilha”. E um dos nomes primordiais para esse acontecimento foi o do produtor, compositor e parceiro Carlos Fernando, autor, dentre ouros sucessos, do frevo “Banho de cheiro”, interpretado pela cantora Elba Ramalho no álbum “Coração brasileiro”, de 1983. Morto em 2012, Carlos Fernando é o parceiro de Amaral nas faixas do álbum “Cena de verão” que o garanhuense lançou em 2009 e que contou com a participação especial do parceiro Geraldo Azevedo, com arranjos do saudoso Magro (MPB4), Inês Perdigão (Chorinho da Feira) e conta também com a produção do competente Paulo Rafael.

De lá para cá Geraldo Amaral participou da produção musical e da gravação do CD e DVD “Salve São Francisco”. Idealizado por Geraldo Azevedo e que conta com a participação especial de grandes nomes da música brasileira. Além de dividir os vocais e assinar “Águas Daquele Rio” em parceria com Amaral, Geraldo Azevedo conta com nomes como Maria Bethânia, Djavan, Dominguinhos, Ivete Sangalo, Moraes Moreira, Fernanda Takai, Alceu Valença entre outros. Sem contar com sua passagem pelo cinema interpretando uma das canções presentes na trilha sonora do filme “Tainá – uma aventura na Amazônia” (2001) e na criação da trilha sonora do documentário “Caçadores de Dinossauros” (2011). Artista de relevante prestígio no meio musical, o pernambucano que conta com mais de quarenta anos de carreira, Amaram continua a dedicar-se à música de modo singular criando canções e melodias que já tiveram os registros fonográficos de grandes intérpretes da MPB tais como os conterrâneos Alceu Valença, Silvério Pessoa, Marinês, Adryana BB e Dominguinhos. Além de nomes como Teca Calazans, Elba Ramalho, MPB-4, Joanna, Letícia Tuí, Elza Maria entre outros e chegou a acompanhar nos palcos nomes como Raimundo Fagner, Eliana Pitman, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Recentemente Geraldo Amaral Em em 8 de fevereiro de 2013, lançou o seu mais recente trabalho com canções feitas em parceria com Renato Rocha e João Alberto. Trata-se do primeiro trabalho para distribuição totalmente digital, estando disponível nas principais lojas de música digital do Brasil, Estados Unidos e Europa.

Ficam aqui duas canções presentes no álbum “Cena de verão”, de 2009. A primeira trata-se da faixa que batiza o disco:

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A segunda chama-se “Beija-flor de mesa”:

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QUATRO “COBRAS” QUE RESOLVERAM ENCANTAR-NOS DE MODO INEBRIANTE

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Invertendo a clássica história do encantamento de serpente, eis um tipo de cobra que com sua sonoridade nos envolve

A prática do encantamento de cobras e serpentes é algo comum realizada por artistas de rua geralmente em países do continente asiático como Bangladesh, Índia, Malásia entre outros daquela região. Tudo consiste na utilização de um instrumento (geralmente de sopro) objetivando hipnotizar serpentes apenas tocando-o. Há quem afirme que o instrumento seduz o animal por seus movimentos e forma, e não pela música que emite. De qualquer modo, a relevância dessa breve explanação se dá apenas a título de introdução para que possamos chegar ao nome desse grupo formado por quatro figuras que vem contribuindo de modo substancial para manter a tradição da inerente qualidade que vem caracterizando a a história da música mineira ao longo dos últimos anos.

Se o encanto sonoro hipnotiza ou não as serpentes é algo irrelevante, o que de fato importa é que esse quarteto acabou por, de modo inventivo, fazer jus ao nome que adotaram, uma vez que trata-se de figuras de extrema capacidade e talento, trazendo a partir de cada um dos integrantes, uma valiosa bagagem capaz de caracterizá-los com os mais relevantes adjetivos. São quatro “cobras” que denotam-se para além da gíria e transpassam qualquer sentido figurado. Nomes que alcançaram as suas respectivas relevâncias não apenas na cena musical mineira contemporânea mais que estão a fazer, cada um ao seu modo, reverberar suas artes para além de suas fronteiras e fugindo de qualquer regionalismo tornando-se universais e capazes de nos fazer apreender o mais genuíno sentido da frase “Sou do mundo, sou Minas Gerais”, como foi dito na composição “Para Lennon e McCartney” dos irmãos Borges (Lô e Márcio) e Fernando Brant, precursores do Clube da Esquina (um dos movimentos musicais mais relevantes da história da música brasileira e que desde o seu surgimento foi capaz de fazer a música mineira alcançar patamares antes jamais alcançado.)

