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VAMOS FALAR DE DISCOS? (3)


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VAMOS FALAR DE DISCOS? (2)


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VAMOS FALAR DE DISCOS?


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Bob Nelson (1918-2009)

Bob Nelson foi, sem sombra de dúvidas, uma das figuras mais emblemáticas da música popular brasileira. Ator e cantor, o artista caracterizava-se por um repertório country e uma vestimenta que fazia jus ao repertório. Para quem não sabe, Bob Nelson foi o grande ídolo de toda uma geração de quando inciou a sua carreira (inclusive do nosso Rei Roberto Carlos). Batizado como Nelson Roberto Perez, Bob iniciou a carreira artística cantando na Rádio Educadora de Campinas (SP), chegando a acompanhar Carmen Miranda em 1939, quando ela por lá se apresentou. Ainda no interior paulista inicia a carreira imitando o americano Gene Autry, fazendo sucesso imediato com a versão para “Ó Suzana” feita por ele. Por conta desta versão começou a ganhar diversos prêmios e a vencer concursos de calouros, até chegar na Rádio Tupi de São Paulo.

Um fato curioso neste período é o cheque recebido de Assis Chateaubriand, dono da Rádio Tupi, para comprar um traje completo de vaqueiro e se apresentar ao comandante, chefe das tropas americanas no Atlântico Sul naqueles anos de guerra, o General Douglas Mac Arthur. Ao sair do interior para a capital paulista, Nelson Roberto troca o nome Nelson Perez por Bob Nelson, uma jogada de sorte, uma vez que, na onda da guerra, e do esforço oficial pró-americanos, acaba conquistando significativos espaços.

Vendo que oportunidades melhores poderiam estar na então Capital Federal parte em direção ao Rio de Janeiro para tentar a sorte grande como artista. Era no Rio que estavam as grande oportunidades artísticas da época e com este desejo de ser artista, para outro lugar o pretenso ator e cantor não poderia seguir. Sem poder viver exclusivamente de sua arte, Bob que paralelamente ao sonho de ser cantor havia se diplomado pela Escola de Comércio de Campinas, ao chegar na cidade maravilhosa vai ser representante das extintas indústrias de Meias Ethel. Ao mesmo tempo que iniciava a sua carreira artística como cantor nos cassinos cariocas, cantava também em rádios, bailes e orquestras. No entanto, a “sorte grande” que tanto almejava não havia marcado encontro com ele na década de 1930. No entanto a década de 1940 chegaria acompanhada por sua consagração artística.

Em 1943 ganhou um prêmio na Rádio Cultura de São Paulo por sua interpretação de “Oh, Susana” (veja vídeo no final da postagem). Daí em diante as portas se abrem para o “Vaqueiro Alegre” (nome pelo qual ficou conhecido) e tem a oportunidade de gravar os filmes “Segura esta mulher” e “Este mundo é um pandeiro“. Levado pelo ator Ziembinsky, apresenta-se no Cassino Atlântico, cantando também no Cassino da Urca, Cassino Icaraí e no Clube Quitandinha. Pelas mãos de Haroldo Barbosa é indicado neste período para ser contratado pela Rádio Nacional, onde fez grande sucesso permanecendo por 29 anos. Em 1944, gravou seu primeiro disco pela RCA Victor, onde interpretou a canção “Oh! Suzana” e a valsa “Vaqueiro alegre“, de Kanter, em versão de Bob Nelson e Vitor Simon. No ano seguinte grava o foxtrote “Okey Jones” e a marcha “Minha linda Salomé“, de Denis Brean e Vitor Simon. Em 1946, gravou outro grande sucesso de sua carreira, a marcha “O boi Barnabé“, sua e de Vitor Simon.

Ainda na década de 1940, mais precisamente em 1949, fez temporada na Rádio Jornal do Comércio no Recife, acompanhado do Conjunto Regional da mesma rádio do qual faziam parte Sivuca, Jackson do Pandeiro e Luperce Miranda. Sem dúvida alguma, assim como Pedro Raimundo e Luiz Gonzaga, Bob Nelson destacou-se por suas vestimentas e pela inovação naquilo que produziam, pois foi o primeiro artista a fazer a fusão entre o caipira brasileiro e o country americano. Em 1996, teve lançado pelo selo Revivendo o CD “Vaqueiro alegre”, coletânea de seus sucessos. É válido um registro curioso a respeito do início de sua carreira: na época em que tentava a sorte grane chegou a atuar ao lado do então desconhecido sanfoneiro Luiz Gonzaga, que também viria a se consagrar como um dos mais representativos artistas nacionais anos depois.


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DUZÃO MORTIMER – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Cantor, compositor e instrumentista, o mineiro volta ao nosso espaço para mais um bate-papo exclusivo

Tal qual um alquimista, Duzão Mortimer sabe dosar tudo aquilo que constitui a sua sonoridade como é possível observar nos mais distintos projetos musicais aos quais vem se dedicando ao longo das últimas três décadas. Seja em projetos coletivos ou em carreira solo, Duzão traz como marca maior naquilo que apresenta um certo q de hibridismo que não o faz divagar aleatoriamente sem saber onde vai chegar. Pelo contrário, é nesse despretensioso contexto que le vagueia firme nos gêneros que a música brasileira tem por melhor como vem sendo possível perceber aqui mesmo em nosso espaço onde o artista mineiro já esteve presente em algumas matérias, dentre as quais a pauta “EQUILÍBRIO E ENERGIA REGEM A MÚSICA DO HOMEM DE LABORATÓRIO”, matéria publicada recentemente e que apresenta o seu mais novo projeto fonográfico. Hoje, Duzão volta ao nosso espaço para mais esta entrevista exclusiva. Excelente leitura!!

Se analisarmos a sua discografia veremos que os intervalos existente em seus primeiros projetos são longos. Agora em carreira solo houve um encurtamento nestes intervalos. Sem as amarras inerentes tão presentes nas decisões coletivas a inspiração, no seu caso, flui melhor?

DM – Olha, Bruno, a questão é do tempo para dedicar-me à música. Eu sou professor universitário desde 1983. Me aposentei em 2016 mas mantenho a posição de professor de pós-graduação na Faculdade de Educação da UFMG. Tenho, portanto, alunos de mestrado e doutorado e projetos de pesquisa. No entanto, estou com mais tempo para dedicar à música, sendo daí que vem a maior velocidade nos projetos.

Em sua opinião o que difere este mais recente trabalho do seu projeto anterior?

DM – O trabalho anterior, ‘Trip Lunar”, era mais intimista, com arranjos mais variados e uma sonoridade bem mineira. Mesmo as canções mais pra cima tinham uma certa complexidade. Praticamente toda as letras são do Marcelo Dolabela, que foi e continua sendo o principal letrista das minhas canções. Não havia um tema que predominasse, ainda que grande parte das letras falassem em amor. Assim, ora abordava-se as desventuras de uma Trip Lunar, em que amantes se separam em viagens a Buenos Aires ou Tel Aviv, ora nos corações meninos que são guardados como pássaros que ainda não sabem voar. No “Homem de Laboratório”, ao contrário, predomina uma veia mais pop, com rock, funk, reggae, blues, baião e samba, ainda que os arranjos continuem a ser sofisticados. A essa simplicidade nas músicas soma-se a maior presença minha enquanto letrista, também com mensagens mais diretas e menos sofisticadas, muitas relacionadas a problemas ambientais. Veja, por exemplo, Buraco de Ozônio. Fala diretamente dos possíveis efeitos do buraco na camada de ozônio e do efeito estufa, ainda que com uma clara licença poética. A única sofisticação, que pode passar despercebida ao ouvinte, é a coleção de substâncias químicas que já foram responsáveis por graves acidentes químicos – como o isocianato de metila, que foi responsável pelo Desastre de Bhopal, na Índia, o maior acidente industrial químico ocorrido até hoje. Na madrugada de 3 de dezembro de 1984, 500 mil pessoas foram expostas às 40 toneladas de gases tóxicos – o principal deles é justamente o isocianato de metila – que vazaram da fábrica de pesticidas da empresa norte-americana Union Carbide. A principal causa desse desastre foi a negligência com a segurança. No primeiro momento morreram 3.000 pessoas, mas esse número pode ter chegado a 10 mil, devido a doenças relacionadas à inalação do gás. Da mesma forma, o Césio 137 é o isótopo radioativo responsável pelo Desastre de Goiânia, em 1987, e o mais perigoso isótopo disperso no Desastre de Chernobyl, ocorrido em 1986. Assim, “Buraco de Ozônio” sintetiza uma importante mensagem do disco, que diz respeito aos produtos da Ciência e da Tecnologia que escapam diretamente ao nosso controle e ameaçam o meio ambiente e a nossa existência no Planeta.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Hoje retomo a carreira de um artista que além de grande intérprete, foi uma das figuras mais importantes da música popular brasileira, por sua militância em divulgá-la no exterior e por seu incentivo aos compositores e sambistas das classes mais populares, que dificilmente conseguiam espaço na mídia para divulgarem seus sambas. No entanto até chegar a este patamar o artista penou um bocado como foi mostrado ao longo da semana passada. Sua maré de azar só conseguiu mudar para melhor após a década de a partir de sua atuação no filme “Segura esta mulher“, de Watson Macedo contracenando com Grande Otelo, Aracy de Almeida, Emilinha Borba, Bob Nelson e outros.

