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LUIZ HENRIQUE – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Cantor e compositor, Luiz Henrique assume seu lado intérprete em expressivos projetos de valorização do cancioneiro popular da primeira metade do século XX

Assumindo, mesmo que de modo despretensioso, um compromisso de resgate com a história da música popular brasileira desde o ano em que lançou o álbum “Um Sinhô compositor”, um tributo a um dos compositores mais relevantes da música brasileira na primeira metade do século XX, Luiz Henrique vem dando continuidade a este primoroso trabalho de valorização e resgate do cancioneiro popular agora em mais um projeto: “Pro samba que Noel me convidou”, álbum que traz como homenageado não apenas Noel Rosa (como o título do álbum sugere) mas diversos compositores e intérpretes contemporâneos do sambista carioca como vocês puderam conferir recentemente aqui mesmo a partir da pauta “A ESMERADA PERSONIFICAÇÃO DO SAMBA”.

Hoje, Luiz Henrique volta ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde aborda, dentre outros assuntos, a sua relação com a saudosa Emilinha Borba, a aproximação do sambista Paulo Marquez, como promoveu o inusitado encontro entre um funkeiro e uma Rainha do Rádio e os critérios levados em consideração para a escolha do repertório de projetos especiais como estes últimos lançados.

Você traz em sua discografia dois trabalhos temáticos abordando artistas dos anos de 1920 e 1930. Qual o principal motivo que o fez atinar para o resgate e valorização dos grandes artistas da primeira metade do século passado?

Luiz Henrique – Antes destes trabalhos temáticos, eu já havia gravado dois outros CDs, mas foram discos nos quais eu ainda estava um pouco perdido sobre o que eu queria, não somente eu como também as pessoas que me orientaram na época. Nestes CDs, gravei músicas inéditas minhas e dos amigos. Não escolhi canções conhecidas pelo fato de que, se eu as escolhesse, além de todo o custo com a produção, eu ainda teria que arcar com os valores dos direitos autorais. A ideia do resgate veio posteriormente, ao me interessar por pesquisar a origem do samba. Com isso, fui descobrindo excelentes autores, praticamente no ostracismo, que já se encontravam em Domínio Público. Acreditando que estaria mais que na hora de começar a resgatá-los, acabei juntando o útil ao agradável e, no meu terceiro CD, prestei homenagem a Sinhô, que se tornou um dos meus compositores prediletos, e agora, mais recentemente, homenageei o genial Noel e alguns de seus contemporâneos, em maioria ilustres desconhecidos.

Como se deu o seu envolvimento com a música (em especial com as canções destas primeiras décadas do cancioneiro brasileiro)? Havia em sua infância algum contato com o trabalho destes artistas?

LH – Na minha infância, salvo Noel Rosa, não escutava nenhum destes autores. De fato sempre gostei muito de músicas antigas, mas não chegava a voltar tanto no tempo. Meu forte eram as composições dos anos 50, que ouvia em programas de rádios transmitidos à noite, nas vozes de Nélson Gonçalves, Cauby Peixoto, Angela Maria entre outros. Somente muito depois é que fui saber quem era o Rei do Samba Sinhô, tendo tido maior contato com sua obra apenas a partir do ano de 2009, quando adquiri num camelô a biografia “Nosso Sinhô do Samba”, escrita por Edigar de Alencar.

Em sua opinião como pesquisador, o que você acha que corrobora de modo substancial para esse quadro de esquecimento e abandono que assola a cultura brasileira como um todo?

LH – Na verdade, eu não sou propriamente um pesquisador e sim alguém que tem a necessidade de pesquisar para poder elaborar seus projetos. Em minha modesta opinião, no entanto, acredito que sejam vários os fatores que contribuem para este esquecimento e abandono. Talvez o mais importante seja a ausência de uma política governamental de incentivo à cultura, a começar pelos estabelecimentos de ensino regular. As pessoas só passam a se interessar por determinado assunto a partir do momento em que este assunto é apresentado a elas.

Você acredita que seja possível reverter tal contexto?

LH – Sendo bem sincero, eu acredito que não existam grandes interesses para se reverter esta situação. O máximo que pode acontecer é, vez por outra, um ou outro artista passar a integrar este pequeno grupo que se preocupa com o resgate cultural. E tomara que estes artistas surjam não só no âmbito da música como também de outras artes.

Apesar dos seus últimos dois trabalhos estarem focados em seu lado intérprete você também é autor de diversas canções que foram inclusive gravadas por nomes como Cauby Peixoto e Marion Duarte. Você cogita a possibilidade de um registro de modo exclusivamente autoral algum dia?

LH – O Cauby gravou uma música minha em dueto com a Emilinha Borba, a canção se chama “Grandes Mitos” e recentemente foi regravada pela Marion Duarte, grande cantora que também pertenceu à época áurea do rádio brasileiro. Como disse, gravei composições minhas nos primeiros trabalhos, porém não foram CDs exclusivamente autorais. Um CD autoral, com o devido capricho e zelo necessários na escolha do repertório e dos músicos, é realmente uma boa ideia e um caso a pensar.

Dentre os artistas que gravaram suas composições está a Emilinha Borba, pessoa com a qual você teve uma intensa aproximação durante os últimos anos de vida dela. Uma prova documental desta grande amizade é o álbum “Emilinha Pinta e Borba”, onde você participa com duas composições e ainda divide os vocais com a cantora em uma delas. Você poderia nos dizer de que modo se deu essa grande amizade?

LH – Eu conheci a Emilinha Borba na Rádio Nacional, mais precisamente no ano de 1999. Fui dar uma entrevista sobre o meu primeiro Cd e lá estava ela no mesmo programa, salvo engano o apresentador era o José Messias, depois ainda chegamos a nos encontrar algumas outras vezes na mesma emissora. Até que, no período carnavalesco, fui assistir a uma apresentação dela no Carnaval da Cinelândia, que é um evento com sambas e marchinhas do passado, realizado todo o ano aqui na cidade do Rio de Janeiro. Por ter ficado impressionado com tanta vitalidade e tanta disposição, eu compus para ela “O Mito Emilinha Borba”. Emilinha gostou muito e a partir daí fomos ficando amigos. Nos últimos anos de sua vida, sempre me convidava para cantar com ela em seus shows, inclusive no Carnaval da Cinelândia. O título do CD “Emilinha Pinta e Borba” foi ideia minha. “Pinta”, por causa de uma charmosa pinta em seu rosto e “Borba” que era o seu sobrenome. Também sugeri o título de seu último lançamento em vida, o CD “Na Banca da Folia”. Neste disco, Emilinha gravou em dupla com o MC Serginho a minha “Marcha-Funk da Eguinha Pocotó”, uma divertida sátira ao funk “Eguinha Pocotó”. Acredito que eu tenha sido o primeiro compositor a promover este encontro inusitado entre um funkeiro e uma Rainha do Rádio. Emilinha me deu muito força na carreira musical, me incentivou muito. Era realmente um ser humano formidável e uma excelente artista.

O projeto que antecede “Pro samba que Noel me convidou” aborda a obra de José Barbosa da Silva, o Sinhô, outro grande compositor brasileiro da primeira metade do século XX. Você já tinha por pretensão abordar outro grande compositor desse período ou a coisa encaminhou-se para o universo do Noel posteriormente?

LH – Na verdade, antes mesmo de finalizar a divulgação do meu projeto com a obra de José Barbosa da Silva, que se deu através da realização do show “Tributo Ao Rei do Samba Sinhô”, apresentado em alguns espaços culturais da cidade do Rio de Janeiro, eu já havia começado a pensar sobre quem poderia ser meu próximo homenageado. Noel Rosa já era uma vontade antiga. No ano de 2007, com a produção do saudoso Quartera, ex-intregrante do conjunto Os Cariocas, eu gravei ao lado da Marion Duarte, o medley “Homenagem Concisa a Noel e a Maysa”. O Cd era composto apenas de uma faixa, mas com vários trechos de músicas de Maysa e de Noel Rosa, que, na época, completavam respectivamente 30 e 70 anos de falecimento. Eu interpretei as músicas de Noel e a Marion, as composições de Maysa. Chegamos até a fazer um show na Rádio Nacional cantando estas canções na íntegra. Já deu para perceber que sou fissurado por coisas inusitadas. Se me perguntarem o que Noel tem a ver com Maysa, respondo que Maysa deve ter sido grande fã do Poeta da Vila, tendo em vista que compôs em sua homenagem a bela canção “Escuta, Noel”. Quanto aos outros compositores gravados neste CD “Pro Samba Que Noel Me Convidou”, achei necessário incluí-los para melhor retratar musicalmente a época em que viveu Noel Rosa. Como já expliquei, são autores contemporâneos de Noel, ídolos ou parceiros, que atualmente estão bastante esquecidos. Ou seja, Noel convida para um samba onde se podem ouvir não só as suas composições como também as de seus amigos.

Quando você imagina um trabalho como este quais são os critérios levados em consideração para a escolha do repertório?

LH – Em primeiro lugar, procuro escolher músicas que acredito poder interpretar melhor, que tenham mais a ver com meu timbre de voz grave. Também procuro selecionar, dentro das possibilidades, um repertório de cunho mais popular, com possibilidade de cair no agrado das pessoas mais facilmente. Às vezes, a letra da composição não é tão boa quanto sua música, mas, devido à qualidade melódica, vale a pena escolhê-la. Além disso, tento usar da criatividade, batendo novamente na tecla do inusitado. Quando escolhi a música “Último Desejo”, por exemplo, para não ser mais um entre centenas de intérpretes que gravaram este belo samba-canção, optei por cantar a sua segunda parte com a melodia diferente, aquela que a grande Marília Batista jurava ser a correta, ensinada a ela por Noel. Já o samba “Perdi o Meu Pandeiro”, de Cândido das Neves, o Índio, nunca havia sido gravado, apesar de ter sido campeão de um concurso realizado pela revista O Malho, no ano de 1934. Acho que fiz uma boa ação quando resolvi registrar esta pérola em fonograma.

Em “Pro samba que Noel me convidou” você é o responsável por trazer novamente ao universo fonográfico a figura do grande sambista Paulo Marquez. Você saberia nos informar a quanto tempo que ele não gravava?

LH – Conhecer o Paulo Marquez confesso que foi uma das melhores coisas que me aconteceram na produção deste CD. O Paulo, além de ser um cantor excepcional, é também uma pessoa formidável. Acho que já havia algum tempo que ele não entrava em estúdio como convidado de algum projeto, mas não sei precisar quanto. Seu último trabalho foi lançado ainda na era do LP, em 1974, quando gravou, em dupla com a cantora Carmen Costa, um disco inteiro com músicas de Paulo Vanzolini.

Você estreou o espetáculo “Pro samba que Noel me convidou” no início do semestre passado na Sala Municipal Baden Powell, no Rio de Janeiro. Este ano quais são as pretensões para dar continuidade a abordagem deste trabalho?

LH – De fato, o lançamento do CD “Pro Samba Que Noel Me Convidou”, na Sala Baden Powell, foi um acontecimento importante para a minha carreira, inclusive porque tive o privilégio de ter como convidado especial o Paulo Marquez, e, além disso, a felicidade de ter sido acompanhado por músicos de primeiríssima qualidade como o fabuloso flautista Dirceu Leite, o excepcional pianista Nelson Freitas, o fantástico baixista Rogério Fernandes, os incríveis percussionistas Felipe Tauil e Daniel Karin e o excelente violonista e magnífico arranjador Fernando Brandão, produtor do show e também do CD. Em relação a pretensões de continuidade, todos sabemos que divulgar um trabalho independente neste país é realmente uma tarefa muito complicada, mas espero poder abraçar as oportunidades que me forem surgindo. E confesso também que já estou pensando num novo projeto para 2015.


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A ESMERADA PERSONIFICAÇÃO DO SAMBA

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Em um elaborado trabalho de resgate e valorização da obra de Noel o cantor, compositor e pesquisador apresenta-nos pérolas do repertório daquele que é considerado um dos grande ícones da música brasileira

Imbuído de sensibilidade e talento o cantor e compositor Luiz Henrique vem fazendo um esmerado trabalho não apenas de resgate mas também de valorização e perpetuação da obra de alguns dos grandes nomes da música brasileira na primeira metade do século XX. Primeiro idealizou, produziu e abordou o cancioneiro do José Barbosa da Silva, o Sinhô, em um tributo pelos 80 anos de ausência do artista o que resultou no espetáculo “Tributo ao Rei do Samba Sinhô” e no álbum “Um sinhô compositor – Sinhô eu canto assim”.

Morto em agosto de 1930, Sinhô iniciou a sua vida como compositor por volta de 1911, no entanto foi na década de 1920 que se destacaria como um dos mais relevantes compositores do cancioneiro popular com canções registradas pelas vozes de maior destaque da época como Mário Reis, intérprete de dois dos maiores clássicos da lavra do artista (“Gosto que me enrosco” e “Jura”).

Não foi à toa que Luiz Henrique escolheu o repertório justamente de tal decênio para prestar esta homenagem a este que ainda nos dias atuais é considerado como um dos sambistas de maior destaque da música brasileira de todos os tempos. Agora, Luiz Henrique apresenta “Pro samba que Noel me convidou”, mais um relevante projeto a favor da memória da canção popular.

Neste trabalho o lado cantor e compositor do artista carioca divide espaço com rebuscado pesquisador, que retoma o seu objetivo de resgatar grandes nomes do cancioneiro popular. O escolhido da vez é o centenário sambista Noel Rosa. Neste novo álbum Henrique apresenta um trabalho histórico por si só não apenas pela qualidade, mas principalmente pelo minuciosa e dedicada pesquisa de resgate de nomes que corroboraram de um modo ou de outro para elevar o nome do poeta da Vila Isabel ao panteão da música popular brasileira.

Tal qual aurífice, Luiz Henrique em sua refinada busca trouxe para este projeto pérolas pouco conhecidas da lavra de alguns dos maiores sambistas que permearam a história de nossa música, destacando em particular os anos de 1930 para compor as doze faixas presentes no disco. Pode-se dizer que o registro da canção “Perdi o meu pandeiro”, da lavra de Cândido das Neves (o Índio) composta na década de 1930 e registrada em disco pela primeira vez agora, oito décadas depois de composta é um dos pontos altos do projeto.

No entanto merece destaque também registros como a canção “Esquecer e perdoar”, uma parceria de Noel com o Deocleciano da Silva Paranhos, o Canuto, antes registrada uma única vez em outubro de 1931. Sinhô faz-se presente como uma das grandes referências de Noel e autor de “A favela vai abaixo”, samba registrado pela primeira vez por Francisco Alves em 1928. Já em dupla, Noel surge ora com Henrique Brito, seu parceiro e colega no Bando de Tangarás, ora com o partideiro e fundador da Escola de samba Azul e Branco, do morro do Salgueiro Antenor Gargalhada.

Com Brito assina “Queimei o teu retrato”, canção gravada pela primeira vez mais de duas décadas após composta e que neste novo registro Luiz Henrique conta com a luxuosa presença da cantora e compositora Marion Duarte. Sem data de composição conhecida o samba “Eu agora fiquei mal”, foi a única parceria musical existente entre Antenor e Noel.

Dentre as canções que não são de autoria deNoel destaque para uma do cantor e compositor macaense Luiz Barbosa (que assim como o poeta da vila morreu antes de completar 30 anos de idade e vítima da tuberculose). Sendo um dos intérpretes pioneiros do samba sincopado,Barbosa ganhou projeção na década de 1930 cantando composições de alguns dos maiores compositores da música brasileira de então. No entanto o que poucos sabem é que o notório intérprete também compunha, e é uma dessas composições bissextas que Luiz Henrique garimpou para este álbum. “O que sinto por você”, gravada pelo próprio autor em 1933 nesta nova versão ganha a luxuosa participação do cantor mineiro Paulo Marquez, um dos grandes nomes do universo do samba brasileiro.

Há também o pianista e compositor Nilton Bastos com a canção “O destino é Deus quem dá”, uma canção datada de 1929. Com um eloquente arranjo, a faixa se destaca pela presença do piano acústico executado por Fernando Merlino. O passeio pela obra dos grandes compositores dos anos de 1930 continua com a interpretação das faixas “Golpe errado” (Francisco Matoso) e “Você chorou” (Brancura). Como principal autor de sambas da década e grande inspiração para o projeto, Noel Rosa assina de modo individual três faixas interpretadas por Luiz Henrique. São elas “Último desejo” (inspirada canção dedicada a Ceci, o grande amor da vida do sambista); “O maior castigo que eu te dou” (gravada pela primeira vez pela Aracy de Almeida há oito décadas) e encerrando com chave de ouro Luiz interpreta o medley batizado de “Pro samba que Noel me convidou”, composto pelas canções “Com que roupa?” (1930), “Palpite infeliz” (1935) e “Até amanhã” (1933).

Com produção e direção de Fernando Brandão (que também executa cavaco e violão de 6 cordas), seleção de repertório do próprio Luiz Henrique e projeto gráfico de Alex Mendes, a tecitura do refinado álbum destaca talentosos músicos como os veteranos Jessé Sadoc (trompete com surdina) e Dirceu Leite (flauta), além de nomes como Whatson Cardozo (sax tenor e clarone), Chico Vhagas(acordeon), Fernando Merlino (piano acústico), Carlinhos 7 cordas (violão de 7 cordas), Júnior Castanheira (baixo elétrico), Felipe Tauiu e Thiago da Serrinha (percussões), Fabiano Segalote(trombone tenor), Márcio Hulk (bandolim) e Camilo Mariano (bateria). Além dos vocais de Cacala Carvalho, Lê Santana, Bruno Cunha e Karla da Silva.

Perpassar pela obra de um artista do quilate de Noel requer atenção redobrada, uma vez que de tão abordada, suas composições podem acabar soando lugar-comum a cada nova interpretação ou registro. Convicto deste risco o cantor, pesquisador e compositor Luiz Henrique buscou aprofundar-se não apenas nas cercas de 259 canções deixadas pelo poeta da Vila, mas procurou abranger em “Pro samba que Noel me convidou” todo o contexto musical da época escolhida para a abordagem (a década de 1930) a partir de outros compositores contemporâneos.

Abordando temas de domínio público e um repertório nem um pouco clichê, o autor da canção “Grandes mitos” (gravada por Emilinha Borba e Cauby Peixoto) dá início a comemoração dos seus quinze anos de carreira em grande estilo e bom gosto, mostrando com talento e sinceridade musical uma alternativa para solucionar o inexplicável limbo que fantasmagoricamente assola grandes nomes da cultura brasileira de modo geral.

Agora para os amigos leitores ficam aqui duas canções: a primeira trata-se de um medley com as canções “Com que roupa” (adaptação), “Palpite infeliz” e “Até amanhã”:

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A segunda trata-se da canção “O que sinto por você”, que trouxe aos estúdios novamente o cantor Paulo Marquez:

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DE GNATTALI A NAZARETH, O PIANISTA HERCULES GOMES ATESTA UM TALENTO CONGÊNITO

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Incursionando pelo repertório de alguns dos maiores nomes da música popular, o artista capixaba vem apresentando o álbum ‘Pianismo’, seu primeiro registro fonográfico

Os diversos festivais existentes nos quatro cantos do país atestam de modo bastante efusivo que a música instrumental merece lugar de destaque dentro do cenário cultural brasileiro. O público habitualmente toma conta desses eventos atestando de modo irrefutável que a sensibilidade e virtuosismo (que não chega a encontrar espaço nos grandes meios de comunicação de massa) tem um público cativo que ignoram tais estorvos não deixando esse riquíssimo gênero esmorecer.

Um dos exemplos mais bem sucedidos de tais acontecimentos é o MIMO (Movimento Internacional de Música de Olinda) que ano após ano vem ganhando cada vez mais adeptos ao ponto de expandir seus concertos, atividades e oficinas para muito além das circunscrições de sua cidade de origem. De tanto expandir-se o festival hoje atinge o sudeste do país abrangendo cidades como Paraty (no Rio de Janeiro) e Ouro Preto (em Minas Gerais). O sucesso crescente do festival deve muito a uma das ferramentas implementadas pelos organizadores: a etapa para iniciantes, que proporciona o primeiro contato das crianças da rede pública de ensino com a música clássica em um exímio trabalho de formação de público.

Possibilitar essa aproximação de uma sonoridade abundantemente rica e pouco divulgada acaba fazendo desse tipo de proposta algo imprescindível e de suma importância pois desse modo acaba gerando novos adeptos o que consequentemente contribui ativamente para o crescente aumento não apenas das plateias presente no festival, mas também de um novo cenário musical brasileiro, onde trabalhos como o de Hercules Gomes ganhe, de modo expressivo, o devido reconhecimento não apenas por suas habilidades técnicas assim como também pela escolha do seu expressivo repertório.

Natural da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, o musicista Hercules Gomes deu início aos seus estudos musicais de modo autodidata por volta dos treze anos de idade. Em pouco tempo já era possível perceber o talento que aquele adolescente possuía a partir de suas apresentações em bandas do cenário musical capixaba. À época, a partir da beleza de suas execuções, já era possível mensurar o quanto ele ainda podia crescer se houvesse a possibilidade da assimilação do conhecimento teórico. Seu talento nato atestava-o como uma espécie de diamante bruto, onde lapidá-lo seria um processo apenas da assimilação da teoria. Sendo assim decidiu estudar na Escola de Música do Espírito Santo (à época EMES, hoje FAMES) e posteriormente ingressou no curso de Música Popular na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), de onde saiu bacharel.

Nesta trajetória que o artista vem coerentemente galgando já participou de trabalhos ao lado de conceituados músicos tais quais Arismar do Espírito Santo, Wilson das Neves, Michel Leme, Sizão Machado, o sueco Peter Friedsted, o brasiliense Amoy Ribas entre outros. Além disso, já apresentou-se em importantes festivais de música tanto no Brasil quanto no exterior, como o 25º Festival Internacional Jazz Plaza em Havana (Cuba), o Sixitème Festival International de Musique Universitaire de Marrakech (Marrakech, Marrocos), o Festival Brasil Instrumental em Tatuí (São Paulo), o XV CCPA Jazz Festival em Assunção (Paraguai) e o Cascavel Jazz Festival em Cascavel (Paraná).

Sem contar a conquista de diversos prêmios dentre eles o Festival Fampop (Avaré), o Festival Americanta (Americana), o concurso de piano Guiomar Novaes e o 11º Prêmio Nabor Pires de Camargo, promovido pela Fundação Pró-Memória de Indaiatuba em homenagem ao importante compositor natural da cidade e que ajudou, de certo modo, a propagar o nome de Hercules junto ao público assim como também junto a crítica especializada.

Essas experiências favoreceram de modo substancial para o registro do projeto ‘Pianismo’, seu primeiro trabalho solo e que traz consigo algumas características que atestam o nome do artista como um dos mais promissores talentos da nova geração de pianistas brasileiros. ‘Pianismo’ abarca em sua sonoridade as fortes influências sofridas por Gomes sem demarcações.

Os genuínos ritmos brasileiros intercalam-se com o jazz e a música erudita, mostrando a técnica e a versatilidade do artista tanto em composições da própria lavra como ‘Allegro em 3′, ‘Helena’, ‘Opucarana’, ‘Toada’, ‘Nação primeira’ e ‘Platônica’ como em belíssimos arranjos para canções de autores que vão desde Ernesto Nazareth e Hubaldo (‘Odeon’), perpassando por Hermeto pascoal (‘Viva o Rio de Janeiro’), Edu Lobo e Paulo César Pinheiro (‘Dança do corrupião’), Radamés Gnattali (‘Zanzando em Copacabana’), Nabor Pires de Camargo (‘Vá carregar piano’) até desaguar em águas pernambucanas com a execução da canção ‘Duda no frevo’, uma homenagem a José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, um dos maiores regentes, compositores, arranjadores e instrumentista de todos os tempos da música pernambucana e do frevo em especial. ‘Duda no frevo’ é de autoria de outro pernambucano, o compositor Senival Bezerra do Nascimento, o Senô.

Paulo Braga (um dos professores do capixaba quando o mesmo esteve de passagem pelo curso de Música Popular na UNICAMP) é quem assina a apresentação do artista neste debute fonográfico. Sob o aval do conceituado instrumentista ‘Pianismo’ chega com a leve impressão de ser um trabalho de um veterano artista em uma espécie de Déjà vu de extrema qualidade, no entanto o álbum carrega consigo a despretensiosa leveza do novo ao apresentar um repertório regido por algumas das principais vertentes sonoras que constituem o artista.

A segurança transmitida por Hercules ao executar peças não apenas de autoria sua mas também da lavra de alguns dos maiores nomes do cenário instrumental musical brasileiro é mais um fator que atesta de modo irrefutável que por mais que insistam para que o gênero instrumental esmoreça, ainda há aqueles que insistem em modificar esse contexto, indo de encontro aos ditames impostos pelos grandes meios de comunicação procurando abarcar em seu trabalho uma sonoridade rica e única.

O preço que se paga por seguir o viés menos convencional na maioria das vezes é alto porque o artista acaba sendo relegado a uma espécie de segundo plano. No entanto aquele que acredita em sua arte e persiste neste contexto, tal qual o artista capixaba, sabe das agruras e dos percalços a serem enfrentados e procuram fazer deles o combustível ideal para seguir em frente, levando consigo a imaculada bandeira de uma arte, cujo a coerência é um dos alicerces que a sustenta. Que a soma da sensibilidade, da técnica e do talento de Hercules Gomes continue a preencher as devidas lacunas plausíveis dentro do segmento que o artista decidiu seguir, garantindo ainda por muito tempo a qualidade da música instrumental brasileira.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções presentes neste trabalho. A primeira vem a ser de autoria do próprio Hercules e chama-se “Platônica”:

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A segunda canção é para entrarmos no clima carnavalesco. Trata-se de “Duda no frevo”, de autoria do já citado autor Senô:

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GERALDO AZEVEDO, 70 ANOS

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Mesmo sem a celebração da data no carnaval tão almejada por seus seus fãs, Geraldo Azevedo chega aos setenta anos em plena atividade

Quem tem a oportunidade de conhecer Geraldo Azevedo de imediato esquece o ídolo e apaixona-se por uma pessoa que tem por característica uma simplicidade imensurável. O artista que vem contribuindo de modo consistente para a boa música popular brasileira nas últimas cinco décadas fica em segundo plano, pois o ser humano Geraldo Azevedo transpassa sua consistente obra e arrebata os corações de todos que tem esse privilégio. Depois da famosa ponte que liga Petrolina à Juazeiro, Geraldo Azevedo é, sem sombra de dúvida, um dos elos mais vigorosos existente naquela mesorregião do São Francisco.

Oriundo de Petrolina, cidade localizada a mais de 700 quilômetros da capital pernambucana e de clima semiárido quente, Geraldo cresceu neste município localizado na unidade geoambiental da chamada “depressão sertaneja”, unidade que é formada pelas principais características do semiárido nordestino e dono de algumas das principais ilhas do São Francisco. O mesmo São Francisco que banhou e substanciou sua sonoridade e poesia, uma arte que na medida que foi sendo desenvolvida soube, como poucas, unir os costumes e a cultura do sertão com a cena cultural do litoral.

Sob a benção de Dona Nenzinha de Jatobá, em um domingo de lua (como ele bem descreve em “Barcarola de São Francisco”), Geraldo Azevedo seguiu seu destino tal qual descrito na referida canção para representar e defender a cultura de sua terra agregando outros valores acumulados em suas experiências pelos quatro cantos do planeta. Foi a partir de suas origens, bebendo da fonte cultural nordestina que o artista acabou tornando-se universal como hoje é possível perceber-se em seus registros fonográficos e audiovisual ao longo dos últimos quarenta e três anos, desde que ele lançou em parceria com o também pernambucano o disco “Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

Autodidata, com 12 anos de idade já estava tocando violão. Aos dezessete, ainda em Petrolina começou a fazer parte do grupo Sambossa, tocando os dissonantes acordes da bossa nova. Pouco tempo depois, objetivando os estudos Geraldo chega a efervescente capital do seu estado ainda na década de 1960 e nela tem a oportunidade de conhecer de perto a cena cultural existente a partir de nomes como Naná Vasconcelos, Marcelo Melo e Toinho Alves, músicos do Quinteto Violado; Teca Calazans, Carlos Fernando entre outros a partir do grupo folclórico Grupo Construção. Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou com a cantora Eliana Pittman. Em seguida, juntou-se a Naná Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin, formando o Quarteto Livre acompanhando o cantor Geraldo Vandré em diversos shows.

No ano seguinte tem sua primeira composição, feita em parceria com Carlos Fernando, é gravada por Eliana Pittman ao vivo pela Copacabana. Nos anos de 1970 tem a oportunidade de participar do Festival Universitário da TV Tupi com as composições “78 rotações” e “Planetário”ao lado do conterrâneo Alceu Valença. A boa performance da dupla chamou a atenção da gravadora Copacabana que em 1972 possibilita a dupla gravar o primeiro LP de ambos. Esse era o primeiro passo para uma exitosa trajetória que acabaria consolidando o seu nome entre os grandes nomes da música popular brasileira.

Seu primeiro LP solo viria a ser lançado só cinco anos depois a trazendo como grande sucesso “Caravana”, outra canção em parceria com Carlos Fernando e que fez parte da trilha sonora da novela “Gabriela”, da TV Globo. A partir daí vem acumulando diversos sucessos em sua carreira e participando dos mais distintos projetos musicais sempre de modo exitoso. Quem ouve Geraldo Azevedo ouve o eco de muitos anos de história. Do grito corajoso das canções feitas nos chamados “anos de chumbo” da ditadura militar às músicas românticas ou dançantes compostas em tempos democráticos, a obra desse petrolinense continua marcando gerações. São mais de 50 anos de parcerias bem-sucedidas, com nomes como Luis Gonzaga, Geraldo Vandré, Alceu Valença, Elba Ramalho e Zé Ramalho.

Depois de meio século de trabalho, ainda hoje, sua “Canção da Despedida”, composta com Geraldo Vandré, é entoada como hino de manifestações de protesto. Mesmo mais de três décadas depois de ser criada, a música “Dia Branco” ainda embala o casamento de apaixonados de todo o país. Geraldo Azevedo hoje é sem sombra de dúvidas um dos artistas que mais representa os ritmos tão propagados na região Nordeste. Seja o frevo ou o forró, sua arte tem embasamento suficiente para representar cada acorde advindo do seu virtuoso violão.

Apesar do aniversário ser do nosso querido Geraldinho o presente maior quem ganha somos nós sempre, admiradores de sua música e arte. Deixo aqui para os amigos leitores duas canções do repertório do artista. A primeira, para contextualizar com o período, trata-se de “Cadê meu carnaval?”, canção registrada no primeiro álbum solo do cantor e compositor petrolinense e de autoria própria. A faixa ainda conta com a adaptação de uma canção do folclore angolano:

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A segunda canção trata-se de “Coqueiros”, presente no disco Inclinações musicais, álbum de 1981, parceria de Geraldinho com Marcos Vinicius:

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Discografia Oficial

Alceu Valença e Geraldo Azevedo (1972)

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Faixas:

01 – Me Dá Um Beijo
02 – Virgem
03 – Mister Mistério
04 – Novena
05 – Cordão Do Rio Preto
06 – Planetário
07 – Seis Horas
08 – Erosão
09 – 78 Rotações
10 – Talismã
11 – Ciranda de Mãe Nina
12 – Horrível

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WESLEY NÓOG – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Socialmente engajado, o músico faz de sua arte um eficiente mecanismo de propagação das ideologias que acredita

Wesley Nóog procura unir sua arte com aquilo que acredita. A junção desses dois fatores faz do seu trabalho algo prazeroso não apenas para o artista, mas principalmente para aqueles que vem acompanhando seu trabalho nos últimos anos. Prestes a completar quinze anos de estrada, o cantor e compositor vem apresentando o álbum “Soul Assim”, projeto autoral que ressalta toda a sonoridade que o influenciou e hoje o constitui artisticamente como foi possível tomar conhecimento a partir da pauta “NINGUÉM PASSA INCÓLUME AO SEU SOM”, apresentada ao longo da semana passada. Neste bate-papo exclusivo gentilmente concedido por Nóog, ele conta-nos sobre seus planos para o futuro, a sua vivência ligada à Teologia da Libertação, suas iniciativas sociais e as agruras existentes na vida do artista independente. Vale a pena conferir! Boa leitura!

O fato de ter um envolvimento com a música desde muito jovem a partir de sua própria família foi fator determinante para que você enveredasse para a música ou você veio atinar para isso mais tarde após outras experiências?

Wesley Nóog – Meu desejo de cantar e virar um artista surgiu logo na infância. Fui influenciado pelos meus pais que cantavam no coral da Igreja Metodista. Como era tradição na minha família tocar um instrumento, comecei aos sete anos a frequentar aulas de trombone numa instituição religiosa da comunidade em São Miguel Paulista, onde morava, em São Paulo. Mas abandonei, pois não foi agradável. Depois, com oito anos, consegui meu primeiro violão e aprendi a tocar sozinho. Cresci embalado pelo ventos dos anos 80, quando a cultura brasileira passou a ocupar mais espaço na televisão e no rádio, demonstrando-se extremamente fértil e cheia de criatividade. Ouvia Roberto e Erasmo Carlos, Benito de Paula, Itamar Assumpção, Tim Maia, Cassiano, Hyldon, sempre presentes no programa Globo de Ouro da TV Globo. Todas essas estrelas inundaram minha alma e me fizeram sonhar, ao ponto de desejar estar cantando em um daqueles programas. Mas, mais perto de mim, ao lado da minha casa, havia uma família de músicos profissionais que faziam shows à noite. Como eles ensaiavam na garagem, duas vezes por semana, sempre que possível, eu encostava para apreciar o repertório, pois a qualidade do som era muito boa e bem variada, com rock, samba, bolero, baião, reggae, entre outros. Aquilo chamava muito a minha atenção e tinha uma semelhança com os artistas da TV. Eu me realizava ali.

Como era este seu contato com a música em casa? O fato de ser de uma família religiosa o permitia ter a oportunidade e também ouvir música ditas como secular ou não?

WN – Meus pais cantavam no coral da paróquia, e, em casa, viviam treinando as notas melódicas, harmônicas e as letras para apresentarem nos cultos. Também tinham hábito de ouvir rádio e vitrola, onde tocavam Altemar Dutra, Lupicínio Rodrigues, Ângela Maria, Rosa Passos, entre outros. A comunidade evangélica era aberta a outras vertentes musicais e também era possível ouvir clássicos do rock, como Led Zeppelin, Black Sabbath, Elvis Presley, entre outros, assim como os mestres da Black Music, como Marvin Gaye, Aretha Franklin, Ray Charles, James Brown. Os vizinhos me emprestavam os LPs e eu ou os ouvia na minha casa ou na deles. Todas essas influências permitiram descobrir a música sem fronteira e classificação. O que importava era a qualidade e proposta da obra.

