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SÃO PAULO – UM ESTADO DE EMOÇÕES E OUTRAS PECULIARIDADES

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Livro reúne 36 anos de saudades de seu torrão natal e experiências de viagens

Em 1976, quatro anos do autor deste livro partir da capital de Pernambuco tendo por objetivo desbravar a maior cidade do país, o cantor e compositor Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes lançava “Alucinação“,segundo disco de uma carreira fonográfica iniciada dois anos antes como o álbum “Mote e glosa“. Tal disco, surgiu predestinado ao sucesso, pois veio recheado de canções que viria anos depois ganhar o gosto popular e que acabariam por tornarem-se imprescindíveis nas apresentações do artista cearense. Dentre canções como “A palo seco“, “Velha roupa colorida” e “Apenas um rapaz latino-americano” entre outras. Está lá também a canção “Fotografia 3×4“, que de cara me fez acreditar ser a trilha sonora ideal para sintetizar esta obra lançada através da Editora Pasavento e cuja a capa remeteu-me aos lancinantes (porém verdadeiros) versos da canção onde, em dado momento, o autor entoa: “Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade“. O ilustrador Novaes soube capitar bem o espírito da coisa ao retratar o universo que se abria diante de um nordestino que chegava a maior cidade da América do Sul e uma das maiores metrópoles do planeta para dar início a um novo contexto pessoal e profissional, onde o medo inicial aos poucos foi dando lugar a uma espécie de encanto pautado na heterogeneidade de uma cidade que em 1980 tinha quase 8 milhões e meio de habitantes (enquanto a capital do seu estado de origem contava com “apenas” 1.240.937). Tal magnetismo (assim como também o medo de encarar as possíveis agruras) presentes na nova cidade é retratada em “São Paulo nos trilhos do coração“, crônica que abre a primeira parte do livro (“Crônicas líricas e de reportagens“).

Ainda neste primeiro momento, Joaquim Macedo evidencia-se muito além do desbravador de uma megalópole (contexto que pode ser evidenciado na crônica “O desafio: Como conhecer São Paulo decorando o mapa”) quando apresenta distintos temas que vão desde o trágico início do processo de redemocratização do país com a morte do presidente Tancredo Neves (“Os bastidores de uma tragédia anunciada”), perpassando pelos movimentos culturais paulistas e seus espaços de resistências como nas crônicas “Lira paulistana: Movimento cultural, vanguarda de Sampa”, “Lira Paulistana e Itamar Assumpção” e “Manifestação em prol do brincante reúne milhares de pessoas”; as minúcias existentes para além do tão difundido e conhecido centro da capital paulista (como as crônicas “Liberdade, bairro de passagem, o mais cosmopolita” e “Perdizes, o mais completo bairro da cidade”; a abordagem do nome de um dos ícones da política paulista e nacional Mário Covas (“Histórias de um repórter de rua: O cidadão Mário Covas”) e o curioso e emocionante encontro entre o repórter Macedo e o eu ídolo de infância (“O repórter e o mito”), entre outras tantas se prendermo-nos apenas a esse primeiro momento. Ao partirmos para a segunda abordagem do livro (Parte II – Crônicas de viagens) deparamo-nos com um autor que deixa evidenciar o prazer do usufruto dos lugares onde passa como nas abordagens feita a respeito de Tatuí em três momentos, o Guarujá, Santos, a caverna do Diabo, Campos do Jordão e a curiosa interligação entre Amsterdã, Iguapé e Pernambuco. Tudo isso com uma riqueza de detalhes peculiar sempre deixando escapar nas entrelinhas uma forte ligação com seu torrão natal ao trazer detalhes comparativos e/ou correlacionados com o seu estado natal.

Joaquim Macedo Júnior, dispensa apresentações a quem acompanha tanto o Musicaria Brasil quanto o Jornal da Besta Fubana, pois assina coluna em ambos. Pernambucano, “Quincas” (como por muitos é chamado), é jornalista formado pela PUC-SP e pós-graduando em Jornalismo Cultural pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas). Radicado há décadas em São Paulo o jornalista traz em seu currículo as mais distintas experiências profissionais. Ainda na PUC atuou como assessor de imprensa da instituição. Soma-se ainda a sua experiência profissional duas passagens pela Câmara Municipal de São Paulo como assessor de imprensa de dois vereadores. Como assessor de Imprensa atuou no governo do Estado de São Paulo, no Diretório Estadual do PSDB em São Paulo e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, assim como também no Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Conta-se também a sua passagem pela Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU/SP) como gerente de Marketing Institucional e as diversas funções exercidas nas rádios paulistas. Como repórter, redator, apresentador, noticiarista, editor e produtor trabalhou em emissoras como Eldorado, Bandeirantes, Cultura, Excelsior (atual CBN) entre outras. Atualmente, é responsável pela Assessoria de Comunicação Joframa, além de prestar consultoria jornalística e atuar como revisor, escreve semanalmente (às terças) no “Jornal da Besta Fubana” assim como também no “Musicaria Brasil”, aos sábados, com os seus “Petiscos da Musicaria”, e eventuais participações em Hangouts e outros contextos musicais presente no espaço.

Ao ler “São Paulo – Um Estado de emoções“, será possível observar a partir das trintas crônicas muito bem selecionadas para este livro as mais distintas facetas do autor. Lá está presente o repórter, o turista (que não abre mão do lado repórter também), o pesquisador de minúcias, o amante da cultura popular, o ardoroso fã dos movimentos culturais e do futebol. Trata-se da história pessoal e das histórias vivenciadas e acumuladas ao longo dos anos por um nordestino que como tantos outros foi arriscar a vida em uma megalópole, mas que não abriu mão de suas origens, buscando evidenciá-las sempre que possível. Uma saudade do seu torrão natal que agora se faz impressa, e que mesmo que o tempo venha a torná-la amarela, eterniza-se a partir de efetivas e bem elaboradas linhas. Quincas fez-se capaz de nos presentear com um livro que traz consigo uma leveza peculiar, imbuída também de um contexto que não abre mão do didático, e que acaba por fazer da leitura, além de prazerosa, algo extremamente instrutivo. Dados biográficos, informações complementares sob os mais variados temas e lugares entre outras peculiaridades são encontradas em “São Paulo – Um Estado de emoções“. Um excelente material que transpassa a fronteira do trivial e acaba tornando-se algo que vai para além da indicação de leitura como já se fez possível atestar a partir das oportunidades que o querido autor e amigo oportunizou a muitos a partir do lançamento, como foi o caso da noite de autógrafos no Museu Histórico Paulo Setúbal.

Para aquisição:

Passadisco (Recife)

Livraria Folha

Pasavento


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Pery foi o primeiro intérprete de um dos maiores clássicos da música mundial

O artista hoje abordado trouxe em seu DNA alguns dos genes mais musicais existentes em nosso país. A música veio arraigada em sua veia de modo abundante, e isso o acabou por falar mais alto quando decidiu escolher um meio de sustento em sua vida apesar de ter no início relutado um pouco. Falo em relutar porque antes de tornar-se cantor, Pery (por intermédio do seu pai, que era amigo de José de Almeida Castro, diretor da Tv Tupi) chegou a trabalhar como cameraman na emissora, exercendo tal função e diversos programas, dentre os quais Câmera um, programa apresentado por Jacy Campos. Ser filho de dois dos nomes mais representativos da música popular brasileira não era para qualquer um, aliás, era privilégio apenas de duas pessoas: Pery e Ubiratan de Oliveira, o Billy, filho caçula de Dalva de Oliveira (uma das cantoras mais representativas do país) e de Herivelto Martins (um dos maiores compositores da música popular brasileira do século XX).

O início musical de Pery se deu modo bastante casual quando o cameraman Pery Martins estava exercendo o seu ofício no programa Meio-dia, de Jacy Campos, quando o apresentador fala que determinado cantor já anunciado, não havia comparecido aos estúdios para apresentar-se. No entanto o apresentador disse que os telespectadores não iriam ficar sem música, pois um novo cantor iria substituir o ausente. Ao anunciar este novo cantor, o apresentador da Tv Tupi pediu: “Câmera 2, dê um close na câmera 1”. A câmera onde estava justamente Peri Oliveira Martins (este é seu nome de batismo). E foi assim, meio de supetão, que Pery deu início a sua carreira de cantor. No entanto vale ressaltar que esta não foi a sua primeira incursão pelo universo artístico, pois ainda criança, aos três anos, fez a dublagem do anão Dengoso em Branca de Neve e os Sete Anões, onde sua mãe Dalva de Oliveira dublava a personagem título. Sem contar que aos cinco anos participou de ‘It’s all true’, o filme inacabado de Orson Welles filmado no Brasil.

Outro fato curioso que antecede sua carreira musical se deu envolvendo outra grande personagem de nossa música. Quando Pery ainda era muito pequeno, lá pelos idos de 1938, Carmen Miranda foi pela primeira vez aos Estados Unidos. Carmen voltou ao Brasil com a promessa de um empresário americano (que havia se interessado bastante por suas performances) de conseguir mais uma série de shows e outras oportunidades para a artista na terra do tio Sam. Prometeu-lhe tentar fechar alguns contratos e assim que estivesse tudo certo retomaria contato para que a artista retornasse aos EUA. Só que o tal contato não chegava nunca e Carmen estava ficando numa ansiedade inenarrável. Até que uma amiga teve uma ideia e lhe sugeriu fazer uma promessa para que o bendito contato chegasse logo. Seguindo algumas orientações de uma simpatia sugerida pela amiga. Carmen teria que levar um bebê para casa e caso ele viesse a fazer xixi em sua cama, no dia seguinte haveria boas notícias.

Só que Carmen não tinha filhos e nem crianças em casa. A única solução possível era levar alguma criança de amigos para lá, e a alternativa encontrada foi procurar Dalva de Oliveira, que havia dado a luz ao pequeno Peri a pouco tempo. Amiga de Dalva , Carmen questionou-a se o seu filho podia passar uma noite em sua casa. “Olhe, Carmen, ele é uma criança”, ofendeu-se Dalva, que acabou concordando com a proposta. O pequeno Peri mal chegou e Carmen enfiou-lhe pela goela abaixo uma verdadeira cascata de sucos, vitaminas, água e nada de xixi. Carmen começou a ficar desesperada e foi para a sala relaxar um pouco. Quando voltou ao quarto uma surpresa lhe aguardava. Peri tinha feito tanto xixi na cama e que seria preciso até trocar o colchão… vale registrar que no dia seguinte chegou a tão sonhada carta com o convite do empresário americano para fosse para os Estados Unidos tentar a sorte em Hollywood.

Para que possamos matar a saudades das interpretações singular deste nome que hoje faz um falta incrível para a música popular brasileira seguem duas canções. A primeira trata-se do clássico “Garota de Ipanema“, canção da lavra da imbatível dupla Tom e Vinicius.

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A segunda canção trata-se de “As rosas não falam“, originalmente composta por Cartola, esta canção além da voz do autor ganhou status de clássico da MPB e hoje já conta com dezenas de interpretações.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Considerado um dos maiores sucessos do cantor e compositor alagoano, “Oceano” foi composta de modo inusitado

Djavan em 1989 lança o segundo disco de sua carreira ao qual não conseguiu, digamos, batizar. Tal contexto acabou fazendo com que o seu nono disco saísse apenas com o nome do cantor e compositor. No entanto não demorou muito para que o seu público acabasse o batizando de “Oceano”, por conta do estrondoso sucesso que a canção fez em todo o país. Na época “Oceano” fez parte da trilha sonora da 42ª “novela das sete” exibida pela Rede Globo. “Top Model”, foi uma novela que trazia como enredo um contexto meio litorâneo e talvez pelo título da canção se encaixasse de modo coeso à história. Escrita por Walther Negrão e Antônio Calmon, Top Model trazia em seu elenco nomes como Marília Pêra, Nuno Leal Maia, Vera Holtz, Cissa Guimarães, Jonas Bloch, Maria Zilda, Evandro Mesquita, Zezé Polessa, Drica Moraes, entre outros. A canção era atribuída ao personagem Lucas Pasolini, interpretado por Taumaturgo Ferreira (que fazia par romântico com Malu Mader, que interpretava a personagem Duda).

Já a par de toda a conjuntura “novelística” a qual a canção está envolvida, voltemos ao que de fato interessa que a música em si. Hoje Djavan conta com cerca de 40 canções em trilas de novelas globais. Na época já trazia aluns temas em seu currículo de intérprete e compositor, mas nenhuma haveria de alcançar o sucesso de “Oceiano”. Há de se registrar para quem não tem conhecimento que o cantor e compositor alagoano antes de gravar o primeiro disco trabalhava, além de crooner de boates cariocas, como contratado da gravadora Som Livre para interpretar alguns temas de novelas. Dessa época a canção que mais se destacou na voz do pretenso cantor foi “Alegre menina”, que fez parte da trilha sonora da novela “Gabriela”, exibida em 1975, ou seja, um ano antes do lançamento do primeiro LP do artista.

“Oceano” foi feita de modo inusitado. Após encontrar esta canção entre cassetes de projetos abandonados pelo cantor e compositor, sua filha liga para o pai que encontrava-se nos EUA e sugere que Djavan ao voltar para o Brasil reconsidere a possibilidade de concluir aquela melodia belíssima que ela havia encontrado. O músico acata a ideia e retoma a ideia de música baseando-se em seu propósito inicial que era trazer para o contexto sonoro de “Oceano” ares flamenco. Tanto que a ideia inicial era que “Oceano” tivesse sua letra em espanhol (o que só acabou ocorrendo em 1994, cinco anos depois do lançamento do da gravação original, quando Djavan lançou o projeto “Esquinas”, disco voltado para o mercado latino e que traz alguns dos seus grandes sucessos com letras em espanhol). Persistindo nesta áurea flamenca, Djavan descobre na época da gravação que estava vindo ao Brasil era Paco de Lucia, um dos maiores nomes do gênero a partir de um inconfundível violão. Marcos Mazzola, produtor do disco do Djavan, intermedia o encontro entre os dois artistas e Paco aceita o convite para participar do disco.

No dia marcado, Paco chega ao estúdio e pede para ouvir a melodia de “Oceano” para basear-se. Ao término, Paco, um dos maiores violonistas da historia da música, diz ao Djavan: “Sua música tem muita harmonia… Eu só sei 3 acordes”. Djavan pede então que ele entre no estúdio e execute os 3 acordes que ele sabe. Paco entra no estúdio e faz um solo magistral com os “três” acordes que sabia. Hoje, quase três décadas depois do seu lançamento, a canção ganhou o status de hit do cantor e é exaustivamente executada nos mais distintos ambientes (desde rodas de violão até as plataformas digitais de música). Interpretadas por nomes como Leny Andrade, João Bosco, Carol Welsman entre outros; o próprio autor já a registrou novamente em mais dois CD’s ao vivo e 4 DVD’s. A título de curiosidade a canção é a mais acessada entre os vídeos disponíveis no canal Djavan VEVO (canal do cantor existente no youtube). “Oceano” já caminha para os 5 milhões de visualizações


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MILENA TIBÚRCIO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Retornando ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo, a multifacetada Milena Tibúrcio revela-nos informações sobre a sua carreira, projetos e biografia

Recentemente a cantora, compositora, educadora musical e instrumentista brasiliense Milena Tibúrcio abrilhantou o nosso espaço com o lançamento do álbum “Canto de mãe”, álbum produzido pelo marido violonista Rogério Caetano que marca o seu retorno ao mercado fonográfico após uma pausa de mais de uma década como foi possível atestar a partir da pauta publicada aqui em nosso espaço sob o título de “EM ‘CANTO DE MÃE’, MILENA TIBÚRCIO REITERA SUA VOCAÇÃO ARTÍSTICA APÓS MAIS DE UMA DÉCADA”. Hoje, de modo solícito e gentil, a artista retorna ao nosso espaço para esta informal conversa onde Milena nos conta como se deu o seu envolvimento com a música, como se deu a escolha do repertório do seu mais recente álbum e se, em algum momento, pensou em deixar de lado a carreira artística em definitivo ao longo dos onze anos que passou afastada do universo fonográfico; além, é claro, de falar sobre se as crianças possuem aptidão para a música. Confiram!

Segundo consta em sua biografia, o seu envolvimento com a música se dá desde a sua infância quando você tem contato com o piano. Qual é a lembrança mais remota que você tem com ela?

Milena Tibúrcio – Na verdade começa antes do piano, começa com o canto mesmo. Lembro muito da época em que meu pai me levava pra creche e a cada dia me ensinava uma música nova. Quando chegávamos lá, ele me colocava em cima do balcão pra eu cantar. Ouvíamos muita música e eu adorava cantar em casa e nas festas de família. Isso foi na primeira infância, com 3,4 anos. O piano eu comecei depois.

E a descoberta do violão? Em que circunstância aconteceu?

MT – O instrumento que mais me chamava a atenção era o violão. Eu queria tocar violão. Tinha uns amigos do meus pais que tocavam e sempre tinha roda de música. Essa era a minha referência. Mas meu pai achou que era melhor eu começar com o piano, e foi maravilhoso. Quando eu já estava maior que tinha certeza do que eu queria é que fui estudar violão, com uns 12 anos mais ou menos. Aí meu pai falou que eu poderia estudar violão mas que continuaria com o piano. Quando já estava começando a tocar melhor e empolgada com o violão foi que eu larguei o piano.

Você tem algumas incursões pelo teatro assim como também no cinema. Você poderia nos falar um pouquinho dessa experiência?

MT – Tenho um irmã atriz e diretora teatral, a Caísa Tibúrcio. As trilhas e música que fiz pra teatro foram com ela. Aconteceu naturalmente. Estamos atualmente criando um espetáculo novo infantil chamado MaNATú. As músicas são minhas com letra da Iara Ferreira e a Caísa que vai dirigir. Fiz teatro na adolescência e gosto muito dessa linguagem também. O cinema foi meio por acaso, primeiro fui convidada pela diretora Betse de Paula, que era minha vizinha na época, para compor algumas músicas para a trilha do filme Celeste e Estrela que tinha a trilha assinada pelo Andre Moraes. Depois acabei fazendo a trilha junto com o Rogério Caetano de um curta da Betse também que se chama As andanças do nosso senhor sobre a terra. Isso tudo aconteceu em quando eu ainda morava em Brasília (até 2004). Acabei não investindo mais nessa área, que é uma coisa muito específica.

Foi um hiato de onze anos entre o seu álbum de estreia e este que agora você acaba de lançar. Neste ínterim em algum momento você achou que não era mais viável seguir a carreira musical?

MT – Acho que não deu nem tempo pra pensar nisso. Foi tanta coisa! Acho que eu tinha consciência que era só um momento mesmo, que eu não ia conseguir ficar longe da música. Quando gravei o Canto de Mãe eu realmente não me cabia em mim. Precisava colocar no mundo essas músicas.

Você como docente na área musical deve saber quais são os fatores relevantes da música na vida não apenas dos alunos, mas das pessoas de modo geral. Para você, como educadora musical, qual a importância da música o que faz a música ser imprescindível?

MT – Eu poderia citar um monte de educadores e estudos, mas prefiro buscar uma reflexão simples. Você imagina ser possível viver em algum local sem música? Isso vale pra qualquer pessoa, não só para músico. A música é para todos mesmo, ela desperta funções variadas nas vidas das pessoas e por isso precisa ser valorizada e cultuada nos mais variados espaços sociais.

Qual a principal evidência da compositora Milena Tibúrcio hoje, depois da maternidade, e que não é possível perceber em seu primeiro álbum?

MT – Sem dúvida é um álbum mais maduro, em que eu identifico uma linguagem e unidade. Meu objetivo foi que as composições estivessem a frente da interpretação, dos arranjos. Fiquei muito satisfeita com o resultado.

O disco que conta com dez faixas trás em todas elas a sua assinatura ao lado de um parceiro. Como se dá seu processo de composição?

MT – Geralmente eu faço a melodia e envio para os parceiros. Depois eles colocam a letra em cima da melodia. Neste disco só a música À Margem não foi assim, eu musiquei o poema do Altino Caixeta de Castro, que foi muito amigo do meu pai.

Quais foram os critérios para a escolha do repertório?

MT – Tinha muita música pra escolher, afinal foram 11 anos de intervalo. Resolvi escolher as músicas com mais densidade e mais trabalhadas harmonicamente. Músicas em que o violão já estivesse mais elaborado. Quando fui analisar minhas músicas identifiquei essa corrente e uma outra leva que são as músicas com o caráter mais regional, raiz. Essas ficaram pro próximo!

Alguma das meninas já mostra uma propensão natural para a música?

MT – As duas! A criança é musical, pena que muitas vão crescendo e vão endurecendo em vários aspectos. As meninas adoram cantar. A Rosa (8 anos) canta, compõe, escreve poesia, dança, faz circo, toca flauta e agora vai começar a estudar piano. Ele tem facilidade com tudo. Vamos ver o que ela vai escolher.

O seu primeiro álbum você chegou a apresentá-lo em lugares como o Rio de Janeiro e Brasília. Como está a agenda para este segundo projeto?

MT – Fiz o lançamento do Canto de Mãe em Paris, foi lindo. Depois fiz no Rio de Janeiro. Durante o ano de 2016 participei de muitos eventos de compositores e compositoras e fiz também vários outros shows em várias casas da cidade. Quero muito ir pra outras cidades, estou buscando essa agenda. Não fiz o lançamento ainda em Brasília, mas pretendo fazer ano que vem. Tem algumas coisas se encaminhando pra eu fazer em São Paulo. Bom, é só me chamar que eu vou.

Maiores Informações: Site Oficial

Milena Tibúrcio é compositora, cantora, violonista e educadora musical.


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EM ‘CANTO DE MÃE’, MILENA TIBÚRCIO REITERA SUA VOCAÇÃO ARTÍSTICA APÓS MAIS DE UMA DÉCADA

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Substantivos como mãe e professora não foram suficientes para afastar a artista brasiliense da música

Uma década é suficiente para abandonar sonhos aparentemente longínquos? Depende… Isso é bastante relativo, pois é um fator que está intrinsecamente ligado ao protagonista do sonho e sua obstinação. Um fator bastante importante e que sempre deve ser levado em consideração é a certeza de que adversidades poderão (ou quase sempre hão) de surgir ao longo do caminho que traçamos para alcançarmos nossos pretensos objetivos. E ao longo de cada obstáculo, o modo como o encaramos é que irá medir o nosso grau de obstinação. Para uns estes estorvos podem vir a servir como combustível para nos alavancar em direção aos nossos objetivos, para outros, o menor estorvo surgido, é sinal de rendição, que as coisas não devem seguir adiante e devem fenecer ali aos pés da esperança. É como foi dito: tudo depende unicamente de nós, pois dentro de cada é possível que haja ao menos um sonho amordaçado, um grito contido, uma fagulha de esperança de que podemos ser mais do que somos.

Enquanto mantivermos viva esta certeza o tempo passará sem dúvida alguma a ser secundário, pois aquilo a fé naquilo que almejamos é perene. É como certa vez escreveu o escrito e e estadista alemão Johann Goethe: “Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor”. Enquanto muita gente passa a vida inteira sem se encontrar, outras se acham rapidamente, mas por circunstâncias diversas acabam, em dado momento, abdicando temporariamente dos seus sonhos, sonhos estes que por motivo de força maior mudaram de posição dentre as prioridades existentes, e assim passaram a permear não o campo dos desejos não alcançados, mas um espaço destinado às realizações do amanhã .

Toda a teoria anterior serve para falar desta artista que teve o seu primeiro CD, intitulado “Milena Tibúrcio”, lançado em 2005. Composto por doze faixas de sua autoria (algumas em parceria), Milena naquele momento buscava firmar-se como uma das ascendentes cantoras de sua geração dentro da MPB a partir de toda uma diversidade rítmica muito evidenciada a partir de gêneros como o samba, valsas, chorinho, afoxé, baião, ciranda e até mesmo bolero. Vale o registro que o projeto contou com a participação de nomes como Lula Galvão, Hamilton de Holanda, André Vasconcelos, Claúdio Jorge, entre outros. Finalmente a tão sonhada carreira musical parecia estar começando a evoluir. Os shows de lançamento ocorreram no Clube do Choro de Brasília e no Rio de Janeiro; na Pauta Funarte da Música Brasileira, com participações de Hamilton de Holanda e Sueli Costa; Centro Cultural da Justiça Federal; IBEU; Lona Cultural Gilberto Gil em Realengo. Rendeu também a gravação do programa “Talentos”, na TV Câmara (2007), e a participação como convidada especial do “Câmara das Artes”, com o compositor Guinga.

No entanto, no meio deste percurso, interesses pessoais falaram mais alto. Protelando o seu desejo de seguir a carreira artística para não apenas dar vazão ao seu desejo de tornar-se mãe, a cantora, instrumentista e compositora Milena Tibúrcio viu que não era necessário abnegar seus anseios em nome da maternidade, mas que era possível, com o tempo, adequar-se as duas realidades como hoje é possível atestar. Segundo relato da própria artista, a sua condição de mãe acabou por favorecê-la artisticamente, inspirando-a e mostrando-lhe caminhos nunca dantes possíveis graças ao aguçado instinto materno como diz: “A maternidade me fez imaginar um mundo que eu queria deixar para as minhas filhas.”

Voltando um pouco no tempo a história de Milena Tibúrcio com a música teve início ainda na infância, quando estudava piano e resolveu aventurar-se pela primeira vez no universo da composição. Porém, foi na adolescência que descobriu o violão, aquele que viria a se tornar o seu parceiro inseparável de ofício. Acompanhada por tal instrumento deu vez a inspiração e foi capaz de criar as mais distintas melodias como agora também é possível atestar neste seu segundo projeto fonográfico intitulado “Canto de mãe”, disco que marca a volta da compositora, cantora e educadora musical brasiliense ao universo fonográfico após um tempo delicioso de dedicação. “Canto de Mãe” mostra exatamente a que veio: exibir toda a força e importância que o cantar de mãe significa; toda herança do canto que fica. É a retomada de Milena Tibúrcio ao cenário musical embalada por esse intervalo intenso de afeto. Para endossar esse seu retorno, o disco conta com uma ficha técnica onde constam os nomes de Luis Barcelos (arranjos e bandolim de 10 cordas); Rafael dos Anjos, Lucas Tibúrcio e Rogério Caetano (violões); André Vasconcellos e Guto Wirtti (baixo acústico); Rui Alvim (clarinete e clarone); Marcelinho Moreira (percussão); Bebe Kramer (acordeon); Eduardo Neves (arranjo de sopro e flauta); Amoy Ribas (moringa); Aquiles Moraes (trompete e flugel) e Caio Márcio (guitarra).

Com um repertório que reitera a abrangência de sua música Milena Tibúrcio assina todas as faixas ao lado de parceiros como Vidal Assis, Thiago Amud, Edu Kneip, Caio Tiburcio (seu pai), João Marinho, Clodo Ferreira, Iara Ferreira, e Jayme Lima, além de um poema de Altino Caixeta de Castro. O disco tem início com o samba homônimo ao seu título, uma faixa que reitera o seu prazer em cantar agora endossado pela condição de mãe. Imbuída de uma densidade melódica “Juiz e pescador” faz jus à proposta da artista em apresentar um repertório caracterizado por canções pautadas em uma maior densidade e substância harmônica. Esta mesma característica evidencia-se de modo mais evidente em canções “Na eternidade”, “À margem” e “Parar pra não pensar”. O disco ainda conta com “Rancho da Ilusão”, “Remição da flor”, “Talvez” e “Se voltar”. Valendo o destaque para “Canção de barro”, dedicada ao saudoso poeta Manoel de Barros.

É um disco que reitera a força da delicadeza como é possível atestar já na aquarela que ilustra a capa assinada por Renato Amorim. Se com o nascimento dos filhos o eixo da vida chega a mudar, no caso de Milena tal inclinação pendeu-a para o lirismo, onde o amor ramificou-se em melodias surpreendentes, de uma belezas harmônicas incomumente densa e bela, mostrando-nos possíveis novos viés dentro da música popular brasileira, um caminho adornado por canções preciosas e precisas para que possamos continuar a acreditar na redenção do nosso cancioneiro. Diante deste talento há quem se deixe intuitivamente se auto-questionar: Por que um intervalo tão grande entre o primeiro disco e este? Sem dúvida alguma, a resposta mais sensata seria: para poder fazer valer aquilo que certa vez escreveu Machado de Assis: “Amor de mãe é a mais elevada forma de altruísmo.”

Para que os amigos conhecerem um pouco sobre o trabalho da Milena segue abaixo a faixa que batiza este álbum lançado mais de uma década depois do primeiro disco. “Canto de mãe”, á citada ao longo do texto, é de autoria de de Milena Tiburcio e Vidal Assis:

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JARBAS CAVENDISH – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Band Leader da exitosa Pequi, o multifacetado e inquieto Jarbas Cavendish volta ao nosso espaço para esta entrevista generosamente concedida onde aborta distintos temas

De família musical, Jarbas Cavendish souber aproveitar e sorver toda a musicalidade com a qual convivia diariamente em sua casa a partir de sua mãe e sua avó. Desta experiência foi aglutinando outros elementos e características que hoje refletem-se em suas composições e projetos nos quais se envolve por onde tem passado ao longo de todos estes anos dedicados à música. Depois de ter iniciado seus estudos musicais em Pernambuco, graduou-se pela Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO) em 1992. Como professor auxiliar na UNIRIO, foi responsável por disciplinas como Harmonia e Teclado, Percepção Harmônica e Prática de Conjunto. Atualmente, é professor na Escola de Música da UFG, estando a frente de um exitoso e bem-sucedido projeto de extensão e cultura da escola de música da instituição, a Banda Pequi, que ao longo dos últimos quinze anos já soma três projetos: um CD (que conta com a participação da cantora Leila Pinheiro), e dois DVD’s (sendo o mas recente uma parceria com o instrumentista Nelson Faria e o cantor, instrumentista e compositor mineiro João Bosco como pode ser conferido recentemente aqui mesmo neste espaço a a partir da pauta “EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA”).

Inquieto, atualmente ainda soma à suas atividades o projeto de pesquisa acadêmica que visa observar resultados de performance musical na área da MPB. Batizado de Garagem (alusão aos espaços que durante muitos anos em décadas passadas serviam para guardar os automóveis mas também como estúdio de ensaios), o projeto vem sendo encabeçado por dois grupos: Diphobia e Sotaque. Formado por 5 músicos com idade até 18 anos da rede municipal estadual e federal, o Diphobia busca apresentar um repertório autoral na linguagem do Rock; já Sotaque é formado por alunos de graduação e pós graduação a partir de um repertório composto pelo próprio Jarbas. Tais projetos vem ganhando a devida notoriedade e o êxito tão peculiar àqueles projetos que deixa-se envolver tal qual pode ser conferido a partir da TV UFG em programas distintos assim como também a partir de um curso de gravação e mixagem avançada feito com Rodrigo Lopes, engenheiro ganhador do Grammy 2016 com o disco da Eliane Elias. Pelo visto, tal qual o personagem mitológico Midas, tudo o que Jarbas toca vira ouro.