A partir de 1948 ingressou na gravadora Star e lançou os sambas “Alfredo“, de Buci Moreira e Haroldo torres e “Caso perdido“, de Henrique de Almeida e Geraldo Gomes. Após gravar mais alguns 78 RPM’s pela pequena gravadora é contratado pela Continental, onde grava sambas como “Miss Mangueira“, de Antônio Almeida e Wilson Batista; “São Paulo“, de Haroldo Barbosa e Garoto; “No fim da estrada“, de Wilson Batista e Nóbrega de Macedo. Gravou também as marchas dos clubes de futebol do América, do Madureira e do Bonsucesso, todas de Lamartine Babo. Sem contar a marcha “Balzaqueana“, de Nássara e Wilson Batista, gravada com acompanhamento de Severino Araújo e sua orquestra Tabajara. Essa canção foi uma das mais cantadas do carnaval de 1950. Com o sucesso deste disco, foi convidado para trabalhar no cast da Rádio Nacional, lá permanecendo por 15 anos. No entanto a consagração dentro da música popular ainda estaria por vir na década seguinte. Sem contar a relação que viria a ter com outro expressivo nome da MPB da época.

Em 1951, lançou a marcha “Sereia de Copacabana“, um grande sucesso no carnaval; e no ano seguinte iniciou relacionamento afetivo com a cantora Nora Ney, recém-separada. A oficialização da relação viria a ocorrer três décadas depois, quando em 1982 casaram-se oficialmente. Dentre as façanhas artísticas de Jorge está o fato de ter sido um dos primeiros a interpretar em shows na noite do Rio de Janeiro o samba-canção “Vingança“, de Lupicínio Rodrigues (não o gravou por motivos contratuais pois era contratado da gravadora Continental e Lupicínio Rodrigues, artista exclusivo da concorrente RCA Victor). Canções de destaque entre suas gravações são o samba-canção “Mané Fogueteiro“, de João de Barro e o samba “Cais do porto“, de Capiba, considerado um das obras-primas do compositor pernambucano. Na sua discografia destaque para o LP “Brasil em ritmo de samba”, onde interpreta algumas canções pra ufanistas de grande sucesso nacional, tais quais “Brasil moreno“, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, “Canta Brasil“, de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, “Isso aqui o que é?” e “Aquarela do Brasil“, de Ary Barroso.

Um destaque em sua biografia musical é a aproximação com os sambistas dos morros cariocas na década de 1950. Enquanto a maioria pessoas tratavam tais músicos com certa indiferença, Jorge Goulart buscou fazer o contrário, aproximando-se de nomes como Zé Kéti, Candeia, Silas de Oliveira e Elton Medeiros. Essa aproximação rendeu-lhe o grande sucesso “A voz o morro“, de Zé Kéti gravado em 1955 com acompanhamento de Radamés Gnattali e sua orquestra. Vale o registro de que ainda na década de 1950 o cantor foi agraciado com o troféu Microfone de Ouro instituído pela revista Radiolândia. Sucesso absoluto ao longo da década inteira.

Para encerrar a abordagem acerca desse saudoso nome de nossa música deixo aqui mais duas canções do seu repertório. A primeira trata-se de “O céu virá depois”, composição de Sérgio Malta, que concorreu ao festival “As dez mais lindas canções de amor”, promovido pela extinta TV Rio em 1960. Jorge Goulart a lançou em disco no LP oficial do certame, editado pela Copacabana.

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A segunda trata-se de “Ser mãe”, canção com melodia de Silvino Neto, aproveitando poema clássico de outro Neto, o Coelho. Saiu pela Mocambo também em 78 rpm, com o número 15425-B, matriz R-1370 em 1962.

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EQUILÍBRIO E ENERGIA REGEM A MÚSICA DO HOMEM DE LABORATÓRIO

Após regressar de uma trip lunar, Mortimer imerge nas peculiaridades sonoras do Brasil

As ligações químicas entre dois átomos se estabelecem quando a força de união entre eles é suficiente para dar origem a um agregado estável (ao menos é o que diz alguns teóricos a respeito de tema). Pelo que parece, a música também faz-se capaz de criar um contexto semelhante. Nela, o “agregado estável” transfigura-se em distintos contextos. Uma parceria (mesmo que bissexta), a química presente na junção de diferentes sonoridades, ou até mesmo na constituição e confecção de instrumentos musicais. Um dos exemplos mais conhecidos da relação entre a qualidade do som e a química são os famosos violinos Stradivarius. O seu som inimitável parece estar ligado ao tratamento químico da madeira e sobretudo às características do verniz utilizado no acabamento. Tudo isso aparentemente explica que a química é capaz associar-se a música para nos trazer verdadeiras situações onde prevalecem agradáveis sensações de sinestesias. Talvez, por todo o seu embasamento acadêmico, Duzão se dê conta desta intrínseca relação existente e use do seu know-how para poder, equilibradamente, dar vazão a sua arte. Entremeado neste contexto o multifacetado Duzão Mortimer firma-se com relevante destaque no cenário artístico mineiro. Após o lançamento do seu primeiro álbum solo em 2014 agora o cantor, compositor, acadêmico e instrumentista volta ao mercado fonográfico com “Homem de laboratório”, projeto que destaca-se por algumas características que vem pontuando a sua trajetória discográfica desde o lançamento do primeiro álbum ao qual participou e que no próximo ano completa três décadas.

Duzão Mortimer deu início a sua vida artística na década de 1980 de modo paralelo a sua carreira acadêmica em Minas Gerais. Bacharel e licenciado em Química desde 1980, o professor Eduardo Fleury Mortimer possui mais de setenta artigos publicados e ultrapassa a marca dos 140 trabalhos em eventos das mais diversas áreas de conhecimento. Envolto a vida acadêmica, fez da América do Norte e do Continente Europeu a oportunidade que faltava para também agregar elementos das respectivas culturas à sua sonoridade. Como dito, Duzão foi capaz de apreender um ritmo próprio em sua carreira, criando um modo particular de conduzi-la. Talvez por isso a sua discografia seja composta por apenas quatro títulos em quase três décadas de carreira: um LP lançado em 1988, um CD em 1997 com O Grande Ah!, grupo que contava com a presença do professor universitário e músico Marcos Pimenta (figura recorrente na carreira de Mortimer), seu primeiro disco solo lançado em meados de 2014 intitulado “Trip Lunar” e agora este, “Homem de laboratório”. O disco tem início reiterando a questão ambiental a partir de “Buraco de ozônio”, faixa que reforça a necessidade da conscientização humana. Para dar ênfase a proposta do disco, o compositor traz na canção elementos que embasam o porquê podemos ser considerados pejorativamente “homens de laboratório”. “Luzes da cidade” retrata, em forma de canção, a máxima de que “À noite todos os gatos são pardos”. O amor e seus nuances chegam em “Céu de vagabundo”… Diferente da clássica “Adeus América”, Duzão em “Buda de neve” despede-se da América não para voltar ao Brasil, mas para ir ao encontro da cultura oriental. A poesia mineira faz presente a partir do poema “O novo homem”, de autoria de Drummond e musicado por Mortimer. Além das faixas “Buda de neve”, “Fórmulas mágicas” e “Pânico” (todas instrumentais), o disco ainda apresenta o samba “Uma nódoa, um nada um não”, o rock “Papéis”, o forró “Vidas secas” e o reggae “Nada de narda” celebrando os gêneros musicais reafirmando a ideia inicial desta matéria: as ligações, as conjunções (neste caso, a sonora).

Gravado no Estúdio Mortimer (localizado na capital mineira) entre março de 2016 e maio de 2017, “Homem de laborarório” foi produzido por Duzão sob co-produção do seu filho Lucas Mortimer e Vinícius Mendes. Na base da tecitura sonora do projeto além de Duzão Mortimer (violão, guitarra e voz), nomes como Vinícius Mendes (teclado, flauta, sax tenor, alto e soprano), Gabriel Bruce (bateria), Willian Rosa (baixo), Ivan Mortimer (guitarra e voz). O disco ainda conta com os convidados Rafael Pimenta, PC Guimarães, Bruno Oliveira e Igor Neves em “Uma nódoa, um nada, um não”, João Machala e William Alves (sopros em “Síndrome da China”, “Luzes da Cidade” e “Nada de Narda”), Isaque Macedo, Wagner Souza, Marx Marreiro, Bill Lucas, Marcílio Rosa e as vozes de Juliana Perdigão (em “O Novo Homem”), Leopoldina (em “Buraco de Ozônio”, “Céu de Vagabundo” e “Síndrome da China”) e Marcos Pimenta (em “Nada de Narda” e “Uma nódoa, um nada, um não”).

