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CLAUDIA AMORIM SACIA SUA SEDE EM PROFÍCUAS FONTES

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Respaldada pelos músicos Renato Piau e Perinho Santana, Claudia Amorim bebe as mais límpidas poesias e melodias nas fontes inesgotáveis de nossa música

Neste país de dimensões continentais não é de se estranhar que muitos talentos não cheguem ao conhecimento do grande público de imediato. Em meio a tanta banalidade existente em nossa música ainda há quem prefira não se render a banalidade e busca sempre seguir pelos caminhos mais tortuosos em pró de sua satisfação pessoal e musical. Apesar das agruras, neste contexto é possível encontrar novos nomes que utilizam das mais variadas formas para destoarem-se de modo positivo dentro desta cisão bastante evidente em que se encontra a música brasileira da atualidade. Nosso espaço preza por apresentar nomes que trazem em sua trajetória esta característica de modo bastante evidente em sua estrada como é o caso desta artista hoje em questão: Claudia Amorim. Com uma carreira iniciada ainda na infância gravando jingles e spots para rádio e tv, além de programas televisivos como “O clube do Mickey”, a artista por um longo período foi back vocal de nomes como Tavito e Sandra de Sá, só aventurando-se em carreira solo quando conheceu o cantor, instrumentista e compositor Danilo Caymmi, que a presenteou com uma composição e com ela dividiu o palco, participando de sua estreia como solista. Neste longo percurso no qual a artista vem seguindo seu canto se viu longe de amarras e gêneros, e desta não delimitação surgiu uma cantora dinâmica e impregnada de boa música, sobretudo de música brasileira. Aguerrida, a cantora procura não render-se a desleal conjuntura que embate, pelo contrário, em seu mais recente trabalho ela procura levar a sua proposta sonora ao mundo, ideia esta que o próprio projeto gráfico do disco deixa transparecer quando apresenta em sua capa uma garrafa contendo uma mensagem.

Sua carreira fonográfica teve início em 1999 quando participou ao lado de nomes como Bernardo Lobo, Marcos Assumpção, Zeca Baleiro, Zé Ricardo, Pedro Mariano entre outros na série “Novo canto” lançada pela Dabliú Discos. Na ocasião a artista interpretava a faixa que viria batizar o seu primeiro álbum solo um ano depois: “Dia branco”. Lançado em 2000, o disco além do clássico composto por Renato Rocha e Geraldo Azevedo (que participa do álbum dividindo os vocais com a cantora na faixa “Retirante”) , traz em seu bojo mais oito faixas e a participação especial de nomes como Danilo Caymmi e Delia Fisher sob a batuta do conceituado Lui Coimbra e da Patrícia Vergara. Depois de um hiato de seis anos a artista volta ao mercado fonográfico com “… Para entender as estrelas”, um disco produzido em Natal (RN) e no Rio de Janeiro, trazendo novamente a presença de Geraldo Azevedo assinando duas faixas: “América futura” (escrita a quatro mãos com o poeta e compositor Capinam) e “Inclinações musicais” (outra parceria entre o artista pernambucano e Renato Rocha) e nomes como Guilherme Arantes (“Cuide-se bem”), Caetano Veloso (“Saudosismo”), Vinicius de Moraes (“Sem mais adeus”), Tom Jobim e Chico Buarque (“Sabiá”) entre outros, reiterando o seu compromisso com a música brasileira de qualidade assim como também com a beleza estética a qual o seu canto condicionou-se neste período de afastamento dos estúdios de gravação. Essa condição a conduziu a participação do Prêmio da Música Brasileira em 2007 como um dos álbuns pré-selecionados para a edição daquele ano. Agora, depois de outro intervalo significativo, a artista vem apresentando mais um projeto fonográfico. Trata-se do álbum “Sede”, disco ao qual vamos nos prender e que mostra mais uma vez que a música apresentada pela artista traz, desde o início, em seu bojo uma característica peculiar: sua música não faz concessão à qualidade.

Este terceiro álbum continua a retratar a sonoridade existente no Brasil de modo cada vez mais abrangente. Lançado pelo selo Guitarra brasileira (de propriedade do músico e compositor Renato Piau) e distribuído pela Tratore, o disco parte de um seleto repertório composto por nomes que vão do panteão da MPB a emergentes compositores da nova geração. Com doze faixas, o álbum produzido e arranjado pelo saudoso músico Perinho Santana e pelo violonista e compositor Luiz Claudio Ramos apresenta emergentes compositores a exemplo do capixaba Rud Jardim (autor do afoxé “Zabelê”) e do potiguar Manassés Campos, que assina “Ai que saudade.” Esses dois autores trazem no bojo de suas composições características bem marcantes na discografia da artista a partir de sons imbuídos de África e nordestinidade. Outros nomes presentes dessa nova lavra de compositores da música brasileira são Zeca Costa (que traz “Meu lado esquerdo”), Marco Jabu (autor de “Sonhoso”, faixa que conta com a participação especial da filha da artista), Mário Seve e Mauro Aguiar (com “Pandemia”). O disco ainda apresenta faixas assinadas porVander Lee (“Do Brasil”), Simone Guimarães (“Água funda”), entre outros. Nomes expressivos de nossa música também fazem-se presentes assinando canções como “Você vai me seguir”, composta para a peça Calabar, o elogio da traição de autoria da dupla Chico Buarque e Ruy Guerra; Sandra de Sá (com “Demônio colorido”) e a dupla nordestina Anastácia e Dominguinhos que assinam “Tenho sede”, tema bastante pertinente com a temática do disco. Com cores vivas e bastante, digamos, solares, o projeto gráfico do álbum vem assinado por Luciana Lumyx, que soube muito bem traduzir de modo genuíno a proposta estética e sonora do álbum.

Em uma espécie de bastião do apuro estético em defesa da brasilidade em sua melhor potência, os trabalhos elaborados por Cláudia são bastante abrangentes. Mapeiam a sonoridade as mais distintas sonoridades existentes a partir de conceituados e talentosos compositores a partir dos mais distintos gêneros existentes em nosso país como se é possível analisar a partir de sua curta discografia. No entanto, esse abarcamento não a faz perder uma das características mais evidentes em seu trabalho: uma coerente (e porque não dizer condizente) qualidade muito bem alicerçada em sua formação musical. A artista interpreta um Brasil uníssono, sem distinção. Sua sede é de sol, de mar, de caatinga, de litoral e sertão. Sua sede é de música brasileira sem delimitações e rótulos, mas repleta de exigências para saciá-la. O que a conduz a esta condição são os mais diversos adornos existentes em nosso cancioneiro nesta ânsia de versos e melodias. Bebendo da fonte dos grandes nomes da nossa música e de promissores talentos, Cláudia Amorim mostra-se aglutinadora e um forte elo entre a tradição e a contemporaneidade através das arestas que seu canto competentemente lapida. Apesar da artista perpassar pelas mais diversas influências existentes na construção de sua sonoridade sem delimitar-se, mostra-se perceptível um forte elo entre seus projetos e a música nordestina. Seja músico ou compositor, a região faz-se sempre presente nos projetos da carioca. Sem fazer concessão, Cláudia mostra-se uma hábil competente intérprete ao conseguir fazer-se esse vigoroso elo. Nesta ânsia, só é possível afirmar uma coisas: que, ao se tratar do talento e da sede desta artista, não há fonte, por mais inesgotável que seja, que consiga saciar, banhar ou até mesmo mensurar aquilo que a constitui.

Fica para os amigos leitores duas canções presente neste mais recente trabalho da artista. A primeira trata-se do clássico “Tenha sede“, de autoria de Anastácia e do saudoso Dominguinhos:

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A segunda é de autoria de Chico Buarque e Ruy Guerra. Trata-se de “Você vai me seguir“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 17

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Em uma das últimas postagem sobre as histórias e estórias de nossa música eu trouxe Alaíde Costa e abordei um pouco sobre o início de sua carreira e as dificuldades que a cantora teve para se firmar no mercado fonográfico brasileiro. Hoje trago novamente o nome desta cantora, que sem dúvida alguma foi um dos nomes femininos fundamentais e mais importantes para a divulgação e consolidação do movimento da Bossa Nova a partir de antológicas gravações como “Estrada Branca” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), “Minha Saudade” (João Donato e João Gilberto) e “Lobo Bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli). A sua relação com o movimento bossa novista é tão intenso que começa a apresentar-se em festivais temáticos Brasil afora. Após se apresentar-se em um desses eventos, o 1º Festival de Bossa Nova realizado na capital de São Paulo, a cantora resolve transferir-se definitivamente para São Paulo. Neste mesmo período conquista ao lado de seu amigo e parceiro Geraldo Vandré o comando do programa “No Balanço do Samba” na televisão Tupy (SP).

Na década de 1960 tem a oportunidade de lançar alguns LP’s, dentre eles o “Alaíde, Canta Suavemente” e “Alaíde, Jóia Moderna” (ambos pela RCA Victor). Este segundo álbum, datado de 1961, tem um fato curioso: nele se encontram os primeiros arranjos gravados de Baden Powell. Em 1963 lança o LP “Afinal … Alaíde Costa” pela gravadora Audio Fidelity , e em 1964, ela lança o seu maior sucesso, o clássico “Onde está Você” (Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini). Esta canção é responsável por momentos inesquecíveis na carreira da artista como uma apresentação ainda na década de 1960 no palco do Teatro Paramount (SP). Lá a artista obteve uma verdadeira consagração popular, sendo delirantemente aplaudida no meio da interpretação desta canção que ainda hoje, meio século depois, é uma das que não pode faltar nas apresentações da artista até os dias atuais. O sucesso da composição de Oscar e Luvercy oportunizou Alaíde assinar um contrato com a TV Record e participar de todos os seus principais programas, Festivais, shows e viagens.

Apesar do estrondoso sucesso, no final dos anos de 1960 a cantora em dado momento distancia-se dos holofotes, só retornando ao lado do cantor e compositor Milton Nascimento em 1972 quando volta a sua antiga gravadora Odeon, para participação especial no antológico álbum “Clube da Esquina”, onde, ambos interpretam em dueto o samba “Me deixa em Paz” (Monsueto e Airton Amorim), que permitiu ao grande público reencontrar-se com a querida intérprete que logo em seguida teve que se retirar novamente da cena artística para se submeter a duas cirurgias, para correção de seus problemas auditivos. Ao retornar a cena artística Alaíde protagoniza alguns antológicos álbuns de sua discografia como o lançado em 1982 ao lado de Hermínio Bello de Carvalho. Batizado de “Águas Vivas – Alaíde Costa, canta Hermínio Bello de Carvalho”, o disco saiu de modo independente. Este mesmo disco anos depois ganharia uma versão em CD lançada na França e só anos depois ganharia uma edição digital também aqui no Brasil pela Warner.

Apesar de sua escassa discografia se comparada a quantidade de anos que tem de carreira, Alaíde traz entre os títulos lançados verdadeiras obras primas da discografia nacional como são os casos dos discos “Amiga de Verdade”, lançado em 1988 e que conta com as participações de grandes nomes da MPB Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Paulinho da Viola, MPB4, dentre outros; o álbum “Alaíde Costa & João Carlos Assis Brasil” (que acabou por render dois volumes), o CD “Rasguei a minha Fantasia”, o CD “Bossa Nova Legends”, “Tudo que o Tempo me Deixou” (disco que lhe valeu em 2006 a indicação ao Grammy Latino, na categoria de “Melhor CD Romântico”), “Canções de Alaíde” e agora, recentemente e ao lado do cantor e compositor Gonzaga Leal, o álbum “Porcelana“, disco que de certo modo comemora os oitenta anos da cantora e compositora.

Fica aqui para deleite do público leitor duas canções presentes no álbum “Canções de Alaíde“, lançado em 2014.

A primeira canção trata-se de “Canção do breve amor“, de autoria de Alaíde com Geraldo Vandré:

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A segunda canção, uma parceria entre Alaíde e Antonio Carlos Jobim, trata-se de “Você é amor”:

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QUE SE VOLTEM NOVAMENTE OS HOLOFOTES

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Nome presente em diversas trilhas sonoras das dramaturgias nacionais ao longo dos anos 1990, Edmon Costa tenta retomar o espaço alcançado a duas décadas atrás

Há quem julgue a década de 1990 como uma década perdida dentro da música popular brasileira devido à enxurrada de produtos comercialmente descartáveis com que as grandes gravadoras preenchiam as prateleiras as seções de cd’s das grandes lojas de departamento Brasil afora. Diferente das décadas anteriores onde a música produzida pelos artistas em evidências faziam-se, por suas qualidades, perenes; a grande maioria da sonoridade tão executada e propagada na última década do século XX não tinha fôlego para resistir (raras as exceções) por mais que alguns semestres. No entanto, pode-se dizer quem nem tudo foi perdido. Expressivos nomes surgiram nessa leva. Uns permanecem ainda hoje escrevendo a história da música de qualidade como é o caso de nomes como Chico César, Zeca Baleiro e até mesmo Lenine, que apesar de alguns projetos fonográficos na década anterior só a partir dos anos de 1990 firmou-se como cantor e compositor. Outros nomes, apesar do talento, não tiveram a mesma sorte. Acabaram sem chance ao passar pelo clivo de uma industria cultural tacanha que leva em consideração ao avaliar determinados trabalhos características que atendem mais a expectativa do mercado do que necessariamente dos amante da boa música como é o caso do artista aqui em questão: Edmon Costa, cantor que ao longo dos anos de 1990 teve seu trabalho conhecido pelo grande público a partir da Rede Globo nas trilhas sonoras de suas novelas. De 1991 à 1994, o músico teve seu nome inserido em diversos folhetins, dentre os quais “O dono do mundo” (1991), “Olho no olho” (1993), “Quatro por quatro” (1994) e “Cara e coroa” (1995). Além dessa façanha, Edmon também chegou a participar de outros programas da grade da emissora carioca, a exemplo do extinto “Planeta Xuxa” e do show anual “Criança Esperança”. Vale ressaltar ainda a sua participação no coral que cantou junto com Stevie Wonder em um a das apresentações do músico americano aqui em nosso país ainda nos anos 90.

Com essa bagagem e talento é de se estranhar a ausência do Edmon Costa na crista da onda de nossa música popular brasileira. O que consequentemente acaba gerando uma incoerência no cenário musical nacional, uma vez que atesta-se de modo veemente que não basta o talento e é preciso algo mais que o sucesso momentâneo para manter-se em evidência. Nascido no Rio de Janeiro em meio ao universo protestante, o pequeno Edmon teve seu destino traçado de modo semelhante a alguns dos grandes nomes do soul mundial. Rapidamente inserido neste cenário, o futuro cantor logo estava dando os seus primeiros passos na música cantando em coros gospeis. Daí em diante foi galgando espaços cada vez mais significativos a partir de trabalhos diversos, dentre os quais a sua participação em bandas como Fanzinee Sindicato do Soul. Na década de 1990 surge a oportunidade de gravar o seu primeiro álbum solo via Sony Music. O destaque deste debute fonográfico foi a canção “Coração de gelo”, faixa também presente na novela “O dono do Mundo” como tema do personagem Herculano, interpretado pelo ator Stênio Garcia. Já o seu segundo disco saiu pela Polygram tendo como grande destaque para duas canções: “Toda Noite” e “Tocar você”, a primeira tema musical presente em “Olho no olho”, teledramaturgia global exibida às 19 horas de 6 de setembro de 1993 à 8 de abril de 1994; já a segunda foi escolhida como a canção tema de abertura da novela “Cara ou coroa”, outra produção da Rede Globo exibida no horário das 19 horas entre outubro de 1994 e julho do ano seguinte. De lá pra cá chegaram ao mercado mais três álbuns contendo a assinatura de Edmon e que reforçam o seu talento a partir da escolha de um seleto repertório que abrande alguns dos maiores da música.

Recentemente, em busca de uma nova oportunidade de levar a sua música ao público de norte ao sul do país, o o artista subiu ao palco do “The voice Brasil” cantando a clássica “Samba de verão”, de autoria dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. A partir de uma peculiar interpretação conseguiu chamar a atenção de dois dos quatro jurados participantes. Edmon conseguiu “virar a cadeira” de Lulu Santos e Claudia Leitte. Sem contar o baiano Carlinhos Brown, que arrependeu-se de não ter virado a sua cadeira para o artista carioca: “Eu me arrependi. É uma das vozes mais surpreendentes”. Apesar de não lograr êxito na edição a qual participou a presença do artista carioca no programa acabou tornando-o lembrado novamente e isso, é claro, acaba por gerar novas possibilidades abrindo-o portas que acabaram fechando-se nos últimos anos devido justamente a essa falta de oportunidade e abrangência.

Atualmente o artista vem apresentando o show “Do samba ao soul”, onde atende aos mais distintos gostos musicais procurando pautar-se sempre na coerência e qualidade das canções escolhidas. Com um repertório que abrange nomes de destaque dentro da música nacional e internacional, o artista carioca vem mostrando toda a sua versatilidade, sensibilidade e talento a partir de um repertório bastante diversificado que busca apresentar nomes como o dos grupos Brilho (“Noite do prazer”) e Banda Black Rio (“Maria Fumaça”); Cassiano (“Coleção”), Djavan (“Flor de lís” e “Samurai”), Stevie Wonder (“Superstition”) entre outros destaques do samba e do soul. Mesmo não tendo levado o título da edição a qual participou, Edmon pode considerar-se um vitorioso por ter tido a oportunidade de voltar à mídia assim como também aos olhos dos saudosos fãs que não o viam há tempos. Esta nova chance também possibilitou ao seu trabalho a oportunidade de chegar ao conhecimento das novas gerações, plantando através do seu talento a tal semente que corre-se o risco de brotar a qualquer momento. Sem sombra de dúvidas voltar a mídia através de um programa televisivo que tem uma média de audiência entre 17 e 22 pontos (a julgar pela última temporada) renova a esperança de Edmon Sebastião Silva Costa ou simplesmente Edmon Costa de reviver os áureos tempos vividos no início dos anos de 1990 onde sua voz e talento abarcava os mais distintos corações de norte ao sul do país.

Aos saudosista leitores amigos deixo aqui para audição uma das canções gravadas por Edmon Costa ao longo dos anos de 1990 e que fez parte da trilha sonora da novela “Quatro por Quatro”, trata-se da canção “Se eu me apaixonar”:

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O ANTROPOFÁGICO CLÁUDIO BRASIL

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Performático, o cantor e compositor, Cláudio Brasil metamorfoseia-se entre grandes nomes do rock nacional, Caetano Veloso e uma forte e marcante presença de palco

Quando a Tropicália surgiu no final da década de 1960 vinha apresentando uma proposta estética bastante inovadora para a época. Sob influência das mais diversas correntes artísticas o movimento aglutinou distintas fontes para a sua formação seguindo sob influência das correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira e a partir daí misturando manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais. O movimento de fato chegou com uma proposta estética e vanguardista ao fundir as mais diversas influências. A tropicália foi um movimento iconoclasta, que almejava a música sem rótulos e fronteiras. Sua vontade era fundir as diversas vertentes da canção popular, da música brega à de protesto em uma verdadeira festa estética. E essa fusão não apenas marcou uma época, mas toda uma geração de músicos que viria posteriormente. A chamada MPB nunca mais seria a mesma após tal acontecimento.

Bebendo da fonte de um dos principais afluentes desse movimento, o cantor e compositor Cláudio Brasilvem em ascendente carreira em Pernambuco. Com um timbre vocal que assemelha-se ao do ídoloCaetano Veloso, o artista iniciou a sua carreira na década de 1990 na capital pernambucana ao formar a banda de pop rock Esquinas Paralelas. Essa banda contava com a adesão do irmão e de um amigo de Cláudio, chegando inclusive a gravar em 1993, de forma independente, o álbum “Negro pode ser também teu canto.” À época do lançamento a imprensa pernambucana destacou o trabalho como um dos precursores da cena musical local enfatizando o modo independente como o álbum havia sido feito.

Na década em que a música sertaneja e o axé ganharia uma parcela significativa do mercado fonográfico nacional, o Esquinas Paralelas aproveitou a onda do momento e passou a tocar em trios elétricos e a viajar por todo Nordeste. Neste verdadeiro laboratório, o músico passou uma década que o fez quebrar estigmas e rótulos a partir do ecletismo ao qual foi submetido nessa época. Essa experiência entre axés e micaretas fez Cláudio desenvolver uma versatilidade sonora que hoje lhe é peculiar e que foi extremamente relevante para a sua trajetória musical a partir de experiências como a sua incursão em projetos como a banda Dionísio (trabalho onde era mesclado rock’n’roll e teatro de uma forma inusitada) e a Bacamarte (projeto que mesclava poesia nordestina com uma pegada punk hard core) entre outros projetos solos.

Em 2007 seu trabalho ganha uma visibilidade maior quando resolve atender aos apelos dos amigos e fãs e começa um trabalho voltado para o repertório de Veloso. Sua voz similar ao do grande ídolo e as fontes das quais bebeu acabou gerando um novo modo de interpretar a obra do já multifacetado Caetano. Capitaneando esse projeto, Cláudio fundiu a MPB ao rock, e deu uma nova cara ao repertório do artista baiano. O próprio Caetano reconheceu essa inovação quando, no carnaval de 2009, assistiu ao espetáculo do grupo chegando inclusive a dividir o palco com Cláudio em uma das apresentações no Recife e fez elogiosos comentários acerca dessa reconstrução de sua obra. O magnetismo que o grupo exercia sobre o público, as performances inusitadas do vocalista e a híbrida sonoridade foram características responsáveis para que as portas abrissem-se plenamente na noite recifense. Dentre os fãs declarados da banda nomes como o saudoso produtor e compositor Carlos Fernando e o escritor Jomard Muniz de Brito. A banda, deixou como legado um DVD gravado no Pátio de São Pedro, um dos pontos turístico e artístico do Recife.

A inquietude de Cláudio no palco traduz um pouco da personalidade do artista pernambucano. Envolto em diversos projetos, o cantor e compositor conduz a banda Maior Abandonado e Tio Mau Também capitaneia o grupo Os Caetanos, grupo acaba de lançar o primeiro DVD gravado recentemente na Rua da Moeda, no Recife Antigo. Neste registro áudio visual, além de abordar a obra do autor de clássicos da MPB como Sampa, Leãozinho e Qualquer Coisa, o DVD apresenta a inédita Tudo é permitido. Sem contar, que o artista ainda conduz uma coesa carreira solo de modo bastante prodigioso como se é possível atestar a partir, por exemplo, do seu álbum autoral Transe, disco que traz dez faixas de sua lavra. Gravado no Recife o disco tem como tema central o amor, este mesmo sentimento que Cláudio vem dedicando à música ao longo destas últimas duas décadas e o revigora para enfrentar todos os estorvos que surgem ao longo de sua trajetória. Mesmo não sabendo que não é fácil, obstinadamente Cláudio não deixa-se abater e vem coerentemente conduzindo sua trajetória. A luta é grande, mas o artista pernambucano busca forças e coragem em versos e melodias como a que certa vez escreveu o seu grande ídolo: “Por isso uma força me leva a cantar Por isso é que eu canto, não posso parar.”

Ao longo de 2015 o artista lançou o álbum “Tudo é permitido“, disco que contém além de composições próprias, incursões pela obra do tão reverenciado Caetano Veloso. Para audição dos amigos leitores fica aqui então duas canções deste disco (ambas de autoria de Caetano Veloso).

A primeira trata-se de “Nosso estranho amor“:

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A segunda faixa trata-se de “Tigresa“, canção gravada pelo autor no álbum “Bicho”, de 1977:

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MARCOS FREDERICO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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O músico mineiro volta ao nosso espaço para abordar diversos temas, dentre eles a sua predileção por instrumentos de corda e o seu mais recente projeto fonográfico intitulado “Entoando Loas” nesta informal conversa

Hoje temos de volta ao nosso espaço o virtuoso músico e compositor mineiro Marcos Frederico para uma conversa exclusiva sobre projetos, carreira e sua biografia musical. Natural de Belo Horizonte o bandolinista, além de dominar outros instrumentos atua também como produtor musical a partir do estúdio que possui, o Liquidificador Estúdio de Áudio como foi possível conferir a partir da matéria “ENTRE A CONTEMPORANEIDADE E A TRADIÇÃO UM BANDOLIM ENTOA LOAS”. De modo solícito, Marcos aporta desta vez em nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde fala, dentre outras coisas, de sua carreira internacional, a possibilidade de um registro ao vivo e sobre a sua predileção e envolvimento com instrumentos de cordas desde a infância. Uma imperdível leitura e oportunidade ímpar para quem quer conhecer mais um pouco sobre este novo talento da música instrumental brasileira. Excelente leitura!

Como se deu o seu envolvimento com o violão e o bandolim?

Marcos Frederico – Comecei a tocar violão aos 14 anos, foi um presente do meu pai. Depois estudei no Palácio das Artes e fiz aulas com quem eu considero meu grande mestre, o cara que abriu minha cabeça: Celso Moreira. Bandolim veio em seguida, mas de uma forma autodidata. Como já tinha uma boa digitação, o processo de aprendizado foi um pouco mais fácil. Peguei um bandolim emprestado com um amigo para gravar umas frases em 2 canções e acabei me apegando seriamente com o instrumento. Isso há 12 anos.

Por que a predileção por instrumentos de corda?

MF – Desde criança, sou fascinado por guitarras. E eu sabia que ter um violão poderia ser o primeiro passo pra conseguir uma guitarra. Aí vem aquela coisa de digitação. Você pega um baixo, um cavaco, um bandolim e começa a brincar. O som vai ficando legal… Mas quero muito tocar piano um dia. E assim passar pro acordeon, etc..

Levando em consideração que o bandolim é um instrumento de menor difusão no meio musical brasileiro qual foi a reação dos mais próximos quando você optou por ele?

MF – Apesar de pouco difundido, é um instrumento muito respeitado. Tanto pela história, quanto pela beleza do timbre. As pessoas sempre me apoiaram muito na escolha.

Em nosso país há um paradoxo muito evidente em relação a música instrumental de boa qualidade aqui produzida. Nos mais distintos festivais voltados para este segmento sempre há um público cativo e expressivo, no entanto os espaços para a divulgação desta mesma música são cada vez menores em todos os canais. Como você avalia esse paradoxo?

MF – Na verdade a nossa música instrumental nunca recebeu o devido reconhecimento. Portanto, isso não me espanta nem um pouco. Estamos acostumados… Se essa falta de divulgação afetasse a nossa produção não haveria essa efervescência atual. Devemos pensar nesse público cativo e expressivo, criando novos canais. Nesse mercado, além de compor e tocar, temos que ter uma criatividade extra para administrar nossa carreira. No meu caso, uma ideia que vem dando certo e é uma excelente saída para a música instrumental é o áudio visual.

Você tem em seu currículo três álbuns gravados: “Sinuca tropical” (2007), “Onze” (2011) e agora “Entoando loas”. O que diferencia este seu mais novo projeto dos demais?

MF – Eu acredito que o Entoando Loas é uma continuação do Onze. É um disco feito imediatamente na sequência. Existe uma distância entre esses dois e o Sinuca Tropical, que na verdade é um apanhado de gravações distintas, quase uma coletânea. Tem a evolução natural também, como compositor e instrumentista.

“Entoando loas” é um projeto essencialmente autoral. Você poderia nos contar como é o seu processo de composição?

MF – Não tenho regra. Já fiz música passeando com meu cachorro, música por correspondência, dirigindo na estrada, andando no centro, dormindo, às vezes com um instrumento na mão, às vezes sem… A criação não tem hora. Se você programa demais pode dar errado.

Neste mais recente projeto há presente duas faixas que foram registradas ao vivo no teatro da biblioteca pública de Belo Horizonte e que contam com a participação do francês Nicolas Krassik. Esses registros ao vivo podem ser considerado o cerne de algum projeto posterior? Você tem pretensões de algum projeto ao vivo?

MF – Recentemente tive uma proposta de fazer um ao vivo, mas nada concreto ainda. É diferente de estúdio. É ali, na cara. Nunca tinha pensado nisso, mas agora essa vontade existe. Estou produzindo 3 álbuns autorais de estúdio simultaneamente para 2016. Vamos ver onde entraria o ao vivo.

Como tem caminhado a sua carreira internacional? (Uma vez que, desde o lançamento de “Sinuca”, seu primeiro álbum, você mantém apresentações na Europa e em países da América do Sul, como a Argentina.)

MF – Em abril desse ano fiz duas apresentações em Paris e tenho convites para 2016, ainda sem confirmação. Mas é uma carreira possível e muito interessante, uma vez que eles adoram nossa música.

Você também atua na produção dos seus trabalhos e hoje mais ainda a partir do Liquidificador Estúdio de Áudio indo da inspiração a transpiração. Você pretende lançar novos nomes a partir do seu estúdio?

MF – Você acaba de me dar uma grande ideia! Vamos ver se consigo conciliar.


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ENTRE A CONTEMPORANEIDADE E A TRADIÇÃO, UM BANDOLIM ENTOA LOAS

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Em álbum essencialmente autoral, o músico Marcos Frederico desnuda-se de modo pleno em seu terceiro projeto

Disseminado por Vilvaldi em Veneza, na Itália, ao longo do século XVII, o bandolim desembarcou no Brasil vindo de Portugal ao final do século XVIII e se popularizou no país a partir, principalmente do choro ao longo do século XIX. Instrumento com oito cordas agrupadas de duas em duas, o bandolim encontrou em nosso país um fértil campo para a difusão de sua envolvente e inebriante sonoridade a partir de exímios executores r grandes solistas. Vários foram os nomes que corroboraram para que o instrumento ganhasse projeção no meio musical brasileiro e um dos mais importantes para isso foi sem dúvida o do carioca Jacob Pick Bittencourt e o do pernambucano Luperce Miranda. Pioneiro, este nos anos de 1920 integrou o grupo Turunas da Mauricéia, e na década seguinte criou o regional que levava seu nome atuando junto a ele em rádios, na gravadora Parlophon e acompanhando nomes expressivos de música popular da época tal qual Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis. Já o segundo por ter tanta afinidade com o instrumento que executava que acabou por adotá-lo em seu nome artístico tornando-se Jacob do Bandolim. Responsável pela autoria de choros como Noites Cariocas, Doce de Coco, e Receita de Samba, Jacob ganhou visibilidade não apenas a partir de suas composições e exímias execuções ao instrumento, mas também por ser responsável pela criação do regional Época de ouro, grupo de fundamental importância para a música popular brasileira e responsável pela defesa do choro ao longo dos anos de 1960, época esta que a bossa nova reinava quase que modo absoluto. De lá para cá o instrumentista fez escola e deixou além do legado musical, uma influência que paira e ainda permanecerá de modo perene dentro da música brasileira.

Desde então a música popular veio ganhando cada vez mais adeptos do instrumento, onde alguns, nos últimos anos, ganharam destaque como é o caso do instrumentista e compositor Hamilton de Holanda e do artista que hoje aporta em nosso espaço para deleite do público leitor: o mineiro Marcos Frederico. Natural de Belo Horizonte, além de compositor, o bandolinista integra o grupo Siricotico, é produtor musical e também domina outros instrumentos de corda como o violão, onde estudou-o junto com teoria musical na Fundação Clóvis Salgado, em Minas Gerais. Em 2007, o músico lançou seu primeiro projeto fonográfico. Lançado também no exterior com o apoio do Clube do Choro de Paris, o disco ganhou o título de “Sinuca tropical” e conta com a participação de alguns nomes do clube do choro de Belo Horizonte como o do jurista e compositor Carlos Walter e da acordeonista Elisa Behrens na execução de faixas como “Beldade” e “Deixa chorar”, composições da lavra do artista. Em dezembro de 2011 lançou o seu segundo álbum denominado de “Onze”, que foi gravado estúdio Liquidificador e conta com 11 faixas autorais incluindo aí parcerias com Gabriel Guedes, Gustavo Maguá, Rômulo Marques entre outros. O disco teve seu lançamento no Museu de Artes da Pampulha em Belo Horizonte e foi apresentado não apenas no Brasil como também no Exterior. Na biografia do artista ainda contabiliza-se prêmios como o de melhor instrumentista na décima edição do Prêmio BDMG Instrumental em 2010 e sua participação em alguns dos mais importantes eventos de música existentes não apenas no Brasil, assim como também em pairagens internacionais como a 16ª Cúpula de Mercocidades em Montevidéu; o 8º Prêmio Nabor Pires Camargo Instrumentista, em Indaiatuba (SP); o Show do Centenário de Godofredo Guedes; o 9° Festival Tudo é Jazz em Ouro Preto; o Festival Musique Du Monde, em Paris, entre outros.

Recentemente chegou ao mercado o seu terceiro álbum intitulado “Entoando Loas”, mais um disco marcado por adjetivos que pontuam de modo bastante significativo a carreira do músico mineiro nos mais diversos aspectos. Das oito faixas que constituem o disco, algumas foram selecionadas para a trilha sonora da série “Museus de Minas” da Rede Minas de TV. Gravado em grande parte no Liquidificador Estúdio, o disco apresenta duas faixas que foram registradas ao vivo no teatro da biblioteca pública de Belo Horizonte com a participação do violinista francês radicado no Brasil Nicolas Krassik. Trazendo em sua essência sonora Minas Gerais, “Entoando Loas” traz em sua ficha técnica nomes como o de Flávio Henrique (acordeon, piano e acordeon), Carlos Walter (violão), Dado Prates (flauta), Felipe José (violoncelo), Rafael Martini (piano), Felipe Bastos (bateria), Aloízio Horta (baixo), Daniel Pantoja (flauta). Ricardo Acácio (percussão) e Thiago Delegado (violão). O projeto gráfico ficou a cargo de Júlio Abreu e da Leonora Weissmann e os responsáveis pelas fotografias foi Élcio Paraíso, neste álbum que, segundo o próprio artista, trata-se de uma celebração à vida.

Já estando presente na lista dos mais expressivos instrumentistas da música brasileira de sua geração,Marcos Frederico funde a tradição da música mineira com a contemporaneidade; conseguindo mesclar de modo bastante harmonioso todas as influências que permeiam o seu trabalho com a originalidade que lhe é peculiar. Essas características acabam por embeber o trabalho do músico mineiro com adjetivos bastante fortes que, de certo modo, imbuem a sua produção musical com uma original e singular identidade sonora. A música sem dúvida pulsa forte em sua veia. Da mais simplória às cavas, a boa música encontra em seu corpo um porto seguro e permite-se transportar em acordes e melodias por intermédio dos ágeis movimentos de seus dedos em números que emanam leveza e compromisso estético. Expressando-se de modo virtuoso e original, Marcos mostra-se despretensiosamente hábil e capaz de transitar pelos mais diversos gêneros que aventura-se. Com propriedade, seu instrumento o conduz (e consequentemente também nos leva) as mais diversas pairagens sonoras existentes em execuções muito carregadas de pessoalidade e leveza. Uma leveza quase pueril e que acaba por nos envolver e nos encantar de modo inebriante. Tais características acaba gerando uma certa expectativa em torno desse jovem artista que parece não incomodar-se com tal responsabilidade, pelo contrário, tal condição acaba oportunizando-o a uma produção cada vez maior e diversificada, indo das trilhas aos jingles (como o que lhe deu o primeiro lugar no concurso de da rádio UFMG Educativa). Parece que o contexto de fato o é favorável, pois tal responsabilidade o artista parece tirar de letra, ou melhor, tirar em notas musicais.

Para que os amigos leitores tenham a oportunidade de ouvir o artista trago aqui uma das canções presentes no set list de sua apresentação no programa Instrumental Sesc Brasil. Trata-se de uma composição de sua autoria intitulada de “Fado Nordestino“. Fica aqui meus votos de um excelente 2016 para aqueles que nos acompanharam ao longo deste ano. Abraços sonoros!