Sem sombra de dúvidas, sua maior incentivadora e influência foi sua mãe, Carmen Cavendish. Qual a marca mais profunda dela que pode-se observar hoje em seu trabalho?

JC – Acredito que o que trago hoje em minha vida musical advinda da influência da minha mãe foi o talento e a consciência de que ele só se estabelece e floresce com muito estudo e trabalho. Ela foi incansável em acreditar que eu poderia um dia viver da minha arte e não mediu esforços, enquanto pode, para que eu tivesse uma formação sólida e consistente. Além disso me jogou no lúdico que a música proporciona com muito amor e alegria, promovendo verdadeiro ambiente de descontração, harmonia e socialização. Tocamos muito juntos quando eu era muito criança ainda. Na minha casa, em Casa Forte, tinham dois pianos na sala e ela e minha avó Graziela protagonizavam horas de muita música, popular, erudita e o que pudesse ser tocado.

Ao longo de sua trajetória pelo Conservatório Pernambucano de Música você teve a oportunidade de estar ao lado de nomes de extrema relevância dentro da música instrumental pernambucana como Clóvis Pereira, Guedes Peixoto, Mestre Duda, entre outros. Desses nomes há algum que você sempre busca inspiração na hora de compor?

JC – O Conservatório Pernambucano de Música foi o grande formador de diversos músicos da minha geração e também das seguintes. Uma instituição extremamente séria e comprometida com a formação musical de crianças e adolescentes. Tive a oportunidade de conviver com diversos “ídolos” da música pernambucana como Eliane Silveira, Henrique Anes, Maurício Quiapeta, Edson Rodrigues, Cussy de Almeida entre outros. Mas muito me impressionava a linguagem musical de Clóvis Pereira, refinada, com as raízes nordestina bem definidas associadas a uma elaboração composicional que muito me impressionava. E ver o Mestre Duda tocando regendo sua orquestra nos bailes de carnaval dos clubes pernambucanos sempre foi inspirador pra mim. Vivi essa experiência por muitos anos da minha infância e adolescência.

Em muitas canções de sua autoria é possível observar elementos que tem uma forte ligação com a sua região de origem. Essa sonoridade é algo que surge naturalmente em suas composições e arranjos ou acabou tornando-se uma válvula de escape para matar a saudade da região?

JC – Quem viveu a arte nordestina nunca mais sai dela, por mais que queira, devido ao amor e orgulho de representar um povo de cultura tão rica e expressiva. Costumo dizer que embora há quase trinta anos que saí de Recife, o Recife nunca saiu de mim. Minha consciência musical borbulha em frevo, maracatu, xote, baião e por aí vai… embora o Recife que eu vivi não exista mais, o bairro de Casa Forte onde pude deslumbrar de tanta riqueza e liberdade esteja hoje totalmente desconfigurado das minhas percepções emotivas, minha música também me ajuda a manter essa ligação com minhas raízes, meu sotaque. E o interessante é que esse sotaque me trás uma identidade reconhecida e de inquestionável aceitação do meu trabalho.

Desde o ano de 2012, ao menos na teoria, todas as escolas brasileiras deveriam incluir o ensino de música em suas respectivas grades. No entanto, na prática, não é bem isso que acontece. Em sua opinião como bem sucedido docente nesta área, qual a importância da música na formação cognitiva e cidadã?

JC – A música é transformadora, inclusiva e reveladora como forma de transmissão de conhecimento e cultura de qualquer sociedade. É capaz de arregimentar pensamentos, unir ideais e socializar as pessoas de forma clara, simples e objetiva. A educação através da oralidade musical é de uma eficiência inquestionável, haja visto os povos indígenas, que têm na música sua maior forma de transmissão de conhecimento e informação. Acredito que o ensino da música nas escolas regulares é de grande e vital importância para que uma sociedade se identifique e evolua. Mas não é bem isso que vemos acontecer por parte dos nossos governantes, infelizmente.

A Banda Pequi como todos sabem trata-se de um Projeto de Extensão e Cultura da Escola de Música da UFG, que é uma instituição pública federal. Esta nova conjuntura política que vendo sendo delineada de um tempo pra cá corrobora ou interfere de algum modo neste projeto?

JC – A Banda Pequi, por suas características específicas, se consagra como uma forte expressão artística e cultural da Universidade Federal de Goiás, e uma verdadeira escola de formação de músicos com foco na prática da música popular. São mais de 150 músicos que sentaram em nossas estantes desde o ano de 2000 até o presente momento, sem nenhum prejuízo no que diz respeito a sua qualidade e evolução artística. Um projeto consolidado em 16 anos de atividades ininterruptas, proporcionando uma verdadeira interação entre as unidades acadêmicas através de suas apresentações. A atual conjuntura política para as universidades é de extrema contenção orçamentária, inibidora de projetos como a Pequi. Mas felizmente as instâncias superiores da universidade entendem a importância do projeto e o apoio continua sendo o mesmo.

Agora vamos falar a respeito deste novo projeto lançado recentemente cujo título é “João Bosco, Banda Pequi e Nelson Faria”. Composto essencialmente por canções da lavra de Bosco, há no repertório um tema de sua autoria intitulado “Girando em torno do sol”. Quais foram os critérios que você buscou adotar para a inclusão desta canção no DVD?

JC – O Projeto original se intitula “Banda Pequi e convidados especiais – João Bosco e Nelson Faria”. A ideia é apresentar a banda com suas características musicais e convidar um artista consagrado com o seu arranjador. Nesse sentido as duas primeiras músicas do Dvd apresentam a Pequi, sua forma de tocar, de pesquisar seu repertório enquanto grupo de pesquisa sonora. Nesse contexto a minha música se encaixa como luva numa perspectiva de laboratório de arranjos. Em seguida o Nelson Faria se integra ao grupo com mais duas músicas, uma delas, Um abraço na Pequi, composta especialmente para a ocasião e finalmente vem a participação bombástica do João Bosco com suas extraordinárias canções.

Sua parceria com o Nelson Faria vem de longa data, inclusive gerando além deste DVD um CD com a participação da Leila Pinheiro. Como se deu esse encontro?

JC – Conheci o Nelson pessoalmente no início dos anos 90 quando trabalhamos juntos no Cigan, escola que o Yan Guest tinha no Rio de Janeiro. Desde então fiquei muito impressionado com o músico e o professor que ele é. E em 1994 gravei o CD Orquestra de Música Popular da UNIRIO que tinha um frevo dele (que tocamos até hoje com a Pequi) intitulado Ioio. Em 2008 fomos convidados para fazer uma apresentação no festival Canto da Primavera, em Pirenópolis-GO, onde também se apresentariam o Nosso Trio, formado pelo Nelson, Kiko Freitas e Ney Conceição. Eles iriam acompanhar a cantora Leila Pinheiro e por iniciativa do Nelson, que conhecia nosso trabalho, foi proposto a junção desses artistas numa apresentação única. O show foi um dos melhores da nossa carreira e não deu outra, logo em seguida estávamos em estúdio registrando este importante trabalho.

E a participação do João Bosco? Em que circunstância surgiu essa ideia e como se deu o convite?

JC – De novo o Nelsinho. Comentei com ele do sonho de poder fazer um trabalho com o João e ele fez essa ponte, apresentado a Pequi ao João que também aceitou de imediato diante do endosso do Nelson. Foi feito então um grande projeto para o Fundo Estadual de Cultura com a proposta de gravar um DVD. Aprovado o projeto tivemos também a participação da pro – Reitoria de Extensão e Cultura de UFG assumindo uma grande parte desse projeto.

E as canções que entraram no projeto? Como se deu a escolha diante do vasto repertório deste artista que vem escrevendo a sua história na MPB por mais de quatro décadas?

JC – Deixamos o João a vontade para cantar o que quiser, afinal de contas não impomos nenhum tipo de obrigatoriedade a nossos convidados. Contudo sabia que o que ele escolhesse seria um primor para o nosso DVD, já que tudo que o João faz é de um valor artístico incalculável. E nas mãos do Nelsinho arranjando a certeza de que seria sucesso era um fato. Pra mim ficou até um pouco difícil separar o profissional do fã diante das canções que gravamos e estar num palco com o João Bosco. Foi a maior e mais rica experiência que tivemos.

Como tem sido a divulgação deste novo projeto? Há pretensões desse encontro com o João se repetir em mais algumas apresentações?

JC – Infelizmente nada é tão fácil nesse nosso país em relação às artes em geral, principalmente às que não têm características midiáticas. Mas com calma e perseverança estamos com algumas perspectivas para fazer um lançamento digno do Dvd. Aplicamos 2 editais para o Sesi e Banco do Brasil para um lançamento em São Paulo e estamos também preparando um projeto de circulação com algumas apresentações de lançamento em algumas capitais.

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Maiores informações: Site Oficial – Banda Pequi

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EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA

Em seu segundo DVD, o bem-sucedido projeto busca suplantar as adversidades com muito trabalho, talento e parceiros pra lá de especiais.

Neste nefasto e degradante cenário musical que a mídia insiste em nos vender diariamente através dos mais diversos meios, há projetos que não podem deixar de ser propagados e enaltecidos sempre que possível. Como é de praxe, o Musicaria Brasil busca insensatamente confirmar que o pulso firmemente ainda pulsa nos mais recônditos lugares existentes em nosso país através das mais obstinadas figuras que dedicam tempo, talento e perseverança afim de alcançar esse propósito. São nomes que muitas vezes dedicam uma vida inteira em busca de oferecer aquilo que tem de melhor em seu ofício. Uma arte genuína, carregada de emoção e sentimento, que traz como estampa maior a verdade naquilo que faz. Esse tipo de contexto acaba por propiciar situações onde a música de qualidade não esmorece. São anônimos e incansáveis nomes que não vivem em busca do conhecimento dos grandes meios, pois se dão por satisfeito em apenas, de modo perseverante, executar aquilo que acreditam.

Uma verdade muitas vezes herdada através de gerações por conta das tradições da cultura popular presentes nos mais inóspitos rincões existente em nosso país, o que acaba por nos fazer acreditar na teoria de que são esses aguerridos nomes, que vivem em defesa do que acreditam, que servem como força-motriz para a produção daquilo que resta (ou que ainda podemos chamar) por música de qualidade existente Brasil. Advindos dos mais distintos contextos existente do norte ao sul do país, faz-se necessário e fundamental a divulgação para além do trivial, pois levando-se em consideração não apenas a diversidade cultural, mas também a extensão territorial do nosso país é de se imaginar que o grande motor para aquilo que temos por cultura de qualidade vem da expressividade de contextos como o maracatu, as cavalhada, as congadas, da folia de Reis, marujadas e tantos outras. É como nos deixou registrado o folclorista, professor, historiador e jornalista Câmara Cascudo: “Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convencionais pragmáticas da vida (…).”

Fugindo das regras mercadológicas tão em voga na cultura musical brasileira atual, e buscando abarcar as teorias do folclorista potiguar antes citado, existem inúmeros contextos em nosso cenário, e no caso da música, a coisa não se faz diferente como podemos observar a partir dos mais distintos exemplos, como é o caso dessa turma advinda lá do centro-oeste do país, e que traz já em seu nome uma forte identidade com a região, pois foi batizada a partir de uma fruta nativa encontrada no bioma existente naquela paisagens. Surgido a partir de um projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG), a Pequi vem ao longo de quase duas décadas de existência buscando não apenas propagar a boa música brasileira a partir da releitura de grandes compositores, mas também buscando fazer a sua parte para o bom cenário de nossa cultura através de canções próprias e arranjos imbuídos de originalidade ao longo desse tempo de existência como vem sendo possível atestar a partir de registros como o álbum “Banda Pequi, Leila Pinheiro e Nelson Faria” e o DVD homônimo ao nome da banda lançado em 2006.

Agora, uma década depois, a Pequi volta ao mercado audiovisual com o DVD João Bosco, Banda Pequi e Nelson Faria, projeto que reitera a qualidade dos músicos envolvidos e o compromisso do imprescindível maestro Jarbas Cavendish (regência, coordenação e direção musical) em prezar por características que buscam aliar uma didática musicalmente eficiente em favor da qualidade. Talvez seja por essa perseverança que o som da Pequi tem ecoado de modo cada vez mais longínquo, propagando a boa música instrumental produzida ali, em uma região aparentemente inóspita à boa música popular brasileira, Brasil a fora.

Com um repertório que busca enfatizar a participação do cantor e compositor mineiro João Bosco a partir de composições como “Linha de passe” (João Bosco – Aldir Blanc – Paulo Emílio), “Quando o amor acontece” (parceria de Bosco com o carioca Abel Silva), “Jade” (única canção no projeto assinada apenas por Bosco), “Toma lá da cá”, “Corsário”, “Bala com bala e “Incompatibilidade de gênios” (toda de autoria da dupla Aldir Blanc e João Bosco. O disco ainda apresenta “Girando em torno do sol”, canção de autoria de Jarbas Cavendish com os arranjos sob o cuidado de Bruno Rejan entre outras de relevantes compositores que ao longo do século XX escreveram em definitivo os seus nomes na história da música popular brasileira como é o caso da dupla Aloysio de Oliveira e Tom Jobim que assinam o clássico “Inútil Paisagem”, outra canção da lavra de Tom, só que desta vez em parceria com Vinícius de Moraes é “O morro não tem vez” e para findar a presença dos grandes compositores brasileiros “Manhã de carnaval” assinada por Luiz Bonfá e Antônio Maria. Todas essas faixas vêm sob uma roupagem que preza a força e o talento da big band, assinadas por “estilistas” de peso como é o caso do arranjador e instrumentista Nelson Faria e do já citado Bruno Rejan.

Com a captação de imagens feito pela TV Ufg sob direção de Michael Vallin o DVD ainda conta com outros nomes que acreditam na redenção da boa música popular brasileira a partir de trabalhos como este. É o caso de Antonio Cardoso, Bruno Pereira, Nivaldo Junior, Manassés Aragão (trompetes-flugels); Diego Amaral, Fábio Oliveira e Noel Carvalho (percussões); Jader Steter (bateria); Bruno Rejan (baixo elétrico-acústico); Luiz Fagner, André Luiz, Marcos Paulo, Pedro Henrique (trombone) e os saxofones e flautas executados por Anastácio Alves, Antônio Alves “Foka”, Everton Loredo, Juarez Portilho e Marcos Lincoln, nomes que investiram sonhos, suor e seus respectivos talentos não apenas na realização de um projeto, mas na concretização de algo maior, que por circunstâncias diversas acabou ao longo de uma década e meia saindo do plano da mera pretensão para uma realidade onde se faz possível não apenas atestar que a proposta inicial vem sendo brilhantemente cumprida pautada em aspectos como talento e alegria por parte de todos os envolvidos.

A Pequi trata-se sem dúvida de uma realização que ganhou, de modo natural, uma força maior que a proposta de atuar como centro de formação específica na música popular brasileira, com aplicação predominantemente na prática instrumental. Entre os cascalhos culturais existentes na atual conjuntura brasileira, com amor e perseverança Jarbas Cavendish vem conseguindo escreve de modo ímpar a sua história não apenas no contexto musical do centro-oeste (uma região aparentemente inóspita para o tipo de música a qual se aventurou difundir) ao encontrar pequenas e talentosas pepitas de ouro sob a alcunha de alunos. Sorte nossa!

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RENATO BARUSHI – ENTREVISTA EXCLUSIVA

rb

Na estrada com o seu novo projeto fonográfico, Renato Barushi generosamente deu uma pausa em seus projetos para participar deste bate-papo exclusivo em nosso espaço

O músico que hoje ilustra esta pauta vem nos últimos anos buscando o seu lugar ao sol na música popular brasileira e para isso tem apresentado projetos fonográficos adornados pela verdade e obstinação daqueles que acreditam que na música como redenção. Em um árduo trabalho independente, Renato Barushi vem dia após dia tirando leite de pedra por seu amor a arte como foi apresentado aqui mesmo no JBF recentemente a partir da pauta “EM SUA PLENITUDE ARTÍSTICA, RENATO BARUSHI APRESENTA NOVO PROJETO FONOGRÁFICO”.

No entanto, mesmo de modo independente, o seu talento e sua música vem alcançado o merecido reconhecimento ainda à época do seu primeiro álbum “Renato & o mercado”, que alcançou o status de pré-selecionado para o 23º Prêmio da Música Brasileira. Solicito como sempre, o cantor e compositor concedeu-nos um pouco do seu tempo para nos falar acerca de seus projetos, sua música, sua biografia, entre outros detalhes que vocês poderão conferir logo abaixo nesta informal e exclusiva conversa. Que todos tenham uma excelente leitura!

Tivemos a nossa primeira conversa a exatamente três anos e meio atrás. De lá para cá muita coisa aconteceu e vem acontecendo em sua carreira solo. Qual a diferença do Renato Barushi de 2013 que lançava o seu primeiro álbum cheio de expectativas para o Renato de hoje que já sabe mais ou menos como lhe dar com o esse nefasto mercado da música?

Renato Barushi – Não havia refletido sobre, é um aprendizado constante e a cada passo dado, surge um novo desafio a ser superado, talvez não pense em mercado mais, e sim, em meus seguidores, que seja 10 ou 10.000, trabalho para eles, e claro, uma satisfação pessoal quanto minha arte. A internet facilitou o acesso ao artista, com a possibilidade de um contato direto e em muitos casos tornando seus seguidores em amigos. Sou muito grato por todas as pessoas que já contribuíram ou fazem parte de meus trabalhos e história, são grandes amigos e profissionais, graças a isso se deu meu primeiro EP, com a banda “Machinari”, “Renato & O Mercado” e tudo que faço, somos uma grande colcha de “Remendos”, e aí que a arte acontece. Talvez o que eu tenha hoje é um objetivo, pois são milhares os caminhos e possibilidades na música, é preciso foco e trabalhar dentro de sua realidade.

A ponte entre o seu primeiro álbum (Renato & o mercado) e este lançamento (Remendos) conta com percalços e alegrias como pude acompanhar ao longo desses anos. Nesse intervalo, esses momentos chegaram a ser aglutinados à sua música? O que pode ser observado enquanto sonoridade neste novo álbum dessas experiências vividas?

RB – Acredito que isso influencie, mas não foi um fator tão relevante, no primeiro álbum quis fugir de rótulos, apesar de tocar rock, sempre agreguei outros elementos, e quando realizei “Renato & O Mercado”, explorei esse lado, colocando diversas referências dentro de uma roupagem pop e letras de fácil assimilação, brinquei com o conceito, fazendo uma analogia com o mercado musical e o supermercado, que é onde encontramos variados ‘produtos’ em um só lugar. Já “Remendos”, foi um retorno às origens, onde me mostrei, me joguei sem pensar em estéticas ou mercado. Chamei velhos parceiros da capital mineira, fomentei com músicos do interior e América Latina, além de, quatro artistas plásticos. Encontrei sonoridades e profissionais para cada detalhe. Cada projeto é único, onde me permito experimentar, rever ideias e conceitos.. assim que termino um disco, temos muito trabalho à frente, mas em paralelo, já começo a pensar o próximo, quem sabe o que o futuro nos aguarda… (Risos)

Quais foram os critérios para a escolha do repertório dessa vez?

RB – Apenas escolhi as que me tocaram naquele momento, que conversam com o que penso e queria passar, toda canção do disco me diz algo, fiz uma seleção desses quase 20 anos com esse intuito, me expor musicalmente.

“Remendos” vem com uma sonoridade um pouco mais densa em relação ao lançamento anterior. Sua música seguiu esse viés de modo natural ou se deu a partir de alguma circunstância?

RB – Eu diria mais visceral, no álbum “Renato & O Mercado” quis mostrar outras facetas, fugindo da minha essência, devido a uma imaturidade natural. Em “Remendos” estou reafirmando minha maneira de pensar música, assistindo ao show isso se torna perceptível.

Parceiro de longa data, o Robson Pitchier assina com você oito das canções presentes neste disco. Como se dá o processo de composição de vocês? Letras e melodias são delegadas especificamente a um dos parceiros ou a parceria existe no sentido mais abrangente da palavra?

RB – Robson é um grande amigo, uma das peças fundamentais em minha carreira, o convidei para escrever, pois queria agregar outros olhares, sair do lugar comum, logo após ele mudou-se para SP e já tínhamos umas 30 canções, muito lixo… (risos), mas canções como “Tio Sã”, “Ruínas”, “Auto Ajuda”, todas gravadas no álbum “Remendos”. Sua formação é artes cênicas e estilismo, portanto, as harmonias e melodias ficam por minha conta, as letras, são à quatro mãos, ora um contribuindo mais, mas sempre entendendo a relevância do papel do outro. Mesmo distantes ainda compomos, e mesmo trabalhando parcerias como o Robson e agora outros nomes, dentro desse processo, tenho um processo muito solitário ao compor.

“Lucidez” e “Remendos” são canções compostas exclusivamente por você. Canções de cunho introspectivo e que trazem em suas letras pertinentes reflexões. Em que circunstâncias elas nasceram?

RB – Em situações adversas, “Remendos” logo no início da carreira, antes mesmo de começar a tocar na noite em BH, foi sendo lapidada até uns dois anos antes de entrar para o estúdio. “Lucidez” foi uma bad, morei durante um período de minha vida em um paraíso tropical, com qualidade de vida 100%, ao mesmo tempo, cercado de drogas e futilidades, de repente, tudo perdeu o sentido e foi a maneira que encontrei externar.

“Remendos” conta também com das participações especiais. Uma é Angélica Diniz (em duo na faixa “Tio Sã”) e a outra é o guitarrista portenho Daniel Sanmartin (que participa das faixas “Remendos” e “Sem Vergonha”). Como se deram essas parcerias?

RB – O meu produtor e baixista, Paulo Maitá, é casado com a irmã do Daniel, logo mostrou seus trabalhos, era algo que buscávamos para as duas canções, e quando Paulo sugeriu a parceria, ambos ficamos empolgados com a oportunidade, gostei muito do resultado. A Angélica foi a cereja do bolo em minha opinião, sou fã e apaixonado por ela, a conheci ao retornar para minha cidade natal, é um talento e carisma ímpar, e hoje, dirijo seu novo espetáculo e estou pré produzindo seu primeiro EP.

“Remendos” pode ser avaliado como a sua reiteração ao seu amor pela música?

RB – Esse é um exercício diário, mas no momento sim, até gravar o próximo… (risos), os discos também são uma forma de começar e terminar ciclos, fases e etapas ao longo de nossas carreiras.

Após esse lançamento virtual você também pretende lançar esse projeto de modo físico. Já há previsão para este lançamento?

RB – Simmm… pretendo lançar até no início do ano, irei fechar em breve com uma distribuidora para trabalhar isso de forma adequada e facilitar o acesso.

O que podem esperar como novidades aqueles que acompanham a sua carreira ao longo destes próximos meses? Quando é se dará oficialmente o lançamento do álbum nos palcos?

RB – Estamos finalizando novo site, espetáculo, pré-produzindo dois clipes, além do disco físico, camisas, palhetas e muitas boas surpresas para 2017.


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EM SUA PLENITUDE ARTÍSTICA, RENATO BARUSHI APRESENTA NOVO PROJETO FONOGRÁFICO

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Em sua plenitude artística, Renato Barushi apresenta novo projeto fonográfico

A princípio disponível em plataformas digitais, o novo álbum do cantor, instrumentista e compositor mineiro reafirma seu talento a partir de diversos nuances.

Obstinado, o cantor e compositor mineiro Renato Barushi vem ao longo dos últimos anos buscando o seu lugar ao sol em um cenário musical cada vez mais nefasto, condição esta que não o faz esmorecer diante das dificuldades existentes; pelo contrário, este adverso contexto reafirma o seu amor pela música em todos os seus nuances como ele mesmo faz questão de enfatizar: “É com imenso amor e alma que dedico minha vida a música autoral, são 17 anos de forma independente, criar é meu tesão, um trabalho árduo que requer disciplina, sacrifícios e metas, muitas das vezes sem recompensas, a não ser, por sua paixão pela arte e cultura”. Todo este sentimento dedicado à arte faz-se possível observar nos mais distintos projetos em que se deixar envolver. Seja em apresentações ao longo de todos estes anos nos diversos palcos em que já subiu assim como também em projetos fonográficos apresentados até então.

Seu primeiro álbum, “Renato e o mercado”, lançado em meados de 2012, é o primeiro sinal da força de sua verve poética e musical, tendo como característica uma forte e evidente influência do pop rock nacional e internacional. Desvinculado de rótulos, a música do artista cataguasense vem delineando-se de modo agradável desde que decidiu-se por aventurar no universo musical. Alimentando anseios e enfrentando desafios, Renato Barushi vem firmando-se nestes últimos anos como um os grandes talentos da música mineira a partir dos mais distintos projetos como é o caso do seu mais recente álbum. Intitulado “Remendos”, o segundo projeto fonográfico do cantor, compositor e instrumentista já encontra-se em algumas das principais plataformas digitais existentes tais quais SoundCloud e Youtube. O sucessor de “Renato e o mercado”, só faz jus ao seu título quando se leva em consideração que a sua concepção se deu a partir de distintos olhares. Desse modo, quando somados, acabam por formar uma coerente unidade como já se é possível observar a partir de um projeto gráfico coletivo, onde estão presentes alguns artistas plásticos e seus respectivos modos de observar o trabalho elaborado por Barushi.

Ora sozinho (Lucidez e Remendos), ora em parceria com Robson Pitchier (Sem Vergonha, O Que Levar, $tatu$, De Repente Fez, Tio Sã, Auto Ajuda, Ruínas e Mais Um Pouco), Barushi assina as dez canções que compõem “Remendos”. São faixas que de algum modo procuram fazer jus ao título que o cantor e compositor buscou para o a partir de uma sonoridade aglutinadora, que busca apresentar na concepção de suas faixas os mais diferentes afluentes que vem sendo somados ao longo destes anos de estrada do artista, mais precisamente desde a época em que fez parte da banda Machinari sempre pautado em uma coesa trajetória (isso a quase duas décadas atrás).

Assim como o projeto gráfico existente (que sugere uma espécie de mosaico a partir da visão de quatro artistas plásticos: Fabiano Banna, Leandro Silveira, Renatta Barbosa e Emerson Morais); a sonoridade de “Remendos” chama a atenção do ouvinte por ter uma identidade própria; uma musicalidade singular, mas receptiva as mais distintas influências como é possível atestar a partir das marcantes guitarras de faixas como “Sem vergonha” e “Remendos” ou até mesmo a envolvente sonoridade presente em “Mais um pouco”. Com letras abrangentes, o disco apresenta de temas de amores à questões reflexivas (como é possível observar em “Tio Sã”, que aborda a hegemonia norte-americana em relação à outras culturas de modo crítico). Reforçando a proposta conceitual e sonora de “Renato & O Mercado”, “Remendos” continua a transitar abertamente pelos mais distintos gêneros existentes que o fazem continuar a participar daquilo que ele mesmo buscou definir como “Música Livre Brasileira”.

A princípio lançado apenas em formato digital (mas que em breve também chegará ao físico), “Remendos” apresenta uma ficha técnica que conta com antigos companheiros musicais que vem desde o início da carreira de Barushi até novas e entrosadas parcerias como é o caso da intérpreteAngélica Diniz (em duo na faixa “Tio Sã”) e do guitarrista argentino Daniel Sanmartin (“Remendos” e “Sem Vergonha”). O disco ainda conta com a participação da Banda Maitá (Daniel Diniz, teclado; Paulo Maitá, baixo e produção; Flávio Monterrey, bateria e Magal, guitarra e violão de aço), que acaba por dar ao músico a certeza de que quatro anos depois, após o seu primeiro projeto fonográfico, toda a heterogeneidade melódica registrada naquele “mercado” ampliou-se, credenciando-o alçar vôos ainda maiores que naquele primeiro momento, onde mesmo lançando seu álbum de modo independente, seu trabalho o fez reconhecido pela crítica especializada e o levou a ser pré-selecionado para o 23º Prêmio da Música Brasileira à época do lançamento.

Procurando ser apenas o que sente (como ele mesmo diz em uma das letras presentes no disco), Renato Barushi paradoxalmente mostra-se pleno neste álbum o qual intitulou “Remendos”. Um título aparentemente dúbio, mas que ajuda a entender este projeto feito com muita dedicação e suor, e que conta com um pouco da colaboração e empenho de cada um dos nomes envolvidos. Uma espécie de Emenda de amor que acaba por não defini-lo enquanto artista, mas que busca sintetizar de modo etimológico o poder aglutinador que a música é capaz. Imbuído desse princípio, Barushi mostra-se carregado de uma força maior que foge às definições etimológicas. Uma plenitude que reflete-se em letras e melodias que reafirmam a sua importância para o nefasto cenário musical contemporâneo brasileiro a partir de um invejável vigor criativo, fazendo jus a tradicional música de qualidade produzida em seu Estado ao longo da história da música popular brasileira.

Uma trabalho autêntico, lapidado entre risos e lágrimas, entre conquistas e suor, uma arte que o faz mergulhar de cabeça e coração naquilo que acredita. Essa verdade percebida a cada acorde e diluída em cada verso de sua música faz-se sua maior força-motriz, tão visível em seu ofício que acaba tornando o combustível imprescindível para que Barushi embarque nos mais variados projetos (mal lançou seu segundo álbum nas plataformas digitais, já está na pré-produção de dois clipes, o novo site e preparando algumas surpresas para seus seguidores) sem se deixar abater pelas dificuldades que vem atravessando ao longo de sua carreira. Entre mercados e remendos, Renato Barushi escreve a sua história de modo coerente, nos fazendo acreditar que quando priorizamos a verdade como característica principal naquilo que fazemos o resultado vem e traz consigo a leve sensação do dever cumprido, somando-se a isso a verdadeira realização pessoal. Neste caso, um remendo de integridade que vale à pena conhecer. Depois não diga que não avisei: baixe, ouça e divulgue.

É possível o acesso a audição completa do álbum. Clique aqui .


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RELEMBRANDO DORA LOPES

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Autora de “Velório de um sambista”, Dora ganhou destaque ao longo dos anos de 1950 e 1960

Esta semana trago novamente uma grande intérprete da música popular brasileira que infelizmente caiu no limbo do esquecimento e que hoje só tem espaço em locais que prezam pelo saudosismo e pela qualidade de registros fonográficos como é o caso deste nosso cantinho. Nascida em 1922 no Rio de Janeiro, Dora Freitas Lopes aos 14 anos de idade, fugiu de casa com a intenção de ser cantora de Rádio. Alguns anos depois já se apresentava em casas noturnas de sua cidade natal assim como também de São Paulo. Por volta de 1947 conquistou o primeiro lugar no famoso e rigoroso programa de calouros apresentado pelo compositor Ary Barroso na Rádio Nacional, onde interpretou “Plac-plac“, canção de autoria de Francisco Malfitano que tornou-se um grande sucesso em 1939 na voz da Dircinha Batista.