Longe de ser conceitual, “Homem de laboratório” busca apresentar características que regem a sonoridade do cantor, instrumentista e intérprete. Mesmo sendo um projeto híbrido, o disco não permite-se ao desencontro, pois a fusão de elementos rítmicos trazem ao resultado final uma coerência aparentemente inimaginável. Aliás, a sonoridade dos projetos apresentados por Mortimer é algo de merecido destaque uma vez que passa longe de todo e qualquer estigma existente, marca esta que segue o passo do álbum anterior. Outra destacável característica é a ênfase à sua verve autoral, ora solo ou a partir de distintas parcerias, Duzão despretensiosamente foge do lugar-comum. Se a química é a ciência que estuda a constituição da matéria pouco importa… para este homem de laboratório a música faz-se mais relevante, pois através de uma combinação harmoniosa e expressiva de sons mostra-se capaz de nos conduzir de um modo que fugimos das regras convencionais. Sem contar que na arte (assim como na natureza) nada se perde e tudo se transforma como preconizou Lavoisier. Música é isto: é biológico, quântico, composição, substância… e só alguém com profundo conhecimento a respeito, um homem verdadeiramente de laboratório, é capaz de enxergar plenamente.


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Zeca Pagodinho

Dentro do samba contemporâneo Jessé Gomes da Silva Filho talvez seja o nome mais expressivo de sua geração (pelo menos em termos de popularidade). Cantor e compositor, Jessé nasceu em Irajá onde desde pequeno passou a frequentar rodas de samba influenciado por sua família. Sua incursão pelo universo do samba se deu nas mas distintas freguesias cariocas, mas antes de dedicar-se totalmente à carreira artística chegou a ter diversas funções. Já foi feirante, office-boy e anotador de jogo de bicho, mas nenhuma dessas atividades o afastaram de suas duas grandes paixões: a música e a cerveja. O pontapé inicial em sua carreira artística pode-se dizer que se deu a partir de rodas de samba existentes nos bairros de Irajá e Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro. Adolescente, começou a participar das rodas de samba e partido-alto do subúrbio, sendo integrante do bloco carnavalesco Bohemio de Irajá, e foi nesse período que ganhou o apelido de “Pagodinho”, por frequentar os pagodes na casa de Tia Doca, em Madureira.

Além disso, era assíduo frequentador das rodas de samba do Bloco Cacique de Ramos, onde começou a ser admirado pelos seus versos e por sua capacidade de improvisar. Por essa época, conheceu Arlindo Cruz, futuro parceiro em grandes sucessos. Dessas incursões pelo samba suburbano carioca seu nome e voz, aos poucos, foi ganhando a devida e merecida projeção principalmente após ter o irrestrito apoio à carreira artística de Beth Carvalho. Beth, que conheceu Zeca em uma dessas rodas de sambas no Cacique de Ramos em 1981, convidou-o para participar de seu disco “Suor no rosto”, de 1983, no qual cantaram em dueto “Camarão que dorme a onda leva”, de autora do próprio Zeca, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço.

Apesar de ter dado o primeiro passo no contexto fonográfico, ainda faltava algum tempo para o seu primeiro registro fonográfico. Antes de lançar o seu primeiro disco solo chegou a participar em 1985, pela RGE da coletânea “Raça brasileira”, juntamente com Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Elaine Machado. Este disco foi um sucesso de vendas e execução nas rádios e ajudou a propagar o nome de Zeca e colaborou para a mesma gravadora apostar as fichas no nome de Zeca. O primeiro disco solo, “Zeca Pagodinho”, de 1986, vendeu 800 mil cópias, e veio acompanhado por vários sucessos como “SPC” (parceria com Arlindo Cruz), “Brincadeira tem hora” (c/ Beto Sem Braço) e “Judia de mim”, em parceria com Wilson Moreira.

Por muitos admiradores do samba, este primeiro LP de Pagodinho é considerado uma obra-prima do partido-alto, mas sua maior consagração ainda estaria por vir. Compositor já bastante conceituado no meio samba, tendo músicas de sua autoria gravadas por alguns dos nomes mais representativos do gênero, Zeca ao longo dos anos de 1980 anda chegou a lançar os LPs “Jeito moleque”, do disco “Bate outra vez”, em homenagem a Cartola, no qual interpretou “Minha”; lançou o disco “Boêmio feliz” e, em 1990, lança o LP “Mania de gente”. Foi uma década em que apesar do estrondoso sucesso do seu primeiro LP a carreira de Jessé ainda estaria por ganhar uma projeção e aceitação popular ainda maior nas décadas seguintes como hoje é possível observar e atestar dentre tantos projetos e sucessos acumulados ao longo das décadas de 1990, 2000 e 2010 a exemplo dos projetos lançados pela MTV Brasil (tradicional reduto do pop-rock). Na MTV, Zeca foi o primeiro artista de samba a gravar um especial de TV, CD e DVD na emissora. E tem mais: O Acústico MTV, gravado no Rio, foi um de seus discos mais vendidos, rendendo inclusive uma segunda edição em 2006 (a primeira da história da MTV Brasil).

Deixo agora para os amigos fubânicos a canção “Vacilão“, de autoria dos compositores Adílson Cristo e José Roberto:

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MOSTRA INTERNACIONAL DE MÚSICA OLINDA 2017 – MIMO

A cada nova edição, o Festival mostra-se mais imprescindível tanto para a o calendário cultural da cidade quanto por aqueles ávidos por boa música

Na cidade que é um dos símbolos maiores do carnaval em nosso país há quem passe o ano inteiro esperando um outro festejo que vem desde 2004 (com exceção apenas de um ano nesse ínterim) ornamentando a cidade a partir dos mais belos adjetivos culturais existentes. Quando surgiu em 2004, a Mostra Internacional de Música de Olinda chegou não apenas como uma nova proposta de entretenimento, mas como algo para além dos púlpitos onde artistas do Brasil e do mundo apresentavam-se. Arregaçando as mangas e partindo para a concretização desse aparente utopia estava lá Lú Araújo, pessoa intimamente ligada à música desde a infância, onde teve a oportunidade de crescer no contexto musical a partir do contato com grandes ídolos da música popular a partir da loja de discos do seu pai. A identificação foi tão grande com a música que anos depois Lú abriria a sua própria loja de discos, destacando-se mais uma vez pelo modo visionário de enxergar as coisas, pois foi responsável pela primeira loja do Brasil só para independentes, a In-dependente. Tudo isso confluiu e muito para o conceito desse festival que nasceu com apenas 4 concertos e chegou a ter mais de 40 ao longo de sua trajetória.

Vi num carnaval uma pessoa jogando uma garrafa de cerveja na porta da Igreja da Sé. Aquilo me fez pensar que Olinda merecia ser conhecida em outro momento, com outro espírito. A primeira Mimo teve só cinco concertos. Mas o primeiro teve duas mil pessoas na plateia. Não é um festival mofado, não tem o pé no antigo. Fico feliz de ver na plateia crianças, tatuados, rastafáris.“, comenta Lú que já pensa nas edições do ano que vem sempre buscando manter uma característica inerente ao festival desde a sua primeira edição: a fusão do erudito com o popular.

2017 começou com o festival aportando em janeiro na terceira mais populosa do Reino Unido, Glasgow, a maior cidade da Escócia. Ainda no primeiro semestre do ano permaneceu em terras europeias, dessa vez na cidade de Amaranto, onde ocorreu a primeira edição do festival em terras portuguesas buscando manter os mesmos moldes das edições realizadas no Brasil. Depois de ter edições realizadas em cidades como Recife e João Pessoa, o MIMO mantém em seu calendário no Brasil as cidades mineiras de Tiradentes e Ouro Preto, no Rio de Janeiro, além da capital, a cidade litorânea de Paraty e, em sua última parada, a cidade que deu origem ao evento. Na edição portuguesa nomes como Hamilton de Holanda, Richard Bona, Anne Paceo e Herbie Hancock; no Brasil artistas de relevância nacional e internacional fizeram parte da grade de programação do evento este ano a exemplo de Didier Lockwood, Baby do Brasil, 3ma, Laura Perrudin entre outros atrativos que sacramentam o Festival MIMO como algo imprescindível para o calendário cultural nacional.

Plural, o MIMO faz-se valer de tal adjetivo a partir dos mais variados prismas, seja na abrangência de sua programação, seja na diversidade do seu público assim como também nos objetivos buscados desde a primeira edição do evento. Em tempos polaridades aguçadas nos mais variados sentidos, só a música para apresentar uma proposta agregadora, fazendo-nos acreditar que a língua da música apazígua e nos traz o alento necessário para encararmos dias e situações hostis. Só provas concretas como estas nos conduz à certeza de que “Sem música a vida seria um erro” como bem observou o filósofo e crítico cultural Friedrich Nietzche. Valeu MIMO! Valeu Lú Araújo por arregaçar as mangas e sair do campo do devaneio, do abstrato para levar ao mundo não apenas um sonho a ser realizado, mas evento que gera receita e renda para dezenas de pessoas envolvidas.


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HISTÓRIA E ESTÓRIAS DA MPB

Hoje quero relembrar um dos grandes nomes da música popular brasileira que começou a carreira nos anos de 1940, mas que se destacou a partir dos anos de 1950. Carioca, Jorge Goulart, tem por nome de batismo Jorge Neves Bastos e foi o primogênito dos quatro filhos do casal Iberê Bastos e Arlete Neves Bastos. O seu interesse pela música surgiu desde cedo, ainda criança, quando começou a participar de serestas no bairro carioca do Méier. Nessa época gostava muito de cantar os grandes sucessos dos cantores em maior evidência nas rádios: Vicente Celestino, Francisco Alves, Orlando Silva, o seu preferido, e Carlos Galhardo. Aos 17 anos, ficou conhecendo os compositores Benedito Lacerda, Custódio Mesquita e Orestes Barbosa, apresentados por seu pai, no antigo Café Nice.

