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QUARTETO PRIMO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Se a clave de sol é o símbolo musical que indica a posição da nota em uma pauta; nas composições de Dorival Caymmi (1914-2008) o que se mais evidencia são as claves de sal. Sim! Claves de sal! o mesmo sal que vem de um vigoroso mar que banha e substancia boa parte do repertório do mestre baiano. Caymmi soube desbravar como poucos e de maneira singular o mistérios e segredos do mar em verso, prosa e melodia. Dentre outras características, o artista soteropolitano soube como ninguém abordar também nuances de uma Bahia idealizada pormenorizada em sambas, sambas canções e tantas outras melodias, coisa vista apenas nas páginas da bibliografia de artistas do quilate de Jorge Amado e nas letras e melodias deste, que é o “navegador das águas da canção”, como certa vez definiu Paulo César Pinheiro.

E foi centrado nesse mar de sonoridade do universo do mestre Caymmi que as imãs Elisa Lacerda e Malu Von Krüger somaram seus talentos aos dos primos Matheus, Rogério, sob a orientação e produção de Muri Costa (vale salientar que o maestro acompanhou o próprio Dorival durante muitos anos pelos palcos do Brasil e do exterior) e formaram o Quarteto Primo, grupo vocal que abordou de maneira toda particular o repertório do compositor de clássicos da MPB como vocês podem observar ao longo da pauta “QUARTETO PRIMO ESTREIA EM DISCO DE MANEIRA VIGOROSA SOB A ÉGIDE DE UM OBÁ DE XANGÔ”, publicação esta que saiu aqui mesmo neste espaço ao longo da semana passada. Hoje trago novamente o Quarteto esta informal conversa, onde falamos, dentre outras coisas, sobre a relação com o produtor do disco e a impressão deixada do disco ao descendente Danilo Caymmi, filho do mestre baiano que participa do disco, como vocês podem conferir abaixo.

Como se deu a formação do Quarteto Primo? Dos quatro quem foi aquele a primeiro cogitou a possibilidade dessa formação?

Quarteto Primo – Como somos uma família muito grande e que está sempre junta essa parceria musical sempre existiu informalmente. A Malu lançou a idéia do projeto Dorival e quando veio a possibilidade de gravar um cd essa formação surgiu naturalmente. Malu, Eliza e Matheus já cantam profissionalmente e quando cantavam no coro os arranjos do Muri Costa para as canções do Dorival o Rogério também fazia parte deste coro. Foi tudo muito natural.

De todos os integrantes o único que não exerce profissionalmente a carreira de cantor é o Rogério. Como é que ele acabou neste projeto?

QP – O Rogério, apesar de fotógrafo, sempre esteve envolvido com música, seja em projetos próprios ou nos discos gravados pelos primos. Canta em corais há anos, e quando surgiu a ideia do quarteto, contamos com eles desde o princípio.

Caymmi é um dos poucos artistas que tem toda a sua obra baseada no perfeccionismo. Deve ter sido difícil a escolha do repertório. Como se deu a escolha das músicas para a elaboração deste disco?

QP – Foi uma difícil tarefa! Já existia uma pré seleção feita pelo Muri para o projeto do livro dele de arranjos e acabamos aos poucos optando pelo universo praiano do Dorival. O dia a dia, os sentimentos e os anseios dos pescadores está permeando o disco todo. É um disco de canções de amor e de mar.

Como foi a receptividade e as respectivas opiniões da Nana, do Dori e do Danilo sobre o projeto?

QP – Não sabemos as impressões de todos, mas o Danilo, que nos deu a honra de participar de uma das faixas do cd, sempre se mostra muito feliz com o resultado!

Como aconteceram as adesões de Cristovão Bastos e Jaques Morelembaum, dois grandes nomes da música brasileira, neste projeto fonográfico de vocês?

QP – O Cristóvão é primo da Malu e Eliza, e como é um disco em família, sua participação aconteceu muito naturalmente. O Jaques é amigo e parceiro musical do Muri desde os anos 70, quando tocaram juntos no grupo “A Barca do Sol”, e nos deixou bastante orgulhosos em aceitar o convite. As duas contribuições no disco são brilhantes!

Na biografia musical de alguns integrantes e em particular na do Quarteto, o Muri Costa é um nome bastante presente. Há como mensurar a importância dele?

QP – Ele é fundamental em vários aspectos, pois alem de ter escrito os arranjos, dirigido e produzido o CD, ele traz uma vivência singular do universo Caymmi, que não conheço outra pessoa que tenha. Acompanhou o próprio Dorival nos últimos 10 anos de carreira do mestre, alem de acompanhar por muitos anos os filhos Nana e Danilo.

O projeto gráfico da Maria Esther Lacerda von Krüger presente no disco é algo que também chama a atenção de quem manuseia o álbum. Parece-me, salvo engano, que foi feito sobre as pinturas de Dorival não é isso?

QP – Dorival, além de compositor, dedicava uma parte de seu tempos à pintura e aos desenhos. Maria Esther, que é mãe da Malu e da Eliza, ia assistir as gravações do disco no estúdio e, inspirada pelas canções, escolheu algumas pinturas do mestre baiano para fazer bordados. Assim começou a nascer a idéia do projeto gráfico feito pela agência Motiva. Quando os painéis ficaram prontos não restou dúvida: era a capa!

Como vocês receberam a notícia sobre a indicação o melhor grupo vocal de MPB vinda do prêmio mais importante da música brasileira? Era algo esperado?

QP – Dedicamos nosso tempo e coração a esse projeto procurando fazer todo o processo com muito esmero. Receber uma indicação de um prêmio tão sério e conceituado e uma bela recompensa e atestado de que estamos no caminho certo!
Agora é ficar na torcida!

Como tem sido conciliar a agenda de vocês para as apresentações que vem esporadicamente ocorrendo?

QP – Estamos conseguindo realizar de forma razoável essa tarefa. As vezes temos choques de datas de outros trabalhos, mas como tudo é decidido com antecedência, não tivemos ainda grandes problemas.

Há pretensões de correr o país com a apresentação desse espetáculo?

QP – É desejo do Quarteto levar esse trabalho ao maior número de pessoas possível! Apesar de sermos um grupo sem patrocínio, estamos tentando nos articular pra que esse show seja feito por todo o Brasil. Fizemos uma bela apresentação na Casa da Ópera em Outro Preto com os ingressos esgotados! Agora é aguardar um novo convite.


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QUARTETO PRIMO ESTREIA EM DISCO DE MANEIRA VIGOROSA SOB A ÉGIDE DE UM OBÁ DE XANGÔ

CDBX

Em 1936, a mãe de santo baiana Eugênia Anna Santos, a Mãe Aninha, no centro de candomblé ao qual tinha fundado criou uma espécie de título honorífico ao qual deu o nome de Obá de Xangô. Este título, geralmente concedido àqueles que de uma forma ou de outra eram amigos ou protetores do seu terreiro na Bahia (terra de profícua cultura africana) foi ao longo de todos esses anos distribuídos apenas a alguns nomes, dentre os ocupam este posto alguns ilustres, como o músico e compositor soteropolitano Gilberto Gil.

Esta breve explanação se dá devido a um texto escrito pelo compositor e poeta carioca Paulo César Pinheiro, autor de centenas de canções gravadas por muitos dos principais nomes de nosso cancioneiro, certa vez escreveu que Dorival Caymmi seria o Obá mais velho de Xangô, uma espécie de Rei soberano de um território o qual domina como ninguém, em uma espécie de Insígnia concedida por Yemanjá que o mestre baiano soube honrar como se fosse um verdadeiro cavaleiro do oceano e soubesse o segredo de todas as marés.

O mestre baiano, que teve a carreira iniciada por volta de 1938 com a exitosa “O Que é Que a Baiana Tem?” na voz deCarmen Miranda, teve uma produção escassa se comparada aos anos de carreira, porém, por possuir um requinte ímpar, acabou transformando-o em um dos maiores referenciais dentro da cultura brasileira, sendo reverenciado pelos maiores nomes de música brasileira que o sucederam como um dos maiores ícones do nosso cancioneiro. Esse “título” fez com que sua obra acabasse caindo no gosto popular através de diversas vozes do universo musical brasileiro tornando-se razão inclusive para trabalhos fonográficos temáticos ao longo de todos esses anos. Diversos nomes, dentre os quais este que hoje o público do Musicaria Brasil terá a oportunidade de conhecer hoje, dedicaram discos ao universo musical do artista baiano.

Com trabalhos e trajetórias distintas, os integrantes da família Von Krüger (de ascendência holandesa) somaram seus talentos e hoje compõem o Quarteto Primo. Grupo este que é formado pelo primos Matheus, Rogério, e as irmãs Eliza e Malu Von Krüger. Matheuspossui uma carreira paralela ao grupo e vem desenvolvendo um trabalho que tece influências que vão do jazz ao soul, passando por gêneros como salsa, samba entre outros. Essa pluralidade talvez venha como influência dos diversos lugares por qual passou e pelos grupos com os quais atuou. Baiano, mas vindo de uma família mineira, o músico já morou em Belém, São Luiz, passando pela Nova Zelândia até se fixar na cidade do Rio de Janeiro onde hoje desenvolve a sua carreira e vem divulgando também os seus trabalhos solos, dentre os quais o CD “Outros Tempos”; as irmãs amapaenses Malu Von Krüger (contralto) e Eliza Lacerda (soprano) também mantem uma carreira paralela desenvolvidas ao longo desses anos que antecedem esse belíssimo projeto em forma de quarteto.

Eliza começou a sua carreira ainda criança, mais precisamente aos 7 anos, quando participou da gravação corista e solista de um disco de músicas folclóricas. Os anos se passaram e ela foi acumulando diversas passagens interessantes em sua carreira, entre elas a participação com a Orquestra Sinfônica Brasileira e o Maestro Ray Lemma na abertura do Rock’n Rio III e em vários espetáculos pela Cia. da Voz Karla Boechat. Em 2006 lançou o seu primeiro CD, intitulado “Pé de Dança” (álbum este que lançado também no japão). Vale lembrar que assim como Malu, desde 2002 ela faz parte do grupo “Mulheres de Hollanda”, cujo trabalho consiste em só canta o feminino da obra de Chico Buarque de Hollanda.

Já a contralto Malu Von Krüger fez aulas de percepção corporal e de canto com nomes como Ana Abbott e Maíra Martins participando inclusive do Coral Cia. da Voz. Assim como a irmã Eliza apresentou-se na abertura do Rock’n Rio III, gravou um CD independente intitulado “Meu Rumo”, somando-se a isso, atuou em diversos shows, dentre os quais o da dupla gaúcha Kleyton e Kledir e também participa, assim como a irmã do grupo “Mulheres de Hollanda”. O único que não atua na área musical profissionalmente é o fotógrafo Rogério.

Mesmo havendo laços parentais, o grupo que vem apresentando-se esporadicamente desde 1998, só veio cogitar a possibilidade de um registro fonográfico em 2001. O engraçado é que, o maestro Muri Costa tem uma parcela significativa de responsabilidade sob esse projeto desde o momento em que os convidou para participarem de um coral que estava sendo criado por ele. Muri é o tipo de artista que dispensa apresentações, músico a cerca de 40 anos e já tendo atuado com grandes nomes da música brasileira (inclusive com a prole do mestre baiano atualmente e com o próprio Dorival durante muitos anos). Foi também um dos fundadores do bem-sucedido grupo vocal Arranco de Varsóvia, gerando desta forma uma vontade de posteriormente registrar a partir de um coral os sucessos do compositor baiano. Os “primos” chegaram em um momento oportuno, e depois da elaboração de alguns arranjos e os devidos ajustes o projeto acabou concretizando-se de maneira belíssima cujo resultado foi intitulado de “Dorival”.

O disco, apesar de trazer um autor excessivamente recorrente, traz consigo um “q” de diferenciação, um cheiro gostoso da maresia e peculiaridades musicais que só alguém que conviveu anos com o saudoso algodão (apelido dado a ele devido aos cabelos brancos que remetia à lembrança de flocos de tal fibra) seria capaz de registrar. A participação do Muri Costatanto na produção, arranjos e direção musical assim como na execução de algumas faixas (tocando seu violão) talvez tenha sido preponderadamente fundamental para dar ao trabalho esse molde. O álbum também conta com a participação dos gabaritados músicos Zeca Assumpção (baixo), Marcelo Costa (bateria e percussão), André Siqueira (violão de aço), Marcelo Caldi (acordeon) e os renomados Cristovão Bastos (piano) e Jaques Morelembaum (violoncello) que navegam no oceano musical do mestre baiano através das 13 faixas presentes no disco.

O repertório do álbum é abrangente, indo de clássicos à canções menos conhecidas da lavra do compositor baiano, trazendo como característica interpretações que prezam pelos arranjos vocais, porém encontram-se também no disco números solos de cada um dos integrantes do grupo. A primeira faixa do disco trata-se da canção “O bem do mar” do álbum “Canções Praieiras”, de 1954. Do mesmo disco também consta a faixa “Quem vem pra beira da praia“. Ainda na década de 50, do disco “Caymmi e o mar”, vem as faixas “Promessa de pescador” e a épica canção “História de pescador” (faixa esta que conta com a participação do músico, cantor e compositor Danilo Caymmi nessa homenagem ao seu pai). As outras faixas presentes no disco são “Acaçá“, “Festa de rua” (composição de 1949, a mais antiga presente no disco), “... das rosas” (1964), “Sargaço mar” (1984) e “Milagre” (1980), canção gravada também pelo autor no álbum “Setenta anos Caymmi” (1984). Destaque para o álbum “Caymmi”, de 1972 sob produção de Milton Miranda, que trouxe para o álbum do quarteto nada mais que quatro faixas: “Vou ver Juliana“, “Francisca Santos das Flores, também conhecida como Dona Chica“, “Morena do mar“, “Canto de nanã“.

O agradável resultado sonoro do disco ainda conta com os bordados, ilustrando o projeto gráfico, de Maria Esther Lacerda von Krüger sobre as pinturas de Dorival. Nosso Obá mais velho de Xangô com toda convicção está reverenciando este trabalho onde quer que esteja, o conduzindo de maneira firme aos caminhos mais seguros dentro do universo ao qual soube abordar como poucos e abrindo passagem para este grupo que tem tudo para ser um dos grandes grupos vocais existentes em nosso país do mesmo modo que foram e são tantos outros dentro da nossa música. Talvez essa seja a forma mais simples de explicar o sucesso (tanto de público quanto da crítica) do álbum. Prova disto é que o álbum “Dorival” depois de ter sido pré-selecionado ao 23º Prêmio da Música Brasileira, ficou entre os finalista e no próximo dia 13 de julho concorrerá na categoria MPB ao título de melhor grupo vocal, mostrando que a junção da técnica em harmonia com a sutileza, quando bem feita, é capaz de, além de dar qualidade ao produto, também é capaz de chamar a atenção daqueles que buscam isso para si.

Como de costume fica aqui duas canções da fase, digamos “praeira” deste artista que deixou sua marca de modo indelével dentro da música popular brasileira. A primeira trata-se de “Quem vem pra beira do mar“, canção gravada pelo próprio autor há exatamente seis décadas:

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Já a segunda canção foi registrada pelo autor em 1972, no álbum “Caymmi” e trata-se da clássica “Morena do mar“:

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PROJETO CCOMA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

A receita é a seguinte: coloque uma boa dose de jazz, acrescente música eletrônica na medida certa sem esquecer de pitadas regulares das diversas culturas existentes ao redor do planeta… ah! não deixe de lembrar também de acrescentar a melhor e mais tradicional música brasileira a gosto. Pronto! aí está uma receita que vem dando certo desde 2004, quando foi criada e foi batizada de Projeto CCOMA. Os responsáveis por essa exitosa experiência sonora são os músicos Roberto Scopel e Swami Sagara que juntaram influências distintas para elaborar uma sonoridade precisa e condizente com aquilo que se propunham como podemos conhecer aqui mesmo em nosso espaço ao longo da última semana a partir da pauta ATRELADO A SOFISTICAÇÃO, O PROJETO CCOMA TRAZ UM MISTO DE OUSADIA E VANGUARDISMO.

Acho que uma das curiosidades quando abordam vocês é saber como foi que um cruzou na vida do outro. Como se deu este encontro de vocês?

Swami Sagara – A cidade em que moramos não é muito grande (Caxias do Sul – 500 mil hab.), em geral, os músicos se conhecem. Eu e meu colega Roberto Scopel já éramos amigos lá no começo dos 90. O CCOMA começou comigo e com nosso parceiro o DJ Moishe (que é o co-produtor do CD Peregrino), quando nos encontramos pra batucar e ligar as maquininhas eletrônicas, isso há mais ou menos 8 anos. O Roberto foi em nosso primeiro show para dar uma canja e nunca mais saiu. O Moishe, hoje, vive em Londres e é DJ.

E a ideia do projeto foi algo que surgiu em parceria ou um de vocês já germinava essa proposta de algum modo e a essa formação era o que faltava para florescer?

SS – A gente começou tocando e improvisando em cima de música de outras pessoas: Dzihan & Kamien, BajoFondo, Bonobo, Ramiro Mussoto, muita coisa de minimal… A gente colocava esses sons e improvisava percussões e trompete. Um tempo depois vieram as primeiras composições e experimentações. Acho que foi natural mesmo. Até que um dia encontramos nosso próprio caminho.

A música feita por vocês é a junção de diversas sonoridades, uma miscelânea que vai de Miles Davis aos afro-sambas de Baden e Vinícius, agregando valores de várias culturas. Dentro desse caldeirão gostaria de saber: quais as influências mais arraigadas na sonoridade de vocês?

SS – Seguramente Miles é uma influência do Roberto. Ele escuta muita música brasileira… Márcio Montarroyos, Moacir Santos… Eu como percussionista sou encantado pela música do Nordeste do Brasil – Gonzaga, Sivuca, mas gosto de Salsa, de música tradicional Indiana e Árabe, de música eletrônica da Alemanha, Moonbootica, GusGus, Sebastien Tellier, Trentemoeller, Isao Tomitta e tantos mais.

A música instrumental brasileira apesar da boa receptividade da crítica não possui o espaço merecido nos grandes meios de comunicação e isso consequentemente gera uma série de estorvos. Quais as dificuldades mais frequente que vocês se deparam nesse caminho que vocês optaram por seguir?

SS – Uma coisa que seria uma dificuldade, nós conseguimos transformar em diferencial. Muita gente confunde música produzida eletronicamente com um DJ que simplesmente toca músicas. Por exemplo, no ano passado estreamos o show do CD Peregrino na MIMO, que é um dos principais festivais de música instrumental do Brasil. No mesmo palco que tocamos estava Maria João e Mário Laginha no dia seguinte. A gente conseguiu transformar a dificuldade das pessoas em nos classificarem como um diferencial. Quase que uma nova categoria. Porque os poucos grupos que fazem música com máquinas no Brasil, em geral, fazem isso em clubs, pras pessoas dançarem. E, no show do Peregrino, as pessoas até podem dançar, mas nossa música em geral é para ser assistida. Por isso, quando possível, usamos projeções de vídeos construídos pela gente mesmo.

O filme “Profissão: Músico” que vocês participaram traz um pouco dessas ideias abordadas na pergunta anterior a partir da visão de profissionais na América Latina e Europa. Desses depoimentos e experiências qual foi a lição mais significativa que vocês apreenderam?

SS – Naná Vasconcelos disse: “- Pisem nas raízes!”. Fizemos isso e fomos indicados ao Prêmio da Música Brasileira pela segunda vez.

Como tem sido a receptividade do “Peregrino” por onde vocês tem passado?

SS – Excelente. Nós sempre temos receio de como as pessoas vão entender nossa ideia. Mas depois de ter tocado “Xangô é Rei” numa igreja de 400 anos em Olinda, e ter recebido os abraços dos padres e freira de lá, temos certeza que os ouvidos e mentes estão abertos à nossa música. Acabamos de fazer dois shows em eventos bem distintos. Tocamos num festival de rock em Montevidéu e num festival de jazz em Belo Horizonte, públicos bem diferentes, e nos dois locais recebemos aplausos. Acho que o fato de nos apropriarmos da linguagem eletrônica, mas ao mesmo tempo, tocarmos instrumentos de verdade como o Trompete, o Derbak, o Hang drum e a Zurna, acho que isso acaba despertando a curiosidade das pessoas.

Festivais como o Movimento Internacional de Música de Olinda (MIMO) evidencia que a oferta de boa música cativa um público de modo bastante intenso, porém o que se vê nos grandes canais midiáticos na maioria das vezes é a desvalorização da música de qualidade. Na opinião de vocês qual o principal motivo para essa dualidade existir?

SS – Bom, a MIMO existe há 10 anos. Eles formaram o público deles. Tenho certeza de que na primeira MIMO não havia tanta gente. Eles fizeram um trabalho de doutrina. Doutrina mesmo! Como a espírita! Salvaram muitas almas!

No Brasil, desde o governo militar é bonito ser desinteressado. É bonito ficar de fora, não se envolver, não comprar brigas! Penso que a idiotização da população começou lá. Dá pra escrever um livro sobre o assunto.

SS – As pessoas confundem música de entretenimento com música artística. Quando a TV coloca uma cena de novela que acontece na Turquia e coloca um rock estilo anos 80 como trilha, ela contribui muito com a tal idiotização. Acho que vai precisar muito mais que uma Olimpíada e uma Copa do Mundo para salvar este país. Temos exibido o documentário “Profissão: Músico” em escolas de ensino médio, e a realidade é muito triste. Outro dia ouvi um aluno me dizer: “- Gosto não se discute!”. Talvez ele tenha uma parcela de razão. Mas me soou uma herança do governo militar. Um resquício. Eu respondi à ele: “- Estamos em uma sala de aula. Se aqui não é lugar pra se discutir as coisas, onde será?”.

Como se deu essa participação especial do Di Melo? A faixa foi composta já idealizando essa parceria?

SS – Conhecemo o Di Melo em Garanhuns no Festival de Inverno. Era a estreia do filme dele. E nos encantamos com essa figura que estava cristalizada no limbo do começo dos 70. E aquele disco dele é mágico!! Ficamos amigos, e a parceria foi ideia do diretor do filme o Alan Oliveira.

Como vocês receberam a notícia de mais uma indicação ao maior prêmio da música brasileira?

SS – Foi uma refrescada na alma. Hoje, o músico precisa desses prêmios para ter mais visibilidade para seu trabalho, e conseqüentemente tocar mais. Tivemos alguns percalços neste começo de ano, mas a indicação nos faz acreditar que encontramos nosso caminho, nosso jeito de fazer as coisas. E não falo só da música em si, mas do jeito de administrar nossas carreiras, de levar a profissão de músico como outra qualquer.

Quais as expectativas para o restante deste ano de 2013 com essa inesperada indicação para o 24º Prêmio da Música Brasileira?

SS – Fazer mais shows, e poder tocar em festivais, que é quando conseguimos conhecer mais pessoas e outros músicos! Trabalho novo só para 2014.


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ATRELADO A SOFISTIFICAÇÃO, O PROJETO CCOMA TRAZ UM MISTO DE OUSADIA E VANGUARDISMO

bnm

A música brasileira é vista ao redor do mundo como uma das mais profícuas existentes noplaneta. Esse é um dos fatores que faz nosso país ser mundialmente respeitado e reconhecido como um dos maiores celeiros musicais do existentes ao redor do mundo, e quando nos detemos à música instrumental é que as coisas de fato ganham visibilidade. Esse reconhecimento foi sendo construído ao longo dos anos, mais precisamente a partir do século XVIII através do nome do nome do compositor Carlos Gomes, perpassando por Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, João Pernambuco entre outros não menos relevantes nomes até desembocar no século XXI com uma gama sonora impressionante, onde o virtuosismo divide espaço com elementos eletrônicos, propiciando aos ouvidos dos admiradores da boa e velha música encontros até pouco tempo atrás inimagináveis.

Quem pensaria na fusão de elementos sonoros aparentemente tão distintos tais quais a música eletrônica e o jazz a algum tempo atrás? Talvez isso fosse considerado até pouco tempo atrás como utópico, uma vez que a integração de elementos sonoros tão aparentemente divergentes resultaria em algo desagradável aos nossos ouvidos. No entanto, como hoje podemos ver, tudo não passou de um ledo engano; pois a evolução deu-se de modo harmonioso e hoje é possível aliar o mais rudimentar dos tambores às mais evoluídas tecnologias existentes. E neste novo panorama musical é possível afirmar que vem da região sul um dos grandes expoentes existentes em nosso país.

Advindos do estado do Rio Grande do Sul, mais precisamente da cidade de Caxias do Sul (cidade à cerca de 128 km da capital gaúcha), o Projeto CCOMA surgiu em 2004 a partir da ideia de dar vazão ao experimentalismo de dois amigos em um laboratório sonoro que corrobora, de certo modo, com o nome escolhido para o projeto, visto que o propósito era “bater de frente” com situação de estagnação induzida pela mídia de massa em nossa cultura uma vez que o nome do duo é indissociável ao estado de inconsciência profunda. No entanto há a necessidade de se levar em consideração que tal termo possui mais alguns relevantes significados que encaixam-se de modo muito peculiar visto que coma também é o espaço entre um semitom e outro das notas musicais, além de significar vírgula em espanhol. “queremos possibilitar um espaço, um momento, para as pessoas reflitam mais sobre a nossa música.”, diz Roberto Scopel quando questionado o sobre o porquê desse batismo em forma de protesto.

Como já citado anteriormente, o Projeto CCOMA trata-se de um duo formado pelos músicos Roberto Scopel e Swami Sagara. O músico Roberto é trompetista desde os 10 anos de idade quando começou sua trajetória musical influenciado por sua família. Por volta de 2003, formou-se no Conservatório Pablo Komlós, especializando tanto no estilo Erudito quanto no Popular. De modo bastante sucinto, pode-se dizer que a sua trajetória musical conta com a participação em concertos com orquestras sinfônicas e apresentações ao lado de grandes nomes da música brasileira, entre eles Leila Pinheiro, Guilherme Arantes, Ivan Lins e Zeca Baleiro além de outros projetos. Já Sagara, atua a mais de duas décadas como músico e além de percussionista é também produtor e baterista. Talvez pela larga experiência hoje ele sinta-se tão à vontade para dar ênfase a esse experimentalismo que já tornou-se marca registrada dessa dupla que traz arraigada em seu som tantas peculiaridades.

Dessa combinação de elementos sonoros tão distintos surgiu esse hibridismo entre a música instrumental e a eletrônica, fazendo um som que foge aparentemente de qualquer paradigma nesta união de bits, trompetes e elementos percussivos que resulta em uma espécie de ‘future jazz’, visto que une o tradicional ritmo norte americano à uma simbiose interessante, onde as experimentações rítmicas dão vazão a novas óticas musicais. O modo high tech como ambos encaram até os mais primitivos ritmos a partir de elementos percussivos tais quais tambores e artefatos inusitados somados a influências do rabian-beats, elektro-bossa, electro-tango, Mile Davis e uma boa dosagem de música brasileira faz desse efervescente caldeirão denominado de “Future Jazz” um dos grandes destaques da música instrumental contemporânea brasileira.

A estória em disco desta dupla teve início em 2009 com o lançamento do disco “Das CComa Projekt”, porém a visibilidade maior só veio no disco posterior, quando Roberto e Swami foram indicados ao longo do ano passado ao 23º Prêmio da Música Brasileira, concorrendo na categoria “melhor álbum eletrônico”. Nesta mistura de “saravá eletrônico com Miles Davis” (como se auto definem definem) eles estão na estrada divulgando o seu mais recente trabalho cujo título faz jus a sonoridade da dupla. Batizado de “Peregrino”, o disco conta com a assimilação sonora, rítmica e melódica de diversas culturas ao redor do mundo. O som vai das diversas culturas existentes na América do sul, passando pela cultura Turca e indiana até desaguar na influência do jazz e da música brasileira. Nessa miscelânea onde instrumentos como o theremin e a zurna juntam-se ao exótico hang drum e trompetes em uma verdadeira celebração do elemento som nas dez faixas autorais existentes no álbum, um disco que conta com a adesão de nomes como Zeca Baleiro, Di Melo (O Imorrível), Luciano Sallun (Pedra Branca), Paulo Johann, Corina Piatti, Diogenes Baptisttella e João Luiz Oliveira.

Di Melo está presente no afrobeat “Xangô é Rei”, uma canção imbuída de brasilidade onde os vigorosos metais e tambores afro revestem-se de uma sonoridade pop a partir de elementos tecnológicos em uma verdadeira, parafraseando os cantores e compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso, “bitmacumba”. O disco tem continuidade com faixas como “Grand Bazar” (uma canção que pincela elementos sonoros indianos, porém não deixa de fazer jus a classificação atribuída a ela: a word music). De influência moura o disco ainda apresenta “Bukowina”.

O gênero mais representativo do nosso país é representado através de “Partido-alto-canhoteiro” (uma alusão a partir de um dos estilos existentes do samba.) Outro ritmo reverenciado é a tradicional milonga (gênero musical de forte influências na América platina e que se faz presente também no Rio Grande do Sul, estado de origem dos músicos.). O ritmo aqui é apresentado a partir da faixa “Milonga para los perros” como pode-se conferir no video-clipe acima. As mais tradicionais raízes musicais brasileiras também surgem a partir de “Iracino e Cerolvita”, um baião vanguardista embebecido no tradicional maracatu e complementado por uma dosagem de música eletrônica. O disco ainda conta com “Amazonica fever”, “Música surda”, “Caminho do meio” e para atestar a universalidade e ecletismo da dupla a canção “Cosmopolita”, que conta com a participação de Zeca Baleiro e que ganhou recentemente um clipe.

Em 2009 o cineasta colombiano Daniel Vargas e o Projeto CCOMA produziram um média metragem com imagens produzidas em países como Grécia Colômbia, Brasil, Alemanha e Uruguai, Inglaterra e França onde diversos músicos dão os seus respectivos depoimentos sobre como é a vida de músico e suas respectivas dificuldades diante das novas perspectivas do mercado fonográfico, das novas tecnologias existentes diante dos antigos meios de fazer música entre outras dualidades existente na profissão. O Documentário encontra-se na íntegra logo acima para que possamos tirar nossas respectivas conclusões.

Como de costume segue duas canções para audição dos amigos fubânicos presentes no álbum “Peregrino”, mais recente trabalho da dupla lançado em agosto de 2012. A primeira chama-se “Xangô é rei“, de autoria de Roberto Scopel, Swami Sagara, Di Melo e Joaquim C. Coelho. A faixa conta com a participação do pernambucano “imorrível” Di Melo:

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Na segunda faixa há a participação especial do cantor e compositor Zeca Baleiro. Trata-se da faixa “Cosmopolita

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UM ANO SEM EMÍLIO SANTIAGO

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Emílio Santiago era um daqueles cntores que tinha um garbo todo seu e que fazia-se perceptível já na pronuncia das primeiras sílabas ou na entonação das primeiras notas ao cantar. Interprete ímpar, o artista carioca talvez não conseguisse mensurar a sua importância dentro do cancioneiro brasileiro em um país como o nosso, onde os grandes intérpretes são, em sua maioria, predominantemente mulheres. Com cerca de quatro décadas de carreira, o artista começou como muitos dos seus contemporâneos e, além de participar de diversos festivais musicais, participou também de alguns programas de televisão. Foi em um desses programas televisivos (“A grande chance”, capitaneado pelo apresentador Flávio Cavalcante) que sua carreira começou a ganhar a devida projeção. Emílio chegava marcando presença a partir da gravidade e beleza de sua voz aliando a essas características precisas interpretações mostrando que ali já encontrava-se o cerne de um dos maiores cantores da história da música brasileira.

Nascido em 1946 Emílio desde jovem já tinha predileção pela música de boa qualidade e para apurar esse gosto ouvia nomes como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Anísio Silva até a chegada da Bossa Nova, que arrebatou de vez o adolescente Emílio através do João Gilberto e cia. Cientes do seu talento os amigos sempre procuravam estimulá-lo a participar dos diversos concursos musicais existentes à época fazendo com que o pretenso advogado Emílio fosse vencedor na maioria daqueles que participava. No entanto seu primeiro registro fonográfico só viria a acontecer tempos depois, quando por volta de 1973 registrou em compacto as canções “Transa de amor” e “Saravá Nega” pela Polydor. Esse registro fez com que Emílio abandonasse em definitivo o desejo de exercer a carreira de advogado em detrimento a carreira de cantor. A partir daí, mesmo com o diploma de bacharel em direito na mão, resolveu investir na carreira artística cantando em várias casas noturnas no eixo Rio – São Paulo e gravando o seu primeiro Long Play, em 1975, sob produção de Durval Ferreira.