Ao entrar no seminário você tinha pretensões em seguir de fato a carreira eclesiástica ou você já nutria o desejo de seguir carreira artística?

WN – Desde criança já sabia que seria artista. O seminário protestante, em Coronel Fabriciano (MG), foi uma oportunidade para eu ter uma formação mais sólida, uma vez que a ciência teológica abrange vários ramos do conhecimento como a História, Sociologia, Filosofia, Música, Grego, Hebraico, Latim, Psicologia, Hermenêutica, exegese, oratória, entre outras. Funcionava num regime de internato. Os estudos eram muito puxados, com uma jornada de oito horas diárias: quatro pela manhã e quatro à noite. Dediquei-me com afinco, por ter consciência do investimento de meus pais na minha formação. Durante os 12 anos no seminário, além de estudar a teoria musical, havia aulas práticas que envolviam vários instrumentos, como bateria, baixo, guitarra, cavaquinho e piano. Nos fins de semana, a escola desenvolvia um projeto que circulava pelas praças da cidade, onde fiz minhas primeiras apresentações em grupo. Quando saí do seminário, cheguei a dar aula particular de Português e Música por quase dois anos, mas logo em seguida passei a me dedicar e a sobreviver só de música, com meus shows.

Ao longo destes anos reclusos você teve a oportunidade de vivenciar de perto alguns dos preceitos da Teologia da Libertação a partir de experiências que antecederam a sua carreira artística. Hoje algumas dessas ideias refletem-se em sua arte e ações. Você procurou trazer esses conceitos para aquilo que você faz ou foi algo que acabou surgindo de modo natural?

WN – As vivências ligadas à Teologia da Libertação eram embaladas por profundas reflexões a respeito de nós mesmos e da realidade cultural, socioeconômica deste mundo que se tornou globalizado e neoliberal. Acredito que a vivência sem reflexão é o mesmo que a plantação sem chuva e sol. Murcha, seca e morre. Entendo nesse processo que para mudar o mundo seria necessário mudar nós mesmos, pois o que nos cerca é reflexo do que pensamos. O corpo segue a mente como uma sombra. Prova disso, são os projetos que ajudamos a criar, como a Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia em São Paulo), a Teoria e a Prática Musical para Adolescentes e Jovens em Medida Socioeducativa na Fundação Casa, os saraus, Poesia no Ar, Chuva de livros, Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro, entre outros.

São cinco álbuns lançados e 15 anos (a serem completados em abril) de estrada caracterizados a partir de uma grande autonomia artística e industrial. Não estar vinculado as grandes indústrias fonográficas, fazendo uma carreira de modo independente com certeza tem seus altos e baixos. Que balanço você faria de sua carreira? O que você destacaria como relevante nesse período?

WN – É uma luta diária, um desafio permanente e também uma grande paixão e um imenso prazer construir e seguir por essa estrada com cinco álbuns autônomos. Dois deles com um trabalho solo: “Mameluco Afro Brasileiro” (2010) e “Soul Assim” (2013). Não estar vinculado às grandes indústrias fonográficas é uma decisão pessoal. Isso não significa que tenha algo contra ou não queira o diálogo. A questão passa pela plataforma das propostas do mercado. Se houver propostas interessantes, estou aberto a conversar. Não quero me fechar, pois seria um contrassenso. Nossa música tem que chegar ao maior número de pessoas possível. Os altos e baixos da carreira estão presentes na vida de todo artista verdadeiro, aquele que tem compromisso e está a serviço de sua arte. Obviamente em graus diferentes, dependendo do tempo de carreira e experiência. Mesmo com inúmeros recursos tecnológicos hoje, como as redes sociais, entre outros, ainda é preciso pensar na carreira artística como quem planeja a construção de uma casa, iniciando pelo alicerce até chegar ao telhado, senão não dá caldo, fica sem consistência, não se sustenta. Não me importo com o tempo, pois entendo que ele é rei e para tudo existe um tempo em baixo sol; nada acontece fora do tempo. Fico feliz pela história escrita até aqui na música brasileira independente, amplamente exposta no Google. Foi escrita com a nossa própria mão, com muito orgulho e plena consciência de que, vivemos o presente criando futuro. Mas o que mais nos surpreendeu até aqui foi o resultado de downloads do quarto disco, Mameluco Afro Brasileiro, que chegou à casa de mais de um milhão de acessos, uma verdadeira façanha no atual cenário da música independente. Ao ponto de surgir um colecionador e arrematar os últimos exemplares da obra, que passou a ser vendida por R$ 50,00 cada no Mercado Livre. Esse álbum também me permitiu fazer uma longa viagem pela Europa, com vários shows e resultados extremamente positivos.

Os seus trabalhos são caracterizados por apresentarem uma marca bastante pessoal, em “Soul assim” não é diferente, pois você assina a maioria das faixas presentes perpassando pelos mais diversos ritmos e gêneros. Como se dá esse seu processo criativo?

WN – Aprendi com o tempo que não sou eu que tenho a música e sim ela que me tem. E a partir daí tudo muda… a gente já não é mais dono de si mesmo, apenas seu servo. As letras, os poemas, as melodias, as harmonias, os ritmos e gênero nascem naturalmente de dentro de mim, como se fossem pássaros que pousam em nosso quintal, atraídos por algum tipo de alimento ou até mesmo sem um motivo muito claro. É preciso sensibilidade e intuição para entender o que a deusa música, rainha das artes, quer da gente. Sei que música não é viagem, mas compromisso com a gente mesmo e os outros. A realidade onde estamos, as leituras, os estudos, as vivências e histórias do dia a dia são o que me movimenta e inspira a criar. Sou muito observador e curioso e quero que a minha música sirva para despertar a alegria e amenizar a dor das pessoas.

A efervescência do soul nacional se deu em especial ao final da década de 1960 e ao longo dos anos de 1970 quando vieram nomes como Cassiano, Hyldon e Tim Maia que acabaram tornando-se referência do gênero no país. Você vem de uma geração que bebeu da fonte desses nomes e hoje os representa de modo bastante substancial. Em sua opinião qual a maior dificuldade para o soul nacional voltar a ter a projeção de anos atrás?

WN – Realmente o Soul está cravado na minha origem e é a principal fonte onde fui buscar inspiração para o meu trabalho. É também filosofia e estilo de vida. A música, dentro da vertente do Samba Soul, é o nosso dia a dia, nossa vida, nosso amor e nossa paz. Para o gênero voltar a ter projeção à semelhança de anos atrás, considero um pouco complicado. O período do auge do Soul estava muito ligado às condições históricas vividas pelo Brasil naquela época, como o estágio de industrialização e o desenvolvimento do país, o que permitiu altos investimentos em entretenimento e diversão para a população. As novas tecnologias estavam engatinhando, mas a televisão e o rádio foram as ferramentas fundamentais para o alcance da massa trabalhadora, de certa forma, com custos baixos e pouco investimento. Atualmente as coisas são totalmente diferentes. O surgimento da internet e da cultura digital mudou tudo. Hoje é possível fazer um disco inteiro em casa, em um home estúdio, obviamente não se discute qualidade. As redes sociais são extremamente fortes na expansão da comunicação e o mundo parece que ficou pequeno. O Facebook, por exemplo, tem muita influência, mas é necessário pagar pelo serviço de expansão da informação nessa rede. Fora isso, há os famosos jabás, verba destinada à veiculação em rádios e tvs das músicas, e outros meios se proliferam alimentados pelo capital. Mesmo assim, entendo que o gênero pode ainda ganhar destaque e ocupar os grandes veículos de comunicação, partindo do pressuposto do investimento e da vontade política das elites. Mesmo que haja todas possibilidades aparentes, ainda é necessário muito trabalho de convencimento e negociação com o mercado. Isso não quer dizer que não seja possível construir esse novo momento, tanto que estou trabalhando firmemente para que isto ocorra.

Você faz um trabalho bastante relevante através do Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro, mostrando que a arte é uma grande aliada às causas sociais. Você poderia contar um pouco como funciona este projeto?

WN – Não conseguimos imaginar um artista que não seja cidadão, que consiga compactuar com a mediocridade e não olhe à sua volta com uma visão holística, integral e profundo amor ao próximo. O Corredor Mameluco Afro Brasileiro é uma iniciativa social catalizadora das linguagens da arte, abrangendo o cinema, a música, o teatro, o grafite, as artes plásticas, a literatura, a poesia, o áudio visual, a dança. O papel desse projeto é promover a articulação, mobilizar e realizar ações que permitam as manifestações expressivas de cada tipo de arte na periferia e no centro, por seus próprios protagonistas. Trata-se de um evento com uma programação, que estende-se das 10hs às 22hs, com horários prefixados e destinados a cada linguagem, que tem seu espaço de manifestação reservado. O encerramento dessa agenda de atividades consiste num grande show, com nomes da música brasileira conhecidos ou não e participações especias de variados artistas.

Você busca para suas letras e canções expressar um pouco daquilo o que é a periferia, realidade esta que está aquém daquilo que muitas vezes o que detém o capital determina como relevante. Você acredita que esse tipo de engajamento acaba por muitas vezes estigmatizando de modo depreciativo o tipo de arte que você faz também?

WN – Nosso trabalho é holístico, integral, está além da periferia e do centro. Na periferia ou no centro, as pessoas sentem angústia, dor, fome, sede, medo do futuro, tristeza e outros sentimentos e necessidades. Trabalhamos com o gênero humano da periferia ou do centro. Todos eles têm um coração que bate e busca a felicidade. Os termos centro e periferia estão muito deturpados pela atual visão sociológica, sobrecarregada de superficialidade e preconceitos. A palavra periferia virou termo vulgar para indicar a moradia de pobres, pretos, bandidos, assassinos, o marginal. Deixou de ser o perímetro da linguagem geográfica e ganhou o estigma da pobreza. Hoje a periferia virou centro e o centro virou periferia em grandes metrópoles. Em São Paulo, por exemplo, o centro fica extremamente vazio nos fins de semana. A periferia ferve com bailes, festas, eventos, tornando-se um grande chamariz. Para resgatar a origem da palavra periferia e carregá-la de um novo significado, dizemos que tudo que produzimos não está no centro, mas, sim, é o centro. Tudo que não produzimos não está na periferia e, sim, é a periferia. Este tipo de ‘engajamento’ pode até se tornar estigmatizado dependendo do olhar do observador. Se o olhar só quer ver a ilusória aparência e não consegue ir além, certamente não terá como ter uma visão clara da realidade e, consequentemente, terá uma falsa impressão depreciativa. A arte que desenvolvemos é a mesma que brota em qualquer lugar, desde que haja sensibilidade e percepção. Como o sol nasce e a chuva cai para todos, assim é a arte. A arte em si não sofre nenhum tipo depreciação. É imune aos nossos conceitos. A música, rainha das artes, tira o indivíduo do lugar-comum. Quem tem contato com ela, jamais será o mesmo.

O que podemos esperar de Wesley Nóog para este ano?

WN – Ao longo de 2015, temos muito trabalho pela frente na divulgação do nosso novo álbum SOUL ASSIM em shows e na Imprensa. O Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro também desenvolverá ações na capital paulista e vai cumprir uma agenda pelas cidades do interior do Estado. Enfim, serão muitas ações, que é o que gostamos de fazer.


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NINGUÉM PASSA INCÓLUME AO SEU SOM…

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Entre os mais variados gêneros Wesley Nóog mostra aquilo que lhe constitui

Com quinze anos de estrada e cinco álbuns lançados Wesley Nóog traz em sua música um balanço genuinamente brasileiro norteado principalmente pelos grandes nomes do soul nacional. Ativista cultural, poeta, cantor e compositor, Nóog traz seu DNA constituído por música, uma vez que seus pais e tios são coristas e maestros. Filho de funcionários públicos e de família religiosa baseada na tradição metodista, o pequeno Ocimar Wesley Nogueira estudou Teologia e música e teve uma infância ambientada neste contexto sempre alimentando o desejo de cantar e compor. No entanto a sua pobre infância acabou o afastando deste desejo que tanto acalentava por conta de motivos maiores. Atendendo a vontade dos pais Wesley priorizou seus estudos seguindo, aos 16 anos, para o Seminário, onde permaneceu por 12 anos sem nunca abrir mão do desejo germinado ainda na infância.

Pelo contrário, foi no Seminário que o artista teve a oportunidade de não só alimentar a sua fé assim como também mergulhar na música e desenvolver as suas aptidões para a arte a partir de um bem estruturado ambiente, onde somado a atmosfera da década de 1970 propiciou ao jovem Ocimar o ambiente ideal para sincretizar a sua arte. Vale registrar que ao longo deste período teve a oportunidade não só de estudar em uma escola estruturada numa fazenda ocupada como também foi educado e conviveu com professores que tinham como herança a Teologia da Libertação das comunidades eclesiais de base, fomentando de modo substancial aquilo que Nóog começou a desenvolver como arte a partir das influências captadas através da sonoridade de nomes como Tim Maia, Jorge Ben, Cassiano, Carlos Dafé e Hyldon, artistas de fundamental importância para a formação da sonoridade do artista.

Ligado a movimentos populares, Wesley Nóog procura levar para a sua arte um pouco daquilo que busca alcançar também enquanto cidadão desde que iniciou sua carreira em 1993 com o grupo Swing e Cia. Após cinco anos no grupo passou a integrar outro grupo, o Estação Fankalha, relevante grupo do cenário musical alternativo. Seu primeiro trabalho solo foi registrado em forma de single e foi composto por duas faixas. Intitulado de “Mameluco Afro Brasileiro”, este debute fonográfico do artista se deu em 2008 como prévia de um projeto mais ousado que culminaria dois anos depois com um álbum constituído por 10 músicas, esmerado através do resultado de um profícuo diálogo entre os ritmos existentes no Brasil aliados as influências do soul e da black music.

Nesta trajetória sempre optou por seguir um caminho alternativo aquele imposto pelas indústrias fonográficas, o que fez com que sua música fosse atrelada aquilo que lhe convinha, o que acabou favorecendo de modo substancial o seu engajamento devido as parcerias com alguns movimentos populares, como a Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) um dos movimentos artísticos mais ativos do estado de São Paulo. “Estar ligado a estas iniciativas permite que eu tenha uma visão mais clara da realidade como também ter ações transformadoras que são negadas pela educação ‘oficial’ e, acima de tudo, exercer a minha função na história como artista cidadão, aquele que vai onde o povo está”, bem define o artista mostrando a sua arte em lugares como a França, por exemplo.

“Soul assim” é um projeto totalmente autoral que busca refletir, de certo modo, como uma espécie de autobiografia coletiva, procurando registrar histórias da periferia a partir da figura de Wesley. O disco que conta com onze faixas, perpassa por gêneros como o samba soul, o funk, o charme entre outros que não só constituem toda a sua sonoridade mas também daqueles que o influencia artisticamente. Faixas como “Não Há Mal que Prevaleça”, Nóog conta que fez uma modesta leitura do suingue do saudoso mestre Tim Maia. Em “Parati” Wesley tem a possibilidade de não só prestar uma homenagem ao município do litoral carioca como também usar o título como dedicatória a partir de um jogo de palavras, o samba-soul “Melhores Sabores” trata de modo análogo alguns dos diversos sabores que extrapolam os dotes culinários.

Canções como “Chora Cuíca”, “Meu Samba”, “Vários Erros”, “Presente de Flores” e “Salve a Flor” trazem a possibilidade de ouvir e avaliar a diversidade do artista a partir de sua veia sambista. Já “Cantador Guerreiro” aborda de modo melódico e poético o sincretismo religioso existente em nosso país. O disco ainda conta com “A Esperança Passa” e “Soul Assim” que batiza o álbum deste artista que almeja um dia conquistar os fãs do ídolo Tim Maia. Em síntese pode-se afirmar que o álbum é uma espécie de autobiografia de todas as coisas que o artista vive e observa.

Produzido pelo maestro Claudio Miranda e pré produzido pelo próprio Nóog em parceria com Tiano Bless (que também é responsável pelos teclados, efeitos e moogs), a ficha técnica do álbum “Soul assim” conta ainda com nomes como Paulinho (bateria) Pikeno (percussão), Claudio Miranda (cavaquinho, banjo, baixo, guitarra, violão e percussão); Cintia Pitcci (flautas, sax e arranjos), Richard Oliveira (trombone, trompete, sax, flautas e arranjos); Nando Rangel e Celso Bernucio (guitarra musical parati) e Rafael Azevedo (contra baixo elétrico). A divulgação e prensagem do álbum contou com o apoio da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que através do Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro (iniciativa criada pelo próprio Nóog).

É válido registrar que todas essas parcerias e articulações contribuíram de modo significativo para o barateamento do projeto. O disco que a princípio exigia um investimento de cerca de R$ 70 mil, saiu por cerca de R$ 20 mil, ou seja, 70% a menos que os números iniciais. Deste modo Wesley Nóog vem traçando de forma bastante peculiar a sua arte, deixando refletir-se nela tudo aquilo que a periferia assimila a partir da grande mídia e da indústria cultural em um momento de verdadeira antropofagia de nós mesmos como vocês poderão conferir ao ter a oportunidade de conhecer não só a arte mas todo o engajamento do artista.

Fica para os amigos leitores duas faixas de “Soul assim”. A primeira trata-se de “Meu samba”, canção como já dito da lavra do próprio artista:

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A segunda canção trata-se de “Não há mal que prevaleça”:

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JOÃO TAUBKIN – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Um baixo, guitarra, violão e uma bateria; eis o João Taubkin Trio, um projeto contemporâneo constituído por diversos gêneros em uma coerente unidade sonora

Se alguns sobrenomes pesam dentro da música o que João traz é um deles. João Taubkin é filho do conceituado pianista, arranjador, compositor e produtor Benjamim Taubkin, mas vem trilhando o seu próprio caminho no universo fonográfico desde 2002, quando participou da gravação do CD “Danças, jogos e canções”, da Orquestra Popular de Câmara. De lá até cá vem dando vazão a sua sonoridade não só acompanhando o seu pai, mas através de diversos projetos ao lado de outros grandes nomes da música brasileira, tais quais Paulo Moura, Léa Freire, Mônica Salmaso entre outros. Sem contar a sua trajetória internacional ao lado de nomes como o do argentino Carlos Aguirre, o do indiano Madhup Mudgal e o do suíço Laurence Revey.

Tudo e muito mais sobre o entrevistado de hoje pode ser conferido através da pauta publicada ao longo da semana anterior aqui mesmo nesta coluna. Não deixando as parcerias de lado, atualmente João hoje vem dedicando-se ao projeto João Taubkin Trio, que ao lado do baterista Bruno Tessele e do guitarrista Zeca Loureiro vem brilhantemente conseguindo encontrar o eixo central da alquimia sonora a qual se propuseram ao dar início a esta ideia. De modo bastante solicito, João Taubkin disponibilizou um pouco do seu tempo para nos presentear com esta despretensiosa e exclusiva entrevista que traz, dentre outras coisas, curiosidades a respeito de sua biografia e de sua carreira tais quais como o seu caminho cruzou com outros componentes do seu trio, suas influências enquanto músico e quais os projetos para este ano que acaba de começar.

Boa leitura!

Quem conhece a sua biografia sabe que você tem um histórico familiar de envolvimento com a música, mas isso nem sempre é fator determinante para que nos tornemos músico. Quando foi que você atinou para a música por conta própria?

João Taubkin – No inicio do ginásio criei um grupo de rock com os amigos e desde então nunca mais parei. Na época tocava guitarra. Quando terminei o colegial não sabia o que eu queria fazer, entrei no cursinho no embalo e nesse cursinho fiquei por 1 mês. Cabulava muitas aulas e comecei a perceber que não tinha sido uma boa escolha. A partir daí, decidi me aprimorar como músico e o instrumento que escolhi foi o baixo (que já tocava no colegial). Fui fazer aula com o Celso Pixinga, que foi uma pessoa importante e por volta de 2001, meu tio Daniel Taubkin me chamou pra fazer parte do grupo dele que era formado por grandes músicos como o percussionista Guello, João Crystal, Emerson Villani e Gigante Brazil. O Gigante em especial, foi uma pessoa muito importante nesse inicio, principalmente pela generosidade. Daí em diante, comecei a tocar com o meu pai e com outros grandes professores. Essa foi a minha faculdade.

Você passou todo o ano de 2010 na maturação da ideia e na elaboração daquilo do molde que você buscava para o projeto. Ao longo desse tempo houve alguma mudança significativa na concepção do João Taubkin Trio?

JT – Quando você não está mais sozinho, as pessoas que estão no processo (Zeca e Bruno) passam a influenciar o trabalho. Isso é inevitável.

Como se cruzaram os caminhos do Bruno Tessele e do Zeca Loureiro com o teu?

JT – O curioso é que conheci ambos na oficina de musica de Curitiba em momentos diferentes no inicio do ano 2000. Na experiência dessa oficina, os alunos de todos os cursos se encontravam nos intervalos pra fazer um som. Foi assim que a gente se conheceu, já tocando.

Todas as faixas presentes neste projeto levam a sua assinatura. Todas elas foram concebidas para atender a este projeto ou já havia alguma engavetada que acabou encaixando-se a esta proposta?

JT – A maioria das músicas presentes no disco não foram feitas pensando na formação de trio. Quando o trio se formou, eu adaptei as músicas.

Certa vez em entrevista seu pai comentou que haveria dois tipos de música: uma que atende a expectativa do mundo e aquela que há dentro de você. O grande desafio seria conciliar essas duas realidades. Você quando compõe leva em consideração essas realidades e procura adequá-la do modo mais harmonioso possível ou não?

JT – Eu faço música sem pensar nessas questões. Ela nasce de uma expressão genuína. Se eu gostar, coloco ela no mundo.

Ser filho de um músico do gabarito do Benjamim facilita as coisas ou a responsabilidade só aumenta? Essa inevitável referência ao nome do seu pai o incomoda?

JT – A responsabilidade aumenta mas ao mesmo tempo, ser filho dele, me possibilitou estar em contato com a música e músicos da melhor qualidade. Essas experiências sempre me colocaram em situações de muita exigência, que foi muito bom pra mim. Nunca consegui um trabalho por ser filho dele mas as experiências que tive ao lado dele são inesquecíveis. A referência que as pessoas fazem em relação ao meu pai é inevitável, mas quando as pessoas conhecem a minha música fica claro que a minha identidade é outra.

Quais as suas maiores influências que você destacaria na concepção de sua sonoridade além do Benjamim?

JT – Minhas influências são diversas mas destaco como principais o Led Zeppelin e o Milton Nascimento. Esses sons mudaram a minha vida.

É possível perceber que sua música não faz concessão. Há ramificações sonoras diversas, por exemplo, neste seu primeiro álbum. Passar longe do conceitual é uma busca constante em sua sonoridade ou é algo espontâneo?

JT – A minha busca é pela identidade. Ela nasce como resultado das experiências que vivi ou inspirada por um filme, um show, uma viagem, uma pessoa, um lugar.

A música instrumental brasileira apesar de riquíssima e de grande sucesso junto a festivais no Brasil e no Exterior não tem o espaço devido nos grandes meios de comunicação. Você acredita que este tipo de cenário é reversível ou tornou-se algo crônico, uma vez que a desvalorização de nossos valores culturais é algo que está presente em nosso consciente coletivo já há muitos anos?

JT – É uma situação delicada pois o ‘jabá’ é um sistema muito atrativo pra quem quer fazer dinheiro. Por exemplo, o artista paga pra rádio, a rádio toca a música infinitas vezes e com isso ele vende mais discos, mais shows e consegue continuar pagando esse jabá. É um sistema que se retroalimenta. Falo da rádio nesse exemplo, mas incluo todos os meios de comunicação. Daí cai na questão da educação. As pessoas são educadas por esses veículos. Esse sistema impossibilita a diversidade da informação. Quem não tem contato com uma cultura de qualidade tem o acesso muito mais restrito, pois esses veículos constrõem um muro de concreto na entrada do caminho que possibilitaria isso. Não acho que a música instrumental tenha que ser uma música das grandes massas, ao meu ver ela não tem esse perfil, mas o espaço que ela ocupa é muito pequeno, a fatia do bolo deveria ser mais generosa. Apesar disso, tem gente séria que divulga a boa música, com menos força que esses grandes veículos mas cumprem um papel muito importante.

Quais os projetos para este ano de 2015?

JT – Em 2014 o trio fez seu primeiro show fora do país, em um festival de música na Colômbia. Fora isso terei o prazer de participar de projetos de outros artistas. Sou muito feliz com o meu projeto, mas tenho muito prazer em fazer parte de outros trabalhos. Isso garante o meu sustento e me enriquece como ser humano. Amo o que faço! Eu vivo cada dia. Acho que isso afina o olhar para as coisas e abre um monte de possibilidades.


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JOÃO TAUBKIN TRIO

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Sob o comando de João Taubkin, os músicos Bruno Tessele e Zeca Loureiro, formam o João Taubkin Trio

Anotem esta receita: pegue uma boa dose de baixo acústico, acrescente uma vigorosa bateria e depois misture generosas medidas de guitarras e violões. Pronto! O resultado final pode ser degustado em nove generosas e bem deitas porções presentes no álbum “Tribo”, cujo menu traz características tão peculiares que torna mais que apetitosa a sonoridade produzida por este entrosado trio. Além disso, não pode-se esquecer ainda que toda receita tem aquele toque especial que a difere de tantas iguais. Neste caso específico, acrescenta-se ao suingue existente o ‘know how’ de cada um dos integrantes adquiridos pelos projetos paralelos de cada um.

A junção destes individuais temperos dá ao João Taubkin Trio o requinte e a sofisticação necessária para transformá-lo em sinônimo de bom gosto e prazer. A ideia de criação deste projeto surgiu e ganhou força ao final de 2009, mas só em 2011 é que de fato teve início a trajetória do trio. Neste intervalo João procurou constituir os moldes daquilo que viria a ser o seu desejo a partir de algumas composições entre outros ajustes que daria ao trio a cara que ele buscava adequar a partir da bagagem de cada um dos integrantes. A mescla das diversas influências musicais, gêneros e estilos resultou nesta instigante sonoridade produzida por este “power trio”. Uma música que não prende-se a rótulos ou fronteiras, distinguindo-se a partir de uma nova concepção sonora que abrange os mais distintos elementos que vão desde o rock and roll, perpassando pela música africana, até de chegar as fonte das influências brasileiras.

João Taubkin, como instrumentista vem agregando vários momentos à sua carreira solo desde 2002, quando participou da gravação do CD “Danças, jogos e canções”, da Orquestra Popular de Câmara. De lá pra cá atuou nos mais distintos trabalhos ao lado de músicos como Beto Villares, o grupo pernambucano Bongar, o argentino Carlos Aguirre, Mônica Salmaso, o marroquino Mehdi Nassouli, Paulo Moura, Léa Freire, Siba, Itamar Doari (Israel), Luiz Brasil, Madhup Mudgal (Índia), Laurence Revey (Suíça) entre outros. Além disso, seu nome figura em dezenas de títulos de álbuns lançados nos últimos anos aqui no Brasil.

São discos de artistas como ‘Circo de pulgas’, de Fabio Barros em parceria com o Grupo Grão; ‘São Mateus não é um lugar tão longe’, do cantor e compositor Rodrigo Campos; o projeto ‘Macunaíma Ópera Tupi’, da paulista Iara Rennó; “Entremeados” (álbum já abordado aqui por mim em outro momento) da musicista Júlia Tygel entre outros. Sem contar que o musicista, além de integrar a banda do pai, participa também de outras atividades musicais ao lado de nomes como Théo de Barros e chegou a integrar a banda Afroelectro, tudo isso levando-o a apresentações em vários locais tanto no Brasil quanto em países como Áustria, Coreia do Sul, Espanha, Israel, Marrocos, Polônia e Suíça.

Já Bruno Tessele nasceu no Rio Grande do Sul e estudou, como aluno bolsista, na conceituada Berklee College of Music, uma das maiores faculdades de música independente do mundo. Atualmente residindo em São Paulo, atua também ao lado de nomes, dentre tantos, como Marcos Paiva, Jorginho Neto, Ana Gilli, Speakin Jazz Big Band e Eliana Pittman. Ao seu currículo soma-se a experiência de ter tocado ao lado de nomes como Teresa Cristina, Filipe Catto, Arícia Mess, Elza Soares, Célia, Walmir Gil, Thiago Espírito Santo, Raul de Souza entre outros; e a participação em projetos como o CD e DVD “In Concert” do músico Gustavo Assis Brasil, o cd “Na Hora” do guitarrista Michel Leme, o cd “Sintoma” de Alex Corrêa e Adauto Dias, uma música para a edição Coreana do cd “A Kind Of Bossa” do cantor Rodrigo Del Arc entre outros. Além de todos estes trabalhos Tessele ainda lesiona no Conservatório Souza Lima e escreve para a Revista Modern Drummer Brasil.

E por fim Zeca Loureiro, que tem por principais influências nomes como The Beatles, Queen e Stevie Wonder. É casado com a cantora Nô Stopa, com a qual forma a dupla folk 2 of uS. Além dessa parceria com a esposa soma-se à sua experiência musical em participações ao lado dos mais diversos nomes dentro do cenário musical brasileiro como o da cantora e compositora Vanessa Bumagny, o do cantor e compositor Zé Geraldo (com o qual gravou o DVD “Cidadão 30 e poucos anos”) e do ator, poeta, cantor e produtor paulista André Mastro (artista já apresentado em nosso espaço juntamente com o seu projeto “Sem Descanso”).

Vale salientar que o músico é irmão do conceituado multi-instrumentista e compositor Kiko Loureiro, que além de guitarrista da banda de metal melódico Angra, vem atuando também de modo individual como no DVD que Zeca participa. Como vocalista e guitarrista da banda Jukabala gravou o disco “3 da Madrugada”, tendo a música ‘Nós dois’ como parte integrante da trilha sonora do programa Sítio do Pica-Pau Amarelo. Além de tudo isso Loureiro também atua na composição de trilhas para filmes publicitários para películas cinematográficas, tal qual a trilha sonora do curta-metragem Minami em close-up foi premiado no Festival Internacional de Cinema da Bahia.

“Tribo” chega como fruto do encontro e da soma dessas experiências paralelas e tantas outras vivenciadas por João Taubkin ao longo de quase duas décadas. Imbuído de uma capacidade, digamos Xamã, ele foi capaz de agregar os elementos precisos nesta alquimia rítmica que faz de cada faixa presente um experimento musical preciso neste “ritual de passagem” como o próprio músico define este seu debute fonográfico. Gravadas (todas ao vivo), mixadas e masterizadas por Zé Godoy. As nove faixas presentes no álbum são resultado de uma extensa gama de influências exercidas pelos inspiradores encontros estrada afora e externadas a partir de suas composições.

É possível encontrar os mais diferentes gêneros musicais nesta simbiose sonora sem se que se perca a unidade proposta. Nesta receita há música africana, jazz, música popular brasileira e rock. Empunhando seu baixo João, conta neste projeto com os temperos de Ricardo Herz (que toca violino na faixa ‘Alô irmãos!’) e do seu pai Benjamim Taubkin, ao Rhodes. É válido deixar registrado também que todas as faixas do projeto são ornamentadas com os vocais do autor, que sob efeitos diversos, não só improvisa mas também transforma esta hibrida receita idealizada por João em um verdadeiro Manjar dos Deuses.

Fica aqui para audição dos amigos fubânicos duas faixas do excelente disco do trio. A primeira trata-se de “Ponto de mutação“, canção que traz um pouco daquilo que o trio é capaz de fazer:

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A segunda canção trata-se da não menos contagiante “Trifonia“:

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COM CAMALEÃO I ADEMIR JUNIOR DÁ INÍCIO A COMEMORAÇÃO DE SEUS 25 ANOS DE CARREIRA

cj

Não poderia existir título mais sugestivo para este projeto que busca comemorar duas décadas e meia de música do artista

Os camaleões possui uma certa capacidade de imitar determinados ambientes para assim que possam ser confundidos com a pairagem na qual se encontra. Tal metamorfose é intitulada de mimetismo, e isso ocorre quando o animal troca de cor conseguindo controlar a concentração de pigmento nas células de sua pele. No âmbito sonoro alguns artistas trazem em sua música tais características, agregando a sua música capacidades que os assimilam a tal lagarto a partir de uma astúcia esmerada como vem ocorrendo ao longo das últimas duas décadas com o músico, maestro, compositor e arranjador brasiliense Ademir Junior, artista que traz em sua sonoridade uma gama de influências e técnicas, constituindo um trabalho bastante peculiar e mesclado pelos diversos gêneros que o constituem enquanto músico e a sua rica sonoridade. A julgar por tal característica, o artista já tem o respaldo necessário para este projeto que vem desenvolvendo: uma trilogia que já conta com o primeiro volume da série cujo título é Camaleão I.

Tal projeto chega objetivando a comemoração das bodas de prata de Ademir com a música, e traz como marca aquilo que constituiu a carreira do músico brasiliense desde o início de suas atividades: a capacidade de integrar-se aos diversos gêneros existentes de modo uníssono, não só mesclando de modo harmonioso todas as expressões sonoras que absorve ao seu redor, mas também transformando isto tudo que assimila em algo maior, que busca fugir daquilo que é convencional adicionando peculiaridades bastante pessoais a esta nova expressão sonora que produz. E de fato são essas peculiaridades que fazem a diferença, e podem ser atestadas não só nas diversas apresentações do músico pelo país afora, mas principalmente através dos registros fonográficos que Ademir Junior vem somando a sua biografia desde 2002, quando lançou o álbum “Gratidão”, título de cunho religioso. Além deste projeto, Junior ainda traz em sua bagagem títulos como “Vitória na cruz” (2007) e “Brasilidades” (2009), mais duas provas documentais que atestam seu talento.

Seu interesse pela música é possível afirmar que vem ainda da infância, quando ao lado do pai deu início aos seus estudos musicais a partir da clarineta. Cerca de três anos após o início destes estudos Ademir ingressa na Banda do SESI, onde permaneceu pelos três anos seguintes. Após este período integra a Banda Sinfônica da Escola de Música, onde torna-se solista e tem a oportunidade de participar de alguns concertos para clarineta. Posteriormente passa a integrar a Orquestra Cristã de Brasília, onde desenvolve de modo mais intenso as suas habilidades musicais, principalmente a partir de sua inserção na UNB, onde tem a oportunidade de estudar e conhecer conceituados instrumentistas tais quais Idriss Boudrioua, Luiz Gonzaga Carneiro, Lula Galvão e Ian Guest.

