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HISTÓRIA E ESTÓRIAS DA MPB

Hoje quero relembrar um dos grandes nomes da música popular brasileira que começou a carreira nos anos de 1940, mas que se destacou a partir dos anos de 1950. Carioca, Jorge Goulart, tem por nome de batismo Jorge Neves Bastos e foi o primogênito dos quatro filhos do casal Iberê Bastos e Arlete Neves Bastos. O seu interesse pela música surgiu desde cedo, ainda criança, quando começou a participar de serestas no bairro carioca do Méier. Nessa época gostava muito de cantar os grandes sucessos dos cantores em maior evidência nas rádios: Vicente Celestino, Francisco Alves, Orlando Silva, o seu preferido, e Carlos Galhardo. Aos 17 anos, ficou conhecendo os compositores Benedito Lacerda, Custódio Mesquita e Orestes Barbosa, apresentados por seu pai, no antigo Café Nice.

No entanto esse encontro não facilitou a sua vida enquanto pretenso artista, pois a sua carreira começou não nas rádios onde tais compositores e artistas tinham livre acesso, mas como crooner em 1943 apresentando-se em casas noturnas da então capital federal. O nome artístico de Jorge Goulart surgiu por orientação da radialista Heloísa Helena, que tirou o sobrenome de um produto muito popular na época, o “elixir de inhame Goulart”. Por ser ainda menor de idade, era comum os músicos o esconderem quando surgiam os fiscais em busca de irregulares nos dancings por onde se apresentavam. Na época, costumava cantar principalmente composições de Custódio Mesquita, pois para divulgar suas músicas, Custódio o pagava Cr$ 10,00 por dia. Essa estratégia não era novidade, muitos autores da época usavam desses e outros recursos para ter suas composições no gosto popular.

Vem dessa época dois marcos em sua carreira. O primeiro acontecimento é que é desse período as suas primeiras participações nos programas radiofônicos. Sua primeira incursão pelas ondas sonoras do rádio aconteceu na programação noturna da Rádio Tupi por intermédio do cantor João Petra de Barros. Neste mesma emissora chegou a ter um programa semanal de aproximadamente 15 minutos, antes do encerramento das transmissões da rádio. Além disso o seu primeiro sucesso vem deste mesmo período: “Xangô”, de Ary Barroso e Fernando Lobo. A canção com orquestração de Guerra-Peixe, que interpretou no programa de Ary e que lhe valeu um contrato exclusivo com a Rádio Tupi. Segundo o próprio cantor costumava dizer: “esta música lançou-me definitivamente no rádio brasileiro”.

Em 1945, por influência de Custódio Mesquita que na ocasião era diretor da Victor, lançou seu primeiro disco cantando a valsa “A Volta” e o samba “Paciência, Coração”, as duas de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu regional. Em 14 de março de 1945, estava escalado para gravar, por escolha do seu autor Custódio Mesquita, o samba-canção “Saia do caminho”. Na véspera da gravação o compositor faleceu subitamente e a música, para infelicidade do então jovem iniciante, acabou sendo lançada por Aracy de Almeida. Apesar de gravar excelentes compositores, seus 78RPM não aconteciam fato que acabou fazendo com que a gravadora Victor o dispensasse. Sua maré de azar nesta segunda metade da década de 1940 parecia não ter fim, pois após participar do show organizado por Chianca Garcia, ‘Um Milhão de Mulheres’, em turnê por Porto Alegre, o empresário Chianca Garcia acabou indo à falência e teve que demitir todo o elenco do espetáculo ainda na capital gaúcha. Para conseguir o dinheiro para pegar o vapor de volta ao Rio de Janeiro o cantor teve de permanecer um tempo cantando em casas noturnas.

Deixo aqui para os amigos a canção “Mundo de zinco”, composição de Antônio Nássara e Wilson Batista em registro de 1952. Mundo de zinco


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ISOLDA

Isolda

A cantora e compositora hoje em questão traz em seu gene a música. Com bisavô e avó maternos maestros e compositores, não é difícil afirmar que esta condição acabou por influenciar tanto a ela quanto ao irmão a enveredar para a música e tornarem-se responsáveis por diversas canções que caíram no gosto popular em especial na década de 1970 a partir da voz de um dos maiores nomes da música popular brasileira: Roberto Carlos. Intérprete para projeção nacional melhor não haveria de existir. Vem desde essa época registros de canções como “Jogo de damas”, “Elas por elas”, “Amigos, amigos”, “Um jeito estúpido de te amar”, “Como é possível”, “De coração pra coração”, “Quando vi você passar”, “Pelo avesso” e “Outra vez” (canção que consagrou em definitivo a compositora). Estas oito canções gravadas pelo Rei acaba por colocar Isolda, sem sombra de dúvidas, entre os compositores mais gravados por Roberto Carlos apo longo de toda a sua carreira e, se avaliarmos por gênero, deduzo ser a compositora mais gravada pelo autor de “Detalhes“, tanto que é conhecida como “a compositora do Rei”.

No entanto é preciso enfatizar que diversos são os outros intérpretes de suas letras e canções, dentre eles o irmão Milton Carlos que gravou diversas canções da dupla, Wando, Os incríveis entre tantos. Só “Outra vez” ganhou versões de Maria Bethânia (que a gravou no álbum “Diamante verdadeiro”, de 1999), Gal Costa (que a registrou no álbum “De tantos amores”, de 2002), Roberta Miranda (1990), Emílio Santiago (“O canto crescente de Emílio Santiago”, 1979), Altemar Dutra (1979), Agnaldo Timóteo e Wanderley Cardoso (ambos gravaram em 1998), Nelson Gonçalves (1980), Cauby Peixoto (1979), Sérgio Reis (2001), Simone (1979) e etc.

Como já dito, sua família era extremamente musical, e isso acabou por despertar o interesse pelas artes de modo geral tanto na compositora quanto no irmão. E foi a partir de brincadeiras com o irmão que se deu a sua aproximação da música. Com Milton Carlos a futura compositora começava a fazer músicas e histórias para teatrinhos de boneca. Queria ser jornalista mas, ainda na adolescência, começou a participar, juntamente com o irmão, de festivais de música pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Com uma voz andrógena, porém belíssima, o irmão conseguiu a oportunidade de gravar o primeiro LP e para isso resolveu solicitar canções junto à irmã.

Neste álbum de estreia de Milton Carlos estão presentes da lavra de Isolda as faixas “Desta vez te perdi“, “Tudo parou“, “Eu vou caminhar” e “Um presente para ela“. Exitosamente passou a receber pedidos de músicas de outros cantores e cantoras. Só em 1972 teve cinco músicas gravadas por importantes nomes da música: Os Incríveis, Nilton César, Nalva Aguiar, Antônio Marcos e Silvinha. Em 1973, conheceu o primeiro grande sucesso quando Roberto Carlos ouviu, através do amigo comum Eduardo Araújo, a música “Amigos, amigos”, parceria de Isolda com Milton Carlos e resolveu gravá-la.

Seu maior sucesso, “Outra vez“, foi gravada pela primeira vez em 1977 (mas composta um ano antes, no mesmo ano da morte prematura do irmão em um acidente automobilístico). Esta foi a primeira canção onde Isolda fez sozinha letra e música. Há quem afirme que a canção tenha sido composta em homenagem ao irmão, no entanto em diversas entrevistas concedidas ela disse que fez inspirada em antigos amores relembrados após um encontro com algumas amigas. Reza a lenda que Isolda gravou esta canção acompanhada ao violão por Sérgio Sá de modo bastante despretensioso em uma fita onde já constavam outras composições em parceria com o já saudoso irmão. Na fita, era a única canção composta só por Isolda. Quase ela não mandava ao Roberto a canção que se tornaria o seu maior sucesso como compositora. Ainda bem que mudou de ideia!

Deixo aos amigos leitores o seu maior sucesso no registro mais conhecido: Outra vez, na voz do cantor e compositor Roberto Carlos: Outra vez – Roberto Carlos


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NELSON CAVAQUINHO

Um dos maiores sambistas da história da música popular brasileira tem histórias das mais diversas a serem registradas. Nelson Antonio da Silva nasceu na Rua Mariz e Barros, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1911. Aos 20 anos casa-se obrigado com Alice Ferreira Neves, sua primeira companheira, com quem teve quatro filhos. Para garantir o sustento, o pai, Brás Antônio da Silva, falsificou a identidade e filho Nelson para 21 anos e arrumou para ele ser cavalariano da Polícia Militar. Mas, como policial, Nelson continuaria a ser ótimo boêmio.

Há diversos e divertidos relatos a respeito de sua passagem pela Polícia Militar. Dizem, por exemplo, que em uma noite de farra na Mangueira, onde fazia a ronda, Nelson perdeu o próprio cavalo. Ao voltar ao quartel, o cavalo estava lá comendo sua ração. Desse modo indisciplinado, era impossível seguir carreira militar, o que acabou o afastando da pretensa carreira, oportunizando-o dedicar-se à boemia de modo mais intenso. No entanto para viver essa condição era preciso recursos (inexistentes devido a sua saída da polícia). A alternativa era vender seus sambas para obter alguns recursos. O que as pessoas não sabiam era que Nelson era capaz de vender a mesma composição para diversos parceiros na maior cara dura como relataria por exemplo, o parceiro Milton Amaral. Segundo ele, quando foi a editora para assinar o contrato, constatou que já era o 16º autor da mesma música. Nelson já havia vendido o samba no mínimo 14 vezes. Impossível não ser descoberto com tamanha cara de pau. É por essa razão que Cartola nunca quis fazer uma música com Nelson apesar de serem extremamente ligados. Cartola tinha medo de não saber quantos parceiros viria a ter depois do samba pronto.

Há outros fatos interessantes envolvendo Nelson e a bebida. Boêmio inveterado, Nelson tinha por hábito passar dias e dias sem dar notícias em farras, como ninguém sabia o paradeiro dele e os meios de comunicação na década de 1940 ainda estavam engatinhando, certa vez, depois de passar três dias fora de casa, ao voltar descobriu que sua mãe havia morrido e já tinha sido enterrada. Vale salientar que estes dias em que se dedicava à bebida também eram regados com muita música e parcerias que renderam ao músico além da ingestão das mais distintas bebidas alcoólicas, a inspiração para que o músico carioca produzisse. Uma outra passagem na biografia do compositor carioca envolvendo bebida, se deu quando o artista recebeu um cachê por uma de suas apresentações. Ao chegar no bar após a sua apresentação madrugada adentro, o proprietário do bar sabendo que se atendesse a Nelson não teria hora pra fechar o estabelecimento foi logo dizendo: “- Nelson, infelizmente eu já estou fechando daqui a pouquinho”. Sabendo que não encontraria mais lugar nenhum para comprar seu “combustível”, o autor de clássicos da MPB fez a seguinte proposta: “Por quanto você me vende duas garrafas de aguardente, quatro cadeiras, uma mesa e uma grade de cerveja?”. Após a negociação o cantor e compositor acabou fechando negócio ficando na frente do estabelecimento por todo o resto da madrugada e início da manhã. No outro dia, quando o dono do bar voltou para abrir o estabelecimento, lá estava Nelson e seus amigo de copo firmes e forte. Pelo o que se ver, a relação do artista e a bebida rendeu, além de grandes canções que caíram no gosto popular e tornaram-se clássicas a partir de distintas gravações, histórias engraçadas.

Agora, para os amigos, a canção “Juízo final”, clássico do repertório do Nelson e da música popular brasileira. A canção é de autoria da dupla Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito: Juízo Final


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VERSOS E MELODIAS INCRUSTADAS ENTRE O PLANALTO E O SERTÃO

Embevecido da cultura popular nordestina, Túlio Borges a faz de esteio para os versos e melodias que sustentam a trilogia a que se propõe

Um dos alicerces da esperança sertaneja encontra-se em uma frase atribuída a figura de Antônio Conselheiro, peregrino que liderou a Guerra de Canudos, no início do século passado. Enquanto a profecia de que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão sobrevive na crença e na alma do povo sertanejo, as agruras dessa região vêm sendo abrandada em verso, prosa e melodia ao longo de todos esses anos. Isso não impede que a observação feita, de modo astuto e singular, pelo escritor Euclides da Cunha, de que “o povo do sertão é, antes de tudo, um forte” perca o sentido, uma vez que essa robustez também pode ser observada na região a partir de outras características. Duas delas, culturalmente falando, evidenciam-se na força dos cantadores repentistas da região e no tradicional forró, denominação que segundo o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo é derivado do termo africano forrobodó (festa que foi transformada em gênero musical tal seu fascínio sobre as pessoas). Exponentes deste contexto cultural, nomes como Luiz Gonzaga, Jackson do pandeiro, os irmãos Batista, Pinto do Monteiro entre outros foram cruciais na desmistificação desta dicotomia entre o espaço do sertão e as peculiaridades das grandes metrópoles.

Sem contar que continuam por substanciar os mais distintos discípulos desta vasta cultura como é o caso dessa grande leva de nomes que permeiam a nossa cultura musical desde os anos que sucederam o áureo período em que o baião e seus variantes reinaram em absoluto dentro da MPB, em especial nos anos de 1950. Como se vê, de década em década, de geração em geração, a força da verdadeira cultura nordestina não esmaece; pelo contrário, mostra-se um verdadeiro mosaico sonoro onde se destaca a mais pura verdade e autenticidade sertaneja imergidas na seiva da poesia.