No entanto esse encontro não facilitou a sua vida enquanto pretenso artista, pois a sua carreira começou não nas rádios onde tais compositores e artistas tinham livre acesso, mas como crooner em 1943 apresentando-se em casas noturnas da então capital federal. O nome artístico de Jorge Goulart surgiu por orientação da radialista Heloísa Helena, que tirou o sobrenome de um produto muito popular na época, o “elixir de inhame Goulart”. Por ser ainda menor de idade, era comum os músicos o esconderem quando surgiam os fiscais em busca de irregulares nos dancings por onde se apresentavam. Na época, costumava cantar principalmente composições de Custódio Mesquita, pois para divulgar suas músicas, Custódio o pagava Cr$ 10,00 por dia. Essa estratégia não era novidade, muitos autores da época usavam desses e outros recursos para ter suas composições no gosto popular.

Vem dessa época dois marcos em sua carreira. O primeiro acontecimento é que é desse período as suas primeiras participações nos programas radiofônicos. Sua primeira incursão pelas ondas sonoras do rádio aconteceu na programação noturna da Rádio Tupi por intermédio do cantor João Petra de Barros. Neste mesma emissora chegou a ter um programa semanal de aproximadamente 15 minutos, antes do encerramento das transmissões da rádio. Além disso o seu primeiro sucesso vem deste mesmo período: “Xangô”, de Ary Barroso e Fernando Lobo. A canção com orquestração de Guerra-Peixe, que interpretou no programa de Ary e que lhe valeu um contrato exclusivo com a Rádio Tupi. Segundo o próprio cantor costumava dizer: “esta música lançou-me definitivamente no rádio brasileiro”.

Em 1945, por influência de Custódio Mesquita que na ocasião era diretor da Victor, lançou seu primeiro disco cantando a valsa “A Volta” e o samba “Paciência, Coração”, as duas de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu regional. Em 14 de março de 1945, estava escalado para gravar, por escolha do seu autor Custódio Mesquita, o samba-canção “Saia do caminho”. Na véspera da gravação o compositor faleceu subitamente e a música, para infelicidade do então jovem iniciante, acabou sendo lançada por Aracy de Almeida. Apesar de gravar excelentes compositores, seus 78RPM não aconteciam fato que acabou fazendo com que a gravadora Victor o dispensasse. Sua maré de azar nesta segunda metade da década de 1940 parecia não ter fim, pois após participar do show organizado por Chianca Garcia, ‘Um Milhão de Mulheres’, em turnê por Porto Alegre, o empresário Chianca Garcia acabou indo à falência e teve que demitir todo o elenco do espetáculo ainda na capital gaúcha. Para conseguir o dinheiro para pegar o vapor de volta ao Rio de Janeiro o cantor teve de permanecer um tempo cantando em casas noturnas.

Deixo aqui para os amigos a canção “Mundo de zinco”, composição de Antônio Nássara e Wilson Batista em registro de 1952. Mundo de zinco


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ISOLDA

Isolda

A cantora e compositora hoje em questão traz em seu gene a música. Com bisavô e avó maternos maestros e compositores, não é difícil afirmar que esta condição acabou por influenciar tanto a ela quanto ao irmão a enveredar para a música e tornarem-se responsáveis por diversas canções que caíram no gosto popular em especial na década de 1970 a partir da voz de um dos maiores nomes da música popular brasileira: Roberto Carlos. Intérprete para projeção nacional melhor não haveria de existir. Vem desde essa época registros de canções como “Jogo de damas”, “Elas por elas”, “Amigos, amigos”, “Um jeito estúpido de te amar”, “Como é possível”, “De coração pra coração”, “Quando vi você passar”, “Pelo avesso” e “Outra vez” (canção que consagrou em definitivo a compositora). Estas oito canções gravadas pelo Rei acaba por colocar Isolda, sem sombra de dúvidas, entre os compositores mais gravados por Roberto Carlos apo longo de toda a sua carreira e, se avaliarmos por gênero, deduzo ser a compositora mais gravada pelo autor de “Detalhes“, tanto que é conhecida como “a compositora do Rei”.

No entanto é preciso enfatizar que diversos são os outros intérpretes de suas letras e canções, dentre eles o irmão Milton Carlos que gravou diversas canções da dupla, Wando, Os incríveis entre tantos. Só “Outra vez” ganhou versões de Maria Bethânia (que a gravou no álbum “Diamante verdadeiro”, de 1999), Gal Costa (que a registrou no álbum “De tantos amores”, de 2002), Roberta Miranda (1990), Emílio Santiago (“O canto crescente de Emílio Santiago”, 1979), Altemar Dutra (1979), Agnaldo Timóteo e Wanderley Cardoso (ambos gravaram em 1998), Nelson Gonçalves (1980), Cauby Peixoto (1979), Sérgio Reis (2001), Simone (1979) e etc.

Como já dito, sua família era extremamente musical, e isso acabou por despertar o interesse pelas artes de modo geral tanto na compositora quanto no irmão. E foi a partir de brincadeiras com o irmão que se deu a sua aproximação da música. Com Milton Carlos a futura compositora começava a fazer músicas e histórias para teatrinhos de boneca. Queria ser jornalista mas, ainda na adolescência, começou a participar, juntamente com o irmão, de festivais de música pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Com uma voz andrógena, porém belíssima, o irmão conseguiu a oportunidade de gravar o primeiro LP e para isso resolveu solicitar canções junto à irmã.

Neste álbum de estreia de Milton Carlos estão presentes da lavra de Isolda as faixas “Desta vez te perdi“, “Tudo parou“, “Eu vou caminhar” e “Um presente para ela“. Exitosamente passou a receber pedidos de músicas de outros cantores e cantoras. Só em 1972 teve cinco músicas gravadas por importantes nomes da música: Os Incríveis, Nilton César, Nalva Aguiar, Antônio Marcos e Silvinha. Em 1973, conheceu o primeiro grande sucesso quando Roberto Carlos ouviu, através do amigo comum Eduardo Araújo, a música “Amigos, amigos”, parceria de Isolda com Milton Carlos e resolveu gravá-la.

Seu maior sucesso, “Outra vez“, foi gravada pela primeira vez em 1977 (mas composta um ano antes, no mesmo ano da morte prematura do irmão em um acidente automobilístico). Esta foi a primeira canção onde Isolda fez sozinha letra e música. Há quem afirme que a canção tenha sido composta em homenagem ao irmão, no entanto em diversas entrevistas concedidas ela disse que fez inspirada em antigos amores relembrados após um encontro com algumas amigas. Reza a lenda que Isolda gravou esta canção acompanhada ao violão por Sérgio Sá de modo bastante despretensioso em uma fita onde já constavam outras composições em parceria com o já saudoso irmão. Na fita, era a única canção composta só por Isolda. Quase ela não mandava ao Roberto a canção que se tornaria o seu maior sucesso como compositora. Ainda bem que mudou de ideia!

Deixo aos amigos leitores o seu maior sucesso no registro mais conhecido: Outra vez, na voz do cantor e compositor Roberto Carlos: Outra vez – Roberto Carlos


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NELSON CAVAQUINHO

Um dos maiores sambistas da história da música popular brasileira tem histórias das mais diversas a serem registradas. Nelson Antonio da Silva nasceu na Rua Mariz e Barros, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1911. Aos 20 anos casa-se obrigado com Alice Ferreira Neves, sua primeira companheira, com quem teve quatro filhos. Para garantir o sustento, o pai, Brás Antônio da Silva, falsificou a identidade e filho Nelson para 21 anos e arrumou para ele ser cavalariano da Polícia Militar. Mas, como policial, Nelson continuaria a ser ótimo boêmio.

Há diversos e divertidos relatos a respeito de sua passagem pela Polícia Militar. Dizem, por exemplo, que em uma noite de farra na Mangueira, onde fazia a ronda, Nelson perdeu o próprio cavalo. Ao voltar ao quartel, o cavalo estava lá comendo sua ração. Desse modo indisciplinado, era impossível seguir carreira militar, o que acabou o afastando da pretensa carreira, oportunizando-o dedicar-se à boemia de modo mais intenso. No entanto para viver essa condição era preciso recursos (inexistentes devido a sua saída da polícia). A alternativa era vender seus sambas para obter alguns recursos. O que as pessoas não sabiam era que Nelson era capaz de vender a mesma composição para diversos parceiros na maior cara dura como relataria por exemplo, o parceiro Milton Amaral. Segundo ele, quando foi a editora para assinar o contrato, constatou que já era o 16º autor da mesma música. Nelson já havia vendido o samba no mínimo 14 vezes. Impossível não ser descoberto com tamanha cara de pau. É por essa razão que Cartola nunca quis fazer uma música com Nelson apesar de serem extremamente ligados. Cartola tinha medo de não saber quantos parceiros viria a ter depois do samba pronto.