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CARMEM DI NOVIC – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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A virtuosa instrumentista volta ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde aborda diversos temas referentes a sua biografia musical e carreira

Com profunda afinidade com o instrumento que escolheu para exercer o seu ofício, Carmem Di Novic desdobra-se não apenas como compositora, mas também como instrumentista, musicoterapeuta e intérprete. Apesar de ter nascido no Paraná foi no centro-oeste que vem desenvolvendo sua carreira exercendo os papéis de diretora e professora por longa data na academia a qual fundou e que leva seu nome nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além de apresentar o “Programa Carmem Di Novic”, na Rádio Educadora de Colíder da região. Com zelo e maestria a musicista vem apresentando um trabalho que vem recebendo os mais distintos elogios tanto da crítica quanto do público. Dentre suas produções fonográficas, Di Novic conta com títulos como “Recital de Violão”, (lançado em 2004), “Caminhos de Amor” (1995) e “Carmem Di Novic interpreta Urany Larangeira” . Recentemente a musicista lançou o álbum “Recital de Violão – ll Carmem Di Novic”, como vocês puderam tomar conhecimento aqui mesmo no Musicaria Brasil a partir da pauta O VIOLÃO COM UM TOQUE FEMININO. Hoje, de modo bastante gentil, a artista volta para um bate-papo exclusivo onde aborda diferentes temas como suas reminiscências musicais, o seu o meu amor e respeito ao violão, um novo projeto autoral que pretende lançar em breve, entre outros assuntos. Vale a pena conferir!

A música é algo que sempre esteve presente em sua vida? Qual a lembrança mais antiga do seu envolvimento com ela?

Carmem Di Novic – Sim, meu pai foi acordeonista e desde criança me incentivou a participar de coral na igreja, escola e cantar nas reuniões de família. Aos 9 anos de idade ingressei na minha primeira Escola de Música no Paraná e já me apresentava nas audições de final de ano e datas festivas.

E o violão? Quando foi que você de fato decidiu que ele a acompanharia?

CDiN – Tendo gravado em 1996 meu primeiro CD, com músicas populares de minha autoria, senti a necessidade de avançar nos estudos do instrumento e aprimorar minhas composições e técnica interpretativa. Mas foi em 2000, ao retornar do Intercâmbio de Grupos de Estudo que fiz em Wisconsin- Estados Unidos, que resolvi seguir carreira Superior de Violão Erudito, para expandir e divulgar aqui no Brasil um repertório violonístico conhecido e respeitado em vários países desenvolvidos.

Quais os nomes que espelhou-se para dar continuidade a esta ideia e que ainda hoje influencia o seu trabalho?

CDiN – Meu saudoso Mestre Professor Urany Larangeira, violonista e compositor, foi sem dúvida, meu grande incentivador à arte do Violão, acompanhando toda minha trajetória musical, me orientando até me conduzir ao Bacharelado e Pós-Graduação no Rio de Janeiro, onde então estudei com outros renomados professores e concertistas como Paulo Pedrassoli, Valmyr de Oliveira e respeitáveis musicoterapeutas como Dra. Lia Rejane Barcellos, Dra. Marly Chagas e Mt. Martha Negreiros.

Sua experiência no Rio de Janeiro a oportunizou entrar em contato com um nome imprescindível em sua carreira: Urany Larangeira, a quem você recentemente dedicou o álbum. Quais os critérios que a levaram a prestar essa grande homenagem ao seu ex-professor e como se deu a escolha do repertório?

CDiN – O CD “Carmem Di Novic interpreta Urany Larangeira” foi um projeto em parceria com a família Larangeira- representada pela viúva, Sra. Helena Ribeiro Larangeira, em 2010, alguns anos após seu falecimento. Fiz um estudo e levantamento de sua obra musical escrita em partituras para violão solo, que reúne lindos choros e valsas e outras peças clássicas, as quais eu já conhecia, havendo até mesmo tocado com o referido violonista, entre outras peças inéditas. Como ele sempre me dizia que eu seria a continuadora de sua obra, resolvi gravar e divulgar parte dessa maravilhosa obra violonística, homenageando esse exímio e admirável compositor brasileiro.

Como você chegou ao Mato Grosso? Foi fácil fixar-se “na terra” de outra grande instrumentista brasileira, que foi Helena Meirelles, conquistando o respeito e reconhecimento dos conterrâneos da saudosa artista?

CDiN – Vim ao Mato Grosso do Sul ainda jovem, após concluir a Faculdade de Letras em Umuarama e Conservatório Musical, juntamente com meus pais e implantei minha Academia de Música, trabalhando por longa data. As pessoas aqui são extremamente musicais e receptivas à arte. A Fundação de Cultura tem me contemplado com bons projetos culturais para intensificar e ampliar cada vez mais meu trabalho atual, ao qual me dedico, como Concertista e Produtora Fonográfica. Dei continuidade aos meus estudos no Rio de Janeiro para estudar Bacharelado em Música e Pós –Graduação em Musicoterapia, tendo concluído em 2010.

O universo do violão ainda é visto como predominantemente masculino, no entanto trabalhos como o seu acaba quebrando essa engessada visão sobre o instrumento, Em algum momento você sentiu em sua carreira algo referente a esta hegemonia?

CDiN – Acho que o meu amor e respeito a esse sublime instrumento, o Violão, superam qualquer preconceito ou barreira, conduzindo-me sempre a caminhos que tem me impulsionado a nunca desistir e seguir em frente com extrema dedicação à arte. E, muitas vezes, o fato de ser uma mulher violonista tem facilitado a formação de um público variado, de diferentes classes sociais e faixas etárias, como jovens, crianças e adultos. Meu empenho e objetivo, é poder ajudar as pessoas a vivenciarem bons momentos de paz e harmonia que a música pode oferecer, seja participando de meus concertos ou ouvindo meus CDs.

No álbum “Recital de violão” você transita entre o erudito e o popular de modo muito harmonioso sem deixar-se rotular nem por um nem por outro. Como você consegue equilibrar-se nesta tênue linha?

CDiN – Como disse, meu desejo é de chegar ao coração das pessoas com minha música, que elas possam desfrutar do potencial terapêutico e restaurador que a música tem. Portanto, busco interpretações variadas, visando sempre o aprimoramento técnico e elevação espiritual, pra que eu possa exteriorizar meus sentimentos através dos sons, seja qual for o estilo musical apresentado.

O ex-presidente Lula sancionou a Lei 11.769 determinando a obrigatoriedade da música nas escolas de educação básica de todo o país. No entanto o que se vê seis anos depois ainda deixa muito a desejar A aprovação da Lei foi sem dúvida uma grande conquista para a área de educação musical no País. Você como discente acredita que estamos no caminho certo ou o caminho não é bem por aí e por isso estamos sem avanços significativos na área?

CDiN – Sem dúvida, é muito importante a educação musical nas Escolas, porém, deve ser bem elaborada e diversificada, para que seja atrativo e interessante. Tem que se investir em bons profissionais e haver mais recursos para produções artísticas nas Escolas, como corais, grupos, orquestras, etc. Não pode ser um estudo “técnico” apenas, mas formar e preparar apreciadores musicais, que saibam produzir, ouvir e transferir para sua vida a “afinação”, harmonia e equilíbrio que a música proporciona.

No Mato Grosso e Mato Grosso do Sul você criou academia de música que levam seu nome. Você poderia nos contar um pouco como surgiu a ideia de implantar tais projetos?

CDiN – Pensei em expandir o estudo da música e fomentar o interesse pela mesma. Vários alunos que passaram pela Academia de Música Carmem Di Novic, seguiram carreiras como duplas, bandas, solistas ou cantores religiosos. Em outros casos, contribuiu para o o desenvolvimento pessoal de crianças e adolescentes. Sinto-me feliz por isso, mas atualmente dedico-me a concertos e gravações musicais, tendo transferido a outros profissionais a continuidade a esse trabalho acadêmico por mim iniciado.

Já estamos chegando em 2015 e neste ano que está prestes a começar você completa duas décadas de carreira fonográfica. Há alguma comemoração em vista?

CDiN – Realizei esse mês em Campo Grande, um Concerto Musical apresentando as músicas dos últimos CDs gravados e estou preparando um novo CD autoral intitulado: “Musicoterapia em Canções por Carmem Di Novic”, que pretendo lançar. Obrigada!!!


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O VIOLÃO COM UM TOQUE FEMININO

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Violonista, musicoterapeuta, compositora e intérprete, Carmem Di Novic transita como poucos entre o erudito e o popular

O violão, instrumento tão marcante na música popular brasileira, tem uma história longa. Há quem diga que o mesmo tenha surgido a aproximadamente dois mil anos antes de Cristo. Segundo alguns arqueologistas, placas de barro encontradas na antiga Babilônia e que trazem figuras seminuas tocando instrumentos musicais comprovam isto, pois tais desenhos registrados são muito similares ao violão como hoje conhecemos e que teve a sua origem a partir da lira, instrumento de cordas usado pelos antigos Gregos e Egípcios. No Brasil, o primeiro instrumento de cordas que se tem notícias foi a viola de dez cordas ou cinco cordas duplas, muito popular entre os lusitanos. Precursora do violão, dizem que tal viola chegou aqui em nosso país por intermédio dos jesuítas portugueses que utilizavam o instrumento ao longo das celebrações de catequese e desde então o “pinho” vem contabilizando anos de história. Nas grandes cidades ganhou o nome de violão e vem com o decorrer do tempo acompanhando os mais distintos gêneros musicais existentes como, por exemplo, as modinhas, os chorinho entre outros.

Já ao adentrar pelos rincões do país ganhou outras denominações tal qual o de viola caipira, sendo instrumento imprescindível na execução de alguns temas da região. Nessa longa jornada, vários foram os nomes que contribuíram para tornar o violão um instrumento referencial dentro da música popular brasileira, e dentre eles pode-se citar figuras como Américo Jacomino, Quincas Laranjeira, Villa Lobos (através do seus 12 Estudos para violão), Gismonti, Baden, Yamandu, Henrique Annes, João Pernambuco, Dino 7 Cordas, Zé Menezes, Canhoto, Raphael Rabello e tantos outros que corroboraram e continuam a contribuir de modo relevante para escrever a história do violão em nosso país, tornando-o uma das grandes marcas de nossa música ao redor do planeta.

Predominantemente masculino, pode-se afirmar sem sombra de dúvidas que o violão também ganhou adeptas. Entre as mulheres alguns nomes se destacam ao empunhar tal instrumento, dentre eles Badi Assad, Rosinha de Valença, Helena Meirelles, e o da artista que hoje trazemos ao Musicaria Brasil para o conhecimento do público leitor: Carmem Di Novic. Nascida no Paraná, Di Novic iniciou os seus estudos ainda criança em sua terra natal, ao longo dos anos foi desenvolvendo suas habilidades musicais a partir de muito estudo e dedicação. Bacharel em Violão e pós-graduada em Musicoterapia pelo Centro Universitário do Rio de Janeiro, Carmem hoje é uma das grandes referências do violão feminino existente em nosso país não apenas por atuar como instrumentista, mas também por exercer brilhantemente a função de compositora, intérprete e musicoterapeuta.

Além disso, a artista já chegou a atuar como produtora e apresentadora do “Programa Carmem Di Novic”, na Rádio Educadora de Colíder, além de exercer os papéis de diretora e professora por longa data na academia a qual fundou e que leva seu nome nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Por coincidência, hoje Carmem atua na mesma terra da já citada Helena Meirelles, instrumentista que com zelo e maestria levou a música brasileira, através de sua viola, para todo o planeta e foi considerada pela revista Guitar Player como uma das 100 melhores instrumentistas do mundo. Dentre suas produções fonográficas, Di Novic conta com títulos como “Recital de Violão”, que lançado em 2004 traz a musicista interpretando grandes nomes da música clássica e “Caminhos de Amor” (1995), projeto que conta com algumas canções autorais como “Poliana” e “Meu Sertão” (canção que também faz parte da compilação “The Essential Mato Grosso” lançada em 2005 por conta das comemorações do “Ano do Brasil na França”.)

Sua discografia ainda conta com os refinados títulos “Carmem Di Novic interpreta Urany Larangeira”, onde a partir de treze faixas a artista presta mais que uma justa homenagem àquele que além de seu professor foi um exímio compositor e intérprete. Músico virtuoso, o itaperunense Urany Larangeira, deixou como legado composições dos mais diversos gêneros, dentre eles, choros e valsas, como os os que Carmem apresenta ao grande público. Lançado em 2011 sem muito alarde, o álbum ultrapassa a simples intenção de homenagem e chega como um dos grandes álbuns instrumentais dos últimos anos onde se é possível atestar tal afirmação a partir de interpretações diversas tais quais “Choro à Helena” (1976), a valsa “Carmem” e o choro “Pagão”, composto em 1963, sendo esta a composição mais antiga presente no disco.

Recentemente a musicista lançou o álbum “Recital de Violão – ll Carmem Di Novic”, disco que contou com o apoio do Fundo de Investimentos Culturais (FIC/MS) e é composto por 27 faixas, entre composições da lavra da artista e interpretações de grandes nomes da música instrumental brasileira como Canhoto, Dilermano Reis, João Pernambuco,Zequinha de Abreu, Heitor Villa Lobos entre outros, atestando em definitivo o seu talento tanto como compositora assim também como intérprete.

Expressando sempre seu amor e dedicação à arte, Di Novic expressa um virtuosismo que inebria e envolve àqueles que tem a oportunidade de conhecer o seu trabalho e atuação. Intercambiana nos Estados Unidos, chegou a realizar naquele país inúmeras apresentações musicais em diversa cidades de Wisconsin-USA, mostrando-se uma virtuosa representante de nossa música instrumental e atestando em definitivo que o talento não tem fronteiras nem barreiras. Em um universo musical predominantemente masculino, o violão executado por Carmem quebra tal estigma destacando-se de modo sobrepujante entre os grandes instrumentistas nacionais da atualidade.

Seja autora, cantora ou intérprete dos grandes mestres da música, Di Novic mostra um trabalho bastante condizente com aquilo a que se propõe desde o início de sua carreira: reunir, de modo coerente, autores populares e clássicos de diferentes épocas, estilos e nacionalidades, que marcaram a história do instrumento e nessa fusão não apenas deixar-se influenciar em suas composições, mas também dá o seu toque na obra dessas influências. Talvez essa condição possibilite-a expressar a história da música popular em dualidade com os notórios e grandes compositores de âmbito mundial de modo contagiante e envolvente, fazendo daqueles que tem a oportunidade de conhecer o seu trabalho fiéis admiradores de uma arte que por si só já faz-se bastante expressiva, e que nas mãos habilidosas de Carmem Di Novic ganha características ainda mais relevantes. Ela sabe o que faz e de modo arguto, alia a sensibilidade feminina à sua arte.

Fica aqui para os amigos leitores dois números da artista apresentados no espetáculo “Clássicos ao violão por Carmen Di Novic e convidados” realizado em Campo Grande-MS em 2014. A primeira trata-se da composição de Paulo Gallo, “Dança Paraguaia”. Esta faixa conta com a participação do músico Arapiraca:

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A segunda canção trata-se do clássico “Son de carrilhões”, de autoria do João Pernambuco:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 16

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A artista completou 80 anos no último dia 8

Alaíde Costa é considerada por muitos a grande dama da canção brasileira. Título mais que merecido a esta mulher que traz a sua história intrinsecamente ligada à música popular brasileira ao longo dos últimos sessenta anos. Nascida no Méier, bairro localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide começou a cantar ainda na infância em alguns programas de rádio existentes na época. Sua estreia foi em um circo, logo em seguida, aos 13 anos, venceu um concurso de melhor cantora jovem interpretando a canção “Confesso“, composição que na época fazia parte do repertório da cantora Linda Batista. O concurso promovido por Paulo Gracindo, no seu programa Sequência G3, da Tupi, do Rio de Janeiro, foi o pontapé inicial de uma bem sucedida incursão por alguns programas de rádio da época, dentre os quais o Arraia Miúda, apresentado por Renato Murce, na Radio Nacional. Daí em diante vieram participações em diversos programas de rádio da época, incluindo aí os programas de Ari Barroso e do Arnaldo Amaral, onde a sua participação foi sempre vitoriosa. Apesar de ganhar a nota máxima em quase todos os programas de calouros aos quais apresentava-se, Alaíde não possuía a voz que predominava nos estúdios de gravações na época. Seu canto suave e afinado não tinha vez diante da potência vocal de muitas contemporâneas suas e isso, por conseguinte, acabou prejudicando a sua inserção no mercado fonográfico de imediato.

Depois de ouvir inúmeras vezes que cantava bem, mas não tinha voz, finalmente em 1956 lhe surge a oportunidade de ingressar no mercado fonográfico por intermédio da gravadora Mocambo. E para a surpresa de muitos, neste seu primeiro disco de 78 RPM Alaíde já se mostra uma artista completa. Juntamente com “Nosso Dilema” (Hélio Costa e Anita Andrade) o disco conta com o samba-canção “Tens que Pagar”, de autoria da intérprete em parceria com Airton Amorim. O disco não obteve o esperado sucesso, no entanto rendeu-lhe um convite do técnico de som Odeon para ser crooner do Conjunto Copacabana na Dancing Avenida (RJ), mesmo local, em que anteriormente, já haviam atuado, na mesma função as cantoras Elizeth Cardoso e Angela Maria. Nesta mesma época tem a oportunidade de conhecer o legendário Aloysio de Oliveira que leva a cantora à Odeon, propiciando a artista gravar em 1957 o seu segundo 78 RPM com as faixas “C’est La Vie” (Edward R. White – Mack Wolfson – Vrs. Nely B. Pinto) e “Tarde Demais” (Hélio Costa – Raul Sampaio), faixa esta que a propiciou o gosto pela fama pela primeira vez e a fez receber algumas premiações, dentre as quais todos os de cantora revelação. Sem contar as diversas capas de revistas as quais ilustrou, dentre as quais “Radiolândia”, “Música e Letra”, “Revista do Disco”, dentre outra e participações em programas diversos de rádio e TV.

Ao final dos anos de 1050 a cantora tem a oportunidade de conhecer João Gilberto por intermédio de Aloysio de Oliveira. Por conseguinte acaba por conhecer a grande maioria dos artistas que iriam protagonizar o movimento da Bossa Nova, uma vez que João Gilberto acreditava que o estilo suave e moderno de Alaíde seria interessante ter para embasar aquele movimento que vinha surgindo e ganhando espaços cada vez mais significativos não apenas em nosso país, mas ao redor do mundo. O resultado deste entrosamento foi sua transferência para a gravadora RCA Victor, onde, finalmente lança o seu primeiro LP de 12 polegadas sob o título de “Gosto de Você” e a oportunidade de aproximar-se do então jovem músico Oscar Castro Neves que a apresenta a Vinicius de Moraes e este ao ascendente Tom Jobim. Uma passagem interessante nesta amizade com Vinicius de Moraes se deu no início dos anos de 1960. Apaixonada por pianos, Alaíde sempre teve o desejo de aprendê-lo, mas esta vontade sempre esbarrava na condição de não ter um. Ciente deste desejo em aprender a tocar o maestro Moacir Santos sugere que Alaíde peça ao Vinicius para ceder o piano que possuía para que o maestro pernambucano corroborasse, sempre que possível, para que a cantora e compositora carioca aprendesse o instrumento. O resultado dessas aulas pode ser encontrada no álbum que a artista gravou com Oscar Castro Neves em 1973. Trata-se da faixa “Amigo Amado“, melodia composta por Alaíde e letra presenteada pelo poetinha.

Aos amigos leitores do JBF ficam aqui duas belíssimas canções. A primeira trata-se de “Onde está você“, de autoria da dupla Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorin. Tal canção, Alaíde Costa apresentou-a pela primeira vez em 25 de maio de 1964, no show “O fino da bossa“:

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A segunda faixa trata-se de “Quando tu passas por mim“, canção de autoria da saudisa dupla Antônio Maria e Vinicius de Moraes. Esta faixa foi gravada por Alaíde em duo com o pianista João Carlos Assis Brasil:

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GERALDO AMARAL CONTINUA A PLENO VAPOR

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Parceiro de nomes como Geraldo Azevedo e Renato Rocha, Geraldo Amaral coleciona em sua biografia musical um rol de grandes intérpretes de sua obra

Assim como outro grande nome da música pernambucana, Geraldo Amaral nasceu no agreste do estado de Pernambuco, mais precisamente na cidade de Garanhuns, município localizado a cerca de 230 km da capital pernambucana e berço natal do saudoso José Domingos de Moraes, o Dominguinhos. A família resolve mudar-se para a cidade do Recife quando o jovem Geraldo estava com cerca de dezesseis anos e na capital de Pernambuco o jovem começa a desenvolver a sua trajetória musical a partir do conjunto “Os Ermitões” em parceria com Robertinho de Recife. O grupo que era inspirado na Jovem Guarda (ascendente movimento musical da época), em pouco tempo mudou a formação original e foi rebatizado com o nome de “Os bambinos”, aglutinando a influência dos Beatles ao trabalho musical.

Ao longo dos anos de 1970 o grupo fez um relativo sucesso na capital pernambucana, animando bailes e diversas festas. A popularidade era tanta que o grupo chegou a ser batizado como “os Beatles nordestinos”. Em “Os Ermitões” Geraldo Amaral era contrabaixista e cantor do grupo e nas guitarras Robertinho. Vem dessa época também a sua participação no grupo LSE – Laboratório de Sons Estranhos, grupo este fundado por Aristides Guimarães e ligado ao movimento Tropicalista. O grupo surgiu com uma proposta performática musical bastante ousada e irreverente para a época, o que acabou ocasionando um afronto ao conservadorismo da sociedade recifense de então. Da estreia em Recife, o grupo logo seguiu para a cidade do Rio de Janeiro, numa produção de Gal Costa, com arranjos musicais de Macalé, Naná Vasconcelos e Maurício Maestro. No entanto Geraldo Amaral preferiu protelar a sua ida à cidade Maravilhosa para um pouco depois, uma vez que no Recife a cena musical fervilhava com nomes como Geraldo Azevedo, Quinteto violado, Naná Vasconcelos e Alceu Valença, que começavam a se destacar.

Geraldo Amaral esteve na cidade maravilhosa pela primeira vez acompanhando Alceu Valença e Geraldo Azevedo e tempos depois, por volta de 1978, resolveu estabelecer-se definitivamente nela vislumbrando oportunidades maiores que em sua região de origem. E de fato essa mudança para o Rio de Janeiro acabou não apenas propiciando novas oportunidades em sua carreira como também a consolidação de parceria com artistas diversos, dentre os quais a do cantor e compositor garanhuense com o petrolinense Geraldo Azevedo, músico contemporâneo seu que acabou tornando-se o seu maior parceiro e um grande amigo. Ao chegar no Rio de Janeiro tratou logo de manter-se no segmento que o havia impulsionado a ir tão longe. Formou uma banda que resgatava o forró pé-de-serra a partir do repertório de alguns dos principais nomes do gênero (como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga) até o lançamento de sua carreira solo pouco tempo depois.

É válido registrar que com este grupo Geraldo Amaral chegou a fazer uma participação especial no filme “Bye Bye Brasil” (1980) de Cacá Diegues. A carreira solo como cantor e compositor veio após o término da banda e durante esse período teve a oportunidade de tocar em diversos locais que formam a cena alternativa carioca, possibilitando-o a ampliação de suas parcerias com outros nomes da cena musical. Dentre esses nomes, um dos mais profícuos encontros deu-se com o também cantor, músico e compositor Renato Rocha, que viria a se tornar um autor conhecido a partir de canções como “Dia branco” e “Bicho de sete cabeças”, parcerias suas com Geraldo Azevedo. Com Rocha, o pernambucano Amaral compôs, dentre outras, músicas como “Arte longa”, “Galo cantor”, “Sambas antigos” e “Noites de outono.”

Outros conterrâneos foram de fundamental importância para que a carreira de Geraldo Amaral se firmasse no “Sul maravilha”. E um dos nomes primordiais para esse acontecimento foi o do produtor, compositor e parceiro Carlos Fernando, autor, dentre ouros sucessos, do frevo “Banho de cheiro”, interpretado pela cantora Elba Ramalho no álbum “Coração brasileiro”, de 1983. Morto em 2012, Carlos Fernando é o parceiro de Amaral nas faixas do álbum “Cena de verão” que o garanhuense lançou em 2009 e que contou com a participação especial do parceiro Geraldo Azevedo, com arranjos do saudoso Magro (MPB4), Inês Perdigão (Chorinho da Feira) e conta também com a produção do competente Paulo Rafael.

De lá para cá Geraldo Amaral participou da produção musical e da gravação do CD e DVD “Salve São Francisco”. Idealizado por Geraldo Azevedo e que conta com a participação especial de grandes nomes da música brasileira. Além de dividir os vocais e assinar “Águas Daquele Rio” em parceria com Amaral, Geraldo Azevedo conta com nomes como Maria Bethânia, Djavan, Dominguinhos, Ivete Sangalo, Moraes Moreira, Fernanda Takai, Alceu Valença entre outros. Sem contar com sua passagem pelo cinema interpretando uma das canções presentes na trilha sonora do filme “Tainá – uma aventura na Amazônia” (2001) e na criação da trilha sonora do documentário “Caçadores de Dinossauros” (2011). Artista de relevante prestígio no meio musical, o pernambucano que conta com mais de quarenta anos de carreira, Amaram continua a dedicar-se à música de modo singular criando canções e melodias que já tiveram os registros fonográficos de grandes intérpretes da MPB tais como os conterrâneos Alceu Valença, Silvério Pessoa, Marinês, Adryana BB e Dominguinhos. Além de nomes como Teca Calazans, Elba Ramalho, MPB-4, Joanna, Letícia Tuí, Elza Maria entre outros e chegou a acompanhar nos palcos nomes como Raimundo Fagner, Eliana Pitman, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Recentemente Geraldo Amaral Em em 8 de fevereiro de 2013, lançou o seu mais recente trabalho com canções feitas em parceria com Renato Rocha e João Alberto. Trata-se do primeiro trabalho para distribuição totalmente digital, estando disponível nas principais lojas de música digital do Brasil, Estados Unidos e Europa.

Ficam aqui duas canções presentes no álbum “Cena de verão”, de 2009. A primeira trata-se da faixa que batiza o disco:

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A segunda chama-se “Beija-flor de mesa”:

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QUATRO “COBRAS” QUE RESOLVERAM ENCANTAR-NOS DE MODO INEBRIANTE

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Invertendo a clássica história do encantamento de serpente, eis um tipo de cobra que com sua sonoridade nos envolve

A prática do encantamento de cobras e serpentes é algo comum realizada por artistas de rua geralmente em países do continente asiático como Bangladesh, Índia, Malásia entre outros daquela região. Tudo consiste na utilização de um instrumento (geralmente de sopro) objetivando hipnotizar serpentes apenas tocando-o. Há quem afirme que o instrumento seduz o animal por seus movimentos e forma, e não pela música que emite. De qualquer modo, a relevância dessa breve explanação se dá apenas a título de introdução para que possamos chegar ao nome desse grupo formado por quatro figuras que vem contribuindo de modo substancial para manter a tradição da inerente qualidade que vem caracterizando a a história da música mineira ao longo dos últimos anos.

Se o encanto sonoro hipnotiza ou não as serpentes é algo irrelevante, o que de fato importa é que esse quarteto acabou por, de modo inventivo, fazer jus ao nome que adotaram, uma vez que trata-se de figuras de extrema capacidade e talento, trazendo a partir de cada um dos integrantes, uma valiosa bagagem capaz de caracterizá-los com os mais relevantes adjetivos. São quatro “cobras” que denotam-se para além da gíria e transpassam qualquer sentido figurado. Nomes que alcançaram as suas respectivas relevâncias não apenas na cena musical mineira contemporânea mais que estão a fazer, cada um ao seu modo, reverberar suas artes para além de suas fronteiras e fugindo de qualquer regionalismo tornando-se universais e capazes de nos fazer apreender o mais genuíno sentido da frase “Sou do mundo, sou Minas Gerais”, como foi dito na composição “Para Lennon e McCartney” dos irmãos Borges (Lô e Márcio) e Fernando Brant, precursores do Clube da Esquina (um dos movimentos musicais mais relevantes da história da música brasileira e que desde o seu surgimento foi capaz de fazer a música mineira alcançar patamares antes jamais alcançado.)

O quarteto Cobra Coral é formado por Flávio Henrique, Kadu Vianna, Mariana Nunes e Pedro Morais. Compositor, produtor e instrumentista autodidata Flávio hoje ocupa grande relevância no cenário musical mineiro onde mostra-se bastante atuante. São mais de 80 músicas gravadas em 07 álbuns autorais e um DVD, parcerias ao lado de nomes como Zeca Baleiro, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Telo Borges, Paulo César Pinheiro, Marcio Borges entre outros e intérpretes nomes como Milton Nascimento e Ney Matogrosso. Outro integrante é o bacharel em canto lírico Kadu Vianna que traz como característica do seu trabalho uma MPB imbuída de influências regidas por gêneros como o jazz e o rock que acaba dando à sua sonoridade passe livre para transitar naquilo que melhor convém para o exercício de sua arte como é possível observar nos três registros fonográficos do cantor, instrumentista, produtor e compositor nascido na cidade mineira de Nova Lima que contaram com a adesão de nomes como Carlos Malta, Marina Machado, Carlinhos Brown, Jaques Morelenbaum entre outros. Já a cantora Mariana Nunes conta com uma longa, coesa e sólida trajetória musical onde se é possível atestar tanto em projetos solo como “A Luz É Como A Água” ou através de outros em parceria tal qual o álbum “Abra-palavra”, realizado em duo com o músico Vítor Santana. Com uma técnica que acentua e destaca o seu límpido e cristalino canto Mariana demostra ser, através do seu raro timbre, uma grata surpresa para quem a escuta. O último nome deste grupo vocal vem a ser Pedro Morais, artista apontado pela crítica como um dos melhores intérpretes mineiros da atualidade. É como bem foi dito: são quatro exímios talentos com histórias que apesar de distintas são capazes de manter uma unidade coerente quando somadas.

A sonoridade do disco fica toda a cargo do quarteto Cobra Coral nas doze faixas que compõe este debute fonográfico de título homônimo ao grupo. Entre as gravações presentes no projeto, há releituras de autores como Caetano Veloso que assina as canções “Gatas extraordinárias” e “Cobra coral” (esta em parceria com Waly Salomão) e a dupla Fernando Brant e Milton Nascimento, que assinam “Milagre dos peixes” e “Encontros e despedidas”. O disco ainda conta com o registro de “Capullito de Alelí”, composição do porto-riquenho Rafael Hernández Marín que tem entre seus famosos intérpretes o americano Nat King Cole. O álbum ainda conta com faixas autorais como as sentimentais “Faísca na medula” (composição de Kadu Viana em parceria com Murilo Antunes) e “Sob o Sol” (escrita a quatro mãos por Flávio Henrique e Pedro Morais). Flávio também assina “Casa aberta” (parceria com Chico Amaral) e “Sim” (composta com Murilo Antunes). O disco que ainda conta com duas composições do trio Pedro Morais, Kadu Viana e Magno Mello: “Qualquer palavra” e “E o que for, já é”, traz todo o bairrismo do grupo a partir de “Em linhas gerais”, escrita por todo o quarteto.

São quatro elementos que fogem do tradicional conceito da água, da terra, do fogo e do ar; quatro elementos que deixam de ser substantivos para se fazer reverberar de modo afinados, entrosados, inventivos e uníssono a cada espetáculo ou a cada audição deste projeto lançado. São quatro estórias capazes de comprovar que a música brasileira não faz-se cíclica, apesar de saber-se que há uma fonte inesgotável se olharmos para trás. Entre conceitos e canções o Cobra Coral destaca-se sobremaneira como um dos mais expressivos exponentes da música mineira contemporânea. E isso é possível atestar-se a partir da afirmação de conceituados conterrâneos desses talentosos artistas como é o caso do cantor e compositor João Bosco, que teve a oportunidade de ouvir o grupo vocal no dia em que iriam dividir o palco do Palácio das Artes e desde então se viu arrebatado. O autor de “Jade” chegou a afirmar que o veneno sonoro do quarteto faz-se algo indefensável ao se ter contato. Sendo assim, se um nome da envergadura sonora de Bosco os definem desse modo, não há mais o que se questionar ou ir ao encontro de qualquer soro antiofídico. É deixar-nos que a envenenada sonoridade do quarteto adentre ouvido afora de modo expansivo, se possível de modo pandêmico, para que a todos também não haja a menor possibilidade de fuga.

Fica aqui para os amigos duas canções presentes no álbum de estreia do quarteto. A primeira trata-se da faixa que dá nome ao grupo. “Cobra coral” é uma composição de Caetano Veloso:

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Já a segunda composição trata-se da clássica “Encontros e despedidas”, composta por Fernando Brant e Milton Nascimento:

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MÁRCIA TAUIL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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A cantora, compositora e instrumentista volta para uma exclusiva e informal conversa onde apresenta as novidades em relação a sua carreira

A mineira Márcia Tauil já conta com quinze anos de estrada em um trabalho que sempre busca trazer características bastante peculiares. Seja cantando, compondo ou executando o seu instrumento, a artista vem de modo bastante coerente apresentando-se nos mais distintos palcos brasileiros, sendo premiada em diversos festivais Brasil afora como foi possível atestar a partir da matéria “Sob o aval de grandes nomes eis um promissor talento de nossa música” recentemente publicada aqui mesmo em nosso espaço. Após interpretar canções da lavra de Robert0 Menescal, Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto em projetos especiais, Márcia atualmente vem na elaboração do seu terceiro projeto solo e, entre um compromisso e outro, a artista gentilmente concedeu um pouco do seu precioso tempo para nos presentear com esta entrevista exclusiva onde fala, dentre diversos assuntos, sobre suas reminiscências musicais, a responsabilidade de ser considerada pelo público e pela crítica como um promissor talento dentro do atual cenário da música brasileira e a sua aproximação a dois compositores recorrentes em seus projetos fonográficos: Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto. Leitura imprescindível para aqueles que amam a música brasileira pautada na tríade perfeita: talento, bom gosto e repertório impecável.

Dentro das suas reminiscências há alguma que você destacaria como determinante para a sua predileção pela música?

Márcia Tauil – Fui ninada pelo meu pai, músico, com chorinhos. E desde menina vi e ouvi a Música acontecer em casa, devido a ele, minha mãe, pianista e violinista e meu irmão contrabaixista, violonista e tecladista.

E a questão da composição? Como se deu o seu primeiro contato com este universo?

MT – Sempre criei muito, mas não via esse lado tão aflorado como o canto. Buscava mais o canto. Comecei compondo de brincadeira e por volta de 2000, a pianista Mana Tessari passou a trabalhar comigo e começamos a compor para FESTIVAIS, a partir daí, não parei mais.

O chorinho é um gênero que faz parte de sua formação musical devido principalmente ao seu pai não é isso? Como você foi aglutinando os outros gêneros a sua formação musical?

MT – Minha mãe estudou clássicos, e mesmo tendo abandonado os estudos de música, nos passou seus conhecimentos, cantando junto com meu pai, dentro de casa. Meu irmão tocava baixo numa banda com repertório Jovem Guarda e tocava violão e teclado, acompanhando cantores diversos, de repertórios variados, desde a Bossa Nova até boleros, por exemplo. Os ensaios aconteciam no quarto dele, em minha casa. E eu me interessava por todas as tendências e novidades.

Você vem sendo reconhecida não apenas pelo público, mas principalmente pela crítica especializada como um promissor talento dentro do combalido cenário da atual música popular brasileira. Como você encara essa responsabilidade?

MT – Eu encaro essa realidade há muitos anos, me mantendo fiel ao estilo, qualidade e repertório, e essa minha luta está sendo reconhecida.

Não é de hoje que o mercado musical brasileiro vem mostrando-se bastante divergente. Isso atesta-se a partir de nomes como o seu, que apesar do reconhecimento do público e da crítica não tem o devido espaço em detrimento a um tipo de música efêmera. Qual a sua opinião sobre essa pseudo lógica de mercado?

MT – Essa divergência possibilita que nomes como o meu possam se manter no mercado da boa música. Ele é mais escondido, mais restrito, mas existe. Não foram todas as pessoas atingidas pela massificação. Ainda bem que a divergência se estabeleceu. Imagina um mundo comandado apenas pelos VERMES DE OUVIDO (comprovação científica de músicas criadas para grudarem no cérebro). Mesmo com toda essa máquina voltada ao comercial, tem público ligado em trabalhos com características atemporais. Claro que é mais difícil trabalhar para menos público, com menos mídia. Dificulta, mas valoriza a estrada.