No entanto é válido registrar que o interesse pelos estudos do saxofone só veio a acontecer quando o artista já encontrava-se com 18 anos como aluno da UNB e sob forte influência de nomes como Widor Santiago e Moises Alves. Seu talento nato fez com rapidamente o musicista desenvolvesse métodos e técnicas próprias para a execução do saxofone, fazendo-o destaque não apenas no cenário musical brasiliense, mas também, aos poucos, em uma escala cada vez maior. Seja como maestro, seja executando saxofones e clarinetes, seja como arranjador ou compositor Ademir Junior vem galgando espaços mais expressivos e significativos neste cenário constituído por uma lista de relevantes instrumentistas como Pixinguinha, Vitor Assis Brasil, Mauro Senise, Léo Gandelman, Nailor Proveta, Marcelo Martins e tantos outros que fizeram a música instrumental brasileira chegar ao patamar que hoje ela encontra-se.

Vale ressaltar que o artista também atua de modo didático periodicamente em diversos festivais por todo o país, ora como professor de improvisação, ora como maestro. Seu curriculum também conta com projetos paralelos a sua carreira solo como é o caso da Brasília Big Band, hoje chamada de Orquestra JK. Idealizada em 2009 pelo próprio Ademir Junior, a big band é constituída por 17 músicos profissionais brasilienses e vem apresentando-se em diversos festivais de música em todo o país desde a sua criação. O grupo já atuou ao lado de expressivos nomes da música popular como foi, por exemplo, do concerto realizado no Espaço da Côrte em comemoração ao dia do Policial Federal onde a orquestra apresentou-se ao lado da cantora mineira Paula Fernandes, executando cinco de suas músicas.

Além disso o músico é responsável pela idealização do curso de improvisação, que surgiu em Brasília como matéria do curso internacional de verão na escola de música e já completou 20 edições expandindo-se por todo o país, motivando e educando músicos de todas as idades na arte e no conhecimento técnico da improvisação e atua também como arranjador da Banda do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Já se apresentou e gravou com vários artistas, entre eles, Hamilton de Holanda, Mat’nalia, Kiko Freitas, Jhonny Alf, Ney Conceição, Roberto Menescal, Rosa Passos, Elza Soares, Toninho Horta, Guinga entre outros expressivos nomes nacionais e internacionais como é o caso do Grupo Solo Brasil, com quem já viajou 16 países com o projeto ‘Uma viagem através da Música Popular Brasileira’.

Nesta trilogia a qual se propõe Ademir, o primeiro volume apresenta nove canções permeadas pelos diversos estilos que estruturam a formação musical do artista, fazendo jus a um título que caiu como uma luva para o projeto a qual se propõe: agregar os diversos ritmos que estruturam e estruturaram a sua formação musical. Quando abordado acerca da trilogia Junior responde: “Todos esses estilos agregados apontam para um caminho que ainda não se sabe onde vai dar, mas que não é a volta de nenhum desses e sim, algo que ainda não vivemos, pois tudo isso se chama evolução.”

A tessitura do projeto conta com nomes como o do saxofonista norte-americano Bob Mintzer, os guitarristas Alexandre Carvalho e Lula Galvão, o pianista Vitor Gonçalves, o saxofonista francês Idriss Boudrioua, o trompetista Jessé Sadoc, o baterista Rafael Barata e o baixista Jeferson Lescowich que expõem de modo preciso técnica e desenvoltura em canções como “JC” (uma homenagem ao saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane), “Feelings”, “Elegia pro Freddie” entre outros temas da lavra de Ademir Junior e de Jessé Sadoc, que assina três das faixas presentes neste arrojado projeto que, de modo veemente e eficaz, tem a capacidade de unificar distintos elementos sonoros sem perder a liga que o transforma na unidade coerente como pode-se ouvir. Tal qual a tez do multifacetado camaleão, Ademir aprendeu a ser assim ao longo dessas duas décadas e meia na qual vem transformando-se em muitos, mas sem perder a sua essência.

Fica aqui aos amigos fubânicos uma das canções presente no disco para que assim possamos iniciar o ano com o pé direito.”Pro JT” é uma canção de autoria do próprio Ademir:

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COQUETEL ACAPULCO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

cj

De sonoridade hibrida, o grupo mescla música jamaicana com influências brasileiras

O entrosado grupo carioca Coquetel Acapulco ao longo deste ano veio divulgando o álbum “Dama da noite”, projeto lançado após dois exitosos Ep’s. Este CD de estreia (também lançado em LP) chega ao mercado graças a bem sucedida campanha de Crowdfunding (uma espécie de financiamento coletivo, onde os próprios fãs e admiradores podem disponibilizar recursos para a viabilização daquilo que se deseja). O álbum, que vem somando elogios não só do público, mas também da crítica especializada traz doze faixas autorais que documentam e atestam a deliciosa e contagiante sonoridade produzida pelos jovens como foi abordada aqui mesmo em nosso espaço a partir da matéria “Eis a dissidência do óbvio”, publicada ao longo da semana passada. Através da pauta anterior pode-se conhecer um pouco mais não só da biografia, mas também da sonoridade produzida por eles, atestando que o que fazem é uma música rica e heterogênea, que tem o Ska (um gênero musical que teve a sua origem na Jamaica no final da década de 1950) como uma das principais diretrizes. Mesmo em volta a ensaios e apresentações, o Léo Mahfuz, integrante da trupe, gentilmente disponibilizou-se a nos conceder esta entrevista exclusiva, onde em nome de todo o grupo, aborda expectativas futuras, os diversos gêneros musicais que os constituem, a forma de compor as canções do grupo, a ideia de prensar o LP entre outras informações como o desejo de um registro em DVD. Vale a pena a leitura!

Como surgiu a ideia da formação do grupo?

CA – Nossa primeira vocalista, Luisa Baeta, foi a responsável pela origem da banda. Ela decidiu reunir músicos da cena independente carioca para tocar ska, em suas vertentes diversas. Não era um projeto autoral, começou como algo bem despretensioso, mesmo. Tínhamos em comum a paixão pelo ritmo jamaicano, mas ninguém sabia muito bem aonde aquilo nos levaria. A guinada foi quando começamos a trabalhar composições próprias, que já apontavam para novos horizontes. Gravamos uma demo com essas primeiras músicas e o resultado foi muito rápido: em poucos meses estávamos abrindo shows para o Móveis Coloniais de Acaju, ainda em 2005, e para a novaiorquina The Slackers logo depois.

O grupo já vai com oito anos de estrada e desde o início vem construindo uma sólida imagem dentro do gênero que abraçaram. Quais os maiores percalços para se firmarem do modo como hoje vocês estão conseguindo?

CA – Por desencontros da vida, a Luisa foi viver no exterior em 2007 e teve que abandonar o projeto. Perdemos uma vocalista, fundadora do grupo, e tivemos que retroceder um pouco, em plena efervescência de shows e EP recentemente lançado. A partir daí tivemos alguns contratempos até conseguir estabilizar a formação e amadurecer a nossa sonoridade. Mas sempre mantivemos a rotina de shows. Quando a Sílvia Tardin entrou para o grupo em 2010, já tínhamos uma identidade musical consolidada, foi mais fácil se planejar e investir no disco, na produção da banda dentro do mercado.

Apesar do ska predominar é possível afirmar que são influências distintas que constituem a sonoridade do grupo como podemos perceber ao ouvir o álbum “Dama da noite”. Quais nomes podemos destacar como maiores influências da música que hoje vocês fazem?

CA – Uma boa dica para entender a nossa sonoridade seriam as versões que tocamos ao vivo, todas releituras bem peculiares de diversos gêneros musicais. Do samba-canção de Cartola ao rock com pegada de música negra do The Clash. Do soul/funk de Aretha Franklin ao afrojazz do maestro Moacir Santos. Aliás, algumas bandas de ska do final da década de 90, como Hepcat e Slackers, foram importantes em mostrar que o gênero pode ser dançante e complexo, pode conviver com qualquer estilo que tenha a música negra como raiz, desde o blues até a salsa. Coisa que, aliás, o Paralamas do Sucesso de certa forma já tinha começado a experimentar um pouco no Brasil desde a década de 80.

Como se deu a escolha do repertório do álbum?

CA – Nós fomos para o estúdio no intuito de gravar todas as músicas autorais que faziam parte do repertório do show: 14 no total. Como o processo de gravação foi todo muito espontâneo, o critério para a escolha das 12 faixas do álbum acabou sendo as que estavam mais bem executadas, as que nos satisfizeram mais. Por isso, convivem no disco músicas dos primeiros anos da banda, com arranjos novos, e canções que compusemos na última hora, prestes a entrar no estúdio.

E o processo de composição de vocês? De que forma acontece?

CA – O processo é bem coletivo e natural. Normalmente escrevo as letras, mas já houve outros letristas na banda também. Quando alguém surge com uma ideia, seja um arranjo, uma harmonia ou uma melodia, nós vamos construindo em conjunto o esboço da canção. Definimos a célula rítmica juntos, o andamento, qual tempero a gente vai dar pros arranjos, o tom etc. Dificilmente a música já se apresenta toda delineada. O mais prazeroso é ver uma ideia incipiente ganhar um contorno completamente novo, uma abordagem que você sozinho jamais conceberia. O resultado é que o disco tem 7 compositores diferentes e várias parcerias, além da contribuição de cada integrante em todas as músicas.

Neste primeiro álbum vocês tiveram a ideia de também lançá-lo em LP. Vocês acreditam que retomada da fabricação do vinil no Brasil chega para dar um up ao mercado ou veio apenas para atender a um nicho específico de público, uma vez que os preços dos discos não são tão atrativos quanto o dos cd’s?

CA – A ideia de prensar o LP veio como algo que fazia todo o sentido pra gente: a arte da capa, uma foto colorizada, remete à época do vinil, é outra dimensão quando se tem o LP em mãos. Nosso som também se valoriza ao se escutar o vinil, por causa da compressão que é menor, dos graves que surgem. Quando convidamos o Victor Rice para produzir o disco, o caminho ficou ainda mais claro: ele trabalha a mixagem de forma totalmente analógica, ao vivo, utilizando máquina de rolo, fita magnética, mesa e efeitos não digitais. Até a ordem das faixas foi pensada como se o disco estivesse dividido em Lado A e Lado B. Quanto ao mercado do vinil, é uma questão ainda em aberto. Parte do interesse vem de um nicho de público, sim. Pessoas que, por nostalgia, modismo ou sincera preferência pelo som do vinil, podem se dar ao luxo de investir não só num LP como num toca-disco, que também é muito caro ainda no Brasil. Mas no exterior, especialmente na Inglaterra e nos EUAs, o preço não é proibitivo e as vendas já superam a dos cds (venda física). O diferencial, acredito, é que o vinil significa um retorno a uma lógica em que a música era menos banalizada, não existia shuffle (risos). O LP é sinônimo de qualidade e dificulta uma cópia fiel.

Vocês estão utilizando das mais diversas ferramentas existentes via internet para auxiliar na viabilização de projetos e divulgação do trabalho com uma boa receptividade do público. Como tem sido feito este trabalho?

CA – A internet não substitui a imprensa tradicional, menos ainda no meio musical. Mas permite que você crie novas conexões com o público, conheça-o melhor, possa interagir mais, mostrar seu trabalho e engajar o fã. O trabalho que realizamos através das ferramentas da internet, especialmente com as redes sociais e o Youtube, tem buscado esse elo constante com o nosso ouvinte: estar sempre próximo, mostrando o que temos a oferecer de novo, de singular, pensando esse contato de forma multimídia. Foi o que aconteceu com o crowdfunding que realizamos para lançar o disco, no ano passado. Preparamos vídeos de divulgação, oferecemos recompensas diferentes como aulas de canto e de instrumento com nossos integrantes, rodada de drinques, pocketshow, composição exclusiva e até a participação no videoclipe de Me Deixe Saber, que acabou contando com a presença de 13 apoiadores. Sejam por fotos, vídeos de shows, gravações de ensaio, músicas novas em versões acústicas, o importante é manter esse canal sempre vibrante, pois só assim conseguiremos dar vazão ao que produzimos, num mundo tão conectado e fluido.

Vocês recentemente lançaram o videoclipe da canção “Me deixe saber” alcançando 5 mil visualizações em duas semanas. Com este sucesso vocês já pensam na produção de um DVD ou algo semelhante?

CA – É uma boa ideia, hein (risos)? Foi muito gratificante gravar esse clipe, não tínhamos tanta consciência de como seria um divisor de águas pra banda. Só temos a agradecer à equipe da produtora Caos e Cinema, pelo talento e profissionalismo. Em 12 horas ininterruptas de gravação, foi possível captar muito bem o clima que queríamos. Dá vontade de fazer um segundo clipe, também. Mas realmente um DVD que captasse a nossa energia ao vivo seria algo fundamental. Assim como o clipe expandiu a forma através da qual o público enxerga a nossa música, gerou novas nuances, um DVD de um show permitira realçar o nosso lado mais dançante, mais pulsante, que o disco capta bem, mas ao vivo e visualmente é outra coisa.

Quais as expectativas para 2015?

CA – Para o ano que vem, o nosso planejamento é aproveitar a repercussão do disco e do clipe para viajar pelo país, mostrar o trabalho em outras cidades. Outro desejo nosso é conseguir desenvolver parcerias, musicais e também de produção de eventos, para fomentar novas possibilidades no meio. Gravar um segundo clipe seria ótimo, quem sabe até um DVD? Enquanto isso, já temos algumas composições novas que estão entrando no repertório do show, já pensando num próximo disco. Outra ideia legal seria gravar algo como o “Studio Sessions” que os americanos fazem tão bem. Gravações de vídeo caprichadas da banda em estúdio, com a possibilidade de exibição online e em tempo real. O futuro parece estar muito por aí.

Pra finalizar gostaria da opinião de vocês perante as polêmicas referentes a autorização ou não acerca de biografias. Artistas diversos estão tomando posições sobre a autorização ou não. Vocês tem uma opinião formada sobre o assunto?

CA – Confesso que não formei completamente a minha opinião. Num mundo ideal, sob o império do bom senso, a liberdade deveria ser total. A necessidade de autorização de biografias, do jeito como preveem atualmente os artigos do Código Civil, poderia sim abrir precedentes para no futuro se limitar o direito à informação jornalística. Recentemente assistindo à entrevista do Paulo César de Araújo, biógrafo do Roberto Carlos, no programa Roda Viva, alguém destacou que a biografia hoje é uma das últimas formas de se fazer um jornalismo mais profundo, com reflexão e mais independência. Compreendo esta demanda. Assim como compreendo o interesse em proteger a privacidade, pois não existe liberdade sem preservação da intimidade. Vide as espionagens americanas pelo mundo, em nome da guerra ao terrorismo. Em vez de olharmos para o mundo anglo saxão, que tem uma cultura mais tolerante com a invasão à privacidade, talvez o melhor fosse buscar outros exemplos de democracia. Prever uma indenização severa a quem ferir direitos de privacidade ou ofender a honra seria um grande passo, assim como a possibilidade de alguém que se sinta ofendido numa biografia possa colocar em destaque na capa essa contrariedade, como é na França, país que me parece ter um melhor equilíbrio nessa questão.


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EIS A DISSIDÊNCIA DO ÓBVIO

BNM

Lançado em 1928, o “Ensaio sobre música brasileira” do poeta, musicólogo e romancista Mário de Andrade traz de modo vanguardista questionamentos acerca das influências culturais na constituição rítmica, melódica e formal da música brasileira. Em dado momento a obra Andrade defende a plausível ideia de que a música brasileira existe além daquilo que consideramos como matrizes de nosso cancioneiro, inclusive procurando trazer questionamentos acerca de suas ideias. Para fundamentar seus pensamentos o escritor lança a seguinte reflexão: “(…) por causa do sucesso dos Oito Batutas ou do choro de Romeu Silva, por causa do sucesso artístico mais individual que nacional de Vila-Lobos, só é brasileira a obra que seguir o passo deles?”. Se vivo hoje estivesse e conhecesse o som produzido por esses jovens cariocas afirmaria com toda a convicção de que valeu a pena suas horas e horas dedicadas ao assunto tendo por objetivo a elaboração de compêndios sobre o tema.

Não afirmo se os jovens do Coquetel Acapulco beberam da fonte do escritor, no entanto a prática da banda condiz e muito com as teorias defendidas pelo autor de Macunaíma, pois o grupo não tem passos definidos a seguir. É preciso enfatizar que essa autonomia não os deixam sem norte, pelo contrário, o trabalho do jovem grupo (que sofre influência de diversos estilos musicais) transforma-se em uma coesa unidade sonora e que agora é possível averiguar através deste debute fonográfico em CD e LP cujo título é “Dama da noite”, e traz doze faixas autorais que misturam melodias e harmonias que trazem arraigada a identidade do grupo abordando os mais variados temas.

Criada em 2005 a banda é formada por Silvia Tardin (voz, vocais de apoio e percussão), Pedro Sucupira (saxofone e vocais de apoio), Nando Arruda (trombone e vocais de apoio), Mario Travassos (teclados), Léo Mahfuz (contrabaixo) e Filipe Rebello (bateria, percussão e vocais de apoio). Sendo da formação original apenas três integrantes: Nando, Léo e Filipe. Ao longo desses anos já passaram pelo grupo diversos vocalistas, dentre os quais Luiz Baeta, Aline Nabisi e André Monnerat. Ao longo desse período o grupo chegou a lançar dois Ep’s (o primeiro em 2007 e o segundo em 2011) e agora traz como resultado de uma bem sucedida campanha de crowdfunding (campanha para obtenção de recursos através da internet).

Sob a égide principalmente do Ska (gênero musical surgido na Jamaica na década de 1950 e que traz em sua constituição elementos sonoros caribenhos e americanos tais quaiscalipso, o jazz e o rhythm and blues), o álbum traz faixas bastante interessantes como a instrumental ‘Tango’ (Pedro Sucupira), que apesar do nome mostra de forma à brasileira porque o gênero musical jamaicano propagou-se rapidamente no mundo e o porquê dele ser capaz de contagiar à todos (sem exceção) já em seus primeiros acordes. A contagiante abertura dá pano pra manga para Silvia entoar ‘Me deixe saber’ (Léo Mahfuz) e ‘Cortesia’ (André Monnerat e Léo Mahfuz), que fundem-se em uma perfeita unidade sonora.

O baile não pára e de modo efusivo o Coquetel apresenta ‘Da noite’ (Léo Mahfuz) e continua a nos embriagar com doses sonoras mais impactantes como, por exemplo, a faixa ‘854’ (Luiz de Marcoe Mahfuz e Sucupira) canção instrumental presente no álbum que destaca o trombone de Nando Arruda. Em ‘Conga’ (Luiza Baeta, Luís de Magalhães e Léo Mahfuz) destaque para o naipe de metais. Sem perder o ritmo, o baile ainda conta com ‘Horizonte’ (Luiz de Magalhães e Léo Mahfuz) e com a dupla Sucupira e Mahfuz, que merecem destaque pelas composições ‘Amor em fuga’ e ‘Velho mundo’, faixas que mostram a leveza sonora de um grupo que vem sabendo de modo muito coeso imprimir a sua identidade. O disco ainda conta com ‘Boas maneiras’, ‘Que tal Paris’ e ‘Campo Minado’, três composições de Léo Mahfuz que endossam as mais diversas situações abordadas pelo Coquetel Acapulco no álbum. Seja o universo feminino, desencontros amorosos ou descobertas pessoais, o grupo soube muito bem quais seriam as vestimentas sonoras precisas.

Masterizado no estúdio El Rocha (SP), por Fernando Sanches, a ficha técnica do projeto conta na produção também com nomes como o do norte-americano Victor Rice, músico e produtor conhecido principalmente na música jamaicana por trabalhos como The Slackers, Easy Star All Stars eNewYork Ska Jazz Ensemble, além de por produções mais recentes no Brasil com Marcelo Camelo,Bixiga 70 e a Mallu Magalhães.

Seja ska, seja reggae ou qualquer outro ritmo que os definam o importante é o grupo soube adaptar sua sonoridade às suas diversas influências, fazendo de sua música um harmonioso painel onde a contemporaneidade convive harmoniosamente com aquilo que é nostálgico. Transformando na verdade aquilo que fazem em um delicioso coquetel de ritmos , onde souberam dosar de modo preciso aquilo que constitui o som que fazem e acreditam. Vale a pena deixar-se contagiar pela alegre sonoridade deste grupo que de modo despretensioso soube associar uma impressionante leveza ao som que fazem.

Aos amigos leitores deixo a para deleite uma das canções presentes no projeto e que acabou virando a música de trabalho da trupe. Tratas-se “Me deixe saber”, canção composta por Léo Mahfuz:

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METAMORFOSEANDO A OBRA DO PAI…

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Em 1977 Raul Seixas lançava pela Warner, gravadora recém chegada ao país, o álbum “O dia em que a terra parou”, um disco composto apenas de parcerias dele com Claudio Roberto. Dentre as dez canções existentes no LP, destaque para três faixas: a canção que dava nome ao projeto, “Maluco Beleza” (que acabou gerando ao artista cognome homônimo a composição) e “Sapato 36″, letra que traz em seu bojo a conflituosa relação entre um filho insatisfeito com as atitudes do pai que cerceiam as expectativas e projetos seus. Raul e Claudio souberam utilizar muito bem de paráfrases e outros artifícios linguísticos para dar o tom da narrativa. Frases como “Eu calço é 37, meu pai me dá 36…” explicita a insatisfação existente e que tem como veredito a abrupta mudança por si só quando o personagem diz: “Pai já tô indo-me embora… Eu quero partir sem brigar… Já escolhi meu sapato… Que não vai mais me apertar…”. Tal lição foi muito bem incutida posteriormente por Vivian Costa Seixas, que à época ainda não era nascida.

Quando o pai partiu Vivian estava com 8 anos de idade e talvez não mensurasse a grandeza da obra de Raul dentro da música popular brasileira e nem muito menos imaginava que os caminhos que viria a traçar posteriormente em dado momento se encontraria com esta obra atemporal. Tudo começou em 1998 quando a artista partiu para um intercâmbio na Austrália que durou um ano. Foi neste período que a filha ultimogênita de um dos maiores nomes da música brasileira escolheu o sapato que coube de modo mais adequado ao seu pé ao encantar-se pelos bits da house music, estilo música eletrônica estilo surgido nos Estados Unidos na primeira metade da década de 1980 derivada da disco music. Ao voltar para o Brasil adotou o nome artístico de Vivi Seixas e começou a discotecar tornando-se hoje uma das deejays mais conhecidas e prestigiadas na cena eletrônica nacional, mostrando sem delongas a hegemonia do seu DNA sobre sua arte.

“Geração da luz – Clássicos de Raul Seixas metamorfoseados” é a prova documental dessa afirmação. É um álbum com faixas que intercalam-se entre sucessos e temas menos conhecidos da lavra de Raul e seus parceiros. Dentre as onze faixas estão a versão em espanhol de um grande sucesso composto por Raul a exatamente 40 anos: ‘Metamorfose Ambulante’, canção lançada no álbum “Krig, ha, Bandolo!” e que vem atravessando as décadas intactas como uma das obras-primas da música popular brasileira. Deste mesmo álbum há também a faixa ‘Mosca na sopa’, outro hit de autoria do músico baiano. Do disco “Abre-te Sésamo”, de 1980, a Dj pincelou quatro canções: ‘Conversa Pra Boi Dormir’ (Raul Seixas), ‘Só Pra Variar’ (Raul – Kika Seixas – Cláudio Roberto) e duas parcerias entre Raul e Claudio Roberto, são elas ‘Aluga-se’ e ‘Rock das Aranha’. De 1983 vem ‘Carimbador Maluco’, cujo autoria é creditada apenas a Raul.

Da antológica parceria entre Raul e Paulo Coelho há duas canções: ‘super heróis’ e ‘Como vovó já dizia’, ambas lançadas em 1974. A primeira fez parte da trilha sonora da telenovela global O Rebu, cuja a trilha foi quase toda composta pela dupla e a segunda encontra-se no disco “Gita”, lançado em 1974. O álbum ainda conta com faixa ‘A geração da luz’, uma das parcerias existente entre os pais de Vivi e registrada em 1984 no álbum “Metrô Linha 743″.

A ideia dessa homenagem surgiu quando Vivi conseguiu junto as gravadoras vários registros a capella do pai. Dessa aquisição até a realização do projeto foram cerca de 06 anos e parece que veio a contento, pois o álbum trata-se de uma realização pessoal fundamentada no desejo de sacramentar em definitivo para as novas gerações a obra de um pai por sua filha a partir da uma nova roupagem estética e musical. “O desejo de Raul era colocar sua impressão digital no planeta terra. Hoje, realizo o seu sonho e o meu sonho de passar suas mensagens para as próximas gerações.”

O álbum foi gravado nos Estudios Hanoi Hanoi e NaGarage e conta com a participação de alguns músico como Alamo Leal (national stell, violão e guitarra), Arnaldo Brandão (baixo e guitarra), Pedro Augusto (rhodes), Donatinho (teclados) e Plínio Profeta (theremin, guitarra, baixo e piano). Plínio (vencedor de um Grammy Latino) ainda assume ao lado de Vivi e do californiano Mike Frugaletti as programações, produção e batidas. Curiosamente sob este prisma, a deejay traz ao álbum uma miscelânea sonora composta por ritmos como o hip hop, o rock, o drum and bass, o deep house, entre outros que curiosamente não fazem com que o trabalho perca a unidade peculiar na qual a obra do roqueiro baiano encontra-se eternizada. Se analisarmos bem veremos que esse experimentalismo encontra-se de modo bastante marcante também na obra de Raul conforme a própria Vivi afirma: “Ele adorava mudar, evoluir, misturar estilos, por isso não tive medo de ousar.”

Metamorfoseando-se entre bits e lembranças afetivas Vivi atesta veementemente a sua condição de destaque dentro do gênero musical ao qual abraçou. E é tocando a obra de seu genitor nas pistas de dança (e agora em disco) que o famoso bordão “Toca Raul” ganha, de modo sui generis, um novo sentido, mais vibrante e altivo. Fazendo com que as mais de duas décadas de partida do saudoso maluco beleza percam o sentido. Vivi Seixas, com toda elegância e versatilidade, substancia-se nas variantes do house e nas diversas influências que constitui o seu trabalho para fazer valer que, assim como seu pai, não vale a pena ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Para audição dos amigos leitores seguem duas canções. A primeira trata-se de “Metamorfose ambulante”, um dos maiores hits da carreira do artista baiano que aqui ganha uma versão em espanhol:

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A segunda canção trata-se de “Aluga-se”, canção regravada no início dos anos 2000 pelo grupo Titãs:

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LEONARDO BESSA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Intérprete oficial da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro a quatro carnavais, Leonardo Bessa tem em sua biografia uma forte ligação com o universo do sambas-enredo. Com mais de 25 anos de carreira, o filho do conceituado músico Reginaldo Bessa hoje participa de carnavais que vão além do Rio de Janeiro como podemos tomar conhecimento a partir da matéria já publicada aqui mesmo em nosso espaço sob o título DE MODO NADA CONTUMAZ LEONARDO BESSA MOSTRA, DE MODO SOLO, AQUILO QUE LHE CONSTITUI. Agora Bessa, que está gravando um vídeo clipe com a participação do cantor e instrumentista Xande de Pilares (vocalista do grupo Revelação), volta ao nosso espaço para conceder uma pequena entrevista onde nos conta o porquê de só agora resolver abraçar a carreira solo e nos conta também sobre futuros projetos referentes ao álbum “Parece um sonho” entre outras curiosidades acerca de sua biografia e vida artística conforme podemos conferir logo abaixo. Excelente leitura!

Quais as lembranças mais remotas do seu envolvimento com a música?

Leonardo Bessa – Minhas idas ao extinto clube do samba com meu pai quando eu tinha uns 5 anos mais ou menos.

Talvez seja possível afirmar que o seu pai seja uma de suas maiores inspirações na profissão na qual você abraçou. Quando foi que você de fato contou com o apoio dele para seguir profissionalmente a carreira artística?

LB – Minha mãe sempre foi minha grande incentivadora e meu pai era o crítico…essas duas partes me fizeram ser o que sou hoje.

A sua biografia confunde-se com a contemporânea história das escolas de samba do Rio de Janeiro. No seu ponto de vista houve mudanças significativas nessas últimas décadas no modo de compor os sambas-enredo?

LB – Muito… aliás o próprio carnaval mudou muito. Hoje o carnaval basicamente se resume na Sapucaí… na minha infância o carnaval de bairros era muito forte, eu brincava tanto que quase não assistia os desfiles na TV. Quanto ao samba enredo ele se tornou funcional e com prazo de validade. Dificilmente os sambas atuais serão lembrados daqui há 10, 20 anos… e estaremos ainda cantando os sambas dos anos 70 e 80.

Apesar de sua pouca idade o seu, digamos, “matrimônio” com o samba já ultrapassou as bodas de prata. O que você poderia destacar nesta carreira de mais de 25 anos?

LB – Ah posso dizer que no samba já fiz quase tudo… de enredo, samba, barracão, mestre sala, bateria, cavaco, ala, empurrar carro alegórico, cantar, jurado etc… etc… sou sambista de carreira

Depois de anos como intérprete não só no carnaval carioca mais de outras localidades no país só agora você resolveu lançar um álbum solo, mostrando inclusive entre outras facetas o seu lado autoral, por que só agora esse registro?

LB – É difícil demais tirar o rótulo de puxador de samba e ser reconhecido com intérprete… muito preconceito e acomodação, mas tô na luta e estou tentando quebrar esse estigma. Consegui uma pré-indicação do meu primeiro cd ao prêmio da música brasileira deste ano, pode parecer pouco para alguns, mas nenhum outro intérprete de samba enredo conseguiu chegar perto disso.

Seu nome hoje já pode ser considerado como uma das marcas indeléveis do carnaval carioca não só por sua atuação como intérprete mas também como produtor dos álbuns junto aos grupos das escolas de samba. A sua notoriedade neste universo musical facilitou para que as portas fossem abertas neste seu novo projeto?

LB – Ajuda sim, mas sonho com o dia em que teremos tratamento igual da mídia o ano todo e não só no carnaval.

Segundo o título do seu álbum você vislumbra as coisas tais quais sonhos. Aproveitando o embalo desse título ainda existe algum grande sonho ou conquista a ser realizado como profissional?

LB – Acho que o reconhecimento do trabalho e igualdade nos espaços da mídia.

Amigos de infância seus resolveram migrar do universo do sambas-enredo ainda muito novos para atuar ora em carreiras solos ou em grupos renomados como foram os casos do cantor Dudu Nobre e Do líder do grupo Molejo, Anderson Leonardo. No entanto mesmo com o boom desse estilo musical você manteve-se coerente naquilo que fazia. Você cogitou a possibilidade de lançar-se cantor naquela época? E se sim por que não arriscou?

LB – Na verdade eu tive atividades paralelas ao carnaval também. Fiz parte de alguns grupos de pagode, acompanhei vários astros da mpb, só não tive o mesmo desprendimento do carnaval. O Dudu sempre que me encontrava me dizia que eu deveria investir nisso e ter a escola de samba como um hobby… rs

Seu nome consta entre os pré-selecionados para o prêmio “Música Brasileira” com este seu primeiro projeto solo. Como você avalia esse reconhecimento?

LB – Como eu disse acima… nenhum outro interprete de samba enredo atual conseguiu chegar perto disso…

Reconhecimentos como estes são verdadeiros estímulos para dar continuidade a essa jornada. O que podemos esperar de Leonardo Bessa em 2014? Cogita registrar “Parece um sonho” em DVD?

LB – Tenho esse sonho mas preciso de apoiadores para dar vida a esse projeto.


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LEONARDO BESSA DE MODO SOLO

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Quando nos referimos a samba de qualidade lembramos quase que de imediato do Rio de Janeiro, pois ao longo dos anos a cidade acabou tornando-se um dos maiores expoentes deste ritmo de raízes africanas. Nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho, Wilson Batista, Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Noel Rosa e tantos outros não só transformaram-se em baluartes do gênero, mas como precursores fizeram verdadeiras escolas para toda uma geração de artistas que hoje figuram na vanguarda do gênero defendendo-o e fazendo com que o som que antes era feito nos morros tenha a oportunidade de descer ao asfalto figurando entre as referências da música brasileira atual.

Com esta possibilidade de sair dos morros cariocas o samba não só fincou raízes em outras pairagens assim como também agregou-se a outras manifestações culturais como o carnaval, onde a partir de 1873 através dos ranchos carnavalescos houveram as primeiras manifestações. Esses ranchos tinham como trilha sonora canções em sua maioria feitas com um andamento dolente, arrastado, deixando a euforia dos primeiros sambistas a ver navios, fazendo com que a insatisfação gerasse a ideia de criar um novo ritmo que permitisse cantar, dançar e desfilar, ao mesmo tempo.

O cantor e compositor Ismael Silva apossou-se dessa ideia e juntamente com alguns amigos criou a escola “Deixa falar”, um bloco carnavalesco e registrado, que fez a sua primeira aparição oficial no carnaval de 1929, na Praça Onze. Nos anos que sucederam este primeiro desfile foi possível perceber o surgimento das mais diversas agremiações para somar força, beleza e tradição as já existentes como é possível hoje atestar, principalmente através dos dois dias de desfiles no sambódromo carioca, evento este acompanhado por milhões de pessoas não só no Brasil como também no exterior através dos canais de televisão, o que o faz inclusive produto de exportação em nosso país. É nesse cenário, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que surge o artista que hoje trago, um músico e compositor embebecido nesta forte tradição do universo do samba: Leonardo Bessa.

O artista que deixou-se envolver com a música ainda criança por influência do pai, o Maestro Reginaldo Bessa (músico também bastante conhecido no universo carnavalesco carioca) deu os primeiros passos neste universo musical a partir da escola de samba mirim Alegria da Passarela, onde juntamente com nomes como Dudu Nobre e Anderson Leonardo (integrante e vocalista do grupo Molejo) atuou não só como intérprete mas também como compositor; posteriormente teve a oportunidade de atuar também na Aprendizes do Salgueiro, outra escola que deu-lhe a chance de mostrar suas habilidades musicais, tanto no instrumento quanto nas composições.

Desde os primeiros momentos descritos no parágrafo acima até os dias atuais passaram-se cerca de três décadas onde Leonardo, hoje com 39 anos, chegou a atuar em diversas escolas tais quais, além da já citadas, Beija-Flor, Grande Rio, Caprichosos e União da Ilha. Como intérprete oficial de escolas de samba, deu início a sua carreira por volta de 2004 no Arranco do Engenho de Dentro. Dois anos depois passou a defender a São Clemente durante três anos. Sem contar que também participa como interprete oficial no carnaval de Uruguaiana, Rio Grande do Sul onde já chegou a ganhar os carnavais de 2008 e 2009.