Em 1988, após gravar onze álbuns pela Polydor, Emílio recebe o convite do cantor, produtor e instrumentista Roberto Menescal para um novo projeto que ele tinha em mente e que se chamaria Aquarela Brasileira. A ideia de Menescal era gravar um álbum contendo diversos medleys de alguns dos grandes artistas brasileiros como Caetano Veloso, Paulo Vanzolini, Ari Barroso, Chico Buarque, Tom Jobim, Benito de Paula entre tantos outros. Emílio, que andava meio desiludido com a indústria fonográfica, ouviu atentamente a proposta e os apelos do ídolo e amigo mas mesmo assim decidiu que não seria o momento ideal para tal registro. Roberto não insistiu para que Emílio mudasse de posicionamento mas pediu que ele cantasse ali mesmo no estúdio algumas das pretensas canções que viria a fazer parte do álbum. Emílio assim fez e Menescal, muito vivo, registrou tudo. Essas informais interpretações renderam a Menescal o cerne daquilo que viria a ser uma das séries de maior sucesso da indústria fonográfica brasileira.

Ao ouvir tais interpretações e os diversos argumentos de Menescal e Heleno Oliveira, Santiago deixou-se levar pela proposta e aceitou fazer a releitura de clássicos como “Ronda”, “Sampa”, “Eu e a brisa”, “Minha Rainha”, “Anos Dourados”, “Bye bye Brasil” entre outras fazendo ali nascer a série que levaria o nome de Emílio aos mais recônditos lugares do país, a ter suas interpretações como temas de novela e conquistar prêmios diversos: Aquarela Brasileira. A série rendeu sete álbuns e vendeu cerca de 3 milhões de cópias entre 1988 e 1995, ano do lançamento do último álbum da série.

O último registro fonográfico de Emílio Santiago foi a gravação ao vivo do álbum “Só danço samba”, um projeto que comemora seus quarenta anos de carreira e apresenta um tributo ao “Rei dos Bailes” ED Lincoln. Ah que bom seria se Emílio soubesse que a sua vaga dentro da cena musical do Brasil será eternamente impreenchível e pudesse voltar para suprir essa lacuna deixada por sua ausência. Pena que não é assim…

Como de costume, deixo aqui para os amigos fubânicos áudios do artista abordado ao longo da matéria. Deixarei aqui duas canções do repertório do saudoso Emílio, a primeira trata-se de “Um dia desses“, canção da lavra dos compositores João Donato e Carlinhos Brown. A canção encontra-se no álbum “De um jeito diferente”, lançado por Emílio em 2007:

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A segunda canção trata-se de “Nega Dina“, canção composta por Zé Keti e presente no primeiro LP de Emílio lançado em 1975:

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RENATO BRUSHI – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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A música independente em nosso país vem ganhando força e espaço ao longo dos últimos anos, principalmente através das novas tecnologias e redes sociais. Advindo deste cenário, o Renato Barushi vem galgando o seu espaço dentro da fértil cena musical mineira e ganhando adeptos de sua sonoridade por onde tem levado o seu som. Depois de ter passado longo período tocando nas noites de Belo Horizonte, o cantor e compositor decidiu que era chegada a hora para da gravação do seu primeiro registro fonográfico solo. Foram cerca de 13 anos até a gravação desse álbum e isso deu ao artista maturidade suficiente para reconhecer e encarar todos os percalços existentes no caminho que escolheu seguir.

Perseverante, Barushi procurou superar cada uma das dificuldades que cruzaram o seu caminho e como “se virou na raça”, como ele mesmo costuma dizer. o resultado dessa sua tenacidade vocês podem conferir um pouco na pauta publicada recentemente aqui em nosso espaço cujo título é “RENATO BARUSHI ABRE CONCESSÕES SEM PERDER A COERÊNCIA, MOSTRANDO O SEU UNIVERSO PARTICULAR EM UM VARIADO MERCADO SONORO”. A matéria mostra toda a versalidade desse mineiro de Cataguases a partir de um disco que não poderia ter título mais sugestivo: Renato e O Mercado.

Renato gentilmente nos concedeu esta entrevista onde aborda um pouco de sua trajetória, as dificuldades inerentes ao artistas independente e surpreende-se com uma agradável notícia sobre o Prêmio da Música Brasileira como vocês podem conferir, na íntegra, logo abaixo:

Em sua biografia consta que a sua família apesar de grande não é, digamos, propensa a música; porém você desde cedo se deixou envolver-se por ela. Como aconteceram esses primeiros contatos com a música em sua infância?

Renato Barushi – Com exceção de um tio paterno que sempre tocou muito bem violão, autodidata, ele dizia que eu ficava vidrado quando pegava o violão e sempre cantava junto, adorava quando tocava a canção “peixe vivo”, inclusive, foi comigo e minha mãe escolher o meu primeiro violão em Juiz de Fora, um Di Giorgio, no pré-primário a professora também havia notado que minha voz destacava, eu devia ter apenas 5 anos.

E a estória de que você desde os 10 anos de idade já compunha é verdade? Você lembra de alguma coisa referente a essa composição algum verso ou o porquê do surgimento da inspiração para escrever?

RB – Aos 10 anos, pegava canções conhecidas e brincava, trocava suas letras, lembro-me perfeitamente de uma música do grupo SPC que fiz isso, a canção chamava-se “domingo”, na verdade, até hoje faço isso..rs, coloco a letra que me referi abaixo, ganhei meu primeiro violão aos 11 anos, a partir daí comecei a prestar mais atenção nas letras e melodias, comecei escrever frases soltas, creio que após os 14 anos comecei a compor, foi muito natural, mas assim como tocar um instrumento, escrever é um exercício.

Segue a letra  -  Titulo: Segunda

Segunda, tenho que estudar
Acordar bem cedo e ir pro colégio
Aturar as professoras, até enjoadas
A de português e a de geografia outra vez

refrão:

Quando eu vou estudar
Vai ter que ser bom
Se não vou trabalhar, numa padaria
Vai ter que ser a do meu pai
La eu só entrego pão
Depois ganho um dinheirão
Só por uma entrega, amor… só por uma entrega, amor, amor, amor..
Só por uma entrega, amor… amor, segunda..

Em dado momento de sua vida, você resolve aventurar-se na capital mineira trazendo com você coragem, fé e expectativas para dar continuidade aos projetos traçados em sua cidade. Você pode nos falar um pouco dessa decisão de vir a Belo Horizonte? Essa decisão fez com que você abrisse mão de algo?

RB – Fui aos 17 anos para Belo Horizonte, sem muitas pretensões, queria somente tocar na noite, conhecer outros músicos, somar e se possível viver de arte, e foi o que fiz, fazia jingles, trilhas, direção e produção musical e executivo, em paralelo trabalho minhas canções autorais e escrevendo minhas leis de incentivo, creio que o artista hoje está cada vez mais desenvolvendo múltiplas funções em suas carreiras. Eu abri mão de ficar perto de meus familiares, amigos de infância e musicais, e por ser de família pobre tive que me virar, bancar o meu sustendo, mas feliz por sempre fazer o que amo.

Diversos músicos afirmam que não há laboratório mais válido do que a experiência de tocar na noite. Você teve a oportunidade de vivenciar essa experiência antes da gravação do seu álbum à frente da banda Machinari. Há algo que se evidencia em sua música e que seja fruto dessa época?

RB – Claro, concordo que a noite é um grande laboratório, e com o Machinari foi o período que mais toquei, eram cerca de três a quatro shows semanais, a banda começou seus ensaios no final de 1999, iniciou os shows no início de 2000, seu ultimo show, por incrível que pareça foi dia primeiro de abril de 2004, na casa chamada Pop Rock Café, tenho o convite até hoje. Em 2002 gravamos um EP com três canções autorais, essas canções estão no site Palco MP3.

Você costuma dizer que a sua música sustenta-se a partir de três, digamos, alicerces: a música negra, a MPB tradicional e o rock nacional. Dessas três vertentes musicais você poderia citar alguns nomes que são essenciais em sua formação enquanto músico e compositor?

RB – Não gosto muito de citar minhas referências, pois costumo dizer que elas se renovam constantemente e sempre esquecemos alguém importante, mas pensando rapidamente poderia citar alguns nomes que me inspiraram, como Barão Vermelho e Cazuza, Lobão, Raul Seixas, Secos e Molhados, Novos Baianos, Djavan, Tom Jobim, Chico Buarque, Tim Maia, Beto Guedes, Cartola, Noel Rosa, e gringas, Janis Joplin, Wilson Pickett, Buddy Guy, Aretha Franklin, Marvin Gaye, George Benson, Al Green, Stevie Wonder, AC/DC, Jimi, The Doors, Stones, Jimi Hendrix, dentre outros.

A sua parceria com o Robson Pitchier evidencia-se de modo significativo em seu disco. Das nove composições presentes, a maioria ele assina em parceria com você. Como se deu esse encontro musical e como é o seu processo de composição em parceria?

RB – Em 2001 eu ainda trabalhava durante o dia e tocava com o Machinari durante a noite, comecei a trabalhar como gerente de marketing em uma escola de informática, logo após Robson entrou nessa empresa, ele vivia com desenhos, perguntei o que ele gostava de fazer, me disse que era ator e gostaria de trabalhar com moda, por isso os desenhos, hoje ele trabalha em São Paulo como estilista, cerca de 7 anos, eu estava começando a tocar muito, e estávamos a todo vapor com as canções autorais, tínhamos onze, eu só pensava em compor e perguntei se ele gostaria de escrever comigo, no início ele teve uma certa resistência, mas assim que começamos não paramos mais e até hoje trabalhamos juntos, somos grandes amigos e parceiros, escrevemos até uma peça teatral, tenho outros poucos parceiros, mas metade das minhas canções são com ele, quarenta por cento sozinho e dez por cento com os demais, quero sempre somar. Quanto ao processo de composição não há regras, já peguei uma história de um parceiro e fiz música, ou a partir de uma estrofe, já fiz um personagem, já comecei com a letra e criei melodia em cima e vice-versa, de todas as formas, mas normalmente minhas parcerias são nas letras, eu crio as melodias e harmonias.

Quanto tempo foi a “gestação” desse disco?

RB – Dois anos, sendo um ano pesquisando e compondo as canções, pensando no clima e na concepção geral do cd, e um ano em estúdio.

Como se deu o critério de escolha do repertório para este álbum de estreia?

RB – Após 13 anos na noite eu quis um registro de minha obra, nesse álbum coloquei somente duas canções antigas, “Onde quero chegar” e “Meu lugar”, o restante foi criado para o cd, pensei muito no clima, queria algo leve, para colocar no carro e dirigir, por exemplo, ao mesmo tempo fazer algo mais radiofônico, letras de fácil assimilação, introduções curtas, sem solos de guitarras enormes, ao invés disso, temas e riffs, sou muito over, tenho um vocal agressivo, devido muito tempo tocando rock, e por isso trazer de novo a MPB e o balanço da música negra para minha música, foi um processo de pesquisa enorme e reencontro com algo que adoro.

Todos sabem que fazer música independente no Brasil é uma aventura na qual poucos conseguem lograr êxito. Muitas são as dificuldades existentes, e os estorvos vem nas diversas etapas, desde a captação de recursos até divulgação depois de pronto. Você acredita que a facilidade existente na atualidade acabou gerando uma demanda muito grande e isso gera alguns desses problemas ou a coisa não é bem por aí?

RB – Não há facilidade para os músicos autorais, nem atualmente, com banda você ainda divide com algumas pessoas os gastos, se você não tem dinheiro para investir ou desenvoltura para escrever leis, fica mais difícil ainda, são poucos que trabalham com leis, que tem alguém para escrever, pois é caro, eu comecei e me virei na raça, e captar é pior ainda, não captei nada até hoje, este ano tenho uma lei estadual aprovada no valor de R$ 250.000,00 reais, consegui gravar o cd Renato e O Mercado devido ao falecimento do meu pai, um cara que eu amava muito, ele estava em seu segundo casamento e o pouco que me sobrou, investi tudo no cd. A internet é muito boa pra trocar figurinhas, pesquisar, mas não pense que lhe fará famoso, normalmente, os que são conhecidos na internet, não são para o grande publico e vice-versa, na verdade a música não há receitas para o sucesso, não é como uma engenharia que você faz a faculdade, estágio e em seguida arruma um bom emprego, mas há diversas áreas para se trabalhar, não só tocar na noite ao contrário que muitos pensam.

Você já se acha um vitorioso tendo seu disco entre os pré-selecionados para o Prêmio da Música Brasileira? O que mais espera para 2014?

RB – Eu fui? Lembro-me de uma produtora do Prêmio da Música Brasileira, seu nome era Luciana Cardoso, ela pediu para enviar o meu material para seleção, isso pra mim já foi uma vitória, mas creio que não fui pré-selecionado. Em 2013, após 15 anos em Belo Horizonte, voltei para minha cidade natal, Cataguases, fica na zona da mata mineira, a cena aqui é ótima, já estou com uma banda chamada “Eu, tu, elas e os Pachiega”, com uma influência muito forte do rock’n’roll, e claro, a pitada de MPB e o balanço e alegria da música negra não pode faltar.


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RENATO BARUSHI

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Renato Barushi: abre concessões sem perder a coerência, mostrando o seu universo particular em um variado mercado sonoro

Imaginem uma sortido mercado onde os principais produtos expostos são versos e melodias que procuram mostrar a música mineira contemporânea. Esse espaço se fez possível graças a um novo talento que chega para contribuir com ideias e sons consistentes, procurando perpetuar, a seu modo, a boa fama que a música mineira vem construindo nacionalmente desde ó início da década de 70, quando o carioca Milton Nascimento lançou o antológico álbum “Clube da Esquina”, esse disco foi o marco inicial de uma revolução dentro da música produzida em Minas Gerais e que se estendeu mundo a fora.

Pois bem, Renato Barushi, mineiro de Cataguases (cidade da zona da mata mineira localizada a cerca de 320 km da capital Belo Horizonte) é o responsável por este mercado de variedades rítmicas. Na composição dessas variantes vemos o quão ele foi influenciado não só por toda essa geração antes citadas, como também por outros elementos sonoros, formando assim uma rica e belíssima “vitrine” onde são expostas a diversidade na qual está imbuído o seu som. Percebe-se que Barushi soube absorver e fundir inspirações e influências de modo bastante seguro a partir de uma sonoridade toda particular baseada em uma gama de ritmos.

De família grande e apreciadora da boa música, Barushi nasceu em 10 de fevereiro de 1981 e desde a infância já procurava desenvolver habilidades artísticas. Gostava de atuar e cantar, e aos 10 anos já brincava de escrever músicas. Tendo suas aptidões artísticas estimuladas e valorizadas aos 11 anos ganhou o seu primeiro violão, a partir daí resolveu iniciar de fato a sua formação musical indo estudar no conservatório musical existente em sua cidade. Vem desse período as suas primeiras referências musicais e que o acompanham até os dias atuais como se é perceptível na audição do seu álbum de estreia. A forte influência da chamada MPB e do Rock em suas composições mostra que o artista soube dosar de modo interessante tanto esses dois gêneros como outros que acabaram influenciando em sua formação. De certo modo, “Renato e mercado” evidencia essa teoria, pois vem impregnado dessa diversidade rítmica sem se deixar cair no lugar-comum.

Aos 17 anos Renato percebe que Cataguases acaba tornando-se pequena para os seus anseios e resolve aventurar-se em Belo Horizonte. Chega à capital mineira trazendo em sua bagagem suas primeiras composições, aquelas que seriam o cerne para o seu desenvolvimento enquanto compositor e músico de modo geral. O aperfeiçoamento veio com as diversas experiências na capital mineira, dentre as quais a sua passagem pela banda ”Machinari” como vocalista, instrumentista e compositor, pois foi como integrante do grupo que começou a dedicar-se com mais afinco à elaboração do seu trabalho autoral, criando em parceria com grandes amigos várias canções até o dissolvimento da banda, que ocorreu por volta de 2004.

Mesmo com o fim da banda e as adversidades existentes, Renato Barushi tinha planos traçados e metas determinadas. Sua força motriz encontrava-se justamente neste determinismo que alimentava seus sonhos e desejos, por isso não desanimou e continuou a acreditar que já era hora de registrar as suas letras e músicas, composições tão peculiares e carregadas fortemente pela fusão da música negra, do rock e da tradicional MPB.

É bom trazer ao conhecimento de todos que o nome “Renato e o mercado” veio em meio à conversas informais com parceiros e amigos e faz alusão às muitas vertentes que influenciaram no trabalho do músico ao longo dessa sua jornada musical. surgiu devido a diversidade sonora presente neste trabalho de estreia. A diversidade sonora dá ao álbum uma textura peculiar, mostrando uma heterogeneidade rítmica coesa e moderna a partir da execução das nove composições presentes no disco e que contam com o acompanhamento dos músicos Marcílio Rosa (guitarra), Paulo Maitá (baixo e produção musical), Tininho (bateria), Daniel Diniz(teclados), Edgar Sozzi (guitarra), Marcelo Silvah (violão), Boca Brown (percussão),Nequinho (backimg vocal), Luiz Peixoto (guitarra). “Renato e o mercado” ainda conta com a participação do rapper Lil’dawg.

O disco vem munido de nove canções que são assinadas tanto por Barushi de modo solo como em parcerias com Robson Pitchier (sete em um total de nove). São canções que acentuam uma contemporaneidade peculiar atreladas a valorizadas raízes. No som de Renato é possível encontrar pitadas de uma sonoridade advinda com os grandes nomes da Motown, é possível identificar acordes do pop rock nacional surgido a partir dos anos 80, além é claro de incursões no que há de melhor em nossa música. Tudo de modo preciso como é possível observar já na primeira faixa intitulada “Dela” (balada romântica de autoria do próprio intérprete e que fala fundamentalmente sobre a presença da amada para dar outra conotação a sua vida). O disco continua com “Onde quero chegar”, uma das parcerias com Robson Pitchier que retrata o desejo de coisas tão simples que infelizmente perdem-se em nossas caóticas rotinas, além de “Filme em Cartaz” (mais um fruto da parceria entre Renato e Pitchier), que traz a participação do rapper Lil’dawg cantando e assinando parte da letra.

O mercado continua aberto oferecendo produtos de excelente qualidade como é o caso do contagiante funk batizado de “Minha musa”, mais uma contagiante parceria da dupla e que tras como tema algo que o próprio título já denota: uma alegre declaração. Em “Sem reparo” (mais uma parceria com Robson) as guitarras mostram que a influência do rock não é algo que restringe-se apenas ao release do álbum. Outra canção que a dupla assina é a balada “O mar gelou o deserto”, que retrata fenômenos naturais incomuns influenciados por uma determinada situação afetiva.

A trinca final traz “Meu lugar”, “Malandragem” e “The end”. A primeira trata-se de uma composição assinada pelo próprio Renato. As duas que restam foram escritas a quatro mãos em parceria com Pitchier. Quanto aos temas eles retratam os mais variados assuntos, em “Malandragem”, por exemplo, há o retrato de um sujeito preso as amarras do ilícito; já “Meu lugar” e “The end” surgem atreladas as peculiaridades das relações amorosas, mostrando, desse modo, que Renato Barushi surge no atual mercado fonográfico brasileiro como um cantor e compositor possuído de acordes e estilos que mesclam todas as fontes nas quais teve a oportunidade de beber, fazendo uma sonoridade pode ser rotulada como ”Música Livre Brasileira”, como o próprio artista define.

Assim sendo, Barushi mostra-nos através da concretização desse antigo desejo, o seu rico e diversificado mercado sonoro. E apesar da diversidade existente, cada prateleira trazer o seu produto específico, mostrando-se coerente o suficiente para acreditarmos que é inevitável que venham a surgir novas filiais desse mercado. Desvinculado de rótulos, o artista mineiro chega à indústria do disco alimentando seus antigos anseios acrescidos da ciência dos desafios a enfrentar nesse mercado muito menos lírico que os violões e canções desse cataguasense, que “comendo quieto” (como costumam dizer) vem mostrando ao que veio.

Deixo aqui aos amigos fubânicos duas faixas para audição que estão incluídas neste trabalho de estreia do cantor e compositor mineiro. A primeira canção é “Dela”, de autoria do próprio Renato:

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Já a segunda faixa é “The End”, uma das já citadas parcerias de Barushi com Robson Pitchier:

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O ILUSTRE FILHO DE NAZARÉ DA MATA

Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Maestro Zé Menezes (Abr/1924 – Nov/2013)

Nazaré da Mata, cidade localizada a cerca de 65 quilômetros da capital pernambucana, tem muito mais riqueza que a Arena Pernambuco, como muito tem sido difundido ao longo dos últimos meses devido a construção do faraônico estádio que hoje tornou-se cartão-postal da cidade. Voltado para atender aos “padrões fifa” de qualidade durante a realização dos jogos organizados por tal instituição, o estádio surgiu objetivando receber os jogos de competições como a copa da confederações e o mundial de futebol a ser realizado ao longo deste ano como todos devem saber. Já no aspecto cultural a cidade ganhou notoriedade como a terra do maracatu e como berço mãe de um dos mais relevantes nomes do frevo de todos os tempos: o maestro Zé Menezes.

Filho mais velho de Teófilo Alves de Menezes e Nicolina Xavier de Menezes, o pequeno Zé conviveu com a música desde muito cedo a partir das figuras do pai e do avô. Um era regente da banda de Nazaré o outro tocava trombone, o que acabou influenciando-o a tocar trompa na Sociedade Musical 5 de Novembro (Banda Revoltosa), que este ano conseguiu a proeza de tornar-se patrimônio vivo de Pernambuco e em 2015 completa um século de existência.

Por volta dos 19 anos muda-se para a capital indo trabalhar na Rádio Clube de Pernambuco, onde chegou a integrar a Jazz Band Acadêmica, comandada pelo maestro Pádua Valfrido. Nessa época também aprimora a sua teoria musical matriculando-se no Conservatório Pernambucano de Música. A década de 1950 conta na biografia do musicista como aquela que mudaria em definitivo a sua vida como compositor, pois em 1951 a orquestra do maestro carioca Zacarias registrar, pela RCA, o frevo “Freio a Óleo“, a primeira (e mais popular) de uma série de canções do maestro que seriam gravadas a partir dali.

No levantamento de sua obra, feito pelo pesquisador José Batista Alves, foram registradas 118 gravações, no período compreendido entre 1951 e 1997, entre frevos de rua, canção e de bloco. Esse número de registros de sua obra acabou tornando-o terceiro compositor de frevos gravados do estado, só perdendo para Nelson Ferreira e Capiba. Além de “Freio a óleo” o maestro é autor de frevos como “Baba de Moça” e “Boneca” (1953); “Continental” (1956), “Terceiro dia” (1960), “Tá Faltando Alguém” (1961), “Arrasta Tudo” (1976), “Regresso do Galo” (1984), “Bico doce” (campeão do VIII Recifrevo, em 1996), o samba “Aeromoça” (em parceria com Geraldo Costa), entre outros.

Ao longo dos anos de 1960 surgiu a famosa Orquestra do Maestro José Menezes, que surgiu com o propósito de animar o Reveillon do Clube Internacional do Recife a partir da ideia dos amigos Torquato Bertrão e Hercílio Canto, que eram da diretoria do clube. De baile em baile, José Menezes foi o responsável pelos carnavais do Clube Internacional por mais de uma década, passando para o Clube Português em 1974 (onde permaneceu tocando até 92, ano do último carnaval da entidade). Dois anos depois Zé Menezes lança pela Rozemblitz o primeiro disco da orquestra. O titulo “O Frevo Vivo de Levino”, foi uma homenagem ao compositor e amigo Levino Ferreira, pessoa com a qual Zé Menezes chegou a trabalhar na época em que atuava na Rádio Clube de Pernambuco.

A orquestra ainda chegou a lançar mais dois lp’s: um em 1977 pela gravadora Philips, cujo nome é Antologia do Frevo (um projeto que registra 36 composições de diversos autores) e o segundo, lançado pela Bandeirantes, batizado de Baile da Saudade, foi lançado em 1980, reunindo antigos frevos. Vale ressaltar que o maestro Zé Menezes chegou a cursar direito (atividade esta que  lhe deu o título de bacharel), mas que não foi suficiente para interferir na paixão que carregaria por toda a vida: a música.

O maestro Zé Menezes faleceu na cidade do Recife, no dia 13 de novembro de 2013.

Já em clima de expectativa para o carnaval, deixo aos amigos fubânico dois dos frevos citados ao longo do texto. O primeiro trata-se da mais conhecida composição do maestro Zé Menezes: “Freio a óleo“. Aqui a composição é brilhantemente executada por Henrique Annes e a Oficina de Cordas de Pernambuco:

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Já a segunda composição trata-se do notório frevo “Último dia“, de autoria de Levino Ferreira e presente no LP O frevo vivo de Levino, lançado em 1982:

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A VIOLA QUE ENTERNECE O MUNDO

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Chico Lobo é o tipo de artista que conhece o terreno onde pisa e essa afirmação se dá porque ele começou a desbravar desde cedo o universo da viola. Primeiro através do seu pai, o também violeiro Aldo Lobo Leite e posteriormente por iniciativa própria. Nascido na cidade mineira de São João Del Rei (uma das cidades brasileiras eleitas como capital brasileira da cultura), o artista é o terceiro dos quatro filhos do já citado violeiro com a ex-jogadora de vôlei pelo Minas Tênis Clube, Maria Antonieta Diláscio Leite. Chico é hoje considerado como um dos mais ativos violeiros do cenário nacional e essa sua obstinação em defender a cultura da viola tem feito dele um dos músicos mais atuantes no processo de valorização e e popularização dessa música de cunho tão interiorano. Violeiro de mão cheia, Lobo orgulha-se quando alguém a ele atribui a alcunha de caipira (termo de origem tupi que foi associado as pessoas do interior ao longo dos anos de forma tão depreciativa).

Porta estandarte de uma arte bordada em notas e acordes advindos do seu instrumento, Chico Lobo vem trilhando um caminho bastante consistente na estrada que resolveu seguir, e este êxito tem trazido ao músico mineiro um reconhecimento que há tempos extrapolou nossas fronteiras e o tem levado (juntamente com o seu tradicionalismo de ritmos como folias e serestas) para alguns dos principais festivais de música ao redor do mundo. Pode-se afirmar que o artista tem sido um dos responsáveis pela globalização da mais tradicional música mineira não só a partir dos espetáculos que vem apresentando, mas também através de exímios trabalhos fonográficos que vem atestando o talento de Chico desde 2006, quando gravou o seu primeiro álbum batizado de “Nos braços dessa viola” (uma produção independente que foi indicada no ano seguinte ao Prêmio Sharp, maior premiação existente na música brasileira à época).

Desde então a coerência tem sido uma das principais características da discografia do artista, que traz registros como o álbum “Nosso coração caipira” (onde há a declamação de 25 clássicos da música caipira ao som de viola acompanhado pelo cantor e ator Jackson Antunes). Cada disco lançado por Lobo soa como algo maior, caracterizando-se mão apenas a mais genuína expressão caipira, mas mostrando-se uma verdadeira celebração de suas origens, pois cada faixa mostra um artista imbuído de corpo e alma em suas mais profundas influências e tradições, procurando mostrar não apenas sua peculiar habilidade sonora, mas também todos os elementos que adornam os acordes de suas composições a partir de inovações rítmicas; tornando-o um dos mais expressivos representantes deste contexto sonoro caipira ao longo de quase duas décadas de carreira fonográfica. Isso atesta porque o artista é um dos mais requisitados do gênero ao qual defende para viajar mundo a fora mostrando sua arte em países como a Itália (onde realizou diversos concertos, a projetos culturais, em Praças Públicas ao longo de 47 dias), China, Portugal, Canadá e Chile.

Quando o cantor e compositor Zeca Baleiro afirma: “Chico Lobo é um violeiro danado e inquieto, doido para alargar e alçar novos voos estético“, talvez ele fundamente-se nessa inovação a qual está caracterizada a obra do artista mineiro. Chico procura fazer jus a máxima que diz que não há nada mais universal do que o nosso quintal. Sua originalidade tem o dom de conectar São João Del-Rei com qualquer canto do planeta sem deixar de ser raiz. Ele sabe passear (como poucos) na tênue linha existente entre o vanguardismo e o tradicional, estabelecendo um tipo de relação precisa e esteticamente apreciável como podemos observar neste mais recente trabalho, cujo título não poderia ser mais adequado: “Caipira do mundo“.

Este é o sétimo título da carreira fonográfica do artista e, assim como os anteriores, traz características que o mesmo vem prezando desde o primeiro álbum, procurando manter cada registro em disco como um tratado de celebração, procurando abranger a sonoridade que vai além do universo da viola sem se deixar perder em sua essência. Desse modo Chico Lobo é capaz de reunir nomes como o da Banda de Pau e Corda, Suzana Travassos, Verônica Sabino, Zé Geraldo e Zeca Baleiro em seu universo particular.

Quase todas as faixas presentes no álbum levam a assinatura de Lobo em parcerias como nomes como Alice Ruiz (A mais difícil opção), Chico César (Tristeza do culto), Ricardo Aleixo (Cantiga do caminho), Sérgio Natureza (Canto a cântaros), Siba(Pássaro de alma), Verônica Sabino (No fio do olhar), Zeca Baleiro (Morena de Minas), Arnaldo Antunes (Eu ando muito cansado),  Vander Lee (Quando falta o coração), Vítor Ramil (Cantata), Maurício Pereira (Para onde que eu tava indo?) e Fausto Nilo (No fim da rua). A única faixa que não leva a assinatura do são-joanense é a canção “Dois Rios”, composta por Lô Borges, Samuel Rosa e Nando Reis ganhando projeção nacional em 2003 no álbum Cosmotron, do grupo mineiro Skank.

O álbum ainda conta com a destreza de nomes como Rogério Delayon (charango), Ricardo Prado(sanfona), Simone Julian (coro, pífano, clarinetino e piccolo), Guilherme Kastrup, Roberto Andrade,George Andersen, Mek Natividade (percussões, percussões eletrônica e bateria), Tatá Sympa (vozes de aboio), Miriam Maria (coro), Hugo Hori (Coro), Tata Fernandes (coro), Dinho Nunes (coro); Regis Damasceno, Zé Nigro, Fernando Nunes e Sérgio Eduardo (contrabaixos), Bruno Morais (coro), Lui Coimbra (violoncello), Swami Jr. (viola de 7 cordas), Paulo Sérgio Santos (clarinete), Waltinho(violão), Júlio Rangel (viola), Beto Johnson (flauta), Tuco Marcondes (guitarra, violão e aço, violão barítono e 12 cordas), Marcelo Jeneci (wurlitzer e sanfona), Zé Pitoco (clarinetes e percussão), Toninho Ferragutti (acordeon) e por fim Livio Tragtenberg (clarones).

Deste modo Chico atesta de modo veemente que a troca do curso de educação física, da especialidade em psicomotricidade e da pedagogia pela música não foi apenas uma opção. Foi a escolha mais sensata para que houvesse a possibilidade de demostrar uma arte que, de forma uníssona, consegue fazer o passado adequar-se ao presente de modo bastante harmonioso; e no seu caso especificamente a oportunidade de ir além disso; pois sua arte tem a capacidade de substanciar o futuro da tradicional moda de viola a partir da manutenção e preservação dessa cultura a qual abraçou de modo tão intenso e sincero.

Aos amigos fubânicos ficam aqui dois registros do violeiro presentes no álbum “Caipira do mundo“. A primeira é “No fio do olhar”, parceria de Chico com Verônica Sabino. A canção ainda conta com a participação de Zé Geraldo:

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A segunda canção é “Pássaro de Rima”, uma parceria do violeiro com o pernambucano Siba. Esta canção conta com a participação da Banda de Pau e Corda:

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ESTÓRIAS E HISTÓRIAS DA MPB – PARTE 08

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A cantora baiana Maria Creuza

Retomando a série que dei início ao longo do ano passado queria trazer desta vez outra figura de nossa MPB que nasceu em Esplanada, na Bahia, cidade esta que fica a 155 quilômetros de distância da capital Salvador mas que aos dois anos de idade mudou-se para a capital, local este onde houve início o interesse em seguir sua carreira artística.

No mês em que completa sete décadas de vida, Maria Creuza continua atuando como cantora fazendo espetáculos regularmente no Brasil (geralmente no Rio de Janeiro) e no Exterior, mas o que interessa aos amigos do JBF são as estórias e histórias dessa que foi afilhada musical de Vinicius de Moraes e junto com ele gravou antológico álbuns como “Eu sei que vou te amar” e “Vinicius de Moraes en La Fusa” (um dos álbuns mais populares da música brasileira em países da América Latina).

Essas regulares apresentações em países latino americano renderam à artista a gravação de quatro álbuns em Buenos Aires (cidade onde está localizada a boate La Fusa que batiza o notório álbum). Sua aproximação com Vinicius se deu quando cantava em um festival universitário da TV Tupi, em 1969. Dizem que Vinicius teria ficado doido atrás do telefone da cantora, e de tanto ir em busca acabou conseguindo o número. A partir daí nasceu uma profunda e sincera amizade entre os dois que duraria até o falecimento de Vinicius em 1980.

Vale ressaltar que o interesse pela música surgiu quando Maria estava no curso ginasial do Colégio Ipiranga, em Salvador. Lá os alunos tinham aulas de canto orfeônico, foi a partir daí que surgiu o interesse da artista pelo universo musical. Aos 15 anos formou um conjunto de moças, “Les Girls”, de curta duração, onde se destacava como crooner. Foi a partir daí que começaram suas primeiras atuações musicais nas emissoras de rádio e televisão de Salvador, o que acabou rendendo-lhe o convite para comandar um programa na TV Itapoã, na capital baiana. Aos 17 anos, a futura cantora passou a fazer parte da programação da emissora com o atrativo “Encontro com Maria Creuza”, programa este que durou quatro anos.