Há outros fatos interessantes envolvendo Nelson e a bebida. Boêmio inveterado, Nelson tinha por hábito passar dias e dias sem dar notícias em farras, como ninguém sabia o paradeiro dele e os meios de comunicação na década de 1940 ainda estavam engatinhando, certa vez, depois de passar três dias fora de casa, ao voltar descobriu que sua mãe havia morrido e já tinha sido enterrada. Vale salientar que estes dias em que se dedicava à bebida também eram regados com muita música e parcerias que renderam ao músico além da ingestão das mais distintas bebidas alcoólicas, a inspiração para que o músico carioca produzisse. Uma outra passagem na biografia do compositor carioca envolvendo bebida, se deu quando o artista recebeu um cachê por uma de suas apresentações. Ao chegar no bar após a sua apresentação madrugada adentro, o proprietário do bar sabendo que se atendesse a Nelson não teria hora pra fechar o estabelecimento foi logo dizendo: “- Nelson, infelizmente eu já estou fechando daqui a pouquinho”. Sabendo que não encontraria mais lugar nenhum para comprar seu “combustível”, o autor de clássicos da MPB fez a seguinte proposta: “Por quanto você me vende duas garrafas de aguardente, quatro cadeiras, uma mesa e uma grade de cerveja?”. Após a negociação o cantor e compositor acabou fechando negócio ficando na frente do estabelecimento por todo o resto da madrugada e início da manhã. No outro dia, quando o dono do bar voltou para abrir o estabelecimento, lá estava Nelson e seus amigo de copo firmes e forte. Pelo o que se ver, a relação do artista e a bebida rendeu, além de grandes canções que caíram no gosto popular e tornaram-se clássicas a partir de distintas gravações, histórias engraçadas.

Agora, para os amigos, a canção “Juízo final”, clássico do repertório do Nelson e da música popular brasileira. A canção é de autoria da dupla Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito: Juízo Final


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VERSOS E MELODIAS INCRUSTADAS ENTRE O PLANALTO E O SERTÃO

Embevecido da cultura popular nordestina, Túlio Borges a faz de esteio para os versos e melodias que sustentam a trilogia a que se propõe

Um dos alicerces da esperança sertaneja encontra-se em uma frase atribuída a figura de Antônio Conselheiro, peregrino que liderou a Guerra de Canudos, no início do século passado. Enquanto a profecia de que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão sobrevive na crença e na alma do povo sertanejo, as agruras dessa região vêm sendo abrandada em verso, prosa e melodia ao longo de todos esses anos. Isso não impede que a observação feita, de modo astuto e singular, pelo escritor Euclides da Cunha, de que “o povo do sertão é, antes de tudo, um forte” perca o sentido, uma vez que essa robustez também pode ser observada na região a partir de outras características. Duas delas, culturalmente falando, evidenciam-se na força dos cantadores repentistas da região e no tradicional forró, denominação que segundo o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo é derivado do termo africano forrobodó (festa que foi transformada em gênero musical tal seu fascínio sobre as pessoas). Exponentes deste contexto cultural, nomes como Luiz Gonzaga, Jackson do pandeiro, os irmãos Batista, Pinto do Monteiro entre outros foram cruciais na desmistificação desta dicotomia entre o espaço do sertão e as peculiaridades das grandes metrópoles.

Sem contar que continuam por substanciar os mais distintos discípulos desta vasta cultura como é o caso dessa grande leva de nomes que permeiam a nossa cultura musical desde os anos que sucederam o áureo período em que o baião e seus variantes reinaram em absoluto dentro da MPB, em especial nos anos de 1950. Como se vê, de década em década, de geração em geração, a força da verdadeira cultura nordestina não esmaece; pelo contrário, mostra-se um verdadeiro mosaico sonoro onde se destaca a mais pura verdade e autenticidade sertaneja imergidas na seiva da poesia.

Endossando este contexto eis que se destaca Túlio Borges, artista que dispensa maiores apresentações a julgar pela qualidade daquilo que vem apresentando fonograficamente desde 2010 quando lançou “Eu venho vagando no ar”, trabalho considerado um dos 50 melhores álbuns daquele ano e que ganhou elogios de nomes como Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello; além de ter recebido a indicação para o Prêmio da Música Brasileira do ano seguinte ao seu lançamento. Este primeiro disco destaca-se por um frescor apresentado a partir de uma sonoridade abrangente e letras substanciadas de vigor e poesia. Após um hiato de cinco anos, Túlio Borges voltou ao mercado fonográfico reiterando sua singularidade com “Batente de pau de casarão”, um disco dedicado ao município pernambucano de São José do Egito, terra do seu pai e berço da poesia popular nordestina. Este segundo álbum, “fruto da admiração pelos poetas e cantadores nordestinos” como o próprio artista o define, vem a ser um vigoroso elo lírico-sentimental entre duas distintas regiões.

Um projeto que permitiu a imersão do artista às raízes nordestinas que o constituem, assim como também substanciou a sua poesia e refinamento artístico, lapidando ainda mais as nobres e valiosas características que destacam aquilo que produz a partir de canções como “Tu” e parcerias com nomes como o do cantor e compositor brasiliense Toty; do declamador, poeta e compositor paraibano Jessier Quirino; do escritor, cantor e compositor piauiense Climério Ferreira e do cantor e instrumentista Anthony Brito em faixas como “Baú de guardados”, “Nanquim”, “Adorável trovador”, “São João” entre outras que sincretizam culturas e regiões aparentemente discrepantes, mas que fundem-se diante do talento de Borges.

Na plenitude do seu ofício e procurando perfazer novamente este já conhecido caminho, Túlio chega desta vez com “Cutuca meu peito incutucável” (nome extraído de um dos versos da poesia que o cantor recita na última música). Segundo título de uma trilogia a qual pretende fechar no próximo ano, este é um disco que busca retomar a poesia popular nordestina assim como também a ambientação sonora presente no CD anterior reiterando essa espécie de pangeia sonora a qual caracterizou o exitoso projeto lançado em 2015. Sem delimitações fronteiriças, a sonoridade do disco nos conduz do Centro-Oeste ao sertão nordestino como se o mesmo fosse logo ali, após o pontão do Lago Sul, ou como se Brasília ficasse no oitão da Igreja Matriz de São José do Egito. Novamente o multifacetado artista parte da capital nacional aos mais longínquos rincões da região nordestina imbuído de toda a marcante e destacável autenticidade de sua primeira incursão.

Talvez de modo proposital, em “Cutuca meu peito incutucável” o artista chega com uma poesia desfibriladora capaz de aplanar as mais distintas emoções dos ouvintes em canções que levam em consideração que sendo o coração o símbolo do amor, tal tema não poderia deixar de evidenciar-se no bojo do trabalho. Isso é possível evidenciar-se em gravações como o xote “Curvas” (de autoria do poeta Zeto, a quem o intérprete dedicou o último anterior), o reggae “Ela levantou os braços e eu morri de amores” (única letra composta para este projeto por Túlio sob música de Afonso Gadelha) ou outras como “Concreto, amor e canção” (parceria do cantor com a cantora Ana Reis, que também divide os vocais da faixa). A taquicardia evidencia-se no ritmo gostoso do tradicional forró a partir registros como “Grandes olhos” (parceria entre Aldo Justo e Alexandre Marino, integrantes do grupo brasiliense Liga Tripa), “Cantiga” (de autoria do saudoso Clésio e do irmão Clodo ferreira), “Vem não” (mais uma letra de Climério a adornar a robusta melodia de Borges), “Contracachimbo da paz” e “Enxerida no contexto” (parcerias do brasiliense com o paraibano Jessier Quirino).

Sob a égide das ilustrações da artista gráfica alemã Tina Berning e apresentação do escritor Renato Fino (que em se primeiro livro “Debaixo do céu do seu vestido” versa sobre o mesmo tema), “Cutuca meu peito incutucável” se propõe não apenas a mexer nos corações de forma lírica, mas reiterar que mesmo em tempo marcado pelas mais distintas dicotomias, Túlio mostra-se capaz de formar uma unidade pautada na sensibilidade e talento. Ninguém há de divergir em opiniões diante de características tão necessárias para o lânguido cenário musical brasileiro. Portanto, permitam-se cutucarem vossos peitos, pois Túlio Borges é a força do sintetismo de Paul Gauguin substanciada nas rimas, repentes e improvisos de nomes como cego Aderaldo, Otacílio Batista e Rogaciano Leite. É a antítese de Vidas Secas, Morte e vida Severina e O quinze; mas traz em sua poesia a mesma força súbita e intensa presente na escrita de João Cabral de Mello Neto, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. É confluência sem rótulos, por isso vai além do gênero que deu destaque à cidade em que nasceu conseguindo abarcar os mais distintos ritmos como é possível reafirmar neste álbum que chega para sacramentar em definitivo o nome deste talento no panteão da MPB contemporânea.

Para os amigos leitores deixo aqui não uma prévia do novo trabalho, mas uma canção do disco anterior que tem a mesma proposta. A canção chamada “Tu” é de autoria do próprio Tulio.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Hoje quero trazer para esta coluna o nome de Amélia Cláudia Garcia Collares Bucaretchi, que ficou popularmente conhecida como Amelinha, artista que surgiu a partir dos anos de 1970 na leva dos grandes nomes que surgiram na música brasileira a partir daquela década oriundos do Nordeste.