Endossando este contexto eis que se destaca Túlio Borges, artista que dispensa maiores apresentações a julgar pela qualidade daquilo que vem apresentando fonograficamente desde 2010 quando lançou “Eu venho vagando no ar”, trabalho considerado um dos 50 melhores álbuns daquele ano e que ganhou elogios de nomes como Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello; além de ter recebido a indicação para o Prêmio da Música Brasileira do ano seguinte ao seu lançamento. Este primeiro disco destaca-se por um frescor apresentado a partir de uma sonoridade abrangente e letras substanciadas de vigor e poesia. Após um hiato de cinco anos, Túlio Borges voltou ao mercado fonográfico reiterando sua singularidade com “Batente de pau de casarão”, um disco dedicado ao município pernambucano de São José do Egito, terra do seu pai e berço da poesia popular nordestina. Este segundo álbum, “fruto da admiração pelos poetas e cantadores nordestinos” como o próprio artista o define, vem a ser um vigoroso elo lírico-sentimental entre duas distintas regiões.

Um projeto que permitiu a imersão do artista às raízes nordestinas que o constituem, assim como também substanciou a sua poesia e refinamento artístico, lapidando ainda mais as nobres e valiosas características que destacam aquilo que produz a partir de canções como “Tu” e parcerias com nomes como o do cantor e compositor brasiliense Toty; do declamador, poeta e compositor paraibano Jessier Quirino; do escritor, cantor e compositor piauiense Climério Ferreira e do cantor e instrumentista Anthony Brito em faixas como “Baú de guardados”, “Nanquim”, “Adorável trovador”, “São João” entre outras que sincretizam culturas e regiões aparentemente discrepantes, mas que fundem-se diante do talento de Borges.

Na plenitude do seu ofício e procurando perfazer novamente este já conhecido caminho, Túlio chega desta vez com “Cutuca meu peito incutucável” (nome extraído de um dos versos da poesia que o cantor recita na última música). Segundo título de uma trilogia a qual pretende fechar no próximo ano, este é um disco que busca retomar a poesia popular nordestina assim como também a ambientação sonora presente no CD anterior reiterando essa espécie de pangeia sonora a qual caracterizou o exitoso projeto lançado em 2015. Sem delimitações fronteiriças, a sonoridade do disco nos conduz do Centro-Oeste ao sertão nordestino como se o mesmo fosse logo ali, após o pontão do Lago Sul, ou como se Brasília ficasse no oitão da Igreja Matriz de São José do Egito. Novamente o multifacetado artista parte da capital nacional aos mais longínquos rincões da região nordestina imbuído de toda a marcante e destacável autenticidade de sua primeira incursão.

Talvez de modo proposital, em “Cutuca meu peito incutucável” o artista chega com uma poesia desfibriladora capaz de aplanar as mais distintas emoções dos ouvintes em canções que levam em consideração que sendo o coração o símbolo do amor, tal tema não poderia deixar de evidenciar-se no bojo do trabalho. Isso é possível evidenciar-se em gravações como o xote “Curvas” (de autoria do poeta Zeto, a quem o intérprete dedicou o último anterior), o reggae “Ela levantou os braços e eu morri de amores” (única letra composta para este projeto por Túlio sob música de Afonso Gadelha) ou outras como “Concreto, amor e canção” (parceria do cantor com a cantora Ana Reis, que também divide os vocais da faixa). A taquicardia evidencia-se no ritmo gostoso do tradicional forró a partir registros como “Grandes olhos” (parceria entre Aldo Justo e Alexandre Marino, integrantes do grupo brasiliense Liga Tripa), “Cantiga” (de autoria do saudoso Clésio e do irmão Clodo ferreira), “Vem não” (mais uma letra de Climério a adornar a robusta melodia de Borges), “Contracachimbo da paz” e “Enxerida no contexto” (parcerias do brasiliense com o paraibano Jessier Quirino).

Sob a égide das ilustrações da artista gráfica alemã Tina Berning e apresentação do escritor Renato Fino (que em se primeiro livro “Debaixo do céu do seu vestido” versa sobre o mesmo tema), “Cutuca meu peito incutucável” se propõe não apenas a mexer nos corações de forma lírica, mas reiterar que mesmo em tempo marcado pelas mais distintas dicotomias, Túlio mostra-se capaz de formar uma unidade pautada na sensibilidade e talento. Ninguém há de divergir em opiniões diante de características tão necessárias para o lânguido cenário musical brasileiro. Portanto, permitam-se cutucarem vossos peitos, pois Túlio Borges é a força do sintetismo de Paul Gauguin substanciada nas rimas, repentes e improvisos de nomes como cego Aderaldo, Otacílio Batista e Rogaciano Leite. É a antítese de Vidas Secas, Morte e vida Severina e O quinze; mas traz em sua poesia a mesma força súbita e intensa presente na escrita de João Cabral de Mello Neto, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. É confluência sem rótulos, por isso vai além do gênero que deu destaque à cidade em que nasceu conseguindo abarcar os mais distintos ritmos como é possível reafirmar neste álbum que chega para sacramentar em definitivo o nome deste talento no panteão da MPB contemporânea.

Para os amigos leitores deixo aqui não uma prévia do novo trabalho, mas uma canção do disco anterior que tem a mesma proposta. A canção chamada “Tu” é de autoria do próprio Tulio.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Hoje quero trazer para esta coluna o nome de Amélia Cláudia Garcia Collares Bucaretchi, que ficou popularmente conhecida como Amelinha, artista que surgiu a partir dos anos de 1970 na leva dos grandes nomes que surgiram na música brasileira a partir daquela década oriundos do Nordeste.

Intérprete, já registrou os mais distintos gêneros musicais existentes no país tais quais Xotes, baiões, forrós peneirados, galopes e arrasta-pés a partir de projetos fonográficos diversos a exemplo do CD “Só Forró“, lançado em 1993 pela Polygram (um projeto em homenagem ao forró a partir de alguns dos mais representativos nomes que engrandeceram o gênero país afora como João do Vale e Luiz Gonzaga).

Além deste projeto a sua biografia (discograficamente falando) é composta por discos como “Flor da paisagem”, seu álbum de estreia lançado em 1977 e que traz um repertório essencialmente nordestino a partir de canções como “Santo e Demônio” (Fagner/Ricardo Bezerra), “Depender” (Fagner/Abel Silva), “Cintura Fina” (Luis Gonzaga/Zé Dantas), “Flor da Paisagem” (Robertinho de Recife/Fausto Nilo), “Senhora Dona” (Brandão/ Petrúcio Maia), “Agonia” (Fagner) entre outras.

Em 1979 lançou “Frevo mulher“, um disco que traz o primeiro registro da canção “Dia Branco” (de autoria do cantores e compositores Geraldo Azevedo e Renato Rocha), “Frevo Mulher” (canção de autoria de Zé Ramalho e que viria a se tornar um clássico do repertório de ambos) e “Galope rasante” (outra canção da lavra do cantor e compositor paraibano). Seus dois LP’s seguintes, “Porta secreta” e “Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor” trouxeram mais canções que caíram no gosto popular, além de registro de autores como Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Djavan, Vital Farias, Gonzaguinha, Moraes Moreira, Novelli, Cacaso entre outros.

São desses álbuns faixas como Gemedeira (Robertinho de Recife/Capinan), “Periga ser” (Fausto Nilo/Robertinho de Recife), Foi Deus que fez você (Luis Ramalho), Mulher nova bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor (Otacílio Batista/Zé Ramalho), Amar quem eu já amei (João do Vale/Libório), Água de lua (Djavan) entre outras.

Para quem não sabe a cantora é cearense e radicou-se no Sudeste no início da vida adulta objetivando estudar comunicação. Pode-se afirmar que a música entrou em sua vida de modo bastante despretensioso. Suas primeiras incursões na música ocorreram de forma bastante amadora, participando de shows do conterrâneo Raimundo Fagner. A partir destas apresentações surgiram algumas oportunidades para aparecer em programas de televisão. Em 1975 viajou com Vinicius de Moraes e Toquinho onde participou de diversas apresentações da dupla. Essa convivência inspirou Vinicius de Moraes que compôs para ela “Ah! quem me dera“. Como dito, a sua notabilidade nacionalmente falando veio na mesma época que toda uma leva de artistas nordestinos chamados genericamente de “Pessoal do Ceará”, entre os quais estavam seus conterrâneos Raimundo Fagner, Ednardo e Belchior.

Dentre suas façanhas profissionais está o disco de ouro conquistado com o disco “Frevo mulher“, a sua participação no Festival MPB 80, da Rede Globo, classificando em 2º lugar a música “Foi Deus quem fez você“. Devido ao sucesso desta música, vendeu mais de um milhão de cópias do compacto homônimo, e foi a primeira música a alcançar o primeiro lugar entre as mais executadas tanto nas faixas de FM quanto de AM naquele ano. Outro feito da cantora: teve um dos seus LP’s por 30 semanas entre os 50 LPs mais vendidos do país, entre outras façanhas.

Para matar a saudade desta intérprete deixo aos amigos a canção “Dia Branco”, presente no álbum “Frevo mulher” e a canção “Mulher nova bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor”. A primeira é uma faixa composta por Geraldo Azevedo e Renato Rocha:

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A segunda canção é uma das canções mais marcantes da carreira da cearense e como dito é de autoria de Zé Ramalho e Otacílio Batista:

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ENTREVISTA COM ZÉ RENATO

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica a partir de sua trajetória enquanto integrante de vários projetos musicais, assim como também instrumentista, compositor e intérprete em diversos projetos solo.

De passagem pela capital pernambucana, onde apresentou-se em duas ocasiões em Casa Forte, o cantor, instrumentista e compositor Zé Renato recebeu-nos para um descontraído bate-papo onde relembrou histórias suas ligadas ao período que antecedeu o início de sua trajetória musical, a sua participação nos grupo “Cantares”, projetos fonográficos (solos, em duo e projetos coletivos) e sua participação no grupo que o projetou nacionalmente: o Boca Livre.

Nesta informal conversa é possível também tomar conhecimento de algumas curiosidades acerca do autor de “Bicicleta” como sua breve passagem pelo teatro e a importância do show “Milagres do peixe”, do Milton Nascimento, em sua trajetória musical.

Além disso, falamos sobre projetos futuros, lançamentos fonográficos agendados para breve, sua relação com o público pernambucano entre outras coisas.

Papo agradabilíssimo.


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

O nome que hoje trago para nosso espaço é um dos mais representativos da música popular brasileira a partir dos anos de 1970, pois ao lado de nomes como Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Túlio Mourão, Milton Nascimento, Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Tavinho Moura, Fernando Brant e tantos outros foi responsável por um dos movimentos mais expressivos da história da MPB: o Clube da Esquina.

Tal movimento nasceu a partir das frequentes reuniões no apartamento do senhor Salomão Borges, em Belo Horizonte. Lá era comum a reunião alguns daqueles que se tornariam expressivos nomes de nossa música encontrarem seus filhos Marilton e Márcio para fazer música e falar sobre cinema. Esses encontros tornaram-se fundamentais para a iniciação deste movimento que chamaria a atenção do país inteiro após um dos participantes vencer o Festival de Música Popular Brasileira e ao ter uma de suas composições, “Canção do sal“, gravada pela então novata Elis Regina ainda na década de 1960.

Enquanto toda essa efervescência musical ocorria Lô Borges curtia a adolescência nas ruas de Santa Teresa ao lado do também futuro cantor e compositor Beto Guedes (amizade que começou ainda na infância por intermédio de uma patinete) e fazia as suas primeiras incursões pela música com o conjunto musical formado ao lado dos irmãos, os “Beavers”, integrado, também, pelo inseparável amigo. É válido o registro de que sua família está intrinsecamente ligada às artes, pois dos seus 11 irmãos muitos envolveram-se com música, como é o caso de Márcio Borges, seu parceiro constante, e Telo Borges, autor, junto com o irmão Márcio, de “Vento de maio“, música que foi gravada por Elis Regina. Telo, por exemplo, já traz em sua biografia alguns projetos fonográficos.

Tal movimento foi batizado de Clube da Esquina, devido ao hábito deles reunirem-se na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, para trocar ideias musicais. A partir desses encontros (tanto na esquina quanto em seu apartamento), Lô Borges começou a se aventurar no universo da composição e corajosamente apresentou algumas dessas canções a Bituca, que era o apelido de Milton Nascimento.

Milton Nascimento apaixonava-se cada vez mais a cada nova canção apresentada e desse encontro surgiu um dos discos de maior visibilidade de Milton: “Clube da Esquina“, lançado em 1972 e que, dentre as 21 faixas presentes, tem oito assinadas por Lô. Sua participação foi fundamental nesse disco, ajudando a caracterizar a sonoridade do Clube da Esquina ao lado dos amigos. Na contracapa, seu nome aparece em destaque ao lado do nome de Milton Nascimento.

No ano seguinte, lança pela EMI-Odeon seu primeiro disco solo. O LP, que ficou conhecido como o ”Disco do tênis”, contou com a participação de Beto Guedes e Flávio Venturini, mas não atingiu o sucesso de sua primeira incursão fonográfica.

Sua discografia ainda conta com álbuns como “Via Láctea” (1979), “Os Borges” (1980), “Sonho real” (1984), “Meu filme” (1996), “Horizonte vertical” (2011), entre outros. Nas últimas décadas tem se aproximado de novos compositores mineiros como é o caso de Samuel Rosa, parceiro em canções como “Dois Rios” e “Lampejo“. Essas parcerias eternizaram-se em CD e DVD em 2016 quando chegou às lojas de todo o país o projeto “Samuel Rosa & Lô Borges: Ao Vivo no Cine Theatro Brasil“. Parceiro de nomes como Caetano Veloso, Ronaldo Bastos, Chico Amaral, seus irmãos entre outros; suas canções foram gravadas por nomes como Nana Caymmi, Simone, Gal Costa e Elis Regina que, além de gravar de sua autoria “Trem Azul“, também deu este título ao seu último show. Essa turnê gerou o álbum duplo homônimo, gravado ao vivo e lançado, em 1982, pela Som Livre.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções da lavra do Lô Borges. A primeira trata-se de “Sonho real“, canção de autoria da dupla Lô e Ronaldo Bastos e que foi lançada em 1984 em álbum homônimo:

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A segunda canção trata-se de “Quem sabe isso quer dizer amor“, canção dos irmãos Lô e Márcio Borges. Esse registro que aqui se encontra foi feito no álbum “Um dia e meio“, de 2003:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Renato Braz é uma das gratas surpresas surgidas na música popular brasileira a partir dos anos de 1990. Seu primeiro disco chegou ao mercado em 1996, mas o início de sua carreira se deu tocando bateria e cantando em bares e casas noturnas de São Paulo, além de participar de diversos festivais de música por todo o país. O seu modo discreto de conduzir a carreira acabou por fazê-lo um artista muito bem conceituado, no entanto sem o destaque merecidoapesar de belíssimos trabalhos lançados ao longo dessas últimas duas décadas de estrada. Com discos pautados na qualidade sonora e uma seleta escolha de repertório, Renato (ao lado de Mônica Salmaso, Zeca Baleiro, Pedro Mariano, Chico César e alguns outros poucos que agora não me recordo), vem se destacando como um dos mais expressivos nomes da geração surgida na MPB ao longo dos anos de 1990.