Posteriormente a artista seguiu para o eixo Rio-São Paulo, onde passou a participar de diversos festivais na época. Defendeu canções em festivais como “O Brasil Canta” (na extinta TV Excelsior) interpretando a canção “Se Não Houvesse Maria”; participou do “V Festival da Música Popular Brasileira” (da TV Record) com a canção “Catendê” e na mesma TV Record defendeu, no “III Festival de Música Popular Brasileira”, a composição “Festa no Terreiro de Alaketu”.

Em 1974, Maria Creuza viria a enumerar mais uma participação a sua biografia só que desta vez bem longe do Brasil. A cantora já conceituada em nosso país participou do II Festival Mundial de Música Popular realizado em Tóquio (Japão), classificando em 2º lugar a canção “Que diacho de dor”, de autoria de Antonio Carlos e Jocafi.

Para quem não sabe, Maria Creuza foi casada com Antônio Carlos Marques Pinto, que junto com José Carlos Figueiredo formaram a dupla Antônio Carlos e Jocafi, parceria de relevante sucesso na década de 1970 e 1980. Apesar do duo ter lançado o primeiro LP apenas em 1972, Antônio Carlos já figurava, como compositor, nos primeiros registros fonográficos da cantora. Um exemplo é o LP “Apollo 11″, de 1969, cujo todas as doze faixas são assinadas por Antônio, ora de modo solo, ora em parceria. Antônio ainda foi responsáveis por outras tantas canções que figuraram em diversos álbuns da esposa.

Fica aqui para os amigos do JBF duas canções presentes no álbum lançado por Maria Creuza em 1972 no álbum “Eu sei que vou te amar”. A primeira trata-se da faixa-título e é, como muitos devem saber, uma composição de Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim:

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A segunda canção trata-se de “Catendê”, de autoria de Antônio Carlos, I. Tavares e Jocafi:

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TONI COSTA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Nas décadas de 80 e 90 atuou de forma consistente em trilhas de seriados, programas de televisão e estúdios de todo o país. Gravou e acompanhou em turnês diversos nomes da música popular brasileira e foi parceiro de alguns deles como vocês podem observar de modo mais minucioso o pequeno retrospecto biográfico e artístico que fizemos a seu respeito recentemente aqui em nosso espaço cujo título é “TONI COSTA APRESENTA AS CORES DE SUA TEXTURA SONORA”, abordando inclusive acerca de sua discografia solo, que conta hoje com quatro títulos distintos: “Gente da rua”, “A sorte muda”, “Músicas para o violão brasileiro” e o atual “Textura colorida” e a participação de grandes nomes da MPB como o da saudosa Cássia Eller e Luiz Melodia.

Solicito, Toni prontamente atendeu ao nosso desejo de entrevistá-lo. Agora os leitores do Musicaria Brasil poderão conhecer um pouco mais sobre a biografia e a carreira deste músico que destaca-se pelo talento e pela perfeita alquimia sonora que apresenta. Nesta informal conversa Toni Costa fala um pouco sobre sua passagem pela Berklee College of Music e as suas experiências musicais longe do Brasil, a perseverança do músico instrumentista em nosso país, seu método na hora de compor dentre outras coisas como vocês poderão conferir abaixo. Boa leitura!

Em sua família havia alguém que o inspirou para seguir carreira artística? Como se deu o seu primeiro contato com a música (mais precisamente com o instrumento com qual você hoje toca)?

TC – Infelizmente na minha casa e na minha família não tinha ninguém envolvido com música , comecei a procurar professores de violão desde os 15 anos naquela época adolescência. Estudei com Prof. Leo Soares na Pró-arte do Rio.

A música brasileira sempre foi muito respeitada no exterior, particularmente após a difusão da bossa-nova. Em sua passagem pela Berklee College of Music era possível observar isso?

TC – Claramente, o que esses músicos fizeram para por o Brasil no circuito do jazz foi espetacular, Jobim, Gilbert, Bonfá, Luis Eça, fazem parte de qualquer Real Book (coletânea de clássicos), eu sentia maior orgulho quando pintava uma composição desses caras pra gente estudar.

E a sua experiência nos EUA integrando algumas bandas trouxe-lhe algum “Know-how” relevante para a sua vida enquanto músico no Brasil?

TC – Definitivamente minhas experiências com bandas de salsa em Boston, marcaram meu estilo, meu swing. Fora a enxurrada de conhecimento da linguagem jazz na escola e nas gigs.

Trabalhar com música instrumental no Brasil requer mais perseverança que outros segmentos musicais? Pergunto isso porque, apesar de abundantes talentos existentes em nossa música que se observa é a notória falta de espaço para esse segmento.

TC – Sem dúvida , sempre foi uma aventura fazer instrumental aqui onde moro , no Rio. Houve até uma época que teve um boom com bons festivais e o público prestigiando mas agora mesmo no lançamento desse meu CD novo não consegui pauta em nenhum orgão de imprensa convencional.

Nesses mais de 30 anos de carreira você já esteve em diversos palcos tanto de maneira solo quanto acompanhando grandes nomes de nossa música, além de atuar também como produtor e arranjador de programas de TV e trilhas sonoras para o cinema. Você destacaria algum fato que de tamanha relevância fez você ter plena convicção que a sua escolha profissional não poderia ser outra?

TC – Desde os primeiros acordes tinha convicção que minha vida e música eram uma coisa só . Tenho muito orgulho de nesses mais de 30 anos ter trocado experiências musicais e de vida com grande artistas e músicos.

Há pouco mais de 10 anos você foi uma das pessoas que implantou (ao lado maestro Luizão Paiva) a escola de música Adalgisa Paiva, na Universidade Federal do Piauí. Parece que o panorama nas escolas vem mudando ao longo dessa década que se passou desde essa sua experiência no Nordeste. Você acredita que a implementação da música nos currículos escolares é capaz de dar uma nova cara a atual conjuntura social em nosso país? Por quê?

TC – Puxa vida seria fantástico termos prática de música em todas as escolas no Brasil. Imagina quanta gente apareceria tocando, compondo, arranjando, somos um povo musical e isso daria um grande impulso.

Com exceção dos álbuns “Sorte muda” e “Músicas para o violão brasileiro” os seus demais discos foram lançados com um intervalo de tempo significativo. Há algum motivo específico para intervalos tão longos?

TC – Não há motivo, foi o tempo que levou cada projeto, com vários outros projetos rolando no meio.

“Textura Colorida” é um álbum cuja tessitura mostra-se bastante contemporânea e é composto por canções essencialmente autorais. Essa atemporalidade de suas composições é uma característica que você procura considerar na hora de compor?

TC – Não penso nisso na hora que componho, só deixo fluir a ideia, seja de que estilo for , seja de que instrumento for e vou trabalhando, burilando a composição. Cada música tem sua importância seja de que estilo for.

Em sua condição como instrumentista na hora da composição é mais fácil entregar ao letrista uma melodia já pronta ou elaborar a melodia em cima da letra? Como se dá o seu processo de composição em parcerias?

TC – Faço das duas maneiras mas é mais comum eu entregar ao parceiro uma melodia com uma harmonia e um suingue bem definido. Mas já fiz várias músicas para letras mandadas pelos parceiros . As vezes mando até um refrão já com letra.

Você já tem uma agenda solo bastante agitada, com incursões não só no Brasil quanto no exterior, agora com o lançamento desse seu mais recente trabalho a demanda de shows deve aumentar significadamente. Como será conciliar a sua agenda solo e a do Trio Moinho?

TC – Dá pra levar por que eu gosto de tudo, esse é o segredo.


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TONI COSTA APRESENTA AS CORES DE SUA TEXTURA SONORA

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Com mais de três décadas de estrada, o músico e instrumentista carioca Toni Costa é dono de um currículo invejável. Nessas décadas de carreira já acompanhou relevantes nomes do cenário musical brasileiro tais quais nomes como Nelson Gonçalves, Jussara Silveira, Moraes Moreira, Luis Melodia, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Elba Ramalho, Sergio Sampaio, Gal Costa, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Leo Gandelman entre outros. Arranjador, compositor, instrumentista e intérprete, hoje, paralelo a carreira solo, forma um dos trios mais bem conceituados da música popular brasileira contemporânea, o grupo Moinho. Ao seu lado nessa perfeita trinca estão a percussionista Lanlan e a cantora e atriz Emanuelle Araújo, onde desde 2006 vem conquistando um público cativo a partir das irreverentes e dançantes canções. O grupo, que ao longo desses anos, vem apresentando-se tanto no Brasil quanto no exterior, já gravou dois cd’s e um dvd.

Toni Costa teve os seus primeiros contatos musicais nos idos anos 70 quando deu início aos estudos de música com Léo Soares, na Escola de Música da Pró-Arte, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, morando em Salvador passou a frequentar aulas de música nos “Seminários de Música da UFBA” (Universidade Federal da Bahia) chegando a trabalhar com o músico Walter Smetak no chamado projeto de violões afinados em microtons. Ainda na década de 70 resolveu voar mais alto e aventurou-se como estudante na Berklee College of Music (Boston/E.U.A), onde fez curso de “Arranjo”, “Harmonia” e “Improvisação”. Nesse período integrou diversas bandas de ritmos latinos, apresentando-se na periferia da capital de Massachusetts.

Volta ao Brasil por volta de 1980 e passa a trabalhar além de instrumentista como compositor e arranjador para inúmeros artistas e bandas brasileiras dentre os quais os nomes que foram citados anteriormente. Como compositor constam parcerias com nomes como Orlando Morais, Luis Ariston e os poetas Carlos Rennó, Antonio Risério, Chacal e Fred Góes nesses mais de 30 anos de carreira profissional dedicados a música brasileira.

Em sua biografia ainda constam arranjos para várias composições apresentadas no programa “Chico e Caetano”, apresentado na década de 80 na rede Globo; trilhas sonoras para programas de Tv e cinema como por exemplo a série “Confissões de Adolescente”, apresentada na Tv Cultura e dirigida por Daniel Filho; a trilha sonora para o filme “Veja Essa Canção”, de Cacá Diegues, para programas do Canal Futura e para o longa-metragem “Procuradas”, dirigido por José Frazão e Zeca Pires dentre outras.

Sua carreira solo teve início ainda na década de 80, quando por volta de 1989 lançou, pelo selo Retoque, o álbum “Gente da rua”, O disco contou com a participação de diversos artistas, dentre os quais Léo Jaime em “Vem me dançar” (com Roberto Rodrigues); Raul Mascarenhas em “Cristais emoções” (com Cristiaan Oyens); Léo Gandelman em “Chimpanzé” (com Guilherme Maia e Zeca Barreto); Caetano Velosoe Carlinhos Brown na composição “Xangô é de Baê”, de João Donato e de Gal Costa na faixa-título “Gente da rua”. Nas faixas presentes no disco ainda constam as canções “O meu boi morreu” (Domínio Público), “Flecha” (com Tavinho Fialho e Carlos Rennó), “Rio Bahia” e “Radio shit”, também de sua autoria.

Quase dez anos depois Toni aos estúdios para a gravação de um álbum assinado por ele. Em 1998, grava o álbum “A sorte muda”, disco que conta com diversas participações especiais, dentre as quais a da cantoraCássia Eller (interpretando a faixa que dá título ao disco), Luiz Melodia em “Saudade do Rio”, Toni Garrido em “Grito de guerra”; Orlando Morais em “Grunhir”, parceria de ambos; Armandinho na faixa “Manaus” e a cantora mineira Jussara Silveira na composição “Lagoa”, também em parceria com Orlando. a faixa “A sorte muda” (composição em parceria com Chacal), foi incluída na trilha sonora da novela “Era Uma Vez”, da Rede Globo.

No ano posterior lançou o terceiro álbum intitulado “Músicas para o violão brasileiro”, disco cujo a ficha técnica é constituída por diversas participações, dentre as quais, Toninho Horta (violão), Claudia Coutinho (voz) e Marcos Suzano (pandeiro). O repertório deste disco é bem abrangente, indo desdeGaroto (Voltarei), perpassando por composições próprias, indo até “Allemande suíte 996 em mi menor”, de J.S.Bach.

Agora depois de mais de uma década dedicando-se a outros projetos, Toni Costa resolve voltar a fazer um registro mais intimista, expondo em cores e formas a sonoridade a qual busca ao longo de todos esses anos de carreira. Parece que a fórmula utilizada é de grande valia, pois as texturas sonoras (se assim podem ser denominadas) condizem fidedignamente com aquilo que o disco se propõe: fazer música de qualidade inquestionável sem muita preocupação.

O álbum foi batizado a partir de um quadro do artista plásticoJoão José da Costa. o quadro “Textura Colorida” além de batizar o disco também o ilustra, a colorida capa ao fundo trata-se do próprio quadro. O disco em si é composto por dez faixas que traz em sua audição um clima de total descontração e, mesmo não preocupando-se com minúcias inerentes a produção e recursos tecnológicos para “embelezar” o disco, o que resulta do produto final é de uma qualidade inquestionável.

Todas as faixas são composições do próprio Toni Costa, com exceção de “Linha Vermelha”, que vem em parceria com Miguel Gandelman. Entre as faixas presentes nesse trabalho essencialmente autoral, o artista foi capaz de sintetizar de modo bastante competente a diversidade rítmica que caracteriza a música brasileira transitando por samba, pop, baião, balada, choro, jazz, fusion e bossa. Na execução dessa gama de ritmos, Toni (no comando das guitarras) escalou um time de primeira: Pedro Mazzillo (baixo e violão), Fabrício Belo(teclados), Alexandre Caldi (sax tenor) e Maurício Braga(bateria).

Desse modo, nessa aquarela rítmica genuinamente brasileira, Toni pincela a sua parcela de contribuição na perpetuação da música instrumental brasileira de qualidade, mostrando a partir de sua sonoridade contemporânea que os laços com as matrizes rítmicas de nossa música ainda é possível sem se deixar perder na linha do tempo elementos fundamentais que as caracterizam.

Segue para audição dos amigos fubânicos duas canções do álbum aqui apresentado. A primeira de autoria do instrumentista chama-se “Linha vermelha”, de autoria de Toni em parceria com Miguel Gandelman:

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A segunda é de autoria apenas de Toni. Trata-se da canção “Baculejo”:

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PROJETO TRAZ A DELICADEZA, A SENSIBILIDADE E O GARBO DO FEMININO CANTO PERNAMBUCANO

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Da esquerda para a direita: Anastácia Rodrigues, Sônia Sinimbú, Cláudia Beija e Angela Luz

O filósofo italiano Empédocles de Agrigento (484 – 421 a.C.) concordava com outros que o antecederam de que a natureza possuía uma só origem, no entanto, Empédocles acreditava que essa teoria vista como verdade absoluta necessitava de uma complementação. Isso o fez querer ir um pouco além do convencional, fazendo-o defender a ideia de que esse princípio não derivava apenas de um princípio único, mas sim de quatro raízes fundamentais conforme podemos observar ao aprofundarmo-nos nesta área. Esta pequena explanação acerca das concepções do filósofo italiano vem, de certo modo, objetivando dar o embasamento ao projeto “Quando a canção acabar”, iniciativa concebida pelo cantor, compositor e produtor pernambucano Gonzaga Leal, que arquitetou reunir neste álbum quatro vozes: Anastácia Rodrigues, Sônia Sinimbú, Cláudia Beija e Angela Luz. Artistas conhecidas no cenário musical pernambucano elas trazem consigo em comum muito além do talento que apresentam nos palcos de algumas das principais salas e palcos do Brasil. No canto destas artistas é possível perceber não só os quatro elementos fundamentais da natureza, mas uma unidade feminina onde fogo, terra, água e ar fundem-se de forma uníssona e meticulosa; dando ao projeto uma unidade bastante coesa e de excelente bom gosto.

Mas o que seria que assemelha estas artistas além do talento? A resposta instantânea seria talento; no entanto essas cantoras além do nobre adjetivo também possuem em comum o fato de nunca terem ido além da participação em discos de outros artistas. Portanto já era chegada a hora desses talentos registrarem suas respectivas identidades em disco, uma vez que esse aspecto das cantoras nunca terem gravado seus trabalhos autorais intrigou Gonzaga, que além de propiciar esse encontro também viu no quarteto a possibilidade da realização de um sonho “perdido”, pois segundo o próprio Gonzaga “Quando a canção acabar é o disco que eu gostaria de ter gravado pra mim, mas que não se adequa à minha voz.”

A realização desse intrínseco desejo deu-se de modo bastante peculiar, uma vez que o cantor e compositor pernambucano conseguiu fazer do projeto uma obra com uma estética imbuída de características bastante peculiares, mostrando-se, de certo modo, um verdadeiro mosaico interpretativo regido por algumas das mais belas vozes do cenário musical recifense. Uma pluralidade que dosa de modo harmonioso tudo aquilo díspar entre as intérpretes. “O que regeu a batuta foram as diferenças e não as semelhanças”, afirmaGonzaga. Das treze faixas presentes no disco cada uma das quatro artistas interpretam três e juntam-se para cantar a última, que batiza o álbum.

A primeira interpretação fica a cargo da cantora Sonia Sinimbu, artista que traz além das experiências nos palcos um grande embasamento teórico adquirido a partir do Conservatório Pernambucano de Música, onde foi aluna nas classes de canto e violão. Com um timbre marcante e grande afinação, Sinimbu mostra neste trabalho um grande potencial a ser explorado. Já Angela Luz, mostra nas canções que interpreta o porquê de sua paixão pela música ter começado ainda criança e perdurar até os dias atuais trazendo em seu canto toda uma bagagem significativa, uma vez que Luz já dividiu palco com grandes nomes da música nacional e regional tais como: Luiz Gonzaga, Hermeto Pascoal, Sivuca, Dominguinhos, Genaro, Camarão,Osvaldinho, Claudionor Germano, Acioly Neto, Nana Vasconcelos, Rosaura Muniz entre outros. Sem contar com os diversos festivais de música não só em Pernambuco, mas também em todo o país que a cantora já chegou a participar. Neste disco todo o ‘know-how’ da artista evidencia-se de modo pleno como pode-se observar nas faixas interpretadas pela cantora.

O disco continua com a cantora e compositora Anastácia Rodrigues, que apesar de ter iniciado seu curso de música na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) desistiu no andamento do curso só voltando as salas de aula algum tempo depois já não mais da universidade, mas no Conservatório. Rodrigues costuma dizer que foi neste espaço que ela trocou a música barroca pela música de barraco sob a orientação do maestro Marco César, entrando de corpo e alma no choro a partir do grupoArabiando. Hoje em carreira solo a cantora tem um vasto currículo não só na musica popular como também na música erudita. Por fim e não menos importante destaca-se o nome de Cláudia Beija, artista de destaque do cenário musical recifense e que já apresentou diversos espetáculos temáticos na capital pernambucana, dentre os quais podemos destacar o show “Noel Rosa dá samba”, apresentação que contou com a participação dos músicos Tostão Queiroga, Tomás Melo, George Aragão, Renato Bandeira, Nilsinho Amarante e Caca Barreto no teatro de Santa Isabel, na série de apresentações do ‘Janeiro de grandes espetáculos’, evento realizado anualmente em Recife.

A faixa que dá título ao álbum é de autoria de Luiz Tatit, no entanto além do compositor e músico paulista o repertório do disco conta também com nomes como Noel Rosa (‘Amor de parceria’), Robertinho do Recife e Abel Silva (‘Merengue’), Geraldo Maia e João Falcão (‘Tô fora’), Accioly Neto (‘Hedionta musa’), Marcos Sacramento e Luiz Flávio Alcofra (‘Na cabeça’), Marco Polo (‘Outra vez’), Fabio Tagliaferri (‘Mergulhando’),Sérgio Cassiano (‘Tico-tico’), do folclore do Piauí Gonzaga Leal recolheu ‘Cantiga de Manoel Leandro’ e a adaptou para o projeto. O disco ainda conta com o pernambucano Juliano Holanda,que assina duas parcerias: ‘Vírgula’ (com Publius) e ‘Boa hora’ (com a cantora e compositora Alessandra Leão); e com a faixa ‘Semeação’, de autoria de Anastácia Rodrigues mostrando-se também uma excelente compositora.

Além das cantoras e do produtor Gonzaga Leal há na tecitura deste projeto nomes como Cláudio Moura (viola, violão, direção musical, direção de mixagem e regência), Marcos FM (arranjos e contrabaixo), Alex Sobreira (violão 7 cordas), Breno Lira (guitarra semi-acústica), Ivan do Espírito Santo (sax tenor), Nilsinho Amarante (trombone), Márcio Silva (bateria), George Rocha (percussão), Tomás Melo (percussão), Nilson Lopes (arranjo), Maurício Cezar (piano), Adilson Bandeira (clarinete), Frederica Bourgeois (flautas), Ricardo Fraga (bateria), Publius (bandolim), Fabinho Costa (trompete), Caca Barreto (arranjo e contrabaixo), Tostão Queiroga (bateria e percussão), Fabio Tagliaferri (arranjo e viola de aço), Adriano Busko (percussão), Daniel Nakamura (violão e contrabaixo) e Sérgio Godoy (arranjo e piano).

Assim sendo Gonzaga Leal apresenta após quatro anos de concepção “Quando a canção acabar”, um projeto que soube fazer algo muito além do convencional no cenário musical pernambucano. O disco que sai pelo selo Passadisco (do empresário Fabio Cabral, proprietário também da loja de discos homônimo ao selo) e atesta que trata-se muito mais que a realização de um obscuro desejo, ele de modo astuto e técnico soube compactar e moldar em uma coerente unidade quatro vozes que destacam-se por diversos fatores que vão muito além das qualidades técnicas. E mesmo de modo coletivo Anastácia, Sonia, Cláudia e Angela conseguem formular um mosaico único, onde seus respectivos timbres aliados à delicadeza dão o tom preciso as respectivas interpretações das artistas. Cada interpretação merece destaque, uma vez que é possível observá-las como uma verdadeira entrega, um ato de doação por parte das cantoras que dão tudo de si neste projeto que abre novas oportunidades para estas artistas que de cantos tão perenes tornaram o projeto capaz de permanecer mesmo quando a canção acabar.

Segue para audição dos amigos fubânicos a canção que dá título ao projeto. “Quando a canção acabar” é uma canção da lavra de Luiz Tatit e conta com a participação das quatro intérpretes:

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DONA EDITH DO PRATO, 5 ANOS DE SAUDADES…

Edith do prato

Incluso na região metropolitana de Salvador, o Recôncavo baiano abrange além da capital do estado da Bahia municípios como Santo Antônio de Jesus, Candeias, São Francisco do Conde entre outros municípios; como, por exemplo, Santo Amaro da Purificação, que ficou nacionalmente conhecido por trazer entre seus ilustres filhos nomes como Assis Valente, Caetano Veloso, Maria Bethânia entre outros. Localizada em torno da Baía de Todos-os-Santos, confesso que meu discernimento não alcança se há algo na região que propicia o desenvolvimento desses talentos, no entanto é público e notório o propício desenvolvimento dos samba-de-rodas (variante do tradicional ritmo brasileiro e que teve sua origem no próprio estado da Bahia).

Uma das maiores representantes deste ritmo não só em Santo Amaro, mas em todo o estado da Bahia foi Edith Oliveira Nogueira, que ficou mais conhecida por Dona Edith do Prato. De modo despretensioso a dona de casa usava uma faca e um prato como instrumentos de percussão cantando sambas-de-roda. Ninho Nascimento, produtor musical e neto de criação de Dona Edith, sabe bem como foi o início de tudo: “Ela começava a tirar os primeiros sons da metade de uma cuia de queijo quando brincava de fazer comida no quintal de casa. Na adolescência, tocava prato e assim descobriu um som diferente e foi aperfeiçoando. Para ela, o prato tinha que ser de louça e o mais barato, e a faca de inox, sem cabo de madeira. Não teve referência artística, mas um dom, que foi desenvolvendo aos poucos. Ela nunca se imaginou artista.”

Dona Edith subiu ao palco pela primeira vez na década de 1970 ao lado do cantor e compositor Roberto Mendes, em Salvado, mas em 1969 já tinha o toque do seu prato registrado na canção “Torno a repetir“, um tema de domínio público adaptado por Caetano. Quatro anos depois ela voltava para o estúdio para participar do álbum Araçá Azul, também de Caetano Veloso. No álbum ela canta uma adaptação de Veloso para tema de domínio público “Viola, Meu Bem“, além de dividir com ele os vocais em “Sugar Cane Fields Forever“. Amiga ao longo de décadas de Dona Canô, Edith acabou tornando-se figura recorrente nos trabalhos dos filhos da matriarca dos Veloso. Em 1983 participou do álbum Ciclo de Maria Bethânia com a canção “Filosofia Pura“, de autoria de Roberto Mendes e Jorge Portugal; Em 1991, grava o samba-de-roda “Boas vindas” canção composta por Caetano em homenagem ao filho Zeca, recém-nascido.

Em 2002 Edith grava o álbum Vozes da Purificação (único registro de Edith e que posteriormente gerou um DVD), e que conta com a participação não só dos Velosos (Bethânia e Caetano), mas também de nomes como Roque Ferreira, Cortejo Afro, Mariene de Castro entre outros. O álbum é composto principalmente por temas populares adaptados, as exceções são “How Beautiful Could A Being Be“, de autoria de Moreno Veloso (filho de Caetano) e o “Hino De Nossa Senhora Da Purificação“, composto por Domingos de Faria Machado, compositor santoamarense.

Raspando a faca no prato de modo bastante peculiar Dona Edith soube como poucas trazer consigo a típica sonoridade do Recôncavo, entoando seus sambas de roda de modo bastante pessoal, tornando-se a partir daí como certa vez definiu Hermínio Bello de Carvalho, uma espécie de cartão postal sonoro da Bahia.

Aos amigos do JBF deixo duas faixas deste registro fonográfico ímpar. A primeira trata-se de um pot-pourri composto pelos três sambas-de-roda de domínio público. São os sambas “Quem Pode Mais”, “Dona da Casa” e “Eu Vim Aqui”. A faixa ainda conta com a participação de Maria Bethânia:

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A segunda canção trata-se de outro pot-pourri de sambas-de-roda de domínio público. As canções “Casa Nova” e “Raiz” conta com a participação Marilene de Castro, ainda em início de carreira:

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SAMUEL CARNERO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

O contexto cosmopolita ao qual Samuel Carnero está inserido não interferiu de modo algum em sua arte. Pelo contrário, talvez venha daí a essência de seus versos e melodias. De família de músicos e poetas, o artista foi protagonista aqui mesmo no JBF da pauta intitulada “A CRÔNICA, A MÚSICA E A POESIA COSMOPOLITA DE SAMUEL CARNERO” e agora retorna ao nosso espaço para esta entrevista exclusiva, onde nos fala, dentre outras coisas, das reminiscências de infância, o modo como concilia sua condição de poeta e cronista, seu álbum “Eu não posso parar”, entre outras informações interessantes. Carnero, que vem gravando seu mais recente EP, deu uma pausa na gravação para nos conceder gentilmente esta entrevista exclusiva conforme o público leitor pode averiguar abaixo. Boa leitura a todos!

Você é um artista que toda uma genealogia que de certo modo o enveredou para a música. Quais as reminiscências de infância mais marcantes dessa família tão musical?

Samuel Carnero – A arte sempre esteve presente na Família Lopes (ascendência materna). Ainda morando em São Paulo, na infância, me lembro da Vitrola Phillips 1983, onde eu e meu pai Gérson cantávamos e brincávamos de entrevistas. Lembro também de minha mãe Roseli ter me dado de presente uma cítara infantil, com algumas partituras. Sempre tinha música tocando em casa, LP´s, K7´s e Rádio. De cantores nacionais à internacionais. De Agepê à Chitãozinho & Xororó, de Erlon Chaves à We Are The World – “USA for Africa”. Já morando em Parapuã – SP, aos 9 anos de idade, eu sempre ia à casa de minha avó Maura, onde minhas tias cantavam, tocavam piano, faziam piadas, recitais…até hoje elas fazem isso. São artistas de alma. Compositoras, escritoras, artesãs, regente de coral e pianistas. Aos 12 anos mais ou menos peguei o violão de minha tia Nely e fui fazer aula no conservatório da cidade.

Já que havia músicos e poetas em sua família, em algum momento você se questionou em qual dessas veredas iria seguir ou você desde o início procurou conciliar versos e melodias?

SC – Gosto muito de escrever sobre qualquer assunto, mas antes de saber escrever, eu já cantava e balbuciava palavras, por volta de 2 ou 3 anos de idade. A fusão letra / melodia vem naturalmente em meu processo de composição. Quando consigo musicar uma letra (crônica, poesia, homenagem…), fico muito feliz. Mas quando não tem como, o texto então fica apenas como texto mesmo, em blogs. É gratificante poder musicar um texto meu ou de alguém.

Você tem uma relação muito íntima, enquanto cronista e poeta, com a questão da escrita. Como se dá o seu processo de composição? Devido a essa condição de escritor é mais fácil a elaboração das letras antes das melodias ou isso não é problema?

SC – O meu processo de composição musical não segue uma regra ou sequência. Quando bate a inspiração, eu crio a melodia ou a letra, ou as duas ao mesmo tempo. Tenho poesias que demorei 2 anos para musicar, como tenho melodias ainda sem letras. Mas sempre sinto que uma hora sai [risos].

Segundo sua biografia o início do seu processo de composição se deu ainda na época da Escola de Engenharia a cerca de 10 anos atrás. Deste álbum existe alguma dessa período?

SC – Sim, da época da faculdade existe LIRIOS, o reggae.

Atualmente você é colaborador de alguns espaços literários com as suas crônicas e suas poesias. Locais como o “Tribuna escrita” e o “Beco dos poetas” têm publicações suas. Você pretende ou já cogitou em algum momento juntar essa produção e publicar algo forma de livro?

SC – Esses blogs são muito legais. Tribuna Escrita é de um amigo baiano, o poeta Manoel Hélio, grande pessoa! Já o Beco dos Poetas e Escritores é blog, sarau e editora literária, dos queridos Márcio Marcelo e Maria Jeremias. Eu tenho poesias publicadas em compêndios do “Beco”, de autores diversos. E sim, num futuro próximo pretendo escrever livros. Só ainda não sei sobre os gêneros: poesia, espiritualidade, sociedade, religião ou ciência. Ser eclético e universalista como eu às vezes embola o meio de campo [risos].

Em que momento você decidiu que deveria seguir carreira artística e começou a arquitetar o sonho da gravação do seu primeiro disco?

SC – Desde pequeno eu gosto das artes e de me expressar para o mundo, seja na forma falada, escrita, tocada ou cantada. Foi o meio que encontrei para externar meus sentimentos. Sempre que posso ou tenho oportunidade, me apresento artisticamente. A gravação de meu primeiro disco se deu pois eu tinha mais ou menos 30 músicas gravadas em demos caseiras e muito toscas no formato voz / violão. Então senti que estava na hora de selecionar umas faixas e gravar em estúdio, com arranjos e banda.

O repertório do disco “Eu não posso parar” é totalmente autoral não é isso? Como foi feita a seleção das onze canções?

SC – Sim, é um disco autoral, porém com três parcerias: “A Balada da Fejuca” é letra minha e de meu amigo publicitário Samuel Segatelli e melodia minha. “Lirios” é letra minha e de meu compadre Gustavo Sanches (Menudo) e melodia dele. “Ideal” e “Vitrine da Alma” são crônicas do livro Compêndio da Imaginação (Editora AG Book) de minha mãe Roseli Helena, onde tive a felicidade de musicá-los. A seleção de repertório se deu à partir de feedback de meu público, do arranjador Ronaldo Rayol e de meus gostos também. É um disco eclético, com vários estilos musicais e histórias.

Não sei se estou enganado pois não sou especialista em poesia, mas vejo que “Selva de cerveja” tem um jogo de palavras que confere a canção um certo ar de poema abstrato. Como se deu o processo de composição dessa canção especificamente? E a utilização do neologismo tão recorrente nessa faixa?

SC – Selva de Cerveja é uma das músicas mais loucas que tenho. Em 2005 eu e uns amigos saímos de Bauru – SP rumo à Londrina – PR, para o casamento de um amigo. Desde as primeiras cervejas, ainda em Bauru, até Londrina e depois por lá e na volta toda, todos nós “cozidos” falávamos e conversávamos mais ou menos assim: “ow passa a breja, vamos tomar mais uma bréja…me dá uma cerva…vamos tomar uma léuva, uma melva…”. E quanto mais “altos” ficávamos, mais apelidos carinhosos saíam para a cerveja. De volta à São Paulo (minha casa) escrevi o abecedário da cerveja, que conta a nossa saga rumo ao Paraná, Selva de Cerveja. E foi realmente uma selva [risos].

O artista independente nos dias atuais tem o total domínio sob seus projetos, desde a notória facilidade para a gravação até as questões mais burocráticas. A dificuldade que observo é quanto a distribuição desse material depois de pronto. Para que tudo isso reverbere de modo eficiente é preciso muito jogo de cintura para driblar os notórios jabás e total interatividade com as redes sociais e ferramentas cibernéticas. Como você trabalha esses dois aspectos?