O quarteto Cobra Coral é formado por Flávio Henrique, Kadu Vianna, Mariana Nunes e Pedro Morais. Compositor, produtor e instrumentista autodidata Flávio hoje ocupa grande relevância no cenário musical mineiro onde mostra-se bastante atuante. São mais de 80 músicas gravadas em 07 álbuns autorais e um DVD, parcerias ao lado de nomes como Zeca Baleiro, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Telo Borges, Paulo César Pinheiro, Marcio Borges entre outros e intérpretes nomes como Milton Nascimento e Ney Matogrosso. Outro integrante é o bacharel em canto lírico Kadu Vianna que traz como característica do seu trabalho uma MPB imbuída de influências regidas por gêneros como o jazz e o rock que acaba dando à sua sonoridade passe livre para transitar naquilo que melhor convém para o exercício de sua arte como é possível observar nos três registros fonográficos do cantor, instrumentista, produtor e compositor nascido na cidade mineira de Nova Lima que contaram com a adesão de nomes como Carlos Malta, Marina Machado, Carlinhos Brown, Jaques Morelenbaum entre outros. Já a cantora Mariana Nunes conta com uma longa, coesa e sólida trajetória musical onde se é possível atestar tanto em projetos solo como “A Luz É Como A Água” ou através de outros em parceria tal qual o álbum “Abra-palavra”, realizado em duo com o músico Vítor Santana. Com uma técnica que acentua e destaca o seu límpido e cristalino canto Mariana demostra ser, através do seu raro timbre, uma grata surpresa para quem a escuta. O último nome deste grupo vocal vem a ser Pedro Morais, artista apontado pela crítica como um dos melhores intérpretes mineiros da atualidade. É como bem foi dito: são quatro exímios talentos com histórias que apesar de distintas são capazes de manter uma unidade coerente quando somadas.

A sonoridade do disco fica toda a cargo do quarteto Cobra Coral nas doze faixas que compõe este debute fonográfico de título homônimo ao grupo. Entre as gravações presentes no projeto, há releituras de autores como Caetano Veloso que assina as canções “Gatas extraordinárias” e “Cobra coral” (esta em parceria com Waly Salomão) e a dupla Fernando Brant e Milton Nascimento, que assinam “Milagre dos peixes” e “Encontros e despedidas”. O disco ainda conta com o registro de “Capullito de Alelí”, composição do porto-riquenho Rafael Hernández Marín que tem entre seus famosos intérpretes o americano Nat King Cole. O álbum ainda conta com faixas autorais como as sentimentais “Faísca na medula” (composição de Kadu Viana em parceria com Murilo Antunes) e “Sob o Sol” (escrita a quatro mãos por Flávio Henrique e Pedro Morais). Flávio também assina “Casa aberta” (parceria com Chico Amaral) e “Sim” (composta com Murilo Antunes). O disco que ainda conta com duas composições do trio Pedro Morais, Kadu Viana e Magno Mello: “Qualquer palavra” e “E o que for, já é”, traz todo o bairrismo do grupo a partir de “Em linhas gerais”, escrita por todo o quarteto.

São quatro elementos que fogem do tradicional conceito da água, da terra, do fogo e do ar; quatro elementos que deixam de ser substantivos para se fazer reverberar de modo afinados, entrosados, inventivos e uníssono a cada espetáculo ou a cada audição deste projeto lançado. São quatro estórias capazes de comprovar que a música brasileira não faz-se cíclica, apesar de saber-se que há uma fonte inesgotável se olharmos para trás. Entre conceitos e canções o Cobra Coral destaca-se sobremaneira como um dos mais expressivos exponentes da música mineira contemporânea. E isso é possível atestar-se a partir da afirmação de conceituados conterrâneos desses talentosos artistas como é o caso do cantor e compositor João Bosco, que teve a oportunidade de ouvir o grupo vocal no dia em que iriam dividir o palco do Palácio das Artes e desde então se viu arrebatado. O autor de “Jade” chegou a afirmar que o veneno sonoro do quarteto faz-se algo indefensável ao se ter contato. Sendo assim, se um nome da envergadura sonora de Bosco os definem desse modo, não há mais o que se questionar ou ir ao encontro de qualquer soro antiofídico. É deixar-nos que a envenenada sonoridade do quarteto adentre ouvido afora de modo expansivo, se possível de modo pandêmico, para que a todos também não haja a menor possibilidade de fuga.

Fica aqui para os amigos duas canções presentes no álbum de estreia do quarteto. A primeira trata-se da faixa que dá nome ao grupo. “Cobra coral” é uma composição de Caetano Veloso:

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Já a segunda composição trata-se da clássica “Encontros e despedidas”, composta por Fernando Brant e Milton Nascimento:

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MÁRCIA TAUIL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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A cantora, compositora e instrumentista volta para uma exclusiva e informal conversa onde apresenta as novidades em relação a sua carreira

A mineira Márcia Tauil já conta com quinze anos de estrada em um trabalho que sempre busca trazer características bastante peculiares. Seja cantando, compondo ou executando o seu instrumento, a artista vem de modo bastante coerente apresentando-se nos mais distintos palcos brasileiros, sendo premiada em diversos festivais Brasil afora como foi possível atestar a partir da matéria “Sob o aval de grandes nomes eis um promissor talento de nossa música” recentemente publicada aqui mesmo em nosso espaço. Após interpretar canções da lavra de Robert0 Menescal, Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto em projetos especiais, Márcia atualmente vem na elaboração do seu terceiro projeto solo e, entre um compromisso e outro, a artista gentilmente concedeu um pouco do seu precioso tempo para nos presentear com esta entrevista exclusiva onde fala, dentre diversos assuntos, sobre suas reminiscências musicais, a responsabilidade de ser considerada pelo público e pela crítica como um promissor talento dentro do atual cenário da música brasileira e a sua aproximação a dois compositores recorrentes em seus projetos fonográficos: Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto. Leitura imprescindível para aqueles que amam a música brasileira pautada na tríade perfeita: talento, bom gosto e repertório impecável.