Seu primeiro disco, como dito lançado em 1996, trouxe como título o seu nome e apresenta um repertório que fugia da linha mercadológica fonográfica vigente a partir de um repertório que conta com faixas como “Anabela” (Mário Gil e Paulo César Pinheiro), “Bambayuque” (Zeca Baleiro), “Retirantes” (Dorival Caymmi), “Estrela da terra” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro), “7×7” (Guinga e Aldir Blanc), “Pagã” (Chico César), “Passarinheiro” (Jean Garfunkel e Pratinha) e “Meu drama” (Silas de Oliveira e Joaquim Ilarindo), entre outras. Apesar de ser um estreante, este disco contou com a participação dos músicos Sizão Machado, Mário Gil, Laércio de Freitas, da também iniciante Mônica Salmaso e do conceituado e exigente Dori Caymmi, que participou da faixa “O porto”. Por este disco, em 1997, o CD “Renato Braz” foi indicado para o Prêmio Sharp, na categoria Revelação.

Desde então o artista hoje em questão vem galgando espaços significativos dentro da música popular brasileira contemporânea de qualidade a partir de projetos como o CD “História antiga”, que lançado em 1998 contém em seu repertório músicas de autores como Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim, Vinicius de Moraes Zé Dantas, Edu Lobo, Chico Buarque, entre outros. Novamente o disco contou com a participação de Dori Caymmi no violão e nos arranjos. Essa amizade com o Dori acabou os aproximando ao ponto do cantor, instrumentista e compositor radicado nos EUA esteja quase sempre presente nos projetos fonográficos do músico e cantor paulista.

Sua discografia conta ainda com projetos como “Outro quilombo” (que ratifica a seleta escolha de repertório a partir de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sueli Costa entre outros). Por conta do CD “Outro quilombo”, foi contemplado com o o Prêmio Visa/Edição Vocal, em 2002, o que lhe rendeu a gravação, nesse mesmo ano, do CD “Quixote”, no qual registrou as músicas como “Disparada” (Geraldo Vandré e Téo de Barros) e “Canto das três raças” (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), entre outras; o CD “Por toda a minha vida – As canções de Jean e Paulo Garfunkel”; “Papo de passarim”, disco gravado ao vivo no Teatro Fecap (SP) em parceria com Zé Renato; projeto lançado em 2012; ao lado do músico Nailor Proveta o disco “Silêncio – Um tributo a João Gilberto” (2014). Em 2015 lançou “Saudade” (projeto voltado para o mercado americano onde constam algumas regravações ao lado do nomes como Paul Winter,Dixon Van Winkle, Dori Caymmi, Ivan Lins e The Dmitri Pokrovsky Ensemble) e “Canela” (projeto ao lado do Quarteto Maogani). Atualmente vem divulgando “Mar Aberto” (2016), projeto lançado ao lado do amigo Mário Gil.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções presentes na discografia do intérprete: a primeira vem a ser a canção “Não vim pra ficar“, música de autoria da dupla Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves que encontra-se presente no disco “Quixote”:

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A segunda canção vem a ser O amor, poema de Maiakowski adaptado por Ney Costa Santos e Caetano Veloso. Esta canção encontra-se no terceiro disco do artista intitulado “História Antiga”, lançado em 1998:

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COM 20 ANOS DE CARREIRA, CRISTIANE QUINTAS É PÉROLA AOS POUCOS

Artista pernambucana radicada no Canadá já há algum tempo, Cristiane usa a saudade como combustível para a sua arte

É inegável a relevância da música pernambucana no cenário músico-cultural do nosso país. Pernambuco presenteou o Brasil como nomes representativos nos mais variados estilos musicais existentes: Capiba eNelson Ferreira (como representantes máximos do gênero-identidade do Estado, que é o frevo) Luiz Gonzaga, Marinês e Dominguinhos (xotes, baiões e xaxados), Reginaldo Rossi (no gênero denominado brega), Fernando Lobo (relevante compositor brasileiro e pai do não menos importanteEdu Lobo), Moacir Santos (que como diria Vinícius de Moraes: “Não és um só, é tantos como o Brasil de todos os santos”), o músico Walter Wanderley; Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelose Alceu Valença como exponentes da geração pós bossa-nova e tropicalismo, assim também Chico Science como exponencial da música produzida em nosso estado a partir dos anos de 1990 e que por conseguinte voltaria os holofotes para trabalhos de nomes como Lenine, Lula Queiroga, Silvério Pessoa, Siba, Mestre Ambrósio, Cascabulho, entre outros nomes que a partir do movimento denominado Mangue Beat.

Com o advento da tecnologia nesta nova era digital e a reviravolta no mercado fonográfico dos anos 2000 em diante, a música pernambucana foi somando forças à sua tradição, buscando aglutinar diversos e distintos gêneros e influências a partir de mais um sem fim de de artistas que brotam a cada oportunidade surgida e reverberam a sua arte nos quatro cantos do planeta como é o caso de nomes como a SpokFrevo Orquestra, a Orquestra Contemporânea de Olinda entre outros nomes que reafirmam, em tempos onde aquilo que se vende por cultura é de qualidade duvidosa, a importância pernambucana no cenário musical nacional.

É neste novo contexto que surge um novo nome neste incessante cenário musical, trata-se da cantora, instrumentista, escritora, crítica literária e compositora Cristiane Quintas. Inquietamente criativa (assim como a música produzida em Pernambuco), a designer Quintas além de atuar nas artes plásticas, traz em sua bagagem a sua chancela em diversas produções literárias infantis ao longo dos últimos anos. Como exemplo desta afirmação há o livro “Cantando com os animais”, que chegou ao mercado editorial pelas mãos da Editora Bagaço em outubro de 2005 na Bienal do Livro. Este disco merece destaque levando em consideração que foi ele que oportunizou a cantora e compositora a gravação do seu primeiro CD. Sendo complemento do projeto literário, o disco traz a partir de temas infantis toda a criatividade musical e interpretativa da artista em questão.

O sucesso foi tamanho que a primeira edição desta produção literária esgotou-se em apenas dois meses e foi adotado em algumas escolas do Recife como paradidático. No entanto acho válido o seguinte comentário: apesar da artista já contar com 26 títulos em sua bagagem e trazer como proposta profissional a finalidade de iniciação musical para pequenos, foi na música onde ela primeiro se destacou. Tanto é verdade que sua produção bibliográfica traz como uma das principais marcas essa indissociável relação entre a ludicidade, música e o contexto literário. Um trabalho que destaca a música como elemento facilitador para a formação de pequenos leitores. Para atender a esta proposta, dentre outros títulos, a escritora e pedagoga traz em sua bagagem”A fuga da bailarina”, “O galo sapateador”, “A centopeia”, “Os mundos de Tita e Bete”, “Era uma vez nosso mundo”, entre outros.

Além desse contexto literário, Cristiane traz em sua biografia profissional outro momento de merecido destaque: embasada em temas que permeiam o universo infantil, buscou somar forças à poesia e inspiração do compositor Xico Bizerra e junto fizeram o projeto “Ser tão criança” (onde é possível ser encontrado no site www.passadisco.com.br). Compositor que abrange os mais distintos gêneros existentes na música brasileira, Xico até então não possuía experiências maiores no nicho infantil, mas respaldado na experiência litero-pedagógica de Quintas foram capazes de gerar um dos mais belos e singelos título da exitosa série Forroboxote (primeiro dedicado às crianças) do compositor cearense. É um disco que conta com a participação de nomes de destaque da música pernambucana a exemplo de Geraldo Maia e Nena Queiroga e abrange os mais distintos gêneros da cultura nacional como xotes, cocos, sambas de latada entre outros a partir de temas referentes a natureza, fenômenos naturais, a fauna entre outros presentes nas doze faixas do disco.

Desse modo, o talento abrangente de Cristiane Quintas reafirma que Pernambuco é, antes de tudo, um estado marcado por uma diversidade cultural singular, e que apesar de todas as dificuldades existentes, busca manter sua cena viva a partir de toda a efervescência que lhe é tão peculiar. Neste cenário, nomes como o de Quintas destacam-se por reafirmarem um compromisso maior com a criatividade, a sensibilidade e a qualidade naquilo que compõe, fazendo com que o público futuro, baseado em boas letras e melodias, acabe por tomá-lo como referência positiva diante de tanta coisa que destoa daquela definição que muitos tem do termo música a partir de letras e canções muito bem elaboradas e executadas em combate a degradação da cultura como um todo. E esse compromisso a recifense vem assumindo desde que deu início a sua trajetória artística ainda nos anos de 1990 quando sob direção do parceiro musical Paulo Carvalho, estreou como cantora no espetáculo “O começo de tudo”, onde apresentou um repertório pautado em nomes como Chiquinha Gonzaga, Nelson Cavaquinho eGuilherme de Brito.

Ao longo de duas décadas de carreira, a multifacetada artista fez incursões por projetos como “Quinta de cantoria” no teatro do parque, ao lado de Publius Figueiredo, Edmilson eAntonio Lisboa, Maria da paz e muitos outros; esteve presente, em 2005, na abertura do show do violonista Yamandú Costa no saudoso Projeto Seis e meia e selou parcerias como nomes como o do já citado Paulo Carvalho, Bia Marinho, Zeh Rocha e Alberto de Oliveira. É por essas e outras que afirmo de modo convicto aquilo que trouxe como título desta pauta: Cristiane Quintas é pérola aos poucos, e pode ter certeza: É um grande privilégio tomar conhecimento de trabalhos como o que ela desenvolve.

Para audição dos amigos uma das canções da parceria musical existente entre Cristiane e Paulo Carvalho intitulada “Tem mais um folião“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Recentemente tive a oportunidade de trazer aqui mesmo para esta coluna o nome do consagrado instrumentista, compositor e cantor Wilson das Neves. Como foco da primeira abordagem trouxe o início da carreira de Das Neves e compreendi em parte o porquê de um refrão que ele traz consigo como marca registrada: “Ô sorte!”. De fato o instrumentista teve bastante sorte no início de sua carreira artística ao cruzar com nomes precisos e fundamentais para o seu desenvolvimento artístico. Não foi à toa que cerca de seis anos de dar início a sua carreira profissional, Wilson já estava acompanhando alguns dos mais destacáveis nomes da música popular brasileira daquela época. Pautada sempre a partir do samba, de grandes parceiros e execuções que trazem consigo um toque bem característico do artista que hoje vem colhendo os frutos de uma exitosa carreira construída ao longo dos últimos sessenta anos.

Retomando a abordagem biográfica, nos anos seguintes Wilson das Neves diversificou tornando-se também intérprete. Em sua discografia, a estreia se deu em 1996, no álbum “O Som Sagrado de Wilson das Neves“, lançado pela CID com participações de Paulo César Pinheiro e Chico Buarque, agraciado à época com o Prêmio Sharp. De lá pra cá já gravou discos como “Brasão de Orfeu” (2004), “Samba de Gringo 2” (2006) e “Pra Gente Fazer Mais Um Samba” (2010); ingressou na Orquestra Imperial; atuou em filmes e documentários tais quais “Noel – Poeta da Vila“, “O Filho do Futebol” e “Alfavela” (sem contar o documentário “O Samba é Meu Dom”, sobre sua vida e obra feito por Cristiano Abud). Em mais de cinquenta anos de carreira como baterista acompanhou mais de 600 artistas, entre os quais Carlos Lyra, João Bosco, Bethânia, Gal, Emílio Santiago, Nelson Gonçalves, Caetano Veloso, hico Buarque, Elizete Cardoso, Beth Carvalho, Roberto Carlos, Elis Regina, Gilberto Gil, Alcione, Tom Jobim e Miucha, entre vários artistas da MPB além de internacionais como Michel Legrand, Sarah Vaughan, Toots Thielemans e Sean Lennon.

Hoje, aos oitenta anos, o artista vem apresentando o seu novo álbum intitulado “Se me chamar, ô sorte”, lançado em 2013 e que tem entre seus produtores Paulo César Pinheiro. De repertório autoral, o disco contou com faixas como “Samba pra João” (c/ Chico Buarque), “Trato” (c/ Paulo César Pinheiro), “Limites” (c/ Toninho Nascimento), “O dono da razão” (c/ Toninho Geraes), “Se me chamar, ô sorte” (c/ Cláudio Jorge), em que dividiu os vocais com Cláudio Jorge, entre outras. O disco ainda conta com a participação especial da cantora Áurea Martins na faixa “Ao nosso amor maior” (Wilson das Neves e Luiz Carlos da Vila). Além desse disco, em comemoração as oito décadas de vida de Wilson foi lançada também pela editora Multifoco o livro “Ô Sorte! Memórias de Um Imperador” uma breve biografia do grande músico de autoria de Guilherme Almeida. Com este disco conquistou os prêmios de melhor Canção, pela música “Samba pra João” e de melhor álbum de samba pelo disco na 25ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Um dos momentos mais belos da Cerimônia de Abertura das Olimpíadas 2016, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, aconteceu justamente com a participação de Wilson.