SC – De fato é difícil ser artista independente, principalmente pelo lado financeiro. Isso é minha percepção. Queria muito ter um empresário, produtor ou patrocínios. Todos os dias corro atrás disso. Não me importo em ter uma gravadora, mas queria apoio para poder realizar mais e de uma forma mais eficiente e abrangente. Ser músico é ter uma empresa. É necessário o financeiro, o administrativo, o marketing, a logística e a equipe. Eu tive uns pequenos patrocínios para gravar o meu primeiro disco. Divulguei-o em mídias sociais, players e YouTube. Também disponibilizei download grátis e distribuí mil cópias físicas, promocionais. Acredito que quanto mais pessoas baixarem, compartilharem e reproduzirem minhas músicas, melhor a minha promoção e popularização. Ainda não estou na fase de visar dinheiro com minha arte. Estou na fase da promoção, e feliz assim. A internet e o corpo a corpo tem me ajudado muito. Fazer sucesso não é sinônimo de qualidade artística. Eu sinto que todos tem o seu público e que há sim espaço para todos no mercado. É uma questão de tempo, foco, força e fé. E talento é claro, pois isso o perdurará no mercado. Outro meio de se “fazer sucesso” é um vídeo “estourado” no YouTube, um produtor / investidor ver potencial em você ou quem sabe depois de 15 anos na estrada você emplacar uma música. Conheço casos assim. Não há uma receita para o sucesso, pois sucesso é uma coisa muito pessoal. Cada um tem como meta o que é sucesso para si. Sucesso para mim é poder acordar todos os dias e fazer o que ama, e amar o que faz, sem pensar em dinheiro, pois dinheiro é consequência desse trabalho amoroso e bem feito.

Quais os projetos arquitetados para este ano de 2014?

SC – Para 2014 pretendo continuar fazendo que faço, só que com mais foco e mais força. Procurar mais e mais lugares para me apresentar artisticamente, com foco no autoral, fazer mais web clipes, compor / gravar novas músicas, escrever, blogar e dispender mais tempo para os trabalhos sociais e voluntários, o que me deixa muito realizado também. Obrigado pela entrevista!


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A CRÔNICA, A MÚSICA E A POESIA COSMOPOLITA DE SAMUEL CARNERO

Samuel Carnero (Imagem)

De família extremamente musical, Carnero faz-se um multi artista sem deixar-se perder nesta pluralidade. Como poeta, soube usar dessa aguçada sensibilidade, transformado-a em um dos ingredientes primordiais na elaboração de sua arte. Como cronista trouxe peculiaridades interessantes a partir de uma ótica leve e descontraída. E assim, imbuído dessas características, Samuel soube fundir muito bem tais elementos em sua sonoridade e agora em 2012 acabou de lançar o cd “Eu não posso parar”, trabalho este que nasceu de modo independente e que vem sendo divulgado pelos canais alternativos existentes, principalmente a partir das redes sociais. No Youtube, por exemplo, o primeiro vídeo clipe já vem sendo difundido e traz como característica um lirismo quase pueril que funde-se a uma visão cosmopolita (já que retrata a ambientação na qual o artista está inserido).

Composto por onze faixas, “Eu não posso parar” trata-se de uma abordagem sonora bastante peculiar, que procura retratar em melodias conceitos e dilemas de um sujeito que tem uma relação bastante intrínseca também com as letras. Essa intimidade com versos e melodias vem de longas datas, quando Samuel Carnero no alto dos seus 3 anos ganhou do pai uma pequena vitrola. Sua lembrança mais remota vem das canções sussurradas ao seu ouvido por seu pai. Essas músicas estavam presentes em uma fita K7 e por muito tempo fez a alegria do pequeno Samuel. Não sabia seu pai que os versos escritos por Vinícius de Moraes como “Lá vem o pato pata aqui pata acolá… lá vem o pato para ver o que é que há…”, assim como outros, tocariam tão fundo em seu filho e, de certo modo, transformaria a sua vida.

Também houve incentivo do lado materno, sua mãe (que também é pianista) o presentou aos 6 anos com um instrumento pra lá de exótico para muitos, mas na visão de uma criança bastante divertido. A cítara ganha juntamente com algumas partituras de músicas natalinas e infantis. Daí vieram incentivos de outros membros da família como o da tia Nely, que além de ser professora de piano clássico foi ela que propiciou o primeiro contato do artista com o violão. Esse envolvimento com a música talvez se dê devido a geração que antecede seus tios e pais, pois segundo relatos de sua avó materna é uma história que vem de sua época. Isto talvez explique a quantidade de parentes envolvido com as artes e a sua total propensão para o universo da música.

Quase todas as composições do disco ficaram a cargo do próprio cantor, com exceção de 4 faixas, que escritas a quatro mãos têm a parceria de amigos e da mãe do artista, Roseli Helena. Enquanto autor, Samuel Carnero traz em sua bagagem a apurada linhagem a qual pertence e nos apresenta temas como a irreverente “Selva de cerveja”. Já o blues “A balada da Fejuca” descreve a degustação de uma bela feijoada seja na quarta-feira para retomar plenamente satisfeito ao trabalho, seja no sábado acompanhado de uma caipirinha e uma boa música.

O disco continua com as românticas baladas “Habib” e “Perdão outra vez, Luciana”. Já “Ideal”, que vem como música escolhida para a produção do clipe, mostra como podemos “fazer a mente” de diversos modos distintos como pode-se enumerar ao assistir ao vídeo acima. A produção ainda conta com faixas como “Whispering in your ear”, o country “Vitrine da alma” e o o reggae “Lírios”. Além das baladas “O eterno não se desfaz” e “Eu não posso parar”, faixa homônima ao título ao trabalho. O disco encerra com a faixa “Amor”, poema altruísta que ganha leve melodia e retrata um artista multifacetado. Na tecitura sonora de “Eu não posso parar” encontramos nos arranjos, guitarras e violão de Ronaldo Rayol, o baixo de Eric Budney, teclados de Moisés Alves e Nahame Casseb no comando da Bateria e, além é claro, do próprio Carnero.

Agora para os amigos fubânicos deixo, além dos meus votos de um 2014 cheio de conquistas, duas faixas deste trabalho autoral de Carnero. A primeira faixa trata-se de “Ideal“:

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A segunda canção é “Perdão outra vez, Luciana“:

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2013, UM ANO PARA A MÚSICA PERNAMBUCANA ESQUECER

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Arlindo dos 8 baixos, Dominguinhos, Sanae Shibata, Carlos Fernando, João Silva, Duda da Passira e Reginaldo Rossi são alguns dos nomes que partiram em um ano acometido por tantos infortúnios

A música pernambucana como um todo ficou substancialmente mais pobre ao longo do ano de 2013. Ela perdeu nomes que contribuíram de modo bastante efetivo nas últimas décadas para elevar o nome e a cultura do estado para o patamar que hoje é possível observá-la nos mais diversos gêneros que a constitui. No entanto, um gênero em especial, foi o que mais sentiu a perda de nomes emblemáticos em seu segmento: o forró.

Partiram nomes como Julio Nunes Pereira, ou melhor Duda da Passira. Natural de Passira, no Agreste de Pernambuco, o instrumentista começou a carreira tocando forró pé-de-serra. Com seis discos e mais de dez CDs gravados, em 1991 foi indicado ao Grammy internacional na categoria música regional e veio a sucumbir devido a uma hemorragia digestiva que talvez tenha se agravado devido a diabetes a qual o músico também sofria; Outro que também partiu ao longo deste ano foi o cantor e compositor João Silva. Autor de mais de 2000 composições e inúmeros clássicos interpretados por nomes como Luiz Gonzaga e quase todos os cantores e intérpretes do gênero, João deixa-nos como legado canções como ‘Nem se despediu de mim’, ‘Pagode Russo’, ‘Deixa a tanga voar’ entre tantas outras com os parceiros mais diversos tais quais João do Vale, Onildo Almeida, Rosil Cavalcante, Severino Ramos, Bastinho Calixto, Pedro Maranguape e Pedro Cruz. Nascido em Arcoverde, a 259 quilômetros do Recife, João Leocádio da Silva, o João Silva, foi também um dos responsáveis direto do primeiro disco de ouro de Luiz Gonzaga, o álbum ‘Danado de bom’, que vendeu cerca de 1,6 milhão de cópias vendidas.

Outras lacunas deixadas ao longo deste ano foram ocasionadas pela partida de dois ases da sanfona. De um lado Arlindo dos oito baixos, considerado Patrimônio Vivo de Pernambuco. Nascido em Sirinhaém, Arlindo morou até a adolescência no Engenho Trapiche. Saiu da cana-de-açúcar para cortar cabelos no Cabo de Santo Agostinho. Foi lá que começou a tocar sanfona em bailes, instrumento que aprendeu vendo o pai tocar os Oito Baixos. Foi em um show no Parque de Exposição do Cordeiro que Arlindo conheceu Luiz Gonzaga. Passou 22 anos tocando com o Rei do Baião. “Ele que me fez voltar aos oito baixos. Disse que já tinha sanfoneiro demais, mas ninguém tocava oito baixos. Gravei e na hora de assinar os créditos ele pediu pra trocar Arlindo do Acordeom por Arlindo dos 8 Baixos”, lembrou, em entrevista pouco antes de morrer. Em mais de 50 anos de carreira, Arlindo gravou mais de 200 músicas, a maioria instrumental.

O outro expressivo nome foi Dominguinhos, parceiro e discípulo do maior nome do gênero ao qual tão bravamente defendeu: Luiz Gonzaga. Dominguinhos foi um dos responsáveis não só pela urbanização do forró mais também por manter viva a chama do ritmo em todo o país depois da morte do Rei do Baião. Dominguinhos partiu aos 72 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo depois de lutar por cerca de seis anos contra um câncer de pulmão. Nascido em Garanhuns, no agreste de Pernambuco, o sanfoneiro conheceu Luiz Gonzaga com 8 anos. Aos 13 anos, morando no Rio, ganhou a primeira sanfona do Rei do Baião, que três anos mais tarde o consagrou como herdeiro artístico. “Gonzaga estava divulgando para a imprensa o disco ‘Forró no Escuro’ quando ele me apresentou como seu herdeiro artístico aos repórteres”, lembrava Dominguinhos sempre que questionado sobre o assunto. Instrumentista, cantor e compositor, o artista ganhou em 2002 o Grammy Latino com o “CD Chegando de Mansinho”. Ao longo da carreira, fez parcerias de sucesso com músicos como Gilberto Gil, Chico Buarque, Anastácia, Nando Cordel, Fausto Nilo e Djavan.

Já o frevo perdeu Carlos Fernando vítima de complicações causadas por um câncer de próstata. Natural de Caruaru, o pernambucano foi um dos responsáveis pela renovação do frevo não só em Pernambuco, mas em todo o país através do projeto “Asas da América” e a série de discos lançados até meados da década de 1990. Ainda na mesma década foi responsável pela série Recife Frevoé e nos anos de 2000 foi o produto do álbum “100 Anos de frevo – É de perder o sapato”, em homenagem ao centenário do ritmo. Carlos, ao lado de outros artistas pernambucanos, também participou do Movimento de Cultura Popular de Pernambuco – um dos focos da resistência ao governo militar no estado – ainda na década de 60 e foi autor, entre diversas composições, de “Banho de Cheiro“, eternizada na voz de Elba Ramalho; “Canta Coração“, eternizada por seu parceiro e amigo Geraldo Azevedo. No currículo, o pernambucano deixa como legado centenas de canções (boa parte com Geraldo Azevedo) e intérpretes como Caetano Veloso, Djavan, Chico Buarque, Jackson do Pandeiro e Gilberto Gil.

Não poderia também deixar em branco o infortúnio que vitimou de modo precoce a produtora japonesa Sanae Shibata, de 31 anos. Sanae, que morava no Recife há 10 anos e trabalhava como produtora musical, com trabalhos diversos ligados à valorização da música pernambucana, foi vítima de um atropelamento de moto.

Nascida em Tóquio, e formada em Comunicação Social pela Universidade em Tóquio, estudou cultura nordestina na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também participou do Programa de Pós-Graduação em Antropologia. “Desde 2004 trabalho como produtora cultural, na acessoria entre produtores japoneses e artistas nordestinas”, dizia seu perfil no portal Nação Cultural. A produtora fazia a ponte entre Pernambuco e Japão, levando discos do Estado para a Terra dos “olhos puxados” e desde 2007, Shibata trabalhava com patrimônio imaterial, como pesquisadora de campo para levantamentos pelo Iphan, explorando “Formas de expressão de Pernambuco e Cocos do Nordeste”. A produtora aprendeu a tocar e fabricar a rabeca, instrumento típico do Cavalo Marinho nordestino, na escola de luthieria em Ferreiros, na Zona da Mata Pernambucana.

Por fim, a menos de uma semana, perdemos um dos maiores expoentes do ritmo “brega” que foi Reginaldo Rossi. Com quase 50 anos de carreira Rossi soube como poucos expor as dores e lamentos dos traídos nos 31 discos que lançou. Deixa como legado a irreverência e a imagem peculiar acompanhado por sua cabeleira e seus óculos.

Se de um lado as coisas são desfavoráveis, por outro este ano foram lançados, até agora, entre CDs, DVDs, LPs e EPs, mais de 180 títulos de artistas pernambucanos e a Passa Disco, trincheira de resistência da cultura do estado, chegou a uma década de existência valorizando de modo cada vez mais constante a cultura de Pernambuco.


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BANDA DINDA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Dinda é uma banda que não precisou usar de clichês mercadológicos para alcançar o espaço que hoje tem. Grupo encabeçado pelo cantor e compositor João Bernardo que surgiu na cena índie carioca já ultrapassou os 240 mil views no Youtube. Com letras e melodias simples, o grupo vem divulgando o disco “Ano que vem eu vou ser na avenida o palhaço que eu fui na sua vida”, álbum que foi abordado recentemente aqui no JBF sob o título de “A PROFÍCUA E SIMPLÓRIA SONORIDADE DA DINDA”. Já articulando um novo projeto, gentilmente Matias e João concederam essa entrevista exclusiva falando sobre aspectos da carreira, influências, o sucesso do Youtube entre outros aspectos como vocês podem conferir abaixo. Boa leitura!

Parece que a banda surgiu a partir do desejo do João de trazer para um contexto mais de grupo aquilo que ele já fazia de maneira solo não é isso? Quanto aos integrantes, como surgiu a ideia dessa formação?

João Bernardo – Minha ideia foi de chamar pessoas que se sentissem parte de uma banda e não tocando com um cantor, por isso a proposta da Dinda. Botei minhas canções pra jogo, e cada vez mais temos músicas e parcerias entre todos. A banda já teve algumas formações pra chegar na atual. O Matias está desde o iníco, já o conhecia de longa data, e acompanhava a carreira dele no Bondesom. Beto Callado foi indicado pelo baixista Bruno Di Lullo (Tono, Gal) e trouxe com ele o Marcelo de Sá. Rodrigo Jardim entrou por último pra assumir o baixo, que antes ficava dividido pelo Marcelo e pelo Beto.

Todos participam de projetos paralelos a Dinda? Como tem sido feito esta conciliação?

Matias – Na banda todos têm projetos paralelos, é normal isso acontecer. Os músicos têm livre arbítrio para participar do projeto artístico que quiserem.

Ano que vem eu vou ser na avenida o palhaço que eu fui na sua vida” não é um título muito longo? Como se deu o, digamos, batismo do disco?

João Bernardo – Com certeza, Um dos motivos da gente querer colocar, é porque era muito longo mesmo. É uma forma de instigar.

A Dinda mostra uma diversidade rítmica muito grande no álbum de estreia e isso talvez seja consequência das várias influências as quais os integrantes da banda foram submetidos. Há a possibilidade de citar algumas?

Matias – Tudo que está na gente consciente ou inconscientemente.

Vocês esperavam que o clipe da canção “Queria me enjoar de você” teria a quantidade de acessos que hoje possui? Quando foi que vocês se deram conta que ela estava tendo a “notoriedade virtual” que hoje ela tem?

Matias e João Bernardo – Desde o início deu pra ver esse potencial no vídeo, mas o legal é que já passaram quase dois anos e o movimento dele continua. Não foi só um amor de verão.

Na faixa “Amor amora” há a participação da pequena Maria Miranda de Moraes, uma criança tão carismática que acaba aguçando a curiosidade de muitos, como se é perceptível nos comentários do youtube, por exemplo. Quem é a Maria? Como ela chegou a ingressar neste projeto com essa participação?

João Bernardo – Ela é prima da minha mulher. E e muito esperta! Quis chama la pra cantar uma m’usica minha porque sabia que ela se sairia muito bem.

Quais foram o(s) procedimento(s) adotados para a escolha do repertório do disco?

João Bernardo – Foram as músicas que estavam com o arranjo mais definido.

Vocês estão lançando esse projeto pela Bolacha Discos (selo que pelo que parece nasceu já inserido nesse novo contexto mercadológico) a um preço bastante acessível. O sucesso do disco tem seguido o mesmo das redes sociais?

João Bernardo – As duas coisas estão caminhando bem, cada um no seu ritmo.

Hoje no Brasil a música independente ou lançada a partir de selos menores tem se evidenciado cada vez não só pela qualidade dos trabalhos mais por uma série de fatores que favorecem este cenário. A maior prova desta afirmação evidenciou-se na última edição do Prêmio da Música Brasileira (considerado como a principal premiação da música em nosso país), onde Herbert Lucena (artista independente pernambucano) ficou, entre tantos renomados artistas e gravadoras, entre os maiores contemplados do prêmio com um disco com nome tão longo quanto o de vocês (Não me peça que eu dê de graça tudo aquilo que eu tenho pra vender). Em contrapartida a questão do “jabá” é algo público e notório nas relações radiofônicas, por exemplo. Como é lhe dar com essas facilidades e estorvos em uma carreira no molde como a de vocês?

Dinda – As coisas estão sempre se transformando, a forma como a internet e a transmissão de conteúdo estão entrando na vida das pessoas tem alterado todo o processo da música. O saldo é positivo.

Quais são as expectativas para o ano de 2014?

Matias – Gravar um novo disco, fazer shows pelo Brasil e produzir mais conteúdo na internet.


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A PROFÍCUA E SIMPLÓRIA SONORIDADE DA DINDA

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Matias Zibecchi, Marcelo Cardoso, João Bernardo e Beto Callado

A partir da década de 30, a referência para o sucesso de um cantor ou banda era medido através das ondas sonoras das rádios com os seus programas de auditório e por artistas que geralmente interpretava as canções de outros artistas, como era o caso de cantores como Orlando Silva, Francisco Alves e a pequena notável Carmem Miranda. Esse parâmetro perdurou até a chegada e popularização da televisão no Brasil a partir da década de 50 através da iniciativa do paraibano Assis Chateaubriand que trouxe como consequência os festivais musicais que acarretaram o lançamento de tantos nomes nas décadas de 60 (Chico Buarque, Caetano Veloso, Mutantes, Tom Zé, Geraldo Vandré, Elis Regina e tantos outros), 70 (Carlinhos Vergueiros, Djavan, Walter Franco, Jards Macalé e mais alguns) e, em uma menor proporção, os anos 80 com nomes como por exemplo Leila Pinheiro, que brilhantemente defendeu a canção “Verde” (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) no festival dos festivais em 1985.

A partir dos anos 90 com a popularização da internet as coisas ganharam outra conotação. A popularidade hoje se dá a partir das redes sociais e exibições em sites diversos, principalmente se nos referirmos a artistas e grupos em início de carreira tal qual a banda que aqui me refiro, prova disto são as mais de 200 mil exibições no youtube e os milhares compartilhamentos no facebook com o clipe “Queria me enjoar de você”, vídeo gravado de modo despretensioso no aniversário de um dos integrantes do grupo, João Bernardo, e jogado na internet pouco tempo depois ganhando rapidamente o gosto popular como se atestou pelos números citados anteriormente. O material consiste na exibição das pessoas presentes na confraternização entoando quase todos a canção que dá título ao vídeo de modo bastante informal à base de caipirinhas e sorrisos ao longo dos cerca de 6 minutos. Dentro desses novos parâmetros de medição, pode-se considerar a banda Dinda (nome dado ao grupo em homenagem a madrinha do vocalista João Bernardo) como dona de um sucesso relevante no atual contexto cibernético musical brasileiro.

A banda surgiu da decisão do cantor e compositor João Bernardo sentir a necessidade de estar junto com outros músicos fazendo algo mais coletivo (desde as composições até os arranjos), do desejo cantor e compositor incorporar uma rotina diferente para a sua carreira artística adotando um espírito de banda, diferente daquilo que estava acostumado: músicas e arranjos próprios e músicos para acompanhá-lo sem nenhuma intervenção nas letras e melodias. Daí surgiu a oportunidade de juntar-se a outros nomes como Beto Callado (guitarra e compositor, além de ter o projeto paralelo intitulado Cubo Branco), Matias Zibecchi (baterista e também integrante dos grupos Bondesom e Orquestra de Conga), Marcelo Cardoso (guitarrista e renomado professor de música, que lecionou para toda uma geração de músicos cariocas), além do baixista Rodrigo Jardim e do Pedro Mangia (baixo e teclados) que chegaram a passar banda em outra oportunidade formando assim a banda Dinda desde meados de 2009.

A cerca de um ano a banda lançou o primeiro álbum com o nome “Ano que vem eu vou ser na avenida o palhaço que eu fui na sua vida”, título extraído da marchinha “O amor vem de longe”, composição do João Bernardo que de modo análogo aborda o carnaval com o final de um relacionamento mal sucedido.

A balada “Queria me enjoar de você” (João Bernardo), que virou o principal “hit” da banda, acabou no álbum ganhando o reforço de sopros, bateria, teclados e outros instrumentos, criando uma sonoridade diferente da presente no videoclipe, onde a canção é apresentada apenas com voz e violão; além do que dos 6:38 minutos presentes no registro videográfico a canção agora é apresentada em pouco mais que 4 minutos. O disco continua com faixas que retratam o amor com uma leveza peculiar tal qual “Dinda” (parceria entre João e Piero Grandi que retrata o amor de modo pueril e cativante), “Cobra com asa” (parceria de Bernardo com a cantora e compositora carioca Ana Clara Horta), “Um túnel no fim da luz” (faixa norteada pelo tradicional funk americano e que deixa como mensagem que “Ninguém mata a sede bebendo mágoa…”. Esta canção faz parte da lavra de composições solo do João). Outras canções assinadas apenas por João Bernardo são “Sereia movediça”, “Demorou mas foi rápido” e “Amor amora”, esta última conta com a participação da pequena Maria Miranda. O disco ainda traz mais três faixas do mentor do projeto com Betto Callado, são ela “Vem de Minas”, “Carrossel” e “Flor da noite”.

Em síntese, pode-se afirmar que a banda traz consigo uma despretensiosa diversidade musical que acaba fazendo de sua abrangente sonoridade algo muito peculiar, demostrando que a leveza e simplicidade podem nortear diversos estilos sem que estes percam a qualidade nessa obra que foge da complexidade sonora sem perder a excelência. Vale salientar que o idealizador do projeto vem de dois álbuns solo (Mergulho e Vende peixe-se) e chega neste projeto assinando (em parceira ou de modo individual) todas as onze canções presentes no disco como vocês observaram, mostrando, ao seu modo, uma grande diversidade de ritmos e letras despretensiosamente agradáveis. E esse agradável passeio contou com Philippe Leon (projeto gráfico), Rogério Von Krüger (fotos e vocal), Luiz Tornaghi (masterização) e Lc Varella (produção, efeitos, mixagem e gravação), além da sonoridade dos integrantes do projeto em parceria com nomes como Ricardo Rito (teclados), Yuri Villar (sax tenor e flauta), Bruno Dilullo e Luisa Corrêa (nos vocais).

Então é isso. Com este novo parâmetro de medição para o sucesso com o advento da internet, a Dinda mostra-se não só inserida de modo exitoso nisto tudo, mas também traz consigo uma profícua sonoridade neste caldeirão de ritmos que eles souberam condensar como poucos e hoje classificam o som que fazem como pop. Vale destacar que o mais interessante é que nesta constituição há imbuído um proveitoso paradoxo: a extrema simplicidade das letras e melodias, sem deixar se perder uma qualidade inerente aos grandes trabalhos fonográficos, e é claro que isso acaba destacando a banda dentro do cenário musical como um todo, principalmente no contexto musical indie carioca. Isso mostra que eles são possuidores de relevantes adjetivos, mostrando que não vem à toa toda essa notoriedade, eles são merecedores deste destaque. Vida longa à candura sonora da Dinda!

Para os amigos fubânicos deixo aqui duas canções do grupo carioca presentes no primeiro álbum. A primeira é “O amor vem de longe“, uma composição do João Bernardo:

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Já a segunda canção trata-se da balada “Queria me enjoar de você“, também de autoria do João Bernardo e que virou o principal “hit” da banda:

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ESTÓRIAS E HISTÓRIAS DA MPB – PARTE 7

AntonioMaria

Antônio Maria (Mar/1921 – Out/1964)

Hoje trarei mais algumas curiosidades sobre o nosso cancioneiro. Ao longo do último mês, tive a oportunidade de aqui no JBF contar algumas passagens interessantes na vida do poetinha Vinícius de Moraes, que na ocasião estava completando um século de existência. E abordar o nome do “branco mais preto do Brasil” (como o próprio Vinícius se auto intitulava) me fez lembrar de outra figura do nosso cancioneiro que por muitos anos acompanhou o poeta carioca em sua vida noturna assim como também em algumas situações inusitadas como veremos a seguir.

Quem conhece a biografia do Vinícius não desassocia-o da figura do poeta, cronista, comentarista esportivo e compositor pernambucano Antônio Maria. Parceiro de pena e de copo, Antônio era tão notívago quanto o poetinha, e isso os aproximaram-se de modo bastante intenso e essa aproximação além de uma grande amizade gerou uma parceria musical que rendeu canções como “Quando tu passas por mim”, “Dobrado de amor a São Paulo” e “Bate, coração”. Vale salientar que Antônio Maria foi autor de clássicos do nosso cancioneiro como as canções “Manhã de carnaval”, “Ninguém me ama”, “Frevo Nº 3 do Recife” entre outras.

Começou sua carreira como locutor da Rádio Clube de Pernambuco aos 17 anos.  Dois anos depois resolve mudar-se para o Rio de Janeiro e arrisca a carreira de locutor esportivo na Rádio Ipanema. No Rio foi morar no Edifício Souza, na Cinelândia, no apartamento 1005. Este prédio tornou-se famoso por ter entre seus moradores nomes como Dorival Caymmi, Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, que então ainda não era o famoso Chacrinha (o poeta e compositor descreve em sua coluna Pernoite, publicada na revista Manchete, um pouco dessa época em que morou no Souza). No entanto, por não ter alavancado a sua carreira passou apenas dez meses na então capital federal e resolveu voltar para o Recife onde acabou casando.

Como funcionário dos Diários Associados muda-se para duas cidades nordestinas: Fortaleza e Salvador. Na primeira vai trabalhar na Rádio Clube do Ceará, já na capital baiana trabalha como diretor. Por volta de 1947 volta ao Rio de Janeiro para trabalhar como diretor artístico na Rádio Tupi. Sendo em seguida convidado pelo próprio Assis Chateaubriand a ser o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951. No ano seguinte a então maior concorrente da Rádio Tupi, a Rádio Mayrink Veiga, contrata Antônio Maria por 50 mil cruzeiros, o salário mais alto do rádio brasileiro de então.

Vem dessa segunda estadia no Rio a sua aproximação ao então poeta, compositor e ainda diplomata Vinícius de Moraes. Dessa época uma passagem interessante na biografia do pernambucano, que ocorreu quando Maria precisou fazer uma viagem até São Paulo e como morria de medo de aviões passou a noite junto a Vinícius de Moraes que tentava o tranquilizar entre uma dose e outra. Todas as tentativas foram em vão. Vinícius o acompanhou até o aeroporto ainda na esperança de deixar o amigo mais tranquilo. No entanto, Antônio Maria manteve-se apreensivo até o momento do embarque.

Já dentro do avião, Maria senta-se ao lado de uma lindíssima loira que abriu a bolsa e retirou um dos livros do poetinha. Antônio, que sabia a obra de cor e salteado, não perdeu a oportunidade e citou um dos poemas existentes no livro em voz alta chamando atenção da mulher que estava ao seu lado. Ao perceber que a loira havia “caído em sua armadilha”, disse o nome do poema, a página onde ele encontrava-se e apresentou-se como sendo Vinícius de Moraes.

A partir daí o medo de avião esvaiu-se e a investida foi tão bem sucedida que “Vinícius de Moraes” conseguiu marcar um jantar a noite com a loira. A noite rendeu boas conversas e um convite do falsário (prontamente aceito pela loira) de passarem a noite juntos. Na volta ao Rio, Vinícius de Moraes foi recepcionar o amigo e saber como tinha sido a viagem. Encontrou um Antônio bem diferente daquele que havia saído do Rio e o questionou:

- O que lhe fez ficar assim tão animado?

Antônio respondeu:

- Tenho uma notícia boa e outra ruim, qual você quer primeiro Vinícius?

O poetinha responde que queria primeiro a notícia boa, aí então Maria começou a contar:

- Conheci uma baita loira no vôo e ela estava lendo um livro seu. Confesso que me apresentei como você e ela encantou-se por mim…

Vinícius por curiosidade nem deixou Antônio Maria terminar de contar a história e perguntou logo pela notícia ruim que foi respondida da seguinte forma:

- Meu amigo, após o aterrizagem marcamos um jantar e entre uma taça e outra a convidei para irmos até o local onde eu estava hospedado e não é que Vinícius de Moraes falhou…

Fica aqui duas belíssimas canções da lavra de Antônio Maria. A primeira trata-se de “Frevo Nº3“, aqui na interpretação cantora Leila Pinheiro:

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A segunda canção é outro belíssimo frevo na voz do consagradíssimo Edu Lobo e vem a ser o “Frevo Nº1“:

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TELMA COSTA, 60 ANOS

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Telma Costa por Antônio Guerreiro

Às vésperas do seu aniversário de 36 anos, Telma Costa, a filha caçula da pianista e professora de piano e canto coral do Conservatório de Juiz de Fora Maria Aparecida Correa Costa, partiu prematuramente deixando como legado alguns registros fonográficos, dentre os quais o álbum que tem por título o seu nome e que foi lançado em 1983. Entre as canções do álbum há faixas como ‘Coisa Feita’ (João Bosco – Paulo Emílio – Aldir Blanc), ‘Fruta Boa’ (Milton Nascimento e Fernando Brant), ‘Espelho Das Águas’ (Tom Jobim), ‘Não Vale Mais Chorar’ (Ronaldo Bastos e Toninho Horta) entre outras. O disco conta em sua ficha técnica com a participação de nomes Dori Caymmi e Cesar Camargo Mariano na produção e arranjos. Além de Caetano Veloso que divide os vocais na faixa ‘Certeza da Beleza’ canção de sua autoria. É um registro fonográfico que apresenta uma Telma Costa no ponto certo para dar o melhor de si em composições que pesavam não só por ter a assinatura de alguns dos maiores nomes da MPB, mas por exigir técnica e segurança em suas interpretações. Coisa que Telma soube tirar de letra, basta ouvir o registro e ver como ele mostra-se atual, apesar das três décadas já passadas desde o lançamento.

No entanto vem do álbum de outro artista a sua interpretação mais conhecida. Telma a convite de Chico Buarque registrou em 1980 no LP “Vida” a canção ‘Eu te amo’, parceria do cantor e compositor com Tom Jobim. Essa mesmo dueto chegou a repetir-se dois anos depois sob o título ‘Te amo’, faixa presente no álbum “En español”, trabalho voltado para o exterior. Seu envolvimento com a obra de Chico Buarque teve início na década de 1960, quando aos 15 anos, foi convidada pelo artista para dividir a interpretação da música ‘Sem fantasia’, em show realizado no Clube de Juiz de Fora, sua terra natal. Vale salientar que a cantora teve a oportunidade de viver em um ambiente extremamente propício ao desenvolvimento de suas habilidades artísticas uma vez de uma família extremamente musical, pois além da matriarca seus irmãos Élcio, Lisieux, Telma, Afrânio também musicavam e isso fazia com que a música fosse algo predominante na residência dos Costa. Tanto que ainda na infância a mãe apresentou aos pequenos as primeiras introduções no universo musical fazendo com que ainda na adolescência os mesmos formassem o grupo vocal Trieto, formado pelas irmãs Telma Lisieux e Sueli.

A irmã Sueli citada ao longo do texto para quem não sabe é a consagrada compositora Sueli Costa, recentemente homenageada em nosso espaço pela passagem dos seus 70 anos. A artista é autora de inúmeros sucessos dentro da MPB, dentre os quais os clássicos ‘Medo de amar Nº2′ (em parceria com Tite de Lemos) e as canções ‘Amar é outra liberdade’ e ‘Jura Secreta’ (ambas em parceria com Abel Silva).