Em 2014 você está completando quinze anos de carreira fonográfica. Qual a avaliação que você faz desse período e dos álbuns lançados?

MT – Dentro das condições que tive de divulgação, de colocação em lojas, entrada em Mídia, posso analisar que, sendo Cds focados em qualidade e verdade, eles cumprem seu papel de me representar muito bem, até hoje, pois, mesmo sendo lançados há mais de 10 anos, assim que chegam em mãos de quem gosta e conhece MPB e sua história, sou procurada para entrevistas, e vão me abrindo mais e mais espaços.

Como se deu a sua aproximação da produção dos compositores Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto, dois nomes que acabaram tornando-se recorrentes em sua discografia?

MT – Sobre Costa Netto, o conheci realmente por acaso, em São Paulo, no Villaggio Café, no dia de meu aniversário, e deixei meu material em vídeo com ele, que assistiu e depois foi me ver ao vivo. Eu conhecia muito de suas canções. Fiquei feliz em conhecê-lo. Daí surgiu meu primeiro Cd, e logo depois, o segundo Cd, com a obra de Gudin em parceria com ele, quando ele levou Gudin a um show meu, para que Gudin me conhecesse. Sou muito grata a ele.

Como compositora que você é não cogita a possibilidade de um projeto fonográfico essencialmente autoral?

MT – Quero sim, chegar a um cd totalmente autoral. Porém, como intérprete, canto canções não compostas por mim que me tocam e emocionam. E amo fazer isso nos palcos e nos CDs.

Seu mais recente trabalho lançado é um projeto ao lado das cantoras Cely Curado, Nathália Lima e Sandra Duailibe onde vocês prestam uma justa homenagem ao cantor, instrumentista e compositor Roberto Menescal. Como surgiu a ideia deste projeto?

MT – Roberto Menescal é um cavalheiro e um grande incentivador de artistas. Trabalho com ele há muitos anos e recebo muito carinho, grande ajuda e maravilhosos ensinamentos. Sua obra é especial e sua colaboração para a Música Brasileira é inestimável. Pensei em homenageá-lo, falei com as cantoras, que na hora, se uniram a mim com os mesmo sentimentos de gratidão e de vontade de cantar o Mestre. Ao falarmos para ele, ele que nos presenteou participando do Cd, nos dando canções inéditas, fazendo os arranjos e tocando também. Merece sempre e muito mais!

Você atualmente vem preparando o seu terceiro projeto solo que a princípio apresenta-se de modo bastante coerente com a sua trajetória musical a partir de nomes já conhecidos pelo seu público. Você poderia nos adiantar alguma novidade sobre este novo álbum?

MT – As novidades são as composições próprias e a participação de Menescal, fazendo um dueto muito simpático comigo, onde fundimos uma composição dele e de Bôscoli, com outra de Maurício Einhorn e Durval Ferreira, num jogo de perguntas e respostas. Ficou muito agradável. Dessa vez, o cd sairá pela gravadora GRV e terá um projeto de lançamento bem cuidado e bonito. Pretendemos primeiro, lançar virtualmente.


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SURGE UM PROMISSOR TALENTO EM NOSSA MÚSICA

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A cantora e compositora mineira Márcia Tauil vem, projeto a projeto, mostrando porque está sendo considerada como uma das mais gratas surpresas da boa música brasileira

Natural de Guaxupé (cidade mineira localizada a pouco mais de 470 km da capital Belo Horizonte) Márcia Tauil apresenta-se de peito aberto e de modo pleno no exercício de seu ofício. Em corpo, alma e verdade a artista vem, em quinze anos de carreira, construindo um sólido caminho pautado na qualidade de repertório e interpretações marcantes. Cantora, compositora e professora de canto, Tauil traz por característica naquilo que faz segurança e talento; seja a partir de projetos paralelos dos quais participou, seja em seus materiais fonográficos solos como os dois álbuns lançados até então. Seu primeiro disco, datado de 1999, traz por título “Águas da Cidade”, nome de uma das canções presentes no álbum composta pelo mocoquense Kiko Zamarian. Além da faixa citada o disco também apresenta canções inéditas e releituras de artistas como Djavan (“Esfinge”) e Chico Buarque (“Mambembe”) mostrando outra característica que a faz uma das mais promissoras artistas da nova geração da música brasileira contemporânea: a interpretação precisamente endossada pela técnica e pela devida segurança que a canção exige não deixando-se abster pela medida certa de sensibilidade como se é possível atestar ao ouvi-la.

Este debute fonográfico, além de apresentar características que permeiam sua carreira até os dias atuais, também é responsável pelas primeiras manifestações de reconhecimento também dos profissionais que atuam na área musical. É em “Águas da Cidade” que a artista começa a tecer habilmente vigorosos adjetivos que adornam a sua arte dando a ela o preciso contorno para o seu reconhecimento. Um trabalho que assim como quem o assina apresenta traços de “força, domínio e delicadeza impressionantes”, assim como descreve a colega de profissão Vânia Bastos.

Tal reconhecimento expandiu-se ao ponto de chamar a atenção de colegas de profissão conceituados como foi o caso do cantor, compositor, instrumentista e arranjador Eduardo Gudin, autor de mais de trezentas canções e responsável por composições de grande sucesso na música popular brasileira ora solo, ora em parceria com outras relevantes figuras do cancioneiro nacional. Parceiro de nomes como Paulo César Pinheiro, Luiz Tati, Arrigo Barnabé, Paulinho da Viola entre outros, regularmente Gudintem sua vasta obra visitada por grandes intérpretes em espetáculos e discos por grandes intérpretes. No caso de “Sementes no Vento” (título homônimo a uma das canções presente no projeto) não trata-se de mais um mero tributo, neste disco Gudin confiou a artista guaxupeana a interpretação de treze parcerias suas com o advogado e militante em direito autoral José Carlos Costa Netto neste que viria a ser o segundo projeto fonográfico da carreira da cantora e compositora.

O belíssimo álbum, editado além do Brasil no Japão pela gravadora Ward Records, reafirma o garbo da interpretação de Tauil rendendo-lhe uma reiteração quanto a boa aceitação tanto da crítica especializada quanto do grande público a partir das elegantes interpretações de canções como “O carnaval de cada dia”, “Coração aberto”, “Verões virão”, além de clássicos como “Paulista” e “Verde” (a canção mais conhecida da dupla por ter sido interpretada por Leila Pinheiro em 1985 no Festival dos festivais da Rede Globo e que deu a intérprete o título de revelação do evento). Em síntese pode-se dizer que trata-se de um projeto que traz em seu bojo além grandes compositores uma intérprete regida por uma tônica maior onde destaca-se a elegância e a suavidade de sua voz.

Desde então a cantora e compositora vem sedimentando a sua coesa carreira a partir das mais variadas atividades, incluindo aí a participação em distintos projetos fonográficos (a exemplo do Cd “Rios do Rio”) assim como também em festivais musicais geralmente ocorridos nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, que vem rendendo-lhe diversos prêmios por sua atuação, resultando na maioria das vezes, na primeira colocação, seja como compositora, seja como intérprete de tais eventos. Em plena atividade, a artista vem atualmente envolta a produção do seu terceiro álbum solo que contará, dentre outras novidades, músicas autorais inéditas e em parcerias, além de selecionadas canções conhecidas do público.

Enquanto esta ideia não é concluída, Tauil vem mostrando a influência exercida por Roberto Menescal em sua atuação como compositora e intérprete a partir de mais um projeto ao qual participou cujo título é “Elas cantam Menescal.”, cd que presta uma singela homenagem a um dos grandes nomes de nossa música ao qual sempre admirou ao lado de outras três artistas: Cely Curado, Nathália Lima e Sandra Duailibe. Atualmente vem na elaboração de seu terceiro disco solo, onde registrará parcerias suas com a poetisa mineira Melissa Mundim, com Leandro Dias, um dos mais profícuos compositores da música do Pará, gravará parceria de José Carlos Costa Netto e Silvana Stiéano e contará com a participação mais que especial do seu amigo, parceiro e mestre Roberto Menescal.

Como alento aos ouvidos mais apurados o afinado canto de Márcia Tauil mostra-se verdadeiro bálsamo em meio a degradação na qual a música brasileira encontra-se inserida nos últimos tempos. É preciso atentar para nomes como o dela para atestar que ainda há esperança. Longe da degradação que atualmente rotula a nossa cultura de massa, a artista faz-se um dos nomes mais promissores da nova geração da MPB de modo bastante convicto. Instrumentista, cantora e compositora a artista prevalece-se da sensibilidade inerente a figura feminina para deixar aflorar de modo ímpar cada característica que dar vigor ao seu trabalho. Como artesã, Tauil sabe tecer como poucos todos os fios que unem de modo coerente e harmonioso os mais diversos sentimentos a partir de sua técnica impecável. Mesmo atuando como locutora de rádio e na apresentação de programas de televisão é sem dúvida alguma na música que ela encontra-se mais à vontade e apta a deixar fluir toda o talento ao qual faz jus.

Seu canto simples e sem maiores firulas nos arrebata com a mesma verdade e volúpia com a qual se apresenta e isso já é o suficiente para fazer da artista, ao lado de nomes como Monica Salmaso, Roberta Sá, Marisa Monte e Verônica Ferriani, um das melhores e mais expressivas vozes do atual cenário musical em nosso país. Seu canto traz consigo a dosagem certa e precisa dos mais variados e nobres adjetivos, seu instrumento reverbera um estilo bastante particular e a sua composição arraigada por uma sonoridade moderna complementa de modo harmonioso o estilo que hoje a alavanca ao lugar de destaque ao qual se encontra dentro da MPB.

Deixo aos amigos leitores duas canções interpretadas pela artista em distintas fases de sua carreira. A primeira trata-se de uma composição de Sérgio Farias e Cristina Saraiva intitulada “Primeiro Olhar“:

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A segunda trata-se de um clássico da lavra de Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque intitulada “Eu te amo“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 15

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Recentemente trouxe aqui mesmo para esta coluna o saudoso e insubstituível Orlando Silva procurando abordar um pouco sobre sua biografia no período que antecede o seu estrondoso sucesso. Como dito, Orlando que até então não tinha pretensões de se profissionalizar e cantava na garagem da empresa de ônibus a qual trabalhava, procurou seguir o conselho de um dos seus admiradores e foi fazer um teste na rádio Cajuti. Neste teste teve a oportunidade de conhecer o compositor e instrumentista Bororó que oportunizou-o a estar com Francisco Alves. Chico Viola por sua vez identificou naquele jovem um promissor cantor e resolveu o apadrinhar daquele momento em diante o que acabou oportunizando-o a participar dos mais distintos programas radiofônicos tornando-se uma estrela do mesmo quilate e patamar que o seu “padrinho”.

No entanto há quem diga que a primeira vez que empunhou um microfone tenha sido cantando “Mimi”, de autoria do mesmo Uriel Lourival que compôs a valsa “Céu Moreno” também interpretada por Orlando e registrada em disco e lançada somente em dezembro de 1935, ano em que sua carreira decola aos píncaros do sucesso e o cantor ganha do locutor Oduvaldo Cozzi o apelido de “o cantor das multidões”, por conta do magnetismo que exercia na quantidade cada vez maior de fãs que o acompanhava nos auditórios de rádios, em seus discos, assim como também em suas apresentações. Orlando tornou-se um fenômeno nacional em uma época em que tudo corroborava para o contrário (emissoras de alcance limitado, poucas vitrolas, estradas precárias ou inexistentes e a ausência de aviões). Nesta fase áurea chegou a gravar cerca de 72 discos de 78 r.p.m., compreendendo um total de 144 músicas.

Nesta melhor fase de sua carreira, a partir da RCA Vitor o artista gravou uma série de canções que viriam a se tornar clássicos da música popular brasileira com o passar dos anos. Orlando foi responsável pelo primeiro registro em disco de músicas como “Juramento Falso”, “Lábios que Beijei”, “Carinhoso”, “Rosa”, “Alegria”, “Nada Além”, “Errei… Erramos”, “A Jardineira”, “Número Um”, “A Primeira Vez”, “Curare”, “Preconceito”, “Aos Pés da Cruz” entre outras. Muitas dessas e outras canções trazem consigo histórias interessantes como é o caso da valsa “Neusa”, de autoria do pai de Sílvio Caldas, Antônio Caldas, em parceria com Celso Figueiredo. Antônio chegou a mostrá-la ao filho, mas Sílvio viu uma chance de o pai ter uma música de sucesso na voz de Orlando e abdicou de “Neusa”. Outra canção que merece destaque entre as curiosidades existentes em torno do intérprete é “Rosa”, composição dos saudosos Pixinguinha e de Otávio de Souza. Esta canção (labo B de um 78RPM que continha no lado A a valsa “Carinhoso”) era a favorita da mãe do intérprete, Dona Balbina. Após sua morte, em 1968, Orlando Silva jamais voltar a cantar pois alegava que as lágrimas não o deixariam.

Além dessas histórias há inúmeras outras de uma “época de ouro” que não volta mais. Quem um dia imaginaria que aquele rapaz “moreno demais” para os padrões artísticos da época, vestido com o uniforme de trocador de uma empresa de ônibus, calçado de alpercatas e coxo a bater nas portas de algumas emissoras em busca de uma oportunidade seria considerado em dado momento “o rei das multidões”? E foi assim, em uma carreira curta, mas rodeadas de excelentes sambas, sambas-canção, foxes e valsas escritas por alguns dos maiores compositores da época, que Orlando Silva tornou-se um ícone de nossa música popular brasileira e ainda hoje é reverenciado não apenas por saudosistas, mas por todos aqueles que amam a excelente música produzida no Brasil.

Para audição dos amigos leitores deixo aqui as duas canções citadas ao longo do texto. A primeira trata-se de “Neusa”:

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A segunda faixa trata-se de um dos grandes clássicos da música brasileira. “Rosa”, considerado por muitos, tem uma das mais belas histórias da música popular brasileira:

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ZÉ GUILHERME – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Há artistas que através do seu ofício conseguem expressar em dado momento suas reminiscências afetivas e sonoras. E quando consegue-se isso através de um vigoroso tributo parece que as coisas invariavelmente transcendem do lugar-comum. Dentro desta conjuntura pode-se citar “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, álbum lançado recentemente pelo cantor cearense Zé Guilherme. Radicado em São Paulo há mais de três décadas, o cantor que lançou seu último projeto fonográfico em 2006, volta ao mercado com este álbum que conta com dezoito canções do repertório de um dos mais representativos artistas musicais brasileiro do século XX como foi possível atestar recentemente aqui mesmo em nosso espaço. Hoje, de modo gentil e solícito, Zé Guilherme volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo onde aborda os mais distintos aspectos de sua biografia assim como também de sua carreira. Nesta informal conversa o artista relembra suas mais remotas recordações em relação à música, sua ida para São Paulo para atender ao chamado artístico, o porquê de longos hiatos em sua discografia assim como também no fala sobre o seu mais recente projeto em homenagem a um dos maiores intérpretes da história da música popular brasileira.

Zé, quais são as suas lembranças mais remotas em relação à música? Há alguma influência familiar nesta escolha pela música?

Zé Guilherme – Nasci e cresci ouvindo minha mãe cantar. Ela adorava ouvir os programas de rádio e era fã ardorosa dos cantores da Era do Rádio, de modo especial de Orlando Silva e Dalva de Oliveira. Além disso, a cidade onde nasci Juazeiro do Norte, sempre foi um polo de manifestações musicais, folclóricas e culturais às quais acompanhei desde o berço. Estas são minhas lembranças mais remotas e minhas primeiras influências musicais.

Você vem do Vale do Cariri não é isso? Até que ponto a música dessa região influenciou ou continua influenciando a sua obra?

ZG – Sim nasci e cresci no Vale do Cariri e apesar de não ser um artista com um trabalho de vertente regionalista a musicalidade, a cultura e as tradições da região estão impregnadas no meu sangue e presentes na minha personalidade artística e pessoal.

Desde a década de 1980 que você está radicado no Sudeste. Essa decisão de partir rumo ao “Sul maravilha” se deu exclusivamente por pretensões artísticas?

ZG – Foram várias as razões que me trouxeram para São Paulo, mas a principal delas foi a busca pela ampliação do meu universo de atuação artística.

Seu primeiro álbum, “Recipiente”, é de 2001; o segundo, “Tempo ao tempo” foi lançado em 2006. Agora nove anos depois vem seu terceiro disco. Por que intervalos tão longos em seus álbuns?

ZG – Na verdade Recipiente foi lançado em 2000 e não em 2001. Tempo ao Tempo em 2006. Ambos foram discos produzidos inteiramente por mim às minhas expensas, independentes. Depois de produzidos foram lançados pelo selo Lua Music, por meio de contrato de licenciamento por tempo determinado. Agora, em 2015, o Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva, também independente. O fato de terem sido produzidos com recursos próprios, sem gravadora ou qualquer tipo de patrocínio é o que justifica intervalos tão longos, ou seja, dificuldades de ordem financeira, falta de gravadora, etc. Foram discos autofinanciados, eu sou meu próprio produtor fonográfico. Os três discos só foram possíveis devido à minha coragem, persistência e à disponibilidade dos meus parceiros envolvidos na execução dos projetos.

Depois de dois álbuns pela Lua Music você resolveu aventurar-se no universo da produção independente. Quais as maiores agruras encontradas nessa empreitada?

ZG – Como eu mencionei anteriormente os dois primeiros discos foram produzidos de forma independente por mim, a Lua Music não bancou a produção dos discos apenas foi minha parceira no licenciamento e lançamento dos discos no mercado.Portanto as agruras foram sempre as mesmas: falta de recursos, apoio, patrocínio, etc. E não foi por falta de tentativas, inclusive de leis de incentivo, porém nunca tive a sorte de captar recursos para nenhum dos três discos. Saíram na garra, na coragem e graças aos meus preciosos parceiros músicos.

Atualmente você vem apresentando o álbum “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, disco lançado em comemoração ao centenário do cantor das multidões Orlando Silva. Provavelmente você como muitos outros artistas cresceram ouvindo a voz do saudoso cantor. Você lembra quando e como foi que Orlando chamou a sua atenção?

ZG – Influência de minha mãe que me contaminou e contagiou com sua adoração por Orlando Silva já nos meus primeiros anos de vida. Não tem uma razão lógica, apenas me encantei. Foi um encantamento infanto-juvenil totalmente emocional sem explicação racional. Eu não tinha a menor noção do que era, como era, por que era, apenas aconteceu e cresceu comigo. Somente depois de adulto pude aprofundar o conhecimento com relação à obra de Orlando, sua importância, a estética do seu canto. O encantamento se consolidou e transformou-se em admiração, paixão mesmo. Amo ouvir Orlando Silva, sempre.

O centenário do Orlando, o primeiro ídolo de massa do nosso país, não vem ganhando a devida notoriedade pelos grandes canais de comunicação. Em um país sem memórias como o nosso isso corrobora significadamente para que o nome de um artista deste quilate caia no limbo do esquecimento. Qual a sua opinião sobre este contexto?

ZG – Orlando jamais cairá no “limbo do esquecimento”. E não acredito que o país seja um “país sem memória”, acredito sim que faltam ações para que a memória do país, de um modo geral (musical, cultural, social, política, histórica, etc.) seja alvo de atenção. Educação é a palavra chave. Um povo com acesso à educação é capaz de valorizar sua história em todos os aspectos. Conjugada com saúde, igualdade de oportunidades, acesso à informação, etc., a educação pode abrir caminhos e espaços para a notoriedade do país e de suas figuras ilustres e com isso reavivar, reacender a capacidade de cada um de nós de fazer a grandeza da história do país. Depende dos governantes e depende de cada um de nós a construção do nosso futuro.

O repertório do seu álbum em homenagem ao Orlando busca abranger especialmente a época dita como áurea do artista (período este que vai de 1938 a 1942). Houve esse cuidado em buscar abordar esses anos ou foi algo espontâneo devido a qualidade do repertório?

ZG – O período considerado por muitos como apogeu do Orlando, na verdade, vai de 1935 a 1942. Este foi o principal recorte que adotei para a escolha do repertório. O viés foi a escolha de canções menos densas, contemplando seu lado mais alegre como, por exemplo, os sambas que são cheios de bom humor em sua letras.

“Abre a janela” ganhará a estrada ou o tributo ao cantor das multidões se restringirá apenas aos equipamentos de som?

ZG – Confusa sua pergunta!!! Talvez esclareça eu dizer que é claro que o disco foi lançado comercialmente no mercado para ser comprado, ouvido, tocado, executado, etc. e sem sombra ser levado ao palco em shows de lançamento, turnê, circulação, divulgação, etc. A intenção não é deixá-lo na gaveta ou na prateleira restrito apenas para tocar em aparelhos de som…. A estrada é seu destino.

 


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ZÉ GUILHERME CANTA ORLANDO SILVA

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No centenário do cantor das multidões, o artista cearense apresenta o oportuno tributo “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, projeto que traz Zé Guilherme ao mercado fonográfico após um hiato de quase uma década

Não há o que se negar acerca da importância do cantor Orlando Silva dentro da música popular brasileira. Essa afirmação podemos atestar nas mais variadas fontes de pesquisas existentes, assim como também através de depoimentos de alguns dos mais relevantes nomes da MPB. O artista, que teve sua fase áurea entre os anos de 1935 e 1942, atuou no mercado fonográfico até os anos de 1970 e a partir de interpretações singulares de canções que posteriormente viriam a se tornar clássicos de nossa música acabou fazendo escola e consequentemente tornou-se responsável por influenciar muitos daqueles que viriam dar continuidade a história da boa música popular brasileira nos anos subsequentes como é o caso de nomes como o ícone da bossa-nova João Gilberto e do saudoso Nelson Gonçalves. Onipresente dentro da música brasileira, o “cantor das multidões” (apelido dado pelo locutor esportivo Oduvaldo Cozzi) influencia cantores e intérpretes das mais distintas gerações como é o caso do artista aqui hoje em questão. No entanto, no ano de centenário dessa emblemática figura do nosso cancioneiro, os grandes meios de comunicação de massa praticamente ignoraram tal comemoração e, no último dia 03 de outubro, data em que Orlando de faria aniversário, poucos foram aqueles que dedicaram-se à lembrança dessa saudosa figura. Diferente dos noventa anos do artista, quando o ator Tuca Andrada ganhou os palcos do país a partir do musical “Nada além de uma ilusão”, escrito por Antônio de Bonis e Fátima Valença, o centenário de Orlando tem passado desapercebido em detrimento a sua importância dentro de nossa música e até agora poucas foram as homenagens concedidas. Até o momento, a mais significativa em disco, vem a ser “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, tributo prestado pelo cantor cearense Zé Guilherme.

Nascido em Juazeiro do Norte (CE), Zé Guilherme teve a oportunidade de crescer sob as mais distintas influências. Sua formação musical se deu a partir da audição dos grandes nomes do cenário musical brasileiro (dentre eles o próprio Orlando), assim como também da absorção de toda a cultura existente em sua região através das mais distintas fontes culturais e manifestações artísticas. Esse tal contexto fez-se de fundamental importância para que tempos depois o jovem juazeirense almejasse seguir carreira artística. Percebendo que seu torrão natal não possibilitaria de imediato o alcance que desejava em sua carreira artística, Zé decidiu partir para o Sudeste. Em São Paulo, desde 1982, de início cantou no circuito de casas noturnas da cidade. De lá para cá vem desenvolvendo inúmeros projetos musicais, dentre os quais os shows “Clandestino” e “Zé Guilherme e Convidados” (que contou com a participação de nomes como Carlos Careqa e Vânia Abreu). Depois de anos na estrada, em 2000, Zé lança “Recipiente” (Lua Discos), seu primeiro CD e que conta com a produção musical e arranjos de Swami Jr., seis anos após o lançamento de “Recipiente” lança mais um projeto intitulado “Tempo ao Tempo“, com direção artística do próprio Zé Guilherme, que assina também a coprodução em parceria com Marcelo Quintanilha. Quase uma década depois o artista cearense volta ao mercado fonográfico com o álbum “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva”, um projeto que resgata o repertório de um dos maiores intérpretes de nossa música a partir de uma releitura peculiar de uma obra composta por clássicos do cancioneiro brasileiro eternizados por Orlando. Trata-se de uma comemoração ao centenáriodo Cantor das Multidões como assim pudemos observar.

Composto por dezoito canções, “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva” busca abranger a fase áurea do saudoso intérprete carioca ocorrida entre os anos de 1935 e 1942 a partir de faixas como a popular marchinha carnavalesca de 1930, “A Jardineira” (Benedito Lacerda e Humberto Porto). “Apresento minha visão pessoal desta canção auxiliado pelo belo arranjo que traz introdução com o piano de Breno Ruiz, fazendo referência ao estilo barroco”, relata o intérprete cearense. O disco segue com “Dama do Cabaré” e “A Primeira Vez”. A primeira, de autoria do “poeta da Vila” Noel Rosa (que também assina em parceria com Cristovão de Alencar a faixa “Pela Primeira Vez”) e traduz o clima boêmio dos cabarés da Lapa carioca; já a segunda consta no repertório do disco por se tratar de uma canção que, segundo o próprio Zé Guilherme, “remete à inocência da paixão juvenil e me faz rememorar as desilusões passageiras da juventude”. Logo em seguida vem a faixa que batiza o álbum: “Abre a Janela”. Registrada pelo cantor das multidões em 1937, esta canção de autoria de Marques Júnior e Roberto Roberti foi o primeiro sucesso carnavalesco do artista no ano seguinte. O disco segue com sucessos da carreira de Orlando como “Preconceito” (Marino Pinto e Wilson Batista), “Aos Pés da Cruz” (Marino Pinto e Zé da Zilda), “Curare” (Bororó), “O Homem Sem Mulher Não Vale Nada” (Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti), “Alegria” (Assis Valente e Durval Maia), “Lábios Que Beijei” (J. Cascata e Leonel Azevedo), “Faixa de Cetim” (Ary Barroso), “Lealdade” (Wilson Batista e Jorge de Castro) e “Malmequer” (Newton Teixeira e Cristovão de Alencar). Entre as menos populares encontram-se “Meu Consolo é Você” (Nássara e Roberto Martins) e “Meu Romance” (J. Cascata). Vale destacar também as homenagens para as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro a partir das canções “Cidade do Arranha Céu” (composição da lavra de Edgard Cardoso, Ranchinho e Alvarenga) e “Cidade Brinquedo” (Silvino Neto e Plínio Bretas).

“Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva” atesta a atemporalidade de artista singular dentro da música popular. É um projeto que faz uma justa reverência ao saudoso cantor das multidões a partir de um seleto repertório composto após um longo processo de pesquisa sobre a trajetória e a discografia do inigualável intérprete carioca. Ao decidir homenagear um artista do quilate de Orlando Silva, Zé Guilherme não apenas realiza um desejo contido ao longo de uma década, mas também expõe-se visceralmente em um trabalho imbuído de reminiscências como ele mesmo faz questão de registrar “eu abri a janela do meu coração para me apossar, com respeito e reverência, dos sucessos de Orlando Silva e reapresentá-los ao público pela minha voz, pela minha forma de cantar”. Desse modo, “Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva” faz-se, sem o menor vestígio de saudosismo, um disco imprescindível para todos aqueles que se declaram fã de Orlando Silva (ou não) devido ao mapeamento de um repertório caracterizado por um apurado critério e rigor que corroboraram e continuam a contribuir para a história do nosso cancioneiro. Disco fundamental para que as novas gerações possam conhecer, a partir de interpretações carregadas de afetividade. Um carinho que de tão sincero faz-se combustível para que Orlando, mantenha-se vivo no coração daquele que esmo após quase quatro décadas de sua morte, o mantenha como referência na música popular brasileira.

Serviço
CD: Abre a Janela – Zé Guilherme Canta Orlando Silva
Artista: Zé Guilherme
Distribuição: Tratore 
Preço sugerido: R$ 27,00


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 14

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Ao longo deste mês um dos maiores intérpretes do século XX estaria completando um século de existência caso estivesse vivo. Falar de Orlando Silva é refazer um percurso significativo de nossa música a partir não apenas do seu legado, mas também em toda a influência que causou em um número sem fim de artistas subsequentes ao seu apogeu artístico, que ocorreu entre os anos de 1930 e 1940. Apesar da carreira do artista ter começado a declinar a partir de 1942, o intérprete carioca fez escola dentro de nosso cancioneiro e dentre os alunos mais dedicados podemos citar nomes como Nelson Gonçalves e João Gilberto, o mito maior da bossa nova. Em seu primeiro disco solo, gravado em 1952, o cantor baiano procura adotar o estilo Orlando Silva de cantar. Nascido no subúrbio carioca do Engenho de Dentro, Orlando era filho do violonista José Celestino da Silva, instrumentista que por diversas vezes tocou ao lado do Pixinguinha no conjunto dos oito batutas. Anda criança tinha por hábito subir em uma Amoreira para imitar o seu ídolo Francisco Alves e tinha por hábito utilizar uma lata de manteiga e os ouvidos tampados com algodão para projetar sua voz, criando assim uma técnica que corroborou para o aperfeiçoamento do seu canto a partir da própria de emissão de sua voz.

Tendo seu pai falecido muito cedo, Orlando por ser muito pobre foi obrigado a procurar manter a família a partir de algumas colocações no mercado de trabalho. Antes de começar a cantar profissionalmente Orlando trabalhou nos mais distintos empregos. Seu primeiro emprego foi de estafeta da Western, com o salário de 3,50 cruzeiros por dia. Também foi sapateiro, vendedor de tecidos, mensageiro entre outros. Em um desses empregos, como office-boy, o jovem Orlando, aos 16 anos, cai do bonde e lesiona gravemente a sua perna. Foi a partir daí que deu-se o seu primeiro contato com a morfina, que lhe era administrada para o alívio das constantes dores ocasionadas pelo acidente. Neste longo período que ficou em casa para recuperar-se, restava-lhe apenas ouvir programas de rádio e cantar as canções dos seus grandes ídolos como Silvio Caldas, Francisco Alves entre outros. Sua janela ficava próxima a um dos pontos de ônibus do bairro e ao interpretar as canções emitidas do rádio acabava chamando a atenção dos transeuntes que apesar de não saberem de quem se tratava, em muitas ocasiões paravam encantados para ouvi-lo. Após recuperar-se do acidente e com dificuldades para caminhar, conseguiu um emprego de cobrador de ônibus. Ao longo de suas viagens, o trocador cantava e encantava não apenas os passageiros, mas também os colegas de trabalho. Impreterivelmente, ao chegar na garagem da empresa para trabalhar, Orlando tinha que cantar algumas canções antes de partir para a primeira viagem.

Vem desse período a sugestão para que procure um teste em alguma emissora de rádio afim de se profissionalizar. É quando, Apesar de tímido, aos 18 anos, ele fez um teste com o Luis Barbosa para a rádio Cajuti. Nesta primeira vez o pretenso artista apresentou-se com o nome artístico de Orlando Navarro e bastou Orlando cantar a valsa “Céu Moreno”, de autoria do potiguar Uriel Lourival, para que todos ali presentes pudessem atestar que estavam diante de uma das maiores promessas da música brasileira (Vale registrar que esta mesma canção acabou ganhando um antológico registro ainda no início da carreira de Orlando na Victor em 01 julho de 1935). Dentre os presentes no estúdio estava o compositor Alberto de Castro Simões da Silva, popularmente conhecido por Bororó (autor de canções como Curare e Da cor do pecado) que prontificou-se a apresentar Orlando a uma “pessoa especial”. O encontro com esta pessoa “especial” se deu no Café Nice, reduto de grandes músicos e compositores na época, e para a surpresa de Orlando tratava-se de ninguém mais, ninguém menos que o seu grande ídolo Francisco Alves. Bastou Orlando entoar a valsa-canção “Lágrimas”, composta por Antônio Picucci e Cândido “Índio” das Neves para que o Rei da voz atestar que estava diante de um talento.

Aos amigos leitores ficam as duas faixas citadas até então desse ícone do nosso cancioneiro popular. A primeira trata-se de “Céu Moreno”, como dito, canção de autoria de Uriel Lourival e gravada por Orlando no 78RPM em 1935:

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A segunda canção é “Lágrimas”, faixa também gravada em 1935 e de autoria de Antônio Picucci e Cândido “Índio” das Neves:

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DUAS NACIONALIDADES FUNDEM-SE EM UMA SÓ PAIXÃO: A MÚSICA

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Como uma ascendente cantora brasileira uniu-se a um dos mais conceituados percussionistas do mundo para mostrar ao mundo que a música não tem fronteiras.

A música é sem sombra de dúvidas a linguagem universal da humanidade, pois nela não existe barreira e o som que dela emana é o idioma mais fácil a ser assimilado e traduzido. Por tocar as almas, a música não precisa de de metodologias, lições ou intensivos para apreende-la, fazendo com que qualquer um a compreenda desde que interesse-se por isso. Sem fronteiras, a música transita nas mais distintas pairagens de modo único, emocionando as mais diversas nacionalidades e proporcionando encontros que só são possíveis através de uma linguagem que foge a dicionários, sintaxes, gramáticas ou de qualquer outro termo associado a questões linguísticas, pois trata-se da linguagem do som e do ritmo, que magicamente de modo uníssono faz-se capaz de transcender todas as nacionalidades através dos ouvidos.

Partindo deste princípio faz-se plausível os mais distintos encontros musicais e culturais ao redor do planeta em sonoridades que teoricamente podem ser definidas até como hibridas, mas aos ouvidos de muitos o resultado em nada parece ter sido fruto de uma mistura. Exemplos de tal contexto não faltam se analisarmos os palcos ao redor do mundo e os mais diversos projetos fonográficos existentes no mercado. Agora, para agregar-se a tal contexto, eis que surge mais um, que de modo singular e garboso apresenta a união de uma cantora brasileira a um músico americano que juntos potencializam os seus respectivos talentos a partir de uma união extremamente profícua e necessária para dar um novo ânimo e vigor a tão combalida música de qualidade contemporânea. A união desses dois talentos pode ser atestada nos palcos ao redor do planeta a partir da apresentação do álbum “Talisman”, fruto de um encontro de almas musicais como bem definem este projeto.

De um lado, um instrumentista exitoso e conceituado nascido no Bronx, em Nova York, que é considerado um dos maiores percussionista de todos os tempos. De fama internacional, ao longo de décadas de carreira veio galgando o seu espaço e acabou por ganahr merecidamente por seu talento o respeito e a admiração de alguns dos maiores nomes da música mundial, tais quais Miles Davis e Paquito D’Rivera. Tendo participado de de inúmeras gravações o músico acabou tornando-se conhecido por sua versatilidade e profissionalismo tocando qualquer estilo musical de modo confortável. Em sua trajetória musical consta participações em turnês e gravações ao lado dos nomes já citados e de outros como Jorge Ben Jor, David Bowie, DJ LeSpam, Al Jarreau, Tania Maria, James Taylor, Mick Jagger, Celine Dion, Daniela Mercury, Mariah Carey, Quincy Jones, George Benson, Brecker Brothers, Spam Allstars, Sonny Rollins, Michel Camilo entre outros conceituados músicos de renome mundial.

Além de tais parcerias, conta com apresentações solos e a frente da Sally Tomato, banda criada por ele para prestar um tributo emocionante à música do músico de jazz latino Cal Tjader. Agraciado com nomeações ao Grammy e considerado um dos maiores congueiros do mundo, o artista americano apresenta uma música que não se prende a rótulos e ritmos, adequando-se confortavelmente seja ele o rock, a música latina, o ritmo brasileiro, o new age, dentre outros. Filho do cantor Charlie Figueroa, a primeira experiência profissional de Sammy veio quando ainda era estudante na Universidade de Porto Rico. Naquela época, Sammy era um dos fundadores do revolucionário grupo latino brasileiro Raices. Além do seu trabalho como músico, Figueroa também foi produtor e participou de diversas produções de jazz e de world music importantes.