Ainda nos anos de 1940 gravou pelo selo Star o seu primeiro disco com os sambas “Volta pro teu barracão” e “Roubei o guarani“. A década seguinte veio acompanhada de diversos registros fonográficos para a artista, dentre eles, os batuques “Toma cachaça” e “Cão cambieci“, marchas tais quais “Moço direito“, “Pegando fogo” os samba-canções “Inclemência“, “Baralho da vida“, “Você morreu pra mim” e sambas como “Vou beber“, “Me abandona“, “Lei da razão” e o sucesso “Minha chave é você“, parceria com Hamilton Costa e Waldemar Silveira gravado na RCA Victor por Dircinha Batista. Vem desse período as suas primeiras incursões internacionais, situação esta que acabou propiciando, ao longo dos anos anteriores, apresentações suas em países como França, Itália, Suíça, Venezuela, México e Estados Unidos, sempre buscando divulgar os mais distintos ritmos brasileiros por onde passou.

Contemporânea de nomes como Dalva de Oliveira, Pixinguinha, Dolores Duran, Silvinha Telles, Ary Barroso entre outros; Dora passou por gravadoras como a Continental (onde fez registros de canções como os sambas-canção “Toda só“, “Samba não é brinquedo“, “Tenho pena da noite“, entre outras; a pernambucana gravadora Mocambo, onde registrou faixas como o samba “Maria Navalha“, a marcha “Fila de gargarejo“, o samba “Samba borocochô“, entre outras. Aliás, foi na Mocambo que a artista lançou o seu primeiro Long Play intitulado “Enciclopédia da gíria”, projeto onde gravou autores como César Cruz (autor da faixa que batiza o disco), Zeca do Pandeiro, Arthur Montenegro, Ari Monteiro entre outros.

Além de atuar em discos chegou a fazer parte também do casting das rádios Nacional e Mayrink Veiga. Sem contar o sucesso internacional que alcançou ao participar de uma excursão pela Europa e América do Norte onde apresentou-se divulgando ritmos brasileiros em diversos países tais quais México, Estados Unidos, Suíça, França e Itália. Vale o registro do álbum que gravou pela Beverly em 1965. Intitulado de “Minhas músicas e eu”, o disco incluiu várias músicas de sua autoria: “Dona solidão“, “Madrugada zero hora“, “Com Dolores no céu” e “Dúvida“.

Ao longo de sua carreira, atuou na vida noturna de Copacabana, convivendo com toda a boêmia das décadas de 1950, 60 e 70. Dora Lopes é também reconhecida por ter sido uma das primeiras cantoras notadamente homossexual da MPB. Vale o registro de sua carreira em números. Ao longo das décadas de 1950 à 1980 gravou um total de 19 discos em 78 rpm pelas gravadoras Sinter, Continental e Mocambo, além de 3 LPs. Como compositora seu maior êxito foi o “Samba da Madrugada”.

Para os amigos leitores trago uma das canções gravadas pela cantora e compositora. Trata-se da “Sonhar acordado“, lançada na segunda metade da década de 1960:

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RELEMBRANDO LINDA RODRIGUES

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Linda ainda hoje é considerada uma das cantoras que mais celebraram a chamada fossa ou dor-de-cotovelo

Linda Rodrigues trazia seu adjetivo até em seu nome artístico como é possível atestar a partir da foto acima. Cantora e compositora, a artista carioca nascida em 1919 como Sophia Gervasone é considerada por muitos como uma das maiores celebrantes da chamada canção “dor-de-cotovelo” ao longo dos anos em que atuou em discos e espetáculos. Vale lembrar que o seu primeiro registro fonográfico ocorreu em 1945 pela gravadora Continental. Neste primeiro 78 rotações a artista gravou os sambas “Enxugue as lágrimas” (Elpídeo Viana e Correia da Silva) e “Abaixo do nível” (Osvaldo dos Santos e Odaurico Mota). No ano seguinte a marcha “Atchim” (J. Piedade e Príncipe Pretinho) e o samba “Claudionor” (Cândido Moura e Miguel Bauso). Ainda nos anos de 1940, período que antecede sua forte representatividade a um gênero, a cantora chega ainda a gravar ritmos distintos como a rumba “Jack! Jack! Jack!” (canção de autoria de Haroldo Barbosa e Armando Castro) e o samba “Mais um amor, mais uma desilusão” (composição do paulista de Jacareí José Maria de Abreu).

A década seguinte vem como a mais representativa de sua carreira a partir de alguns registros fonográficos que entrariam para a história da artista como uns dos seus maiores sucessos. De início, em 1951, grava pelo selo Star, o samba canção “Os dias que lhe dei” (composto pelo carioca Newton Teixeira e Airton Moreira) e o samba “Raça negra” (feita a quatro mãos pela compositora Ailce Chaves e por Paulo Gesta). No ano seguinte registra o samba “Lama” (de autoria de Paulo Marques e Alice Chaves), tal canção viria a ser não apenas o maior sucesso da carreira fonográfica da artista, mas também um dos sambas-canções mais celebrados no repertório, digamos, de fossa. Neste mesmo ano a cantora também fez o registro do bolero “Nossos caminhos“.

Ao longo dos anos de 1950 fez inúmeros registros fonográfico, dentre os quais, em 1953, pela gravadora Sinter, o samba “Sombra e água fresca” (Geraldo Mendonça e Russo do Pandeiro), a marcha “Bambeio mas não caio” (Elvira Pagã, Ailce Chaves e Paulo Marques), o samba “Sereno cai” (Raul Sampaio e Ricardo Galeno), a marcha “Tá tão bom” (Três Amigos), o samba “Ninguém me compreende” (de autoria do alagoano José Fernandes de Paula, o Peterpan), o samba-canção “Vício” (de sua autoria e José Braga que também se tornou um grande sucesso de sua carreira).

Pela gravadora Todamérica ainda registrou a marcha “Rico é gente bem” (Rebelo, Rupp e Ari Monteiro), o samba “Folha de papel” (Paulo Marques, Sílvio Barcelos e Ari Monteiro), os sambas-canções “Farrapo humano” (de sua autoria e Ailce Chaves), “Queimei teu retrato” (Noel Rosa e Henrique Brito), “Pianista“, (Irani de Oliveira e Ari Monteiro) e “Comentário barato” (Jaime Florence e J. Santos). Sem contar os sambas “Violeta” (Mirabeau e Dom Madrir), “Recompensa” (Tito Mendes, Nilo Silva e Osvaldo França), “Chorar pra que” (Aldair e Silva Jr.), “Quando o sol raiar” (o capixaba Mirabeau, Sebastião Mota e Urgel de Castro), “Sereno no samba” (Aldair e Dora Lopes) e “Tem areia” (esta última composta por Linda e por José Batista, e registrada na RCA Victor em 1959 juntamente com a “Marcha da folia” feita por ela, Aldacir e Silva Jr.).

Ao longo dos anos de 1960, já com a carreira sedimentada a partir de suas singulares interpretações, gravou os sambas-canções “Negue” (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos), “Tenho moral” (de sua autoria e Castelo), “Companheiras da noite” (samba-canção de sua autoria, Ailce Chaves e William Duba). É dessa década também o LP “Companheiras da noite” no qual interpretou diversos sambas-canções, dentre eles, “Lama“, “Negue“, e “Cigarra Noturna“.

Deixo aqui para os amigos leitores duas canções que fazem parte do gênero que deu projeção ao nome da artista falecida em 1997. A primeira trata-se do clássico “Lama“, de autoria de Paulo Marques e Ailce Chaves e gravada na Continental em 10 de abril de 1952, com lançamento em maio-junho do mesmo ano, sob n.o 16559-A, matriz C-2839:

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A segunda trata-se do samba-canção “Mais um amor, mais uma desilusão“, de exclusiva autoria de José Maria de Abreu, gravado na Continental por Linda Rodrigues em primeiro de julho de 1948 e lançado entre esse mês e o de setembro do mesmo ano, disco 15926-B, matriz 1901. Regravado um ano mais tarde por Orlando Silva:

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OS AMANTICIDAS – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Batizada a partir de uma das faixas presente no disco Às Próprias Custas S.A (1983) do cantor e compositor Itamar Assumpção, Os Amanticidas chegam como titulares no time da nova vanguarda paulista

Formado por Alex Huszar (voz e baixo), João Sampaio (guitarras, bandolim e cavaquinho), Joera Rodrigues (bateria) e Luca Frazão (violão de sete cordas), Os Amanticidas estreiam no mercado fonográfico de modo independente com um álbum que conta com a participação de nomes como Arrigo Barnabé e Tom Zé. Gravado com apoio do ProAC, com produção de Paulo Lepetit, “Amanticidas”, primeiro álbum do quarteto, chega expondo tudo aquilo que os garotos absorveram, condensaram e transformaram de modo bastante original nas dez faixas autorais presentes no disco.

Um detalhe interessante a ser observado é que mesmo influenciados pelos mais distintos elementos sonoros, o amálgama que os jovens conseguem formar neste projeto não os fazem perder a unidade, pelo contrário, todas as influências substanciaram a trilha do novo caminho que os músicos buscam de modo inovador como foi possível conhecer recentemente aqui mesmo em nosso espaço a partir da pauta “DA DURA POESIA CONCRETA DE SAMPA EIS QUE SURGE OS AMANTICIDAS SOB A INSÍGNIA DA VANGUARDA PAULISTA”. Hoje os jovens retornam aos nossos holofotes para este bate-papo exclusivo onde tratam dos mais distintos temas como vocês poderão conferir logo abaixo. Excelente leitura!

Acho que a primeira pergunta que convencionalmente fazem a vocês é o modo como se conheceram e como resolveram formar os “Amanticidas”. Como tudo isso ocorreu?

Na verdade três membros da banda, Alex, Joera e Luca, se conhecem desde os tempos de colégio, tocavam juntos desde essa época. Aí o Alex entrou em música na Unicamp, conheceu o Sampaio por lá e teve a ideia de juntar a banda. A gente acabou tocando juntos pela primeira vez no fim de 2011, e em 2012 começamos a fazer shows por São Paulo.

Quem conhece um pouco da biografia de vocês sabe que o nome do quarteto surgiu a partir de uma das canções presentes na discografia do Itamar Assumpção. Por que é que vocês foram buscar o nome do grupo de um disco lançado há mais de três décadas atrás?

Acho que a gente foi buscar no Itamar porque desde o começo da banda, quando nosso som não tinha ainda a cara própria que foi sendo construída nesses anos de ensaios e shows, a gente já tinha claro que o trabalho do Itamar era uma referência pra de alguma forma nos guiar na direção dessa identidade. O jeito que ele e o Tom Zé, principalmente, trabalham as canções são a base a partir da qual a gente tenta construir o nosso jeito.

Quando e como aconteceu o primeiro contato de vocês com os materiais fonográficos da chamada Vanguarda Paulista?

Pra todos nós foi a partir dos nossos pais, que pertencem à geração que acompanhou de perto a Vanguarda, frequentando o Lira Paulistana e tal. Então desde muito cedo ouvimos em casa os discos de Grupo Rumo, Premê, Arrigo e, claro, Itamar. Mas a gente só foi dar mais atenção pra esses artistas enquanto influência pro nosso próprio trabalho mais pra frente, na adolescência, quando começamos a decidir fazer isso da vida.

Fazer essa comparação do trabalho de vocês com o da turma da Vanguarda Paulista incomoda?

Não incomoda porque a gente não entra muito nessa de comparar. Temos total consciência do quanto devemos a eles (não por acaso o Paulo Lepetit, baixista do Isca de Policia, produziu o disco), mas estamos tentando começar nossa própria trajetória, num outro contexto, outro circuito. Também não achamos de forma alguma que estamos continuando a partir do que eles deixaram, porque afinal boa parte dos artistas daquela cena ainda estão por aí, lançando trabalhos novos e originais.

Foram cerca de quatro anos do surgimento do grupo até o lançamento do primeiro álbum. Neste ínterim quais as maiores dificuldades para a concretização deste marcante passo de vocês?

Bom, a maior dificuldade foi a nossa própria inexperiência. Na parte musical nós tivemos ajuda do Lepetit pra lidar com os problemas, então o desafio maior acabou sendo a parte burocrática que a gravação de disco envolve (registro das músicas, contato com fábricas para prensagem e etc.). Alem de outras dificuldades que todo artista enfrenta pra botar seu trabalho no mundo: algumas roubadas, frustrações, pouca grana, muito ensaio…

Quais foram os critérios para a escolha das dez faixas presentes no disco?

Na verdade foi bem simples, porque como é o primeiro disco ele registra um período mais longo do nosso trabalho. Tem canções ali compostas há vários anos, até antes da banda existir. Ao longo desse tempo a gente foi ajeitando cada uma nos shows e ensaios, montando o repertório com calma até sentir que tinha chegado o momento de registrar.

Assim como algumas referências musicais do grupo, vocês buscaram seguir um caminho fonográfico independente. É fato que a dificuldade é grande, mas a liberdade para a produção vem na mesma proporção (“Clara Crocodilo” é um exemplo). Para se ter essa liberdade na produção vale o preço pago?

Hoje em dia o mercado está bem diferente do que naquela época, se reorganizou de uma maneira que facilita a produção independente. Não que ainda não haja todo tipo de dificuldade, mas com a internet ficou mais viável conseguir um alcance legal pro trabalho sem precisar de meios tradicionais como gravadora, selo etc. Então esse caminho veio de uma forma bem natural pra gente, não foi uma escolha tão pesada; sempre soubemos que era isso que fazia mais sentido.

As diversas influências presentes no álbum não faz de “Amanticidas” um disco sem identidade sonora, pelo contrário, percebe-se a composição de uma unidade bastante coerente. Que tipo de cuidado vocês buscaram tomar para que tantas influências não acabassem descaracterizando este álbum de estreia?

A gente busca a unidade não tanto na composição, afinal como dissemos tem coisa no disco que foi composta antes da banda surgir, mas muito no arranjo. O resultado final das canções soa muitas vezes totalmente diferente do material bruto que chegou a partir de quem compôs. E isso a gente trabalha exaustivamente nos ensaios, tentando ao longo desses anos formular um jeito nosso de fazer arranjo, que, esse sim, parte muito do que a gente identifica nos jeitos do Itamar, do Tom Zé e outros.

O disco conta com a participação de dois relevantes nomes da nossa música que são o Tom Zé e o Arrigo Barnabé. Como surgiram estes convites e a ideia de inseri-los neste debute fonográfico de vocês?

Os convites vieram a partir do Paulo Lepetit, produtor do disco, que ouviu as faixas e na hora achou que combinavam com eles. A parte que o Tom Zé participa, verdade seja dita, era uma homenagem explícita a ele (o que só faz com que a participação fique mais especial ainda), mas o Arrigo em “Traste” foi uma ideia do Lepetit que a gente nunca tinha imaginado e acabou encaixando perfeitamente.

O show de lançamento do “Amanticidas” ocorreu recentemente. Como será a divulgação deste álbum daqui pra frente? Já há datas confirmadas para apresentação fora do eixo Rio-São Paulo?

A gente tem investido bastante na divulgação pela internet, porque achamos que as chances de alcançar gente que normalmente não nos conheceria é maior. E quanto aos shows, fizemos por enquanto dois no interior do estado de SP, além do lançamento na capital. Nos próximos meses temos mais três shows já confirmados aqui em São Paulo: dia 04/09 no Teatro Décio de Almeida Prado, 05/10 no CEU Sapopemba e 22/10 no CEU Butantã. Além disso faremos um show dia 10/09 em São Luiz do Paraitinga e um no Rio de Janeiro no dia 28/10. Fora do eixo Rio-São Paulo ainda não temos nenhum show confirmado, mas esperamos ter em breve.


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OS AMANTICIDAS

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O quarteto paulista chega ao mercado fonográfico apresentando as suas mais distintas influências a partir de uma hibrida sonoridade que não os fazem perder a identidade

Reza a lenda que em 1960 na boate Cave, na rua da Consolação, em São Paulo, o multifacetado Vinicius de Moraes, revoltado com o barulho que fazia o público durante apresentação do amigo e parceiro Johnny Alf , solta uma frase que viria a ressoar na música paulista até os dias atuais (mesmo sendo dita sob mero impulso): “São Paulo é o túmulo do samba”. Mais de cinco décadas após a infeliz declaração a sonoridade paulista modificou-se, e com o passar dos anos acabou ganhando adornos que fazem dela hoje ser respeitada em todo o país. Sem dúvida São Paulo hoje é visto como um dos centros urbanos onde a efervescência musical faz-se mais presente, e muitos contribuíram para que a música paulista alcançasse este status nos mais distintos momentos, principalmente a partir da inserção de algumas ideias inovadoras ao longo destes anos, merecendo destaque o movimento cultural ocorrido na capital paulista entre 1979 e 1985 batizado de Vanguarda Paulista.

Era outubro de 1979 quando, na rua Teodoro Sampaio, bem na altura da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, o pequeno teatro Lira Paulistana abre suas portas para dar voz e vez a artistas que emergiam naquele momento na cena paulistana. Tinha início ali um movimento que, logo em seguida, ganharia projeção nacional a partir de uma proposta que buscava mostrar uma forte veia experimental – tanto musical quanto poética e cênica. Vale registrar também outra característica marcante desse movimento: um espírito de independência em relação à indústria fonográfica. Naquele momento os holofotes voltavam-se para nome que viriam a escrever seus respectivos nomes na cena musical brasileira a partir dos mais distintos projetos. Nomes como Vânia Bastos, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Eliete Negreiros, Cida Moreira,Tetê Espíndola e grupos como Rumo, Língua de Trapo e Premeditando o Breque surgiram nessa leva.

Hoje, 36 anos após o marco fonográfico inicial com o lançamento dos álbuns “Clara Crocodilo” (disco que virou até dissertação de mestrado), do cantor, pianista e compositor Arrigo Barnabé, e de “Beleléu, Leléu, Eu”, do cantor e compositor Itamar Assumpção junto com a banda Isca de Polícia, uma outra geração de músicos, cantores e compositores buscam condensar toda essa influência sofrida a partir destes e outros projetos surgidos na época e que mostram-se, ainda nos dias de hoje, verdadeiras usinas sonoras ao misturar dodecafonismo, música erudita pop, rock entre outras experiências. Bebendo destas fontes, a nova geração da música paulista vem dando a sua contribuição a partir dos mais distintos trabalhos como o que hoje chega aqui ao nosso espaço.

Advindos desta nova cena musical independente que vem crescendo na capital paulista (batizada por muitos como “nova geração da Vanguarda Paulistana”), Os Amanticidas (nome que é referência explícita a “Amanticida”, música que Itamar Assumpção gravou em 1983 em seu LP “Às próprias custas S.A.”) surgiu em 2012 e tem como integrantes Alex Huszar (baixo, canto, composição e arranjado), João Sampaio (guitarra, composição, arranjo, vocal, cavaquinho e bandolim), Joera Rodrigues (bateria, canto e arranjo) eLuca Frazão (violão de sete cordas, arranjado, composição e flauta). Ao longo destes anos os integrantes do quarteto tem estabelecido distintas parcerias com nomes que reforçam a afirmação de que foram substancialmente influenciados pela gama de artistas de outrora da cena musical paulista a partir de parcerias com como Juçara Marçal, Suzana Salles, Banda Isca de Polícia, Alzira E,Filarmônica de Pasárgada, Suzana Salles, Vange Milliet e Orquídeas do Brasil. Com esta vasta experiência já achavam que era hora de um registro fonográfico.

Gravado com apoio do ProAC, com produção de Paulo Lepetit, “Freguesia”, primeiro álbum dos jovens músicos, chega expondo tudo aquilo que o quarteto absorveu, condensou etransformou de modo bastante original nas dez faixas autorais presentes no disco. É possível observar neste trabalho algumas características que provavelmente venham a se tornar uma marca registrada do grupo ao longo dos anos e das próximas produções fonográficas, uma delas são os adornos utilizados nos arranjos presentes no projeto. Percebe claramente que o grupo trabalha exaustivamente o arranjo de cada uma das músicas presentes no disco. “Nós sempre evitamos pegar a solução mais fácil”, diz Alex Huszar, “pensamos o arranjo como parte da composição”, chamando a atenção a unidade presente a partir de todas as canções. Em sua sonoridade há influências de nomes que vão de Jards Macalé a Paulinho da Viola, perpassando por nomes como Os Mutantes, Arrigo Barnabé, Siba, Metá Metá e Tom Zé.

Apesar de beber na fonte da vanguarda paulista, o quarteto Os Amanticidas apresenta-se de modo inovador, trazendo para a realidade atual aquele tipo de tratamento da canção – por exemplo, a linha baixo do dobrando a linha do violão ou guitarra, como fazia Itamar Assumpção a partir das dez canções que compõem o disco. Por falar nas faixas, nove são composições autorais (seis assinadas porAlex Huszar, duas por João Sampaio e uma por Luca Frazão) – sendo uma delas um poema deCarlos Drummond de Andrade musicado por Alex Huszar. E a outra é uma música de Talismã, nome de referência do samba paulistano. Trazem, todas elas, a força da juventude dos quatro músicos. Nas letras, na sonoridade, na expressão vocal. Aliás, curioso observar que, igualmente aos jovens músicos paulistas, Drummond estava na casa dos 20 anos quando escreveu “Quero me casar” (publicado em 1930 no livro “Alguma Poesia”).

Em referência explícita às suas influências, no disco Os Amanticidas têm como convidados especiais Arrigo Barnabé (em “Traste”) e Tom Zé (em “Pisadeira”). Outros músicos em participações especiais foram a flautista Clara Kok e o tecladista Rafael Montorfano. Este primeiro disco já cheou “às boas lojas do ramo” e às principais plataformas digitais. Portanto é preciso estar atento, pois alguma coisa acontece na cena cultural paulista para além do cruzamento da Ipiranga com a avenida São João.

Como aperitivo deste novo trabalho, uma das canções presentes no disco. Trata-se da canção “Freguesia”, de autoria de João Sampaio:

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RELEMBRANDO SÔNIA SANTOS

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Radicada nos EUA, a cantora destacou-se nas trilhas de novela nos anos de 1970

Carioca de Ramos, bairro de classe média da Leopoldina na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, Sônia tem por berço uma região que tem além de antigos engenhos de cana-de-açucar, chácaras e olarias que remontam ao século XVIII, um local com forte ligação a grandes nomes da música brasileira e seus compositores a partir de nomes como o dos compositores Pixinguinha, Villa-Lobos e, mais recentemente, Zeca Pagodinho e Almir Guineto (estes últimos ligados ao Cacique de Ramos, que também é o berço de grupos como o Fundo de Quintal). Fundadores de uma associação religiosa no bairro, os pais de Sônia esporadicamente realizava shows com o objetivo de angariar recursos para manter a instituição e, no meio das apresentações, lá estava Sônia apresentando-se entre as crianças. Depois destas primeiras incursões ela continuou envolta e apaixonada por música, apresentando-se em diversos contextos, dentre eles alguns bailes na noite carioca (após ingressar na Orquestra do Maestro Cipó, lendário grupo que fez histórias nos bailes cariocas).

Nestas noites quentes e sonoras do Rio de Janeiro surgiu para Sônia a oportunidade de migrar para uma outra Orquestra de Baile, desta vez para uma que não restringia o seu sucesso apenas ao Rio de Janeiro. Tal orquestra tratava-se do conjunto do multi-instrumentista Zito Righi. Como o próprio nome sugere, o conjunto era comandado pelo próprio por Zito e percorria as mais distintas estradas em todo o país. Vem desse período o seu primeiro registro fonográfico: trata-se de “Poema rítmico do malandro“, composição da própria Sônia Santos com arranjos do Righi. Presente no álbum “Alucinolandia”, lançado em 1969, a canção foi o primeiro sucesso da artista carioca. Em uma de suas apresentações em parceria com zito, Sônia foi abordada pelo então presidente da Som Livre João Araújo (que ganhou muito mais projeção como pai do cantor e compositor Cazuza do que pela descoberta de relevantes nomes para a nossa MPB) que após uns breve elogios questionou-a se não queria gravar o seu primeiro LP.

Como artista da Som Livre (gravadora pertencente ao grupo de Globo de comunicação), Sônia teve a propulsão do seu nome através das diversas trilhas de novelas as quais teve o seu nome associado. Só no ano de 1974 teve sua voz incluída em dois folhetins. Na trama “O Espigão“, participou da trilha sonora cantando “Você vai ter que me aturar” (parceria de Reginaldo Bessa com Nei Lopes) assim como também em “O Rebu“, onde cantou “Porque” (parceria do saudoso Raul Seixas com Paulo Coelho). Gravou o primeiro LP em 1975, produzido e arranjado por Guto Graça Mello. Ano disco é possível encontrar nomes como Assis Valente, Jorge Ben, Élton Medeiros e Cristóvão Bastos. O segundo LP, “Crioula” foi lançado em 1977 também pela Som Livre, de onde desvinculou-se para ingressar na RCA (gravadora responsável por dois compactos na carreira da artista: o primeiro com os registros de “Brasileirinho” (do Waldir Azevedo e do Pereira Costa) e novamente “Porque” (Raul Seixas e Paulo Coelho); Já o seguinte é dedicado ao Jorge Ben. Ao longo dos anos de 1980 gravou o terceiro LP, “Brasileirinha”, de forma independente e mudou-se em definitivo para Los Angeles nos EUA.

A princípio mudou-se por insistência do irmão sob a alegação de que só iria para lá se fosse para apresentar-se na Broadway (não sabia ela que semanas depois de sua ida, de fato ela iria parar nos palcos de lá. Desde então vem sedimentando uma exitosa carreira nos palcos americanos a partir de trabalhos solos e projetos em parceria como “Bossa, Ballds & Boleros” (com o tecladista Pablo Medina) e a série “Brasil Brazil“, em parceria com a também cantora Ana Gazolla e que já conta com três volumes. A dupla também registrou o DVD “Brasil Brazil Ao Vivo – Syracuse Jazz Festival“.

Para os amigos leitores destaco duas faixas na voz de Sônia. A primeira trata-se de “A lavadeira” (canção composta em trio por Eros Fidélis, Jon Lemos e Roberto Correia) e presente no seu segundo LP:

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Já a segunda trata-se de “João ninguém“, canção presente no mesmo álbum de 1977 e composta por Paulo Menezes / Milton Legey:

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RELEMBRANDO HORACINA CORRÊA

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Além de cantora, Horacina também foi vedete

Horacina Corrêa nasceu no Rio Grande do Sul no dia 05 de outubro de 1924. Sendo mais uma das que inspiraram-se em Carmem Miranda para dar vazão ao sonho de ser cantora, começou sua carreira nos anos de 1930 imitando a pequena notável nas emissoras de rádio a qual se apresentava ainda adolescente lá pelo final dos anos de 1930. Antevendo um futuro artístico promissor para Horacina, o empresário Walter Pinto (famoso pela produção de shows de vedetes durante as boêmias décadas de 1940 e 1950 na então capital federal) resolve contratar a pretensa cantora para ser uma de suas atrações artísticas. Em um breve resumo biográfico, pode-se dizer que Walter foi o principal responsável pelo universo encantador do Teatro de Revista e seus importantes espetáculos, assim como também protagonista por polêmicas e quebras de tabus como, por exemplo, a vinda para o Teatro de Revista Brasileiro, da artista Ivaná, primeiro transexual de grande sucesso nos espetáculos franceses.

Em um período em que a televisão não existia no Brasil, o grande passatempo e diversão das pessoas era ir ao teatro e Walter e suas vedetes, dentre elas a famosa Virginia Lane, dominava os teatros cariocas. Neste período como vedete foi uma das atrações do Teatro Recreio e chegou a fazer várias excursões, inclusive para a Argentina, onde era muito apreciada. Segundo o pesquisador Antônio Epaminondas no livro Brasil brasileirinho, a mulata “gostava mesmo era de viajar, principalmente para a Argentina, onde realizou temporadas consecutivas, tendo prestígio em Buenos Aires comparável ao de Carmen Miranda nos Estados Unidos”. Neste período atuou em espetáculos como o “Quem inventou a mulata?” e filmes como “Cortiço” e “É com esse que eu vou”no qual cantou a canção “Salve, Ogum” (de autoria de Pernambuco e Mário Rossi).

Após obter sucesso no teatro teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico no Brasil, 78 RPM este lançado em 1945 pela Gravadora Continental contendo as canções “Eu sou o samba” e “Presunção” (ambos compostos por Amado Régis e Gadé). Vale registrar que cerca de oito anos antes, na Argentina, a cantora registrou em disco ao lado da Orquestra de Paulo Coelho a música “Alto da Bronze“, de autoria do próprio Paulo Coelho e de Plauto de Azambuja Soares (o Foquinha). Se levarmos em consideração a quantidade de registros fonográficos de Horacina podemos afirmar que a sua carreira fonográfica foi bastante curta, gravando apenas quatro 78 RPMs e dois LPs (Sendo o último em 1956 pela Musidisc, uma homenagem aos compositores Noel Rosa e Vadico com a orquestra de Leo Peracchi). Somando-se seus registros em disco, Horacina conta, entre 1945 e 1947, com três discos em 78 RPM (somando-se aí cinco músicas); além desses registros, participou, em 1951, do LP de 10 polegadas que o maestro Fon-Fon gravou em Londres com sua orquestra, nunca lançado no Brasil e também de mais dois LPs de 10 polegadas pela Musidisc.

Nestes LP’s contou com o acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto regional, no qual cantou o samba “Sai da roda”, de Amado Régis e a marcha “Pato enjeitado“, de Amado Régis e Américo Seixas. Em outubro de 1956 gravou apenas o lado B do disco 15.763 em 78 rpm que trazia no lado A a cantora Emilinha Borba cantando o samba “Madureira”. Nesse disco, cantou com acompanhamento de Severino Araújo e sua orquestra Tabajara o samba “Está muito bom!”, de Henrique de Almeida e J. Diniz Mabial. Depois deste registros nunca mais fez nehum registro em disco.

Segue para audição dos amigos leitores o primeiro registro fonográfico da artista gaúcha. A canção “Alto da Bronze” foi registrada na Argentina oito anos antes da cantora estrear em disco Brasil. A música é de autoria de Paulo Coelho e Foquinha como dito anteriormente:

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Já a segunda faixa para audição é a “Eu sou o samba”, Lado A do primeiro disco brasileiro de Horacina, e como citado anteriormente lançado pela Continental em outubro de 1945:

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RAUL BOEIRA E MÁRCIA BARBOSA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Lançado recentemente, “Cada qual com seu espanto” é a primeira parceria fonográfica entre Raul Boeira e sua esposa Márcia Barbosa

Hoje retomo a abordagem do bem sucedido álbum “Cada qual com seu espanto”, lançado recentemente pelo cantor e compositor Raul Boeira em parceria com a sua esposa, a professora-pesquisadora de letras na Universidade de Passo Fundo Márcia Barbosa. Segundo álbum da carreira de Boeira, “Cada qual com seu espanto” chega ao mercado fonográfico após oito anos do lançamento do primeiro disco e vem, assim como “Volume Um”, recebendo os mais distintos e e sinceros elogios tanto da crítica especializada quanto do público. Composto por treze faixas o disco apresenta letras substanciadas pelos mais distintos temas, sentimentos e sensações e, a exemplo do seu álbum de estreia, “Cada qual com seu espanto” foi novamente gravado no Rio de Janeiro sob a direção musical do Dudu Trentin e conta com a presença de alguns dos maiores instrumentistas da música popular brasileira como foi possível atestar recentemente aqui mesmo no JBF a partir da pauta publicada sob o título “NO ESPANTOSO TEMPO EM QUE A DEBILIDADE SUPERA A QUALIDADE NA MPB, RAUL BOEIRA REITERA O SEU TALENTO”.