Dentro das suas reminiscências há alguma que você destacaria como determinante para a sua predileção pela música?

Márcia Tauil – Fui ninada pelo meu pai, músico, com chorinhos. E desde menina vi e ouvi a Música acontecer em casa, devido a ele, minha mãe, pianista e violinista e meu irmão contrabaixista, violonista e tecladista.

E a questão da composição? Como se deu o seu primeiro contato com este universo?

MT – Sempre criei muito, mas não via esse lado tão aflorado como o canto. Buscava mais o canto. Comecei compondo de brincadeira e por volta de 2000, a pianista Mana Tessari passou a trabalhar comigo e começamos a compor para FESTIVAIS, a partir daí, não parei mais.

O chorinho é um gênero que faz parte de sua formação musical devido principalmente ao seu pai não é isso? Como você foi aglutinando os outros gêneros a sua formação musical?

MT – Minha mãe estudou clássicos, e mesmo tendo abandonado os estudos de música, nos passou seus conhecimentos, cantando junto com meu pai, dentro de casa. Meu irmão tocava baixo numa banda com repertório Jovem Guarda e tocava violão e teclado, acompanhando cantores diversos, de repertórios variados, desde a Bossa Nova até boleros, por exemplo. Os ensaios aconteciam no quarto dele, em minha casa. E eu me interessava por todas as tendências e novidades.

Você vem sendo reconhecida não apenas pelo público, mas principalmente pela crítica especializada como um promissor talento dentro do combalido cenário da atual música popular brasileira. Como você encara essa responsabilidade?

MT – Eu encaro essa realidade há muitos anos, me mantendo fiel ao estilo, qualidade e repertório, e essa minha luta está sendo reconhecida.

Não é de hoje que o mercado musical brasileiro vem mostrando-se bastante divergente. Isso atesta-se a partir de nomes como o seu, que apesar do reconhecimento do público e da crítica não tem o devido espaço em detrimento a um tipo de música efêmera. Qual a sua opinião sobre essa pseudo lógica de mercado?

MT – Essa divergência possibilita que nomes como o meu possam se manter no mercado da boa música. Ele é mais escondido, mais restrito, mas existe. Não foram todas as pessoas atingidas pela massificação. Ainda bem que a divergência se estabeleceu. Imagina um mundo comandado apenas pelos VERMES DE OUVIDO (comprovação científica de músicas criadas para grudarem no cérebro). Mesmo com toda essa máquina voltada ao comercial, tem público ligado em trabalhos com características atemporais. Claro que é mais difícil trabalhar para menos público, com menos mídia. Dificulta, mas valoriza a estrada.

Em 2014 você está completando quinze anos de carreira fonográfica. Qual a avaliação que você faz desse período e dos álbuns lançados?

MT – Dentro das condições que tive de divulgação, de colocação em lojas, entrada em Mídia, posso analisar que, sendo Cds focados em qualidade e verdade, eles cumprem seu papel de me representar muito bem, até hoje, pois, mesmo sendo lançados há mais de 10 anos, assim que chegam em mãos de quem gosta e conhece MPB e sua história, sou procurada para entrevistas, e vão me abrindo mais e mais espaços.

Como se deu a sua aproximação da produção dos compositores Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto, dois nomes que acabaram tornando-se recorrentes em sua discografia?

MT – Sobre Costa Netto, o conheci realmente por acaso, em São Paulo, no Villaggio Café, no dia de meu aniversário, e deixei meu material em vídeo com ele, que assistiu e depois foi me ver ao vivo. Eu conhecia muito de suas canções. Fiquei feliz em conhecê-lo. Daí surgiu meu primeiro Cd, e logo depois, o segundo Cd, com a obra de Gudin em parceria com ele, quando ele levou Gudin a um show meu, para que Gudin me conhecesse. Sou muito grata a ele.

Como compositora que você é não cogita a possibilidade de um projeto fonográfico essencialmente autoral?

MT – Quero sim, chegar a um cd totalmente autoral. Porém, como intérprete, canto canções não compostas por mim que me tocam e emocionam. E amo fazer isso nos palcos e nos CDs.

Seu mais recente trabalho lançado é um projeto ao lado das cantoras Cely Curado, Nathália Lima e Sandra Duailibe onde vocês prestam uma justa homenagem ao cantor, instrumentista e compositor Roberto Menescal. Como surgiu a ideia deste projeto?

MT – Roberto Menescal é um cavalheiro e um grande incentivador de artistas. Trabalho com ele há muitos anos e recebo muito carinho, grande ajuda e maravilhosos ensinamentos. Sua obra é especial e sua colaboração para a Música Brasileira é inestimável. Pensei em homenageá-lo, falei com as cantoras, que na hora, se uniram a mim com os mesmo sentimentos de gratidão e de vontade de cantar o Mestre. Ao falarmos para ele, ele que nos presenteou participando do Cd, nos dando canções inéditas, fazendo os arranjos e tocando também. Merece sempre e muito mais!

Você atualmente vem preparando o seu terceiro projeto solo que a princípio apresenta-se de modo bastante coerente com a sua trajetória musical a partir de nomes já conhecidos pelo seu público. Você poderia nos adiantar alguma novidade sobre este novo álbum?