Já o outro personagem da história vem galgando espaços cada vez mais significativos de modo ascendente desde que iniciou aulas de canto lírico em Belo Horizonte em 2000. Dois depois começa a produção do seu primeiro de modo independente que viria a ser lançado no ano seguinte. Neste período a gravadora Putumayo descobre, por meio de um de seus pesquisadores, o trabalho de Glaucia e se interessa pela faixa “Lábios de Cetim”, convidando-a para fazer parte da coletânea “Acoustic Brazil” ao lado de grandes nomes da MPB. O selo novaiorquino é considerado por como um dos mais importante da World Music. Em 2005 dá inicio a produção do seu segundo projeto fonográfico sob a batuta do produtor Sérgio de Carvalho. Com o título de “Bem Demais”, o disco revela uma intérprete imbuída de vigor e talento a partir de regravações como “Drão” (Gilberto Gil), “Pretensão” (Paulinho da Viola), “Canção para um Grande Amor” (Isabela Taviani), “Balanço Zona Sul” (Tito Madi); além destas o projeto ainda conta com uma canção inédita composta por Ivan Lins e que batiza o álbum.

Em julho de 2007 inicia a gravação do seu terceiro CD, um projeto autoral e que veio a ser lançado em fevereiro do ano seguinte com o título de “A vida num segundo”. Nesta mesma época a sua gravação de “Lábios de Cetim” é exibida nas mais diversas salas de cinema brasileiras a o filme “O Visitante” (que recebeu uma indicação ao Oscar 2009 na categoria melhor ator e que traz Nasser em sua trilha sonora). Em 2010 grava o CD “Vambora”, atestando de uma vez por todas que a escolha pela música foi sem dúvida alguma a mais acertada. Uma opção que veio não apenas como uma realização pessoal e profissional, mas também como um alento a mais para boa música brasileira, arte esta que não deixa-se combalir graças a talentos como o da artista em questão, que preza e procura apresentar a qualidade como peça chave de seu trabalho.

Além de Glaucia nos vocais e Sammy na percussão e arranjos, o disco traz no rol de colaboradores deste projeto que une Brasil e Estados Unidos nomes como o do austríaco radicado no Brasil Michi Ruzitschka (guitarras e arranjos), Julio Falavigna (cajóns), Márcio Nigro (arranjos) Bernardo Aguiar (pandeiros),Chrystian Galante (percussões), o conceituado Chico Pinheiro (violões e guitarras), Fernando Rosa (baixos) e os vocais de Antônio e Clara Ito,Laura Cicerone, Manoela Gonçalves, Gabriel Dos Santos. O disco ainda conta com a participação de Bianca Gismonti (integrante do Duo Gismonti) no piano e no arranjo da faixa de sua autoria “E Quando Quero” (When I Want It); o disco ainda conta com mais oito canções: “Mandela” (Dedicated To Nelson Mandela) (composta pela cantora e compositora americana Anandi Gefroh, em parceria com Glaucia eTiago Vianna; “Encontro” (Enconter) (Chico Pinheiro), “Ilú-ayé (Terra de Vida)” (Earth Of Life) (Norvil Torquato Reis e Silva Silvestre David), “Talismã” (Talisman) e “Passos” (Steps) (de autoria do trio Alexandre Lemos, Glaucia e Tiago Vianna), “Boca de Siri” (Siri’s Voice) (Paulo César de Carvalho e Chico Pinheiro); além de “Um Olhar de Flor” (A View From Outside), assinadas por Paulo César de Carvalho, Glaucia e Tiago Vianna; e “Abrigo” (Shelter) composta à seis mãos por Jota Velloso, Glaucia e Tiago Vianna.

“Talisman” chega como resultado de um perfeito equilíbrio entre dois vultosos talentos, atestando que na música o idioma predominante é o som. Longe de estigmas, a união de significativos talentos, faz do projeto algo peculiar pelo seu requinte e bom gosto. É um trabalho onde um grande nome da música mundial como Figueroa mostra, além de talento, a generosidade reservada aos grandes ao estender as mãos objetivando alavancar internacionalmente o nome de Nasser, promissora artista já conhecida pelo público brasileiro. Quando subiram no palco juntos pela primeira vem nos idos anos de 2010 na noite “Brasil Latino Jazz Night”, talvez ambos não mensurassem que ali estava o cerne desta junção de desmedidos talentos que uniriam-se propiciando uma hibrida e envolvente sonoridade bastante equilibrada e que resultaria neste trabalho que tem um título mais que apropriado para tal união musical: “Talisman”.

Lançado pelo conceituado selo jazzístico Savant Records, o trabalho é caracterizado por uma sonoridade constituída por multi-influências, em uma combinação fabulosa composta pelos mais diversos ritmos. Não é à toa que tal projeto vem arrecadando elogios da crítica especializada, pois de modo exitoso e sensível soube unir uma das mais belas vozes da música brasileira atual com um dos melhores percursionistas do mundo nesta A fusão vigorante entre voz e percussão.

Para audição dos amigos seguem duas canções do álbum. A primeira trata-se de “Cuando eu canto”, faixa de autoria coletiva entre a própria intérprete e os músicos Tiago Vianna e Paulo César Carvalho:

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Já a segunda faixa trata-se de “Passos”, faixa também presente no álbum e de autoria de Glaucia, Alexandre Lemos e Tiago Vianna:

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MILA RIBEIRO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Com o advento das tecnologias houve mudanças significativas nas mais variadas etapas de produção e execução da música como é do conhecimento de muitos. A facilitação para a elaboração dos mais distintos projetos musicais acabou por oportunizar o registro dos mais diversos projetos, onde ao passar pelo clivo da qualidade, destacam-se (neste país de dimensões continentais) diversos nomes. A partir desta constatação é possível afirmar que a música brasileira nunca foi tão profícua como atualmente é. Mila Ribeiro, cantora e compositora, que também é responsável por este favorável contexto musical ao qual hoje nos encontramos como foi possível atestar a partir da pauta QUANDO O TALENTO É A VERA, publicada recentemente aqui mesmo em nosso espaço. Hoje Mila Ribeiro volta ao JBF para esta entrevista exclusiva onde aborda, dentre outros assuntos, quando de fato optou pela carreira musical, como se dá o seu processo de composição, a escolha do repertório do seu álbum de estreia dentre outros assuntos. Uma excelente leitura a todos!

Seu envolvimento com a música antecede a famosa apresentação na gincana? Qual a sua maior reminiscência que antecede esse fato?

Mila Ribeiro – Não, antes disso eu cantarolava pela casa por gosto e costume, decorava letras facilmente e tinha isso como um passa tempo despretensioso. Meu pai ouvia seus discos, cantava e assobiava e acho que fui repetindo e pegando gosto. A princípio gostava do que ele ouvia e a lembrança mais interessante é de, ainda criança, eu decorar e cantar Brejo da cruz de Chico Buarque e de ficar perguntando o significado daquela letra séria.

Quando foi que você decidiu que de fato seguiria a carreira musical?

MR – Demorei bastante a optar por seguir a carreira. Eu achava que não era pra mim e que inclusive não cantava bem o suficiente para ser profissional. Que o sucesso da apresentação à capela aconteceu por ninguém esperar que alguém naquela situação poderia se sair bem, afinal era só uma prova de gincana. Na época um colega que já tocava e compunha e me acompanhou numa segunda apresentação na escola (Fernando Ceah), bateu uma aposta comigo de que eu não resistiria à música e fiquei um tempo argumentando com ele que não tinha nascido pra isso (risos). P.S. Não paguei a aposta que ele ganhou até hoje, mas encontrei-o por acaso na volta do meu primeiro trabalho profissional oito anos depois e confessei que ele tinha razão! Eu não resisti à Deusa música…

Antes desse projeto você teve uma experiência que deve ter sido bastante proveitosa nas noites de Mônaco. O que você traz de mais proveitoso dessa experiência?

MR – Eu cantei por um tempo num hotel de lá, mas fazia questão de ouvir que se tocava em outros lugares quando estava de folga. O mais interessante foi constatar como a nossa música é admirada e respeitada e também que eles acham a nossa fala melodiosa. Ficavam encantados mesmo e faziam questão que a gente desse uma canja com a nossa Bossa por onde passássemos. Participar de jam sessions aonde se encontravam músicos de diferentes países se comunicando pela mesma língua música foi demais!

Você apresenta um trabalho que tem por característica a celebração da amizade. Dos autores aos músicos presentes, perpassando até mesmo pela proposta do álbum a partir do financiamento coletivo. De fato é essa a tônica do projeto?

MR – Essa não era uma ideia preconcebida, mas fui constatando que esse era um ponto comum e este sentimento me fez pensar e postar a frase: “felicidade é ter um amigo como parceiro ou um parceiro que se tornou amigo”. Um dia ouvi dizer que Vinícius de Morais gostava de coroar a amizade com uma parceria musical e aquilo fez todo o sentido pra mim no contexto que eu estava vivendo. Fico muito contente de saber que foi possível notar que a amizade está no centro desse projeto.

Em sua biografia musical consta uma grande admiração pela multifacetada artista Tânia Maria, tendo inclusive no disco uma homenagem a ela. O álbum chegou até ela? Quais foram as considerações registradas por ela?

MR – Pois é, eu tenho uma paixão à primeira ouvida desde que ganhei um CD dela, mas nunca imaginei que um dia teria a oportunidade de conhecê-la, ouvir conselhos e incentivo e até mesmo canjear num encontro entre fãs. Isso tudo foi muito marcante e importante pra mim então achei um jeitinho de colocar a essência desse aprendizado e emoção na letra do Samba da espera. Eu entreguei uma cópia para a irmã dela que foi inclusive uma das apoiadoras do projeto no Catarse, o que me deixou extasiada. Não sei se a Tânia já recebeu e por enquanto não tive retorno sobre isso. Se acontecer eu terei mais motivo de alegria ainda.

Você confessadamente não toca nenhum instrumento, no entanto no álbum “Mila” consta duas composições de sua autoria. Como se dá seu processo da composição da melodia?

MR – Vou me alongar um pouquinho nesta resposta! Eu realmente não toco nenhum instrumento, mas por alguma razão, a musicalidade que mora dentro de quem ama música, acaba registrando em nossa memória um pouco de tudo que vamos ouvindo pela vida e creio que isso pode se expressar de alguma maneira. Basta atentar, gostar e cultivar isto que vem quase como um sopro divino. No meu caso, eu gravava num gravador daqueles de repórter na hora da inspiração para não esquecer, pois não saberia escrever a música. Assim não perdia a ideia. Tudo isso ainda sem ter a pretensão de um dia gravá-las profissionalmente. Era o meu hobby, mas com o tempo acabei mostrando para grandes músicos que fui conhecendo em cursos e saraus e mais pra frente em trabalhos, como o Amauri Falabella que gravou comigo uma demo de três das minhas músicas na época e Leonardo Ferreira, que se tornou meu grande parceiro e incentivador de um disco autoral. Um dia eu fui a um show de Chico César com uma amiga e o conhecemos depois. Ela me apresentou a ele como compositora, imagina! Ele, super gente boa, parou para ouvir Cala-te e cantarolamos juntos com ele ao violão! Foi muito rápido, interessante e incentivador. Ele falou que a música era boa e eu fiquei ali passada. Por incrível que pareça tinha me esquecido disso! Decidi agora procura-lo para entregar um CD e ver se ele se lembra. Vai ser divertido. Essas coisas iam me dando segurança para continuar a criar gravar minhas ideias. A propósito, a música Cala-te nasceu pronta numa mesa de bar. Cheguei antes da hora num aniversário e escrevi a letra enquanto aguardava o pessoal. É raro mas me aconteceu com Retrato também. Não foi só em duas canções do disco que eu criei também a melodia. Pequeno grande amor, por exemplo, eu fiz sozinha a primeira parte e fiquei anos com ela na cabeça, mas achava que faltava algo para enriquecê-la. Um dia convidei o Agenor para colaborar e amei o resultado. Já Retrato, fiz letra e melodia também e ainda adolescência. Na hora do arranjo ela ganhou uma pequena parte nova e fiquei muito satisfeita com a oportunidade de colocar um pensamento atual nela além de ter a parceria do produtor do disco. No caso de Combinado e Samba da espera, eu pedi para os músicos fazerem a música para eu fazer a letra depois. Ao cantá-las, no entanto, acabei imprimindo algo meu na melodia também.

E suas letras expressam você ou vem a ser, Como muitos compositores costumam frisar, fruto de sua imaginação e experiências?

MR – As duas coisas, cada uma nasce de um jeito! Se eu considerar que a experiência de alguém me tocou a ponto de inspirar uma canção, posso dizer que aquilo é algo indiretamente meu também. É relativo, mas muitas vezes não tem nada a ver com algo que vivi realmente. Muitas são fruto de algo que vivi mesmo.

E a escolha das canções não-autorais do álbum? Quais foram os critérios de seleção que mais ponderaram na hora da decisão?

MR – Brisa boa um amigo me apresentou, me apaixonei e comecei a cantar nas minhas apresentações. Ao conhecer o autor para pedir para gravá-la e ele me autorizou. Ela já era uma certeza desde o início da seleção. O critério era a música ter um conteúdo que combinasse muito com meu jeito. Algo que não escrevi, mas eu pudesse sentir como se tivesse se fosse meu mesmo. Não consegui gravar nada que tivesse alguma parte que eu não diria por exemplo.

Dentre essas canções há “Jah will show the way”, uma parceria do Mark Shine com o Aroldo Santarosa, que consta com a participação do próprio Shine. Como se deu esse convite?

MR – Esta música eu recebi do Netinho (Os Incríveis) por e-mail com o título: música para você gravar. Eu amei e o Netinho me colocou em contato com o Aroldo e ficamos amigos. A ideia da participação surgiu naturalmente de tanto a gente ouvir o Mark cantando. O Aroldo falou com ele e ele topou!.

Como tem sido a divulgação e a receptividade do álbum por onde você tem passado?

MR – Por enquanto eu tenho divulgado na internet e fazendo o projeto de circulação de shows de lançamento. Na web eu tenho uma ótima audiência no site ReverbNation estando sempre entre as mais ouvidas do gênero e as pessoas que apoiaram o disco me deram um resposta muito positiva também. A realização maior seria ouvir alguma (as) música (s) tocarem em rádio, TV, cinema… a gente chega lá!


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QUANDO O TALENTO É À VERA

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Foi a partir de um trote para dublar uma conceituada cantora da MPB em uma gincana a qual participou que Mila Ribeiro deu os seus primeiros passos para alcançar o patamar onde hoje encontra-se. O que aparentemente tratava-se de uma brincadeira acabou por propiciar a pretensa artista uma oportunidade de galgar os primeiros degraus no universo artístico. O que seria um ato corriqueiro e simples para muitos acabou como o pontapé inicial para os seus primeiros passos na música, e hoje a artista colhe os frutos dessa, digamos, brincadeira. Quem diria que aquela dublagem marcaria o início da biografia musical deste promissor talento de nossa música? Ainda hoje a cantora e compositora relembra com carinho aquela passagem em sua história que tatuou em sua memória aplausos intermináveis de um público que talvez não mensurasse onde a artista iria chegar, mas que já tinha plena convicção que o seu talento mostrava-se inquestionável já naquela ocasião.

Dali em diante estava germinada a semente artística que afloraria anos depois em forma de letras e melodias e que teria como fruto o álbum homônimo ao nome da artista, lançado recentemente e que apresenta uma cantora capaz de agradar aos mais exigentes ouvidos. Projeto gerado via Catarse (ferramenta colaborativa capaz de financiar os mais distintos desejos sempre acompanhado por alguma recompensa a quem se propõe a ajudar) o disco chega como a primeira oportunidade da cantora e compositora apresentar ao grande público poesias e melodias maturadas ao longos dos anos que precedem o início de sua vida artística de modo profissional. De modo veemente, é possível afirmar-se que qualquer pessoa presente no dia daquela despretensiosa brincadeira não seria capaz de imaginar que a nugativa diversão resultaria em um disco arraigado de sinônimos tão nobres. Apesar da não pretensão em ser cantora seu destino pregou-lhe uma peça.

Por possuir um talento que vai além da interpretação Mila Ribeiro faz-se capaz de apresentar um trabalho maturado em textos e melodias precedentes ao seu desejo de registro e que substanciam com força total as distintas facetas da artista. Na audição do álbum é possível perceber que as características que cercam a artista afloram em sua plenitude. O lado intérprete de Mila apresenta-se em três momentos: “Brisa boa”, “Paisagem” e “Jah will show the way”. A primeira trata-se de uma composição romântica do Cristiano Borges cujo refrão onomatopeico nos cerca e envolve de modo inebriante; já “Paisagem” é uma composição do multinstrumentista soteropolitano Rubem Farias (que ainda assina em parceria com Mila Ribeiro a faixa “Combinado”, canção que busca retratar saudades e lembranças).

A outra composição não autoral presente no disco Mila Ribeiro foi buscar na cena musical nova yorkina a partir do cantor e compositor Mark Shine. “Jah will show the way” é uma parceria do jamaicano radicado em Nova York com Aroldo Santarosa, ex-integrante da banda de rock paulistana Casa das máquinas que hoje reside nos EUA. Neste cd Mila conta com a participação de Mark Shine que já havia gravada inicialmente no álbum “Metamorphosis”. As cinco faixas restantes são essencialmente autorais. Ora em parceria, ora de modo solo, Mila Ribeiro compõe intuitivamente, mesmo sem ser instrumentista e apresenta canções como “Retrato” (em parceria com o instrumentista Bruno Cardozo), “Pequeno grande amor” (com Agenor de Lorenzi) e “Samba da espera” (em duo com Leonardo Ferreira e que chega em modo de homenagem a cantora, compositora e instrumentista maranhense Tânia Maria). O disco ainda com duas canções da lavra da artista: “Cala-te” e “Estou aqui”, que reafirma o talento da artista demostrando ser uma compositora imbuída de sensibilidade e talento.

“Mila” mostra-se capaz de sobrepujar todas as expectativas de quem o escuta não apenas por ter uma cantora de voz única e carisma inigualável mas também por trazer na feitura de sua sonoridade um gabaritado time de músicos. Nos contrabaixos estão o conceituado Marcelo Marianoe Sidiel Vieira; de modo multifuncional Sandro Haick assume bateria, violão e guitarra; na sanfona o sergipano Mestrinho; assumindo a flauta em sol e o sax tenor Wilson Teixeira. O disco ainda conta com Silvera nos vocais, a bateria e a percussão de Cuca Teixeira e o autor de “Retrato”, Bruno Cardozo, que volta a ficha técnica do álbum na produção musical e executando piano acústico, rhodes, hammond, roland VP-330 e prophet t8.

O projeto gráfico ficou a cargo do designer paulista Renato Valladão. Um belo conjunto para uma pessoa que um dia não tinha por pretensão ser cantora, mas que não esquivou-se do seu destino e após cantar pelas noites europeias do principado de Mônaco agora apresenta a um público que bem soube cativar um primeiro projeto fonográfico que não apenas atesta o seu talento, mas que apresenta uma artista imersa na sensibilidade. É como bem intitulou na plataforma Catarse.me o seu projeto musical: “Essa moça faz o que melhor faria.”

De modo intuitivo Mila descobriu que a sua relação com a música é algo que vai muito além da despretensiosidade. Talvez a artista não soubesse, mas é bem provável que a música e a poesia já encontrava-se pronta para a qualquer momento despertar de algum gene ou reminiscência. Quando por alguma razão a Deusa música opta por alguém, não existe o menor subterfúgio e essa escolha manifesta-se nos modos mais distintos e simplórios como aconteceu com esta artista que soube trilhar um coeso caminho entre as despretensiosas gincanas e brincadeira em festas de amigos até o patamar de promissor talento da música brasileira como se é possível perceber através do álbum “Mila”. Hoje percebe-se, sem sombra de dúvidas, que melhor caminho a artista não poderia seguir. Seu êxito se dá com certeza por conta da verdade que a artista bem soube impregnar naquilo que faz. A convicção, o talento e a determinação traduz-se a partir de características bastante peculiares que regem a música da artista em questão. Quando o talento é à vera não há subterfúgio para o reconhecimento.

Fica aqui para os amigos leitores desta coluna duas canções presentes no álbum. A primeira trata-se de “Pequeno Grande amor”, canção de autora da própria intérprete em parceria com Agenor de Lorenzi como frisado anteriormente. 

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A segunda canção trata-se de “Samba da espera”, parceria da cantora com Leonardo Ferreira:

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UMA EXALTAÇÃO A UM SALGUEIRO DE VEROSSÍMIL TALENTO

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Em seu primeiro álbum a cantora e compositora carioca homenageia dois expressivos nomes do samba carioca

Antes de abordar a artista em questão é preciso trazer o nome de dois compositores que sem as suas respectivas existência o projeto a ser abordado não existiria: Waldemar Ressurreição e Djalma Sabiá. Apesar de ter nascido na região do Cariri, no Ceará, Waldemar (que se vivo estaria completando cem anos no próximo mês de outubro) deu os seus primeiros passos no universo musical na cidade baiana de Ilhéus quando ganhou um cavaquinho. Logo após aprender os primeiros acordes começou a compor e levou consigo essa característica quando foi morar no Rio de Janeiro, cidade que chegou quando tinha 18 anos, em 1932. Nos anos de 1940 teve suas primeiras composições gravadas e formou parcerias com nomes como Herivelto Martins e Evaldo Rui, a partir daí teve canções de sua lavra registradas por nomes como Noite Ilustrada, Ary Lobo, o Trio de Ouro, Quatro Ases e Um Coringa, Francisco Alves, Demônios da Garoa, Blecaute, Carlos Nobre, Roberto Silva, Moreira da Silva entre outros, além de criar o grupo vocal Anjos do Sol. Já o carioca Djalma de Oliveira Costa(popularmente conhecido como Djalma Sabiá) tornou-se uma das emblemáticas figuras da história do carnaval carioca por ser um dos responsáveis pela fundação do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, tradicional escola de samba cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 5 de março de 1953. Pertencente a ala dos compositores da agremiação, Sabiá (que recebeu este apelido nos tempos em que jogava futebol nas peladas do morro do Salgueiro) foi responsável por diversos samba-enredos da escola que fundou. Dentre os mais conhecidos pode-se destacar “Navio Negreiro”,de 1957; “Viagens pitorescas ao Brasil ou Exaltação a Debret”, em parceria com Duduca do Salgueiro, de 1959; “Chico Rei”, de 1964, de sua autoria em parceria com Geraldo Babão e Binha entre outros grandes hits da agremiação carioca. Hoje aos 88 anos Djalma é o único fundador da agremiação ainda vivo. Sua presença entre nós ressalta a sua importância não apenas por ser, de certo modo, a história viva não apenas do Salgueiro, mas de certo modo do carnaval carioca.

Ciente da importância desses dois emblemáticos nomes para o universo do samba, Grassa Rangel presta essa singela homenagem dando as flores em vida a Djalma Sabiá m seu primeiro projeto solo, cujo o título é “Grassa Rangel Canta Salgueiro de Waldemar Ressurreição a Djalma Saibá”. Neste projeto Grassa consegue apresentar ao longo das faixas presentes um pouco da história do autêntico samba produzido no Rio de Janeiro a partir dos nomes homenageados e outros existentes na ala de autores do Salgueiro ou Salgueirenses de coração. O álbum trata-se de um belíssimo e sonoro cartão-postal que edifica a cultura musical carioca em sua mais genuína essência em ritmo e melodia a partir de um apanhado de canções que foram rememoradas com o luxuoso auxílio do poeta e compositor Djalma Sabiá. São catorze faixas, entre sambas enredo clássico e seus variantes, que representam alguns dos grandes momentos do Salgueiro enquanto Escola e comunidade. O disco abre com um pout-pourri de canções que ganharam a avenida nos anos de 1960: “Chico Rei”, “Dona Beja Feiticeira de Araxá” (1968) e “Chica da Silva” (1963).

Da lavra de Waldemar Ressurreição o projeto conta com as canções “A maior Maria” (parceria com Gerôncio Cardoso), “Que rei sou eu” (com Herivelto Martins), “Meu bairro canta” e “Meu latim”; de modo solo Geraldo Babão assina o samba “União do Salgueiro”. Cantadas pelo povo da escola na quadra do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro Grassa Rangel teve a perspicácia de selecionar sambas como “Eu Vou Me Ausentar do Samba”, “Água do Rio” e “Vem chegando à madrugada”, composições de Fuzarca, Noel Rosa, Anescar e Zuzuca, respectivamente. De outros consagrados compositores salgueirenses Grassa apresenta “Muito obrigado”, de Cesar Veneno, “Deus Existe”, de Tiãozinho do Salgueiro, o partido “Eu não namoro mulher feia” (Fuzarca) e “Sabiá do Salgueiro”, canção feita a partir de um poema de autoria de Mestre Ziza, o Zizinho, o maior ídolo do futebol brasileiro antes de Pelé. O disco ainda conta com “O Moleque do Repique” (Marcílio do Salgueiro e Olímpio), “Vai batalhar” (Oscarzinho e Zé Vicente) e “Entre a pernada e a rasteira” (Claudio Freire e Luiz Guima). Além de Djalma Sabiá que figura entre os compositores em parceria com Valdir Careca assinando “Tem Samba no Terreiro”.

Com a produção e direção geral de Adelzon Alves e co-produção do homenageado Djalma Sabiá, o disco conta em sua tecitura com a colaboração de nomes como Roberto Marques (trombone), Luis Barcelos (bandolim), Eduardo Tartarelli Neves (flauta e sax), Ubirany (repique de mão), Paulão 7 cordas (regência, produção musical e regência), Paulo Soares (cavaco), Jorge Gomes (bateria), Ramon Alexandre Paiva Araújo (violão 6 cordas), Rogério Caetano (violão 7 cordas), Pretinho da Serrinha (cuíca, caixa e percussão), Alexssandro (pandeiro e tantã), Allison (surdo e atabaque), Zé Luiz Maia (baixo). Além do coro de Zélia, Silvia Nara, Analimar, Stênio e Rixxa nos vocais.

Desse modo Grassa Rangel eterniza-se no universo do samba respaldada não apenas por seu carisma e talento, mas principalmente por um repertório constituído por pérolas do samba carioca através de compositores que eternizaram-se nas ruas, becos, quadra e vielas do Morro do Salgueiro sob a benção de Djalma Sabiá. Em um ambiente predominantemente masculino, a sambista sente-se à vontade com com as precisas interpretações de um repertório constituído por jóias pinceladas por Adelzon Alves, conceituado jornalista que faz um trabalho de quase cinco décadas em pró da música popular brasileira e é responsável pelo lançamento de nomes como Djavan, Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva entre tantos outros respeitados do cenário musical brasileiro atual. Agora é vez de Adelzon dar a benção a esta artista que atesta em definitivo que por trás dos estigmas atribuídos aos morros existe algo maior que pulsa em versos e compassos e que acaba por tornar estes lugares profícuos cenários para o desenvolvimento do samba. Ao apresentar este disco, Grassa Rangel constata isto de modo irrevogável prestando um serviço sem precedente não apenas à cultura carioca, mas ao samba brasileiro como um todo a partir deste álbum que em nada difere de um documento histórico-cultural.

Para deleite do público leitor segue o abaixo o álbum completo para audição:


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ROBERTO MENESCAL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Ícone de um movimento musical que conduziu a música brasileira a um patamar antes jamais alcançado Roberto Menescal concede esta entrevista exclusiva

O nosso entrevistado de hoje dispensa apresentações. Com suas riquíssimas melodias associadas à poesia de alguns dos maiores nomes da música brasileira, Roberto Menescal é considerado um dos mais relevantes personagens da música popular brasileira do século XX. Seu violão contribuiu de modo consistente para a criação da Bossa Nova, um dos movimentos mais emblemáticos de nossa música.

Hoje, com mais de meio século de carreira, Menescal continua em plena atividade levando ao seu público de modo cada vez mais apurado aquilo que o fez trocar abandonar diversos outros projetos ainda na juventude: a música. Neste bate-papo, Menescal fala de suas parcerias femininas, sua estreia no Carnegie Hall, do novo dvd com a cantora Andrea Amorim que sairá em breve entre outros assuntos como vocês poderão observar logo abaixo. É com com muita honra e alegria que o Musicaria Brasilapresenta nesta informal conversa exclusiva com este que é um ícone da MPB.

Em 1955 Julie London lançava o disco “Julie is her name” acompanhada do violão de Barney Kessel, é verdade que você passava horas ouvindo este álbum por conta do Kessel como relata Ruy Castro em um dos seus livros?

Roberto Menescal – Realmente foi um susto quando ouvimos esse disco, pois sempre escutávamos as cantoras normalmente acompanhadas por Orquestra e como gravava-se nesta época em um ou dois canais de gravação, não ouvíamos os acordes de guitarra Quando chegou esse disco somente com um baixo e uma guitarra, o mundo clareou p’ra gente e a música brasileira deu um pulo de 10 anos!

Ao final de sua adolescência você se viu envolvido em um tríplice dilema. Tinha que escolher entre a arquitetura, a Marinha e a música. Como se deu a escolha em definitivo pela música já que você tinha que enfrentar diversas dificuldades para isso?

RM – Na verdade também estudava para o concurso do Banco do Brasil. Carlos Lyra e eu, abrimos uma pequena escola de música para ensinar principalmente às meninas, a célebre batida da bossa nova. Um dia no final da tarde, a campanhia toca e quando abri, quase desmaiei pois na minha frente estava Tom Jobim que veio me convida para gravar com ele a trilha de Orfeu do carnaval!!! daí em diante, larguei tudo e fiquei com a música.

É verdade que nessa época você chegou a falsificar a sua identidade para poder ouvir o Tito Madi na casa noturna Scotch Bar?

RM – Claro que sim, lembrando que em cada esquina de Copacabana, havia um bar com música.

2014 completa-se duas décadas do falecimento daquele que foi o seu parceiro em algumas das mais relevantes canções do seu repertório. Você poderia descrever ou mensurar a importância de Bôscoli em sua biografia musical?

RM – Bôscoli era mais velho do que a média da nossa turma de Bossa Nova, e como também era jornalista, dava um banho na gente, de cultura, informação etc, e foi um letrista que reinventou a poesia musical e assim com Carlos Lyra eu tive a sorte de compor com ele cerca de 300 músicas. Certamente sem ele, nossa obra musical não seria a mesma.

Acredito que a única estreia de um artista como cantor no Carnegie Hall tenha sido a sua. Como se deu essa inusitada passagem em sua carreira?

RM – Certamente eu fui único. acontece que eu não queria ir ao Carnegie Hall pois não haveriam passagens para meu conjunto musical, mas tom e Sérgio Mendes me convenceram à ir e tocar com o grupo do Sérgio, mas o tempo foi passando e Sérgio me enrolando até que chegou a véspera do show e ele me comunicou que não haveria de tempo para ensaio comigo, então fui comunicar ao produtor do show, que eu não poderia participar pois não era cantor, e lógico que ele me obrigou à cantar sozinho com meu violão pois tinha um contrato assinado comigo. Foi uma carreira relâmpago e também um final de carreira de cantor, relâmpago.

“Morte de um Deus sal” é uma canção feita em compassos seis por oito. Não recordo de nada semelhante que tenha sido composto na época com essa característica na música brasileira. Como se deu a recepção dessa canção à época?

RM – Isso vinha muito do jazz que ouvíamos e fui feliz nessa canção que foi gravada por muitos intérpretes cantores e instrumentistas.

Este ano completa-se 55 anos de sua primeira incursão no mercado fonográfico com o lançamento do compacto simples “Bossa é Bossa Nova”. De lá pra cá você neste mercado você já chegou a atuar não só como artista, mas também como diretor artístico e hoje possui e hoje é um dos sócios da Albatroz, gravadora pautada na qualidade e associada a nomes como Emílio Santiago, Leny Andrade, Danilo Caymmi, Andrea Amorim, Oswaldo Montenegro, Os Cariocas e Wanda Sá (além do seu é claro). Com esta sua vasta experiência como você avalia o mercado nos dias atuais?

RM – Na verdade vejo como uma grande fase de transição do que havia no século passado e no que começa à acontecer neste século, são ciclos normais que acontecem desde que os séculos existe, e quem ficar parado vendo a banda passar, vai dançar!

Em sua carreira é possível perceber que a presença feminina se dá de modo bastante intenso. Isso vem acontecendo da década de 1950 até os dias atuais. Nomes como Wanda Sá, Nara Leão, Márcia Tauil, Cely Curado, Nathália Lima e Sandra Daulibe endossam essa afirmação. Atualmente você vem em parceria com a pernambucana Andrea Amorim com o álbum “Bossa de Alma Nova”. Como você justificaria essa característica em sua carreira?

RM – Na verdade não foi uma escolha minha, mas nada contra, e realmente prefiro as mulheres pois elas enfeitam nosso palco e principalmente essas que você citou, cantam muito bem! Andrea é outro achado que me surgiu de surpresa e que juntos temos feito muitas apresentações bonitas e prazerosas, além de um CD e um DVD que será lançado muito brevemente.

Dois meses antes da Nara prematuramente falecer vocês se tornaram parceiros em “Saudades de você”. É verdade que a canção saiu sob encomenda para uma propaganda no Japão? Essa foi sua única parceria com ela?

RM – Realmente foi uma encomenda de uma cerveja japonesa e tive sorte de fazer essa única parceria com minha irmã, Nara.

Com a projeção que a Bossa Nova alcançou ao redor do mundo não é exagero afirmar que você como precursor do movimento é um dos nomes mais importantes da história da música brasileiro ainda em atuação. Olhando para trás qual o momento que você destacaria como mais importante ao longo desses 55 anos de carreira?

RM – Quero lhe dizer que me considero um aluno dos mestres, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Considero esse trio os números 1 da bossa nova e me considero junto com meus outros colegas, bons números 2 da Bossa Nova.

Para encerrar gostaria de agradecer toda a atenção dispensada e dizer que para o JBF é uma imensa honra o ter conosco nesta conversa. Obrigado pela entrevista, obrigado por ter, entre seus dilemas, optar pela música e principalmente por nos presentear com clássicos diversos.

RM – Graças a deus pude à tempo optar pela música, pois senão, acho que não seria um bom número 2 em nada fora da música.


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ANDREA AMORIM – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Após abrilhantar o nosso espaço com o seu projeto ao lado de Roberto Menescal, Andrea Amorim volta para esta entrevista exclusiva

A música autoral brasileira tem por característica a predominância masculina no entanto vez por outra surge um significativo nome feminino para heterogeneizar as estatísticas com a peculiar beleza e sensibilidade ao qual o sexo está intrinsecamente associado. A cantora e compositora pernambucana Andrea Amorimchega para engrossar esse cordão a partir de trabalhos consistentes e bem elaborados.

Sob forte influência do rock, a pernambucana mostra talento e ecletismo ao pegar carona no barquinho de Roberto Menescal, um dos mais respeitados nomes da música brasileira, com o álbum “Bossa de alma nova” que a artista vem apresentando não apenas no Brasil como também no Exterior e que foi apresentando ao nosso público a partir da matéria “UMA HOMENAGEM QUE ACABOU RENDENDO UMA SIMÉTRICA PARCERIA”.

Hoje Andrea volta para abrilhantar este espaço com esta entrevista exclusiva onde fala, dentre outras coisas, do seu novo projeto fonográfico, seus projetos autorais, a adesão do homenageado a um deles entre outros assuntos que vocês podem conferir logo abaixo. Excelente leitura!

Seu envolvimento com a música vem desde a infância? Dentre as suas referências musicais quais aquelas que contribuíram de algum modo para que a jovem Andrea viesse a seguir a carreira de cantora e compositora tempos depois?

Andrea Amorim – O rock sempre foi a minha referência musical. Em especial, posso dizer que Renato Russo foi o meu grande incentivador, tanto na criação, como na produção. Por meio dos discos da Legião Urbana, “descobri” que poderia compor e cantar. Outras influências foram sendo agregadas depois, e foram me moldando ao longo do tempo, mas essa foi mesmo a principal e a desencadeadora de todo o processo (rsrs).