Está atualmente na Acadêmicos do Salgueiro, onde iniciou como apoio de carro de som e hoje, após efetivado como intérprete oficial ao lado de Quinho e Serginho do Porto, solta a voz na cidade maravilhosa fazendo a Marquês de Sapucaí tremer. Além desta característica de intérprete, Bessa já teve a oportunidade de mostrar suas habilidades como instrumentista acompanhando diversos nomes do samba como Bezerra da Silva, Moreira da Silva, Roberta Miranda, Jorge Benjor, seu pai, Neguinho da Beija-Flor e Jorge Aragão. Sem contar alguns projetos paralelos, como a produção dos cd’s da Liga das Escolas de Samba do Grupo de acesso A e B.

Atualmente o artista vem mostrando ao grande público o seu primeiro disco solo, editado pela Sala de Som Records cujo título é “Parece um sonho”. Um disco de essência autoral onde o artista dá vazão ao seu lado compositor assinando, além da faixa que batiza o disco, mais três das dez faixas existentes. Seu pai assina duas faixas em parceria com Délcio Carvalho e Ney Lopes. As outras canções presentes levam a assinatura de nomes como Gilson Bernine, Xande de Pilares, Sereno, André Renato, Espanhol, Silvio Paulo e Branca Dineve, que assina ‘Salgueiro é uma raiz‘, canção que expressa sua afetividade à agremiação a qual defende. Além desse tributo a sua atual escola o disco aborda temas recorrentes como as relações afetivas e o amor e suas variantes como pode observar-se na faixa que dá nome ao álbum, ‘Uma história de amor’, ‘Sinto que não acabou‘ e nas demais faixas. A saudade também é abordada na faixa ‘Fragmentos‘.

A ficha técnica do disco conta com nomes como Fabio Miudinho, Rafael Queiroz, Daniel Aranha, Vítor Botelho, Rafael Chaves, Fellipe (percussão geral); Luciano Broa e Paulo Bonfim (bateria); Charles Bonfim e Dudu Dias (baixo); Celso Santana e Sandro Cordeiro (teclado); Dirceu Leite (saxes e faluta); Geraldo Alves (trombone, trompete e fluggel); Gege e Rafael Prates (cavaco, violão e banjo); Daniel Aranha (bandolim e violão); Ewerton Cesar (violão); Carlinhos 7 cordas (violão); além do coro de Julia Alan, Babi Mello, Tuninho JR, Cloves Pe, Gabriel Teixeira, Débora Bessa e Marcelle Aranha. O disco ainda conta com a participação da Marcela Galv (cello) e da Bateria Furiosa do Salgueiro com Mestre Marcão, Guilherme, Gustavo, Lolo e Vítor.

Leonardo traz em seu canto uma responsabilidade inata e um incontestável papel neste cenário musical. Neste contexto resta ao samba, o mais brasileiro dos ritmos, agradecer a Leonardo Bessa todo o serviço prestado e toda devoção dedicada por ele ao longo das últimas décadas e por muitas que virão. Pode-se afirmar hoje que seu canto, somado ao de outros intérpretes da atual cena do samba carioca, é talvez a mais representativa das vozes dessa variante do ritmo que fez que o carnaval carioca ganhasse proporções inimagináveis. Os seus samba-enredos sem dúvida alguma são responsáveis por uma parcela significativa do elo existente entre a contemporaneidade do samba e o tradicionalismo, o legado deixado pelos bambas de outrora.

Deixo aos amigos Fubânicos duas faixas para audição deste debute fonográfico do carioca Leonardo Bessa. A primeira trata-se de “O sinto que não acabou“, de autoria de Xande de Pilares e Gilson Bernine:

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A segunda canção trata-se “Parece um sonho“, canção de autoria do próprio Leonardo Bessa:

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DANIELLA ALCARPE – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Recentemente trouxemos ao público leitor aqui da coluna mais uma vez o nome da cantora paulista Daniella Alcarpe, artista esta que vem divulgando atualmente o seu segundo projeto fonográfico batizado de “O tempo salta”. Técnica e talento fundem-se de modo singular nesta artista que desde o ano de 2009 resolveu aventurar-se no universo fonográfico com o elogiadíssimo “Qué que cê qué”, trazendo ao conhecimento do grande público todo o know-how adquirido ao longo de anos através dos diversos conservatórios pelos quais passou. A esse conhecimento teórico soma-se o desmedido talento e um carisma especial que a faz galgar espaços cada vez mais significativos dentro daquilo que almeja alcançar na música e a torna uma das grandes promessas da nossa MPB.

Se em um primeiro momento Alcarpe conseguiu retratar de modo bastante peculiar alguns dos tradicionais ritmos brasileiros em um projeto que buscou exibir um pouco mais o lado escuso do nosso Brasil musical, agora ela apresenta um projeto que procura mostrar toda a sua versalidade trazendo o tempo como regente. Por falar em tempo, Daniella se dispôs a conceder um pouco do seu para nos atender e responder esta entrevista exclusiva, onde fala um pouco sobre este novo álbum, o seu lado compositora e também sobre projetos internacionais entre outras coisas que vocês podem conferir a seguir. Boa leitura!

O álbum ‘Qué que cê qué’, seu primeiro registro fonográfico, foi muito bem avaliado pela crítica especializada assim como também pelo grande público. Querendo ou não isso faz com que a responsabilidade do trabalho seguinte aumente em relação ao anterior, se o contexto for tomado como parâmetro. Como tem sido a recepção de todos a este novo projeto? Tem seguido a mesma trilha do primeiro álbum?

Daniella Alcarpe – Sim, é verdade, a responsabilidade aumenta mesmo. Isso eu acho muito bom, é uma angústia construtiva, uma busca para uma evolução em direção ao Belo, ao Bom, ao Verdadeiro, no sentido grego mesmo. O primeiro CD se concentrou nos ritmos brasileiros, era uma busca das raízes. Agora, com “O Tempo Salta”, o leque se abriu, permitindo uma sonoridade mais variada, como por exemplo o tango que eu gravei. A recepção deste segundo CD tem sido muito boa. Aos poucos, a gente vai criando um público que acompanha o trabalho e isso é muito gratificante. As pessoas tem falado da maturidade vocal, gostam da seleção de músicas, dos arranjos. “O Tempo Salta” traz canções de 13 compositores. Estou bastante contente com o resultado final, mas também já estou pensando no próximo trabalho…

Como este projeto se delineou para que chegasse a ter como temática o tempo?

DA – O tempo, esse mistério, né? Hoje em dia, a gente pensa muito em espaço. O tempo se reduz ao tempo dentro do espaço: ontem, hoje, amanhã, segundos, horas, há dez anos, daqui a 20 anos. Mas o tempo é cósmico, é mítico, é misterioso. Eu queria falar deste tempo que está esquecido hoje em dia, dos lapsos de tempo na vida de cada um, do que dá sentido à passagem do tempo, dos tempos marcantes, dos tempos roubados. Na verdade, o tempo de cada um existe porque é marcado por acontecimentos: o primeiro trabalho, o nascimento de um filho, a morte de um ser querido. Ou um grande amor, uma grande desilusão, um grande susto. É nessas horas que o tempo salta. Era sobre isso que eu queria falar.

Dentro da vasta obra do Caetano Veloso você escolheu “Trem das cores” para interpretar neste álbum. Algum motivo especial para esta escolha?

DA – Caetano Veloso é meu compositor preferido. Adoro tudo o que ele faz … Ouvindo “Trem das Cores”, senti que nesta canção, o tempo é eterno. Eu a escolhi não só pela beleza, mas por ser uma contraposição aos saltos no tempo.

Há entre os compositores deste álbum alguns nomes que estiveram presentes no trabalho anterior. Qual o critério utilizado para a escolha das demais faixas?

DA – A escolha de repertório é uma atividade constante na minha vida, tenho uma “sede” de ouvir músicas novas. Também por princípio eu escuto tudo o que eu recebo. E por várias razões, de proximidade, de identidade, de admiração, eu acompanho mais de perto o trabalho de alguns compositores. É por isso que canções de Joca Freire, Zé de Riba, Lucy Casas, João Marcondes e Carlos Careqa estão em ambos os CDs. Neste segundo CD há compositores que eu queria gravar já faz tempo, como o Caetano, Kleber Albuquerque, Alexandre Lemos, Fred Martins, e algumas novas descobertas como Douglas Germano, Tié Alves e Daniel Borges. Fico procurando na obra destes artistas as mensagens que eu quero transmitir de acordo com o trabalho que estou desenvolvendo. Pode-se dizer que são as músicas que decidem a escolha dos compositores.

Vem de Carlos Careqa o título do seu álbum anterior e neste novo projeto ele é figura de destaque não só assinando algumas composições, mas também dividindo os vocais com você em uma das faixas. Você poderia nos contar como surgiu essa parceria?

DA – O Careqa eu conheci através da Lucy (Casas), compositora e grande amiga, que me mostrou os dois primeiros discos dele há muito tempo. Eu tinha 18 anos e me apaixonei pelas canções. Então, comecei a acompanhar o seu trabalho, de longe ainda. Um belo dia, peguei o telefone de contato na capa de um CD e me apresentei! Nasceu uma amizade, que só vem crescendo. O Careqa sempre foi muito generoso comigo, eu tenho uma grande admiração pelo trabalho dele e pra mim é uma alegria e uma honra ter dividido o palco com ele nos shows de lançamento de “O Tempo Salta” (na maravilhosa canção “Chorando em 2001″).

O caminho das pedras é muito mais tortuoso para o artista independente e isso vem sendo atestado por você desde o seu primeiro projeto fonográfico, no entanto você se vê livre das amarras de uma gravadora o que acaba dando ao seu trabalho uma maior autonomia, fazendo com que haja a possibilidade das coisas delinearem-se do modo como você bem quer. Em sua opinião há mais prós ou contras em um contexto como este?

DA – Eu prefiro ser uma artista independente, embora hoje em dia, existam gravadoras que dão muita liberdade ao artista. A popularização dos meios digitais, da Internet e a das redes sociais, além de novas plataformas para artistas, permite que se faça um trabalho de divulgação e aproximação com o público, sem a necessidade de grandes gastos financeiros. As tecnologias de gravação em estúdio também se tornaram acessíveis. Com tudo isso, além da criatividade e os parceiros certos, a gente consegue fazer milagres como artista independente!

Ainda neste contexto o que temos visto no meio cultural como um dos assuntos que mais tem ganho evidências nos últimos dias tem sido a PEC da música que está por ser promulgada. Há diversos pontos divergentes nesta Proposta de Emenda Constitucional que, segundo muitos artistas, procura atender a interesses apenas daqueles que vendem milhares/milhões de disco ou que estão vinculados às grandes gravadoras. Qual a sua opinião como artista independente?

DA – Acho que qualquer corte ou diminuição de impostos num produto cultural brasileiro é benvindo.

Desde o lançamento do álbum “Qué que cê qué” em 2009 que você vem sedimentando sua carreira no exterior principalmente através de redes sociais como Jango e outras. Talvez motivado por esse tenham surgidos oportunidades de apresentações sua em países como a França e os Estados Unidos. Como tem sido a receptividade do público estrangeiro nessas apresentações internacionais?

DA – É encantador como a música brasileira é recebida lá fora. Eu tenho um enorme prazer em divulgar a nossa língua, (que por si só já é super musical), as nossas melodias, nossos ritmos, nossa cultura. Estou aprendendo muito com estas experiências, pois nossas canções têm em suas letras uma profundidade e é diferente cantar e pensar em transmitir nuances poéticos próprios da língua para os estrangeiros que não entendem o português. Pois as vezes caímos no exótico e esta não é a minha ideia. Tive uma experiência interessante: após um show que fiz em NY, conversei com uma senhora do público, e conversa vai, conversa vem, expus minha angustia a ela em relação a como me fazer entender em português pra um público estrangeiro. E ela me disse para eu ficar tranquila que sua alma havia sido tocada pela musica está linguagem mágica e universal e que ao ouvir som do português mesmo sem entender nada do que eu dizia ela podia, mesmo assim, saber o que minha alma dizia a alma dela. Achei isso bem bonito isso, fiquei feliz, mas a busca continua…..

Dando continuidade ao assunto abordado na pergunta anterior vemos que há muitos casos de artistas com enorme prestígio no exterior e pouca notoriedade no Brasil. Exemplo disso são nomes como Airto Moreira, Cibelle, Flora Purim entre outros. Qual a sua opinião sobre o assunto?

DA – Acho que cada um tem seu destino, um caminho próprio a ser traçado. É muito bom para a música brasileira ter embaixadores de qualidade no exterior.

O que podemos esperar para 2015 da Daniella Alcarpe?

DA – Muitos shows! E muita pesquisa de repertório: o trabalho continua e já tenho algumas músicas escolhidas para o terceiro CD, dentre elas uma parceria minha com o Carlos Careqa.


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DANIELLA ALCARPE MOSTRA SEM SUBTERFÚGIOS QUE O SEU TEMPO É O TODO SEMPRE

De fato o tempo salta para todos conforme preconiza o título do segundo registro fonográfico da cantora paulistana Daniella Alcarpe. E por mais que ele voe e escorra pelas mãos é necessário parar e observar a artista em questão, pois seu talento vem abrindo portas e galgando espaço dentro da música popular brasileira de modo bastante peculiar. Pós-graduada em “Canção Popular”, Daniella iniciou seus estudos musicais ainda criança e, desde então, sempre procurou aperfeiçoasse ao longo dos anos. Formada em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FMU/FAAM), a artista vem procurando aprimorar seu canto nos mais diversos centros acadêmicos e musicais paulistas, dentre eles o Conservatório Musical Souza Lima. Toda esta experiência já suficiente para endossar sua arte, mostrando que o tempo (que neste projeto ela refere-se de modo tão lírico) também é responsável por substanciar o tom preciso nesta escolha musical a qual abraçou.dd

“O tempo salta”, é o seu segundo projeto fonográfico e sucede o elogiadíssimo “Qué que cê qué”, álbum lançado em 2009 e responsável pela inserção de Alcarpe entre as maiores intérpretes da nova geração da música popular brasileira. Em seu debute a intérprete emprestou o seu canto a composições inéditas em ritmos genuinamente brasileiros tais quais o samba, o baião, o frevo e o choro. Agora, quatro anos após o lançamento do seu primeiro disco, a cantora volta de modo rebuscado ao mercado fonográfico mostrando que o tempo é muito mais que o tambor de todos os ritmos. E se de fato o tempo salta, Daniella soube aproveitar-se desse impulso de modo irrefutável para nos trazer uma outra acepção acerca deste termo que nos faz medir segundos, minutos e horas. A experiência adquirida pela artista ao longo desses anos só faz com que tenhamos a certeza absoluta daquilo que certa vez escreveu o poeta curitibano Paulo Leminski: “Haja Hoje para tanto Ontem.”

Apesar dos quatro anos de intervalo entre este e o projeto anterior, “O tempo salta” apresenta-se coeso e preciso, mostrando que Daniella soube maturá-lo nos palcos do Brasil e do exterior ao longo deste hiato de forma bastante depurada. Seu canto límpido flui de modo singular em interpretações carregadas de técnicas rebuscadas e emoção, comprovando de forma incontestável que este intervalo só lhe fez bem, substanciando-lhe na medida exata toda expectativa de um público que já estava ávido por um novo trabalho. Este projeto evidencia que não dúvida alguma quanto ao seu talento e vocação. Fugindo do convencional, o canto de Alcarpe procura não tomar conhecimento de obstáculos e delimitações, fluindo e emocionando independente das medidas convencionais atribuídas ao tempo, em momentos de deleite que tornam-se eternos, pois não há hora marcada para aquilo que nos dá prazer.

“O tempo salta” é composto por onze canções. Dentre as inéditas há também as regravações de ‘Trem das cores‘, da lavra de Caetano Veloso e gravada originalmente em 1982 no álbum “Cores, nomes”. O disco ainda conta com nomes recorrentes no repertório da cantora como o do ator, cantor, produtor e compositor catarinense Carlos Careqa que assina duas regravações: ‘Acho‘ (canção composta pelo a e registrada pelo autor em 1993 no álbum “Os homens são todos iguais”) e ‘Chorando em 2001‘ (onde Careqa divide os vocais com Daniella), assinada em parceria com Chico Mello no disco “Música para final de século”, de 1999. Presente no disco estão também o maranhense Zé de Riba autor da canção ‘Passarim‘, registrada pelo mesmo em 2009 no disco “Não tenho culpa se você não sabe sambar”; já o segundo é Fred Martins. autor da canção ‘Novamente‘ interpretada pelo autor em 2007 no álbum “Tempo afora”, mesma época em que Ney Matogrosso a incluiu no roteiro do elogiado espetáculo “Inclassificáveis”. Vem dos versos desta composição a inspiração para o título do álbum.

Dentre as faixas inéditas há ‘Lágrima de Amor‘, um belíssimo tango composto pelo cantor e compositor paulistano Tiê Alves e que apesar do bandoneon vem imbuído substancialmente de uma brasilidade que evidencia-se não só na interpretação da cantora como também em seu arranjo. Isso mostra uma característica que vem mantendo-se evidente desde o primeiro álbum da artista: a necessidade de edificar uma sonoridade própria, onde a tradição e o regionalismo mescla-se de modo harmonioso com a contemporaneidade como pode-se perceber em faixas como ‘Choro‘, composta por Kléber Albuquerque e que também traz em sua essência a marca que Alcarpe vem pontuando. o experiente cantor e compositor Joca Freire apresenta-se em parceria com Daniel Borges assinando a canção ‘Véu‘. A canção retrata a história de uma eterna espera de uma noiva que espera seu pretenso futuro marido voltar de uma pescaria, no entanto este dia nunca chega. Ainda há no álbum o choro ‘Realmente‘, de autoria João Marcondes e a ‘Canção de desmeninar‘, composta por Douglas Germano. O álbum encerra com ‘Obrigado‘, um samba composto por Lucy Casas.

A ficha técnica do trabalho além da assinatura da cantora conta também com nomes como João Marcondes (violão, coro, percussão, bandolim, produção, conceito, arranjos e direção musical); Gilberto de Syllos e Franco Lorenzon (baixos acústicos), Kabé Pinheiro (percussões); João Poleto (flautas e saxofones); Micaela Marcondes (violino); Martin Mirol (bandoleon); Rafael Mota (congas); Júlio César Barro (atabaques); Nani Barbosa (coro); Daniel Conti (coro); Daniel Cukier (produção executiva), Adriano Gambarini (fotografia), Daniel Canton (arte) e Felipe Ferreira (cabelo e maquiagem).

Se o poeta pede ao tempo o prazer legítimo, Alcarpe vem sabendo muito bem traduzir esta condição ao longo da trilha que resolveu seguir preconizando versos e melodias de modo contínuo neste caminho escolhido. A cantora não deixa limitar-se pelo ontem, o hoje ou o amanhã. Ela mostra-se atemporal na concepção de um som que foge dos convencionais rótulos existentes. Sua música vai além e o seu tempo faz-se tambor de todos os ritmos, pois ele torna-se algo maior e essencial nesta busca. Deste modo ela atesta que seu canto é um prazer que está aquém de todas as medidas, e por mais que o tempo salte sua sonoridade de tão coesa é capaz de fugir de qualquer delimitação de modo indelével, mostrando que sua música é algo maior que qualquer decurso existente.

Para deleite dos amigos, deixo aqui duas canções presentes neste mais recente projeto fonográfico de Alcarpe. A primeira trata-se da canção ‘Trem das cores‘, de autoria do cantor e compositor Caetano Veloso que ganhou o registro do autor em 1982 no álbum “Cores, Nomes”:

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A segunda canção trata-se de ‘Novamente‘, canção também interpretada por Ney Matogrosso como foi dito ao longo do texto:

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PERNAMBUCO FREVANDO PARA O MUNDO GANHA NOVO VOLUME

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Fábio Cabral não se cansa. Seja através de sua Passadisco (loja cultuada por artistas e parada obrigatória para todo aquele que se diz admirador da boa música brasileira) ou através dos diversos projetos nos quais está envolvido (como, por exemplo, o que foi aprovado junto ao Funcultura onde na área externa de sua loja servirá como palco para diversos show em pró da música, em especial a produzida em Pernambuco).

Dono também do selo homônimo a loja, o empresário lançará em breve mais um título que endossa a proposta inicial deste seu bem intencionado selo: divulgar a música pernambucana para além de nossas fronteiras a partir de características pra lá de peculiares sem a menor distinção de gêneros, corroborando de modo imprescindível para atestar o porquê a música produzida na terra de Capiba e Nelson Ferreira é considerada uma das mais representativas do cenário nacional.

A priori criado para o lançamento dos títulos idealizados por Fábio, o selo hoje já conta com cerca de doze títulos dentre os quais o EP do “Projeto Sal”, banda capitaneada por Jader Cabral e que traz em sua sonoridade um efervescente caldeirão de boas influências; o álbum “A.m.a.r.t.e”, primeiro projeto fonográfico solo da talentosa cantora pernambucana Cláudia Beija e “Luar Agreste no Céu Cariri”, álbum onde o compositor Xico Bizerra adorna com sua poesia onze melodias do saudoso Dominguinhos e que são interpretadas por alguns dos mais expressivos nomes da música nordestina tais quais Elba Ramalho, Socorro Lira e Maria Dapaz.

Merece destaque também a série de álbuns lançados a partir de 2006 cujo título vem a ser uma alusão a um dos slogans da Rádio Jornal do Commercio. Sucesso de crítica e público, a série que surgiu com o título “Pernambuco cantando para o mundo” ao longo dos anos foi aglutinando e gerundiando ritmos e hoje conta com títulos como os volumes dois e três da série já citada, o box triplo “Pernambuco forrozando para o mundo”, uma justa homenagem feita a Dominguinhos ainda em vida; e o “Pernambuco frevando para o mundo”, que teve o seu primeiro volume lançado em 2011 e que ganha agora o segundo volume.

Neste lançamento, Fábio selecionou 36 faixas (dentre as quais três inéditas) e conta com a adesão de nomes como Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Antonio Nóbrega, Elba Ramalho, Casuarina, Claudionor Germano, Moraes Moreira, Mundo Livre S/A, Quinteto Violado e Spok Frevo Orquestra. As inéditas são “Frevo morgado“, composta por André Édipo e China a canção fará parte do quarto álbum solo do ex-vocalista do Sheik Tosado; a segunda inédita é “Ritual encantado” de autoria de Tális Ribeiro e Paulo Carvalho e ganha registro nas vozes das cantoras Cláudia Beija, Cristiane Quintas e Nívea Amorim.

Por fim, a inédita “Capibaribe em chamas“, da lavra do vocalista do Projeto Sal Jáder Cabral de Mello. O jovem divide a interpretação da faixa com Herbert Lucena, artista pernambucano que ganhou projeção nacional em 2012 quando ganhou em três categorias o Prêmio da Música Brasileira, o antigo Prêmio Sharp. Assim como o primeiro volume o projeto gráfico ficou sob a batuta de Ana Rios e as fotos a cargo do fotógrafo Mário Carvalho, saudoso fotógrafo do Departamento de Documentação e Cultura da Prefeitura do Recife.

Dentre as faixas presentes, segue abaixo para audição duas dessa coletânea que, apesar do segundo volume, por si só faz-se ímpar. A primeira trata-se de “Frevo dengoso”, de autoria de Don Tronxo, com interpretação de Alceu Valença:

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A segunda canção é o Frevo-de-bloco “O bom Sebastião”, de autoria de Getúlio Cavalcanti que, apesar das inúmeras interpretações, nesta seleção ganha a voz de Moraes Moreira:

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Eis as faixas que irão compor esta nova compilação do selo Passadisco:

Lado A:
01 – Frevo dengoso (Don Tronxo) – Alceu Valença
02 – Chuva de sombrinhas (Nena Queiroga/André Rio/Beto Leal) – Nena Queiroga
03 – Frevo morgado (China/André Édipo) – China
04 – Frevo de bolso (Maestro Forró) – Orquestra Popular da Bomba do Hemetério
05 – Frevo Ariano (Don Tronxo/Marcondes Sávio) – Don Tronxo
06 – Flabelo das ilusões (Heleno Ramalho) – Claudionor Germano + Miúcha
07 – Hino da Troça (Milton Bezerra) – André Rio
08 – Capibaribe em chamas (Jáder Cabral de Mello) – Projeto Sal + Herbert Lucena
09 – João Alexandre no frevo (Ivan do Espírito Santo) – Ecology Trio
10 – Olinda, oração do folião (Sérgio de Andrade) – Sérgio de Andrade + Geraldo Maia
11 – Dionísio, Deus do vinho e do prazer (Péricles Cavalcanti) – Maria Alcina
12 – Bom é Batuta (Carlos Fernando) – Gonzaga Leal + Orquestra Popular do Recife
13 – Ritual encantado (Tális Ribeiro/Paulo Carvalho) – Cláudia Beija, Cristiane Quintas e Nívea Amorim
14 – O menino do pirulito (Toinho Alves/Luciano Pimentel) – Quinteto Violado
15 – Frevoltando (Elton Ribeiro/Tavinho Limma) – Tavinho Limma
16 – (Felipe Soares) – Cabugá + Fábio Trummer
17 – Nóis sofre, mas nóis goza (Bráulio de Castro/Genival Lacerda) – Genival Lacerda
18 – Transcendental (Cláudio Almeida) – Orquestra do Maestro Duda

Lado B
01 – Ponta da pata (J. Michiles) – Geraldo Azevedo
02 – Roda e avisa (Edson Rodrigues/J. Michiles) – Elba Ramalho
03 – Frevo da mistura (DJ Dolores) – DJ Dolores (part. de Maciel Salú e Isaar)
04 – Moraes é frevo (Spok) – Spok Frevo Orquestra
05 – Me segura que senão eu caio (J. Michiles) – Lula Queiroga
06 – A dor de uma saudade/Alegre bando/Valores do passado (Edgar Moraes) – Coral Edgar Moraes e Bloco da Saudade
07 – O bom Sebastião (Getúlio Cavalcanti) – Moraes Moreira
08 – O velho James Browse já dizia (Fred Zeroquatro/Areia/Joe/Tom Rocha) – Mundo Livre S/A
09 – Esse é o tom (César Michiles) – César Michiles
10 – De onde se avista Olinda (Leninho de Bodocó/Zé Maria) – Leninho de Bodocó + Silvério Pessoa
11 – A melodia de fevereiro (Walter Areia/Mônica Feijó) – Mônica Feijó
12 – Frevo do contra-éxodo (João Cavalcanti) – João Cavalcanti + Casuarina
13 – Frevo das rosas (Josias Lima/Kléber Araújo) – Josildo Sá
14 – 8 baixos no frevo (Zé Calixto/Adaptação Arlindo dos 8 Baixos) – Arlindo dos 8 Baixos
15 – Folia geral (Maurício Cavalcanti/Marcelo Varella) – Maurício Cavalcanti
16 – Recifoliando (Beto Hortis) – Arabiando + Beto Hortis
17 – Canoa Furada (Siba) – Siba e a Fuloresta
18 – Despedida (DP/Wilson Freire) – Antonio Nóbrega


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AS RAINHAS DO RÁDIO: PORTUGAL TAMBÉM TEVE A SUA REPRESENTANTE

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Hoje, antes de dar início a esta coluna, venho a público pedi perdão pelo grande equívoco realizado ao longo da semana passada quando trouxe a figura da Dalva de Oliveira como última Rainha dentre as dez que fizeram história no rádio brasileiro. Na verdade, ao contabilizar as semanas, vi que eram nove e, portanto, faltava ainda uma a ser abordada. Lembrei-me que, dentre as brasileiras, Dalva de fato era o último nome apresentado, no entanto, ainda faltava o nome da portuguesa Ermelinda Balula (que preferiu adotar como nome artístico o Heterônimo Vera Lúcia).

Nascida distante das paragens brasileiras, Ermelinda na verdade vem de Portugal, mais precisamente de Viceu, cidade localizada ao norte do país e que hoje conta com pouco mais de 50 mil habitantes. No entanto a sua carreira artística se deu no Brasil, em 1951, quando lançou através do pequeno selo Elite Especial o seu primeiro registro fonográfico onde interpretava um samba de autoria de João de Barro e Alberto Ribeiro intitulado “Copacabana” e o baião “Veio Amô“, do compositor Humberto Teixeira. Ainda no mesmo ano chegou a gravar um dos grandes sucessos de sua carreira, a marcha “Rita Sapeca“, composta pela dupla Klécius Caldas e Armando Cavalcanti (no ano seguinte voltaria a gravar esta mesma dupla de compositores com o samba-canção “Verdadeira razão“).

Entre marchas, sambas, baiões e outros gêneros Vera Lúcia gravou diversos compositores brasileiros e foi aos poucos ganhando a empatia do público a partir de singulares interpretações como a do samba “Não vou chorar” (Humberto Teixeira e Felícia Godoy), a da marcha “Pagode chinês” (Ari Monteiro e Irani de Oliveira), a do “Baião da saudade” (Fernando Jacques), e a dos sambas “Vou-me embora” (Humberto Teixeira e Felícia Godoy) e “Eu não perdoo” (Paulo Menezes e Nilton Legey); além dos sambas-canção “Molambo” (Jaime Florence e Augusto Mesquita), “Filha diferente” (Raul Sampaio e Rubens Silva), “Intriga” (Altamiro Carrilho e Armando Nunes), “Eu sei que você não presta” (Chocolate e Mário Lago), o clássico fado canção “Nem às paredes confesso” (Artur Ribeiro, Max e F. Trindade), “É tarde demais” (Hianto de Almeida) entre outras registradas apenas na década de 1950.

Nesta mesma década a artista chegou a atuar no pequeno selo Elite Special, além das gravadoras Odeon, Sinter e Continental. Aliás, foi esta última responsável pelo lançamento do samba “Valerá a pena” (Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima), canção que acabaria tornando-se uma das pérolas da fase urbana do compositor baiano. Vera, foi responsável também pela gravação de clássicos da MPB como os samba-canções “Castigo” (Dolores Duran), “Por causa de você” (Tom Jobim e Dolores Duran) e composições do maestro soberano Tom Jobim como o samba “Este teu olhar” e o samba-canção “Porque tinha de ser” (este em parceria com Vinicius de Moraes.)

Eleita para ser Rainha do Rádio no ano de 1955, Vera Lúcia teve a sua vitória bastante influenciada por decisão de gaúcho Manoel Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Rádio e apresentador de um programa homônimo do seu nome na Rádio Nacional ao longo de diversas quintas-feiras. Manoel queria a todo custo homenagear a cantora Carmen Miranda, que estava no Brasil para tratar de alguns problemas de saúde. E teve a ideia de eleger uma portuguesa para ser a Rainha daquele ano (Há de registrar-se que Carmen era portuguesa de nascimento assim como Vera.) O radialista através de sua influência junto aos meios de comunicação articulou de modo tão competente que a sua candidata acabou sendo eleita. O que não esperava-se era que sua votação fosse tão inexpressiva se comparada com os votos ganhos na eleição do ano anterior.

Um ano antes Vera Lúcia havia perdido a eleição para Ângela Maria e tornado-se princesa com a expressiva marca dos mais de 900 mil votos (marca nunca antes atingida nem mesmo por nenhuma das Rainhas anteriores). No entanto ela não contava com uma votação mais indelével ainda dada a Sapoti como chegamos a ver ao longo de uma das matérias anterior. Como a nova Rainha estava sucedendo a Ângela Maria, era esta quem, por tradição, deveria colocar a coroa sobre a cabeça da eleita. No entanto não foi o que de fato aconteceu. A coroa foi entregue das mãos da Pequena Notável, a figura mais ilustre da festa e que encontrava-se em visita ao Brasil, como foi dito, para tratamento de saúde.

Em sua coroação, no dia 15 de fevereiro de 1955, ocorreu um espetáculo no mínimo inusitado: A sua entrada no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, foi extremamente pomposa. Conduzida em um andor por quatro atletas que vestiam a camiseta do Clube de Regatas do Flamengo a cantora chegou de modo triunfal. Ângela Maria não gostou, torceu o nariz e nem ficou para o baile. A revista “O Cruzeiro” publicou uma reportagem narrando estes acontecimentos em sua edição do dia 5 de março de 1955. Vale deixar o registro que a sua fama não restringiu-se apenas ao Brasil. Sua voz alcançou a América do Sul e a Europa através de países como Portugal, Argentina e Uruguai, onde a cantora chegou a cantar.

Fica aqui então, como de costume, duas faixas interpretada pela artista portuguesa. A primeira trata-se de “Serenata do Adeus“, de autoria do poetinha Vinicius de Moraes em uma gravação de 1959:

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A segunda faixa trata-se do samba “Janelas do mundo”, de autoria de Billy Blanco e gravada, salve engano, em 1958:

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RAINHAS DO RÁDIO: ENTRE FARPAS E CANÇÕES

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Dalva de Oliveira (Mai/1917 – Ago/1972)

A artista hoje em questão contribuiu de modo ímpar para a música popular brasileira. Paulista de Rio Claro (cidade localizada a 195 km da capital São Paulo), Vicentina de Paula Oliveira nasceu no dia 05 de maio de 1917 e tornou-se nacionalmente conhecida como Dalva de Oliveira. Aos dezessete anos Dalva conhece Herivelto Martins que formava ao lado de Francisco Sena o dueto Preto e Branco. Naquele primeiro encontro, de certo modo, estava sendo criado a gene para o Trio de Ouro, pois pouco tempo depois Dalva passaria a acompanhar a dupla formando ao lado deles um do grupos vocais de maior sucesso no Brasil na primeira metade do século XX.

Do envolvimento profissional com Herivelto para o afetivo foi um passo. Dalva inicia um namoro com o compositor e, em 1937, oficializam a relação. A união daria ao casal dois filhos: os cantores Peri Oliveira Martins, o Pery Ribeiro, e Ubiratan Oliveira Mar. Chegaram a passar dez anos casados até que as constantes brigas e traições por parte de Herivelto deram fim ao casamento. Em 1949, quando a relação com o ex-marido encontrava-se totalmente abalada, Dalva resolve separar-se dele também profissionalmente desligando-se do Trio de Ouro.

Um ano depois a artista retoma a carreira de maneira solo lançando canções como Olhos verdes (Vicente Paiva) e Ave Maria (Vicente Paiva e Jaime Redondo). Há quem afirme que Herivelto (a partir da colaboração do jornalista e compositor David Nasser, do “Diário da Noite“) fosse responsável por matérias mentirosas que difamavam a moral de Dalva nesse período. Tais notícias fizeram com que o conselho tutelar mandasse os filhos do casal para um internato sob a alegação de que a mãe não possuía uma boa conduta moral para criá-los. Dalva lutou pela guarda dos filhos e sofreu muito por isso, protagonizando um dos capítulos mais emblemáticos da história da música brasileira de todos os tempos como foi, de certo modo apresentada, na minissérie Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor, produzida pela Rede Globo em 2010.