Telma dá início de fato a sua carreira artística a partir de 1971 quando tem a oportunidade de mudar-se para o Rio de Janeiro e passa a atuar em cariocas, como Special e People, entre outras, além de fazer parte, ao lado de Miúcha, Olívia Hime e Elizabeth Jobim, do grupo vocal que participou de shows de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Ainda na década de 70 tem o seu primeiro registro fonográfico, gravando 1978 no LP “Vida de artista”, de sua irmã Sueli, a faixa “Quatro de dezembro”. Ao longo da década seguinte participou de alguns programas de tv tal qual o “Bar Academia” e um especial acerca da obra do cantor e compositor Tom Jobim, ambos na extinta Tv Manchete. Semcontar a sua presença na trilha sonora da teledramaturgia brasileira registrando canções como “Adoração” (Lisieux Costa e Tite de Lemos), para a novela “Eu prometo” (Rede Globo/1983), “Fruta boa”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, para a novela “Paraíso” (Rede Globo/1982); além da música “Azulão” (Jayme Ovalle e Manoel Bandeira) para o longa-metragem “Inocência” (1983), de Walter Lima Júnior.

Fernanda Cunha, filha da artista, hoje segue a mesma profissão da mãe cantando e encantando plateias de todo o planeta. Com cinco álbuns lançados, Fernanda vem sedimentando uma carreira artística não só no Brasil, mas também ao redor do mundo. Países como Canadá, EUA e outros tantos na Europa conhecem o repertório de álbuns como “O tempo e o lugar” (2002), “Dois corações- Fernanda Cunha interpreta Johnny Alf e Sueli Costa” (2004), “Zíngaro – Fernanda Cunha e Zé Carlos interpretam as parcerias de Tom Jobim e Chico Buarque” (2007), “Brasil Canadá” (2009) e do seu mais recente registro fonográfico “Coração do Brasil”, registro que mostra uma artista que ganhou o mundo, mas não perdeu as suas mais genuínas raízes. Quando questionada acerca do maior legado deixado por sua mãe, Fernanda responde: “A maior riqueza que minha mãe me deixou foi o amor. Como artista a música e o amor pela música. Nasci respirando música, e a música muitas vezes me salvou de situações complicadas na vida. É um bálsamo.

Aos amigos do JBF deixo duas canções desse único registro fonográfico da artista que foi embora precocemente. A primeira trata-se de “Fruta Boa“, canção da lavra de Milton Nascimento e Fernando Brant, presente na trilha sonora da novela global “Paraíso”, de 1982:

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A segunda canção é “Certeza de beleza“, canção composta por Caetano Veloso e que conta com a participação do autor dividindo os vocais com a cantora:

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MIRIAM BEZERRA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Impregnada de brasilidade, Miriam Bezerra faz suas melodias permearem de modo sutil pela rica sonoridade existente neste nosso país-continente e traz principalmente o amor como regente de suas letras, composições estas que apresentam-se com uma característica bastante peculiar: um lirismo exacerbado. Diferenciando-se de muitas do gênero, Miriam apresenta de modo pleno tanto em suas letras consistentes quanto nas delgadas melodias, característica inerente a algumas das grandes artistas de nossa música popular brasileira como vocês puderam conferir a apresentação da artista aqui no JBF na matéria intitulada “Quando os sentimentos se liquefazem em um mar de tênues melodias” publicada ao longo da semana passada. Nesta conversa Miriam revela-nos um pouco sobre as influências que a música nordestina exerce em sua obra e sobre o momento que percebeu que era preciso dar um basta em sua timidez para realmente seguir a carreira que hoje abraçou. Além das agruras em fazer música independente no Brasil como vocês podem conferir no bate-papo exclusivo a seguir. Boa leitura!

Você que vem de uma família numerosa e aparentemente propensa à música, deve ter diversas “lembranças sonoras” de sua infância. De todos os irmãos só você seguiu a carreira artística? Quais as reminiscências musicais mais claras existentes em sua memória?

Miriam Bezerra – Realmente, minha família é muito numerosa. Gostos e vontades diversas. A constatação inicial é que todos nós, de certa forma, éramos “cantores”. Nossa infância foi muito marcada pela música. Todos nós realizávamos nossas tarefas domésticas, cantando! Eu achava isso muito natural e imaginava que a casa de todo mundo “funcionava” dessa maneira! Quando adulta descobri que nem toda família era assim. A música estava sempre presente em nossa casa, e isso era muito particular, ela estava lá, apesar das “botas”, “fardas” e “armas” de meu pai. Minha mãe gostava de cantar canções de roda de sua infância. Meu pai, maestro da banda militar, gostava de ouvir frevos e boleros. Certo dia, nos surpreendeu, com um gravador e uma fita cassete de “Santo Morales e Seus Boleros”! Nosso grande prazer era ouvir aquela fita milhões de vezes… toda noite… até o sono chegar. Eu passei a amar boleros. Numa outra vez, nos deu a cada uma, um rádio portátil. Foi aí, que eu enlouqueci com a música. O rádio desempenhou um papel importantíssimo na minha descoberta da música e sua amplitude. Essa é a minha principal lembrança… o prazer de estar embaixo das cobertas… no escuro… ouvindo toda a música que quisesse!

Só eu segui a carreira da música, mas, tenho outros irmãos artistas. Um é artista plástico, o outro, já falecido, era um grande carnavalesco. Vários outros, esporadicamente, em algum momento, se envolveram com teatro e música.

Culturalmente falando o Nordeste sempre teve uma grande relevância no cenário cultural do nosso país. De certo modo você bebeu da fonte da cultura desta região através de seus pais, que como nordestinos trouxeram consigo um pouco dos ritmos e peculiaridades particularmente de Pernambuco e da Paraíba. O que hoje você destaca em sua sonoridade que tenha sido contribuição dessa “osmose” cultural? Principalmente na sonoridade de “E que a tristeza seja chuva”.

MB – Meu pai me fez conhecer e amar Luiz Gonzaga, Sivuca, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos. Eles, para mim, são o Nordeste. Minha mãe trouxe as cantigas de roda, com forte influência portuguesa, além dos costumes, dos bordados e das bruxinhas de pano que confeccionava. Meu irmão, artista plástico, era também jornalista e ativista político. Através dele mergulhei na literatura e cultura do mundo. Ele, inicialmente, trabalhava na editora “Abril Cultural” e isso trouxe a relação apaixonada com os livros e discos. Ele tinha, além de milhões de livros, uma grande coleção de discos, fascículos, que contavam a história da musica popular brasileira. Isso foi muito marcante pra mim. Era bem pequena e me deliciava, ouvindo e lendo a vida dos compositores brasileiros. E foi através dele, também, que conheci Elomar, o príncipe da caatinga, como já disse Vinícius. Essa grande mistura, essa “osmose” cultural, como você diz, foi marcante no sentido de me despertar o gosto pela música do Brasil. Eu costumo dizer, com muito orgulho, que fiz um disco de “música brasileira”. A delicadeza, a inocência da infância, suas imagens, o singelo… a roça, as festas, o sertão, a vida dos meus pais… está tudo ali em letra e melodia.

Outra característica que consta em sua biografia é que devido a timidez você sempre procurou esquivar-se do palco. Qual foi o momento que você percebeu que era preciso dar um basta nessa situação e ir de encontro ao seu desejo?

MB – Primeiramente, subi no palco através do teatro. O que foi difícil, mas é muito mais fácil que cantar. No teatro você tem o apoio de um personagem construído, que lhe dá base e segurança. Na música, você está desnudo, sem nada que lhe proteja. Cantar é estar exposto em seus sentimentos mais íntimos. Sempre costumo dizer que cantar, dói. Dói muito… dói fundo. Mas, passada essa dor, vem uma sensação tão grande de prazer, que é indescritível. Ainda que eu sofra, todas as vezes que tenha que subir num palco, eu volto, sempre, à procura desse prazer, desse contentamento. O desejo de cantar subverteu minha timidez, quando percebi que precisava dar um salto e voar mais alto. De certa forma, foi uma cobrança minha. Sendo tímida sempre me cobrei demais. Num determinado momento, uma situação me exigiu, amigos me “forçaram”, a vida mostrou o caminho e a oportunidade. Era agarrar e seguir, ou, deixar passar e me afundar em tristezas. Com certeza, escolhi a melhor opção.

Fazer música de qualidade no Brasil não é fácil. Os grandes canais midiáticos priorizam aquilo que os propicia um retorno de audiência (e consequentemente financeiro) imediato deixando a qualidade à margem do público. Você como artista que se encaixa neste perfil independente deve vir passando por diversas adversidades neste processo de divulgação e afirmação enquanto cantora e compositora. Quais as maiores dificuldades encontradas até agora?

MB – Olha… as dificuldades são enormes e desanimadoras. Eu diria que até agora, só conheci as dificuldades. Fazer música de qualidade no Brasil, hoje, é mergulhar num processo de profunda solidão. Isso, é claro, quando não se tem dinheiro, ou, apoios, como no meu caso. Fiz meu disco inteiro, juntando economias e lutando para cumprir todas as etapas, da melhor forma possível. As pessoas não têm noção do quanto é trabalhoso gravar um disco. Pagar e cuidar de ensaios, estúdio, músicos, mixagem, masterização, capa, fotos, prensagem, além de “fazer” as canções, é extremamente custoso e desgastante. E quando você se vê com caixas e mais caixas de Cd’s a sua frente, vc entra em desespero pensando… e agora? O que é que eu vou fazer? Você tem que cuidar de tudo e isso, às vezes, faz enlouquecer, faz querer desistir. Vc já tem o seu Cd pronto e ainda tem que lutar. Agora, pra conseguir um espaço e mostrar o seu trabalho. Tudo envolve dinheiro e posição. No meu caso, sou uma ilustre desconhecida. É difícil conseguir uma data em um teatro e ter que arcar com despesas de músicos e técnicos. E se você pretende um show mais elaborado, com cenário e figurino, um bom roteiro… a coisa se complica mais ainda.

Em um país onde tradicionalmente a grande maioria das cantoras são intérpretes, você se destaca também como compositora. Como se dá seu processo de composição?

MB – Em verdade, sou uma compositora, antes de tudo, intuitiva. Sinto a música, ela se faz dentro de mim, dentro da minha cabeça e da minha emoção. É como se ela já existisse, estivesse lá… pronta… só esperando o momento de ser revelada. Não foi feita por mim…eu só a transformei em palavras e sons. Faço letra e melodia juntas… sempre apoiada por um fiel gravador. Às vezes uma conversa, uma palavra, uma cena, um poema, uma lembrança…e lá vem o encadeamento, a ideia, a canção. Registro e depois ouço. Daí vou lapidando, trabalhando, melhorando. Amo as palavras, procuro sempre valorizá-las. Melodia e letra têm que se casar com grandeza. Toda letra é poesia. Toda melodia é encanto.

É inegável que você tem uma forte ligação com o teatro, particularmente na composição da trilha sonora de alguns espetáculos com as quais você ganhou prêmios relevantes como o “Prêmio Pagu” e o “Prêmio Estadual Plínio Marcos. Fale-nos um pouco sobre essa relação com as artes cênicas e como ela contribui (ou inspira) o seu universo musical.

MB – Na verdade, a base de tudo é a literatura. Sou alguém que leu muito, desde menina. A leitura nos dá a amplitude e grandeza suficientes para pensar e refletir o mundo e a vida. A literatura me deu o gosto pela palavra, me fez ser alguém politizada, questionadora. As palavras me deram sensibilidade e me fizeram ser amante das artes. Amo escrever, amo cinema, teatro, música, pintura. Quando criança era modelo vivo, pro meu irmão. Ficava horas e hora imóvel, sentada, pra que ele pintasse “suas ideias”. A arte e a vontade dela, sempre foi o centro de tudo. Fazer teatro foi uma conseqüência. Através dele acabei me encantando e fazendo faculdade de Artes Cênicas. Quando comecei a cantar, foi inevitável juntar tudo. Em alguns espetáculos me pediam para cantar. Às vezes, meu personagem cantava em cena, outras vezes, gravava as canções dos personagens em estúdio. Daí, uma vez, recebi um convite para compor as músicas de um espetáculo infantil. Foi o primeiro passo, comecei a gostar e segui fazendo isso por muito tempo. O teatro e a vida caminham juntos. Vejo a vida como uma grande encenação, uma seleção de cenas. Algumas alegres, outras tristes, aquelas que não gostaríamos de ter vivenciado. Mas tudo é experimento e experiência. A música desse grande espetáculo fazemos todos os dias.

Você acha que este êxito e reconhecimento nas artes cênicas é algo que contribui de algum modo para o sucesso dessa estreia no universo fonográfico ou sua responsabilidade acaba tornando-se maior devido à bem sucedida carreira de compositora de trilhas sonoras?

MB – Vejo aí uma dualidade. De certa forma, a experiência teatral ajuda, mas, ao mesmo tempo, faz a cobrança ser maior. Na verdade, são realidades diferentes. As experiências são complementares, mas os caminhos são independentes e exigem, cada qual ao seu modo, uma intenção e uma dedicação diferente. Fazer uma trilha sonora é participar de um projeto, fazer parte de uma engrenagem que já está pronta. Fazer um disco, fazer canções, é passar por um processo mais individualizado e, também, solitário. Minhas trilhas foram muito elogiadas, muito bem recebidas. Abrilhantaram e enriqueceram os espetáculos de outros profissionais. Meu Cd, até aqui, tem sido muito elogiado. As pessoas me abordam dizendo que amam determinadas canções, se identificam com aquele sentimento exposto, se emocionam. Em ambas as experiências, me sinto uma privilegiada, pois toquei o coração de alguém.

Quais as contribuições que você poderia destacar como relevante depois de sua passagem por alguns grupos, dentre os quais os “Trovadores Urbanos”, que refletem-se em sua carreira solo?

MB – Os Trovadores Urbanos desenvolvem um projeto maravilhoso. Quando fui convidada a trabalhar com eles, inicialmente, não me senti capaz. O diferencial é que, além de “atuar” e cantar, na cena da serenata, e você ainda tem que entrar em uma casa e cantar diretamente para alguém. Você não sabe a emoção que vai encontrar ali. Não imagina como vai ser recebido. Parece simples, mas é algo poderoso demais. Você se vê diante de todo tipo de pessoa, todo tipo de situações. Isso me fez crescer muito. Você canta na festa, rodeada por emoção e alegria, mas também canta num leito de hospital, cercada de dor e lágrimas. É muito emocionante e, ao mesmo tempo, você tem que conseguir dosar essa emoção. Essa experiência me fez mais forte, mais segura. Me deu a noção exata da grandeza e do poder da música. A música transforma.

O álbum “E que a tristeza seja chuva”, tem por característica a sutil abordagem a diversidade sonora existente em nosso país e letras que prezam pelo requinte e lirismo como podem observar aqueles que tiveram a oportunidade de ouvi-lo. Como se deu a seleção do repertório?

MB – A seleção se deu de maneira bem natural. Tinha várias composições que queria gravar, mas nem todas poderiam entrar o mesmo Cd. Fui gravando uma a uma e tentando compor um universo, uma estória. Automaticamente, muita coisa ficou de fora, guardada, para um próximo trabalho.

Como tem sido a receptividade do público nos locais por onde você tem levado “E que a tristeza seja chuva”?

MB – A melhor possível. E isso tem me feito muito feliz! Até aqui só recebi elogios. As canções despertam os sentimentos mais puros. Eu falo de amor, falo da delicadeza, do que é simples, do que é verdadeiro. Acredito que, hoje, diante da realidade tão dura que vivemos, as pessoas estão carentes disso. Tendo de corresponder a modelos sociais e expectativas, acerca do que venha a ser o indivíduo “bem sucedido”, as pessoas estão se perdendo de seu lado humano, infantil, amoroso. A minha música procura mostrar a necessidade de deixar que esses sentimentos primeiros, da criança, do sonho, da descoberta, do amor… falem mais alto e nos resgatem da escuridão. E que a tristeza seja chuva… lavando nossa alma e levando embora nossas dores.


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QUANDO OS SENTIMENTOS SE LIQUEFAZEM EM UM MAR DE TÊNUES MELODIAS

Nascida no litoral de São Paulo, mais precisamente em Santos, a cantora Miriam Bezerra traz em sua composição algo cosmopolita que ao mesmo tempo não se desvencilha daquilo que compõe a sua essência. Nas faixas presentes em “… E que a tristeza seja chuva“, seu primeiro disco, é possível perceber as suas genuínas raízes caiçaras, impregnadas ora em suas melodias, ora em suas letras, cujos registros eternizam-se agora em seu debute fonográfico. De múltiplos talentos, Miriam é cantora, compositora, atriz, intérpretes de jingles publicitários e, além de todas essas características, traz consigo algo maior dentro de si pela natureza, particularmente pelo assustador e encantador mar. Talvez, some-se a isso, o fato da cantora e compositora ter nascido na costa paulista e ter essa intrínseca relação com o litoral. A justificativa plausível para este tipo de comportamento talvez seja fundamentada a partir daqueles que possuem uma sensibilidade aguçada e respeitoso encanto pelo mar, tal qual nomes da estirpe do saudoso Dorival Caymmi (1914 – 2008).ZZS

Tendo o mar como norteador do seu lirismo e inspiração, banhando de maneira substancial a sonoridade e poesia existente em seu trabalho, Miriam soma a isso ao amor; expoente maior em sua vida e que se faz de modo tão evidente nesta taurina. Amor este que se evidencia pela música de longas datas, pois ainda criança ela já demostrava um notório interesse estando intrinsecamente associada à sua vida até mesmo por motivos diversos, dentre um que merece destaque: Seu José e de Dona Regina, progenitores da clã Bezerra, tiveram 10 filhos, e esta família grande propiciou a artista conhecer as heranças e tesouros de um Brasil profundo, particularmente centrado no Nordeste brasileiro, torrão natal de seus pais. A mãe, uma pessoa de extrema criatividade, cantava canções que ela mesmo inventava e canções de roda de infância na Paraíba, assimilada de maneira pra lá de espontânea pela futura cantora, pois Miriam gostava e prestava bastante atenção à mãe. Já o pai, militar e regente da banda do quartel era admirador de uma gama de ritmos, que iam desde boleros até os frevos de Pernambuco, sua terra. E assim, esse ambiente trouxe de maneira bastante arraigada a música para a vida da cantora santista, tanto que hoje ela é dona de múltiplos talentos.

A timidez e a vergonha fez com que o indescritível e prazeroso ofício de subir ao palco fosse protelado, fazendo com que Miriam Bezerra só viesse a apresentar-se ao grande público tempo depois de já ter feito diversas atividades, dentre as quais política e teatro amador. Além de ter escrito poesias, contos e ter cursado um pouco de Letras, Filosofia entre outros projetos enquanto fomentava seu sonho. Um belo dia, resolve dar vazão a esse desejo e sobe no palco para nunca mais deixar, e endossando essa decisão, resolve cursar canto popular pela Universidade Livre de Música e Artes Cênicas ao longo desses vinte anos de palco. Vale ressaltar que a versatilidade evidencia-se logo no começo dessa pretensa carreira, pois a artista além de cantar em espetáculos teatrais, eventos, espaços culturais e diversas casas noturnas; também compôs diversas trilhas sonoras de vários espetáculos teatrais, dentre eles “Direito de Escolha“, com direção de Esther Góes; “É o Bicho – A Ordem Natural das Coisas“, com direção de Rosi Campos.

Nesse período a artista recebeu o “Prêmio Pagu” de Melhor Trilha Sonora Infantil e Adulta, além do “Prêmio Estadual Plínio Marcos”, de Melhor Trilha Sonora do Ano (2002), além de também ter participado de grupos como o “Trovadores Urbanos”, o “Flor da Terra” (desenvolvendo um trabalho em torno da música regional brasileira) e o “Canto da Lua”, dedicado ao universo das serestas. Este know-how evidencia-se em seu trabalho de estreia intitulado “E que a tristeza seja chuva“, álbum independente da cantora do litoral paulista, cujo a tecitura se faz a partir da valorização de uma sonoridade essencialmente brasileira, trazendo consigo retalhos de um país heterogeneamente rico em suas nuances rítmicas; além de vir imbuído de uma característica interessante: um lirismo digno das grandes compositoras existentes em nosso país e que se evidencia nas treze faixas de autoria de Miriam neste debute fonográfico.

A proposta de valorização da música brasileira mostra-se evidente já na primeira faixa intitulada “Cantiga de menina” cujo o arranjo dos violões de Ayrthon Boka Luiz Marcos dão uma textura especial a canção. Outra característica visível no álbum é a exaltação ao amor e as relações afetivas, presente em canções como “Olhos e sinais“, “Sonho azul” (retratando o amor de modo pueril) e “Sem avisar” (faixa que relata as consequências de um inesperado sentimento). O modo singelo de observar as relações afetivas também mostra-se em “Riso de paz” e as reminiscências do litoral associadas a esse nobre sentimento surgem em “Do mar e seus encantos“. As incongruências também presentes nas relações afetivas são cantadas em verso e prosa em faixas como “Pra renascer” e “Desilusão“. O disco continua abordando outros temas com toda a sutileza e lirismo presentes nas composições da multi artista. A abordagem de um tempo que não volta mais surge em “Saudades de mim” e, munida de metáforas a artista também apresenta, “Novo dia“, canção cujo o título do álbum é extraído do seu bojo e é mais uma canção a tratar das relações afetivas. O álbum ainda conta com canções como “Sinal fechado” (título homônimo a uma composição do Paulinho da Viola), “Minha senhora” e “Mãe natureza“.

O álbum conta com a participação dos músicos Ayrthon Boka (violões), Luiz Marcos (violões, guitarras e vocal), Maicira Trevissan (flautas), Douglas Alonso (percussão), Débora Paiva e Viviane Davóglio (vocais), Wellington Moreira (bateria), Reginaldo Feliciano (baixo), Iuri Salvagnini (piano e synth strings), João Poleto (saxofone), Arizinho 7 cordas (violão 7 cordas) somando forças ao compromisso com a beleza melódica e o rico verso nos diversos gêneros presentes em “E que a tristeza seja chuva” tais quais samba, samba-canção, bossa nova, toadas entre outros.

Miriam nos remete a uma época em que as compositoras prezavam pela beleza melódica e o verso bem elaborado a partir de um exacerbado lirismo, tais quais artistas como Fátima Guedes, Dolores Duran e tantas outras, que por esses tipos de características acabaram tornando-se atemporais. A própria artista admite que a música que faz alimenta-se do universo feminino para tornar-se forte e verdadeira. Isso talvez se dê devido a mais forte figura presente em suas reminiscências: Dona Regina, musa inspiradora de um amor e encantamento que serviram como força-motriz para a sua vigorosa composição e bem estruturadas melodias. Pura emoção em melodias e versos intrinsecamente entrelaçados com uma riqueza e sutileza de marca maior, fazendo desse novo nome do cenário musical brasileiro alcançar um merecido destaque a partir de suas intensas e delicadas interpretações. Canto e talento ímpar e definido de modo magistral pelo jornalista e crítico musical Julinho Bittencourt: “(…) prenhe de talento e totalmente desprovido de qualquer arrogância artística”.

Fica aqui para o público leitor do JBF duas faixas presentes em seu álbum de estreia. A primeira canção de autoria de Míriam chama-se “Novo dia“, e traz em seus versos o título do disco “E que a tristeza seja chuva…”:

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A segunda também de autoria de Míriam Bezerra chama-se “Minha senhora“:

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PEDRO MORAES – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Ao longo da semana passada trouxe para esta mesma coluna o cantor e compositor carioca Pedro Moraes, artista que vem ganhando um significativo espaço no cenário musical internacional em países como os Estados Unidos e a índia, onde teve seu álbum lançado pelo selo Rock´nd Raaga, sendo o primeiro álbum brasileiro a ser distribuído por terras indianas. Por falar em América do Norte, o jornal norte-americano Boston Globe, já é um dos dez melhores cd’s, a nível mundial, deste ano. No Brasil, Pedro ganhou notoriedade a nível nacional desde a sua participação no programa “Som Brasil” onde interpretou dois clássicos de seu conterrâneo Cartola e participou de grupos como o Umbando e como vocalista do “É com esse que eu vou”, grupo expoente da nova geração do samba no bairro carioca da Lapa como pode-se conferir a partir da matéria já publicada aqui no JBF cujo título é A catarse musical de Pedro Moraes. Gentilmente, Pedro nos concedeu esta pequena entrevista onde fala, dentre outras coisas, receio para a receptividade do próximo registro fonográfico e de como o seu trabalho chegou a ser lançado na índia, como vocês podem conferir no bate-papo a seguir! Boa leitura!

A música o acompanha desde a infância ou foi algo que só veio a surgir em um dado momento de sua vida? Como se deu o seu envolvimento tanto com a composição quanto com o instrumento?

Pedro Moraes – Meus pais se conheceram num samba de roda, na Bahia. Minha mãe, então estudante de medicina, espraiando seus solares dotes vocais para (é o que diz a lenda familiar, sempre mais interessante do que os fatos) pagar mais uma rodada de cerveja a seus amigos, e meu pai, o aparente turista que saca de um agogô e… bom, pode-se dizer que a música surgiu na minha vida anos antes da própria vida.
Crescendo, sempre se ouviu e tocou muita música em casa. Música brasileira, samba, choro, clássicos… principalmente do período Barroco ao Romântico (a música erudita do século XX entrou no meu radar bem mais tarde). Os primeiros acordes ao violão, foi meu pai quem ensinou.

A composição veio mais tarde. As primeiras canções… tinha já uns dezoito anos. E a idéia de que poderia vir a tornar-me um músico profissional ainda tardaria bastante a se manifestar. Boa parte dos meus amigos músicos já tinham sua banda de rock, ou animavam a roda de violão em sua adolescência. Eu era um tímido.

Em sua biografia artística conta que você chegou a apresentar-se nas noites cariocas nos mais diversos locais. Você chegou a utilizar essas suas apresentações nos bares e afins do Rio de Janeiro como laboratório de algumas composições suas? Se sim, como era a reação do público presente?

PM – Quando sentia confiança, lançava canções minhas entre os clássicos… A reação geral não revelava muito. Na chamada noite, a maior parte das pessoas está mais ocupada com seus copos e papos e flertes do que com a música… a não ser que esta seja imediatamente interativa (sirva para dançar ou cantar junto).
No entanto, sempre havia uma ou outra pessoa mais atenta que vinha falar comigo, às vezes genuinamente emocionada: “aquela música era sua mesmo?” E fui com isso aprendendo que minhas canções tinham mais vocação para tocar indivíduos atentos do que agitar imediatamente públicos aleatórios… De lá pra cá, mesmo tendo aprendido uns tantos truques do ofício da coletividade, aqueles indivíduos atentos seguem sendo meu foco e meu norte.

A intérprete de jazz mexicana Magos Herrera impulsionou a sua carreira (que encontrava-se ainda, de certo modo, no início) quando resolveu gravar duas composições de sua autoria. Como chegou ao conhecimento dela as suas composições?

PM – Quando Magos me conheceu, de fato não havia ainda uma “carreira”. Pensava que viria a ser um psicólogo, um professor, um intelectual… Eu havia tirado um ano sabático de minha faculdade de Psicologia, estava vivendo na Índia, e foi lá que a conheci, apresentado por amigos em comum que haviam ouvido, e gostado, de canções minhas. Ela buscava repertório para seu primeiro CD de carreira e, apaixonada por música brasileira (Magos é casada com um baterista de São Paulo, e fala um português excelente!) encontrou nas minhas canções uma expressão contemporânea daquela MPB que era um norte tão central para seu projeto.

Alguns meses depois, recebi um e-mail dela (de onde eu estava, precisava viajar uns quarenta minutos de riquixá até a Lan House mais próxima, o que multiplicava a emoção das notícias) pedindo permissão para gravar as canções. Uma delas, Xote de Manhã, faz parte do Claroescuro.

Por falar em exterior, por lá a sua carreira tem sido bastante exitosa, chegando inclusive a alcançar países como Sri Lanka e a índia. Falo isso porque o seu disco, tornou-se o primeiro álbum brasileiro a ser distribuído por um selo indiano: o Rock´nd Raaga. Como essa distribuição aconteceu?

PM – Fui convidado, em 2008, pelas Embaixadas Brasileiras na Índia e Sri Lanka para uma turnê de apresentações por aqueles dois países, em festivais de cultura que estavam acontecendo por lá. O dono do selo me conheceu num show em Goa (estado da Índia que mais lembra o Brasil, com suas igrejas coloniais portuguesas, praias, e uns tantos habitantes que ainda falam Português) e fez a proposta. Não tenho certeza de como foi a carreira do disco por lá, mas deve ter falado a um mercado bem específico… Os indianos não têm muito contato com a música ocidental, e o que sabem do Brasil é pouco mais do que “Ronaldo, Ronaldinho, Kaká” etc… Mas não deixa de ser um símbolo forte, o de plantar uma bandeirinha naquele país que, em termos populacionais, são quatro Brasis!!

Apesar de você ser carioca, há em algumas composições suas uma proximidade muito evidente com o Nordeste tanto na sonoridade (xotes e frevos) quanto nas participações presentes no álbum (Alcione e André Rio). Conte-nos um pouco sobre essa sua relação com essa região do nosso país.

PM – Bom, além dessa relação forte com a Bahia (minha mãe e minha mulher são baianas), o sentido musical nordestino sempre foi vital na minha biografia auditiva e autoral. Na minha primeira viagem ao Recife, fui virado ao avesso pela potência, pelo lirismo, pela inteligência do que se faz por lá. A melancolia do frevo canção, o modalismo com aquela tristeza árabe/ibérica do baião… tudo isso formava a camada primeira, a tampa da panela de pressão: natural que o CD de estréia fosse carregado dessas cores!

Do período anterior a sua carreira solo você traz as experiências pela passagem dos grupos Umbando, além de também participar, como vocalista, do “É com esse que eu vou“, grupo expoente de uma nova geração que vem surgindo no reduto do samba, o tradicional bairro carioca da Lapa. Você chegou a trazer dessas experiências anteriores algo que reflete-se hoje no “Claroescuro”?

PM – Sem dúvida! O Umbando foi a primeira convivência próxima com compositores, que também eram músicos e instrumentistas muito mais experientes do que eu — Rodrigo Penna Firme e Christiano Sauer, irmãos queridos. O sentido da montagem carinhosa, cerebral, de uma canção em sua estrutura-arranjo, o fazer parte de um organismo muito maior do que meu corpo e minha voz, uma banda — isto aprendi com o Umbando. O “É com esse” me jogou no mundo como violonista e intérprete, me ensinou a esperteza do baile, da pulsação do público, da narrativa do prazer. Foi, digamos, minha faculdade de música. Com o “É com esse” conheci minhas primeiras turnês, meus primeiros palcos grandes, e minha primeira gravação profissional, o disco Samba do Baú, com direção musical de Afonso Machado, um verdadeiro mestre arranjador do samba e do choro.

No “Claroescuro” há duas regravações: “Dora” (Dorival Caymmi) e “With a little help from my friends” (Lennon e MCartney) como se deu a escolha dessas duas únicas regravações do álbum?

PM – Foram as últimas canções a entrarem no repertório, encerrando o processo de anos como “work in progress”, com sucessivas tiragens e pré-lançamentos do Claroescuro… São gravações com humor e afeto de duas referências e diretrizes clássicas, metonímias do eixo da grande canção brasileira (Caymmi, o gênio da raça), e do eixo internacionalista, diria que, de certo modo, tropicalista, que também está presente na minha formação musical, os Beatles.

Como foi receber a notícia que o jornal norte-americano Boston Globe havia eleito o seu disco como um dos dez melhores cd’s, a nível mundial, de 2012?

PM – Para ser justo, vale dizer que a lista se referia à categoria (muito curiosa) de CDs de world music… que é a categoria que abraça tudo o que é música popular não anglo-saxônica. Foi uma alegria imensa! Principalmente por sentir que o Claroescuro não é um disco que só me diz respeito, mas que carrega a musicalidade e o amor de muitos e muitos artistas que realmente costuraram o corpo à alma do disco. Faço questão de citar Armando Lôbo, Thiago Amud, Daniel Marques, Ricardo Sá Reston e Marcelo Caldi, que criaram ou contribuíram decisivamente com os arranjos e a produção musical do CD. Levar o Claroescuro mundo afora também significa levar um pouco da potência musical destes e de muitos outros artistas que eu admiro e de quem eu tenho orgulho imenso para ouvidos abertos mundo afora.

A divulgação do “Claroescuro” vem ocorrendo em diversas capitais brasileiras, além de diversos países mundo a fora. Há, de sua parte, a intenção da captação de imagens para um possível dvd ou alguma coisa nesse sentido?

PM – Venho captando imagens de shows, com a melhor qualidade que posso, tanto no Brasil quanto no exterior, e até o fim deste ano, vou disponibilizar uma série de vídeos — que, de certa forma, retratam a biografia do Claroescuro — gratuitamente através da internet.

Esse seu primeiro registro fonográfico teve, digamos, uma depuração interessante até chegar a versão definitiva que hoje se encontra sempre elogiado tanto pela crítica especializada quanto também pelo público. Toda essa receptividade não gera, de certo modo, um certo receio para o próximo registro fonográfico?