Você vem de Garanhuns, cidade localizada no agreste pernambucano e que acabou popularizando-se nacionalmente também por ter um dos mais conceituados festivais culturais existentes no Brasil, que é o FIG (Festival de Inverno de Garanhuns). De algum modo você acredita que eventos como o citado e o Festival de Música e Arte de Garanhuns contribuem para artistas da cena independente como você?

AA – Acredito muito, por experiência própria! Sempre costumo dizer que foi o Festival de Música e Arte de Garanhuns que me propiciou a oportunidade de seguir carreira. Até então, nem eu mesma acreditava no meu trabalho. Quando ganhei o Festival, em 2006, foi estabelecido em minha vida um divisor de águas. Com o dinheiro que ganhei, juntei as poucas coisas que tinha, gravei algumas músicas minhas e fui pro mundo! Em relação ao Festival de Inverno de Garanhuns, desde 1999, eu tive a oportunidade de me apresentar. Ou seja, eu participo desde o comecinho da minha carreira, e já são 15 apresentações. No FIG, eu pude dividir palco com os grandes artistas nacionais, e comecei a entender e aprender como era ser um “artista” de verdade, mesmo sempre sendo tratada como tal. Tenho muito respeito pelo FIG, e eu sou muito grata aos meus conterrâneos por sempre terem me dado tanta força, ao longo desses meus 15 anos de carreira.

Vem de longas datas a emigração de alguns artistas para o sudeste afim de sedimentar ou dar projeção as suas respectivas carreiras. No entanto hoje com os adventos tecnológicos houve um reordenamento deste contexto propiciando a Pernambuco um lugar de destaque na cena cultural nacional. Você seguiu os ditames tradicionais e partiu para o eixo Rio-São Paulo e vem galgando significativos espaços nestes estados. Em sua opinião quais os maiores entraves existentes aqui no Nordeste para a projeção artística e que acabam, de certo modo, provocando este tipo de evasão?

AA – Acho que não existe mais essa necessidade de migração pro Sudeste. Atualmente, o artista pode consolidar sua carreira onde estiver. Eu sou apenas uma remanescente desse contexto migratório, que hoje, virou obsoleto. Mas minha casa é e sempre será Garanhuns, independente de onde eu esteja.

Atualmente você vem divulgando “Bossa de alma nova”, um projeto que seria uma homenagem e acabou rendendo uma profícua parceria entre você e Roberto Menescal. Como se deu a adesão de Menescal nesta homenagem?

AA – Eu digo que essa parceria foi o maior presente que Deus me deu. Menescal é um artista genial, sobretudo um ser humano adorável e muito sábio. Sempre aprendo alguma coisa nova quando nos encontramos. Eu fiz uma turnê no Japão, com 24 apresentações, em dezembro de 2011, cantando rock e MPB! Ironicamente, foi lá que conheci música brasileira de verdade. Os japoneses são literalmente apaixonados por Bossa Nova! Essa viagem foi a maior e mais incrível experiência da minha vida. Quando voltei, eu estava com uma imagem completamente diferente de tudo e, como sugestão de um produtor de lá, Marcos Sussumi, propus a Menescal a gravação de um disco! Seria um desafio, mas eu queria conseguir, de alguma forma, reproduzir o amor dos japoneses, que eu vi de perto, em relação à nossa música. Ele não somente abraçou a ideia, como quis participar de todo o projeto. Como ele estava completando 75 anos de vida, eu quis fazer um disco em sua homenagem, interpretando suas canções. Pra completar o presente, tatuei seu nome em japonês no meu antebraço (rsrs).

E a sua aproximação do Roberto Menescal antecede esta homenagem não é? Como vocês se conheceram?

AA – Mais uma vez, aparece aqui o Festival de Música de Garanhuns (rsrs). Eu ganhei esse festival em 2006, e, em 2008, fui convidada pra fazer um show. Menescal estava como jurado, na ocasião, e comentou com o compositor Carlos Fernando sobre mim. Esse, por sua vez, falou pra nós e, prontamente, descobrimos o e-mail de Menescal, quando entramos em contato com ele. Desde então, nossa amizade somente cresceu e, naturalmente, fui sendo lapidada por esse mestre da vida e da música. A maturidade que eu alcancei, nesses três anos, convivendo mais de perto com Menescal, valeu por toda uma vida.

O CD “Bossa de alma nova” está entre os cem melhores discos de Música Brasileira já lançados no Japão, segundo registro do livro “A verdadeira história da Bossa Nova”. Você apostava que o disco alcançaria esta relevância no mercado fonográfico japonês?

AA – Tivemos essa grata surpresa com a publicação do nosso amigo japonês e jornalista Willie Whopper, nesse seu livro. Willie é um grande apreciador e um apaixonado por nosso país. Sabe tudo sobre nossa música. Ele tem um estabelecimento em Tóquio (Barzinho Aparecida), no qual tive a oportunidade de me apresentar, onde somente se encontram coisas do Brasil, desde música ao vivo até discos de vinil e feijoada no cardápio (rsrs). Eu não sou muito de apostar em nada nessa vida, nem ter grandes pretensões e nem criar expectativas. O que vem de bom sempre encaro como um bônus que a vida vai me dando, e sempre agradeço a Deus por tudo. Esse, portanto, foi mais um presente.

Você tem por característica fonográfica álbuns onde sua veia autoral pulsa fortemente. Com exceção de “Solidão nunca mais” (parceria sua com Menescal) neste projeto você deixa essa característica de lado nas catorze faixas restantes. Como você encarou esse desafio e experiência?

AA – Foi, literalmente, um desafio e uma experiência única. Gravar faixas como o hino “O Barquinho”, sendo produzida por seu criador não tem comparação com nenhuma outra coisa. Durante os dois dias de gravação das vozes do disco Bossa de Alma Nova, fiquei em estado de plenitude, o qual se sobrepôs ao nervosismo. Depois que me dei conta do que realmente se passou: eu estava gravando as músicas de Menescal, e o próprio estava na minha frente, produzindo-me! (rsrs). Foi um momento mágico, inesquecível, e essa sensação ficou perpetuada em mim, como uma riqueza imensurável.

Tal qual o mitológico Midas, tudo o que Menescal toca vira ouro. Você ganhou significativa projeção a partir desse projeto em duo com ele. Após o registro do DVD vocês já pensam em algum novo trabalho em parceria?

AA – Ganhei projeção sim, mas acima de tudo, experiência de vida, que, pra mim, é o mais importante. Não busco fama. Busco produção, aprimoramento e evolução. Enquanto isso, eu e o Menescal seguimos fazendo shows e compondo. Quem sabe, não vem por aí um disco somente de parcerias nossas (rsrs). Seria mais um sonho meu, mas primeiro precisamos completar a lista de músicas, pra que eu possa propor-lhe esse projeto (rsrs).

Em suas incursões pelo Exterior você costuma apresentar-se como interprete dos clássicos brasileiros você costuma apresentar um repertório autoral?

AA – Eu sempre gosto de mostrar meu lado compositora, porque, pra mim, a maior identidade do artista é a sua obra, por mais simples que pareça, afinal toda manifestação artística merece respeito.

Atualmente você vem na elaboração de um novo projeto a ser lançado ao longo deste ano. Você poderia nos adiantar alguma coisa sobre ele?

AA – Claro que posso e, inclusive, agradeço a oportunidade de falar sobre isso também. Além do meu CD de rock autoral, com 13 músicas inéditas, que está saindo este mês, com o título Doce Divã, estamos num projeto de total conexão Brasil – Japão (rsrs). Estamos gravando um disco, produzido e arranjado por Marcelo Kimura, descendente japonês que mora na Terra do Sol Nascente. Todo o CD vai ser produzido e gravado lá, por músicos japoneses, além do Kimura, e eu apenas colocarei as vozes aqui no Rio. No repertório, canções que marcaram época, as chamadas músicas de fossa, transformadas em Bossa, bem como uma parceria minha com o próprio Kimura, e outra com o Menescal também.

Andrea, aproveito a oportunidade para agradecer por toda a disponibilidade e atenção dada a mim e consequentemente àqueles que acompanham este espaço. Parabéns por esta profícua parceria junto ao Menescal que já rendeu um CD e um DVD. Torço para que você obtenha sucesso absoluto daqui pra frente.

AA – Eu que agradeço a ti, Bruno, por esse espaço e essa oportunidade de falar um pouco sobre o meu trabalho e a experiência única que é conviver com o Menescal. Parabéns pelo belo trabalho, o qual tenho acompanhado! Desejo muito sucesso pra vocês e uma longa e promissora carreira. Contem sempre comigo! Muito obrigada mesmo! Um forte e carinhoso abraço!


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UMA HOMENAGEM QUE ACABOU RENDENDO UMA SIMÉTRICA PARCERIA

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Longe de esteriótipos a cantora pernambucana Andrea Amorim sela duo com Roberto Menescal e revisita o repertório “bossa novista” de um dos fundadores do movimento

Aquilo que a princípio seria apenas uma merecida homenagem acabou rendendo uma inusitada e interessante parceria entre um veterano nome da música brasileira e uma artista em ascensão. De um lado, o capixaba Roberto Menescal, artista com mais de cinco décadas de carreira e um dos precursores de um movimento musical que revolucionou a estética e o conceito da música brasileira a partir de então: a Bossa Nova. Menescal, exímio instrumentista, acabou tornando-se um dos mais expressivos e conceituados nomes do gênero e hoje é reverenciado por músicos de todo o planeta a partir de suas composições. Do outro lado uma artista em franca ascensão que vem galgando espaços cada vez mais significativos ao longo dos últimos anos. Com quinze anos de estrada, Andrea Amorim nasceu no município de Garanhuns (Pernambuco) e já conta em sua discografia com cinco projetos independentes e diversas vitórias nos mais distintos festivais musicais existentes no país, dentre os quais o Festival de Música e Arte de Garanhuns, um dos mais relevantes festivais musicais existentes no Brasil.

Nômade, Andrea segue a sua intuição sonora sempre que a mesma atina para algo que venha a saciar os seus anseios sonoros. Desse modo seguiu para o Sudeste, passando por São Paulo e hoje reside no Rio de Janeiro, onde desenvolve os mais distintos projetos musicais. Dentre estes projetos encontra-se um álbum autoral feito a partir da gravadora carioca Albatroz. Gravado em em inglês, japonês e espanhol, Amorim pela primeira vez atua em seus discos como intérprete gravando uma música de Marcos Valle (“Eu preciso aprender a ser só”), onde divide vocais com Lenine dando início a sua exitosa carreira internacional. No exterior recebeu prêmios como o Rising Star, conferido aos novos talentos brasileiros, teve a oportunidade de dividir o palco com Valle, e esteve no Japão em duas oportunidades: a primeira apresentando-se nos eventos Brazilian Day e Press Award e, em uma segunda oportunidade, fez uma turnê de 21 apresentações por todo o país, durante cerca de 30 dias.

Em suas incursões pela terra do sol nascente Andrea percebeu e vivenciou de perto o amor que os japoneses têm pela música brasileira, em especial pela Bossa Nova e por todos os nomes que ajudaram a popularizar o gênero ao redor do mundo e, por sugestão de um produtor japonês, Andrea resolveu homenagear Menescal, que estava completando 75 anos de vida, gravando um projeto baseado na extensa obra do artista capixaba. O projeto, batizado de “Bossa de Alma Nova”, acabou ganhando a adesão do homenageado ao longo das catorze faixas presentes no disco. Grandes clássicos da lavra deste artista que é considerado um dos ícones da Bossa Nova estão presentes no disco como é o caso de suas parcerias com o saudoso Ronaldo Bôscoli, o parceiro mais relevante em sua carreira como compositor.

Da dupla há faixas como a densa “A morte de um Deus de sal” (que permite-se enternecer-se através da voz da cantora), “Vagamente”, a sempre emocionante “Você” (em duo com o homenageado), “O barquinho” (faixa detentora de inúmeras versões e que aqui ganha mais um antológico registro), “Copacabana de sempre”; Ainda da dupla Bôscoli-Menescal há as faixas “Rio” (que aqui ganha através da artista pernambucana esfuziante interpretação endossada por um arranjo idem) e “Nós e o mar” (que aqui recebe garboso tratamento através de belíssimo arranjo new age), ambas presentes no LP “A Bossa Nova De Roberto Menescal E Seu Conjunto”, primeiro da carreira de Menescal (antes do artista havia gravado um compacto simples). O disco ainda conta com outros relevantes parceiros de Menescal como é o caso de Chico Buarque, que assina “Bye Bye Brasil”, canção composta para o longa-metragem homônimo lançado em 1979 e dirigido por Cacá Diegues; o multifacetado Oswaldo Montenegro (que assina “Eu canto meu blues”); Rosália de Souza (que assina “Agarradinhos”); Lula Freire (com “Vai de vez”) e Wanda Sá (que assina a “Ninguém”, faixa mais intimista do disco). O disco ainda conta com a faixa “Solidão nunca mais”, parceria entre o homenageado e a homenageante e “P’ru Zé” (faixa instrumental composta e executada exclusivamente por Menescal).

Em sua ficha técnica, “Bossa de alma nova” tem sua capa e fotografias assinadas por Sávio Figueiredo. Na tessitura sonora o disco conta com as presenças do próprio homenageado na direção de produção, arranjos, violão, guitarra e voz; o baixo de Marcio Menescal, a percussão de Reginaldo Vargas, a bateria de Raymundo Bittencourt e a voz de Andrea Amorim que mostra-se bastante segura neste tributo em que o rock deságua no mar da bossa nova e deixa-se emergir por belas letras e melodias através da voz de uma artista que foge do convencional a começar por suas inúmeras tatuagens ao longo de todo o corpo. Ao apresentar suas afinadas e delicadas interpretações, a artista permite-se destoar de sua aparente agressividade estética através dos mais distintos adjetivos neste projeto que trata-se não apenas de uma homenagem de roqueira pernambucana a um dos mais relevantes nomes da Bossa Nova ainda vivo pela passagem dos seus 75 anos de vida, mas também um dos mais relevantes álbuns do gênero que chegou as lojas nos últimos anos, a julgar pelo registrado no livro “A verdadeira história da Bossa Nova”, do japonês Willie Whopper, que o classifica entre os cem melhores discos de Música Brasileira já lançados no Japão.

De modo bastante harmonioso, o banquinho e o violão de Roberto Menescal ganha novos ares na voz dessa jovem e promissora cantora e compositora. Andrea Amorim ao dar vazão ao seu lado intérprete apresenta também uma nova e delicada faceta do ofício que abraçou. Bem situada no universo do rock a artista mostra que é capaz de superar desafios não apenas ao interpretar composições da lavra de um dos maiores nomes da música popular brasileira, mas principalmente ao apresentar suaves interpretações de um gênero musical brasileiro tão bem conceituado mundo afora. Seu canto mostra uma nova maneira de regozijar a tão notória e celebrada bossa abrindo as mais distintas portas para esta artista que coincidentemente nasceu no mesmo município de Dominguinhos, um dos mais expressivos artistas brasileiro falecido em julho de 2013.

O banquinho e o violão tão difundido por Menescal ao longo de toda a sua carreira agora ganha a adesão de uma artista de alma e aparência roqueira e que foge dos estereótipos das convencionais cantoras bossanovistas. A cantora e compositora mostra de modo pleno que foi capaz de deixar-se renovar, refletindo em seu canto agreste um lindo litoral repleto de sol, mar e poesia somente possível através deste gênero de profícua beleza. Quando questionada sobre o assunto costuma dizer: “Roberto Menescal me lapidou e a bossa nova me ensinou a cantar.”

Agora para os amigos leitores ficam duas canções interpretadas pela dupla. A primeira trata-se de “Ninguém”, canção de autoria do Roberto com Wanda Sá:

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A segunda canção trata-se de “Rio”, parceria de Roberto com Ronaldo Boscôli:

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UMA EXALTAÇÃO A UM SALGUEIRO DE VEROSSÍMIL TALENTO

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Em seu primeiro álbum a cantora e compositora carioca homenageia dois expressivos nomes do samba carioca

Antes de abordar a artista em questão é preciso trazer o nome de dois compositores que sem as suas respectivas existência o projeto a ser abordado não existiria: Waldemar Ressurreição e Djalma Sabiá. Apesar de ter nascido na região do Cariri, no Ceará, Waldemar (que se vivo estaria completando cem anos no próximo mês de outubro) deu os seus primeiros passos no universo musical na cidade baiana de Ilhéus quando ganhou um cavaquinho. Logo após aprender os primeiros acordes começou a compor e levou consigo essa característica quando foi morar no Rio de Janeiro, cidade que chegou quando tinha 18 anos, em 1932.

Nos anos de 1940 teve suas primeiras composições gravadas e formou parcerias com nomes como Herivelto Martins e Evaldo Rui, a partir daí teve canções de sua lavra registradas por nomes como Noite Ilustrada, Ary Lobo, o Trio de Ouro, Quatro Ases e Um Coringa, Francisco Alves, Demônios da Garoa, Blecaute, Carlos Nobre, Roberto Silva, Moreira da Silva entre outros, além de criar o grupo vocal Anjos do Sol. Já o carioca Djalma de Oliveira Costa(popularmente conhecido como Djalma Sabiá) tornou-se uma das emblemáticas figuras da história do carnaval carioca por ser um dos responsáveis pela fundação do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, tradicional escola de samba cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 5 de março de 1953.

Pertencente a ala dos compositores da agremiação, Sabiá (que recebeu este apelido nos tempos em que jogava futebol nas peladas do morro do Salgueiro) foi responsável por diversos samba-enredos da escola que fundou. Dentre os mais conhecidos pode-se destacar “Navio Negreiro”,de 1957; “Viagens pitorescas ao Brasil ou Exaltação a Debret”, em parceria com Duduca do Salgueiro, de 1959; “Chico Rei”, de 1964, de sua autoria em parceria com Geraldo Babão e Binha entre outros grandes hits da agremiação carioca. Hoje aos 88 anos Djalma é o único fundador da agremiação ainda vivo. Sua presença entre nós ressalta a sua importância não apenas por ser, de certo modo, a história viva não apenas do Salgueiro, mas de certo modo do carnaval carioca.

Ciente da importância desses dois emblemáticos nomes para o universo do samba, Grassa Rangel presta essa singela homenagem dando as flores em vida a Djalma Sabiá m seu primeiro projeto solo, cujo o título é “Grassa Rangel Canta Salgueiro de Waldemar Ressurreição a Djalma Saibá”. Neste projeto Grassa consegue apresentar ao longo das faixas presentes um pouco da história do autêntico samba produzido no Rio de Janeiro a partir dos nomes homenageados e outros existentes na ala de autores do Salgueiro ou Salgueirenses de coração. O álbum trata-se de um belíssimo e sonoro cartão-postal que edifica a cultura musical carioca em sua mais genuína essência em ritmo e melodia a partir de um apanhado de canções que foram rememoradas com o luxuoso auxílio do poeta e compositor Djalma Sabiá. São catorze faixas, entre sambas enredo clássico e seus variantes, que representam alguns dos grandes momentos do Salgueiro enquanto Escola e comunidade.

O disco abre com um pout-pourri de canções que ganharam a avenida nos anos de 1960: “Chico Rei”, “Dona Beja Feiticeira de Araxá” (1968) e “Chica da Silva” (1963). Da lavra de Waldemar Ressurreição o projeto conta com as canções “A maior Maria” (parceria com Gerôncio Cardoso), “Que rei sou eu” (com Herivelto Martins), “Meu bairro canta” e “Meu latim”; de modo solo Geraldo Babão assina o samba “União do Salgueiro”. Cantadas pelo povo da escola na quadra do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro Grassa Rangel teve a perspicácia de selecionar sambas como “Eu Vou Me Ausentar do Samba”, “Água do Rio” e “Vem chegando à madrugada”, composições de Fuzarca, Noel Rosa, Anescar e Zuzuca, respectivamente. De outros consagrados compositores salgueirenses Grassa apresenta “Muito obrigado”, de Cesar Veneno, “Deus Existe”, de Tiãozinho do Salgueiro, o partido “Eu não namoro mulher feia” (Fuzarca) e “Sabiá do Salgueiro”, canção feita a partir de um poema de autoria de Mestre Ziza, o Zizinho, o maior ídolo do futebol brasileiro antes de Pelé. O disco ainda conta com “O Moleque do Repique” (Marcílio do Salgueiro e Olímpio), “Vai batalhar” (Oscarzinho e Zé Vicente) e “Entre a pernada e a rasteira” (Claudio Freire e Luiz Guima). Além de Djalma Sabiá que figura entre os compositores em parceria com Valdir Careca assinando “Tem Samba no Terreiro”.

Com a produção e direção geral de Adelzon Alves e co-produção do homenageado Djalma Sabiá, o disco conta em sua tecitura com a colaboração de nomes como Roberto Marques (trombone), Luis Barcelos (bandolim), Eduardo Tartarelli Neves (flauta e sax), Ubirany (repique de mão), Paulão 7 cordas (regência, produção musical e regência), Paulo Soares (cavaco), Jorge Gomes (bateria), Ramon Alexandre Paiva Araújo (violão 6 cordas), Rogério Caetano (violão 7 cordas), Pretinho da Serrinha (cuíca, caixa e percussão), Alexssandro (pandeiro e tantã), Allison (surdo e atabaque), Zé Luiz Maia (baixo). Além do coro de Zélia, Silvia Nara, Analimar, Stênio e Rixxa nos vocais.

Desse modo Grassa Rangel eterniza-se no universo do samba respaldada não apenas por seu carisma e talento, mas principalmente por um repertório constituído por pérolas do samba carioca através de compositores que eternizaram-se nas ruas, becos, quadra e vielas do Morro do Salgueiro sob a benção de Djalma Sabiá. Em um ambiente predominantemente masculino, a sambista sente-se à vontade com com as precisas interpretações de um repertório constituído por jóias pinceladas por Adelzon Alves, conceituado jornalista que faz um trabalho de quase cinco décadas em pró da música popular brasileira e é responsável pelo lançamento de nomes como Djavan, Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva entre tantos outros respeitados do cenário musical brasileiro atual.

Agora é vez de Adelzon dar a benção a esta artista que atesta em definitivo que por trás dos estigmas atribuídos aos morros existe algo maior que pulsa em versos e compassos e que acaba por tornar estes lugares profícuos cenários para o desenvolvimento do samba. Ao apresentar este disco, Grassa Rangel constata isto de modo irrevogável prestando um serviço sem precedente não apenas à cultura carioca, mas ao samba brasileiro como um todo a partir deste álbum que em nada difere de um documento histórico-cultural.

Para deleite do público leitor segue o abaixo o álbum completo para audição:


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O COMPOSITOR E A CORUJA

O título deste mal traçado artigo remete-nos aos nossos primeiros primeiros anos de nossa vida escolar, quando por intermédio da saudosa e tenra professora tínhamos a oportunidade de ler ou ouvir as curtas composições literárias onde os mais diversos animais protagonizavam histórias imbuídas de caráter educativo e quase sempre em analogia entre o cotidiano humano com as vivenciadas pelas personagens e que sempre ao final da narrativa trazia alguma lição onde prevalecia a moral. No entanto, talvez nem Esopo, escravo da Grécia antiga a quem atribui-se oficialmente a criação de tal gênero literário, fosse capaz de mensurar que o título que aqui se encontra surgiu com o propósito de eternizar, de modo escrito, o imenso carinho e a mais singela cumplicidade existentes entre duas pessoas: a incondicional fã e um dos mais expressivos nomes da MPB de todos os tempos.coruja

O início de tal fato ocorreu a exatamente dezessete anos atrás, quando em Aracaju, capital sergipana, o cantor, compositor e instrumentista Geraldo Azevedo apresentava mais um dos seus inesquecíveis shows… e este tinha uma razão a mais para tornar-se inesquecível para uma das centenas de pessoas presente naquela noite de música, poesia e intensa alegria: uma fã em especial levava uma pequena e singela peça artesanal a qual pretendia presentear seu ídolo ao final daquela apresentação. Tal objeto ganharia especial atenção do ídolo pois passaria a acompanhá-lo daquela data em diante como uma espécie de amuleto, quem saber por conta de toda a simbologia contida naquele presente que longe de um alto valor material passou a ter um alto valor representativo por expressar um pouquinho do muito carinho que o seu público o dedica ao longo das mais de quatro décadas que vem trilhando esse belíssimo caminho, que apesar dos percalços ele celebra sempre com um sorriso no rosto.

Toda essa teoria faz-se necessária para que possa chegarmos ao cerne deste relato, a partir de um fato ocorrido em sua última apresentação na capital do seu estado natal. Em sua passagem por Boa Viagem, zona sul da cidade do Recife, Geraldo trouxe ao palco do Parque Dona Lindu toda a amálgama sonora que constitui sua obra ao apresentar canções de sua própria lavra e interpretou números de autoria de conterrâneos tais quais Luiz Gonzaga, Jorge de Altinho e Zé Dantas, inebriando de modo singular àqueles que, mesmo com o tempo propício à chuva, não deixaram de comparecer ao evento para entoar, de modo uníssono com o cantor, canções como “Dia branco“, “ABC do sertão“, “Sabor colorido“, “Bicho de sete cabeças”, “Petrolina Juazeiro” e tantas outras que permeiam as mais distintas estórias e histórias do heterogêneo público presente.

Após cerca de uma hora e meia de apresentação o artista despediu-se de um público já ansioso por sua volta. Após o merecido descanso em seu camarim, Geraldo Azevedo caminhava para a van que o levaria ao hotel localizada nas imediações do local da apresentação. Ao sair do teatro foi abordado por pelo menos uma dúzia de pessoas que o assediaram para registrar em fotografia aquele momento e para relatar as mais distintas estórias, dentre elas a da coruja. Sempre solicito, Geraldo Azevedo procurando atender a todos aqueles que o abordavam, em dado momento, escuta uma jovem relatar-lhe: “Geraldo, sou sua fã faz muitos anos. Inclusive, em Aracaju, eu lhe dei uma corujinha de presente a uns dezessete anos atrás…“. Para surpresa da fã, Geraldo a questiona: “E foi você quem me deu a coruja? Até hoje eu tenho ela! Inclusive ela está aqui comigo. Vou lhe mostrar… comigo é assim: eu mato a cobra e mostro o pau.” Para surpresa das pessoas presentes Geraldinho abriu uma pequena necessaire e mostrou para a emocionada fã o presente dado a quase duas décadas atrás: a réplica de um pequeno animal que para muitos simboliza a sabedoria.

São situações como estas que atestam veementemente a razão pela qual Geraldo Azevedo é tão amado por seu público e atrai uma legião de fãs por onde passa mesmo não estando presente com tanta frequência nos grandes meios de comunicação. Sua relação de cumplicidade com aqueles que o acompanham ao longo de sua trajetória artística é passada e construída a partir de gestos como este, onde a intransponível barreira e protocolos existentes entre artista e fã inexiste. E é nesta relação arraigada por nobres adjetivos e substantivos diversos tais quais carinho, gentileza e delicadeza ao longo de tantos anos que Geraldo Azevedo é admirado não apenas pelo seu público, mas também pelos colegas de profissão. E é sob a égide da máxima colhemos justamente aquilo que plantamos que o artista hoje vive. Colhendo os frutos de uma vida inteira semeando amor.

P.S. – Hoje, mostrando-se também um pouco “coruja” em sua condição de pai, Geraldinho vem mostrando o espetáculo “Em família”, apresentação onde o artista pernambucano consegue reunir no palco e fora dele sua prole em diversas apresentações pelos quatro cantos do país. Em diversas apresentações é possível vê-lo ao palco acompanhado por seus talentosos filhos Lucas Amorim, Tiago Azevedo e Clarice Azevedo. Além de Gabriela Azevedo, nos bastidores em sua produção.


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ENTREVISTA EXCLUSIVA

OP

O cantor e compositor Luiz Henrique homenageia um representativo nome do samba que pela primeira vez tem um disco totalmente dedicado à sua obra

Obstinação. Essa talvez seja o adjetivo que melhor se encaixe nos projetos fonográficos do artista em questão. Luiz Henrique chega ao mercado fonográfico com mais um projeto (o terceiro) em homenagem a compositores da que escreveram sua história dentro da música popular brasileira ao longo do século XX. Depois de apresentar álbuns reverenciando nomes como Noel Rosa, Sinhô e compositores da década de 1930. Agora o artista antecipa-se ao centenário do grande sambista Silas de Oliveira a ser comemorado em 2016 neste álbum, que chega com uma característica bem peculiar: é o primeiro disco totalmente dedicado as composições de Silas de Oliveira como pode-se conhecer recentemente em uma de nossas pautas: “EM MOMENTO OPORTUNO, LUIZ HENRIQUE REVERENCIA EM GARBOSO PROJETO SILAS DE OLIVEIRA”. Hoje o artista retorna ao nosso espaço e, de modo bastante solícito, concede-nos esta pequena entrevista onde aborda os mais distintos temas, dentre os quais o seu “afronto” a essa cultura vigente, fala um pouco mais sobre como foi a elaboração do álbum “O Império de Silas – ao grande mestre do samba Silas de Oliveira”, seus planos para o segundo semestre e se dentro do nosso cenário musical atual existe alguém que merecerá um tributo a altura do que ele fez ao saudoso compositor Sinhô. Vale a pena conferir!

Em um país que preza por um tipo de música descartável você vem com trabalhos de artistas perenes. Quais as consequências mais evidentes desse “Afronto” a tais padrões vigentes?

Luiz Henrique – A conseqüência deste “afronto” é a distância cada vez maior da grande mídia. Até porque o artista que grava as obras que tenho gravado não sonha com o aparecimento constante nos principais veículos de comunicação, tem sim o profundo desejo de ver seus trabalhos reconhecidos por um determinado segmento dentro do qual um dia espera ser respeitado. Se isto acontecer, já me considerarei vitorioso.

Ainda há solução para esse quadro que assola a cultura brasileira?

LH – Acredito que não existam grandes interesses para se reverter esta situação, até porque, muitos outros problemas teriam que ser solucionados antes. O atual quadro cultural do nosso país bem reflete o caos social e econômico pelo qual ele passa. Para termos condições de separar o joio do trigo, nós precisamos de mais informação, maiores esclarecimentos, mais investimento na educação, talvez com uma política governamental de maior incentivo à cultura nas próprias escolas de ensino fundamental e médio. As pessoas só começam a ter interesse por certo assunto quando ele passa a ser apresentado a elas.

Pela lembrança das oito décadas sem Sinhô, considerado por muitos como o Rei do samba, você gravou um belíssimo tributo em 2010 atestando a atemporalidade de sua obra. Em sua opinião, dentre os compositores contemporâneos seus quem merecerá projeto semelhante oito décadas depois de sua partida?

LH – Na verdade, dentre os compositores da minha geração, que são os nascidos na década de 70, e incluindo aí também os mais novos, das décadas de 80 e 90, creio que nenhum deles tenha ainda adquirido bagagem suficiente a ponto de fazer jus a uma homenagem pelos seus oitenta anos de saudade. Pode ser que alguém ainda faça por merecer. Porém, num conceito mais amplo do que seja contemporaneidade, entre os autores mais antigos que ainda alcancei fazendo sucesso, acredito que haja sim algumas figuras merecedoras desta homenagem, não só no samba como também em outros gêneros musicais.

Você poderia falar como se deu o seu contato com a obra de Silas?

LH – Foi um amigo em comum, entre mim e a família do Silas de Oliveira, que me deu a ideia de gravar a obra deste baluarte da Serrinha. Aí então fui pesquisar sobre ele. Antes disso, sou sincero em dizer que não conhecia muita coisa da obra deste grandioso compositor, apenas “Aquarela Brasileira” e “Meu Drama”. Há também alguns outros sambas que, embora já tivesse ouvido, somente através da obra Silas de Oliveira, do jongo ao samba-enredo, biografia de Silas escrita pela respeitada escritora Marília Trindade Barbosa, tive conhecimento de serem também de sua autoria. Após ler o livro, tomei a decisão de que deveria lançar a obra que faltava ao mundo fonográfico: um disco reunindo apenas composições do grande mestre, inclusive a própria Marília me deu a honra de escrever o texto de apresentação do CD.

O álbum “O Império de Silas – ao grande mestre do samba Silas de Oliveira” tem suas faixas muito bem divididas entre clássicos da lavra do compositor e canções menos conhecidas. Quais foram os critérios para a escolha do repertório?

LH – Realmente a escolha do repertório foi uma tarefa bem difícil, até porque não ouvi um único samba de Silas que pudesse ser considerado mais ou menos, gostei muito de todos. Acabei dando prioridade aos sambas de quadra, escolhendo obras mais conhecidas como “Meu Drama”, que foi tema da novela “Pai Herói” (da Rede Globo – 1979) na maravilhosa voz de Roberto Ribeiro e “Me Leva”, um grande sucesso do cantor Anísio Silva, mas, claro, não pude deixar de gravar também os sambas de enredo, visto que foi com este gênero que Silas de Oliveira triunfou. Dentre eles, escolhi os que se destacaram mais no cenário carnavalesco, como, por exemplo, o clássico “Aquarela Brasileira”, e o já tão esquecido “Caçador de Esmeraldas”, uma parceria de Silas com Mano Décio que levou o Império Serrano a conquistar o título em 1956.Há, porém, no disco, algumas composições como “Calamidade” e “Amor Aventureiro”, que não tiveram o destaque merecido ao serem lançadas originalmente. Observo ainda que a variedade de temas também foi critério usado na seleção do repertório e confesso que, quando procurei os produtores do disco, o Thiago da Serrinha e o Julio Florindo, eu já estava com as músicas praticamente escolhidas, faltando apenas decidir entre duas, tendo nisso acatado a sugestão do Thiago, favorável à inclusão de “Pernambuco, Leão do Norte”.

Você apresenta ao público sedento por música de qualidade pela primeira vez um álbum dedicado inteiramente a obra de Silas de Oliveira. Você como também pesquisador do nosso cancioneiro tem conhecimento de algum outro artista também neste contexto?

LH – Gosto sempre de esclarecer que não sou propriamente um pesquisador, mas sim um cantor que tem a necessidade de pesquisar para poder elaborar seus projetos musicais. Existem sim alguns outros autores neste contexto, mas eu citaria aqui Caninha, compositor que, tal como Sinhô, também se destacou nos anos 20, tendo sido o único que de fato conseguiu ameaçar a hegemonia do Rei do Samba, tanto que foi considerado Imperador do Samba. Caninha pertencia ainda àquela leva de compositores do samba amaxixado e teria sido o mais antigo sambista brasileiro, o que nasceu primeiro. Muitas de suas letras servem para retratar a sociedade de então.

Depois de homenagear Sinhô (compositor dos anos 1920), Noel Rosa e seus contemporâneos (autores dos anos de 1930), agora vem Silas de Oliveira (autor das décadas de 1950 e 1960). E os anos de 1940? Você pretende ainda abordá-los?

LH – Penso que os anos 40 tenham sido uma fase de transição entre o dito período áureo da música brasileira, que durou de 1930 até mais ou menos 1945, e a Era dos Auditórios que teve seu ápice nos anos 50. De fato, eu pulei a década de 40, mas foi por uma boa causa, homenagear Silas de Oliveira nas proximidades de seu centenário. Embora não acredite que meu próximo CD possa ser de obras deste período, não descarto tal possibilidade para projetos futuros, até porque foi uma época de produção musical bastante diversificada.

“O Império de Silas” tem como uma de suas principais características a congregação de relevantes nomes do samba e a participação de diversos nomes do gênero. Muitos desses mesmo nomes encontram-se intrinsecamente ligados ao homenageado. Como aconteceram as adesões desses artistas que abrilhantam o projeto junto a você?