Este episódio litigioso entre o casal rendeu canções memoráveis e enriqueceu de modo bastante valioso o acervo do cancioneiro popular brasileiro nesta briga musical. O início do embate se deu com a gravação por Francisco Alves da clássica “Caminhemos“, seguida pela canção “Cabelos Brancos“, registrada pelo grupo 4 Ases e Um Coringa. As respostas viria logo em seguida pelos compositores Lourival Faissal e Gustavo de Carvalho que fizeram para Dalva a canção “Mentira de amor“, assim como também pelas mãos dos compositores J. Piedade e Oswaldo Martins, responsáveis pela composição do samba “Tudo Acabado“.

Talentosíssimo, Herivelto respondia à altura e expunha suas mágoas nos sambas e boleros que ele próprio compunha, enquanto Dalva tinha o apoio de alguns dos grandes nomes da música brasileira como Nelson Cavaquinho, Ataulfo Alves, entre outros que a partir da década de 1950 foram responsáveis por canções como “Falso Amigo“, “Que Será“, “Calúnia“, “Errei Sim“, “Palhaço“, entre outros.

O sucesso de Dalva acabou fazendo com que assinasse contrato com a Rádio Nacional e a sua popularidade junto ao público a habilitava como a candidata favorita da emissora para o concurso de Rainha do Rádio. Seu sucesso era tamanho que não foi difícil obter a vitória na disputa para Rainha do rádio do ano de 1951. Tal feito acabou despertando a fúria do ex-marido que chegou a afirmar em um dos vespertinos da época que a Associação Brasileiro de Rádio não destinava o dinheiro arrecadado com o concurso para a construção do hospital que propagava, declaração esta que acabou gerando para o compositor um processo pelo crime de calúnia.

A sua condição de Rainha do rádio daquele ano serviu para corroborar e atestar de modo definitivo o nome de Dalva como uma das grandes intérpretes da música popular a partir das cerca de 400 gravações deixadas ao longo de mais de três décadas de carreira. É com esta grande estrela de nossa música que hoje chego ao fim (após dez semanas) a abordagem de todas as “Rainhas” do rádio brasileiro. Foram nomes que marcaram toda uma geração e época. Um período bem diferente do que hoje vivemos e que, para muitos, é motivo de saudades. Aproveito a oportunidade para agradecer aos leitores saudosistas (assim como eu) ou não que ao longo dessas diversas semanas fizeram-me companhia nessa viagem a uma época que hoje habita os mais recônditos sonhos. Foi um prazer viajar com vocês e, de certo modo, poder “vivenciar” um período ao qual não tive a oportunidade de viver, mas que foi possível conhecer através dessas prazerosas “sessões de regressão”.

Como de costume ficam duas canções do repertório da artista. A primeira trata-se do samba “Palhaço“, canção de autoria do Nelson Cavaquinho, do Wasghinton Fernandes e do Osvaldo Martins. Alguns afirmam que esta canção, gravada em junho de 1951, veio em reposta ao samba “Consulta teu travesseiro” do Herivelto em parceria com Benedito Lacerda:

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A segunda canção é o bolero “Você“, parceria entre e Hércio Expedito e Laércio Veira, lançada em 1960:

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AS RAINHAS DO RÁDIO: O SAPOTI E A COROA

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Ângela Maria em dois tempos

Aos 85 anos de idade, Abelim Maria da Cunha (ou simplesmente Ângela Maria) continua a cantar e encantar público de todas as idades em mais de sessenta anos de carreira. Sua trajetória teve início na década de 1950 quando Abelim era a primeira voz no coro existente na Igreja Batista do Bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, onde o seu pai, o Reverendo Albertino Coutinho da Cunha era pastor. Apesar de todos os irmãos de Abelim cantarem, era a voz daquela que viria se tornar a sapoti a mais ouvida. Mesmo em um ambiente musical, a futura Ângela Maria almejava mais que o ambiente secular que a cercava e buscou ampliar o seu repertório indo além dos hinos da Igreja que frequentava.

Abelim queria mais, sonhava mais. E esse seu desejo corroborou para a sua decisão em cantar as chamadas “músicas profanas” em programas de calouros não era vista com bons olhos pela família, no entanto a ideia de se tornar artista parecia algo irremediável para a jovem. Seu sonho era tornar-se artista e para isso não lhe bastava trabalhar em uma fábrica, inspecionando lâmpadas, ganhando um salário de 600 cruzeiros velhos por mês e a noite ainda ter que ir para a escola. Para alcançar o seu objetivo e tornar-se uma grande estrela do rádio e consequentemente da música brasileira havia a necessidade de um preço a ser pago e sacrifícios a serem feitos. Um deles consistia na mudança de sua rotina de vida, abandonando inclusive a dura jornada de trabalho, sua fonte de renda.

Seu sonho era ser igual a sua grande referência musical, Dalva de Oliveira. E já era perceptível que talento para isso ela provara que tinha através dos diversos programas de calouros que frequentava e ganhava. Ser cópia fiel de Dalva de Oliveira a credenciou a diversas vitórias nos programas radiofônicos dos quais participou, mas em compensação essa semelhança acabou gerando no início da carreira de Ângela um sério problema: ninguém queria contratá-la pois a consideravam uma cópia fiel de Dalva de Oliveira. Era comum a jovem Abelim, ao apresentar-se nos programas ao qual concorria, justificativas para a sua vitória tipo “Você só ganha prêmios em programas de calouros porque imita Dalva de Oliveira e o público gosta dela. Sinto muito, prefiro o original”. Isso, de certo modo a incomodava até o ponto em que ela já não aguentava mais e precisava atestar de uma vez que o seu talento sobrepujava, sem desmerecer suas grandes referências, qualquer comparação.

Era chegada a hora da mudança e a primeira característica que comprovava isso evidenciava-se em seu próprio nome. Havia chegado a hora de Abelim transformar-se em Ângela Maria, cantora profissional que trocaria as apresentações seculares a amadoras para atuar nos palcos como crooner. A sorte, que parecia estar ao seu lado, corroborou para que a pretensa cantora em três meses já se tornasse artista exclusiva da Rádio Mayrink Veiga ganhando um salário bem maior do que aquele que pouco tempo atrás recebia como operária; além disso, a popularidade a alcançava chegando inclusive à presidência da república, a admiração do Presidente Getúlio Vargas (que a apelidou de Sapoti) foi fundamental para que todo o país também começasse a acompanhar e admirar o seu trabalho a partir de marcantes interpretações.

Quando transformou-se em Rainha do Rádio em 1954, Ângela Maria contava (assim como Marlene cinco anos antes) com o patrocínio da Antártica e isso, de certo modo, influenciou na obtenção, por parte da artista, de um marco no concurso: o posto de campeã absoluta de votos. No ano em que ganhou Ângela Maria obteve mais de um milhão e quatrocentos mil votos, para ser mais preciso foram 1.464.996, uma votação jamais igualada por nenhuma Rainha sucessora. Na época, a artista já não encontrava-se mais vinculada à Mayrink Veiga e sim à conceituada PRE-8, a Rádio Nacional, onde (sob oferta do Colírio Moura Brasil e Cilion) onde apresentava-se em programas como “A Rainha canta”, aos sábados no horário das 14:30 horas, sob narração de Meira Filho e apresentação de Lúcia Helena e Amilton Frazão (sem contar a participação do Maestro Chiquinho e sua orquestra).

Se houve uma década áurea para Ângela pode-se afirmar sem dúvida que foi a de 1950. O sucesso da artista neste período era algo impressionante e perceptível a partir do auditório da emissora que, em suas apresentações, ficava repleto de tietes semana após semana, fato este que colaborou de modo bastante intenso para que a artista a partir dali acabasse tornando-se um dos grandes nomes da música brasileira de todos os tempos e referência para toda uma geração de artistas que viria sucedê-la como, por exemplo, a saudosa Elis Regina, que era fã declarada de Ângela e a considerava uma das vozes mais bonitas do Brasil (opinião compartilhada por inúmeros fãs da artista até os dias atuais).

Recentemente foi lançado pelo selo Discobertas (sob a batuta do produtor e pesquisador musical Marcelo Fróes) o box Angela Maria – Rainha do Rádio (1955-1956) contendo quatro álbuns que abrangem e dão uma boa noção daquilo que a cantora representou na década de 1950. No auge do sucesso popular e de sua forma vocal, a Sapoti mostra nestes álbuns o porquê de sua popularidade a partir de 54 gravações registradas no auditório da Rádio Nacional nos populares programas do qual fazia parte ou participava.

Fica então aos amigos fubânicos duas canções interpretadas por Ângela na década de 1950. A primeira trata-se de “Nunca Mais“, composição de Dorival Caymmi e gravada pela artista no ano de 1958, no disco “Para você ouvir e dançar”:

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A segunda faixa vem a ser a marchinha “Dominó“, composição do grande Lupicínio Rodrigues em parceria com o jornalista David Nasser e lançada em janeiro de 1957:

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AS RAINHAS DO RÁDIO: A FAVORITA DA MARINHA

 emilinha

Dando continuidade à série referente as Rainhas do Rádio brasileiro, hoje trago o nome desta artista carioca da gema, nascida no bairro da Mangueira, no dia 31 de agosto de 1922 e que faleceu no dia 03 de outubro de 2005.

Ainda muito jovem, aquela que viria a se tornar uma das cantoras mais populares da música brasileira, mostrava uma personalidade muito forte. Mesmo contrariando a vontade de sua mãe, apresentava-se em diversos programas de auditório e de calouros, dentre eles, um existente na Rádio Cruzeiro do Sul cujo título era “A Hora Juvenil”, e também no programa do temido Ari Barroso, onde obteve a façanha de conquistar a nota máxima ao interpretar impecavelmente o samba “O X do Problema“, de autoria de Noel Rosa.

Já vem dessa época a certeza de que a vida artística era algo da qual a jovem não poderia mais fugir. O destino já conjurava de modo favorável para isto e a artista perseverantemente procurava fazer a sua carreira acontecer, cantando de emissora em emissora de rádio daquela época, assim como também procurando alternativas para a sua carreira artística deslanchar, como foi no curto período em que formou a dupla musical “As Moreninhas”, com Bidú Reis. Vem do período de formação da dupla o seu primeiro registro fonográfico, um disco 78 rpm voltado para o público infantil: “A História da Baratinha”, numa adaptação de João de Barro.No entanto, a dupla se desfez no ano seguinte e Emilinha preferiu não formar mais dupla alguma. A partir dali, seguiria sozinha.

Com esta decisão tomada, obteve um contrato com a Rádio Mayrink Veiga, recebendo do radialista Cesar Ladeira (criador de diversos nomes artísticos com os quais alguns cantores passaram a ser identificados) o slogan de “Garota Grau Dez”. Sua participação no casting da Mayrink Veiga propiciou um convite de João de Barro (Braguinha) para participar com destaque, em 1939, da gravação da marcha “Pirulito“, cantada por Nilton Paz.

No mesmo ano, através da Columbia Discos e com o nome de Emília Borba, grava seu primeiro disco 78 rpm solo, com as faixas “Faça o Mesmo” (da autoria de Erastóstenes Frazão e Antônio Nássara) e “Ninguém Escapa” (composta apenas por Erastóstenes Frazão).

Em 1949 Emilinha grava a marcha “Chiquita Bacana“, canção que viria a alcançar o primeiro lugar nas paradas de sucesso em diversas emissoras do país. Naquele ano, com o tremendo sucesso que fazia devido à gravação da canção composta por João de Barro e Alberto Ribeiro, era dada como certa sua vitória para Rainha do Rádio de 1949. Entretanto, Marlene, uma cantora que não alcançava nem de longe a popularidade de Emilinha, apareceu e venceu o concurso, como vimos aqui nesta série algumas semanas atrás.

Foi a partir daí que surgiu a famosa rivalidade entre os fãs de Marlene e Emilinha, uma rivalidade que, de fato, se devia muito mais ao marketing e que contribuiu expressivamente para a popularidade espantosa de ambas as cantoras pelo país afora. Só quatro anos depois, em 1953, Emilinha finalmente recebeu o título de Rainha do Rádio, unicamente com o apoio popular, como costumam frisar os fãs da artista. Quando vencedora, sua votação foi tão expressiva que a quantidade de votos obtida era maior que a das outras concorrentes somadas.

Outra briga na biografia de Emilinha aconteceu na década de 1940 quando o cineasta norte-americano Orson Welles, que estava filmando no Brasil, namorava a cantora Linda Batista. Naquela época Linda era a cantora mais popular do país e Emilinha ainda galgava o seu espaço junto ao grande público. Ao conhecer Emilinha, o cineasta não leva em consideração a sua relação com Linda – nem muito menos que a jovem Emilinha já possuía namorado -, e começa a assediá-la, prometendo, inclusive, levá-la para Hollywood. Linda, ao saber de tudo o que estava acontecendo, descarregava suas frustrações na mãe de Emilinha, camareira no Cassino da Urca, local onde era estrela absoluta. Até que, numa noite em que ambas se apresentariam no mesmo espaço, Linda cerca Emilinha nos bastidores, chega a lhe agredir com alguns tapas e rasga seu melhor vestido, com o qual ela se apresentaria dali a pouco. Desse dia em diante, Linda e Emilinha nunca mais se deram bem. O cantor Jorge Goulart chegou certa vez a dizer que Linda usava todo o seu prestígio como grande estrela do Cassino da Urca para dificultar a ascensão de Emilinha Borba por lá.

Aos amigos leitores deixo duas canções do repertório desta artista que foi uma das grandes de sua época. A primeira é a música “Benzinho“, canção composta pela dupla Fernando Costa e Rossini Pinto, uma guarânia que foi lançada em disco 78 rpm no ano de 1962:

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Já a segunda canção é o bolero “Castigo, meu amor“, da lavra da dupla Fernando Barreto e Fernando Costa também lançada em 1962:

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RAINHAS DO RÁDIO: SEGUINDO A LINHA DE SUCESSÃO

dircinha

Primeira intérprete (junto a sua irmã Linda) a gravar “Abre Alas” de Chiquinha Gonzaga na íntegra, Dircinha Batista tem, sem dúvida alguma, assim como a sua irmã, um papel de destaque dentro da música popular brasileira. O enorme sucesso que atingiu ao longo de mais de quatro décadas de carreira a credenciou a ter o seu nome gravado dentro da MPB como uma das grandes intérpretes do século XX.

Sua discografia é composta por mais de trezentos registros entre discos em 78rpm e lp’s que trazem consigo muitos grandes sucessos, especialmente músicas que animaram os carnavais de outrora. Diferente de Mary Gonçalves (artista abordada ao longo da semana passada que deu início a sua carreira no cinema), Dircinha, que chegou a trabalhar em dezesseis filmes, iniciou a sua carreira artística na música de modo muito precoce, pois Dircinha começou a se apresentar em festivais aos seis anos de idade assim como também a acompanhar o pai em diversas apresentações musicais no Rio de Janeiro e em São Paulo. Uma criança prodígio que era capaz de demostrar a sua afinidade com a música na mais tenra idade.

Anos depois, quando a sua carreira como cantora já estava alinhando-se, a artista começa a fazer incursões pela sétima arte participando, aos treze anos, do filme “Alô, Alô, Brasil” e, no ano seguinte, de “Alô, Alô, Carnaval” (ambos de Wallace Downey). Outros títulos que contaram com a participação da cantora foram “Futebol em Família”, “Bombonzinho” e “Banana da Terra”, filme musical produzido também por Wallace Downey e que tem como roteiristas João de Barro e Mário Lago eque conta com a direção de Ruy Costa. Neste filme Dircinha atua ao lado de Oscarito e de outros grandes nomes da música popular da época como as irmãs Aurora e Carmen Miranda, Orlando Silva, Bando da Lua, Emilinha Borba, Carlos Galhardo entre outros. Esse longa-metragem conta ainda com a participação de sua irmã Linda Batista.

Em 1930, aos oito anos, gravou seu primeiro disco, para a Columbia, com duas composições de Batista Júnior, “Borboleta Azul” e “Dircinha” e já no ano seguinte tornou-se membro do programa de Francisco Alves na Rádio Cajuti. Neste programa permaneceu até seus dez anos, quando então mudou-se para outra emissora, a Rádio Clube do Brasil, emissora que também contribuiu para a sedimentação e popularização do seu nome junto ao grande público. Três anos depois da gravação do seu primeiro 78 rpm ela registra “A Órfã” e “Anjo Enfermo”, de Cândido das Neves, que contou com o acompanhamento do compositor ao violão juntamente com Tute. Em 1936, gravou dois discos pela Victor.

O ano era 1948 o concurso passaria por duas modificações: a primeira referente ao posto de Rainha, uma vez que após mais de uma década de reinado absoluto Linda Batista resolve abdicar do posto para favorecer a irmã, e a segunda era referente a organização do evento, que passaria agora a ser feita pela ABR (Associação Brasileira de Rádio). O concurso daquele ano dava como certa mais uma vitória de Linda, quando ela surge com a surpreendente notícia de que não concorreria ao posto naquele ano. Para alívio dos fãs a família seria representada por sua irmã Dircinha, que representando as emissoras Tupi-Tamoio sagrou-se campeã, arrecadando um total de 25.914 votos estendendo por mais um ano a hegemonia da família Batista junto ao concurso de maior prestígio e popularidade do rádio brasileiro de todos os tempos.

Ao longo de sua carreira além das rádios citadas anteriormente chegou a atuar também na Rádio Nacional, foi contratada pela TV Tupi na década de 1960 e chegou atuar no teatro em duas peças. Uma curiosidade acerca da carreira de Dircinha se deu em 1937 quando o compositor e maestro Benedito Lacerda a convidou para gravar uma composição de sua autoria, o samba “Não Chora”. A cantora registra tal canção no entanto o compositor esqueceu da outra faixa que faria parte do labo B do 78 rpm. Sem saber o que faria com aquele outro lado do disco a solução foi consultar os compositores que se ali se encontravam no estúdio, dentre eles Nássara, que tinha consigo apenas a primeira parte de uma marchinha. Ali mesmo, o caricaturista e compositor, concluiu a letra e a canção de “Periquitinho Verde” juntamente com Sá Roris. Grava ocasionalmente apenas para completar aquele 78rpm, a música acabou tornando-se o primeiro sucesso na carreira da atriz e uma das mais executadas do carnaval do ano seguinte.

Agora fica aqui para os amigos leitores duas canções interpretadas por Dircinha. A primeira trata-se da polka “O Sanfoneiro Só Tocava Isso”, lançada em dezembro de 1949 e de autoria de Haroldo Lobo e Geraldo Medeiros:

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A segunda canção trata-se de uma composição do pernambucano Antonio Maria: “Se eu morresse amanhã”, gravada por Dircinha em 1953:

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RAINHAS DO RÁDIO: A SORTE FOI UM “ADMIRADOR ANÔNIMO”

 Mary Goncalves

Nascida em Santos, a grande cidade portuária do estado de São Paulo, Nice Figueiredo Rocha iniciou a sua carreira artística longe dos auditórios de rádio e estúdios de gravações, como todas aquelas que a antecederam nesta série. Série na qual venho apresentando todas as Rainhas do Rádio brasileiro, enquanto o concurso esteve vigente, entre as décadas de 30 e 50 do século passado.

Popularmente conhecida como Mary Gonçalves, a cantora iniciou sua carreira artística como atriz de cinema estreando em 1944 no elenco do filme “Gente Honesta“, segundo filme do diretor mineiro Moacyr Fenelon e que contava no elenco com nomes como Oscarito e Oswaldo Louzada.Sua estreia no rádio só viria a acontecer seis anos depois quando foi contratada para fazer parte do casting da Rádio Nacional.

Após a sua inserção no mundo do rádio teve a oportunidade de gravar pela Sinter o seu primeiro disco, um 78 RPM com as faixas “Penso em você” e “Só eu sei“, dois sambas-canções compostos por Fernando Lobo e Paulo Soledade. Nesta gravação a estreante contou com o acompanhamento do conceituado maestro, arranjador e pianista Lyrio Panicali e seu conjunto de boite. No entanto, a futura Rainha do Rádio teria na música uma carreira meteórica, gravando apenas cerca de uma dúzia de 78 RPM. Sua última gravação data de 1956, quando registrou em disco de cera as canções “Deixa disso” (Newton Ramalho e Nanci Wanderley) e o samba-canção “Patati-patatá” (Hianto de Almeida e Francisco Anísio).Depois deste registro, abandonou a carreira artística e passou a viver na Colômbia.

Entre esses escassos registros fonográficos da artista, ao longo dos cinco anos em que gravou, há canções como  “Aquele beijo“, de Claribalte Passos e Lírio Panicali; o baião “Coreana“, de Humberto Teixeira e Felícia de Godoy; o samba-canção “Vem depressa“, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti e o bolero “Aperta-me em teus braços“, de José Maria de Abreu e Jair Amorim.

Suas interpretações também abrangeram compositores como Luiz Bonfá, autor do baião “Meu sonho“, Billy Blanco, que compôs o samba-canção “Rotina“, Dorival Caymmi, compositor do samba-canção “Nem eu“, entre outros relevantes nomes da música popular brasileira, como Johnny Alf, autor de três canções registradas por Mary: “Escuta“, “Estamos sós” e “O que é amar“. Em 1954, gravou seu último disco na Sinter com o samba-canção “Dentro da noite“, de Oscar Bellani e Luiz de França e o beguine “Não vá agora“, de Billy Blanco. Segundo o jornalista e pesquisador Sylvio Túlio Cardoso, foi neste selo que a artista fez os seus melhores registros.

A ascendente cantora viria a se tornar Rainha do Rádio dois anos após o início de sua carreira radiofônica, em 1952, com um total de 744.826 votos. Na ocasião, venceu a atriz e musicista Adelaide Chiozzo (que foi derrotada por pouco mais de 30 mil votos na última hora de apuração) e a cantora Carmélia Alves, sendo coroada no tradicional Baile do Rádio, no teatro João Caetano, em 19 de fevereiro. Vale registrar que a vitória de Mary Gonçalves se deu de modo inusitado. Com exceção de Carmélia Alves, que já possuía o carisma e o reconhecimento do público como a “Rainha do Baião”, todas as demais candidatas não possuíam aquilo que era fundamental para alcançar o título: popularidade. E entre essas candidatas encontrava-se Mary Gonçalves, que naquele ano estava migrando da Rádio Nacional para a concorrente Rádio Clube, que tinha entre seus primordiais interesses a promoção do nome e da imagem da recém-contratada.

Naquele ano a vitória de Adelaide Chiozzo como Rainha do Rádio era tida como certa por dez entre cada dez pessoas questionadas sobre o concurso. No entanto, surge a figura de um patrocinador anônimo que, alegando estar fazendo campanha para Carmélia Alves, arremata uma grande quantidade de votos e os encaminha para Mary Gonçalves. Essa surpresa foi responsável por diversas situações além da mudança daquilo que já estava dado como certo. Esse novo panorama foi responsável por gerar a oportunidade de Mary duplicar não apenas a quantidade de shows e viagens que fazia, mas também o seu cachê junto aos contratantes. Assim como também foi responsável por gerar uma desconfortável situação para Carmélia Alves, pois a mesma foi acusada de trabalhar contra a candidatura da colega de emissora. A vitória da candidata santista acabou gerando uma inusitada situação: Carmélia Alves para ir ao Baile do Rádio precisou de escolta policial.

Ficam aqui duas faixas para os amigos leitores. A primeira é um samba-canção composto pela dupla Paulo Soledade e Fernando Lobo, cujo título é “Só eu sei“, que foi gravada por Mary Gonçalves em junho de 1951:

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Já a segunda faixa é a música “Duvidando”, parceria entre Amado Régis e Coelho Neto e encontra-se presente no único LP de dez polegadas da artista, o álbum “Convite ao Romance”:

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RAINHAS DO RÁDIO: A IMBATÍVEL

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Linda Batista (Jun/1919 – Abr/1988)

A artista hoje em questão teve um papel fundamental na história da música brasileira do século XX. Não apenas devido a sua meteórica subida ao panteão das grande cantoras e intérpretes nacionais, mas principalmente por seu carisma junto a um público cativo que a adorava como detentora do maior e mais expressivo título do rádio brasileiro ao longo de mais de uma década ininterruptamente.

Sob o epíteto de “a maioral do samba”, a filha de Batista Júnior (considerado por muitos como o maior ventríloquo existente no Brasil e que também era cantor e compositor) acabou por tornar-se um dos nomes mais expressivos da história da música brasileira de todos os tempos uma vez que o seu nome está intrinsecamente ligado a história do rádio em uma época em que este era a principal ferramenta de divulgação cultural existente no país.

Era através das ondas dos rádios e programas de calouros que a boa música brasileira ganhava as devidas projeções e transformava em ídolos nomes como Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas e tantos outros que submetiam-se aos testes radiofônicos na esperança de alcançar o estrelato. Dentre as figuras femininas destaque para nomes como Aurora e Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Carmen Barbosa, Dalva de Oliveira entre outros expressivos e talentosíssimos nomes. Convenhamos que não era de se esperar que no meio de tanto talento viesse repentinamente a surgir uma artista que ganharia em poucos meses a relevância que Linda viria a ganhar. Contexto só explicado através de muito talento.

Nascida em São Paulo, Florinda Grandino de Oliveira, ficou conhecida nacionalmente como Linda Batista, uma artista que trazia características que a diferenciava de muitas pretensas artistas da época: compunha e cantava. Homônima ao seu nome, a sua voz só veio a ser conhecida do grande público casualmente, devido a ausência da irmã Dircinha no programa de Francisco Alves na Rádio Cajuti. Foi quando sugeriram que a instrumentista substituísse a irmã na apresentação. Linda acatou a ideia e isso acabou rendendo uma boa aceitação por parte do público presente naquela data fazendo com que a até então instrumentista decidisse investir na carreira artística como cantora.

Estava ali plantada a semente para que a música florescesse em sua vida. Ainda no mesmo ano, em 1936, o destino acabou mostrando-a que a sua decisão havia sido a mais correta pois em poucos meses já estava participando, ao lado da irmã Dircinha, do filme “Alô, Alô, Carnaval“. Sua participação no cinema era o que faltava para que a artista engrenasse de vez a sua carreira. Em apenas um ano, aquela que acompanhava a irmã em apresentações nos programas de auditórios, trocou o papel de instrumentista figurante para consagrar-se como a cantora protagonista. Seu sucesso aconteceu de modo tão meteórico que no ano seguinte Linda já encontrava-se apta a disputar o recém-criado concurso para Rainha do Rádio ao lado de algumas das mais expressivas artistas da época.

Organizado a princípio por um vespertino dos Diários Associados, o concurso para Rainha do Rádio teve em sua primeira edição em 1936 e não possuía o glamour e popularidade que viria a ter tempos depois, uma vez que pois tinha como eleitores apenas gente do meio radiofônico, artistas e jornalistas. Só no final da década seguinte, com a Associação Brasileira do Rádio tomando a frente a organização do evento, foi que o grande público pode participar do pleito. Nesta primeira edição realizada na década de 1930 no Iate dos Laranjas, barco carnavalesco atracado na Esplanada do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, a vencedora foi, com seus dezoito anos incompletos, Linda Batista.

Tal título a cantora obteve-o três vezes ao longo de mais de uma década. Em 1948, quando houve uma reorganização do evento por parte da ABR – Associação Brasileira do Rádio a artista resolveu abdicar para favorecer a sua irmã caçula. O título oportunizou a artista, como contratada da então recente Rádio Nacional, fazer uma excursão de enorme sucesso no Norte e Nordeste que durou seis meses, começando por Recife, PE. Foi ali que teve a oportunidade de interpretar Capiba, o conceituado compositor de frevos pernambucanos, na terra natal do compositor ao lado a Jazz-Band Acadêmica no Teatro Santa Isabel

Deixo agora para os amigos leitores duas canções do repertório da artista. A primeira é “Vingança” do centenário Lupicínio Rodrigues. A gravação feita 29 de maio de 1951 foi lançada em agosto do mesmo ano:

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A segunda canção trata-se de outro clássico do cancioneiro popular. A canção “Risque“, composição de Ary Barroso, foi em 28 de novembro de 1952 e lançado em março do ano seguinte:

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AS RAINHAS DO RÁDIO: GUARANÁ, CHEQUE EM BRANCO E COROA

MARLENE-RAINHA-DO-RÁDIO1

Marlene (Nov/1922 – Jun/2014)

Os amigos leitores perceberam ao longo das últimas semanas que o concurso para rainha do rádio além de contar com a disputa de populares nomes dos casting das principais rádios existentes no Sudeste, também trazia por característica algumas ferramentas não convencionais, mecanismos estes utilizados para somar vultosas quantidades de votos para esta ou aquela candidata, como foi o caso da Rainha apresentada ao longo da semana passada que teve como padrinho Assis Chateaubriand, o “Rei” da mídia naquela época. Chatô, como tornou-se popularmente conhecido, queria a todo custo que a rainha do Rádio daquele ano de 1956 fosse a sua contratada e eleita protegida Dóris Monteiro, que tinha votação tão inexpressiva que com aqueles números não chegaria nem ao posto de princesa, quem dera Rainha.

A obstinação em eleger Dóris foi tão grande por parte do patrão que acabou por acontecer a sua vitória deixando como segundo lugar a cantora Bárbara Martins, que naquele ano estava lançando pela Copacabana o 78 RPM com as canções “Aquarela Fluminense” e “Delirando.” Há muitas pessoas que a consideram Rainha moral da disputa daquele ano. No entanto vale salientar que a atitude do dono dos Diários Associados talvez tenha sido inspirada em procedimento semelhante e que foi adotado alguns anos antes para que outro nome chegasse em primeiro lugar em uma das disputas mais populares do povo brasileiro nas décadas de 1930 até 1950.

De modo sucinto e superficial poderia dizer que era um período onde o rádio ainda desfrutava de grande prestígio, pois a televisão só viria a aparecer no ano seguinte para disputar a audiência e atenção da população. Neste contexto as rádios do Rio de Janeiro, então capital federal, era a maior vitrine da música brasileira existente e por lá desfilavam os principais nomes do nosso cancioneiro. Uma das principais era a Rádio Nacional, que tinha em seu casting uma verdadeira constelação de nomes. As populares irmãs Linda e Dircinha Batista fazia parte desse time. Assim como também Ademilde Fonseca e Emilinha Borba, estrelas em ascensão na época. Assim como os artistas que dela participava a eleição acabou caindo na graça do povo incentivada também pelo cunho filantrópico ao qual estava associada. Os votos eram vendidos com a Revista do Rádio e o dinheiro arrecadado era destinado pela Associação Brasileira de Rádio, que coordenava o evento, para a construção de um hospital para artistas.

Vale ressaltar que até 1949 apenas dois nomes haviam sido eleitos como Rainha e o título, mesmo assim, não havia saído da clã dos Batista. Não imaginava-se que essa hegemonia duraria por muito tempo e, ao que tudo indicava, Emilinha Borba (como a a maior estrela da Rádio Nacional) mudaria esse cenário. No entanto quem venceu aquele ano foi Marlene, a artista que tempos depois iria se apresentar por quatro meses e meio no Teatro Olympia em Paris, a convite de Edith Piaf. Naquele ano Marlene venceu o concurso de modo inusitado e pouco convencional, mas que acabaria se repetindo posteriormente poucos anos depois.

Marlene, que seguindo pesquisas, encontrava-se em terceiro lugar na disputa, atrás de nomes expressivos como Emilinha Borba e Ademilde Fonseca, acabou recebendo o apoio da Companhia Antarctica Paulista, pois a mesma estava prestes a lançar junto ao mercado um novo produto, o refrigerante Caçulinha e devido a popularidade do concurso, pretendiam usar a imagem de uma das artistas que dele participava para isso. A escolhida foi Marlene, que ganhou além do título de garota propaganda do novo produto ainda levou um cheque em branco, para que ela pudesse comprar quantos votos fossem necessários para sua vitória.

Desse modo a artista, que até então estava em terceiro lugar, atingiu a marca dos 529.982 votos sendo eleita em primeiro lugar deixando Ademilde Fonseca em segundo, e Emilinha Borba, dada como vencedora desde o início do concurso, ficou em terceiro. Este título rendeu a cantora paulista diversas vitrines para os seus trabalhos originando-se daí a famosa rivalidade entre os fãs de Marlene e Emilinha, disputa esta que corroborou de modo expressivo para que as artistas ganhassem espantosa popularidade em todas as regiões do país.

Aos amigos leitores ficam aqui duas canções do repertório da artista que faleceu recentemente. A primeira canção trata-se do samba “Lata d’água”, canção que tornou-se um clássico de nosso cancioneiro a partir de 1952 ano do seu lançamento:

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A segunda canção trata-se de “Se é verdade”, canção de autoria do centenário Lupicínio Rodrigues:

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RAINHAS DO RÁDIO: O DEDO DE CHATEAUBRIAND

 dóris

Como os amigos leitores tiveram a oportunidade de acompanhar vimos demos início ao olongo da semana passada a uma série que abordará cada um dos nomes das dez rainhas do rádio existentes na áurea época da radiofonia brasileira entre as décadas de 1930 e 1950. Para ser mais exato ao longo de 21 anos, de 1937 até 1958 quando foi eleita a última rainha Julie Joy, nome abordado na primeira matéria da série abordada durante a semana passada.

A disputa era acirrada e ao final, na coroação, havia uma verdadeira festa com direito a coroa, cetro e homenagens onde quer que fossem. O concurso para a escolha da Rainha do Rádio era promovido pela ABR – Associação Brasileira do Rádio e em determinado momento passou a ser comandado, também, pela “Revista do Rádio”, fundada em 1948 por Anselmo Domingos. Vale registrar que tal concurso surgiu com objetivos filantrópicos em 1936, quando a ABR resolveu arrecadar fundos para a construção de um hospital destinado a abrigar seus associados.

Neste primeiro momento os votos eram vendidos e posteriormente a “Revista do Rádio” publicava os cupons de votação que, recortados e preenchidos, eram colocados nas urnas para o cômputo final. Nesse período não havia venda de votos; o custo era apenas o preço de capa da revista. Era comum o disse-me-disse ao longo dos períodos eleitorais e algumas campanhas eleitorais foram bastante tumultuadas, como por exemplo a da cantora que hoje vamos destacar.