Tocando samba em um pequeno instrumento musical de couro, que imitava uma caixinha de fósforos, Das Neves mostrou aos quatro cantos do mundo a força do samba brasileiro enquanto o passista-mirim Thawan Lucas da Trindade sambava ao seu lado. “Foi um momento de reverência à verdadeira história da música popular brasileira. Hoje, é aquele papo: muitos nem sabem quem foi Donga, João da Baiana, Wilson Batista… A gente cuida muito dos de fora e esquece os nossos. Santo de casa não faz milagre. Como sou um dos mais antigos, acho que a ideia ali foi “vamos lembrar, vamos ensinar”. Se a música é o nosso CPF, como Das Neves costuma dizer, sem dúvida alguma o músico octogenário é a nossa Receita Federal.

Encerrando a abordagem ao nomes deste já saudoso mestre deixo aqui para os amigos leitores a canção “O samba é meu dom”, uma parceria de Das Neves com Paulo César Pinheiro:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Wilson das Neves

Falar dos grande representantes do samba ainda em atividade e esquecer o nome do cantor , instrumentista e compositor carioca Wilson das Neves é cometer uma das mais graves heresias existentes no universo musical brasileiro, Das Neves, como é conhecido no meio artístico começou a sua carreira como baterista na orquestra de Permínio Gonçalves na década de 1950 aos 21 anos de idade. Entre 1957 e 1968, Wilson acompanhou a pianista Carolina Cardoso de Menezes, foi membro do Conjunto de Ubirajara Silva, e estreou como “músico de estúdio” na Copacabana Discos; e se integrou em conjuntos como o de Steve Bernard e o de Ed Lincoln.

Ainda nestes primeiros anos como instrumentista firmou-se no meio musical e apesar do pouco tempo de carreira começou a acompanhar alguns dos maiores nomes da música brasileira desde então. No início tocou com nomes como o flautista Copinha, o pianista Eumir Deodato no conjunto Os Catedráticos, e com Eumir e Durval Ferreira no grupo Os Gatos. Em 1964 funda o grupo Os Ipanemas, com o qual chegou a gravar apenas um LP o qual continha canções que posteriormente viria a se tornar clássicos da música popular brasileira tais quais “Garota de Ipanema” e “Berimbau”.

Integrante das orquestras da TV Globo e da TV Tupi de São Paulo, em 1965 participou tocando bateria em todas as faixas do antológico disco “Coisas”, do mastro e compositor pernambucano Moacir Santos. Ainda na década de 1960 gravou com Elza Soares, o disco “Elza Soares – Baterista: Wilson das Neves”, formou seu próprio conjunto, registrou o LP “Juventude 2000”, gravou o disco e “Som Quente É o das Neves” com arranjos de Erlon Chaves (responsável também pelos arranjos do LP “Samba Tropi – Até aí morreu Neves”).

Na década de 1970 acompanhou grandes nomes da MPB como Roberto Carlos, Francis Hime, Taiguara, Elis Regina, Egberto Gismonti, Wilson Simonal, Elizeth Cardoso, Sérgio Sampaio, João Donato, Jorge Ben e Nara Leão em discos como “Lugar Comum”, “Meu Primeiro Amor” e “África Brasil”. Foi ainda nos anos de 1970, no LP “O Som Quente É o das Neves”, que Wilson das Neves estreou como cantor e compositor. Essa faceta do instrumentista evidencia-se de modo mais evidente a partir do samba, onde compôs canções com nomes como Nei Lopes, Moacyr Luz, Claudio Jorge, Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro entre outros.

É bem provável que esse seu lado tenha sido substanciado não apenas pela experiência de dividir o palco com nomes como João Nogueira, Beth Carvalho, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila entre outros, mas também por sua paixão pela escola de samba Império Serrano, onde tocava tamborim como ritmista. É de sua autoria (em parceria com Paulo César Pinheiro) a canção “O samba é meu dom”, uma belíssima música que traz em sua letra a citação de mais de vinte nomes de sambistas que contribuíram de modo significativo para a trazer o samba ao patamar ao nível em que hoje ele se encontra.

Trazer o nome de Das Neves a esta coluna é buscar dar as flores em vida a este nome que é uma das representações máximas do samba brasileiro. Sua linhagem é única, como tem sido percebível a cada novo projeto ao qual se deixa envolver, a cada novo álbum lançado ou a cada apresentação que costuma fazer empunhando suas baquetas. Uma das grandes vantagens de escrever uma coluna como esta é ter a oportunidade de não apenas trazer grandes nomes da MPB, mas falar de quem se admira como é o caso deste artista singular. Ô sorte!

Deixo aqui a sua parceria com o cantor e compositor Chico Buarque chamada “Grande Hotel”, neste registro de 1996 o cantor, compositor e instrumentista tem nos vocais a companhia de Chico Buarque, artista com quem fez parcerias nos palcos por cerca de 30 anos:

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BEATRIZ RABELLO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

De beleza estonteante, a cantora e atriz chega ao mercado fonográfico apresentando um trabalho bastante coeso com o tipo de música que sempre a cercou

Apesar da intimidade de Beatriz Rabello com os palcos, foi só no final de 2016 que a atriz e cantora colocou o seu bloco na rua para deleite dos amantes da boa música. Linda e talentosa, a intérprete lançou-se na música há exatamente uma década quando atuou como backing vocal no CD e DVD “Acústico MTV Paulinho da Viola”. Nesse ínterim de uma década, a cantora atuou no teatro em diversos musicais, contexto o qual substanciou a sua musicalidade e a fez abraçar em definitivo a ideia da concepção de “Bloco do amor”, projeto fonográfico que conta com um primoroso repertório composto por clássicos da música popular brasileira assim como também por canções inéditas como foi apresentado aqui mesmo no JBF recentemente a partir da matéria “COMANDANDO O BLOCO, BEATRIZ RABELLO DEBUTA EM GRÁCIL PROJETO FONOGRÁFICO”. Hoje, Beatriz volta a abrilhantar o nosso espaço com este bate-papo exclusivo onde nos conta algumas peculiaridades, dentre elas como é ser filha de um dos maiores nomes da música popular brasileira e a razão pela qual passou quase uma década para lançar o seu álbum de estreia. Desejo a todos uma excelente leitura!

Você vem de uma família bastante musical. Neta do César Farias, filha do Paulinho da Viola e sobrinha de Raphael Rabello entre outros parentes envoltos com artes. Qual é a lembrança mais remota do seu envolvimento com a música?

Beatriz Rabello – Cézar Faria, com “Z”. Minha primeira lembrança: rodas de choro na casa do meu avô.

Nascer em meio a um contexto musical como este é um privilégio para poucos, mas ao mesmo tempo, existe aí uma responsabilidade que vem na mesma proporção. Quando você resolveu também abraçar a arte esse fator pesou ou ainda pesa? Como é ser filha de um dos maiores nomes da música popular brasileira?

BR – Sempre digo que pode ser um bônus ou um ônus. Tem que ter maturidade para lidar com essa dualidade. Tenho muito orgulho de ser filha do meu pai e faço questão de tirar o melhor disso. Quem coloca peso é quem vê de fora e não faz parte desse contexto.

Da sua estreia nos palcos cantando até o lançamento do seu primeiro álbum houve um intervalo de quase uma década. Neste longo intervalo em algum momento pensou em desistir de concluir o álbum? Por qual razão você passou quase uma década para lançar este disco?

BR – Veja bem, eu não levei uma década para concluir o álbum (rsrs!) Eu comecei no teatro musical em 2008, sem nenhuma intenção de gravar disco. Só fui fazer isso quando me deu vontade e achei que tinha algo pra dizer. Comecei a pensar o disco em 2013 e gravei em 2014. Só lancei em 2016 porque disco independente é assim mesmo, a gente vai fazendo as etapas quando pode, e eu ainda tinha compromissos com espetáculos teatrais, tive que conciliar as agendas.

O samba vem renovando-se de modo muito genuíno a partir de duas principais vertentes: talentosos compositores da nova geração e alguns filhos de bambas do gênero que vem dando continuidade a legados de nomes como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila e agora Paulinho da Viola. Em sua opinião qual o panorama que o samba hoje se encontra? (Uma vez que tem um grande passado e pelo visto um promissor futuro).

BR – Vejo o samba se perpetuando de maneira muito digna e próspera, com muita verdade, muita seriedade. É muita ancestralidade envolvida. Vejo meus colegas de profissão defendendo muito honradamente esse legado, tem muita história envolvida, vínculos afetivos, familiares, é uma responsabilidade. E vejo também muita gente talentosa e respeitável que não vem de família de músicos e abraça o samba como sua verdade, tem muita gente incrível fazendo samba, defendendo essa história, respeitando as suas origens e fazendo essa roda girar sem parar. Isso é de uma força e uma riqueza que emociona e me faz acreditar que o samba é eterno.

O disco conta com regravações de clássicos da MPB como “Sonho de um carnaval”, “Marcha da quarta-feira de cinzas” e “Enredo do meu samba”. Como se deu a escolha dessas canções?

BR – Minha ideia era ter um repertório basicamente de sambas que falassem de amor e de carnaval. São minhas paixões na vida. Sempre quis gravar músicas inéditas, mas não queria deixar de fora alguns clássicos que se relacionavam bem com a temática que eu escolhi. “Sonho de um carnaval” fala da minha paixão pelo carnaval; “Marcha de quarta-feira de cinzas” é uma canção que canto no espetáculo “Sassaricando” e tem tudo a ver com o disco; “Enredo do meu samba” costura lindamente as questões de um desfile de carnaval com as de um relacionamento amoroso. São clássicos que se encaixaram perfeitamente da concepção do disco.

Neste álbum a presença do seu pai faz-se muito evidente. Paulinho assina três composições, além de participar de uma delas cantando e executando o seu inconfundível violão. Qual foi a primeira reação que ele teve quando você deu a notícia que iria gravar o seu álbum de estreia?

BR – Desde o início, eu já havia definido que ele estaria presente de alguma forma. E ele próprio já tinha dito que queria estar no disco. Então escolhi registrar uma música dele que já cantamos juntos muitas vezes em shows dele, que é “Só o tempo”. Achei que a participação dele se limitaria a isso, que já era uma grande felicidade para mim. Tenho muito orgulho de ser filha dele e acho que 9 entre 10 cantoras brasileiras adorariam ter a participação dele num disco, faço parte desse grupo. Confesso que acho meio ridículo filhos de artistas que querem cortar seus pais da vida profissional, me soa um tanto infantil. Sou bem resolvida com isso. E é um reconhecimento de valor por parte dele, porque sei que meu pai jamais faria nada comigo se não me achasse preparada para o que faço. Mas durante o processo ele entrou como parceiro numa outra música inédita. E quando já estava tudo gravado ele me apresentou uma música que ele fez especialmente pra mim, pra este disco, que traduz perfeitamente o meu sentimento quando concebi o álbum e acabou dando nome a ele, que é Bloco do Amor.

Por falar em Paulinho da Viola, neste seu trabalho há duas canções pinceladas de um disco dele lançado há 35 anos atrás, que é o “A toda hora rola uma estória”. Há alguma predileção por este álbum especificamente?

BR – Não, coincidência mesmo. A escolha do repertório foi direcionada pela ideia de falar de carnaval e amor.

Você traz em sua trajetória uma significativa passagem pelo teatro a partir de diversos musicais. Com esse novo projeto vai dar pra conciliar os musicais e os eventos relacionados ao lançamento do disco ou você abdicará dos musicais temporariamente?

BR – Sou apaixonada por fazer musicais, então não pretendo me afastar não! Vou conciliar tudo!

Seu pai traz uma carreira pontuada por grandes canções e álbuns antológicos. Outra característica que tem se acentuado nos últimos anos na discografia do Paulinho são os longos intervalos de um disco para o outro. Você já pensa no próximo trabalho ou seguirá esta mesma linha adotada pelo Paulinho nos últimos anos?

BR – Estou chegando agora. Não dá pra comparar Paulinho da Viola a nenhum artista iniciante, ainda que essa artista seja eu, que sou filha dele. Meu pai tem mais de 50 anos de carreira e durante toda a década de 1970 ele gravou um disco por ano, as vezes até mais. Penso que a contribuição dele à cultura já está muito bem fundamentada, ele pode ficar quanto tempo quiser sem gravar. Meu pai não faz discos, faz obras de arte. E obras de arte não são produzidas atendendo a nenhuma expectativa, muito menos as mercadológicas. Ele tem a tranquilidade de quem não se preocupa em acompanhar nenhuma dinâmica de mercado e um profundo respeito pela produção artística, já que não inventa motes nem se preocupa em forçar uma criação só pra andar no ritmo do comércio. Eu estou começando e é natural que a minha ansiedade seja bem maior. Penso num próximo disco sim, mas ainda tenho muita coisa pra fazer pelo Bloco do Amor.