LH – Em relação às músicas de Silas com parcerias, optei por dar um destaque maior a seu principal parceiro Mano Décio da Viola, tanto que o CD possui seis composições de autoria da dupla. Também não poderia me esquecer da Dona Yvonne Lara que, ao lado de Bacalhau, compôs com Silas “Os Cinco Bailes da História do Rio”, nem do Mestre Fuleiro, tendo escolhido a interessantíssima parceria “A Lei do Morro”. Quanto aos artistas convidados, foram muitos gentis em aceitar participar da gravação. E cada um foi escolhido por representar algo. O grande e querido Jorginho do Império, por todo o carinho que sempre teve com a obra do Silas, cantando e gravando suas músicas, e também por ser filho do fabuloso Mano Décio da Viola, razão pela qual escolhemos o samba “Heróis da Liberdade” para gravarmos juntos. O fera Alex Ribeiro, representando muito bem no disco o seu saudoso e brilhante papai Roberto Ribeiro, que, através de suas gravações, divulgou bastante as composições do mestre Silas. O Silas Júnior, para que pudéssemos sentir um pouquinho da alma da família Oliveira na pessoa do filho do homenageado. E ainda os maravilhosos integrantes de Velha Guarda Show do Império Serrano, representando esta grandiosa escola. A Velha Guarda gravou comigo “Apoteose ao Samba”, faixa em que tivemos também a participação de Júnior de Oliveira tocando percussão no samba do avô.

Os espetáculos onde você vem apresentando “O Império de Silas – ao grande mestre do samba Silas de Oliveira” tem sido sucesso de crítica e de público. O que podemos esperar para este segundo semestre quanto a essas apresentações?

LH – Quero aproveitar este espaço para agradecer a todos os profissionais que têm nos dado apoio e nos ajudado na divulgação desta que é uma produção independente, mas que obviamente acaba dependendo da ajuda de todos. A tarefa de divulgação não é fácil, está sendo árdua, mas felizmente temos conseguido algum êxito. Aos radialistas e jornalistas, à administração do Império Serrano, aos queridos amigos imperianos e aos amantes do samba de qualidade, o meu muitíssimo obrigado. A direção deste show é do imperiano Mateus Carvalho e procuramos, na medida do possível, manter a formação da banda com músicos da própria Serrinha. Temos feito shows de lançamento do CD como também participação em Rodas de Samba. Estamos satisfeitos, pois embora não sejam tantas as portas que se abrem, os caminhos a que elas nos conduzem têm sido sempre iluminados. E onde houver espaço para que divulguemos este importante baluarte do nosso samba Silas de Oliveira, lá estaremos firmes e fortes, com as bênçãos de São Jorge, o padroeiro do glorioso Império Serrano. O nosso próximo show será no sábado, dia 08 de agosto no Botequim do Império que acontece a partir das 18 horas na quadra imperiana que fica na Av. Ministro Edgar Romero nº 114 – Madureira – RJ.

Por fim não poderia deixar de abordar também o seu lado compositor. Já não é hora de dar vazão a esse seu lado em disco?

LH – Na verdade, penso não ser tão necessário um trabalho inteiro com obras minhas, pois, atualmente, com o mundo digital, basta que se produza uma única faixa e a divulgue computador afora, como fiz com o samba “Amélia que não era mulher de verdade”. Gravei esta composição faz uns sete anos, nunca a lancei em disco, mas desde que a postei na internet, tem sido bem acessada. Prefiro continuar priorizando meu trabalho de intérprete das obras dos autores que precisam ser resgatados. Óbvio que não nego a vontade de gravar um trabalho autoral, mas tudo no seu tempo. E aproveito o ensejo para informar aos cantores que podem me procurar caso se interessem por gravar composições minhas. A maior alegria de um compositor é ouvir sua música na voz de outro artista.

Maiores Informações:

Contato para shows: cantorluizhemrique@uol.com.br – (21) 99175-2794 / (21) 98329-5887

Para aquisição do álbum: soniamonteproducoes@gmail.com


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 13

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Considerada por Luiz Gonzaga a Rainha do Baião, Carmélia Alves pode ser considerada a primeira artista independente do Brasil

Recentemente trouxe aos amigos leitores algumas informações sobre dois ícones da música nordestina: Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, este último considerado o Rei do Baião. Agora retomo as histórias e estórias do nosso cancioneiro trazendo Carmélia Alves, que na década áurea do Baião foi coroada pelo próprio Luiz Gonzaga como a Rainha do ritmo tão difundido por ele. Carmélia apesar de ter nascido em Bangu, na zona norte do Rio de Janeiro, seus pais eram nordestinos. De pai cearense e mãe baiana, Carmélia deu início a sua atividade artística como caloura do programa de Ary Barroso cantando um samba do repertório da pequena notável Carmen Miranda. A canção era Doce Veneno, do compositor Roberto Ribeiro. Resultado: conseguiu a nota máxima e foi participar do programa “Escada de Jacó”, uma espécie de ascensão profissional dos calouros para o status de profissional.

Mas foi só através do programa “Picolino” do saudoso Barbosa Júnior que a artista passou a ser considerada profissional. Isso ocorreu após uma apresentação da artista ainda como caloura onde ao final do seu número foi aclamada pelo público presente e foi obrigada a bisar o número apresentado onde o apresentador participou. Isso a credenciou a favorita da plateia naquela noite, e ao final das apresentações o nome de Carmélia não constava entre as classificadas. O público veio abaixo e começaram as reivindicações. Sob gritos e vaias, Barbosa Júnior justificou a não presença da caloura entre as classificadas: “Carmélia Alves não é caloura, ela já é profissional. E tem mais: a partir de hoje ela passa a ser minha contratada”. Começava aí a carreira profissional da intérprete carioca.

Quem proporcionou a primeira gravação fonográfica da artista foi o não menos notável Benedito Lacerda, músico de primeira grandeza e que oportunizou o registro de “Quem dorme no ponto é chover”, de autoria de Assis Valente. No entanto a gravação custou ao bolso da artista 400 mil réis para a gravação, pois o dinheiro era para o pagamento da matriz da RCA Victor. Sem este valor a cantora desistiu da gravação, mas ao voltar para casa a sua mãe disse que ela não iria deixar de gravar e junto aos familiares conseguiu levantar tal quantia. Após essa gravação artista passou sete anos sem fazer registros fonográficos.

Outro importante nome presente na biografia da artista foi o músico e compositor Hervê Cordovil. Autor de clássicos do cancioneiro brasileiro, Hervê foi o responsável por introduzir a cantora no universo do baião ao apresentar a canção “Sabiá na Gaiola”, canção que acabou por se tornar um clássico do seu repertório e outras do mesmo gênero que acabaram sendo registradas pela artista. Tais gravações a fizeram cair na graça do público que de imediato aclamava-a como Rainha do Baião, posto este que foi oficializado no programa “No mundo baião”, apresentado por Humberto Teixeira e pelo Rei do gênero, Luiz Gonzaga na rádio Mairink Veiga. Intermediado pelo apresentador César de Alencar, Carmélia foi convidada para apresentar-se no programa e, no meio da apresentação, foi coroada no palco da rádio carioca pelo próprio Gonzaga que ao colocar o chapéu de couro na cabeça da cantora disse: “Estou coroando você a Rainha do Baião com o símbolo do Nordeste. Daqui pra frente vamos defender o acervo nordestino, você como Rainha e eu como Rei.”

Vale registar que a admiração da cantora por Carmen Miranda. Ainda como caloura, Carmélia sempre apresentava-se interpretando as canções do repertório da pequena notável. Seus caminhos não chegaram a cruzarem-se, no entanto Carmélia teve a oportunidade de substituir aquela que ela tinha por ídolo em um programa de rádio. Ao ir residir no EUA, o horário de Carmen ficou vago, e isso propiciou a contratação de Carmélia.

Para matar a saudade da voz dessa intérprete ímpar segue para audição a gravação original de “Sabiá na gaiola”, registro este de 1950:

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GONZAGA LEAL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

gonzaga leal

Com 40 anos de estrada, o artista vem apresentando “De mim”, projeto que conta com a adesão de nomes como Marília Medalha e Jaime Alem

Chega uma hora em que há necessidade de mudança em nossas vidas. Desde os mais simplórios gestos até transformações que interferem de forma radical em nossa vida. No caso de Gonzaga Leal este momento chegou quando teve que optar por trilhar o caminho da música ou da dança e ele optou pela segunda alternativa. Hoje, com oito discos gravados (incluindo o EP “Aparição”) Leal vem apresentando desde o início do ano “De mim”, um álbum que apresenta diversas características que o destaca não apenas na carreira fonográfca do artista, mas também na cena musical como um todo.

O disco é responsável por trazer novamente aos estúdios de gravação a cantora e compositora Marília Medalha assim como também por apresentar mais uma faceta do artista pernambucano: o seu lado compositor. Depois de protagonizar, aqui mesmo em nosso espaço, a pauta sob o título de “SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE”, Gonzaga volta a este espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre este novo projeto que vem recebendo elogiosas críticas Brasil afora, a sua relação com a cena musical de São Paulo e que virá em comemoração as quatro décadas de carreira que o artista comemorou em 2014. Vale a pena conferir. Boa leitura!

O ano passado foi um ano emblemático para você, afinal de contas completaram-se quarenta anos desde a sua primeira aparição profissional diante do público. O que você destacaria ao como relevante em sua carreira ao longo destas quatro décadas de estrada?

Gonzaga Leal – Sempre acho que o mais recente trabalho de um artista é o mais importante de uma trajetória, uma vez que ele representa um alcance definido por tudo que ele já produziu e passou. Para gravar esse novo disco, apoiando-me na sonoridade da viola brasileira e debruçando-me sobre um repertório baseado no tempo e na saudade, foi necessário olhar para trás e ver no passado um espelho do que venho produzindo e do que ainda pretendo fazer.

“De Mim” como o próprio título sugere vem arraigado de pessoalidade através de letras que poderíamos até afirmar tratar-se de confessional. Qual foi o principal desejo que o conduziu a registro com essas peculiaridades?

GL – Estava há quatro anos sem gravar, mesmo sendo incentivado e ativado no meu desejo pelos músicos que trabalham comigo já há algum tempo, mas, mesmo assim, não encontrava motivo algum que justificasse entrar em estúdio, pois gosto de gravar projetos, não canções apenas porque são lindas ou magníficas, isto não me atrai.

Mas o tempo não brinca com ninguém, e aí que fui surpreendido por uma canção enviada por Públius. Ao ouví-la, fui tomado por um sentimento gigantesco, sobretudo de aproximação comigo mesmo. Naquele período havia completado 55 anos e a canção ativou em mim uma saudade de mim mesmo, de um Gonzaga que não é mais, mas se avizinhando de um novo tempo. A canção chama-se “Da Saudade”. E assim, percebi de imediato que o projeto começava a nascer, projeto no qual iria cantar sobretudo o tempo e a saudade, e fazê-lo, com muito frescor e ausência de ressentimento.

A sonoridade do disco apresenta a viola de modo matricial. Há em suas reminiscências alguma razão ou motivo para torná-la o principal instrumento de um projeto que traz como características tanta pessoalidade

GL – Realmente, a viola é uma das principais protagonistas do projeto. Sou um homem do interior, e muito precocemente comecei a me familiarizar com o mistério e o enigma do som das violas. Sem falar no fato que o meu diretor musical, Cláudio Moura, é um magnífico violeiro, que extrai poesia pura do som do seu instrumento. A junção desses dois fatos foi o grande lance para suscitar em mim o desejo de ter comigo outros violeiros de gerações diferentes para fazerem parte do projeto, a exemplo do Jaime Alem, Hugo Lins e Juliano Holanda, cujas violas têm afinações diferentes umas das outras.

Nestas últimas duas décadas a cantora e compositora Marília Medalha mantém-se afastada dos estúdios. Acredito que essa participação em “De Mim” venha a ser o seu único registro fonográfico até então ao longo deste século. Como se deu o convite para que a Marília viesse a participar do álbum e quais os argumentos que acabaram por convencê-la a tais participações?

GL – É um enorme privilégio tê-la neste projeto. Realmente a Marília hoje vive um tanto quanto reclusa, mas não avessa a realizar trabalhos que a entusiasme. Somos grandes amigos, já fizemos alguns trabalhos juntos e temos muito interesse pelo repertório de canções de domínio público. Quando formulei o convite e, encaminhando o reisado “A deusa da lua”, percebi de imediato o seu interesse e alegria em vir à recife, cidade que ela tanto gosta, fazer a gravação. Naquele momento, me senti premiado. Foi tudo emocionante e lindo.

Uma característica presente em seus projetos é a valorização ao texto da canção. Suas interpretações são carregadas por muita verdade e “De Mim” parece trazer essa característica de modo muito mais arraigado inclusive a partir de peculiaridades antes não existentes como a inserção de “Sonho imaginoso” (primeira composição de sua lavra que aqui ganha seu registro). Você pretende a partir de então dar continuidade a registros de sua autoria?

GL – Realmente não me considero um cantor. Estou muito distante, interessa-me cada vez mais aguçar em mim o intérprete que habita-me. Por isso, deixo-me tanto perseguir pela palavra. A palavra, pra mim, é de uma força inimaginável, tanto no que diz respeito a sua força, complexidade e simplicidade. Preciso sentir-me emoldurado pela palavra para dar sentido ao meu canto. Com relação à “Sonho Imaginoso” (Gonzaga Leal – Guito Argolo – J. Velloso), a ideia partiu de J. Velloso, que gostou de um texto confessional que escrevi e achou que poderia virar canção. Então consultou-me e eu, sem titubear, dei todo o aval para que ele pudesse editar o texto e convidar pessoa da sua confiança para inserir melodia. Foi quando ele trouxe o Guito Argolo para cuidar de musicar o texto. Adorei de verdade e combinamos que quem primeiro gravasse um cd, convidaria o outro para dividir os vocais. Isso não quer dizer que sou um compositor. Não sou, pois sou o mais crítico de mim mesmo. Foi um feliz e fecundo acaso.

A sua ligação com a cena musical paulista faz-se bastante perceptível ao longo dos seus projetos fonográficos (com exceção dos álbuns tributos a Nelson Ferreira e Capiba). Essa aproximação deu-se de modo intencional ou foi algo espontâneo?

GL – São Paulo é uma cidade que adoro, onde tenho grandes amigos das mais variadas linguagens artísticas. Gosto de trabalhar em São Paulo, sobretudo com os paulistas. A minha conversação sobre música mais profunda e consistente com São Paulo acontece exatamente no álbum “Minha Adoração – um tributo a Nelson Ferreira”, quando, a meu convite, Zé Miguel Wisnik colocou versos na valsa azul, de Nelson Ferreira. Isso foi um passo para, através do Zé Miguel, conhecer o Luiz Tatit que, no meu cd “Gonzaga Leal cantando Capiba, …e sentirás o meu cuidado”, vestiu o choro “Relembrando Nazareth”, de Capiba, com seus lindos versos. Essa ponte foi determinante para todas as demais conversações que tive e continuo tendo (e que muito me interessa!!!) Com São Paulo.

A capital pernambucana já teve a oportunidade de receber o espetáculo referente ao álbum “De Mim” por duas vezes. A primeira, em janeiro, na estreia da turnê e posteriormente em abril. Você tem recebido elogiosas matérias da crítica especializada em todas as regiões do país. Já existe uma agenda fechada em relação a turnê do álbum para o segundo semestre?

GL – Estou muito orgulhoso e agradecido pela forma como a imprensa brasileira tem recebido o meu trabalho. Isso é o máximo para qualquer artista. Nesse aspecto também me sinto um privilegiado. Adoro fazer o show do disco por tudo que o envolve e o emoldura: os músicos, os diretores (musical e cênico), o cenário, a luz, o repertório e toda a cumplicidade das pessoas envolvidas. Temos uma turnê prevista, mas a depender da aprovação do funcultura por esses dias. É um show caro, que envolve uma equipe de pelo menos 15 pessoas. Adoraria que o projeto fosse aprovado para termos a oportunidade de sair pelo Brasil. Sem isso, se torna praticamente impossível, pois não me contento em apresentar um trabalho pela metade. Não é justo que se ampute uma equipe e uma estética para viabilizar viagens. Nisto sou muito rigoroso e não faço concessões.

Você é um dos artistas que mais subiu ao palco do Teatro de Santa Isabel. Em relação a esse feito você nos trouxe em tom confessional aqui mesmo neste espaço que arquitetava um projeto pautado em piano e voz cujo título a princípio seria “Teatro – Na boca de cena nasci”. De janeiro de 2012 (época da primeira entrevista) aos dias atuais a que pé anda o projeto? Quando esse desejo tomará forma?

GL – O teatro e a minha casa são os lugares onde mais me sinto confortável e seguro. É como se fossem um templo que me remete inevitavelmente ao sagrado. O Teatro de Santa Isabel, em especial, faz muito sentido na minha vida, não só artística mas de espectador, foi lá que lancei todos os meus cd’s, realizei outros tantos shows e presenciei espetáculos memoráveis. Tenho um apreço muito grande por esse lugar. Tornei-me amigo de grande parte de seus diretores e nutro amizade também pela maioria de seus funcionários. Por isso, acho-me com essa dívida de fazer um cd que possa homenageá-lo, sobretudo agora que ele completa 160 anos. Portanto, o projeto na boca de cena nasci, de voz e piano, com repertório de trilhas de peças de teatro, continua sendo o meu grande sonho e desejo. Espero realizá-lo em breve. Estou indo atrás. Um detalhe desse projeto é que os pianistas serão aqueles todos que tive a felicidade de trabalhar, a exemplo de Zé Gomes, Francis Hime, Marco Caneca, George Aragão, Cida Moreira, Zé Miguel Wisnik e Eliana Caldas.

Por falar em Santa Isabel “De Mim” foi o único projeto que não teve seu lançamento no palco do tradicional teatro. Há pretensão de levar o espetáculo a este teatro que é considerado o templo maior da cultura pernambucana?

GL – A estreia desse show em um teatro que já vinha tendo um grande namoro: o Teatro Capiba. Num acordo conjunto entre músicos, equipe e diretores, tomamos essa decisão de estrear num teatro menor, onde pudéssemos estar numa relação mais próxima com o público, coisa que o repertório e a sonoridade do show, de uma certa forma, exigem. Foi tudo lindo e surpreendente, sobretudo porque estreamos dentro do projeto janeiro de grandes espetáculos. Mas acredito que, até o final de ano, estaremos levando o show para o teatro de Santa Isabel, para o contentamento ficar completo. Claro que o show sofrerá algumas adaptações, especialmente no plano cenográfico e de iluminação.

Neste ano você está chegando aos 40 anos de estrada qual o balanço que você faz desse percurso? Esta comemoração se estenderá aos palcos?

GL – Esse aniversário me dá uma noção mais apurada da minha responsabilidade e do meu compromisso com todos os que me acompanham ao longo de todos esses anos e com essa cidade que tanto me abraça e me prestigia. Imagine um jovem que chega do interior na cidade sem conhecer ninguém e, pouco a pouco, vai construindo uma rede de amizades férteis que me impulsionam a ser artista. É a sensação exata de ter obtido régua e compasso. E claro que a melhor forma e contrapartida para com todos, é através do que posso emocioná-los e presenteá-los com meu singelo canto e o meu fazer artístico. Tendo sempre o palco como um nobre parceiro. Uma coisa que realmente adoraria em termos de comemoração de uma data redonda, é construir uma cartografia interpretativa a partir da revisitação todo o meu repertório de shows. Nos dias atuais, isso se torna praticamente impossível. Mas não custa nada sonhar, não é?

Com tantos anos de estrada e primorosos registros fonográficos não seria a hora já de cogitar a possibilidade de um projeto áudio-visual? Já pensou na possibilidade de um registro em DVD?

GL – Sinceramente, esse desejo já esteve mais aguçado. Hoje não tenho mais tanta motivação e interesse em fazer um registro em dvd. Mas, se eu o fizer, interessa-me fazer algo bem simples com uma moldura cenográfica e uma luz muito poética, em preto e branco, em um estúdio de gravação. Jamais realizar um show para transformá-lo em dvd. Esse formato não me interessa. Por enquanto as coisas mais imediatas são continuar fazendo o show “De mim”; o projeto chamado concerto de assobios, que pretendo estrear ainda esse ano na companhia da atriz Ceronha Pontes e dois músicos (um violeiro e um percussionista). É um recital baseado na poesia do poeta Manoel de Barros e canções da tradição oral brasileira, que juntos formam uma dramaturgia. Estamos todos felizes, por estarmos embalados por tanta lindeza contida na poesia e nas canções. Por fim, continuarei empenhado em viabilizar o projeto na boca de cena nasci, mesmo porque ele já tem um tempinho de pendência. Na minha vida não sou afeito a pendências.

Quero te agradecer, Bruno, por esta nobre oportunidade que mais uma vez você me concede. É sempre muito bom, para qualquer artista, dar uma entrevista para uma pessoa que conhece do seu trabalho e se interessa pelo artista. E nesse aspecto, tenho o maior prazer de responder quantas perguntas me chegarem. É assim que me sinto: agradecido e prestigiado.


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SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE

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Após um hiato de três anos, Gonzaga Leal volta ao mercado fonográfico com “De mim”, álbum que conta com adesão de nomes como Marília Medalha, Cida Moreira e Jaime Alem

Em 1993 chegava às lojas de todo o Brasil mais um álbum do cantor e compositor carioca Chico Buarque cujo uma das faixas, intitulada “tempo e artista”, descrevia a relação entre a arte e o constante movimento dos ponteiros. Em dado momento da terceira faixa do disco que é considerado, pela crítica especializada, como o melhor disco do artista ao longo da década de 1990, Chico entoa versos como “(…) Imagino o artista num anfiteatro… Onde o tempo é a grande estrela (…) ” ou “(…) Já vestindo a pele do artista… O tempo arrebata-lhe a garganta (…)” entre outras frases que hoje, mais de duas décadas após o lançamento, substanciam de maneira bastante vivaz este novo projeto do produtor, cantor (e agora compositor) Gonzaga Leal.

Nascido no sertão pernambucano, mais precisamente em Serra Talhada, o artista que foi aluno do Conservatório Pernambucano de Música (onde estudou técnica e teoria musical) vem desenvolvendo um trabalho bastante coerente desde a sua estreia no mercado fonográfico em 2000 com o título “O olhar brasileiro”. Desde então vem desenvolvendo os mais diversos trabalhos ao lado de alguns dos principais nomes da cena musical pernambucana e nacional. Com mais de 30 anos de carreira, Leal traz uma vasta bagagem antes mesmo do seu debute em disco, somando relevantes parcerias nos palcos de todo o país assim como também fora deles. Após dar início a sua seleta discografia as parcerias aumentaram qualificamente, enumerando registros ao lado de nomes como Naná Vasconcelos, Francis e Olivia Hime, Alaíde Costa, Ná Ozetti entre outros; e neste oitavo álbum intitulado “De mim” o contexto, além de contemplativo e confessional, não destoando dos anteriores, trazendo para esta celebração a viola como protagonista e a saudade como enredo maior.

Tendo o tempo como tema recorrente, as quinze canções presentes apresenta um intérprete imbuído de muita pessoalidade. Prova disto é “Da saudade” (Públius), canção considerada o cerne deste projeto é que chegou as mãos de Gonzaga quando ele encontrava-se na Europa sentindo falta do seu torrão, amigos entre outras coisas. Já em “Água serenada” (Déa Trancoso) e “Arco do tempo” (Paulo César Pinheiro) por exemplo, a condescendência do artista ao seu tempo biológico se dá através de frases como “Eu não canto do jeito que eu já cantei… Bebi água serenada, até a voz eu mudei” ou “Em qualquer ponto do tempo… Eu passo e finco meu marco…”.

O tempo ainda chega em duo com Cida Moreira através da canção “A janela da casa do tempo” (Públius e Xico Bizerra). Do carioca Mário Travassos gravou “Palavra doce” (gravada originalmente em forma de samba-canção pelo cantor Mário Reis em 1960 e agora ganha adornos de música caribenha). Vale observar nesta faixa o quanto se assemelham os timbres entre os dois intérpretes. Da cena musical paulista o pernambucano pincelou nomes como Virgínia Rosa (“Vou na vida” parceria com Swamy Jr.); Luiz Tatit e Fabio Tagliaferri (que assinam “Show”); o disco ainda conta com outros nomes conhecidos pelo grande público como Adriana Calcanhoto e Altay Veloso que assinam, respectivamente, as faixas “Você disse não lembrar” e “Canção de adeus”.

A faixa “Vôo cego” (Lula e Yuri Queiroga) conta com Marília Medalha, que volta aos estúdios de gravações depois de anos afastada. A cantora e compositora ainda participa da canção de domínio público “Deusa da Lua”, que foi adaptada pelo próprio Leal. Outra faixa assinada por Gonzaga (ao lado de J. Velloso e Guito Argolo) é “Sonho imaginoso”, canção que busca retratar toda a afabilidade que o artista busca através das mais diversas minúcias. Outras faixas presentes são “Calmaria” (J. Velloso), “Colarzinho de pedra azul” (Junio Barreto), Sina de passarinho” (Bruno Lins, Manoel Filó e Tonzinho), “Ainda bem que eu trouxe a viola” (Juliano Holanda) e “Que falem de mim” (Bidú Reis) lançada pela saudosa Ademilde Fonseca, nos idos anos de 1959.

“De mim” conta com as participações especiais de nomes como Jaime Alem e J. Velloso (além dos talentosos conterrâneosJuliano Holanda e Públius) tem o design gráfico assinado por Tânia Avanzi e a direção fotográfica de Helder Ferrer e do próprio Leal. É válido também o registro de que o disco foi gravado, mixado e masterizado nos estúdios Musak e Carranca (ambos em Recife) sob produção musical, direção musical e regência de Cláudio Moura. A Concepção, o repertório e a direção artística ficou a cargo do próprio artista com arranjos dos músicos Adilson Bandeira, Mauricio Cezar, Nilson Lopes e Marcos FM. Dentre os responsáveis pela tessitura do disco a ficha técnica conta, entre outros, com nomes como Daniel Coimbra (cavaquinho), Caca Barreto (contrabaixo acústico), Julio Cesar (acordeon), Ricardo Freitas (bateria), Adilson Bandeira (sax soprano, clarinete e clarone), Hugo Lins (viola dinâmica), Rafael Marques (bandolim), Fabiano Menezes (violoncelo), Mauricio Cezar (piano), Alex Sobreira (violão 7 cordas), Breno Lira (guitarra semiacústica) e nas percussões Lucas dos Prazeres, George Rocha e Tomás Melo, elencando de modo substancioso este disco nada prosaico e que nasceu quando um Gonzaga reflexivo e saudoso encontrava-se longe de sua terra deixando-se dominar pelo irrevogável desejo de voltar as suas origens.

Mesmo que tempo, como diria o poeta, com seu lápis impreciso ponha-lhe rugas ao redor da boca como contrapesos de um sorriso; Gonzaga Leal sabe serenamente aliar-se a ele, deixando-lhe que o mesmo componha seu destino sem nunca deixar de adequar-se condescendente a esse inexorável contexto. Resoluto, Leal traz a prova documental que ele tem o seu próprio tempo e este parece estar longe das formais convenções. Em seu agora o artista pernambucano abarca, de modo sereno e astucioso, o futuro e o passado.

Sua arte não delimita-se e nem faz concessões e procura trazer impregnada em sua gênese a mais profunda verdade acompanhado por um rigor estético que vem do seu âmago e que agora apresenta-se de modo mais intenso como pode-se observar em “De mim”, um projeto que suplantou desejos maiores e fez com que a impulsividade do agora aliasse-se de modo reflexivo as mais diversas reminiscências. Astuto, Gonzaga sabe como contemplar a saudade adequando-se serenamente ao tresloucado tic-tac do relógio, permitindo-se a pertinente e propícia condição para a atemporalidade. Senhor do seu tempo Gonzaga Leal consegue imergir em cada segundo e dele tirar o seu melhor através da sapiência e disciplina, adjetivos que só ele, o tempo, é capaz de nos trazer. Nos percalços do passar das horas talvez haja avarias, no entanto o artista mostra que ao nos permitir, de modo complacente, encarar a frenética ampulheta do tempo tudo se atenua.

Aos amigos leitores seguem duas canções. A primeira trata-se de “Água serenada”, de autoria da mineira Déa Trancoso. A faixa conta com citação de “Vou na Vida” (Swamy Jr./ Virgínea Rosa) e conta com arranjo e viola de 10 cordas de Jaime Alem:

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A segunda faixa trata-se de uma composição do pernambucano Juliano Holanda. “Ainda Bem Que Hoje Eu Trouxe A Viola” conta com os vocais do autor, de Gonzaga Leal e Públius, artista da nova cena musical pernambucana:

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Site Oficial – Gonzaga Leal


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EM MOMENTO OPORTUNO, LUIZ HENRIQUE REVERENCIA EM GARBOSO PROJETO SILAS DE OLIVEIRA

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Silas de Oliveira tem pela primeira vez um disco dedicado exclusivamente à sua obra, projeto este considerado pontapé inicial as comemorações do seu centenário

Silas de Oliveira nasceu em Madureira, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, no ano de 1916, mas precisamente no dia 12 de Outubro. Desde a infância, apesar da resistência do pai, que era pastor protestante e via na música uma ‘manifestação do diabo’, envolveu-se com o samba a partir de participações nas mais distintas rodas de samba que ocorriam nas cercanias. Relutante, o pai deSilas tentou afastá-lo do universo do samba como pode, inclusive o colocando para lecionar assim que concluiu o científico na escola ao qual era dono, talvez acreditando que exercendo o ofício de educador o filho abandonasse o gosto pela música. Mero engano, pois apesar do esforço, o futuro compositor não consegue esquecer do gênero musical ao qual espontaneamente abraçou e, após conhecer o jornaleiro Mano Décio da Viola (que acabou por se tornar o seu maior parceiro), envereda de vez para o samba ao subir os morros cariocas e frequentar os tradicionais pagodes nas casas das ‘tias’ baianas.

Quando estava com cerca de 30 anos compõe em parceria com Mano Décio o samba-enredo ‘Conferência de São Francisco’ ou ‘A Paz Universal’, defendido pelo Prazer da Serrinha, agremiação carnavalesca da qual faziam parte. Por divergência diversas no carnaval do ano seguinte surgiu a Império Serrano, escola que no ano seguinte a sua fundação já conquista o primeiro de uma série de quatro títulos carnavalescos que viria a ganhar sucessivamente. De 1948 a 1951, só deu verde e branco na folia. A escola foi tetracampeã do carnaval carioca, e os nomes de Mano Décio e Silas espalharam-se por toda a cidade como autores dos sambas-enredos campeões. Dentre os dezesseis sambas compostos para a escola (dos quais 14 foram defendidos no desfile oficial) em quase três décadas dedicadas a agremiação, há diversas canções que ganharam o gosto popular e extrapolaram o período carnavalesco como pode-se conferir a partir dos diversos temas presentes nas composições deste nome que tem talhada em sua biografia a alcunha de ser o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos.

Como pode um artista deste naipe permanecer no limbo do nosso cancioneiro popular sendo lembrado vez por outra sem maiores destaques? Talvez tenha sido este o questionamento que permeou os pensamentos do obstinado do cantor, compositor e pesquisador Luiz Henrique. Bacharel em direito, o incansável Luiz tem na música uma inesgotável fonte de prazer e mesmo enfrentando as mais diversas adversidades, vem sempre buscando trazer ao conhecimento do grande público exímios projetos fonográficos , dentre os quais o álbum duplo “Um Sinhô compositor”, uma homenagem aos 80 anos de saudade do compositor José Barbosa da Silva, o Sinhô, autor de alguns clássicos de nossa música como “Jura” e “Gosto que me enrosco”.

Outro interessante trabalho que consta no currículo do artista é “Pro samba que Noel me convidou”, mais um relevante resgate a favor da memória da canção popular brasileira. Tal projeto reitera, sem exageros, o aurífice existente no artista nesta homenagem a Noel Rosa e seus contemporâneos como é possível atestar a partir de um repertório meticulosamente escolhido. Dentre as faixas presentes pode-se citar “Perdi o meu pandeiro”, de autoria de Cândido das Neves, o Índio, representativo compositor da música popular brasileira. Tal canção composta na década de 1930 ganhou o seu primeiro registro em disco justamente em “Pro samba que Noel me convidou” como chegou a ser abordado em nossas páginas à época do seu lançamento como pode-se conferir através da pauta “A ESMERADA PERSONIFICAÇÃO DO SAMBA”.

Agora Luiz Henrique volta a cena fonográfica com “O Império de Silas, ao grande mestre do samba Silas de Oliveira”, reiterando o seu, digamos, compromisso com o resgate de grandes nomes de nossa música e, em especial, do universo do samba. Assim como os demais, o álbum foi gravado de modo independente e apresenta catorze composições em doze faixas muito bem selecionadas e equacionadas entre clássicos da lavra do compositor carioca e músicas pouco conhecidas do seu repertório. Sucessos como “Apoteose ao samba” e “Heróis da liberdade” dividem espaço com composições como “O Império tocou reunir”, “Caçador de esmeraldas”, “Amor aventureiro” e “Desprezado” (Todas em parceria com Mano Décio e esta última assinada também por Manoel Ferreira). Outras da lavra do próprio Silas como “Calamidade”, “Aquarela brasileira”, “Pernambuco, leão do norte” e outras com distintos parceiros como “Meu drama (Senhora tentação)” (a quatro mãos com J.Ilarindo) “Me leva” (parceria com Anísio Silva e José Garcia), “A lei do morro” (de autoria também de Antônio dos Santos), “Os cinco bailes da história do Rio” (com Bacalhau e Dona Ivone Lara) e “Rádio patrulha” (composição também assinada por Marcelino Ramos, Luiz Firmino dos Santos e J.Dias).

Em uma verdadeira celebração a este grande nome do samba o disco conta com a participação de nomes como Jorginho do Império, (filho do saudoso Mano Décio), Alex Ribeiro (filho do não menos saudoso cantor e compositor Roberto Ribeiro) e Silas Júnior, filho do homenageado. Já na tecitura sonora do álbum há nomes como o de Dirceu Leite (Clarone, Clarineta e Flauta) e o do violonista Rafael dos Anjos. Toda a produção é assinada pelos músicos Julio Florindo (atuando também no baixo e Repique) e Thiago da Serrinha (que executa no disco pandeiro, Tambor, Bandolim, Tamborim, Repique e entre outros instrumentos).

Esta festa sonora conta também com a colaboração de nomes como Quininho da Serrinha (Tantan, Tambor, Cuica, Caixa, Tamborim, Repique de Anel e Reco Reco), Marcio Vanderlei (no Cavaco), Adilson Didão (Surdo, Caixa, Tamborim e Ganzá), Rafael Mallmith (Violões), Tina Werneck (Viola), Cacá Colon (Caixa Marcial), Aquiles de Moraes (Trompete), Aquiles de Moraes (Flugel horn), Junior de Oliveira (Frigideira, Prato e Faca) e Everson Moraes (Trombone). O coro ainda conta com os nomes de Ary Bispo, Analimar, Hamilton Fofão, Jussara Lourenço. Há ainda a participação da Velha Guarda Show do Império Serrano (com os componentes Capoeira, Silvio, Ivan Milanez, New Lee, Cizinho, Tia Vilma, Lindomar e Rachel Valença).

“O Império de Silas, ao grande mestre do samba Silas de Oliveira” atesta o porquê Silas de Oliveira é considerado um dos grandes nomes do samba, assim como também a razão pela qual seu nome fez-se bastante respeitado e reverenciado, em particular no meio carnavalesco. Não é à toa que hoje ele é considerado o ídolo maior do GRES Império Serrano. Já era tempo para esta homenagem e este marco, que é um disco dedicado exclusivamente as composições de Silas de Oliveira. E ainda bem que quem teve esta ideia e ousadia foi Luiz Henrique, artista que inconscientemente traz em seus trabalhos esse compromisso de resgatar grandes valores de nosso cancioneiro sempre trazendo consigo uma gama de características que engrandecem tais projetos.

Luiz traz consigo não apenas a preocupação de um intérprete que busca sempre apresentar ao seu público um repertório de primeira grandeza, mas também uma característica que o vem destacando ao longo dos últimos anos em seus projetos fonográficos, mesmo que de forma espontânea: um compromisso que busca o resgate da nossa Música Popular Brasileira, em especial do nosso samba. Feito de modo independente, “O Império de Silas” faz-se por si só mais uma prova do indelével amor do artista para com a valorização da música a partir do caminho das pedras. Trilha esta difícil por, em sua discografia, mostrar-se mais um projeto que rema contra a maré comercial vigente apesar da indiscutível qualidade. É a primeira vez que Silas tem um trabalho exclusivamente dedicado a sua obra e, sem dúvida, o álbum é um marco para a música brasileira e, em especial para o samba, ao homenagear o centenário de um grande compositor como Silas.