PM – Confesso que já estou ansioso para entrar em estúdio e gravar meu próximo CD. Não tenho receios quanto à receptividade futura — ela é sempre uma incógnita — mas sim o receio que assoma a cada vez que uma folha em branco, uma nova canção, enfrenta minha própria exigência, cada vez mais alta. Às vezes sinto que estou exigindo demais do mistério. Mas não posso evitar.


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A CATARSE MUSICAL DE PEDRO MORAES

Pedro Moraes

Apesar da dubiedade sugerida pelo título do álbum, o primeiro registro fonográfico do carioca Pedro Moraes, batizado de “Claroescuro“, sabe tanto o recado que quer transmitir quanto qual é o seu quinhão dentro da música popular brasileira contemporânea. Imbuído dos mais genuínos ritmos brasileiros tal qual o xote, o samba e outros, o artista mostra-se que mesmo tendo os pés fincados nas mais tradicionais raízes musicais do Brasil a sua cabeça germinou e hoje ele segue por veredas distintas, aliando suas reminiscências sonoras as novas tendências universais e, acima de tudo, atuais. “Claroescuro” é um projeto que veio ganhando forma nos últimos cinco anos e hoje colhe os frutos desse meticuloso desejo, particularmente no exterior, onde o artista vem sedimentando uma exitosa carreira em lugares como Espanha, Sri Lanka assim como também em alguns países da Europa. Inclusive, o seu disco, tornou-se o primeiro álbum brasileiro a ser distribuído por um selo indiano: o Rock´nd Raaga.

O artista vem ganhando notoriedade a nível nacional desde a sua participação no programa Global “Som Brasil”, onde em meio a renomados artistas deixou a sua marca de maneira bastante pessoal e positiva interpretando clássicos do cancioneiro brasileiro compostos pelo sambista Cartola, canções como “Ensaboa” e “Cordas de aço” ganharam um registro bastante peculiar na voz do cantor e compositor, que mesmo veio a ganhar uma maior projeção. Carioca de nascimento, Pedro Moraes surgiu no cenário carioca fazendo as suas primeiras incursões pelos palcos, por volta do ano de 2000, já como cantor e compositor.

É desse período a sua primeira turnê internacional, quando foi primeiro ao México apresentar-se junto a cantora de jazz Magos Herrera, artista esta que gravou duas composições de autoria de Moraes e que obtiveram sucesso tanto de crítica quanto de público, rendendo ao compositor brasileiro propiciando assim a sua ida ao México e posteriormente aos EUA, onde apresentou-se em locais como o Zinc Bar e Nascimento. A partir daí fundou e participou ao longo de dois anos do grupo Umbando e de espetáculos como “Confraria da Música Livre” e “A Lira e a Lâmina” nos idos anos de 2001. Isso sem contar a sua participação, como vocalista, do “É com esse que eu vou“, grupo expoente dessa nova geração que vem surgindo no tradicional bairro carioca da Lapa, reduto do samba. O grupo foi indicado ao Prêmio TIM (hoje Prêmio da Música Brasileira) como melhor disco de samba do ano de 2007 com o álbum “Samba do Baú” dedicado a canções inéditas dos maiores mestres da história do gênero mais brasileiro (Paulinho da Viola, Cartola, Nelson Sargento e outros).

E foi a partir de 2007, que a carreira solo de Pedro foi moldando-se e ganhando a forma em que hoje se apresenta, pois foi em julho deste ano que ele finalizou a pré-produção do álbum “Claroescuro“, trabalho com o qual vem tecendo os mais diversos elogios e recebendo a rubrica de importantes críticos musicais por todos os lugares que vem se apresentando ao redor do mundo. Lançado a princípio em SMD (tecnologia semelhante ao CD que chega ao consumidor a um preço bastante módico, em média R$ 5,00), com esse preço acessível o disco chegou a expressiva marca de 4000 unidades vendidas. Apos três anos, no início de 2010, o disco foi remasterizado e adicionado a ele algumas faixas bônus, músicas estas que contaram com a adesão de nomes do primeiro escalão da música popular brasileira, e sai em formato digipack como hoje é encontrado em lojas de todo o Brasil (alguns desses endereços podem ser encontrados ao final desta matéria).

A imprensa especializada tem atribuído diversos adjetivos positivos ao trabalho deste artista carioca dentre os quais a classificação como algo sofisticado e ousado a partir de imprevisíveis, densas e sedutoras melodias sublinhadas por um diálogo de instrumentos eruditos. O álbum é, de muitas formas, um porta-voz de sua geração, artistas estes que procuram divulgar seus respectivos trabalhos por intermédio das diversas redes sociais existentes e outras ferramentas tecnológicas. Nesse campo Pedro tem tido êxito, conquistando um lugar de destaque. No site Reverbnation, ferramenta utilizada por mais de 400 mil artistas pelo mundo para gerenciar suas atividades online, Pedro é o número 1 regional nas categorias Jazz e Latino.

O álbum começa com “Xote da manhã“, primeira canção gravada pela cantora mexicana Magos Herrera, posteriormente vem uma salsa/samba intitulado “Marcela“, cuja inspiração vem da sensualidade da mulher latino-americana tão expostas nas noites cariocas nos diversos espaços em que o artista se apresentou durante anos. “Receita de canção” vira ao avesso e expõe a visceralidade das palavras de um poeta. No disco há três canções que nos remetem a festa mais democrática existente em nosso país, que é o carnaval. A primeira trata-se de “Carnaval em agosto” (parceria com Thiago Amud) conta a história de um triste e persistente folião a procura do que não há fora do período de momo, “Samba da quarta-feira” foi feita no intuito de prolongar o carnaval ao menos na melodia e versos desta composição. A última canção que aborda o tema chama-se “Coroa e cara“, que conta com a participação do cantor pernambucano André Rio, e traz a paixão, de forma análoga, por duas cidades Recife e Rio de Janeiro, a partir de um ritmo genuinamente pernambucano.

Há no disco também toada (como “O sonho de Antonieta“), samba (como “Zingareio“, que conta com a participação da cantora maranhense Alcione) e Samba-canção (“Canção da despedida“). O disco continua com “Incomunicável“, uma canção de extremos onde mostra um poeta dotado de poderes sobre-humanos; “Fina flor” retrata as nuances de um amor e “Samblefe“, faixa que não poderia ter título mais apropriado para contar a história de um recalcado amor. As regravações do álbum são “Dora“, um dos clássicos do repertório do saudoso Dorival Caymmi (1914 – 2008) e “With a little help from my friends” (Lennon e MCartney) do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” lançado em 1967.

E assim se faz a carreira deste artista, longe dos grandes canais midiáticos, Pedro Moraes traz um trabalho divergente daqueles que hoje são predominantemente mostrados como cartões postais de nossa cultura na abissal realidade em que se encontra a nossa música popular, mostrando que apesar das dificuldades impostas pelos ditames mercadológicos a chamada “neo MPB” (contexto ao qual está inserido Moraes) não esmorece devido a estes tipos de “compositores de pulso firme”, tal qual a definição do jornalista Artur Xexéo para este artista. Que talentos como este não se deixe esvair-se lentamente pelos ditames impostos pela sonoridade regida pelos principais meio de cultura do nosso país e que o grande público tenha a possibilidade de conhecer nomes como este que figura entre as grandes revelações de nossa música.

Fica aqui para os amigos fubânicos duas canções do álbum aqui apresentado. A primeira trata-se de “Coroa e cara“, que conta com a participação do cantor pernambucano André Rio, e como vimos trata da paixão, de forma análoga, do autor pelas cidades de Recife e Rio de Janeiro:

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A segunda faixa é o “Xote de manhã“:

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Maiores Informações: Pedro Moraes


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NELSON BARBALHO, 20 ANOS DE SAUDADES

nelson barbalho

Nelson Barbalho (Jun/1918 – Out/1993)

As duas décadas de saudades do caruaruense Nelson Barbalho não passarão em branco ao longo de 2013. No ultimo mês de junho foram lançadas duas homenagens a este compositor que teve entre seus intérpretes diversos nomes da música nordestina, em especial o saudoso Rei do baião Luiz Gonzaga. Dessas homenagens, a primeira foi um documentário sobre o autor da canção “A morte do vaqueiro” e dirigido por Wilson Freire. (Veja matéria clicando aqui). Já a segunda, foi uma grande celebração em CD reunindo alguns dos grandes nomes da música nordestina para interpretar a sua obra.

Neste álbum produzido pelo violonista Cláudio Almeida estão 14 interpretações (dentre estas nove são inéditas) e nomes como Dominguinhos cantando A morte do vaqueiro (ele mesmo toca a sanfona, com Sandro Haick, no violão de 7, e Jerimum de Olinda na percussão), Sergio Amaral (Respeita a cara), Geraldinho Lins (Fim de festa), Rosimar Lemos (Seca Braba), Gennaro (Cabrocha véia), Quinteto Violado (Rosinha), Israel Filho (Capital do Agreste), Benil (T’aqueta Zé), Thiago Almeida (Forró do rela-bucho), Ivan Ferraz (Xote das moças), João Menelau (Coco na praia), Isaar (interpretando Maracatu de Caruaru), sem contar que o disco ainda conta com um depoimento de Nelson Barbalho sobre A morte do vaqueiro. Ambos foram batizados com o mesmo título: Nelson Barbalho, o imortal no país de Caruaru.

A importância da obra deste compositor, nascido em 2 de junho de 1918 na cidade de Caruaru, para o cancioneiro nordestino, e em especial para a música produzida na capital do agreste, é imensurável. Com cerca de 180 canções compostas (a maioria inédita) Barbalho soube como poucos cantar em verso e prosa as belezas do seu torrão natal e as peculiaridades de sua região. Homem de costumes simples, aposentou-se como funcionário do antigo Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (IAPAS) em Pernambuco, função esta que lhe permitiu conhecer diversas cidades do interior do estado em que nasceu. Nestas viagens observava costumes, recolhia informações e se imbuia de modo substancial para retratar em verso e prosa tudo aquilo que deixou como legado.

Se com Luiz Gonzaga teve a oportunidade de compor o seu maior sucesso em homenagem ao primo de Gonzaga Raimundo Jacó (A morte do vaqueiro) e nele encontrou o mais notório dos intérpretes, é preciso destacar também a importância do maestro Joaquim Augusto, parceiro este com quem escreveu boa parte de sua obra como compositor. Da parceria com Joaquim surgiram canções como “Comício no Matão“, “Rosinha“, “Xote do véio“, “Xote das moças“, “Sertão sofredor“, entre outras.

Muitas dessas canções foram registradas pelo saudoso Gonzagão, que teve contato com a obra de Nelson Barbalho nos idos anos da década de 1950, quando teve a oportunidade de gravar uma parceria de Barbalho com o caruaruense Onildo Almeida, um baião cujo título fazia homenagem à terra natal de ambos e chamava-se “Capital do agreste“. Essa parceria foi registrada em 21 de março do ano de 1957 e deu início à gravação de uma série de composições do autor caruaruense por Luiz Gonzaga que estendeu-se até a década seguinte e deixou um legado de cerca de 8 canções imortalizadas na voz do Rei do baião. Joaquim Augusto faleceu em 1984 fazendo com que Barbalho optasse por também não mais compor, tamanha era a importância do maestro neste processo.

Segundo Valéria Barbalho, filha de Nelson, boa parte da obra do pai foi enviada em partituras para a Ilha do Governador, onde morava Luiz Gonzaga. Foram quase duas centenas de músicas, das quais Gonzaga não chegou a registrar nem uma dúzia. No entanto, com o falecimento do cantor (em 1989), as demais foram dadas como perdidas. “No ano passado, mexendo nos arquivos nelseanos, encontrei um velho envelope amassado, contendo músicas originais da dupla. Descobri partituras desenhadas por Joaquim e letras anexas, datilografadas por Nelson com sua velha Remington, todas amareladas pelo tempo, feitas para Gonzagão”, diz Valéria.

Além de compositor, Nelson Barbalho exerceu a função de lexicógrafo, historiador, pesquisador, jornalista e chegou a publicar quase uma centena de livros, dentre os quais destacam-se Cronologia pernambucana (com vinte volumes publicados dos quase cinquenta que compõem a obra), perto de vinte livros sobre Caruaru (Meu povinho de Caruaru, Major Sinval, Caruaru do meu tempo, etc.) e outros trabalhos folclóricos como Dicionário da Cachaça, Dicionário do Açúcar, sem contar vários ensaios publicados em jornais e revistas especializadas, na qualidade de estudioso da história e costumes do povo do Nordeste.

Fica aqui duas composições do artista citadas anteriormente. A primeira é a mais conhecida canção da lavra do artista, ”A morte do vaqueiro“, aqui é interpretada por Luiz Gonzaga, seu parceiro na composição, em 1972, no Teatro Tereza Raquel:

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A faixa seguinte é a canção “Capital do Agreste”, também citada ao longo do texto, e aqui interpretada por Israel Filho:

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ESTÓRIAS E HISTÓRIAS DA MPB – PARTE 6

Vinícius de Moraes (Out/1913 – Jul/1980)

Quem acompanha este espaço e por conseguinte esta coluna talvez lembre que quando surgiu esta ideia de trazer algumas curiosidades do cancioneiro brasileiro os primeiros personagens abordados foram o maestro Antonio Carlos Jobim e o multifacetado Vinícius de Moraes. O cantor e compositor Oswaldo Montenegro bem definiu o poetinha quando disse que ele de tantos tinha nome e sobrenome no plural.

Neste mês em que Vinícius completaria um século de existência retomo seu nome para contar mais algumas passagens interessantes sobre sua biografia e vida artística. De início posso começar a contar um problema que Vinícius tinha que assola boa parte dos brasileiros: insônia. Ele costumava dizer que invejava quem batia na cama e dormia logo. Sua última esposa, Gilda Mattoso, costuma contar que quando pedia para o poeta acordá-la ela sempre perdia as horas. Ele costumava dizer que não tinha coragem de acordar ninguém. Em suas crises de insônia ele costumava entrar na banheira com água morna, que dizia ser o útero da mãe. Ficava ali e, quando vinha o sono, ele saía da banheira e se metia na cama, ainda molhado, para não perder o embalo. Se o sono não engrenasse, não fazia cerimônia e voltava para a água para reiniciar todo o processo.

Uma das características de Vinícius, que falava com fluência vários idiomas, era misturá-lo nessas turnês corridas. Chico Buarque certa vez contou que quando estava em Roma foi a uma apresentação do autor de Chega de saudades e ele contava mil casos a plateia. O público ria muito, inclusive um senhor que estava sentado ao lado de Chico que olhou para Chico e exclamou:

- E bravíssimo questo Vinicius ma, scusa che língua parla? (É fantástico esse Vinícius, mas me desculpe, que língua ele está falando?).

Outra passagem interessante na biografia do saudoso artista aconteceu por volta de 1980. Nessa época Vinícius já não mantinha a vida social de outrora e isso o deixava bastante abatido. Esforçava-se para sair, ver amigos, mas estavam cada vez mais complicadas e sofridas essas saídas. Nessa época João Gilberto gravaria para a rede Globo um programa para a série “Grandes nomes”, no entanto no dia marcado para a gravação o poeta passou mal. Vinícius ficou inconsolado em não ter condições de participar desse programa até que dias depois ele recebeu a visita do parceiro Baden Powell. Durante toda tarde, Baden tocou e os dois cantaram em uma alegria de dar gosto. Baden ficou para jantar e ao final da refeição caiu uma chuvarada feia que fez com que permanecesse na casa de Vinícius para poder voltar para casa no dia seguinte, já que a cidade provavelmente estava alagada. O poeta e sua esposa providenciaram as acomodações de Baden no quarto de hóspedes e seguiram também para o quarto para também dormirem. Trocaram de roupas e já preparavam-se para deitar quando o interfone toca e do outro lado era Miúcha que o questionou se ainda estavam acordados. Mesmo de pijama o poetinha prontamente respondeu entusiasmado:

— Tô Miuchinha, pode entrar.

Quando a porta foi aberta entraram não só Miúcha, mas também João Gilberto com seu violão. João refez para Vinícius o especial todinhos com várias interrupções para atender a pedidos de Vinícius. João pacientemente atendeu a todos os pedidos ao longo de toda a noite e saíram já com o dia amanhecendo.

Ao acordar no dia seguinte por volta de meio-dia foram acordar Baden, que ainda repousava, para comer alguma coisa. Baden chegou a dizer que teve um sonho excelente: “Parecia que João Gilberto tocava e cantava a noite toda para me embalar…”.

Deixo agora para os amigos fubânicos duas faixas do álbum antologia poética, disco dedicado aos poemas de Vinícius e que foi lançado em 1977. A primeira faixa trata-se de um dos seus mais belos escritos, o “Soneto da separação”:

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Já a segunda faixa disponível é o poema “Feijoada à minha moda”:

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LANÇAMENTO NA PASSADISCO: PERNAMBUCO CANTANDO PARA O MUNDO

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Em uma década de existência a Passadisco sedimentou-se no mercado de música não só recifense de modo singular e vertiginoso. Hoje o empresário Fábio Cabral e a sua loja localizada na zona norte do Recife tornou-se referência no varejo de discos não só na capital pernambucana, mas em todo o país (em especial na região Nordeste.)

Para comemorar esses dez anos de conquistas ininterruptas Fábio traz, agora em novembro, às prateleiras de todo o país através do selo Passadisco, o terceiro título da série Pernambuco cantando para o mundo. A série que surgiu em 2006 quando Fábio teve a brilhante ideia de lançar uma coletânea genuinamente pernambucana batizando-a com um título alusivo ao slogan da Rádio Jornal do Commercio: “Pernambuco falando para o mundo.”

Neste primeiro projeto o empresário e produtor foi capaz de mensurar de forma simplória e requintada um pouco do que a música pernambucana é capaz de produzir, dando pano pra manga para vir uma série de outros álbuns na mesma linha, dando valor não só aos artistas pernambucanos, mas também aos ritmos genuinamente pernambucanos como o frevo e o forró.

Desta vez o proprietário e produtor Fábio Cabral lança em novembro o terceiro volume da série “Pernambuco falando para o mundo”, cujo subtítulo será “&”. Será um álbum duplo que contará com parcerias entre artistas pernambucanos e outros das mais diversas regiões do país. Ao preço de R$29,90 o disco contará com nomes como Dominguinhos, Spok, Karina Buhr, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elba Ramalho, Zeca Baleiro, Lenine, Toninho Ferragutti, Déa Trancoso, Gonzaga Leal, Chico César, Marília Medalha entre outros.

Segue a lista das canções presentes em mais um projeto com a marca Passadisco:

CD 01

01 – São João barroco (Geraldo Azevedo/Carlos Fernando) – Geraldo Azevedo & Elba Ramalho
02 – Foguete suburbano (Ivan Santos) – Ivan Santos & Lenine
03 – Bom de balançar (Herbert Lucena) – Herbert Lucena & Rob Curto
04 – Oceano do querer (Maria Dapaz/Xico Bizerra) – Irah Caldeira & Dominguinhos
05 – Janeleiro (Geraldo Maia/Rodrigues Lima) – Geraldo Maia & Vinícius Sarmento
06 – Na primeira cadeira (Juliano Holanda) – Juliano Holanda & Ceumar
07 – Outro dia (Júlio Morais/Carlos Ferrera) – Júlio Morais & Ylana Queiroga
08 – Baião de nós (Zeca Baleiro/Tiago Araripe) – Tiago Araripe & Zeca Baleiro
09 – Atirei (Alessandra Leão/Caçapa) – Alessandra Leão & Jorge du Peixe
10 – Meu esquema (Fred Zero Quatro) – Orquestra Popular da Bomba do Hemetério & Fred Zero Quatro.
11 – Geórgia (Marco Polo) – Querosene Jacaré & Marco Polo
12 – Quando Maria me fundou o Carnaval (Tibério Azul) – Tibério Azul & Toninho Ferragutti
13 – Doce (Marcello H/Larissa Brachet/JR Tostoi) – Vulgue Tostoi & Kátia B
14 – Se vê que vai cair (Junio Barreto) – Junio Barreto & Dj Tudo
15 – Sai uma mista! (Zé da Flauta) – Zé da Flauta & Paulo Rafael

CD 02

01 – Arreios de prata (Tito Lívio/Rodolfo Aureliano) – Tito Lívio & Alceu Valença
02 – Atlantis (Lula Queiroga) – Lula Queiroga & Isaar
03 – Nas terras da gente (Silvério Pessoa/Daniel Loddo) – Silvério Pessoa & La Talvera
04 – Roubando a cena (Gennaro/Maciel Melo) – Maciel Melo & Josildo Sá
05 – Morena cor de saudade (Dominguinhos/Xico Bizerra) – Paulinho Leite & Leda Dias
06 – Maria Bonita (André Rio/Nena Queiroga) – André Rio & Nena Queiroga
07 – Oferenda (Déa Trancoso) – Déa Trancoso & Rogério Delayon
08 – Deusa da Lua (Domínio público) – Gonzaga Leal & Marília Medalha
09 – Rabeca no merengue (Maciel Salú) – Maciel Salú & Chico César
10 – Meu time (Siba) – Siba & A Fuloresta
11 – Toada para Biu Alexandre (Cláudio Rabeca) – Cláudio Rabeca & Biu Alexandre
12 – Ponta pé (Adelson Viana/João Lyra) – Adelson Viana & Spok Frevo Orquestra
13 – Bairro Novo/Casa Caiada (Fábio Trummer) – Eddie & Karina Buhr
14 – Dente de ouro (Jáder Cabral de Mello) – Projeto Sal & Clayton Barros
15 – Campanário (Antônio Madureira) – Antônio Madureira & Sérgio Ferraz

Como de costume, deixo aos amigos fubânicos duas faixas deste projeto a ser lançado em breve. A primeira trata-se de “Nas terras da gente”, uma composição do Silvério Pessoa em parceria com Daniel Loddo:

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Já a segunda trata-se da canção “Quando Maria me fundou o Carnaval”, composição do também pernambucano Tibério Azul:

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JULIA BOSCO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Julia, que aos quatro anos já ouvia Billie Holiday, cresceu envolta a música de excelente qualidade produzida em sua própria casa, pois a cantora e compositora é filha do cantor e compositor mineiro João Bosco, artista com mais de 40 anos de carreira e dono de clássicos da MPB como “Papel maché“, “Dois pra lá, dois pra cá“, “Corsário“, entre outros.

Depois de abandonar uma bem sucedida carreira executiva em uma multinacional para dedicar-se exclusivamente a música, Júlia vem apresentando o seu álbum de estreia intitulado “Tempo”, título adequadamente preciso para a artista mostrar-se de maneira plena em sua nova escolha, trazendo consigo um repertório confessional e intimista, onde o amor rege de maneira plena no decorrer das faixas presentes neste debute fonográfico, além de peculiaridades que o público leitor pode conferir na matéria publicada recentemente aqui no prosódia musical intitulada “O TEMPO CERTO DE JULIA BOSCO”.

Neste segundo momento, Júlia Bosco atenciosamente nos concede esta entrevista exclusiva onde fala um pouco sobre a receptividade do público com o seu disco de estreia, de sua parceria musical e afetiva com o músico Fabio Santanna, da condição de ser filha do João Bosco, um dos maiores nomes da nossa música entre outras coisas que vocês poderão conferir abaixo! Boa leitura!

Você de um ambiente familiar extremamente propenso ao desenvolvimento de alguma habilidade artística. Seu pai um dos maiores nomes da nossa música, seu irmão compositor, ensaísta e um dos apresentadores da Rádio Batuta, sua mãe artista plástica. Neste contexto é algo até natural um certo espanto por você não está neste contexto desde cedo. Quando houve essa decisão de dar início à sua carreira e você trouxe esse comunicado à família Bosco quais foram as palavras proferidas por eles que mostraram a você que esse era de fato a sua escolha certa?

Julia Bosco – “Até que enfim”. Foi isso que eu ouvi. Não porque existisse a cobrança, mas porque era o que se esperava que eu fizesse: arte. Pois bem, levei o tempo que precisei, e então mergulhei segura.

Há uma estória de que você desde tenra idade ouvia grandes nomes do mundo do jazz, pedindo inclusive para dormir ao som de nomes como Billie Holiday e outras divas da música. Seu interesse por música restringia-se as audições ou você interessou-se em dado momento na aprendizagem de algum instrumento?

JB – Sim, sempre tive um ouvido musical afiado e com forte tendência a morrer de amores por cantoras de jazz. Quando mais nova, criança ainda, fiz aulas de flauta, violão e piano. Na entrada da adolescência, um pouco antes até, fui tomada por uma anarquia absoluta e larguei praticamente todos os hábitos que tinha para me dedicar a conhecer a musica punk! Era uma coisa de criança mesmo, bem inocente, chega a ser melancólico lembrar, pois eu tinha um grande amigo que era de um jovem movimento punk, ainda é meu amigo e é um jornalista querido, mas éramos tão novos e tão cheios de sonhos revolucionários! Sonhos que não davam em nada: acabávamos as noites nas casas de nossos pais ouvindo Sex Pistols e comendo pizza, como se fôssemos mudar o mundo. Nessa época eu interrompi os estudos de instrumentos completamente e nunca mais os retomei, até poucos meses atrás.

O fato de você ter amadurecido esta sua decisão para o momento que achou mais conveniente dar vazão me remeteu ao Honoré de Balzac e a sua publicação “A Mulher de Trinta Anos“, onde por coincidência a protagonista salve engano também chamasse Julia. A concepção defendida por Balzac de que a mulher nessa faixa etária está emocionalmente amadurecida para viver suas relações em plenitude condiz também com o seu momento atual? O disco de certo modo é o reflexo dessa plenitude?

JB – Com certeza absoluta. Ganhei este livro aos 29 e o que já vinha dando sinais de acontecer acabou ficando mais evidente: uma grande mudança estava a caminho. Os trinta caíram sobre mim como aquelas bigornas dos desenhos animados, sabe? Direto na testa! E eu fui ao chão na hora, mas me levantei rapidamente pensando nas soluções possíveis para tanta angustia e tanto questionamento. Todas as respostas levavam ao mesmo caminho: a música. O conteúdo do disco Tempo, de uma certa forma, procura passear por estes momentos como um enredo que se desenvolve sobre um tema, que na verdade é a minha própria existência.

Ser filha do João Bosco, artista este que nos últimos 40 anos acabou tornando-se um expoente para toda uma geração de artista da MPB, não acabou fazendo da expectativa (principalmente da imprensa especializada) algo que demandou uma responsabilidade maior na concepção deste seu trabalho?

JB – Não sei que tipo de expectativa isso gera nas pessoas ou na imprensa. A expectativa que gera em mim é a melhor possível, a de estar seguindo passos parecidos com os que meu pai seguiu tantos anos atrás, quando começou a trilhar seu próprio caminho. Onde isso vai me levar, ainda não sei dizer, e nem quero! Prefiro curtir o passeio… Meu pai é um sujeito sensacional, um grande artista, mas é acima de tudo um exemplo de trabalhador disciplinado e entregue ao seu ofício, é nisso que me inspiro, porque nossos estilos não são parecidos para que as comparações sejam possíveis.

Como se deu o seu processo de composição das faixas do disco?

JB – No que diz respeito à prática da composição, este foi, e ainda é, o exercício mais complexo dessa mudança toda na minha vida. Sempre escrevi, mas sou prolixa, exagerada, e fazer música é realmente um teste à minha capacidade organizacional! Ter um espaço onde as coisas precisam caber para fazer sentido, ter uma divisão, uma melodia, um ritmo, tudo isso foi novidade frente ao que eu compreendia como processo criativo puramente. E neste ponto, aliás, em todos os pontos que envolvem este disco, ter a parceria do Fabio Santanna foi condição fundamental para que as coisas acontecessem. Tudo que compus, foi em parceria com ele. Sem isso, acho que ainda não teria conseguido. Bater cabeça faz parte do processo, e neste ponto também estou amadurecendo. Quero conseguir compor sozinha, apesar de amar compor em parceria… Com relação às musicas, propriamente ditas, todas trazem um tom confessional de propósito, mas ao mesmo tempo em que são pessoais, são facilmente transferíveis., pois falam de relacionamentos, de auto-conhecimento, de vivencias e experimentações… E quem não passa por isso? Todo mundo.

Tempo” é uma das canções de autoria do Fabio Santanna que já estava pronta antes da concepção do disco. Há mais alguma canção que foi elaborada antes da pré-produção do álbum e que no caminho em que o trabalho estava seguindo contextualizou-se com o projeto?

JB – Sim, uma que se chama Confusão, e que o Fabio fez para mim na noite em que me conheceu e achei bacana registrar a primeira percepção que ele teve sobre mim, antes do meu amadurecimento; e outra que se chama Mutantes, que ele já havia trazido para eu conhecer e era a cara de nós dois juntos, então foi incorporada naturalmente ao disco.

Você tem dois grandes compositores na família que é o seu pai e o seu irmão, porém você procurou elaborar um trabalho essencialmente constituído pelo seu universo. No momento em que você estava montando o repertório não cogitou a possibilidade de inserir algo produzido nem por seu pai nem pelo Francisco?

JB – Não foi preciso, as composições brotaram dentro de um sentido mesmo, como se eu quisesse contar uma história e aqueles fossem os capítulos. Mas eu teria pedido ou cogitado sem o menor pudor, se tivesse vontade ou contexto. Isso não é uma questão, é uma oportunidade. Quem sabe no próximo!

Houve uma reviravolta significativa em sua vida, pois você saiu de um emprego de uma empresa conceituada como a Petrobras para dar vazão ao desejo de seguir uma profissão que é preciso matar um leão a cada dia para manter-se nela. Ao decidir abandonar toda a estabilidade ao longo desses últimos oito anos houve algum tipo de receio?

JB – Houve e ainda há. Mas a gente tem que fazer as coisas mesmo quando não tem certeza, pelo menos quando se trata de tentar ser aquilo que a gente acredita que é. Abri mão de um estilo de vida em detrimento de um outro, que ainda não me deu o mesmo retorno financeiro, mas já me faz muito mais feliz e realizada.

Sua relação com o Fabio nos remete a um exemplo clássico dentro de nossa música que é o casal Rita Lee e Roberto de Carvalho. Ele se fez a essência deste álbum participando da concepção nas diversas fases existentes. Você estaria hoje nesta condição de cantora se o Fabio não tivesse surgido em sua vida?

JB – O Fabio diz que cantora nasce cantora, e que ele sempre soube o que eu era e tudo que eu ainda posso ser. Diz ele que no dia em que eu descobrir, ninguém me segura! Acho bacana ter um parceiro assim, que me dá tanta força, e nem quero pensar em como seria se ele não tivesse surgido, quero aproveitar que ele surgiu e colher os frutos que estamos plantando juntos. Quanto ao casal mencionado, somos muito fãs dos dois e os temos como exemplos, chega a dar orgulho estar numa questão como essa junto a eles…

Como tem sido a receptividade nos locais que você tem levado “Tempo” e quais as expectativas para esse segundo semestre em relação a sua carreira?

JB – A receptividade com o disco foi bacana, mas o que tem me surpreendido é a receptividade com os shows. As pessoas adoram o show, chegam a se emocionar em alguns momentos e eu fico sempre me perguntando: de onde é que isso vem? Depois quando elas chegam para falar comigo, eu entendo! Sempre me dizem que eu faço o show com um jeito de quem sempre quis tanto estar ali, fazer aquilo, que chega a ser libertador para quem assiste. Que bom, porque eu mesma entro num transe e quase nem me lembro depois…

Para o segundo semestre a expectativa, aliás, a grande esperança, é de que este disco, projeto independente, consiga levar seu show a outros estados brasileiros fora do eixo Rio-São Paulo. Esse é o meu maior desejo.

Maiores Informações: Site Oficial Julia Bosco


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O TEMPO CERTO DE JULIA BOSCO

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Qualquer momento é tempo para se falar do amor em seus mais variados nuances, e talvez detentora deste conhecimento, a cantora e compositora Julia Bosco soube explorar de forma ímpar este tema em seu debute fonográfico. Esperou o exato momento para dar vazão as suas ideias e concepções sobre as relações afetivas de modo intenso, visceral e musical; condensando toda complexidade do tema ao longo desse período em que esteve envolta com outras atividades que não a musical ao longo dos últimos anos. Em 2012 a necessidade de expressar-se artisticamente falou mais alto, e não houve uma ponderação que a fizesse voltar o caminho escolhido a ser seguido. Advinda, desde a infância, de um contexto extremamente propício ao desenvolvimento dessa aptidão, Júlia vem trazendo em “Tempo” a certeza de que agora de fato chegou a sua hora.

Julia, que aos quatro anos, chegava a pedir à mãe para pôr o disco de Billie Holiday (um dos maiores nomes do mundo do jazz do século XX) para embalar o seu sono, daí veio a crescer em meio de composições, cantos, apresentações em programas infantis, rodas de sambas e em meio um ambiente predominantemente artístico; e mesmo que em dado momento tenha tentado seguir por caminhos incongruentes a essa aptidão natural cursando a faculdade de Jornalismo, além do curso de Publicidade e Marketing e logo em seguida tornou-se consultora em uma multinacional do petróleo por oito anos, até que em setembro do ano passado percebeu que todos os caminhos dos quais se esquivou eram apenas atalhos para o seu inevitável e definitivo encontro com a música.