Em 1956, aconteceu algo inusitado na eleição daquele ano que corroborou de modo bastante intenso para o descrédito do concurso que anos passados era motivo para intensa rivalidade entre os fãs das concorrentes. Assis Chateaubriand, na época talvez o maior empresário das telecomunicações e dono das Emissoras de Rádio Associadas, resolveu eleger como sua protegida a cantora Adelina Dóris Monteiro. Até aí tudo bem, o problema era que a cantora carioca não ia nada bem na votação, mesmo com muitos fãs aderindo ao método do recorta cupom, preenche cupom e coloca na urna.

Dóris, que começou a cantar ainda adolescente, chegou a participar em 1947 do programa “Papel carbono”, de Renato Murce e em dado momento de sua carreira teve como seu padrinho artístico o também cantor Alcides Gerardi (foi o cantor e compositor gaúcho que a apresentou ao radialista Almirante, então diretor da Rádio Tupi à época, e que propiciou a Dóris participar de um teste para cantora na emissora ao qual foi aprovada e a partir daí começou a participar dos seus programas musicais chegando a passar oito anos em seu casting). Quando ainda estudante do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro foi convidada a cantar na Rádio Guanabara (pertence a grupo Bandeirantes de Comunicação) ganhando aos poucos a devida notoriedade passando a atuar também em casas noturnas e boates, dentre elas uma do Copacabana Palace Hotel, uma das mais conceituadas do país na época.

Na década de 1950 ganhou projeção nacional ao realizar a sua primeira gravação, registrando em 78 rpm, a canção “Se você se importasse”; sendo eleita, em 1952, Rainha dos Cadetes e gravando o seu primeiro LP  “Vento soprando” pela gravadora Continental em 1954, ganhando destaque as faixas “Graças a Deus” (Fernando César) e “Joga a rede no mar” (Fernando César – Nazareno de Brito). Ainda nesta mesma década gravou uma das músicas mais marcantes do seu repertório, a canção “Mocinho Bonito”, de autoria de Billy Blanco e, em 1955, foi uma das estrelas da TV Tupi (emissora carioca dos Diários Associados, de propriedade do paraibano Assis Chateaubriand) apresentando um programa que levava seu nome.

Integrante do casting de sua emissora de TV, Chateaubriand ordenou: Dóris Monteiro têm que ganhar! No entanto esta tarefa seria complicada aquela altura do concurso, uma que vez a cantora não tinha uma significativa quantidade de votos. Para se ter uma ideia na véspera da apuração final os votos da cantora carioca não davam nem para ela sonhar em ser princesa.

No dia que antecedia o resultado final Chatô, como era conhecido Chateaubriand, chamou a sua sala o então tesoureiro dos Diários Associados e deu-lhe uma ordem:

- Consiga 5 milhões de cruzeiros, e agora!

Seria um pedido a ser atendido sem adversidades se este não tivesse sido feito a noite, no horário em que os bancos encontram-se fechados (vale ressaltar que estamos falando de 1956 e que naquela época nem imaginava-se a criação e utilização de caixas eletrônicos).

A alternativa encontrada foi recorrer a um magazine carioca que anunciava no “O Jornal”, de propriedade também do magnata paraibano. Dinheiro na mão, veio o restante da instrução para o tesoureiro, como conta Fernando Morais no seu livro “Chatô, o Rei do Brasil”, da Editora Cia. Das Letras:

“Mande comprar tudo em Revista do Rádio e ponha o pessoal da redação (de O Jornal) a preencher o cupom com o nome da dona Dóris. E tem que ser já, porque as urnas fecham à meia-noite.” O tesoureiro coçou a cabeça e fez ver ao chefe que a revista custava 5 cruzeiros. Com 5 milhões dava para comprar um milhão de exemplares, o equivalente a 5 edições da revista. E para passar das favoritas, Bárbara Martins com 160 mil votos, e Julinha Silva, com 70 mil, seria necessário preencher mais de 100 mil cupons, algo irrealizável.

Então Chatô mostrou o quanto era poderoso:

“Então o senhor leve este dinheiro ao Manoel Barcelos da ABR e ao Anselmo Domingos da Revista do Rádio e diga que eu compro todo o encalhe da revista acumulado desde que começou o concurso deste ano. E não precisa mandar ninguém preencher nenhum cupom. Diga que aqueles votos devem ser considerados para dona Dóris.”

Na apuração final Dóris Monteiro obteve 875.605 votos!

A primeira princesa, Bárbara Martins, ficou com 161 mil e Julinha Silva recebeu a faixa de segunda princesa, com 76 mil votos.

Deixo aqui para os amigos fubânicos duas canções interpretadas por esta artista ainda em atividade. A primeira é uma gravação do samba “Vou deitar e rolar” (Quaquaraquaquá), um dos maiores sucessos de 1970 e de autoria de Baden Powell e Paulo César Pinheiro:

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A segunda faixa trata-se da “Ruínas”, de autoria de Haroldo Eiras e Vítor Berbara, em gravação de 1953:

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AS RAINHAS DO RÁDIO: O ÚLTIMO REINADO

julie joy

Falecida em 12 de abril de 2011, a cantora, atriz e apresentadora Julie Joy foi a última Rainha do rádio eleita, em 1958

Dando início a série que abordará ao longo das próximas semanas o nome daquelas que foram eleitas Rainhas do rádio optei por começar de trás para a frente. Como assim? Vou explicar melhor… Começarei a falar da última artista a ter ganho o título perpassando por todas os outros nove nomes que alcançaram o título durante o tempo em que o concurso vigorou.

Com o advento da televisão a partir de 1950 a popularidade do rádio deu uma significativa baixa nos anos subsequentes e os programas de auditórios que antes levavam centenas de pessoas as emissoras muitas vezes ao longo de todos os dias da semana foram aos poucos perdendo a guerra para a comodidade do sofá e aparelhos de tv. Essa mudança de hábito acabou refletindo-se também naquele que era considerado sem dúvida alguma o maior e mais popular concurso artístico ao longo as últimas décadas:  o concurso para eleger a Rainha do Rádio.

Em 1958, quando o concurso já não contava com adesão das centenas de milhares de eleitores de outrora, foi realizado o último concurso para eleger aquela que ostentaria o mais cobiçado e nobre título do rádio brasileiro. A vencedora talvez não soubesse que aquela eleição seria a última e, além de consagrá-la e alavancar a sua carreira, a cantora ostentaria seu reinado para todo o sempre, uma vez que não houve mais eleição nos anos subsequentes.

O concurso acabou sendo vencido pela carioca Beatriz da Silva Araújo, uma jovem com 28 anos incompletos e que adotava o nome artístico de Julie Joy. Seu avô  inaugurou a indústria farmacêutica no Brasil com o vinho Reconstituinte Silva Araújo (tônico), em 1888. Sua avó foi célebre cantora de operetas no princípio do século XX, no Brasil. Sua família era numerosa eram ao todo treze irmãos, sendo Beatriz  a caçula.

A sua carreira artística teve início ainda nos anos de 1940, mas precisamente em 1948 na Rádio Guanabara interpretando standards americanos. Um ano depois assinou contrato com a Rádio Nacional, por lá permaneceu pouco tempo, até que desistiu de cantar. Só voltaria a atuar como cantora em 1955, passando a interpretar juntamente com os hits americanos algumas músicas brasileiras. Em 1956, foi contratada pela etiqueta Sinter e lançou seu primeiro disco, com o fox-trot Verão em Veneza (Incini e Ribeiro Filho) e o samba Finge gostar (Meira e Chico Anísio). Nesse período além de trabalhar no Rádio, também atuou em diversos programas da TV Tupi carioca e gravou canções como o xote Amor é bom de dar (Bruno Marnet e Roberto Faissal), o beguine Sombras (Johnny Mercer e Lavello, versão de Arierpe), o bolero Tinha que ser (Fernando César), a Valsa do primeiro filho (Ari Rabelo e Luiz de França) o bolero Podes voltar (Othon Russo e Nazareno de Brito) e a valsa E a chuva parou (Ribamar, Esdras Silva e Vitor Freire). À época em que foi eleita Rainha do Rádio chegou também a atuar no cinema nos filmes “E o Bicho Não Deu…”, produzido pela Herbert Richers, e “O Camelô da Rua Larga”, pela Cinedistri.

Na década de 1960 chegou ainda a atuar como cantora e gravar canções como os fox Você não tem razão (Bartel, Burns e Magio) e Quero sonhar (J. Gluck Jr e F. Tobias) acompanhada da orquestra e do coro de Bob Rose e chegou a lançar pela Columbia o elepê u Jóias de Julie Joy. No entanto retirou-se da vida artística ao longo desta década dedicando-se a interesses pessoais como o casamento com o compositor João Roberto Kelli e as duas filhas do casal.

Um detalhe que interessante a ser registrado foi a amizade entre Julie e a não menos inesquecível Dolores Duran. Com escassos recursos no início da carreira de ambas e a necessidade de estarem bem afeiçoadas em suas apresentações nas emissoras de rádio e televisão, procuraram as mais diversas alternativas para amenizar esta adversidade. A compra de sapatos e vestidos demandava boa parte do orçamento, então, para poupar dinheiro, a compositora de A noite do meu bem costurava os vestidos que seria utilizada por ambas. Um dia usava Julie outro Dolores, depois o tingiam, acrescentavam acessórios para dar a impressão de que era novo.

Quando eleita, Julie Joy arrecadou 329.431 votos e na época declarou “Eu até estou acreditando que sou mesmo rainha. Não é por superstição ou vaidade, mas é que a coroa ajuda a carreira. Haja o exemplo das outras cantoras que foram Rainhas anteriormente”.

Esta série idealizada por mim tem por objetivo fazer com que o nome destas artistas, figuras de extrema popularidade à época dos respectivos reinados, não caiam no ostracismo em que estão condenados pelos grandes canais midiáticos. Ao menos aqui, no Musicaria Brasil, assim como  na memória afetiva de muitos, Julie Joy e tantos outros personagens da música e do rádio vivem e são devidamente reverenciados.

Fica agora para os amigos fubânicos duas canções do repertório da saudosa intérprete. A primeira é “Verão em Veneza”, composição do italiano Alessandro Icini (no original, “Tempo d’estate a Venecia”), que teve letra em inglês de Carl Sigman (“Summertime in Venice”) . Originalmente um fox-canção, ganhou letra brasileira do radialista Ribeiro Filho, lançada pela Odeon em julho de 1956 na voz de Osny Silva, em ritmo de bolero. Um mês depois, saiu esta gravação de Julie Joy:

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A segunda canção trata-se de “Você não tem razão”, versão de Tum-ba-lov, sucesso também da cantora Regiane da gravadora Young. Julie Joy gravou este 78 rpm na gravadora Columbia, em versão de Roberto Corte Real, o outro lado traz a música “Quero sonhar” (Early to bed) em meados de 1960:

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MAREIKE VALENTIN – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Mesmo nascida na Alemanha, Mareike Valentin traz arraigada em sua sonoridade elementos sonoros genuinamente brasileiros. Isso se deu de modo bastante eficiente por intermédio de sua mãe, que por saudades do Brasil ouvia os grandes nomes de nossa música por horas na cidade alemã de Rheinfelden. Esse hábito rendeu pomposos frutos ao longo da trajetória da artista e hoje encontra-se bastante evidente no debute fonográfico da cantora como pode-se conferir na pauta “Em sensível amálgama sonoro, Mareike Valentim mostra ao que veio” que publicamos recentemente aqui mesmo nesta coluna ao longo da última semana. Homônimo ao seu nome, o primeiro projeto fonográfico da artista conta com a adesão de nomes de peso da música popular brasileira e convidados pra lá de especiais como vimos. Agora, Mareike volta ao nosso espaço para ilustrar mais uma pauta, dessa vez em uma entrevista gentilmente concedida onde aborda diversos assuntos, dentre os quais a receptividade do público ao seu trabalho, a reviravolta profissional que a fez trocar a vida de bancária pela vida artística, suas origem alemã entre outros assuntos como vocês podem conferir nesta entrevista exclusiva. Boa leitura!

Uma curiosidade acerca de sua carreira artística é você ter nascido a mais de 10 mil quilômetros do Brasil e hoje traz em seu canto características muito arraigadas de brasilidade. Existe em sua formação musical alguma reminiscência dos poucos anos que você residiu em Rheinfelden ou a sua formação musical é essencialmente brasileira?

Mareike Valentin – Eu diria que minha influência é fortemente brasileira. Tenho na lembrança algumas cantigas infantis em alemão e me lembro de alguns discos que tinha quando criança, mas como a música brasileira sempre fez parte da minha infância também, acho que esta me influenciou muito mais.

Ao longo de sua carreira você já chegou a voltar à Alemanha para mostrar um pouco da riqueza musical existente no Brasil. Foi durante essas apresentações a sua primeira volta a sua terra natal?

MV – Não, estive na Alemanha em 2005, numa viagem inesquecível com meu avô paterno. Aí sim, tive a oportunidade de retornar às cidades e casas onde vivi, rever amigos e familiares.

Quando foi que você percebeu que era a hora de decidir indelevelmente quanto a sua vida profissional? Qual foi o momento, ao seu modo de ver, que já não era mais possível conciliar a vida de bancária com as suas pretensões artísticas?

MV – Enquanto trabalhava no banco, iniciei a faculdade de música e neste período surgiam muitas oportunidades de fazer cursos fora da minha cidade, inclusive a turnê com o grupo Txai aconteceu no meu período de férias do banco. Mas não era sempre que conseguia conciliar as duas coisas e chegou um momento que recebi o convite para começar a dar aulas de canto na escola onde na época eu era aluna (onde trabalho até hoje), foi aí que decidi que não queria mais perder oportunidades de por causa do emprego na banco. Chutei o pau da barraca! (risos)

Como foi a reação das pessoas mais próximas quando você decidiu abandonar toda a burocracia de um banco para arriscar-se de arte, um universo tão oscilante?

MV – Tenho muita sorte. Meus pais me apoiaram muito e ficaram muito felizes com minha decisão. Meu marido, que só conheci uns meses depois de ter saído do banco, sempre menciona essa minha atitude como algo que ele admira. Tive muito apoio, sempre!

Leandro Braga é um dos grandes nomes de nossa música atestado por toda a sua experiência junto a artistas considerados como referências em nossa música. Como se deu o seu encontro com o maestro e o convite para que ele assinasse a produção e os arranjos do disco?

MV – Foi meu marido quem sugeriu que eu fizesse contato com Leandro, pra pedir que ele fizesse alguns arranjos que, inicialmente, gravaríamos aqui em Blumenau. Nunca achei que Leandro fosse me “dar bola”. Rsrs. Escrevi uma mensagem pelo Myspace e esqueci… depois de alguns dias quase caí de costas quando vi que ele além de ter respondido, ele havia se mostrado interessado em trabalharmos juntos. Daí pra frente nossa parceria e amizade se firmou e depois de um tempo e uma vinda de Leandro à Blumenau, veio o convite pra gravar no Rio. Desde então somos grandes amigos e nossa parceria continua. Leandro veio fazer uma participação especial no show de lançamento do meu CD aqui em Blumenau. Agora em julho devo ir ao Rio fazer uma participação num show dele, e por aí vai…

No álbum existem algumas regravações como “Passas por mim” (Simone Guimarães) e “Menina, amanhã de manhã” (Tom Zé e Perna). Quais os critérios adotados para a escolha dessas regravações que fazem-se presentes em seu álbum?

MV – “Menina, amanhã de manhã” já era uma música que eu adorava. Quando começamos a pensar o repertório foi uma sugestão minha que Leandro aceitou de imediato. Já a “Passas por mim” foi mostrada ao Leandro pela própria Simone, atendendo ao pedido dele de lhe mostrar algumas canções que pudessem vir a fazer parte do disco.

E a escolha das demais faixas como se deu?

MV – Quando decidimos gravar o disco eu já tinha as canções do Pochyua. Queria muito gravá-las. As demais foram garimpadas, gentilmente enviadas pro Leandro e pra mim pelos próprios compositores (assim foi com Zé Renato, Simone Guimarães, Sueli Mesquita). O samba da Telma Tavares foi composto especialmente para este disco, a pedido de Leandro. Um presentaço!

O disco conta com a participação do Zé Renato e do Marcos Sacramento. Ambos os nomes foram sugestões muito bem aceitas ou já era do seu desejo especificamente a participação deles no projeto?

MV – Zé Renato sempre foi um grande ídolo. Já ouvia o Boca Livre ainda na Alemanha, muito nova. Quando Leandro falou sobre as participações que poderíamos ter, e sugeriu os dois, quase morri de tanta felicidade porque nunca imaginei que cantar ao lado destes dois gigantes fosse possível. Foi um sonho. Sacramento eu conhecia há pouco tempo e era encantada com o trabalho dele. Pessoalmente me apaixonei ainda mais, pela gentileza, generosidade e bom humor com que me recebeu.

Como tem sido a receptividade do público por onde você tem levado o álbum? O que há no espetáculo além do repertório do disco que você pode nos dizer?

MV – A receptividade tem sido incrível. Tenho tido retornos muito carinhosos e emocionados. Além das canções do disco canto também uma parceria do Junior Marques (meu parceiro, amigão e pianista que me acompanha sempre) e do Gregory, chamada Bola Dividida, um partido alto super bem humorado, é uma metáfora entre uma relação de um casal e o futebol. O público adora e eu me divirto muito cantando. Outras canções também fazem parte do repertório show, mas tem que assistir o show pra saber! (risos)

Já ouvi de alguns artistas que custeiam seus próprios trabalhos que o termo independente nunca deveria ser aplicado a eles uma vez que é algo que não condiz com a realidade, pois os mesmos dependem de muitos em shows, divulgação e outras situações. Você é uma artista que contou com um apoio em seu projeto mas não deixa de estar inserida em uma gama de artistas que buscam um lugar ao sol remando contra a maré midiática existente. Qual a maior dificuldade em trabalhar desse modo?

MV – Tive a sorte de ter um apoio da Fujiro e também do Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau, mas a maior parte do trabalho, eu diria que 70%, foi realizada com recurso próprio, vindo de muito trabalho (meu e de meu marido). A maior dificuldade no meu caso, é que como não dispunha de verba pra realizar o trabalho todo de uma vez, tive que fazer tudo aos poucos. Entre o primeiro contato com Leandro e o disco pronto, lançado, foram mais de dois anos! Até tive um filho neste meio tempo! Rsrsr Sempre brinco que a gestação do meu disco durou muito mais do que a do Tom, e que o parto (do disco) foi beeem mais difícil e demorado!

Clique aqui para acessar o site oficial de Mareike Valentin


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EM SENSÍVEL AMÁLGAMA SONORO, MAREIKE VALENTIN MOSTRA A QUE VEIO

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Nascida na Alemanha porém profundamente imbuída de brasilidade, a cantora radicada em  Blumenau apresenta-nos seu primeiro projeto fonográfico sob a batuta do maestro Leandro Braga

Imbuída de talento e propensa a uma acepção por aquilo que é simples, sensível e marcante, Mareike (lê-se Maraike e que tem por definição ser uma variação de Maria, em holandês) Valentin apesar de ter nascido na Alemanha não deixou que os mais de 10 mil quilômetros que separam nosso país até sua terra de origem intervissem em suas escolhas e referências musicais (isso tudo por conta daquilo que ouvia em casa através dos pais). Foi por intermédio deles que a cantora conheceu os grandes nomes da música brasileira e, de certo modo, concebeu um fascínio por nossa cultura ao ponto de não deixar traços em sua sonoridade de que algum dia passou pelo velho mundo, pois em seu trabalho não há nada de perceptível que remeta a quem o ouve ao continente europeu. É possível afirmar isso porque sua sonoridade é genuinamente brasileira através das diversas peculiaridades que o constitui. O álbum é um debute que, de certo modo, demostra ser uma espécie de acerto de contas com o tempo em que passou longe do Brasil ao longo da infância, um período que apesar da tenra idade da artista foi essencial para delinear nos dias atuais essa espécie de afronto aos seus mais recônditos anseios.

Assim sendo, esse disco não deixa de traduzir também em versos e melodias aquilo que foi acumulando-se ao longo deste, digamos, cerne de sua formação musical quando ainda residia em Rheinfelden, a pequena cidade alemã com pouco mais de 30 mil habitantes, onde a Mareikenasceu e conviveu com a cultura local até a sua vinda para o Brasil, onde cresceu e desenvolveu sua aptidão e predileção pela boa música brasileira. É válido lembrar que ainda na Alemanha a música brasileira já fazia parte de sua rotina, principalmente quando a mãe (nascida em Minas Gerais) resolvia matar as saudades do torrão natal e ouvia diversos artistas, tais quais João Bosco, Chico Buarque, Djavan e tantos outros; sem esquecer é claro de uma de suas principais referências, o cantor e compositor Milton Nascimento e toda a turma do Clube da Esquina que ajudaram de forma bastante intensa a sedimentar e constituir este mosaico sonoro coerentemente tão bem delineado.

Já no Brasil a teve sua iniciação musical ainda criança quando estudou piano e flauta doce em Pomerode (SC). Foi durante o período em que residia em Pomerode que chegou a participar do Grupo Txai, onde atuou como cantora, flautista e pianista, chegando inclusive a excursionar por quase um mês na Áustria assim como também em sua terra natal, a Alemanha divulgando a música popular brasileira. Sem esquecer de sua participação, no período da adolescência, de diversos coros em Santa Catarina.

Na fase adulta enveredou por caminhos que divergiam daquilo que de fato desejava e chegou a atuar como bancária. Porém seu paixão pela música a fez escolher pela vida artística em tempo integral, quando em 2007 largou a profissão para dedicar-se ao ofício de cantora. Vem deste período a busca por uma excelência naquilo que Mareike decidiu-se a fazer como workshops, oficinas e cursos de curta duração em diversas áreas da música. Fora isso a artista cursou Licenciatura em Música na FURB e dedicou-se ao estudo do Canto Popular, seguimento no qual hoje leciona na Escola de Música do Teatro Carlos Gomes (além de trabalhar também com preparação vocal). O resultado de todo esse “Know-how” agora pode comprovado através desse álbum homônimo ao seu nome, um projeto de estreia que nasceu sob a forte influência de uma formação musical genuinamente brasileira, principalmente se levarmos em consideração o imprescindível gosto musical de sua mãe, que longe do Brasil matava a saudade do país através dos mais relevantes nomes da MPB.

“Pude gravar lindas canções (todas refletem a música que carrego aqui dentro)”. As palavras da artista atestam aquilo que as dez faixas por si só deixam transparecer: canções tecidas com fios de sensibilidade e sutileza, retratando um universo bastante particular da artista em versos e melodias marcantes e que são reafirmadas pelos refinados arranjos do maestro Leandro Braga e as concisas participações de dois grandes artistas: Marco Sacramento e Zé Renato, reiterando a precisa e coerente harmonia, marca tão característica deste trabalho composto por características tão peculiares.

O disco começa com a esfuziante “Menina amanhã de manhã” (Tom Zé e Perna) gravada originalmente pelo autor no álbum “Se o caso é chorar” nos idos anos de 1972. Quarenta anos depois a interpretação da cantora conseguiu manter uma leveza pueril. Transformada em um ijexá a canção retrata, segundo a própria artista, o seu jeito de ser e de levar a vida. Do pernambucano Pochyua Andrade a cantora interpreta três canções: “Estrada Real” (composta em Minas Gerais (pelo trecho da antiga estrada real que liga Ouro Branco a Ouro Preto) a partir de uma viagem de carro do Recife à Santa Catarina; Em parceria com com Gregory Haertel (marido da cantora) Andrade assina “Duas procissões” e “O teu Começo”.

A primeira traz como cerne a cumplicidade existente em um casal apaixonado e conta com a participação do cantor e compositor Marcos Sacramento; já a segunda tem como tema o mar e suas peculiaridades, expressando em versos e melodias a forte identificação que a artista confessa ter com o mar. Tendo o mar como tema e seguindo a mesma linha também há “Bóia, bóia” (Suely Mesquita e Lucina). Gregory ainda assina “Só Luiza” (com Leandro e Mareike) e “Valsa incerta” (Com Braga). A faixa “Só Luiza” nasceu de um desejo do maestro e produtor em ver a cantora compor algo para fazer parte do disco. Já “Valsa incerta” nasceu do desafio de fazer uma letra em menos de 24 horas para a densa melodia apresentada pelo maestro Leandro Braga. Uma belíssima letra impregnada de poesia foi escrita e entregue, fazendo desta faixa uma das mais belas da exitosa parceria.

O disco ainda traz o contagiante samba “De amor, de amar” (Telma Tavares), a toada “Imbora”, uma parceria dos cantores e compositores Zé Renato e Pedro Luís que retrata a vida de um poeta que faz da rima a sua companheira. Esta canção que conta com a participação do próprio Zé Renato também encontra-se presente no álbum “Tempo de Menino”, primeiro trabalho solo do carioca Pedro Luís e “Passas por mim”, canção de autoria de Simone Guimarães a partir do poema de Guilherme de Almeida. A belíssima interpretação torna-se sem dúvida um dos pontos altos do disco.

Patrocinado pela Fujiro Ecotextil, este projeto foi gravado no Rio de Janeiro ao longo de dez meses e a ficha técnica conta com nomes como João Gaspar (violões e guitarras), Jamil Joanes (baixo), Zé Nogueira (sax soprano), Felipe Rosseno (percussão), Thiago da Serrinha (percussão e coros), Zé da Velha (trombone), Paulo Sérgio Santos (clarone e clarinete), Silvério Pontes (flugel horn e trompetes), Leandro Vasques e Mayla Valentin(palmas). Além de nomes citados anteriormente como Gregory Haertel (palmas) e Leandro Braga (pianos, produção e arranjos).

Para que os amigos conheçam um pouco mais do trabalho desta nova artista deixo para degustação duas faixas do álbum de estreia de Mareike. A primeira trata-se da canção “Menina amanhã de manhã”, já descrita ao longo da matéria:

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A segunda canção é “Passas por mim”, também citada anteriormente:

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PAULINHO PEDRA AZUL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 Paulinho

Artista nascido na região mineira do vale do rio Jequitinhonha, Paulinho Pedra Azul chega aos sessenta anos como um patrimônio artístico do seu estado natal. Difícil não associar Minas Gerais à obra do artista. E essa característica encontra-se ao longo de toda a sua trajetória desde o primeiro disco “Jardim da Fantasia” lançado em 1982 pela RCA Victor e responsável por alçar o cantor e compositor mineiro ao panteão da música mineira.

Vale ressaltar que apesar de Paulinho Pedra Azul ter se destacado como cantor e compositor, não foi este o seu primeiro contato com o universo artístico, uma vez que ainda criança o pequeno Paulinho teve contato com as artes plásticas. Daí em diante tomou gosto pela coisa e ao final adolescência já estava participando de alguns festivais musicais existentes no Vale do Jequitinhonha com o grupo “The Giants”, onde executava sucessos da Jovem Guarda e The Beatles nas festas e bailes da região com o impressionante repertório de cerca de 250 canções. Vem desta época, ainda no “The Giants”, as primeiras composições que hoje formam um apanhado de beleza e inspiração que, de certo modo, reflete-se em sua obra até os dias atuais.

Com a carreira sedimentada a partir de uma produção fonográfica caracterizada substancialmente por uma independência artística, Paulinho vem preparando-se para lançar o seu primeiro DVD, um trabalho comemorativo pela passagem dos seus 30 anos de estrada e que conta com adesão de nomes, entre outros, como o do Padre Fábio de Melo e do Rogério Flausino, do Jota Quest como ele nos confidenciou nesta entrevista exclusiva.

São sessenta anos de vida e mais da metade destes dedicados as artes, em especial a música e a literatura. Quais as maiores lições extraídas ao longo dessas seis décadas que hoje você carrega consigo em sua vida profissional e pessoal?

Paulinho Pedra Azul – 60 anos de vida é 60% de um caminho percorrido em vida, onde aprendemos, erramos, acertamos e colhemos frutos que plantamos, para a continuação do viver.

O seu envolvimento com as artes o acompanha desde sempre ao longo de sua biografia. Primeiro através das artes plásticas e posteriormente através da literatura e da música. Quais as suas reminiscências mais antigas dessa relação tão intrínseca?

PPA – Sempre gostei de artes. A pintura me relaxa e me faz concentrar. A literatura nos faz viajar e sonhar e a música nos aproxima de Deus.

Qual foi o momento que você percebeu que o seu envolvimento com a arte de modo geral era um caminho sem volta?

PPA – Quando uma professora do primário me deu nota máxima numa redação.

Leon Tolstoi certa vez afirmou: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Essa afirmação do escritor russo é possível observar em sua obra de modo substancial desde o seu primeiro trabalho. Quais são as grandes influências que, de algum modo, corroboraram para caracterizar sua arte dessa forma?

PPA – Tolstoi só esqueceu de dizer que já está quase no momento de eu voltar para minha aldeia. Ela nunca saiu de mim. É minha maior fonte de energia.

Muitos conhecem o Paulinho Pedra Azul como cantor e compositor, no entanto o Paulinho escritor antecede o ofício que o tornou mais conhecido em todo o país. Dentro do universo literário você vem atuando desde 1978, no entanto, segundo pesquisa realizada na internet, há dez anos que você não publica nenhum livro. Abandonou o seu lado escritor ou o mesmo apenas adormeceu temporariamente?

PPA – Adormeceu temporariamente, mas já estou com ideias novas para 2 livros, infantil e infanto juvenil.

Ao longo dessas três décadas de carreira você traz como uma das características mais marcantes a sua independência fonográfica em uma época que não ter seu nome vinculado a uma grande gravadora era quase que o passaporte para o insucesso. Você conseguiu provar que o contrário era possível. O que o levou (e o leva ainda hoje) a sempre procurar manter essa postura junto ao mercado?

PPA – O mercado de gravadoras (com raríssimas exceções), não tem compromisso nenhum com a educação musical. Quanto pior, mais elas investem e tiram oportunidades de quem quer ouvir músicas de boa qualidade. É a guerra da ganância e da exploração. Cairão todas em breve. Aguardem!

Você sente-se profissionalmente realizado ou ainda falta algo a ser conquistado?

PPA – Me sinto sempre em realização. Não podemos parar de sonhar e realizar. É um trabalho eterno.

O fato de estar longe dos grandes canais midiáticos não o impede de figurar entre os artistas mais conhecidos de Minas Gerais. Uma prova dessa afirmação foi a pesquisa feita pela AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), que o destacou como o segundo cantor mais conhecido de Minas Gerais, perdendo apenas para Milton Nascimento. Há, em sua opinião, alguma explicação plausível para esse carinho e reconhecimento do público mineiro ao seu trabalho?

PPA – Isso vem do trabalho. De acreditar nele e formar um público especial, que sempre se faz presente aos meus shows. Esse público me faz viver e acreditar sempre, que vale à pena cantar e compor.

Em 2004 você lançou o álbum “Os 50 Anos de Paulinho Pedra Azul”, em 2014 haverá algum projeto temático neste sentido?

PPA – Estamos preparando uma coletânea com 120 músicas remasterizadas e 2 livros; um com 150 poesias dos livros lançados e 150 poesias inéditas, para comemorarmos meus 60 anos. É um projeto de lei que estamos em fase de captação, pois já foi aprovado.

Não seria a hora de um registro em DVD para celebrar a data?

PPA – O DVD e CD já estão em fase final de montagem de imagens, mixagem, projeto gráfico, etc. Devem ser lançados em 2015. O DVD e o CD são comemorativos aos meus 30 anos de carreira.  Foram gravados no Palácio das Artes em BH, com participações de Padre Fábio de Melo, Rogério Flausino do Jota Quest, Célio Balona, Aggeu Marques, Mauro Mendes, Grupo Sarau Brasileiro e uma banda maravilhosa com 6 músicos. Abraçoss e obrigado por essa oportunidade.

Para acessar o Facebook de Paulinho Pedra Azul clique aqui

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Paulinho Pedra Azul interpretando, de sua autoria, a canção “Precisamos de amores”:


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 10

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Dando continuidade a série “História e estórias da MPB”, hoje trago aos amigos leitores a saudosa figura da Aracy de Almeida, artista que se viva estaria completando 100 anos no próximo dia 19 de agosto de 1914. Única filha do casal de protestantes Baltazar e Hermogênea, Aracy de Almeida costumava na infância e adolescência interpretar hinos religiosos na Igreja que os pais frequentavam. Ao mesmo tempo que entoava músicas sacras na Igreja em que seus pais frequentava, a futura artista do rádio também costumava, escondida dos pais, cantar músicas de entidades em terreiros de candomblé e no bloco carnavalesco “Somos de pouco falar”.

Foi através do compositor Custódio Mesquita que conseguiu a primeira oportunidade em rádio em 1933 depois de cantar a música “Bom-dia, Meu Amor” (Joubert de Carvalho e Olegário Mariano). Ao entrar na Rádio Educadora a artista teve também a oportunidade de conhecer aquele que viria a se tornar o compositor mais expressivo em toda a sua carreira: Noel Rosa. Logo na primeira oportunidade que tiveram de conversar Noel a convidou para tomar umas cervejas Cascatinhas (marca de cerveja apreciada por Noel, entre outros boêmios da época) na Taberna da Glória. O convite foi prontamente aceito pela pretensa cantora que a partir dali passou a acompanhar o compositor por diversas noites até a sua prematura partida.

A sua convivência com Noel acabou, de certo modo, abrindo algumas portas para a carreira da artista. A primeira oportunidade deu-se a partir da gravação do seu primeiro disco em 1934 pela Columbia com a música Em plena folia (Julieta de Oliveira) e, posteriormente, o seu primeiro contrato com a Rádio Cruzeiro do Sul. Também neste mesmo ano gravou “Seu Riso de Criança“, de autoria do poeta da Vila. No ano seguinte transferiu-se para a RCA Victor participando de corista em diversas gravações e lançando diversas canções de Noel, o que acabou tornando-a numa das maiores intérpretes de samba da época e maior intérprete do compositor de Vila Isabel (com Noel vivo, Aracy chegou a gravar 34 canções de sua autoria). Sua identificação com o samba era tamanha que acabou ganhando o apelido de “O Samba em Pessoa”, pelo apresentador César Ladeira, com grande mérito a partir do resultado da gravações de canções como Palpite infeliz, O X do problema, Eu sei sofrer, Último desejo, Feitiço da Vila, Século do Progresso entre outros.

Ganhou grande popularidade ao longo dos anos de 1930 atuando em diversas emissoras de rádios cariocas, dentre elas a Rádio Philips com Sílvio Caldas, no Programa Casé; na Cajuti, Mayrink Veiga e Ipanema, excursionando com Carmen Miranda pelo Rio Grande do Sul e Tupi. Em 1939 foi responsável por lançar o compositor Davi Nasser e ser a primeira intérprete de uma canção de autoria de Ari Barroso que viria a tornar-se um clássico da música popular brasileira: “Camisa amarela“. Na década seguinte lançou outro clássico do cancioneiro popular, o samba “Fez Bobagem” (Assis Valente).