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COMEÇA POR PINTAR A TUA ALDEIA

Dando início à série de reportagens em comemoração aos 75 anos do cantor e compositor pernambucano Bráulio de Castro, aniversariando nesta data, 18 de agosto, hoje destacaremos a intrínseca relação entre a sua obra e o seu torrão natal

Nada mais adequada do que a citação do russo Leon Tolstoi para batizar esta matéria. Quando o escritor eternizou a frase “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” não imaginava que anos depois, de modo inconsciente, alguns levariam a sério tal afirmação em um país tropical a milhares de quilômetros distância do autor. Da poesia à música, muitos nomes vem ao longo dos anos enaltecendo a beleza natural de canto a canto do nosso país. De um lado, fala-se da fauna em canções como “Urubu“, “Passaredo“, “O rouxinol“, “As baleias” a partir de inspirações pontuais de compositores que ganharam notoriedade nacional; do outro nossa flora é enaltecida a partir de registros como “Sabor colorido“, do cantor e compositor pernambucano Geraldo Azevedo entre tantas outras que registram em verso e prosa toda a diversidade que é peculiar ao nosso país. Soma-se a este contexto personagens como o índio (a exemplo de “Cara de índio” e “Um índio“), a preocupação com a preservação do meio ambiente (“Xote ecológico“) e enaltação do mesmo (“Festa da natureza“). Somas-se a este contexto, não podemos deixar de citar nomes dos saudosos Dorival Caymmi (que fala com uma propriedade singular do mar, do chão e das peculiaridades da Bahia como poucos) e Luiz Gonzaga (que ao lado de seus notáveis parceiros foi capaz de retratar o Nordeste como um lugar unidimensional). E é neste Nordeste provinciano e de vasta riqueza natural, onde cada um dos seus recantos inspiram versos e melodias, que outros nomes buscam retratar a verdadeira identidade de uma região singular, onde o Sertão surge como espaço privilegiado, muitas vezes tomado como “o lugar em que reside a nossa autentica nacionalidade” como bem definiu Maria César Boaventura.

Foi nessa privilegiada região que nasceu Bráulio de Castro, cantor e compositor que chega hoje aos 75 anos de vida (onde cerca de seis décadas desta vem sendo dedicada à música). Filho de bom Jardim, cidade do agreste pernambucano localizada a pouco mais de 100 quilômetros da capital, o cantor e compositor cresceu entre a capital e esta cidade berço natal de grandes musicistas e que por isso chegou a ser batizada também como “a terra da música”. Na infância e juventude teve a oportunidade de conviver com nomes como o do maestro Levino Ferreira (nome que se destacou como um dos maiores compositores do estado a partir de valsas, maracatus, peças folclóricas e religiosas, e principalmente frevos). Autor de significativo destaque no gênero frevo-de-rua, Levino teve uma intrínseca relação com o avô de Bráulio de Castro, o escultor e músico Admário Gomes de Castro presidente fundador em 22 de outubro de 1932 do Grêmio Litero Musical Bonjardinense. Soma-se a estes, outros músicos a exemplo de Airton Barbosa (Fundador do Quinteto Vila Lobos), Mestre Teté, Dinamérico Sedícias, Dimas Sedícias, Maestro Correia de Crasto, José Pessoa Sedícias (o Zé Bague) que corrroboraram não apenas para despertar o interesse do menino Bráulio como também, anos mais tarde, serviram de inspiração para algumas das canções que compôs relacionadas a cidade que lhe deu a régua e o compasso da composição. Vale o registro também de uma bucólica beleza e de um cotidiano que já não é mais possível observar nas cidades interioranas, mas que vive nas reminiscências do compositor inspirando-o para traduzir e eternizar em versos e canções muito daquilo que lhe constitui.

Com 51 canções dedicadas ao seu torrão, Bráulio de Castro é, sem sombra de dúvidas, o compositor que mais enalteceu sua terra natal. Não há compositor que dentro de sua obra já tenha dedicado 52 canções ao seu berço natal (se existe, desconheço). De modo despretensioso, o bonjardinense registra, com olhar clínico e lírico os casarões em estilo europeu, as Igrejas, a Pedra do Navio (que ilustrou a capa do primeiro álbum em homenagem a cidade), entre outras paisagens e personagens que eternizaram-se a partir da voz do próprio compositor assim como também do auxílio luxuoso de nomes como o de Fátima de Castro, Maciel Melo, Caju e Castanha, Genival Lacerda, Walmir Chagas, Expedito Baracho, Ivan Ferraz, Dominguinhos, Petrúcio Amorim, Sagrama, Djalma Pires, Coral Batutas de Bom Jardim entre outros nomes de relevante expressão do cenário musical que contribuíram com talento e sensibilidade para eternizar, sem sombra de dúvidas, o município mais enaltecido em verso e prosa do Estado de Pernambuco a partir de três excelentes álbuns lançados: “Meu Bom Jardim” (lançado ainda na década de 1990), “Bom Jardim – Terra da música e das flores de ouro” e “Minha terra” (lançados ao longo da última década juntamente com os livros “No Tempo da Pândega e do Deboche” e “Arrancaram os olhinhos do cavalo e outras estórias eplopéticas“. Vale o registro que o autor e compositor ainda tem em sua bibliografia o livro “Vamos lá Dentro – No Tempo da Bacia d’Água“, pela Editora Bagaço, que traz como tema histórias presenciadas e ouvidas sobre a vida boêmia e notívaga da capital pernambucana a partir da avenida Rio Branco, famoso reduto onde mulheres, em décadas passadas, se prostituíam.

Merecedor de reconhecimento por parte do Guinness World Records como o autor musical que mais enaltece a sua terra a partir de registros fonográficos, o compositor pernambucano vem sendo capaz de traduzir em arte peculiaridades extraídas de uma memória privilegiada e lembranças de uma época que hoje só existe no imaginário popular de sua região a partir de personagens como Dona Santa Parteira, Mestre Faustino, Beatriz dos espelhos, Dotô Mota, Zé Bague, Benedito e o seu terno, Marly Mota, Viana, Cabo Velho, Mestre Noventa, Zé Gomim, entre outros. Há também o registros da típica rotina interiorana onde Bom Jardim, longe dos holofotes tão comum aos grandes centros urbanos, ganha destaque na música popular brasileira a partir dos mais distintos gêneros existentes em nosso cancioneiro. Essa gama de ritmos impressiona não apenas por sua diversidade, mas por enaltecer uma cidade coadjuvante mas que aos olhos de um filho apaixonado passa a protagonizar valsas, frevos, forró ou qualquer outro gênero. Se muitos falam (mesmo que de modo pontual) do sertão, do litoral, Rio de janeiro, Bahia, Salvador e afins; No entanto, só um foi capaz, sem maiores pretensões, de eternizar uma cidade com tamanha cumplicidade, sensibilidade e lirismo. Com sete décadas e meia de vida e uma memória privilegiada, não é de se espantar que Bráulio de Castro, ilustre filho de Bom Jardim, ainda contribua (e muito) na confecção desse genuíno e sonoro cartão-postal.

A música que destaco hoje é “Eu nasci aqui“, baião de autoria de Bráulio de Castro e presente no álbum “Minha terra”. Como intérprete o próprio aniversariante:

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ZÉ RENATO – ENTREVISTA EXCLUSIVA – PARTE 2

O entrevistado com este colunista – Hoje o músico capixaba retoma a retrospectiva biográfica e musical

Dando continuidade ao agradabilíssimo bate-papo já iniciado aqui mesmo em nosso espaço, hoje fechamos a abordagem à carreira deste artista que ao longo de 2017 completa quatro décadas de uma carreira dinâmica, que vem se renovando e substanciando-se a partir dos mais distintos projetos como, de certo modo, já foi mostrado na primeira parte de nossa conversa. Hoje, em nosso bate-papo o cantor, instrumentista e compositor relembra seus projetos duos (e nos diz o porquê de intervalos significativos entre eles), os projetos coletivos dos quais faz parte, a possibilidade da releitura de algum disco de sua carreira, as faixas que fazem parte de sua extra-discografia, o novo projeto fonográfico ao qual está fazendo parte ao lado do Edu Lobo, Dori Caymmi entre outros assuntos que podem ser conferido logo abaixo. Uma excelente leitura para todos!

Esse box vai sair sob produção do Marcelo Fróes novamente?

ZR – Isso… exatamente.

O pontapé inicial para os seus projetos em duo se deu com o Cláudio Nucci em 1984. Daí 16 anos depois você vem com “Memorial” (com Wagner Tiso) e, dez anos depois, “Papo de Passarim” (com Renato Braz). Você que se ver envolto em tantos projetos musicais e fonográficos por que intervalos tão longos em projetos registros de projetos neste formato?

ZR – É porque na verdade eu não me programo assim para essas coisas, vão acontecendo… são encontros, coisas que… as vezes uma viagem encontro uma pessoa… no caso do Renato eu não me lembro exatamente em que circunstância foi, mas nos encontramos e a gente tem muita identificação musical, as referências musicais dele são muito parecidas com as minhas e tal… e isso acabou gerando o trabalho. Quer dizer… como tem outras coisas que podem acontecer… tem músicas, por exemplo com… parcerias com… muita coisa com a Joyce (já fizemos inclusive um espetáculo juntos…), pode isso, quem sabe no futuro virar um trabalho… Nesse caso seria autoral…. com o Pedro Luís também… parceiro que a gente tem já muita coisa juntos. Tudo são projetos que pro futuro podem acontecer. Tem nada marcado, nada definido, mas são coisas que já foram conversadas. A gente vai reunindo assim um trabalho significativo que dá vontade de fazer… então isso pode ser que aconteça.

Nestes 40 anos você sempre se fez um artista atuante também em projetos coletivos como a Banda Zil, ZR Trio, Ponto de Encontro, Navegantes e mais recentemente o Dobrando a carioca. Quais são as facilidades e dificuldades em participar de projetos como estes?

ZR – Banda Zil vai sair agora, vai sair um DVD que foi gravado e que tá pra sair. Vai sair esse ano… tá no momento lá de finalização e de detalhes finais… Olha, eu já tenho essa escola do Boca Livre né? Como tenho já um tempo (bastante) que trabalho com.. desde o Cantares (que também era um grupo antes do Boca Livre). Então eu tenho já essa… essa… aprendi essa dinâmica de trabalhar com grupo. Então pra mim não é uma coisa difícil. Eu consigo me adaptar… Tem grupos que você tem que saber ouvir os outros, nem sempre a sua opinião prevalece… e eu acho que essa é uma coisa de… é um aprendizado de vida, acaba sendo…você conviver com as pessoas e saber que você não é infalível, que suas ideias não são sempre geniais e que possa… e nem é questão de ser ideias boas ou não, as vezes, as suas ideias por melhores que sejam não se adaptam àquele contexto. Então é isso… isso aí a gente vai aprendendo.

São dezenas de discos ao longo desses 40 anos de carreira. Em épocas de releituras como a que vivemos (um exemplo é o Alceu com a turnê “Vivo Revivo”) que disco em sua discografia você acha que mereceria uma releitura?

ZR – Olha… por que não? Não sei, rapaz… é uma ideia… quem sabe? Acho que tem aí muita coisa que… Agora, por exemplo, vai ser lançado… agora dia 08 de agosto, a gente vai lançar nas plataformas digitais, o “Cabô”, que é um disco meu de sambas com parcerias com várias pessoas. Esse disco estava fora de circuito há muito tempo e a gente vai lançar ele nas plataformas digitais e inclusive junto com isso um vídeo que foi feito na época, um vídeo clipe da música “Cabô”, onde participam várias pessoas. Tudo isso vai acontecer agora dia 08 de agosto, tá marcado.

Em comemoração a estes 40 anos foi lançado recentemente, sob produção do Marcelo Fróes, o Box Zé Renato. Um projeto que traz seus dois primeiros discos e gravações raras. Dentre estes raros registros qual ou quais você destacaria e por qual razão?

ZR – O momento com o Tom é bem especial porque… imagina… foi marcante na minha vida ter a oportunidade de estar junto com ele. Eu não era íntimo dele, mas tivemos ali alguns encontros que foram marcantes.

Hoje você trouxe à Recife um show cujo parceria teve início à época do Projeto Vitrine (quando você ainda estava iniciando a carreira). Nestes 40 anos de amizade e parceria pelos palcos da vida já não deveria ter dado origem a algum registro?

ZR – É… Tudo isso que eu te falei, tudo pode acontecer… Agora a gente tava um tempo afastado… O Toninho mora em Belo Horizonte e tal… esse disco sobre o Luizinho Eça foi meio que uma oportunidade que a gente tá tendo meio que de se reencontrar… Quem sabe pode acontecer.

O disco conta também com a participação do Edu… Tem como você falar um pouquinho desse seu mais recente projeto?

ZR – Do Edu e do Dori Caymmi… Olha, é um disco interessante porque ele mostra o lado compositor do Luizinho Eça que pouca gente conhecia. O Luizinho era muito conhecido como maestro, arranjador, pianista do Tamba Trio. Esse lado compositor inclusive ele não tinha muitas composições, então esse disco é importante também por isso: porque mostra esse lado compositor.

Eu não sei se chegou ao seu conhecimento que nesse mesmo período há um pianista carioca lançando um projeto também em homenagem ao Luiz Eça…

ZR – Eu sei… legal porque o Luizinho é um cara muito importante na vida de muita gente. Eu tive a oportunidade de conviver um pouco com ele também e era uma pessoa que tinha personalidade, era um cara muito alegre que estimulava muito as pessoas, os compositores, músicos novos… ele tinha prazer de estar com gente em volta. Então… um músico importantíssimo, mestre de muita gente, professor mesmo… acho que esse disco é muito oportuno porque reúne pessoas que… o conceito do disco, o nome “Em casa”, que é essa história que acontecia na casa dele de reunir pessoas.

Esse ano só tem esse projeto do box para sair ou tem mais algum?

ZR – Não… Saiu o “Dobrando a carioca” que é aquele projeto que lançamos do ano passado que a gente tá fazendo shows esse ano ainda. Fizemos agora uma série de shows aí e… o Boca Livre continua na estrada, agora, inclusive, esta semana vou estar em Belém… Enfim… Eu não sei…

O “Papo de Passarim” com o Renato Braz…

ZR – Com o Renato Braz a gente vai tá essa semana a outra em Barreirinhas (MA) em um festival eu vou estar em Barreirinhas com o Renato depois de muito tempo também que a gente não se apresenta, a gente pega aquelas músicas todas aprender tudo de novo, relembrar porque eu não toco aquilo há muito tempo, mas vai ser legal… Então é assim, é isso aí que você tá vendo, a minha vida é muito diversificada, a minha vida profissional.