MT – As novidades são as composições próprias e a participação de Menescal, fazendo um dueto muito simpático comigo, onde fundimos uma composição dele e de Bôscoli, com outra de Maurício Einhorn e Durval Ferreira, num jogo de perguntas e respostas. Ficou muito agradável. Dessa vez, o cd sairá pela gravadora GRV e terá um projeto de lançamento bem cuidado e bonito. Pretendemos primeiro, lançar virtualmente.


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SURGE UM PROMISSOR TALENTO EM NOSSA MÚSICA

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A cantora e compositora mineira Márcia Tauil vem, projeto a projeto, mostrando porque está sendo considerada como uma das mais gratas surpresas da boa música brasileira

Natural de Guaxupé (cidade mineira localizada a pouco mais de 470 km da capital Belo Horizonte) Márcia Tauil apresenta-se de peito aberto e de modo pleno no exercício de seu ofício. Em corpo, alma e verdade a artista vem, em quinze anos de carreira, construindo um sólido caminho pautado na qualidade de repertório e interpretações marcantes. Cantora, compositora e professora de canto, Tauil traz por característica naquilo que faz segurança e talento; seja a partir de projetos paralelos dos quais participou, seja em seus materiais fonográficos solos como os dois álbuns lançados até então. Seu primeiro disco, datado de 1999, traz por título “Águas da Cidade”, nome de uma das canções presentes no álbum composta pelo mocoquense Kiko Zamarian. Além da faixa citada o disco também apresenta canções inéditas e releituras de artistas como Djavan (“Esfinge”) e Chico Buarque (“Mambembe”) mostrando outra característica que a faz uma das mais promissoras artistas da nova geração da música brasileira contemporânea: a interpretação precisamente endossada pela técnica e pela devida segurança que a canção exige não deixando-se abster pela medida certa de sensibilidade como se é possível atestar ao ouvi-la.

Este debute fonográfico, além de apresentar características que permeiam sua carreira até os dias atuais, também é responsável pelas primeiras manifestações de reconhecimento também dos profissionais que atuam na área musical. É em “Águas da Cidade” que a artista começa a tecer habilmente vigorosos adjetivos que adornam a sua arte dando a ela o preciso contorno para o seu reconhecimento. Um trabalho que assim como quem o assina apresenta traços de “força, domínio e delicadeza impressionantes”, assim como descreve a colega de profissão Vânia Bastos.

Tal reconhecimento expandiu-se ao ponto de chamar a atenção de colegas de profissão conceituados como foi o caso do cantor, compositor, instrumentista e arranjador Eduardo Gudin, autor de mais de trezentas canções e responsável por composições de grande sucesso na música popular brasileira ora solo, ora em parceria com outras relevantes figuras do cancioneiro nacional. Parceiro de nomes como Paulo César Pinheiro, Luiz Tati, Arrigo Barnabé, Paulinho da Viola entre outros, regularmente Gudintem sua vasta obra visitada por grandes intérpretes em espetáculos e discos por grandes intérpretes. No caso de “Sementes no Vento” (título homônimo a uma das canções presente no projeto) não trata-se de mais um mero tributo, neste disco Gudin confiou a artista guaxupeana a interpretação de treze parcerias suas com o advogado e militante em direito autoral José Carlos Costa Netto neste que viria a ser o segundo projeto fonográfico da carreira da cantora e compositora.

O belíssimo álbum, editado além do Brasil no Japão pela gravadora Ward Records, reafirma o garbo da interpretação de Tauil rendendo-lhe uma reiteração quanto a boa aceitação tanto da crítica especializada quanto do grande público a partir das elegantes interpretações de canções como “O carnaval de cada dia”, “Coração aberto”, “Verões virão”, além de clássicos como “Paulista” e “Verde” (a canção mais conhecida da dupla por ter sido interpretada por Leila Pinheiro em 1985 no Festival dos festivais da Rede Globo e que deu a intérprete o título de revelação do evento). Em síntese pode-se dizer que trata-se de um projeto que traz em seu bojo além grandes compositores uma intérprete regida por uma tônica maior onde destaca-se a elegância e a suavidade de sua voz.

Desde então a cantora e compositora vem sedimentando a sua coesa carreira a partir das mais variadas atividades, incluindo aí a participação em distintos projetos fonográficos (a exemplo do Cd “Rios do Rio”) assim como também em festivais musicais geralmente ocorridos nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, que vem rendendo-lhe diversos prêmios por sua atuação, resultando na maioria das vezes, na primeira colocação, seja como compositora, seja como intérprete de tais eventos. Em plena atividade, a artista vem atualmente envolta a produção do seu terceiro álbum solo que contará, dentre outras novidades, músicas autorais inéditas e em parcerias, além de selecionadas canções conhecidas do público.