Hoje, novamente o casal tem seus nomes em evidencia aqui em nosso espaço a partir desta entrevista generosamente concedida. Um bate-papo informal onde Raul nos fala sobre suas reminiscências musicais, características de destaque em relação ao primeiro disco e sobre as suas primeiras composições. Já Márcia nos diz se houve algum tipo de apreensão ao incursionar pelo campo da composição, nos diz quais nomes tornaram-se suas maiores influências na hora de escrever as letras para o disco e se o fato de ter atuado como compositora a fez “tomar gosto” pela coisa. Essas e outras curiosidades estão relatadas logo abaixo neste gostoso e exclusivo bate-papo. Excelente leitura a todos!

Raul, em nossa primeira conversa não tive a oportunidade de questionar a respeito de suas reminiscências musicais. Gostaria de aproveitar esse nosso reencontro aqui no JBF para saber como e quando você se deparou com a música.

Raul Boeira – Eu nasci em 1956, em Porto Alegre. Meu pai era acordeonista (gaiteiro, como se diz aqui no sul), bem como alguns de seus irmãos, todos amadores. Nos encontros de família sempre havia cantorias e dança. Em casa, o rádio tocava o dia inteiro. Depois, na metade dos anos sessenta, a TV mostrava todos aqueles programas, Jovem Guarda, O Fino da Bossa, os festivais da Record, Simonal, Os Incríveis, Chacrinha, os programas de Flávio Cavalcanti, Som Livre Exportação, Dean Martin Show, os cartoons dos Beatles, os Concertos para a Juventude. Eu tinha uns doze, treze anos e tudo aquilo já me interessava. Aos quinze, comecei a trabalhar como auxiliar de escritório, e, com o primeiro salário, comprei um violão usado. Com dois amigos, Ico e Marcus, aprendi a tocar Beatles, Santana, Stones, essas coisas. Mas eu já trazia dentro da minha mente toda aquela música que ouvira antes de chegar ao instrumento: a bossa, tropicália, música orquestrada americana, os concertos, a soul music, que começava a chegar ao Brasil… E com aqueles acordes mais simples do rock não era possível tocar uma música mais elaborada, com balanço. Aos dezessete já estava tirando músicas de Caetano, Chico, Jobim. Havia, enfim, encontrado a minha praia.

Apesar de não viver da música, o Raul traz uma bagagem de quase quatro décadas dedicadas à composição. Houve algum tipo de apreensão de sua parte ao incursionar por um terreno que você até então não conhecia (apesar de tão familiarizada com as letras)?

Márcia Barbosa – Não. Em nenhum momento, eu fiquei apreensiva, porque a nossa vida em comum tem sido marcada por várias sessões de audição comentada de música e de leitura compartilhada de poesia. Então, fomos aprendendo um com o outro, e a nossa parceria foi sendo construída gradativamente. Assim, o momento em que eu comecei a fazer letras para as melodias compostas pelo Raul não foi, exatamente, um ponto de partida, e sim um instante de chegada ou o resultado – quase que natural, eu diria – de um longo processo. Além disso, o fato de termos começado essa parceria apenas pelo prazer de compor, sem prazos ou metas, me deu muita liberdade. A ideia do CD surgiu só quando tínhamos todas as canções prontas.

E as primeiras composições? Em que circunstâncias surgiram?

Raul Boeira – Em 1974, a família se mudou para Passo Fundo, uma cidade de porte médio no interior do Rio Grande do Sul. Logo ao chegar, fiquei amigo de uma rapaziada que tocava em conjuntos de baile, mas na hora da folga queria mesmo era tocar MPB. Nessa época, eu já estava comprando discos de jazz, Hermeto, Gismonti, Joe Pass… e mostrava a eles, que passaram a estudar com os raros métodos americanos que se conseguia (Berklee School, Joe Pass Method…) e partiram para música instrumental contemporânea. Rapidamente se transformaram em ótimos instrumentistas e ganharam o mundo: Alegre Corrêa, Ronaldo Saggiorato, Dudu Trentin, Guinha Ramires… Eu trabalhava e estudava, e não tinha como me dedicar a ponto de alcançar o mesmo nível técnico. Pensei: eu nunca vou tocar tão bem como esses caras; meu negócio é ficar em casa e fazer as minhas canções.

A literatura sempre teve uma convivência harmoniosa com a música de qualidade. Cito como exemplo nomes como Maiakovski e Carlos Drummond de Andrade que ganharam versões feitas por compositores como Caetano Veloso, João Bosco e Paulo Diniz. O seu interesse pela música se deu a partir desta realidade?

Márcia Barbosa – Sim e não. A música e a literatura surgiram na minha vida simultaneamente, e muito cedo, bem antes de eu aprender a ler. Meu pai, hoje com 83 anos, sempre foi um leitor, gostava de contar histórias e dizer poemas que guardava na memória ou lia em voz alta. Ao mesmo tempo, sempre foi um amante da música. Eu ouvia os sonetos de Camões (que ele ainda sabe de cor) e, também, Piazzolla, Gilberto Gil, Caetano, Chico Buarque, João Bosco, Villa Lobos e os eruditos. Então, a minha convivência com a música e com a literatura vem daí. Na infância e nos anos que se seguiram, o meu interesse pela literatura me aproximava cada vez mais da música e vice-versa, a ponto de eu ter me tornado professora universitária e ter me concentrado, como pesquisadora, no estudo da poesia lírica, um gênero que se caracteriza pela musicalidade.

Tolstói disse “se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”. E esse aspecto, por vezes, evidencia-se em seu trabalho, mesmo havendo uma grande abrangência rítmica em suas produções. Esse aspecto é algo que você busca evidenciar em suas letras ou geralmente é algo que surge no decorrer da composição de modo espontâneo?

Raul Boeira – Talvez Tolstói tenha razão. Mas, para mim, as questões são: o que é uma aldeia? Qual é, afinal, a minha aldeia? É possível, hoje, se delimitar alguma aldeia? Uma aldeia é apenas um território? Eu penso em português, falo em português. Aprendi a tocar e a compor ouvindo Gil, Joyce, Ivan Lins… Eu sou um compositor de música popular brasileira, antes de qualquer coisa. Não sei tocar os ritmos gaúchos, não tenho intimidade com o vocabulário ou com as temáticas. Algumas menções ou expressões, como por exemplo, mate, pago, mundo veio (velho), negrinho do pastoreio, são espontâneas, estão na letra porque cabem na cena que a canção ilustra. Mas há, neste novo disco, duas canções que dizem respeito a questões de ordem cultural, de certo modo polêmicas, localizadas, que estão em discussão há algum tempo no nosso estado. São elas: “Complexo de Épico II” e “Funk a contrapelo”. Nesses dois casos, claro que as canções são fruto de reflexão e posicionamento. A primeira, que, ritmicamente, remete a uma quase milonga, propõe o abandono da visão idealizada (épica) do passado do RS. E é muito interessante o papel do arranjo; ele complementa o texto ao criar uma sonoridade marcial (clarins e tambores), mas sempre atravessada pelo tom melancólico que relativiza e questiona a versão grandiosa dos fatos. A segunda é um funk dançante que contraria uma ideia existente no RS: a de que um certo determinismo geográfico pode ser transferido para o âmbito cultural, a fim de justificar uma espécie de separatismo/isolamento da música feita aqui no sul em relação à MPB.

A primeira faixa de “Cada qual com seu espanto” é uma explícita homenagem ao seu pai, que segundo a letra relata, foi o responsável por leva-la ao universo literário. Neste contexto literário quais tornaram-se as suas maiores influências na hora de escrever as letras para o disco?

Márcia Barbosa – O diálogo com textos literários, que perpassa as letras do disco, não foi planejado; foi aparecendo à medida que eu escrevia, como se as expressões, os versos, as ideias ou imagens tomados emprestados dos autores fossem solicitados pela própria melodia e estivessem ali, à espera de uma recriação, graças à intimidade que fui adquirindo com a literatura e ao repertório que fui construindo, sem perceber, ao longo de muitos anos. Bem, mas os autores que se manifestaram na criação das letras foram, entre outros: Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, Cyro Martins.

“Volume Um”, seu álbum de estreia, você o definiu como “hora da verdade”; Agora, oito anos após esse lançamento, você volta ao mercado fonográfico com “Cada qual com seu espanto”. A expectativa para este segundo lançamento se deu na mesma proporção do primeiro?

Raul Boeira – A minha primeira canção é de 1977. Trinta anos depois, decidi produzir o “Volume Um”, como uma espécie de inventário. Ao definir o repertório, na triagem, consegui eleger as doze que foram para o disco e que considero de um bom nível. Mas, no fundo, percebi que a obra deixava a desejar, especialmente no quesito letra. Fiquei um tanto decepcionado e decidi dar um tempo. Em setembro de 2014, Márcia ouviu umas gravações caseiras que continham muitas composições com melodias perfeitamente acabadas mas sem letras, e propôs que começássemos a escrever por pura diversão. A brincadeira deu tão certo que, em dois meses e meio tínhamos dezessete canções muito boas. Só aí é que passamos a pensar em fazer um disco.

Quando você decidiu começar a compor houve algum tipo de critério adotado para a elaboração das letras?

Márcia Barbosa – Eu escrevi letras para melodias prontas, o que deixou claro para mim, desde o início, que fazer uma letra e fazer um poema (algo a que eu estava acostumada) são processos completamente diferentes. O primeiro critério foi: a melodia e o ritmo é que sugerem as temáticas possíveis, ao instaurarem um clima, uma atmosfera, um sentimento. O segundo critério foi: o número de versos, o tipo de estrofe e a métrica estabelecem alguns limites (o meu conhecimento prévio desses elementos nos estudos de literatura facilitaram as coisas), determinando o que “cabe” no espaço daquela canção. O terceiro critério foi: as palavras e frases precisam soar bem (algumas, ainda que digam o que desejamos, são eliminadas porque não soam bem), o que me levou a decorar a melodia e criar os versos cantando (em voz alta ou mentalmente). Depois disso, cada letra era “testada” pelo Raul, que cantava acompanhado do violão. Nesse momento, nós víamos se o casamento entre a palavra e a música havia se realizado plenamente ou se havia necessidade de modificar alguma passagem, substituir alguma palavra.

Quais as características que você destacaria deste lançamento em relação ao primeiro disco além de sua parceria com a Márcia Barbosa?

Raul Boeira – No “Volume Um”, há canções feitas durante um período de trinta anos. E o disco foi gravado no decorrer de um ano, com músicos diferentes em cada faixa. Em “Cada qual com seu espanto”, as canções foram feitas em dois meses e as gravações se deram em três semanas. Além disso, gravamos com uma banda só, e alguns convidados. Esses fatores garantiram que o novo trabalho ganhasse em unidade. Esse disco acendeu em nós o desejo de continuarmos fazendo música e, quem sabe, outros discos.

Acho que a pergunta que não quer calar a muitos é a seguinte: Você tomou gosto pela composição? Podemos esperar outras investidas suas nessa área?

Márcia Barbosa – Eu gostei muito de fazer letras e não pretendo parar por aqui. Não apenas o processo individual foi prazeroso, mas também o “trabalho” a dois. Esse processo foi muito interessante e enriquecedor nas letras que fizemos em parceria e nas conversas que tivemos nas diversas etapas da composição: a escolha e a abordagem do tema, a consciência dos limites estabelecidos pela música, os ajustes.

Maiores Informações:

Facebook (Página Oficial) – Raul/Márcia

Serviço:

Cada qual com seu espanto (Raul e Márcia Barbosa)
Preço: R$ 30,00 (Pode ser solicitado pelo facebook ou pelo email raulboeira@gmail.com)

Para aqueles residentes fora de Passo Fundo (RS) o álbum pode ser enviado pelos Correios sendo acrescido ao valor do produto R$ 4,90 (valor da postagem de 1 CD por carta registrada – registro módico). O pagamento pode ser feito mediante depósito ou TED em conta corrente do BB ou do Banrisul.


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RAUL BOEIRA REITERA O SEU TALENTO

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Em parceria com a esposa, o cantor e compositor volta ao mercado fonográfico com “Cada qual com o seu espanto”, disco que rediz o seu vigor autoral e interpretativo.

Lenitivo. Talvez este seja o adjetivo mais apropriado para definir o novo projeto fonográfico de Raul Boeira, cantor e compositor gaúcho que buscou depurar ainda mais o seu talento ao longo dos últimos oito anos. Um hiato assentido por aqueles que ansiosamente aguardavam um novo projeto fonográfico dentro dos moldes do “Volume um”, seu álbum de estreia que somou à época os mais distintos e e sinceros elogios tanto da crítica especializada quanto do público. Enquanto em seu primeiro disco Boeira dividiu a assinatura das composições com parceiros como Alegre Corrêa e Mário Falcão, desta vez o novo projeto tem como cerne a parceria musical do cantor e compositor com Márcia Barbosa, sua esposa, professora-pesquisadora de letras na Universidade de Passo Fundo e que agora, oportunamente, estreia também no contexto fonográfico como compositora imbuída de toda a proposta sonora e estética que adorna o disco.

Trata-se de uma perfeita simbiose que expande-se para além do contexto pessoal e que agora é exposto de modo público para a alegria de todos aqueles que já conheciam Raul Boeira e agora passam a acompanhar a parceria de ambos. Essa união chega como uma espécie de amálgama, que foge do tradicional conceito do regionalismo tão atrelado à música gaúcha para a surpresa de muita gente, e acaba por fazer jus, de modo muito apropriado, ao título que a dupla escolheu para batizar o projeto: “Cada qual com o seu espanto”. Não que a sonoridade que permeia a música da região não se faça presente, mas ela faz-se esteio para uma gama de gêneros que a musicalidade do artista em questão abarca nas treze faixas que fazem parte deste projeto que busca ir de encontro a uma ideia existente no RS: a de que um certo determinismo geográfico pode ser transferido para o âmbito cultural.

Raul, que foi influenciado por nomes como Jimi Hendrix, The Beatles, Pink Floid, Milton Nascimento, Chico Buarque, Ivan Lins, Gilberto Gil entre outros grandes artistas da música, soube apreender aquilo que letras e melodias se propunham a partir dessas e outras grandes referências. Vale salientar que essas influências foram fundamentais para fazer com que a musicalidade do compositor destoasse da tradicional música produzida no Rio Grande do Sul, fazendo com que o seu trabalho fuja das delimitações geográficas de sua região, como é possível observar em toda a extensão do disco a partir de faixas que trazem para o seu universo sonoro, por exemplo, a batida do funk. É uma música que vai de encontro aos conceitos que determinam delimitações geográficas para as expressões culturais em suas mais variadas formas como afirma o próprio Boeira: “Não aceito o convite de me engajar à estética do frio”.

Desse modo, e se auto definindo um músico amador, o cantor e compositor passeia com muita propriedade entre os mais variados nuances dos distintos gêneros que constituem o seu modo de compor. São melodias substanciadas pelo samba (e seus mais variados desdobramentos), toadas, frevos, milongas e até mesmo o funk (como já citado); formando de modo coerente a unidade que faz da obra do artista gaúcho um diferencial dentro da música do seu estado como já foi identificado, por exemplo, pelo músico austríaco Joe Zawinul, que em seu álbum Zawinul 75th (detentor do Grammy 2010 de melhor álbum de jazz contemporâneo) registrou o samba “Clariô” (uma parceria de Boeira com Alegre Corrêa). Avesso à carreira musical, Raul prefere suar bicas no esmerado ofício da composição à estar sobre um palco: “Não gosto de palco. Padeço de uma certa “tecnofobia”… não gosto de coisas ligadas perto de mim, equipamentos, cabos… sou desplugado total, 100% acústico”, costuma dizer.

Composto por treze faixas o disco apresenta letras substanciadas pelos mais distintos temas, sentimentos e sensações, a exemplo de “Iniciação”, uma emotiva homenagem ao Ruy Barbosa, pai de Márcia, responsável maior por despertar na compositora o gosto pela literatura como fez questão de enfatizar nos versos finais da composição: “E antes mesmo que eu soubesse / o que é literatura / o mestre Ruy me iniciava / nos passos dessa aventura…”; Há também a abordagem aos mais distintos temas, a exemplo de “Povaréu”, canção cujo o tom é dado pela celebração da pluralidade e das diferenças em detrimento ao preconceito e a intolerância infelizmente ainda tão em voga em nossa sociedade. A preservação do meio ambiente vem através da faixa “Meu rio”, samba-canção impregnado de figuras de linguagem que aguça o senso crítico do ouvinte a partir de uma letra carregada de ironia e sarcasmo.

Temas comuns aos grandes centros urbanos também são abordados em faixas como “A cidade sumiu” (que denuncia a poluição visual descontrolada) e “Aos que chegam”, uma saudação em forma de frevo aos imigrantes e refugiados que buscam tentar a sorte em outros centros urbanos afim de uma vida sem maiores atropelos. Já “Vamos” e “Meio aéreo” tratam-se de duas baladas funk, a primeira descreve a parceria na vida e na música entre os autores e a segunda celebra o fazer música como forma de seguir brincando ao longo da vida. O disco segue com “No fundo do topo”, que inspirado na obra “A euforia perpétua”, do francês Pascal Bruckner, discute o modo como as pessoas se tornam reféns da vaidade e da busca pelo sucesso a qualquer preço. O disco ainda traz as faixas “Ventos”, “Na pausa”(que endossa toda a leveza presente no disco) e “Complexo de épico II”, uma canção melodicamente estruturada a partir de incursões pelo universo milongueiro e marcial (com direito a clarins e tambores) e uma letra que propõe o abandono da visão épica do passado do RS.

“Uma crítica a essa idealização que, de certa forma, nos aprisiona, encobre o que é o nosso estado. É a canção em que mais me utilizo daquilo que minha formação em literatura me proporciona” como observa a autora. Por fim o disco ainda conta com “O poema dentro da casca”, bossa que traz Celso Fonseca ao violão e nos vocais.

A exemplo do seu álbum de estreia, “Cada um com o seu espanto” foi gravado no Rio de Janeiro e tem novamente Dudu Trentin como responsável pela direção musical. A respeito desta parceria (que antecede a incursão do cantor e compositor pelo universo fonográfico) Dudu conta que, ao contrário do Volume Um, gravado de maneira fragmentada por vários instrumentistas, num processo de mais de um ano, este novo projeto (que segue a linha mais clássica da Música Popular Brasileira) foi registrado em apenas dez dias e traz uma única banda base em todo o repertório. No rol de músicos que dão vazão a abrangente e coesa sonoridade deste projeto, conceituados musicistas que vem nas últimas décadas corroborando de modo resistente para a história da música popular brasileira de qualidade a exemplo de Jurim Moreira(bateria), Celso Fonseca (violão e voz), Jessé Sadoc (flugelhorn), Bruno Santos (trompete),Marcelo Martins (sax tenor), André Vaconcellos (baixo), Ian Moreira (percussão), Eduardo Farias (pianos, teclados e arranjos) e Marco Vasconcellos (violões, guitarra e arranjos).

Trabalhos como “Cada qual com o seu espanto”, faz o malfadado cenário musical brasileiro revigorar-se, nos levando a crer que nem tudo existente na atual música popular brasileira é escasso de qualidade ou tem por finalidade o que muito tem se apregoado no contexto musical atual: uma espécie de alienação que não lança um olhar crítico a nossa sociedade. Ainda bem que quando quase estava convencido de que o Volume Um seria volume único, o destino conspirou a favor da arte e fez com que os caminhos de Raul Boeira cruzasse com os de Márcia Barbosa, e dessa comunhão surgisse este projeto fonográfico. Nada de rebenque, bombacha, guaiaca, lenço ou tirador quando se há todo um ecletismo a ser explorado dentro da música popular brasileira como eles foram capazes de enxergar. Para quem impressionou-se com a qualidade musical presente no “Volume Um” de fato não há de se espantar com este novo álbum que traz em seu bojo características que o destaca. Pérola para poucos, “Cada qual com o seu espanto” endossa ainda mais (e de modo veemente) um jargão pra lá de conhecido dentro da música popular brasileira: “Toca Raul!”

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Facebook (Página Oficial) – Raul Boeira e Márcia Barbosa

Serviço:
Cada qual com seu espanto (Letras de Raul e Márcia Barbosa)
Preço: R$ 30,00 (Pode ser solicitado pelo Facebook ou pelo email raulboeira@gmail.com). Para aqueles residentes fora de Passo Fundo (RS) o álbum pode ser enviado pelos Correios sendo acrescido ao valor do produto R$ 4,90 (valor da postagem de 1 cd por carta registrada – registro módico). O pagamento pode ser feito mediante depósito ou TED em conta corrente do BB ou do Banrisul.


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Célia Villela ajudou a difundir o rock no Brasil

Hoje quero pedir licença aos amigos leitores para trazer nesta coluna o nome de uma das precursoras do rock no Brasil. De carreira efêmera, Célia da Conceição Villela nasceu em 24/11/1936, em Belo Horizonte (MG) e chegou a gravar alguns discos em 78 RPM e outros raros LP’s entre as décadas de 1950 e 1960, quando decidiu afastar-se da vida artística. Em sua biografia consta que Célia iniciou a sua carreira aos quatro anos de idade, quando foi levada por sua mãe a um programa infantil das Emissoras Associadas de Belo Horizonte. Essa sua participação no programa agradou tanto que passou a ser atração fixa do mesmo, com a aprovação dos pais até se tornar profissional por volta do ano de 1947, quando tinha 10 anos, ganhando 50 cruzeiros por apresentação.

No início de sua adolescência, a moda musical em evidência na época era o baião (ritmo este que tinha como seu maior representante o cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga). Seguindo essa tendência, em 1950, aos 13 anos, Célia Villela foi eleita a Rainha do Baião de Minas Gerais, e passou a ter seu programa próprio na Radio Guarani de Belo Horizonte, que se chamava “Aí Vem o Baião”, irradiado das 20:00 hs às 20:30 hs. A partir dos anos de 1950 deu início aos seus registros fonográficos. Antes do primeiro registro foi contratada pela Radio Tupi do Rio de Janeiro na mesma época em que estava iniciando o curso científico. Tal condição a obrigou a mudar-se para a então capital federal (acompanhada pela mãe) afim de dar continuidade à carreira artística. Nessa época o seu salário girava em torno de 3.500 cruzeiros mensais e ela, vendo que precisava ganhar mais, aceitou um convite de Carlos Machado, o grande empresário do teatro burlesco, para ingressar no seu elenco. Tinha então quase 15 anos, mas aumentou a idade nos documentos para 18 anos e conseguiu que seu pai lhe concedesse a emancipação.

Gravou seu primeiro disco, em 78 rpm, em 1955, pelo pequeno selo Santa Anita (selo responsável pelo lançamento do LP “O tal”, primeiro long play na carreira do saudoso Moreira da Silva). Nesta primeira oportunidade de registrar em disco a sua voz gravou os baiões “Minas Gerais”, de Elias Salomé, e “Noivado do Paulinho”, de Castro Perret e Armando Roberto. Em seguida, gravou as marchas “Baile dos casados”, de autor desconhecido, e “Tô com o diabo no corpo”, de Waldir Machado e Rômulo Paes. Posteriormente foi contratada pela gravadora Todamérica, por onde gravou em 1956, o fox-trot “O resto eu faço”, de Wilson Batista e Antônio Nássara, e o samba “Hermengarda”, de Alberto Ribeiro. Ainda ao longo dos anos de 1950 gravou o choro “Menosprezando”, de Paulo Aguiar, e o samba “Félix Fidélis”, de Alberto Ribeiro e Radamés Gnattali.

Ao longo de sua carreira ainda teve uma efêmera passagem em boites cariocas como a Beguin, night-club existente no Hotel Glória, onde ganhava em torno de 7.000 cruzeiros. Ao lado de Carlos Machado teve a oportunidade de atuarem boates no Brasil e no Exterior a partir de excursões diversas, dentre elas para lugares como San Juan, Curaçao, Caracas e Puerto Rico; E países como os EUA, Uruguai, Argentina e até em Cuba, onde trabalhou muito tempo. Em uma dessas excursões, no Hotel Tamanaco de Caracas, a maior parte do elenco feminino ficou gripada e Célia Villela, além de seus papéis, teve que fazer o das outras. O trabalho exaustivo prejudicou sua saúde e em San Juan de Puerto Rico ficou uma semana acamada, com pneumonia, fato este que repetiu-se tempos depois e a fez abandonar as apresentações em boates. Antenada com novas tendências musicais, após sua passagem por Puerto Rico, trouxe um novo ritmo que começava a fazer sucesso por lá e que se chamava cha-cha-cha. Quis gravar o cha-cha-cha mas ninguém lhe deu ouvidos.

E por fim, a partir dos anos de 1960 (quando foi contratada pela gravadora RGE) começou a mudar seu repertório, enveredando então pelo nascente rock and roll gravando diversas canções, dentre as quais, “Conversa ao telefone” (versão de “Pillow talk”), “Trem do amor” (versão de “One way ticket to the blues”), “Passo a passo” (Step by step), “Quando o amor vem” (In between teen), dentre outras versões. Entre os autores de suas gravações há nomes como José Messias, Fred Jorge, Erasmo Carlos, Miguel Gustavo e ninguém menos que o Rei Roberto Carlos, que assinou a composição “Acho que me apaixonei”, parceria sua com Édson Ribeiro. Nessa mesma década ainda chegou a ser contratada pelas gravadoras RCA Victor e Musidisc e, no auge de seu sucesso, apresentou o programa de TV “Célia, Música e Juventude” na TV Continental do Rio de Janeiro. Dirigiu ainda os programas de rádio “Na roda do rock” pela Rádio Globo, e, posteriormente, na Rádio Guanabara. Pouco depois, casou-se com o guitarrista e líder do conjunto The Angels, Carlos Becker e abandonou a carreira artística.

Deixo aos amigos leitores duas canções da saudosa cantora falecida em 2005. A primeira trata-se de “Viu, foi pior”, gravada por volta de 1965 e de autoria da dupla Orlandivo e Roberto Jorge:

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A segunda faixa trata-se da canção “Passo a passo” (Step By Step), canção de autoria de Ollie Jones e Billy Dawn Smith. Aqui trata-se de uma versão composta por Fred Jorge. Esta faixa também foi gravada pelo grupo americano The Crests:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Em quase quatro décadas de carreira, cantor Nuno Roland foi grandes de sua época

Reinold Correia de Oliveira, que ficou conhecido nacionalmente por Nuno Roland, é considerado por muitos como um dos grandes cantores da época de ouro da música popular brasileira. Não é pouco se levarmos em consideração que em tal período estavam também em atividade nomes como Carlos Galhardo, Orlando Siva, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Nascido em Joinville, município localizado a cerca de 180 quilômetros da capital de Santa Catarina, Reinold iniciou a sua carreira artística em Porto Alegre, capital do estado vizinho. Costumava dizer que o pontapé inicial de sua carreira se deu quando apresentou-se, ao lado da Jazz Band do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, em uma emissora radiofônica da capital gaúcha e teve a oportunidade de se destacar como cantor.

Em uma época em que assinar contrato com uma rádio representava um significativo passo na carreira de um artista, ainda com o nome de Reinold de Oliveira, Nuno assinou o seu primeiro com apenas 19 anos. Ainda no início da década de 1930, passou a se apresentar como cantor profissional em um cassino situado na cidade de Passo Fundo, município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul. É válido registrar que ao longo deste período em que esteve residindo no Rio Grande do Sul, Nuno (ou melhor, Reinold de Oliveira, pois o nome artístico com o qual ficou conhecido em todo o território nacional só viria após a sua saída do Rio Grande) teve a oportunidade de conhecer o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, de quem acabou tornando-se amigo.

Por volta de 1934 o cantor e compositor Reinold de Oliveira resolve ir ao Sudeste, mais precisamente para São Paulo, objetivando a sedimentação de sua carreira junto aos grandes nomes da música popular existente na época. De início, apresentou-se na Rádio Record (sempre atuando na base de cachês). Nesse período tem a oportunidade de conhecer a turma do Regional do Garoto, que o levou para a Rádio Educadora Paulista, onde teve a oportunidade de ter o seu primeiro contrato assinado. Sua passagem pela capital paulista foi de aproximadamente dois anos e, foi na então “terra da garoa” (como a cidade é carinhosamente chamada por muitos), que Reinold adotou o nome artístico de Nuno Roland (por sugestão do diretor artístico da Rádio Educadora Paulista).

Foi ainda em São Paulo que teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico, pela então gravadora Odeon. No 78 RPM estavam presentes a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê”. Na capital paulista o intérprete alcançou relativo sucesso, e pensando em alcançar um status ainda maior, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. Já como Nuno, em 1936, muda-se para a então Capital Federal, e lá assina contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração da emissora em 12 de setembro daquele ano. Suas primeiras gravações no Rio de Janeiro aconteceram na Columbia em dois discos. Neles estavam presentes o samba-choro “Coitadinho do pachá”, “Morena do samba”, a valsa “Enquanto o luar está contente” e “Não posso te dizer adeus”. Ainda na década de 1930 gravou canções como os sambas “Amor por correspondência”, de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, “Seja o que Deus quiser”, de Mário Morais e Vadico, a marcha “Mulher fatal”, de Antenógenes Silva e Osvaldo Santiago, a marcha “Guarda essa arma!”, de Ataulfo Alves e Roberto Martins e a valsa “Iracema”, de Bendito Lacerda e Aldo Cabral. Sem contar que tornou-se crooner da Orquestra do Copacabana Palace Hotel, onde atuou por 11 anos.

Para deleite dos amigos leitores duas canções. A primeira a valsa “Mil corações”, da lavra dos compositores Ataúlfo Alves e Jorge Faraj e registrada por Nuno em 1938:

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A segunda canção trata-se de “Perdão, meu bem”, registro de 1939 e de autoria de Armando Marçal-Alcebíades Barcellos:

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E TUDO O MAIS QUE HÁ DE LIRISMO, POESIA E CANDURA

xico

Em projeto pautado na delicadeza, o compositor Xico Bizerra reitera o seu vigor autoral e volta ao mercado fonográfico em álbum duplo

Em 2013 Xico Bizerra lança “Luar Agreste no Céu Cariri”, projeto imbuído de comoção devido ao estado de saúde em que se encontrava o responsável maior por aquela façanha: Dominguinhos. Responsável por onze das doze melodias existentes no décimo disco da série Forroboxote, o saudoso músico garanhuense passava naquele momento por complicações em seu estado de saúde que infelizmente resultaram em sua prematura partida, marcando “Luar Agreste no Céu Cariri” como seu último projeto fonográfico. Agora, após um hiato de três anos, o compositor cearense (e cidadão recifense) Bizerra volta ao mercado apresentando o álbum duplo “Valsas, canções e tudo o mais que há”, disco que reitera sua verve cancioneira e poética e o faz ser um dos mais representativos compositores da atualidade.