Intérprete, já registrou os mais distintos gêneros musicais existentes no país tais quais Xotes, baiões, forrós peneirados, galopes e arrasta-pés a partir de projetos fonográficos diversos a exemplo do CD “Só Forró“, lançado em 1993 pela Polygram (um projeto em homenagem ao forró a partir de alguns dos mais representativos nomes que engrandeceram o gênero país afora como João do Vale e Luiz Gonzaga).

Além deste projeto a sua biografia (discograficamente falando) é composta por discos como “Flor da paisagem”, seu álbum de estreia lançado em 1977 e que traz um repertório essencialmente nordestino a partir de canções como “Santo e Demônio” (Fagner/Ricardo Bezerra), “Depender” (Fagner/Abel Silva), “Cintura Fina” (Luis Gonzaga/Zé Dantas), “Flor da Paisagem” (Robertinho de Recife/Fausto Nilo), “Senhora Dona” (Brandão/ Petrúcio Maia), “Agonia” (Fagner) entre outras.

Em 1979 lançou “Frevo mulher“, um disco que traz o primeiro registro da canção “Dia Branco” (de autoria do cantores e compositores Geraldo Azevedo e Renato Rocha), “Frevo Mulher” (canção de autoria de Zé Ramalho e que viria a se tornar um clássico do repertório de ambos) e “Galope rasante” (outra canção da lavra do cantor e compositor paraibano). Seus dois LP’s seguintes, “Porta secreta” e “Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor” trouxeram mais canções que caíram no gosto popular, além de registro de autores como Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Djavan, Vital Farias, Gonzaguinha, Moraes Moreira, Novelli, Cacaso entre outros.

São desses álbuns faixas como Gemedeira (Robertinho de Recife/Capinan), “Periga ser” (Fausto Nilo/Robertinho de Recife), Foi Deus que fez você (Luis Ramalho), Mulher nova bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor (Otacílio Batista/Zé Ramalho), Amar quem eu já amei (João do Vale/Libório), Água de lua (Djavan) entre outras.

Para quem não sabe a cantora é cearense e radicou-se no Sudeste no início da vida adulta objetivando estudar comunicação. Pode-se afirmar que a música entrou em sua vida de modo bastante despretensioso. Suas primeiras incursões na música ocorreram de forma bastante amadora, participando de shows do conterrâneo Raimundo Fagner. A partir destas apresentações surgiram algumas oportunidades para aparecer em programas de televisão. Em 1975 viajou com Vinicius de Moraes e Toquinho onde participou de diversas apresentações da dupla. Essa convivência inspirou Vinicius de Moraes que compôs para ela “Ah! quem me dera“. Como dito, a sua notabilidade nacionalmente falando veio na mesma época que toda uma leva de artistas nordestinos chamados genericamente de “Pessoal do Ceará”, entre os quais estavam seus conterrâneos Raimundo Fagner, Ednardo e Belchior.

Dentre suas façanhas profissionais está o disco de ouro conquistado com o disco “Frevo mulher“, a sua participação no Festival MPB 80, da Rede Globo, classificando em 2º lugar a música “Foi Deus quem fez você“. Devido ao sucesso desta música, vendeu mais de um milhão de cópias do compacto homônimo, e foi a primeira música a alcançar o primeiro lugar entre as mais executadas tanto nas faixas de FM quanto de AM naquele ano. Outro feito da cantora: teve um dos seus LP’s por 30 semanas entre os 50 LPs mais vendidos do país, entre outras façanhas.

Para matar a saudade desta intérprete deixo aos amigos a canção “Dia Branco”, presente no álbum “Frevo mulher” e a canção “Mulher nova bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor”. A primeira é uma faixa composta por Geraldo Azevedo e Renato Rocha:

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A segunda canção é uma das canções mais marcantes da carreira da cearense e como dito é de autoria de Zé Ramalho e Otacílio Batista:

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ENTREVISTA COM ZÉ RENATO

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica a partir de sua trajetória enquanto integrante de vários projetos musicais, assim como também instrumentista, compositor e intérprete em diversos projetos solo.

De passagem pela capital pernambucana, onde apresentou-se em duas ocasiões em Casa Forte, o cantor, instrumentista e compositor Zé Renato recebeu-nos para um descontraído bate-papo onde relembrou histórias suas ligadas ao período que antecedeu o início de sua trajetória musical, a sua participação nos grupo “Cantares”, projetos fonográficos (solos, em duo e projetos coletivos) e sua participação no grupo que o projetou nacionalmente: o Boca Livre.

Nesta informal conversa é possível também tomar conhecimento de algumas curiosidades acerca do autor de “Bicicleta” como sua breve passagem pelo teatro e a importância do show “Milagres do peixe”, do Milton Nascimento, em sua trajetória musical.

Além disso, falamos sobre projetos futuros, lançamentos fonográficos agendados para breve, sua relação com o público pernambucano entre outras coisas.

Papo agradabilíssimo.


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

O nome que hoje trago para nosso espaço é um dos mais representativos da música popular brasileira a partir dos anos de 1970, pois ao lado de nomes como Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Túlio Mourão, Milton Nascimento, Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Tavinho Moura, Fernando Brant e tantos outros foi responsável por um dos movimentos mais expressivos da história da MPB: o Clube da Esquina.

Tal movimento nasceu a partir das frequentes reuniões no apartamento do senhor Salomão Borges, em Belo Horizonte. Lá era comum a reunião alguns daqueles que se tornariam expressivos nomes de nossa música encontrarem seus filhos Marilton e Márcio para fazer música e falar sobre cinema. Esses encontros tornaram-se fundamentais para a iniciação deste movimento que chamaria a atenção do país inteiro após um dos participantes vencer o Festival de Música Popular Brasileira e ao ter uma de suas composições, “Canção do sal“, gravada pela então novata Elis Regina ainda na década de 1960.

Enquanto toda essa efervescência musical ocorria Lô Borges curtia a adolescência nas ruas de Santa Teresa ao lado do também futuro cantor e compositor Beto Guedes (amizade que começou ainda na infância por intermédio de uma patinete) e fazia as suas primeiras incursões pela música com o conjunto musical formado ao lado dos irmãos, os “Beavers”, integrado, também, pelo inseparável amigo. É válido o registro de que sua família está intrinsecamente ligada às artes, pois dos seus 11 irmãos muitos envolveram-se com música, como é o caso de Márcio Borges, seu parceiro constante, e Telo Borges, autor, junto com o irmão Márcio, de “Vento de maio“, música que foi gravada por Elis Regina. Telo, por exemplo, já traz em sua biografia alguns projetos fonográficos.

Tal movimento foi batizado de Clube da Esquina, devido ao hábito deles reunirem-se na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, para trocar ideias musicais. A partir desses encontros (tanto na esquina quanto em seu apartamento), Lô Borges começou a se aventurar no universo da composição e corajosamente apresentou algumas dessas canções a Bituca, que era o apelido de Milton Nascimento.

Milton Nascimento apaixonava-se cada vez mais a cada nova canção apresentada e desse encontro surgiu um dos discos de maior visibilidade de Milton: “Clube da Esquina“, lançado em 1972 e que, dentre as 21 faixas presentes, tem oito assinadas por Lô. Sua participação foi fundamental nesse disco, ajudando a caracterizar a sonoridade do Clube da Esquina ao lado dos amigos. Na contracapa, seu nome aparece em destaque ao lado do nome de Milton Nascimento.

No ano seguinte, lança pela EMI-Odeon seu primeiro disco solo. O LP, que ficou conhecido como o ”Disco do tênis”, contou com a participação de Beto Guedes e Flávio Venturini, mas não atingiu o sucesso de sua primeira incursão fonográfica.

Sua discografia ainda conta com álbuns como “Via Láctea” (1979), “Os Borges” (1980), “Sonho real” (1984), “Meu filme” (1996), “Horizonte vertical” (2011), entre outros. Nas últimas décadas tem se aproximado de novos compositores mineiros como é o caso de Samuel Rosa, parceiro em canções como “Dois Rios” e “Lampejo“. Essas parcerias eternizaram-se em CD e DVD em 2016 quando chegou às lojas de todo o país o projeto “Samuel Rosa & Lô Borges: Ao Vivo no Cine Theatro Brasil“. Parceiro de nomes como Caetano Veloso, Ronaldo Bastos, Chico Amaral, seus irmãos entre outros; suas canções foram gravadas por nomes como Nana Caymmi, Simone, Gal Costa e Elis Regina que, além de gravar de sua autoria “Trem Azul“, também deu este título ao seu último show. Essa turnê gerou o álbum duplo homônimo, gravado ao vivo e lançado, em 1982, pela Som Livre.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções da lavra do Lô Borges. A primeira trata-se de “Sonho real“, canção de autoria da dupla Lô e Ronaldo Bastos e que foi lançada em 1984 em álbum homônimo:

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A segunda canção trata-se de “Quem sabe isso quer dizer amor“, canção dos irmãos Lô e Márcio Borges. Esse registro que aqui se encontra foi feito no álbum “Um dia e meio“, de 2003:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Renato Braz é uma das gratas surpresas surgidas na música popular brasileira a partir dos anos de 1990. Seu primeiro disco chegou ao mercado em 1996, mas o início de sua carreira se deu tocando bateria e cantando em bares e casas noturnas de São Paulo, além de participar de diversos festivais de música por todo o país. O seu modo discreto de conduzir a carreira acabou por fazê-lo um artista muito bem conceituado, no entanto sem o destaque merecidoapesar de belíssimos trabalhos lançados ao longo dessas últimas duas décadas de estrada. Com discos pautados na qualidade sonora e uma seleta escolha de repertório, Renato (ao lado de Mônica Salmaso, Zeca Baleiro, Pedro Mariano, Chico César e alguns outros poucos que agora não me recordo), vem se destacando como um dos mais expressivos nomes da geração surgida na MPB ao longo dos anos de 1990.