O disco torna-se uma prova documental da valorização e respeito a história de uma cultura onde a falta de memória coletiva é uma característica bastante arraigada. É Trabalho fundamental não apenas para aqueles que buscam uma fonte de fidedigna de consulta mas, principalmente para aqueles que são apaixonados pelo samba, uma fonte inesgotável prazer. Que “O Império de Silas, ao grande mestre do samba Silas de Oliveira” seja considerado o pontapé inicial para as comemorações do seu centenário a acontecer em 2016.

Fica aqui para os amigos leitores uma das canções presentes no álbum. Trata-se de “Aquarela Brasileira”, canção que ganhou o gosto popular desde a sua apresentação no desfile carnavalesco carioca em 1964 pelo G.R.E.S. Império Serrano (RJ):

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Maiores Informações:

Facebook – Luiz Henrique

Contato para shows:
cantorluizhemrique@uol.com.br
(21) 99175-2794 // (21) 98329-5887

Para aquisição do álbum: soniamonteproducoes@gmail.com


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 12

JACKSON

Hoje resolvi retomar uma série que comecei a escrever já faz algum tempo contando algumas curiosidades sobre ícones de nossa música popular brasileira. Depois de trazer ao conhecimento do público leitor algumas histórias e estórias sobre nomes como Tom Jobim, Antonio Maria, Tim Maia, Vinicius de Moraes e tantos outros que perpetuaram seu nome no cancioneiro popular brasileiro. Como estamos às vésperas dos festejos juninos aqui no Nordeste, não poderia de deixar abordar o nome de um dos mais relevantes artistas de todos os tempos da música nordestina que foi o paraibano de Alagoa Grande José Gomes Filho ou, como tornou-se nacionalmente conhecido, Jackson do Pandeiro.

Este nome artístico surgiu de um apelido que ele mesmo se dava: Jack, inspirado no mocinho de filmes de faroeste cujo nome era Jack Perry. Até chegar a Jackson do Pandeiro, chamou-se a princípio de Zé Jack e, quando começa a ganhar destaque como pandeirista ainda em Campina Grande passa a ser conhecido como Jack do Pandeiro. A mudança de Jack para Jackson só ocorreu por sugestão de um diretor de programa da rádio a qual Jackson fazia parte do casting, pois acreditava que tal mudança ficaria mais sonoro e causaria mais efeito quando fosse ser anunciado.

Nesse meio tempo, ainda nos anos de 1940, forma a dupla Café com Leite com o amigo Zé Lacerda (que foge para casar e acaba desfazendo a dupla). Em seguida muda-se para João Pessoa e passa a integrar o casting da Rádio Tabajara, onde retoma a dupla Café com Leite (dessa vez com Rosil Cavalcanti, autor de cerca de 130 músicas, dentre estas diversos sucessos gravados pelo músico posteriormente). Depois de desfeita a dupla com Rosil começa a delinear a sua carreira a partir de apresentações para além da capital paraibana. Em uma dessas excursões, ao ir se apresentar na capital pernambucana, tem a oportunidade de conhecer a olindense Almira Castilho de Albuquerque, radioatriz da Rádio Jornal do Commercio e que viria a se tornar a sua primeira esposa.

Em 1953, quando encontra-se com trinta e cinco anos, ganha a oportunidade de ter o seu primeiro registro fonográfico. E neste 78rpm consta dois dos maiores sucessos de todos os tempos não apenas da carreira do artista, mas do cancioneiro popular nordestino. Nele Jackson grava “Sebastiana“, do seu amigo e ex-parceiro Rosil e “Forró em Limoeiro“, composto por Edgar Ferreira (que no ano seguinte o presenteou com mais três canções: “Um a um“, “Vou gargalhar” e “Dezessete na corrente“, este último com Manuel Firmino Alves. Sem contar outros sucessos como “Ele disse“, uma homenagem póstuma ao presidente Getúlio Vargas morto dois anos antes da homenagem).

Além dos ritmos juninos, Jackson do Pandeiro também foi responsável pelo registro de frevos (a exemplo de “Micróbio no frevo“), marchas (“Velho sapeca“), sambas (“O que era a favela“), cocos (“Cajueiro“) entre outros ritmos que corroboraram significadamente para tornar o saudoso músico paraibano como um dos grandes ícones não apenas da música nordestina, mas nacional. Suas interpretações e suingue fizeram e continua a fazer escola mesmo passado 34 anos de sua morte, uma vez que sua última apresentação ocorreu no 03 de julho de 1982 na III Festa Junina da Associação de Servidores do Ministério da Educação e uma das fotografias desta apresentação é a que ilustra esta pauta.

Vale registrar que antes de estourar como cantor e instrumentista na década de 1950, Jackson chegou a encenar o chamado pastoril profano, onde ficou conhecido em um dos bairros de Campina Grande como palhaço Parafuso. Além desse ofício, exerceu também o de arqueiro, pois foi goleiro do Central de Campina Grande.
Aos amigos leitores ficam registradas aqui duas canções na voz do saudoso Rei do ritmo.

A primeira trata-se de “Dr. Boticário“, uma composição do próprio Jackson em parceria com Nivaldo Lima e gravada pelo paraibano em 1961 no LP “Ritmo, melodia e a personalidade de Jackson do Pandeiro”:

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A segunda canção trata-se de “Secretária do Diabo“, música de autoria de Osvaldo Oliveira e presente no LP “O cabra da peste”, disco lançado em 1966:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 11

GONZAGA

Falar da importância de Luiz Gonzaga para a música popular brasileira (em especial a nordestina) é chover no molhado. Desde os idos anos da década de 1940 quando o cantor e instrumentista começou a escrever seu nome na história do cancioneiro popular que delineava-se ali um grande representante da música da região.

Nos idos anos de 1930 o representante mais popular da música produzida em Pernambuco era Manezinho Araújo e suas emboladas, que animava os auditórios das rádios do Sudeste do país e em especial do Rio de Janeiro (então capital do país). Diferente da embolada produzida por seu conterrâneo, Luiz Gonzaga chega trazendo ao centro do palco dos grandes centros urbanos a sanfona e uma musicalidade contagiante e embriagadora intrinsecamente ligada à sua região.

Sem saber, Gonzaga estava seguindo à risca a ideia atribuída ao russo Leon Tostoi: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. No entanto era preciso somar forças ao seu instrumento e melodias, e para isso o destino o colocou diante de dois exímios compositores que souberam como poucos transcrever para as melodias de Gonzaga aquilo que ele queria de fato expressar. Isso talvez tenha ocorrido pela coincidência de terem nascido na mesma região.

Ao lado do cearense Humberto Teixeira, Gonzaga deu início a trajetória de sucessos. O grande encontro da dupla se deu em agosto de 1945, no escritório de advocacia de Humberto, localizado no centro do Rio de janeiro. Gonzaga reiterava ao advogado o desejo em representar a música de sua terra nos grandes centros do país e ali mesmo os dois já começaram a dar vida a canção que viria a se tornar o hino não-oficial do Nordeste, Asa Branca.

Dali em diante foram responsáveis pela produção de diversos sucessos na carreira do cantor como “Assum preto”, “Baião”, “Xanduzinha”, “Estrada de Canindé”, “Juazeiro”, “Respeita Januário”, “Qui nem jiló”, “No meu pé de serra” e tantas outros chegando a um total de 32 canções gravadas (entre parcerias e canções compostas pelo advogado e compositor de Iguatu).

Outro nome de extrema importância na carreira artística de Gonzaga foi o do médico e compositor José de Sousa Dantas Filho, mais conhecido como Zé Dantas, morto prematuramente aos 41 anos de idade mas que deixou como legado dezenas de composições e, em sua maioria, em parceria com Gonzaga. É de autoria da dupla clássicos como “Noites brasileiras”, “A dança da moda”, “A volta da Asa Branca”, “Acauã”, “ABC do sertão”, “Derramaro o gai”, “Vem Morena”, “Paraíba”, “Xote das meninas”, “Riacho do navio” e tantas outras.

Vale registrar que é de uma canção da dupla (Forró de Mané Vito) que surge pela primeira vez utilizando o termo forró. Com Dantas, entre parcerias e canções de autoria apenas do médico-compositor, Gonzaga fez 52 registros fonográficos reiterando a imprescindível importância da dupla na história do cancioneiro brasileiro.

Outro importante nome na carreira de Gonzaga foi o do saudoso João Silva, o compositor mais gravado pelo Rei do baião. É de sua autoria sucessos da careira de Gonzaga como “De fia a pavi” (com Oseinha), “Danado de bom”, “Deixa a tanga voar”, “Forró de cabo a rabo”, “Nem se despediu de mim”, “Pagode russo”, “Sanfoninha choradeira”, “Vou te matar de cheiro”, “Um pra mim, um pra tu” e tantas outras em parceria com Gonzagão. A parceria intensificou-se na última década de vida do sanfoneiro como é possível perceber a partir das canções que compõem os últimos discos do cantor e instrumentista.

Luiz Gonzaga gravou 625 músicas. Talvez nem houvesse necessidade de tantos registros fonográficos quanto o legado que ele deixou para escrever seu nome em definitivo dentro de nossa música. Duas ou três parcerias com Zé Dantas, Humberto Teixeira, Miguel Lima e João Silva; uma ou duas interpretações de nomes como Antonio Barros, Patativa do Assaré e Gonzaguinha já seriam suficientes para torná-lo quem hoje ele é: o pernambucano do século, em eleição onde constava nomes dos mais variados seguimentos existentes na história do estado. Mesmo assim Luiz Gonzaga desbancou nomes como Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Josué de Castro e tantos outros.

Fica para audição dos amigos leitores duas canções interpretadas pelo saudoso Rei do Baião. A primeira trata-se de “Delegado no coco”, canção compostas por Zé Dantas e registrada por Gonzaga em 1957:

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A segunda canção trata-se de “Velho novo Exu”, baião composto por Gonzaga em parceria com Sílvio Moacir de Araújo e gravada em 1954:

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DUO CALAVENTO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 duo

Exímios músicos, Diogo Carvalho e Leonardo Padovani formam o Duo Calavento, harmonizando de modo ímpar o inusitado encontro entre o violão e o violino

De um neologismo surge o inusitado encontro entre um violino e um violão. De dois talentos surgem a perfeita sincronia entre dois instrumentos e alguns dos maiores autores da música mundial. Eis o Duo Calavento, dupla formada pelos músicos Diogo Carvalho eLeonardo Padovani e que vem conquistando plateias por todos os lugares onde tem passado, seja no Brasil ou no exterior. Após serem apresentados aqui mesmo no Musicaria Brasil como pode-se conferir a partir da pauta O ERUDITO E O POPULAR EM VERSÕES PARA VIOLÃO E VIOLINO, eles agora voltam ao nosso espaço cedendo esta entrevista exclusiva para o deleite dos nossos leitores. Nesta agradável conversa os músicos falam sobre como surgiu a ideia de formar o duo, como vem sendo a divulgação deste primeiro álbum da dupla, a escolha do repertório dentre outras curiosidades. Boa leitura!

Diogo, aos cinco anos de idade você começou sua formação musical ao piano. Posteriormente ganhou um violão e conseguiu alinhar os dois instrumentos por um dado momento. O que o fez decidir de vez pelo violão como instrumento de trabalho?

Diogo Carvalho – Minha decisão pelo violão aconteceu simultaneamente a meu maior interesse pelos estilos relacionados ao instrumento, como choro, rock, violão clássico e a canção brasileira. Esse processo se deu a partir de meus 11 anos. Depois disso, aos 14, iniciei minha vida profissional, como violonista, tocando em bares e casas noturnas. O interessante é que minha relação com o violão sempre foi pela música, e não pelo instrumento em si, ou seja: eu não sou do tipo que só escuta música para violão.

E você Leonardo? Em sua biografia consta que o envolvimento com a música deu-se desde os nove anos de idade. O violino foi sua primeira opção? Houve alguma influência para a opção deste instrumento?

Leonardo Padovani – Sim, me apaixonei pelo violino desde muito cedo. Tive influência da igreja que minha família frequentava e à qual me levava desde que nasci. Lá existem orquestras e eu passei minha infância ouvindo todos os instrumentos. Apesar da paixão pelo violino, me lembro de ter um certo fascínio pela “linha do baixo” em tudo o que ouvia, que era quase sempre executada por tubas, eu gostava de cantar o que eles tocavam.

Como se deu o encontro musical de vocês?

LP – Nos conhecemos na USP em 2002. Em 2005 Diogo me convidou para fazer parte de um trabalho de palestras musicadas para empresas, que fazemos até hoje. A partir daí fomos descobrindo muitas afinidades musicais, o gosto pelos compositores impressionistas, pela mesma estética musical, harmônica, e em 2008 resolvemos criar o “Duo Calavento”, que no início era apenas “Duo Leonardo Padovani e Diogo Carvalho” – o nome Calavento veio com o tempo, quando descobrimos nossa identidade musical, mas a verdade é que ainda a estamos descobrindo…

DC – Além das afinidades artísticas, existe a afinidade profissional. Sem ela acredito que nenhum conjunto sobrevive, pois o dia a dia é muito trabalhoso (como em qualquer profissão) e o que o público ouve nos concertos ou no CD é só a “ponta do iceberg”. Nós dois gostamos de trabalhar com a mesma intensidade, de fazer nossa arte chegar às pessoas do nosso jeito, com a maior qualidade possível. No caso dos concertos, por exemplo, temos um cuidado especial com a sonorização, para proporcionar ao público um som envolvente, claro e emocionante.

A ideia de formar o duo surgiu a partir de alguma ocasião em especial?

DC – Não houve uma ocasião especial, e sim uma série de ocasiões. Conforme o tempo foi passando, a partir de 2005, nossas afinidades foram tomando força e isso ficou nítido em nossas performances. A formação do duo acabou sendo “automática”, embora tenha ocorrido em longo processo. Contribuiu decisivamente também a resposta do público, que mostrou interesse em nosso jeito de tocar, e nos incentivou muito a desenvolver nosso trabalho.

Mesmo já estando há alguns anos reunidos, só agora vocês apresentando o primeiro projeto discográfico. O que fez vocês protelarem por tanto tempo esse registro?

LP – Nossa ideia inicial para o duo era fazer apenas música erudita, transcrever obras que gostamos para violino e violão. Transcrevíamos tudo juntos, mas no meio do processo começamos a compor e percebemos um mundo mais vasto para desbravar. O processo se deu de forma gradual, fizemos muitos shows e aos poucos descobrimos qual era o formato da nossa arte. Irreverência, pitadas de humor e contrastes que levem a plateia à uma viagem de diferentes sensações e imagens. Creio que esse foi o tempo necessário para essa busca de identidade musical.

DC – Exatamente. Na verdade o disco só foi gravado quando o Duo Calavento se sentiu pronto para registrar sua obra.

A música instrumental brasileira é notoriamente conhecida por sua qualidade. No entanto, muitas vezes a valorização e o reconhecimento de alguns artistas do gênero se dá longe do Brasil. Haveria, na opinião do vocês, alguma justificativa plausível para isso?

DC – Este é um assunto é bastante controverso, e precisaria de muitas páginas de comentários… Sendo assim, destaco apenas três pontos que acho relevantes:

– a falta do ensino de música é um fator decisivo, pois as pessoas estão muito distantes da arte musical, do ato de tocar um instrumento e também do ato de ouvir música.

– no Brasil infelizmente não existe o enorme gosto pela música instrumental que existe na Europa, parte da Ásia e EUA.

– o pouco profissionalismo dos músicos no Brasil também contribui para a pequena valorização do gênero. Basta lembrarmos do caso de João Pernambuco, por exemplo, nome importantíssimo da música brasileira do início do século XX, já reconhecido em sua época, que por amizade foi contratado como funcionário público para deixar de trabalhar com serviços pesados, e poder se dedicar apenas ao violão.

No álbum há sete faixas que não são da autoria de vocês como, por exemplo, “Bangzália” do Tom Jobim e “Czardas”, do italiano Vittorio Monti. Sem contar que há também uma canção do Piazzolla e outra do Tchaikovsky. Como se deu a escolha desses compositores para fazer parte do álbum?

LP – Czardas é uma música que fez parte da minha infância, numa fase de deslumbre com as possibilidades sonoras do instrumento. Creio ter ouvido pela primeira vez num disco de vinil do meu tio. Além disso, para nós ela é sinônimo de diversão, alegria, o que nos levou à escolha de tocá-la sempre ao final dos shows, como última música, e à nossa maneira. Quanto a Piazzolla, fiz parte da Orquestra Típica de Tango “De Puro Guapos” por 5 anos, e nesse período me apaixonei por Piazzolla, ele está na minha “bagagem” musical e é mais um gosto em comum entre mim e Diogo.

DC – Bangzália me foi sugerida por Ulisses Rocha, um de meus mestres. Parte importantíssima das aulas de Ulisses são as sugestões musicais – ele conhece muito, de muitos estilos, e indica sempre as músicas e gravações mais especiais. Tom Jobim tem uma obra instrumental maravilhosa, e espero que nossa gravação estimule as pessoas a conhecer mais da obra dele. Em relação a Tchaikovsky, a peça é uma maravilha, um clássico dos clássicos, divertidíssimo.

LP – E nós nos divertimos muito fazendo nossa versão do Tchaikovsky com o violino tocando em pizzicato quase que o tempo todo da música.

Dentre esses autores escolhidos chamou minha atenção uma certa abrangência quanto à música produzida na França. Afirmo isto porque ao mesmo tempo em que há uma aproximação do impressionismo francês a partir de Debussy vocês trazem Satie, mentor do Les Six, grupo que à época reagiu contra a influência do impressionismo na música. Vocês poderia explicar um pouco melhor acerca da escolha desse repertório francês?

DC – Me lembro de quando ouvi Debussy pela primeira vez. A obra dele me mostrou aonde música pode chegar, mudou minha vida. Eu tinha por volta de 13 anos. Conhecia muito Beethoven, Mozart, Bach, etc. É claro que eu já gostava muito dos autores antigos, mas Debussy tinha algo a mais: ele reunia uma música inventiva, cheia de sensações e imagens, a uma técnica composicional brilhante, onde tudo tem um sentido próprio, e se relaciona a uma linguagem quase mágica.

Debussy comentava que gostava de compor “de ouvido”, ou seja, livre de regras e limitações pré-concebidas. Isso não quer dizer que ele não tivesse sólida formação teórica, e sim que ele não se limitaria apenas à sua formação teórica! A música impressionista traria climas, atmosferas, imagens, além de frases musicais e formas clássicas. Nós nos identificamos muito com este pensamento, e também com a resposta maravilhosa que os músicos franceses deram aos problemas da composição musical no final do século XIX e começo do XX.

O impressionismo também é o tema de meu primeiro disco solo: “Impressionism – Acoustic Guitar Solo”, no qual interpreto minhas transcrições para violão solo de obras de Debussy, Ravel e Satie.

LP – O gosto por esse repertório foi o primeiro, de muitos em comum, que nos motivou a criar o Duo Calavento.

No disco há oito composições da autoria de vocês, sete em parceria. Dentre essas faixas “Janelas ao Sol”, que rendeu a vitória no Botucanto Instrumental 2009. Outras que chamam a atenção pelo inusitado título é a “Suíte da Sogra”. Como se dá o processo de composição de vocês?

DC – Nosso processo composicional é um tanto caótico. Normalmente apenas ficamos tocando e improvisando, até que surja algo a ser desenvolvido. Não conheço muitos autores de música instrumental que trabalhem em parceria – acho que porque é bastante complicado! Um caso notório é Tom Jobim e Newton Mendonça, que decidiam cada nota e acorde juntos, e também a letra.

O interessante é que cada música é construída por um processo diferente: “Janela do Sol”, por exemplo, foi composta quase que de forma matemática, parte por parte, sequencialmente. Já “Ponte das Cordas” foi fruto de uma longa depuração de uma série de ideias sobre nossa viagem para Goiás.

A “Suíte da Sogra” começou em um encontro para compor uma música nova, e no meio do processo não muito produtivo desse primeiro dia surgiu a ideia de falar sobre este tema tão irritante e tão universal. A partir deste ponto, em que tivemos a ideia inicial, a música foi construída aos poucos, e a história se desenrolou. Nunca revelaremos de onde veio a ideia!

Como estão vendo a divulgação deste álbum? A agenda para o segundo semestre se restringirá ao Brasil ou vocês já começarão trabalhar o álbum no Exterior também?

DC – A divulgação do álbum no Brasil é realizada pelo super Matias José Ribeiro, um profissional excelente, divertido e atencioso. Os veículos de imprensa tem sido receptivos, e estamos muito contentes com o público que alcançamos com este lançamento. No segundo semestre tocaremos pelo Brasil. Temos propostas para alguns locais, e estamos trabalhando para realizar uma turnê no Nordeste. Para o Exterior iniciaremos a divulgação depois da Copa, e em 2015 provavelmente faremos uma turnê europeia, principalmente para levarmos o disco para a Alemanha, onde já tocamos antes, e onde a “Suíte da Sogra” mostrou ser realmente um “tema universal”!


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XICO BIZERRA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

xico

Considerado um dos compositores contemporâneos mais expressivos do forró pé-de-sera, Xico Bizerra completa 15 anos de carreira

As letras produzidas por Xico Bizerra são arraigadas de nordestinidade. Há quem identifique nelas o cheiro do bode e de terra molhada. Nelas é possível vislumbrar-se a caatinga e sentir a leve brisa existente nas paisagens dos rincões da região. Tudo isso com um adicional: um astuto olhar sertanejo que, com destreza, sabe levar à sua pena toda a poesia que emana do lugar de onde veio somando a esse dom todas as experiências vivenciadas em outras pairagens mais cosmopolitas.

Pode-se afirmar sem sombra de dúvidas que é na obra de Xico que a frase “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão…” atribuída a Antônio Conselheiro que faz-se, de fato, realidade, uma vez que a sua obra transcende lugares e estigmas; e isto por si só acaba torná-lo um dos mais representativos compositores da nova geração da música nordestina com uma obra que abrange desde o tradicional forró pé-de-serra, xotes e baiões a outros gêneros que constituem a rica sonoridade existente em nosso país como valsas, chorinhos dentre outros distintos ritmos.

Homenageado pelo selo Passadisco pela passagem dos 15 anos de carreira com a coletânea “Pernambuco Forrozando para o mundo” (disco este que foi abordado aqui em nosso espaço recentemente a partir na matéria “EM MAIS UM VOLUME, A EXITOSA SÉRIE “PERNAMBUCO FORROZANDO PARA O MUNDO”, ABARCA A OBRA DE XICO BIZERRA”), Xico generosamente disponibilizou-se para ilustrar mais pauta aqui em nosso espaço. Neste bate-papo exclusivo, o poeta e compositor revela-nos quais os projetos em andamento, fala um pouco sobre o seu lado escritor entre outras peculiaridades que corroboram para para justificar o porquê sua obra vem sendo gravada pelos mais representativos nomes da genuína música nordestina de modo cada vez mais constante.

Xico, você poderia nos contar um pouquinho de suas reminiscências de infância e de como surgiu esta sua intrínseca ligação com a música?

Xico Bizerra – Minha mãe tocava bandolim e meu avô, além de professor de português e latim, era Poeta. São minhas influências maiores. Foi ele o maior incentivador desse fazedor de letras. Falo assim por não me considerar Poeta. Acho que o termo vem sendo muito vulgarizado, banalizado, ultimamente. Todos se acham ou são tratados como tal, quando, na verdade, ser Poeta é uma coisa muito maior, mais sublime. Poetas são Louro do Pajeú, Pinto do Monteiro, Manoel de Barros, João Cabral de Melo, Manoel Bandeira, meu avô, dentre outros. Os que rimam coração com paixão são apenas pretenciosos. E eu, como disse acima, sou apenas um ajuntador de palavras, um fazedor de letras. Para não parecer que é falsa modéstia, considero-me um bom letrista de música popular.

Você nasceu em uma região que é um profícuo manancial de cultura e poesia. Lugar onde os mais distintos artistas revigoram suas inspirações, inclusive matrizes como o saudoso Luiz Gonzaga. Qual a influência do Crato e toda aquela região em sua obra?

XB – Antes de ser apenas uma identidade geográfica, nascer no Cariri cearense é ter a ventura de ser conterrâneo de grandes nomes da literatura e da música brasileira, conhecidos ou não. De onde eu vim se ouviam as violas dos cantadores e a cada esquina havia uma sanfona entoando os baiões de Gonzaga. Nas feiras os emboladores embalavam meus sonhos infantis. A poesia de Cego Aderaldo era escutada em todos os grotões do Cariri. Patativa fazia seus versos bem pertinho do Crato. Como não se influenciar por tão belo cenário?

Só a série Forroboxote conta com quase 150 registros de sua autoria. Você tem em números a quantidade de canções compostas nestes quinze anos de carreira? Qual foi aquela que você considera o pontapé inicial na arte da composição?

XB – Minha primeira música, composta meio por brincadeira aos 16,17 anos, é AROMA DE ALEGRIA, que entrou no FORROBOXOTE 4, na voz de Alcymar Monteiro.

Por falar em Forroboxote. a série hoje conta com dez títulos, dezenas de intérpretes e mais uma infinidade de canções registradas. Você já procurou contabilizar para além da série e de modo oficial quantos intérpretes possui e a quantidade de canções gravadas?

XB – Sim, claro. Como burocrata que fui por 35 anos (aposentei-me depois de 28 anos de Banco Central onde fui Inspetor do Mercado de Capitais) trouxe para a vida ‘artística’, digamos assim, as manias de organização e controle. Tenho contabilizado tudo sobre minha obra e sei com precisão o número de canções compostas, de gravações, de intérpretes e parceiros e tudo o mais. Hoje são 276 músicas compostas, 205 em parceria e o restante, 71, como autor de letra e música. Esse número se converte em 910 se consideradas as regravações de uma mesma música. SE TU QUISER, por exemplo, conta com 170 gravações. Ela já foi gravada como arrasta-pé, xote, rock, brega, canção, pop e até uma versão em inglês gravada no Canadá. Quanto a intérpretes o número hoje chega a 338. Ressalte-se que este número se refere apenas àqueles registros que tenho a comprovação física da gravação, CD ou DVD. Hoje, como se sabe, grava-se em toda esquina e o pedido de autorização ao autor para gravar sua obra virou obra de ficção. Então, certamente os números aqui citados são bem menores do que aqueles que existem por aí. Tenho, ao longo desses 15 anos, 72 parceiros, aí considerados inclusive os de músicas ainda inéditas, como Juliano Holanda, Zé da Flauta, dentre outros. Uma parceria que me honra muito é com Luiz Gonzaga – PISE DE MANSINHO. A história é longa mas qualquer dia eu conto.

Até pouco tempo atrás seus maiores intérpretes eram Irah Caldeira e Leninho de Bodocó, ambos com 27 músicas gravadas. No topo do ranking figuram estes nomes ainda ou já foi ultrapassado por algum outro?

XB – Gravados em seus próprios trabalhos ou participando de obras de outras artistas, os maiores intérpretes de minha obra são, pela ordem quantitativa: Leninho de Bodocó – 31; Irah Caldeira – 28; Santanna – 21 e Maciel Melo – 16.

A chegada de Bernardo, seu neto, foi sem dúvida um marco em sua vida. Você que já tem projetos fonográficos e literários voltados para as crianças pretende dar continuidade a trabalhos para este segmento com esse combustível a mais?

XB – CANTIGAS PRA BERNARDO, pouca gente conhece, foi um ‘disquinho’ que fiz para presente de maternidade. Cinco músicas cantadas por Maria Dapaz, Maciel Melo, Vanutti Macedo, Leninho e Marcelo Melo do Quinteto Violado louvaram a chegada de Bernardo. O SER TÃO CRIANÇA 2 está prontinho, músicas e letras todas minhas. Esse Projeto me deu muitas alegrias e rendeu homenagens em duas dezenas de escolas na região metropolitana do Recife. E tem ainda o livro PEQUENINAS HISTÓRIAS PARA GENTE PEQUENINA, também pronto, esperando a hora oportuna para levar ao público.

Sua incursão pela literatura já rendeu-lhe alguns títulos, dentre os quais o livro de crônicas “Breviário lírico de um amor maior que imenso”. Já há em vista algum outro projeto neste contexto?

XB – Literatura é uma atividade que me dá muito prazer. Há o livro a que me referi no tópico anterior – PEQUENINAS HISTÓRIAS PARA GENTE PEQUENINA. Na fila, um romance – BASTIÃO DO JESUS BOM – em elaboração bem adiantada, mas parado, atualmente. Falta coragem e sobra preguiça para continuar escrevendo, mas a idéia está toda na minha cabeça. Conta a história do amor maluco entre Bastião – um pervertido louco que se torna santo, e Jesuína, uma santa que se transforma numa louca pervertida. O cenário é a cidade imaginária de JESUS BOM, localizada em qualquer sertão de nossos sertões. Também escrevo pequena crônicas para o Jornal da Besta Fubana, Gazeta Nossa, Blog do Lando e alguns outros blogs do Cariri cearense.

O último projeto Forroboxote (“Luar Agreste no Céu Cariri“) foi também o último projeto fonográfico do inigualável Dominguinhos. Como nasceu este projeto? Reza a lenda que o pedido de uma melodia rendeu todas as onze faixas inéditas presentes no projeto e que foram elaboradas em poucos minutos. É verdade?

XB – Um certo dia Dominguinhos me ligou dizendo que queria que eu colocasse letra em algumas canções de sua autoria. Levei-o à casa de um amigo comum – Paulo Vanderley e as melodias, inéditas, foram criadas em pouquíssimo tempo (tenho tudo gravado e filmado). As letras é que demoraram um pouco, pela responsabilidade de ser parceiro de uma pessoa da estatura de seu Domingos. Mas saíram e viraram o LUAR AGRESTE NO CÉU CARIRI. Ainda hoje me belisco para acreditar que recebi esse presente … Infelizmente ele não chegou a ver o projeto totalmente concluído (capa, encarte etc), mas ouviu todas as músicas do jeitinho que estão no disco e disse-me ter gostado muito. Disse isso também numa entrevista a Geraldo Freire, na Rádio Jornal.

“Se tu quiser” dentro do gênero ao qual ela se encaixa é, sem sombra de dúvidas, uma das canções mais gravadas nos últimos tempos. Desse modo, em qualquer país que leva a sério as questões referentes a direitos autorais você estaria relativamente muito bem obrigado apenas com esta canção. Qual a sua visão, como compositor, em relação a arrecadação dos direitos autorais em nosso país? Quais as medidas que poderiam ser adotadas para a melhoria deste contexto?

XB – ‘Em qualquer país que leva a sério as questões referentes a direitos autorais, poderia se afirmar que você estaria relativamente muito bem obrigado apenas com esta canção.’ Disseste-o bem. Infelizmente nosso País não leva a sério a questão e o rendimento proveniente de direito autoral é bem inferior ao que deveria ser. Uma revisão geral na Lei do Direito Autoral e a criação de mecanismos que garantam ao autor uma arrecadação justa e compatível com o nível de execução de sua obra. Não acho que seja difícil. Na América e na Europa existem esses controles. No Brasil, além de seriedade de nossos gestores públicos, falta vontade política para implantação desses mecanismos.

Após as festividades juninas o que podemos esperar referentes a novos projetos?

XB – O MAIS INTIMO DE MIM, projeto de transgressão estética em relação a quase tudo que fiz até hoje. São valsas e canções com apenas dois instrumentos em cada faixa. Penso também num disco de forró, inédito e também numa segunda edição do SER TÃO CRIANÇA, disco infantil que me deu muitas alegrias. Há a pretensão de, em futuro breve e em atendimento a pedidos de vários admiradores, relançar os Forroboxotes de 1 a 4, atualmente fora de catálogo e indisponível para compra. No juízo, muitos projetos. Não sei se dará tempo de executá-lo num período de tempo pequeno. Veremos.

Maiores Informações:

Site Oficial Forroboxote e página da loja Passadisco

 


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O ERUDITO E O POPULAR EM VERSÕES PARA VIOLÃO E VIOLINO

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A perfeita sincronia entre dois instrumentos. Eis o Duo Calavento, um projeto que mescla peças do repertório clássico com o popular

É público e notório que a música brasileira traz em suas origens a fusão de elementos europeus e africanos trazidos respectivamente por colonizadores portugueses e pelos escravos que aqui chegaram ao longo dos últimos séculos. A essa mistura de ritmos foram sendo acrescentado ao longo dos anos outros diversos elementos que fazem hoje o nosso cancioneiro ostentar uma estirpe musical ímpar. A qualidade da música, em particular a instrumental, elaborada no Brasil, dito pelos grandes especialistas no gênero, é algo impressionante. E essa inquestionável característica foi construída a partir da substancial colaboração de relevantes e significativos nomes que deixaram a sua indelével marca não apenas em nossa música, mas também no cenário musical ao redor do planeta.

Nomes como Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, Rosinha de Valença, Paulo Moura, Pixinguinha, João Pernambuco, Victor Assis Brasil e tantos outros acabaram tornando-se exponencial da cultura musical brasileira ao redor do mundo a partir de uma obra construída de modo bastante coerente. Trabalhos como o dos artistas citados contribuíram de modo substancial para sedimentar a música brasileira no patamar que hoje ela encontra-se. E se o pontapé foi dado por esses exímios musicistas, hoje os artistas que procuram dar continuidade a esse legado dever ter consciência e saber sobre a responsabilidade e compromisso de não só inovar como também trilhar novos e exitosos percursos para a nossa música.

Se hoje nossa música instrumental goza dos mais elogiosos adjetivos deve-se a responsabilidade de cumprir compromisso como tem feito a dupla Diogo Carvalho e Leonardo Padovani, que resolveram somar seus respectivos talentos para formar o Duo Calavento, neologismo criado pela dupla e que faz alusão a palavra “cata-vento” – símbolo de alegria, movimento, luz, cor e flexibilidade termos que acabam remetendo, decerto modo, à música e ao espírito dos músicos. Já a ideia do “calar” traduz a expressividade da música em seu nível mais profundo – quando ela cala fundo, no âmago das pessoas – e resgata a importância do silêncio, inerente à música.

Formado em 2008, o Duo Calavento soube respeitar o tempo necessário para a gravação deste seu primeiro projeto. A maturação deu-se na medida certa para que não houvesse nenhum tipo de concessão quanto aos critérios e qualidade do disco. Este tempo foi o ideal para que uma sonoridade aparentemente híbrida assumisse modos rebuscados e modernos ao ponto de tornar-se uníssona, sabendo mesclar de modo ímpar aquilo que denominam por músicas popular e erudita. Outra característica presente nas execuções da dupla é a espontaneidade assumida a cada interpretação. A leveza faz-se presente tanto nos números autorais quanto naqueles revisitados pela dupla.

Ao compor ou escolher obras de outros compositores, o ponto de partida é uma imagem, paisagem, sensação ou ideia, que se transforma num retrato musical”, ambos costumam enfatizar. “Nossos concertos são marcados por um viés teatral, assumimos a atmosfera que cada obra convoca, contamos histórias, comentamos o repertório”, dizem Diogo e Leonardo. O resultado dessa leveza e espontaneidade é possível observar agora, seis anos após a sua formação, no primeiro álbum da dupla e que tem o título homônimo ao dado a parceria e que traz por resultado uma linguagem musical complexa, refinada e acima de tudo comunicativa, transmitindo com facilidade a mensagem musical a qual pretendem.

Expressivos, os músicos conseguiram registrar suas marcas também neste debute fonográfico que chega ao mercado com capa e encarte em português e inglês, visando o mercado ao qual o Duo Calavento tem visitado de modo cada vez mais constante países como a Alemanha, a Itália, a Rússia e a Áustria em turnês que tem levado um pouco do muito do talento existente na música brasileira.

Composto por quinze faixas o primeiro álbum do Duo Calavento traz em seu repertório oito canções assinadas pela dupla de instrumentistas (sete em parceria e uma de autoria solo de Diogo Carvalho). Do início ao fim o disco propõe um discurso musical marcado por uma sólida unidade embora traga composições da lavra de nomes como Vittorio Monti que assina “Czardas“. O tema composto originalmente para bandolim, violino e piano aqui ganha uma releitura a partir do violão de Diogo Carvalho.

Da França os músicos buscam inspiração em um movimento de influência fundamental na concepção musical do duo: o Impressionismo. Baseado nele os músicos pincelaram três nomes: Claude Debussy (“Rêverie“), Erk Satie (Gnossiennes 3) e Gabriel Fauré (“Après un rêve“); Tchaikovsky é apresentado a partir da “Dança da Fada do Açúcar” tradução para “Dance of the Sugar Plum Fairy” (um dos três balés escritos pelo compositor russo); Astor Piazzolla (com “Night club 1960“) e Antonio Carlos Jobim assina a faixa “Bangzália“, composta originalmente em 1985. Cada uma das peças é escolhida de forma muito criteriosa, a partir do universo das impressões da dupla como ambos procuram justificar a seleção das faixas autorais e do compositores presentes que constituem o repertório.

Acentuando a sua identidade musical a partir de um repertório coeso e que preza por a proposta de aguçar através do som toda sensibilidade existente no ouvinte. “Não fazemos o som pelo som”, afirmam Diogo e Leonardo, “queremos é envolver as pessoas e fazer com que sejam levadas pelas sensações que cada música provoca”.

A dupla chega como um substancial alento para a música instrumental brasileira. Trazendo consigo além de uma sólida formação erudita, amplos recursos técnicos e musicais, adquiridos a partir da vasta experiência que cada um traz nas respectivas bagagem. As peculiaridades individuais que a dupla carrega e já expuseram nos mais diversos palcos de todo o mundo faz com que a formação do duo seja mais que a junção de dois exímios e talentosos artistas. Essa afirmação traduz-se na perfeita sincronia entre o violão do Diogo Carvalho e o violino do Leonardo Padovani fazendo do duo peças de primordial importância para a sedimentação das tradições de bom gosto e qualidade que foram iniciadas lá atrás a partir dos grandes mestres.

No campo da música clássica há poucas peças escritas exclusivamente para os dois instrumentos, bem como algumas transcrições e arranjos. No entanto a dificuldade é superada a partir da soma do talento desses dois jovens, inovadores e promissores musicistas que souberam muito bem unir suas técnicas em pró da boa música a partir do violão e do violino. O equilíbrio entre as sonoridades dos dois instrumentos traduz de forma simplória toda o requinte existente na técnica de cada um dos músicos a partir de uma linguagem musical que atende a proposta inicial e atinge em cheio aqueles que são fã da boa música.

A quem ainda não teve a oportunidade de ouvir a dupla atentem para esta sonoridade que tem por propósito transformar a música que executam em verdadeiros retratos musicais sem prenderem-se a rótulos, estilos ou gêneros. Como eles mesmo justificam ao dizerem: “Não estamos presos a um estilo ou ritmo específico – cada obra terá seu caminho próprio, seja pelo baião ou pelo minueto”.

Para deleite do público leitor deixo para audição uma das faixas presentes no disco. Trata-se de uma versão ao vivo da canção “Janela do Sol“, composição da dupla Leonardo Padovani e Diogo Carvalho:

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CECILIA BERNARDES – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com um trabalho que conta com a adesão de relevantes nomes do cenário musical brasileiro, Cecilia Bernardes que estreiou com pé direito.

As onze faixas que compõem “Carta”, álbum de estreia da cantora e compositora Cecilia Bernardes, é um projeto bordado por letras e melodias que entrelaçam-se de modo bastante harmonioso, onde música e poesia fundem-se de modo ímpar espalhando-se ao longo das onze faixas presentes no disco.

Outra característica bastante perceptível neste projeto é a celebração da amizade, a começar pela presença de dois nomes fundamentais para a execução e concepção do projeto: o da cantora, compositora e multi-instrumentista Natalia Mallo e o do poeta e compositor Luciano Garcez como o amigo leitor pode conferir ao longo do último mês de abril aqui mesmo em nosso espaço a partir da pauta “CARTAS E CONFISSÕES EM FORMA DE CANÇÕES NA VOZ DE CECILIA BERNARDES”.

Agora, Cecilia retorna ao nosso espaço para esta conversa exclusiva onde conta-nos detalhes sobre sua carreira a sua harmoniosa relação com o tempo , seu processo de criação, como conseguiu reunir tanta gente interessante em seu primeiro projeto fonográfico entre outros detalhes. Vale a pena a leitura!

* * *

Em sua biografia consta que o seu envolvimento com a música vem ainda de sua infância. Essa relação se deu sob alguma influência familiar?

Cecilia Bernardes – Sim, meu pai amava MPB e sambas antigos, tinha muitos discos, e adorava os musicais da Metro. Ele cantava o tempo todo, com muita alegria, aquilo me encantava. E a Tereza, que trabalhou na nossa casa muitos anos, e morava conosco, ouvia – e ainda ouve – muito samba no rádio, um repertório finíssimo, e a gente cantava junto: Martinho da Vila, Beth Carvalho, Alcione, Originais do Samba, … Não tinha músico na família, mas muita música o tempo todo.

Antes dessa imersão na música e poesia que resultaram em “Carta” você já procurava manter essa relação de proximidade com a música e com as letras ou essa condição foi aos poucos moldando-se na medida que você via que a coisa estava encaminhando-se para a concepção desse projeto?

CB – Não havia projeto, ainda, quando comecei a compor, nesta época, entre 2006 e 2007. Na verdade, eu me via como cantora, mas sem vontade de gravar. A partir do momento em que veio esta fase e comecei a escrever letras e musicar poemas, surgiu a vontade de fazer um disco, pela primeira vez, com algumas das composições.

De fato o pontapé inicial para o surgimento de “Carta” deu-se quando você musicou os poemas do parceiro e amigo Luciano Garcez ou você já percebia que o projeto já era algo irrevogável e essa parceria veio apenas para endossar o que já seria certo?

CB – A parceria foi vital para o nascimento do repertório autoral do disco. O Luciano me deu uma letra e disse, faz a música. Era Pop me. Eu fiz. Então ele disse: pronto, temos uma parceria. Agora vai lá, você é compositora, isso que você está fazendo é música, canção de verdade. E aí eu acreditei, e fui.

Uma das características mais evidentes no álbum é a pessoalidade existente. Dentre as onze canções existentes quase todas levam a sua assinatura solo ou em parceria. Como se deu a escolha do repertório? No caso das composições autorais como vem a ser o seu processo de elaboração?

CB – Na verdade, não sou uma compositora super produtiva, com gavetas lotadas de criações. Componho por levas, e acabei escolhendo na leva de 2006/2007, as mais fresquinhas da época. Só De novo nova era mais antiga. Carta – que é parceria com a Natalia – e Passarinhos foram terminadas depois do processo de gravação iniciado. Quando eu componho, quase sempre começo com uma letra, e depois vem a música. Uso um violão para me guiar na melodia/harmonia, ou às vezes nasce tudo só palavra e voz, e mais tarde vem o contexto harmônico, o cenário todo.

O álbum “Carta” possui uma ficha técnica riquíssima que conta com nomes como Vanessa Bumagny, Sérgio Bártolo, André Abujamra isso pra citar apenas alguns nomes. Como foi possível reunir tanta gente bacana neste projeto?

CB – Sorte minha que são, praticamente todos, amigos queridos, meus e/ou da Natalia Mallo. Nós duas nos sentávamos e pensávamos no que poderia ser a formação, os instrumentos para cada canção, e íamos pensando automaticamente nas pessoas, os músicos que poderíamos chamar. Como a gente não tinha pressa, foi sendo muito orgânico. Nos casos específicos do Abu e do Bártolo, que também produziram, eu chamei ainda antes de começar a parceria de produção com a Natalia, que conheci depois, e acabou se responsabilizando mais tarde também pela direção musical do projeto.

Há uma composição do Chico Buarque onde ressalta a importância do tempo sobre a obra do artista a partir de frases como “Modelando o artista ao seu feitio” e “Vejo o tempo obrar a sua arte… tendo o mesmo artista como tela”. A partir deste contexto pode-se perceber que este seu primeiro foi maturado aos poucos, tanto que foram necessários cerca de 3 a 4 anos para o resultado final. Qual foi o empecilho para que este projeto não fosse concluído antes?

CB – Sim, acho que precisei deste tempo – ou o Tempo – do Chico – precisava de mim – , tanto para amadurecer bem o que precisava amadurecer, entender realmente o que eu estava fazendo, quanto para fazer da melhor forma possível, do jeito que a gente queria, deixando o tempo agir a favor, uma vez que eu não sentia pressa, de verdade. O disco é 100% independente, portanto, sem deadlines, e processo todo foi um aprendizado e tanto. Quando ficou pronto, era aquilo mesmo, o que era pra ser.

Você vem colhendo os mais diversos elogios referentes a este seu trabalho de estreia. Há uma em especial a qual você credita o sucesso do álbum? Esse contexto não acabará corroborando para uma exigência maior ao se pensar no próximo álbum?

CB – Acho que as pessoas que gostam sentem que foi feito com cuidado. Talvez também porque tem uma delicadeza, e nosso dia-a-dia turbulento sinta um certo alívio quando se depara com a delicadeza. Dizem que o segundo álbum é sempre um desafio, sim. Bem, acho que o meu segundo vai ser bem diferente deste. Mas se a gente mantém a alma da coisa, a prerrogativa de fazer algo sincero e de qualidade, dando o nosso melhor, não importa tanto a comparação. E acho que, no meu caso, ainda não rolaria esta pressão.

Você já traz em mente alguma novidade para 2015?

CB – Ainda não! Este disco ainda tem muito o que rodar. Vem clipes novos por aí. O próximo projeto ainda está muito sem forma, é só uma semente, mas acredito que vai ser menos autoral, eu quero mostrar um pouco da música que me faz grata por ser cantora, de artistas e obras que eu amo e admiro.


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SOB A LUZ DE CANDEIA, GRAÇA BRAGA PÕE FIM A IMAGEM NEGATIVA DO SAMBA PAULISTA

GC

Em seu segundo projeto fonográfico solo a cantora e compositora paulista reverencia um dos nomes mais expressivos do samba

Em 1963, Vinicius de Moraes estava de passagem por São Paulo e aproveitou o ensejo para prestigiar aquele que por muitos é considerado o pai da Bossa Nova: Johnny Alf. Todos sabem que um espetáculo intimista requer silêncio e concentração, contexto que diferenciava-se e muito do existente naquela apresentação. Em dado momento o notório compositor irritado com a falta de respeito do público presente para com o amigo grita: “Johnny, vamos embora pro Rio, que São Paulo é o túmulo do samba!”.

Pronto! Estava ali lançada a memorável frase que acabaria por estigmatizar a cidade até os dias atuais mesmo contando em seu “Casting” relevantes intérpretes e compositores do gênero como Carlinhos Vergueiro, Jair Rodrigues, Germano Mathias, Adoniran Barbosa, Eduardo Gudin, Paulo Vanzolini, Noite Ilustrada, Geraldo Filme. Além dessa condição a cidade possui redutos que, de modo singular, prezam pela genuinidade do mais popular gênero musical existente em nosso país como é o caso do popular samba da vela, que ocorre todas as segundas-feiras no bairro paulistano de Santo Amaro desde o ano de 2000 e que tem uma vela como cronômetro para o seu término.

O evento, que é responsável por trazer à tona uma nova safra de cantores e compositores do universo do samba paulista, vem cumprindo um papel fundamental na cena cultural da cidade ao longo desta última década por apresentar em suas reuniões novos e promissores talentos como é o caso desta artista aqui em questão, que egressa desse reduto vem galgando com talento, simpatia e precisão o seu espaço a partir de canções autorais e vigorosas interpretações reiteradas, de modo irrepreensível, a partir dos seus projetos fonográficos como é caso deste tributo feito a Candeia, cantor e compositor que ganhou projeção e relevância no meio musical a partir dos anos de 1950 quando, aos 17 anos, compôs em parceria com Altair Prego, o samba-enredo “Seis Datas Magnas”, campeão daquele ano.

Graça Braga parece que nasceu para o samba. Em cena, a aparente timidez logo dá vez ao seu seivoso canto como é possível perceber em suas apresentações. Compositora, a artista dessa vez preferiu dar vazão ao seu lado intérprete. Para isso foi muito feliz na escolha do homenageado e das pérolas compostas por ele. Egressa do samba da vela assim como do Berço de Samba de São Mateus, a artista traz a música e seu gene, pois vem de uma família de músicos em Pirajuí, cidade do interior paulista.

Com tios que formavam um regional, a mãe tocando e cantando e uma tia porta-bandeira de escola de samba, nada mais natural que Graça enveredasse para o mesmo caminho ainda na adolescência sob forte influência de alguns dos maiores nomes da MPB assim como também do samba como é o caso deste que hoje é reverenciado em sua discografia. Candeia, que faleceu prematuramente aos 43 anos, deixou como legado uma escassa discografia diante da grandeza de sua poesia.

Abrangente, Graça Braga pincelou da obra deste que é considerado um dos baluartes da Portela canções como “Me Alucina” (parceria com Wilson Moreira), “Cabocla Jurema” e “Era Quase Madrugada” (escrita em duo com Casquinha) todas gravadas por Candeia no disco “Luz da inspiração”, de 1977. Do primeiro disco do portelense releituras das canções “Coisas Banais” (parceria do compositor com Paulinho da Viola), “Sorriso Antigo” (assinada a quatro mãos com Aldecy), “Paixão Segundo Eu” e “Dia de Graça” (que faz alusão ao seu nome da intérprete). O garimpo continua a partir de canções como “Acalentava” e “Brinde ao Cansaço” presentes no terceiro álbum de Candeia (“Samba de roda”, de 1975); “De qualquer maneira” (única faixa presente do álbum “Seguinte…: Raiz”, de 1971); “Criança Louca” (faixa que tem entre seus intérpretes Carlinhos Vergueiro que a gravou em 1988 em uma produção fonográfica organizada pela Funarte) e “Pintura sem arte” (registrada pelo autor no álbum “Axé”, de 1978).

O disco ainda conta com duas faixas do autor que foram gravadas pela saudosa Clara Nunes: “Último Bloco”, gravada pela intérprete mineira em 1975 no álbum “Claridade” e “Minha Gente do Morro” registrada em 1979 no álbum “Esperança”.

Sob a direção musical, arranjo e regência de Everson Pessoa, do grupo Quinteto em Branco e Preto, e produzido por Thiago Marques Luiz, “Dia de Graça – O samba de Candeia” conta com a participação de Leci Brandão em uma das faixas e Vitor Pessoa (também pertencente ao quinteto já mencionado) traz em sua tessitura nomes como Sandoval Luzia (cavaquinhos), Vítor Pessoa (surdo), Jorge Neguinho e Gerson da Banda (nas percussões) e Edu Batata,Markinhos Moura, Andrezza Santos no coro. Nas palmas e ambientação o disco conta com a participação do produtor, da intérprete e do diretor musical. Aliás Everson Pessoa também é responsável pela execução de boa parte dos instrumentos de cordas: violões (6 e 7 cordas), bandolim, violinha, contrabaixo e cavaco, dando a este projeto da Lua Music os adornos precisos.

Artista completa, Graça transita de modo seguro e sem nenhum tipo de estorvo entre a interpretação e a composição, mostrando-se de modo incontestável como um das mais expressivos expoentes do samba paulista contemporâneo. A artista faz jus ao nome que recebeu trazendo consigo a graça e a alegria em suas atuações, características inerente ao gênero que abraçou. De modo singular seu vigoroso canto inebria ao mostra-se embevecido daquilo que a canção sugere. mas sem nunca perder a emoção. Ora esfuziante, ora emotiva, não importa.

A artista faz-se porta-voz daquilo que a música quer transmitir. Essa é sem dúvida a sensação daqueles que tem a oportunidade de conhecer um pouco do trabalho desta cantora que chega com talento e precisão para engrossar o cordão daqueles que são capazes de provar por A +B que a afirmação do saudoso poetinha fez nos idos anos da década de 1960 foi extremamente equivocada. Graça chega para contribuir de modo bastante relevante para a correção deste que é um dos grandes equívocos existentes dentro da nossa música popular. E faz isso de modo muito bem feito.

Fica para os amigos leitores duas canções deste projeto que presta uma justa homenagem a este que é considerado ainda hoje um dos mais representativos nomes do samba. A primeira canção trata-se de “Acalentava”, da lavra de Candeia:

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A segunda canção trata-se de “Me alucina”, parceria entre Candeia e o grande Wilson Batista:

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DUZÃO MORTIMER – ENTREVISTA EXCLUSIVA

DM

Após um hiato de quase duas décadas o professor Eduardo Fleury Mortimer volta a cena musical em “Trip Lunar”, projeto que marca o seu reencontro com antigos parceiros e artistas da nova cena musical mineira

Em 25 anos de carreira Duzão Mortimerlançou apenas três álbuns. Os dois primeiros com a banda O Grande Ah! nas décadas de 1980 e 1990 e agora este cujo o título é “Trip Lunar”. Sua escassa discografia apresenta números irrelevantes se levarmos em consideração a produção acadêmica do professor Mortimer como tivemos a oportunidade de apresentar aqui mesmo em nossa coluna ao longo da semana passada a partir da pauta “O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE”. Hoje Duzão Mortimer volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre a sua carreira como como docente, o porquê desses longos hiatos em sua discografia e também como tem sido a receptividade do público em relação a “Trip Lunar”, este que é o seu primeiro projeto solo em mais de 25 anos de carreira entre outros assuntos que vocês podem conferir logo abaixo. Boa leitura a todos!

Dentre suas lembranças qual é a reminiscência mais antiga do seu envolvimento com a música? Houve alguma influência para que você que você viesse a tornar-se músico?

Duzão Mortimer – Olha, eu penso que o envolvimento com a música quase sempre vem do ambiente em que você vive, particularmente o familiar. A minha mãe tocava piano e eu herdei o piano que ela havia ganho como presente de casamento. Quando eu tinha 8 anos, minha mãe comprou um violão e começou a aprender. Assim que ela aprendeu algumas canções, começou a ensinar, primeiro para as minhas 2 irmãs mais velhas. Logo chegou a minha vez de aprender. Mas curiosamente eu sou canhoto e só havia um violão na nossa casa. Então, resolvi tentar assim mesmo, com o violão destro. Tive uma enorme dificuldade para aprender. Minha mãe me mandava para o quarto, fechar bem a porta, ninguém tinha paciência para ouvir os ruídos que eu produzia tentando aprender a tocar. Mas eu era insistente e finalmente, depois de muito esforço, começou a sair um som. Aí, rapidamente eu aprendi todas as músicas que minha mãe sabia e comecei a aprender outras na rua, com os vizinhos. Sim, pois essa era uma época em que a música fervilhava, ecoava por todos os cantos. Em cada esquina de Belo Horizonte havia um “conjunto”, tentando traçar o caminho aberto pelos Beatles. Eu considero que o Beatles revolucionaram a música também pelo fato de serem apenas 4 e conseguirem fazer música. Isso era, de certa forma, novidade, pois até então o que pintava no mercado era big bands, com vários músicos, o que dificultava enormemente quem queria percorrer esses caminhos. Havia também a Bossa Nova, mas essa era mais sofisticada e só vim a conhecer mais tarde. Nesta época, o que pululava em Belo Horizonte eram bandas tocando Beatles e Jovem Guarda. Então, já nesta época eu comecei a me envolver com bandas: me lembro da primeira em que eu dava uma canja ou outra, que se chama “The Exotics”. Todas as bandas eram formadas por duas guitarras, baixo e bateria ou por guitarra, teclado, baixo e bateria, tinham nomes em inglês começados por “The”, a exemplo dos Beatles.

Por falar em influências, você na condição de músico acabou exercendo-a em sua clã. Como você enxerga esse interesse pela música por seus filhos? Há mais estímulos para que eles continuem contextualizando-se com este universo ou você está sempre buscando dar conselhos para que eles ponderem as escolhas nesta área?

DM – Eu penso que na época em que o Ivan Mortimer nasceu respirava-se os primórdios de “O Grande Ah!” na minha vida. Eu começava a compor mais consistentemente, pois havia conhecido o Marcelo Dolabela (poeta, meu parceiro) por intermédio da Regina, a Ré, minha mulher. Eu me lembro do Ivan, quando estava aprendendo a falar, ele já cantava, ou melhor, balbuciava, umas tantas músicas que viriam a constituir o primeiro repertório dessa nova banda, que se lançou profissionalmente em Belo Horizonte no ano de 1983. Então, a música entrou na vida dos meus filhos muito naturalmente, pelo ambiente mesmo. O Ivan era incrível, pois ele tinha um cavaquinho que pretensamente tocava e subia no palco para juntar-se a “O Grande Ah!” sempre que podia. Ele era super musical, desde sempre. A partir dos 6 anos eu coloquei tanto o Ivan como o Lucas no Centro de Musicalização Infantil da Escola de Música da UFMG, e foi aí que eles tiveram a iniciação musical, algo que foi bem diferente no meu caso, que havia sido iniciado pela minha mãe e na rua. O Ivan, quando foi fazer vestibular, decidiu fazer Composição na Escola de Música e eu dei força. Mas com dois anos de escola ele trocou de curso e foi fazer Biologia, algo que também apoiei. O Lucas foi fazer Educação Física, depois fez mestrado na área de Fisiologia do Exercício e aí decidiu largar para mexer com produção musical, algo que discutimos bastante, pois o Lucas se encaminhava bem para fazer carreira acadêmica e eu dava a maior força. Mas ele acabou saindo da Educação Física, e apesar de lamentarmos a sua decisão, também demos força. Agora ele está fazendo a minha produção e isso é fundamental.

Por que o título do álbum acabou sendo “Trip Lunar”?

DM – Primeiro, tem uma faixa do álbum com esse nome. Mas o mais importante é que esse nome resume a viagem que foi fazer todas essas canções. Pois a maioria foi feita no interstício da minha produção para “O Grande Ah!”. São canções que eu sempre gostei, que foram muita inspiradas, e que não tinham tido oportunidade de serem tocadas. Quando me decidi a voltar a fazer música profissionalmente, no ano passado, resolvi que essas eram canções que não podiam se calar. Como elas foram feitas numa longa e louca viagem, veio o nome “Trip Lunar”.

Eu enxergo este projeto como uma grande celebração, onde se é possível perceber não apenas o reencontro de velhos amigos mas também uma espécie de encontro de gerações com novos talentos da cena musical mineira. É mais ou menos por aí a intenção?

DM – Sim, e desse encontro de gerações é que eu tiro toda a energia para fazer esse trabalho. Nos shows, o pessoal que tem me acompanhado regula em idade com os meus filhos. No disco, toquei também com ex-integrantes de “O Grande Ah!”, com o Léo Lima e o Elio Silva. O Marcos Pimenta cantou uma música. A banda de base, que estruturou todos os arranjos, foi composta por mim e pelo Léo Lima, dessa geração de “O Grande Ah!”, e pelo Ivan Mortimer e Lucas Mortimer, meus filhos, e pelo Rafael Pimenta, filho do Marcos Pimenta. Eu considero que tocar com a nova geração é fundamental para não se fazer um som datado, que tem um certo ranço. Essa nova geração é que abre possibilidades de novos caminhos. Então tenho tocado com o Ivan Mortimer, Rafal Pimenta (os dois revezando entre o baixo e a guitarra), Yuri Vellasco (bateria), Henrique Staino (Sax tenor), Ygor Rajão (Trompete e Flugel horn), João Gabriel Machala (Trombone de vara) e Alexandre Andrés (Flauta). É uma turma da pesada, que coloca muita energia nestas músicas.

Esse encontro com a nova geração pode ser considerada uma espécie de reciclagem para aquilo que você produz? (uma vez que já passaram mais de 15 anos desde o seu último projeto fonográfico)

DM – Com eu disse, eles deixam minha música com sabor de música atual, nova, sem ranço, não datada.

Sua intensa vida acadêmica de certo modo interferiu em sua carreira artística ao longo desse tempo? (Falo isso porque você, em mais de 25 anos de relação com a música, tem apenas três registros fonográficos)

DM – Sim, claro. Em 1990 eu decidi, com base na necessidade de criar meus filhos e dar uma vida melhor para minha família, a me dedicar à carreira acadêmica e parar com a música, pelo menos no nível de envolvimento com que eu vinha fazendo. Em 1989 foi um grande ano para “O Grande Ah!”, nós tocamos a beça, demos vários shows em BH, pelo interior de Minas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quando fiz as contas, percebi que infelizmente não dava para viver disso. Então, em 1990 comecei a fazer doutorado na USP, em 1992 fui para a Inglaterra fazer um sanduíche do meu doutorado, e lá carimbei meu passaporte, ou seja, me iniciei numa carreira internacional na área de Educação em Ciências. Não dava tempo para fazer música, pois a carreira acadêmica demanda muito, é uma loucura. Portanto, os envolvimentos que tive com música, como o CD Mariantivel em 1997 e alguns trabalhos aqui e ali com “O Grande Ah!”, foram pequenos, esporádicos e pouco consistentes. Em 2013 achei que era hora de rever essa equação e voltar a me dedicar de corpo e alma a música, desacelerando paulatinamente a minha carreira acadêmica. Acabou que esse ano lancei o “Trip Lunar” e também um livro, em parceria com Charbel El-Hani, pela Springer, editora acadêmica internacional, que se chama “Conceptual Profiles: a theory of teaching and learning scientific concepts”. Mas é justamente o cruzamento de duas tendências: acelerar a produção musical e desacelerar a produção acadêmica.

Apesar de você participar da construção da melodia de todas as faixas do álbum “Trip Lunar” apenas uma delas possui letra e música composta exclusivamente por você. Você poderia falar um pouco sobre a escolha do repertório do álbum?

DM – São duas compostas exclusivamente por mim, pois tem uma instrumental e uma com letra nesse rol. O Marcelo Dolabela sempre foi um excelente parceiro, cheio de letras em que ele combina a fala sobre as cidades, do interior e as capitais, com as tramas amorosas. A “Trip Lunar” é um exemplo: “Buenos Aires em qualquer cais, boa viagem prá nós dois, a Télavive sigo em paz”. As músicas do Trip Lunar, particularmente, surgiram sempre de uma grande inspiração, e foram todas compostas em cima de letras que o Marcelo me passava. As letras do Marcelo são muito musicais. Veja o exemplo de “Muita Alegria”. Ela tem algumas palavras aparentemente nada musicais, como “naftalina” e “absorventes”. No entanto, no contexto da canção essas palavras se tornam naturais, pois a letra como um todo puxou uma canção, também como um todo.

Ao longo destes períodos de hiato ao qual você procura dedicar-se a outras atividades você busca manter-se envolvido com música de algum modo ou afasta-se abruptamente deixando de lado o artista existente em você em detrimento ao seu lado professor e pesquisador?

DM – Como eu disse, eu me dediquei de corpo e alma a carreira acadêmica, e não dava muito tempo para fazer música. Mas eu nunca me desliguei totalmente da música, seja tocando violão, seja escutando música. Essas duas atividades eu sempre mantive, de forma que na hora de voltar tudo estivesse bem conectado na minha cabeça. Porque, apesar do grande envolvimento com a carreira acadêmica, de uma coisa eu tinha certeza: que um dia voltaria para a música.

Como tem sido a receptividade do público em relação ao álbum “Trip Lunar”?

DM – Tem sido excelente. As pessoas reconhecem a qualidade do trabalho e, aos poucos, vamos voltando às rodas musicais. É um trabalho duro e de paciência, mas tenho certeza de que em pouco tempo estarei completamente de volta a música e tocando para muitas outras pessoas além dos amigos. Mas estes são fundamentais para segurar a onda nesse recomeço.

Recentemente você esteve fora do país fazendo o lançamento internacional do disco não foi?

DM – Sim, em Nova York, numa casa excelente, a SOB’s. Foi uma excelente oportunidade de testar um esquema que pretendo implementar daqui pra frente. Eu toquei com músicos locais: o Lucas Mortimer, que está por lá fazendo um curso de engenheiro de som, e uma turma de brasileiros formados na Berklee College of Music, de Boston, que é a melhor escola de jazz e música popular do planeta. O André Vasconcelos é um excelente guitarrista, que está atualmente morando em Nova York; e o Apoena Frota, baixista, João Nogueira, tecladista, e ainda com uma canja da Kel do Nascimento, na voz. Ficou muito bom, consistente, com apenas dois ensaios, essa turma tirou de letras minhas canções. É claro que eles se dedicaram a tirar as músicas antes dos ensaios, são super profissionais. Esse é esquema que pretendo implementar em outras cidades do mundo: reunir músicos locais, ensaiar e dar shows.

Há alguma coisa agendada para este segundo semestre que você poderia nos adiantar?

DM – Pois é, estamos tentando marcar shows para Hong Kong, Tóquio, Paris e Lyon, para esse segundo semestre, com esquema semelhante ao que rolou em Nova York. Vamos ver se vai dar certo. Tem também shows em Belo Horizonte e em Mariana, Minas Gerais.


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O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE

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Professor universitário, Duzão Mortimer trama suas músicas nos insights de sua produção acadêmica

“Como é mesmo que anda o tempo?” esta indagação feita por Caetano Veloso e Milton Nascimento em 2008 na canção “Senhor do tempo” é passiva das mais variadas respostas e justificativas, uma vez que trata-se de algo extremamente subjetivo. Para o artista em questão o tempo tornou-se um grande aliado, pois ele soube como poucos sorver o que de melhor havia a oferecer. Duzão Mortimer foi capaz de apreender um ritmo próprio em sua carreira, criando um modo particular de conduzi-la. Talvez por isso a sua discografia seja composta por apenas três títulos em mais de 25 anos de carreira: um LP lançado em 1988, um CD em 1997 com O Grande Ah!, grupo que conta com a presença do professor universitário e músico Marcos Pimenta (figura recorrente na carreira de Mortimer) e agora o seu primeiro trabalho solo.

Isso atesta que Mortimer foi capaz de aliar-se a um tempo que foge a regulamentos e medidas. Resultado talvez daquilo que assimilou em sua vida acadêmica entre números e fórmulas desde a época em que frequentava as bancas da Universidade Federal de Minas Gerais durante o curso de bacharelado e licenciatura em Química. Para que o tempo possa acompanhá-lo faz-se necessário adequar-se aos compassos e pilares de sua arquitetura sonora, é preciso imergir em seu próprio ritmo. Este é o único requisito necessário para fazer parte desta viagem a qual o músico mineiro nos convida. Neste novo projeto batizado de “Trip Lunar” Duzão assina as todas melodias presentes no disco (com exceção apenas de uma, que conta com a parceria de Marcos Pimenta). Quanto as letras, Marcelo Dolabela é o autor da maioria. Das dez faixas, oito levam a sua assinatura. A exceção são apenas as canções “Coração Menino” (assinada em parceria com Marcos Pimenta e Duzão) e “Fogo nu”, única faixa presente no disco que conta com letra e melodia de assinadas apenas pelo mentor do projeto.

Duzão Mortimer deu início a sua vida artística na década de 1980 e, de modo paralelo a sua carreira como músico, desenvolveu uma substanciada vida acadêmica em Minas Gerais. Bacharel e licenciado em Química desde 1980, o professor Eduardo Fleury Mortimer possui mais de setenta artigos publicados e ultrapassa a marca dos 140 trabalhos em eventos das mais diversas áreas de conhecimento. Substanciando a sua vida acadêmica na América do Norte e no Continente Europeu, Mortimer viu a oportunidade de também agregar elementos das respectivas culturas à sua sonoridade. Em “Trip Lunar” é possível observar as mais variadas influências a partir dos diversos gêneros abordados nesta verdadeira celebração que marca o seu retorno à cena musical.

Em duetos com nomes da cena musical mineira Duzão interpreta canções como “Não” (em parceria com José Luis Braga), “Claro feitiço” duo com o cantor e compositor Ladston do Nascimento e “Muita alegria”, que traz a cantora e compositora Leopoldina Azevedo, artista que vem galgando uma espaço cada vez mais relevante no cenário musical mineiro. Do universo acadêmico Duzão contou com a adesão da coordenadora e professora titular da Pós-graduação do Departamento de Demografia da UFMG Simone Wajnman na faixa “Fogo nu” e Marcos Pimenta na canção “Coração menino”. Há ainda presentes no disco a faixa homônima ao nome do projeto, a jazzística “Cidade Luz”, a instrumental “Ponto de mutação”, a marchinha “Quem inventou” e a “Bacia de latão”, faixa com incursões no universo flamenco.

Para que a trip fosse completa o músico mineiro, sob a produção de Thiakov (que também executa violões de aço) e fotografias de Junia Mortimer, convidou para embarcar em sua sonoridade nomes como Leonardo Lima (piano elétrico e orgão), Yuri Vellasco e Lucas Mortimer (percussão e baterias), Daniela Rennó (vibraphone), Ivan Mortimer (guitarra solo), Rafael Pimenta, Laura Von Atzingen, Pedro “trigo” Santana e Giodano Cícero (baixos, violinos e guitarras), Ygor Rajão (flugelhorn e trumpete), Henrique Staino (sax tenor e alto), João Machala (trombone), Joana Queiroz (clarinete), Rafael Martini (violão), Chico Amaral e Elio Silva (sax tenor), Bruno Pimenta (flautim), Alexandre Andrés (flauta), Waltson Tanaka (viola) e Claudio Urgel (violoncelo). O disco ainda conta com os arranjos de João Antunes e Pedro Licinio respectivamente nas cordas e metais, e de Rafael Martini na faixa “Fogo Nu”.

Este primeiro projeto solo de Duzão mostra de modo pleno os lampejos das mais distintas influências que o substanciaram ao longo de sua formação musical. Sua arte não detém rótulo algum e não restringe-se a rica cena musical mineira, uma vez que o artista soube pincelar e apreender os mais diversos elementos por onde andou e que hoje substanciam a sua arte. Sua produção mostra-se de vanguarda a partir do momento que, na junção dos seus acordes, apresenta uma síntese daquilo que estar por vir. Em seu som tudo soa como novo, contemporâneo; e isso sem dúvida habilita-o estar entre os grandes destaques da música mineira apesar do pouco espaço na mídia.

Como músico Mortimer deixa o seu lado acadêmico interferir em sua arte de modo proveitoso a partir das mais diversas alquimias e experimentações sonoras e este trabalho acaba chegando como prova documental desta afirmação. “Trip Lunar” sem dúvida alguma mostra que o tempo foi generoso com Duzão dando-lhe não apenas os ornamentos que destacam a música que produz, mas também todos os elementos que fazem-se fundamentais e revigorantes para seguir em frente sem consequentemente tornar-se mais do mesmo. O vigor que procura manter a partir de sua arte o capacita a sorver de cada fração dos minutos que lhe pertence aquilo que de mais precioso existe e isso o gabarita de modo singular. E é assim que de tempos em tempos o professor Mortimer deixa de lado teorias acadêmicas e elementos químicos para dar vazão ao heterônimo Duzão, cantor e compositor que esporadicamente dá o ar da graça.

A cognição em conjunto com a sensibilidade, muniu o professor e químico de versos e melodias capazes de sobrepujar toda a despretensiosidade acadêmica. É o que percebe-se em “Trip Lunar” a partir de uma atmosfera composta por uma vigorosa unidade sonora. O disco acaba transformando-se em uma viagem imbuída de uma série de sensações caracterizadas pela leveza. Na audição do disco é possível a possibilidade de tomarmos conhecimento do tempo do artista e viajarmos em seu ritmo a partir daí fazendo jus a frase que José Saramago eternizou: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Segue para audição dos amigos duas canções presentes no disco. A primeira trata-se de “Trip lunar”, canção do protagonista do projeto em parceria com Marcelo Dolabela:

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A segunda canção trata-se dos mesmos mesmos autores, Chama-se “Cidade Luz”:

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