O título “Tempo” foi adequadamente escolhido para batizar o álbum devido a essa maturação da condição de artista por parte da cantora e compositora, porém nada era de espantar se por ventura o disco viesse a chamar-se de “Encontro“. Sim! “Encontro“… Encontro de Juliacom os anseios e desejos por vezes reprimidos devido a sua escolha profissional e título que faria jus particularmente por conta do destino que veio a cruzar o seu caminho caminho com o do músico Fabio Santanna, que assinou todas as faixas do disco (nove em parceria com a cantora), também comanda a produção do disco, além de ter acabado tornando-se marido e grande incentivador da artista. De certo modo, ele veio a surgir em sua vida para dar o incentivo que faltava para que ela saísse dessa espécie de invólucro ao qual insistia em permanecer e se deixasse conduzir pela chama desse desejo, que por mais recôndito que estavae, nunca se deixou apagar. Vale registrar também que a produção do álbum conta também com o auxílio luxuoso do músico, Dj e produtor Plínio Profeta. Plínio traz em sua bagagem além da experiência de ter trabalhado com diversos nomes da música brasileira o Grammy latino pelo trabalho de produção no disco “Falange Canibal“, do cantor e compositor pernambucano Lenine em 2002.

Dentre as faixas do álbum há a participação de dois grandes nomes da música popular brasileira: João Bosco e Marco Valle. Bosco deixa a sua inconfundível marca no afoxé “Na Oração” (composição que surgiu como reminiscência de uma descontraída viagem à Turquia em família, onde encantou-se com a relação do pai com a fé), já Valle empresta a sua voz e a bossa do seu piano Rhodes e teclados Moog na faixa “Curtição“, canção de forte levada funk e que teve como inspiração a sonoridade do cantor e compositor carioca. O álbum ainda conta com a salsa “Tudo bem“, que retrata os desencontros de casais com rotinas distintas; “Dia Santo” canção que aborda os ritos afro-brasileiros em uma sonoridade tão peculiar quanto o tema abordado. Já a bossa “Carta para uma amiga” vem regada de contemporaneidade rítmica endossada pelos arranjos de metais. A faixa “de trabalho” trata-se de “Desativados” , que surge como um dos temas auto-biográfico do disco e remete-nos as divas as quais Julia fazia questão que embalassem seu sono em um excelente arranjo de tom jazzístico.

O passeio pelas faixas continuam com “Angel“, que torna-se uma das faixas mais confessional do disco por se tratar de uma explícita declaração de amor por parte de Julia ao marido e encontra-se na trilha sonora do filme “Paraíso Aqui Vou Eu“. Já “Tudo sempre” é uma canção que ao ouvirmos nos remete aos clássicos da Motown, a mim particularmente trouxe-me a lembrança o grupo Gladys Knight e The Pips e a clássica “Neither one of us (want to be the first to say goodbye)”, além da balada “Mesmo princípio” que traz como tema mais peculiaridades de uma vida a dois. As músicas e letras exclusivamente da lavra do marido e produtor são compostas por uma heterogeneidade de ritmos, tais quais o samba “Mutantes“, “Play a Fool” (faixa que segundo a cantora foi fruto de uma briga horrorosa e acabou tornando-se uma confissão de que ele de fato estava errado), a balada “Confusão” e a faixa “Tempo“, que dá nome ao disco.

Com elegância e sofisticação Julia Bosco tece a contemporaneidade de sua sonoridade com os sons que permearam todo esse seu processo evolutivo enquanto cantora, e para isso contou com nomes como Ronaldo Silva (bateria e percussão), Lancaster Lopes (baixo), Ge Fonseca (piano), Cecília Spyer (vocais), Plínio Profeta (cavaco). Os metais ficam a cargo de Bidu, Altair Martins, José Carlos Bigorna e Marlon Sette (que também escreveu os arranjos) e as cordas ficam sob responsabilidade de Iura Ranevsky, Pedro Mibielli, Glauco Fernandes e Jesuína Passaroto. Além do marido Fabio Santanna, que executa teclado, guitarra e violão.

O tempo deu o tom preciso para a artista mostrar-se de maneira plena em sua nova escolha, trazendo consigo um repertório confessional e intimista, onde o amor é a influência maior na elaboração deste projeto.

Julia Bosco chega trazendo consigo o amor, não só pela arte mas também no âmbito pessoal da maneira mais visceral possível. Exposto em cada verso presente no álbum de maneira madura e sensata, sem soar piegas ou clichê. É um trabalho que procura mostrar a verdadeira intenção da artista: vir para ficar. Talvez por apresentar-se de modo tão verdadeiro, ela venha munida de características tão positivas e que a coloca no patamar de uma das mais gratas surpresas musicais deste ano. Sua segurança, sutileza e elegância fazem de “Tempo” não só um trabalho de tom confessional, mas expõe uma artista que está estreando no mercado fonográfico exibindo uma maturidade inerente a artistas que trazem consigo bastante know-how, confirmando talvez aquilo que certa vez escreveu o poeta curitibano Paulo Leminski: “Haja Hoje para tanto Ontem“. Afinal de contas o tempo não pára!

Fica aqui para os amigos fubânicos duas canções que fazem parte deste debute fonográfico da cantora carioca. Ambas são parceria de Julia com o marido Fabio Santanna. A primeira é a canção “Tudo Sempre“, a já citada faixa que me remeteu aos clássicos americanos da Montown:

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A segunda é “Dia santo“, canção impregnada de elementos africanos:

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ESTÓRIAS E HISTÓRIAS DA MPB – PARTE 5

Isaurinha

Isaurinha Garcia (Fev/1923 - Ago/1993)

A personagem que hoje trago ao espaço do JBF ainda hoje é considerada uma das grandes intérpretes da nossa música popular brasileira. Referencia para muitas das cantoras que hoje frequentam os palcos brasileiros, Isaurinha Garcia foi considerada por muitos como a Edith Piaf brasileira ao longo dos seus mais de quatro décadas de carreira e cerca de 300 gravações.

Sua carreira teve início na década de 1930 e foi inspirada principalmente por nomes como Carmen Miranda e Aracy de Almeida e hoje, na semana em que completa-se duas décadas que ela partiu para o andar de cima, gostaria de trazer algumas histórias e curiosidades sobre a sua carreira.

A primeira história vem da época em que ela ainda era aspirante a cantora e participava de alguns programas de calouros. Muitas vezes sem dinheiro para apanhar o bonde Isaurinha ía a pé arriscar a sorte em alguns programas de calouros de sua cidade. Em sua primeira participação foi gongada, mas a partir da segunda já começou a ter o seu talento reconhecido e tirou primeiro lugar interpretando a canção “Camisa listada”, do Assis Valente.

Já consolidada como cantora ela recebe o título de rainha da rádio paulista e não sei o porquê a comemoração deste título não se deu na rádio paulista a qual Isaurinha estava vinculada, e sim em uma excursão no Nordeste, onde na Rádio Jornal do Commercio, situada em Recife, capital pernambucana, acabou criando um forte vínculo de amizade com o então radialista Fernando Castelão.

Dentre as curiosidades biográficas da cantora não poderia deixar de dizer que ela foi casada com um pernambucano. Sim! Um pernambucano… Isaurinha foi casada com Walter Wanderley, instrumentista já abordado por mim em um momento anterior aqui no JBF. Walter consolidou a sua carreira no exterior de modo bastante exitoso.

Quero deixar aqui para os amigos fubânicos duas canções do repertório da Isaurinha. A primeira canção trata-se de “Teleco-Teco”, composição do Murilo Caldas e do Murilo Caldas, gravada originalmente em 1942.

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A segunda canção aqui apresentada trata-se do samba “Velho Enferrujado”, canção composta pela dupla Walfrido Silva e Gade e gravada originalmente pela cantora em 1950.

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INFÂNCIA DO CORAÇÃO

Tive a oportunidade de ser agraciado pela autobiografia do amigo fubânico Francisco Sobreira cujo título é o mesmo ao qual assino a pauta desta semana. Trata-se de uma obra quetem como tema central reminiscências de um dado momento de sua vida, uma época de descobertas, onde o menino Jorge (é assim que Francisco é chamado no livro) fomenta o simplório desejo de conhecer a capital do Ceará, seu estado natal. Sua persistência acaba fazendo com que sua irmã Stela obtenha do pai a permissão em sua viagem à cidade grande ir acompanhada pelo irmão caçula.idc

A partir daí o enredo do livro desenvolve-se contando diversos acontecimentos em torno do protagonista do livro, ou seja, o próprio Francisco Sobreira. São histórias pitorescas relatadas pelo autor e que trazem uma Fortaleza que mora na memória afetiva de muitos contemporâneos seus e tantos outros saudosistas a partir das sessões nos cinemas Diogo (local onde assistiu Segredo de Estado, seu primeiro filme), Majestic, São Luís, Samburá, Jangada e tantos outros que propiciaram o jovem a conhecer a beleza estonteante de nomes como Sophia Loren exibida em filmes como “A mulher do Rio”; brigitte bardot em “Amar é minha profissão” e Audrey Hepburn em “A princesa e o plebeu”. Sem contar o cinema Moderno, onde de tanto frequentar a sala de exibição acabou tornando-se amigo da bilheteira Amália.

Nascido na cidade de São Januário (local este situado a cerca de 120 km de Fortaleza), Francisco traz escrito neste título diversas espécies de amores, desde o platônico (existente por uma garota que dividia com ele a leitura de Helena, título de Machado de Assis), perpassando pelo o que sentia por Rute (sua primeira namorada) furtivos (como o existente por Marlene).

Para quem conhecia apenas os caminhões adaptados a ônibus da empresa do Zé Cirilo chegar a Fortaleza após 05 horas de viagem (sob intensa expectativa) e ter a oportunidade de passear em um taxi perfect talvez para o pequeno Sobreira já fosse suficiente, mas o destino foi generoso com ele e daí em diante houve diversos acontecimentos em sua pueril vida. Novos personagens e lugares foram agregando-se as lembranças do autor, como por exemplo os amigos de Liceu, a vila são José e seus tios Alberto e íris, Simone e sua irmã Sara, Manoel Bocão, o casal Natália e Franco entre outros; a pensão Belo Horizonte de propriedade do Genésio entre outras pairagens e conquistas relatadas neste livro.

Obrigado Francisco, sua obra me propiciou momentos imbuído de pueris lembranças que de um modo ou de outro estavam, digamos, adormecidas. e dentre as lembranças me vieram duas canções que agora compartilho com os amigos fubânicos. A primeira trata-se da canção “Meus tempos de criança”, uma gravação do próprio autor Ataulfo Alves, em 1956:

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A segunda canção também está muito atrelada a temática. Composta po Milton Nascimento e Fernando Brant, “Bola de meia, bola de gude” foi gravada por Milton em 1988 no álbum “Miltons”.

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MIMO 2013

MIMO

Há exatamente dez anos aportava na cidade de Olinda, em Pernambuco, uma caravana de artistas para dar início a uma série de cinco concertos. Era o começo de um festival que hoje caiu na graça do povo pernambucano: O MIMO (Mostra Internacional de Música em Olinda), onde e que tem por propósito fazer das igrejas construídas no período colonial palco para a apresentação de concertos diversos, podendo tudo isso ser vivenciado de modo gratuito mediante senhas distribuídas na biblioteca pública da cidade. Essa ideia foi tomando corpo nos anos seguintes e este anos chega a sua décima edição levando música não só para as igrejas, mas também para as escolas, praças públicas e outros espaços. Hoje o que antes restringia-se a concertos passou a abranger palestras, etapas educativas, cinema, exposição entre outras atividades.

De início o princípio básico do projeto idealizado pela produtora carioca Lu Araujo era quebrar o estigma de que a música erudita só atende a um público específico, que tal gênero musical é algo para poucos ouvidos. A produtora levou a ideia a então prefeita da cidade Luciana Santos e a mesma adorou o projeto, e logo no primeiro ano o público olindense mostrou que a Lu estava com a razão. Foram cerca de 2000 mil pessoas só em um dos concertos. O sucesso de público e crítica foi tamanho que a partir daquele ano os meses de setembro que viriam se suceder na cidade de Olinda nunca mais seriam os mesmos. O evento estendeu-se a outras cidades e os apoios cresceram substancialmente, contando hoje com patrocínios não só da esfera pública, mas também da iniciativa privada.

Este pequeno retrospecto faz-se necessário para que o público fubânico tenha noção do quanto (o que este ano chama-se de movimento) cresceu. Isso pode ser atestado e vivenciado a partir de hoje na cidade onde foi dado o pontapé inicial para a exitosa trajetória do evento com uma série de concertos que vão até domingo. No entanto vale também ressaltar que o MIMO 2013 já aportou por outras duas cidades no sudeste. A primeira foi a belíssima e histórica cidade de Paraty, onde entre os últimos dias 23 e 25 de agosto o movimento estreou sem fazer alarde, levando para o litoral oeste do estado do Rio de Janeiro uma caravana musical composta por nomes como o do grupo belga MANdolinMAN, do americano Herbie Hancock, do cantor e compositor João Bosco entre outros. A escolha de Paraty para ingressar no roteiro de espetáculos este ano se deu não só pelas belezas naturais e charme do lugar, mas também pela preservação dos bens e valores históricos existentes na cidade.

A segunda parada do movimento este ano se deu na cidade mineira de Ouro Preto, município localizado a cerca de 90km da capital, Belo Horizonte. O município conhecido por suas belezas naturais e arquitetônicas, além de ter sido cenário para alguns fatos históricos do nosso país também já chegou a ser a capital do estado das Minas Gerais. Durante 04 dias a histórica cidade recebeu diversas atrações nacionais e internacionais, dentre elas artistas Dona Odete, Hamilton de Holanda, Gilberto Gil, além de diversos nomes internacionais como Madredeus, Ibrahim Maalouf, Guillaume Perret e The Electric Epic, Stephan Micus entre outras.

Esta semana finalmente o movimento aporta em seu nascedouro trazendo consigo uma considerável bagagem de uma década de existência e a graça do público pernambucano, uma vez que o movimento já ganhou o gosto popular em Permambuco, fazendo com que muitas pessoas que moram nas cidades circunvizinhas desloquem-se até a cidade de Olinda neste período não por suas ladeiras e arte existente em cada canto do seu sítio histórico, mas principalmente para ter a oportunidade de vivenciar espetáculos únicos com grandes nomes de nossa música e de outros tantos do cenário internacional que aportam sempre no mês de setembro na histórica marim dos caetés. A cidade que foi a primeira a receber o título de capital nacional da cultura, torna-se também por uma semana a capital nacional da boa música apresentando concertos, workshops e palestras; além de uma grande diversidade de filmes voltados para o tema.

Os números do evento impressionam e a tendência natural é que este ano o evento venha a bater novos records como vem acontecendo em todas as edições anteriores. É certo que aos impressionantes números de 95 filmes, cerca de 500 mil espectadores, 200 concertos, 15 mil alunos beneficiados em sua etapa educativa além de centenas de empregos venham a se somar mais algumas significativas estatísticas para atestar em definitivo que este movimento chegou não só para agregar forças a cultura nacional, mas principalmente para difundir valores musicais em um país que infelizmente preza por uma cultura de massa extremamente desnecessária. Torço para que esta década multiplique-se cada vez ao ponto de transformar-se em séculos de perpetuação da boa música, trazendo não só esplendorosos concertos musicais, flimes e tantas outras manifestações culturais, mas principalmente mantendo a ideia de trabalhar a formação de espectadores para uma nova realidade musical daqui a alguns anos, contribuindo assim de modo significativo não só para com as cidades envolvidas, mas também com um novo panorama musical nacional em um futuro não muito remoto.


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JÚLIA TYGEL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Julia Tygel

Como os amigos fubânicos viram ao longo da semana passada aqui no Prosódia Musical, Júlia Tygel traz em seu álbum de estreia uma simbiose singular em seu primeiro álbum batizado de “Entremeados“. Neste primeiro disco ela debuta mostrando uma técnica assimilada no universo erudito, onde por ora é aplicada a um repertório popular de primeira grandeza mostrando-se, dessa forma, uma artista de sensibilidade aguçada que sabe desvencilhar-se dos estigmas musicais que por muitos são aplicados. Hoje Júlia concede-nos uma entrevista exclusiva onde nos conta acerca da receptividade do público no exterior, fala sobre a pré-indicação do disco ao maior prêmio da música brasileira entre outros assuntos interessantes. Vale a pena conferir!

Como se deu a introdução da música em sua vida? Com que idade você teve o seu primeiro contato com o piano?

Júlia Tygel – Minha avó paterna tocava piano muito bem, mas não profissionalmente, meu pai um pouco, e tenho músicos na família por parte de pai. Mas, com pais separados, foi minha mãe (que não tem músicos na família) que, desde cedo, me abriu todas as possibilidades: acho que desde os 5 anos comecei a fazer aulas lúdicas de dança, teatro, desenho, música. Aos sete comecei a ter aulas de piano, e fui gostando mais da música. Minha mãe conta que comecei a cantar antes de aprender a falar – tem gravações em fita cassete ainda… e ela sempre apoiou esse movimento. Acho que fui parar no piano, e não em outro instrumento, pelas referências do meu pai e de minha avó, mas talvez por um encaminhamento da escola mesmo, pois é um instrumento muito didático para começar. Acho que foi algo natural, não me lembro muito bem…

Você é uma artista que vem de uma formação erudita e neste primeiro álbum você apresenta um repertório, digamos, popular. Como se deu a escolha das faixas se a essência de sua formação vem de um universo erudito?

JT – De novo, vem tudo da infância. Minha avó tocava piano erudito, e eu gostava muito. Minha mãe ouvia muita MPB em casa e eu sempre gostei muito também. Eu me lembro de ter desde bem pequena a idéia de uma música imaginária, que eu ainda não conhecia – se o que eu já conhecia era tão bonito, deveria haver algo incrível ainda desconhecido para mim. Eu ficava imaginando como seria, era mais uma sensação que um som. Lembro como foi frustrante quando comecei a ouvir mais coisas fora de casa, com os coleguinhas – em geral música mais comercial, disponibilizada pela grande mídia. Fiquei achando que talvez aquela música imaginária não existisse. Acho que a música erudita, que fui conhecendo na escola de música, era a que mais se aproximava daquela sensação, e eu fui gostando dela cada vez mais. Mas a MPB esteve sempre presente na minha casa, e eu gostava muito, especialmente os compositores mais presentes no CD: Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, Vinicius de Moraes. Na adolescência, quando comecei a entender melhor as letras e a estrutura dessas músicas, me apaixonei ainda mais por esse repertório.

Além dessas influências, minha mãe é antropóloga e tive a oportunidade de viajar muito com ela pelo Brasil desde pequena, sempre de carro, fora do roteiro turístico, e sempre vendo e ouvindo muita coisa de cultura popular, de rua, por quase todas as regiões do país. Isso foi muito importante na minha formação também, tanto que mais adiante fui estudar etnomusicologia, que é o estudo da música na cultura. Ela também sempre me levou muito ao teatro, a concertos e shows, mais de música popular. Eu não me lembro mais com clareza da maior parte das coisas, mas tenho certeza de que tudo isso foi fundamental na minha formação.

Eu continuava estudando piano erudito, e a vontade de tocar aquele repertório popular vinha vindo. No fim da adolescência comecei um duo com um violoncelista da Sinfônica de Campinas, o Mário A. C. Costa, que era obviamente um músico muito mais experiente que eu e me ensinou muito, com uma enorme paciência. Eu estudava bastante pra tocar com ele! Nós tocávamos Brahms, Fauré, peças da música erudita. Mas ambos gostávamos de música popular e queríamos tocar MPB, só que não sabíamos nada – é uma outra abordagem, exige outros conhecimentos. Eu tentei fazer aulas, mas não me sentia ainda confortável, como uma roupa que a gente vê bonita na vitrine, mas não nos cai bem – não sabia qual era a minha cara ou o meu lugar ali naquele universo. Daí decidimos começar a escrever arranjos, que seria uma forma de criarmos partituras para podermos tocar Chico Buarque como quem toca Brahms. Ele escreveu um ou dois e eu escrevi a grande maioria dos arranjos e composições do CD Entremeados, durante o tempo que tocamos juntos – desde o fim da adolescência até o começo da faculdade de música. Tive então a oportunidade de experimentar bastante a escrita para o violoncelo, com ele e depois com outros violoncelistas, e ir aprendendo a lidar com o instrumento e com a prática de escrever. Foi um estudo de composição, pelo desafio de lidar com temas tão conhecidos, já tão bem interpretados por músicos maravilhosos. Era necessário criar algo realmente interessante e diferente em termos de arranjo, dentro de uma limitação grande também, respeitando os contornos de cada canção para que permanecesse reconhecível. Depois ainda foi um estudo de instrumento, para tocar o que tinha escrito…

Enfim, esse CD é uma espécie de síntese da minha formação e referências da infância, a maneira como consegui encaixar o que eu gostava ao que eu sabia fazer, ao que imaginava ser possível ao que queria treinar, também. Na época, eu sequer imaginava esses desdobramentos.

No meio musical como tem sido visto essa dicotomia? Para os músicos que se intitulam erudito você hoje é vista como popular?

JT – Pra ser bem sincera, eu não sei. Só recebi críticas positivas de ambos os lados em relação a essa mistura. Talvez haja pessoas criticando e eu não estou sabendo… risos. Tenho a impressão de que as pessoas da música “erudita” vêem de uma forma mais analítica os procedimentos musicais feitos com os temas (o uso de técnicas de contraponto, variação motívica, etc.) e acham curioso, no bom sentido, aplicá-los sobre canções da MPB; e as pessoas mais ligadas à música “popular” vêem os temas tão familiares serem trabalhados de uma maneira erudita, igualmente com curiosidade e interesse. Mas, pra ser franca, acho que essa dicotomia está se enfraquecendo cada vez mais, ainda bem, e acho que esse é o pano de fundo da boa aceitação que esse trabalho vem tendo.

Acho que a resposta tem sido bacana de ambos os lados. Acho que esse trabalho, como fazem tantos outros, abre um pouco uma janelinha pra um mundo espiar o outro – quando na verdade tudo é música, ou tudo é som, já dizia o grande mestre, risos. Mas eu acho que, basicamente, no meu caso, o repertório é da música popular, mas abordagem é mais erudita, no sentido de que as ferramentas que estive utilizando têm relação com o fazer musical do universo erudito: técnicas de escrita como contraponto, desenvolvimento motívico, alteração de forma; não há improvisação e o ritmo é em geral mais livre. Embora todas essas características possam ser usadas em um universo ou no outro, e no fundo a música erudita e a popular sejam, ambas, simplesmente música, minha abordagem se parece mais com a de um compositor erudito que um da música popular nesse trabalho. Acho que os músicos me consideram mais da música erudita, e eu também, mais pela forma de proceder do que pelo repertório. Mas também acho que não me encaixo perfeitamente no mundo “genuinamente” erudito. Em geral me sinto meio um peixe fora d’água nos dois universos, quando são muito definidos… mas no bom sentido.

Outra coisa importante a se dizer é que o repertório “popular” que estive utilizando como base é, em si, altamente erudito no sentido de elaboração, complexidade, refinamento, nos termos da música erudita: análises musicais nos mostram que uma canção como “Beatriz” é comparável a um lied de Schubert, por exemplo – algo com o que eu concordo veementemente. Esses compositores todos (Chico, Edu, Tom, Vinicius) estudaram música e são ou eram pessoas muito cultas, trabalharam em cada obra de forma análoga ao que faz um compositor erudito – com outra abordagem, outros parâmetros, etc., mas o nível de cuidado com o resultado final e busca da perfeição é ao meu ver um tanto semelhante. Então, no meu trabalho, acho que estive explorando um lado dessas canções que também faz parte de sua origem e natureza. Acho que por isso a aceitação tem sido boa – acho que as pessoas da chamada música popular reconhecem que essas músicas têm também essa possibilidade, e vêem interesse nesse desdobramento, e as pessoas da música erudita vêem os procedimentos “eruditos” feitos com os temas da música popular e reconhecem que eles dão margem a adentrar nesse universo também. E acho que esses limites entre um universo e outro estão se atenuando. É minha hipótese…

Nomes como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Edu Lobo e Tom Jobim assinam grande parte das canções presentes em seu disco. Vem deles a predileção pela música popular?

JT – Acho que sim, acho que pelo histórico de serem compositores muito presentes na minha casa desde pequena, que ouvi desde cedo muitas vezes. Mas não acho que tenho uma predileção pela música popular… nem pela erudita… esse repertório é um dos que gosto muito, que faz muito sentido pra mim… no entanto não exclui ou se sobrepõe sobre outros, de jeito nenhum.

Todas as músicas escolhidas para o CD têm algum significado para mim, têm um valor de memória e sensações. Uma vez ouvi algo com o qual concordo totalmente: pra fazer um arranjo, e ouso acrescentar, para criar uma interpretação interessante sobre uma obra, é necessário ter algo a dizer sobre ela. Acho que essas músicas já me disseram tanto, que eu senti que tinha algo pra responder.

Você tem aproveitado esse período de estudos no exterior e tem mostrado o seu espetáculo nos EUA. Antes disso você já vinha apresentando-se em outros países. Como tem sido a receptividade do público no exterior?

JT – Surpreendentemente boa. No início, fiquei apreensiva por estar apresentando algo sob o rótulo de “música brasileira” mas que soa um tanto como música erudita européia, e porque as pessoas que não conhecem as canções originais não podem perceber o interesse principal do arranjo, na minha opinião – o quê está acontecendo com o tema, como ele está sendo alterado, aproveitado, etc. Então fiquei muito insegura no começo. Mas fui vendo que as pessoas, mesmo sem esse entendimento racional, também “viajam” na música, também se emocionam, também se deixam levar para um outro “tempo-espaço” que a música proporciona – o que me deu o feedback positivo de que alguma coisa certa eu talvez esteja fazendo, porque esse é o objetivo. As pessoas em geral comentam que notam referências à música brasileira ou, mais amplamente, da América do Sul, mas de uma forma abstrata – o que eu acho interessante também, fico feliz que isso ainda seja reconhecível para quem não conhece o repertório, por mais erudito que tenha sido o tratamento dado aos temas originais nos arranjos. Algo interessante é que, no Brasil, esse trabalho tem sido mais associado a séries de música popular, e nos EUA, mais a séries de música erudita.

Nesse repertório apresentado no exterior tem sido o do álbum ou a composição do setlist é fundamentado nos grandes nomes da música erudita?

JT – O repertório tem sido o do álbum, sem tirar nem pôr.

O Brasil possui diversos festivais de música instrumental, dentre os quais a MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda), que devido ao enorme sucesso de público hoje expandiu-se a cidade do Recife e também João Pessoa (ambas com grande quantidade de público também). Se evidencia desse modo que se há acesso a música o povo prestigia em grande número. Porém, paradoxalmente, a música instrumental no Brasil ainda não tem o prestígio merecido. Em sua opinião qual o maior entrave existente em nosso país para que a música chegue a grande massa?

JT – Eu sou uma musicista jovem e ainda em início de carreira, então minha opinião tem essas limitações. Acho que a questão fundamental é de educação musical e acesso, com a consequente formação de público. Mas também acho que existe um certo preconceito de uma parte dos próprios músicos jovens da música instrumental, em relação à possibilidade de seus trabalhos serem aceitos pelo grande público, aquela coisa de “música boa não vende”.

Quando música de qualidade é oferecida, em geral as pessoas vão, a ideia de que as pessoas “não gostam” ou de que música de qualidade não é comercial na minha opinião é uma balela, uma justificativa barata para a falta de investimento nessa área. A educação musical é na minha opinião o caminho para que o público tenha ferramentas para saber diferenciar o joio do trigo – e fazer, mais conscientemente, suas próprias escolhas, podendo valorizar diferentes repertórios. Acho que é preciso que as pessoas saibam reconhecer características do que estão ouvindo, minimamente – e isso não é ensinar as pessoas a gostarem mais de determinado estilo que de outro, mas oferecer ferramentas de percepção que se aplicam a qualquer repertório e auxiliam na formação do gosto pessoal, pela ampliação da capacidade de compreensão e consequentemente de escolha. É como aprender a ler e ter lido vários livros: só assim passamos a reconhecer as qualidades e defeitos de escrita de um novo livro, e vamos formando nosso gosto pessoal. A riqueza de opiniões e gostos, para mim, é algo que enriquece o mundo, pois cada visão sobre o mundo é única, não existe um “bom absoluto”. Mas a capacidade de percepção dos repertórios pode sim ser estimulada objetivamente através da educação e apreciação musicais, e isso tende a conscientizar as pessoas sobre suas próprias escolhas de repertório – e conscientemente não tolerar mais determinadas músicas, sejam de qualquer gênero, dando valor àquilo que é, simplesmente, mais bem-feito. Tive algumas experiências de realizar análises auditivas com grupos de jovens de diferentes perfis, que começam a prestar atenção em parâmetros musicais que não reconheciam antes, e a resposta geral foi como se um mundo novo estivesse se abrindo para eles, talvez algo análogo ao deslumbramento de quando aprendemos a ler: um mundo todo se abre de repente.

Esse aumento na percepção musical, para mim, acontece tanto pela educação musical básica, quanto pelo acesso a diferentes repertórios – e nesse sentido acho festivais como o MIMO extremamente importantes na formação de público, já que pela grande mídia não se tem acesso a uma variedade muito grande de gêneros (e raramente à música erudita e instrumental).

Vou acrescentar ainda uma opinião do ponto de vista interno como musicista. Acho que frequentemente os próprios músicos têm uma opinião preconceituosa sobre seu próprio trabalho – que aquela música de qualidade que produzem e na qual acreditam não vai dar dinheiro, não é comercial, não vai ter público, etc. E muitas vezes não investem energia naquela música na qual acreditam, aquela que sonham em fazer, para que venham, de fato, os resultados, normalmente a médio ou longo prazo – energia essa que envolve também questões de produção. E no entanto acho que não conheço nenhum músico que tenha investido bastante energia em seu próprio projeto (autoral, instrumental, etc.) que não tenha colhido os frutos, cedo ou tarde – e, ainda bem, me parece que esse número tem aumentado. Cada um desses pequenos movimentos individuais cria público e caminhos de produção, e acho que ganhamos muito – músicos e público – com sua multiplicação. Acho que isso é um pouco fazer a nossa parte. (Alguém que tem falas muito interessantes sobre esse assunto é o Benjamim Taubkin, que foi o produtor do CD).

Você é uma artista constituída também pela teoria acadêmica e isso lhe confere crédito para emitir opinião acerca dessa pergunta. Você acha importante a introdução da música ainda nos primeiros anos da educação da criança?

JT – Bem, a teoria acadêmica na área de música se divide em várias sub-áreas de especialização, e no meu caso estou vinculada à análise musical, composição e etnomusicologia, mas não à área de educação musical, que é um amplo campo de estudos, com muitos profissionais que dedicaram décadas a esse assunto, muitas pesquisas já realizadas e diversos centros especializados, tanto no país e como no exterior. Mas minha opinião pessoal e vinda de algum contato com esses profissionais e seus estudos é que sim, acho importantíssimo, acho que o estudo da música, ainda na primeira infância, estimula o desenvolvimento de uma série de aptidões, não apenas ligadas ao fazer musical, mas que contribuem na formação do indivíduo dos pontos de vista intelectual, emocional, social.

No entanto, pra ser franca, entre um mau professor de música e nenhum professor na primeira infância, fico com a segunda opção. Acho essa uma área delicadíssima, que envolve questões muito sérias, que podem tanto estimular como desestimular a criatividade, a autoestima, a percepção auditiva do mundo, entre outros aspectos. Infelizmente tive notícias sobre “cursos técnicos” para professores que não têm formação em música e que lecionarão música nas escolas, agora que isso se tornou obrigatório. Não estou tão a par sobre o andamento desse processo, mas isso seria como oferecer um curso técnico para o professor de matemática ensinar português – um desrespeito à área, aos profissionais da área, e especialmente aos estudantes… espero que eu esteja enganada.

Em sua opinião ter o “Entremeados” dentre os pré-selecionados ao maior prêmio da música popular brasileira é o sinal que a música instrumental no Brasil vem ganhando mais evidência?

JT – Creio que há cada vez mais música instrumental sendo produzida no Brasil, pela multiplicação de centros de ensino na área de música, especialmente a música popular. Acho que, por tabela, esse tipo de música vai ocupando mais os espaços das premiações também, o que acredito ser muito positivo. No entanto, ao meu ver, seria positivo que houvesse mais eventos de estímulo voltados a esse gênero. De toda forma me parece que a música instrumental vem ganhando cada vez mais espaço sim, e conheço vários trabalhos interessantes de pessoas da minha geração que, como eu, têm feito um esforço grande no sentido de conseguir espaço para tocar, divulgar seus trabalhos, gravar, etc., muitos deles de uma forma muito criativa, inventando novas possibilidades de fazer isso acontecer. Creio que isso vem colocando a música instrumental brasileira em maior evidência, sim. Aliás, quero deixar aqui meu agradecimento e admiração pelo blog Musicaria e seu gestor Bruno Negromonte, pelo trabalho de utilidade pública que está fazendo à música brasileira, com muita competência!