Você tem uma relação de muita cumplicidade com Recife. Geralmente todos os projetos seus chegam à capital pernambucana. O que o público pernambucano pode esperar do Zé Renato?

ZR – Muitos passam por aqui é…

… O projeto infantil, o tributo ao Chico…

ZR – Isso, exatamente.

O próprio “Papo de Passarim” vocês fizeram à época na Casa de Seu Jorge…

ZR – Fizemos? Acho que não… A casa de Seu Jorge eu fiz sozinho. “Papo de passarim” fizemos aqui? Não me lembro, não… pode ser que tenhamos feito, mas eu não lembro… Não sei se foi no Parque, talvez…

O Parque está fechado há uma eternidade…

ZR – Então eu não me lembro… acho que não viemos com o “Papo de passarim”. Eu sei que a gente foi à Natal, mas não sei se fizemos Recife. Eu não lembro…

O que o público pode ainda esperar de Zé Renato para breve?

ZR – Olha, tem tudo isso.. é aquela coisa que te falo. Um projeto, uma coisa que eu realmente ando pensando e tentando ver se realizo é um disco autoral porque tem muitas músicas, tenho composto com muita gente, como eu te falei: Joyce, Paulo César Pinheiro, João Cavalcanti, parceiros assim… são muitas canções…

Tem alguma coisa com Zé Manoel? Porque eu vi, através do Youtube, vocês apresentando-se juntos em São Paulo certa vez.

ZR – É fizemos São Paulo. Tem até uma música que está com ele… Zé eu sou fã dele, acho o trabalho dele muito legal. Tem lá uma canção com ele… então… a gente tem um projeto que eu fiz o ano passado que chama-se Bebedouro, que é o nome possivelmente do próximo disco, entendeu? É um disco de canções minhas com algumas pessoas, um disco que me mostra também como instrumentista que é uma coisa que também que por mais que o violão esteja presente em vários trabalhos, mas as pessoas nem sempre sabem que eu toco violão, que eu tenho esse lado instrumentista que pra mim é muito importante, a base de tudo pra mim.

O “Dobrando a carioca” tem essa ênfase nos instrumentos não é?

ZR – Tem, tem… são quatro violonistas.

* * *

Antes de encerrar gostaria de deixar aos amigos leitores o samba “Nega Dina”, de autoria do saudoso Zé Ketti e gravada por Zé em 1995 no disco em que prestou homenagem ao compositor de “Opinião”:

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Serviço:

9º Lençóis Jazz e Blues Festival 2017 – Circuito Barreirinhas – MA
Show “Papo de Passarim” (Com Renato Braz)
Data – 12 de agosto
Local – Av. Beira Rio
Horário – 21:15hs
Classificação Indicativa – Livre
Evento gratuito


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ZÉ RENATO – ENTREVISTA EXCLUSIVA – PARTE 1

Zé Renato com este colunista – Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica enquanto integrante de vários projetos musicais, assim como em diversos projetos solo

De passagem pela capital pernambucana, onde apresentou-se em duas ocasiões em Casa Forte, o cantor, instrumentista e compositor Zé Renato recebeu-nos para um descontraído bate-papo onde, em pouco mais de 30 minutos, relembrou histórias suas ligadas ao período que antecedeu o início de sua trajetória musical, a sua participação nos grupo “Cantares”, projetos fonográficos (solos, em duo e projetos coletivos) e sua participação no grupo que o projetou nacionalmente: o Boca Livre. Nesta informal conversa é possível também tomar conhecimento de algumas curiosidades acerca do autor de “Bicicleta” como sua breve passagem pelo teatro e a importância do show “Milagres do peixe”, do Milton Nascimento, em sua trajetória musical. Além disso, falamos sobre projetos futuros, lançamentos fonográficos agendados para breve, sua relação com o público pernambucano entre outras coisas. Papo agradabilíssimo que você confere em duas partes! Boa leitura!

Para começarmos gostaríamos de abordar um pouco da época que antecede o inicio de sua carreira musical. Qual é a lembrança mais remota que você tem da música ainda no Espírito Santo?

Zé Renato – Eu não cheguei a morar lá no Espírito Santo. Eu só nasci, mas fui criado no Rio de Janeiro… então todas as minhas influências foram a partir de minha vivência no Rio. Meu pai era jornalista, circulava muito no meio da música e por conta disso eu sempre tive a música muito presente dentro de casa. Ele era amigo do Silvio Caldas, o Silvio Caldas ía cantar na minha casa, eu assisti a vários shows do Silvio Caldas… A partir daí eu ganhei um violão (eu tinha por volta dos treze anos mais ou menos… talvez menos um pouco…). Daí com o violão comecei a aprender, entendeu? Aprendi um pouco assim e comecei a participar de festivais nos colégios

É verdade que antes dessa sua introdução na música você atuou na peça “A Perda Irreparável” dirigida por Ziembinski?

ZR – Ah, sim! É… foi uma participação muito rápida assim, muito discreta porque o meu pai trabalhava no Copacabana Palace e precisaram lá de… tinha um personagem que era uma criança que entrava no meio lá do negócio, aí eu fiz mas ficou ali. Estava mais interessado em tomar sorvete que tinha lá no Copacabana do que na peça.

E a questão do instrumento em si? Como foi que o violão entrou em sua vida?

ZR – O violão eu ganhei, comecei a aprender, mas nunca me adaptei ao estilo formal porque eu sempre saquei, comecei a descobrir a relação dos acordes, tirar música sozinho e tal. Então minha base teórica é muito pouca, eu até cheguei a estudar, tenho uma base; mas eu não utilizo isso no dia-a-dia, então eu sempre fui muito intuitivo. O primeiro caminho foram os festivais de colégio.

Dentro dessa ordem cronológica tem um show que foi marcante para você que foi o “Milagre dos peixes”?

ZR – Isso. Aí eu já tocava, já tinha um grupo, mas inda tocava em colégios (festivais de colégio) naquela fase de está estudando pra fazer vestibular e essas coisas todas, mas a música já estava ficando cada vez mais presente na minha vida e foi um período em que eu…

… Foi com esse show o seu primeiro contato com a sonoridade mineira?

ZR – Sim.

Ela acabou influenciando muito, de certo modo, no início de sua carreira?

ZR – Foi. Foi uma das maiores influências como compositor, como cantor, tudo né?

Vem desse show o seu primeiro contato com o Juca Filho (visualmente falando) não é?

ZR – Eu vi o Juca nesse show, não nos conhecíamos ainda, mas lembro de ter visto ele… tava lá… aí um tempo depois a gente se conheceu. Eu o conheci através de um amigo que estudava comigo no pré-vestibular que era músico e me apresentou ao Juca, daí a gente já começou a fazer música, eu já comecei a desenhar uma história que acabou se tornando o Cantares em primeiro lugar que foi o grupo que foi assim o primeiro trabalho, o primeiro grupo que eu participei já indo para uma história em direção ao profissionalismo… o Cantares durou aí dois, três anos… aí já apareceu o Boca Livre.

Que foi a partir de uma apresentação do Cantares na Urca? Foi quando surgiu o convite do Maurício para aquilo que viria a ser o grupo não é?

ZR – Do David… o David era o organizador desses shows que chamava-se “Quem sabe, sobe”; era uma série de shows que aconteceram na Urca e tal… Aí abrimos para o Hermeto Pascoal e aí começamos a ensaiar. Existia o Cantares, mas aí a partir do momento que começamos a ensaiar com o Boca Livre e as coisas começaram a acontecer não deu pra conciliar as duas coisas e aí me dediquei mais ao Boca Livre e as coisas começou assim a se desenhar mais profissionalmente. E aí foi uma coisa! Edu Lobo (que aí nos viu, nos conheceu e chamou para gravar o disco dele) e aí fomos fazer o Projeto Pixinguinha com ele. Já voltamos do projeto Pixinguinha e já gravamos o nosso primeiro disco… e aí a coisa foi muito rápida.

Esse primeiro disco de vocês é um marco ainda hoje na discografia brasileira pelo repertório e acima de tudo por receptividade junto ao grande público. Como você acha que ele alcançou tão rapidamente esse patamar mesmo sendo produzido de modo independente? Você acha que houve algum fator que contribuiu pra isso ou foi sorte mesmo?

ZR – Tem tudo isso junto, um pouco de cada coisa. Tinha naquele momento ainda um espaço nas rádios que hoje não existe mais… existia naquele momento ainda uma possibilidade de divulgar, de se programar músicas como a que a gente fazia. Apesar de que a nossa história naquele momento não era visto pelas pessoas de gravadora como uma coisa, digamos, de acesso comercial; mas a gente… é… isso ainda existia um espaço na rádio para acontecer o que aconteceu. Tanto que a gente não tinha, não era um grupo que tinha dinheiro para pagar jabá ou coisa parecida.

Agora mesmo neste contexto independente havia essa abertura?

ZR – Pois é! Tinha ainda… acho que foi um dos últimos momentos onde a rádio tinha uma certa abertura para programar esse tipo de música. A partir daí, depois, rapidamente foi se transformando e hoje o espaço é quase nenhum.

Por que o formato de vocês à época era mais comum na década de 1940, 1950 com o Bando da Lua, os Anjos do inferno… De repente vocês voltam nos de 1970 com um formato semelhante…

ZR – Até o surgimento do Boca Livre o que estava mais em mais evidência era o MPB-4 quanto a vocal masculino. Apesar que são duas concepções completamente diferentes, a gente tem as coisas dos violões que estão juntos, os arranjos, coisa que no MPB-4 é mais os vocais… é outra maneira, outro tipo de arranjo e tal… Mas o Boca Livre vinha com uma coisa, uma proposta que misturava a influência mineira (bastante), essa sonoridade de violões e tal… Isso não foi, não era muito… tanto que a opção por independente… a gente tentou gravadora. Tivemos reuniões com gravadoras e nenhuma das pessoas ligadas às gravadoras que a gente tinha entrado em contato na época enxergou a gente como um produto ou uma coisa que pudesse dar certo comercialmente falando.

Eu vi acho que até em um blog teu que essas gravadoras de início queriam moldar vocês a uma espécie de Bee Gees brasileiros…

ZR – Isso… um deles falou isso: Que a gente devia ser os Bee Gees brasileiro, mudar o repertório… quis falar isso: que a gente cantava bem, mas a concepção tinha que ser outra.

Ainda bem que vocês não seguiram a sugestão…

ZR – Pois é… Acabou que eles fizeram… quer dizer, acabou a gente teve o nosso sucesso foi muito rápido! A partir do momento que fizemos shows e tal, e a música começou a tomar um público, os shows começaram a ter muita gente, e aí as rádios viram que… foi uma coisa muito… um negócio que aconteceu aí… já entrou em trilha de novela… Quando entrou em trilha de novela na verdade a música já era sucesso.

Tem umas quatro músicas que caíram no gosto popular mesmo não é?

ZR – Foi… Eu lembro de fazer, por exemplo, o Ponta de areia, que foi uma das que a gente gravou no Fantástico e a pedido do público eles repetiram no domingo seguinte, quer dizer, foi um negócio até então inédito no programa. Então muita coisa foi acontecendo assim muito rápido, Os shows foram tendo um público muito grande, e tanto que chegou um momento que a gente já não tava mais… fizemos o segundo disco independente, mas aí já não tava mais conseguindo administrar a carreira desse modo. O independente hoje é diferente, já a muito tempo que o independente virou uma outra história, você tem várias alternativas de distribuição, de divulgação e naquela época não. A gente ainda tinha que cuidar das coisas: O LP que não chegou não sei aonde… tudo a gente cuidava praticamente. Tinha outras pessoas junto, mas a gente participava muito desse processo, então isso foi desgastando a gente também, tanto que a gente desistiu e fomos para uma gravadora.

Em 1982 você dá início a sua carreira solo com o disco “A fonte da vida” disco onde constam dez canções suas com distintos parceiros. Analisando a discografia do Boca que antecede esse projeto, em três discos há sete canções de sua autoria (Inclusive uma delas dá nome a um dos LP’s do grupo que é “Bicicleta”). Esse contexto que fez você chegar a esse primeiro disco solo surgiu por que já não dava mais para represar esse seu lado autoral ou por outras circunstâncias?

ZR – É mais ou menos isso, quer dizer… o Boca Livre por se tratar de um grupo vocal, um grupo que tem uma maneira de conceito onde nem todas as músicas por mais bonitas e músicas que a gente achamos ótimas, mas que quando a gente começa a tocar nem sempre elas rendem um arranjo que seja satisfatório pra todo mundo, pro grupo. Então, assim, essa maneira de lhe dar com o grupo também eu fui aprendendo e vendo que nem tudo… o grupo era incapaz de absorver todas as ideias de todo mundo. Por isso é que eu não abri mão de (foi uma coisa também bacana no grupo) conviver com isso, de ter cada… cada um de nós desenvolver projetos exatamente para não ficar ali estrangulando o trabalho do grupo e isso é uma coisa que rola até hoje. Eu mesmo faço parte do grupo, mas faço vários projetos paralelos.

Sua carreira solo é marcada por alguns discos em homenagem a grandes nomes de nossa música a exemplo de Silvio Caldas, Noel, Chico e Zé Keti. Tem mais alguma ainda em vista que você pretende prestar homenagem?

ZR – Olha, vai sair… vai sair uma caixa… Tava prevista para esse ano, não sei com essa confusão toda, mas já tava praticamente organizada pra sair uma caixa de disco reunindo aí discos meus como… alguns como intérprete só né? Do Zé Ketti, do Sílvio Caldas… E um desses cd’s que vai tá incluindo nessa caixa é um show que foi gravado ao vivo, no Rio de Janeiro, que eu fiz sobre o repertório do Orlando Silva. Foi gravado de uma maneira despretensiosa, mas aí fomos ouvir e achamos que como registro vale a pena ser incluído, ser feito. Aí quando essa caixa sair esse cd vai está incluso, sobre o repertório do Orlando Silva.