Na década de 1950 Aracy foi responsável pela reavaliação da obra do poeta da Vila ao gravar dois álbuns dedicados a sua obra acompanhada pela orquestra de Vadico. Em sua biografia merece destaque ainda alguns acontecimentos ao longo da década de de 1960 como os espetáculos realizados no Teatro Opinião batizado de “Conversa de botequim”, dirigido por Miele e Ronaldo Boscoli; o show “Samba pede passagem”, o programa de calouros “É proibido colocar cartazes” e o show “Que maravilha!”, no Teatro Cacilda Becker em São Paulo, ao lado de Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola.

A partir dos anos de 1970 Aracy começou a trabalhar em vários programas de TV e ganhou muito mais popularidade como caloura do que como a cantora popular cantora dos anos de 1930. Talvez tenha morrido realizada, uma vez que dizia que nunca gostou de cantar, via no canto a oportunidade apenas de sobreviver. Em 1988, com um edema pulmonar, ficou internada entre São Paulo e Rio de Janeiro. Neste período Silvio Santos telefonava-lhe todos os dias, às 18 horas, para saber como ela estava. Depois de dois meses em coma, voltou a lucidez por dois dias, e, num súbito aumento de pressão arterial, faleceu no dia 20 de junho, aos 74 anos. Não casou e nem teve filhos pois dizia que o homem ideal havia nascido morto por isso nunca casou.

Deixo aqui para os amigos leitores duas canções da lavra do saudoso poeta da vila. A primeira vem a ser “Último desejo“, clássico de nossa música:

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A segunda canção vem a ser “Palpite infeliz“, outro clássico do nosso cancioneiro:

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DOIS COMPASSOS DE DELICADEZA

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Dois nomes, dois talentos. De um lado Delcio Carvalho, sambista carioca cujo a dureza do corte da cana lhe substanciou com uma doçura ímpar nesses mais de 40 anos de estrada e centenas de composições ao lado dos mais diversos nomes de nossa música. Dentre as canções de sua lavra há verdadeiros clássicos de nossa música popular brasileira como “Sonho meu”, “Acreditar” e “Minha verdade”, além de tantas outras em parceria com os mais diversos conceituados compositores como Dona Ivone Lara, Wilson Das Neves, Noca da Portela, Ivor Lancelotti, Zé Kéti, Luisão Maia entre outros.

Além disso o rol de intérpretes de sua canção conta com nomes como Marisa Gata Mansa, Elza Soares, Martinho da Vila, Maria Creuza, Elizeth Cardoso, Alcione, Beth Carvalho, Gal Costa, Nana Caymmi, Clementina de Jesus, Jair Rodrigues, Nara Leão, Maria Bethânia, Vanessa da Mata, Mônica Salmaso, Clara Nunes, entre outros que fazem com que seu nome figure entre os maiores compositores do gênero ao qual escolheu e defende de modo elegante e coerente desde a década de 1960, quando passou a morar na capital do Rio de Janeiro participando de diversos programas de calouros e shows de Gomes Filho, da Rádio Guanabara. Vem desse período a composição, em parceria com Dias Soares, “Pingo de felicidade”, gravado na época pela cantora Cristiane.

A partir daí passou a ingressar o grupo Lá Vai Samba, onde ganhou uma visibilidade maior como compositor, chegando a ingressar na Ala de Compositores da Imperatriz Leopoldinense no início da década de 1970 e começou a ganhar a visibilidade de grandes intérpretes como foi o caso da ‘divina’ Elizeth Cardoso, que gravou ao longo de toda a década cerca de cinco canções de sua autoria: “Serenou”, “Igual à flor” (em parceria com Neizinho) e “Pra quê, afinal?” (composta com Mauro Duarte), “Voltar” e “Minha Verdade” (composição a quatro mãos com Dona Ivone Lara). Ao longo da década seguinte Delcio chegou a fazer dois registros fonográficos, o primeiro em 1980 onde interpretou vários de seus sucessos e o segundo em 1987, álbum que contou com participações de nomes como o maestro Rildo Hora, o saxofonista Paulo Moura, Dona Ivone Lara e Elizeth Cardoso.

Nos anos seguintes sucederam-se projetos como o show “De samba e poesia”, em comemoração aos 40 anos de carreira. Nesse espetáculo Delcio apresentou 14 composições, 12 das quais inéditas em parceria com o poeta Mário Lago Filho; além de ter lançado dois projetos: o primeiro em 2006, intitulado “Profissão compositor” e o segundo, produzido por Paulão Sete Cordas e Mariozinho Lago, trata-se de “Delcio – Inédito e eterno”, um projeto que abrange três discos com cerca de 40 faixas lançados em 2007. Sem contar com 0 álbum que resultou esta pauta.

Já o segundo nome é o do também carioca Marcelo Guima, violonista e compositor que teve a sua iniciação musical em Brasília, estado onde foi morar ainda criança. Foi na capital federal que Guima obteve o bacharelado em violão pelo Departamento de Música da Universidade de Brasília e teve a oportunidade ao longo de quatro anos ser professor da Escola de Música de Brasília – EMB, uma das maiores instituições públicas de ensino musical de nível técnico da América Latina. Como instrumentista vem inscrevendo seu nome dentro da música brasileira defendendo-a em concertos tanto no Brasil quanto no exterior, mostrando a sonoridade de seu violão em países como México, Cuba, Alemanha, Guatemala, Panamá entre outros. Há de lembrar também que ao longo desses anos, o instrumentista e compositor vem atuando na produção e composição de trilhas sonoras para TV, documentários e cinema (longas e curtas metragens).

Essas incursões nos meios de comunicação renderam-lhe a apresentação e produção de dois programas de rádio: “Ouvindo Música” na Rádio MEC AM do Rio de Janeiro, com quase uma década em exibição e que traz como proposta um estilo didático usando como matéria-prima a Música Popular Brasileira para orientar o ouvinte a entender de forma mais prática os diversos aspectos da música; veiculado desde 2004, o segundo programa trata do “Arte Petrobras” na rádio MPB FM também no Rio e que tem como proposta a divulgação de artistas e projetos patrocinados pela Petrobras, servindo também como uma vitrine da cultura produzida em todo o país.

Quanto a sua discografia, Marcelo Guima tem álbuns como “Nova Mente” (disco de estreia do artista lançado em 1994); “Passagem”, álbum que chegou ao mercado no ano de 2000 e que traz releituras instrumentais de sucessos de nossa música popular brasileira, além de diversos projetos como, por exemplo, o disco “Pesquisa Musical Brasileira”, trabalho em parceria com o Ministério da Cultura, onde apresenta composições próprias utilizando como base ritmos originários do Brasil.

Com todo esse “Know-how” não é de se estranhar que a junção desses dois nomes resultasse em coisas boas como podemos atestar em “2 compassos”, álbum viabilizado pelo projeto de financiamento coletivo “Catarse” e que teve a sua estreia em show na capital San Salvador (El Salvador) a convite do Centro Cultural Brasil-El Salvador da Embaixada do Brasil. Nesta parceria juntam toda a experiência e talento para interpretações de cunho pessoal e intransferíveis a treze faixas entre inéditas e regravações. Dentre as que saíram do forno para este projeto encontramos “Deixar estar” e “Luar” (composição da dupla Delcio e Guima), “Vestido novo” (Guima e Ronaldo Monteiro), “O amor da gente” (Marcelo Guima).

Quanto às releituras, há canções como “Velha cicatriz” (Delcio e Ivor Lancelotti), “Sonho meu”, “Alvorecer” e “Minha verdade” todas compostas por Delcio Carvalho em parceria com Dona Ivone Lara. Da lavra de Guima ainda há as faixas “O amor da gente”, “Lembranças suas”, “Jamais”, “Amarelo, preto ou branco” e “Longe do mar”, parceria com Paulo César Pinheiro.Além de Delcio Carvalho e Marcelo Guima, ainda perfazem o álbum nomes como Arthur Maia (arranjos, percussão e baixolão), Alencar 7 cordas (arranjos), Toiniho Ferragutti e Chico Chagas (acordeon), Marcos Suzano, Durval Pereira e Marco Zama (percussões), Sérgio Chiavazzoli (bandolim, violões), André Vascconcellos e Nema Antunes (baixo), Carlinhos 7 cordas (violão de 7 cordas), Leandro Braga e Marco Brito (pianos e teclados), Téo Lima (bateria), Thiago da Serrinha (cavaquinho), Pedro Mamede (programação eletrônica e percussão), Ricardo Amado (violino) e Fabiano Sagalote (trombone).

No último dia 12 de novembro o mundo do samba privou-se da presença física de Delcio, que veio a falecer em decorrência de um câncer no aparelho digestivo deixando uma obra que por si só já é eterna e digna de todas as reverências possíveis e imagináveis. Delcio Carvalho hoje de divino compositor não só pela condição que se encontra, mas por ter tido a oportunidade de emoldurar na parede da memória de muitos toda a poesia e lirismo em forma de samba, um ritmo que por si só embriaga àqueles que sabem sorver de modo preciso aquilo que ele oferece. Esse encontro com Marcelo Guima atesta isso. No seu último registro fonográfico mostra-se detentor de um vigor pleno e insolúvel que substancia toda lembrança deixada por Delcio em versos e melodias escritas e eternizadas em quase meio século dedicado a música. Valeu Poeta! Sua obra, sem sombra de dúvidas, é o legado maior que você poderia deixar. De modo perene seus versos e melodias habitarão gerações e gerações que procurarem se substanciar de um samba bem feito.

Ficam aqui duas canções presentes neste projeto acabou sendo o último do Delcio. A primeira faixa trata-se de “Acreditar“, clássico do música brasileira composto por Delcio e Dona Ivone Lara gravada por diversos nomes da MPB:

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A segunda faixa é outro clássico da MPB em parceria também com Dona Ivone Lara. Trata-se da canção “Sonho Meu“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 9

DCM

É pública e notória a admiração que eu tenho por Dorival Caymmi (1914-2008) desde o primeiro contato que eu tive com a sua obra. A minha relação com a música do cantor, instrumentista e compositor baiano é intrinsecamente ligada datas comemorativas. Lembro-me nitidamente da comemoração dos seus 80 anos em Minas Gerais e que contou com a participação (além do aniversariante) com alguns dos maiores nomes de nossa MPB. Artistas como Elba Ramalho, Gilberto Gil, Djavan, Morais Moreira entre outros medalhões da música brasileira fizeram um dos mais belos tributo a um artista brasileiro visto até os dias atuais. Posteriormente os filhos Nana, Dori e Danilo prestaram uma belíssima homenagem em disco e show pela comemoração das nove décadas de vida do patriarca da família Caymmi. Esta seria a última grande homenagem que Dorival teria a oportunidade de vivenciar, pois viria a morrer pouco mais de quatro anos depois.

Hoje eu volto a retomar a série de histórias que comecei ao longo do ano passado e que havia deixado um pouco de lado. Aproveito a oportunidade nessa retomada para trazer aos amigos leitores algumas curtas passagens da biografia do baiano antes do estrondoso sucesso que ele obteve a partir de 1939, quando Carmen Miranda gravou “O que é que a baiana tem?” para a trilha sonora do filme Banana da Terra, história esta que contarei mais adiante em uma próxima oportunidade.

Para começar vale salientar que, segundo sua neta Stella, a grafia Caymmi provavelmente foi um erro de um funcionário aduaneiro responsável pela entrada de imigrantes no país quando Enrico Caimi (bisavô de Dorival) desembarcou no Brasil. A antiga família do norte da Itália tinha na grafia do seu nome a letra I e não o Y. Com a chegada no Brasil estabeleceram-se na Bahia e lá Henrique Caymmi apaixonou-se pela mulata Saloméa de Souza (avós de Dorival) e tiveram sete filhos, dentre eles Durval, pai de Dorival que casou-se com Aureliana Cândida Soares, a Sinhá. Neste casamento acabaram perdendo os 2 primeiros filhos. Daí fizeram a promessa de que se a próxima gravidez vingasse todos os próximos filhos começariam seus nomes com D e assim veio: Deraldo (5/11/12); Dorival (30/04/14); Dinah (06/08/16) e Dinahir (5/04/18).

Um dos primeiros contatos de Caymmi com a música deu-se quando o pequeno Dorival, então com 04 anos de idade, ouviu “Élégie”, de Jules Massenet e emocionou-se. Outra passagem interessante de sua infância foi quando estava na casa do seu tio Nonô o ajudando a recolher o lixo do chão. Foi lá que o pequeno Caymmi viu pela primeira vez um balangandã. Segundo o próprio Caymmi a história ocorreu da seguinte maneira: “Um dia ele estava com uma jóia sofisticadíssima em cima da bancada. Era uma peça com várias coisas penduradas> cachinho de uva, uma figa, um dedo, uma pinha, um pinhão, um caju, um boneco, uma criança. Aí tinha um correntão que entrava na parte de cima, que segurava aquela penca. Eu disse assim: ’Que coisa bonita tio Nonô!’. Ele disse assim ‘Isso é o chamado balangandã’”. A palavra que não saiu da cabeça do pequeno Caymmi iria figurar anos mais tarde em um dos clássicos do artista baiano “O que é que a baiana tem?”, justamente por conta de uma frase dita também pelo tio Nonô. O irmão de sua mãe sempre contava rindo a Dorival: “Quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim”.

Vale registrar aqui que Dorival aprendeu a tocar violão sozinho no instrumento do seu pai em companhia do amigo e vizinho Zezinho, que o acompanhava com um bandolim napolitano. Era um violão adquirido por Durval por 18 mil réis na loja A guitarra de prata, no Rio de Janeiro. Quando o pai o flagrou pela primeira vez tentou orientar o filho, mas foi a partir do método canhoto que Dorival desenvolveu o seu método todo peculiar para tocar. E foi neste instrumento que além dos primeiros acordes veio também a primeira composição de Dorival, a toada “No sertão”:

Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Nosso amor nasceu pelo São João,
Na roda brejeira, na fogueira ao soluçar de um violão
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Nosso amor morreu, com ingratidão,
Cinzas de amor e de fogueira, tristezas no meu coração
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração

Nesta mesma série voltarei a abordar o nome de Caymmi em outras oportunidades e confesso que vem a ser de modo inteiramente parcial, uma vez que Caymmi para mim fez-se Netuno no mar da canção brasileira. Não há ninguém melhor para falar das águas do que esta emblemática figura que vive no imaginário popular brasileiro a partir de sua imensurável e insubstituível obra como se é possível perceber a partir do contagiante samba “Vestido de bolero“, canção composta nos de 1940 e que deixo agora para os amigos leitores:

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PATRÍCIA TALEM

Deixando aflorar o lado compositora, Patrícia Talem flerta com a sonoridade pop sem perder a elegância

Depois de abordar a música mineira, a bossa e o jazz em uma simbiose perfeita em seu segundo álbum intitulado “Olhos”, disco sofisticado voltado para o mercado exterior e que conta com algumas participações especiais e versões para clássicos da MPB e músicas em inglês, como por exemplo a canção “For Your babies“, do repertório do famoso grupo inglês Simple Red. Patricia que apesar de ter passado pela experiência da noite paulista obteve notoriedade maior quando chegou na América do norte, particularmente nos EUA, onde seu reconhecimento se deu tanto pelo público quanto pela imprensa especializada, prova disto foi a indicação do seu primeiro álbum em duas categorias ao Press Award 2010 (Melhor Álbum e Melhor Tour).

Outro aspecto relevante é também o reconhecimento nos grandes circuitos musicais americanos e da Europa, onde frequentemente participa de espetáculos em cidades como Miami, Nova York e Los Angeles. A soma desses aspecto sedimentaram a sua carreira por terras estrangeiras de modo muito mais consistente do que aqui em seu próprio país, prova disto é o lançamento de “Olhos” ainda este ano na China, por exemplo.

Agora, Talem procura investir em sua carreira no Brasil através do seu terceiro CD intitulado “Sorte”, disco que leva este título devido a mudança de diversos aspectos em relação a vida profissional da cantora, que agora foca uma consolidação profissional também em seu país. “Sorte é ter a possibilidade de ganhar espaço, fãs e admiradores no Brasil. A minha música de trabalho leva o nome do disco e fala de uma mudança de atitude, de otimismo”, disse Patrícia Talem.

Para atingir este objetivo a cantora e compositora vem impregnada de renovação, a começar pela sonoridade, mostrando um lado diferenciado dos trabalhos que antecedem este álbum a partir de uma linguagem mais pop em parceria com o produtor e guitarrista Sandro Albert; gaúcho radicado nos EUA há 15 anos e que já atuou com nomes como Milton Nascimento, Airto Moreira entre outros. O álbum começou a ser delineado de modo interessante como relata a cantora: “Este álbum Sorte nasceu de forma nada planejada – estava de férias, quando meu amigo Sandro Albert ligou, para desejar um Feliz 2011, e aproveitou para mostrar algumas músicas que estava compondo, para uma cantora de NY, chamada Natalie. Eu gostei das músicas e resolvi me aventurar nas letras, por diversão pura… e aí, não é que ele gostou?? Rs… então começamos a fazer mais e mais músicas, na intenção de futuramente registrá-las em um disco… Na época, eu estava lançando Olhos, meu segundo álbum… como todos sabem, seguindo uma linha jazzística, que tanto amo. Sorte veio me desafiar a entrar em um universo mais pop, e a experiência foi simplesmente deliciosa, espero de verdade que curtam…”. Dez meses depois o álbum estava pronto a partir de letras que foram inspiradas em histórias pessoais e de pessoas de seu convívio.

O lado apenas intérprete da artista desta vez não vigora nas treze canções presentes no disco, o que se vê é a vazão também do lado compositora (que em parceria com Sandro Albert) assina todas as faixas do projeto, e mesmo destoando da sonoridade apresentada nos trabalhos antecessores, apresenta originalidade nesta contraposição percorrido por Patricia no exterior. Já as letras procuram trazer as relações afetivas e o amor como eixo principal, como é o caso de “Juro não querer teu mal” e “Último adeus” (canções que retratam a desilusão amorosa após o fim de um relacionamento), “Prece ao vento” (letra que aborda um relacionamento que chegou ao fim, mas que é norteada pela esperança de uma possível volta).

Há canções que abordam o amor de modo menos denso, tais quais “Sonho bom“, “Quero você“, “Par” e “Teu bem teu mal.” Canções com tendências radiofônicas também encontram-se no disco tal qual “Sorte” (faixa escolhida como a música de trabalho e que anda sendo executada em diversas rádio de todo o país) e “Bailar“. O disco ainda conta com “Compasso“, “À toa” e “Estação“, canções também regidas pelo amor. Apenas “Viagem” destoa da temática que rege o disco, apresentando, respectivamente, as belezas do sudeste do Brasil

A ficha técnica do álbum fica a cargo de Sandro Albert (que além de assinar todas as faixas com a cantora e executar guitarras e violões também é o produtor e arranjador do disco), Torcuato Mariano (Mixagem), Marco da Costa (bateria), Erick Escobar (pianos e órgão), Sérgio Carvalho (baixo), Chrystian Galante (percussão), Caroline Shaw e Courtney Orlando (violinos), Caleb Burhans (viola), Clarice Jensen (cello) e Lupa Maouze (vocais). O disco ainda conta com a participação do baixista Michael O’Brien e do tecladista Jota Rezende.

E assim uma das mais bonitas vozes da novíssima geração da nossa MPB busca seu lugar ao sol no mercado fonográfico brasileiro destacando-se com este novo projeto, arriscando em uma nova roupagem sonora, deixando de lado um pouco do seu lado intérprete e investindo também no lado compositora. “O álbum é mais do que uma promessa para ingressar no mercado brasileiro. Eu estou me expondo, arriscando e mostrado além da minha música, as minhas letras”, afirmou a artista. O álbum “Sorte” chega ao mercado nacional pelo selo Palco, com distribuição da Radar Records


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RHANA ABREU – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Artista da cena independente, a cantora e compositora Rhana Abreu vem, entre regravações de clássicos da MPB e composições inéditas, procurando firmar-se no cenário musical brasileiro com carregada autenticidade em sua veia roqueira como os leitores do nosso espaço puderam conferir ao longo da última semana a partir da pauta “A SENSÍVEL E ESMERADA AGRESSIVIDADE MUSICAL DE RHANA ABREU”. Lá foi possível conhecer não só um pouco da biografia, mas também da vida artística dessa cantora de personalidade forte e que hoje anda na divulgação do seu mais recente álbum intitulado “Episódio”. Hoje o nome da artista volta a ter evidência em nosso espaço a partir desta entrevista concedida exclusivamente a mim. Neste nosso bate-papo, a simpática artista procura mostra o ecletismo inerente a sua personalidade a partir de novos projetos que vem arquitetando para o ano de 2014, além de falar, dentre outras coisas, sobre o início da carreira e toda a dificuldade encontrada para chegar ao espaço que hoje conquistou.

Gostaria que você trouxesse um pouco do início do seu envolvimento com a música. Vem da infância essa sua aptidão devido a alguma influência familiar? Conte-nos como se deu esse sua escolha.

Rhana Abreu – O início foi mesmo cantando na missa das 18hs, na igreja São Paulo dos Apóstolos, depois no Tablado eu fazia sempre a cantora e voz nos musicais, aí resolvi, em paralelo, a ser atriz, montar uma banda. A primeira chamava Vide Bula, e eu me vestia de enfermeira e os meninos de médicos, hoje esta marca virou marca de Roupa.. e dai foi adiante, estou agora no quarto cd e traçando caminho lá fora no exterior, depois de ter passado por todo interior do Brasil , grandes capitais e o querido Canecão.

Em suas reminiscências, quais as primeiras referências dentro da música que você destaca?

RA – Como cantora Nina Simone, a voz de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jack Johnson, Red Hot Chili Peppers. Oasis, Led Zeppelin, Guns n’ Roses, The Smiths, U2 entre outras.

Segundo relato seu quando esteve no Programa do Jô, em seu início de carreira houve algumas peculiaridades, diríamos até engraçadas, na hora da divulgação de sua carreira. Dá para contar para os nossos leitores alguma dessas passagens?

RA – Ah! Foi muito incrível! Como eu não tinha equipe (telemarketing, assessoria de imprensa, pois tudo era muito caro), eu mesma me passava por tudo. Ia ao jornal de peruca e fazia a apresentação da Rhana sendo a “assessora” Ana Lúcia, e de casa ligava para todos com voz de homem me chamando de Julio. Ainda havia quem me pedia para apresentar o rapaz do telefone, mas eu dizia: “Ele tem pânico, não sai de casa…”. Se não fosse assim não dava para trabalhar profissionalmente sem patrocínio.

Você além de interprete também diversifica seu talento como compositora. Como se dá o seu processo composição?

RA – Eu geralmente tenho inspiração em situações que acontecem comigo ou terceiros Ou até mesmo no mundo ou num instante. Aí vem a melodia na cabeça e começo a escrever onde quer que eu esteja sem parar… assim se deu a maioria de todas minhas músicas.

Dentro da MPB há uma gama imensa de cantoras e intérpretes que fazem da nossa música uma das mais ricas do planeta. Você traz peculiaridades diversas que a faz diferente de muitas delas, tal qual a personalidade forte e a sonoridade que apresenta neste misto de rock com outros gêneros. Você acredita que haja alguma fórmula específica para se destacar dentro desse contingente?

RA – Hoje não acho que a poesia esteja perdida. Acredto que é preciso dá um tempo… hoje quase não há letra nas músicas e temos uma série de canções maravilhosas que estão estagnadas, sem chances… tem acontecido com muitos artistas e hoje, além de tudo isso, ainda há a onda dos “uiui, aiai”… “tchum tcham…”. Acho que é preciso dá um tempo, não perder a personalidade e continuar criando. Acho que a mistura do clássico e do rock com um misto de precisões são bem legais e é isto que estou fazendo no exterior.

Qual a sua maior dificuldade enquanto artista independente?

RA – Mídia!!! Totalmente jabarizada, paga! Se você não tem grana ou não cai na série banal de músicas que eles (im)põem, não rola! os jornais praticamente acabaram, os poucos que restam são pouco lidos e suas pautas logo são esquecidas. Já a Tv é TODA (em letras garrafais mesmo) paga, e isso acontece de modo que esses pagamentos são dados como anúncios ou promoções, mas isso tudo na verdade é jabá, propina!!!!

Seus registros fonográficos sempre contam com regravações de alguns dos grandes nomes do pop-rock nacional. Quais os critérios para a escolha dessas canções?

RA – Escolho artistas que me identifico, autores com letras que todos gostariam de contar e cantar, amo o Nando Reis, e tive a oportunidade de cantar com ele no mesmo palco a convite dele, em uma música que regravei. Ele é um fofo, um dos poucos que ajudam.

Por que um intervalo tão longo entre seus registros fonográficos? Entre 2001 e 2009 você manteve-se envolvida em projetos musicais?

RA – Não houve este intervalo. Gravei “Cidadã Civilizada”, “Jorhana D’arc” (uma homenagem a mulher guerreira na luta honesta) e Episódio em 2011. Hoje gravar um cd por ano nem existe, é um privilégio. Não há mais loja, não tem nada, só baixar na internet. Os meus estão à disposição no meu site (www.rhanaabreu.com.br) e no vagalume. E os shows no interior não se divulgam aqui, graças a Deus, tenho trabalho. Além disso tenho escrito comédia estilo stand up para atuar como atriz, algo que desejo muito.

Atualmente você vem na estrada com a turnê do álbum “Episódio”. Como tem sido a receptividade do grande público com este espetáculo?

RA – Muito boa! Eu tô feliz e as pessoas querem mesmo algo calmo. Vou em trio Power Trio e com uma programação eletro, mas sempre no final faço um tributo ao Renato Russo, à Cassia Eller e ao Cazuza. Amo o carinho do público e agradeço a Deus tudo isso.

Há projetos arquitetados para 2014?

RA – Atuar como comediante para a tv aberta e no conteúdo brasileiro das tv’s a cabo lá de fora, além de fazer um piloto com um programa sobre adolecentes virtuais e continuar cantanto. Pretendo, na carreira de cantora, expandir a carreira no exterior, procurando alcançar o Festival de Montreux outra vez e produzir com Gregore Glowin, cantar pra Deus e o famoso público com todo amor. Tentar espalhar por ai esta “vibe”, sem ser piegas!!!


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A ESMERADA AGRESSIVIDADE MUSICAL DE RHANA ABREU

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No caudaloso universo de roqueiros existentes no planeta, se chegarmos a contabilizar a quantidade de mulheres que se destacam no gênero, chegaremos, sem sombra de dúvidas, que o númeo de mulheres são infinitivamente menor que a de homens, e se pararmos para observar o rock tupiniquim a quantidade torna-se abruptamente mais ínfima, merecendo destaque pouquíssimos nomes, tais como Celly Campello, Rita Lee, Cássia Eller, Marina Lima e mais alguns que dispensam maiores apresentações.

Rita, uma das pioneiras do gênero, em 1966 juntamente comArnaldo Baptista e Sérgio Dias, surgiu a frente dosMutantes, grupo de relevância importância para o movimento que naquele período se instaurava dentro da música popular brasileira: o tropicalismo. Posteriormente com Lúcia Turnbull formou as Cilibrinas do Éden, e logo em seguida a banda Tutti Fruti com a adesão dos músicos Luis Sérgio Carlini e Lee Marcucci . Daí em diante veio a carreira solo e a exitosa parceria com o compositor, produtor, músico e marido Roberto de Carvalho, que vem desde 1976.

Cássia Eller é outro nome de destaque no gênero, uma artista que apesar da curta carreira interrompida por uma prematura e inesperada morte, também destacou-se como um dos grandes nomes femininos do rock nacional. Seus primeiros registros fonográficos mostram uma roqueira visceral em álbuns como “Cássia Eller” (1990) e “O marginal” (1992). Já no palco, cada apresentação sua era de singular. De marcante presença no palco, Eller assumia inclusive a sua preferência por gravações ao vivo em excelentes espetáculos tais quais “Cássia Eller – Ao vivo” (1996), “Veneno vivo” (1998), “Acústico MTV” (2001) e “Rock in Rio: Cássia Eller Ao Vivo” (disco póstumo lançado em 2006).

A lembrança desses dois ícones do rock nacional se deu para contextualizar o trabalho de uma artista que vem procurando o seu lugar ao sol nesse gênero predominantemente masculino mas que destaca nomes femininos que merecem destaque desde a década de 50 perpassando pelos ícones anteriormente citados até os dias atuais, com nomes como o da baiana Pitty, artista que vem se destacando no cenário nacional desde o lançamento em 2003 do seu primeiro álbum: “Admirável Chip Novo”.

É nesse contexto caudaloso, porém predominantemente masculino, que Rhana Abreu vem procurando alcançar o seu lugar ao sol a mais de uma década, quando lançou o seu primeiro trabalho. Sua carreira fonográfica teve início em 1999 com o single intitulado “Jogo duplo”, composto por faixas que já demostram a veia roqueira da artista em regravações carregadas de autenticidade como as das versões para “Down em mim” (Cazuza), “Quero voltar para Bahia” (Odibar – Paulo Diniz) e “Fala” (João Ricardo – Luhli), regravada em 1999 por Ritchie em seu CD e DVD “Outra Vez (ao vivo no estúdio)”. No ano seguinte é lançado o seu primeiro CD composto por todas as 7 faixas existentes do single mais 6 faixas, dentre elas uma versão da canção “Minha flor, meu bebê” (Cazuza – Dé) lançada em 1987 no álbum “Ideologia”. A boa receptividade do trabalho deu margem para que em 2001 fosse lançado mais um registro fonográfico de Rhana: “Cidadã civilizada”, disco que conta com 10 faixas e de cunho bastante pessoal.

De 2001 até 2009 houve um hiato na carreira fonográfica de Rhana, porém a artista não abandonou a música e dedicou-se neste período, dentre outras coisas, ao seu lado autora que veio aflorar em “JoRhana D’arc”, álbum que traz duas parcerias da cantora com o produtor, guitarrista e diretor geral do disco Gustavo Fernandes. A música de trabalho deste disco “Onde estão os homens?” a levou ao Programa do Jô.

Atualmente vem na divulgação do seu mais recente trabalho intitulado “Episódio”, trabalho que conta com uma quantidade maior de composições de sua autoria, totalizando cinco canções e somando novas parcerias com Rodrigo Pelot, Eduardo Chermont, Esdras Bedai, Eduardo Pitta, além é claro do parceiro Gustavo Fernandes nas faixas “Uau!”,Gosto do novo”, “Afrodite” e “Episódio” (canção que dá nome a mais um título na discografia da artista). O disco conta ainda com “Pensando em você“, de autoria do guitarrista Rodrigo Pelot e “Vamos voar para a lua“, de Esdras Bedai e Eduardo Pitta. Além de regravações como “Exagerado” (canção da lavra do cantor e compositor Cazuza, que deu título ao seu primeiro álbum solo), “Por Enquanto” (Renato Russo) e “Me diga” (Nando Reis). Somando forças a esses compositores e instrumentistas ainda estão presentes também no disco estão Fabiano Matos (bateria), Octávio Soares (Baixo), Daniel Gonzaga (órgão), Fred Nascimento (violões).

A artista, que de Ana Lúcia adotou como nome artístico Rhana por influência do paranormal Thomaz Green Morton e por questões numerológicas, vem de modo autêntico, fazendo a sua história no cenário musical brasileiro. “Episódio” é a prova disto, mesmo pecando na ausência do um vigor maior nas releituras das duas canções presentes no repertório da Cássia Eller, como muitos saudosistas irão analogamente observar.

Para o conhecimento dos amigos fubânicos segue duas canções que pode vir a ser do conhecimento de muitos. A primeira trata-se da canção “Luz dos Olhos“, composta pelo cantor e compositor paulista Nando Reis e que teve como maior intérprete a saudosa Cássia Eller:

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A segunda faixa é um clássico do cancioneiro brasileiro que foi escrito por Rita Lee. Trata-se de “Ovelha Negra“:

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FERNANDA CUNHA

FC

Ela perpetua em disco matizes do seleto cartão-postal musical que apresenta mundo a fora

Fernanda Cunha, cidadã do mundo, mostra-nos, sem abrir concessões, que a sua essência ainda se faz valer em suas mais genuínas influências.

Não é de hoje que a música brasileira se tornou um dos mais bem sucedidos produtos de exportação do nosso país. Desde a inserção de Carmem Miranda no mercado de entretenimento norte-americano com o espetáculo musical “Streets of Paris” em 1939, perpassando pelos 13 filmes onde a “pequena notável” atuou, sem esquecer também do clássico espetáculo Carnegie Hall em 1962 com a propagação de um gênero que posteriormente viria a se firmar como um dos ritmos brasileiro mais bem sucedidos no mundo: a bossa nova.

Desde que o mundo ajoelhou-se diante do talento do nosso “maestro soberano” (como certa vez Chico Buarque definiu Tom Jobim) e suas complexas e inovadas harmonias que a música brasileira caiu de modo definitivo no gosto popular ao redor do mundo, sendo reconhecida como uma das mais inovadoras e ricas dentre as existentes. Nomes como Airto Moreira, Flora Purim, Ivan Lins entre tantos outros hoje colhem o fruto desse reconhecimento (e em alguns casos com uma carreira até mais bem sucedida no exterior do que aqui mesmo no Brasil).

Fernanda Cunha insere-se perfeitamente neste contexto e não foge à regra. Com mais de 15 anos de estrada e uma carreira cada vez mais sedimentada no exterior, Fernanda vem galgando seu espaço de modo bastante relevante longe das grandes gravadoras no mercado internacional. Isso talvez venha a justificar o apropriado título que a artista deu ao seu quinto álbum: Coração do Brasil. O disco, que conta com dez faixas e um repertório meticulosamente bem escolhido (característica já inerente à artista desde o primeiro trabalho “O tempo e o lugar”, lançado em 2002). Neste intervalo de doze anos a artista já trouxe ao grande público uma justa homenagem a dois grandes baluartes da MPB com o álbum “Dois Corações”, que trás uma viagem musical à Johnny Alf e Suely Costa; revisitou as parcerias de Tom Jobim e Chico Buarque em “Zínzaro” e, em parceria com músicos canadenses e brasileiros, trouxe-nos o álbum “Brasil – Canadá”, onde a cantora apresenta-se também como autora de duas faixas.

Neste novo projeto cujo título é “Coração do Brasil” a artista conta mais uma vez com a presença da dupla Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques com o tema “Adeus América”, samba que, de certo modo, fundamenta o título do álbum e que retrata a saudade do torrão natal da artista quando esta encontra-se longe do nosso país levando a nossa cultura pelo mundo afora. Versos como: “Não posso mais, ai que saudade do Brasil… Ai que vontade que eu tenho de voltar…” atestam isso. Tom Jobim, recorrente artista nos álbuns da cantora, está presente cem duas parcerias com Aloysio de Oliveira: “Eu preciso de você” e “Dindi”.