Enquanto esta ideia não é concluída, Tauil vem mostrando a influência exercida por Roberto Menescal em sua atuação como compositora e intérprete a partir de mais um projeto ao qual participou cujo título é “Elas cantam Menescal.”, cd que presta uma singela homenagem a um dos grandes nomes de nossa música ao qual sempre admirou ao lado de outras três artistas: Cely Curado, Nathália Lima e Sandra Duailibe. Atualmente vem na elaboração de seu terceiro disco solo, onde registrará parcerias suas com a poetisa mineira Melissa Mundim, com Leandro Dias, um dos mais profícuos compositores da música do Pará, gravará parceria de José Carlos Costa Netto e Silvana Stiéano e contará com a participação mais que especial do seu amigo, parceiro e mestre Roberto Menescal.

Como alento aos ouvidos mais apurados o afinado canto de Márcia Tauil mostra-se verdadeiro bálsamo em meio a degradação na qual a música brasileira encontra-se inserida nos últimos tempos. É preciso atentar para nomes como o dela para atestar que ainda há esperança. Longe da degradação que atualmente rotula a nossa cultura de massa, a artista faz-se um dos nomes mais promissores da nova geração da MPB de modo bastante convicto. Instrumentista, cantora e compositora a artista prevalece-se da sensibilidade inerente a figura feminina para deixar aflorar de modo ímpar cada característica que dar vigor ao seu trabalho. Como artesã, Tauil sabe tecer como poucos todos os fios que unem de modo coerente e harmonioso os mais diversos sentimentos a partir de sua técnica impecável. Mesmo atuando como locutora de rádio e na apresentação de programas de televisão é sem dúvida alguma na música que ela encontra-se mais à vontade e apta a deixar fluir toda o talento ao qual faz jus.

Seu canto simples e sem maiores firulas nos arrebata com a mesma verdade e volúpia com a qual se apresenta e isso já é o suficiente para fazer da artista, ao lado de nomes como Monica Salmaso, Roberta Sá, Marisa Monte e Verônica Ferriani, um das melhores e mais expressivas vozes do atual cenário musical em nosso país. Seu canto traz consigo a dosagem certa e precisa dos mais variados e nobres adjetivos, seu instrumento reverbera um estilo bastante particular e a sua composição arraigada por uma sonoridade moderna complementa de modo harmonioso o estilo que hoje a alavanca ao lugar de destaque ao qual se encontra dentro da MPB.

Deixo aos amigos leitores duas canções interpretadas pela artista em distintas fases de sua carreira. A primeira trata-se de uma composição de Sérgio Farias e Cristina Saraiva intitulada “Primeiro Olhar“:

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A segunda trata-se de um clássico da lavra de Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque intitulada “Eu te amo“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 15

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Recentemente trouxe aqui mesmo para esta coluna o saudoso e insubstituível Orlando Silva procurando abordar um pouco sobre sua biografia no período que antecede o seu estrondoso sucesso. Como dito, Orlando que até então não tinha pretensões de se profissionalizar e cantava na garagem da empresa de ônibus a qual trabalhava, procurou seguir o conselho de um dos seus admiradores e foi fazer um teste na rádio Cajuti. Neste teste teve a oportunidade de conhecer o compositor e instrumentista Bororó que oportunizou-o a estar com Francisco Alves. Chico Viola por sua vez identificou naquele jovem um promissor cantor e resolveu o apadrinhar daquele momento em diante o que acabou oportunizando-o a participar dos mais distintos programas radiofônicos tornando-se uma estrela do mesmo quilate e patamar que o seu “padrinho”.

No entanto há quem diga que a primeira vez que empunhou um microfone tenha sido cantando “Mimi”, de autoria do mesmo Uriel Lourival que compôs a valsa “Céu Moreno” também interpretada por Orlando e registrada em disco e lançada somente em dezembro de 1935, ano em que sua carreira decola aos píncaros do sucesso e o cantor ganha do locutor Oduvaldo Cozzi o apelido de “o cantor das multidões”, por conta do magnetismo que exercia na quantidade cada vez maior de fãs que o acompanhava nos auditórios de rádios, em seus discos, assim como também em suas apresentações. Orlando tornou-se um fenômeno nacional em uma época em que tudo corroborava para o contrário (emissoras de alcance limitado, poucas vitrolas, estradas precárias ou inexistentes e a ausência de aviões). Nesta fase áurea chegou a gravar cerca de 72 discos de 78 r.p.m., compreendendo um total de 144 músicas.

Nesta melhor fase de sua carreira, a partir da RCA Vitor o artista gravou uma série de canções que viriam a se tornar clássicos da música popular brasileira com o passar dos anos. Orlando foi responsável pelo primeiro registro em disco de músicas como “Juramento Falso”, “Lábios que Beijei”, “Carinhoso”, “Rosa”, “Alegria”, “Nada Além”, “Errei… Erramos”, “A Jardineira”, “Número Um”, “A Primeira Vez”, “Curare”, “Preconceito”, “Aos Pés da Cruz” entre outras. Muitas dessas e outras canções trazem consigo histórias interessantes como é o caso da valsa “Neusa”, de autoria do pai de Sílvio Caldas, Antônio Caldas, em parceria com Celso Figueiredo. Antônio chegou a mostrá-la ao filho, mas Sílvio viu uma chance de o pai ter uma música de sucesso na voz de Orlando e abdicou de “Neusa”. Outra canção que merece destaque entre as curiosidades existentes em torno do intérprete é “Rosa”, composição dos saudosos Pixinguinha e de Otávio de Souza. Esta canção (labo B de um 78RPM que continha no lado A a valsa “Carinhoso”) era a favorita da mãe do intérprete, Dona Balbina. Após sua morte, em 1968, Orlando Silva jamais voltar a cantar pois alegava que as lágrimas não o deixariam.