Seu primeiro disco, como dito lançado em 1996, trouxe como título o seu nome e apresenta um repertório que fugia da linha mercadológica fonográfica vigente a partir de um repertório que conta com faixas como “Anabela” (Mário Gil e Paulo César Pinheiro), “Bambayuque” (Zeca Baleiro), “Retirantes” (Dorival Caymmi), “Estrela da terra” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro), “7×7” (Guinga e Aldir Blanc), “Pagã” (Chico César), “Passarinheiro” (Jean Garfunkel e Pratinha) e “Meu drama” (Silas de Oliveira e Joaquim Ilarindo), entre outras. Apesar de ser um estreante, este disco contou com a participação dos músicos Sizão Machado, Mário Gil, Laércio de Freitas, da também iniciante Mônica Salmaso e do conceituado e exigente Dori Caymmi, que participou da faixa “O porto”. Por este disco, em 1997, o CD “Renato Braz” foi indicado para o Prêmio Sharp, na categoria Revelação.

Desde então o artista hoje em questão vem galgando espaços significativos dentro da música popular brasileira contemporânea de qualidade a partir de projetos como o CD “História antiga”, que lançado em 1998 contém em seu repertório músicas de autores como Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim, Vinicius de Moraes Zé Dantas, Edu Lobo, Chico Buarque, entre outros. Novamente o disco contou com a participação de Dori Caymmi no violão e nos arranjos. Essa amizade com o Dori acabou os aproximando ao ponto do cantor, instrumentista e compositor radicado nos EUA esteja quase sempre presente nos projetos fonográficos do músico e cantor paulista.

Sua discografia conta ainda com projetos como “Outro quilombo” (que ratifica a seleta escolha de repertório a partir de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sueli Costa entre outros). Por conta do CD “Outro quilombo”, foi contemplado com o o Prêmio Visa/Edição Vocal, em 2002, o que lhe rendeu a gravação, nesse mesmo ano, do CD “Quixote”, no qual registrou as músicas como “Disparada” (Geraldo Vandré e Téo de Barros) e “Canto das três raças” (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), entre outras; o CD “Por toda a minha vida – As canções de Jean e Paulo Garfunkel”; “Papo de passarim”, disco gravado ao vivo no Teatro Fecap (SP) em parceria com Zé Renato; projeto lançado em 2012; ao lado do músico Nailor Proveta o disco “Silêncio – Um tributo a João Gilberto” (2014). Em 2015 lançou “Saudade” (projeto voltado para o mercado americano onde constam algumas regravações ao lado do nomes como Paul Winter,Dixon Van Winkle, Dori Caymmi, Ivan Lins e The Dmitri Pokrovsky Ensemble) e “Canela” (projeto ao lado do Quarteto Maogani). Atualmente vem divulgando “Mar Aberto” (2016), projeto lançado ao lado do amigo Mário Gil.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções presentes na discografia do intérprete: a primeira vem a ser a canção “Não vim pra ficar“, música de autoria da dupla Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves que encontra-se presente no disco “Quixote”:

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A segunda canção vem a ser O amor, poema de Maiakowski adaptado por Ney Costa Santos e Caetano Veloso. Esta canção encontra-se no terceiro disco do artista intitulado “História Antiga”, lançado em 1998:

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COM 20 ANOS DE CARREIRA, CRISTIANE QUINTAS É PÉROLA AOS POUCOS

Artista pernambucana radicada no Canadá já há algum tempo, Cristiane usa a saudade como combustível para a sua arte

É inegável a relevância da música pernambucana no cenário músico-cultural do nosso país. Pernambuco presenteou o Brasil como nomes representativos nos mais variados estilos musicais existentes: Capiba eNelson Ferreira (como representantes máximos do gênero-identidade do Estado, que é o frevo) Luiz Gonzaga, Marinês e Dominguinhos (xotes, baiões e xaxados), Reginaldo Rossi (no gênero denominado brega), Fernando Lobo (relevante compositor brasileiro e pai do não menos importanteEdu Lobo), Moacir Santos (que como diria Vinícius de Moraes: “Não és um só, é tantos como o Brasil de todos os santos”), o músico Walter Wanderley; Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelose Alceu Valença como exponentes da geração pós bossa-nova e tropicalismo, assim também Chico Science como exponencial da música produzida em nosso estado a partir dos anos de 1990 e que por conseguinte voltaria os holofotes para trabalhos de nomes como Lenine, Lula Queiroga, Silvério Pessoa, Siba, Mestre Ambrósio, Cascabulho, entre outros nomes que a partir do movimento denominado Mangue Beat.

Com o advento da tecnologia nesta nova era digital e a reviravolta no mercado fonográfico dos anos 2000 em diante, a música pernambucana foi somando forças à sua tradição, buscando aglutinar diversos e distintos gêneros e influências a partir de mais um sem fim de de artistas que brotam a cada oportunidade surgida e reverberam a sua arte nos quatro cantos do planeta como é o caso de nomes como a SpokFrevo Orquestra, a Orquestra Contemporânea de Olinda entre outros nomes que reafirmam, em tempos onde aquilo que se vende por cultura é de qualidade duvidosa, a importância pernambucana no cenário musical nacional.

É neste novo contexto que surge um novo nome neste incessante cenário musical, trata-se da cantora, instrumentista, escritora, crítica literária e compositora Cristiane Quintas. Inquietamente criativa (assim como a música produzida em Pernambuco), a designer Quintas além de atuar nas artes plásticas, traz em sua bagagem a sua chancela em diversas produções literárias infantis ao longo dos últimos anos. Como exemplo desta afirmação há o livro “Cantando com os animais”, que chegou ao mercado editorial pelas mãos da Editora Bagaço em outubro de 2005 na Bienal do Livro. Este disco merece destaque levando em consideração que foi ele que oportunizou a cantora e compositora a gravação do seu primeiro CD. Sendo complemento do projeto literário, o disco traz a partir de temas infantis toda a criatividade musical e interpretativa da artista em questão.

O sucesso foi tamanho que a primeira edição desta produção literária esgotou-se em apenas dois meses e foi adotado em algumas escolas do Recife como paradidático. No entanto acho válido o seguinte comentário: apesar da artista já contar com 26 títulos em sua bagagem e trazer como proposta profissional a finalidade de iniciação musical para pequenos, foi na música onde ela primeiro se destacou. Tanto é verdade que sua produção bibliográfica traz como uma das principais marcas essa indissociável relação entre a ludicidade, música e o contexto literário. Um trabalho que destaca a música como elemento facilitador para a formação de pequenos leitores. Para atender a esta proposta, dentre outros títulos, a escritora e pedagoga traz em sua bagagem”A fuga da bailarina”, “O galo sapateador”, “A centopeia”, “Os mundos de Tita e Bete”, “Era uma vez nosso mundo”, entre outros.

Além desse contexto literário, Cristiane traz em sua biografia profissional outro momento de merecido destaque: embasada em temas que permeiam o universo infantil, buscou somar forças à poesia e inspiração do compositor Xico Bizerra e junto fizeram o projeto “Ser tão criança” (onde é possível ser encontrado no site www.passadisco.com.br). Compositor que abrange os mais distintos gêneros existentes na música brasileira, Xico até então não possuía experiências maiores no nicho infantil, mas respaldado na experiência litero-pedagógica de Quintas foram capazes de gerar um dos mais belos e singelos título da exitosa série Forroboxote (primeiro dedicado às crianças) do compositor cearense. É um disco que conta com a participação de nomes de destaque da música pernambucana a exemplo de Geraldo Maia e Nena Queiroga e abrange os mais distintos gêneros da cultura nacional como xotes, cocos, sambas de latada entre outros a partir de temas referentes a natureza, fenômenos naturais, a fauna entre outros presentes nas doze faixas do disco.

Desse modo, o talento abrangente de Cristiane Quintas reafirma que Pernambuco é, antes de tudo, um estado marcado por uma diversidade cultural singular, e que apesar de todas as dificuldades existentes, busca manter sua cena viva a partir de toda a efervescência que lhe é tão peculiar. Neste cenário, nomes como o de Quintas destacam-se por reafirmarem um compromisso maior com a criatividade, a sensibilidade e a qualidade naquilo que compõe, fazendo com que o público futuro, baseado em boas letras e melodias, acabe por tomá-lo como referência positiva diante de tanta coisa que destoa daquela definição que muitos tem do termo música a partir de letras e canções muito bem elaboradas e executadas em combate a degradação da cultura como um todo. E esse compromisso a recifense vem assumindo desde que deu início a sua trajetória artística ainda nos anos de 1990 quando sob direção do parceiro musical Paulo Carvalho, estreou como cantora no espetáculo “O começo de tudo”, onde apresentou um repertório pautado em nomes como Chiquinha Gonzaga, Nelson Cavaquinho eGuilherme de Brito.