Para falar sobre “Valsas, canções e tudo o mais que há” faz-se necessário tempo. Não aquele tempo que se desdobra conforme a teoria de Jean Pierre Garnier fundamentado em leis da física, mas o tempo da delicadeza (como bem dito pelo poeta) capaz de nos fazer entender que o amor amadurece e mostra-se passivo de modificações sem perder o prumo ou esvair-se. Aquele tempo capaz de nos fazer perceber que o amor é semente, e que esta semente quando jogada em terra fértil mostra-se apta a gerar distintos frutos e raízes a partir das mais variadas veredas, onde faz-se possível o surgimento de substantivos e adjetivos delimitados apenas em seu sentido etimológico, pois no campo das sensações não há como se mensurar. Essa afirmação mostra-se verdadeira a partir dos registros fotográficos capitados pela esposa do compositor, Duce Bezerra, a partir de imagens substanciadas pela mesma candura no que tange também às canções.

Dividido em “O mais íntimo de mim” e “Um amor maior que imenso”, “Valsas, canções e tudo o mais que há” é composto por 30 faixas que como o próprio título sugere, nos induz aos mais variados gêneros musicais a partir de distintos intérpretes que somados chegam ao número de trinta e cinco. São discos pautados em uma proposta estética que busca ter por cerne aquilo que há de mais simplório como o próprio compositor enfatiza: “Ele é uma tentativa de realizar meu sonho de fazer um disco com músicas em que fossem suprimidos os acordes sinuosos, as firulas superficiais, os eletrônicos dispensáveis, os arranjos suntuosos e as máquinas afinadoras milagrosas. Quis tirar, com isso, a roupa da canção, despi-la, e deixá-la assim exposta, quase nua, sem adornos desnecessários”. A abrangência atribuída aos gêneros musicais presentes no disco estende-se também aos intérpretes que vão desde nomes de projeção nacional como Alaíde Costa (“Estrada longa”), Dominguinhos (“Musa”), Socorro Lira (“Bisbilhotice”),Elba Ramalho (“Cria (Canção de ninar a vida que vem)”), Flávia Bittencourt (“Casinha de Gravatá“). Os discos ainda contam com nomes comoo da fadista Rosa Madeira (“Romance do senhor fado com a moça canção do Pajeú“), Irah Caldeira e Geraldo Maia (em duo na faixa “Eternamente nós“), Marcos Lessa (“Todo amor que há“), Paulo Matricó (“Casa da lua menina“), Maria Dapaz (“Teus olhos nos meus“), Almério (“Quase silêncio“), Gabi Buarque (“Tecelã”) entre outros.

Ao lado de Xico, quem assina as canções presente nos álbuns são nomes como Chico César, Dominguinhos, Maria Dapaz (doze faixas), Ananias Júnior, Bráulio Medeiros, Luciano Magno, Beto Hortis, Carlos Villela, Juliano Holanda, Adalberto Cavalcanti, Leninho de Bodocó, Socorro Lira, Rosaura Muniz e Gennaro.

Responsáveis pelos adornos sonoros do projeto nomes como Dominguinhos (acordeon), Spok (sax), Juliano Holanda, Fred Andrade e Luciano Magno (arranjos, viola e violões), Rostan Junior, Elvis Alexandre, Tadeu Junior e Renato Nogueira (percussões), Quarteto de cordas Encore (Fabiano Menezes, Emmanuel de Carvalho, Nilzete Galvão, Rafaela Fonseca e Carlos Santos), Sandro Haick (violões, arranjos e piano), Mozart Ramos (flauta), Neném (zabumba, triângulo e agogô), Lucas Crasto (baixo e vocais), Beto Hortis e Gennaro (arranjos), Alex Sobreira (violão de sete cordas), Romero Medeiros e George Aragão (arranjos e pianos), Fabinho Costa (flugel), Wálter Areia (baixo), Maurício Cezar (arranjos, pandeiro, ganzá e piano), Cláudio Almeida (violão), Luizinho (acordeom), Vanutti Macedo (arranjo, violão, piano e moringa), Carlos Ferrera (arranjo de voz e vocais), Rafael Marques (bandolim), Bráulio Araújo (baixo), Guto Santana (gaita), Claudinho Tomé (arranjo, acordeom e piano), Claudeir Tomé (violão, baixo e guitarra), Jeferson Cupertino (baixo acústico), Júlio César Mendes (acordeom), Apolo Natureza (violões), Daniel Coimbra (cavaco), Guilherme Eira (violão), entre outros.

E assim, com a anuência de grandes parceiros, intérpretes e musicistas, Xico reafirma seu talento e vem escrevendo a sua história dentro da música popular brasileira sempre pautada na sensibilidade em seu grau mais elevado a partir de canções que, além de destacá-lo como um dos mais representativos compositores nordestino da atualidade, nos faz atinar que mesmo no tresloucado tempo no qual vivemos sempre é possível nos ater às minuciosas doçuras existentes na vida independente dos substantivos aos quais vamos somando a nossa história. Astuto, Xico traz consigo o clínico olhar de quem consegue observar nestes pequenos detalhes as mais simplórias sutilezas fazendo das mesmas uma espécie de força-motriz capaz de nos transcender para um estado de poesia como é possível perceber de modo cada vez mais recorrente em sua obra, Se sua condição de avô chega como esteio maior para essa inspiração. O amor é isso. É ser simples, é ser pai, é ver sua história ser acompanhada por outros pés, é ter o aconchego daqueles que a pouco chegaram, mas já se fazem imprescindíveis para nós.

É tudo uma questão de ponto de vista, como bem frisa as imagens que ilustram o encarte do álbum. São imagens que se esforçam para traduzir o mais intimo de compositor com aquele que ele define como amor maior que imenso, que e o seu neto Bernardo. Sem contar as canções presentes em “Valsas, canções e tudo o mais que há”, que longe de ser uma vã tentativa, consegue transpor para as pautas musicais o olhar de um compositor em consonância com o lirismo, a poesia e toda a candura que o projeto requer. Por isso, antes de emitir qualquer opinião acerca deste novo disco faz-se preciso aguardar a emoção decantar para só depois expressar qualquer opinião a respeito de “Valsas, canções e tudo o mais que há”, um disco que mostrou-se capaz de atender, do modo mais abrangente possível, ao propósito do seu idealizador: fazer com que o disco possa ser apreciado pelo coração e seus acordes sejam entendidos pela alma.

Para que o público do JBF tome conhecimento deste primoroso trabalho segue abaixo uma das faixas presentes no disco intitulada “Musa”, composição de Xico em parceria com Gennaro:

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Maiores Informações:
Site Oficial – Forroboxote 
Passadisco – Passadisco 


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UM POUCO DO REMENDO DO NOVO ÁLBUM DE RENATO BARUSHI

Sob a égide de quatro artísticas plásticos e a participação especial de um músico portenho, o músico mineiro chega ao seu segundo álbum

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Intitulado “Remendos”, o segundo projeto fonográfico do cantor, compositor e instrumentista cataguasense Renato Barushi aproxima-se da data do seu lançamento oficial. O sucessor de “Renato e o mercado” faz jus ao seu título ao trazer em sua concepção distintos olhares que acabam por formar uma coerente unidade como já sé possível observar a partir de um projeto gráfico que apresenta alguns artistas plásticos e seus respectivos modos de observar o trabalho elaborado pelo músico mineiro. São quatro nomes que, segundo o próprio Renato, procuram expor a partir de técnicas distintas suas respectivas visões acerca da representação do álbum. A capa (que pode ser vista a partir da imagem acima) é assinada por Fabiano Banna, enquanto o encarte e as demais artes ficam a cargo de nomes como Leandro Silveira, Renatta Barbosa e Emerson Morais. Como afirma Barushi: “O disco é um pedaço de si doado por cada artista em sua concepção”.

Com dez canções autorais (oito em parceria com o Robson Pitchier e duas solo), “Remendos” procura também fazer jus ao título a partir de uma sonoridade aglutinadora quando apresenta na concepção de suas faixas os mais diferentes afluentes que vem, ao longo dos anos, desaguando na verve do artista desde o início de sua carreira como vocalista, instrumentista e compositor junto a banda ”Machinari”. É possível afirmar isso a partir da ficha técnica do álbum, que conta com antigos companheiros musicais do início da carreira até novas e entrosadas parcerias como é o caso da intérprete Angélica Diniz, da doguitarrista argentino Daniel Sanmartin. Ao lado da Banda Maitá é possível afirmar que Renato Barushi, quatro anos depois, ampliou toda a heterogeneidade melódica registrada naquele “mercado” que o fez reconhecido pela crítica especializada ao ser pré-selecionado para o Prêmio da Música Brasileira à época do lançamento e o hoje o coloca como um dos ascendentes nomes da atual música mineira.


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RELEMBRANDO DIL MELO

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Autora do hino do Maranhão, Dilu como compositora teve inúmeros intérpretes

De uns dias para cá tenho procurado dar uma ênfase maior a alguns artistas que em dado momento foram representativos para a nossa cultura, mas que hoje praticamente caíram no limbo do esquecimento. Em um primeiro momento procurei trazer alguns intérpretes do gênero masculino que tiveram a sua ascensão maior na chamada época de ouro de nossa música, período este que abrange os anos de 1930 e 1940. No entanto seria absurdo limitar-me apenas em intérpretes masculino, uma vez que temos no rol dos maiores nomes de nossa música uma infinidade de cantoras que surgiram também nesse período de ouro da MPB. Por isso hoje darei início a abordagem de algumas cantoras que deixaram seu legado na histórias da música brasileira a partir não apenas de exímias interpretações, mas também através de histórias interessantes como algumas que venho registrando nesta coluna.

Para dar início a abordagem de nossas artistas, trago um nome que é bem provável que poucas pessoas saibam de fato quem ela foi (e se me referir a ela pelo nome de batismo menos ainda…). Trata-se de Maria de Lourdes Argollo Oliver, ou simplesmente Dilú Mello, artista maranhense que começou a estudar música e violino quando ainda tinha cerca de cinco anos de idade. Pouco tempo depois deu início aos estudos também do violão com sua mãe D. Nenê e de piano com Elizéne D’Ambrósio. Familiarizada com os instrumentos, não foi difícil entre seus experimentalismos fazer a sua primeira composição quando ainda tinha dez anos. O resultado dessa experiência foi uma dolente valsinha, a primeira composição de muitas que viriam posteriormente. Vale também registrar que aos 13 anos tirou diploma no Conservatório de Música de Porto Alegre, recebendo medalha de ouro pela impressionante técnica demonstrada em tão pouca idade. Por falar em técnica e talento vale deixar registrado que após realizar um concerto no Teatro Colon, na Argentina, recebeu um prêmio do governo argentino para viajar por todo o país divulgando seu talento e o de Angelito Martinez, à época um precoce e promissor pianista.

Um fato curioso de sua carreira é que apesar do promissor futuro que poderia ter na música clássica, aos terminar seus estudos de canto lírico resolveu abandoná-la para dar vazão à sua paixão pela música dos tropeiros do sul. Foi neste período que a artista passou a dedicar-se a música regional gaúcha e de países vizinhos. Nesse período a família muda-se para Rio de Janeiro, então capital federal. Em um sarau foi ouvida cantando e tocando violão pelo maestro Martinez, que impressionou-se com o seu talento e a levou para tocar na Rádio Cruzeiro do Sul. Foi aí então que teve início a sua carreira radiofônica a partir de apresentações a exemplo das Rádios Kosmos (São Paulo) e Rádio Nacional (com a qual tinha contrato). Seu primeiro disco veio em 1938 com as faixas “Engenho d’água” (“Cena brasileira”, de sua autoria e Santos Meira e “Coco babaçu”, também de sua autoria), fato que só viria a ocorrer seis anos depois, quando em 1944, gravou seu segundo disco, acompanhada de Antenógenes Silva ao acordeom. Nesta década ainda registra canções como o xote “Planta milho”, o calango “Cesário”, o coco “Sapo cururu”, a valsa “Lá na serra”, o xote “Fiz a cama na varanda” (canção esta que acabaria ganhando o gosto popular ao longo dos anos a partir de interpretações de nomes como Inezita Barroso, Dóris Monteiro, Nara Leão entre outros).

Dona de múltiplos talentos, atuou no Cassino Atlântico, realizou a gravação dos mais variados gêneros musicais, tocou acordeom (recebendo da imprensa inclusive da a denominação de “Rainha do Acordeom”) e compôs canções ao longo de décadas de carreira que viria a ganhar as mais distintas vozes ao longo dos anos a exemplo do Hino do Maranhão.

Como de praxe ficam aqui duas canções para deleite do público leitor. A primeira trata-se do xote “Qual o valor da sanfona”, de autoria da própria Dilu em parceria com J. Portella. Segundo informações esta gravação foi feita no dia 31 de julho de 1948, porém só lançada em março-abril do ano seguinte:

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A segunda canção vem a ser “Fiz a cama na varanda”, clássico xote de sua lavra. Com acompanhamento do Conjunto Tocantins a canção foi lançada em abril de 1943:

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RELEMBRANDO NUNO ROLAND

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Em quase quatro décadas de carreira, cantor foi grandes de sua época

Reinold Correia de Oliveira, que ficou conhecido nacionalmente por Nuno Roland, é considerado por muitos como um dos grandes cantores da época de ouro da música popular brasileira. Não é pouco se levarmos em consideração que em tal período estavam também em atividade nomes como Carlos Galhardo, Orlando Siva, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Nascido em Joinville, município localizado a cerca de 180 quilômetros da capital de Santa Catarina, Reinold iniciou a sua carreira artística em Porto Alegre, capital do estado vizinho. Costumava dizer que o pontapé inicial de sua carreira se deu quando apresentou-se, ao lado da Jazz Band do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, em uma emissora radiofônica da capital gaúcha e teve a oportunidade de se destacar como cantor.

Em uma época em que assinar contrato com uma rádio representava um significativo passo na carreira de um artista, ainda com o nome de Reinold de Oliveira, Nuno assinou o seu primeiro com apenas 19 anos. Ainda no início da década de 1930, passou a se apresentar como cantor profissional em um cassino situado na cidade de Passo Fundo, município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul. É válido registrar que ao longo deste período em que esteve residindo no Rio Grande do Sul, Nuno (ou melhor, Reinold de Oliveira, pois o nome artístico com o qual ficou conhecido em todo o território nacional só viria após a sua saída do Rio Grande) teve a oportunidade de conhecer o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, de quem acabou tornando-se amigo.

Por volta de 1934 o cantor e compositor Reinold de Oliveira resolve ir ao Sudeste, mais precisamente para São Paulo, objetivando a sedimentação de sua carreira junto aos grandes nomes da música popular existente na época. De início, apresentou-se na Rádio Record (sempre atuando na base de cachês). Nesse período tem a oportunidade de conhecer a turma do Regional do Garoto, que o levou para a Rádio Educadora Paulista, onde teve a oportunidade de ter o seu primeiro contrato assinado. Sua passagem pela capital paulista foi de aproximadamente dois anos e, foi na então “terra da garoa” (como a cidade é carinhosamente chamada por muitos), que Reinold adotou o nome artístico de Nuno Roland (por sugestão do diretor artístico da Rádio Educadora Paulista). Foi ainda em São Paulo que teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico, pela então gravadora Odeon. No 78 RPM estavam presentes a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê“.

Na capital paulista o intérprete alcançou relativo sucesso, e pensando em alcançar um status ainda maior, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. Já como Nuno, em 1936, muda-se para a então Capital Federal, e lá assina contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração da emissora em 12 de setembro daquele ano. Suas primeiras gravações no Rio de Janeiro aconteceram na Columbia em dois discos. Neles estavam presentes o samba-choro “Coitadinho do pachá“, “Morena do samba“, a valsa “Enquanto o luar está contente” e “Não posso te dizer adeus“. Ainda na década de 1930 gravou canções como os sambas “Amor por correspondência“, de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, “Seja o que Deus quiser“, de Mário Morais e Vadico, a marcha “Mulher fatal“, de Antenógenes Silva e Osvaldo Santiago, a marcha “Guarda essa arma!“, de Ataulfo Alves e Roberto Martins e a valsa “Iracema“, de Bendito Lacerda e Aldo Cabral. Sem contar que tornou-se crooner da Orquestra do Copacabana Palace Hotel, onde atuou por 11 anos.

Ficam aqui duas canções registradas pelo intérprete na década de 1930, mais precisamente em 1938. A primeira trata-se de “Covardia“, canção de autoria de dois ícones do cancioneiro popular brasileiro (Ataulfo Alves e Mário Lago):

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A segunda trata-se da valsa “Mil corações“, canção de autoria também de Ataulfo, só que desta vez em parceria com Jorge Faraj, gravada no dia 28 de março de 1938 e lançada em julho do mesmo ano sob a matriz 5787:

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RELEMBRANDO FRANCISCO EGYDIO

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Em oito décadas de vida, Francisco Egydio foi intérprete de inúmeros sucessos ao longo de sua carreira

Assim como muitos de sua geração, o cantor Francisco Egydio deu início a sua carreira artística a partir das grandes emissoras de rádio existentes em uma época em que a televisão ainda engatinhava em nosso país. No início da década de 1950 assinou contrato com a Rádio Excelcior e logo em seguida fechou também com a gravadora Copacabana, por onde teve a oportunidade de lançar o seu primeiro disco em 1953. Nesta estreia teve a oportunidade de registrar dois sambas: “Rascunho brasileiro”, de autoria de Polera, e, “Sem palavras”, de M. Mores, E. S. Discepolo e Nelson Figueiredo. Esta acompanhada por Alfredo Grossi e Sua Orquestra Típica, aquela com acompanhamento da orquestra de Nozinho. No ano seguinte fez o registro das canções “Espanhola tentação” (uma marcha de autoria de José Roy e Rodrigues Filho) e “Nosso amor morreu” (samba composto por Avaré e Wilson Roberto), sem contar duas canções de autoria de Oscar Gomes Cardim em homenagem ao quarto centenário da cidade de São Paulo: “Terra bandeirante” e “São Paulo das bandeiras”.

A primeira metade da década de 1950 propiciou ao artista diversos registros fonográficos pela gravadora Copacabana tais quais o clássico samba “A Bahia te espera”, de Herivelto Martins e Chianca de Garcia, os sambas “Operária”, de Francisco Ávila, e “A diferença”, de Celso Vilaça, e a marcha “Sombra e água fresca”, de José Roy, Arlindo de Oliveira e Orlando Monello. Na segunda metade da década o cantor transferiu-se para a gravadora Odeon e por lá registrou diversos gêneros musicais tais quais bolero (“Vera Cruz”, de S. Cahn, H. Friedhofer e Ghiaroni), mambo (“Quem será?”, de Beltran Ruiz com versão de Lourival Faissal), partido alto (“Samba de nego”, de Heitor dos Prazeres e Kaumer Teixeira Camelo), sambas (“Joquei clube”, de Antonio Rago e João Pacífico, “Pingo d’ água”, de Beduíno e Conde, “Viva o Santos”, uma homenagem de Júlio Nagib ao Santos Futebol Clube, campeão paulista daquele ano, e “A voz do morro”, de Zé Kéti, no segundo registro desse clássico samb) e marchas (“Se essa nega fosse minha”, de Elzo Augusto e Gentil Castro). Ainda na década de 1950 em parceria com o também cantor Roberto Paiva gravou o LP “Polêmica – Wilson Batista X Noel Rosa – Roberto Paiva e Francisco Egydio” lançado pela Odeon, com capa do caricaturista e compositor Nássara. Nessa briga que resultou em alguns dos maiores clássicos do samba brasileiro, interpretou os sambas “Rapaz folgado”, “Palpite infeliz”, “João Ninguém”, todas de Noel Rosa, além de “Feitiço da Vila”, de Vadico e Noel Rosa.

No início da década seguinte especializou-se em gravações de músicas românticas a partir de registros como os presentes no LP “Creio em ti” e o LP “Francisco Egydio vive os sucessos de Lupicínio Rodrigues”, um tributo (em vida) ao compositor gaúcho no qual interpretou alguns dos clássicos de sua lavra tais quais “Se acaso você chegasse”, “Nervos de aço”, “Nunca”, “Vingança”, “Cadeira vazia”, entre outras. Já da metade da década em diante participou de diversos discos coletivos dedicados ao repertório de carnaval (registrando marchas como “Eu vou ferver”, “Quem bate” , “Vou deixar cair”, “Pra frente”, “Garota moderna”, entre outras) e chegou a gravar um LP no qual predominou versões de músicas estrangeiras de sucesso. Nos anos setenta teve sua voz em trilhas de novelas (“Meu rico português”, da TV Tupi), registrou clássicos como “Risque”, de Ary Barroso, “Caminhemos”, de Herivelto Martins, “A volta do boêmio”, de Adelino Moreira, e “Cinco letras que choram (Adeus)”, de Silvino Neto; participou do LP “Sambas de enredo das Escolas de samba do Grupo 1”, de São Paulo, lançado pela Continental interpretando o samba-enredo “Sonho de um Rei negro”. Vale registrar que Egydio em sua extensa carreira (gravou mais de vinte discos em 78 rpm além de vários LPs pelas gravadoras Odeon, Chantecler e Continental, além de participar de diversas coletâneas) foi o primeiro cantor a receber o o Troféu Imprensa na categoria cantor em uma carreira que conta com registros fonográficos (além dos já citados) de canções como “Pedacinho por pedacinho”, “Adivinhão”, “Sorris”, “É desconfiança”, “Cinco letras”, “Greve de amor”, “Coração de fera”, “Até parece castigo”, “Por um beijo de amor”, entre outras.

Segue aos amigos leitores duas canções na voz do saudoso intérprete. A primeira é uma canção que faz parte do rol dos grandes sucessos de nossa MPB, “Cadeira vazia” de autoria de Lupicínio Rodrigues. Essa e outras canções de autoria do compositor gaúcho podem ser encontradas no álbum Francisco Egydio – Vive Os Sucessos De Lupicinio Rodrigues, gravado em 1962:

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A segunda canção trata-se de uma marchinha carnavalesca que fez enorme sucesso na voz do cantor quando o mesmo a registrou em disco em 1970. “Gelinho (Me Dá Um Gelinho Aí)“, trata-se de uma canção de autoria de Manoel Ferreira e Ruth Amaral:

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RELEMBRANDO… NILTON PAZ

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Intérprete, Nilton em sua primeira gravação estourou no carnaval de 1939

Dando continuidade a preservação da memória de nossa música popular brasileira, hoje trago outro nome que não tenho visto com a notoriedade que merecia. Trata-se do cantor Nilton Paz, que deu início à sua carreira fonográfica no finalzinho da década de 1930, quando aos vinte anos registrou a canção “Pirolito”, uma marcha de autoria do saudoso João de Barro (Braguinha) e do cantor e compositor carioca Alberto Ribeiro. Tal registro fonográfico ocorreu no início de janeiro (bem em cima da folia de momo) e foi lançada praticamente às vésperas do carnaval pela Columbia (disco 55013-A, matriz 120) e mesmo havendo esse lançamento as vésperas do carnaval, a canção acabou tornando-se uma das campeãs da festividade daquele ano. Esse enorme sucesso fez a composição atravessar diversas décadas no gosto popular (tanto que até os dias atuais é lembrada). Um fato curioso sobre essa gravação é a omissão do nome da cantora Emilinha Borba (que à época, aos dezesseis anos, participava dos vocais de gravações distintas em busca de dar início ao ofício que a consagraria nas décadas seguintes).

Outro registro válido é que tal canção foi feita para o longa-metragem musical “Banana da Terra” (produzido por Wallace Downey com roteiro do autor João de Barro e de Mário Lago, além da direção de Ruy Costa). Este filme além de contar com esse grande sucesso registrado por Nilton também traz diversos outros números musicais nas vozes de alguns dos maiores sucessos da época, tais quais Carlos Galhardo, Dircinha e Linda Batista, Alvarenga, Orlando Silva, entre outros. Ainda é válido o registro de que este longa é responsável por uma das mais emblemáticas parcerias de toda a história de nossa música: o encontro entre Dorival Caymmi e Carmen Miranda, que no filme interpreta a canção “O que é que a baiana tem?”, de autoria do mestre baiano e que entrou no longa em substituição a canção “Boneca de piche”, de autoria de Ary Barroso e Luiz Iglesias. Tal composição, mesmo fora do filme, alcançou grande sucesso com Carmem Miranda e Emilinha Borba.

Depois deste arrebatador sucesso como intérprete, Nilton Paz (então com vinte anos), fez ao longo dos anos posteriores diversos outros registros, tais quais “Quem é essa morena?” (Francisco Malfitano e Frazão), “Que rei sou eu” (Herivelto Martins e Waldemar Ressurreição), o hino “Alegria do nosso Brasil”, e as marchas “Meu Barraco” e “Havaiana”. Vale registrar que paralelo à carreira de intérprete, o artista incursionou também pelo cinema, o que o fez acreditar em uma possível carreira internacional (o que acabou fazendo-o optar por mudar-se para os Estados Unidos afim de dar continuidade a este desejo). Apesar da experiência em películas brasileiras (a exemplo do filme “Pif-Paf”) e a tentativa da Metro Goldwyn Mayer em torná-lo ator, a sua carreira no cinema norte-americano não vingou.

Dentre as curiosidades existente nessa incursão de Nilton Paz pelo cinema, há uma história curiosa sobre o intérprete: Desde a gravação de “Pirolito”, o intérprete começou um flerte com a jovem Emilinha Borba. Nos anos seguintes o flerte acabou por tornar-se um “namorico”. Linda, Emilinha acabou por chamar a atenção do diretor de cinema norte-americano Orson Welles, que estava no país para gravar tomadas do filme “It’s All True”. Neste período, o diretor não arredava pé do Cassino da Urca, e apesar de estar mantendo um caso amoroso com Linda Baptista, não deixava de dar diversas investidas na então “namorada” do Nilton, que não gostou nem um pouco dessa situação. Reza o folclore que cantor brasileiro, incomodado com os bilhetes endereçados a Emilinha, interpela o cineasta de 2 metros de altura, que auto denominando-se “Rei do Café”, dizendo-lhe que se ele, Orson Welles, era o “Rei do Café”, então, ele, Nilton Paz era o “Rei das Porradas”. O recado foi muito bem apreendido por Welles pelos relatos da época.

Ficam aqui dois registros do saudoso cantor. A primeira trata-se de “Pirolito”, a sua primeira gravação já citada ao longo do texto:

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Já a segunda vem a ser “Quem ver cara”, uma composição de Francisco Malfitano e Erastótenes Frazão com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto. Assim como a canção anterior, esta também foi lançada em 1939:

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RELEMBRANDO MAURICY MOURA

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Nascido em São Vicente-SP, se vivo o intérprete estaria completando 90 anos em janeiro passado

Hoje estava a passear pelas redes sociais e me deparei com um álbum do saudoso Mauricy Moura, cantor que se vivo estivesse estaria completando nove décadas de existência ao longo deste ano. Então resolvi trazer ao longo deste mês nomes da nossa música que não merecem estar no ostracismo que hoje se encontram. Selecionei, dente tantos, quatro nomes para abordar ao longo deste mês que tiveram seus momentos de ascensão dentro do nosso cancioneiro e hoje infelizmente são lembrados apenas pelos saudosistas como eu, que procuro garimpar materiais e nomes que, de um modo ou de outro, caíram no limbo do esquecimento (característica infelizmente tão constante em nosso país).

Mas, vamos ao que de fato interessa: rememorar a boa música e os grandes intérpretes do nosso país. Como primeiro nome série de saudosos e esquecidos cantores relembro o nome deste intérprete paulista que que começou a carreira participando de distintos programas de rádio (a exemplo do “Programa de Dª. Dindinha Sinhá”, na Rádio Atlântica, de Santos, e teve, ainda na infância, como sua primeira grande incentivadora a própria mãe, que segundo dizem possuía profundos conhecimentos da arte vocal. Essa característica que fazia parte de sua mãe talvez tenha corroborado de modo significativo para que ela estimulasse Mauricy a participar, juntamente ao irmão Maurício, do Conjunto Calunga (Tal grupo, além dos irmãos Moura, era formado por Gentil da Silva, Edésio Resende e Jarina Resende, depois substituídos por Avelino Tomaz e Rachel Tomaz). Foi a partir da experiência neste grupo que profissionalizou-se como solista do conjunto e, posteriormente, começou a apresentar-se em distintos espaços, além de diversos outros programas de rádio.

Sempre orientado por Dona Georgina (sua mãe), o ainda menor Mauricy apresentou-se em locais como o antigo Cassino Ilha Porchat (sob autorização do juiz de menores para abrilhantarem as noitadas) e outros “shows” por esse Brasil afora. Com a dissolução do conjunto, Cicica (como o artista era carinhosamente chamado) ingressou na Rádio Atlântica de Santos. Nesse período tem a oportunidade de ir para São Paulo pelas mãos do “caboclinho do Brasil” Silvio Caldas para fazer parte do “cast” da Rádio Excelsior. Posteriormente vai para a Rádio Record, onde tem a oportunidade de conquistar o famoso troféu “Roquete Pinto” como revelação do ano.

A sua estreia em disco se deu em 1952, pela Sinter, gravando dois sambas-canção: “Maria da Piedade“, de Evaldo Rui, e “Não digas nada“, de David Raw e Victor Simon. Em gravações posteriores teve o acompanhamento de nomes como os dos maestros Lírio Panicalli e Guerra Peixe. Dentre suas façanhas chegou a registrar, como intérprete, canções de autores como Newton Mendonça, Blota Jr, Evaldo Rui, Hervê Cordovil, Vinícius de Moraes, João Pacifico, Adoniran Barbosa, Cyro Monteiro, Edith Piaff e Lupicínio Rodrigues. Foi o responsável pelo primeiro registro em disco do até então desconhecido compositor Antonio Carlos Jobim, assim como também pelo registro de clássicos do nosso cancioneiro como “Meus tempos de criança” e “Chove lá fora“, clássico de Tito Madi dentre os mais de quinze discos que deixou gravados.

Por essas e outras Mauricy Moura acabou tornando-se um dos mais expressivos nomes da noite de sua época e não merece o ostracismo que hoje encontra-se. Não havia dentro da noite paulistana um notívago boêmio que o desconhecesse. Segundo consta em alguns depoimentos, suas apresentações eram marcantes, pois quando soltava a sua voz o silêncio se impunha e o barulho desaparecia. Não era à toa que era considerado por Silvio Caldas, Alfredo Borba, Ciro Monteiro, Elizeth Cardoso, Evaldo Rui, Wilson Batista e outros cultores da nossa música, como o mais completo seresteiro do Brasil.