Já cogitou a possibilidade de uma homenagem ao Milton, artista o qual você se declara fã?

ZR – Eu vivo gravando coisas dele, mas um disco dedicado especialmente por enquanto pelo menos não; mas quem sabe né?

Você tem Anima em parceria com ele não é?

ZR – É… “Anima”… “Anima” e “Ponto de encontro”…

Para que não perca-se o hábito de uma canção a cada postagem segue “Coração de papel”, de autoria do Sérgio Reis e aqui lindamente interpretada pelo cantor e compositor capixaba:

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Serviço:

Show Boca Livre – Turnê Amizade
Data – 03 e 04 de agosto
Local – Teatro Margarida Schivasappa (Belém/PA)
Horário – 21:00hs
Classificação Indicativa – Livre
Valor do Ingresso – R$ 60,00 (Inteira) / R$ 30,00 (Meia)

9º Lençóis Jazz e Blues Festival 2017 – Circuito Barreirinhas – MA
Show “Papo de passarim” (Com Renato Braz)
Data – 12 de agosto
Local – Av. Beira Rio
Horário – 21:15hs
Classificação Indicativa – Livre
Valor do Ingresso – Evento gratuito


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QUEM FOI INALDO VILARIN?

Autor de canções como “Eu e o meu coração” (gravada por nomes como João Gilberto e Maysa) e o hino do pior time do mundo, Inaldo Vilarin é mais um na triste estatística de um país sem memória

Sendo ela a capacidade humana de reter fatos e experiências do passado, tornando-se possível retransmiti-las às novas gerações, a definição prática e teórica do termo memória parece não condizer com a realidade brasileira. Apesar de existir distintas definições para o termo, nenhuma se encaixa na realidade de boa parte das políticas voltadas para a culturais existentes em nosso país. Antes de mais nada é preciso levar em consideração a existência de dois tipos distintos de memória: a individual e uma outra denominada de coletiva, no entanto, faz-se desnecessário estender-se profundamente na abordagem das duas. A primeira é aquela guardada por um indivíduo onde consta as suas próprias vivências e experiências acumuladas ao longo da vida; já a segunda é aquela formada pelos fatos e aspectos julgados de modo relevantes e que são guardados como memória oficial da sociedade mais ampla.

Está neste segundo panorama o X da questão, uma vez que pelo visto, o irrefutável e infeliz contexto a qual nossa memória cultural está condenada há décadas. O que mais entristece é o fato de que não se vislumbra um melhor contexto a breve a curto ou longo prazo. O que acaba sendo algo extremamente prejudicial, pois o processo de construção cultural brasileiro é inegavelmente um dos mais miscigenados e ricos do planeta. Negar a existência de um legado cultural é ferir a identidade de toda uma nação, o que inegavelmente acaba por se tornar um crime de lesa pátria, uma vez que em tempos de troca no mundo globalizado no qual vivemos acaba por fazer dessa falta de compromisso algo incomensuravelmente triste. Vale lembrar aos nossos responsáveis maiores (nossos governantes), que a identidade de uma nação está diretamente ligada à cultura de seu povo.

O cenário cultural pernambucano infelizmente é condizente com a mesma realidade nacional apesar da vasta história relacionada as distintas artes existentes no Estado. Quer um exemplo simples? Basta chegar a um grupo de jovens e questioná-los, por exemplo, quem foi Hermilo Borba Filho e Valdemar de Oliveira (ícones do teatro pernambucano) ou nomes como Tia Amélia ou Jaime Griz, nomes associados à música produzida no Estado. Não será de impressionar se daqui a algum tempo nomes como Nelson Ferreira e Capiba tornarem-se meros desconhecidos para a nova geração. Outro nome renegado a este condenável contexto é o do compositor Inaldo Vilarin Querino.

Nascido em Limoeiro (cidade localizada a pouco menos de 80 km da capital pernambucana), Inaldo ainda na infância foi percussionista da banda de música de sua cidade natal, comandada então, pelo compositor Levino Ferreira. Por volta dos 14 anos de idade, já então na capital pernambucana, iniciou-se no violão, fundando ao lado de outros rapazes da época, como Luiz Bandeira, Djalma Torres, Ernani Reis, os conjuntos Os Garotos da Melodia e os Garotos da Lua) (vem dessa época sua aproximação com João Gilberto, quando este em substituição ao vocalista e compositor Jonas Silva, foi crooner do conjunto vocal). Ao longo da década de 1940 entrou para o cast da Rádio Clube de Pernambuco, onde fundou o conjunto Ases do Ritmo, com o qual popularizou seu estilo de intérprete e sua música. A partir daí teve composições nos mais distintos gêneros como é o caso do samba “Não quero bolero” e da guarânia “Saudade” (ambas com Genival Macedo); o choro “Temperado”; o bolero “Só resta saudade” (em parceria com o Maestro Duda). Dentre os parceiros existentes, destaque para Aldemar Paiva e Bráulio de Castro que com o músico compôs primeiramente “O samba está na rua”, seguida por “Meninice”, o samba “Maria Luisa” (gravada por Cyro Monteiro), “Amanhã é outro dia”, “Perdi” e “Eu gosto assim” (música deixada por Vilarin e terminada por Bráulio).

Dessa parceria vieram outras afinidades musicais e pessoais, aproximando ainda mais o casal Fátima e Bráulio de Castro do autor do hino do Íbis Sport Club, time que ganhou popularidade com o epíteto de “pior time do mundo”. É válido o registro de que Vilarin também é considerado por muitos (com sua música tipicamente urbana e harmonias sofisticadas) como um dos principais precursores do movimento musical brasileiro mais conceituado ao redor do planeta: a Bossa Nova devido a composição de “Eu e o meu coração” (feita em parceria com Antônio Botelho) e gravada por Dóris Monteiro em 1955 sob o arranjo do ainda desconhecido Tom Jobim.

Tal canção além de dar disco de ouro para a intérprete (marco registrado em reportagem da revista “A cigarra” em 1956) acabou o credenciando de modo relevante entres os autores da época justamente por trazer em sua estrutura harmônica aquilo que pouco tempo depois ganharia o nome de Bossa Nova. Na história da Bossa Nova, Johnny Alf é citado como o precursor do movimento, com a gravação em 1953 da música “Rapaz de Bem” sendo citado posteriormente como canção do gênero a música “Foi a Noite”, de Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça. Muitos esquecem que lá, em 1955, estava Inaldo Vilarin. Esse feito o fez ser gravado tanto por cantores locais quanto outros de expressão nacional (entre eles nomes como Maysa, Luiz Bandeira, João Gilberto e a cantora Elza Soares que, em 1957, gravou “Convite ao Samba”).

Falecido em 1992, Inaldo Vilarin tem um rico acervo onde constam ainda muitas canções inéditas que, cedida pela viúva do compositor, estão hoje em posse deste casal amigo que busca junto aos órgãos competentes a viabilização e a reparação, em parte, desse crasso erro tão comum àqueles que contribuíram de algum modo para formar a nossa identidade cultural. Obstante a falta de patrocínio por parte do seu estado natal para participar em 1967 do Fórum de Música em Nova York representando o Brasil ao lado de nomes como Tom Jobim, Roberto Menescal, Vinicius de Moraes, Baden Powell e Capiba. Agora o mesmo torrão insiste em rejeitar um projeto baseado no legado do compositor sob o argumento que Inaldo Vilarin é compositor de samba e o gênero não faz parte da cultura pernambucana. O que acaba engendrando aquilo que grande parte da mídia e dos poderes públicos pernambucanos divulgam: Pernambuco é apenas a terra do frevo, e Recife a sua capital.

Desse modo, na incessante luta para transpor aquilo que o professor norte-americano John Rawls classificaria como véu da ignorância (pois de fato existe uma espécie de barreira contra o uso de interesses parciais na determinação dos princípios da justiça), Bráulio e Fátima de Castro lutam para que o nome de Inaldo não amargue o limbo do esquecimento. No entanto, para modificar essa triste realidade, faz-se necessário mais que o compromisso com a história da música pernambucana como tem atestado o casal, uma vez soma-se inúmeras tentativas para viabilizar um projeto fonográfico afim de prestar uma justa homenagem a este relevante autor em forma de disco. A ideia é registrar um tributo onde constará canções inéditas e regravações a partir das vozes de cantores da nova geração assim como também cantores contemporâneos do homenageado a exemplo de Expedito Baracho (que falecido recentemente não teve tempo de participar desta pretensa homenagem).

No entanto, para que este e tantos outros projetos a favor da história cultural do nosso país possa vir a existir, faz-se necessário suplantar os entraves burocráticos existentes que, somados à própria falta de compromisso, acaba por negar às novas gerações a possibilidade de conhecimento de nomes que deixaram as suas respectivas contribuições para a nossa cultura, que já conta com um retrospecto desvantajoso nos últimos anos (basta levarmos em consideração que sob o pretexto de contenção de despesas, o Ministério da Cultura terá este ano um orçamento menor em relação a 2014). Desse modo acaba-se tornando-se “fácil” usar das mais distintas e absurdas alegações o sonho de apresentar nomes como o de Vilarin para as novas gerações.

Para que se mude esse contexto, faz-se necessário uma reestruturação para além do burocrático. É preciso uma mudança que abarque a intelectualidade daqueles que respondem pela cultura. É preciso que, em detrimento a interesses pessoais, seja deixado de lado a prática meramente panis et circenses em pró de um compromisso maior com aqueles que de fato contribuíram de modo relevante com a sua cultura. A discrição tão em voga enquanto Vilarin esteve vivo não pode tornar-se sinônimo de esquecimento. É preciso, acima de tudo, valorização e reconhecimento, práticas pouco comuns com quem faz cultura em um país que por vezes chega a dar margem para questionamentos como este que batiza esta matéria.

Para audição dos amigos deixo aqui “Eu e meu coração”, na voz da cantora, instrumentista, compositora e educadora musical Fátima de Castro:


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COMANDANDO O BLOCO, BEATRIZ RABELLO DEBUTA EM GRÁCIL PROJETO FONOGRÁFICO

De nobre linhagem, a intérprete estreia em disco onde dá voz a grandes nomes da música brasileira e conta com a participação de um dos ícones da MPB

Nos vicinais caminhos que a música popular brasileira tem a nos oferecer, é preciso estar atento para que possamos observar alguns nuances, pois nas mais distintas esquinas sonoras existentes, muitas vezes estão algumas gratas surpresas que só aqueles ouvidos mais sensíveis e atentos são capazes de alcançar. Quando tal contexto é possível, chegamos a acreditar que tal canto chega como um verdadeiro alento para uma música que ultimamente tem tido como vitrine a verdadeira desconstrução poética e sonora de um legado construído ao longo de anos a partir de alguns dos mais representativos nomes da música popular brasileira tais quais Noel Rosa, Pixinguinha, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Cartola e tantos outros que a curta memória do povo brasileiro insiste em empurrá-los à vala do esquecimento.

Estes novos talentos geralmente buscam fugir dos parâmetros daquilo que é convencionalmente divulgado pelos grandes meios de comunicação como música de qualidade, fazendo dos seus respectivos trabalhos uma espécie de oásis em meio a um hostil deserto sonoro, chegam adornados por características que acabam por torná-los verdadeiros heróis da resistência. Resistência esta que alimenta a esperança daqueles que acreditam que, em se tratando de qualidade musical, o pulso ainda pulsa dentro da MPB. E isso é perceptível dentro dos mais variados gêneros existentes dentro do nosso cancioneiro, e é neste contexto que se destaca o nome que hoje chega ao nosso espaço trazendo consigo a imensa responsabilidade de fazer parte de uma das clãs mais musicais existentes no país, o que por conseguinte acaba gerando uma expectativa muito grande em torno deste debute fonográfico da artista, que ao seguir a tradição familiar não fez por menos e apresenta aos amantes da boa música um trabalho pautado na qualidade inerente aos seus parentes que tanto vem engrandecendo a nossa MPB ao longo das últimas cinco décadas.

Filha do cantor, instrumentista e compositor Paulinho da Viola e neta do violonista César Faria, um dos fundadores do antológico conjunto Época de Ouro ao lado do saudoso Jacob do Bandolim; a cantora e atriz Beatriz Rabello traz ainda em sua formação genealógica o parentesco com o violonista Raphael Rabello, a cavaquinista Luciana Rabello e a cantora Amélia Rabello, de quem é sobrinha. A união de genes como estes não poderia resultar em algo diferente daquilo que resultou o “Bloco do amor”, álbum que consiste nos gêneros que permeiam toda a sua formação musical tais quais o choro, o samba e a bossa nova. Inspirado no Carnaval, “Bloco do amor” traz consigo de modo muito evidente toda a alegria existente em uma das mais importantes manifestações da cultura popular do Brasil, assim como também a riqueza poética presente no samba e evidenciado de modo muito pessoal por Beatriz a partir de releituras e de canções inéditas ao longo das treze faixas que constituem o disco.

“O cidadão mais importante deste país” como bem definiu o grande Nelson Sargento e toda a alegria inerente ao carnaval perpetua-se na tradição familiar a partir de composições do próprio Paulinho (que assina três faixas, sendo duas compostas exclusivamente para o disco: a canção que batiza o disco (“Bloco da solidão“) e “Só o tempo“) e a faixa “Solidão” (parceria com Maria Vasco, primeira porta-estandarte da Banda de Ipanema)). A faixa “Solidão” trata de cadenciado samba que, como o próprio título sugere, trata de um tema recorrente no gênero. Já no samba “Bloco da solidão“, a protagonista não procura mais fingir alegria em efêmeros e furtivos amores carnavalescos pois ela já tem motivos para seguir o bloco do amor. A faixa “Só o tempo” (canção também registrada pelo autor no álbum “A toda hora rola uma estória”) a intérprete aborda o amor em duo com o pai.