Além dessas histórias há inúmeras outras de uma “época de ouro” que não volta mais. Quem um dia imaginaria que aquele rapaz “moreno demais” para os padrões artísticos da época, vestido com o uniforme de trocador de uma empresa de ônibus, calçado de alpercatas e coxo a bater nas portas de algumas emissoras em busca de uma oportunidade seria considerado em dado momento “o rei das multidões”? E foi assim, em uma carreira curta, mas rodeadas de excelentes sambas, sambas-canção, foxes e valsas escritas por alguns dos maiores compositores da época, que Orlando Silva tornou-se um ícone de nossa música popular brasileira e ainda hoje é reverenciado não apenas por saudosistas, mas por todos aqueles que amam a excelente música produzida no Brasil.

Para audição dos amigos leitores deixo aqui as duas canções citadas ao longo do texto. A primeira trata-se de “Neusa”:

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A segunda faixa trata-se de um dos grandes clássicos da música brasileira. “Rosa”, considerado por muitos, tem uma das mais belas histórias da música popular brasileira:

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ZÉ GUILHERME – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Há artistas que através do seu ofício conseguem expressar em dado momento suas reminiscências afetivas e sonoras. E quando consegue-se isso através de um vigoroso tributo parece que as coisas invariavelmente transcendem do lugar-comum. Dentro desta conjuntura pode-se citar “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, álbum lançado recentemente pelo cantor cearense Zé Guilherme. Radicado em São Paulo há mais de três décadas, o cantor que lançou seu último projeto fonográfico em 2006, volta ao mercado com este álbum que conta com dezoito canções do repertório de um dos mais representativos artistas musicais brasileiro do século XX como foi possível atestar recentemente aqui mesmo em nosso espaço. Hoje, de modo gentil e solícito, Zé Guilherme volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo onde aborda os mais distintos aspectos de sua biografia assim como também de sua carreira. Nesta informal conversa o artista relembra suas mais remotas recordações em relação à música, sua ida para São Paulo para atender ao chamado artístico, o porquê de longos hiatos em sua discografia assim como também no fala sobre o seu mais recente projeto em homenagem a um dos maiores intérpretes da história da música popular brasileira.

Zé, quais são as suas lembranças mais remotas em relação à música? Há alguma influência familiar nesta escolha pela música?

Zé Guilherme – Nasci e cresci ouvindo minha mãe cantar. Ela adorava ouvir os programas de rádio e era fã ardorosa dos cantores da Era do Rádio, de modo especial de Orlando Silva e Dalva de Oliveira. Além disso, a cidade onde nasci Juazeiro do Norte, sempre foi um polo de manifestações musicais, folclóricas e culturais às quais acompanhei desde o berço. Estas são minhas lembranças mais remotas e minhas primeiras influências musicais.

Você vem do Vale do Cariri não é isso? Até que ponto a música dessa região influenciou ou continua influenciando a sua obra?

ZG – Sim nasci e cresci no Vale do Cariri e apesar de não ser um artista com um trabalho de vertente regionalista a musicalidade, a cultura e as tradições da região estão impregnadas no meu sangue e presentes na minha personalidade artística e pessoal.

Desde a década de 1980 que você está radicado no Sudeste. Essa decisão de partir rumo ao “Sul maravilha” se deu exclusivamente por pretensões artísticas?

ZG – Foram várias as razões que me trouxeram para São Paulo, mas a principal delas foi a busca pela ampliação do meu universo de atuação artística.

Seu primeiro álbum, “Recipiente”, é de 2001; o segundo, “Tempo ao tempo” foi lançado em 2006. Agora nove anos depois vem seu terceiro disco. Por que intervalos tão longos em seus álbuns?

ZG – Na verdade Recipiente foi lançado em 2000 e não em 2001. Tempo ao Tempo em 2006. Ambos foram discos produzidos inteiramente por mim às minhas expensas, independentes. Depois de produzidos foram lançados pelo selo Lua Music, por meio de contrato de licenciamento por tempo determinado. Agora, em 2015, o Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva, também independente. O fato de terem sido produzidos com recursos próprios, sem gravadora ou qualquer tipo de patrocínio é o que justifica intervalos tão longos, ou seja, dificuldades de ordem financeira, falta de gravadora, etc. Foram discos autofinanciados, eu sou meu próprio produtor fonográfico. Os três discos só foram possíveis devido à minha coragem, persistência e à disponibilidade dos meus parceiros envolvidos na execução dos projetos.

Depois de dois álbuns pela Lua Music você resolveu aventurar-se no universo da produção independente. Quais as maiores agruras encontradas nessa empreitada?

ZG – Como eu mencionei anteriormente os dois primeiros discos foram produzidos de forma independente por mim, a Lua Music não bancou a produção dos discos apenas foi minha parceira no licenciamento e lançamento dos discos no mercado.Portanto as agruras foram sempre as mesmas: falta de recursos, apoio, patrocínio, etc. E não foi por falta de tentativas, inclusive de leis de incentivo, porém nunca tive a sorte de captar recursos para nenhum dos três discos. Saíram na garra, na coragem e graças aos meus preciosos parceiros músicos.

Atualmente você vem apresentando o álbum “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, disco lançado em comemoração ao centenário do cantor das multidões Orlando Silva. Provavelmente você como muitos outros artistas cresceram ouvindo a voz do saudoso cantor. Você lembra quando e como foi que Orlando chamou a sua atenção?

ZG – Influência de minha mãe que me contaminou e contagiou com sua adoração por Orlando Silva já nos meus primeiros anos de vida. Não tem uma razão lógica, apenas me encantei. Foi um encantamento infanto-juvenil totalmente emocional sem explicação racional. Eu não tinha a menor noção do que era, como era, por que era, apenas aconteceu e cresceu comigo. Somente depois de adulto pude aprofundar o conhecimento com relação à obra de Orlando, sua importância, a estética do seu canto. O encantamento se consolidou e transformou-se em admiração, paixão mesmo. Amo ouvir Orlando Silva, sempre.

O centenário do Orlando, o primeiro ídolo de massa do nosso país, não vem ganhando a devida notoriedade pelos grandes canais de comunicação. Em um país sem memórias como o nosso isso corrobora significadamente para que o nome de um artista deste quilate caia no limbo do esquecimento. Qual a sua opinião sobre este contexto?

ZG – Orlando jamais cairá no “limbo do esquecimento”. E não acredito que o país seja um “país sem memória”, acredito sim que faltam ações para que a memória do país, de um modo geral (musical, cultural, social, política, histórica, etc.) seja alvo de atenção. Educação é a palavra chave. Um povo com acesso à educação é capaz de valorizar sua história em todos os aspectos. Conjugada com saúde, igualdade de oportunidades, acesso à informação, etc., a educação pode abrir caminhos e espaços para a notoriedade do país e de suas figuras ilustres e com isso reavivar, reacender a capacidade de cada um de nós de fazer a grandeza da história do país. Depende dos governantes e depende de cada um de nós a construção do nosso futuro.

O repertório do seu álbum em homenagem ao Orlando busca abranger especialmente a época dita como áurea do artista (período este que vai de 1938 a 1942). Houve esse cuidado em buscar abordar esses anos ou foi algo espontâneo devido a qualidade do repertório?

ZG – O período considerado por muitos como apogeu do Orlando, na verdade, vai de 1935 a 1942. Este foi o principal recorte que adotei para a escolha do repertório. O viés foi a escolha de canções menos densas, contemplando seu lado mais alegre como, por exemplo, os sambas que são cheios de bom humor em sua letras.

“Abre a janela” ganhará a estrada ou o tributo ao cantor das multidões se restringirá apenas aos equipamentos de som?

ZG – Confusa sua pergunta!!! Talvez esclareça eu dizer que é claro que o disco foi lançado comercialmente no mercado para ser comprado, ouvido, tocado, executado, etc. e sem sombra ser levado ao palco em shows de lançamento, turnê, circulação, divulgação, etc. A intenção não é deixá-lo na gaveta ou na prateleira restrito apenas para tocar em aparelhos de som…. A estrada é seu destino.

 


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ZÉ GUILHERME CANTA ORLANDO SILVA

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No centenário do cantor das multidões, o artista cearense apresenta o oportuno tributo “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, projeto que traz Zé Guilherme ao mercado fonográfico após um hiato de quase uma década

Não há o que se negar acerca da importância do cantor Orlando Silva dentro da música popular brasileira. Essa afirmação podemos atestar nas mais variadas fontes de pesquisas existentes, assim como também através de depoimentos de alguns dos mais relevantes nomes da MPB. O artista, que teve sua fase áurea entre os anos de 1935 e 1942, atuou no mercado fonográfico até os anos de 1970 e a partir de interpretações singulares de canções que posteriormente viriam a se tornar clássicos de nossa música acabou fazendo escola e consequentemente tornou-se responsável por influenciar muitos daqueles que viriam dar continuidade a história da boa música popular brasileira nos anos subsequentes como é o caso de nomes como o ícone da bossa-nova João Gilberto e do saudoso Nelson Gonçalves. Onipresente dentro da música brasileira, o “cantor das multidões” (apelido dado pelo locutor esportivo Oduvaldo Cozzi) influencia cantores e intérpretes das mais distintas gerações como é o caso do artista aqui hoje em questão. No entanto, no ano de centenário dessa emblemática figura do nosso cancioneiro, os grandes meios de comunicação de massa praticamente ignoraram tal comemoração e, no último dia 03 de outubro, data em que Orlando de faria aniversário, poucos foram aqueles que dedicaram-se à lembrança dessa saudosa figura. Diferente dos noventa anos do artista, quando o ator Tuca Andrada ganhou os palcos do país a partir do musical “Nada além de uma ilusão”, escrito por Antônio de Bonis e Fátima Valença, o centenário de Orlando tem passado desapercebido em detrimento a sua importância dentro de nossa música e até agora poucas foram as homenagens concedidas. Até o momento, a mais significativa em disco, vem a ser “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, tributo prestado pelo cantor cearense Zé Guilherme.