Mauricy morreu aos 51 anos de idade no Hospital Santa Verônica em São Paulo, a 23 de agosto de 1977. Partiu fora do combinado como costuma dizer o nosso magnânimo Rolando Boldrin, deixando saudosos fãs de suas interpretações e uma indelével marca dentro do cancioneiro popular brasileiro ao longo de quase quatro décadas de carreira. Aproveitando a oportunidade de relembrar esse saudoso intérprete deixo aqui para os amigos leitores duas canções registradas magistralmente pelo saudoso intérprete.

A primeira trata-se de “Meus tempos de criança”, canção da lavra do não menos saudoso Ataulfo Alves. Faz-se vale a divulgação desta gravação por ser do artista, a primeira gravação desta música:

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A segunda canção trata-se de “Somos iguais”, gravação de 1964 (mesmo ano do registro de Altemar Dutra). A canção foi composta por Evaldo Gouveia e Jair Amorim. É válido o registro de que os arranjos, a flauta e o piano são do alquimista sonoro Hermeto Pascoal:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 19

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Dentre as curiosidades abordadas ao longo das últimas postagens estão algumas referentes ao saudoso cantor, instrumentista e compositor Jessé. Na postagem já publicada tive a oportunidade de falar um pouco sobre o início da carreira deste nome que arrebatou milhares de fãs ao longo de sua carreira, principalmente apos participar de um dos festivais musicais promovidos pela Rede Globo, onde de modo singular deu voz a canção “Porto Solidão“. Outra canção citada ao longo da postagem anterior foi “Estrelas de papel“, canção composta para que Jessé participasse de um festival internacional ocorrido nos EUA e de onde o artista voltou aclamado pelo juri como vencedor e, diversas categorias.

Um fato curioso desta participação ocorreu envolvendo o nome do então presidente norte-americano Ronald Reagan, que por acreditar que a letra tratava-se de uma homenagem a ele mandou um telegrama agradecendo ao artista brasileiro. Detalhe: a letra tratava-se de uma homenagem a Charlie Chaplin… e Jessé acabou por esquecer os troféus no aeroporto de Nova York.

Além dessa exitosa composição, o artista acabou por registrar em disco também mais algumas composições de sua lavra como é o caso das canções “Vento forte” (parceria com Onofre), “Cantar“, “Minha cidade“, “Farsante” e “O sorriso ao pé da escada” (outras parcerias com Elifas), “Oração da noite“, uma versão para a canção “Adágio D’Albinoni“, entre outras. Por falar em versão, Jessé é responsável por todas as presentes em seu disco “Ao meu pai”, lançado em 1985 pela RGE e que traz temas religiosos.Vale salientar que aos dez anos de idade o então pequeno Jessé já tocava violão e órgão na Igreja organizada pelo pai acompanhando hinos e louvores, o que de certo modo acabou por facilitar o seu ingresso no contexto da composição.

Antes do estrondoso sucesso com “Porto Solidão“, Jessé foi músico de baile (como costumava se auto definir) e neste período que antecedeu sua carreira solo (durante quase 15 anos) chegou a ter alguns registros fonográficos, dentre eles, alguns ao lado do Placa Luminosa (grupo que ajudou a fundar ainda em Brasília). Um registro dessa época que fez relativo sucesso na época foi a canção “Velho Demais“, cujo compositor é o piauiense Clodô Ferreira, em parceria com o baiano Zeca Bahia (um dos autores de “Porto Solidão“) e fez parte da trilha sonora da novela global “Sem lenço, sem documento”, exibida na emissora carioca entre os anos de 1977 e 1978. Sem contar a sua incursão na música internacional como Tony Stevens e registros como “If you could remember“.

Apesar do reconhecimento do público, Jessé nunca ao longo de sua carreira obteve o merecido reconhecimento da chamada crítica especializada. O descaso da crítica rendeu um texto escrito por Silvio Lancelloti à época de sua apresentação no Teatro da Universidade Católica: “Durante 15 dias, Jessé encheu a plateia do “TUCA”, o Teatro da Universidade Católica, no final de fevereiro, com o primeiro espetáculo de fato em sua carreira. E só o companheiro Zuza Homem de Mello, do “Estadão” e da “Jovem Pan”, lhe deu a merecida atenção“.

Outra queixa exposta na época veio do seu maior parceiro, Elifas Andreatto, o extraordinário artista gráfico que dirigiu a celebração de Jessé: “Eu convidei duas dezenas de jornalistas para assistirem ao show. Ninguém, mas ninguém mesmo, apareceu. Não queriam escrever? Tudo bem? Mas, ao menos, deveriam ter aparecido para ver o que idealizamos e o que fizemos“. E por incrível que pareça ainda hoje essa tal crítica especializada parece ignorar a existência dessa figura que, graças aos ardorosos fãs, não acabou caindo no ocaso.

Deixo para os amigos leitores (assim como ao longo da semana passada), mais duas canções para audição deste singular intérprete. A primeira trata-se de “Voa Liberdade“, canção de autoria de Eunice Barbosa, Mário Maranhão e Mário Marcos:

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A segunda é “If you could remeber“, gravação da época em que Jessé apresentava-se como Tony Stevens. Canção composta sob melodia da Sinfonia da Cantata 156 em fá maior, de Johann Sebastian Bach.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 19

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Nascido em Niterói, o carioca Jessé Florentino Santos foi criado em Brasília, de onde saiu para São Paulo já adulto. No período em que residiu na Capital Federal teve a oportunidade de corroborar com desejo do pai, que tinha a intenção de fundar uma Igreja no local onde moravam. De fato o pai realizou tal desejo ao fundar a Igreja Presbiteriana independente do Cruzeiro, onde Jessé arregaçou as mangas aos nove anos de idade e deu uma de carpinteiro, ajudando além de carregar os instrumentos, construir os primeiros assentos do local. Foi nesta Igreja as suas primeiras incursões no universo musical. No entanto foi a partir do sr. Cesarino, vizinho do pretenso artista, que obteve os seus primeiro aprendizados musicais teóricos.

Jessé, como ficou conhecido nacionalmente a partir dos anos de 1980, começou a sua carreira na década anterior ao seu estrondoso sucesso nacional quando atuava como crooner em boates e casas de eventos de todo o país em grupos como o Corrente de Força e o Placa Luminosa (mesmo grupo que anos mais tarde viria a estourar em todo o território nacional a partir da execução da canção “Fica comigo“). Ainda nos anos de 1970 chegou a gravar em inglês canções como “If You Could Remember” (entre outras) sob o pseudônimo de Tony Stevens. No entanto, apesar de tal registro fonográfico o sucesso e o seu nome de batismo só viria a ser revelado ao grande público em 1980, no Festival MPB Shell da Rede Globo com a música “Porto Solidão” (canção oferecida pelo autor Zeca Bahia a nomes como Gilliard e Fábio Jr., que se negaram a gravar), sem dúvida alguma o seu maior sucesso.

Com esta interpretação, o então concorrente além de ganhar o prêmio de melhor intérprete também teve a oportunidade de lançar, pela RGE, seu primeiro LP de título homônimo ao seu nome e que trazia, além de “Porto Solidão“, faixas como “Voa liberdade” e “Palavra de honra“, de autoria de Accioly Neto. Ao longo dos dois anos posteriores fez dois registros fonográficos que mantiveram o seu nome em evidência em todo o território nacional, até que em 1983 Jessé ganha o XII Festival da Canção Organização realizado em Washington.

O Brasil não tinha representante para o festival, Jessé resolveu por conta própria participar. No entanto para isso precisava de uma canção para levar aos Estados Unidos. Na véspera da viagem, por volta das 21 horas pega o seu irmão e vai para casa dar início a composição. Por volta das 23 horas liga para Elifas Andreato e pede que ele escreva uma letra para a nova composição. Elifas, mesmo acreditando que não daria conta, acaba por escrever uma letra para Jessé e a manda para o intérprete por volta das 02 horas da madrugada. Sete horas depois, às 09 da manhã, Jessé embarca para os EUA para arrebatar o jurado de modo ímpar, o cantor e compositor traz para o Brasil os prêmios de melhor intérprete, melhor canção e melhor arranjo para “Estrelas de Papel“, canção de parceria inusitada entre o próprio intérprete e o artista plástico Elifas Andreato. A dupla ainda foi responsável pela composição da canção “Uma mulher“, também gravada pelo cantor.

De voz muito potente, Jessé sempre chamou a atenção do grande público por interpretações viscerais e emotivas, o que o acabou tornando bastante popular. Dentre seus registros fonográficos estão composições de nomes como Tom Jobim, Wagner Tiso, Chico Buarque, Belchior, Milton Nascimento, Sá e Guarabira, Angela Rô-Rô, Capiba, Fernando Brant, Jonh Lennon, Paul MacCartney, Pablo Milanés, Caetano Veloso, Carlinhos Vergueiro, Guilherme Arantes, Silvio Caldas, Orestes Barbosa entre outros ao longo dos anos em que atuou em palcos de todo o país, assim como também nos 12 discos que deixou como legado, dentre eles os álbuns duplos “O sorriso ao pé da escada” e “Sobre todas as coisas”.

Jessé faleceu após um trágico acidente automobilístico no dia 29 de março de 1993 no município paulista de Ourinhos quando estava a caminho do Paraná, onde iria se apresentar. Acompanhado da esposa (que estava grávida de cinco meses), o artista perdeu o controle do carro e capotou, fazendo com que a esposa perdesse o bebê e também ficasse em estado grave. Transferido para a santa casa municipal. o cantor que no acidente sofreu traumatismo craniano não resistiu e acabou tendo morte cerebral. Após decretada a sua condição, teve o seu corpo transferido para São Paulo afim de atender ao seu último desejo: a doação dos seus órgãos.

Deixo aqui para os amigos leitores duas canções citadas ao longo do texto. A primeira trata-se do estrondoso sucesso “Porto solidão“, gravada por Jessé como dito em seu álbum de estreia em 1980:

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A segunda trata-se “Estrelas de Papel“, canção que trouxe ao cantor e compositor os louros internacionais:

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NOVAS SENSAÇÕES EM MAIS UM VOLUME DA TRILOGIA CAMELÃO

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O músico brasiliense apresenta o segundo volume do projeto “Camaleão”, um disco totalmente autoral que reafirma não apenas o seu talento, mas principalmente o seu compromisso com a música brasileira e suas mais variadas vertentes

Nome de destaque na música instrumental brasiliense Ademir Junior vem alçando vôos cada vez maiores a partir de adjetivos que o fazem destacar-se para além das fronteiras do seu Estado. Empunhando o seu instrumento, Ademir vem ao longo dos últimos anos sedimentando uma carreira coerente e imbuída de verdade, características que o acabam destacando entre os grandes nomes da música instrumental nacional a partir de execuções precisas, inovados arranjos e uma discografia coerente com a sonoridade que acredita e procura divulgar pelos palcos aos quais tem se apresentado ao longo dessas mais de duas décadas de carreira entre a música secular e a música cristã. Seu interesse pela música vem ainda de sua tenra infância, quando ao lado do pai o pequeno Ademir deu início aos seus estudos musicais.

Após esta primeira experiência tem a oportunidade de participar de bandas como a do SESI, a Banda Sinfônica da Escola de Música (onde torna-se solista) e a Orquestra Cristã de Brasília, espaço onde desenvolve de modo mais intenso as suas habilidades musicais e o seu interesse pelos estudos do saxofone, principalmente a partir de sua inserção na UNB aos 18 anos. Com um talento, rapidamente o musicista desenvolvesse métodos e técnicas próprias para a execução do saxofone , fazendo-o destacar-se para além de nossas fronteiras. Um exemplo para esta afirmação se deu recentemente, quando a Europa rendeu-se ao seu talento e Júnior tornou-se o primeiro saxofonista brasileiro de jazz a ser endorser da Selmer (a mais tradicional fábrica de saxofones do mundo) e da Vandoren (fábrica de boquilhas e palhetas). O convite se deu após uma apresentação em um festival em Rouen, na França e um show na Selmer, em Paris.

Hoje, além de mestre na improvisação, o músico também é maestro e exerce a função de educador. Sem contar que desde 2013 vem na elaboração e divulgação de um projeto audacioso cujo título escolheu por nome Camaleão. Tal ideia surgiu em forma de trilogia e o primeiro volume (“Camaleão I”) chegou em 2013, ano em que o músico completou 25 anos de carreira de carreira. Além de comemorar as bodas de prata de Ademir com a música, “Camaleão I” traz como marca aquilo que constituiu a carreira do músico brasiliense desde o início de suas atividades como músico: a capacidade de integrar-se aos diversos gêneros existentes de modo uníssono, não só mesclando de modo harmonioso todas as expressões sonoras que absorve ao seu redor, mas também transformando isto tudo que assimila em algo maior, que busca fugir daquilo que é convencional adicionando peculiaridades bastante pessoais a esta nova expressão sonora que produz.

Nesta trilogia a qual se propõe Ademir, o primeiro volume trouxe nove canções permeadas pelos diversos estilos que estruturam a formação musical do artista, fazendo jus a um título que caiu como uma luva para o projeto a qual se propõe: agregar os diversos ritmos que estruturam e estruturaram a sua formação musical. Agora, dois anos após o pontapé inicial deste projeto, o músico volta ao mercado fonográfico com o segundo de uma trilogia chancelada por características ímpares. Batizado de “Sensações”, este novo álbum do artista brasiliense traz consigo ora características que o assemelha ao projeto anterior, ora novas perspectivas para o futuro deste projeto. Em “Sensações” talvez seja possível acreditar que tal álbum e suas dez canções sejam eixo central dessa trilogia que busca enfatizar as diversas sensações que a música exerce em cada um daqueles que ela atinge. Título mais apropriado para este volume não poderia haver.

Nesse trabalho Ademir Junior demostra todas as suas habilidades e vai além do instrumento que o fez ganhar projeção nacional e internacionalmente. Além de tocar o seu saxofone tenor, o músico executa no álbum clarineta, o seu primeiro instrumento a partir dos diversos gêneros musicais que formam a colcha de retalho sonoro existente em nosso país. Ritmos como o baião, o afoxé, o xote e o maracatu permeiam as canções presentes no disco. Filho de nordestinos, em “Sensações” Ademir busca homenagear suas tradições, a música e cultura da região a partir das 10 novas composições que mostram grande riqueza melódica, harmônica e rítmica. Fruto da vitória o Prêmio Cássia Eller, pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura), “Sensações” traz Ademir como diretor artístico, arranjador e solista executando Sax Tenor, Clarineta e EWI. Além disso, o projeto conta com nomes como Moises Alves (Trompete), Marcos Wander (Trombone), Alex Carvalho (Guitarra), Carlos Pial (Percussão), Hamilton Pinheiro (Baixo Elétrico), Guilherme Santana (Bateria) e Marcelo Corrêa (Piano Elétrico); sem contar as participações especiais de Sidmar Vieira (Trompete), Mario Morejon El Indio (Trompete) e Junior Ferreira (Acordeon).

Apesar de “Sensações” trazer em seu cerne uma predominância rítmica a partir dos gêneros musicais advindos do Nordeste a partir do legado de nomes como Sivuca,Hermeto Pascoal, Luiz Gonzaga e Dominguinhos. O disco mantém, assim como o volume anterior, uma proposta (ou talvez um compromisso assumido de modo inconsciente pelo artista) de trazer como característica principal a possibilidade de juntar ao seu redor os mais distintos gêneros e ritmos. É um produto aglutinador e capaz de se transformar em muitos ao abarcar toda a sonoridade que constitui o artista fazendo jus ao título “Camaleão”. A possibilidade de aglutinar os mais distintos gêneros e mesclar diferentes estilos desvencilhando-se de rótulos e títulos habilitando as mais distintas sensações acaba por também justificar o subtítulo escolhido de modo tão certeiro.

Para o artista a justificativa para o subtítulo é bastante plausível quando diz que “A música é a passagem para o mundo perceptivo da mente, virtual, metafísico ou espiritual, como cada um prefere chamar, e é onde os 5 sentidos aguardam ansiosos suas novas Sensações”. Desse modo, este novo álbum abre novas perspectivas e portas dantes entreabertas para o reconhecimento do artistas como um dos mais promissores talentos de sua geração. É um disco que galga mais um passo para a bem sucedida trilogia proposta pelo músico brasiliense, reforçando de modo substancial a entrada de Ademir Junior para figurar no hall dos grandes nomes da música instrumental brasileira.

Para audição dos amigos leitores duas canções, A primeira trata-se de “Xote candango”:

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Já a segunda trata-se de “Mexidão”. Ambas as canções são de autoria do artista apresentado:

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OLORÓ!

NANÁ

Vítima de um câncer de pulmão, morre Naná Vasconcelos, ganhador de oito Grammys e considerado um dos maiores percussionistas do mundo

Em yorubá, oloró tem por significado festa. Contexto este que acredito fazer parte da chegada de Naná Vasconcelos hoje em outras pairagens. Não acredito que haja outra situação para receber um artista da grandeza de Naná. Feliz foi Gabriel, o pensador ao saber do falecimento deste músico irrepreensível: “Não vou estranhar se os trovões, os ventos e as chuvas passarem a soar bem melhor, em combinações inusitadas de ritmos, depois da chegada do mestre Naná Vasconcelos ao céu”. Senhor de todos os ritmos neste planeta, Naná resolveu assumir as percussões celestiais não sem antes deixar como legado para os que aqui ficam uma carreira pontuada por amizades sonoras em todos os cantos do planeta desde que deu início a sua carreira ainda na década de 1960.

Mesmo rodando todos os cantos do planeta o músico pernambucano foi um dos mais fiéis seguidores da máxima de Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Nascido em Recife, Juvenal de Holanda Vasconcelos ganhou o apelido de Naná dado pela avó em reverência a Nanã, que no candomblé é a mãe dos orixá. Desde criança convivia com instrumentos em casa devido ao pai, que tocava violão e o introduziu no contexto musical no início da adolescência. Por volta dos doze anos Naná já atuava tocando bongô e maracas em grupos musicais. Um pouco mais velho chegou a tocar bateria em alguns cabarés e ser percussionista da banda municipal de sua terra natal. Logo em seguida, por volta de 1967, seguiu para o Rio de Janeiro objetivando seguir carreira artística. Na “cidade maravilhosa” gravou dois LPs com Milton Nascimento e, no ano seguinte, junto com Geraldo Azevedo, viajou para São Paulo para participar do Quarteto Livre, que acompanhou Geraldo Vandré no III Festival Internacional da Canção. De volta ao Rio de Janeiro, formou o Trio do Bagaço, com Nélson Angelo e Maurício Maestro, apresentando-se, com o grupo, no México, a convite de Luis Eça. Vem desse período a sua escolha pela percussão e, em especial, pelo berimbau.

Atuou na trilha sonora de “Pindorama”, filme de Arnaldo Jabor. Nessa época, conheceu Gato Barbieri, com quem viajou para Nova York (EUA) para a gravação de um disco. Nos Estados Unidos tem a oportunidade de mostrar todo o seu talento a partir da participação em diversos festivais de jazz, e atuar ao lado de alguns dos maiores nomes da música internacional da época. Cidadão do mundo, Naná apresentou-se em países como França, Suíça, Escócia, Polônia, Alemanha entre outros países do continente Europeu muitas vezes ao lado do Quarteto Iansã. Na África foi buscar inspirações através de pesquisas que resultaram em seu primeiro LP intitulado “Africadeus”. Ainda na Europa, compôs a trilha sonora de uma novela para a televisão francesa com temas brasileiros. Em Portugal gravou um disco no dialeto angolano quimbundo.

Em 1972, retorna ao Brasil e apresentou, no Teatro Fonte da Saudade. Nessa apresentação, interpretou o repertório de seu disco “Africadeus” e uma bachiana de Villa-Lobos, regendo um coral e atuando como único músico do show. No ano seguinte, gravou seu segundo LP, “Amazonas”, lançado pela Philips, mesclando o ritmo brasileiro ao folclore africano.

Em seus projetos soma-se parcerias com nomes como Egberto Gismonti (com quem trabalhou durante oito anos e gravou os discos “Dança das cabeças” e “Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos & Walter Smetak”), Pat Metheny, Gilberto Gil, B.B. King e Paul Simon. Sua discografia é composta por títulos como “Fragmentos”, “Minha Loa”, “Dança das cabeças”, “Saudades”, “Isso vai dar repercussão” (em parceria com o não menos saudoso Itamar Assumpção), “Visions of Dawn” (Ao lado de Joyce e Mauricio Maestro), entre outros. Seu últimos trabalhos fonográficos foram os álbuns 4 elementos (solo) e Café no bule (parceria com Zeca Baleiro e Paulo Lepetit).

Ganhador de oito grammys, a simplicidade de Naná paradoxalmente o fez um gigante no exercício do seu ofício, um mestre que deixa como legado lições percussivas e aprendizados também como ser humano. Para mim, além de todos esses adjetivos a ele atribuídos ao longo do dia, soma-se o modo polido como ele sempre procurou tratar a todos, a simplicidade a o sorriso cativante que mesmo após o diagnóstico do câncer não o abandonou. Responsável durante 15 anos pela abertura oficial do carnaval de Pernambuco, e a frente de projetos como o “Voz nagô”, “língua mãe”, o “ABC musical” e o “Flor do Mangue”; Naná deixa hoje uma lacuna impreenchível na música global.

Ọdàbó, Naná! Adupé!


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PORCELANA, ARQUÉTIPO DE DELICADEZA, TÉCNICA E BOM GOSTO

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Em disco que celebra um profícuo encontro musical, Alaíde Costa e Gonzaga Leal debruçam-se, de modo atemporal, sobre a música brasileira, fazendo também incursões na música contemporânea portuguesa

Não é de hoje que esta dupla vem encantando a distintos públicos, em especial o público pernambucano a partir de apresentações tanto na capital quanto em cidades do interior do Estado. Em uma época regida por características que prezam o imediatismo, em uma sociedade cada vez mais avassaladora no sentido mais pejorativo da palavra, esse encontro musical entre Alaíde Costa e Gonzaga Leal chega primeiramente como um afronto a esses tempos modernos e posteriormente um como alento para os ouvidos mais apurados.

É uma contenda entre o apuro estético e o atual mercado fonográfico. Uma contenda onde a coerência, adjetivo que pauta a carreira desses dois artistas há décadas, dificultosamente vence todos os estorvos existentes a partir de um seleto repertório, interpretações impecáveis, uma sonoridade construída de modo cativante a partir de gabaritados músicos e melodias que por suas respectivas qualidades corroboram para tudo isto. Amizade construída por afinidades, a dupla vem desde dividindo vocais desde o convite feito por Leal à artista carioca em 2006 para participar do álbum “E O Nosso Mínimo… É Prazer” para interpretar a faixa “Meiga presença”, de autoria da dupla Paulo Valdez e Otávio de Moraes.

Desse encontro, anos depois surgiu o espetáculo que daria origem a este álbum que trata-se não apenas de uma celebração por quase uma década de encontros musicais, mas principalmente de um presente de aniversário do artista pernambucano a esta artista considerada a dama da canção brasileira (título mais que merecido a esta mulher que traz a sua história intrinsecamente ligada à música popular brasileira ao longo dos últimos sessenta anos) pelos seus oitenta anos.

Pernambucano da cidade de Serra Talhada, Gonzaga Leal vem nas últimas quatro décadas escrevendo a sua história na cena teatral e musical do estado a partir de projetos diversos que abrangem espetáculos musicais como “Quando a dor não tem razão”, o recital “Aparição”, o espetáculo “Gonzaga Leal canta Heitor Villa-Lobos e declama Manuel Bandeira”, sem contar os álbuns “Minha adoração: um tributo a Nelson Ferreira”, “Gonzaga Leal cantando Capiba… e sentirás meu cuidado” entre outros títulos que reiteram o compromisso intuitivamente assumido pelo artista em manter-se fiel as suas escolhas. Essa fidelidade expressasse de modo visceral e singular em cada disco que apresenta, pois é possível afirmar que sua discografia é constituída por um mosaico do seu universo particular. Em seu mais recente projeto solo, o próprio título afirma isso, não é aà toa que o disco chama-se “De mim”.

Já Alaíde Costa nasceu no Méier, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Suas pretensões artísticas revelaram-se ainda na infância quando participou de diversos programas de rádio existentes na época. Sua estreia como cantora foi em um circo, logo em seguida, aos 13 anos, venceu um concurso de melhor cantora jovem interpretando a canção “Confesso”, composição que na época fazia parte do repertório da cantora Linda Batista. O concurso promovido por Paulo Gracindo, no seu programa Sequência G3, da Tupi, do Rio de Janeiro, foi o pontapé inicial para uma série de notas máximas conquistadas em quase todos os programas de calouros aos quais apresentava. Apesar disso, Alaíde não possuía a voz que predominava nos estúdios de gravações na época. Seu canto suave e afinado não tinha vez diante da potência vocal de muitas contemporâneas suas e isso, por conseguinte, acabou prejudicando a sua inserção no mercado fonográfico de imediato. No entanto, pouco tempo depois conhece João Gilberto e por conseguinte acaba conhecendo a grande maioria dos artistas que iriam protagonizar o movimento da Bossa Nova, dentre eles Oscar Castro Neves que a apresenta a Vinicius de Moraes e este ao ascendente Tom Jobim, construindo a partir daí uma sólida e coerente musical nos últimos cinquenta anos.

Gravado entre o primeiro semestre e o início do segundo semestre deste ano no estúdio Muzak, “Porcelana” contou com um time de primeira linha da música pernambucana nesta celebração. Encabeçando os arranjos os talentosíssimos Maurício Cezar e Marcos FM. Ambos arranjadores também participam do disco como instrumentista. De um lado, Maurício fica responsável pela execução dos pianos; enquanto FM pelos baixos. Outros nomes que corroboraram de modo imprescindível para a bela tecitura sonora e para que o álbum tivesse um refinado acabamento foram os percussionistas Sérgio Cassiano, George Rocha e Tomás Melo, os contrabaixistas Cacá Barreto e Marcos FM, o bandolinista Rafael Marques, o acordeonista Julio Cesar, o maestro e violonista Claudio Moura, o músico Adilson Bandeira (sax-tenor, clarinete e clarone), o violoncelista Fabiano Menezes, o baterista Ebel Perrelli, o Guitarrista Breno Lira, o piano de Kelsen Gomes, a Orquestra Quebra-Mar e o trompete de Flávio Oliveira.

Assim se faz “Porcelana”, uma espécie de arquétipo de delicadeza, técnica e bom gosto. Falo dessa definição enquanto presente porque a cada nova audição das faixas existentes tem-se a impressão de novas descobertas e, por conseguinte, novas e parciais sensações neste disco que exerce uma espécie de magnetismo qdo início ao fim a partir de interpretações impecáveis de ambos. Um produto que traduz a perfeita sincronia entre dois talentos que apesar das peculiaridades de cada fazem-se uníssono a partir de um repertório que abrange nomes como o do cantor, compositor, multi-instrumentista e ator Sérgio Pererê (“Oiá”), canções de domínio público como “Omi Imalé”, fados como “Meu amor abre a janela” (composto pelo saudoso músico Armando Machado que ganha letra do escritor e poeta português Tiago Torres da Silva), e nomes como Capiba (“Quando se vai um amor”), Alceu Valença (“Solidão”), Moisés Santana (“Porcelana”), Zé Miguel Wisnik e Swami Jr. (“Fim do ano”), João Cavalcanti (“Frevo do contra-êxodo” e “Em tempo”), Caetano Veloso e Orlando Morais (“Divinamente nua, a lua”), Socorro Lira (que assina “Delicado” e traz em parceria com Consuelo de Paula a composição “Água doce no mar”), Zeca Afonso (“O meu menino é d’ouro”) e a dupla Rubens Nogueira e Luiz Salgado (que assinam “Bem-me-quer”, parceria que conta também novamente com o nome de Consuelo de Paula).

De um lado, um Gonzaga Leal em sua melhor forma a partir de verdadeiras e viscerais interpretações; Do outro Alaíde Costa, uma artista que dispensa maiores apresentações, e que vai chegando as oito décadas de vida trazendo consigo uma coerência sonora que ainda a permite a alcunha de diva quase seis décadas depois do seu primeiro registro fonográfico. Trata-se de uma perfeita simbiose iniciada nos palcos pernambucanos e que agora eterniza-se em um disco também caracterizado pela refinada produção, tal qual a variedade de cerâmica homônima ao título do projeto.

Para os amigos leitores deixo a canção que abre o disco, um medley que une duas canções: a primeira é uma composição de Sérgio Pererê cujo título é “Oiá” (Cantiga de Sansanhe); já a segunda é “Omi Imalé“, canção de domínio público.

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MÁRCIO CELLI – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Músico faz show hoje no Renascença

Em seu terceiro projeto fonográfico intitulado “Da minha janela”, Márcio Celli extravasa o seu lado autoral abarcando os mais distintos gêneros musicais brasileiros

Depois de dois excelentes projetos fonográficos, Márcio Celli atualmente vem divulgando o seu mais recente álbum, cujo título faz uma alusão ao seu universo particular. Composto por doze canções, álbum “Da minha janela” traz entre parcerias e composições de sua lavra sambas, ijexás, bossas dentre outras sonoridades que formam este singular amálgama sonoro que apresenta-se com características que sobrepuja o convencional o credenciando à conquista de um merecido espaço dentro do cenário musical brasileiro com o devido merecimento como pudemos conferir aqui ao longo do último mês através da pauta “UMA JANELA DE VISÃO AMPLA E IRRESTRITA”. Hoje o cantor e compositor volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo para falar um pouco sobre sua carreira fonográfica, projetos a ser concretizados ao longo de 2015, suas reminiscências musicais, a sua relação com a cantora e compositora Rosa Passos entre outros temas. Excelente leitura!

Você poderia falar um pouquinho de suas reminiscências? Qual a lembrança mais remota do seu envolvimento com a música?

MC – Minha família sempre gostou muito de música e meu irmão, Luciano Celli, garimpava o que havia de melhor na MPB. Por isso posso dizer que a lembrança mais remota do meu envolvimento com a música é a de escutar tudo que o meu irmão ouvia. Tive algumas tentativas frustradas de formar bandas na adolescência e também de estudar violão. Cantava em festividades escolares, em grupos de jovens da Igreja Católica, etc. Nunca tive dúvidas de que queria ser cantor e algumas coisas fiz bem cedo. Aos 14 anos de idade iniciei os estudos de técnica vocal com a mestra Déa Mancuso. Com 16, fiz a carteira da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil). Com 18 gravei a primeira canção e já estava no palco.

Em alguns aspectos pode-se dizer que a música gaúcha acaba-se por tornar-se notória por apresentar uma sonoridade bastante peculiar, pautada no nativismo e no tradicionalismo platino e você chega com uma música que acaba por quebrar alguns preceitos sobre essas características a partir de bossas, sambas e ijexás presentes no álbum. Essa escolha é proposital?