Deste mesmo álbum lançado por Paulinho da Viola em 1982, Beatriz pincelou a canção “Nós, os foliões” composta por Sidney Miller. Dentre as canções presentes no disco ainda há releituras clássicos do nosso cancioneiro como é o caso de “Sonho de Carnaval” (Chico Buarque), “Enredo do Meu Samba” (Dona Ivone Lara e Jorge Aragão), “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” (Carlos Lyra e Vinícius De Moraes). Dentre as demais faixas, há um antigo samba de bloco intitulado “Terremoto” e que foi composto por Zorba Devagar, sambista histórico, da turma de Botafogo. Sem esquecer o samba de vanguarda, Beatriz busca a perfeita medida entre as tradições da música popular brasileira e compositores da nova geração da MPB a partir de faixas como “Sexta -feira de carnaval” (Douglas Germano e Everaldo Efe Silva), “Desistir jamais” (André da Mata), “Onde for o nosso amor” (João Callado e Moyses Marques), “Mourão que não cai” (Douglas Germano) e, uma canção de Roque Ferreira em parceria com Pedro Amorim chamada “Nem eu, nem você“. Como percebe-se o futuro, o presente e o passado fundem-se no coerente repertório que compõe este debute fonográfico.

Com aquilo que há de melhor em música correndo em suas veias, a intérprete carioca apesar de estar debutando em disco agora já traz em seu currículo a participação em diversos musicais voltados para o teatro como a peça “Sassaricando – E o Rio inventou a marchinha“, de Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral, onde atua desde 2009, soma-se a esta experiência a sua participação como backing vocal no DVD “Paulinho da Viola – Acústico MTV” e o fato de estudar música desde os seis anos a partir de aulas de piano. Delineado desde 2009 de modo bastante aguerrido pela artista, “Bloco da solidão” chega ao mercado fonográfico expondo uma artista madura, onde sua verve artística é apenas um detalhe em meio a tantas adjetivos positivos que circundam a cantora. Na tessitura do álbum, a artista soube, de modo uníssono, unir peculiaridades de cada fonte na qual vem bebendo desde que resolveu enveredar para o contexto artístico e assim registrou treze cartões postais que retratam o samba, o carnaval e acima de tudo um Rio de Janeiro atemporal, onde de modo eventual novos e promissores talentos como a Beatriz Rabello nos fazem escandir em alto e bom som: Salve a boa música popular brasileira!

Agora para conhecimento do público leitor deixo aqui uma das faixas presentes no disco. A faixa em questão é “Enredo do meu samba“, música composta por Jorge Aragão e Dona Ivone Lara:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Roberto Carlos é sem sombra de dúvidas o nome mais expressivo da música popular brasileira ainda em atividade. Prestes a completar 76 anos, destes quase sessenta dedicados à carreira fonográfica, Roberto recebeu a alcunha de Rei merecidamente quando nos anos de 1960 encabeçou um movimento musical que revelou um misto de ingenuidade com romantismo. Este movimento chamado Jovem Guarda também foi responsável pela ascensão de nomes como Wanderléa, o parceiro-irmão Erasmo Carlos, Jerry Adriani, Ronnie Von, Goldens Boys, Renato e Sseus Blue Caps, e tantos outros que ao longo dos últimos cinquenta anos extrapolaram o modismo do gênero e mantém-se na ativa embalando não apenas pessoas daquela época, mas toda uma gama de novos fãs que foram surgindo com o passar dos anos.

Roberto (ou o Rei como muitos se referem), manteve-se na “crista da onda” à época da Jovem Guarda, e ainda hoje mantém-se como um dos mais destacáveis nomes de nossa música, com cachês que beiram, segundos sites de fofoca, a 6 milhões em datas específicas. Dentre tantas abordagens que podem existir em torno do Rei, hoje não procurarei trazer dados biográficos, mas informações um pouco inusitada para as abordagens padrões. Não lembro de ter encontrado, ao longo de minha pesquisa, não cheguei a encontrar nenhuma abordagem acerca dos números que circundam a carreira do Roberto Carlos, e por atinar para este fato, resolvi fazer isso. Estou ciente que é bem provável que já haja, mas fica aqui registrada esse desejo de também trazer os principais dados numéricos da carreira deste cantor que quando gostava de ouvir e imitar Bob Nelson por ser fã declarado do cantor. Sua admiração pelo saudoso cantor e ator paulista era tanta que chegou a gravar, ao lado de Erasmo, uma música sua.

Roberto ao longo das quase seis décadas de carreira já vendeu mais de 100 milhões de cópias, colocando-o entre os artistas de maior expressividade comercialmente falando de todo o mundo. Para se ter uma ideia, ele é o artista brasileiro que mais vendeu discos ao redor do mundo e, na América Latina, o Rei Roberto Carlos vendeu mais discos que os Beatles. O engraçado é que o seu primeiro LP (“Louco por você”) é um dos discos mais disputados no Brasil por colecionadores, pois foram impressas apenas 500 cópias. Deste álbum (antes Roberto havia lançado um 78 RPM) até os dias atuais o cantor e compositor capixaba já lançou mais de 100 títulos entre LP’s, compactos e CD’s. Dentre suas gravações constam registros em diversos idiomas, dentre eles italiano, francês, espanhol e inglês. Em números, segundo o site Midiorama, foram 12 canções em inglês, 61 em italiano, 4 em francês, 244 em espanhol e mais de 400 em português.

Outros números curiosos se dão a partir do seu tradicional especial de fim de ano, que já foram exibidos em mais de 20 países. Entre eles, Albânia e Finlândia em mais de 40 anos de exibição na Rede Globo. A popularidade de Roberto Carlos e seus amigos rompeu as fronteiras da música e da TV e chegou aos cinemas entre 1968 e 1971, quando Roberto gravou três filmes de grande popularidade: Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora. Recentemente, mais números entraram para as estatísticas do Rei. O jornal O Globo noticiou que o empresário de Roberto, Dodi Sirena, está pleiteando a entrada do cantor no Guinness como o artista com maior número de hits em rádios (cem músicas) e o que está há mais tempo em uma mesma gravadora (54 anos com CBS / Sony).

Deixo agora uma canção de sua grande fase como intérprete e compositor. “A janela“, composição sua em parceria com Erasmo Carlos foi registrada pelo cantor em 1972:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Como costumo dizer: em um país sem memória como o nosso, qualquer iniciativa em pró da lembrança daqueles que de um modo ou de outro contribuíram para a cultura brasileira é válido, por mínimo que seja o esforço. Por tal razão hoje vou lá nas mais remotas memórias da indústria fonográfica nacional para relembrar o nome da gaúcha Abigail Maia. Atriz de teatro e cantora brasileira, Abigail é um dos primeiros nomes do qual se tem notícia em se tratando de registros fonográficos femininos no Brasil. Filha de dois famosos atores de teatro de revista, nada mais natural do que houvesse uma propensão para a arte por parte da pequena Abigail, que vivia envolta a este universo artístico. Tanto que anos mais tarde seria responsável por fundar uma companhia teatral com o autor, diretor, produtor e roteirista de teatro e cinema Oduvaldo Viana, pai de Vianinha, aquele que anos mais tarde também viria a seguir o ofício paterno.

Seu pai era português e resolveu transferir-se para o Rio de Janeiro, onde pretendia dedicar-se ao comércio, mas acabou seguindo a carreira no teatro, no qual estreou em 1866. Trabalhando no Teatro Recreio conheceu a atriz Balbina, na época viúva e mãe de dois filhos. Pouco tempo depois resolveram casar, e dessa união nasceram dois filhos: Magnus e Abigail. Precoce e com forte tendência às artes, Abigail aos cinco anos de idade já cantava acompanhada por seu pai à guitarra portuguesa ou por seu irmão ao violão. Essa experiência a fez tomar gosto pela coisa mesmo contra a vontade dos pais, situação que acabou aceitando até o falecimento do pai, quando passou a viajar com a mãe. Sua estreia nos palcos se deu em Porto Alegre, aos 15 anos de idade, substituindo uma jovem atriz no “vaudeville” “Maridos na corda bamba”, espetáculo para o qual sua mãe era contratada como primeira atriz.

Ainda muito jovem desiludiu-se com a carreira de atriz e resolveu abandoná-la sem a intenção de voltar atrás quanto a esta decisão. Não pretendia retornar ao palco, mas em 1903, foi convidada para fazer o papel de uma menina-moça, a princesa Açucena na peça “A fada de coral”, na Companhia Silva Pinto, em que a mãe trabalhava. Mesmo a contragosto, aceitou. Nesta época conhece aquele que viria a ser o seu marido, Joaquim da Silva Braga, com quem se casou aos 17 anos incompletos. O marido falece precocemente, fazendo com que a situação financeira de Abigail se agravasse, uma vez que já tinha uma filha, e essa condição acaba fazendo com que ela aderisse definitivamente a carreira artística ingressando na Companhia Luso-Brasileira atuando a princípio em revistas.

Sua estreia em teatro de revista se deu na peça “Flor de junho”, do paulista José Pisa, com a qual excursionou por vários estados. Acredito que a sua aproximação da música se deu a partir de 1909, quando casou-se com o maestro e compositor Luís Moreira. Ao lado do marido e do empresário Alfredo Miranda viajou para Portugal onde atuou no Teatro Sá Bandeira na cidade do Porto. Suas atuações em terras lusitanas se deu a partir de espetáculos onde apresentava operetas vienenses. Segundo o crítico Brício de Abreu, Abigail Maia chegou a interpretar toda o repertório de operetas vienenses existentes na época.Vale registrar que, ainda em terras portuguesas, a atriz (e agora cantora) ingressou na companhia de José Ricardo, mas devido ao falecimento da mãe, retorna ao Brasil. De volta ao seu país, dá início também a carreira de cantora, chegando a fazer alguns registros fonográficos como será possível tomar conhecimento em breve quando retomo a abordagem do nome de Abigail.

Deixo para audição a faixa “Flor de maracujá“, composição de Marcello Tupynambá e Amadeu Amaral que ganhou registro no ano de 1931:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Recentemente trouxe para esta coluna o nome de Abigail Maia abordando um pouco do início de sua biografia, trazendo ao conhecimento dos amigos leitores as dificuldades que a fizeram decidir pela carreira artística, sua passagem por terras portuguesas, além do seu casamento com o maestro Luís Moreira, responsável, de certo modo, por sua inserção na música, quando ainda morava em Portugal. Após seu retorno ao Brasil entra para a companhia de José Loureiro, da qual seu marido era maestro e pouco tempo depois, na cidade de Santos, conhece o humorista João Foca, com quem resolve formar um trio: ela cantava, Luís Moreira tocava piano e João Foca fazia conferências divertidas. Com esta formação percorre São Paulo e depois todo o interior do estado. Nesta época, a imprensa paulista passou a cognominá-la a Rainha da Canção Brasileira. De volta ao Rio de Janeiro em 1915, apresentaram-se durante um mês no Cinema Pathé, na Avenida Rio Branco. No entanto, a fatalidade mais uma vez cruza o caminho de Abigail, levando consigo João Foca. Em sua carreira como atriz atuou, além das companhias já citadas na abordagem anterior, na Companhia de Cristiano de Souza, no Trianon; no Teatro Recreio, onde fez “Bocaccio” e outras operetas; foi contratada por nomes como Pascoal Segreto para atuar no Teatro São Pedro, chegando a atuar ao lado de Vicente Celestino, com música de Chiquinha Gonzaga. Após o falecimento do segundo marido, em 1921 casa-se com Oduvaldo Viana e junto com ele organiza a própria companhia e tem a oportunidade de excursionar por Buenos Aires e Montevidéu com boa acolhida do público. Abigail ainda atuou como radioatriz no radioteatro da Rádio Nacional atestando a sua versalidade artística.

Sua escassa discografia é composta por apenas dez canções gravadas entre os anos as décadas de 1910 e 1930. O seu primeiro registro é datado de 1913, onde fez a gravação de uma adaptação da canção “Rolinha” feita por Luis Moreira com Olimpio Duarte. Ainda em 1913 fez mais um registros: “Mulata pernóstica” (outra adaptação de Luis Moreira), sendo que neste mesmo ano sai pela Phoenix 160 o seu primeiro 78RPM com gravações suas de ambos os lados (na verdade trata-se da junção dos dois registros anteriores). Depois, só viria a gravar novamente em 1916, quando registrou as canções “Chico, Mané, Nicolau“, “Súplica”,O cambuco e o balaio” e “Faceira” e novamente procurou dar um intervalo na carreira para dedicar-se a outras atividades para além do canto. Esse intervalo estendeu-se até o ano de 1929, quando no mês dezembro chegou às melhores casas do ramo o 78RPM Odeon 10.510 com as faixas “Sarará” (Eduardo Souto) e “Meu príncipe encantado” (de autoria de Armando Ângelo e Guilherme de Almeida).

Seus últimos registros fonográficos foram lançados em fevereiro 1931: foram as canções “Sorriso de Mulher” (Marcelo Tupinambá e Oduvaldo Viana Filho) e “Flor De Maracujá” (Amadeu Amaral e Marcelo Tupinambá). É por essas e outras que reafirmo a importância da memória de nossa cultura, coisa tão em desuso em nosso país. Precisamos nos conscientizar que preservar a história de nossa cultura é sem sombra de dúvida preservar também a nossa identidade. É por artistas como Abigail Maia e tantos outros que busco manter viva essa chama da lembrança aqui em nosso espaço apesar de ter plena consciência de que estou indo de encontro a toda a lógica existente e confesso que baseada em não sei o quê. Lutemos por nossa cultura sempre.

Para deleite daqueles que acompanham a nossa coluna, deixo aqui uma canção de autoria desconhecida, mas que ganhou da artista o seu registro em 1915. Trata-se de um coco baiano intitulado de “O cumbuco e o balaio“:

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