Ao longo de duas décadas de carreira, a multifacetada artista fez incursões por projetos como “Quinta de cantoria” no teatro do parque, ao lado de Publius Figueiredo, Edmilson eAntonio Lisboa, Maria da paz e muitos outros; esteve presente, em 2005, na abertura do show do violonista Yamandú Costa no saudoso Projeto Seis e meia e selou parcerias como nomes como o do já citado Paulo Carvalho, Bia Marinho, Zeh Rocha e Alberto de Oliveira. É por essas e outras que afirmo de modo convicto aquilo que trouxe como título desta pauta: Cristiane Quintas é pérola aos poucos, e pode ter certeza: É um grande privilégio tomar conhecimento de trabalhos como o que ela desenvolve.

Para audição dos amigos uma das canções da parceria musical existente entre Cristiane e Paulo Carvalho intitulada “Tem mais um folião“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Recentemente tive a oportunidade de trazer aqui mesmo para esta coluna o nome do consagrado instrumentista, compositor e cantor Wilson das Neves. Como foco da primeira abordagem trouxe o início da carreira de Das Neves e compreendi em parte o porquê de um refrão que ele traz consigo como marca registrada: “Ô sorte!”. De fato o instrumentista teve bastante sorte no início de sua carreira artística ao cruzar com nomes precisos e fundamentais para o seu desenvolvimento artístico. Não foi à toa que cerca de seis anos de dar início a sua carreira profissional, Wilson já estava acompanhando alguns dos mais destacáveis nomes da música popular brasileira daquela época. Pautada sempre a partir do samba, de grandes parceiros e execuções que trazem consigo um toque bem característico do artista que hoje vem colhendo os frutos de uma exitosa carreira construída ao longo dos últimos sessenta anos.

Retomando a abordagem biográfica, nos anos seguintes Wilson das Neves diversificou tornando-se também intérprete. Em sua discografia, a estreia se deu em 1996, no álbum “O Som Sagrado de Wilson das Neves“, lançado pela CID com participações de Paulo César Pinheiro e Chico Buarque, agraciado à época com o Prêmio Sharp. De lá pra cá já gravou discos como “Brasão de Orfeu” (2004), “Samba de Gringo 2” (2006) e “Pra Gente Fazer Mais Um Samba” (2010); ingressou na Orquestra Imperial; atuou em filmes e documentários tais quais “Noel – Poeta da Vila“, “O Filho do Futebol” e “Alfavela” (sem contar o documentário “O Samba é Meu Dom”, sobre sua vida e obra feito por Cristiano Abud). Em mais de cinquenta anos de carreira como baterista acompanhou mais de 600 artistas, entre os quais Carlos Lyra, João Bosco, Bethânia, Gal, Emílio Santiago, Nelson Gonçalves, Caetano Veloso, hico Buarque, Elizete Cardoso, Beth Carvalho, Roberto Carlos, Elis Regina, Gilberto Gil, Alcione, Tom Jobim e Miucha, entre vários artistas da MPB além de internacionais como Michel Legrand, Sarah Vaughan, Toots Thielemans e Sean Lennon.

Hoje, aos oitenta anos, o artista vem apresentando o seu novo álbum intitulado “Se me chamar, ô sorte”, lançado em 2013 e que tem entre seus produtores Paulo César Pinheiro. De repertório autoral, o disco contou com faixas como “Samba pra João” (c/ Chico Buarque), “Trato” (c/ Paulo César Pinheiro), “Limites” (c/ Toninho Nascimento), “O dono da razão” (c/ Toninho Geraes), “Se me chamar, ô sorte” (c/ Cláudio Jorge), em que dividiu os vocais com Cláudio Jorge, entre outras. O disco ainda conta com a participação especial da cantora Áurea Martins na faixa “Ao nosso amor maior” (Wilson das Neves e Luiz Carlos da Vila). Além desse disco, em comemoração as oito décadas de vida de Wilson foi lançada também pela editora Multifoco o livro “Ô Sorte! Memórias de Um Imperador” uma breve biografia do grande músico de autoria de Guilherme Almeida. Com este disco conquistou os prêmios de melhor Canção, pela música “Samba pra João” e de melhor álbum de samba pelo disco na 25ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Um dos momentos mais belos da Cerimônia de Abertura das Olimpíadas 2016, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, aconteceu justamente com a participação de Wilson.

Tocando samba em um pequeno instrumento musical de couro, que imitava uma caixinha de fósforos, Das Neves mostrou aos quatro cantos do mundo a força do samba brasileiro enquanto o passista-mirim Thawan Lucas da Trindade sambava ao seu lado. “Foi um momento de reverência à verdadeira história da música popular brasileira. Hoje, é aquele papo: muitos nem sabem quem foi Donga, João da Baiana, Wilson Batista… A gente cuida muito dos de fora e esquece os nossos. Santo de casa não faz milagre. Como sou um dos mais antigos, acho que a ideia ali foi “vamos lembrar, vamos ensinar”. Se a música é o nosso CPF, como Das Neves costuma dizer, sem dúvida alguma o músico octogenário é a nossa Receita Federal.

Encerrando a abordagem ao nomes deste já saudoso mestre deixo aqui para os amigos leitores a canção “O samba é meu dom”, uma parceria de Das Neves com Paulo César Pinheiro:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Wilson das Neves

Falar dos grande representantes do samba ainda em atividade e esquecer o nome do cantor , instrumentista e compositor carioca Wilson das Neves é cometer uma das mais graves heresias existentes no universo musical brasileiro, Das Neves, como é conhecido no meio artístico começou a sua carreira como baterista na orquestra de Permínio Gonçalves na década de 1950 aos 21 anos de idade. Entre 1957 e 1968, Wilson acompanhou a pianista Carolina Cardoso de Menezes, foi membro do Conjunto de Ubirajara Silva, e estreou como “músico de estúdio” na Copacabana Discos; e se integrou em conjuntos como o de Steve Bernard e o de Ed Lincoln.

Ainda nestes primeiros anos como instrumentista firmou-se no meio musical e apesar do pouco tempo de carreira começou a acompanhar alguns dos maiores nomes da música brasileira desde então. No início tocou com nomes como o flautista Copinha, o pianista Eumir Deodato no conjunto Os Catedráticos, e com Eumir e Durval Ferreira no grupo Os Gatos. Em 1964 funda o grupo Os Ipanemas, com o qual chegou a gravar apenas um LP o qual continha canções que posteriormente viria a se tornar clássicos da música popular brasileira tais quais “Garota de Ipanema” e “Berimbau”.

Integrante das orquestras da TV Globo e da TV Tupi de São Paulo, em 1965 participou tocando bateria em todas as faixas do antológico disco “Coisas”, do mastro e compositor pernambucano Moacir Santos. Ainda na década de 1960 gravou com Elza Soares, o disco “Elza Soares – Baterista: Wilson das Neves”, formou seu próprio conjunto, registrou o LP “Juventude 2000”, gravou o disco e “Som Quente É o das Neves” com arranjos de Erlon Chaves (responsável também pelos arranjos do LP “Samba Tropi – Até aí morreu Neves”).

Na década de 1970 acompanhou grandes nomes da MPB como Roberto Carlos, Francis Hime, Taiguara, Elis Regina, Egberto Gismonti, Wilson Simonal, Elizeth Cardoso, Sérgio Sampaio, João Donato, Jorge Ben e Nara Leão em discos como “Lugar Comum”, “Meu Primeiro Amor” e “África Brasil”. Foi ainda nos anos de 1970, no LP “O Som Quente É o das Neves”, que Wilson das Neves estreou como cantor e compositor. Essa faceta do instrumentista evidencia-se de modo mais evidente a partir do samba, onde compôs canções com nomes como Nei Lopes, Moacyr Luz, Claudio Jorge, Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro entre outros.

É bem provável que esse seu lado tenha sido substanciado não apenas pela experiência de dividir o palco com nomes como João Nogueira, Beth Carvalho, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila entre outros, mas também por sua paixão pela escola de samba Império Serrano, onde tocava tamborim como ritmista. É de sua autoria (em parceria com Paulo César Pinheiro) a canção “O samba é meu dom”, uma belíssima música que traz em sua letra a citação de mais de vinte nomes de sambistas que contribuíram de modo significativo para a trazer o samba ao patamar ao nível em que hoje ele se encontra.

Trazer o nome de Das Neves a esta coluna é buscar dar as flores em vida a este nome que é uma das representações máximas do samba brasileiro. Sua linhagem é única, como tem sido percebível a cada novo projeto ao qual se deixa envolver, a cada novo álbum lançado ou a cada apresentação que costuma fazer empunhando suas baquetas. Uma das grandes vantagens de escrever uma coluna como esta é ter a oportunidade de não apenas trazer grandes nomes da MPB, mas falar de quem se admira como é o caso deste artista singular. Ô sorte!

Deixo aqui a sua parceria com o cantor e compositor Chico Buarque chamada “Grande Hotel”, neste registro de 1996 o cantor, compositor e instrumentista tem nos vocais a companhia de Chico Buarque, artista com quem fez parcerias nos palcos por cerca de 30 anos:

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