MC – Não é uma escolha, é a minha essência. Nunca fiz parte do tradicionalismo gaúcho. A música nativista tem o seu belo e suas peculiaridades, é verdade, mas desconheço até o vocabulário. Sou nascido e criado em Porto Alegre, sempre fui urbano e minha ligação com a música tradicional se dava, no máximo, em visitas a Santana do Livramento, cidade do interior do Estado do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, onde passava as férias escolares na casa de minha avó materna. Sou gaúcho, mas acima de tudo Brasileiro, assim como a minha música.

“Um novo tom”, seu primeiro disco, já traz características que pautam a sua carreira até os dias atuais: a qualidade na escolha do repertório e a questão do não vinculo a gravadora alguma. Você acredita que no mercado fonográfico atual essa dualidade presente em seu primeiro projeto encontra-se ainda mais evidente?

MC – Somos dependentes de muitas coisas mesmo estando fora de uma gravadora. Meu segundo álbum, “Márcio Celli canta Adriana Calcanhotto” saiu através de uma, mas tive liberdade para fazer o disco da maneira que eu queria, assim como o terceiro e mais recente “Da Minha Janela”, que teve o financiamento do FUMPROARTE através da Secretaria Municipal da Cultura/Prefeitura de Porto Alegre. Tudo mudou muito até aqui e mudará cada vez mais. Ainda estamos garimpando novos caminhos, novas possibilidades para este “ser independente”. Fazer parte da estrutura que uma gravadora pode proporcionar é sempre bem-vindo para uma boa divulgação do trabalho. Mas isso tudo só vale a pena se existir liberdade artística e esta liberdade ainda é o prós maior de ser um artista independente.

Em “Márcio Celli canta Adriana Calcanhotto”, você trouxe duas canções inéditas da lavra da artista. Como se deu a ideia deste projeto?

MC – O projeto saiu dos palcos para o CD homônimo. O show rolou por mais de três anos antes de virar disco e teve Direção Cênica de Morgada Cunha, bailarina, coreógrafa , conhecedora íntima da obra de sua filha Adriana e uma das maiores incentivadoras para que este projeto fosse gravado. Eu e Adriana nos conhecemos há muito tempo, fizemos aulas de canto com a mesma professora. Na época eu ainda era adolescente e queria gravar a primeira música para mandar para as rádios locais. Adriana, residindo em Porto Alegre e ainda não conhecida do grande público, me mostrou várias de suas canções. Apaixonei-me imediatamente por todas e escolhi “Enguiço”, que veio a ser título do primeiro disco gravado por ela dois anos depois. Fui o primeiro cantor a gravar Adriana Calcanhotto. Tenho muita coisa inédita daquela época. Até hoje quando vou cantar alguma dessas canções, preciso avisá-la imediatamente, pois algumas, ela nem lembra que fez (risos). Com o samba “Viu?” foi exatamente assim e “Tardes” foi indicação da própria Adriana.

Conte-nos um pouco acerca da recepção da Adriana em relação a esta homenagem.

MC – Não é exatamente um disco de homenagem, a Adriana nem gosta desse tipo de coisa. É um disco de um interprete gaúcho cantando uma compositora gaúcha e que em minha opinião é uma das maiores compositoras brasileiras. Ela já tinha conhecimento do projeto desde o show e gostou do resultado do disco também, inclusive assinou a contracapa.

No álbum Da Minha Janela é possível ver que há os mais distintos parceiros nas diversas faixas existentes. Como se dá o seu processo de composição em parceria?

MC – Normalmente faço o poema. Ele vem inteiro e intuitivamente com o endereço certo do parceiro. Claro que sempre penso em colegas com quem me identifico musicalmente e creio que esta energia seja fundamental para que a canção nasça. Por vezes, parceiros me mandam a melodia e eu faço o poema, criando assim o processo inverso ao qual estou acostumado.

E solo? Existe algum rito ou metodologia a seguir na hora de compor?

MC – Quando faço letra e música costumo dizer que é total ligação com o espiritual, principalmente por eu não tocar um instrumento e a canção chegar pronta. Gravo imediatamente no celular para não esquecer. Acho ótimas todas às formas de composição que tem acontecido comigo e só posso garantir que a inspiração vem de “lá” para cá. Por isso agradeço sempre aos Deuses da música.

Você vinha de projetos que apesar de pinceladas autorais geralmente atuava também como intérprete de outros compositores, agora neste álbum você vem com a sua música e ideias de modo pleno. Por que só agora dar vazão total ao lado autoral?

MC – Passei por um processo de maturação. Ser intérprete dos melhores compositores da música brasileira nos torna, no mínimo, exigentes e até que nos coloquemos no mesmo setlist do show, leva algum tempo. Mas eu amo interpretar e costumo dizer que o intérprete veio primeiro e que ele é primordial para o compositor.

Rosa Passos hoje não cansa de elogiar o seu trabalho e considera-se (como já tornou público em uma de suas apresentações) sua madrinha artística. Como se deu a sua aproximação com a cantora baiana?

MC – Rosinha foi um dos melhores presentes que a vida me deu. Sou fã incondicional do seu trabalho e tento seguir seus “Passos” a risca. Tive contato com Rosa através do radialista Robson Ribeiro, que assim como ela, reside em Brasília-DF. Desde então esta “Madrinha” amada e dona de uma generosidade sem tamanho, não só assinou a contracapa do meu mais recente trabalho, “Da Minha Janela”, como divulgou o CD em Rádios Europeias e, como se não bastasse, me elegeu seu “Afilhado” musical. Eu amo Rosa Passos.

O que podemos esperar do Márcio neste ano de 2016?

MC – Continuo divulgando o CD “Da Minha Janela” com novas canções autorais inseridas no roteiro. Tenho algumas apresentações aqui em Porto Alegre, uma delas o show “De Bossa em Samba”, projeto que tenho ao lado de um dos meus mais assíduos parceiros de composição, Roberto Haag. No final de maio estarei em São Paulo para algumas apresentações em alguns SESCs e outros projetos. Minha produtora (Ge Zaffani – Solo Cultural) reside em São Paulo, assim como os músicos Marcos Davi e Cau Karan, violonistas, amigos especiais que me acompanham sempre nessas temporadas, o que facilita muito o meu acesso ao centro do País. Fui convidado pelo carioca Reginaldo Mil para participar do CD “Pelo Verde Contra o Câncer”. Um lindo projeto eco beneficente, coordenado pelo Grupo Música Verde. 15 músicas cantadas e tocadas por importantes artistas da MPB farão parte deste trabalho. (Jane Duboc, Vânia Bastos, Roberto Menescal, Lucinha Lins, Victor Biglione, Zé Canuto, Toninho Ferragutti, Marcos Davi, etc.) Gravei a canção chamada “Grandheza”, que estará no CD. Quero muito poder mostrar o meu trabalho nas mais diferentes cidades. Levar a música brasileira para ouvidos atentos e abertos ao novo. Este ano terei a honra de dividir o palco com Rosa Passos, em São Paulo, a data ainda será divulgada.


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UMA JANELA DE VISÃO AMPLA E IRRESTRITA

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Márcio Celli mostra a visão sonora que tem do mundo a partir de ângulo bastante particular

O autor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe deixou como legado entre contos e poesias algumas antológicas frases, dentre elas, uma que dizia que os olhos são as janelas para a alma. Frase mais que adequada para justificar o o título deste terceiro projeto fonográfico do cantor, compositor e radialista Márcio Celli, dando-o uma conotação bastante especial. Visto como um promissor talento da música gaúcha, Celli tem-se destacado além das fronteiras gaúchas com trabalhos carregados de verdade e sensibilidade. Aluno de Déa Mancuso (mestra em técnica vocal e professora de vários nomes da música gaúcha, entre eles Adriana Calcanhotto, Flora Almeida e Muni), o artista teve sua estreias nos palcos na década de 1990 no show “Bem Agosto”, no palco do Porto de Elis ,em Porto Alegre; chegando a gravar com as cantoras Glória Oliveira e Flora Almeida, canções que tiveram radiodifusão em várias emissoras do Estado Gaúcho. Posteriormente migrou para São Paulo onde teve a oportunidade de apresentar-se na noite em espaços como o Bar Armazém, Ilha Porchat, Olympia entre outros até vir, em outubro de 1998, o seu primeiro álbum. Depois do álbum “Um novo tom”, lançado de modo independente em 1998 onde interpreta nomes como Gilberto Gil e Marina Lima, e do projeto “Márcio Celli canta Adriana Calcanhotto”, onde o gaúcho faz uma releitura do dez canções da lavra da cantora e compositora conterrânea sua, sendo duas destas inéditas: Viu? e Tardes. Com apresentação da própria Adriana Calcanhotto o disco percorreu estados como Ceará, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins sempre respaldados em elogiosas críticas da crítica especializada e grande aceitação do público ávido por músicas que prezam pela qualidade e bom gosto.

Agora, depois de alguns anos deste o conceituado lançamento em homenagem a umas compositoras de maior destaque na música nacional contemporânea, o cantor apresenta, sob financiamento do Fumproarte (Secretaria Municipal da Cultura/Prefeitura de Porto Alegre), o álbum “Da minha janela”, um disco onde tem a oportunidade de extravasar de modo pleno o seu lado autoral em parceria com alguns nomes que permeiam o universo sonoro do artista. Trata-se de um projeto que traz em seu cerne a preocupação de apresentar ao público uma sonoridade pautada na qualidade sonora que faz da música brasileira uma referência em todo o mundo. Sofisticada, a sonoridade essencialmente nacional presente no álbum a partir de gêneros como sambas, bossas, baladas entre outras ganha destaque maior a partir das interpretações docemente afinadas de Celli. O álbum é composto por doze canções, dentre elas “Samba de novo” e “Nem tô”, parcerias com o músico paulista Sonekka. A segunda trata-se de uma despojada canção onde o intérprete esnoba a amada enquanto a primeira enaltece a seu modo um dos gêneros musicais mais populares existentes no país. O samba ainda ganha vez em “Sambamba” (canção em parceria com Danny Calixto) e “Samba assim” (escrita a quatro mãos com Monica Tomasi). O disco ainda conta com parcerias com nomes como Bebeto Alves (“Janela (da minha janela)”), Patrícia Mello (“Avenida vazia”), Zé Caradípia (“Por querer mais”) e Roberto Haag (“Quieto”). Da lavra exclusiva de Márcio Celli, o álbum apresenta quatro canções: são elas “Canção para dois”, “Mãe do vento”, “Uma bossa” e o Ijexá “Recado pra Oxum”, apresentando deste modo toda a versatilidade deste ascendente artista.

Gravado no estúdio Transcendental audio em Porto Alegre, a ficha técnica deste mais recente trabalho do cantor e compositor gaúcho é constituída por músicos como o dos instrumentistas Jefferson Marx (Violões, produção musical e arranjos), Edu Martins (baixo elétrico), Luiz Mauro Filho (teclado), Giovanni Berti (percussões), Marquinhos Fê (bateria), Amauri Iablonovski (flautas), Milene Aliverti (violoncelo), Rafael Ferrari (bandolim) e Matheus Kleber (acordeon). Quem complementa a ficha técnica deste projeto fonográfico são nomes como Leo Bracht (pós-produção, gravação e mixagem), Gerson Roldo e Fernando Antunes (fotografias), Carlos Freita (masterização) e Rosana Silveira (criação gráfica). Sem contar Luciano Celi na produção executiva entre outros nomes não citados que contribuíram de algum modo para constituir toda a beleza sonora presente em “Da minha janela”, além, é claro, da “chama poderosa dos vencedores” que segundo Calcanhotto acompanha o artista em questão ao longo de sua coesa carreira.

Talvez aconteça de modo inconsciente, mas o bojo do trabalho do que é produzido por Márcio parece fugir daquela tradicional musicalidade existente em seu estado. No entanto em hipótese alguma a sonoridade produzida pelo artista perde em qualidade. Pelo contrário, aquilo que aparenta ser uma fuga é na verdade a aglutinação dos mais distintos gêneros e ritmos que compõem a música popular brasileira como um todo e não apenas da tradicional música existente no Rio Grande do Sul. Assim, aglutinando outras influências e abarcando gêneros e ritmos plenos e verdadeiramente brasileiros, pode-se afirmar que o cantor e compositor gaúcho acaba formando uma identidade sonora bastante própria e contemporânea, ganhando um um vigor especial ao deixar transparecer uma proposta musical de beleza vanguardista que abarca as mais distintas influências em uma unidade maior. E esta macro sonoridade existente na música produzida por Celli acaba o credenciando à conquista de um merecido espaço dentro do cenário musical brasileiro como ele vem galgando ao longo destes últimos anos. A admiração, o reconhecimento e o respeito de grandes nomes que fazem da música popular brasileira ele já possui. A exemplo pode-se citar a instrumentista, cantor e compositora Rosa Passos, que o considera afilhado musical e que costuma definir o timbre do artista como bálsamo aos ouvidos ao afirmar que “Márcio Celli tem uma voz leve, feliz e que acaricia os ouvidos de quem a escuta.” Outra cantora que declara-se fã do trabalho do gaúcho é a própria Adriana Calcanhotto, que dentre os diversos elogios registrados preconiza acompanharmos a carreira do cantor: “É assim o Márcio, e nós ainda vamos ouvir falar muito a respeito.”


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CLAUDIA AMORIM – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Em descontraído bate-papo a cantora e compositora carioca revela-nos peculiaridades sobre sua carreira, dentre as quais a participação dos músicos Luis Cláudio Ramos e do saudoso Perinho Santana

Certa vez o Mario Quintana escreveu: “O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar. Quem a encontra salva-se a si mesmo”. E o que falar quando através de uma talentosa intérprete a música contextualiza-se sem tirar nem por ao poema do grande literato gaúcho? Pois bem, talvez não seja necessário falar, mas ouvir e captar a mensagem trazida por esta artista nascida no Rio de Janeiro e que já conta com três álbuns em sua coesa carreira musical. Assim como o poema de Quintana, “Sede”, terceiro e mais recente álbum de Claudia Amorim, deixa de modo subentendido transparecer essa ideia. De modo análogo a imagem de uma garrafa próxima ao mar no projeto gráfico do disco é a maior tradução dessa afirmação além de outras características como pode-se conferir aqui mesmo em nosso espaço através da pauta “CLÁUDIA AMORIM SACIA SUA SEDE EM PROFÍCUAS FONTES”. Hoje a artista volta ao nosso espaço para uma informal e descontraída conversa onde aborda, dentre diversos assuntos, a sua parceria com nomes como Luiz Claudio Ramos, Danilo Caymmi e Perinho Santana; a participação de sua filha, a sua atuação como produtora entre outros assuntos. Excelente leitura para quem a mensagem trazida pela artista.

Você iniciou a sua carreira ainda bastante jovem ao participar de dublagens e outros eventos mais voltados para a área da publicidade e da propaganda. A ideia de seguir carreira como cantora surgiu a partir desses projetos ou você viu a partir deles a oportunidade de ascensão dentro do contexto ao qual queria alcançar, que era a ser cantora?

Claudia Amorim – Não partiu dessa experiência como vocalista não. Eu decidi que queria cantar aos 10 anos. Meu primeiro trabalho com dublagem foi aos 11 ou 12 não me lembro bem e com publicidade aos 13. Mas era muito tímida, tinha vergonha de cantar sozinha, então só participava de coros. Mais tarde fiz parte de um Quinteto Vocal chamado Cor e Canto, cantamos profissionalmente por 6 anos. Foi com este grupo que trabalhei com Tavito, Sandra de Sá e num disco da Leila Pinheiro. O Cor e Canto era o vocal deles. Até que um dia, o Danilo Caymmi e o produtor Mairton Bahia ouviram uma gravação minha e disseram que eu tinha um timbre de voz muito peculiar, que minha voz era muito bonita, com um vibrato delicado e uma dinâmica muito legal, que eu devia ser solista. Que eu devia cantar sozinha até porque cantar em grupo é muito complicado em termos de administração de carreira, de desavenças e coisas e tal. Resolvi tentar e parti pra carreira solo. Tinha amadurecido não o suficiente, que cantor se faz no palco, mas achava que estava na hora e fui. Danilo me deu 2 músicas de presente pra gravar, um delas entrou no meu primeiro cd, e fez comigo meu show de estreia. Devo a ele muito, sou muito grata.

Antes de sua carreira solo você atuou durante alguns anos como back vocal de alguns nomes da MPB. Como surgiu essa oportunidade?

CA – A nata da MPB frenquentava o Bar que o Cor e Canto cantava. Naquela época ( eu cantei dos 17 aos 22 com o grupo) a noite do Rio era muito agitada, havia um grande investimento em bares com música ao vivo e o Club 1, onde a gente cantava, era point de todos os artistas. As pessoas iam la, ouviam a gente e chamava pra ser coro deles. Foi assim com Tavito e com a Sandra de Sa. Tavito na época levou a gente pra gravar um mundo de anúncios pra radio e Tv e foi ele quem botou a gente no coro da música Anima no cd Alma de Leila Pinheiro. Ficou a coisa mais linda do mundo.

Qual foi o momento em que você decidiu que era hora de abandonar a segunda voz e partir para a carreira solo?

CA – Houve algum acontecimento específico? Momento de vida mesmo, amadurecimento natural do canto e a intervenção do Danilo Caymmi como falei na resposta um. Queria mais liberdade de trabalho artístico também, escolher o próprio rumo da minha vida como cantora.

Em seu primeiro disco (“Dia branco”) você assina uma versão de uma canção do Cantor e compositor espanhol Pedro Guerra. De lá para cá não há em seus discos mais nenhum registro de canções e/ou versões de sua lavra. Há alguma razão específica para isso?

CA – Ainda não sinto que seja o momento de compor, ainda não despertou em mim essa veia. Mas vai acontecer, já estou sentindo que vai. De toda forma tenho tanta admiração pelos compositores que nós temos que gosto da ideia de ficar anos escolhendo repertorio pra gravar. Meu caminho na música não é compor é cantar. Composição seria algo bem secundário. No momento não to me preocupando com isso. Na época do Pedro Guerra, eu estava indo a Espanha com muita frequência e ouvindo muitos artistas de la. Amei o trabalho do Pedro e queria gravar mas não em espanhol então pensei: ” porque não fazer uma versão?” Pedi ajuda pra uma amiga poetisa, Ivana Barreto, e fizemos juntas a letra que foi aprovada por ele. Foi uma experiencia ótima que me aproximou de Pedro Guerra de quem gosto muito.

“Sede”, seu mais recente trabalho, apresenta característica que o assemelha, em dado momento, aos seus discos anteriores. Seja a partir da escolha de um excelente repertório ou até mesmo por conta de sua sonoridade, que perpassa pelas mais diversas regiões do país. É mais ou menos por aí a proposta do disco?

CA – É sim, mas a grande força sonora vem do Rio e Nordeste, os ritmos afro-nordestinos e a música carioca, em especial o universo Buarquiano e tudo que o influenciou que me influencia também. O som e a cultura do nordeste já estavam em mim desde que nasci, sou neta de baiana, e amo o nordeste. A música e os artistas de lá sã muito criativos, cheios de ritmos e letras em geral com um toque de sofrimento por ser mesmo uma região mais carente e sofrida. Mas o povo nordestino é forte, trabalhador, lutador e eu adoro. Alem disso, o SEDE é o resultado dos meus últimos 5 ou 6 anos de shows e gravações e do meu trabalho com o trio eu + Perinho Santana + Renato Piau, dois nordestinos que trouxeram qualidade e influencias de la pra mim. Agora somos dupla, Perinho faleceu em 2012 logo após o lançamento do cd que ele produziu com tanto esmero e cuidado. Mas minha parceria com Renato Piau cresce a cada trabalho, a cada projeto, temos muita identidade artística.

Este projeto traz, entre as inúmeras características a participação de sua filha em uma das faixas presentes no disco. Este já seria o primeiro sinal de um possível encaminhamento para a vida artística?

CA – Hahahahaha, seria. Ela canta muito bem, tem uma voz linda, senta no piano e toca sem ter tido nenhum estudo, mas acho que ela não vai seguir essa carreira não. Muita luta, muita dificuldade, muita frustração. Tem que ser muito carne de pescoço. Ate o momento ela segue a parte administrativa ligada à cultura. Cursa Administração com foco em Entretenimento na ESPM e trabalha numa rádio de ponta aqui do Rio. Temos uma empresa de produção cultural que gerencia minha carreira e outros projetos chamada Rit’me Produções Artísticas juntas. Descobri que adoro produzir.

Este disco conta com dois arranjadores, e um deles é o Perinho Santana. Pouco tempo depois do lançamento do disco o Perinho veio a falecer. Qual a marca maior (ou aquela característica que você acha mais perceptível) deixada por ele neste que foi um dos seus últimos projetos?

CA – As maiores características de Perinho são o extremo bom gosto nos arranjos, nas soluções que ele arruma pra musica, a guitarra maravilhosa que ele tocava e o suingue. Perinho era o rei do suingue. Fez esse cd com muito empenho, carinho e esmero, pensando na parte artística e na parte comercial sem perder o bom gosto. Como a gente já trabalhava juntos ha muitos anos, ele conhecia bem o meu jeito de cantar, a minha proposta como artista, o que eu queria dizer nas letras e no projeto como um todo.

Como se deu a ideia de convidar o Luiz Claudio Ramos?

CA – Em 2007 fui convidada pra produzir junto com a Guitarra Brasileira, empresa do Renato Piau, um show em homenagem a Chico Buarque. Tínhamos carta branca pra escolher quem a gente quisesse pra compor o elenco e a parte técnica. Esse show foi realizado pela OAB RJ, o presidente da OAB na epoca, Dr. Wadih Damus, era fã incondicional de Chico e do Luiz Claudio. Eu era fã do Luiz de ficar doida vendo ele no palco e o Piau já tinha trabalhado com ele. Então não tinha duvida, era ele. Ele aceitou o convite, montamos todo o lindo espetáculo que ocupou uma noite no Canecão com uma plateia gigante que lotou o lugar, 16 pessoas no palco, uma equipe enorme. Foi a coisa mais linda do mundo aquele espetáculo. Foi uma aula de produção e de canto pra mim. Você pode imaginar que quase infartei depois né? Tanto trabalho em cima de mim, mas foi excelente. Conseguimos trazer pro projeto uma parte da banda que acompanha o Chico, em especial o Wilson das Neves, baterista, e ainda botamos eu, Quarteto em Cy, Ruy Faria e Chico Faria como os interpretes. Assim conheci o Luiz e ficamos amigos. Quando fui fazer o cd, convidei pra dois arranjos e a escolha de uma musica do Chico foi inevitável já que ele arranja Chico Buarque há mais de 20 anos. Essa foi uma das minha parcerias profissionais das quais mais me orgulho. Aprendi imensamente com ele e realizei o sonho de estar pertinho de meu ídolo. Outro artista que eu era e sou louca e pirada de tanto ser fã, é Geraldo Azevedo. A vida também me deu a felicidade de ter ele no meu primeiro cd cantando comigo. Como diz o Wilson das Neves: ô sorte!!

E escolha das faixas produzidas por ele? Quais foram os critérios mais relevantes?

CA – Ele ser especialista no universo Buarquiano do qual faz parte ha mais de 20 anos e a outra foi amor a Dominguinhos mesmo que eu e ele tínhamos.

Além do palco, você também tem um trabalho paralelo a ele ao lado da Taissa Maia na questão da produção artística a partir da Ritme. Você poderia nos contar, além de como é atuar nesse lado burocrático, um pouco mais sobre a Ritme Produções Artísticas?

CA – Hoje em dia o artista tem que se produzir. Parece que virou uma exigência do mercado de uns tempos pra ca. A produção do seu próprio trabalho virou um braço do trabalho artístico. Não existe mais aquela figura do artista que fica em casa só criando, pensando, musicando, sem que ninguém possa atrapalhar… Essa figura definitivamente acabou. Hj os artistas se produzem, gravam seus próprios cds, tem estúdios, escritórios, fazem seus próprios acertos de distribuição…enfim. Nesse contexto surgiu a Ritme Produções Artísticas, minha empresa de produção cultural em sociedade com a Taissa Maia. Com o tempo a gente foi diversificando e atendendo outros artistas, principalmente na parte de consultoria de novos trabalhos e projetos especiais. Hoje a Ritme tem duas outras empresas parceiras que se associam quando necessário: a Guitarra Brasileira de Renato Piau e a SPPS Marketing. Eu também adoro produzir. E o artista que se produz e gerencia sua própria carreira tem um controle muito maior sobre o seu trabalho.

Em sua discografia há longos hiatos de um projeto para o outro. Você pretende manter-se neste contexto ou aqueles que acompanham a sua carreira já podem sonhar com algo novo em um intervalo de tempo menos que os sete anos entre o álbum “…Para entender as estrelas” e “Sede”?

CA – Hahahahah não sei. O nome desse hiato, amigo, é grana. Eu produzo meus discos e negocio depois. Sem grana não tem cd. De toda forma sinto que um cd precisa de um tempo grande pra ser trabalhado e pra vir o caminho artístico natural do disco seguinte entende? Não sei se eu conseguiria fazer um por ano, não sei se eu teria demanda artística pra isso. O tempo grande é em função de poder também trabalhar um cd por uns 3 anos ou 4 e levar tempo pra pensar no projeto seguinte e na escolha de repertorio que no meu caso demora um pouco, porque garimpo muito com compositores novos, a nova safra entende? Testo muito novas canções no show também. Por enquanto, algumas ideias pro novo trabalho ja estão começando a pintar. Vai ter novidade pra 2015. Com certeza meu novo clipe sairá no ano que vem. Fora projetos interessantes que tenho com outros artistas, Angela RoRo e Renato Piau são os mais presentes. Gostaria muito também de realizar algum show com Vander Lee, meu amigo ha anos. Tenho dado entrada em editais. Aguardem novidades. E o novo clipe vai chegar. Só gostaria de concluir dizendo que tenho a honra de trabalhar com gente muito experiente e que só aprendo com eles a cada trabalho. Aprendo também a cada projeto bem sucedido e a cada frustração. Essa é a maior felicidade de fazer parte da MPB, conhecer e trabalhar com tantos talentos, famosos ou não, arranjadores, produtores musicais, cantores, músicos e técnicos de alto nível. Sou abençoada nesse sentido. E aproveito também pra dizer que tem muita coisa boa na MPB, muita mesmo, que não aparece porque a grande mídia não deixa. Somos ainda o país que faz uma das melhores músicas do mundo. E temos grandes compositores novos e cantores novos também. Brigada Bruno, adorei falar contigo.


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CLAUDIA AMORIM SACIA SUA SEDE EM PROFÍCUAS FONTES

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Respaldada pelos músicos Renato Piau e Perinho Santana, Claudia Amorim bebe as mais límpidas poesias e melodias nas fontes inesgotáveis de nossa música

Neste país de dimensões continentais não é de se estranhar que muitos talentos não cheguem ao conhecimento do grande público de imediato. Em meio a tanta banalidade existente em nossa música ainda há quem prefira não se render a banalidade e busca sempre seguir pelos caminhos mais tortuosos em pró de sua satisfação pessoal e musical. Apesar das agruras, neste contexto é possível encontrar novos nomes que utilizam das mais variadas formas para destoarem-se de modo positivo dentro desta cisão bastante evidente em que se encontra a música brasileira da atualidade. Nosso espaço preza por apresentar nomes que trazem em sua trajetória esta característica de modo bastante evidente em sua estrada como é o caso desta artista hoje em questão: Claudia Amorim. Com uma carreira iniciada ainda na infância gravando jingles e spots para rádio e tv, além de programas televisivos como “O clube do Mickey”, a artista por um longo período foi back vocal de nomes como Tavito e Sandra de Sá, só aventurando-se em carreira solo quando conheceu o cantor, instrumentista e compositor Danilo Caymmi, que a presenteou com uma composição e com ela dividiu o palco, participando de sua estreia como solista. Neste longo percurso no qual a artista vem seguindo seu canto se viu longe de amarras e gêneros, e desta não delimitação surgiu uma cantora dinâmica e impregnada de boa música, sobretudo de música brasileira. Aguerrida, a cantora procura não render-se a desleal conjuntura que embate, pelo contrário, em seu mais recente trabalho ela procura levar a sua proposta sonora ao mundo, ideia esta que o próprio projeto gráfico do disco deixa transparecer quando apresenta em sua capa uma garrafa contendo uma mensagem.

Sua carreira fonográfica teve início em 1999 quando participou ao lado de nomes como Bernardo Lobo, Marcos Assumpção, Zeca Baleiro, Zé Ricardo, Pedro Mariano entre outros na série “Novo canto” lançada pela Dabliú Discos. Na ocasião a artista interpretava a faixa que viria batizar o seu primeiro álbum solo um ano depois: “Dia branco”. Lançado em 2000, o disco além do clássico composto por Renato Rocha e Geraldo Azevedo (que participa do álbum dividindo os vocais com a cantora na faixa “Retirante”) , traz em seu bojo mais oito faixas e a participação especial de nomes como Danilo Caymmi e Delia Fisher sob a batuta do conceituado Lui Coimbra e da Patrícia Vergara. Depois de um hiato de seis anos a artista volta ao mercado fonográfico com “… Para entender as estrelas”, um disco produzido em Natal (RN) e no Rio de Janeiro, trazendo novamente a presença de Geraldo Azevedo assinando duas faixas: “América futura” (escrita a quatro mãos com o poeta e compositor Capinam) e “Inclinações musicais” (outra parceria entre o artista pernambucano e Renato Rocha) e nomes como Guilherme Arantes (“Cuide-se bem”), Caetano Veloso (“Saudosismo”), Vinicius de Moraes (“Sem mais adeus”), Tom Jobim e Chico Buarque (“Sabiá”) entre outros, reiterando o seu compromisso com a música brasileira de qualidade assim como também com a beleza estética a qual o seu canto condicionou-se neste período de afastamento dos estúdios de gravação. Essa condição a conduziu a participação do Prêmio da Música Brasileira em 2007 como um dos álbuns pré-selecionados para a edição daquele ano. Agora, depois de outro intervalo significativo, a artista vem apresentando mais um projeto fonográfico. Trata-se do álbum “Sede”, disco ao qual vamos nos prender e que mostra mais uma vez que a música apresentada pela artista traz, desde o início, em seu bojo uma característica peculiar: sua música não faz concessão à qualidade.

Este terceiro álbum continua a retratar a sonoridade existente no Brasil de modo cada vez mais abrangente. Lançado pelo selo Guitarra brasileira (de propriedade do músico e compositor Renato Piau) e distribuído pela Tratore, o disco parte de um seleto repertório composto por nomes que vão do panteão da MPB a emergentes compositores da nova geração. Com doze faixas, o álbum produzido e arranjado pelo saudoso músico Perinho Santana e pelo violonista e compositor Luiz Claudio Ramos apresenta emergentes compositores a exemplo do capixaba Rud Jardim (autor do afoxé “Zabelê”) e do potiguar Manassés Campos, que assina “Ai que saudade.” Esses dois autores trazem no bojo de suas composições características bem marcantes na discografia da artista a partir de sons imbuídos de África e nordestinidade. Outros nomes presentes dessa nova lavra de compositores da música brasileira são Zeca Costa (que traz “Meu lado esquerdo”), Marco Jabu (autor de “Sonhoso”, faixa que conta com a participação especial da filha da artista), Mário Seve e Mauro Aguiar (com “Pandemia”). O disco ainda apresenta faixas assinadas porVander Lee (“Do Brasil”), Simone Guimarães (“Água funda”), entre outros. Nomes expressivos de nossa música também fazem-se presentes assinando canções como “Você vai me seguir”, composta para a peça Calabar, o elogio da traição de autoria da dupla Chico Buarque e Ruy Guerra; Sandra de Sá (com “Demônio colorido”) e a dupla nordestina Anastácia e Dominguinhos que assinam “Tenho sede”, tema bastante pertinente com a temática do disco. Com cores vivas e bastante, digamos, solares, o projeto gráfico do álbum vem assinado por Luciana Lumyx, que soube muito bem traduzir de modo genuíno a proposta estética e sonora do álbum.