 A dupla Ivan Lins e Vitor Martins também marcam presença dez anos depois da primeira doze anos depois da primeira aparição na discografia da artista mineira com a clássica “Somos todos iguais esta noite”, gravada originalmente em 1977 e posteriormente em 1984 no álbum “Juntos” por Ivan.

O Rio de Janeiro vêm em cores, versos e poesia por intermédio das composições de artistas como o “poeta da Vila” Noel Rosa (que traz o samba “Não tem tradução”, de 1933), Daniel Gonzaga, que assina a faixa “Samba pro João” (do álbum “Os passos na paralela”, de 1998, do cantor e compositor carioca) e uma composição da lavra da própria cantora intitulada “Rio”, composição de Fernanda com a pianista Camilla Dias. Outra compositora que sempre marca presença nos álbuns de Fernanda Cunha é a carioca Suely Costa, tia da cantora, e que também participa do disco ao piano. Dessa vez ela presenteia a sobrinha com a inédita “Perdido de Encantamento” (em parceria com Luiz Sergio Henriques). O disco ainda conta com mais dois nomes que figuram entre os compositores, são eles Marcio Hallack que assina (em parceria com o compositor Luiz Sergio Henriques) a faixa “Feito Andorinha” e Antonio Adolfo, que junto com o letrista Nelson Wellington assinam a canção que batiza o disco.

Assim se faz “Coração do Brasil”, um disco com um repertório requintado baseado em muitos dos números apresentados pela artistas em suas apresentações no exterior, procurando manter-se coerente com a qualidade musical que caracteriza os álbuns que antecederam este novo projeto tais quais “Dois corações”, “Zíncaro”, “Brasil-Canadá” e principalmente “O tempo e o lugar”, álbum que muito se assemelha a este recente trabalho devido a quantidade de compositores que figuram em ambos. “Alguns compositores do primeiro CD estão aí de novo, como se eu reafirmasse meu amor por eles: Sueli Costa, Ivan Lins, Haroldo Barbosa, Nelson Wellington e Márcio Hallack. Por outro lado, Coração do Brasil traz também compositores que estiveram na minha discografia e que estão sempre no meu repertório de shows, como Tom Jobim e Noel Rosa, além de um compositor da minha geração que tenho muita admiração, que é o Daniel Gonzaga. Então, é a Fernanda que eu sempre fui, fiel às minhas escolhas e aberta para o novo”, define-se Fernanda Cunha.

Vale trazer ao conhecimento do grande público que a qualidade sonora do álbum é tecida por nomes como Cristóvão Bastos (piano), Zé Carlos (violão e guitarra), Jorjão Carvalho(baixo) e Jurim Moreira (bateria), Camilla Dias (piano) e Tom Szczesniak (acordeom) fazendo do disco uma grande confraternização, onde amigos e compositores se reencontram com a voz cristalina da artista novamente. Não é à toa que a artista vem galgando espaços cada vez mais significativos no exterior apresentando-se em diversos festivais musicais em torno do mundo, bebendo dessas fontes para somá-las as raízes tão arraigadas na artista mineira. “Eu encontro inspiração na beleza que é o Brasil, no jeito afetuoso que só o brasileiro tem, no amor da minha família, nos nossos compositores fantásticos, nos nossos músicos maravilhosos”, fala a cantora e compositora, reconhecendo que suas andanças e contatos com artistas de várias lugares do mundo foi bastante importante para moldá-la do modo como hoje ela apresenta-se.

Fica aqui a título de conhecimento duas faixas deste distinto álbum dessa artista caracterizada por características ímpares. A primeira faixa um clássico do poeta da vila Noel Rosa sob o título de “Não tem tradução”:

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A segunda faixa trata-se da clássica “Adeus América”, da lavra de da dupla Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques. Gravada por nomes como João Gilberto, Jane Duboc, Rosa Passos, Os Cariocas e Wanderléa,  a canção ganha mais uma encorpada versão:

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Conheçam também:

Fernanda Cunha

e

My Space


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NIREZ, 80 ANOS

nirez

Nirez, ou melhor, Miguel Ângelo de Azevedo, um dos mais respeitados conhecedores da música popular do Brasil e dono de um dos maiores acervos de discos de cera do país chega aos oitenta anos

Nirez como pesquisador e historiador é sem sombra de dúvidas um dos mais respeitados e notórios na área. Com um acervo composto por mais de 140 mil peças ao longo dos mais de cinquenta anos, o desenhista técnico, publicitário e radialista aposentado tornou-se não apenas um grande colecionador mais também um profundo conhecedor da história da música popular brasileira, sobretudo da primeira metade do século XX, assim como também da cidade de Fortaleza. Essa condição o colocou como frequente colaborador de diversos jornais de Fortaleza, tais como: Correio do Ceará, Tribuna do Ceará e O Povo; além de frequente fonte de pesquisa para artistas de todo o país que o procuram no bairro de Rodolfo Teófilo, mais precisamente na Rua Professor João Bosco, 560 para eventuais consultas através do Museu Cearense da Comunicação (antigo Museu Fonográfico do Ceará). Conforme informações do próprio historiador, pela última contagem, o acervo conta com mais de 140 mil itens, dos quais cerca de 22 mil peças (mais precisamente os discos de cera) foram digitalizados graças a um convênio firmado com o Ministério da Cultura (Minc) e a Petrobras.

O acervo que conta com fotografias (prédios, logradouros, pessoas, solenidades, acontecimentos etc.); rotulagem (carteiras de cigarros, caixas de fósforos, sabonetes, perfumaria, alimentos, bebidas etc.); propaganda (anúncios, lápis e canetas de divulgação de produtos etc.); DVDs (filmes, documentários, registros de palestras etc.); 600 LPs (vinil – todos em MP3, por exemplo); dezenas de fitas (cassete e rolo); partituras musicais (hinos, música popular e algumas eruditas); 15 rolos fonográficos entre outros contam um pouco da história não apenas do Estado do Ceará mais boa parte da cena musical da primeira metade do século passado. Por seu trabalho, Nirez recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos. Ao longo deste mês Miguel Ângelo de Azevedo, um dos grandes guardiões da memória cultural do nosso país, está chegando aos 80 anos e eu, através do Blog do Lando, tenho a oportunidade de registrar aqui em nosso espaço uma informal conversa com este homem que, além de colecionador, é também autor de obras como “Enciclopédia da Música Popular Brasileira”, “Cronologia Ilustrada de Fortaleza”, “Fortaleza de ontem e Hoje” entre outros. Figura ímpar no cenário cultural nacional, Nirez pode ser considerado hoje como um dos grandes baluartes da cultura brasileira, principalmente se levarmos em consideração a sua dedicação décadas a fio em manter viva a chama de uma arte tão rica quanto a brasileira.

Essa sua, digamos, mania de colecionar as coisas vem desde que época? Em sua infância já manifestava-se o seu interesse neste sentido?

Nirez – Sim, desde tenra idade sempre gostei de fazer coleções de figurinhas, carteiras de cigarros, caixas de fósforos, etc, mas não guardava, me desfazia com facilidade das coleções. Só vim fazer isso seriamente a partir dos 20 anos de idade.

E o seu interesse por música vem desde que época? Quais são as suas maiores reminiscências nesse sentido?

Nirez – Em 1939, quando eu tinha cinco anos de idade, meu pai recebeu, por troca de um trabalho, um gramofone com vários discos e aquilo me encantou e eu decorei o aspecto de todos os discos, de forma que ainda hoje, ao escutar um deles me vem, imediatamente, a imagem do aspecto do disco.

Você deu início a sua coleção de 78 rpm em 1954, em uma década em que já começava a se popularizar os LP’s em seus mais diversos formatos em detrimento ao segmento que você decidiu colecionar. Houve na época quem acreditasse que você rapidamente desistiria dos discos de cera e migraria para os LP’s?

Nirez – Na verdade ninguém acreditava no sucesso do LP, primeiramente porque eles não tocavam nos antigos aparelhos; outros, porque mesmo as músicas mais antigas vinham em novas interpretações e ninguém jamais pensou que os 78 rotações sairia do mercado. Pensava-se que ficariam as duas formas para sempre à venda. Logo depois surgiram os compactos e os 45 rotações, de forma que pensava-se que todas as formas ficariam.

Nestes 60 anos em busca da preservação da memória cultural cearense e brasileira quais as maiores dificuldades encontradas para manter-se neste propósito?

Nirez – Quando iniciei pouca gente escrevia a respeito das antigas gravações, dos compositores, intérpretes, etc. Os críticos só cuidavam de jazz, música de boate, sucessos contemporâneos, etc. Era muito difícil a aquisição de peças raras. Depois foram surgindo reedições de livros, novos críticos interessados em nossa música, associações de pesquisadores, passamos a ser vistos com mais respeito, a Funarte deu uma boa ajuda na publicação de obras biográficas e discográficas, etc.

Uma curiosidade que cerca a todos que tem oportunidade de tomar conhecimento do seu acervo é de como começou tudo isso. Você poderia nos dizer como se deu o início dessa coleção? Foi a partir de que peça?

Nirez – Quando aniversariei em 1954 (20 anos) um amigo me ofertou um toca discos, pois sabia ser eu um apaixonado por música e a partir daí procurei adquirir discos para ouvir; foi quando percebi que eu não gostava da música da minha época, comprei uns 15 discos e parei. Descobri então os discos de reedição e passei a comprar antigas gravações das décadas de 1920, 1930 e 1940. Também comprei discos de segunda mão nas calçadas, sebos, etc, onde consegui muitas raridades. E a coisa foi crescendo e quando me vi cercado de nomes estranhos eu quis saber quem eles eram e procurei a literatura a respeito e formei uma biblioteca especializada no assunto. Depois procurei fotos a respeito do assunto a aí deparei-me com outro tipo de foto, da cidade, formando nova coleção. Em 1963 coloquei no ar o programa “Arquivo de Cera”, que ainda hoje está no ar, onde eu presto uma homenagem ao cantor, compositor, musico aniversariante do dia, quer seja de nascimento ou morte. E assim vem sendo até hoje. O programa já passou por várias emissoras de rádio e hoje está na Rádio Universitária FM.

Dentre os 22 mil discos do acervo de 78 RPM existe a predileção por algum? Qual(is) seria(m) aquele(s) que você destacaria?

Nirez – Gosto muito tanto dos discos da década de 30, que considero a época de ouro de nossa música como gosto do chamado período heróico, que foi o início, com gravações mecânicas de modinhas, dobrados, lundus, schottisch, polcas, mazurcas, que são de uma doçura inexplicável. Não tenho preferência por nenhum em particular. Com o tempo, analisando, colocando as coisas em seu devido tempo, perde-se essa história de preferência por cantor, compositor, orquestra, músico, etc. O importante é a peça musical que nos agrada.

O povo brasileiro tem a fama de ter a memória curta. Em sua opinião enquanto pesquisador e colecionador se dá devido a algum fator específico?

Nirez – Somos um país ainda de terceiro mundo, não temos o direito de ser saudosistas. Você vê que um beijo em filme ou na televisão tem que ter uma música americana como fundo, NUNCA uma brasileira. Só se ama em inglês. O americano se dá ao luxo de lançar uma coleção de discos homenageando os grande compositores e intérpretes de lá, com gravações originais; nós fazemos aqui uma imitação, porém com gravações recentes porque nos enoja usar as originais. E o trabalho perde seu valor.

Você, ao lado do pernambucano Leon Barg (dono do selo Revivendo e falecido em 2009) são, sem sombra de dúvidas, os maiores responsáveis pela preservação da memória musical brasileira registrada na primeira metade do século XX. Vocês mantinham alguma relação de amizade?

Nirez – Sim, fomos grandes amigos e eu me sentia na obrigação de podendo, completar sua coleção no que me fosse possível. Ele vinha na minha casa, via os discos que lhe interessavam e levava. Nós nunca trocamos um disco sequer. O disco que lhe interessava eu dava a ele, em contrapartida, quando eu ia à sua casa ele me presenteava com dezenas de raridades. Foi uma pena seu desaparecimento, A cultura nacional perdeu muito com isso.

Você hoje considera-se um homem realizado?

Nirez – Eu acho que ninguém deve se achar realizado. O homem que assim pensa ele se acomoda e deixa de produzir. Sempre acho que falta muito para eu fazer e o que eu pensei fazer não cheguei a concretizar.

Qual o maior presente que você ainda gostaria de ganhar ao longo dessa comemoração de seus 80 anos?

Nirez – É muito bom o reconhecimento. Não desejo mais do que isso. Obrigado.

* * *

Serviço

Arquivo Nirez:
Rua Professor João Bosco, 560, Rodolfo Teófilo
Telefones: (85) 3281-6949 (à noite) / (85) 9982-6439
e-mail: nirez@terra.com.br

Nirez na internet: Projeto Disco de Cera

Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE):
Av. Barão de Studart, 410 – Meireles
mis@secult.ce.gov.br
Visitas com grupos e pesquisa ao acervo: (85) 3101.1206
Aberto de segunda a sexta, de 8h às 17h.


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FLÁVIO ASSIS – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

A sonoridade de Flávio Assis pode ser analogamente comparada a uma espécie de rio, que constituído por um percurso bastante peculiar, deságua em uma gama de ritmos e influências agradavelmente abrangentes. Os principais afluentes desse rio são, sem sombra de dúvidas seus pais, que souberam como poucos substanciar a musicalidade do artista e com essas características destacáveis que o cantor e compositor vem atualmente na estrada divulgando o seu segundo álbum intitulado “Feira Livre”, que conta com a adesão do também cantor e compositor Roberto Mendes assinando a produção.

Flávio, apresentado ao público do JBF, nesta coluna na semana passada, através do texto intitulado FLÁVIO ASSIS APRESENTA UMA FEIRA IMBUÍDA DE RITMOS E BRASILIDADE, se dispôs gentilmente a nos conceder essa entrevista exclusiva onde aborda dentre outros temas sob o impacto que o atingiu na primeira audição do álbum “Expresso 2222″ do Gilberto Gil e como conheceu o cantor e compositor paraibano Chico César, que participou do seu primeiro álbum “A cor da noite”, lançado por Assis em 2009.

A primeira pergunta trata-se na verdade de uma curiosidade: quais as suas maiores e mais remotas reminiscências do seu envolvimento com a música?

Flávio Assis – As lembranças mais recônditas da minha relação com a música estão, fortemente, arraigadas à minha mãe, Dona Eliene. Lembro-me, criança, tentando acompanhar, cantando, as inúmeras canções que desabrochavam da sua vitrola. Também tem papel importante a cidade de Salinas da Margarida, no Recôncavo Baiano (onde morava meu avô materno, Seu Basílio, e onde eu passava minhas férias escolares). Foi lá onde eu ouvi, pela primeira vez, o som inconfundível dos tambores sagrados do Candomblé (rum, rumpi e lé)… Soavam-me como algo mágico, e eu me espreitava entre os adultos para assistir às cerimônias, alguns ritos públicos e, principalmente, suas festas. Meu avô, Seu Basílio, que tocava modas no cavaquinho também me instigava musicalmente. Foi em Salinas que eu conheci o samba-de-roda, as mulheres sambadeiras, os cânticos e toda magia rítmica deste patrimônio imaterial do povo brasileiro. No bairro onde cresci em Salvador, na década de 1980, o Cabula, convivi com uma pessoa que foi fundamental na minha relação com o violão, o Seu Gerson (que o considero como um segundo pai, para mim). Com ele descobri e me apaixonei pela minha maior influência musical, o Gilberto Gil. Ele tocava quase tudo do mestre baiano, sensacional! Seu Gerson foi quem, também me apresentou o universo lírico-harmônico, fabuloso, da Cantoria de mestres como Elomar, Vital Farias, Renato Teixeira, Xangai, Geraldo Azevedo e o piauiense, radicado em Goiás, Francisco Aafa. Agora, imagine todo esse caldeirão na cabeça de uma criança de 11 anos, já pensou? Considero-me um privilegiado!

Sua mãe Dona Eliene foi de extrema importância para a sua formação musical principalmente a partir da coleção de discos que ela possuía. A influência dela restringia-se apenas na questão da audição ou ela também dominava algum instrumento que acabou influenciando-o de certa forma assim como o seu pai?

FA – Diferente de meu pai, Seu Assis, minha mãe não tocava nenhum instrumento musical. O gosto eclético pela música, a forma “desavergonhada” com que ela, sem o menor constrangimento, punha um LP de Maria Bethânia para tocar e em seguida, Raul Seixas, o pernambucano Reginaldo Rossi, The Fevers e, pra fechar, Stevie Wonder, já pensou? Esse foi um dos seus maiores legados na minha formação, para muito além do artista que me tornei, mas do homem, do cidadão. Olhar para o mundo despido de pré-julgamentos, das amarras estéticas, tão inúteis. Fundamental!

Apesar de você ter passado por uma escola de música talvez tenha como grande formadora de sua arte as experiências noturnas em bares e espaços culturais de Salvador. Há algo que seja evidente nas canções de seus discos e que tenha sido assimilado desse período em que você tocou na noite?

FA – Não considero profunda, tampouco extensa, a minha relação com a “noite” nos bares da minha cidade natal, confesso. Fiquei pouco tempo inserido neste contexto, mesmo porque, em paralelo à música eu tive uma outra formação profissional, a de geógrafo, que me conduziu para a sala-de-aula, como professor da disciplina na Educação Básica. Aliás, profissão que ainda agora exerço, deus sabe até quando! Mas, claro que desse período tocando na noite ficou como herança, sem dúvida alguma, a plasticidade diante do repertório musical. Tocar na “noite”, exige muito da capacidade de diversificação do artista, não apenas com o repertório, mas com as sonoridades, timbres e interpretação, por exemplo.

Tanto nas letras quanto nas melodias o continente africano se faz bastante presente em seu trabalho. Esses aspectos parecem presentes em você de maneira muito arraigada. Deixe agora o geógrafo de lado e responda: nesta questão sonora a pangeia é algo ainda existente?

FA – Gostei dessa imagem, “pangeia sonora”, muito ilustrativa! Sim. Como artista, sou produto de um mosaico musical substancial, que permeia toda minha trajetória, como já disse anteriormente. Todas essas sonoridades não se traduzem em mim apenas como potência, mas estão presentes em amálgama, transfiguradas em mim, representam o meu “ethos musical”. Este “ethos” se traduz na minha condição de homem negro, pois ter na pele, “a cor da noite”, em nossa sociedade, é uma condição política. Tudo isso se reverbera, obviamente, na minha percepção de mundo, assentada sobre bases, ética, moral, espiritual, cultural e filosófica, de matriz africana, indelevelmente. Contudo, esta perspectiva pan-africanista desabrochou em mim, por volta dos meus 18 (dezoito) anos, quando lembro me apropriar de forma mais consciente deste tema. Então, no meu caso, com licença do neologismo, em mim o continente africano foi “(re)pangelizado”, por assim dizer, à minha existência.

Você vem trilhando uma carreira de maneira independente bastante interessante. Nos dois álbuns que foram lançados até então o reconhecimento pelo seu esforço não tem deixado de acontecer, tanto que no Prêmio da Música Brasileira deste ano você teve seu trabalho dentre os pré-selecionados. Qual a maior dificuldade em seguir um caminho alternativo dentro da música como este que você vem traçando?

FA – As dificuldades são inúmeras. Desde os obstáculos para inserção nas rádios à circulação do próprio trabalho. Com exceção da radio pública, aqui na Bahia, as demais obedecem a uma lógica mercadológica muito clara na sua grade de programação, a famosa máxima do “jabá”. A circulação, divulgação e distribuição, por exemplo, se dão majoritariamente a partir das redes virtuais. O advento da internet redimensionou o lugar e o papel da música independente em todo mundo, se instituindo como canal difusor importantíssimo, pôs em xeque a velha ordem das gravadoras e dos seus executivos. Na minha trajetória a internet tem sido imperativa do ponto de vista da divulgação e circulação do meu trabalho. Esse “bate-papo”, aqui no JBF, é um grande exemplo disso, ademais nos conhecemos na rede. Há mais ou menos uma semana, o CD Feira Livre passou a ser tocado em 10 (dez) rádios de Portugal, porque um produtor local assistiu ao show em Salvador e articulou, via rede, a inserção do trabalho nas mesmas. A distribuição do CD em formato digital, também é um grande exemplo. Tem aparecido compradores de diferentes partes do mundo, com os ouvidos curiosos para o trabalho, isso é muito bom!

Conte-nos acerca da sua aproximação com o Roberto Mendes e como surgiu o convite para que ele viesse a produzir este seu trabalho mais recente?

FA – Em primeiro lugar, eu sou um fã entusiasta da obra do Roberto Mendes, que é ímpar na Música Brasileira. Trabalhar ao lado do meu ídolo teve um sabor muito especial. Conheci o Roberto em 2008, à época da divulgação do seu livro “Chula: comportamento traduzido em canção” e do CD homônimo, uma verdadeira pérola, pouco conhecida do grande público, infelizmente. Então em 2010, estreei o show “Canção é mar”, onde tive a honra de tê-lo como convidado especial. A partir desse encontro passamos a nos falar com mais freqüência, o que nos permitiu nutrir uma amizade. Então, em junho de 2011, fui visitá-lo na sua casa em Santo Amaro da Purificação, para um papo, conselhos e claro, saborear uma legítima maniçoba. Foi desse encontro que surgiu a ideia de produzirmos um novo disco. Engraçado, porque a proposta inicial era muito diferente do resultado final. Roberto imaginou um disco muito próximo da sonoridade acústica, explorando o meu violão e as informações percussivas que minha forma de tocar o instrumento sugere. Mas aí surgiu o imponderável da condição humana, que é a inventividade, a capacidade eminentemente humana de (re)criar, (re)inventar, (re)elaborar , o que é fundamental na arte. Digo isso, porque os músicos/amigos envolvidos foram protagonistas desse processo. Tedy Santana (bateria), Cuca (percussão), Bóka Reis (percussão), Gustavo Caribé (baixo), Alex Mesquita (violão folk e guitarra), que arranjou, produziu e enviou as trilhas da sua participação de Los Angeles, com muito carinho e competência. Jurandir Santana (viola), Paulo Mutti (violão folk e guitarra), Jelber Oliveira (sanfona), Duarte Velloso (guitarra) e Dinho Filho (programação, edição e mixagem do disco). Enfim, uma turma da “pesada”, que tive a honra e o privilégio de trabalhar e compartilhar a minha arte com eles.

Em seu mais recente disco “Feira Livre” é bem perceptível características da sonoridade existente no recôncavo, tanto que já na primeira audição algo me remeteu, por exemplo, a saudosa Edith do Prato, que coincidentemente também foi produzida pelo Roberto Mendes. Esse tipo de sonoridade vem naturalmente devido as influências das fontes das quais você bebeu ou de certo modo tem a interferência do Roberto?

FA – Acredito que o disco “Feira Livre” seja um produto das duas coisas. As minhas influências já mencionadas de uma lado e o Roberto do outro, perfeitamente congruentes. Por exemplo, quando ouvi pela primeira vez “Expresso 2222”, do mestre Gilberto Gil, foi muito forte! A batida, o swing, a ginga, o “resfolego” e o “groove”, traduzidos no violão marcante de Gil, foram como uma grande revolução na cabeça de um menino de 11 (onze) anos, que ensaiava os primeiros acordes ao violão. Aquela sonoridade era e é Recôncavo em estado puro e, ao mesmo tempo, também é Luiz Gonzaga, é Jackson do Pandeiro, porque essas referências foram forjadas a partir de uma matriz negra e africana, tão bem traduzida na região do Recôncavo Baiano. Roberto Mendes representa para mim e toda uma geração de músicos na Bahia e no Brasil, em geral, a decodificação da trama rítmico-melódica que se constitui a chula, o embrião do grande produto genuinamente brasileiro, o samba. Por sua vez, o próprio Roberto já é o resultado de matrizes muito caras, como Dona Edith do Prato, que você muito bem citou, Dona Dalva de Cachoeira, os mestres tocadores, Seu João do Boi, Seu Alumínio e Seu Zé de Lelinha, por exemplo. Então o disco “Feira Livre”, é filho dessa profusão musical, cultural, simbólica e, fundamentalmente, comportamental. Nas palavras do mestre Roberto Mendes, o disco se transformou em uma “quermesse cultural”.

Como se deu a participação do Chico César no álbum “A cor da noite”, de 2009, seu disco de estreia?

FA – Conheci o Chico em 2006, em São Paulo. À época estive na capital paulista para o estabelecimento de redes e a realização de cinco shows e, coincidentemente, ele estava lançando o seu álbum, “De uns tempos pra cá”, em parceria com o “Quinteto da Paraíba”, que na minha modesta opinião, é o melhor da obra do mestre paraibano, uma obra basilar da Música Brasileira, genial! Então, ao final de 2008 quando iniciei o processo de pré-produção do disco “A Cor da Noite”, foi imediata a associação com o Chico, surgindo o convite, que ele topou de imediato. Fiz a pré-produção da faixa em Salvador e gravamos a voz do Chico no seu estúdio, em São Paulo. O Chico César é um artista raro, desses que já não surgem mais, com um senso crítico, uma percepção de mundo e de vida apuradíssima, uma grande figura humana. Sou fã do Chico, também uma grande Escola para mim.

Gostaria que, se possível, você discernisse o que podemos observar como principais características existentes entre este seu álbum atual (“Feira Livre”) e o que o antecedeu (“A cor da noite”). Àqueles que só tiveram a oportunidade de ouvir o mais recente o que pode encontrar como características nele que de certo modo remete ao trabalho anterior?

FA – Ao contrário do “Feira Livre”, cuja produção se deu de forma mais espontânea, com forte influência da percepção de cada músico envolvido no processo, o disco “A Cor da Noite”, produzido por mim e o baixista baiano, Gilmário Celso, foi inteiramente arranjado. Neste primeiro trabalho, cada nota musical ali registrada foi arranjada. Se por um lado este aspecto se traduziu em uma estética harmoniosa, muito bem elaborada, por outro engessou a possibilidade do trabalho se (re)inventar, porque estava preso aos ditames do arranjo. O disco “A Cor da Noite”, é fundamentalmente temático, a partir do referencial africano. Os arranjos foram concebidos a partir da referência polifônica da música contemporânea de África, a partir dos trabalhos de artistas como, Salif Keita, Youssu N’Dou, Morkta Samba, Richard Bona, Manecas Costa, Angelic Joe, Habib Koité e outros. Isso aparece muito intencionalmente no trabalho, foi uma escolha consciente do processo de produção do disco. O “Feira Livre”, é diferente, é mais solto, mais espontâneo, eu me reconheço mais inteiro, mais maduro obviamente. O disco “A Cor da Noite” ele está disponível, na íntegra, na nossa página no MySpace e ainda é comercializado, aqui em Salvador, em lojas especializadas.

Como tem sido feita a divulgação do álbum “Feira Livre”? Você tem percorrido o Brasil ou esse trabalho a princípio restringe-se apenas à Bahia?

FA – Agora no segundo semestre estamos com agenda prevista para São Paulo e Rio de Janeiro, para circulação do disco, o que deve ser uma tendência cada vez mais natural do trabalho, à medida que Salvador, infelizmente, é pouco favorável à produção artística independente, por diversos fatores.


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FLÁVIO ASSIS APRESENTA UMA FEIRA IMBUÍDA DE RITMOS E BRASILIDADE

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Todo mundo na vida já deve ter passado por uma ou ao menos tem ideia do que é uma feira livre e suas peculiaridades. Em qualquer lugar do mundo as características de tal evento são extremamente semelhantes e muitas vezes fidedignas uma a outra. É comum cada comerciante expor as suas diversas mercadorias e, por meio das devidas retóricas, procurar atrair o cliente exercendo o seu poder de persuasão. Geralmente se dá melhor aquele que apresenta uma mercadoria de boa procedência e de qualidade inquestionável, sem contar que ter um alto grau de discernimento sobre aquilo que expõe é fundamental para um êxito maior. Essa pequena introdução se faz necessária para a abordagem do artista que aqui vos apresento e a sua respectivo “mercadoria”. O produto ao qual me refiro na verdade trata-se do fruto da imaginação do artista, cujo caudaloso sumo de inspiração deu vazão ao disco “Feira Livre“, segundo trabalho autoral do cantor e compositor Flávio Assis.

Nascido na cidade de Salvador, Flávio traz arraigado em seus trabalhos autorais todas as fontes das quais bebeu e que hoje são alicerces de sua sonoridade, tecendo em suas letras e melodias um verdadeiro mosaico constituído por imagens diversas que nos remetem às peculiaridades da cultura nordestina, mas especificamente a baiana. Lugares como a Praça Castro Alves, passando pelo Dique do Tororó, Igreja do Bonfim e Elevador Lacerda tem lembranças cativas em suas letras e molodias. Tal qual o Rio Paraguaçu (o maior rio genuinamente baiano) nada detém a sonoridade de Assis, que perpassa por boa parte do território baiano absorvendo diversas influências que desembocam em sua música. Isso talvez pelo fato do senhor Francisco Assis e dona Eliene dos Santos ter concedido ao artista nascer na cidade do Salvador. Por falar em sua progenitora, é necessário falar um pouco sobre a sua coleção de LP’s que foi outro fator preponderantemente essencial para o interesse do pequeno Flávio pela música. Nomes como Djavan, Amado Batista, Luiz Gonzaga, Geraldo Azevedo, Roberto Carlos,Caetano, Raul Seixas, Elis Regina, Chico Buarque entre tantos outros faziam parte do acervo dela e talvez por isso Assis a considere a primeira professora de música, por ser a pessoa que o ensinou a ouvir diversos artistas com ouvidos despidos de pré-julgamentos, de rótulos. A partir daí o violão se fez uma constância na vida de Flávio Assis ao longo de boa parte da infância e início da adolescência, sobretudo por influenciado do pai (que dedilhava melodias de Luiz Gonzaga) e o vizinho Gerson Veloso.

Ao completar treze anos mergulhou em definitivo no aprendizado de um instrumento e passou a estudar de maneira formal tanto o violão clássico quanto popular até os 17 anos, onde a partir daí passou a estudar na escola da vida tendo lições diárias ao tocar nas noites da capital baiana. Posteriormente acabou tornando-se professor (depois de passar pelo curso de geografia na Universidade Federal da Bahia) e em 2009 lançou o seu primeiro disco, cujo título é “A Cor da Noite”. Neste álbum de estreia a produção ficou a cargo do próprio artista e do músico Gilmário Celso e traz como repertório canções autorais a partir de suas expressões melódicas, harmônicas e textuais afro-brasileiras. O álbum conta com a participação do cantor e compositor paraibano Chico César.

Três anos depois, o trabalho da vez veio a ser “Feira Livre” disco que vem sendo divulgado pelo artista desde então. São 13 faixas autorais que perpassam pela sonoridade do recôncavo baiano, como se evidencia nos toques de origem africano presentes em “Sexta-feira“. A canção com termos em yorubá e saudações a orixás celebra o dia que é almejado por muitos ao longo da da semana; já o amor chega carregado de sonoridade no belíssimo afoxé “Cambuí“. A faixa posterior (“Embolá“) mescla a embolada nordestina com maracatu (outro ritmo genuinamente da região) em uma simbiose interessante, mostrando as peculiaridades da linguagem coloquial interiorana.

Na faixa seguinte, “Sertança“, Assis traz a elementos sonoros cosmopolitas em uma letra que aborda as agruras e características do sertão, cujo refrão nos remete ao grande clássico “Baião da Penha” de autoria Luiz Gonzaga e Guio de Moraes. A faixa posterior é a que batiza o álbum, o disco segue trazendo um samba em forma de ode a uma moça prosa que quando entra na roda ganha passe livre também para dançar no coração do interprete, esta canção leva o nome da tal dançarina: “Maria“. O álbum segue com a balada “Bouquet” que denuncia a auto-definição do artista quando diz: “Minha percepção musical é necessariamente polifônica” e “Areia” (faixa que devido ao “ocean drum” nos remete a um contexto marítimo). “Se Fosse Mar” (sem dúvida o momento mais intimista do disco) vem sob novamente sob égide do amor. Já o reggae “Meias de lã” recorre a saudade e o amor como eixo central e tem como letra um lirismo interessante, impregnado de elementos do cotidiano de um casal.

A trinca que encerra o disco é composta pelas canções “Bembé do Mercado” (canção composta em homenagem ao evento que ocorre anualmente no município baiano de Santo Amaro da Purificação para celebrar a abolição da escravatura), “Zabelê” e por fim “Trezena” (canção cujo título faz alusão ao nome que é dado aos treze dias de encontros destinados às orações concedidas a Santo Antônio). Conduzindo a produção deste trabalho está o instrumentista, cantor e compositor Roberto Mendes e sob a sua égide estão presentes Tedy Santana (bateria), Gustavo Caribé (baixo), Duarte Velloso e Paulo Mutti (guitarras), Bóka Reis e Cuca (percussões), Jelber Oliveira (sanfona), Alex Mesquita (violão folk), Dinho Filho (coro e sampler) e Jurandir Santana (viola). Sem contar com o agradável design do disco, cuja concepção foi desenvolvida pela gráfica AF Design buscando alcançar e refletir aquilo que se faz de modo mais evidente no disco: elementos sonoros de pluralidade diversas que somando-se em suas peculiaridades formam uma coerente unidade.

São letras e melodias que retratam de forma fidedigna um pouco do muito que a sonoridade tem a partir da Bahia, que tanto já foi cantada em verso e prosa por diversos nomes do cancioneiro popular brasileiro. Distante daquilo que é lúgubre e sempre em consonância com a alegria,Assis perpassa a partir de uma fusão de ritmos (uma espécie de polifonia que segundo o próprio ampara a sua arte) de maneira hibrida, por pelas fontes das quais bebeu, fazendo desse trabalho um verdadeiro cartão-postal de sonoridade sem igual.

Se posso me apropriar de algum neologismo para definir o trabalho deste artista seria “baianidade”, cujo termo seria a síntese ideal para definir um misto de musicalidade e Bahia (dois termos indissociáveis). Assim como a Ponta de Humaitá, o Abaeté, Ondina e Itapoã a música de Flavio Assis é algo indissociável ao estado. Mais um talento para somar forças à rica sonoridade existente em nossa música.

Para a audição dos amigos leitores deixo aqui duas canções do cantor e compositor Flávio Assis e que encontram-se presente no álbum “Feira Livre“. A primeira trata-se de “Sertança”:

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Já a segunda canção vem a ser “Embola“, outra canção da lavra do próprio artista:

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