Nascido em Juazeiro do Norte (CE), Zé Guilherme teve a oportunidade de crescer sob as mais distintas influências. Sua formação musical se deu a partir da audição dos grandes nomes do cenário musical brasileiro (dentre eles o próprio Orlando), assim como também da absorção de toda a cultura existente em sua região através das mais distintas fontes culturais e manifestações artísticas. Esse tal contexto fez-se de fundamental importância para que tempos depois o jovem juazeirense almejasse seguir carreira artística. Percebendo que seu torrão natal não possibilitaria de imediato o alcance que desejava em sua carreira artística, Zé decidiu partir para o Sudeste. Em São Paulo, desde 1982, de início cantou no circuito de casas noturnas da cidade. De lá para cá vem desenvolvendo inúmeros projetos musicais, dentre os quais os shows “Clandestino” e “Zé Guilherme e Convidados” (que contou com a participação de nomes como Carlos Careqa e Vânia Abreu). Depois de anos na estrada, em 2000, Zé lança “Recipiente” (Lua Discos), seu primeiro CD e que conta com a produção musical e arranjos de Swami Jr., seis anos após o lançamento de “Recipiente” lança mais um projeto intitulado “Tempo ao Tempo“, com direção artística do próprio Zé Guilherme, que assina também a coprodução em parceria com Marcelo Quintanilha. Quase uma década depois o artista cearense volta ao mercado fonográfico com o álbum “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, um projeto que resgata o repertório de um dos maiores intérpretes de nossa música a partir de uma releitura peculiar de uma obra composta por clássicos do cancioneiro brasileiro eternizados por Orlando. Trata-se de uma comemoração ao centenáriodo Cantor das Multidões como assim pudemos observar.

Composto por dezoito canções, “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva” busca abranger a fase áurea do saudoso intérprete carioca ocorrida entre os anos de 1935 e 1942 a partir de faixas como a popular marchinha carnavalesca de 1930, “A Jardineira” (Benedito Lacerda e Humberto Porto). “Apresento minha visão pessoal desta canção auxiliado pelo belo arranjo que traz introdução com o piano de Breno Ruiz, fazendo referência ao estilo barroco”, relata o intérprete cearense. O disco segue com “Dama do Cabaré” e “A Primeira Vez”. A primeira, de autoria do “poeta da Vila” Noel Rosa (que também assina em parceria com Cristovão de Alencar a faixa “Pela Primeira Vez”) e traduz o clima boêmio dos cabarés da Lapa carioca; já a segunda consta no repertório do disco por se tratar de uma canção que, segundo o próprio Zé Guilherme, “remete à inocência da paixão juvenil e me faz rememorar as desilusões passageiras da juventude”. Logo em seguida vem a faixa que batiza o álbum: “Abre a Janela”. Registrada pelo cantor das multidões em 1937, esta canção de autoria de Marques Júnior e Roberto Roberti foi o primeiro sucesso carnavalesco do artista no ano seguinte. O disco segue com sucessos da carreira de Orlando como “Preconceito” (Marino Pinto e Wilson Batista), “Aos Pés da Cruz” (Marino Pinto e Zé da Zilda), “Curare” (Bororó), “O Homem Sem Mulher Não Vale Nada” (Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti), “Alegria” (Assis Valente e Durval Maia), “Lábios Que Beijei” (J. Cascata e Leonel Azevedo), “Faixa de Cetim” (Ary Barroso), “Lealdade” (Wilson Batista e Jorge de Castro) e “Malmequer” (Newton Teixeira e Cristovão de Alencar). Entre as menos populares encontram-se “Meu Consolo é Você” (Nássara e Roberto Martins) e “Meu Romance” (J. Cascata). Vale destacar também as homenagens para as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro a partir das canções “Cidade do Arranha Céu” (composição da lavra de Edgard Cardoso, Ranchinho e Alvarenga) e “Cidade Brinquedo” (Silvino Neto e Plínio Bretas).

“Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva” atesta a atemporalidade de artista singular dentro da música popular. É um projeto que faz uma justa reverência ao saudoso cantor das multidões a partir de um seleto repertório composto após um longo processo de pesquisa sobre a trajetória e a discografia do inigualável intérprete carioca. Ao decidir homenagear um artista do quilate de Orlando Silva, Zé Guilherme não apenas realiza um desejo contido ao longo de uma década, mas também expõe-se visceralmente em um trabalho imbuído de reminiscências como ele mesmo faz questão de registrar “eu abri a janela do meu coração para me apossar, com respeito e reverência, dos sucessos de Orlando Silva e reapresentá-los ao público pela minha voz, pela minha forma de cantar”. Desse modo, “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva” faz-se, sem o menor vestígio de saudosismo, um disco imprescindível para todos aqueles que se declaram fã de Orlando Silva (ou não) devido ao mapeamento de um repertório caracterizado por um apurado critério e rigor que corroboraram e continuam a contribuir para a história do nosso cancioneiro. Disco fundamental para que as novas gerações possam conhecer, a partir de interpretações carregadas de afetividade. Um carinho que de tão sincero faz-se combustível para que Orlando, mantenha-se vivo no coração daquele que esmo após quase quatro décadas de sua morte, o mantenha como referência na música popular brasileira.

Serviço
CD: Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva
Artista: Zé Guilherme
Distribuição: Tratore 
Preço sugerido: R$ 27,00


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