* * *

Para audição dos amigos fubânicos ficam aqui duas canções presentes em seu álbum. A primeira ela recolheu do nosso folclore e chama-se “Caicó”:

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Já a segunda ela misturou Paulo César Pinheiro, Guinga e Bach e deu um resultado maravilhoso na junção de “Senhorinha” e “Prelúdio em sol maior”:

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O TALENTO E A SENSIBILIDADE QUE SE DESTACAM NO CAUDALOSO UNIVERSO INSTRUMENTAL BRASILEIRO

Nascida em Salvador, mas radicada em Campinas desde a infância, Júlia Tygel deu início aos seus estudos ainda criança, quando aos 7 anos começou a estudar piano. Na adolescência, o que era visto por muitos como um hobby, acabou dando vazão a uma musicista empenhada, que trouxe para si uma vida acadêmica, que somando a fatores como empenho, aptidão, sensibilidade e talento a fez então mestre em Etnomusicologia e bacharel em música e composição pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Atualmente Júlia cursa doutorado em Música na ECA/USP, na área de análise de repertório do século XX. Além de ter sido bolsista FAPESP na graduação e no mestrado é atualmente bolsista do programa CAPES-Fulbright, realizando parte de seus estudos na City University of New York. Seu embasamento acadêmico a faz uma profissional ímpar, e a soma de todo esse conhecimento teórico ao talento inato não poderia resultar em algo que fosse diferente. Recentemente houve seu debute fonográfico ao qual foi dado o título de “Entremeados”, um disco que traz arranjos agradavelmente inovados para clássicos do nosso cancioneiro e também composições da própria Tygel.

Sob produção musical do pianista, compositor, arranjador e produtor musical Benjamim Taubkin a partir do financiamento do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC), “Entremeados” mostra uma artista em plena, poderíamos assim dizer, erupção artística mostrando-se bastante segura, e trazendo consigo, de maneira tênue, o harmonioso equilíbrio entre os universos erudito e popular a partir de arranjos bem elaborados para piano e violoncelo, de modo que já mostra a sua identidade musical a partir de suas execuções ao piano para composições bastante conhecidas do grande público. No repertório do álbum constam nomes como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Edu Lobo, além de composições próprias e do nosso folclore.

Na tessitura do disco além da Júlia Tygel constam os nomes da sorocabana Adriana Holtz e da também instrumentista Vana Bock nos violoncelos. Holtz, que apesar de ter primeiro sua primeira formação musical no Conservatório Villa-Lobos em piano, tem hoje o violoncelo como grande paixão e faz parte da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Já Vana Bock deu início aos estudos musicais aos 12 anos já a partir do violoncelo, especializou-se no instrumento pela Academia Ferenc Liszt, em Budapeste, Hungria e integra a Orquestra Sinfônica da USP e Orquestra Jazz Sinfônica como violoncelista. Quem também figura entre os talentos presentes no álbum é João Taubkin e o seu contrabaixo acústico. João traz em sua bagagem um longo caminho muiscal tendo tocado com diversos artistas ao longo desses anos, dentre os quais Paulo Moura e Luiz Brasil. O disco ainda conta com a participação especial de Thais Nicodemo (piano a quatro mãos).

Júlia (que já participou de diversos festivais de música no Brasil e também no Marrocos, além de já ter apresentado trabalhos de pesquisa nos principais congressos de música não só no Brasil como também em países como Inglaterra e Itália) mostra neste seu álbum de estreia que sabe o que faz, trazendo consigo um imaginário delicado e expressivo sob arranjos camerísticos a partir de uma proposta híbrida entre o erudito e o popular. É interessante registar que o reconhecimento tem vindo a partir das positivas críticas (tanto do público quanto da imprensa especializada) e das apresentações desse trabalho em lugares como São Paulo e recentemente em Nova York (em locais como Cornelia Street Cafe, Barge Music e Brazilian Endowment for the Arts).

O repertório do disco é aberto com a conhecida canção “Beatriz” (Edu Lobo e Chico Buarque). “Beatriz“, que foi composta para fazer parte da trilha sonora do espetáculo musical “O grande circo místico” e teve sua primeira gravação a cargo de Milton Nascimento, traz nesta versão uma roupagem ousada e inédita como pode-se conferir a partir da análise do maestro João Maurício Galindo, diretor artístico e regente titular da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo:

Pra ser franco com vocês, caros ouvintes, pra mim o que a Júlia fez com ‘Beatriz’ é até superior ao que Liszt fez com ‘Bella figlia dell amore’ [da ópera 'Rigoletto' de Verdi]. Por exemplo: o comecinho da versão de Júlia pode parecer ter sido feito com notas improvisadas, jogadas ao acaso; mas não: essas notas remetem a um fragmento da melodia original, que corresponde às palavras ‘me ensina a não andar com os pés no chão’ – e isso, caros ouvintes, é trabalho de verdadeiro compositor. Outro artesanato: Júlia descobriu que era possível fazer o tema em duas vozes, com o violoncelo e o piano dialogando, repetindo as frases da melodia – é o que nós em música chamamos de ‘imitação’. (…) E é muito importante lembrar que isso não acontece na versão original do Edu Lobo: foi uma descoberta da Júlia. Eu creio que esses exemplos bastam para mostrar a vocês que ela não estava brincando, não: para fazer essa sua paráfrase, ela pensou, refletiu e trabalhou muito.”

O disco ainda conta com outra canção composta por Chico e Edu pertencente a trilha sonora da mesma peça, que é a faixa “Ciranda da Bailarina“, outra clássica composição do repertório dos dois artistas.

No álbum também há composições solos tanto de Chico quanto de Edu. De Edu Lobo, a artista apresenta a clássica “Casa Forte“, gravada, dentre tantos intérpretes, por Elis Regina em seu álbum “Como e porque“, de 1969. Já Chico Buarque figura individualmente no repertório de “Entremeados” assinando “Roda Viva“, canção presente no terceiro disco do autor gravado em 1968. Além de também assinar mais uma em parceria com Vinícius de Moraes intitulada “Valsinha” (composição de 1970). Tom ainda encontra-se presente na autoria de mais duas composições do disco (ambas fruto da profícua e antológica parceria entre ele e o eterno poetinha Vinícius de Moraes): “Eu não existo sem você” e “Estrada Branca” (com Arabesque N. 1′, de Claude Debussy). Tais canções foram compostas na década de 50 e tiveram diversas regravações neste meio século de existência, dentre as quais pelas intérpretes Lenita Bruno e Olivia Byington.

Júlia Tygel também deixou o lado autoral aflorar e o mesmo se faz presente em três números registrados no álbum. São eles “Invenção sobre um número telefônico”, “Barroca” e “Improviso”, que somadas conseguem atender aquilo que a artista almejava a partir do cruzamento de dois mundos aparentemente tão distintos, o popular e o erudito que neste trabalho evidenciam-se e mostram-se unítonos. O disco ainda conta com “Caicó” (canção que permeia o folclore brasileiro) e “Senhorinha” (Paulo César Pinheiro e Guinga), que traz consigo fragmentos do prelúdio da Suíte N. 1 para violoncelo de J. S. Bach. “Misturar ‘Senhorinha’ com fragmentos do prelúdio da Suíte N. 1 para violoncelo de Bach não foi um procedimento gratuito: as duas peças combinam-se de maneira surpreendente. E tão ou mais surpreendente é o resultado da combinação da canção ‘Estrada Branca’, de Jobim, com a ‘Arabesque N. 1′, de Debussy” define o maestro João Maurício Galindo.

E é assim, conciliando talento, teoria e acima de tudo sensibilidade que Júlia vem somar forças a um segmento musical, que devido ao afinco de talentos como ela, não se deixa esmorecer apesar de todas as dificuldades. Para encerrar, nada melhor que a sucinta definição de alguém que tem “know-how” suficiente para emitir qualquer opinião sobre música instrumental em nosso país, que é o maestro João Maurício Galindo. Ele a definiu do seguinte modo: “Promissora compositora que é Júlia Tygel, uma jovem que, em minha opinião, une talento, inteligência e uma imensa sensibilidade.” Acho que depois dessa não é preciso dizer mais nada, apenas procurem a ouvir!


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PAULINHO PEDRA AZUL, 60 ANOS

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Paulinho Pedra Azul: sua obra se confunde com a paisagem das Minas Gerais

Dono de múltiplos talentos, Paulo Hugo Morais Sobrinho nasceu no Vale do Jequitinhonha, na cidade a qual adotou como nome artístico (Pedra Azul) e traz como característica em sua obra peculiaridades de uma Minas Gerais que poucos são aqueles que têm habilidades suficientes para enxergar. Para isso faz-se necessário trazer consigo características que transpassam a trivial sensibilidade. Sua obra e poesia confundem-se com o lirismo existente em cada paisagem das Minas Gerais fazendo deste cantor, compositor, poeta e ficcionista um daqueles artistas que sobrepõe-se ao tempo. Canções como “Jardim da Fantasia” é a prova documental desta afirmação, pois esta sua composição presente em seu primeiro álbum não parece já ter três décadas de existência. Quem a ouve absorve esse frescor de quem traz em verso e melodia uma perene paixão por sua terra, uma característica que Paulinho Pedra Azul mantém até os dias atuais, quando está prestes a completar 60 anos (a serem comemorados ao longo do próximo ano) e cerca de 20 álbuns.

O engraçado é que apesar de Paulinho ter se destacado como cantor e compositor, não foi com este ofício o seu primeiro contato com a arte. Ainda criança Paulinho teve contato com as artes plásticas, utilizando geralmente óleo em tela para a produção de suas peças, posteriormente enveredou para a poesia e por fim dedicou-se a música. Seu interesse por esta arte foi, de modo espontâneo, tomando um espaço cada vez maior em sua vida de tal modo que fez com que ao final adolescência já estivesse participando de alguns festivais musicais existentes no Vale do Jequitinhonha em um conjunto chamado “The Giants“, onde executava ao lado de nomes como Edimar Moreira, Rogério Braga e Marivaldo Chaves sucessos da Jovem Guarda (The Fevers, Os Incríveis entre outros) e The Beatles nas festas e bailes da região com um incrível repertório de cerca de 250 canções. Nessa época Paulinho transforma-se no “Paul” tupiniquim pela semelhança do nome. Por conta da semelhança resolve também aprender a tocar baixo (instrumento tocado pelo músico inglês) para executar as músicas do quarteto de Liverpool e fazer jus ao vulgo. Vem desta época, ainda no “The Giants”, as primeiras experimentações na área da composição do artista mineiro. Paulinho começa a compor e a inserir algumas destas produções nas apresentações do grupo, já mostrando composições que sorviam peculiaridades de sua região, característica esta que, de certo modo, reflete-se em sua obra até os dias atuais.

A sua participação em festivais na região do vale tornou-se algo cada vez mais constante, e por volta de 1973 ganhou destaque ao apresentar-se no “Transa-Som-Folk-Rock-Pop no Sertão” (terceiro festival ao ar livre do Brasil) produzido por Heitor e pelo ator Saulo Laranjeira (que posteriormente ganhou destaque nacional ao participar do programa humorístico “A praça é nossa” interpretando o Deputado João Plenário). Vale registrar que ainda nos 1970, muda-se para São Paulo para dar continuidade aos estudos e aproveita a oportunidade para também dar continuidade aos anseios artísticos e junta-se a nomes como Dércio Marques, Saulo Laranjeira entre outros para concretizar esse desejo. Depois de algum tempo e algumas tentativas Paulinho tem a oportunidade de conhecer a cantora Rosa Maria Colin, que ao ouvir algumas canções de sua lavra resolve gravar “Vagando“, por volta de 1979. No ano seguinte a cantora Diana Pequena grava mais duas canções do artista mineiro: “Estrelas Nil” e”Vagando“.

Essas intérpretes abriram a porta do profissionalismo para Paulinho e propiciou a ele a gravação de seu primeiro álbum pela RCA intitulado “Jardim da fantasia“, que teve a participação de grandes nomes da época como Wagner Tiso, Heraldo do Monte, regional do Evandro entre outros. Este disco que saiu em 1982 vendeu mais de cem mil cópias e apesar do inesperado sucesso paradoxalmente deu início a um caminho fonográfico que Paulinho procura seguir até os dias atuais de modo bastante coerente, sem deixar-se levar pelas imposições mercadológicas que caracterizam muitas relações existentes entre artista e gravadoras. Por essa razão, já no segundo disco, teve que partir para as produções independentes. produções estas cercadas por diversas históriasao longo de sua trajetória até 1990, quando Paulinho resolve criar seu próprio selo e o batiza de “Clave de lua”. Por este selo lança alguns dos seus principais registros fonográficos, dentre eles o CD “Vivo”, gravado em 1994, no Palácio das Artes em Belo Horizonte e o álbum “As Canções de Godofredo Guedes“, com Wagner Tiso.

A característica maior que marca a carreira de Paulinho é sem sombra de dúvida essa independência para a produção e divulgação de seus registros fonográficos. Ao perceber que essa ruptura com os ditames impostos pelas grandes gravadoras era, de certo modo, até algo vantajoso, ele não mais quis vincular sua obra a nenhuma gravadora, procurando através dos próprios recursos gravar seus trabalhos sempre pautando-os não só na qualidade artística, mas também na parte gráfica e outros detalhes. A venda de álbuns ao final de apresentações que caracterizam alguns espetáculos hoje em dia já era algo corriqueiro na carreira de Paulinho a mais de vinte anos atrás de forma bastante positiva. Isso mostra que a falta de espaço nos grandes canais midiáticos existentes não impede que um artista do quilate do Paulinho Pedra Azul caia no limbo do esquecimento, pelo contrário, em 1999 o cantor e compositor foi eleito em uma pesquisa feita pela AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), como o segundo cantor mais conhecido de Minas Gerais, depois de Milton Nascimento.

Fica aqui para os amigos fubânicos duas faixas presentes em seu álbum de estreia. A primeira é a canção “Jardim da Fantasia”, que popularmente ganhou o subtítulo de “Bem-te-vi”. Trata-se talvez do maior sucesso de Paulinho ao longo de sua carreira:

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A segunda canção é de autoria de Godofredo Guedes, pai do também autor, cantor e compositor Beto Guedes. A canção intitulada “Cantar” é um dos clássicos da lavra do artista mineiro:

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SUELI COSTA, 70 ANOS

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Sueli Costa, uma carioca criada na mineirice

Sueli é uma daquelas artistas de sustança. Um destaque em um universo predominantemente masculino onde a composição se faz presente. Sim! Exceção porque conta-se nos dedos as artistas que cantam e tem a quantidade de composições de qualidade que a artista carioca tem. Arriscaria até a dizer que após Maysa e Dolores Duran com suas composições na década de 50, Sueli foi a que melhor soube preparar o terreno para a seara de compositoras que estavam por vir a partir da década de 70 como Angela Ro Ro, Fátima Guedes e outros nomes de destaque.

Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, em 25 de julho de 1943, a artista foi criada em Juiz de Fora. E foi na cidade mineira que ela começou a ter as primeiras noções e lições sobre música através do piano de sua mãe, Maria Aparecida Correa Costa, que também ensinava canto coral. Na família não pode-se deixar de destacar também os nomes de seus irmãos o pianista Afrânio e o violonista Élcio Costa, além de suas irmãs Telma Costa e Lisieux. Telma, falecida precocemente aos 36 anos em 1989, chegou a gravar alguns lp’s e ganhou notoriedade a partir do dueto antológico no LP “Vida”, do Chico Buarque em 1980. É dela a voz feminina presente na parceria de Tom e Chico intitulada “Eu te amo”.

Ainda em Juiz de Fora, junto com as irmãs, Sueli formou o chamado Trieto, onde participou o de diversos festivais existentes naquela região e começou a dar vazão ao desejo de compor. Essa vontade foi ganhando corpo até que por volta de 1960, ainda em Juiz de Fora, aos 17 anos, Sueli compôs ao violão sua primeira música inspirada em uma participação da cantora Sylvia Telles em um programa de TV e que recebeu o título de “Balãozinho”.

A partir daí deu-se início a exitosa trajetória da compositora sendo gravada por grandes nomes da MPB ao longo desses mais de quatro décadas de música. A princípio ainda tentou conciliar a faculdade com seus anseios maiores, porém chegou um dado momento em que já não era mais possível conciliar tais desejos e acabou abandonando a faculdade no último ano. Principalmente após ter tido a canção “Por exemplo: você” (em parceria com João Medeiros Filho) gravada pelo grupo Manifesto e por Nara Leão em 1967.

Em 1969 mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a compor em parceria com Sidney Miller para o teatro, além de lecionar música em algumas escolas cariocas, até que em 1971 Bethânia inclui no histórico espetáculo “Rosa dos ventos” três composições de Sueli Costa: Aldebarã, Assombrações e Sombra amiga. A partir daí vieram diversos grandes sucessos em parcerias com nomes como Cacaso, Tite de Lemos, Aldir Blanc, Ana Terra, Paulo César Pinheiro, Abel Silva e aquele que seria responsável por seu primeiro grande sucesso através da voz de Elis Regina: Vitor Martins. A pimentinha gravou “20 anos blues” e fez com que os versos da dupla ganhassem projeção nacional elevando o nome de Sueli em definitivo para o hall dos grandes compositores nacionais, compondo diversos clássicos do nosso cancioneiro para os mais variados intérpretes tais quais Simone (Alma, Medo de amar nº 2 entre outros), Maria Bethânia (Coração ateu), Nana Caymmi (Nem uma lágrima), Elis Regina (O primeiro jornal), Fagner (Jura secreta) além de nomes como Lucinha Lins, que dedicou todo um álbum em tributo a compositora. Vale lembrar que a partir de 1975, Sueli que havia sido contratada pela EMI, começou a registrar suas obras. Seu primeiro LP, gravado em 1975, teve como produtor Gonzaguinha e arranjos de Paulo Moura e Wagner Tiso.

Deixo agora para os amigos fubânicos duas canções presentes nos álbuns da cantora e compositora. A primeira é “Medo de Amar nº2″, uma parceria de Sueli Costa e Tite de lemos e que foi gravada por Sueli em 1978 no álbum “Vida de artista”:

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A segunda é outro clássico da MPB de autoria de apenas de Sueli. A canção “Coração Ateu” que ganhou notoriedade na voz de Maria Bethânia na década de 1970 foi gravada por Suely em 2007 no álbum “Amor Blue”:

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100 ANOS DE WILSON BATISTA

Recentemente se vivo estivesse o compositor Wilson Batista de Oliveira completaria um século de existência. Considerado por nomes como Paulinho da Viola como o “maior sambista de todos os tempos”, seu nome acabou sendo ofuscado por dois aparentes motivos: o primeiro por ter surgido em uma época em que havia ninguém menos que Noel Rosa e o segundo por ter tido hábitos não muito “convencionais” para a época. Wilson costumava andar não só decantar a malandragem em suas músicas, mas também procurava vivenciá-la de fato. Talvez por isso suas letras tenham tanta propriedade ao abordar o tema.

Imaginem uma época em que a malandragem não era vista com bons olhos nem mesmo em versos e melodias, a realidade era tão séria que chegou a ser proibida por uma portaria governamental a “exaltação da malandragem” nas músicas de então. Porém Wilson não só mantinha uma postura de afronte a essa realidade como também procurava ter hábitos cotidianos de um verdadeiro malandro, principalmente através de suas companhias (Madame Satã, famoso malandro e homossexual carioca, era um dos seus amigos), como também através de suas vestimentas, pois era hábito frequente o compositor trajar-se com um terno, camisa de seda, lenço ou cachecol no pescoço e a tradicional navalha. E isso lhe rendeu algumas prisões.

Junto a Noel Rosa, o compositor Wilson Batista travou uma das mais profícuas disputas musicais existentes até então na música popular brasileira, responsável por verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro. O início desta “disputa” se deu a partir da canção “Lenço no Pescoço”, composta por Batista. Noel, viu a canção, de certo modo, como apologia à malandragem e associar a já discriminada figura do sambista a figura do malandro em sua concepção era inaceitável. E isso rendeu uma das mais ricas brigas musicais existentes dentro da MPB. Noel respondeu a canção de Wilson com a composição “Rapaz Folgado”.

Enquanto Batista cantava: “Meu chapéu do lado/Tamanco arrastando/Lenço no pescoço/Navalha no bolso/Eu passo gingando/Provoco e desafio/Eu tenho orgulho/Em ser tão vadio (…)”. Noel respondia “(…) Malandro é palavra derrotista/Que só serve pra tirar/Todo o valor do sambista/Proponho ao povo civilizado/Não te chamar de malandro/E sim de rapaz folgado”.

Essas duas canções era só o início de uma “guerra” que resultou com verdadeiros clássicos da MPB. Nessa disputa vieram “Mocinho da Vila”, “Feitiço da Vila”, “Conversa Fiada” e “Palpite Infeliz”. Essa briga cultural só teve fim quando Wilson deselegantemente apelou e fez “Frankenstein da Vila”, em referência ao defeito de nascença, no queixo de Noel. A partir daí Noel não mais respondeu.

Tendo composto seu primeiro samba aos 16 anos o compositor deixou um legado de mais de 60º músicas e foi gravado por alguns dos maiores nomes da música brasileira da década de 30 em diante tais quais Francisco Alves, Castro Barbosa, Murilo Caldas, Moreira da Silva, Almirante, Aracy de Almeida e tantos outros da velha e da nova geração da música popular brasileira, legitimando assim o seu nomes como um dos maiores compositores da história não só do samba, mas também da música brasileira como um todo. Wilson Batista morreu em 7 de julho de 1968 aos 55 anos.

Deixo aqui para os amigos fubânicos duas composições de Wilson interpretadas pelo príncipe do samba Roberto Silva. A primeira trata-se de Emília, uma parceria de Batista com Haroldo Lobo, registrada por Roberto em 1959 no álbum “Roberto Silva descendo o morro”:

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Já a segunda canção é “Mãe solteira”, uma parceria de Wilson com Jorge de Castro, presente no “Descendo o morro – Volume 04”, lançado em 1961:

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AGOSTINHO DOS SANTOS, 40 ANOS DE SAUDADES

Agostinho dos Santos

Agostinho dos Santos (Abr/1932 – Jul/1973)

Em 2013 completa-se 40 anos do fatídico acidente aéreo que vitimou Agostinho dos Santos. O cantor e compositor paulista nascido em 1932 é ainda hoje considerado por muitos como um dos nomes mais emblemáticos da sua geração não só pelas inigualáveis interpretações, mas também por ter participado de momentos importantes da história de nossa música.

Sua carreira teve início no início da década de 1950 quando atuava como crooner na orquestra do maestro Osmar Milani. Logo em seguida foi contratado para atuar em rádio e em 1953 gravou o primeiro disco, que trazia como destaque o samba “Rasga teu verso“, de Sereno e Manoel Ferreira, pelo selo Star. Em 1956 gravou aquele que seria o seu primeiro grande sucesso, a valsa “Meu benzinho”, de Hawe, Gussin e Caubi de Brito o fazendo ganhar o primeiro disco de ouro de uma sequência de quatro que viria a ganhar consecutivamente, tornando-se um dos maiores nomes da música dali em diante.

Esse sucesso talvez tenha se dado porque Agostinho mesmo sem fazer qualquer tipo de concessão comercial sempre tinha em seus discos grandes canções, pois ele era detentor de uma ousadia que não o privava de apostar em novos nomes que estavam debutando na música. Muitos destes talentos posteriormente viriam a se tornar grandes nomes de nossa música como foi de Antônio Carlos Jobim, Marcos Valle, Sérgio Valle e Milton Nascimento.

Com Tom Jobim Agostinho apostou alto em 1958, quando seu dedicou todo o lado A do LP daquele ano ao jovem maestro que ainda procurava se firmar como grande compositor e instrumentista. Neste disco Agostinho gravou canções como “Estrada do sol” (Jobim e Dolores Duran), “Sucedeu assim” (Tom e Marino Pinto), “Foi a noite” (Newton Mendonça e Jobim) e por fim três parcerias de Tom com Vinícius de Moraes: “Se todos fossem iguais a você”, “Por causa de você” e “Eu não existo sem você”.

Esse disco foi o passaporte para que o artista paulista viesse a participar da gravação da trilha sonora do filme “Orfeu da conceição” com outra composição da dupla Tom e Vinícius. Agostinho gravou “A felicidade” e consagrou-se também como um dos grandes intérpretes de um movimento que estava surgindo naquele momento: a Bossa Nova. E foi como intérprete desse movimento, participando do antológico show no Carnegie Hall, a mais tradicional sala de concertos de Nova Iorque, em 1962 que ao lado de nomes como Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Carlos Lyra, Carmem Costa, Sérgio Ricardo, Milton Banana e outros, o artista foi ovacionado de pé interpretando canções como “Manhã de carnaval” e a já citada “A felicidade”. Essas interpretações foram os pontos altos do histórico show de 21 de novembro de 1962.

Sem contar que na década de 1960 foi, de certo modo, digamos, padrinho do então aspirante a cantor Milton Nascimento. Além de ter indicado três canções ao diretor artístico do II Festival Internacional da Canção em 67, Agostinho gravou “Travessia” (sucesso composto por Milton e Fernando Brant) e declarou que Nascimento seria um dos grandes nomes da música brasileira fazendo jus ao faro ao qual me referi no início deste artigo.

Em 11 de julho de 1973 Agostinho, aos 41 anos, estava a caminho da Grécia para participar de um festival onde defenderia uma canção “Paz sem cor” de sua autoria em parceria com a filha Nancy, quando foi vitimado por um acidente aéreo a cerca de 5 km do aeroporto de Orli – França. O avião que pegou fogo em pleno voo vitimou mais de 130 pessoas.

Certa vez, em entrevista a Rádio Batuta do Instituto Moreira Sales a cantora e compositora Mart’nália contou uma passagem curiosidade sobre este acontecimento. Ela disse ao apresentador do programa “As canções que eles fizeram pra mim” Francisco Bosco que seu pai, o também cantor e compositor Martinho da Vila, era para estar presente naquele avião juntamente com a instrumentista Rosinha de Valença, porém Agostinho pediu para o Martinho trocar de lugar com ele assim como uma outra pessoa pessoa pediu para a Rosinha também. Sem contar que curiosamente, uma de suas últimas gravações do cantor foi “Avião“, de Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Hélio Mateus.

Fica aqui para os amigos fubânicos como tradicionalmente deixo duas canções do repertório do saudoso cantor. Ambas encontra-se presentes no disco “Música Nossa”, de 1967. A primeira tem a participação da então iniciante Beth Carvalho e chama-se “Sim Pelo Não” de autoria de Alcyvando Luz e Carlos Coquejo.

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A segunda canção é “Bom Dia”, uma das bissextas autorias da cantora Nana Caymmi em parceria com Gilberto Gil presente também no mesmo álbum.

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PLURAL E SINGULAR, DOMINGUINHOS DEIXA UMA LACUNA IMPREENCHÍVEL DENTRO DA MÚSICA BRASILEIRA

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Quem passou uma vida inteira encantando, agora resolveu encantar-se. Dominguinhos deixou ontem, aos 72 anos, uma lacuna eterna dentro da música brasileira a partir de uma obra inextinguível. Seu carisma, simplicidade, solicitude, generosidade e tantos outros adjetivos característicos de grandes homens fazem-se presente na vida e obra deste artista nascido a 228 km da capital pernambucana, na cidade de Garanhuns e que desde muito jovem teve o seu destino traçado com Luiz Gonzaga, aquele que seria a sua maior referência artística e pessoal. A apresentação entre eles se deu nos idos anos de 1940, quando no Hotel Tavares Correia o então Neném, aos 7 anos, apresentou-se ao famoso artista com os seus irmãos Moraes e Valdomiro acompanhado de um pandeiro. O pequeno artista talvez não mensurasse que a partir daquele encontro sua vida estaria mudada para sempre pois ali estava sendo fecundado, através de um cartão dado, o cerne de um legado que Dominguinhos levaria por toda a vida e com muito orgulho: a responsabilidade de seguir com o legado musical do velho Lua.

Para amenizar as adversidades vividas pelos pais, Neném apresentava-se ao lado dos irmãos, e juntos formavam o grupo Os Três Pinguins tocando os mais diversos ritmos pelas feiras e espaços públicos de sua terra natal em busca de angariando recursos para o sustento familiar. Depois de uma breve passagem pela capital pernambucana, seu pai, Chicão, assim como muitos nordestinos acredita que a prosperidade encontrava-se no Rio de Janeiro, então capital federal, e resolve que era a hora de seguir para lá seguindo em pau-de-arara (meio de transporte muito utilizados na época e que consistia em caminhões adaptados para o transporte de passageiro entre o Nordeste e o Sudeste do país). Foram cerca de 11 dias “comendo farinha e carne seca pelas estradas“, como costumava dizer o músico. Ao chegar no Rio de Janeiro uma das primeiras providências de seu pai foi ir em busca do endereço existente no cartão dado por Gonzagão quando eles encontravam-se ainda em Garanhuns. Assim como prometido, foram recebidos pelo artista em sua residência no Méier e de cara já ganhou uma pequena sanfona. Ali, em 1954, nascia uma amizade que duraria até 1989, ano em que o rei do baião veio a falecer.

Porém é possível afirmar que Dominguinhos traçou, de modo paralelo ao seu envolvimento com a vida e obra de Gonzaga, a sua própria história; e acabou tornando-se responsável pela efetiva urbanização do gênero que defendido por seu mestre, somando-se aí um virtuosismo adquirido não apenas pela convivência com suas referências musicais, mas também por sua experiência como instrumentista na noite carioca. Apesar de ganhar projeção nacional tocando os ritmos genuinamente nordestinos (assim como fez seu mestre maior) o sanfoneiro não cerceou outros gêneros e ritmos existentes. A prova maior disto e possível encontrar já em “Fim de festa” seu primeiro disco datado de 1964. Neste debute fonográfico é possível identificar de sua autoria dois gêneros distintos: o frevo e o choro. Em um álbum repleto de compositores entre as 12 faixas existentes, o estreante assina o “Frevo Cantagalo” e o choro “Garanhuns“, mostrando uma forte personalidade musical. A partir daí não só gravou, de forma sublime, os mais diversos ritmos como também os compôs. Valsas, boleros, fados, xotes, baiões, frevos e mais uma gama sonora desmedida fazem parte do legado deixado por esse ilustre garanhuense. Em “Luar Agreste – No céu Cariri” (último trabalho autoral em parceria com o compositor Xico Bizerra) é possível comprovar e conhecer um pouco dessa diversidade sonora irrestrita, mostrando assim que sua indelével obra foi marcada pelo ecletismo do início ao fim.

A partir dos anos de 1970 acabaria acompanhando alguns dos grandes nomes da MPB em algumas turnês tal qual Gal Costa (Índia) e Gilberto Gil (Refazenda); além de iniciar uma das mais profícuas parcerias de sua trajetória musical com Anastácia, sua primeira esposa e co-responsável por clássicos como “Eu só quero um xodó“, um dos maiores sucessos da carreira de ambos e que depois ganharia mais de 250 regravações. Daé em diante se tornaria parceiro de alguns dos maiores nomes da MPB tais quais Fausto Nilo, Gilberto Gil, Capinan, Chico Buarque, Djavan, Ednardo, Climério, Clodô, Chico Anysio, Nando Cordel (com quem enumerou diversos sucessos), Manduka (parceria que resultou na canção “Quem me levará sou eu“, vencedora do Festival da TV Tupi em 1979). Desse modo Dominguinhos foi capaz de fazer de sua arte um porto seguro para muitos artistas, agregando de forma coerente valores a responsabilidade delegada por Gonzaga ampliando-a dentro da abrangência que o seu talento permitiu nessa trajetória de mais de 50 anos de estrada, mais de 40 discos gravados, centenas de participações em outros projetos, duetos antológicos, dois Grammys Latino (um por “Chegando de mansinho“, em 2002, e outro em 2010 por “Iluminado“).

Dominguinhos era isso. Plural por abranger em seu ofício tudo aquilo que agregava valores e era capaz de beneficiar aos seus. Singular porque não há músico com valores tão marcantes quanto ele. E Por mais homenagens que prestemos nada substituirá ou amenizará a falta que fará a cultura nordestina. Nesta eterna lacuna, resta-nos amenizar a dor da saudade com o seu legado cientes que se Gonzaga era Rei, nesta dinastia Dominguinhos se fez príncipe de fato e por direito em uma hierarquia que infelizmente não há sucessor. Desse modo, assim como fez o poeta, o príncipe Dominguinhos cansou de ser moderno e resolveu que seria eterno ao lado de uma dinastia que já conta com Gonzaga (Rei do Baião), Jackson do Pandeiro (Rei do ritmo), Marinês (Rainha do xaxado) e Carmélia Alves (Rainha do Baião).

Vai Príncipe, torna-se também eterno tal qual a sua obra e seus ensinamentos. Fica entre nós a certeza que você cumpriu fielmente a missão delegada por seu mestre maior. Fica entre nós no quadro de nossa memória o seu sorriso largo e espontâneo. É hora de descansar seu Domingos! Segue, que o teu caminho é de luz! Vai olhar lá de cima o legado que você ajudou também a cultivar de modo tão brilhantemente e não esquece de olhar por esse povo tão sofrido de um Nordeste que você conheceu como ninguém.


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