Em uma espécie de bastião do apuro estético em defesa da brasilidade em sua melhor potência, os trabalhos elaborados por Cláudia são bastante abrangentes. Mapeiam a sonoridade as mais distintas sonoridades existentes a partir de conceituados e talentosos compositores a partir dos mais distintos gêneros existentes em nosso país como se é possível analisar a partir de sua curta discografia. No entanto, esse abarcamento não a faz perder uma das características mais evidentes em seu trabalho: uma coerente (e porque não dizer condizente) qualidade muito bem alicerçada em sua formação musical. A artista interpreta um Brasil uníssono, sem distinção. Sua sede é de sol, de mar, de caatinga, de litoral e sertão. Sua sede é de música brasileira sem delimitações e rótulos, mas repleta de exigências para saciá-la. O que a conduz a esta condição são os mais diversos adornos existentes em nosso cancioneiro nesta ânsia de versos e melodias. Bebendo da fonte dos grandes nomes da nossa música e de promissores talentos, Cláudia Amorim mostra-se aglutinadora e um forte elo entre a tradição e a contemporaneidade através das arestas que seu canto competentemente lapida. Apesar da artista perpassar pelas mais diversas influências existentes na construção de sua sonoridade sem delimitar-se, mostra-se perceptível um forte elo entre seus projetos e a música nordestina. Seja músico ou compositor, a região faz-se sempre presente nos projetos da carioca. Sem fazer concessão, Cláudia mostra-se uma hábil competente intérprete ao conseguir fazer-se esse vigoroso elo. Nesta ânsia, só é possível afirmar uma coisas: que, ao se tratar do talento e da sede desta artista, não há fonte, por mais inesgotável que seja, que consiga saciar, banhar ou até mesmo mensurar aquilo que a constitui.

Fica para os amigos leitores duas canções presente neste mais recente trabalho da artista. A primeira trata-se do clássico “Tenha sede“, de autoria de Anastácia e do saudoso Dominguinhos:

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A segunda é de autoria de Chico Buarque e Ruy Guerra. Trata-se de “Você vai me seguir“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 17

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Em uma das últimas postagem sobre as histórias e estórias de nossa música eu trouxe Alaíde Costa e abordei um pouco sobre o início de sua carreira e as dificuldades que a cantora teve para se firmar no mercado fonográfico brasileiro. Hoje trago novamente o nome desta cantora, que sem dúvida alguma foi um dos nomes femininos fundamentais e mais importantes para a divulgação e consolidação do movimento da Bossa Nova a partir de antológicas gravações como “Estrada Branca” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), “Minha Saudade” (João Donato e João Gilberto) e “Lobo Bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli). A sua relação com o movimento bossa novista é tão intenso que começa a apresentar-se em festivais temáticos Brasil afora. Após se apresentar-se em um desses eventos, o 1º Festival de Bossa Nova realizado na capital de São Paulo, a cantora resolve transferir-se definitivamente para São Paulo. Neste mesmo período conquista ao lado de seu amigo e parceiro Geraldo Vandré o comando do programa “No Balanço do Samba” na televisão Tupy (SP).

Na década de 1960 tem a oportunidade de lançar alguns LP’s, dentre eles o “Alaíde, Canta Suavemente” e “Alaíde, Jóia Moderna” (ambos pela RCA Victor). Este segundo álbum, datado de 1961, tem um fato curioso: nele se encontram os primeiros arranjos gravados de Baden Powell. Em 1963 lança o LP “Afinal … Alaíde Costa” pela gravadora Audio Fidelity , e em 1964, ela lança o seu maior sucesso, o clássico “Onde está Você” (Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini). Esta canção é responsável por momentos inesquecíveis na carreira da artista como uma apresentação ainda na década de 1960 no palco do Teatro Paramount (SP). Lá a artista obteve uma verdadeira consagração popular, sendo delirantemente aplaudida no meio da interpretação desta canção que ainda hoje, meio século depois, é uma das que não pode faltar nas apresentações da artista até os dias atuais. O sucesso da composição de Oscar e Luvercy oportunizou Alaíde assinar um contrato com a TV Record e participar de todos os seus principais programas, Festivais, shows e viagens.

Apesar do estrondoso sucesso, no final dos anos de 1960 a cantora em dado momento distancia-se dos holofotes, só retornando ao lado do cantor e compositor Milton Nascimento em 1972 quando volta a sua antiga gravadora Odeon, para participação especial no antológico álbum “Clube da Esquina”, onde, ambos interpretam em dueto o samba “Me deixa em Paz” (Monsueto e Airton Amorim), que permitiu ao grande público reencontrar-se com a querida intérprete que logo em seguida teve que se retirar novamente da cena artística para se submeter a duas cirurgias, para correção de seus problemas auditivos. Ao retornar a cena artística Alaíde protagoniza alguns antológicos álbuns de sua discografia como o lançado em 1982 ao lado de Hermínio Bello de Carvalho. Batizado de “Águas Vivas – Alaíde Costa, canta Hermínio Bello de Carvalho”, o disco saiu de modo independente. Este mesmo disco anos depois ganharia uma versão em CD lançada na França e só anos depois ganharia uma edição digital também aqui no Brasil pela Warner.

Apesar de sua escassa discografia se comparada a quantidade de anos que tem de carreira, Alaíde traz entre os títulos lançados verdadeiras obras primas da discografia nacional como são os casos dos discos “Amiga de Verdade”, lançado em 1988 e que conta com as participações de grandes nomes da MPB Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Paulinho da Viola, MPB4, dentre outros; o álbum “Alaíde Costa & João Carlos Assis Brasil” (que acabou por render dois volumes), o CD “Rasguei a minha Fantasia”, o CD “Bossa Nova Legends”, “Tudo que o Tempo me Deixou” (disco que lhe valeu em 2006 a indicação ao Grammy Latino, na categoria de “Melhor CD Romântico”), “Canções de Alaíde” e agora, recentemente e ao lado do cantor e compositor Gonzaga Leal, o álbum “Porcelana“, disco que de certo modo comemora os oitenta anos da cantora e compositora.

Fica aqui para deleite do público leitor duas canções presentes no álbum “Canções de Alaíde“, lançado em 2014.

A primeira canção trata-se de “Canção do breve amor“, de autoria de Alaíde com Geraldo Vandré:

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A segunda canção, uma parceria entre Alaíde e Antonio Carlos Jobim, trata-se de “Você é amor”:

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QUE SE VOLTEM NOVAMENTE OS HOLOFOTES

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Nome presente em diversas trilhas sonoras das dramaturgias nacionais ao longo dos anos 1990, Edmon Costa tenta retomar o espaço alcançado a duas décadas atrás

Há quem julgue a década de 1990 como uma década perdida dentro da música popular brasileira devido à enxurrada de produtos comercialmente descartáveis com que as grandes gravadoras preenchiam as prateleiras as seções de cd’s das grandes lojas de departamento Brasil afora. Diferente das décadas anteriores onde a música produzida pelos artistas em evidências faziam-se, por suas qualidades, perenes; a grande maioria da sonoridade tão executada e propagada na última década do século XX não tinha fôlego para resistir (raras as exceções) por mais que alguns semestres. No entanto, pode-se dizer quem nem tudo foi perdido. Expressivos nomes surgiram nessa leva. Uns permanecem ainda hoje escrevendo a história da música de qualidade como é o caso de nomes como Chico César, Zeca Baleiro e até mesmo Lenine, que apesar de alguns projetos fonográficos na década anterior só a partir dos anos de 1990 firmou-se como cantor e compositor. Outros nomes, apesar do talento, não tiveram a mesma sorte. Acabaram sem chance ao passar pelo clivo de uma industria cultural tacanha que leva em consideração ao avaliar determinados trabalhos características que atendem mais a expectativa do mercado do que necessariamente dos amante da boa música como é o caso do artista aqui em questão: Edmon Costa, cantor que ao longo dos anos de 1990 teve seu trabalho conhecido pelo grande público a partir da Rede Globo nas trilhas sonoras de suas novelas. De 1991 à 1994, o músico teve seu nome inserido em diversos folhetins, dentre os quais “O dono do mundo” (1991), “Olho no olho” (1993), “Quatro por quatro” (1994) e “Cara e coroa” (1995). Além dessa façanha, Edmon também chegou a participar de outros programas da grade da emissora carioca, a exemplo do extinto “Planeta Xuxa” e do show anual “Criança Esperança”. Vale ressaltar ainda a sua participação no coral que cantou junto com Stevie Wonder em um a das apresentações do músico americano aqui em nosso país ainda nos anos 90.

Com essa bagagem e talento é de se estranhar a ausência do Edmon Costa na crista da onda de nossa música popular brasileira. O que consequentemente acaba gerando uma incoerência no cenário musical nacional, uma vez que atesta-se de modo veemente que não basta o talento e é preciso algo mais que o sucesso momentâneo para manter-se em evidência. Nascido no Rio de Janeiro em meio ao universo protestante, o pequeno Edmon teve seu destino traçado de modo semelhante a alguns dos grandes nomes do soul mundial. Rapidamente inserido neste cenário, o futuro cantor logo estava dando os seus primeiros passos na música cantando em coros gospeis. Daí em diante foi galgando espaços cada vez mais significativos a partir de trabalhos diversos, dentre os quais a sua participação em bandas como Fanzinee Sindicato do Soul. Na década de 1990 surge a oportunidade de gravar o seu primeiro álbum solo via Sony Music. O destaque deste debute fonográfico foi a canção “Coração de gelo”, faixa também presente na novela “O dono do Mundo” como tema do personagem Herculano, interpretado pelo ator Stênio Garcia. Já o seu segundo disco saiu pela Polygram tendo como grande destaque para duas canções: “Toda Noite” e “Tocar você”, a primeira tema musical presente em “Olho no olho”, teledramaturgia global exibida às 19 horas de 6 de setembro de 1993 à 8 de abril de 1994; já a segunda foi escolhida como a canção tema de abertura da novela “Cara ou coroa”, outra produção da Rede Globo exibida no horário das 19 horas entre outubro de 1994 e julho do ano seguinte. De lá pra cá chegaram ao mercado mais três álbuns contendo a assinatura de Edmon e que reforçam o seu talento a partir da escolha de um seleto repertório que abrande alguns dos maiores da música.

Recentemente, em busca de uma nova oportunidade de levar a sua música ao público de norte ao sul do país, o o artista subiu ao palco do “The voice Brasil” cantando a clássica “Samba de verão”, de autoria dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. A partir de uma peculiar interpretação conseguiu chamar a atenção de dois dos quatro jurados participantes. Edmon conseguiu “virar a cadeira” de Lulu Santos e Claudia Leitte. Sem contar o baiano Carlinhos Brown, que arrependeu-se de não ter virado a sua cadeira para o artista carioca: “Eu me arrependi. É uma das vozes mais surpreendentes”. Apesar de não lograr êxito na edição a qual participou a presença do artista carioca no programa acabou tornando-o lembrado novamente e isso, é claro, acaba por gerar novas possibilidades abrindo-o portas que acabaram fechando-se nos últimos anos devido justamente a essa falta de oportunidade e abrangência.

Atualmente o artista vem apresentando o show “Do samba ao soul”, onde atende aos mais distintos gostos musicais procurando pautar-se sempre na coerência e qualidade das canções escolhidas. Com um repertório que abrange nomes de destaque dentro da música nacional e internacional, o artista carioca vem mostrando toda a sua versatilidade, sensibilidade e talento a partir de um repertório bastante diversificado que busca apresentar nomes como o dos grupos Brilho (“Noite do prazer”) e Banda Black Rio (“Maria Fumaça”); Cassiano (“Coleção”), Djavan (“Flor de lís” e “Samurai”), Stevie Wonder (“Superstition”) entre outros destaques do samba e do soul. Mesmo não tendo levado o título da edição a qual participou, Edmon pode considerar-se um vitorioso por ter tido a oportunidade de voltar à mídia assim como também aos olhos dos saudosos fãs que não o viam há tempos. Esta nova chance também possibilitou ao seu trabalho a oportunidade de chegar ao conhecimento das novas gerações, plantando através do seu talento a tal semente que corre-se o risco de brotar a qualquer momento. Sem sombra de dúvidas voltar a mídia através de um programa televisivo que tem uma média de audiência entre 17 e 22 pontos (a julgar pela última temporada) renova a esperança de Edmon Sebastião Silva Costa ou simplesmente Edmon Costa de reviver os áureos tempos vividos no início dos anos de 1990 onde sua voz e talento abarcava os mais distintos corações de norte ao sul do país.

Aos saudosista leitores amigos deixo aqui para audição uma das canções gravadas por Edmon Costa ao longo dos anos de 1990 e que fez parte da trilha sonora da novela “Quatro por Quatro”, trata-se da canção “Se eu me apaixonar”:

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O ANTROPOFÁGICO CLÁUDIO BRASIL

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Performático, o cantor e compositor, Cláudio Brasil metamorfoseia-se entre grandes nomes do rock nacional, Caetano Veloso e uma forte e marcante presença de palco

Quando a Tropicália surgiu no final da década de 1960 vinha apresentando uma proposta estética bastante inovadora para a época. Sob influência das mais diversas correntes artísticas o movimento aglutinou distintas fontes para a sua formação seguindo sob influência das correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira e a partir daí misturando manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais. O movimento de fato chegou com uma proposta estética e vanguardista ao fundir as mais diversas influências. A tropicália foi um movimento iconoclasta, que almejava a música sem rótulos e fronteiras. Sua vontade era fundir as diversas vertentes da canção popular, da música brega à de protesto em uma verdadeira festa estética. E essa fusão não apenas marcou uma época, mas toda uma geração de músicos que viria posteriormente. A chamada MPB nunca mais seria a mesma após tal acontecimento.

Bebendo da fonte de um dos principais afluentes desse movimento, o cantor e compositor Cláudio Brasilvem em ascendente carreira em Pernambuco. Com um timbre vocal que assemelha-se ao do ídoloCaetano Veloso, o artista iniciou a sua carreira na década de 1990 na capital pernambucana ao formar a banda de pop rock Esquinas Paralelas. Essa banda contava com a adesão do irmão e de um amigo de Cláudio, chegando inclusive a gravar em 1993, de forma independente, o álbum “Negro pode ser também teu canto.” À época do lançamento a imprensa pernambucana destacou o trabalho como um dos precursores da cena musical local enfatizando o modo independente como o álbum havia sido feito.

Na década em que a música sertaneja e o axé ganharia uma parcela significativa do mercado fonográfico nacional, o Esquinas Paralelas aproveitou a onda do momento e passou a tocar em trios elétricos e a viajar por todo Nordeste. Neste verdadeiro laboratório, o músico passou uma década que o fez quebrar estigmas e rótulos a partir do ecletismo ao qual foi submetido nessa época. Essa experiência entre axés e micaretas fez Cláudio desenvolver uma versatilidade sonora que hoje lhe é peculiar e que foi extremamente relevante para a sua trajetória musical a partir de experiências como a sua incursão em projetos como a banda Dionísio (trabalho onde era mesclado rock’n’roll e teatro de uma forma inusitada) e a Bacamarte (projeto que mesclava poesia nordestina com uma pegada punk hard core) entre outros projetos solos.

Em 2007 seu trabalho ganha uma visibilidade maior quando resolve atender aos apelos dos amigos e fãs e começa um trabalho voltado para o repertório de Veloso. Sua voz similar ao do grande ídolo e as fontes das quais bebeu acabou gerando um novo modo de interpretar a obra do já multifacetado Caetano. Capitaneando esse projeto, Cláudio fundiu a MPB ao rock, e deu uma nova cara ao repertório do artista baiano. O próprio Caetano reconheceu essa inovação quando, no carnaval de 2009, assistiu ao espetáculo do grupo chegando inclusive a dividir o palco com Cláudio em uma das apresentações no Recife e fez elogiosos comentários acerca dessa reconstrução de sua obra. O magnetismo que o grupo exercia sobre o público, as performances inusitadas do vocalista e a híbrida sonoridade foram características responsáveis para que as portas abrissem-se plenamente na noite recifense. Dentre os fãs declarados da banda nomes como o saudoso produtor e compositor Carlos Fernando e o escritor Jomard Muniz de Brito. A banda, deixou como legado um DVD gravado no Pátio de São Pedro, um dos pontos turístico e artístico do Recife.

A inquietude de Cláudio no palco traduz um pouco da personalidade do artista pernambucano. Envolto em diversos projetos, o cantor e compositor conduz a banda Maior Abandonado e Tio Mau Também capitaneia o grupo Os Caetanos, grupo acaba de lançar o primeiro DVD gravado recentemente na Rua da Moeda, no Recife Antigo. Neste registro áudio visual, além de abordar a obra do autor de clássicos da MPB como Sampa, Leãozinho e Qualquer Coisa, o DVD apresenta a inédita Tudo é permitido. Sem contar, que o artista ainda conduz uma coesa carreira solo de modo bastante prodigioso como se é possível atestar a partir, por exemplo, do seu álbum autoral Transe, disco que traz dez faixas de sua lavra. Gravado no Recife o disco tem como tema central o amor, este mesmo sentimento que Cláudio vem dedicando à música ao longo destas últimas duas décadas e o revigora para enfrentar todos os estorvos que surgem ao longo de sua trajetória. Mesmo não sabendo que não é fácil, obstinadamente Cláudio não deixa-se abater e vem coerentemente conduzindo sua trajetória. A luta é grande, mas o artista pernambucano busca forças e coragem em versos e melodias como a que certa vez escreveu o seu grande ídolo: “Por isso uma força me leva a cantar Por isso é que eu canto, não posso parar.”

Ao longo de 2015 o artista lançou o álbum “Tudo é permitido“, disco que contém além de composições próprias, incursões pela obra do tão reverenciado Caetano Veloso. Para audição dos amigos leitores fica aqui então duas canções deste disco (ambas de autoria de Caetano Veloso).

A primeira trata-se de “Nosso estranho amor“:

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A segunda faixa trata-se de “Tigresa“, canção gravada pelo autor no álbum “Bicho”, de 1977:

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MARCOS FREDERICO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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O músico mineiro volta ao nosso espaço para abordar diversos temas, dentre eles a sua predileção por instrumentos de corda e o seu mais recente projeto fonográfico intitulado “Entoando Loas” nesta informal conversa

Hoje temos de volta ao nosso espaço o virtuoso músico e compositor mineiro Marcos Frederico para uma conversa exclusiva sobre projetos, carreira e sua biografia musical. Natural de Belo Horizonte o bandolinista, além de dominar outros instrumentos atua também como produtor musical a partir do estúdio que possui, o Liquidificador Estúdio de Áudio como foi possível conferir a partir da matéria “ENTRE A CONTEMPORANEIDADE E A TRADIÇÃO UM BANDOLIM ENTOA LOAS”. De modo solícito, Marcos aporta desta vez em nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde fala, dentre outras coisas, de sua carreira internacional, a possibilidade de um registro ao vivo e sobre a sua predileção e envolvimento com instrumentos de cordas desde a infância. Uma imperdível leitura e oportunidade ímpar para quem quer conhecer mais um pouco sobre este novo talento da música instrumental brasileira. Excelente leitura!

Como se deu o seu envolvimento com o violão e o bandolim?

Marcos Frederico – Comecei a tocar violão aos 14 anos, foi um presente do meu pai. Depois estudei no Palácio das Artes e fiz aulas com quem eu considero meu grande mestre, o cara que abriu minha cabeça: Celso Moreira. Bandolim veio em seguida, mas de uma forma autodidata. Como já tinha uma boa digitação, o processo de aprendizado foi um pouco mais fácil. Peguei um bandolim emprestado com um amigo para gravar umas frases em 2 canções e acabei me apegando seriamente com o instrumento. Isso há 12 anos.

Por que a predileção por instrumentos de corda?

MF – Desde criança, sou fascinado por guitarras. E eu sabia que ter um violão poderia ser o primeiro passo pra conseguir uma guitarra. Aí vem aquela coisa de digitação. Você pega um baixo, um cavaco, um bandolim e começa a brincar. O som vai ficando legal… Mas quero muito tocar piano um dia. E assim passar pro acordeon, etc..

Levando em consideração que o bandolim é um instrumento de menor difusão no meio musical brasileiro qual foi a reação dos mais próximos quando você optou por ele?

MF – Apesar de pouco difundido, é um instrumento muito respeitado. Tanto pela história, quanto pela beleza do timbre. As pessoas sempre me apoiaram muito na escolha.

Em nosso país há um paradoxo muito evidente em relação a música instrumental de boa qualidade aqui produzida. Nos mais distintos festivais voltados para este segmento sempre há um público cativo e expressivo, no entanto os espaços para a divulgação desta mesma música são cada vez menores em todos os canais. Como você avalia esse paradoxo?

MF – Na verdade a nossa música instrumental nunca recebeu o devido reconhecimento. Portanto, isso não me espanta nem um pouco. Estamos acostumados… Se essa falta de divulgação afetasse a nossa produção não haveria essa efervescência atual. Devemos pensar nesse público cativo e expressivo, criando novos canais. Nesse mercado, além de compor e tocar, temos que ter uma criatividade extra para administrar nossa carreira. No meu caso, uma ideia que vem dando certo e é uma excelente saída para a música instrumental é o áudio visual.

Você tem em seu currículo três álbuns gravados: “Sinuca tropical” (2007), “Onze” (2011) e agora “Entoando loas”. O que diferencia este seu mais novo projeto dos demais?

MF – Eu acredito que o Entoando Loas é uma continuação do Onze. É um disco feito imediatamente na sequência. Existe uma distância entre esses dois e o Sinuca Tropical, que na verdade é um apanhado de gravações distintas, quase uma coletânea. Tem a evolução natural também, como compositor e instrumentista.

“Entoando loas” é um projeto essencialmente autoral. Você poderia nos contar como é o seu processo de composição?

MF – Não tenho regra. Já fiz música passeando com meu cachorro, música por correspondência, dirigindo na estrada, andando no centro, dormindo, às vezes com um instrumento na mão, às vezes sem… A criação não tem hora. Se você programa demais pode dar errado.

Neste mais recente projeto há presente duas faixas que foram registradas ao vivo no teatro da biblioteca pública de Belo Horizonte e que contam com a participação do francês Nicolas Krassik. Esses registros ao vivo podem ser considerado o cerne de algum projeto posterior? Você tem pretensões de algum projeto ao vivo?

MF – Recentemente tive uma proposta de fazer um ao vivo, mas nada concreto ainda. É diferente de estúdio. É ali, na cara. Nunca tinha pensado nisso, mas agora essa vontade existe. Estou produzindo 3 álbuns autorais de estúdio simultaneamente para 2016. Vamos ver onde entraria o ao vivo.

Como tem caminhado a sua carreira internacional? (Uma vez que, desde o lançamento de “Sinuca”, seu primeiro álbum, você mantém apresentações na Europa e em países da América do Sul, como a Argentina.)

MF – Em abril desse ano fiz duas apresentações em Paris e tenho convites para 2016, ainda sem confirmação. Mas é uma carreira possível e muito interessante, uma vez que eles adoram nossa música.

Você também atua na produção dos seus trabalhos e hoje mais ainda a partir do Liquidificador Estúdio de Áudio indo da inspiração a transpiração. Você pretende lançar novos nomes a partir do seu estúdio?

MF – Você acaba de me dar uma grande ideia! Vamos ver se consigo conciliar.


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ENTRE A CONTEMPORANEIDADE E A TRADIÇÃO, UM BANDOLIM ENTOA LOAS

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Em álbum essencialmente autoral, o músico Marcos Frederico desnuda-se de modo pleno em seu terceiro projeto

Disseminado por Vilvaldi em Veneza, na Itália, ao longo do século XVII, o bandolim desembarcou no Brasil vindo de Portugal ao final do século XVIII e se popularizou no país a partir, principalmente do choro ao longo do século XIX. Instrumento com oito cordas agrupadas de duas em duas, o bandolim encontrou em nosso país um fértil campo para a difusão de sua envolvente e inebriante sonoridade a partir de exímios executores r grandes solistas. Vários foram os nomes que corroboraram para que o instrumento ganhasse projeção no meio musical brasileiro e um dos mais importantes para isso foi sem dúvida o do carioca Jacob Pick Bittencourt e o do pernambucano Luperce Miranda. Pioneiro, este nos anos de 1920 integrou o grupo Turunas da Mauricéia, e na década seguinte criou o regional que levava seu nome atuando junto a ele em rádios, na gravadora Parlophon e acompanhando nomes expressivos de música popular da época tal qual Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis. Já o segundo por ter tanta afinidade com o instrumento que executava que acabou por adotá-lo em seu nome artístico tornando-se Jacob do Bandolim. Responsável pela autoria de choros como Noites Cariocas, Doce de Coco, e Receita de Samba, Jacob ganhou visibilidade não apenas a partir de suas composições e exímias execuções ao instrumento, mas também por ser responsável pela criação do regional Época de ouro, grupo de fundamental importância para a música popular brasileira e responsável pela defesa do choro ao longo dos anos de 1960, época esta que a bossa nova reinava quase que modo absoluto. De lá para cá o instrumentista fez escola e deixou além do legado musical, uma influência que paira e ainda permanecerá de modo perene dentro da música brasileira.

Desde então a música popular veio ganhando cada vez mais adeptos do instrumento, onde alguns, nos últimos anos, ganharam destaque como é o caso do instrumentista e compositor Hamilton de Holanda e do artista que hoje aporta em nosso espaço para deleite do público leitor: o mineiro Marcos Frederico. Natural de Belo Horizonte, além de compositor, o bandolinista integra o grupo Siricotico, é produtor musical e também domina outros instrumentos de corda como o violão, onde estudou-o junto com teoria musical na Fundação Clóvis Salgado, em Minas Gerais. Em 2007, o músico lançou seu primeiro projeto fonográfico. Lançado também no exterior com o apoio do Clube do Choro de Paris, o disco ganhou o título de “Sinuca tropical” e conta com a participação de alguns nomes do clube do choro de Belo Horizonte como o do jurista e compositor Carlos Walter e da acordeonista Elisa Behrens na execução de faixas como “Beldade” e “Deixa chorar”, composições da lavra do artista. Em dezembro de 2011 lançou o seu segundo álbum denominado de “Onze”, que foi gravado estúdio Liquidificador e conta com 11 faixas autorais incluindo aí parcerias com Gabriel Guedes, Gustavo Maguá, Rômulo Marques entre outros. O disco teve seu lançamento no Museu de Artes da Pampulha em Belo Horizonte e foi apresentado não apenas no Brasil como também no Exterior. Na biografia do artista ainda contabiliza-se prêmios como o de melhor instrumentista na décima edição do Prêmio BDMG Instrumental em 2010 e sua participação em alguns dos mais importantes eventos de música existentes não apenas no Brasil, assim como também em pairagens internacionais como a 16ª Cúpula de Mercocidades em Montevidéu; o 8º Prêmio Nabor Pires Camargo Instrumentista, em Indaiatuba (SP); o Show do Centenário de Godofredo Guedes; o 9° Festival Tudo é Jazz em Ouro Preto; o Festival Musique Du Monde, em Paris, entre outros.

Recentemente chegou ao mercado o seu terceiro álbum intitulado “Entoando Loas”, mais um disco marcado por adjetivos que pontuam de modo bastante significativo a carreira do músico mineiro nos mais diversos aspectos. Das oito faixas que constituem o disco, algumas foram selecionadas para a trilha sonora da série “Museus de Minas” da Rede Minas de TV. Gravado em grande parte no Liquidificador Estúdio, o disco apresenta duas faixas que foram registradas ao vivo no teatro da biblioteca pública de Belo Horizonte com a participação do violinista francês radicado no Brasil Nicolas Krassik. Trazendo em sua essência sonora Minas Gerais, “Entoando Loas” traz em sua ficha técnica nomes como o de Flávio Henrique (acordeon, piano e acordeon), Carlos Walter (violão), Dado Prates (flauta), Felipe José (violoncelo), Rafael Martini (piano), Felipe Bastos (bateria), Aloízio Horta (baixo), Daniel Pantoja (flauta). Ricardo Acácio (percussão) e Thiago Delegado (violão). O projeto gráfico ficou a cargo de Júlio Abreu e da Leonora Weissmann e os responsáveis pelas fotografias foi Élcio Paraíso, neste álbum que, segundo o próprio artista, trata-se de uma celebração à vida.

Já estando presente na lista dos mais expressivos instrumentistas da música brasileira de sua geração,Marcos Frederico funde a tradição da música mineira com a contemporaneidade; conseguindo mesclar de modo bastante harmonioso todas as influências que permeiam o seu trabalho com a originalidade que lhe é peculiar. Essas características acabam por embeber o trabalho do músico mineiro com adjetivos bastante fortes que, de certo modo, imbuem a sua produção musical com uma original e singular identidade sonora. A música sem dúvida pulsa forte em sua veia. Da mais simplória às cavas, a boa música encontra em seu corpo um porto seguro e permite-se transportar em acordes e melodias por intermédio dos ágeis movimentos de seus dedos em números que emanam leveza e compromisso estético. Expressando-se de modo virtuoso e original, Marcos mostra-se despretensiosamente hábil e capaz de transitar pelos mais diversos gêneros que aventura-se. Com propriedade, seu instrumento o conduz (e consequentemente também nos leva) as mais diversas pairagens sonoras existentes em execuções muito carregadas de pessoalidade e leveza. Uma leveza quase pueril e que acaba por nos envolver e nos encantar de modo inebriante. Tais características acaba gerando uma certa expectativa em torno desse jovem artista que parece não incomodar-se com tal responsabilidade, pelo contrário, tal condição acaba oportunizando-o a uma produção cada vez maior e diversificada, indo das trilhas aos jingles (como o que lhe deu o primeiro lugar no concurso de da rádio UFMG Educativa). Parece que o contexto de fato o é favorável, pois tal responsabilidade o artista parece tirar de letra, ou melhor, tirar em notas musicais.

Para que os amigos leitores tenham a oportunidade de ouvir o artista trago aqui uma das canções presentes no set list de sua apresentação no programa Instrumental Sesc Brasil. Trata-se de uma composição de sua autoria intitulada de “Fado Nordestino“. Fica aqui meus votos de um excelente 2016 para aqueles que nos acompanharam ao longo deste ano. Abraços sonoros!

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© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa