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GONZAGA LEAL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

gonzaga leal

Com 40 anos de estrada, o artista vem apresentando “De mim”, projeto que conta com a adesão de nomes como Marília Medalha e Jaime Alem

Chega uma hora em que há necessidade de mudança em nossas vidas. Desde os mais simplórios gestos até transformações que interferem de forma radical em nossa vida. No caso de Gonzaga Leal este momento chegou quando teve que optar por trilhar o caminho da música ou da dança e ele optou pela segunda alternativa. Hoje, com oito discos gravados (incluindo o EP “Aparição”) Leal vem apresentando desde o início do ano “De mim”, um álbum que apresenta diversas características que o destaca não apenas na carreira fonográfca do artista, mas também na cena musical como um todo.

O disco é responsável por trazer novamente aos estúdios de gravação a cantora e compositora Marília Medalha assim como também por apresentar mais uma faceta do artista pernambucano: o seu lado compositor. Depois de protagonizar, aqui mesmo em nosso espaço, a pauta sob o título de “SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE”, Gonzaga volta a este espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre este novo projeto que vem recebendo elogiosas críticas Brasil afora, a sua relação com a cena musical de São Paulo e que virá em comemoração as quatro décadas de carreira que o artista comemorou em 2014. Vale a pena conferir. Boa leitura!

O ano passado foi um ano emblemático para você, afinal de contas completaram-se quarenta anos desde a sua primeira aparição profissional diante do público. O que você destacaria ao como relevante em sua carreira ao longo destas quatro décadas de estrada?

Gonzaga Leal – Sempre acho que o mais recente trabalho de um artista é o mais importante de uma trajetória, uma vez que ele representa um alcance definido por tudo que ele já produziu e passou. Para gravar esse novo disco, apoiando-me na sonoridade da viola brasileira e debruçando-me sobre um repertório baseado no tempo e na saudade, foi necessário olhar para trás e ver no passado um espelho do que venho produzindo e do que ainda pretendo fazer.

“De Mim” como o próprio título sugere vem arraigado de pessoalidade através de letras que poderíamos até afirmar tratar-se de confessional. Qual foi o principal desejo que o conduziu a registro com essas peculiaridades?

GL – Estava há quatro anos sem gravar, mesmo sendo incentivado e ativado no meu desejo pelos músicos que trabalham comigo já há algum tempo, mas, mesmo assim, não encontrava motivo algum que justificasse entrar em estúdio, pois gosto de gravar projetos, não canções apenas porque são lindas ou magníficas, isto não me atrai.

Mas o tempo não brinca com ninguém, e aí que fui surpreendido por uma canção enviada por Públius. Ao ouví-la, fui tomado por um sentimento gigantesco, sobretudo de aproximação comigo mesmo. Naquele período havia completado 55 anos e a canção ativou em mim uma saudade de mim mesmo, de um Gonzaga que não é mais, mas se avizinhando de um novo tempo. A canção chama-se “Da Saudade”. E assim, percebi de imediato que o projeto começava a nascer, projeto no qual iria cantar sobretudo o tempo e a saudade, e fazê-lo, com muito frescor e ausência de ressentimento.

A sonoridade do disco apresenta a viola de modo matricial. Há em suas reminiscências alguma razão ou motivo para torná-la o principal instrumento de um projeto que traz como características tanta pessoalidade

GL – Realmente, a viola é uma das principais protagonistas do projeto. Sou um homem do interior, e muito precocemente comecei a me familiarizar com o mistério e o enigma do som das violas. Sem falar no fato que o meu diretor musical, Cláudio Moura, é um magnífico violeiro, que extrai poesia pura do som do seu instrumento. A junção desses dois fatos foi o grande lance para suscitar em mim o desejo de ter comigo outros violeiros de gerações diferentes para fazerem parte do projeto, a exemplo do Jaime Alem, Hugo Lins e Juliano Holanda, cujas violas têm afinações diferentes umas das outras.

Nestas últimas duas décadas a cantora e compositora Marília Medalha mantém-se afastada dos estúdios. Acredito que essa participação em “De Mim” venha a ser o seu único registro fonográfico até então ao longo deste século. Como se deu o convite para que a Marília viesse a participar do álbum e quais os argumentos que acabaram por convencê-la a tais participações?

GL – É um enorme privilégio tê-la neste projeto. Realmente a Marília hoje vive um tanto quanto reclusa, mas não avessa a realizar trabalhos que a entusiasme. Somos grandes amigos, já fizemos alguns trabalhos juntos e temos muito interesse pelo repertório de canções de domínio público. Quando formulei o convite e, encaminhando o reisado “A deusa da lua”, percebi de imediato o seu interesse e alegria em vir à recife, cidade que ela tanto gosta, fazer a gravação. Naquele momento, me senti premiado. Foi tudo emocionante e lindo.

Uma característica presente em seus projetos é a valorização ao texto da canção. Suas interpretações são carregadas por muita verdade e “De Mim” parece trazer essa característica de modo muito mais arraigado inclusive a partir de peculiaridades antes não existentes como a inserção de “Sonho imaginoso” (primeira composição de sua lavra que aqui ganha seu registro). Você pretende a partir de então dar continuidade a registros de sua autoria?

GL – Realmente não me considero um cantor. Estou muito distante, interessa-me cada vez mais aguçar em mim o intérprete que habita-me. Por isso, deixo-me tanto perseguir pela palavra. A palavra, pra mim, é de uma força inimaginável, tanto no que diz respeito a sua força, complexidade e simplicidade. Preciso sentir-me emoldurado pela palavra para dar sentido ao meu canto. Com relação à “Sonho Imaginoso” (Gonzaga Leal – Guito Argolo – J. Velloso), a ideia partiu de J. Velloso, que gostou de um texto confessional que escrevi e achou que poderia virar canção. Então consultou-me e eu, sem titubear, dei todo o aval para que ele pudesse editar o texto e convidar pessoa da sua confiança para inserir melodia. Foi quando ele trouxe o Guito Argolo para cuidar de musicar o texto. Adorei de verdade e combinamos que quem primeiro gravasse um cd, convidaria o outro para dividir os vocais. Isso não quer dizer que sou um compositor. Não sou, pois sou o mais crítico de mim mesmo. Foi um feliz e fecundo acaso.

A sua ligação com a cena musical paulista faz-se bastante perceptível ao longo dos seus projetos fonográficos (com exceção dos álbuns tributos a Nelson Ferreira e Capiba). Essa aproximação deu-se de modo intencional ou foi algo espontâneo?

GL – São Paulo é uma cidade que adoro, onde tenho grandes amigos das mais variadas linguagens artísticas. Gosto de trabalhar em São Paulo, sobretudo com os paulistas. A minha conversação sobre música mais profunda e consistente com São Paulo acontece exatamente no álbum “Minha Adoração – um tributo a Nelson Ferreira”, quando, a meu convite, Zé Miguel Wisnik colocou versos na valsa azul, de Nelson Ferreira. Isso foi um passo para, através do Zé Miguel, conhecer o Luiz Tatit que, no meu cd “Gonzaga Leal cantando Capiba, …e sentirás o meu cuidado”, vestiu o choro “Relembrando Nazareth”, de Capiba, com seus lindos versos. Essa ponte foi determinante para todas as demais conversações que tive e continuo tendo (e que muito me interessa!!!) Com São Paulo.

A capital pernambucana já teve a oportunidade de receber o espetáculo referente ao álbum “De Mim” por duas vezes. A primeira, em janeiro, na estreia da turnê e posteriormente em abril. Você tem recebido elogiosas matérias da crítica especializada em todas as regiões do país. Já existe uma agenda fechada em relação a turnê do álbum para o segundo semestre?

GL – Estou muito orgulhoso e agradecido pela forma como a imprensa brasileira tem recebido o meu trabalho. Isso é o máximo para qualquer artista. Nesse aspecto também me sinto um privilegiado. Adoro fazer o show do disco por tudo que o envolve e o emoldura: os músicos, os diretores (musical e cênico), o cenário, a luz, o repertório e toda a cumplicidade das pessoas envolvidas. Temos uma turnê prevista, mas a depender da aprovação do funcultura por esses dias. É um show caro, que envolve uma equipe de pelo menos 15 pessoas. Adoraria que o projeto fosse aprovado para termos a oportunidade de sair pelo Brasil. Sem isso, se torna praticamente impossível, pois não me contento em apresentar um trabalho pela metade. Não é justo que se ampute uma equipe e uma estética para viabilizar viagens. Nisto sou muito rigoroso e não faço concessões.

Você é um dos artistas que mais subiu ao palco do Teatro de Santa Isabel. Em relação a esse feito você nos trouxe em tom confessional aqui mesmo neste espaço que arquitetava um projeto pautado em piano e voz cujo título a princípio seria “Teatro – Na boca de cena nasci”. De janeiro de 2012 (época da primeira entrevista) aos dias atuais a que pé anda o projeto? Quando esse desejo tomará forma?

GL – O teatro e a minha casa são os lugares onde mais me sinto confortável e seguro. É como se fossem um templo que me remete inevitavelmente ao sagrado. O Teatro de Santa Isabel, em especial, faz muito sentido na minha vida, não só artística mas de espectador, foi lá que lancei todos os meus cd’s, realizei outros tantos shows e presenciei espetáculos memoráveis. Tenho um apreço muito grande por esse lugar. Tornei-me amigo de grande parte de seus diretores e nutro amizade também pela maioria de seus funcionários. Por isso, acho-me com essa dívida de fazer um cd que possa homenageá-lo, sobretudo agora que ele completa 160 anos. Portanto, o projeto na boca de cena nasci, de voz e piano, com repertório de trilhas de peças de teatro, continua sendo o meu grande sonho e desejo. Espero realizá-lo em breve. Estou indo atrás. Um detalhe desse projeto é que os pianistas serão aqueles todos que tive a felicidade de trabalhar, a exemplo de Zé Gomes, Francis Hime, Marco Caneca, George Aragão, Cida Moreira, Zé Miguel Wisnik e Eliana Caldas.

Por falar em Santa Isabel “De Mim” foi o único projeto que não teve seu lançamento no palco do tradicional teatro. Há pretensão de levar o espetáculo a este teatro que é considerado o templo maior da cultura pernambucana?

GL – A estreia desse show em um teatro que já vinha tendo um grande namoro: o Teatro Capiba. Num acordo conjunto entre músicos, equipe e diretores, tomamos essa decisão de estrear num teatro menor, onde pudéssemos estar numa relação mais próxima com o público, coisa que o repertório e a sonoridade do show, de uma certa forma, exigem. Foi tudo lindo e surpreendente, sobretudo porque estreamos dentro do projeto janeiro de grandes espetáculos. Mas acredito que, até o final de ano, estaremos levando o show para o teatro de Santa Isabel, para o contentamento ficar completo. Claro que o show sofrerá algumas adaptações, especialmente no plano cenográfico e de iluminação.

Neste ano você está chegando aos 40 anos de estrada qual o balanço que você faz desse percurso? Esta comemoração se estenderá aos palcos?

GL – Esse aniversário me dá uma noção mais apurada da minha responsabilidade e do meu compromisso com todos os que me acompanham ao longo de todos esses anos e com essa cidade que tanto me abraça e me prestigia. Imagine um jovem que chega do interior na cidade sem conhecer ninguém e, pouco a pouco, vai construindo uma rede de amizades férteis que me impulsionam a ser artista. É a sensação exata de ter obtido régua e compasso. E claro que a melhor forma e contrapartida para com todos, é através do que posso emocioná-los e presenteá-los com meu singelo canto e o meu fazer artístico. Tendo sempre o palco como um nobre parceiro. Uma coisa que realmente adoraria em termos de comemoração de uma data redonda, é construir uma cartografia interpretativa a partir da revisitação todo o meu repertório de shows. Nos dias atuais, isso se torna praticamente impossível. Mas não custa nada sonhar, não é?

Com tantos anos de estrada e primorosos registros fonográficos não seria a hora já de cogitar a possibilidade de um projeto áudio-visual? Já pensou na possibilidade de um registro em DVD?

GL – Sinceramente, esse desejo já esteve mais aguçado. Hoje não tenho mais tanta motivação e interesse em fazer um registro em dvd. Mas, se eu o fizer, interessa-me fazer algo bem simples com uma moldura cenográfica e uma luz muito poética, em preto e branco, em um estúdio de gravação. Jamais realizar um show para transformá-lo em dvd. Esse formato não me interessa. Por enquanto as coisas mais imediatas são continuar fazendo o show “De mim”; o projeto chamado concerto de assobios, que pretendo estrear ainda esse ano na companhia da atriz Ceronha Pontes e dois músicos (um violeiro e um percussionista). É um recital baseado na poesia do poeta Manoel de Barros e canções da tradição oral brasileira, que juntos formam uma dramaturgia. Estamos todos felizes, por estarmos embalados por tanta lindeza contida na poesia e nas canções. Por fim, continuarei empenhado em viabilizar o projeto na boca de cena nasci, mesmo porque ele já tem um tempinho de pendência. Na minha vida não sou afeito a pendências.

Quero te agradecer, Bruno, por esta nobre oportunidade que mais uma vez você me concede. É sempre muito bom, para qualquer artista, dar uma entrevista para uma pessoa que conhece do seu trabalho e se interessa pelo artista. E nesse aspecto, tenho o maior prazer de responder quantas perguntas me chegarem. É assim que me sinto: agradecido e prestigiado.


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SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE

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Após um hiato de três anos, Gonzaga Leal volta ao mercado fonográfico com “De mim”, álbum que conta com adesão de nomes como Marília Medalha, Cida Moreira e Jaime Alem

Em 1993 chegava às lojas de todo o Brasil mais um álbum do cantor e compositor carioca Chico Buarque cujo uma das faixas, intitulada “tempo e artista”, descrevia a relação entre a arte e o constante movimento dos ponteiros. Em dado momento da terceira faixa do disco que é considerado, pela crítica especializada, como o melhor disco do artista ao longo da década de 1990, Chico entoa versos como “(…) Imagino o artista num anfiteatro… Onde o tempo é a grande estrela (…) ” ou “(…) Já vestindo a pele do artista… O tempo arrebata-lhe a garganta (…)” entre outras frases que hoje, mais de duas décadas após o lançamento, substanciam de maneira bastante vivaz este novo projeto do produtor, cantor (e agora compositor) Gonzaga Leal.

Nascido no sertão pernambucano, mais precisamente em Serra Talhada, o artista que foi aluno do Conservatório Pernambucano de Música (onde estudou técnica e teoria musical) vem desenvolvendo um trabalho bastante coerente desde a sua estreia no mercado fonográfico em 2000 com o título “O olhar brasileiro”. Desde então vem desenvolvendo os mais diversos trabalhos ao lado de alguns dos principais nomes da cena musical pernambucana e nacional. Com mais de 30 anos de carreira, Leal traz uma vasta bagagem antes mesmo do seu debute em disco, somando relevantes parcerias nos palcos de todo o país assim como também fora deles. Após dar início a sua seleta discografia as parcerias aumentaram qualificamente, enumerando registros ao lado de nomes como Naná Vasconcelos, Francis e Olivia Hime, Alaíde Costa, Ná Ozetti entre outros; e neste oitavo álbum intitulado “De mim” o contexto, além de contemplativo e confessional, não destoando dos anteriores, trazendo para esta celebração a viola como protagonista e a saudade como enredo maior.

Tendo o tempo como tema recorrente, as quinze canções presentes apresenta um intérprete imbuído de muita pessoalidade. Prova disto é “Da saudade” (Públius), canção considerada o cerne deste projeto é que chegou as mãos de Gonzaga quando ele encontrava-se na Europa sentindo falta do seu torrão, amigos entre outras coisas. Já em “Água serenada” (Déa Trancoso) e “Arco do tempo” (Paulo César Pinheiro) por exemplo, a condescendência do artista ao seu tempo biológico se dá através de frases como “Eu não canto do jeito que eu já cantei… Bebi água serenada, até a voz eu mudei” ou “Em qualquer ponto do tempo… Eu passo e finco meu marco…”.

O tempo ainda chega em duo com Cida Moreira através da canção “A janela da casa do tempo” (Públius e Xico Bizerra). Do carioca Mário Travassos gravou “Palavra doce” (gravada originalmente em forma de samba-canção pelo cantor Mário Reis em 1960 e agora ganha adornos de música caribenha). Vale observar nesta faixa o quanto se assemelham os timbres entre os dois intérpretes. Da cena musical paulista o pernambucano pincelou nomes como Virgínia Rosa (“Vou na vida” parceria com Swamy Jr.); Luiz Tatit e Fabio Tagliaferri (que assinam “Show”); o disco ainda conta com outros nomes conhecidos pelo grande público como Adriana Calcanhoto e Altay Veloso que assinam, respectivamente, as faixas “Você disse não lembrar” e “Canção de adeus”.

A faixa “Vôo cego” (Lula e Yuri Queiroga) conta com Marília Medalha, que volta aos estúdios de gravações depois de anos afastada. A cantora e compositora ainda participa da canção de domínio público “Deusa da Lua”, que foi adaptada pelo próprio Leal. Outra faixa assinada por Gonzaga (ao lado de J. Velloso e Guito Argolo) é “Sonho imaginoso”, canção que busca retratar toda a afabilidade que o artista busca através das mais diversas minúcias. Outras faixas presentes são “Calmaria” (J. Velloso), “Colarzinho de pedra azul” (Junio Barreto), Sina de passarinho” (Bruno Lins, Manoel Filó e Tonzinho), “Ainda bem que eu trouxe a viola” (Juliano Holanda) e “Que falem de mim” (Bidú Reis) lançada pela saudosa Ademilde Fonseca, nos idos anos de 1959.

“De mim” conta com as participações especiais de nomes como Jaime Alem e J. Velloso (além dos talentosos conterrâneosJuliano Holanda e Públius) tem o design gráfico assinado por Tânia Avanzi e a direção fotográfica de Helder Ferrer e do próprio Leal. É válido também o registro de que o disco foi gravado, mixado e masterizado nos estúdios Musak e Carranca (ambos em Recife) sob produção musical, direção musical e regência de Cláudio Moura. A Concepção, o repertório e a direção artística ficou a cargo do próprio artista com arranjos dos músicos Adilson Bandeira, Mauricio Cezar, Nilson Lopes e Marcos FM. Dentre os responsáveis pela tessitura do disco a ficha técnica conta, entre outros, com nomes como Daniel Coimbra (cavaquinho), Caca Barreto (contrabaixo acústico), Julio Cesar (acordeon), Ricardo Freitas (bateria), Adilson Bandeira (sax soprano, clarinete e clarone), Hugo Lins (viola dinâmica), Rafael Marques (bandolim), Fabiano Menezes (violoncelo), Mauricio Cezar (piano), Alex Sobreira (violão 7 cordas), Breno Lira (guitarra semiacústica) e nas percussões Lucas dos Prazeres, George Rocha e Tomás Melo, elencando de modo substancioso este disco nada prosaico e que nasceu quando um Gonzaga reflexivo e saudoso encontrava-se longe de sua terra deixando-se dominar pelo irrevogável desejo de voltar as suas origens.

Mesmo que tempo, como diria o poeta, com seu lápis impreciso ponha-lhe rugas ao redor da boca como contrapesos de um sorriso; Gonzaga Leal sabe serenamente aliar-se a ele, deixando-lhe que o mesmo componha seu destino sem nunca deixar de adequar-se condescendente a esse inexorável contexto. Resoluto, Leal traz a prova documental que ele tem o seu próprio tempo e este parece estar longe das formais convenções. Em seu agora o artista pernambucano abarca, de modo sereno e astucioso, o futuro e o passado.

Sua arte não delimita-se e nem faz concessões e procura trazer impregnada em sua gênese a mais profunda verdade acompanhado por um rigor estético que vem do seu âmago e que agora apresenta-se de modo mais intenso como pode-se observar em “De mim”, um projeto que suplantou desejos maiores e fez com que a impulsividade do agora aliasse-se de modo reflexivo as mais diversas reminiscências. Astuto, Gonzaga sabe como contemplar a saudade adequando-se serenamente ao tresloucado tic-tac do relógio, permitindo-se a pertinente e propícia condição para a atemporalidade. Senhor do seu tempo Gonzaga Leal consegue imergir em cada segundo e dele tirar o seu melhor através da sapiência e disciplina, adjetivos que só ele, o tempo, é capaz de nos trazer. Nos percalços do passar das horas talvez haja avarias, no entanto o artista mostra que ao nos permitir, de modo complacente, encarar a frenética ampulheta do tempo tudo se atenua.

Aos amigos leitores seguem duas canções. A primeira trata-se de “Água serenada”, de autoria da mineira Déa Trancoso. A faixa conta com citação de “Vou na Vida” (Swamy Jr./ Virgínea Rosa) e conta com arranjo e viola de 10 cordas de Jaime Alem:

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A segunda faixa trata-se de uma composição do pernambucano Juliano Holanda. “Ainda Bem Que Hoje Eu Trouxe A Viola” conta com os vocais do autor, de Gonzaga Leal e Públius, artista da nova cena musical pernambucana:

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Site Oficial – Gonzaga Leal


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EM MOMENTO OPORTUNO, LUIZ HENRIQUE REVERENCIA EM GARBOSO PROJETO SILAS DE OLIVEIRA

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Silas de Oliveira tem pela primeira vez um disco dedicado exclusivamente à sua obra, projeto este considerado pontapé inicial as comemorações do seu centenário

Silas de Oliveira nasceu em Madureira, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, no ano de 1916, mas precisamente no dia 12 de Outubro. Desde a infância, apesar da resistência do pai, que era pastor protestante e via na música uma ‘manifestação do diabo’, envolveu-se com o samba a partir de participações nas mais distintas rodas de samba que ocorriam nas cercanias. Relutante, o pai deSilas tentou afastá-lo do universo do samba como pode, inclusive o colocando para lecionar assim que concluiu o científico na escola ao qual era dono, talvez acreditando que exercendo o ofício de educador o filho abandonasse o gosto pela música. Mero engano, pois apesar do esforço, o futuro compositor não consegue esquecer do gênero musical ao qual espontaneamente abraçou e, após conhecer o jornaleiro Mano Décio da Viola (que acabou por se tornar o seu maior parceiro), envereda de vez para o samba ao subir os morros cariocas e frequentar os tradicionais pagodes nas casas das ‘tias’ baianas.

Quando estava com cerca de 30 anos compõe em parceria com Mano Décio o samba-enredo ‘Conferência de São Francisco’ ou ‘A Paz Universal’, defendido pelo Prazer da Serrinha, agremiação carnavalesca da qual faziam parte. Por divergência diversas no carnaval do ano seguinte surgiu a Império Serrano, escola que no ano seguinte a sua fundação já conquista o primeiro de uma série de quatro títulos carnavalescos que viria a ganhar sucessivamente. De 1948 a 1951, só deu verde e branco na folia. A escola foi tetracampeã do carnaval carioca, e os nomes de Mano Décio e Silas espalharam-se por toda a cidade como autores dos sambas-enredos campeões. Dentre os dezesseis sambas compostos para a escola (dos quais 14 foram defendidos no desfile oficial) em quase três décadas dedicadas a agremiação, há diversas canções que ganharam o gosto popular e extrapolaram o período carnavalesco como pode-se conferir a partir dos diversos temas presentes nas composições deste nome que tem talhada em sua biografia a alcunha de ser o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos.

Como pode um artista deste naipe permanecer no limbo do nosso cancioneiro popular sendo lembrado vez por outra sem maiores destaques? Talvez tenha sido este o questionamento que permeou os pensamentos do obstinado do cantor, compositor e pesquisador Luiz Henrique. Bacharel em direito, o incansável Luiz tem na música uma inesgotável fonte de prazer e mesmo enfrentando as mais diversas adversidades, vem sempre buscando trazer ao conhecimento do grande público exímios projetos fonográficos , dentre os quais o álbum duplo “Um Sinhô compositor”, uma homenagem aos 80 anos de saudade do compositor José Barbosa da Silva, o Sinhô, autor de alguns clássicos de nossa música como “Jura” e “Gosto que me enrosco”.

Outro interessante trabalho que consta no currículo do artista é “Pro samba que Noel me convidou”, mais um relevante resgate a favor da memória da canção popular brasileira. Tal projeto reitera, sem exageros, o aurífice existente no artista nesta homenagem a Noel Rosa e seus contemporâneos como é possível atestar a partir de um repertório meticulosamente escolhido. Dentre as faixas presentes pode-se citar “Perdi o meu pandeiro”, de autoria de Cândido das Neves, o Índio, representativo compositor da música popular brasileira. Tal canção composta na década de 1930 ganhou o seu primeiro registro em disco justamente em “Pro samba que Noel me convidou” como chegou a ser abordado em nossas páginas à época do seu lançamento como pode-se conferir através da pauta “A ESMERADA PERSONIFICAÇÃO DO SAMBA”.

Agora Luiz Henrique volta a cena fonográfica com “O Império de Silas, ao grande mestre do samba Silas de Oliveira”, reiterando o seu, digamos, compromisso com o resgate de grandes nomes de nossa música e, em especial, do universo do samba. Assim como os demais, o álbum foi gravado de modo independente e apresenta catorze composições em doze faixas muito bem selecionadas e equacionadas entre clássicos da lavra do compositor carioca e músicas pouco conhecidas do seu repertório. Sucessos como “Apoteose ao samba” e “Heróis da liberdade” dividem espaço com composições como “O Império tocou reunir”, “Caçador de esmeraldas”, “Amor aventureiro” e “Desprezado” (Todas em parceria com Mano Décio e esta última assinada também por Manoel Ferreira). Outras da lavra do próprio Silas como “Calamidade”, “Aquarela brasileira”, “Pernambuco, leão do norte” e outras com distintos parceiros como “Meu drama (Senhora tentação)” (a quatro mãos com J.Ilarindo) “Me leva” (parceria com Anísio Silva e José Garcia), “A lei do morro” (de autoria também de Antônio dos Santos), “Os cinco bailes da história do Rio” (com Bacalhau e Dona Ivone Lara) e “Rádio patrulha” (composição também assinada por Marcelino Ramos, Luiz Firmino dos Santos e J.Dias).

Em uma verdadeira celebração a este grande nome do samba o disco conta com a participação de nomes como Jorginho do Império, (filho do saudoso Mano Décio), Alex Ribeiro (filho do não menos saudoso cantor e compositor Roberto Ribeiro) e Silas Júnior, filho do homenageado. Já na tecitura sonora do álbum há nomes como o de Dirceu Leite (Clarone, Clarineta e Flauta) e o do violonista Rafael dos Anjos. Toda a produção é assinada pelos músicos Julio Florindo (atuando também no baixo e Repique) e Thiago da Serrinha (que executa no disco pandeiro, Tambor, Bandolim, Tamborim, Repique e entre outros instrumentos).

Esta festa sonora conta também com a colaboração de nomes como Quininho da Serrinha (Tantan, Tambor, Cuica, Caixa, Tamborim, Repique de Anel e Reco Reco), Marcio Vanderlei (no Cavaco), Adilson Didão (Surdo, Caixa, Tamborim e Ganzá), Rafael Mallmith (Violões), Tina Werneck (Viola), Cacá Colon (Caixa Marcial), Aquiles de Moraes (Trompete), Aquiles de Moraes (Flugel horn), Junior de Oliveira (Frigideira, Prato e Faca) e Everson Moraes (Trombone). O coro ainda conta com os nomes de Ary Bispo, Analimar, Hamilton Fofão, Jussara Lourenço. Há ainda a participação da Velha Guarda Show do Império Serrano (com os componentes Capoeira, Silvio, Ivan Milanez, New Lee, Cizinho, Tia Vilma, Lindomar e Rachel Valença).

“O Império de Silas, ao grande mestre do samba Silas de Oliveira” atesta o porquê Silas de Oliveira é considerado um dos grandes nomes do samba, assim como também a razão pela qual seu nome fez-se bastante respeitado e reverenciado, em particular no meio carnavalesco. Não é à toa que hoje ele é considerado o ídolo maior do GRES Império Serrano. Já era tempo para esta homenagem e este marco, que é um disco dedicado exclusivamente as composições de Silas de Oliveira. E ainda bem que quem teve esta ideia e ousadia foi Luiz Henrique, artista que inconscientemente traz em seus trabalhos esse compromisso de resgatar grandes valores de nosso cancioneiro sempre trazendo consigo uma gama de características que engrandecem tais projetos.

Luiz traz consigo não apenas a preocupação de um intérprete que busca sempre apresentar ao seu público um repertório de primeira grandeza, mas também uma característica que o vem destacando ao longo dos últimos anos em seus projetos fonográficos, mesmo que de forma espontânea: um compromisso que busca o resgate da nossa Música Popular Brasileira, em especial do nosso samba. Feito de modo independente, “O Império de Silas” faz-se por si só mais uma prova do indelével amor do artista para com a valorização da música a partir do caminho das pedras. Trilha esta difícil por, em sua discografia, mostrar-se mais um projeto que rema contra a maré comercial vigente apesar da indiscutível qualidade. É a primeira vez que Silas tem um trabalho exclusivamente dedicado a sua obra e, sem dúvida, o álbum é um marco para a música brasileira e, em especial para o samba, ao homenagear o centenário de um grande compositor como Silas.

O disco torna-se uma prova documental da valorização e respeito a história de uma cultura onde a falta de memória coletiva é uma característica bastante arraigada. É Trabalho fundamental não apenas para aqueles que buscam uma fonte de fidedigna de consulta mas, principalmente para aqueles que são apaixonados pelo samba, uma fonte inesgotável prazer. Que “O Império de Silas, ao grande mestre do samba Silas de Oliveira” seja considerado o pontapé inicial para as comemorações do seu centenário a acontecer em 2016.

Fica aqui para os amigos leitores uma das canções presentes no álbum. Trata-se de “Aquarela Brasileira”, canção que ganhou o gosto popular desde a sua apresentação no desfile carnavalesco carioca em 1964 pelo G.R.E.S. Império Serrano (RJ):

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Maiores Informações:

Facebook – Luiz Henrique

Contato para shows:
cantorluizhemrique@uol.com.br
(21) 99175-2794 // (21) 98329-5887

Para aquisição do álbum: soniamonteproducoes@gmail.com


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 12

JACKSON

Hoje resolvi retomar uma série que comecei a escrever já faz algum tempo contando algumas curiosidades sobre ícones de nossa música popular brasileira. Depois de trazer ao conhecimento do público leitor algumas histórias e estórias sobre nomes como Tom Jobim, Antonio Maria, Tim Maia, Vinicius de Moraes e tantos outros que perpetuaram seu nome no cancioneiro popular brasileiro. Como estamos às vésperas dos festejos juninos aqui no Nordeste, não poderia de deixar abordar o nome de um dos mais relevantes artistas de todos os tempos da música nordestina que foi o paraibano de Alagoa Grande José Gomes Filho ou, como tornou-se nacionalmente conhecido, Jackson do Pandeiro.

Este nome artístico surgiu de um apelido que ele mesmo se dava: Jack, inspirado no mocinho de filmes de faroeste cujo nome era Jack Perry. Até chegar a Jackson do Pandeiro, chamou-se a princípio de Zé Jack e, quando começa a ganhar destaque como pandeirista ainda em Campina Grande passa a ser conhecido como Jack do Pandeiro. A mudança de Jack para Jackson só ocorreu por sugestão de um diretor de programa da rádio a qual Jackson fazia parte do casting, pois acreditava que tal mudança ficaria mais sonoro e causaria mais efeito quando fosse ser anunciado.

Nesse meio tempo, ainda nos anos de 1940, forma a dupla Café com Leite com o amigo Zé Lacerda (que foge para casar e acaba desfazendo a dupla). Em seguida muda-se para João Pessoa e passa a integrar o casting da Rádio Tabajara, onde retoma a dupla Café com Leite (dessa vez com Rosil Cavalcanti, autor de cerca de 130 músicas, dentre estas diversos sucessos gravados pelo músico posteriormente). Depois de desfeita a dupla com Rosil começa a delinear a sua carreira a partir de apresentações para além da capital paraibana. Em uma dessas excursões, ao ir se apresentar na capital pernambucana, tem a oportunidade de conhecer a olindense Almira Castilho de Albuquerque, radioatriz da Rádio Jornal do Commercio e que viria a se tornar a sua primeira esposa.

Em 1953, quando encontra-se com trinta e cinco anos, ganha a oportunidade de ter o seu primeiro registro fonográfico. E neste 78rpm consta dois dos maiores sucessos de todos os tempos não apenas da carreira do artista, mas do cancioneiro popular nordestino. Nele Jackson grava “Sebastiana“, do seu amigo e ex-parceiro Rosil e “Forró em Limoeiro“, composto por Edgar Ferreira (que no ano seguinte o presenteou com mais três canções: “Um a um“, “Vou gargalhar” e “Dezessete na corrente“, este último com Manuel Firmino Alves. Sem contar outros sucessos como “Ele disse“, uma homenagem póstuma ao presidente Getúlio Vargas morto dois anos antes da homenagem).

Além dos ritmos juninos, Jackson do Pandeiro também foi responsável pelo registro de frevos (a exemplo de “Micróbio no frevo“), marchas (“Velho sapeca“), sambas (“O que era a favela“), cocos (“Cajueiro“) entre outros ritmos que corroboraram significadamente para tornar o saudoso músico paraibano como um dos grandes ícones não apenas da música nordestina, mas nacional. Suas interpretações e suingue fizeram e continua a fazer escola mesmo passado 34 anos de sua morte, uma vez que sua última apresentação ocorreu no 03 de julho de 1982 na III Festa Junina da Associação de Servidores do Ministério da Educação e uma das fotografias desta apresentação é a que ilustra esta pauta.

Vale registrar que antes de estourar como cantor e instrumentista na década de 1950, Jackson chegou a encenar o chamado pastoril profano, onde ficou conhecido em um dos bairros de Campina Grande como palhaço Parafuso. Além desse ofício, exerceu também o de arqueiro, pois foi goleiro do Central de Campina Grande.
Aos amigos leitores ficam registradas aqui duas canções na voz do saudoso Rei do ritmo.

A primeira trata-se de “Dr. Boticário“, uma composição do próprio Jackson em parceria com Nivaldo Lima e gravada pelo paraibano em 1961 no LP “Ritmo, melodia e a personalidade de Jackson do Pandeiro”:

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A segunda canção trata-se de “Secretária do Diabo“, música de autoria de Osvaldo Oliveira e presente no LP “O cabra da peste”, disco lançado em 1966:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 11

GONZAGA

Falar da importância de Luiz Gonzaga para a música popular brasileira (em especial a nordestina) é chover no molhado. Desde os idos anos da década de 1940 quando o cantor e instrumentista começou a escrever seu nome na história do cancioneiro popular que delineava-se ali um grande representante da música da região.

Nos idos anos de 1930 o representante mais popular da música produzida em Pernambuco era Manezinho Araújo e suas emboladas, que animava os auditórios das rádios do Sudeste do país e em especial do Rio de Janeiro (então capital do país). Diferente da embolada produzida por seu conterrâneo, Luiz Gonzaga chega trazendo ao centro do palco dos grandes centros urbanos a sanfona e uma musicalidade contagiante e embriagadora intrinsecamente ligada à sua região.

Sem saber, Gonzaga estava seguindo à risca a ideia atribuída ao russo Leon Tostoi: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. No entanto era preciso somar forças ao seu instrumento e melodias, e para isso o destino o colocou diante de dois exímios compositores que souberam como poucos transcrever para as melodias de Gonzaga aquilo que ele queria de fato expressar. Isso talvez tenha ocorrido pela coincidência de terem nascido na mesma região.

Ao lado do cearense Humberto Teixeira, Gonzaga deu início a trajetória de sucessos. O grande encontro da dupla se deu em agosto de 1945, no escritório de advocacia de Humberto, localizado no centro do Rio de janeiro. Gonzaga reiterava ao advogado o desejo em representar a música de sua terra nos grandes centros do país e ali mesmo os dois já começaram a dar vida a canção que viria a se tornar o hino não-oficial do Nordeste, Asa Branca.

Dali em diante foram responsáveis pela produção de diversos sucessos na carreira do cantor como “Assum preto”, “Baião”, “Xanduzinha”, “Estrada de Canindé”, “Juazeiro”, “Respeita Januário”, “Qui nem jiló”, “No meu pé de serra” e tantas outros chegando a um total de 32 canções gravadas (entre parcerias e canções compostas pelo advogado e compositor de Iguatu).

Outro nome de extrema importância na carreira artística de Gonzaga foi o do médico e compositor José de Sousa Dantas Filho, mais conhecido como Zé Dantas, morto prematuramente aos 41 anos de idade mas que deixou como legado dezenas de composições e, em sua maioria, em parceria com Gonzaga. É de autoria da dupla clássicos como “Noites brasileiras”, “A dança da moda”, “A volta da Asa Branca”, “Acauã”, “ABC do sertão”, “Derramaro o gai”, “Vem Morena”, “Paraíba”, “Xote das meninas”, “Riacho do navio” e tantas outras.

Vale registrar que é de uma canção da dupla (Forró de Mané Vito) que surge pela primeira vez utilizando o termo forró. Com Dantas, entre parcerias e canções de autoria apenas do médico-compositor, Gonzaga fez 52 registros fonográficos reiterando a imprescindível importância da dupla na história do cancioneiro brasileiro.

Outro importante nome na carreira de Gonzaga foi o do saudoso João Silva, o compositor mais gravado pelo Rei do baião. É de sua autoria sucessos da careira de Gonzaga como “De fia a pavi” (com Oseinha), “Danado de bom”, “Deixa a tanga voar”, “Forró de cabo a rabo”, “Nem se despediu de mim”, “Pagode russo”, “Sanfoninha choradeira”, “Vou te matar de cheiro”, “Um pra mim, um pra tu” e tantas outras em parceria com Gonzagão. A parceria intensificou-se na última década de vida do sanfoneiro como é possível perceber a partir das canções que compõem os últimos discos do cantor e instrumentista.

Luiz Gonzaga gravou 625 músicas. Talvez nem houvesse necessidade de tantos registros fonográficos quanto o legado que ele deixou para escrever seu nome em definitivo dentro de nossa música. Duas ou três parcerias com Zé Dantas, Humberto Teixeira, Miguel Lima e João Silva; uma ou duas interpretações de nomes como Antonio Barros, Patativa do Assaré e Gonzaguinha já seriam suficientes para torná-lo quem hoje ele é: o pernambucano do século, em eleição onde constava nomes dos mais variados seguimentos existentes na história do estado. Mesmo assim Luiz Gonzaga desbancou nomes como Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Josué de Castro e tantos outros.

Fica para audição dos amigos leitores duas canções interpretadas pelo saudoso Rei do Baião. A primeira trata-se de “Delegado no coco”, canção compostas por Zé Dantas e registrada por Gonzaga em 1957:

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A segunda canção trata-se de “Velho novo Exu”, baião composto por Gonzaga em parceria com Sílvio Moacir de Araújo e gravada em 1954:

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DUO CALAVENTO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Exímios músicos, Diogo Carvalho e Leonardo Padovani formam o Duo Calavento, harmonizando de modo ímpar o inusitado encontro entre o violão e o violino

De um neologismo surge o inusitado encontro entre um violino e um violão. De dois talentos surgem a perfeita sincronia entre dois instrumentos e alguns dos maiores autores da música mundial. Eis o Duo Calavento, dupla formada pelos músicos Diogo Carvalho eLeonardo Padovani e que vem conquistando plateias por todos os lugares onde tem passado, seja no Brasil ou no exterior. Após serem apresentados aqui mesmo no Musicaria Brasil como pode-se conferir a partir da pauta O ERUDITO E O POPULAR EM VERSÕES PARA VIOLÃO E VIOLINO, eles agora voltam ao nosso espaço cedendo esta entrevista exclusiva para o deleite dos nossos leitores. Nesta agradável conversa os músicos falam sobre como surgiu a ideia de formar o duo, como vem sendo a divulgação deste primeiro álbum da dupla, a escolha do repertório dentre outras curiosidades. Boa leitura!

Diogo, aos cinco anos de idade você começou sua formação musical ao piano. Posteriormente ganhou um violão e conseguiu alinhar os dois instrumentos por um dado momento. O que o fez decidir de vez pelo violão como instrumento de trabalho?

Diogo Carvalho – Minha decisão pelo violão aconteceu simultaneamente a meu maior interesse pelos estilos relacionados ao instrumento, como choro, rock, violão clássico e a canção brasileira. Esse processo se deu a partir de meus 11 anos. Depois disso, aos 14, iniciei minha vida profissional, como violonista, tocando em bares e casas noturnas. O interessante é que minha relação com o violão sempre foi pela música, e não pelo instrumento em si, ou seja: eu não sou do tipo que só escuta música para violão.

E você Leonardo? Em sua biografia consta que o envolvimento com a música deu-se desde os nove anos de idade. O violino foi sua primeira opção? Houve alguma influência para a opção deste instrumento?

Leonardo Padovani – Sim, me apaixonei pelo violino desde muito cedo. Tive influência da igreja que minha família frequentava e à qual me levava desde que nasci. Lá existem orquestras e eu passei minha infância ouvindo todos os instrumentos. Apesar da paixão pelo violino, me lembro de ter um certo fascínio pela “linha do baixo” em tudo o que ouvia, que era quase sempre executada por tubas, eu gostava de cantar o que eles tocavam.

Como se deu o encontro musical de vocês?

LP – Nos conhecemos na USP em 2002. Em 2005 Diogo me convidou para fazer parte de um trabalho de palestras musicadas para empresas, que fazemos até hoje. A partir daí fomos descobrindo muitas afinidades musicais, o gosto pelos compositores impressionistas, pela mesma estética musical, harmônica, e em 2008 resolvemos criar o “Duo Calavento”, que no início era apenas “Duo Leonardo Padovani e Diogo Carvalho” – o nome Calavento veio com o tempo, quando descobrimos nossa identidade musical, mas a verdade é que ainda a estamos descobrindo…

DC – Além das afinidades artísticas, existe a afinidade profissional. Sem ela acredito que nenhum conjunto sobrevive, pois o dia a dia é muito trabalhoso (como em qualquer profissão) e o que o público ouve nos concertos ou no CD é só a “ponta do iceberg”. Nós dois gostamos de trabalhar com a mesma intensidade, de fazer nossa arte chegar às pessoas do nosso jeito, com a maior qualidade possível. No caso dos concertos, por exemplo, temos um cuidado especial com a sonorização, para proporcionar ao público um som envolvente, claro e emocionante.

A ideia de formar o duo surgiu a partir de alguma ocasião em especial?

DC – Não houve uma ocasião especial, e sim uma série de ocasiões. Conforme o tempo foi passando, a partir de 2005, nossas afinidades foram tomando força e isso ficou nítido em nossas performances. A formação do duo acabou sendo “automática”, embora tenha ocorrido em longo processo. Contribuiu decisivamente também a resposta do público, que mostrou interesse em nosso jeito de tocar, e nos incentivou muito a desenvolver nosso trabalho.

Mesmo já estando há alguns anos reunidos, só agora vocês apresentando o primeiro projeto discográfico. O que fez vocês protelarem por tanto tempo esse registro?

LP – Nossa ideia inicial para o duo era fazer apenas música erudita, transcrever obras que gostamos para violino e violão. Transcrevíamos tudo juntos, mas no meio do processo começamos a compor e percebemos um mundo mais vasto para desbravar. O processo se deu de forma gradual, fizemos muitos shows e aos poucos descobrimos qual era o formato da nossa arte. Irreverência, pitadas de humor e contrastes que levem a plateia à uma viagem de diferentes sensações e imagens. Creio que esse foi o tempo necessário para essa busca de identidade musical.

DC – Exatamente. Na verdade o disco só foi gravado quando o Duo Calavento se sentiu pronto para registrar sua obra.

A música instrumental brasileira é notoriamente conhecida por sua qualidade. No entanto, muitas vezes a valorização e o reconhecimento de alguns artistas do gênero se dá longe do Brasil. Haveria, na opinião do vocês, alguma justificativa plausível para isso?

DC – Este é um assunto é bastante controverso, e precisaria de muitas páginas de comentários… Sendo assim, destaco apenas três pontos que acho relevantes:

– a falta do ensino de música é um fator decisivo, pois as pessoas estão muito distantes da arte musical, do ato de tocar um instrumento e também do ato de ouvir música.

– no Brasil infelizmente não existe o enorme gosto pela música instrumental que existe na Europa, parte da Ásia e EUA.

– o pouco profissionalismo dos músicos no Brasil também contribui para a pequena valorização do gênero. Basta lembrarmos do caso de João Pernambuco, por exemplo, nome importantíssimo da música brasileira do início do século XX, já reconhecido em sua época, que por amizade foi contratado como funcionário público para deixar de trabalhar com serviços pesados, e poder se dedicar apenas ao violão.

No álbum há sete faixas que não são da autoria de vocês como, por exemplo, “Bangzália” do Tom Jobim e “Czardas”, do italiano Vittorio Monti. Sem contar que há também uma canção do Piazzolla e outra do Tchaikovsky. Como se deu a escolha desses compositores para fazer parte do álbum?

LP – Czardas é uma música que fez parte da minha infância, numa fase de deslumbre com as possibilidades sonoras do instrumento. Creio ter ouvido pela primeira vez num disco de vinil do meu tio. Além disso, para nós ela é sinônimo de diversão, alegria, o que nos levou à escolha de tocá-la sempre ao final dos shows, como última música, e à nossa maneira. Quanto a Piazzolla, fiz parte da Orquestra Típica de Tango “De Puro Guapos” por 5 anos, e nesse período me apaixonei por Piazzolla, ele está na minha “bagagem” musical e é mais um gosto em comum entre mim e Diogo.

DC – Bangzália me foi sugerida por Ulisses Rocha, um de meus mestres. Parte importantíssima das aulas de Ulisses são as sugestões musicais – ele conhece muito, de muitos estilos, e indica sempre as músicas e gravações mais especiais. Tom Jobim tem uma obra instrumental maravilhosa, e espero que nossa gravação estimule as pessoas a conhecer mais da obra dele. Em relação a Tchaikovsky, a peça é uma maravilha, um clássico dos clássicos, divertidíssimo.

LP – E nós nos divertimos muito fazendo nossa versão do Tchaikovsky com o violino tocando em pizzicato quase que o tempo todo da música.

Dentre esses autores escolhidos chamou minha atenção uma certa abrangência quanto à música produzida na França. Afirmo isto porque ao mesmo tempo em que há uma aproximação do impressionismo francês a partir de Debussy vocês trazem Satie, mentor do Les Six, grupo que à época reagiu contra a influência do impressionismo na música. Vocês poderia explicar um pouco melhor acerca da escolha desse repertório francês?

DC – Me lembro de quando ouvi Debussy pela primeira vez. A obra dele me mostrou aonde música pode chegar, mudou minha vida. Eu tinha por volta de 13 anos. Conhecia muito Beethoven, Mozart, Bach, etc. É claro que eu já gostava muito dos autores antigos, mas Debussy tinha algo a mais: ele reunia uma música inventiva, cheia de sensações e imagens, a uma técnica composicional brilhante, onde tudo tem um sentido próprio, e se relaciona a uma linguagem quase mágica.

Debussy comentava que gostava de compor “de ouvido”, ou seja, livre de regras e limitações pré-concebidas. Isso não quer dizer que ele não tivesse sólida formação teórica, e sim que ele não se limitaria apenas à sua formação teórica! A música impressionista traria climas, atmosferas, imagens, além de frases musicais e formas clássicas. Nós nos identificamos muito com este pensamento, e também com a resposta maravilhosa que os músicos franceses deram aos problemas da composição musical no final do século XIX e começo do XX.

O impressionismo também é o tema de meu primeiro disco solo: “Impressionism – Acoustic Guitar Solo”, no qual interpreto minhas transcrições para violão solo de obras de Debussy, Ravel e Satie.

LP – O gosto por esse repertório foi o primeiro, de muitos em comum, que nos motivou a criar o Duo Calavento.

No disco há oito composições da autoria de vocês, sete em parceria. Dentre essas faixas “Janelas ao Sol”, que rendeu a vitória no Botucanto Instrumental 2009. Outras que chamam a atenção pelo inusitado título é a “Suíte da Sogra”. Como se dá o processo de composição de vocês?

DC – Nosso processo composicional é um tanto caótico. Normalmente apenas ficamos tocando e improvisando, até que surja algo a ser desenvolvido. Não conheço muitos autores de música instrumental que trabalhem em parceria – acho que porque é bastante complicado! Um caso notório é Tom Jobim e Newton Mendonça, que decidiam cada nota e acorde juntos, e também a letra.

O interessante é que cada música é construída por um processo diferente: “Janela do Sol”, por exemplo, foi composta quase que de forma matemática, parte por parte, sequencialmente. Já “Ponte das Cordas” foi fruto de uma longa depuração de uma série de ideias sobre nossa viagem para Goiás.

A “Suíte da Sogra” começou em um encontro para compor uma música nova, e no meio do processo não muito produtivo desse primeiro dia surgiu a ideia de falar sobre este tema tão irritante e tão universal. A partir deste ponto, em que tivemos a ideia inicial, a música foi construída aos poucos, e a história se desenrolou. Nunca revelaremos de onde veio a ideia!

Como estão vendo a divulgação deste álbum? A agenda para o segundo semestre se restringirá ao Brasil ou vocês já começarão trabalhar o álbum no Exterior também?

DC – A divulgação do álbum no Brasil é realizada pelo super Matias José Ribeiro, um profissional excelente, divertido e atencioso. Os veículos de imprensa tem sido receptivos, e estamos muito contentes com o público que alcançamos com este lançamento. No segundo semestre tocaremos pelo Brasil. Temos propostas para alguns locais, e estamos trabalhando para realizar uma turnê no Nordeste. Para o Exterior iniciaremos a divulgação depois da Copa, e em 2015 provavelmente faremos uma turnê europeia, principalmente para levarmos o disco para a Alemanha, onde já tocamos antes, e onde a “Suíte da Sogra” mostrou ser realmente um “tema universal”!


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XICO BIZERRA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

xico

Considerado um dos compositores contemporâneos mais expressivos do forró pé-de-sera, Xico Bizerra completa 15 anos de carreira

As letras produzidas por Xico Bizerra são arraigadas de nordestinidade. Há quem identifique nelas o cheiro do bode e de terra molhada. Nelas é possível vislumbrar-se a caatinga e sentir a leve brisa existente nas paisagens dos rincões da região. Tudo isso com um adicional: um astuto olhar sertanejo que, com destreza, sabe levar à sua pena toda a poesia que emana do lugar de onde veio somando a esse dom todas as experiências vivenciadas em outras pairagens mais cosmopolitas.

Pode-se afirmar sem sombra de dúvidas que é na obra de Xico que a frase “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão…” atribuída a Antônio Conselheiro que faz-se, de fato, realidade, uma vez que a sua obra transcende lugares e estigmas; e isto por si só acaba torná-lo um dos mais representativos compositores da nova geração da música nordestina com uma obra que abrange desde o tradicional forró pé-de-serra, xotes e baiões a outros gêneros que constituem a rica sonoridade existente em nosso país como valsas, chorinhos dentre outros distintos ritmos.

Homenageado pelo selo Passadisco pela passagem dos 15 anos de carreira com a coletânea “Pernambuco Forrozando para o mundo” (disco este que foi abordado aqui em nosso espaço recentemente a partir na matéria “EM MAIS UM VOLUME, A EXITOSA SÉRIE “PERNAMBUCO FORROZANDO PARA O MUNDO”, ABARCA A OBRA DE XICO BIZERRA”), Xico generosamente disponibilizou-se para ilustrar mais pauta aqui em nosso espaço. Neste bate-papo exclusivo, o poeta e compositor revela-nos quais os projetos em andamento, fala um pouco sobre o seu lado escritor entre outras peculiaridades que corroboram para para justificar o porquê sua obra vem sendo gravada pelos mais representativos nomes da genuína música nordestina de modo cada vez mais constante.

Xico, você poderia nos contar um pouquinho de suas reminiscências de infância e de como surgiu esta sua intrínseca ligação com a música?

Xico Bizerra – Minha mãe tocava bandolim e meu avô, além de professor de português e latim, era Poeta. São minhas influências maiores. Foi ele o maior incentivador desse fazedor de letras. Falo assim por não me considerar Poeta. Acho que o termo vem sendo muito vulgarizado, banalizado, ultimamente. Todos se acham ou são tratados como tal, quando, na verdade, ser Poeta é uma coisa muito maior, mais sublime. Poetas são Louro do Pajeú, Pinto do Monteiro, Manoel de Barros, João Cabral de Melo, Manoel Bandeira, meu avô, dentre outros. Os que rimam coração com paixão são apenas pretenciosos. E eu, como disse acima, sou apenas um ajuntador de palavras, um fazedor de letras. Para não parecer que é falsa modéstia, considero-me um bom letrista de música popular.

Você nasceu em uma região que é um profícuo manancial de cultura e poesia. Lugar onde os mais distintos artistas revigoram suas inspirações, inclusive matrizes como o saudoso Luiz Gonzaga. Qual a influência do Crato e toda aquela região em sua obra?

XB – Antes de ser apenas uma identidade geográfica, nascer no Cariri cearense é ter a ventura de ser conterrâneo de grandes nomes da literatura e da música brasileira, conhecidos ou não. De onde eu vim se ouviam as violas dos cantadores e a cada esquina havia uma sanfona entoando os baiões de Gonzaga. Nas feiras os emboladores embalavam meus sonhos infantis. A poesia de Cego Aderaldo era escutada em todos os grotões do Cariri. Patativa fazia seus versos bem pertinho do Crato. Como não se influenciar por tão belo cenário?

Só a série Forroboxote conta com quase 150 registros de sua autoria. Você tem em números a quantidade de canções compostas nestes quinze anos de carreira? Qual foi aquela que você considera o pontapé inicial na arte da composição?

XB – Minha primeira música, composta meio por brincadeira aos 16,17 anos, é AROMA DE ALEGRIA, que entrou no FORROBOXOTE 4, na voz de Alcymar Monteiro.

Por falar em Forroboxote. a série hoje conta com dez títulos, dezenas de intérpretes e mais uma infinidade de canções registradas. Você já procurou contabilizar para além da série e de modo oficial quantos intérpretes possui e a quantidade de canções gravadas?

XB – Sim, claro. Como burocrata que fui por 35 anos (aposentei-me depois de 28 anos de Banco Central onde fui Inspetor do Mercado de Capitais) trouxe para a vida ‘artística’, digamos assim, as manias de organização e controle. Tenho contabilizado tudo sobre minha obra e sei com precisão o número de canções compostas, de gravações, de intérpretes e parceiros e tudo o mais. Hoje são 276 músicas compostas, 205 em parceria e o restante, 71, como autor de letra e música. Esse número se converte em 910 se consideradas as regravações de uma mesma música. SE TU QUISER, por exemplo, conta com 170 gravações. Ela já foi gravada como arrasta-pé, xote, rock, brega, canção, pop e até uma versão em inglês gravada no Canadá. Quanto a intérpretes o número hoje chega a 338. Ressalte-se que este número se refere apenas àqueles registros que tenho a comprovação física da gravação, CD ou DVD. Hoje, como se sabe, grava-se em toda esquina e o pedido de autorização ao autor para gravar sua obra virou obra de ficção. Então, certamente os números aqui citados são bem menores do que aqueles que existem por aí. Tenho, ao longo desses 15 anos, 72 parceiros, aí considerados inclusive os de músicas ainda inéditas, como Juliano Holanda, Zé da Flauta, dentre outros. Uma parceria que me honra muito é com Luiz Gonzaga – PISE DE MANSINHO. A história é longa mas qualquer dia eu conto.

Até pouco tempo atrás seus maiores intérpretes eram Irah Caldeira e Leninho de Bodocó, ambos com 27 músicas gravadas. No topo do ranking figuram estes nomes ainda ou já foi ultrapassado por algum outro?

XB – Gravados em seus próprios trabalhos ou participando de obras de outras artistas, os maiores intérpretes de minha obra são, pela ordem quantitativa: Leninho de Bodocó – 31; Irah Caldeira – 28; Santanna – 21 e Maciel Melo – 16.

A chegada de Bernardo, seu neto, foi sem dúvida um marco em sua vida. Você que já tem projetos fonográficos e literários voltados para as crianças pretende dar continuidade a trabalhos para este segmento com esse combustível a mais?

XB – CANTIGAS PRA BERNARDO, pouca gente conhece, foi um ‘disquinho’ que fiz para presente de maternidade. Cinco músicas cantadas por Maria Dapaz, Maciel Melo, Vanutti Macedo, Leninho e Marcelo Melo do Quinteto Violado louvaram a chegada de Bernardo. O SER TÃO CRIANÇA 2 está prontinho, músicas e letras todas minhas. Esse Projeto me deu muitas alegrias e rendeu homenagens em duas dezenas de escolas na região metropolitana do Recife. E tem ainda o livro PEQUENINAS HISTÓRIAS PARA GENTE PEQUENINA, também pronto, esperando a hora oportuna para levar ao público.

Sua incursão pela literatura já rendeu-lhe alguns títulos, dentre os quais o livro de crônicas “Breviário lírico de um amor maior que imenso”. Já há em vista algum outro projeto neste contexto?

XB – Literatura é uma atividade que me dá muito prazer. Há o livro a que me referi no tópico anterior – PEQUENINAS HISTÓRIAS PARA GENTE PEQUENINA. Na fila, um romance – BASTIÃO DO JESUS BOM – em elaboração bem adiantada, mas parado, atualmente. Falta coragem e sobra preguiça para continuar escrevendo, mas a idéia está toda na minha cabeça. Conta a história do amor maluco entre Bastião – um pervertido louco que se torna santo, e Jesuína, uma santa que se transforma numa louca pervertida. O cenário é a cidade imaginária de JESUS BOM, localizada em qualquer sertão de nossos sertões. Também escrevo pequena crônicas para o Jornal da Besta Fubana, Gazeta Nossa, Blog do Lando e alguns outros blogs do Cariri cearense.

O último projeto Forroboxote (“Luar Agreste no Céu Cariri“) foi também o último projeto fonográfico do inigualável Dominguinhos. Como nasceu este projeto? Reza a lenda que o pedido de uma melodia rendeu todas as onze faixas inéditas presentes no projeto e que foram elaboradas em poucos minutos. É verdade?

XB – Um certo dia Dominguinhos me ligou dizendo que queria que eu colocasse letra em algumas canções de sua autoria. Levei-o à casa de um amigo comum – Paulo Vanderley e as melodias, inéditas, foram criadas em pouquíssimo tempo (tenho tudo gravado e filmado). As letras é que demoraram um pouco, pela responsabilidade de ser parceiro de uma pessoa da estatura de seu Domingos. Mas saíram e viraram o LUAR AGRESTE NO CÉU CARIRI. Ainda hoje me belisco para acreditar que recebi esse presente … Infelizmente ele não chegou a ver o projeto totalmente concluído (capa, encarte etc), mas ouviu todas as músicas do jeitinho que estão no disco e disse-me ter gostado muito. Disse isso também numa entrevista a Geraldo Freire, na Rádio Jornal.

“Se tu quiser” dentro do gênero ao qual ela se encaixa é, sem sombra de dúvidas, uma das canções mais gravadas nos últimos tempos. Desse modo, em qualquer país que leva a sério as questões referentes a direitos autorais você estaria relativamente muito bem obrigado apenas com esta canção. Qual a sua visão, como compositor, em relação a arrecadação dos direitos autorais em nosso país? Quais as medidas que poderiam ser adotadas para a melhoria deste contexto?

XB – ‘Em qualquer país que leva a sério as questões referentes a direitos autorais, poderia se afirmar que você estaria relativamente muito bem obrigado apenas com esta canção.’ Disseste-o bem. Infelizmente nosso País não leva a sério a questão e o rendimento proveniente de direito autoral é bem inferior ao que deveria ser. Uma revisão geral na Lei do Direito Autoral e a criação de mecanismos que garantam ao autor uma arrecadação justa e compatível com o nível de execução de sua obra. Não acho que seja difícil. Na América e na Europa existem esses controles. No Brasil, além de seriedade de nossos gestores públicos, falta vontade política para implantação desses mecanismos.

Após as festividades juninas o que podemos esperar referentes a novos projetos?

XB – O MAIS INTIMO DE MIM, projeto de transgressão estética em relação a quase tudo que fiz até hoje. São valsas e canções com apenas dois instrumentos em cada faixa. Penso também num disco de forró, inédito e também numa segunda edição do SER TÃO CRIANÇA, disco infantil que me deu muitas alegrias. Há a pretensão de, em futuro breve e em atendimento a pedidos de vários admiradores, relançar os Forroboxotes de 1 a 4, atualmente fora de catálogo e indisponível para compra. No juízo, muitos projetos. Não sei se dará tempo de executá-lo num período de tempo pequeno. Veremos.

Maiores Informações:

Site Oficial Forroboxote e página da loja Passadisco

 


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O ERUDITO E O POPULAR EM VERSÕES PARA VIOLÃO E VIOLINO

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A perfeita sincronia entre dois instrumentos. Eis o Duo Calavento, um projeto que mescla peças do repertório clássico com o popular

É público e notório que a música brasileira traz em suas origens a fusão de elementos europeus e africanos trazidos respectivamente por colonizadores portugueses e pelos escravos que aqui chegaram ao longo dos últimos séculos. A essa mistura de ritmos foram sendo acrescentado ao longo dos anos outros diversos elementos que fazem hoje o nosso cancioneiro ostentar uma estirpe musical ímpar. A qualidade da música, em particular a instrumental, elaborada no Brasil, dito pelos grandes especialistas no gênero, é algo impressionante. E essa inquestionável característica foi construída a partir da substancial colaboração de relevantes e significativos nomes que deixaram a sua indelével marca não apenas em nossa música, mas também no cenário musical ao redor do planeta.

Nomes como Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, Rosinha de Valença, Paulo Moura, Pixinguinha, João Pernambuco, Victor Assis Brasil e tantos outros acabaram tornando-se exponencial da cultura musical brasileira ao redor do mundo a partir de uma obra construída de modo bastante coerente. Trabalhos como o dos artistas citados contribuíram de modo substancial para sedimentar a música brasileira no patamar que hoje ela encontra-se. E se o pontapé foi dado por esses exímios musicistas, hoje os artistas que procuram dar continuidade a esse legado dever ter consciência e saber sobre a responsabilidade e compromisso de não só inovar como também trilhar novos e exitosos percursos para a nossa música.

Se hoje nossa música instrumental goza dos mais elogiosos adjetivos deve-se a responsabilidade de cumprir compromisso como tem feito a dupla Diogo Carvalho e Leonardo Padovani, que resolveram somar seus respectivos talentos para formar o Duo Calavento, neologismo criado pela dupla e que faz alusão a palavra “cata-vento” – símbolo de alegria, movimento, luz, cor e flexibilidade termos que acabam remetendo, decerto modo, à música e ao espírito dos músicos. Já a ideia do “calar” traduz a expressividade da música em seu nível mais profundo – quando ela cala fundo, no âmago das pessoas – e resgata a importância do silêncio, inerente à música.

Formado em 2008, o Duo Calavento soube respeitar o tempo necessário para a gravação deste seu primeiro projeto. A maturação deu-se na medida certa para que não houvesse nenhum tipo de concessão quanto aos critérios e qualidade do disco. Este tempo foi o ideal para que uma sonoridade aparentemente híbrida assumisse modos rebuscados e modernos ao ponto de tornar-se uníssona, sabendo mesclar de modo ímpar aquilo que denominam por músicas popular e erudita. Outra característica presente nas execuções da dupla é a espontaneidade assumida a cada interpretação. A leveza faz-se presente tanto nos números autorais quanto naqueles revisitados pela dupla.

Ao compor ou escolher obras de outros compositores, o ponto de partida é uma imagem, paisagem, sensação ou ideia, que se transforma num retrato musical”, ambos costumam enfatizar. “Nossos concertos são marcados por um viés teatral, assumimos a atmosfera que cada obra convoca, contamos histórias, comentamos o repertório”, dizem Diogo e Leonardo. O resultado dessa leveza e espontaneidade é possível observar agora, seis anos após a sua formação, no primeiro álbum da dupla e que tem o título homônimo ao dado a parceria e que traz por resultado uma linguagem musical complexa, refinada e acima de tudo comunicativa, transmitindo com facilidade a mensagem musical a qual pretendem.

Expressivos, os músicos conseguiram registrar suas marcas também neste debute fonográfico que chega ao mercado com capa e encarte em português e inglês, visando o mercado ao qual o Duo Calavento tem visitado de modo cada vez mais constante países como a Alemanha, a Itália, a Rússia e a Áustria em turnês que tem levado um pouco do muito do talento existente na música brasileira.

Composto por quinze faixas o primeiro álbum do Duo Calavento traz em seu repertório oito canções assinadas pela dupla de instrumentistas (sete em parceria e uma de autoria solo de Diogo Carvalho). Do início ao fim o disco propõe um discurso musical marcado por uma sólida unidade embora traga composições da lavra de nomes como Vittorio Monti que assina “Czardas“. O tema composto originalmente para bandolim, violino e piano aqui ganha uma releitura a partir do violão de Diogo Carvalho.

Da França os músicos buscam inspiração em um movimento de influência fundamental na concepção musical do duo: o Impressionismo. Baseado nele os músicos pincelaram três nomes: Claude Debussy (“Rêverie“), Erk Satie (Gnossiennes 3) e Gabriel Fauré (“Après un rêve“); Tchaikovsky é apresentado a partir da “Dança da Fada do Açúcar” tradução para “Dance of the Sugar Plum Fairy” (um dos três balés escritos pelo compositor russo); Astor Piazzolla (com “Night club 1960“) e Antonio Carlos Jobim assina a faixa “Bangzália“, composta originalmente em 1985. Cada uma das peças é escolhida de forma muito criteriosa, a partir do universo das impressões da dupla como ambos procuram justificar a seleção das faixas autorais e do compositores presentes que constituem o repertório.

Acentuando a sua identidade musical a partir de um repertório coeso e que preza por a proposta de aguçar através do som toda sensibilidade existente no ouvinte. “Não fazemos o som pelo som”, afirmam Diogo e Leonardo, “queremos é envolver as pessoas e fazer com que sejam levadas pelas sensações que cada música provoca”.

A dupla chega como um substancial alento para a música instrumental brasileira. Trazendo consigo além de uma sólida formação erudita, amplos recursos técnicos e musicais, adquiridos a partir da vasta experiência que cada um traz nas respectivas bagagem. As peculiaridades individuais que a dupla carrega e já expuseram nos mais diversos palcos de todo o mundo faz com que a formação do duo seja mais que a junção de dois exímios e talentosos artistas. Essa afirmação traduz-se na perfeita sincronia entre o violão do Diogo Carvalho e o violino do Leonardo Padovani fazendo do duo peças de primordial importância para a sedimentação das tradições de bom gosto e qualidade que foram iniciadas lá atrás a partir dos grandes mestres.

No campo da música clássica há poucas peças escritas exclusivamente para os dois instrumentos, bem como algumas transcrições e arranjos. No entanto a dificuldade é superada a partir da soma do talento desses dois jovens, inovadores e promissores musicistas que souberam muito bem unir suas técnicas em pró da boa música a partir do violão e do violino. O equilíbrio entre as sonoridades dos dois instrumentos traduz de forma simplória toda o requinte existente na técnica de cada um dos músicos a partir de uma linguagem musical que atende a proposta inicial e atinge em cheio aqueles que são fã da boa música.

A quem ainda não teve a oportunidade de ouvir a dupla atentem para esta sonoridade que tem por propósito transformar a música que executam em verdadeiros retratos musicais sem prenderem-se a rótulos, estilos ou gêneros. Como eles mesmo justificam ao dizerem: “Não estamos presos a um estilo ou ritmo específico – cada obra terá seu caminho próprio, seja pelo baião ou pelo minueto”.

Para deleite do público leitor deixo para audição uma das faixas presentes no disco. Trata-se de uma versão ao vivo da canção “Janela do Sol“, composição da dupla Leonardo Padovani e Diogo Carvalho:

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CECILIA BERNARDES – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com um trabalho que conta com a adesão de relevantes nomes do cenário musical brasileiro, Cecilia Bernardes que estreiou com pé direito.

As onze faixas que compõem “Carta”, álbum de estreia da cantora e compositora Cecilia Bernardes, é um projeto bordado por letras e melodias que entrelaçam-se de modo bastante harmonioso, onde música e poesia fundem-se de modo ímpar espalhando-se ao longo das onze faixas presentes no disco.

Outra característica bastante perceptível neste projeto é a celebração da amizade, a começar pela presença de dois nomes fundamentais para a execução e concepção do projeto: o da cantora, compositora e multi-instrumentista Natalia Mallo e o do poeta e compositor Luciano Garcez como o amigo leitor pode conferir ao longo do último mês de abril aqui mesmo em nosso espaço a partir da pauta “CARTAS E CONFISSÕES EM FORMA DE CANÇÕES NA VOZ DE CECILIA BERNARDES”.

Agora, Cecilia retorna ao nosso espaço para esta conversa exclusiva onde conta-nos detalhes sobre sua carreira a sua harmoniosa relação com o tempo , seu processo de criação, como conseguiu reunir tanta gente interessante em seu primeiro projeto fonográfico entre outros detalhes. Vale a pena a leitura!

* * *

Em sua biografia consta que o seu envolvimento com a música vem ainda de sua infância. Essa relação se deu sob alguma influência familiar?

Cecilia Bernardes – Sim, meu pai amava MPB e sambas antigos, tinha muitos discos, e adorava os musicais da Metro. Ele cantava o tempo todo, com muita alegria, aquilo me encantava. E a Tereza, que trabalhou na nossa casa muitos anos, e morava conosco, ouvia – e ainda ouve – muito samba no rádio, um repertório finíssimo, e a gente cantava junto: Martinho da Vila, Beth Carvalho, Alcione, Originais do Samba, … Não tinha músico na família, mas muita música o tempo todo.

Antes dessa imersão na música e poesia que resultaram em “Carta” você já procurava manter essa relação de proximidade com a música e com as letras ou essa condição foi aos poucos moldando-se na medida que você via que a coisa estava encaminhando-se para a concepção desse projeto?

CB – Não havia projeto, ainda, quando comecei a compor, nesta época, entre 2006 e 2007. Na verdade, eu me via como cantora, mas sem vontade de gravar. A partir do momento em que veio esta fase e comecei a escrever letras e musicar poemas, surgiu a vontade de fazer um disco, pela primeira vez, com algumas das composições.

De fato o pontapé inicial para o surgimento de “Carta” deu-se quando você musicou os poemas do parceiro e amigo Luciano Garcez ou você já percebia que o projeto já era algo irrevogável e essa parceria veio apenas para endossar o que já seria certo?

CB – A parceria foi vital para o nascimento do repertório autoral do disco. O Luciano me deu uma letra e disse, faz a música. Era Pop me. Eu fiz. Então ele disse: pronto, temos uma parceria. Agora vai lá, você é compositora, isso que você está fazendo é música, canção de verdade. E aí eu acreditei, e fui.

Uma das características mais evidentes no álbum é a pessoalidade existente. Dentre as onze canções existentes quase todas levam a sua assinatura solo ou em parceria. Como se deu a escolha do repertório? No caso das composições autorais como vem a ser o seu processo de elaboração?

CB – Na verdade, não sou uma compositora super produtiva, com gavetas lotadas de criações. Componho por levas, e acabei escolhendo na leva de 2006/2007, as mais fresquinhas da época. Só De novo nova era mais antiga. Carta – que é parceria com a Natalia – e Passarinhos foram terminadas depois do processo de gravação iniciado. Quando eu componho, quase sempre começo com uma letra, e depois vem a música. Uso um violão para me guiar na melodia/harmonia, ou às vezes nasce tudo só palavra e voz, e mais tarde vem o contexto harmônico, o cenário todo.

O álbum “Carta” possui uma ficha técnica riquíssima que conta com nomes como Vanessa Bumagny, Sérgio Bártolo, André Abujamra isso pra citar apenas alguns nomes. Como foi possível reunir tanta gente bacana neste projeto?

CB – Sorte minha que são, praticamente todos, amigos queridos, meus e/ou da Natalia Mallo. Nós duas nos sentávamos e pensávamos no que poderia ser a formação, os instrumentos para cada canção, e íamos pensando automaticamente nas pessoas, os músicos que poderíamos chamar. Como a gente não tinha pressa, foi sendo muito orgânico. Nos casos específicos do Abu e do Bártolo, que também produziram, eu chamei ainda antes de começar a parceria de produção com a Natalia, que conheci depois, e acabou se responsabilizando mais tarde também pela direção musical do projeto.

Há uma composição do Chico Buarque onde ressalta a importância do tempo sobre a obra do artista a partir de frases como “Modelando o artista ao seu feitio” e “Vejo o tempo obrar a sua arte… tendo o mesmo artista como tela”. A partir deste contexto pode-se perceber que este seu primeiro foi maturado aos poucos, tanto que foram necessários cerca de 3 a 4 anos para o resultado final. Qual foi o empecilho para que este projeto não fosse concluído antes?

CB – Sim, acho que precisei deste tempo – ou o Tempo – do Chico – precisava de mim – , tanto para amadurecer bem o que precisava amadurecer, entender realmente o que eu estava fazendo, quanto para fazer da melhor forma possível, do jeito que a gente queria, deixando o tempo agir a favor, uma vez que eu não sentia pressa, de verdade. O disco é 100% independente, portanto, sem deadlines, e processo todo foi um aprendizado e tanto. Quando ficou pronto, era aquilo mesmo, o que era pra ser.

Você vem colhendo os mais diversos elogios referentes a este seu trabalho de estreia. Há uma em especial a qual você credita o sucesso do álbum? Esse contexto não acabará corroborando para uma exigência maior ao se pensar no próximo álbum?

CB – Acho que as pessoas que gostam sentem que foi feito com cuidado. Talvez também porque tem uma delicadeza, e nosso dia-a-dia turbulento sinta um certo alívio quando se depara com a delicadeza. Dizem que o segundo álbum é sempre um desafio, sim. Bem, acho que o meu segundo vai ser bem diferente deste. Mas se a gente mantém a alma da coisa, a prerrogativa de fazer algo sincero e de qualidade, dando o nosso melhor, não importa tanto a comparação. E acho que, no meu caso, ainda não rolaria esta pressão.

Você já traz em mente alguma novidade para 2015?

CB – Ainda não! Este disco ainda tem muito o que rodar. Vem clipes novos por aí. O próximo projeto ainda está muito sem forma, é só uma semente, mas acredito que vai ser menos autoral, eu quero mostrar um pouco da música que me faz grata por ser cantora, de artistas e obras que eu amo e admiro.


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SOB A LUZ DE CANDEIA, GRAÇA BRAGA PÕE FIM A IMAGEM NEGATIVA DO SAMBA PAULISTA

GC

Em seu segundo projeto fonográfico solo a cantora e compositora paulista reverencia um dos nomes mais expressivos do samba

Em 1963, Vinicius de Moraes estava de passagem por São Paulo e aproveitou o ensejo para prestigiar aquele que por muitos é considerado o pai da Bossa Nova: Johnny Alf. Todos sabem que um espetáculo intimista requer silêncio e concentração, contexto que diferenciava-se e muito do existente naquela apresentação. Em dado momento o notório compositor irritado com a falta de respeito do público presente para com o amigo grita: “Johnny, vamos embora pro Rio, que São Paulo é o túmulo do samba!”.

Pronto! Estava ali lançada a memorável frase que acabaria por estigmatizar a cidade até os dias atuais mesmo contando em seu “Casting” relevantes intérpretes e compositores do gênero como Carlinhos Vergueiro, Jair Rodrigues, Germano Mathias, Adoniran Barbosa, Eduardo Gudin, Paulo Vanzolini, Noite Ilustrada, Geraldo Filme. Além dessa condição a cidade possui redutos que, de modo singular, prezam pela genuinidade do mais popular gênero musical existente em nosso país como é o caso do popular samba da vela, que ocorre todas as segundas-feiras no bairro paulistano de Santo Amaro desde o ano de 2000 e que tem uma vela como cronômetro para o seu término.

O evento, que é responsável por trazer à tona uma nova safra de cantores e compositores do universo do samba paulista, vem cumprindo um papel fundamental na cena cultural da cidade ao longo desta última década por apresentar em suas reuniões novos e promissores talentos como é o caso desta artista aqui em questão, que egressa desse reduto vem galgando com talento, simpatia e precisão o seu espaço a partir de canções autorais e vigorosas interpretações reiteradas, de modo irrepreensível, a partir dos seus projetos fonográficos como é caso deste tributo feito a Candeia, cantor e compositor que ganhou projeção e relevância no meio musical a partir dos anos de 1950 quando, aos 17 anos, compôs em parceria com Altair Prego, o samba-enredo “Seis Datas Magnas”, campeão daquele ano.

Graça Braga parece que nasceu para o samba. Em cena, a aparente timidez logo dá vez ao seu seivoso canto como é possível perceber em suas apresentações. Compositora, a artista dessa vez preferiu dar vazão ao seu lado intérprete. Para isso foi muito feliz na escolha do homenageado e das pérolas compostas por ele. Egressa do samba da vela assim como do Berço de Samba de São Mateus, a artista traz a música e seu gene, pois vem de uma família de músicos em Pirajuí, cidade do interior paulista.

Com tios que formavam um regional, a mãe tocando e cantando e uma tia porta-bandeira de escola de samba, nada mais natural que Graça enveredasse para o mesmo caminho ainda na adolescência sob forte influência de alguns dos maiores nomes da MPB assim como também do samba como é o caso deste que hoje é reverenciado em sua discografia. Candeia, que faleceu prematuramente aos 43 anos, deixou como legado uma escassa discografia diante da grandeza de sua poesia.

Abrangente, Graça Braga pincelou da obra deste que é considerado um dos baluartes da Portela canções como “Me Alucina” (parceria com Wilson Moreira), “Cabocla Jurema” e “Era Quase Madrugada” (escrita em duo com Casquinha) todas gravadas por Candeia no disco “Luz da inspiração”, de 1977. Do primeiro disco do portelense releituras das canções “Coisas Banais” (parceria do compositor com Paulinho da Viola), “Sorriso Antigo” (assinada a quatro mãos com Aldecy), “Paixão Segundo Eu” e “Dia de Graça” (que faz alusão ao seu nome da intérprete). O garimpo continua a partir de canções como “Acalentava” e “Brinde ao Cansaço” presentes no terceiro álbum de Candeia (“Samba de roda”, de 1975); “De qualquer maneira” (única faixa presente do álbum “Seguinte…: Raiz”, de 1971); “Criança Louca” (faixa que tem entre seus intérpretes Carlinhos Vergueiro que a gravou em 1988 em uma produção fonográfica organizada pela Funarte) e “Pintura sem arte” (registrada pelo autor no álbum “Axé”, de 1978).

O disco ainda conta com duas faixas do autor que foram gravadas pela saudosa Clara Nunes: “Último Bloco”, gravada pela intérprete mineira em 1975 no álbum “Claridade” e “Minha Gente do Morro” registrada em 1979 no álbum “Esperança”.

Sob a direção musical, arranjo e regência de Everson Pessoa, do grupo Quinteto em Branco e Preto, e produzido por Thiago Marques Luiz, “Dia de Graça – O samba de Candeia” conta com a participação de Leci Brandão em uma das faixas e Vitor Pessoa (também pertencente ao quinteto já mencionado) traz em sua tessitura nomes como Sandoval Luzia (cavaquinhos), Vítor Pessoa (surdo), Jorge Neguinho e Gerson da Banda (nas percussões) e Edu Batata,Markinhos Moura, Andrezza Santos no coro. Nas palmas e ambientação o disco conta com a participação do produtor, da intérprete e do diretor musical. Aliás Everson Pessoa também é responsável pela execução de boa parte dos instrumentos de cordas: violões (6 e 7 cordas), bandolim, violinha, contrabaixo e cavaco, dando a este projeto da Lua Music os adornos precisos.

Artista completa, Graça transita de modo seguro e sem nenhum tipo de estorvo entre a interpretação e a composição, mostrando-se de modo incontestável como um das mais expressivos expoentes do samba paulista contemporâneo. A artista faz jus ao nome que recebeu trazendo consigo a graça e a alegria em suas atuações, características inerente ao gênero que abraçou. De modo singular seu vigoroso canto inebria ao mostra-se embevecido daquilo que a canção sugere. mas sem nunca perder a emoção. Ora esfuziante, ora emotiva, não importa.

A artista faz-se porta-voz daquilo que a música quer transmitir. Essa é sem dúvida a sensação daqueles que tem a oportunidade de conhecer um pouco do trabalho desta cantora que chega com talento e precisão para engrossar o cordão daqueles que são capazes de provar por A +B que a afirmação do saudoso poetinha fez nos idos anos da década de 1960 foi extremamente equivocada. Graça chega para contribuir de modo bastante relevante para a correção deste que é um dos grandes equívocos existentes dentro da nossa música popular. E faz isso de modo muito bem feito.

Fica para os amigos leitores duas canções deste projeto que presta uma justa homenagem a este que é considerado ainda hoje um dos mais representativos nomes do samba. A primeira canção trata-se de “Acalentava”, da lavra de Candeia:

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A segunda canção trata-se de “Me alucina”, parceria entre Candeia e o grande Wilson Batista:

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DUZÃO MORTIMER – ENTREVISTA EXCLUSIVA

DM

Após um hiato de quase duas décadas o professor Eduardo Fleury Mortimer volta a cena musical em “Trip Lunar”, projeto que marca o seu reencontro com antigos parceiros e artistas da nova cena musical mineira

Em 25 anos de carreira Duzão Mortimerlançou apenas três álbuns. Os dois primeiros com a banda O Grande Ah! nas décadas de 1980 e 1990 e agora este cujo o título é “Trip Lunar”. Sua escassa discografia apresenta números irrelevantes se levarmos em consideração a produção acadêmica do professor Mortimer como tivemos a oportunidade de apresentar aqui mesmo em nossa coluna ao longo da semana passada a partir da pauta “O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE”. Hoje Duzão Mortimer volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre a sua carreira como como docente, o porquê desses longos hiatos em sua discografia e também como tem sido a receptividade do público em relação a “Trip Lunar”, este que é o seu primeiro projeto solo em mais de 25 anos de carreira entre outros assuntos que vocês podem conferir logo abaixo. Boa leitura a todos!

Dentre suas lembranças qual é a reminiscência mais antiga do seu envolvimento com a música? Houve alguma influência para que você que você viesse a tornar-se músico?

Duzão Mortimer – Olha, eu penso que o envolvimento com a música quase sempre vem do ambiente em que você vive, particularmente o familiar. A minha mãe tocava piano e eu herdei o piano que ela havia ganho como presente de casamento. Quando eu tinha 8 anos, minha mãe comprou um violão e começou a aprender. Assim que ela aprendeu algumas canções, começou a ensinar, primeiro para as minhas 2 irmãs mais velhas. Logo chegou a minha vez de aprender. Mas curiosamente eu sou canhoto e só havia um violão na nossa casa. Então, resolvi tentar assim mesmo, com o violão destro. Tive uma enorme dificuldade para aprender. Minha mãe me mandava para o quarto, fechar bem a porta, ninguém tinha paciência para ouvir os ruídos que eu produzia tentando aprender a tocar. Mas eu era insistente e finalmente, depois de muito esforço, começou a sair um som. Aí, rapidamente eu aprendi todas as músicas que minha mãe sabia e comecei a aprender outras na rua, com os vizinhos. Sim, pois essa era uma época em que a música fervilhava, ecoava por todos os cantos. Em cada esquina de Belo Horizonte havia um “conjunto”, tentando traçar o caminho aberto pelos Beatles. Eu considero que o Beatles revolucionaram a música também pelo fato de serem apenas 4 e conseguirem fazer música. Isso era, de certa forma, novidade, pois até então o que pintava no mercado era big bands, com vários músicos, o que dificultava enormemente quem queria percorrer esses caminhos. Havia também a Bossa Nova, mas essa era mais sofisticada e só vim a conhecer mais tarde. Nesta época, o que pululava em Belo Horizonte eram bandas tocando Beatles e Jovem Guarda. Então, já nesta época eu comecei a me envolver com bandas: me lembro da primeira em que eu dava uma canja ou outra, que se chama “The Exotics”. Todas as bandas eram formadas por duas guitarras, baixo e bateria ou por guitarra, teclado, baixo e bateria, tinham nomes em inglês começados por “The”, a exemplo dos Beatles.

Por falar em influências, você na condição de músico acabou exercendo-a em sua clã. Como você enxerga esse interesse pela música por seus filhos? Há mais estímulos para que eles continuem contextualizando-se com este universo ou você está sempre buscando dar conselhos para que eles ponderem as escolhas nesta área?

DM – Eu penso que na época em que o Ivan Mortimer nasceu respirava-se os primórdios de “O Grande Ah!” na minha vida. Eu começava a compor mais consistentemente, pois havia conhecido o Marcelo Dolabela (poeta, meu parceiro) por intermédio da Regina, a Ré, minha mulher. Eu me lembro do Ivan, quando estava aprendendo a falar, ele já cantava, ou melhor, balbuciava, umas tantas músicas que viriam a constituir o primeiro repertório dessa nova banda, que se lançou profissionalmente em Belo Horizonte no ano de 1983. Então, a música entrou na vida dos meus filhos muito naturalmente, pelo ambiente mesmo. O Ivan era incrível, pois ele tinha um cavaquinho que pretensamente tocava e subia no palco para juntar-se a “O Grande Ah!” sempre que podia. Ele era super musical, desde sempre. A partir dos 6 anos eu coloquei tanto o Ivan como o Lucas no Centro de Musicalização Infantil da Escola de Música da UFMG, e foi aí que eles tiveram a iniciação musical, algo que foi bem diferente no meu caso, que havia sido iniciado pela minha mãe e na rua. O Ivan, quando foi fazer vestibular, decidiu fazer Composição na Escola de Música e eu dei força. Mas com dois anos de escola ele trocou de curso e foi fazer Biologia, algo que também apoiei. O Lucas foi fazer Educação Física, depois fez mestrado na área de Fisiologia do Exercício e aí decidiu largar para mexer com produção musical, algo que discutimos bastante, pois o Lucas se encaminhava bem para fazer carreira acadêmica e eu dava a maior força. Mas ele acabou saindo da Educação Física, e apesar de lamentarmos a sua decisão, também demos força. Agora ele está fazendo a minha produção e isso é fundamental.

Por que o título do álbum acabou sendo “Trip Lunar”?

DM – Primeiro, tem uma faixa do álbum com esse nome. Mas o mais importante é que esse nome resume a viagem que foi fazer todas essas canções. Pois a maioria foi feita no interstício da minha produção para “O Grande Ah!”. São canções que eu sempre gostei, que foram muita inspiradas, e que não tinham tido oportunidade de serem tocadas. Quando me decidi a voltar a fazer música profissionalmente, no ano passado, resolvi que essas eram canções que não podiam se calar. Como elas foram feitas numa longa e louca viagem, veio o nome “Trip Lunar”.

Eu enxergo este projeto como uma grande celebração, onde se é possível perceber não apenas o reencontro de velhos amigos mas também uma espécie de encontro de gerações com novos talentos da cena musical mineira. É mais ou menos por aí a intenção?

DM – Sim, e desse encontro de gerações é que eu tiro toda a energia para fazer esse trabalho. Nos shows, o pessoal que tem me acompanhado regula em idade com os meus filhos. No disco, toquei também com ex-integrantes de “O Grande Ah!”, com o Léo Lima e o Elio Silva. O Marcos Pimenta cantou uma música. A banda de base, que estruturou todos os arranjos, foi composta por mim e pelo Léo Lima, dessa geração de “O Grande Ah!”, e pelo Ivan Mortimer e Lucas Mortimer, meus filhos, e pelo Rafael Pimenta, filho do Marcos Pimenta. Eu considero que tocar com a nova geração é fundamental para não se fazer um som datado, que tem um certo ranço. Essa nova geração é que abre possibilidades de novos caminhos. Então tenho tocado com o Ivan Mortimer, Rafal Pimenta (os dois revezando entre o baixo e a guitarra), Yuri Vellasco (bateria), Henrique Staino (Sax tenor), Ygor Rajão (Trompete e Flugel horn), João Gabriel Machala (Trombone de vara) e Alexandre Andrés (Flauta). É uma turma da pesada, que coloca muita energia nestas músicas.

Esse encontro com a nova geração pode ser considerada uma espécie de reciclagem para aquilo que você produz? (uma vez que já passaram mais de 15 anos desde o seu último projeto fonográfico)

DM – Com eu disse, eles deixam minha música com sabor de música atual, nova, sem ranço, não datada.

Sua intensa vida acadêmica de certo modo interferiu em sua carreira artística ao longo desse tempo? (Falo isso porque você, em mais de 25 anos de relação com a música, tem apenas três registros fonográficos)

DM – Sim, claro. Em 1990 eu decidi, com base na necessidade de criar meus filhos e dar uma vida melhor para minha família, a me dedicar à carreira acadêmica e parar com a música, pelo menos no nível de envolvimento com que eu vinha fazendo. Em 1989 foi um grande ano para “O Grande Ah!”, nós tocamos a beça, demos vários shows em BH, pelo interior de Minas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quando fiz as contas, percebi que infelizmente não dava para viver disso. Então, em 1990 comecei a fazer doutorado na USP, em 1992 fui para a Inglaterra fazer um sanduíche do meu doutorado, e lá carimbei meu passaporte, ou seja, me iniciei numa carreira internacional na área de Educação em Ciências. Não dava tempo para fazer música, pois a carreira acadêmica demanda muito, é uma loucura. Portanto, os envolvimentos que tive com música, como o CD Mariantivel em 1997 e alguns trabalhos aqui e ali com “O Grande Ah!”, foram pequenos, esporádicos e pouco consistentes. Em 2013 achei que era hora de rever essa equação e voltar a me dedicar de corpo e alma a música, desacelerando paulatinamente a minha carreira acadêmica. Acabou que esse ano lancei o “Trip Lunar” e também um livro, em parceria com Charbel El-Hani, pela Springer, editora acadêmica internacional, que se chama “Conceptual Profiles: a theory of teaching and learning scientific concepts”. Mas é justamente o cruzamento de duas tendências: acelerar a produção musical e desacelerar a produção acadêmica.

Apesar de você participar da construção da melodia de todas as faixas do álbum “Trip Lunar” apenas uma delas possui letra e música composta exclusivamente por você. Você poderia falar um pouco sobre a escolha do repertório do álbum?

DM – São duas compostas exclusivamente por mim, pois tem uma instrumental e uma com letra nesse rol. O Marcelo Dolabela sempre foi um excelente parceiro, cheio de letras em que ele combina a fala sobre as cidades, do interior e as capitais, com as tramas amorosas. A “Trip Lunar” é um exemplo: “Buenos Aires em qualquer cais, boa viagem prá nós dois, a Télavive sigo em paz”. As músicas do Trip Lunar, particularmente, surgiram sempre de uma grande inspiração, e foram todas compostas em cima de letras que o Marcelo me passava. As letras do Marcelo são muito musicais. Veja o exemplo de “Muita Alegria”. Ela tem algumas palavras aparentemente nada musicais, como “naftalina” e “absorventes”. No entanto, no contexto da canção essas palavras se tornam naturais, pois a letra como um todo puxou uma canção, também como um todo.

Ao longo destes períodos de hiato ao qual você procura dedicar-se a outras atividades você busca manter-se envolvido com música de algum modo ou afasta-se abruptamente deixando de lado o artista existente em você em detrimento ao seu lado professor e pesquisador?

DM – Como eu disse, eu me dediquei de corpo e alma a carreira acadêmica, e não dava muito tempo para fazer música. Mas eu nunca me desliguei totalmente da música, seja tocando violão, seja escutando música. Essas duas atividades eu sempre mantive, de forma que na hora de voltar tudo estivesse bem conectado na minha cabeça. Porque, apesar do grande envolvimento com a carreira acadêmica, de uma coisa eu tinha certeza: que um dia voltaria para a música.

Como tem sido a receptividade do público em relação ao álbum “Trip Lunar”?

DM – Tem sido excelente. As pessoas reconhecem a qualidade do trabalho e, aos poucos, vamos voltando às rodas musicais. É um trabalho duro e de paciência, mas tenho certeza de que em pouco tempo estarei completamente de volta a música e tocando para muitas outras pessoas além dos amigos. Mas estes são fundamentais para segurar a onda nesse recomeço.

Recentemente você esteve fora do país fazendo o lançamento internacional do disco não foi?

DM – Sim, em Nova York, numa casa excelente, a SOB’s. Foi uma excelente oportunidade de testar um esquema que pretendo implementar daqui pra frente. Eu toquei com músicos locais: o Lucas Mortimer, que está por lá fazendo um curso de engenheiro de som, e uma turma de brasileiros formados na Berklee College of Music, de Boston, que é a melhor escola de jazz e música popular do planeta. O André Vasconcelos é um excelente guitarrista, que está atualmente morando em Nova York; e o Apoena Frota, baixista, João Nogueira, tecladista, e ainda com uma canja da Kel do Nascimento, na voz. Ficou muito bom, consistente, com apenas dois ensaios, essa turma tirou de letras minhas canções. É claro que eles se dedicaram a tirar as músicas antes dos ensaios, são super profissionais. Esse é esquema que pretendo implementar em outras cidades do mundo: reunir músicos locais, ensaiar e dar shows.

Há alguma coisa agendada para este segundo semestre que você poderia nos adiantar?

DM – Pois é, estamos tentando marcar shows para Hong Kong, Tóquio, Paris e Lyon, para esse segundo semestre, com esquema semelhante ao que rolou em Nova York. Vamos ver se vai dar certo. Tem também shows em Belo Horizonte e em Mariana, Minas Gerais.


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O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE

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Professor universitário, Duzão Mortimer trama suas músicas nos insights de sua produção acadêmica

“Como é mesmo que anda o tempo?” esta indagação feita por Caetano Veloso e Milton Nascimento em 2008 na canção “Senhor do tempo” é passiva das mais variadas respostas e justificativas, uma vez que trata-se de algo extremamente subjetivo. Para o artista em questão o tempo tornou-se um grande aliado, pois ele soube como poucos sorver o que de melhor havia a oferecer. Duzão Mortimer foi capaz de apreender um ritmo próprio em sua carreira, criando um modo particular de conduzi-la. Talvez por isso a sua discografia seja composta por apenas três títulos em mais de 25 anos de carreira: um LP lançado em 1988, um CD em 1997 com O Grande Ah!, grupo que conta com a presença do professor universitário e músico Marcos Pimenta (figura recorrente na carreira de Mortimer) e agora o seu primeiro trabalho solo.

Isso atesta que Mortimer foi capaz de aliar-se a um tempo que foge a regulamentos e medidas. Resultado talvez daquilo que assimilou em sua vida acadêmica entre números e fórmulas desde a época em que frequentava as bancas da Universidade Federal de Minas Gerais durante o curso de bacharelado e licenciatura em Química. Para que o tempo possa acompanhá-lo faz-se necessário adequar-se aos compassos e pilares de sua arquitetura sonora, é preciso imergir em seu próprio ritmo. Este é o único requisito necessário para fazer parte desta viagem a qual o músico mineiro nos convida. Neste novo projeto batizado de “Trip Lunar” Duzão assina as todas melodias presentes no disco (com exceção apenas de uma, que conta com a parceria de Marcos Pimenta). Quanto as letras, Marcelo Dolabela é o autor da maioria. Das dez faixas, oito levam a sua assinatura. A exceção são apenas as canções “Coração Menino” (assinada em parceria com Marcos Pimenta e Duzão) e “Fogo nu”, única faixa presente no disco que conta com letra e melodia de assinadas apenas pelo mentor do projeto.

Duzão Mortimer deu início a sua vida artística na década de 1980 e, de modo paralelo a sua carreira como músico, desenvolveu uma substanciada vida acadêmica em Minas Gerais. Bacharel e licenciado em Química desde 1980, o professor Eduardo Fleury Mortimer possui mais de setenta artigos publicados e ultrapassa a marca dos 140 trabalhos em eventos das mais diversas áreas de conhecimento. Substanciando a sua vida acadêmica na América do Norte e no Continente Europeu, Mortimer viu a oportunidade de também agregar elementos das respectivas culturas à sua sonoridade. Em “Trip Lunar” é possível observar as mais variadas influências a partir dos diversos gêneros abordados nesta verdadeira celebração que marca o seu retorno à cena musical.

Em duetos com nomes da cena musical mineira Duzão interpreta canções como “Não” (em parceria com José Luis Braga), “Claro feitiço” duo com o cantor e compositor Ladston do Nascimento e “Muita alegria”, que traz a cantora e compositora Leopoldina Azevedo, artista que vem galgando uma espaço cada vez mais relevante no cenário musical mineiro. Do universo acadêmico Duzão contou com a adesão da coordenadora e professora titular da Pós-graduação do Departamento de Demografia da UFMG Simone Wajnman na faixa “Fogo nu” e Marcos Pimenta na canção “Coração menino”. Há ainda presentes no disco a faixa homônima ao nome do projeto, a jazzística “Cidade Luz”, a instrumental “Ponto de mutação”, a marchinha “Quem inventou” e a “Bacia de latão”, faixa com incursões no universo flamenco.

Para que a trip fosse completa o músico mineiro, sob a produção de Thiakov (que também executa violões de aço) e fotografias de Junia Mortimer, convidou para embarcar em sua sonoridade nomes como Leonardo Lima (piano elétrico e orgão), Yuri Vellasco e Lucas Mortimer (percussão e baterias), Daniela Rennó (vibraphone), Ivan Mortimer (guitarra solo), Rafael Pimenta, Laura Von Atzingen, Pedro “trigo” Santana e Giodano Cícero (baixos, violinos e guitarras), Ygor Rajão (flugelhorn e trumpete), Henrique Staino (sax tenor e alto), João Machala (trombone), Joana Queiroz (clarinete), Rafael Martini (violão), Chico Amaral e Elio Silva (sax tenor), Bruno Pimenta (flautim), Alexandre Andrés (flauta), Waltson Tanaka (viola) e Claudio Urgel (violoncelo). O disco ainda conta com os arranjos de João Antunes e Pedro Licinio respectivamente nas cordas e metais, e de Rafael Martini na faixa “Fogo Nu”.

Este primeiro projeto solo de Duzão mostra de modo pleno os lampejos das mais distintas influências que o substanciaram ao longo de sua formação musical. Sua arte não detém rótulo algum e não restringe-se a rica cena musical mineira, uma vez que o artista soube pincelar e apreender os mais diversos elementos por onde andou e que hoje substanciam a sua arte. Sua produção mostra-se de vanguarda a partir do momento que, na junção dos seus acordes, apresenta uma síntese daquilo que estar por vir. Em seu som tudo soa como novo, contemporâneo; e isso sem dúvida habilita-o estar entre os grandes destaques da música mineira apesar do pouco espaço na mídia.

Como músico Mortimer deixa o seu lado acadêmico interferir em sua arte de modo proveitoso a partir das mais diversas alquimias e experimentações sonoras e este trabalho acaba chegando como prova documental desta afirmação. “Trip Lunar” sem dúvida alguma mostra que o tempo foi generoso com Duzão dando-lhe não apenas os ornamentos que destacam a música que produz, mas também todos os elementos que fazem-se fundamentais e revigorantes para seguir em frente sem consequentemente tornar-se mais do mesmo. O vigor que procura manter a partir de sua arte o capacita a sorver de cada fração dos minutos que lhe pertence aquilo que de mais precioso existe e isso o gabarita de modo singular. E é assim que de tempos em tempos o professor Mortimer deixa de lado teorias acadêmicas e elementos químicos para dar vazão ao heterônimo Duzão, cantor e compositor que esporadicamente dá o ar da graça.

A cognição em conjunto com a sensibilidade, muniu o professor e químico de versos e melodias capazes de sobrepujar toda a despretensiosidade acadêmica. É o que percebe-se em “Trip Lunar” a partir de uma atmosfera composta por uma vigorosa unidade sonora. O disco acaba transformando-se em uma viagem imbuída de uma série de sensações caracterizadas pela leveza. Na audição do disco é possível a possibilidade de tomarmos conhecimento do tempo do artista e viajarmos em seu ritmo a partir daí fazendo jus a frase que José Saramago eternizou: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Segue para audição dos amigos duas canções presentes no disco. A primeira trata-se de “Trip lunar”, canção do protagonista do projeto em parceria com Marcelo Dolabela:

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A segunda canção trata-se dos mesmos mesmos autores, Chama-se “Cidade Luz”:

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A EXITOSA SÉRIE “PERNAMBUCO FORROZANDO PARA O MUNDO” ABARCA A OBRA DE XICO BIZERRA

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Em seu segundo volume, a série Pernambuco forrozando para o mundo presta uma singela homenagem a um dos compositores mais representativos da música Nordestina contemporânea

Com a primeira letra do seu nome artístico também escreve-se xote, um dos gêneros musicais ao qual sua obra está intrinsecamente ligada. Nascido na região cearense do Crato, Xico Bizerra teve a oportunidade de vivenciar toda a rica sonoridade que alimenta aquelas pairagens. O que o pequeno Francisco talvez não dimensionasse era o quanto aquela experiência influenciaria sua obra anos mais tarde quando já se encontrava longe do sopé da Chapada do Araripe.

A simploriedade destes primeiros anos, somado a um astuto, sonoro e poético modo de enxergar os mais ínfimos detalhes poéticos que o cercam deram ao compositor as principais credenciais e ferramentas para torná-lo uma espécie de bastião do apuro estético em defesa da nordestinidade em sua melhor potência. Vem do seu matulão o projeto Forroboxote e canções como “Se tu quiser”, “Oração do sanfoneiro”, “Tangendo a dor” e tantas outras. São xotes, baiões, valsas, forrós, e uma gama de ritmos, composições e parcerias que não param de crescer e que agora finalmente encontram-se sincretizados nesta coletânea que chega em comemoração aos quinze anos de estrada do compositor completados ao longo de 2015.

Com o primeiro volume dedicado ao saudoso Dominguinhos, agora chegou a vez do selo Passadisco prestar essa homenagem a este nome que mostra-se a cada nova produção como um dos mais importantes, promissores e representativos compositores da música nordestina contemporânea. Difícil mensurar a sua relevância dentro do atual quadro do cancioneiro nordestino, no entanto, este segundo volume da série Pernambuco Forrozando para o Mundo arrisca-se, de modo bastante abrangente, e acerta na mosca ao prestar essa justa homenagem a quem tão bem vem construindo um mosaico sonoro onde se destaca a mais pura verdade e autenticidade sertaneja imergidas na seiva da poesia.

Com projeto gráfico de Ana Rios, as fotos (capa e luva) ficaram a cargo do acervo do médico Paulo Fernando Fragoso de Carvalho e Tom Cabral (encarte). A masterização de Delbert Lins (da Gusdel Estudio). O disco que conta com quinze canções, dentre elas uma versão inédita registrada pelo Projeto Sal do clássica “Se tu quiser”, enumera um sem fim de importantes nomes da música nordestina, dentre eles Elba Ramalho, Dominguinhos, Marinês, Trio Nordestino, Petrúcio Amorim, Jorge de Altinho, Amelinha, Adelson Viana, Waldonys, Quinteto Violado entre outros.

O lançamento deste novo projeto do selo Passadisco acontecerá na próxima quarta-feira a partir das 19hs na loja homônima ao selo localizada no Shopping Sítio da Trindade, Estrada do Encanamento, 480. O endereço fica no Parnamirim, bairro localizado na zona norte da capital pernambucana, onde o obstinado, Fábio Cabral mantém o selo e a loja. Vale salientar que o projeto junino chega um semestre depois de Fabio “gerundiar” outro ritmo pernambucano, o frevo.

Eis as quinze faixas presentes no álbum “Pernambuco forrozando para o mundo – Volume 02″:

01 – Se tu quiser – Elba Ramalho
02 – Musa – Dominguinhos
03 – Chico das águas – Quinteto Violado
04 – Oração do sanfoneiro – Chambinho, Cezzinha, Targino Gondin, Waldonys e Adelson Viana
05 – Pé-de-saudade – Marinês
06 – Jarrim de fulô – Santanna, O Cantador
07 – Forró do bole bole – Trio Nordestino
08 – Hoje tem forró – Silvério Pessoa
09 – Baião vagamundo – Flávio José
10 – Céu de baião – Amelinha
11 – Esconderijo do amor – Trio Sabiá
12 – Oferendar – Flávio Leandro
13 – Aroma de alegria – Josildo Sá
14 – Pelos cantos da casa – Maciel Melo
15 – Vou deixar não – Irah Caldeira
16 – Bom de prosa – Petrúcio Amorim
17 – Você não quis – Adelmário Coelho
18 – Oceano do querer – Jorge de Altinho
19 – Tangendo a dor – Nádia Maia
20 – Se tu quiser – Projeto Sal

Para conhecer este e outros títulos conheçam o website da loja clicando aqui.


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CARTAS E CONFISSÕES EM FORMA DE CANÇÕES NA VOZ DE CECILIA BERNARDES

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Em seu trabalho de estreia a cantora e compositora Cecilia Bernardes conta com a participação de nomes da cena musical paulista contemporânea

Em um país de canto predominantemente feminino destaca-se aquela cantora que vai além da interpretação; seja empunhando um instrumento e o tocando de modo convincente ou até mesmo escrevendo versos e melodias. Em nosso país-continente pouco são aquelas que aventuram-se fazer isso e quando o fazem muitas vezes ficam a desejar seja em um ou em outro aspecto. Talvez por não possuir esta lacuna em sua arte a artista em questão mereça uma maior atenção uma vez que suas letras e melodias superam todas as expectativas depositadas. Paulista, Cecilia Bernardes vem divulgando e recebendo os mais diversos elogios deste seu primeiro disco, um projeto fonográfico que a julgar pela adesão de relevantes nomes do cenário musical brasileiro não há como titubear que trata-se de um projeto de grande qualidade.

Cantora e compositora, Bernardes vem desde 2007, mesmo que de modo inconsciente, concebendo este álbum a princípio a partir da concepção de melodias para uma série de letras do poeta e compositor Luciano Garcez. Desde então o seu lado compositora vem aflorando de modo cada vez mais constante e intenso, não apenas na medida em que a parceria com Garcez expande-se mas também na aquisição de novos parceiros como foi o caso da parceria com a cantora, multi-instrumentista, produtora e compositora Natalia Mallo (que Cecilia conheceu via internet a partir da audição do álbum “Qualquer Lugar”). O que a princípio seria apenas uma hipótese acabou gerando a possibilidade do surgimento de algumas composições e propiciando a artista o contexto ideal para que ela possa dar vazão ao seu universo particular de modo bastante melódico e poético.

É neste contexto que surge “Carta”, um álbum constituído sem a habitual pressa que cerca a sociedade contemporânea. Um projeto bordado por timbres e sonoridades que entrelaçam-se de modo bastante harmonioso, dando ao projeto características bastante peculiares e pessoais. Trata-se de trabalho cosido com a linha da paciência, onde cada acorde e cada sílaba pronunciada resulta da maturação de ideias e melodias precisas e que resultam de uma série de experiências acumuladas ao longo dos anos do seu envolvimento com a música e a poesia. Sob a produção de Natalia Mallo (que também assina a direção musical do disco) “Carta” começou a ganhar molde em 2008, no coração da Vila Madalena, e foi concluído três anos depois.

Com o delicado registro fotográfico de Carol Sachs e ilustrações da própria Cecilia feitas em nanquim entre os anos de 2007 e 2008, o álbum conta ainda com o design gráfico dePaola Faoro e nomes como Luciano Garcez (locução), Ramiro Murillo (arranjos para cello e oboé),Marisa Silveira (cello), Laura Sokolowicz (oboé), Natalia Mallo (arranjos, percussão, palmas, guitarra, baixo, vocais, violões, sintetizador); Maurício Pereira (sax soprano), Gustavo Ruiz (violão de 7 cordas), Danilo Penteado (teclado, vocais, cavaquinho e palmas), Vitor Lopes (gaita), Mariá Portugal (bateria), Emerson Villani (violão, guitarra e programação), Rogerio Botter Maio (baixo acústico), Edu Contrera (percussão) e os vocais de Ilana Volcov, Marko Congá, Marco Bowie,Vanessa Bumagny. Além desses nomes há também Ricardo Mosca e Homero Lotito, que assumem, respectivamente, a mixagem e a masterização. Além das figuras de Sérgio Bártolo (produção e baixo em “Me nina”; além da concepção do arranjo, baixo e co-produção em “De novo nova”) e André Abujamra (produção em “Santo Seio”, além de todos os instrumentos e programações).

“Carta” é constituído por onze faixas caracterizada por toda a poesia e delicadeza exposta neste trabalho que perpassam por canções de autoria da própria Cecilia e de pessoas com a qual a artista identifica a sua arte de algum modo como a faixa “Truques com Facas”, de Maurício Pereira e “Onda”, canção que nos remete a sonoridade da cultura afro-brasileira através de seus pontos e que foi composta por Luciano Garcez. O projeto conta ainda com canções autorais como “Castelo”, “De novo nova” e “Passarinho”, além do envolvente samba “Oferenda”, que conta com Claudio Faria ao trompete, e parcerias da artista com nomes como Natalia Mallo (que juntas assinam “Carta”, canção que batiza o disco) e Luciano Garcez (como “Pop me”, parceria responsável pelo pontapé inicial desta profícua parceria, “Santo seio”e ”Ave Maria”).

De modo agradável e convincente, Cecilia Bernardes apresenta nesta carta pra lá de confessional (e porque não classificá-la até mesmo de onírica) uma arrojada sonoridade caracterizada por harmoniosos e precisos arranjos. O universo sonoro que a constitui alia-se a peculiaridades e assuntos cotidianos em letras e melodias que se encaixam de modo uníssono, gerando as mais diversas possibilidades de caminho ao mais genuíno prazer sonoro. Soma-se a este cenário o doce e afinado canto da artista que passeia de modo pra lá de harmonioso por toda a diversidade sonora presente no álbum facilitando a capacidade do ouvinte sorver todo o hibridismo presente neste aprazível álbum. Ao se descobrir compositora, Cecilia, que já empunhava despretensiosamente seu instrumento, descobriu uma preciosa passagem que a levaria a um mundo de poesia e lirismo e possibilitaria também o encontro com outros nomes como todos aqueles presentes e citados neste projeto ímpar.

Esta característica acaba fazendo de “Carta” um registro pontuado não apenas por sua qualidade lítero-musical, mas também por uma característica que faz-se bastante pertinente a julgar-se pelo espírito agregador que caracteriza esta cantora paulista. É por este e outros motivos que este debute fonográfico chega não apenas para revelar o talento de Cecilia como cantora mas também para atestar que o árduo ofício de compor rendeu-lhe bons resultados e o seu canto acaba por permear os mais recônditos sonhos ao adentrar nossos ouvidos tal qual o lendário canto da sereia. Cecilia Bernardes soube administrar todo o tempo de elaboração deste álbum, não apenas procurando estar a par de toda a sua elaboração, mas também por demostrar bastante segurança neste seu primeiro álbum. Apesar das inúmeras parcerias, sem dúvida alguma para este disco o tempo foi o seu principal aliado neste cenário constituído por versos e canções.

Deixo aqui para audição dos amigos leitores duas canções presentes neste debute fonográfico da artista, mas que aqui ganharam versões ao vivo. A primeira trata-se de “Ave Maria”, canção composta pela cantora em parceria com Luciano Garcez:

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A segunda canção trata-se de “Carta”, canção homônima ao título do disco:

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MANCHETE DO TICO-TICO, UMA ODE À BELEZA DA FAUNA, DA FLORA E DOS COSTUMES NACIONAIS

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O cantor, compositor, arte-educador e instrumentista Victor Batista apresenta disco inspirado na rica biodiversidade brasileira

Nos mais recônditos rincões do nosso país existem belezas diversas que só são observadas por aqueles que voltam seu olhar para a parte de dentro do Brasil e permitem-se observar tais cores e paisagens. Longe da selva de pedras dos grandes centros urbanos onde a natureza trava uma luta diária com a poluição, o interior do nosso país guarda riquezas diversas que expressam-se dos mais variados modos existentes. É nessa região que nossa fauna e flora permitem-se exibir um colorido estonteantemente atípico a partir de bucólicas e simplórias veredas, onde cada um dos mais ínfimos detalhes precisam ser observados e captados pela sensível lente da poesia e vindo a servir não apenas como inspiração para as mais diversas e originais manifestações artísticas neste rico e inspirador cenário, mas também como afirmação de nossa identidade a partir das mais genuínas raízes culturais.

Na expressão desses valores muitos artistas acabam por abarcar de corpo e alma neste contexto e, munidos da sensibilidade que se é exigida, conseguem através de uma perspicácia ímpar traduzir tudo isso em letras, poesias e canções. Alguns nomes destacam-se neste contexto e acabam por tornar-se referência como é o caso deste artista nascido em Belo Horizonte que deu início a sua carreira em 1991 com os grupos Pára folclóricos Congá e Sarandeiros, ambos da UFMG e com o grupo musical Minadouro. Cantor, compositor, violeiro, pesquisador da cultura popular e contador de estórias, Victor Batista traz em sua bagagem diversas experiências para contar ao longo das mais de duas décadas dedicadas à música. Apesar do Curso técnica Vocal – Canto Lírico pela UEMG foi na viola que realizou-se e hoje traz no currículo, dentre outras vivências, a participação em diversos projetos, dentre os quais a participação na Orquestra Mineira de Viola e a produção e participação em vários projetos culturais pelo Brasil e exterior com os Grupos Quinteto Popular e Camerata Caipira.

Atualmente radicado em Pirenópolis (GO) e com três álbuns lançados (o primeiro intitulado “Além da Serra do Curral” e lançado em 2004), Batista exerce inúmeras atividades voltadas para a música, dentre as quais um excelente trabalho como arte educador para crianças como iniciador à flauta doce; além de lecionar a viola caipira e o violão para jovens e adultos e vem procurando ao longo de sua carreira não deter-se a estigmas e rótulos, procurando compreender a essência da música brasileira de um modo bastante contemporâneo a partir dos mais variados temas, dentre eles as questões ecológicas. Pelo Brasil já este presente em diversos eventos levando em seu canto e na execução do seu instrumento um pouco das profundas raízes culturais do nosso país. Soma-se ao seu portfólio destacam-se o Encontro de Violeiros – Ribeirão Preto, Outono na Serra – Serra do Cipó, Virada Cultural de São Paulo , Projeto FUNARTE Interações Estéticas – “O Tao do Quintal” Uma Opereta Caipira Contemporânea – Pirenópolis -GO; 36° Festival de inverno de Itabira – MG, XIII Canto da Primavera 2012 – Pirenópolis – GO, Premio Rozini de Excelência em viola Caipira – BH; Flipiri 2011 – Pirenópolis – GO, Fórum Social Temático 2012 – Porto Alegre – RS. Ainda consta no currículo do artista mineiro a direção e participação nos CD’s: “Concerto Caipira” da Orquestra Mineira de Violas-2005; CD do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, intitulado “Cantares da Educação do Campo”- 2007 entre outras participações. Dentre os títulos de sua discografia ainda enumera-se dois projetos fonográficos: um lançado em 2012 junto à cartilha sobre Educação Ambiental da WWF cujo título “En’cantando com a Biodiversidade” e o mais recente, lançado em 2013, batizado de “Manchete do tico-tico”.

“Manchete do tico-tico” conta participações de vários artistas da cidade na qual o artista encontra-se radicado como o violonista Jerônimo forzani, o baterista Ricardo de Pina e o percussionista Sandro Alves. O projeto ainda conta com Mikaell, João e Miriam Colombini; Yasmim Queiroz, Rafael Augusto Nascimento Martins, Rudah Ribeiro, Simone Silva, Elaine Nascimento Rodrigues, Leif Illuvatar e das alunas do Centro de Artes e Música Ita e Alaor, preparadas pela professora de canto Mariangela Alves da Silva ao longo dos treze temas presentes no álbum. Essas canções apresentam temas diversos tendo sempre a viola como primeiro plano como é o caso das instrumentais “Natureza do Cerrado” (de autoria do próprio Victor), o medley “Mulher Rendeira” (domínio público) e “Asa Branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e”Liberdade erudita: Beethoven e Vivaldi”.

As dez faixas restantes abordam as raízes culturais mineiras como os pontos de capitão da guarda municipal do município mineiro de São Benedito; a fauna brasileira a partir de faixas como “Sementes” (em parceira com Marta Narciso) e a parceria com de Batista com João Bá que dá título ao disco procurando enaltecer um dos pássaros mais conhecidos e estimados do Brasil. Rincões como a Serra dos Pireneus não deixa de ser lembrado em faixa de mesmo nome, além dos costumes e paisagens interioranas que no disco são representados pelos versos e melodia do cantor e compositor tocantinense Juraildes da Cruz na faixa “Vida no Campo”. Os fenômenos da natureza são lembrados em “Alvorada a aurora” (parceria com Pipo Neves) e “Céu mais lindo”. O disco ainda conta com uma composição de Luiz Perequê (“Orelha de pau”), uma faixa em espanhol “Solo el amor”, parceria do artista mineiro com Luis Enrique Mejia Godoy e “A peleja de Aninha contra o Reino da tirania”, parceria com o poeta cearense João Bosco Bonfim.

Do álbum “Além da Serra do Curral”, perpassando pelo projeto especial “En’cantando com a Biodiversidade” até “Manchete do tico-tico”, Victor Batista mostra que soube traçar um coerente caminho dentro do segmento musical que abraçou a partir de letras e melodias que valorizam não apenas o som da viola, mas também as tradições que envolvem o instrumento, a fauna, a flora e as raízes de sua gente. O seu canto pungente adorna de modo meticuloso os temas que apresenta sem deixar dúvidas que a o artista apesar de manter-se com os pés fincados nas tradições enxerga além do trivial, trazendo um significado alento para a cultura que defende. Uma arte que, mesmo com todas as adversidades existentes, mantém-se viva graças a personagens como ele, que mesmo ciente que existe o caminho das pedras mantém-se firme naquilo que acredita e defende.

Deixo aos amigos leitores um trecho da participação do cantor, compositor e instrumentista no programa Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin:


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EMERSON LEAL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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De talento congênito, Emerson Leal vem mostrando o porquê vem recebendo elogios de alguns dos mais conceituados nomes da música brasileira

Há quem afirme que a música brasileira ande em baixa. Esse tipo de afirmação talvez venha a ser dado por aqueles que não conseguem enxergar um palmo a frente do nariz, visto que o atual cenário musical brasileiro é detentor de talentos natos nas mais distintas regiões do país. Nomes como Emerson Leal e o consistente trabalho que vem apresentando é a prova documental disto. Natural de Salvador, mas radicado a um certo tempo no Rio de Janeiro, Leal vem conquistando o respeito não apenas do público, mas também de nomes como Chico Buarque, um dos seus grandes ídolos e fonte de inspiração para a arte que produz, como foi possível ORIGINAL E VERSÁTIL, EMERSON LEAL TRAZ EM CD HOMÔNIMO UM PROFÍCUO CAMINHO PARA O FUTURO DA MPB. Hoje seu nome volta a figurar em nosso espaço através desta entrevista exclusiva concedida gentilmente por este artista completo. Em fase de pré-produção do seu novo projeto, Emerson conta-nos como deram-se seus primeiros contatos com a música, o modo intuitivo como compõe, seu contato com nomes Tom Zé e Luiz Tatit e como chegou aos seus ouvidos o elogio do seu grande ídolo, Chico Buarque. Vale a pena conferir! Boa leitura!

Como a música entrou em sua vida? Há músicos em sua família?

EM – Desde que me entendo por gente o que mais me interessa é a música. Ou, mais especificamente, a canção. Todas as coisas que fossem relacionadas à canção sempre me interessavam muito. Eu sempre brinquei de cantar, de “inventar” canções, também. O meu pai tocava – toca – violão e canta muito bem, mas acabou não seguindo carreira profissional na música. Foi num antigo violão que ele tinha em casa que comecei a tocar, aos nove anos de idade. Minha mãe também cantava super afinado e vez ou outra compunha algumas cantigas. Além disso, os irmãos do meu pai também gostam de tocar violão; os tios da minha mãe, em tempos idos, também tocavam e faziam sambas e serestas nos quintais de suas casas, etc. Enfim, esse costume é um traço forte da nossa microcultura familiar.

Você tem demostrado ser um grande instrumentista e melodista. Você teve a oportunidade de desenvolver essa sua habilidade teoricamente ou tudo se deu apenas a partir de sua vivência com o instrumento?

EM – A criação de melodias e harmonias (e até arranjos) é, no meu caso, bastante intuitiva. É um trabalho do inconsciente. E é sempre baseada em tudo o que eu já ouvi, claro, no que eu sinto, no que me toca mais. No mais, tudo o que sei, comecei a aprender ouvindo e tentando reproduzir no instrumento; isso foi sempre o principal desafio, um grande barato. E fui me desenvolvendo na prática, mesmo. Tanto que nunca me interessei em tomar aulas de música ou de violão. Só fui aprender o básico da notação musical na adolescência, quando um amigo me emprestou uma revista que tratava desse assunto. Hoje escrevo bem uma partitura mas, por exemplo, se for para aprender a tocar uma canção ou peça qualquer, prefiro ouvi-la do que lê-la. Aprendo bem mais rapidamente assim. Não tenho nenhuma prática de leitura à primeira vista, por exemplo.

O período em que você esteve em Salvador você esteve à frente da banda Oda Mae Brown, na qual além de ser um dos fundadores, tocava guitarra, cantava e compunha. Qual foi a hora em que você percebeu que já estava na hora de estender seus horizontes e resolveu partir para o Rio de Janeiro?

EM – A Oda Mae Brown era na verdade a nossa grande farra, que durou de 2002 a 2006. Apesar de minha formação musical estar mais ligada à canção brasileira, nós fazíamos blues. Claro que fazíamos o nossoblues, com nossas letras-comédias, em Português – e com harmonias diferenciadas, também. Quando estávamos ficando mais conhecidos e já próximos da gravação do primeiro disco, os membros acabaram saindo por motivos diversos e o sentido daquilo tudo foi deixando de existir. E nesse meio tempo eu conheci o Rio e me apaixonei pela cidade. Senti que havia um clima musical mais consistente, mais vigoroso por aqui naquele momento e decidi que um dia teria que vir para cá. Seria também uma guinada na minha própria vida, algo fundamental (hoje eu sei) para um artista. Em 2008 fiz as malas e vim.

Como foi a receptividade ao seu trabalho no Rio de Janeiro logo após sua chegada? Quais as maiores adversidades existentes até você se firmar como cantor e compositor?

EM – Bela pergunta. Bom, um grande adversário na minha vida sempre fui eu mesmo: eu e a minha autocrítica impiedosa, eu e as minhas dúvidas quanto à relevância do que eu fazia, eu e a minha timidez crônica, enfim. Na medida em que eu avanço um pouco mais na luta contra tudo isso, as coisas se clareiam. Hoje, olhando para trás, vejo que o meu trabalho sempre foi bem recebido, afinal de contas. Fora isso, as adversidades são as mesmas que qualquer artista de música brasileira independente que deu o pontapé inicial nesse início dos anos 10 e que vive nas capitais enfrenta: a impossibilidade de se fazer realmente visível sem grandes e caras promoções publicitárias; a escassez de produtores culturais e, atualmente, a situação econômica da classe média consumidora de cultura no país: quem passa subitamente a gastar muito para “apenas” morar, vai consumir menos cultura, claro. Além disso, há um problema grave que é a inferiorização do Brasil e da sua cultura pelo próprio brasileiro e, ao lado disso, um desinteresse de boa parte do público por coisas novas.

Como você recebeu a notícia sobre o comentário do Chico Buarque e que impacto essa declaração causou em sua carreira?

EM – Foi uma surpresa incrível. Jamais imaginei que ele estivesse vendo aqueles meus vídeos caseiros. E ele falar o que falou daquela forma, tão abertamente e sinceramente, foi sensacional, mesmo. E o detalhe é que não vi ao vivo, só recebi dezenas de e-mails ao mesmo tempo, mensagens, telefonemas: “Você viu? Você viu? O Chico falou de você! (risos)”. Nessa época, meados de 2011, eu estava começando a gravar o disco, mas estava bem “travado”, mesmo. Muitas pessoas que viam esses vídeos falavam “toca suas músicas”, ou “você tem CD?” e isso me estimulava. Daí rolou esse episódio do Chico e eu pensei “bom, se não for agora, não é nunca mais”.

Você é um dos responsáveis pelo Book Song do Tom Zé não é? Como surgiu a ideia e a possibilidade de executar esse projeto? A sua parceria com ele surgiu a partir dessa oportunidade?

EM – Eu mergulhei pra valer na obra de Tom Zé em 2008, logo depois que cheguei no Rio. Conheci praticamente tudo, aprendi a tocar muita coisa. Num determinado momento, me toquei que poderia fazer algo com esse conhecimento; contribuir de alguma forma por ter essa bagagem. Nós já trocávamos algumas ideias através do seu blog (Blog do Tom Zé), e num determinado momento lhe mandei um e-mail dizendo que eu tinha interesse em produzir um songbook seu, já que não havia uma publicação como esta sobre a sua obra. E seria um songbook diferente; com um trabalho gráfico interessante, com comentários do próprio autor sobre as canções, entre outras novidades. Ele topou e comecei a trabalhar. Convidei a Vânia Medeiros para cuidar do design gráfico, que ficou primoroso e super original; convidei a Tatiana Lima, jornalista soteropolitana, biógrafa de Tom Zé e nossa amiga em comum para escrever o texto biográfico – e convidei o Luiz Tatit, esse outro grande gênio brasileiro, para escrever o prefácio. A edição é da Multifoco, editora aqui do Rio, que lançou o livro no segundo semestre do ano passado. Então, o contato passou a existir, tanto com o Tom Zé quanto com o Luiz Tatit, por causa deste trabalho. Quando eu decidi finalmente fazer o CD, em meio a isso tudo, naturalmente os convidei para selarmos nossas parcerias de composição, também. E isso foi um mais presente incrível; os dois são patrimônio desse país. São gênios, ídolos.

Seu álbum conta com duas participações especiais. Uma é da cantora Ariella e a outra de Verônica Ferriani. Desde a concepção do projeto já havia a ideia dessas participações desses nomes ou eles vieram posteriormente? Como se deram os convites?

EM – “Me love me”, a canção que traz a participação da Verônica Ferriani, é música minha construída a partir de uma letra do Fernando Salem, esse outro compositor fera de São Paulo. Enquanto eu estava trabalhando no arranjo da canção, achei que ela diria bem mais se eu unisse uma voz feminina à minha. A Verônica é uma das grandes cantoras do Brasil entre tantas surgidas nos últimos anos e que agora, com seu segundo disco, acaba de se revelar uma excelente compositora. Ela, o Salem e eu havíamos trabalhado juntos em algumas oportunidades em São Paulo. Então, como já existia essa sinergia, não deu outra: a canção na verdade estava esperando pela Verônica, eu apenas a comuniquei disso (risos)! E em “No Japão”, a decisão foi mais ou menos parecida, só que veio depois. Também quis uma outra voz, feminina, pra dialogar comigo, pois a melodia se repete bastante e a letra do Oto Paim é uma obra-prima; também merecia ser sublinhada por mais uma voz poderosa. Convidei a Ariella porque fiquei impressionado com ela. Nunca tínhamos trabalhado juntos, somente feito um som sem compromisso; eu, ela e a turma dos Ilhonas, de Taubaté. Achei que ela entraria muito bem nessa canção e confirmei essa impressão. Acredito muito na Ariella, que está gravando seu primeiro CD solo neste momento, para o qual, especialmente, compus uma música nova. Ela tem muita força.

Essa sua participação nas diversas etapas da concepção do álbum permite que você o molde da maneira como você de fato deseja, no entanto isso gera uma demanda de responsabilidade aquém do habitual. Apesar de todo o trabalho que deduzo ter havido o resultado saiu conforme o que você desejava?

EM – De fato é um trabalho intenso, contínuo, vocêc dorme e acorda pensando só nas coisas que estão dentro desse processo: em acordes e versos, em timbres e texturas, em plugins e equipamentos, em autorizações e cartórios, em divulgação e formação de público. Tudo ao mesmo tempo. Aprendi a fazer várias dessas coisas só na hora de fazer (ainda estou aprendendo). No final das contas, o disco ficou realmente melhor do que eu esperava, quando comecei. E depois, com a boa recepção que ele tem tido, só tenho o que comemorar.

Você tem pretensões para lançar este ano seu novo projeto não é isso? O que você poderia nos adiantar a respeito?

EM – Está bem informado (risos)! A gente começou a pré-produção agora em fevereiro; começamos a trabalhar nas primeiras músicas justamente agora. Sairá ainda ao longo deste ano de 2015. O que posso adiantar é que dessa vez vou ter a alegria de trazer um grande time comigo, trabalhando nos arranjos, nos instrumentos. Não vou mais sair tocando tudo, como da outra vez. Os meninos da banda que me acompanha estarão presentes, além de outros craques da nova geração de músicos cariocas, também. O que posso dizer é que vem mais coisa bonita por aí. Aguardem!


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ORIGINAL E VERSÁTIL, EMERSON LEAL TRAZ EM CD HOMÔNIMO UM PROFÍCUO CAMINHO PARA O FUTURO DA MPB

Com o aval de nomes como Chico Buarque, Tom Zé e Luiz Tatit, o artista soteropolitano Emerson Leal lança CD homônimo mostrando um caminho

A renovação da música popular brasileira é algo constante. Principalmente nos dias atuais, onde uma nova conjuntura advinda com o avanço das tecnologias propicia isso. O cenário que antes restringia-se às grandes gravadoras passou a ter uma maior autonomia, abrindo portas e facilitando a vida dos artistas que não estão com seus nomes vinculados as multinacionais da indústria da música. É bom ressaltar que as amarras não deixaram de existir, mas com este novo panorama foram criados caminhos alternativos, modificando o modo de se produzir música não só no Brasil, mas em todo o mundo. Hoje é possível gravar um disco sem sair de casa, assim como também se gravar e lançar um projeto sem necessariamente existir o produto físico, entre outras diversas alternativas existentes.

No entanto nem tudo são flores nesta atual realidade, uma vez que a demanda de novos artistas e seus respectivos produtos em um país de proporções continentais como o nosso acaba em muitos casos limitando-se a determinadas regiões por conta da hegemonia ainda existente das grandes gravadoras e seus lobbys com alguns grupos que regem os principais meios de comunicação existentes. Esse tipo de situação dificulta a execução e consequentemente a propagação da boa música independente, que para superar isso faz uso do talento nato. Característica que Emerson Leal possui em demasia e que tem atraído a atenção de grandes medalhões da música brasileira.

Se compararmos o cenário antes descrito a uma grande colcha de retalhos, podemos afirmar , sem sombra de dúvidas, que este o cantor e compositor soteropolitano da nova safra da MPB é uma estampa de fino trato que vem bordando com os mais preciosos fios da canção a sua trajetória. Seu talento singular, o faz múltiplo em sua sonoridade atraindo a atenção do meio musical, como foi o caso de Chico Buarque, uma de suas grandes referências, que em depoimento dado pela internet confidenciou ao João Bosco que Emerson seria uma “fera”, um verdadeiro “craque”.

Radicado no Rio de Janeiro desde 2008, o músico autodidata trouxe em sua bagagem a diversidade rítmica que caracteriza a sua terra de origem, a Bahia, acoplando a isso características intrínsecas de suas experiências que o fazem ir além das fronteiras musicais convencionais. Melodista preciso, o seu talento inato acabou o credenciando a parcerias com nomes como Tom Zé e Luiz Tatit, que em entrevista afirmou que Emerson apresenta um trabalho que chega para cumprir um crucial papel no cenário atual da música brasileira, pois apresenta todos os elementos que constituem e que se espera de uma canção bem feita.

Vale ressaltar que antes de sua chegada ao Rio, Leal já incursionava pela música quando residia ainda em Salvador apresentando-se em espetáculos como o “Arte final” ao lado da banda Oda Mae Brown, a qual além de ser um dos fundadores, tocava guitarra, cantava e compunha. Sua experiência no Rio de Janeiro e o “know-how” adquirido a partir destas vivências substanciou as múltiplas facetas do artista, de modo que isso hoje reflete-se em seu trabalho tanto no modo de compor, quanto de tocar e cantar. Multifetado, é válido lembrar que o artista, ao lado de nomes como Tom Zé, Luiz Tatit, Tatiana Lima e Vânia Medeiros, foi responsável pelo lançamento do BookSong Tom Zé, um apanhado com 30 canções do cantor e compositor de Irará (BA) e publicado pela Editora Multifoco.

Lançado em 2012, o disco que leva seu nome conta com 10 canções. Dessas Leal assina nove. A única que não é de sua autoria é “Blues da vampira”, da lavra do compositor Eduardo Pinheiro. Com o baiano Oto Paim assina “No Japão” (que conta com a participação da cantora Ariella, vocalista da extinta banda paulistaOs Ilhonas) e “Doce”, que segundo o cantor e compositor foi composta ainda na época do colégio e era o nosso sucesso nas rodinhas de violão. Com Fernando Salem compôs “Me love me”, um ijexá que conta com a participação da cantora Verônica Ferriani. “O Salem me mandou essa letra. Achei que tinha uma cara de ijexá e assim fiz, com a melodia. Ele incluiu essa canção nos shows que fez na época de lançamento do seu disco de 2010, o “Rugas na pele do samba”, mas ainda não tinha sido lançada em disco. Quando fui gravar, pensei que seria ótimo ter a companhia de uma voz feminina e convidei a Verônica Ferriani, que arrasou, como sempre!” relata o Leal.

Consta também no álbum parcerias com nomes como Tom Zé (que assina, de modo hábil, a letra de”Círculo”) e Luiz Tatit, cuja a parceria rendeu duas canções: “Coisa perene” e a a meticulosa “Das flores e das dores”. De modo solo Emerson Leal ainda apresenta “(Que é que te deu) de repente”, “Mais da cama que da fama” e “Silêncios”, canções que atestam e expõem o talento autoral do artista. Gravado no estúdio carioca El Tiburón, o disco conta com as guitarras de Fabrício Mota e o acordeon de Marcus Zanomia, além do multifacetado Emerson Leal que assume não apenas a concepção e produção do projeto, mas todo o cerne do álbum, desde as programações, instrumentos, vozes, arranjos e o projeto gráfico até a edição, gravação, mixagem entre outras etapas que levam ao resultado final deste debute fonográfico com distribuição da Tratore.

Sob a égide de grandes nomes da MPB Leal chega trazendo em sua arte um novo gás que faz-se necessário para esta renovação substancial da música popular brasileira sem deixar de perpassar pela rica sonoridade já existente em nossa arte através dos mais diversos gêneros de modo bastante eficiente e com letras e melodias bastante originais, o que acaba credenciando-lhe, sem sombra de dúvidas, como um dos mais promissores nomes da música brasileira da atualidade com um trabalho que substancia-se em peculiaridades que acabam por destacá-lo. Seja no modo original de escrever suas letras, seja em sua maneira perspicaz de compor e executar suas melodias, seja através do seu afinado canto quando solta a sua voz Emerson Leal mostra uma arte feita com esmero a partir de valorização de todas as etapas em um trabalho onde letra e melodia unem-se de modo uníssono, celebrando a canção e o bom gosto.


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LETÍCIA PERSILES EXPÕE COISAS COTIDIANAS EM CARTAS DE AMOR E SAUDADE

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A música, o lirismo e o teatro fundem-se de modo harmonioso neste primeiro álbum da atriz e cantora carioca

Em 2014 completou-se duas décadas que o ator francês Jean Barrault faleceu aos 83 anos. Tal ator disse certa vez que o teatro seria o primeiro soro que o homem inventou para proteger-se da angústia. Já o multifacetado Nietzsche costumava dizer que sem música a vida seria um erro. Além destes, há também o poeta e escritor português Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos, se preferirmos identificá-lo por seu heterônomo) que chegou a afirmar todas as cartas de amor são ridículas pois não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. A citação desses nomes aparentemente sem nexo e lógica alguma fundem-se de modo harmonioso quando a alquimista Letícia Persiles mostra-se capaz de misturar esses e outros relevantes nomes do século XX em sua arte, ao seu som e a suas ideias de modo bastante ímpar.

Carioca, a atriz e cantora vem constituindo um trabalho adornado por características bastante peculiares nas diversas minúcias que constituem as atividades que executa, dinâmica faz-se capaz de trazer elementos do folclore nordestino (sob influências de histórias populares e nomes como Ariano Suassuna) em plena comunhão com ícones contemporâneos e cosmopolitas como é o caso do compositor alemão Kurt Weill. “As cartas de amor e saudade” é um disco que traz junto a si a possibilidade de destrinchar-se em diversos sem perder a unidade, uma vez que neste contexto é possível vislumbrar a fusão de modo uníssono de diversos gêneros musicais ao longo das oito faixas presentes.

Dentre os aspectos existentes é possível observar elementos da música flamenca junto a outros da cultura popular nordestina a partir de melodias muito bem arregimentadas. Então não é de se estranhar a capacidade de simbiose que “As cartas de amor e saudade” traz arraigada. Acredite, depois da audição deste álbum você por um instante pode vir a acreditar que a região do Crato cearense e Andaluzia, a famosa cidade espanhola, são cidades vizinhas.

Vale salientar que a sua carreira como atriz teve início quando a atriz estava com onze anos e cerca de quatro anos depois Letícia já teve a oportunidade de formar a sua primeira banda. No entanto só por volta de 2009 foi que ela chegou a ganhar relativo destaque a frente banda Manacá ao lado dos músicos Luiz César Pintoni (guitarra), Daniel Wally (baixo) e Bruno Baiano (bateria) formando assim um dos quartetos de maior destaque da cena musical indie do Rio de Janeiro à época, chegando inclusive a gravar um disco. Vem desse período a participação de Persiles na minissérie global Capitu, interpretando a personagem principal, o que acabou gerando a possibilidade do quarteto ganhar espaço na trilha sonora da produção televisiva.

Agora, cinco anos depois, a artista vem apresentando o seu primeiro trabalho solo imbuído por toda essa vasta experiência acumulada ao longo dos anos e que foram fundamentais para que a mesma pudesse adornar os mais distintos adjetivos à sua arte. Sob um olhar que transpassa a beleza de sua tonalidade esverdeada, Letícia traduz em suas letras e canções de modo bastante vigoroso todo o seu universo particular em letras que abordam os mais distintos temas como é o caso de “Tamarametista” que remete-nos a um tipo de amor caracterizado pela entrega total. Os ditos populares mostram-se em perfeita sincronia com sabores em uma gastronomia aguçada por sentidos e sensações.

Já a reflexiva “No passo do passarinho” traz a experiência como palavra-chave, retratando a valorosa e instigante descoberta de um animal que acaba de sair do seu ovo e passa a caminhar com as próprias pernas. Dentre as regravações estão as faixas “Quem sabe”, composta por Carlos Gomes no século XIX, “Youkali Tango” escrita pelo já citado compositor alemão Kurt Weill e registrada em 1934; sem contar com a canção “Dos Cruces”, da dupla espanhola Carmello Larrea e Antonio Molina. O álbum ainda conta com mais duas canções: “Os versos e as horas” e “Catavento”.

A belíssima arte do álbum vem sob a assinatura de André Luiz Machado a partir de fotos tiradas por Valkiria Persiles, mãe da atriz e cantora. As ilustrações foram confeccionadas pela própria Letícia, que também participou da produção do álbum ao lado de Toninho Ferragutti e Chico Neves, conceituado produtor do cenário pop nacional. Neves nas últimas duas décadas,foi responsável, dentre tantos, pela produção de álbuns como “O Dia em que Faremos Contato” do cantor e compositor Lenine e “Bloco do Eu Sozinho”, da banda carioca Los Hermanos. Os arranjos de “As cartas de amor e saudade” ficaram a cargo de Bebê Kramer e Ferragutti (que também executa acordeon).

Singelo, porém vigoroso, este projeto apresenta uma Letícia imersa em suas ideias em uma peculiar sonoridade. Os híbridos acordes que embalam as divagações da compositora sobre os mais variados temas fazem de “As cartas de amor e saudade” um álbum audacioso onde a artista apresenta-se de modo visceral e único a partir de composições intrinsecamente arregimentadas por letras bem escritas e uma sonoridade que dá ao disco uma unidade precisa. De modo singular cada faixa borda no disco os mais distintos temas e isso faz com que consequentemente seja também vivenciada as mais diversas sensações adornadas nos acordes executados brilhantemente pelos músicos que a acompanha.

“As cartas de amor e saudade” chega para coroar em definitivo um trabalho que consegue abranger as entranhas de nossa cultura desnudando-as de conceitos e rótulos a partir do dissecamento da própria artista. Desprovida de qualquer vaidade Letícia Persiles desnuda-se e entrega-se, de corpo e alma, à Deusa música demostrando ter muito mais que olhos de ressaca.

Deixo aos amigos leitores a regravação da composição de Carlos Gomes (“Quem sabe”) para deleite de todos:

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ANO EMBLEMÁTICO PARA A HISTÓRIA DA MPB, 1973 GANHA REGISTRO LITERÁRIO

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Livro debruça-se sobre ano que traz, além que a repressão do governo Médici, um honroso lugar no calendário da música brasileira

Poucos foram os anos tão importantes quanto o de 1973 para o cenário musical brasileiro. Se pontuarmos, poderemos levantar alguns onde foram lançados movimentos importantes dentro do cenário musical brasileiro servindo como exemplos pode ser citado os que surgiram a Bossa Nova, a Jovem Guarda e o Tropicalismo.

Apesar de não ser caracterizado pelo lançamento de nenhum marcante movimento musical e durante o mês de fevereiro a música brasileira ter ficado mais pobre com a partida do compositor e instrumentista Pixinguinha (considerado por muitos como um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos), o ano de 1973 foi um período marcado pela estreia fonográfica de artistas que viriam sacramentarem seus respectivos nomes no cenário musical brasileiro dali em diante.

Indo um pouco além disso “1973 – O ano que reinventou a MPB”, não só aborda o debute fonográfico de nomes como João Bosco, Gonzaguinha, Raimundo Fagner, Raul Seixas e Sérgio Sampaio, mas também outros 47 discos lançados à época e que algum modo deixou a sua marca dentro da música brasileira vislumbrando novos horizontes e rumos para a música brasileira dali em diante.

Dentro das 432 páginas existentes no livro são abordados LP’s como “Phono 73, O Canto de um Povo” e “Bem-Amado – Trilha Sonora” (com textos assinados pelo organizador e idealizador Célio Albuquerque), “Beto Guedes / Danilo Caymmi / Novelli / Toninho Horta” (sob a ótica de Maurício Gouvêa), “Manera Fru Fru, Manera” (pelo jornalista mineiro Renato Vieira), “O pop maldito de Lamounier” (através da visão do também jornalista Ricardo Schott). Do universo jornalístico o livro ainda apresenta textos, dentre outros, de nomes como Pedro Só (“Luiz Melodia”), José Teles (“Satwa – Marconi Notaro no sub-reino dos protozoários”).

Dentre os músicos e compositores que assinam textos pressentes no livro pode-se destacar os nomes de Tavito (que traz a sua visão sobre o álbum “1º Acto”, do cantor e compositor carioca Zé Rodrix), Sérgio Natureza (abordando “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, debute fonográfico do cantor e compositor cachoeirense Sérgio Sampaio); Mona Gadelha (apresentando texto sobre o LP “Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem”, projeto coletivo lançado por Ednardo, Rodger e Tethy); Moacyr Luz (analisando o LP “Nervos de aço”, do Paulinho da Viola); o pernambucano Rildo Hora (apresentando o álbum “Origens”, quinto projeto fonográfico do cantor e compositor Martinho da Vila) e Marcos Suzano (relembrando “Amazonas”, um dos discos mais importantes da discografia do percussionista Nana Vasconcelos). Editado pela Sonora Editora, “1973 – O ano que reinventou a MPB” já chega ao mercado com ares documentais e tornando-se como uma excelente fonte de consulta as futuras gerações amantes da MPB.

Eis os 52 discos abordados em “1973 – O ano que reinventou a MPB”:

01 – Phono 73, O Canto de um Povo (Diversos artistas)
02 – Um Passo à Frente (A Bolha)
03 – Antonio Marcos (Antonio Marcos)
04 – Canto por um Novo Dia (Beth Carvalho)
05 – Beto Guedes / Danilo Caymmi / Novelli / Toninho Horta (Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta)

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VELEZ – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Quatro integrantes, quatro nacionalidades distintas e uma paixão em comum: a música

Surgida em 1998, a Velez vem galgando espaços cada vez mais relevantes no cenário musical mundial a partir de Portugal. Sob forte influência da música brasileira, a banda vem apresentando-se em diversos países ao redor do mundo com um estilo musical bastante próprio e uma sonoridade arrebatadora como pode-se conferir aqui mesmo em nosso espaço quando abordamos o trabalho da banda a partir da matéria “COM A CARREIRA SEDIMENTADA NA EUROPA AGORA ELES QUEREM ALCANÇAR O BRASIL”. Agora a banda volta ao nosso espaço nesta entrevista exclusiva gentilmente concedida por todos os integrantes da banda onde questionamos, dentre outros assuntos, o porquê de só agora a banda investir na divulgação do trabalho no Brasil.

A banda vem desenvolvendo um trabalho muito bem aceito pelo público e pela crítica por onde tem passado. Ao que vocês atribuem esse reconhecimento?

Ernesto Leite – Essencialmente à originalidade da atmosfera musical das canções e às características tímbricas da cantora.

Tereza Velez – Acho que o reconhecimento vem da qualidade e da originalidade do nosso trabalho.

Henry Souza – Penso que esse reconhecimento vem pelo facto de todos os trabalhos terem tido originalidade e coerência na composição e evolução na sua própria sonoridade.

Markus Brito – Na minha opinião, eu tenho a certeza que é pela qualidade que o trabalho do grupo vem se desenvolvendo ao longo de todos esses 14 ou 15 anos de existência, na escolha das músicas, dos arranjos e tal…

São quatro nacionalidades distintas que sofrem as mais diversas influências de suas respectivas culturas. Como se dá a conciliação dessas diferenças de modo que não haja nenhum tipo de conflito?

TV – É a admiração que temos pela música brasileira.

HS – Simplesmente a paixão que nos une pela música brasileira.

MB – Há um comprometimento muito grande em relação aos componentes do Velez, porque todos nós gostamos e praticamos o mesmo estilo musical, além de já nos conhecermos muitos tempo antes do projeto nascer. Isso nos facilitou muito na escolha do repertório e que estilo musical queríamos trabalhar.

EL – Através do bom senso e da inteligência na gestão dos arranjos.

Tratando de referências, qual(is) nome(s) vocês destacariam como unanimidade na banda?

MB – Como referência artística ao tipo de música que fazemos, temos a Rosa Passos, Leny Andrade, Tom Jobim, Leila Pinheiro, Ivan Lins etc…Seria uma lista infindável.

HS – Ivan Lins , Djavan , Leila Pinheiro , Leny Andrade , Rosa Passos , João Bosco , Pedro Mariano , Cesar Camargo Mariano etc.

EL – Todas as referências ligadas à Bossa-Nova por inteiro na sua estética e no seu bom-gosto.

Cada integrante traz uma bagagem bastante significativa e que antecede a história da banda. Se há possibilidade de destacar um adjetivo que caracteriza essa união de modo tão harmonioso qual seria?

HS – Cumplicidade.

TV – Concordo com o Henry, acho que é cumplicidade.

MB – A nossa amizade.

EL – Simplicidade.

O álbum trata-se de um projeto essencialmente autoral. Como deu-se o processo de composição do repertório do disco?

MB – Bem, dentro da banda, temos 2 integrantes (Ernesto Leite & Markus Britto) que são os compositores e arranjadores principais dos temas. Na maior parte das vezes, fazemos as composições juntos ou em separados, cada um nas suas residências e depois nos reunimos para discutir o prosseguir das coisas.

EL – Num ambiente totalmente descontraído e amigável no qual a espontaneidade é a ignição para a inspiração

E a escolha do repertório?

EL – Sendo este um processo criativo sustentado pelo bom-senso o repertório é totalmente utilizado sem que haja necessidade de haver propriamente uma “escolha”…todos os temas têm e fazem sentido no mesmo.

MB – Quanto a escolha do repertório, não há muitas dificuldades em saber o que entra e o que não, porque a personalidade musical dos álbuns, já está estipulada desde os primeiro discos. É claro que procuramos sempre dar uma renovada e até mesmo experimentarmos outros tipos de rítmos, desde que não fujam do tal padrão que a gente combinou.

Desde o primeiro álbum (lançado em 2001) é possível perceber a forte influência exercida pela música brasileira na sonoridade da banda. Por que só agora a banda resolveu investir na divulgação do trabalho no berço de sua sonoridade?

TV – Há algum tempo que tínhamos vontade de divulgar o nosso trabalho no Brasil e agora com a presença do Marcos no Rio de Janeiro torna-se mais fácil e mais imediata a divulgação do CD.

EL – Alguma modéstia em amadurecer uma linguagem que não é nativa para todos mas que a todos influenciou… Uma questão de tempo, espaço e alguma geofísica…
MB – Certo! A gente sempre quis fazer a MPB desde o inicio, dando também um molho pouco jazzístico em alguns temas, sem sermos jazzísticos propriamente dito, como você pode comprovar, ouvindo os cds. Mesmo assim, sempre houve muita dificuldade em penetrarmos no mercado musical brasileiro. Não sei se por vivermos em outro País ou em outro Continente…Mas a gente sempre tentou investir por aqui, desde o primeiro álbum (Natural – 2001).

Como está a expectativa do lançamento deste novo álbum no Brasil?

EL – Totalmente excêntrica!! O Brasil está ávido deste gosto inter-Atlântico…e nós temos a obrigação de presentear o pais irmão com tamanhas iguarias de arranjo e sensibilidade melódica.
MB – Ainda não podemos dizer nada de concreto, porque estamos nos contatos e apresentação do mesmo às Gravadoras e Rádios. Com essa mudança toda na comercialização da música no mundo, downloads etc…, a tendência é sempre apostar no “Do it Yourself”. Mas mesmo assim, vamos aguardar para ver se alguém se interessa em nos distribuir por aqui.

E a agenda? Vocês pretendem cair nas estradas brasileiras também com este lançamento?

TV – Sim, o objectivo é esse, seria fantástico conseguirmos apresentar o nosso trabalho ao vivo no Brasil

MB – É claro que sim. Se houver uma distribuição e divulgação do novo trabalho no mercado brasileiro, a intenção é essa. Caír na estrada e mostrar a nossa música onde pudermos.

EL – As estradas brasileiras são parte do nosso chão…

Depois de apresentar-se por diversos continentes vocês não acham que já seria hora de um registro audiovisual? Cogitam a possibilidade do registro de alguma apresentação para lançamento em DVD?

MB – Sim. Isso está previsto e inclusive, há uma possibilidade em fazermos uns 2 clipes aqui no Rio de Janeiro. Vamos aguardar. A imagem sempre foi e sempre será muito importante na comercialização dos discos. Os dois lados, o áudio e o visual, têm sempre que andar lado a lado. Faz parte da logística.

TV – Sim, estamos à espera de uma oportunidade para fazer esse registro, seria até muito interessante conseguirmos fazê-lo no Brasil.

EL – Todo este testemunho artístico não pode prescindir de um registo audiovisual…é obrigatório que toda a vibração energética deste projeto fique perpetuada na memória de um povo que interage e se ama incondicionalmente apesar das barreiras atlânticas…viva o Brasil…viva Portugal…em DVD!


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COM A CARREIRA SEDIMENTADA NA EUROPA AGORA ELES QUEREM ALCANÇAR O BRASIL

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Um brasileiro, um belga, uma portuguesa e um canadense: eis o Velez, grupo influenciado pela sonoridade do cancioneiro brasileiro que vem projetando-se em escala mundial

Não é de hoje que a música produzida em nosso país é digna do respeito e dos mais variados elogios ao redor do planeta. Existem nomes dentro desse segmento de nossa cultura que por apresentarem trabalhos com características tão ricamente peculiares fizeram (e fazem) de suas respectivas obras não apenas universais, mas atemporais. Como exemplos dessa afirmação pode-se citar legados deixados por nomes como Antonio Carlos Jobim e Moacir Santos.

Em boa parte do mundo quem não conhece Garota de Ipanema ou Nanã (Coisa Número 5)? Se debruçarmo-nos neste quesito observaremos que a lista estende-se a uma gama que inclui os mais diversos artistas que possuem cada qual características bastante peculiares e que a cada dia procura imprimir em seu trabalho as mais genuínas raízes de nossa música, procurando fazer jus a máxima do escritor russo Leon Tolstoi quando disse: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” como é o caso dessa banda que foi formada originalmente em 1998 e apesar de ter surgido em Lisboa (Portugal) é constituída essencialmente por aquilo que melhor representa a música brasileira ao redor do mundo: refinamento e bom gosto.

Além dessas características, o grupo traz peculiaridades também em outros aspectos, como por exemplo em sua formação. Com quatro integrantes, a banda é capaz de unir distintas nacionalidades afim de celebrar o mesmo gosto e estilo musical, fazendo dessa característica a ponte principal que os possibilitam transpor tais barreiras geográficas, afinal de contas a música é uma linguagem universal. Formada pelo o brasileiro Markus Britto, a portuguesa Teresa Velez, o belga Ernesto Leite e o canadense Henry Souza a banda Velez procura manter a tradição da boa música a partir de um repertório coerente com aquilo que acredita e difunde.

O cerne da banda vem do início da década de 1990, mas precisamente por volta de 1992, quando em parceria com o músico e compositor carioca Markus Britto a lisbonense Teresa Velez começa a apresentar-se em pequenas salas de espetáculo e bares de sua terra natal. À época com mais de uma década de experiência profissional Britto (que encontrava-se radicado em Portugal desde 1990) trazia em sua bagagem além da experiência adquirida em estúdio a sua atuação em grupos como o 6L6 (ainda no Brasil) e os portugueses A Fúria do Açúcar. Além de ter atuado ao lado de nomes como o da cantora Nancy Vieira e do guitarrista Joel Xavier. Já Teresa iniciou sua carreira por volta de 1989 fazendo trabalhos na área da publicidade e cantando em bares.

A junção da experiência e do talento de ambos não poderia trazer melhor resultado. Por sua qualidade, o trabalho da dupla obteve rapidamente o devido reconhecimento e fez com que eles alcançassem todo o país levando em suas apresentações além de composições próprias, alguns dos nomes mais relevantes do cancioneiro popular brasileiro dentro daquilo que há de melhor na música tupiniquim. Estava surgindo aí a Velez, dupla que a princípio restringia-se a divulgação da boa em espaços de menores proporções (como pequenas salas de espetáculos e bares) e que começava a ganhar palcos cada vez maiores por todo o País.

Algum tempo depois soma-se ao talento da dupla as habilidades musicais do baterista canadense Henry de Sousa, músico de talento que iniciou a sua carreira profissional na década de 1970 quando participou do Quarteto Carlos Bechegas e posteriormente aprimorando o seu talento a nomes de artistas portugueses como Nana Sousa Dias e José Mário Branco, o músico inglês Mike Carr, entre outros.

Por fim chega ao grupo o artista, produtor e compositor Ernesto Leite, nascido em Bruxelas, na Bélgica, Leite iniciou a sua carreira em 1992 e hoje soma ao seu currículo, além de cinco álbuns solos direção musical vários programas TV e canções para novelas desde 2002. Sem contar com as trilhas sonoras para vários canais TV e as participações como compositor e/ou compositor de nomes como Ivan Lins, Leila Pinheiro, Mafalda Arnauth entre outros grandes nomes da música portuguesa. Soma-se ainda a isso inúmeros concertos em diversos países ao redor do mundo .

Depois de conquistar boa parte da Europa assim também como a Ásia o grupo almeja alçar vôos cada vez maiores. Com quatro álbuns na bagagem (o primeiro lançado em 2001 através da Cia. Discográfica independente alemã GLM-Musikverlag com o título de “Natural”), a Velez chega ao mercado fonográfico brasileiro pela primeira vez lançado de modo independente o álbum “Nossas Novas”, um projeto pontuado por todas as características que faz do grupo um dos mais bem conceituados e bem sucedidos existentes na Europa, o que acaba por justificar sua franca ascendência nos diversos continentes pelos quais costumam se apresentarem, o álbum é capaz de sincronizar-se, de modo uníssono, do seu início ao fim.

Mostrando-se uma unidade sonora vigorosa e aglutinadora, respaldo este que justifica o porquê de tamanha aceitação do público e da crítica especializada. Dentre os autores presentes neste projeto estão Renato Corrêa, assinando de modo solo o samba cheio de bossa “Ad Brasilienses Musicis” e a romântica “Quando tu dizes pra mim” e em parceria com Markus Britto vem as canções “Vou Andar”, “Sol de Dezembro” e “Fevereiro”. Por Falar em Britto o músico e compositor assina ainda as faixas “Sonhos e Aventuras”, “Agora Tudo é Tarde”, “Outra Vez Por Você” (com Sérgio Coelho), “Falando em Pedaços” (a quatro mãos com João Di Sabbato) e as canções “Both of Us” e “Noites e Silêncios” (ambas em parceria com Kris Kopke).

O disco ainda conta com duas composições do músico Ernesto Leite (“O Canto” e “Sei de Ti”) fazendo deste álbum um projeto essencialmente autoral e corroborando de modo substancial para dar todo o devido sentido ao título escolhido: “Nossas Novas”. É desse modo que o grupo aporta no Brasil, trazendo em sua bagagem aquilo que vem apresentando ao redor do mundo e que os fazem conquistar as mais distintas plateias, os mais sinceros elogios e o mais merecido prestígio por todos os lugares onde aportaram até então. No Brasil, berço maior da sonoridade do grupo, com certeza não será diferente.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções presentes no disco aqui apresentado. A primeira trata-se de “Ad Brasilienses Musicis“, composição de Renato Corrêa:

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Já a segunda canção vem a ser “Vou andar“, composição também do Renato Corrêa em parceria com Markus Britto:

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LUIZ HENRIQUE – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Cantor e compositor, Luiz Henrique assume seu lado intérprete em expressivos projetos de valorização do cancioneiro popular da primeira metade do século XX

Assumindo, mesmo que de modo despretensioso, um compromisso de resgate com a história da música popular brasileira desde o ano em que lançou o álbum “Um Sinhô compositor”, um tributo a um dos compositores mais relevantes da música brasileira na primeira metade do século XX, Luiz Henrique vem dando continuidade a este primoroso trabalho de valorização e resgate do cancioneiro popular agora em mais um projeto: “Pro samba que Noel me convidou”, álbum que traz como homenageado não apenas Noel Rosa (como o título do álbum sugere) mas diversos compositores e intérpretes contemporâneos do sambista carioca como vocês puderam conferir recentemente aqui mesmo a partir da pauta “A ESMERADA PERSONIFICAÇÃO DO SAMBA”.

Hoje, Luiz Henrique volta ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde aborda, dentre outros assuntos, a sua relação com a saudosa Emilinha Borba, a aproximação do sambista Paulo Marquez, como promoveu o inusitado encontro entre um funkeiro e uma Rainha do Rádio e os critérios levados em consideração para a escolha do repertório de projetos especiais como estes últimos lançados.

Você traz em sua discografia dois trabalhos temáticos abordando artistas dos anos de 1920 e 1930. Qual o principal motivo que o fez atinar para o resgate e valorização dos grandes artistas da primeira metade do século passado?

Luiz Henrique – Antes destes trabalhos temáticos, eu já havia gravado dois outros CDs, mas foram discos nos quais eu ainda estava um pouco perdido sobre o que eu queria, não somente eu como também as pessoas que me orientaram na época. Nestes CDs, gravei músicas inéditas minhas e dos amigos. Não escolhi canções conhecidas pelo fato de que, se eu as escolhesse, além de todo o custo com a produção, eu ainda teria que arcar com os valores dos direitos autorais. A ideia do resgate veio posteriormente, ao me interessar por pesquisar a origem do samba. Com isso, fui descobrindo excelentes autores, praticamente no ostracismo, que já se encontravam em Domínio Público. Acreditando que estaria mais que na hora de começar a resgatá-los, acabei juntando o útil ao agradável e, no meu terceiro CD, prestei homenagem a Sinhô, que se tornou um dos meus compositores prediletos, e agora, mais recentemente, homenageei o genial Noel e alguns de seus contemporâneos, em maioria ilustres desconhecidos.

Como se deu o seu envolvimento com a música (em especial com as canções destas primeiras décadas do cancioneiro brasileiro)? Havia em sua infância algum contato com o trabalho destes artistas?

LH – Na minha infância, salvo Noel Rosa, não escutava nenhum destes autores. De fato sempre gostei muito de músicas antigas, mas não chegava a voltar tanto no tempo. Meu forte eram as composições dos anos 50, que ouvia em programas de rádios transmitidos à noite, nas vozes de Nélson Gonçalves, Cauby Peixoto, Angela Maria entre outros. Somente muito depois é que fui saber quem era o Rei do Samba Sinhô, tendo tido maior contato com sua obra apenas a partir do ano de 2009, quando adquiri num camelô a biografia “Nosso Sinhô do Samba”, escrita por Edigar de Alencar.

Em sua opinião como pesquisador, o que você acha que corrobora de modo substancial para esse quadro de esquecimento e abandono que assola a cultura brasileira como um todo?

LH – Na verdade, eu não sou propriamente um pesquisador e sim alguém que tem a necessidade de pesquisar para poder elaborar seus projetos. Em minha modesta opinião, no entanto, acredito que sejam vários os fatores que contribuem para este esquecimento e abandono. Talvez o mais importante seja a ausência de uma política governamental de incentivo à cultura, a começar pelos estabelecimentos de ensino regular. As pessoas só passam a se interessar por determinado assunto a partir do momento em que este assunto é apresentado a elas.

Você acredita que seja possível reverter tal contexto?

LH – Sendo bem sincero, eu acredito que não existam grandes interesses para se reverter esta situação. O máximo que pode acontecer é, vez por outra, um ou outro artista passar a integrar este pequeno grupo que se preocupa com o resgate cultural. E tomara que estes artistas surjam não só no âmbito da música como também de outras artes.

Apesar dos seus últimos dois trabalhos estarem focados em seu lado intérprete você também é autor de diversas canções que foram inclusive gravadas por nomes como Cauby Peixoto e Marion Duarte. Você cogita a possibilidade de um registro de modo exclusivamente autoral algum dia?

LH – O Cauby gravou uma música minha em dueto com a Emilinha Borba, a canção se chama “Grandes Mitos” e recentemente foi regravada pela Marion Duarte, grande cantora que também pertenceu à época áurea do rádio brasileiro. Como disse, gravei composições minhas nos primeiros trabalhos, porém não foram CDs exclusivamente autorais. Um CD autoral, com o devido capricho e zelo necessários na escolha do repertório e dos músicos, é realmente uma boa ideia e um caso a pensar.

Dentre os artistas que gravaram suas composições está a Emilinha Borba, pessoa com a qual você teve uma intensa aproximação durante os últimos anos de vida dela. Uma prova documental desta grande amizade é o álbum “Emilinha Pinta e Borba”, onde você participa com duas composições e ainda divide os vocais com a cantora em uma delas. Você poderia nos dizer de que modo se deu essa grande amizade?

LH – Eu conheci a Emilinha Borba na Rádio Nacional, mais precisamente no ano de 1999. Fui dar uma entrevista sobre o meu primeiro Cd e lá estava ela no mesmo programa, salvo engano o apresentador era o José Messias, depois ainda chegamos a nos encontrar algumas outras vezes na mesma emissora. Até que, no período carnavalesco, fui assistir a uma apresentação dela no Carnaval da Cinelândia, que é um evento com sambas e marchinhas do passado, realizado todo o ano aqui na cidade do Rio de Janeiro. Por ter ficado impressionado com tanta vitalidade e tanta disposição, eu compus para ela “O Mito Emilinha Borba”. Emilinha gostou muito e a partir daí fomos ficando amigos. Nos últimos anos de sua vida, sempre me convidava para cantar com ela em seus shows, inclusive no Carnaval da Cinelândia. O título do CD “Emilinha Pinta e Borba” foi ideia minha. “Pinta”, por causa de uma charmosa pinta em seu rosto e “Borba” que era o seu sobrenome. Também sugeri o título de seu último lançamento em vida, o CD “Na Banca da Folia”. Neste disco, Emilinha gravou em dupla com o MC Serginho a minha “Marcha-Funk da Eguinha Pocotó”, uma divertida sátira ao funk “Eguinha Pocotó”. Acredito que eu tenha sido o primeiro compositor a promover este encontro inusitado entre um funkeiro e uma Rainha do Rádio. Emilinha me deu muito força na carreira musical, me incentivou muito. Era realmente um ser humano formidável e uma excelente artista.

O projeto que antecede “Pro samba que Noel me convidou” aborda a obra de José Barbosa da Silva, o Sinhô, outro grande compositor brasileiro da primeira metade do século XX. Você já tinha por pretensão abordar outro grande compositor desse período ou a coisa encaminhou-se para o universo do Noel posteriormente?

LH – Na verdade, antes mesmo de finalizar a divulgação do meu projeto com a obra de José Barbosa da Silva, que se deu através da realização do show “Tributo Ao Rei do Samba Sinhô”, apresentado em alguns espaços culturais da cidade do Rio de Janeiro, eu já havia começado a pensar sobre quem poderia ser meu próximo homenageado. Noel Rosa já era uma vontade antiga. No ano de 2007, com a produção do saudoso Quartera, ex-intregrante do conjunto Os Cariocas, eu gravei ao lado da Marion Duarte, o medley “Homenagem Concisa a Noel e a Maysa”. O Cd era composto apenas de uma faixa, mas com vários trechos de músicas de Maysa e de Noel Rosa, que, na época, completavam respectivamente 30 e 70 anos de falecimento. Eu interpretei as músicas de Noel e a Marion, as composições de Maysa. Chegamos até a fazer um show na Rádio Nacional cantando estas canções na íntegra. Já deu para perceber que sou fissurado por coisas inusitadas. Se me perguntarem o que Noel tem a ver com Maysa, respondo que Maysa deve ter sido grande fã do Poeta da Vila, tendo em vista que compôs em sua homenagem a bela canção “Escuta, Noel”. Quanto aos outros compositores gravados neste CD “Pro Samba Que Noel Me Convidou”, achei necessário incluí-los para melhor retratar musicalmente a época em que viveu Noel Rosa. Como já expliquei, são autores contemporâneos de Noel, ídolos ou parceiros, que atualmente estão bastante esquecidos. Ou seja, Noel convida para um samba onde se podem ouvir não só as suas composições como também as de seus amigos.

Quando você imagina um trabalho como este quais são os critérios levados em consideração para a escolha do repertório?

LH – Em primeiro lugar, procuro escolher músicas que acredito poder interpretar melhor, que tenham mais a ver com meu timbre de voz grave. Também procuro selecionar, dentro das possibilidades, um repertório de cunho mais popular, com possibilidade de cair no agrado das pessoas mais facilmente. Às vezes, a letra da composição não é tão boa quanto sua música, mas, devido à qualidade melódica, vale a pena escolhê-la. Além disso, tento usar da criatividade, batendo novamente na tecla do inusitado. Quando escolhi a música “Último Desejo”, por exemplo, para não ser mais um entre centenas de intérpretes que gravaram este belo samba-canção, optei por cantar a sua segunda parte com a melodia diferente, aquela que a grande Marília Batista jurava ser a correta, ensinada a ela por Noel. Já o samba “Perdi o Meu Pandeiro”, de Cândido das Neves, o Índio, nunca havia sido gravado, apesar de ter sido campeão de um concurso realizado pela revista O Malho, no ano de 1934. Acho que fiz uma boa ação quando resolvi registrar esta pérola em fonograma.

Em “Pro samba que Noel me convidou” você é o responsável por trazer novamente ao universo fonográfico a figura do grande sambista Paulo Marquez. Você saberia nos informar a quanto tempo que ele não gravava?

LH – Conhecer o Paulo Marquez confesso que foi uma das melhores coisas que me aconteceram na produção deste CD. O Paulo, além de ser um cantor excepcional, é também uma pessoa formidável. Acho que já havia algum tempo que ele não entrava em estúdio como convidado de algum projeto, mas não sei precisar quanto. Seu último trabalho foi lançado ainda na era do LP, em 1974, quando gravou, em dupla com a cantora Carmen Costa, um disco inteiro com músicas de Paulo Vanzolini.

Você estreou o espetáculo “Pro samba que Noel me convidou” no início do semestre passado na Sala Municipal Baden Powell, no Rio de Janeiro. Este ano quais são as pretensões para dar continuidade a abordagem deste trabalho?

LH – De fato, o lançamento do CD “Pro Samba Que Noel Me Convidou”, na Sala Baden Powell, foi um acontecimento importante para a minha carreira, inclusive porque tive o privilégio de ter como convidado especial o Paulo Marquez, e, além disso, a felicidade de ter sido acompanhado por músicos de primeiríssima qualidade como o fabuloso flautista Dirceu Leite, o excepcional pianista Nelson Freitas, o fantástico baixista Rogério Fernandes, os incríveis percussionistas Felipe Tauil e Daniel Karin e o excelente violonista e magnífico arranjador Fernando Brandão, produtor do show e também do CD. Em relação a pretensões de continuidade, todos sabemos que divulgar um trabalho independente neste país é realmente uma tarefa muito complicada, mas espero poder abraçar as oportunidades que me forem surgindo. E confesso também que já estou pensando num novo projeto para 2015.


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A ESMERADA PERSONIFICAÇÃO DO SAMBA

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Em um elaborado trabalho de resgate e valorização da obra de Noel o cantor, compositor e pesquisador apresenta-nos pérolas do repertório daquele que é considerado um dos grande ícones da música brasileira

Imbuído de sensibilidade e talento o cantor e compositor Luiz Henrique vem fazendo um esmerado trabalho não apenas de resgate mas também de valorização e perpetuação da obra de alguns dos grandes nomes da música brasileira na primeira metade do século XX. Primeiro idealizou, produziu e abordou o cancioneiro do José Barbosa da Silva, o Sinhô, em um tributo pelos 80 anos de ausência do artista o que resultou no espetáculo “Tributo ao Rei do Samba Sinhô” e no álbum “Um sinhô compositor – Sinhô eu canto assim”.

Morto em agosto de 1930, Sinhô iniciou a sua vida como compositor por volta de 1911, no entanto foi na década de 1920 que se destacaria como um dos mais relevantes compositores do cancioneiro popular com canções registradas pelas vozes de maior destaque da época como Mário Reis, intérprete de dois dos maiores clássicos da lavra do artista (“Gosto que me enrosco” e “Jura”).

Não foi à toa que Luiz Henrique escolheu o repertório justamente de tal decênio para prestar esta homenagem a este que ainda nos dias atuais é considerado como um dos sambistas de maior destaque da música brasileira de todos os tempos. Agora, Luiz Henrique apresenta “Pro samba que Noel me convidou”, mais um relevante projeto a favor da memória da canção popular.

Neste trabalho o lado cantor e compositor do artista carioca divide espaço com rebuscado pesquisador, que retoma o seu objetivo de resgatar grandes nomes do cancioneiro popular. O escolhido da vez é o centenário sambista Noel Rosa. Neste novo álbum Henrique apresenta um trabalho histórico por si só não apenas pela qualidade, mas principalmente pelo minuciosa e dedicada pesquisa de resgate de nomes que corroboraram de um modo ou de outro para elevar o nome do poeta da Vila Isabel ao panteão da música popular brasileira.

Tal qual aurífice, Luiz Henrique em sua refinada busca trouxe para este projeto pérolas pouco conhecidas da lavra de alguns dos maiores sambistas que permearam a história de nossa música, destacando em particular os anos de 1930 para compor as doze faixas presentes no disco. Pode-se dizer que o registro da canção “Perdi o meu pandeiro”, da lavra de Cândido das Neves (o Índio) composta na década de 1930 e registrada em disco pela primeira vez agora, oito décadas depois de composta é um dos pontos altos do projeto.

No entanto merece destaque também registros como a canção “Esquecer e perdoar”, uma parceria de Noel com o Deocleciano da Silva Paranhos, o Canuto, antes registrada uma única vez em outubro de 1931. Sinhô faz-se presente como uma das grandes referências de Noel e autor de “A favela vai abaixo”, samba registrado pela primeira vez por Francisco Alves em 1928. Já em dupla, Noel surge ora com Henrique Brito, seu parceiro e colega no Bando de Tangarás, ora com o partideiro e fundador da Escola de samba Azul e Branco, do morro do Salgueiro Antenor Gargalhada.

Com Brito assina “Queimei o teu retrato”, canção gravada pela primeira vez mais de duas décadas após composta e que neste novo registro Luiz Henrique conta com a luxuosa presença da cantora e compositora Marion Duarte. Sem data de composição conhecida o samba “Eu agora fiquei mal”, foi a única parceria musical existente entre Antenor e Noel.

Dentre as canções que não são de autoria deNoel destaque para uma do cantor e compositor macaense Luiz Barbosa (que assim como o poeta da vila morreu antes de completar 30 anos de idade e vítima da tuberculose). Sendo um dos intérpretes pioneiros do samba sincopado,Barbosa ganhou projeção na década de 1930 cantando composições de alguns dos maiores compositores da música brasileira de então. No entanto o que poucos sabem é que o notório intérprete também compunha, e é uma dessas composições bissextas que Luiz Henrique garimpou para este álbum. “O que sinto por você”, gravada pelo próprio autor em 1933 nesta nova versão ganha a luxuosa participação do cantor mineiro Paulo Marquez, um dos grandes nomes do universo do samba brasileiro.

Há também o pianista e compositor Nilton Bastos com a canção “O destino é Deus quem dá”, uma canção datada de 1929. Com um eloquente arranjo, a faixa se destaca pela presença do piano acústico executado por Fernando Merlino. O passeio pela obra dos grandes compositores dos anos de 1930 continua com a interpretação das faixas “Golpe errado” (Francisco Matoso) e “Você chorou” (Brancura). Como principal autor de sambas da década e grande inspiração para o projeto, Noel Rosa assina de modo individual três faixas interpretadas por Luiz Henrique. São elas “Último desejo” (inspirada canção dedicada a Ceci, o grande amor da vida do sambista); “O maior castigo que eu te dou” (gravada pela primeira vez pela Aracy de Almeida há oito décadas) e encerrando com chave de ouro Luiz interpreta o medley batizado de “Pro samba que Noel me convidou”, composto pelas canções “Com que roupa?” (1930), “Palpite infeliz” (1935) e “Até amanhã” (1933).

Com produção e direção de Fernando Brandão (que também executa cavaco e violão de 6 cordas), seleção de repertório do próprio Luiz Henrique e projeto gráfico de Alex Mendes, a tecitura do refinado álbum destaca talentosos músicos como os veteranos Jessé Sadoc (trompete com surdina) e Dirceu Leite (flauta), além de nomes como Whatson Cardozo (sax tenor e clarone), Chico Vhagas(acordeon), Fernando Merlino (piano acústico), Carlinhos 7 cordas (violão de 7 cordas), Júnior Castanheira (baixo elétrico), Felipe Tauiu e Thiago da Serrinha (percussões), Fabiano Segalote(trombone tenor), Márcio Hulk (bandolim) e Camilo Mariano (bateria). Além dos vocais de Cacala Carvalho, Lê Santana, Bruno Cunha e Karla da Silva.

Perpassar pela obra de um artista do quilate de Noel requer atenção redobrada, uma vez que de tão abordada, suas composições podem acabar soando lugar-comum a cada nova interpretação ou registro. Convicto deste risco o cantor, pesquisador e compositor Luiz Henrique buscou aprofundar-se não apenas nas cercas de 259 canções deixadas pelo poeta da Vila, mas procurou abranger em “Pro samba que Noel me convidou” todo o contexto musical da época escolhida para a abordagem (a década de 1930) a partir de outros compositores contemporâneos.

Abordando temas de domínio público e um repertório nem um pouco clichê, o autor da canção “Grandes mitos” (gravada por Emilinha Borba e Cauby Peixoto) dá início a comemoração dos seus quinze anos de carreira em grande estilo e bom gosto, mostrando com talento e sinceridade musical uma alternativa para solucionar o inexplicável limbo que fantasmagoricamente assola grandes nomes da cultura brasileira de modo geral.

Agora para os amigos leitores ficam aqui duas canções: a primeira trata-se de um medley com as canções “Com que roupa” (adaptação), “Palpite infeliz” e “Até amanhã”:

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A segunda trata-se da canção “O que sinto por você”, que trouxe aos estúdios novamente o cantor Paulo Marquez:

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DE GNATTALI A NAZARETH, O PIANISTA HERCULES GOMES ATESTA UM TALENTO CONGÊNITO

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Incursionando pelo repertório de alguns dos maiores nomes da música popular, o artista capixaba vem apresentando o álbum ‘Pianismo’, seu primeiro registro fonográfico

Os diversos festivais existentes nos quatro cantos do país atestam de modo bastante efusivo que a música instrumental merece lugar de destaque dentro do cenário cultural brasileiro. O público habitualmente toma conta desses eventos atestando de modo irrefutável que a sensibilidade e virtuosismo (que não chega a encontrar espaço nos grandes meios de comunicação de massa) tem um público cativo que ignoram tais estorvos não deixando esse riquíssimo gênero esmorecer.

Um dos exemplos mais bem sucedidos de tais acontecimentos é o MIMO (Movimento Internacional de Música de Olinda) que ano após ano vem ganhando cada vez mais adeptos ao ponto de expandir seus concertos, atividades e oficinas para muito além das circunscrições de sua cidade de origem. De tanto expandir-se o festival hoje atinge o sudeste do país abrangendo cidades como Paraty (no Rio de Janeiro) e Ouro Preto (em Minas Gerais). O sucesso crescente do festival deve muito a uma das ferramentas implementadas pelos organizadores: a etapa para iniciantes, que proporciona o primeiro contato das crianças da rede pública de ensino com a música clássica em um exímio trabalho de formação de público.

Possibilitar essa aproximação de uma sonoridade abundantemente rica e pouco divulgada acaba fazendo desse tipo de proposta algo imprescindível e de suma importância pois desse modo acaba gerando novos adeptos o que consequentemente contribui ativamente para o crescente aumento não apenas das plateias presente no festival, mas também de um novo cenário musical brasileiro, onde trabalhos como o de Hercules Gomes ganhe, de modo expressivo, o devido reconhecimento não apenas por suas habilidades técnicas assim como também pela escolha do seu expressivo repertório.

Natural da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, o musicista Hercules Gomes deu início aos seus estudos musicais de modo autodidata por volta dos treze anos de idade. Em pouco tempo já era possível perceber o talento que aquele adolescente possuía a partir de suas apresentações em bandas do cenário musical capixaba. À época, a partir da beleza de suas execuções, já era possível mensurar o quanto ele ainda podia crescer se houvesse a possibilidade da assimilação do conhecimento teórico. Seu talento nato atestava-o como uma espécie de diamante bruto, onde lapidá-lo seria um processo apenas da assimilação da teoria. Sendo assim decidiu estudar na Escola de Música do Espírito Santo (à época EMES, hoje FAMES) e posteriormente ingressou no curso de Música Popular na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), de onde saiu bacharel.

Nesta trajetória que o artista vem coerentemente galgando já participou de trabalhos ao lado de conceituados músicos tais quais Arismar do Espírito Santo, Wilson das Neves, Michel Leme, Sizão Machado, o sueco Peter Friedsted, o brasiliense Amoy Ribas entre outros. Além disso, já apresentou-se em importantes festivais de música tanto no Brasil quanto no exterior, como o 25º Festival Internacional Jazz Plaza em Havana (Cuba), o Sixitème Festival International de Musique Universitaire de Marrakech (Marrakech, Marrocos), o Festival Brasil Instrumental em Tatuí (São Paulo), o XV CCPA Jazz Festival em Assunção (Paraguai) e o Cascavel Jazz Festival em Cascavel (Paraná).

Sem contar a conquista de diversos prêmios dentre eles o Festival Fampop (Avaré), o Festival Americanta (Americana), o concurso de piano Guiomar Novaes e o 11º Prêmio Nabor Pires de Camargo, promovido pela Fundação Pró-Memória de Indaiatuba em homenagem ao importante compositor natural da cidade e que ajudou, de certo modo, a propagar o nome de Hercules junto ao público assim como também junto a crítica especializada.

Essas experiências favoreceram de modo substancial para o registro do projeto ‘Pianismo’, seu primeiro trabalho solo e que traz consigo algumas características que atestam o nome do artista como um dos mais promissores talentos da nova geração de pianistas brasileiros. ‘Pianismo’ abarca em sua sonoridade as fortes influências sofridas por Gomes sem demarcações.

Os genuínos ritmos brasileiros intercalam-se com o jazz e a música erudita, mostrando a técnica e a versatilidade do artista tanto em composições da própria lavra como ‘Allegro em 3′, ‘Helena’, ‘Opucarana’, ‘Toada’, ‘Nação primeira’ e ‘Platônica’ como em belíssimos arranjos para canções de autores que vão desde Ernesto Nazareth e Hubaldo (‘Odeon’), perpassando por Hermeto pascoal (‘Viva o Rio de Janeiro’), Edu Lobo e Paulo César Pinheiro (‘Dança do corrupião’), Radamés Gnattali (‘Zanzando em Copacabana’), Nabor Pires de Camargo (‘Vá carregar piano’) até desaguar em águas pernambucanas com a execução da canção ‘Duda no frevo’, uma homenagem a José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, um dos maiores regentes, compositores, arranjadores e instrumentista de todos os tempos da música pernambucana e do frevo em especial. ‘Duda no frevo’ é de autoria de outro pernambucano, o compositor Senival Bezerra do Nascimento, o Senô.

Paulo Braga (um dos professores do capixaba quando o mesmo esteve de passagem pelo curso de Música Popular na UNICAMP) é quem assina a apresentação do artista neste debute fonográfico. Sob o aval do conceituado instrumentista ‘Pianismo’ chega com a leve impressão de ser um trabalho de um veterano artista em uma espécie de Déjà vu de extrema qualidade, no entanto o álbum carrega consigo a despretensiosa leveza do novo ao apresentar um repertório regido por algumas das principais vertentes sonoras que constituem o artista.

A segurança transmitida por Hercules ao executar peças não apenas de autoria sua mas também da lavra de alguns dos maiores nomes do cenário instrumental musical brasileiro é mais um fator que atesta de modo irrefutável que por mais que insistam para que o gênero instrumental esmoreça, ainda há aqueles que insistem em modificar esse contexto, indo de encontro aos ditames impostos pelos grandes meios de comunicação procurando abarcar em seu trabalho uma sonoridade rica e única.

O preço que se paga por seguir o viés menos convencional na maioria das vezes é alto porque o artista acaba sendo relegado a uma espécie de segundo plano. No entanto aquele que acredita em sua arte e persiste neste contexto, tal qual o artista capixaba, sabe das agruras e dos percalços a serem enfrentados e procuram fazer deles o combustível ideal para seguir em frente, levando consigo a imaculada bandeira de uma arte, cujo a coerência é um dos alicerces que a sustenta. Que a soma da sensibilidade, da técnica e do talento de Hercules Gomes continue a preencher as devidas lacunas plausíveis dentro do segmento que o artista decidiu seguir, garantindo ainda por muito tempo a qualidade da música instrumental brasileira.

Deixo agora para os amigos leitores duas canções presentes neste trabalho. A primeira vem a ser de autoria do próprio Hercules e chama-se “Platônica”:

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A segunda canção é para entrarmos no clima carnavalesco. Trata-se de “Duda no frevo”, de autoria do já citado autor Senô:

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GERALDO AZEVEDO, 70 ANOS

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Mesmo sem a celebração da data no carnaval tão almejada por seus seus fãs, Geraldo Azevedo chega aos setenta anos em plena atividade

Quem tem a oportunidade de conhecer Geraldo Azevedo de imediato esquece o ídolo e apaixona-se por uma pessoa que tem por característica uma simplicidade imensurável. O artista que vem contribuindo de modo consistente para a boa música popular brasileira nas últimas cinco décadas fica em segundo plano, pois o ser humano Geraldo Azevedo transpassa sua consistente obra e arrebata os corações de todos que tem esse privilégio. Depois da famosa ponte que liga Petrolina à Juazeiro, Geraldo Azevedo é, sem sombra de dúvida, um dos elos mais vigorosos existente naquela mesorregião do São Francisco.

Oriundo de Petrolina, cidade localizada a mais de 700 quilômetros da capital pernambucana e de clima semiárido quente, Geraldo cresceu neste município localizado na unidade geoambiental da chamada “depressão sertaneja”, unidade que é formada pelas principais características do semiárido nordestino e dono de algumas das principais ilhas do São Francisco. O mesmo São Francisco que banhou e substanciou sua sonoridade e poesia, uma arte que na medida que foi sendo desenvolvida soube, como poucas, unir os costumes e a cultura do sertão com a cena cultural do litoral.

Sob a benção de Dona Nenzinha de Jatobá, em um domingo de lua (como ele bem descreve em “Barcarola de São Francisco”), Geraldo Azevedo seguiu seu destino tal qual descrito na referida canção para representar e defender a cultura de sua terra agregando outros valores acumulados em suas experiências pelos quatro cantos do planeta. Foi a partir de suas origens, bebendo da fonte cultural nordestina que o artista acabou tornando-se universal como hoje é possível perceber-se em seus registros fonográficos e audiovisual ao longo dos últimos quarenta e três anos, desde que ele lançou em parceria com o também pernambucano o disco “Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

Autodidata, com 12 anos de idade já estava tocando violão. Aos dezessete, ainda em Petrolina começou a fazer parte do grupo Sambossa, tocando os dissonantes acordes da bossa nova. Pouco tempo depois, objetivando os estudos Geraldo chega a efervescente capital do seu estado ainda na década de 1960 e nela tem a oportunidade de conhecer de perto a cena cultural existente a partir de nomes como Naná Vasconcelos, Marcelo Melo e Toinho Alves, músicos do Quinteto Violado; Teca Calazans, Carlos Fernando entre outros a partir do grupo folclórico Grupo Construção. Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou com a cantora Eliana Pittman. Em seguida, juntou-se a Naná Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin, formando o Quarteto Livre acompanhando o cantor Geraldo Vandré em diversos shows.

No ano seguinte tem sua primeira composição, feita em parceria com Carlos Fernando, é gravada por Eliana Pittman ao vivo pela Copacabana. Nos anos de 1970 tem a oportunidade de participar do Festival Universitário da TV Tupi com as composições “78 rotações” e “Planetário”ao lado do conterrâneo Alceu Valença. A boa performance da dupla chamou a atenção da gravadora Copacabana que em 1972 possibilita a dupla gravar o primeiro LP de ambos. Esse era o primeiro passo para uma exitosa trajetória que acabaria consolidando o seu nome entre os grandes nomes da música popular brasileira.

Seu primeiro LP solo viria a ser lançado só cinco anos depois a trazendo como grande sucesso “Caravana”, outra canção em parceria com Carlos Fernando e que fez parte da trilha sonora da novela “Gabriela”, da TV Globo. A partir daí vem acumulando diversos sucessos em sua carreira e participando dos mais distintos projetos musicais sempre de modo exitoso. Quem ouve Geraldo Azevedo ouve o eco de muitos anos de história. Do grito corajoso das canções feitas nos chamados “anos de chumbo” da ditadura militar às músicas românticas ou dançantes compostas em tempos democráticos, a obra desse petrolinense continua marcando gerações. São mais de 50 anos de parcerias bem-sucedidas, com nomes como Luis Gonzaga, Geraldo Vandré, Alceu Valença, Elba Ramalho e Zé Ramalho.

Depois de meio século de trabalho, ainda hoje, sua “Canção da Despedida”, composta com Geraldo Vandré, é entoada como hino de manifestações de protesto. Mesmo mais de três décadas depois de ser criada, a música “Dia Branco” ainda embala o casamento de apaixonados de todo o país. Geraldo Azevedo hoje é sem sombra de dúvidas um dos artistas que mais representa os ritmos tão propagados na região Nordeste. Seja o frevo ou o forró, sua arte tem embasamento suficiente para representar cada acorde advindo do seu virtuoso violão.

Apesar do aniversário ser do nosso querido Geraldinho o presente maior quem ganha somos nós sempre, admiradores de sua música e arte. Deixo aqui para os amigos leitores duas canções do repertório do artista. A primeira, para contextualizar com o período, trata-se de “Cadê meu carnaval?”, canção registrada no primeiro álbum solo do cantor e compositor petrolinense e de autoria própria. A faixa ainda conta com a adaptação de uma canção do folclore angolano:

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A segunda canção trata-se de “Coqueiros”, presente no disco Inclinações musicais, álbum de 1981, parceria de Geraldinho com Marcos Vinicius:

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Discografia Oficial

Alceu Valença e Geraldo Azevedo (1972)

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Faixas:

01 – Me Dá Um Beijo
02 – Virgem
03 – Mister Mistério
04 – Novena
05 – Cordão Do Rio Preto
06 – Planetário
07 – Seis Horas
08 – Erosão
09 – 78 Rotações
10 – Talismã
11 – Ciranda de Mãe Nina
12 – Horrível

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WESLEY NÓOG – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Socialmente engajado, o músico faz de sua arte um eficiente mecanismo de propagação das ideologias que acredita

Wesley Nóog procura unir sua arte com aquilo que acredita. A junção desses dois fatores faz do seu trabalho algo prazeroso não apenas para o artista, mas principalmente para aqueles que vem acompanhando seu trabalho nos últimos anos. Prestes a completar quinze anos de estrada, o cantor e compositor vem apresentando o álbum “Soul Assim”, projeto autoral que ressalta toda a sonoridade que o influenciou e hoje o constitui artisticamente como foi possível tomar conhecimento a partir da pauta “NINGUÉM PASSA INCÓLUME AO SEU SOM”, apresentada ao longo da semana passada. Neste bate-papo exclusivo gentilmente concedido por Nóog, ele conta-nos sobre seus planos para o futuro, a sua vivência ligada à Teologia da Libertação, suas iniciativas sociais e as agruras existentes na vida do artista independente. Vale a pena conferir! Boa leitura!

O fato de ter um envolvimento com a música desde muito jovem a partir de sua própria família foi fator determinante para que você enveredasse para a música ou você veio atinar para isso mais tarde após outras experiências?

Wesley Nóog – Meu desejo de cantar e virar um artista surgiu logo na infância. Fui influenciado pelos meus pais que cantavam no coral da Igreja Metodista. Como era tradição na minha família tocar um instrumento, comecei aos sete anos a frequentar aulas de trombone numa instituição religiosa da comunidade em São Miguel Paulista, onde morava, em São Paulo. Mas abandonei, pois não foi agradável. Depois, com oito anos, consegui meu primeiro violão e aprendi a tocar sozinho. Cresci embalado pelo ventos dos anos 80, quando a cultura brasileira passou a ocupar mais espaço na televisão e no rádio, demonstrando-se extremamente fértil e cheia de criatividade. Ouvia Roberto e Erasmo Carlos, Benito de Paula, Itamar Assumpção, Tim Maia, Cassiano, Hyldon, sempre presentes no programa Globo de Ouro da TV Globo. Todas essas estrelas inundaram minha alma e me fizeram sonhar, ao ponto de desejar estar cantando em um daqueles programas. Mas, mais perto de mim, ao lado da minha casa, havia uma família de músicos profissionais que faziam shows à noite. Como eles ensaiavam na garagem, duas vezes por semana, sempre que possível, eu encostava para apreciar o repertório, pois a qualidade do som era muito boa e bem variada, com rock, samba, bolero, baião, reggae, entre outros. Aquilo chamava muito a minha atenção e tinha uma semelhança com os artistas da TV. Eu me realizava ali.

Como era este seu contato com a música em casa? O fato de ser de uma família religiosa o permitia ter a oportunidade e também ouvir música ditas como secular ou não?

WN – Meus pais cantavam no coral da paróquia, e, em casa, viviam treinando as notas melódicas, harmônicas e as letras para apresentarem nos cultos. Também tinham hábito de ouvir rádio e vitrola, onde tocavam Altemar Dutra, Lupicínio Rodrigues, Ângela Maria, Rosa Passos, entre outros. A comunidade evangélica era aberta a outras vertentes musicais e também era possível ouvir clássicos do rock, como Led Zeppelin, Black Sabbath, Elvis Presley, entre outros, assim como os mestres da Black Music, como Marvin Gaye, Aretha Franklin, Ray Charles, James Brown. Os vizinhos me emprestavam os LPs e eu ou os ouvia na minha casa ou na deles. Todas essas influências permitiram descobrir a música sem fronteira e classificação. O que importava era a qualidade e proposta da obra.

Ao entrar no seminário você tinha pretensões em seguir de fato a carreira eclesiástica ou você já nutria o desejo de seguir carreira artística?

WN – Desde criança já sabia que seria artista. O seminário protestante, em Coronel Fabriciano (MG), foi uma oportunidade para eu ter uma formação mais sólida, uma vez que a ciência teológica abrange vários ramos do conhecimento como a História, Sociologia, Filosofia, Música, Grego, Hebraico, Latim, Psicologia, Hermenêutica, exegese, oratória, entre outras. Funcionava num regime de internato. Os estudos eram muito puxados, com uma jornada de oito horas diárias: quatro pela manhã e quatro à noite. Dediquei-me com afinco, por ter consciência do investimento de meus pais na minha formação. Durante os 12 anos no seminário, além de estudar a teoria musical, havia aulas práticas que envolviam vários instrumentos, como bateria, baixo, guitarra, cavaquinho e piano. Nos fins de semana, a escola desenvolvia um projeto que circulava pelas praças da cidade, onde fiz minhas primeiras apresentações em grupo. Quando saí do seminário, cheguei a dar aula particular de Português e Música por quase dois anos, mas logo em seguida passei a me dedicar e a sobreviver só de música, com meus shows.

Ao longo destes anos reclusos você teve a oportunidade de vivenciar de perto alguns dos preceitos da Teologia da Libertação a partir de experiências que antecederam a sua carreira artística. Hoje algumas dessas ideias refletem-se em sua arte e ações. Você procurou trazer esses conceitos para aquilo que você faz ou foi algo que acabou surgindo de modo natural?

WN – As vivências ligadas à Teologia da Libertação eram embaladas por profundas reflexões a respeito de nós mesmos e da realidade cultural, socioeconômica deste mundo que se tornou globalizado e neoliberal. Acredito que a vivência sem reflexão é o mesmo que a plantação sem chuva e sol. Murcha, seca e morre. Entendo nesse processo que para mudar o mundo seria necessário mudar nós mesmos, pois o que nos cerca é reflexo do que pensamos. O corpo segue a mente como uma sombra. Prova disso, são os projetos que ajudamos a criar, como a Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia em São Paulo), a Teoria e a Prática Musical para Adolescentes e Jovens em Medida Socioeducativa na Fundação Casa, os saraus, Poesia no Ar, Chuva de livros, Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro, entre outros.

São cinco álbuns lançados e 15 anos (a serem completados em abril) de estrada caracterizados a partir de uma grande autonomia artística e industrial. Não estar vinculado as grandes indústrias fonográficas, fazendo uma carreira de modo independente com certeza tem seus altos e baixos. Que balanço você faria de sua carreira? O que você destacaria como relevante nesse período?

WN – É uma luta diária, um desafio permanente e também uma grande paixão e um imenso prazer construir e seguir por essa estrada com cinco álbuns autônomos. Dois deles com um trabalho solo: “Mameluco Afro Brasileiro” (2010) e “Soul Assim” (2013). Não estar vinculado às grandes indústrias fonográficas é uma decisão pessoal. Isso não significa que tenha algo contra ou não queira o diálogo. A questão passa pela plataforma das propostas do mercado. Se houver propostas interessantes, estou aberto a conversar. Não quero me fechar, pois seria um contrassenso. Nossa música tem que chegar ao maior número de pessoas possível. Os altos e baixos da carreira estão presentes na vida de todo artista verdadeiro, aquele que tem compromisso e está a serviço de sua arte. Obviamente em graus diferentes, dependendo do tempo de carreira e experiência. Mesmo com inúmeros recursos tecnológicos hoje, como as redes sociais, entre outros, ainda é preciso pensar na carreira artística como quem planeja a construção de uma casa, iniciando pelo alicerce até chegar ao telhado, senão não dá caldo, fica sem consistência, não se sustenta. Não me importo com o tempo, pois entendo que ele é rei e para tudo existe um tempo em baixo sol; nada acontece fora do tempo. Fico feliz pela história escrita até aqui na música brasileira independente, amplamente exposta no Google. Foi escrita com a nossa própria mão, com muito orgulho e plena consciência de que, vivemos o presente criando futuro. Mas o que mais nos surpreendeu até aqui foi o resultado de downloads do quarto disco, Mameluco Afro Brasileiro, que chegou à casa de mais de um milhão de acessos, uma verdadeira façanha no atual cenário da música independente. Ao ponto de surgir um colecionador e arrematar os últimos exemplares da obra, que passou a ser vendida por R$ 50,00 cada no Mercado Livre. Esse álbum também me permitiu fazer uma longa viagem pela Europa, com vários shows e resultados extremamente positivos.

Os seus trabalhos são caracterizados por apresentarem uma marca bastante pessoal, em “Soul assim” não é diferente, pois você assina a maioria das faixas presentes perpassando pelos mais diversos ritmos e gêneros. Como se dá esse seu processo criativo?

WN – Aprendi com o tempo que não sou eu que tenho a música e sim ela que me tem. E a partir daí tudo muda… a gente já não é mais dono de si mesmo, apenas seu servo. As letras, os poemas, as melodias, as harmonias, os ritmos e gênero nascem naturalmente de dentro de mim, como se fossem pássaros que pousam em nosso quintal, atraídos por algum tipo de alimento ou até mesmo sem um motivo muito claro. É preciso sensibilidade e intuição para entender o que a deusa música, rainha das artes, quer da gente. Sei que música não é viagem, mas compromisso com a gente mesmo e os outros. A realidade onde estamos, as leituras, os estudos, as vivências e histórias do dia a dia são o que me movimenta e inspira a criar. Sou muito observador e curioso e quero que a minha música sirva para despertar a alegria e amenizar a dor das pessoas.

A efervescência do soul nacional se deu em especial ao final da década de 1960 e ao longo dos anos de 1970 quando vieram nomes como Cassiano, Hyldon e Tim Maia que acabaram tornando-se referência do gênero no país. Você vem de uma geração que bebeu da fonte desses nomes e hoje os representa de modo bastante substancial. Em sua opinião qual a maior dificuldade para o soul nacional voltar a ter a projeção de anos atrás?

WN – Realmente o Soul está cravado na minha origem e é a principal fonte onde fui buscar inspiração para o meu trabalho. É também filosofia e estilo de vida. A música, dentro da vertente do Samba Soul, é o nosso dia a dia, nossa vida, nosso amor e nossa paz. Para o gênero voltar a ter projeção à semelhança de anos atrás, considero um pouco complicado. O período do auge do Soul estava muito ligado às condições históricas vividas pelo Brasil naquela época, como o estágio de industrialização e o desenvolvimento do país, o que permitiu altos investimentos em entretenimento e diversão para a população. As novas tecnologias estavam engatinhando, mas a televisão e o rádio foram as ferramentas fundamentais para o alcance da massa trabalhadora, de certa forma, com custos baixos e pouco investimento. Atualmente as coisas são totalmente diferentes. O surgimento da internet e da cultura digital mudou tudo. Hoje é possível fazer um disco inteiro em casa, em um home estúdio, obviamente não se discute qualidade. As redes sociais são extremamente fortes na expansão da comunicação e o mundo parece que ficou pequeno. O Facebook, por exemplo, tem muita influência, mas é necessário pagar pelo serviço de expansão da informação nessa rede. Fora isso, há os famosos jabás, verba destinada à veiculação em rádios e tvs das músicas, e outros meios se proliferam alimentados pelo capital. Mesmo assim, entendo que o gênero pode ainda ganhar destaque e ocupar os grandes veículos de comunicação, partindo do pressuposto do investimento e da vontade política das elites. Mesmo que haja todas possibilidades aparentes, ainda é necessário muito trabalho de convencimento e negociação com o mercado. Isso não quer dizer que não seja possível construir esse novo momento, tanto que estou trabalhando firmemente para que isto ocorra.

Você faz um trabalho bastante relevante através do Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro, mostrando que a arte é uma grande aliada às causas sociais. Você poderia contar um pouco como funciona este projeto?

WN – Não conseguimos imaginar um artista que não seja cidadão, que consiga compactuar com a mediocridade e não olhe à sua volta com uma visão holística, integral e profundo amor ao próximo. O Corredor Mameluco Afro Brasileiro é uma iniciativa social catalizadora das linguagens da arte, abrangendo o cinema, a música, o teatro, o grafite, as artes plásticas, a literatura, a poesia, o áudio visual, a dança. O papel desse projeto é promover a articulação, mobilizar e realizar ações que permitam as manifestações expressivas de cada tipo de arte na periferia e no centro, por seus próprios protagonistas. Trata-se de um evento com uma programação, que estende-se das 10hs às 22hs, com horários prefixados e destinados a cada linguagem, que tem seu espaço de manifestação reservado. O encerramento dessa agenda de atividades consiste num grande show, com nomes da música brasileira conhecidos ou não e participações especias de variados artistas.

Você busca para suas letras e canções expressar um pouco daquilo o que é a periferia, realidade esta que está aquém daquilo que muitas vezes o que detém o capital determina como relevante. Você acredita que esse tipo de engajamento acaba por muitas vezes estigmatizando de modo depreciativo o tipo de arte que você faz também?

WN – Nosso trabalho é holístico, integral, está além da periferia e do centro. Na periferia ou no centro, as pessoas sentem angústia, dor, fome, sede, medo do futuro, tristeza e outros sentimentos e necessidades. Trabalhamos com o gênero humano da periferia ou do centro. Todos eles têm um coração que bate e busca a felicidade. Os termos centro e periferia estão muito deturpados pela atual visão sociológica, sobrecarregada de superficialidade e preconceitos. A palavra periferia virou termo vulgar para indicar a moradia de pobres, pretos, bandidos, assassinos, o marginal. Deixou de ser o perímetro da linguagem geográfica e ganhou o estigma da pobreza. Hoje a periferia virou centro e o centro virou periferia em grandes metrópoles. Em São Paulo, por exemplo, o centro fica extremamente vazio nos fins de semana. A periferia ferve com bailes, festas, eventos, tornando-se um grande chamariz. Para resgatar a origem da palavra periferia e carregá-la de um novo significado, dizemos que tudo que produzimos não está no centro, mas, sim, é o centro. Tudo que não produzimos não está na periferia e, sim, é a periferia. Este tipo de ‘engajamento’ pode até se tornar estigmatizado dependendo do olhar do observador. Se o olhar só quer ver a ilusória aparência e não consegue ir além, certamente não terá como ter uma visão clara da realidade e, consequentemente, terá uma falsa impressão depreciativa. A arte que desenvolvemos é a mesma que brota em qualquer lugar, desde que haja sensibilidade e percepção. Como o sol nasce e a chuva cai para todos, assim é a arte. A arte em si não sofre nenhum tipo depreciação. É imune aos nossos conceitos. A música, rainha das artes, tira o indivíduo do lugar-comum. Quem tem contato com ela, jamais será o mesmo.

O que podemos esperar de Wesley Nóog para este ano?

WN – Ao longo de 2015, temos muito trabalho pela frente na divulgação do nosso novo álbum SOUL ASSIM em shows e na Imprensa. O Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro também desenvolverá ações na capital paulista e vai cumprir uma agenda pelas cidades do interior do Estado. Enfim, serão muitas ações, que é o que gostamos de fazer.


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NINGUÉM PASSA INCÓLUME AO SEU SOM…

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Entre os mais variados gêneros Wesley Nóog mostra aquilo que lhe constitui

Com quinze anos de estrada e cinco álbuns lançados Wesley Nóog traz em sua música um balanço genuinamente brasileiro norteado principalmente pelos grandes nomes do soul nacional. Ativista cultural, poeta, cantor e compositor, Nóog traz seu DNA constituído por música, uma vez que seus pais e tios são coristas e maestros. Filho de funcionários públicos e de família religiosa baseada na tradição metodista, o pequeno Ocimar Wesley Nogueira estudou Teologia e música e teve uma infância ambientada neste contexto sempre alimentando o desejo de cantar e compor. No entanto a sua pobre infância acabou o afastando deste desejo que tanto acalentava por conta de motivos maiores. Atendendo a vontade dos pais Wesley priorizou seus estudos seguindo, aos 16 anos, para o Seminário, onde permaneceu por 12 anos sem nunca abrir mão do desejo germinado ainda na infância.

Pelo contrário, foi no Seminário que o artista teve a oportunidade de não só alimentar a sua fé assim como também mergulhar na música e desenvolver as suas aptidões para a arte a partir de um bem estruturado ambiente, onde somado a atmosfera da década de 1970 propiciou ao jovem Ocimar o ambiente ideal para sincretizar a sua arte. Vale registrar que ao longo deste período teve a oportunidade não só de estudar em uma escola estruturada numa fazenda ocupada como também foi educado e conviveu com professores que tinham como herança a Teologia da Libertação das comunidades eclesiais de base, fomentando de modo substancial aquilo que Nóog começou a desenvolver como arte a partir das influências captadas através da sonoridade de nomes como Tim Maia, Jorge Ben, Cassiano, Carlos Dafé e Hyldon, artistas de fundamental importância para a formação da sonoridade do artista.

Ligado a movimentos populares, Wesley Nóog procura levar para a sua arte um pouco daquilo que busca alcançar também enquanto cidadão desde que iniciou sua carreira em 1993 com o grupo Swing e Cia. Após cinco anos no grupo passou a integrar outro grupo, o Estação Fankalha, relevante grupo do cenário musical alternativo. Seu primeiro trabalho solo foi registrado em forma de single e foi composto por duas faixas. Intitulado de “Mameluco Afro Brasileiro”, este debute fonográfico do artista se deu em 2008 como prévia de um projeto mais ousado que culminaria dois anos depois com um álbum constituído por 10 músicas, esmerado através do resultado de um profícuo diálogo entre os ritmos existentes no Brasil aliados as influências do soul e da black music.

Nesta trajetória sempre optou por seguir um caminho alternativo aquele imposto pelas indústrias fonográficas, o que fez com que sua música fosse atrelada aquilo que lhe convinha, o que acabou favorecendo de modo substancial o seu engajamento devido as parcerias com alguns movimentos populares, como a Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) um dos movimentos artísticos mais ativos do estado de São Paulo. “Estar ligado a estas iniciativas permite que eu tenha uma visão mais clara da realidade como também ter ações transformadoras que são negadas pela educação ‘oficial’ e, acima de tudo, exercer a minha função na história como artista cidadão, aquele que vai onde o povo está”, bem define o artista mostrando a sua arte em lugares como a França, por exemplo.

“Soul assim” é um projeto totalmente autoral que busca refletir, de certo modo, como uma espécie de autobiografia coletiva, procurando registrar histórias da periferia a partir da figura de Wesley. O disco que conta com onze faixas, perpassa por gêneros como o samba soul, o funk, o charme entre outros que não só constituem toda a sua sonoridade mas também daqueles que o influencia artisticamente. Faixas como “Não Há Mal que Prevaleça”, Nóog conta que fez uma modesta leitura do suingue do saudoso mestre Tim Maia. Em “Parati” Wesley tem a possibilidade de não só prestar uma homenagem ao município do litoral carioca como também usar o título como dedicatória a partir de um jogo de palavras, o samba-soul “Melhores Sabores” trata de modo análogo alguns dos diversos sabores que extrapolam os dotes culinários.

Canções como “Chora Cuíca”, “Meu Samba”, “Vários Erros”, “Presente de Flores” e “Salve a Flor” trazem a possibilidade de ouvir e avaliar a diversidade do artista a partir de sua veia sambista. Já “Cantador Guerreiro” aborda de modo melódico e poético o sincretismo religioso existente em nosso país. O disco ainda conta com “A Esperança Passa” e “Soul Assim” que batiza o álbum deste artista que almeja um dia conquistar os fãs do ídolo Tim Maia. Em síntese pode-se afirmar que o álbum é uma espécie de autobiografia de todas as coisas que o artista vive e observa.

Produzido pelo maestro Claudio Miranda e pré produzido pelo próprio Nóog em parceria com Tiano Bless (que também é responsável pelos teclados, efeitos e moogs), a ficha técnica do álbum “Soul assim” conta ainda com nomes como Paulinho (bateria) Pikeno (percussão), Claudio Miranda (cavaquinho, banjo, baixo, guitarra, violão e percussão); Cintia Pitcci (flautas, sax e arranjos), Richard Oliveira (trombone, trompete, sax, flautas e arranjos); Nando Rangel e Celso Bernucio (guitarra musical parati) e Rafael Azevedo (contra baixo elétrico). A divulgação e prensagem do álbum contou com o apoio da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que através do Corredor Cultural Mameluco Afro Brasileiro (iniciativa criada pelo próprio Nóog).

É válido registrar que todas essas parcerias e articulações contribuíram de modo significativo para o barateamento do projeto. O disco que a princípio exigia um investimento de cerca de R$ 70 mil, saiu por cerca de R$ 20 mil, ou seja, 70% a menos que os números iniciais. Deste modo Wesley Nóog vem traçando de forma bastante peculiar a sua arte, deixando refletir-se nela tudo aquilo que a periferia assimila a partir da grande mídia e da indústria cultural em um momento de verdadeira antropofagia de nós mesmos como vocês poderão conferir ao ter a oportunidade de conhecer não só a arte mas todo o engajamento do artista.

Fica para os amigos leitores duas faixas de “Soul assim”. A primeira trata-se de “Meu samba”, canção como já dito da lavra do próprio artista:

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A segunda canção trata-se de “Não há mal que prevaleça”:

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JOÃO TAUBKIN – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Um baixo, guitarra, violão e uma bateria; eis o João Taubkin Trio, um projeto contemporâneo constituído por diversos gêneros em uma coerente unidade sonora

Se alguns sobrenomes pesam dentro da música o que João traz é um deles. João Taubkin é filho do conceituado pianista, arranjador, compositor e produtor Benjamim Taubkin, mas vem trilhando o seu próprio caminho no universo fonográfico desde 2002, quando participou da gravação do CD “Danças, jogos e canções”, da Orquestra Popular de Câmara. De lá até cá vem dando vazão a sua sonoridade não só acompanhando o seu pai, mas através de diversos projetos ao lado de outros grandes nomes da música brasileira, tais quais Paulo Moura, Léa Freire, Mônica Salmaso entre outros. Sem contar a sua trajetória internacional ao lado de nomes como o do argentino Carlos Aguirre, o do indiano Madhup Mudgal e o do suíço Laurence Revey.

Tudo e muito mais sobre o entrevistado de hoje pode ser conferido através da pauta publicada ao longo da semana anterior aqui mesmo nesta coluna. Não deixando as parcerias de lado, atualmente João hoje vem dedicando-se ao projeto João Taubkin Trio, que ao lado do baterista Bruno Tessele e do guitarrista Zeca Loureiro vem brilhantemente conseguindo encontrar o eixo central da alquimia sonora a qual se propuseram ao dar início a esta ideia. De modo bastante solicito, João Taubkin disponibilizou um pouco do seu tempo para nos presentear com esta despretensiosa e exclusiva entrevista que traz, dentre outras coisas, curiosidades a respeito de sua biografia e de sua carreira tais quais como o seu caminho cruzou com outros componentes do seu trio, suas influências enquanto músico e quais os projetos para este ano que acaba de começar.

Boa leitura!

Quem conhece a sua biografia sabe que você tem um histórico familiar de envolvimento com a música, mas isso nem sempre é fator determinante para que nos tornemos músico. Quando foi que você atinou para a música por conta própria?

João Taubkin – No inicio do ginásio criei um grupo de rock com os amigos e desde então nunca mais parei. Na época tocava guitarra. Quando terminei o colegial não sabia o que eu queria fazer, entrei no cursinho no embalo e nesse cursinho fiquei por 1 mês. Cabulava muitas aulas e comecei a perceber que não tinha sido uma boa escolha. A partir daí, decidi me aprimorar como músico e o instrumento que escolhi foi o baixo (que já tocava no colegial). Fui fazer aula com o Celso Pixinga, que foi uma pessoa importante e por volta de 2001, meu tio Daniel Taubkin me chamou pra fazer parte do grupo dele que era formado por grandes músicos como o percussionista Guello, João Crystal, Emerson Villani e Gigante Brazil. O Gigante em especial, foi uma pessoa muito importante nesse inicio, principalmente pela generosidade. Daí em diante, comecei a tocar com o meu pai e com outros grandes professores. Essa foi a minha faculdade.

Você passou todo o ano de 2010 na maturação da ideia e na elaboração daquilo do molde que você buscava para o projeto. Ao longo desse tempo houve alguma mudança significativa na concepção do João Taubkin Trio?

JT – Quando você não está mais sozinho, as pessoas que estão no processo (Zeca e Bruno) passam a influenciar o trabalho. Isso é inevitável.

Como se cruzaram os caminhos do Bruno Tessele e do Zeca Loureiro com o teu?

JT – O curioso é que conheci ambos na oficina de musica de Curitiba em momentos diferentes no inicio do ano 2000. Na experiência dessa oficina, os alunos de todos os cursos se encontravam nos intervalos pra fazer um som. Foi assim que a gente se conheceu, já tocando.

Todas as faixas presentes neste projeto levam a sua assinatura. Todas elas foram concebidas para atender a este projeto ou já havia alguma engavetada que acabou encaixando-se a esta proposta?

JT – A maioria das músicas presentes no disco não foram feitas pensando na formação de trio. Quando o trio se formou, eu adaptei as músicas.

Certa vez em entrevista seu pai comentou que haveria dois tipos de música: uma que atende a expectativa do mundo e aquela que há dentro de você. O grande desafio seria conciliar essas duas realidades. Você quando compõe leva em consideração essas realidades e procura adequá-la do modo mais harmonioso possível ou não?

JT – Eu faço música sem pensar nessas questões. Ela nasce de uma expressão genuína. Se eu gostar, coloco ela no mundo.

Ser filho de um músico do gabarito do Benjamim facilita as coisas ou a responsabilidade só aumenta? Essa inevitável referência ao nome do seu pai o incomoda?

JT – A responsabilidade aumenta mas ao mesmo tempo, ser filho dele, me possibilitou estar em contato com a música e músicos da melhor qualidade. Essas experiências sempre me colocaram em situações de muita exigência, que foi muito bom pra mim. Nunca consegui um trabalho por ser filho dele mas as experiências que tive ao lado dele são inesquecíveis. A referência que as pessoas fazem em relação ao meu pai é inevitável, mas quando as pessoas conhecem a minha música fica claro que a minha identidade é outra.

Quais as suas maiores influências que você destacaria na concepção de sua sonoridade além do Benjamim?

JT – Minhas influências são diversas mas destaco como principais o Led Zeppelin e o Milton Nascimento. Esses sons mudaram a minha vida.

É possível perceber que sua música não faz concessão. Há ramificações sonoras diversas, por exemplo, neste seu primeiro álbum. Passar longe do conceitual é uma busca constante em sua sonoridade ou é algo espontâneo?

JT – A minha busca é pela identidade. Ela nasce como resultado das experiências que vivi ou inspirada por um filme, um show, uma viagem, uma pessoa, um lugar.

A música instrumental brasileira apesar de riquíssima e de grande sucesso junto a festivais no Brasil e no Exterior não tem o espaço devido nos grandes meios de comunicação. Você acredita que este tipo de cenário é reversível ou tornou-se algo crônico, uma vez que a desvalorização de nossos valores culturais é algo que está presente em nosso consciente coletivo já há muitos anos?

JT – É uma situação delicada pois o ‘jabá’ é um sistema muito atrativo pra quem quer fazer dinheiro. Por exemplo, o artista paga pra rádio, a rádio toca a música infinitas vezes e com isso ele vende mais discos, mais shows e consegue continuar pagando esse jabá. É um sistema que se retroalimenta. Falo da rádio nesse exemplo, mas incluo todos os meios de comunicação. Daí cai na questão da educação. As pessoas são educadas por esses veículos. Esse sistema impossibilita a diversidade da informação. Quem não tem contato com uma cultura de qualidade tem o acesso muito mais restrito, pois esses veículos constrõem um muro de concreto na entrada do caminho que possibilitaria isso. Não acho que a música instrumental tenha que ser uma música das grandes massas, ao meu ver ela não tem esse perfil, mas o espaço que ela ocupa é muito pequeno, a fatia do bolo deveria ser mais generosa. Apesar disso, tem gente séria que divulga a boa música, com menos força que esses grandes veículos mas cumprem um papel muito importante.

Quais os projetos para este ano de 2015?

JT – Em 2014 o trio fez seu primeiro show fora do país, em um festival de música na Colômbia. Fora isso terei o prazer de participar de projetos de outros artistas. Sou muito feliz com o meu projeto, mas tenho muito prazer em fazer parte de outros trabalhos. Isso garante o meu sustento e me enriquece como ser humano. Amo o que faço! Eu vivo cada dia. Acho que isso afina o olhar para as coisas e abre um monte de possibilidades.


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JOÃO TAUBKIN TRIO

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Sob o comando de João Taubkin, os músicos Bruno Tessele e Zeca Loureiro, formam o João Taubkin Trio

Anotem esta receita: pegue uma boa dose de baixo acústico, acrescente uma vigorosa bateria e depois misture generosas medidas de guitarras e violões. Pronto! O resultado final pode ser degustado em nove generosas e bem deitas porções presentes no álbum “Tribo”, cujo menu traz características tão peculiares que torna mais que apetitosa a sonoridade produzida por este entrosado trio. Além disso, não pode-se esquecer ainda que toda receita tem aquele toque especial que a difere de tantas iguais. Neste caso específico, acrescenta-se ao suingue existente o ‘know how’ de cada um dos integrantes adquiridos pelos projetos paralelos de cada um.

A junção destes individuais temperos dá ao João Taubkin Trio o requinte e a sofisticação necessária para transformá-lo em sinônimo de bom gosto e prazer. A ideia de criação deste projeto surgiu e ganhou força ao final de 2009, mas só em 2011 é que de fato teve início a trajetória do trio. Neste intervalo João procurou constituir os moldes daquilo que viria a ser o seu desejo a partir de algumas composições entre outros ajustes que daria ao trio a cara que ele buscava adequar a partir da bagagem de cada um dos integrantes. A mescla das diversas influências musicais, gêneros e estilos resultou nesta instigante sonoridade produzida por este “power trio”. Uma música que não prende-se a rótulos ou fronteiras, distinguindo-se a partir de uma nova concepção sonora que abrange os mais distintos elementos que vão desde o rock and roll, perpassando pela música africana, até de chegar as fonte das influências brasileiras.

João Taubkin, como instrumentista vem agregando vários momentos à sua carreira solo desde 2002, quando participou da gravação do CD “Danças, jogos e canções”, da Orquestra Popular de Câmara. De lá pra cá atuou nos mais distintos trabalhos ao lado de músicos como Beto Villares, o grupo pernambucano Bongar, o argentino Carlos Aguirre, Mônica Salmaso, o marroquino Mehdi Nassouli, Paulo Moura, Léa Freire, Siba, Itamar Doari (Israel), Luiz Brasil, Madhup Mudgal (Índia), Laurence Revey (Suíça) entre outros. Além disso, seu nome figura em dezenas de títulos de álbuns lançados nos últimos anos aqui no Brasil.

São discos de artistas como ‘Circo de pulgas’, de Fabio Barros em parceria com o Grupo Grão; ‘São Mateus não é um lugar tão longe’, do cantor e compositor Rodrigo Campos; o projeto ‘Macunaíma Ópera Tupi’, da paulista Iara Rennó; “Entremeados” (álbum já abordado aqui por mim em outro momento) da musicista Júlia Tygel entre outros. Sem contar que o musicista, além de integrar a banda do pai, participa também de outras atividades musicais ao lado de nomes como Théo de Barros e chegou a integrar a banda Afroelectro, tudo isso levando-o a apresentações em vários locais tanto no Brasil quanto em países como Áustria, Coreia do Sul, Espanha, Israel, Marrocos, Polônia e Suíça.

Já Bruno Tessele nasceu no Rio Grande do Sul e estudou, como aluno bolsista, na conceituada Berklee College of Music, uma das maiores faculdades de música independente do mundo. Atualmente residindo em São Paulo, atua também ao lado de nomes, dentre tantos, como Marcos Paiva, Jorginho Neto, Ana Gilli, Speakin Jazz Big Band e Eliana Pittman. Ao seu currículo soma-se a experiência de ter tocado ao lado de nomes como Teresa Cristina, Filipe Catto, Arícia Mess, Elza Soares, Célia, Walmir Gil, Thiago Espírito Santo, Raul de Souza entre outros; e a participação em projetos como o CD e DVD “In Concert” do músico Gustavo Assis Brasil, o cd “Na Hora” do guitarrista Michel Leme, o cd “Sintoma” de Alex Corrêa e Adauto Dias, uma música para a edição Coreana do cd “A Kind Of Bossa” do cantor Rodrigo Del Arc entre outros. Além de todos estes trabalhos Tessele ainda lesiona no Conservatório Souza Lima e escreve para a Revista Modern Drummer Brasil.

E por fim Zeca Loureiro, que tem por principais influências nomes como The Beatles, Queen e Stevie Wonder. É casado com a cantora Nô Stopa, com a qual forma a dupla folk 2 of uS. Além dessa parceria com a esposa soma-se à sua experiência musical em participações ao lado dos mais diversos nomes dentro do cenário musical brasileiro como o da cantora e compositora Vanessa Bumagny, o do cantor e compositor Zé Geraldo (com o qual gravou o DVD “Cidadão 30 e poucos anos”) e do ator, poeta, cantor e produtor paulista André Mastro (artista já apresentado em nosso espaço juntamente com o seu projeto “Sem Descanso”).

Vale salientar que o músico é irmão do conceituado multi-instrumentista e compositor Kiko Loureiro, que além de guitarrista da banda de metal melódico Angra, vem atuando também de modo individual como no DVD que Zeca participa. Como vocalista e guitarrista da banda Jukabala gravou o disco “3 da Madrugada”, tendo a música ‘Nós dois’ como parte integrante da trilha sonora do programa Sítio do Pica-Pau Amarelo. Além de tudo isso Loureiro também atua na composição de trilhas para filmes publicitários para películas cinematográficas, tal qual a trilha sonora do curta-metragem Minami em close-up foi premiado no Festival Internacional de Cinema da Bahia.

“Tribo” chega como fruto do encontro e da soma dessas experiências paralelas e tantas outras vivenciadas por João Taubkin ao longo de quase duas décadas. Imbuído de uma capacidade, digamos Xamã, ele foi capaz de agregar os elementos precisos nesta alquimia rítmica que faz de cada faixa presente um experimento musical preciso neste “ritual de passagem” como o próprio músico define este seu debute fonográfico. Gravadas (todas ao vivo), mixadas e masterizadas por Zé Godoy. As nove faixas presentes no álbum são resultado de uma extensa gama de influências exercidas pelos inspiradores encontros estrada afora e externadas a partir de suas composições.

É possível encontrar os mais diferentes gêneros musicais nesta simbiose sonora sem se que se perca a unidade proposta. Nesta receita há música africana, jazz, música popular brasileira e rock. Empunhando seu baixo João, conta neste projeto com os temperos de Ricardo Herz (que toca violino na faixa ‘Alô irmãos!’) e do seu pai Benjamim Taubkin, ao Rhodes. É válido deixar registrado também que todas as faixas do projeto são ornamentadas com os vocais do autor, que sob efeitos diversos, não só improvisa mas também transforma esta hibrida receita idealizada por João em um verdadeiro Manjar dos Deuses.

Fica aqui para audição dos amigos fubânicos duas faixas do excelente disco do trio. A primeira trata-se de “Ponto de mutação“, canção que traz um pouco daquilo que o trio é capaz de fazer:

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A segunda canção trata-se da não menos contagiante “Trifonia“:

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COM CAMALEÃO I ADEMIR JUNIOR DÁ INÍCIO A COMEMORAÇÃO DE SEUS 25 ANOS DE CARREIRA

cj

Não poderia existir título mais sugestivo para este projeto que busca comemorar duas décadas e meia de música do artista

Os camaleões possui uma certa capacidade de imitar determinados ambientes para assim que possam ser confundidos com a pairagem na qual se encontra. Tal metamorfose é intitulada de mimetismo, e isso ocorre quando o animal troca de cor conseguindo controlar a concentração de pigmento nas células de sua pele. No âmbito sonoro alguns artistas trazem em sua música tais características, agregando a sua música capacidades que os assimilam a tal lagarto a partir de uma astúcia esmerada como vem ocorrendo ao longo das últimas duas décadas com o músico, maestro, compositor e arranjador brasiliense Ademir Junior, artista que traz em sua sonoridade uma gama de influências e técnicas, constituindo um trabalho bastante peculiar e mesclado pelos diversos gêneros que o constituem enquanto músico e a sua rica sonoridade. A julgar por tal característica, o artista já tem o respaldo necessário para este projeto que vem desenvolvendo: uma trilogia que já conta com o primeiro volume da série cujo título é Camaleão I.

Tal projeto chega objetivando a comemoração das bodas de prata de Ademir com a música, e traz como marca aquilo que constituiu a carreira do músico brasiliense desde o início de suas atividades: a capacidade de integrar-se aos diversos gêneros existentes de modo uníssono, não só mesclando de modo harmonioso todas as expressões sonoras que absorve ao seu redor, mas também transformando isto tudo que assimila em algo maior, que busca fugir daquilo que é convencional adicionando peculiaridades bastante pessoais a esta nova expressão sonora que produz. E de fato são essas peculiaridades que fazem a diferença, e podem ser atestadas não só nas diversas apresentações do músico pelo país afora, mas principalmente através dos registros fonográficos que Ademir Junior vem somando a sua biografia desde 2002, quando lançou o álbum “Gratidão”, título de cunho religioso. Além deste projeto, Junior ainda traz em sua bagagem títulos como “Vitória na cruz” (2007) e “Brasilidades” (2009), mais duas provas documentais que atestam seu talento.

Seu interesse pela música é possível afirmar que vem ainda da infância, quando ao lado do pai deu início aos seus estudos musicais a partir da clarineta. Cerca de três anos após o início destes estudos Ademir ingressa na Banda do SESI, onde permaneceu pelos três anos seguintes. Após este período integra a Banda Sinfônica da Escola de Música, onde torna-se solista e tem a oportunidade de participar de alguns concertos para clarineta. Posteriormente passa a integrar a Orquestra Cristã de Brasília, onde desenvolve de modo mais intenso as suas habilidades musicais, principalmente a partir de sua inserção na UNB, onde tem a oportunidade de estudar e conhecer conceituados instrumentistas tais quais Idriss Boudrioua, Luiz Gonzaga Carneiro, Lula Galvão e Ian Guest.

No entanto é válido registrar que o interesse pelos estudos do saxofone só veio a acontecer quando o artista já encontrava-se com 18 anos como aluno da UNB e sob forte influência de nomes como Widor Santiago e Moises Alves. Seu talento nato fez com rapidamente o musicista desenvolvesse métodos e técnicas próprias para a execução do saxofone, fazendo-o destaque não apenas no cenário musical brasiliense, mas também, aos poucos, em uma escala cada vez maior. Seja como maestro, seja executando saxofones e clarinetes, seja como arranjador ou compositor Ademir Junior vem galgando espaços mais expressivos e significativos neste cenário constituído por uma lista de relevantes instrumentistas como Pixinguinha, Vitor Assis Brasil, Mauro Senise, Léo Gandelman, Nailor Proveta, Marcelo Martins e tantos outros que fizeram a música instrumental brasileira chegar ao patamar que hoje ela encontra-se.

Vale ressaltar que o artista também atua de modo didático periodicamente em diversos festivais por todo o país, ora como professor de improvisação, ora como maestro. Seu curriculum também conta com projetos paralelos a sua carreira solo como é o caso da Brasília Big Band, hoje chamada de Orquestra JK. Idealizada em 2009 pelo próprio Ademir Junior, a big band é constituída por 17 músicos profissionais brasilienses e vem apresentando-se em diversos festivais de música em todo o país desde a sua criação. O grupo já atuou ao lado de expressivos nomes da música popular como foi, por exemplo, do concerto realizado no Espaço da Côrte em comemoração ao dia do Policial Federal onde a orquestra apresentou-se ao lado da cantora mineira Paula Fernandes, executando cinco de suas músicas.

Além disso o músico é responsável pela idealização do curso de improvisação, que surgiu em Brasília como matéria do curso internacional de verão na escola de música e já completou 20 edições expandindo-se por todo o país, motivando e educando músicos de todas as idades na arte e no conhecimento técnico da improvisação e atua também como arranjador da Banda do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Já se apresentou e gravou com vários artistas, entre eles, Hamilton de Holanda, Mat’nalia, Kiko Freitas, Jhonny Alf, Ney Conceição, Roberto Menescal, Rosa Passos, Elza Soares, Toninho Horta, Guinga entre outros expressivos nomes nacionais e internacionais como é o caso do Grupo Solo Brasil, com quem já viajou 16 países com o projeto ‘Uma viagem através da Música Popular Brasileira’.

Nesta trilogia a qual se propõe Ademir, o primeiro volume apresenta nove canções permeadas pelos diversos estilos que estruturam a formação musical do artista, fazendo jus a um título que caiu como uma luva para o projeto a qual se propõe: agregar os diversos ritmos que estruturam e estruturaram a sua formação musical. Quando abordado acerca da trilogia Junior responde: “Todos esses estilos agregados apontam para um caminho que ainda não se sabe onde vai dar, mas que não é a volta de nenhum desses e sim, algo que ainda não vivemos, pois tudo isso se chama evolução.”

A tessitura do projeto conta com nomes como o do saxofonista norte-americano Bob Mintzer, os guitarristas Alexandre Carvalho e Lula Galvão, o pianista Vitor Gonçalves, o saxofonista francês Idriss Boudrioua, o trompetista Jessé Sadoc, o baterista Rafael Barata e o baixista Jeferson Lescowich que expõem de modo preciso técnica e desenvoltura em canções como “JC” (uma homenagem ao saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane), “Feelings”, “Elegia pro Freddie” entre outros temas da lavra de Ademir Junior e de Jessé Sadoc, que assina três das faixas presentes neste arrojado projeto que, de modo veemente e eficaz, tem a capacidade de unificar distintos elementos sonoros sem perder a liga que o transforma na unidade coerente como pode-se ouvir. Tal qual a tez do multifacetado camaleão, Ademir aprendeu a ser assim ao longo dessas duas décadas e meia na qual vem transformando-se em muitos, mas sem perder a sua essência.

Fica aqui aos amigos fubânicos uma das canções presente no disco para que assim possamos iniciar o ano com o pé direito.”Pro JT” é uma canção de autoria do próprio Ademir:

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COQUETEL ACAPULCO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

cj

De sonoridade hibrida, o grupo mescla música jamaicana com influências brasileiras

O entrosado grupo carioca Coquetel Acapulco ao longo deste ano veio divulgando o álbum “Dama da noite”, projeto lançado após dois exitosos Ep’s. Este CD de estreia (também lançado em LP) chega ao mercado graças a bem sucedida campanha de Crowdfunding (uma espécie de financiamento coletivo, onde os próprios fãs e admiradores podem disponibilizar recursos para a viabilização daquilo que se deseja). O álbum, que vem somando elogios não só do público, mas também da crítica especializada traz doze faixas autorais que documentam e atestam a deliciosa e contagiante sonoridade produzida pelos jovens como foi abordada aqui mesmo em nosso espaço a partir da matéria “Eis a dissidência do óbvio”, publicada ao longo da semana passada. Através da pauta anterior pode-se conhecer um pouco mais não só da biografia, mas também da sonoridade produzida por eles, atestando que o que fazem é uma música rica e heterogênea, que tem o Ska (um gênero musical que teve a sua origem na Jamaica no final da década de 1950) como uma das principais diretrizes. Mesmo em volta a ensaios e apresentações, o Léo Mahfuz, integrante da trupe, gentilmente disponibilizou-se a nos conceder esta entrevista exclusiva, onde em nome de todo o grupo, aborda expectativas futuras, os diversos gêneros musicais que os constituem, a forma de compor as canções do grupo, a ideia de prensar o LP entre outras informações como o desejo de um registro em DVD. Vale a pena a leitura!

Como surgiu a ideia da formação do grupo?

CA – Nossa primeira vocalista, Luisa Baeta, foi a responsável pela origem da banda. Ela decidiu reunir músicos da cena independente carioca para tocar ska, em suas vertentes diversas. Não era um projeto autoral, começou como algo bem despretensioso, mesmo. Tínhamos em comum a paixão pelo ritmo jamaicano, mas ninguém sabia muito bem aonde aquilo nos levaria. A guinada foi quando começamos a trabalhar composições próprias, que já apontavam para novos horizontes. Gravamos uma demo com essas primeiras músicas e o resultado foi muito rápido: em poucos meses estávamos abrindo shows para o Móveis Coloniais de Acaju, ainda em 2005, e para a novaiorquina The Slackers logo depois.

O grupo já vai com oito anos de estrada e desde o início vem construindo uma sólida imagem dentro do gênero que abraçaram. Quais os maiores percalços para se firmarem do modo como hoje vocês estão conseguindo?

CA – Por desencontros da vida, a Luisa foi viver no exterior em 2007 e teve que abandonar o projeto. Perdemos uma vocalista, fundadora do grupo, e tivemos que retroceder um pouco, em plena efervescência de shows e EP recentemente lançado. A partir daí tivemos alguns contratempos até conseguir estabilizar a formação e amadurecer a nossa sonoridade. Mas sempre mantivemos a rotina de shows. Quando a Sílvia Tardin entrou para o grupo em 2010, já tínhamos uma identidade musical consolidada, foi mais fácil se planejar e investir no disco, na produção da banda dentro do mercado.

Apesar do ska predominar é possível afirmar que são influências distintas que constituem a sonoridade do grupo como podemos perceber ao ouvir o álbum “Dama da noite”. Quais nomes podemos destacar como maiores influências da música que hoje vocês fazem?

CA – Uma boa dica para entender a nossa sonoridade seriam as versões que tocamos ao vivo, todas releituras bem peculiares de diversos gêneros musicais. Do samba-canção de Cartola ao rock com pegada de música negra do The Clash. Do soul/funk de Aretha Franklin ao afrojazz do maestro Moacir Santos. Aliás, algumas bandas de ska do final da década de 90, como Hepcat e Slackers, foram importantes em mostrar que o gênero pode ser dançante e complexo, pode conviver com qualquer estilo que tenha a música negra como raiz, desde o blues até a salsa. Coisa que, aliás, o Paralamas do Sucesso de certa forma já tinha começado a experimentar um pouco no Brasil desde a década de 80.

Como se deu a escolha do repertório do álbum?

CA – Nós fomos para o estúdio no intuito de gravar todas as músicas autorais que faziam parte do repertório do show: 14 no total. Como o processo de gravação foi todo muito espontâneo, o critério para a escolha das 12 faixas do álbum acabou sendo as que estavam mais bem executadas, as que nos satisfizeram mais. Por isso, convivem no disco músicas dos primeiros anos da banda, com arranjos novos, e canções que compusemos na última hora, prestes a entrar no estúdio.

E o processo de composição de vocês? De que forma acontece?

CA – O processo é bem coletivo e natural. Normalmente escrevo as letras, mas já houve outros letristas na banda também. Quando alguém surge com uma ideia, seja um arranjo, uma harmonia ou uma melodia, nós vamos construindo em conjunto o esboço da canção. Definimos a célula rítmica juntos, o andamento, qual tempero a gente vai dar pros arranjos, o tom etc. Dificilmente a música já se apresenta toda delineada. O mais prazeroso é ver uma ideia incipiente ganhar um contorno completamente novo, uma abordagem que você sozinho jamais conceberia. O resultado é que o disco tem 7 compositores diferentes e várias parcerias, além da contribuição de cada integrante em todas as músicas.

Neste primeiro álbum vocês tiveram a ideia de também lançá-lo em LP. Vocês acreditam que retomada da fabricação do vinil no Brasil chega para dar um up ao mercado ou veio apenas para atender a um nicho específico de público, uma vez que os preços dos discos não são tão atrativos quanto o dos cd’s?

CA – A ideia de prensar o LP veio como algo que fazia todo o sentido pra gente: a arte da capa, uma foto colorizada, remete à época do vinil, é outra dimensão quando se tem o LP em mãos. Nosso som também se valoriza ao se escutar o vinil, por causa da compressão que é menor, dos graves que surgem. Quando convidamos o Victor Rice para produzir o disco, o caminho ficou ainda mais claro: ele trabalha a mixagem de forma totalmente analógica, ao vivo, utilizando máquina de rolo, fita magnética, mesa e efeitos não digitais. Até a ordem das faixas foi pensada como se o disco estivesse dividido em Lado A e Lado B. Quanto ao mercado do vinil, é uma questão ainda em aberto. Parte do interesse vem de um nicho de público, sim. Pessoas que, por nostalgia, modismo ou sincera preferência pelo som do vinil, podem se dar ao luxo de investir não só num LP como num toca-disco, que também é muito caro ainda no Brasil. Mas no exterior, especialmente na Inglaterra e nos EUAs, o preço não é proibitivo e as vendas já superam a dos cds (venda física). O diferencial, acredito, é que o vinil significa um retorno a uma lógica em que a música era menos banalizada, não existia shuffle (risos). O LP é sinônimo de qualidade e dificulta uma cópia fiel.

Vocês estão utilizando das mais diversas ferramentas existentes via internet para auxiliar na viabilização de projetos e divulgação do trabalho com uma boa receptividade do público. Como tem sido feito este trabalho?

CA – A internet não substitui a imprensa tradicional, menos ainda no meio musical. Mas permite que você crie novas conexões com o público, conheça-o melhor, possa interagir mais, mostrar seu trabalho e engajar o fã. O trabalho que realizamos através das ferramentas da internet, especialmente com as redes sociais e o Youtube, tem buscado esse elo constante com o nosso ouvinte: estar sempre próximo, mostrando o que temos a oferecer de novo, de singular, pensando esse contato de forma multimídia. Foi o que aconteceu com o crowdfunding que realizamos para lançar o disco, no ano passado. Preparamos vídeos de divulgação, oferecemos recompensas diferentes como aulas de canto e de instrumento com nossos integrantes, rodada de drinques, pocketshow, composição exclusiva e até a participação no videoclipe de Me Deixe Saber, que acabou contando com a presença de 13 apoiadores. Sejam por fotos, vídeos de shows, gravações de ensaio, músicas novas em versões acústicas, o importante é manter esse canal sempre vibrante, pois só assim conseguiremos dar vazão ao que produzimos, num mundo tão conectado e fluido.

Vocês recentemente lançaram o videoclipe da canção “Me deixe saber” alcançando 5 mil visualizações em duas semanas. Com este sucesso vocês já pensam na produção de um DVD ou algo semelhante?

CA – É uma boa ideia, hein (risos)? Foi muito gratificante gravar esse clipe, não tínhamos tanta consciência de como seria um divisor de águas pra banda. Só temos a agradecer à equipe da produtora Caos e Cinema, pelo talento e profissionalismo. Em 12 horas ininterruptas de gravação, foi possível captar muito bem o clima que queríamos. Dá vontade de fazer um segundo clipe, também. Mas realmente um DVD que captasse a nossa energia ao vivo seria algo fundamental. Assim como o clipe expandiu a forma através da qual o público enxerga a nossa música, gerou novas nuances, um DVD de um show permitira realçar o nosso lado mais dançante, mais pulsante, que o disco capta bem, mas ao vivo e visualmente é outra coisa.

Quais as expectativas para 2015?

CA – Para o ano que vem, o nosso planejamento é aproveitar a repercussão do disco e do clipe para viajar pelo país, mostrar o trabalho em outras cidades. Outro desejo nosso é conseguir desenvolver parcerias, musicais e também de produção de eventos, para fomentar novas possibilidades no meio. Gravar um segundo clipe seria ótimo, quem sabe até um DVD? Enquanto isso, já temos algumas composições novas que estão entrando no repertório do show, já pensando num próximo disco. Outra ideia legal seria gravar algo como o “Studio Sessions” que os americanos fazem tão bem. Gravações de vídeo caprichadas da banda em estúdio, com a possibilidade de exibição online e em tempo real. O futuro parece estar muito por aí.

Pra finalizar gostaria da opinião de vocês perante as polêmicas referentes a autorização ou não acerca de biografias. Artistas diversos estão tomando posições sobre a autorização ou não. Vocês tem uma opinião formada sobre o assunto?

CA – Confesso que não formei completamente a minha opinião. Num mundo ideal, sob o império do bom senso, a liberdade deveria ser total. A necessidade de autorização de biografias, do jeito como preveem atualmente os artigos do Código Civil, poderia sim abrir precedentes para no futuro se limitar o direito à informação jornalística. Recentemente assistindo à entrevista do Paulo César de Araújo, biógrafo do Roberto Carlos, no programa Roda Viva, alguém destacou que a biografia hoje é uma das últimas formas de se fazer um jornalismo mais profundo, com reflexão e mais independência. Compreendo esta demanda. Assim como compreendo o interesse em proteger a privacidade, pois não existe liberdade sem preservação da intimidade. Vide as espionagens americanas pelo mundo, em nome da guerra ao terrorismo. Em vez de olharmos para o mundo anglo saxão, que tem uma cultura mais tolerante com a invasão à privacidade, talvez o melhor fosse buscar outros exemplos de democracia. Prever uma indenização severa a quem ferir direitos de privacidade ou ofender a honra seria um grande passo, assim como a possibilidade de alguém que se sinta ofendido numa biografia possa colocar em destaque na capa essa contrariedade, como é na França, país que me parece ter um melhor equilíbrio nessa questão.


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EIS A DISSIDÊNCIA DO ÓBVIO

BNM

Lançado em 1928, o “Ensaio sobre música brasileira” do poeta, musicólogo e romancista Mário de Andrade traz de modo vanguardista questionamentos acerca das influências culturais na constituição rítmica, melódica e formal da música brasileira. Em dado momento a obra Andrade defende a plausível ideia de que a música brasileira existe além daquilo que consideramos como matrizes de nosso cancioneiro, inclusive procurando trazer questionamentos acerca de suas ideias. Para fundamentar seus pensamentos o escritor lança a seguinte reflexão: “(…) por causa do sucesso dos Oito Batutas ou do choro de Romeu Silva, por causa do sucesso artístico mais individual que nacional de Vila-Lobos, só é brasileira a obra que seguir o passo deles?”. Se vivo hoje estivesse e conhecesse o som produzido por esses jovens cariocas afirmaria com toda a convicção de que valeu a pena suas horas e horas dedicadas ao assunto tendo por objetivo a elaboração de compêndios sobre o tema.

Não afirmo se os jovens do Coquetel Acapulco beberam da fonte do escritor, no entanto a prática da banda condiz e muito com as teorias defendidas pelo autor de Macunaíma, pois o grupo não tem passos definidos a seguir. É preciso enfatizar que essa autonomia não os deixam sem norte, pelo contrário, o trabalho do jovem grupo (que sofre influência de diversos estilos musicais) transforma-se em uma coesa unidade sonora e que agora é possível averiguar através deste debute fonográfico em CD e LP cujo título é “Dama da noite”, e traz doze faixas autorais que misturam melodias e harmonias que trazem arraigada a identidade do grupo abordando os mais variados temas.

Criada em 2005 a banda é formada por Silvia Tardin (voz, vocais de apoio e percussão), Pedro Sucupira (saxofone e vocais de apoio), Nando Arruda (trombone e vocais de apoio), Mario Travassos (teclados), Léo Mahfuz (contrabaixo) e Filipe Rebello (bateria, percussão e vocais de apoio). Sendo da formação original apenas três integrantes: Nando, Léo e Filipe. Ao longo desses anos já passaram pelo grupo diversos vocalistas, dentre os quais Luiz Baeta, Aline Nabisi e André Monnerat. Ao longo desse período o grupo chegou a lançar dois Ep’s (o primeiro em 2007 e o segundo em 2011) e agora traz como resultado de uma bem sucedida campanha de crowdfunding (campanha para obtenção de recursos através da internet).

Sob a égide principalmente do Ska (gênero musical surgido na Jamaica na década de 1950 e que traz em sua constituição elementos sonoros caribenhos e americanos tais quaiscalipso, o jazz e o rhythm and blues), o álbum traz faixas bastante interessantes como a instrumental ‘Tango’ (Pedro Sucupira), que apesar do nome mostra de forma à brasileira porque o gênero musical jamaicano propagou-se rapidamente no mundo e o porquê dele ser capaz de contagiar à todos (sem exceção) já em seus primeiros acordes. A contagiante abertura dá pano pra manga para Silvia entoar ‘Me deixe saber’ (Léo Mahfuz) e ‘Cortesia’ (André Monnerat e Léo Mahfuz), que fundem-se em uma perfeita unidade sonora.

O baile não pára e de modo efusivo o Coquetel apresenta ‘Da noite’ (Léo Mahfuz) e continua a nos embriagar com doses sonoras mais impactantes como, por exemplo, a faixa ‘854’ (Luiz de Marcoe Mahfuz e Sucupira) canção instrumental presente no álbum que destaca o trombone de Nando Arruda. Em ‘Conga’ (Luiza Baeta, Luís de Magalhães e Léo Mahfuz) destaque para o naipe de metais. Sem perder o ritmo, o baile ainda conta com ‘Horizonte’ (Luiz de Magalhães e Léo Mahfuz) e com a dupla Sucupira e Mahfuz, que merecem destaque pelas composições ‘Amor em fuga’ e ‘Velho mundo’, faixas que mostram a leveza sonora de um grupo que vem sabendo de modo muito coeso imprimir a sua identidade. O disco ainda conta com ‘Boas maneiras’, ‘Que tal Paris’ e ‘Campo Minado’, três composições de Léo Mahfuz que endossam as mais diversas situações abordadas pelo Coquetel Acapulco no álbum. Seja o universo feminino, desencontros amorosos ou descobertas pessoais, o grupo soube muito bem quais seriam as vestimentas sonoras precisas.

Masterizado no estúdio El Rocha (SP), por Fernando Sanches, a ficha técnica do projeto conta na produção também com nomes como o do norte-americano Victor Rice, músico e produtor conhecido principalmente na música jamaicana por trabalhos como The Slackers, Easy Star All Stars eNewYork Ska Jazz Ensemble, além de por produções mais recentes no Brasil com Marcelo Camelo,Bixiga 70 e a Mallu Magalhães.

Seja ska, seja reggae ou qualquer outro ritmo que os definam o importante é o grupo soube adaptar sua sonoridade às suas diversas influências, fazendo de sua música um harmonioso painel onde a contemporaneidade convive harmoniosamente com aquilo que é nostálgico. Transformando na verdade aquilo que fazem em um delicioso coquetel de ritmos , onde souberam dosar de modo preciso aquilo que constitui o som que fazem e acreditam. Vale a pena deixar-se contagiar pela alegre sonoridade deste grupo que de modo despretensioso soube associar uma impressionante leveza ao som que fazem.

Aos amigos leitores deixo a para deleite uma das canções presentes no projeto e que acabou virando a música de trabalho da trupe. Tratas-se “Me deixe saber”, canção composta por Léo Mahfuz:

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METAMORFOSEANDO A OBRA DO PAI…

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Em 1977 Raul Seixas lançava pela Warner, gravadora recém chegada ao país, o álbum “O dia em que a terra parou”, um disco composto apenas de parcerias dele com Claudio Roberto. Dentre as dez canções existentes no LP, destaque para três faixas: a canção que dava nome ao projeto, “Maluco Beleza” (que acabou gerando ao artista cognome homônimo a composição) e “Sapato 36″, letra que traz em seu bojo a conflituosa relação entre um filho insatisfeito com as atitudes do pai que cerceiam as expectativas e projetos seus. Raul e Claudio souberam utilizar muito bem de paráfrases e outros artifícios linguísticos para dar o tom da narrativa. Frases como “Eu calço é 37, meu pai me dá 36…” explicita a insatisfação existente e que tem como veredito a abrupta mudança por si só quando o personagem diz: “Pai já tô indo-me embora… Eu quero partir sem brigar… Já escolhi meu sapato… Que não vai mais me apertar…”. Tal lição foi muito bem incutida posteriormente por Vivian Costa Seixas, que à época ainda não era nascida.

Quando o pai partiu Vivian estava com 8 anos de idade e talvez não mensurasse a grandeza da obra de Raul dentro da música popular brasileira e nem muito menos imaginava que os caminhos que viria a traçar posteriormente em dado momento se encontraria com esta obra atemporal. Tudo começou em 1998 quando a artista partiu para um intercâmbio na Austrália que durou um ano. Foi neste período que a filha ultimogênita de um dos maiores nomes da música brasileira escolheu o sapato que coube de modo mais adequado ao seu pé ao encantar-se pelos bits da house music, estilo música eletrônica estilo surgido nos Estados Unidos na primeira metade da década de 1980 derivada da disco music. Ao voltar para o Brasil adotou o nome artístico de Vivi Seixas e começou a discotecar tornando-se hoje uma das deejays mais conhecidas e prestigiadas na cena eletrônica nacional, mostrando sem delongas a hegemonia do seu DNA sobre sua arte.

“Geração da luz – Clássicos de Raul Seixas metamorfoseados” é a prova documental dessa afirmação. É um álbum com faixas que intercalam-se entre sucessos e temas menos conhecidos da lavra de Raul e seus parceiros. Dentre as onze faixas estão a versão em espanhol de um grande sucesso composto por Raul a exatamente 40 anos: ‘Metamorfose Ambulante’, canção lançada no álbum “Krig, ha, Bandolo!” e que vem atravessando as décadas intactas como uma das obras-primas da música popular brasileira. Deste mesmo álbum há também a faixa ‘Mosca na sopa’, outro hit de autoria do músico baiano. Do disco “Abre-te Sésamo”, de 1980, a Dj pincelou quatro canções: ‘Conversa Pra Boi Dormir’ (Raul Seixas), ‘Só Pra Variar’ (Raul – Kika Seixas – Cláudio Roberto) e duas parcerias entre Raul e Claudio Roberto, são elas ‘Aluga-se’ e ‘Rock das Aranha’. De 1983 vem ‘Carimbador Maluco’, cujo autoria é creditada apenas a Raul.

Da antológica parceria entre Raul e Paulo Coelho há duas canções: ‘super heróis’ e ‘Como vovó já dizia’, ambas lançadas em 1974. A primeira fez parte da trilha sonora da telenovela global O Rebu, cuja a trilha foi quase toda composta pela dupla e a segunda encontra-se no disco “Gita”, lançado em 1974. O álbum ainda conta com faixa ‘A geração da luz’, uma das parcerias existente entre os pais de Vivi e registrada em 1984 no álbum “Metrô Linha 743″.

A ideia dessa homenagem surgiu quando Vivi conseguiu junto as gravadoras vários registros a capella do pai. Dessa aquisição até a realização do projeto foram cerca de 06 anos e parece que veio a contento, pois o álbum trata-se de uma realização pessoal fundamentada no desejo de sacramentar em definitivo para as novas gerações a obra de um pai por sua filha a partir da uma nova roupagem estética e musical. “O desejo de Raul era colocar sua impressão digital no planeta terra. Hoje, realizo o seu sonho e o meu sonho de passar suas mensagens para as próximas gerações.”

O álbum foi gravado nos Estudios Hanoi Hanoi e NaGarage e conta com a participação de alguns músico como Alamo Leal (national stell, violão e guitarra), Arnaldo Brandão (baixo e guitarra), Pedro Augusto (rhodes), Donatinho (teclados) e Plínio Profeta (theremin, guitarra, baixo e piano). Plínio (vencedor de um Grammy Latino) ainda assume ao lado de Vivi e do californiano Mike Frugaletti as programações, produção e batidas. Curiosamente sob este prisma, a deejay traz ao álbum uma miscelânea sonora composta por ritmos como o hip hop, o rock, o drum and bass, o deep house, entre outros que curiosamente não fazem com que o trabalho perca a unidade peculiar na qual a obra do roqueiro baiano encontra-se eternizada. Se analisarmos bem veremos que esse experimentalismo encontra-se de modo bastante marcante também na obra de Raul conforme a própria Vivi afirma: “Ele adorava mudar, evoluir, misturar estilos, por isso não tive medo de ousar.”

Metamorfoseando-se entre bits e lembranças afetivas Vivi atesta veementemente a sua condição de destaque dentro do gênero musical ao qual abraçou. E é tocando a obra de seu genitor nas pistas de dança (e agora em disco) que o famoso bordão “Toca Raul” ganha, de modo sui generis, um novo sentido, mais vibrante e altivo. Fazendo com que as mais de duas décadas de partida do saudoso maluco beleza percam o sentido. Vivi Seixas, com toda elegância e versatilidade, substancia-se nas variantes do house e nas diversas influências que constitui o seu trabalho para fazer valer que, assim como seu pai, não vale a pena ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Para audição dos amigos leitores seguem duas canções. A primeira trata-se de “Metamorfose ambulante”, um dos maiores hits da carreira do artista baiano que aqui ganha uma versão em espanhol:

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A segunda canção trata-se de “Aluga-se”, canção regravada no início dos anos 2000 pelo grupo Titãs:

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LEONARDO BESSA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Intérprete oficial da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro a quatro carnavais, Leonardo Bessa tem em sua biografia uma forte ligação com o universo do sambas-enredo. Com mais de 25 anos de carreira, o filho do conceituado músico Reginaldo Bessa hoje participa de carnavais que vão além do Rio de Janeiro como podemos tomar conhecimento a partir da matéria já publicada aqui mesmo em nosso espaço sob o título DE MODO NADA CONTUMAZ LEONARDO BESSA MOSTRA, DE MODO SOLO, AQUILO QUE LHE CONSTITUI. Agora Bessa, que está gravando um vídeo clipe com a participação do cantor e instrumentista Xande de Pilares (vocalista do grupo Revelação), volta ao nosso espaço para conceder uma pequena entrevista onde nos conta o porquê de só agora resolver abraçar a carreira solo e nos conta também sobre futuros projetos referentes ao álbum “Parece um sonho” entre outras curiosidades acerca de sua biografia e vida artística conforme podemos conferir logo abaixo. Excelente leitura!

Quais as lembranças mais remotas do seu envolvimento com a música?

Leonardo Bessa – Minhas idas ao extinto clube do samba com meu pai quando eu tinha uns 5 anos mais ou menos.

Talvez seja possível afirmar que o seu pai seja uma de suas maiores inspirações na profissão na qual você abraçou. Quando foi que você de fato contou com o apoio dele para seguir profissionalmente a carreira artística?

LB – Minha mãe sempre foi minha grande incentivadora e meu pai era o crítico…essas duas partes me fizeram ser o que sou hoje.

A sua biografia confunde-se com a contemporânea história das escolas de samba do Rio de Janeiro. No seu ponto de vista houve mudanças significativas nessas últimas décadas no modo de compor os sambas-enredo?

LB – Muito… aliás o próprio carnaval mudou muito. Hoje o carnaval basicamente se resume na Sapucaí… na minha infância o carnaval de bairros era muito forte, eu brincava tanto que quase não assistia os desfiles na TV. Quanto ao samba enredo ele se tornou funcional e com prazo de validade. Dificilmente os sambas atuais serão lembrados daqui há 10, 20 anos… e estaremos ainda cantando os sambas dos anos 70 e 80.

Apesar de sua pouca idade o seu, digamos, “matrimônio” com o samba já ultrapassou as bodas de prata. O que você poderia destacar nesta carreira de mais de 25 anos?

LB – Ah posso dizer que no samba já fiz quase tudo… de enredo, samba, barracão, mestre sala, bateria, cavaco, ala, empurrar carro alegórico, cantar, jurado etc… etc… sou sambista de carreira

Depois de anos como intérprete não só no carnaval carioca mais de outras localidades no país só agora você resolveu lançar um álbum solo, mostrando inclusive entre outras facetas o seu lado autoral, por que só agora esse registro?

LB – É difícil demais tirar o rótulo de puxador de samba e ser reconhecido com intérprete… muito preconceito e acomodação, mas tô na luta e estou tentando quebrar esse estigma. Consegui uma pré-indicação do meu primeiro cd ao prêmio da música brasileira deste ano, pode parecer pouco para alguns, mas nenhum outro intérprete de samba enredo conseguiu chegar perto disso.

Seu nome hoje já pode ser considerado como uma das marcas indeléveis do carnaval carioca não só por sua atuação como intérprete mas também como produtor dos álbuns junto aos grupos das escolas de samba. A sua notoriedade neste universo musical facilitou para que as portas fossem abertas neste seu novo projeto?

LB – Ajuda sim, mas sonho com o dia em que teremos tratamento igual da mídia o ano todo e não só no carnaval.

Segundo o título do seu álbum você vislumbra as coisas tais quais sonhos. Aproveitando o embalo desse título ainda existe algum grande sonho ou conquista a ser realizado como profissional?

LB – Acho que o reconhecimento do trabalho e igualdade nos espaços da mídia.

Amigos de infância seus resolveram migrar do universo do sambas-enredo ainda muito novos para atuar ora em carreiras solos ou em grupos renomados como foram os casos do cantor Dudu Nobre e Do líder do grupo Molejo, Anderson Leonardo. No entanto mesmo com o boom desse estilo musical você manteve-se coerente naquilo que fazia. Você cogitou a possibilidade de lançar-se cantor naquela época? E se sim por que não arriscou?

LB – Na verdade eu tive atividades paralelas ao carnaval também. Fiz parte de alguns grupos de pagode, acompanhei vários astros da mpb, só não tive o mesmo desprendimento do carnaval. O Dudu sempre que me encontrava me dizia que eu deveria investir nisso e ter a escola de samba como um hobby… rs

Seu nome consta entre os pré-selecionados para o prêmio “Música Brasileira” com este seu primeiro projeto solo. Como você avalia esse reconhecimento?

LB – Como eu disse acima… nenhum outro interprete de samba enredo atual conseguiu chegar perto disso…

Reconhecimentos como estes são verdadeiros estímulos para dar continuidade a essa jornada. O que podemos esperar de Leonardo Bessa em 2014? Cogita registrar “Parece um sonho” em DVD?

LB – Tenho esse sonho mas preciso de apoiadores para dar vida a esse projeto.


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LEONARDO BESSA DE MODO SOLO

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Quando nos referimos a samba de qualidade lembramos quase que de imediato do Rio de Janeiro, pois ao longo dos anos a cidade acabou tornando-se um dos maiores expoentes deste ritmo de raízes africanas. Nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho, Wilson Batista, Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Noel Rosa e tantos outros não só transformaram-se em baluartes do gênero, mas como precursores fizeram verdadeiras escolas para toda uma geração de artistas que hoje figuram na vanguarda do gênero defendendo-o e fazendo com que o som que antes era feito nos morros tenha a oportunidade de descer ao asfalto figurando entre as referências da música brasileira atual.

Com esta possibilidade de sair dos morros cariocas o samba não só fincou raízes em outras pairagens assim como também agregou-se a outras manifestações culturais como o carnaval, onde a partir de 1873 através dos ranchos carnavalescos houveram as primeiras manifestações. Esses ranchos tinham como trilha sonora canções em sua maioria feitas com um andamento dolente, arrastado, deixando a euforia dos primeiros sambistas a ver navios, fazendo com que a insatisfação gerasse a ideia de criar um novo ritmo que permitisse cantar, dançar e desfilar, ao mesmo tempo.

O cantor e compositor Ismael Silva apossou-se dessa ideia e juntamente com alguns amigos criou a escola “Deixa falar”, um bloco carnavalesco e registrado, que fez a sua primeira aparição oficial no carnaval de 1929, na Praça Onze. Nos anos que sucederam este primeiro desfile foi possível perceber o surgimento das mais diversas agremiações para somar força, beleza e tradição as já existentes como é possível hoje atestar, principalmente através dos dois dias de desfiles no sambódromo carioca, evento este acompanhado por milhões de pessoas não só no Brasil como também no exterior através dos canais de televisão, o que o faz inclusive produto de exportação em nosso país. É nesse cenário, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que surge o artista que hoje trago, um músico e compositor embebecido nesta forte tradição do universo do samba: Leonardo Bessa.

O artista que deixou-se envolver com a música ainda criança por influência do pai, o Maestro Reginaldo Bessa (músico também bastante conhecido no universo carnavalesco carioca) deu os primeiros passos neste universo musical a partir da escola de samba mirim Alegria da Passarela, onde juntamente com nomes como Dudu Nobre e Anderson Leonardo (integrante e vocalista do grupo Molejo) atuou não só como intérprete mas também como compositor; posteriormente teve a oportunidade de atuar também na Aprendizes do Salgueiro, outra escola que deu-lhe a chance de mostrar suas habilidades musicais, tanto no instrumento quanto nas composições.

Desde os primeiros momentos descritos no parágrafo acima até os dias atuais passaram-se cerca de três décadas onde Leonardo, hoje com 39 anos, chegou a atuar em diversas escolas tais quais, além da já citadas, Beija-Flor, Grande Rio, Caprichosos e União da Ilha. Como intérprete oficial de escolas de samba, deu início a sua carreira por volta de 2004 no Arranco do Engenho de Dentro. Dois anos depois passou a defender a São Clemente durante três anos. Sem contar que também participa como interprete oficial no carnaval de Uruguaiana, Rio Grande do Sul onde já chegou a ganhar os carnavais de 2008 e 2009.

Está atualmente na Acadêmicos do Salgueiro, onde iniciou como apoio de carro de som e hoje, após efetivado como intérprete oficial ao lado de Quinho e Serginho do Porto, solta a voz na cidade maravilhosa fazendo a Marquês de Sapucaí tremer. Além desta característica de intérprete, Bessa já teve a oportunidade de mostrar suas habilidades como instrumentista acompanhando diversos nomes do samba como Bezerra da Silva, Moreira da Silva, Roberta Miranda, Jorge Benjor, seu pai, Neguinho da Beija-Flor e Jorge Aragão. Sem contar alguns projetos paralelos, como a produção dos cd’s da Liga das Escolas de Samba do Grupo de acesso A e B.

Atualmente o artista vem mostrando ao grande público o seu primeiro disco solo, editado pela Sala de Som Records cujo título é “Parece um sonho”. Um disco de essência autoral onde o artista dá vazão ao seu lado compositor assinando, além da faixa que batiza o disco, mais três das dez faixas existentes. Seu pai assina duas faixas em parceria com Délcio Carvalho e Ney Lopes. As outras canções presentes levam a assinatura de nomes como Gilson Bernine, Xande de Pilares, Sereno, André Renato, Espanhol, Silvio Paulo e Branca Dineve, que assina ‘Salgueiro é uma raiz‘, canção que expressa sua afetividade à agremiação a qual defende. Além desse tributo a sua atual escola o disco aborda temas recorrentes como as relações afetivas e o amor e suas variantes como pode observar-se na faixa que dá nome ao álbum, ‘Uma história de amor’, ‘Sinto que não acabou‘ e nas demais faixas. A saudade também é abordada na faixa ‘Fragmentos‘.

A ficha técnica do disco conta com nomes como Fabio Miudinho, Rafael Queiroz, Daniel Aranha, Vítor Botelho, Rafael Chaves, Fellipe (percussão geral); Luciano Broa e Paulo Bonfim (bateria); Charles Bonfim e Dudu Dias (baixo); Celso Santana e Sandro Cordeiro (teclado); Dirceu Leite (saxes e faluta); Geraldo Alves (trombone, trompete e fluggel); Gege e Rafael Prates (cavaco, violão e banjo); Daniel Aranha (bandolim e violão); Ewerton Cesar (violão); Carlinhos 7 cordas (violão); além do coro de Julia Alan, Babi Mello, Tuninho JR, Cloves Pe, Gabriel Teixeira, Débora Bessa e Marcelle Aranha. O disco ainda conta com a participação da Marcela Galv (cello) e da Bateria Furiosa do Salgueiro com Mestre Marcão, Guilherme, Gustavo, Lolo e Vítor.

Leonardo traz em seu canto uma responsabilidade inata e um incontestável papel neste cenário musical. Neste contexto resta ao samba, o mais brasileiro dos ritmos, agradecer a Leonardo Bessa todo o serviço prestado e toda devoção dedicada por ele ao longo das últimas décadas e por muitas que virão. Pode-se afirmar hoje que seu canto, somado ao de outros intérpretes da atual cena do samba carioca, é talvez a mais representativa das vozes dessa variante do ritmo que fez que o carnaval carioca ganhasse proporções inimagináveis. Os seus samba-enredos sem dúvida alguma são responsáveis por uma parcela significativa do elo existente entre a contemporaneidade do samba e o tradicionalismo, o legado deixado pelos bambas de outrora.

Deixo aos amigos Fubânicos duas faixas para audição deste debute fonográfico do carioca Leonardo Bessa. A primeira trata-se de “O sinto que não acabou“, de autoria de Xande de Pilares e Gilson Bernine:

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A segunda canção trata-se “Parece um sonho“, canção de autoria do próprio Leonardo Bessa:

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DANIELLA ALCARPE – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Recentemente trouxemos ao público leitor aqui da coluna mais uma vez o nome da cantora paulista Daniella Alcarpe, artista esta que vem divulgando atualmente o seu segundo projeto fonográfico batizado de “O tempo salta”. Técnica e talento fundem-se de modo singular nesta artista que desde o ano de 2009 resolveu aventurar-se no universo fonográfico com o elogiadíssimo “Qué que cê qué”, trazendo ao conhecimento do grande público todo o know-how adquirido ao longo de anos através dos diversos conservatórios pelos quais passou. A esse conhecimento teórico soma-se o desmedido talento e um carisma especial que a faz galgar espaços cada vez mais significativos dentro daquilo que almeja alcançar na música e a torna uma das grandes promessas da nossa MPB.

Se em um primeiro momento Alcarpe conseguiu retratar de modo bastante peculiar alguns dos tradicionais ritmos brasileiros em um projeto que buscou exibir um pouco mais o lado escuso do nosso Brasil musical, agora ela apresenta um projeto que procura mostrar toda a sua versalidade trazendo o tempo como regente. Por falar em tempo, Daniella se dispôs a conceder um pouco do seu para nos atender e responder esta entrevista exclusiva, onde fala um pouco sobre este novo álbum, o seu lado compositora e também sobre projetos internacionais entre outras coisas que vocês podem conferir a seguir. Boa leitura!

O álbum ‘Qué que cê qué’, seu primeiro registro fonográfico, foi muito bem avaliado pela crítica especializada assim como também pelo grande público. Querendo ou não isso faz com que a responsabilidade do trabalho seguinte aumente em relação ao anterior, se o contexto for tomado como parâmetro. Como tem sido a recepção de todos a este novo projeto? Tem seguido a mesma trilha do primeiro álbum?

Daniella Alcarpe – Sim, é verdade, a responsabilidade aumenta mesmo. Isso eu acho muito bom, é uma angústia construtiva, uma busca para uma evolução em direção ao Belo, ao Bom, ao Verdadeiro, no sentido grego mesmo. O primeiro CD se concentrou nos ritmos brasileiros, era uma busca das raízes. Agora, com “O Tempo Salta”, o leque se abriu, permitindo uma sonoridade mais variada, como por exemplo o tango que eu gravei. A recepção deste segundo CD tem sido muito boa. Aos poucos, a gente vai criando um público que acompanha o trabalho e isso é muito gratificante. As pessoas tem falado da maturidade vocal, gostam da seleção de músicas, dos arranjos. “O Tempo Salta” traz canções de 13 compositores. Estou bastante contente com o resultado final, mas também já estou pensando no próximo trabalho…

Como este projeto se delineou para que chegasse a ter como temática o tempo?

DA – O tempo, esse mistério, né? Hoje em dia, a gente pensa muito em espaço. O tempo se reduz ao tempo dentro do espaço: ontem, hoje, amanhã, segundos, horas, há dez anos, daqui a 20 anos. Mas o tempo é cósmico, é mítico, é misterioso. Eu queria falar deste tempo que está esquecido hoje em dia, dos lapsos de tempo na vida de cada um, do que dá sentido à passagem do tempo, dos tempos marcantes, dos tempos roubados. Na verdade, o tempo de cada um existe porque é marcado por acontecimentos: o primeiro trabalho, o nascimento de um filho, a morte de um ser querido. Ou um grande amor, uma grande desilusão, um grande susto. É nessas horas que o tempo salta. Era sobre isso que eu queria falar.

Dentro da vasta obra do Caetano Veloso você escolheu “Trem das cores” para interpretar neste álbum. Algum motivo especial para esta escolha?

DA – Caetano Veloso é meu compositor preferido. Adoro tudo o que ele faz … Ouvindo “Trem das Cores”, senti que nesta canção, o tempo é eterno. Eu a escolhi não só pela beleza, mas por ser uma contraposição aos saltos no tempo.

Há entre os compositores deste álbum alguns nomes que estiveram presentes no trabalho anterior. Qual o critério utilizado para a escolha das demais faixas?

DA – A escolha de repertório é uma atividade constante na minha vida, tenho uma “sede” de ouvir músicas novas. Também por princípio eu escuto tudo o que eu recebo. E por várias razões, de proximidade, de identidade, de admiração, eu acompanho mais de perto o trabalho de alguns compositores. É por isso que canções de Joca Freire, Zé de Riba, Lucy Casas, João Marcondes e Carlos Careqa estão em ambos os CDs. Neste segundo CD há compositores que eu queria gravar já faz tempo, como o Caetano, Kleber Albuquerque, Alexandre Lemos, Fred Martins, e algumas novas descobertas como Douglas Germano, Tié Alves e Daniel Borges. Fico procurando na obra destes artistas as mensagens que eu quero transmitir de acordo com o trabalho que estou desenvolvendo. Pode-se dizer que são as músicas que decidem a escolha dos compositores.

Vem de Carlos Careqa o título do seu álbum anterior e neste novo projeto ele é figura de destaque não só assinando algumas composições, mas também dividindo os vocais com você em uma das faixas. Você poderia nos contar como surgiu essa parceria?

DA – O Careqa eu conheci através da Lucy (Casas), compositora e grande amiga, que me mostrou os dois primeiros discos dele há muito tempo. Eu tinha 18 anos e me apaixonei pelas canções. Então, comecei a acompanhar o seu trabalho, de longe ainda. Um belo dia, peguei o telefone de contato na capa de um CD e me apresentei! Nasceu uma amizade, que só vem crescendo. O Careqa sempre foi muito generoso comigo, eu tenho uma grande admiração pelo trabalho dele e pra mim é uma alegria e uma honra ter dividido o palco com ele nos shows de lançamento de “O Tempo Salta” (na maravilhosa canção “Chorando em 2001″).

O caminho das pedras é muito mais tortuoso para o artista independente e isso vem sendo atestado por você desde o seu primeiro projeto fonográfico, no entanto você se vê livre das amarras de uma gravadora o que acaba dando ao seu trabalho uma maior autonomia, fazendo com que haja a possibilidade das coisas delinearem-se do modo como você bem quer. Em sua opinião há mais prós ou contras em um contexto como este?

DA – Eu prefiro ser uma artista independente, embora hoje em dia, existam gravadoras que dão muita liberdade ao artista. A popularização dos meios digitais, da Internet e a das redes sociais, além de novas plataformas para artistas, permite que se faça um trabalho de divulgação e aproximação com o público, sem a necessidade de grandes gastos financeiros. As tecnologias de gravação em estúdio também se tornaram acessíveis. Com tudo isso, além da criatividade e os parceiros certos, a gente consegue fazer milagres como artista independente!

Ainda neste contexto o que temos visto no meio cultural como um dos assuntos que mais tem ganho evidências nos últimos dias tem sido a PEC da música que está por ser promulgada. Há diversos pontos divergentes nesta Proposta de Emenda Constitucional que, segundo muitos artistas, procura atender a interesses apenas daqueles que vendem milhares/milhões de disco ou que estão vinculados às grandes gravadoras. Qual a sua opinião como artista independente?

DA – Acho que qualquer corte ou diminuição de impostos num produto cultural brasileiro é benvindo.

Desde o lançamento do álbum “Qué que cê qué” em 2009 que você vem sedimentando sua carreira no exterior principalmente através de redes sociais como Jango e outras. Talvez motivado por esse tenham surgidos oportunidades de apresentações sua em países como a França e os Estados Unidos. Como tem sido a receptividade do público estrangeiro nessas apresentações internacionais?

DA – É encantador como a música brasileira é recebida lá fora. Eu tenho um enorme prazer em divulgar a nossa língua, (que por si só já é super musical), as nossas melodias, nossos ritmos, nossa cultura. Estou aprendendo muito com estas experiências, pois nossas canções têm em suas letras uma profundidade e é diferente cantar e pensar em transmitir nuances poéticos próprios da língua para os estrangeiros que não entendem o português. Pois as vezes caímos no exótico e esta não é a minha ideia. Tive uma experiência interessante: após um show que fiz em NY, conversei com uma senhora do público, e conversa vai, conversa vem, expus minha angustia a ela em relação a como me fazer entender em português pra um público estrangeiro. E ela me disse para eu ficar tranquila que sua alma havia sido tocada pela musica está linguagem mágica e universal e que ao ouvir som do português mesmo sem entender nada do que eu dizia ela podia, mesmo assim, saber o que minha alma dizia a alma dela. Achei isso bem bonito isso, fiquei feliz, mas a busca continua…..

Dando continuidade ao assunto abordado na pergunta anterior vemos que há muitos casos de artistas com enorme prestígio no exterior e pouca notoriedade no Brasil. Exemplo disso são nomes como Airto Moreira, Cibelle, Flora Purim entre outros. Qual a sua opinião sobre o assunto?

DA – Acho que cada um tem seu destino, um caminho próprio a ser traçado. É muito bom para a música brasileira ter embaixadores de qualidade no exterior.

O que podemos esperar para 2015 da Daniella Alcarpe?

DA – Muitos shows! E muita pesquisa de repertório: o trabalho continua e já tenho algumas músicas escolhidas para o terceiro CD, dentre elas uma parceria minha com o Carlos Careqa.


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DANIELLA ALCARPE MOSTRA SEM SUBTERFÚGIOS QUE O SEU TEMPO É O TODO SEMPRE

De fato o tempo salta para todos conforme preconiza o título do segundo registro fonográfico da cantora paulistana Daniella Alcarpe. E por mais que ele voe e escorra pelas mãos é necessário parar e observar a artista em questão, pois seu talento vem abrindo portas e galgando espaço dentro da música popular brasileira de modo bastante peculiar. Pós-graduada em “Canção Popular”, Daniella iniciou seus estudos musicais ainda criança e, desde então, sempre procurou aperfeiçoasse ao longo dos anos. Formada em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FMU/FAAM), a artista vem procurando aprimorar seu canto nos mais diversos centros acadêmicos e musicais paulistas, dentre eles o Conservatório Musical Souza Lima. Toda esta experiência já suficiente para endossar sua arte, mostrando que o tempo (que neste projeto ela refere-se de modo tão lírico) também é responsável por substanciar o tom preciso nesta escolha musical a qual abraçou.dd

“O tempo salta”, é o seu segundo projeto fonográfico e sucede o elogiadíssimo “Qué que cê qué”, álbum lançado em 2009 e responsável pela inserção de Alcarpe entre as maiores intérpretes da nova geração da música popular brasileira. Em seu debute a intérprete emprestou o seu canto a composições inéditas em ritmos genuinamente brasileiros tais quais o samba, o baião, o frevo e o choro. Agora, quatro anos após o lançamento do seu primeiro disco, a cantora volta de modo rebuscado ao mercado fonográfico mostrando que o tempo é muito mais que o tambor de todos os ritmos. E se de fato o tempo salta, Daniella soube aproveitar-se desse impulso de modo irrefutável para nos trazer uma outra acepção acerca deste termo que nos faz medir segundos, minutos e horas. A experiência adquirida pela artista ao longo desses anos só faz com que tenhamos a certeza absoluta daquilo que certa vez escreveu o poeta curitibano Paulo Leminski: “Haja Hoje para tanto Ontem.”

Apesar dos quatro anos de intervalo entre este e o projeto anterior, “O tempo salta” apresenta-se coeso e preciso, mostrando que Daniella soube maturá-lo nos palcos do Brasil e do exterior ao longo deste hiato de forma bastante depurada. Seu canto límpido flui de modo singular em interpretações carregadas de técnicas rebuscadas e emoção, comprovando de forma incontestável que este intervalo só lhe fez bem, substanciando-lhe na medida exata toda expectativa de um público que já estava ávido por um novo trabalho. Este projeto evidencia que não dúvida alguma quanto ao seu talento e vocação. Fugindo do convencional, o canto de Alcarpe procura não tomar conhecimento de obstáculos e delimitações, fluindo e emocionando independente das medidas convencionais atribuídas ao tempo, em momentos de deleite que tornam-se eternos, pois não há hora marcada para aquilo que nos dá prazer.

“O tempo salta” é composto por onze canções. Dentre as inéditas há também as regravações de ‘Trem das cores‘, da lavra de Caetano Veloso e gravada originalmente em 1982 no álbum “Cores, nomes”. O disco ainda conta com nomes recorrentes no repertório da cantora como o do ator, cantor, produtor e compositor catarinense Carlos Careqa que assina duas regravações: ‘Acho‘ (canção composta pelo a e registrada pelo autor em 1993 no álbum “Os homens são todos iguais”) e ‘Chorando em 2001‘ (onde Careqa divide os vocais com Daniella), assinada em parceria com Chico Mello no disco “Música para final de século”, de 1999. Presente no disco estão também o maranhense Zé de Riba autor da canção ‘Passarim‘, registrada pelo mesmo em 2009 no disco “Não tenho culpa se você não sabe sambar”; já o segundo é Fred Martins. autor da canção ‘Novamente‘ interpretada pelo autor em 2007 no álbum “Tempo afora”, mesma época em que Ney Matogrosso a incluiu no roteiro do elogiado espetáculo “Inclassificáveis”. Vem dos versos desta composição a inspiração para o título do álbum.

Dentre as faixas inéditas há ‘Lágrima de Amor‘, um belíssimo tango composto pelo cantor e compositor paulistano Tiê Alves e que apesar do bandoneon vem imbuído substancialmente de uma brasilidade que evidencia-se não só na interpretação da cantora como também em seu arranjo. Isso mostra uma característica que vem mantendo-se evidente desde o primeiro álbum da artista: a necessidade de edificar uma sonoridade própria, onde a tradição e o regionalismo mescla-se de modo harmonioso com a contemporaneidade como pode-se perceber em faixas como ‘Choro‘, composta por Kléber Albuquerque e que também traz em sua essência a marca que Alcarpe vem pontuando. o experiente cantor e compositor Joca Freire apresenta-se em parceria com Daniel Borges assinando a canção ‘Véu‘. A canção retrata a história de uma eterna espera de uma noiva que espera seu pretenso futuro marido voltar de uma pescaria, no entanto este dia nunca chega. Ainda há no álbum o choro ‘Realmente‘, de autoria João Marcondes e a ‘Canção de desmeninar‘, composta por Douglas Germano. O álbum encerra com ‘Obrigado‘, um samba composto por Lucy Casas.

A ficha técnica do trabalho além da assinatura da cantora conta também com nomes como João Marcondes (violão, coro, percussão, bandolim, produção, conceito, arranjos e direção musical); Gilberto de Syllos e Franco Lorenzon (baixos acústicos), Kabé Pinheiro (percussões); João Poleto (flautas e saxofones); Micaela Marcondes (violino); Martin Mirol (bandoleon); Rafael Mota (congas); Júlio César Barro (atabaques); Nani Barbosa (coro); Daniel Conti (coro); Daniel Cukier (produção executiva), Adriano Gambarini (fotografia), Daniel Canton (arte) e Felipe Ferreira (cabelo e maquiagem).

Se o poeta pede ao tempo o prazer legítimo, Alcarpe vem sabendo muito bem traduzir esta condição ao longo da trilha que resolveu seguir preconizando versos e melodias de modo contínuo neste caminho escolhido. A cantora não deixa limitar-se pelo ontem, o hoje ou o amanhã. Ela mostra-se atemporal na concepção de um som que foge dos convencionais rótulos existentes. Sua música vai além e o seu tempo faz-se tambor de todos os ritmos, pois ele torna-se algo maior e essencial nesta busca. Deste modo ela atesta que seu canto é um prazer que está aquém de todas as medidas, e por mais que o tempo salte sua sonoridade de tão coesa é capaz de fugir de qualquer delimitação de modo indelével, mostrando que sua música é algo maior que qualquer decurso existente.

Para deleite dos amigos, deixo aqui duas canções presentes neste mais recente projeto fonográfico de Alcarpe. A primeira trata-se da canção ‘Trem das cores‘, de autoria do cantor e compositor Caetano Veloso que ganhou o registro do autor em 1982 no álbum “Cores, Nomes”:

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A segunda canção trata-se de ‘Novamente‘, canção também interpretada por Ney Matogrosso como foi dito ao longo do texto:

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PERNAMBUCO FREVANDO PARA O MUNDO GANHA NOVO VOLUME

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Fábio Cabral não se cansa. Seja através de sua Passadisco (loja cultuada por artistas e parada obrigatória para todo aquele que se diz admirador da boa música brasileira) ou através dos diversos projetos nos quais está envolvido (como, por exemplo, o que foi aprovado junto ao Funcultura onde na área externa de sua loja servirá como palco para diversos show em pró da música, em especial a produzida em Pernambuco).

Dono também do selo homônimo a loja, o empresário lançará em breve mais um título que endossa a proposta inicial deste seu bem intencionado selo: divulgar a música pernambucana para além de nossas fronteiras a partir de características pra lá de peculiares sem a menor distinção de gêneros, corroborando de modo imprescindível para atestar o porquê a música produzida na terra de Capiba e Nelson Ferreira é considerada uma das mais representativas do cenário nacional.

A priori criado para o lançamento dos títulos idealizados por Fábio, o selo hoje já conta com cerca de doze títulos dentre os quais o EP do “Projeto Sal”, banda capitaneada por Jader Cabral e que traz em sua sonoridade um efervescente caldeirão de boas influências; o álbum “A.m.a.r.t.e”, primeiro projeto fonográfico solo da talentosa cantora pernambucana Cláudia Beija e “Luar Agreste no Céu Cariri”, álbum onde o compositor Xico Bizerra adorna com sua poesia onze melodias do saudoso Dominguinhos e que são interpretadas por alguns dos mais expressivos nomes da música nordestina tais quais Elba Ramalho, Socorro Lira e Maria Dapaz.

Merece destaque também a série de álbuns lançados a partir de 2006 cujo título vem a ser uma alusão a um dos slogans da Rádio Jornal do Commercio. Sucesso de crítica e público, a série que surgiu com o título “Pernambuco cantando para o mundo” ao longo dos anos foi aglutinando e gerundiando ritmos e hoje conta com títulos como os volumes dois e três da série já citada, o box triplo “Pernambuco forrozando para o mundo”, uma justa homenagem feita a Dominguinhos ainda em vida; e o “Pernambuco frevando para o mundo”, que teve o seu primeiro volume lançado em 2011 e que ganha agora o segundo volume.

Neste lançamento, Fábio selecionou 36 faixas (dentre as quais três inéditas) e conta com a adesão de nomes como Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Antonio Nóbrega, Elba Ramalho, Casuarina, Claudionor Germano, Moraes Moreira, Mundo Livre S/A, Quinteto Violado e Spok Frevo Orquestra. As inéditas são “Frevo morgado“, composta por André Édipo e China a canção fará parte do quarto álbum solo do ex-vocalista do Sheik Tosado; a segunda inédita é “Ritual encantado” de autoria de Tális Ribeiro e Paulo Carvalho e ganha registro nas vozes das cantoras Cláudia Beija, Cristiane Quintas e Nívea Amorim.

Por fim, a inédita “Capibaribe em chamas“, da lavra do vocalista do Projeto Sal Jáder Cabral de Mello. O jovem divide a interpretação da faixa com Herbert Lucena, artista pernambucano que ganhou projeção nacional em 2012 quando ganhou em três categorias o Prêmio da Música Brasileira, o antigo Prêmio Sharp. Assim como o primeiro volume o projeto gráfico ficou sob a batuta de Ana Rios e as fotos a cargo do fotógrafo Mário Carvalho, saudoso fotógrafo do Departamento de Documentação e Cultura da Prefeitura do Recife.

Dentre as faixas presentes, segue abaixo para audição duas dessa coletânea que, apesar do segundo volume, por si só faz-se ímpar. A primeira trata-se de “Frevo dengoso”, de autoria de Don Tronxo, com interpretação de Alceu Valença:

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A segunda canção é o Frevo-de-bloco “O bom Sebastião”, de autoria de Getúlio Cavalcanti que, apesar das inúmeras interpretações, nesta seleção ganha a voz de Moraes Moreira:

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Eis as faixas que irão compor esta nova compilação do selo Passadisco:

Lado A:
01 – Frevo dengoso (Don Tronxo) – Alceu Valença
02 – Chuva de sombrinhas (Nena Queiroga/André Rio/Beto Leal) – Nena Queiroga
03 – Frevo morgado (China/André Édipo) – China
04 – Frevo de bolso (Maestro Forró) – Orquestra Popular da Bomba do Hemetério
05 – Frevo Ariano (Don Tronxo/Marcondes Sávio) – Don Tronxo
06 – Flabelo das ilusões (Heleno Ramalho) – Claudionor Germano + Miúcha
07 – Hino da Troça (Milton Bezerra) – André Rio
08 – Capibaribe em chamas (Jáder Cabral de Mello) – Projeto Sal + Herbert Lucena
09 – João Alexandre no frevo (Ivan do Espírito Santo) – Ecology Trio
10 – Olinda, oração do folião (Sérgio de Andrade) – Sérgio de Andrade + Geraldo Maia
11 – Dionísio, Deus do vinho e do prazer (Péricles Cavalcanti) – Maria Alcina
12 – Bom é Batuta (Carlos Fernando) – Gonzaga Leal + Orquestra Popular do Recife
13 – Ritual encantado (Tális Ribeiro/Paulo Carvalho) – Cláudia Beija, Cristiane Quintas e Nívea Amorim
14 – O menino do pirulito (Toinho Alves/Luciano Pimentel) – Quinteto Violado
15 – Frevoltando (Elton Ribeiro/Tavinho Limma) – Tavinho Limma
16 – (Felipe Soares) – Cabugá + Fábio Trummer
17 – Nóis sofre, mas nóis goza (Bráulio de Castro/Genival Lacerda) – Genival Lacerda
18 – Transcendental (Cláudio Almeida) – Orquestra do Maestro Duda

Lado B
01 – Ponta da pata (J. Michiles) – Geraldo Azevedo
02 – Roda e avisa (Edson Rodrigues/J. Michiles) – Elba Ramalho
03 – Frevo da mistura (DJ Dolores) – DJ Dolores (part. de Maciel Salú e Isaar)
04 – Moraes é frevo (Spok) – Spok Frevo Orquestra
05 – Me segura que senão eu caio (J. Michiles) – Lula Queiroga
06 – A dor de uma saudade/Alegre bando/Valores do passado (Edgar Moraes) – Coral Edgar Moraes e Bloco da Saudade
07 – O bom Sebastião (Getúlio Cavalcanti) – Moraes Moreira
08 – O velho James Browse já dizia (Fred Zeroquatro/Areia/Joe/Tom Rocha) – Mundo Livre S/A
09 – Esse é o tom (César Michiles) – César Michiles
10 – De onde se avista Olinda (Leninho de Bodocó/Zé Maria) – Leninho de Bodocó + Silvério Pessoa
11 – A melodia de fevereiro (Walter Areia/Mônica Feijó) – Mônica Feijó
12 – Frevo do contra-éxodo (João Cavalcanti) – João Cavalcanti + Casuarina
13 – Frevo das rosas (Josias Lima/Kléber Araújo) – Josildo Sá
14 – 8 baixos no frevo (Zé Calixto/Adaptação Arlindo dos 8 Baixos) – Arlindo dos 8 Baixos
15 – Folia geral (Maurício Cavalcanti/Marcelo Varella) – Maurício Cavalcanti
16 – Recifoliando (Beto Hortis) – Arabiando + Beto Hortis
17 – Canoa Furada (Siba) – Siba e a Fuloresta
18 – Despedida (DP/Wilson Freire) – Antonio Nóbrega


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AS RAINHAS DO RÁDIO: PORTUGAL TAMBÉM TEVE A SUA REPRESENTANTE

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Hoje, antes de dar início a esta coluna, venho a público pedi perdão pelo grande equívoco realizado ao longo da semana passada quando trouxe a figura da Dalva de Oliveira como última Rainha dentre as dez que fizeram história no rádio brasileiro. Na verdade, ao contabilizar as semanas, vi que eram nove e, portanto, faltava ainda uma a ser abordada. Lembrei-me que, dentre as brasileiras, Dalva de fato era o último nome apresentado, no entanto, ainda faltava o nome da portuguesa Ermelinda Balula (que preferiu adotar como nome artístico o Heterônimo Vera Lúcia).

Nascida distante das paragens brasileiras, Ermelinda na verdade vem de Portugal, mais precisamente de Viceu, cidade localizada ao norte do país e que hoje conta com pouco mais de 50 mil habitantes. No entanto a sua carreira artística se deu no Brasil, em 1951, quando lançou através do pequeno selo Elite Especial o seu primeiro registro fonográfico onde interpretava um samba de autoria de João de Barro e Alberto Ribeiro intitulado “Copacabana” e o baião “Veio Amô“, do compositor Humberto Teixeira. Ainda no mesmo ano chegou a gravar um dos grandes sucessos de sua carreira, a marcha “Rita Sapeca“, composta pela dupla Klécius Caldas e Armando Cavalcanti (no ano seguinte voltaria a gravar esta mesma dupla de compositores com o samba-canção “Verdadeira razão“).

Entre marchas, sambas, baiões e outros gêneros Vera Lúcia gravou diversos compositores brasileiros e foi aos poucos ganhando a empatia do público a partir de singulares interpretações como a do samba “Não vou chorar” (Humberto Teixeira e Felícia Godoy), a da marcha “Pagode chinês” (Ari Monteiro e Irani de Oliveira), a do “Baião da saudade” (Fernando Jacques), e a dos sambas “Vou-me embora” (Humberto Teixeira e Felícia Godoy) e “Eu não perdoo” (Paulo Menezes e Nilton Legey); além dos sambas-canção “Molambo” (Jaime Florence e Augusto Mesquita), “Filha diferente” (Raul Sampaio e Rubens Silva), “Intriga” (Altamiro Carrilho e Armando Nunes), “Eu sei que você não presta” (Chocolate e Mário Lago), o clássico fado canção “Nem às paredes confesso” (Artur Ribeiro, Max e F. Trindade), “É tarde demais” (Hianto de Almeida) entre outras registradas apenas na década de 1950.

Nesta mesma década a artista chegou a atuar no pequeno selo Elite Special, além das gravadoras Odeon, Sinter e Continental. Aliás, foi esta última responsável pelo lançamento do samba “Valerá a pena” (Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima), canção que acabaria tornando-se uma das pérolas da fase urbana do compositor baiano. Vera, foi responsável também pela gravação de clássicos da MPB como os samba-canções “Castigo” (Dolores Duran), “Por causa de você” (Tom Jobim e Dolores Duran) e composições do maestro soberano Tom Jobim como o samba “Este teu olhar” e o samba-canção “Porque tinha de ser” (este em parceria com Vinicius de Moraes.)

Eleita para ser Rainha do Rádio no ano de 1955, Vera Lúcia teve a sua vitória bastante influenciada por decisão de gaúcho Manoel Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Rádio e apresentador de um programa homônimo do seu nome na Rádio Nacional ao longo de diversas quintas-feiras. Manoel queria a todo custo homenagear a cantora Carmen Miranda, que estava no Brasil para tratar de alguns problemas de saúde. E teve a ideia de eleger uma portuguesa para ser a Rainha daquele ano (Há de registrar-se que Carmen era portuguesa de nascimento assim como Vera.) O radialista através de sua influência junto aos meios de comunicação articulou de modo tão competente que a sua candidata acabou sendo eleita. O que não esperava-se era que sua votação fosse tão inexpressiva se comparada com os votos ganhos na eleição do ano anterior.

Um ano antes Vera Lúcia havia perdido a eleição para Ângela Maria e tornado-se princesa com a expressiva marca dos mais de 900 mil votos (marca nunca antes atingida nem mesmo por nenhuma das Rainhas anteriores). No entanto ela não contava com uma votação mais indelével ainda dada a Sapoti como chegamos a ver ao longo de uma das matérias anterior. Como a nova Rainha estava sucedendo a Ângela Maria, era esta quem, por tradição, deveria colocar a coroa sobre a cabeça da eleita. No entanto não foi o que de fato aconteceu. A coroa foi entregue das mãos da Pequena Notável, a figura mais ilustre da festa e que encontrava-se em visita ao Brasil, como foi dito, para tratamento de saúde.

Em sua coroação, no dia 15 de fevereiro de 1955, ocorreu um espetáculo no mínimo inusitado: A sua entrada no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, foi extremamente pomposa. Conduzida em um andor por quatro atletas que vestiam a camiseta do Clube de Regatas do Flamengo a cantora chegou de modo triunfal. Ângela Maria não gostou, torceu o nariz e nem ficou para o baile. A revista “O Cruzeiro” publicou uma reportagem narrando estes acontecimentos em sua edição do dia 5 de março de 1955. Vale deixar o registro que a sua fama não restringiu-se apenas ao Brasil. Sua voz alcançou a América do Sul e a Europa através de países como Portugal, Argentina e Uruguai, onde a cantora chegou a cantar.

Fica aqui então, como de costume, duas faixas interpretada pela artista portuguesa. A primeira trata-se de “Serenata do Adeus“, de autoria do poetinha Vinicius de Moraes em uma gravação de 1959:

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A segunda faixa trata-se do samba “Janelas do mundo”, de autoria de Billy Blanco e gravada, salve engano, em 1958:

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RAINHAS DO RÁDIO: ENTRE FARPAS E CANÇÕES

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Dalva de Oliveira (Mai/1917 – Ago/1972)

A artista hoje em questão contribuiu de modo ímpar para a música popular brasileira. Paulista de Rio Claro (cidade localizada a 195 km da capital São Paulo), Vicentina de Paula Oliveira nasceu no dia 05 de maio de 1917 e tornou-se nacionalmente conhecida como Dalva de Oliveira. Aos dezessete anos Dalva conhece Herivelto Martins que formava ao lado de Francisco Sena o dueto Preto e Branco. Naquele primeiro encontro, de certo modo, estava sendo criado a gene para o Trio de Ouro, pois pouco tempo depois Dalva passaria a acompanhar a dupla formando ao lado deles um do grupos vocais de maior sucesso no Brasil na primeira metade do século XX.

Do envolvimento profissional com Herivelto para o afetivo foi um passo. Dalva inicia um namoro com o compositor e, em 1937, oficializam a relação. A união daria ao casal dois filhos: os cantores Peri Oliveira Martins, o Pery Ribeiro, e Ubiratan Oliveira Mar. Chegaram a passar dez anos casados até que as constantes brigas e traições por parte de Herivelto deram fim ao casamento. Em 1949, quando a relação com o ex-marido encontrava-se totalmente abalada, Dalva resolve separar-se dele também profissionalmente desligando-se do Trio de Ouro.

Um ano depois a artista retoma a carreira de maneira solo lançando canções como Olhos verdes (Vicente Paiva) e Ave Maria (Vicente Paiva e Jaime Redondo). Há quem afirme que Herivelto (a partir da colaboração do jornalista e compositor David Nasser, do “Diário da Noite“) fosse responsável por matérias mentirosas que difamavam a moral de Dalva nesse período. Tais notícias fizeram com que o conselho tutelar mandasse os filhos do casal para um internato sob a alegação de que a mãe não possuía uma boa conduta moral para criá-los. Dalva lutou pela guarda dos filhos e sofreu muito por isso, protagonizando um dos capítulos mais emblemáticos da história da música brasileira de todos os tempos como foi, de certo modo apresentada, na minissérie Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor, produzida pela Rede Globo em 2010.

Este episódio litigioso entre o casal rendeu canções memoráveis e enriqueceu de modo bastante valioso o acervo do cancioneiro popular brasileiro nesta briga musical. O início do embate se deu com a gravação por Francisco Alves da clássica “Caminhemos“, seguida pela canção “Cabelos Brancos“, registrada pelo grupo 4 Ases e Um Coringa. As respostas viria logo em seguida pelos compositores Lourival Faissal e Gustavo de Carvalho que fizeram para Dalva a canção “Mentira de amor“, assim como também pelas mãos dos compositores J. Piedade e Oswaldo Martins, responsáveis pela composição do samba “Tudo Acabado“.

Talentosíssimo, Herivelto respondia à altura e expunha suas mágoas nos sambas e boleros que ele próprio compunha, enquanto Dalva tinha o apoio de alguns dos grandes nomes da música brasileira como Nelson Cavaquinho, Ataulfo Alves, entre outros que a partir da década de 1950 foram responsáveis por canções como “Falso Amigo“, “Que Será“, “Calúnia“, “Errei Sim“, “Palhaço“, entre outros.

O sucesso de Dalva acabou fazendo com que assinasse contrato com a Rádio Nacional e a sua popularidade junto ao público a habilitava como a candidata favorita da emissora para o concurso de Rainha do Rádio. Seu sucesso era tamanho que não foi difícil obter a vitória na disputa para Rainha do rádio do ano de 1951. Tal feito acabou despertando a fúria do ex-marido que chegou a afirmar em um dos vespertinos da época que a Associação Brasileiro de Rádio não destinava o dinheiro arrecadado com o concurso para a construção do hospital que propagava, declaração esta que acabou gerando para o compositor um processo pelo crime de calúnia.

A sua condição de Rainha do rádio daquele ano serviu para corroborar e atestar de modo definitivo o nome de Dalva como uma das grandes intérpretes da música popular a partir das cerca de 400 gravações deixadas ao longo de mais de três décadas de carreira. É com esta grande estrela de nossa música que hoje chego ao fim (após dez semanas) a abordagem de todas as “Rainhas” do rádio brasileiro. Foram nomes que marcaram toda uma geração e época. Um período bem diferente do que hoje vivemos e que, para muitos, é motivo de saudades. Aproveito a oportunidade para agradecer aos leitores saudosistas (assim como eu) ou não que ao longo dessas diversas semanas fizeram-me companhia nessa viagem a uma época que hoje habita os mais recônditos sonhos. Foi um prazer viajar com vocês e, de certo modo, poder “vivenciar” um período ao qual não tive a oportunidade de viver, mas que foi possível conhecer através dessas prazerosas “sessões de regressão”.

Como de costume ficam duas canções do repertório da artista. A primeira trata-se do samba “Palhaço“, canção de autoria do Nelson Cavaquinho, do Wasghinton Fernandes e do Osvaldo Martins. Alguns afirmam que esta canção, gravada em junho de 1951, veio em reposta ao samba “Consulta teu travesseiro” do Herivelto em parceria com Benedito Lacerda:

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A segunda canção é o bolero “Você“, parceria entre e Hércio Expedito e Laércio Veira, lançada em 1960:

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