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MARINÊS, 5 ANOS DE SAUDADES…

 
No último dia 14 de maio, assim como 02 de agosto (dia da morte do inesquecível Luiz Gonzaga) e 10 de julho (data marcada pela morte de Jackson do Pandeiro), marcou o calendário cultural nordestino como uma das datas que gostaríamos de esquecer. Foi nesse dia, que faleceu no Real Hospital Português de Beneficência, a cantora Inês Caetano de Oliveira, a saudosa Marinês. A artista se recuperava de um Acidente Vascular Cerebral ocorrido em Caruaru, nove dias antes de seu falecimento.
 
Marinês ainda hoje é considerada por muitos como a Luiz Gonzaga de saias, e no ano do centenário do Rei do Baião não poderia de lembrar a passagem dos 05 anos de falecimento da Rainha do xaxado.
 
A cantora nasceu no agreste pernambucano, mais precisamente no município de São Vicente Ferrer e, ainda criança, mudou-se para Campina Grande onde de lá deu início a sua carreira artista participando de alguns programas de calouros e concursos diversos, depois de alguns êxitos nessas disputas resolve inscrever-se em um programa de rádio local e para ludibriar seus progenitores resolve adotar o Maria ao seu nome. Na hora da apresentação o locutor a chama por Marinês, e ela gosta, resolve então adotar esse nome em definitivo para a sua carreira artística.
 
Em 1949 casa-se com o paraibano de Taperoá, o instrumentista e produtor José Abdias de Farias, o Abdias dos 8 baixos, e no mesmo ano do matrimônio forma com o marido o Casal da Alegria. Nos anos 50, com a inserção do zabumbeiro Chiquinho, o então trio passa a atuar como a “patrulha de choque” do Rei do baião Luiz Gonzaga. Eles chegavam uma semana antes nas cidades em que Gonzagão iria se apresentar e procuravam mostrar um repertório composto por canções cantadas por Ivon Cury, Jackson do Pandeiro e do próprio “Lua” sem nunca se cruzarem.
 
Por volta de 1955 o então prefeito do município sergipano de Propriá, Pedro Chaves, resolveu fazer um busto do Rei do Baião na cidade e convidou o trio para cantar na festa. Foi então que o trio então conhece Luiz Gonzaga.
 
Nesse dia em que se conheceram almoçaram juntos, Gonzaga ensinou a dança do xaxado à Marinês confidenciando que precisava de uma rainha para o xaxado, pois o reinado dele já tinha uma rainha do baião, a Carmélia Alves, tinha princesinha, a Claudete Soares, mas faltava a rainha do xaxado.
 
Gonzaga de fato cumpriu a promessa, e em março de 1956 o casal Marinês e Abdias desembarcaram no Rio de janeiro e ficaram hospedados na casa dele coroando Marinês como rainha do xaxado ao vivo na rádio Mayrink Veiga, depois a levou para o seu programa na Tupi e a integrou em sua banda dividindo os vocais com a cantora em maio de 1956 na canção “Mané e Zabé”, composição do próprio Gonzaga em parceria com Zé Dantas (vale salientar que isso despertou enorme ciúme em dona Helena, então esposa do rei do baião). Essas oportunidades surgidas a partir da benevolência do rei do baião foi suficiente para dar o impulso necessário à carreira da artista que, sugerido por Chacrinha, formou o trio “Marinês e sua gente” que em 1957 lança seu primeiro lp pela então gravadora Sinter. Daí em diante foram mais de 30 discos gravados (sem contar os 78 rotações), inúmeros shows pelo Brasil afora em quase 60 anos de carreira.
 
O legado deixado por esses grandes ícones de nossa música devem ser preservados ao máximo para que as futuras gerações não só tenham conhecimento dos valores culturais de nossa região, mas também os tenha como parâmetros para o cenário artístico atual. Só talvez assim consigam enxergar que o que hoje se é produzido e auto denomina-se como cultura nordestina, forró ou coisas similares nada mais é na verdade que um afronto aos nossos valores, pois as produções atuais deturpam aquilo que nomes como Gonzagão, Jackson e tantos outros eternizaram e que hoje se fazem essência de nossa cultura. Salve Marinês! Não podemos esquecê-la!
 
As canções que hoje deixo para os leitores do JBF são dois grandes sucessos do repertório da artista. A primeira, “Peba na Pimenta“, é uma composição do não menos saudoso João do Vale em parceria com José Batista e Adelino Rivera, gravada originalmente no álbum “Vamos Xaxar com Marinês e Sua Gente”, de 1957.
 
 
A segunda canção trata-se de “Só gosto de tudo grande” dos compositores Adolpho de Carvalho e Adélio da Silva. Gravada por Marinês para o então LP Bate coração, de 1980.
 

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PATRICIA TALEM TRAZ EM SUA MÚSICA UMA SIMBIOSE PERFEITA

Como tem tornado-se comum em minha coluna aqui no JBF, trago este mês mais um dos novos talentos de nossa MPB para o conhecimento do público leitor. Vez por outra esses grandes talentos chegam ao meu conhecimento e consequentemente os levo ao conhecimento dos  leitores do Musicaria Brasil (espaço que mantenho sobre MPB) e agora tenho a oportunidade de compartilhar também com os leitores do Jornal da Besta Fubana, como é o caso desta talentosa cantora que hoje vou abordar: Patrícia Talem.
 
Nomes como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan muito se orgulhariam de conhecer o enorme talento desta cantora paulista chamada Patricia Talem. Dona de uma aptidão natural para o mundo da música, ela faz parte de um seleto grupo de cantoras da nova geração que, de maneira habilidosa, consegue fazer uso de uma trilogia de ritmos com muita propriedade: a forte influência da música mineira, o jazz e a bossa nova. Esses três ritmos se fundem e transformam-se através da voz suave de Talem em algo inebriante a partir de seu mítico canto.
 
A vivência de Patricia com o mundo das artes vem desde cedo, para ser mais exato vem do período de sua adolescência, mais precisamente quando ela tinha cerca de 14 anos. Foi neste período que ela deu início as aulas de canto e piano. Daí em diante foi só uma questão de aprimoramento, pois o seu talento, era algo que poderíamos afirmar como algo in natura. Com o passar dos anos cantou e encantou por bares da capital paulista ao longo das noites a partir do ano de 1999. Depois de 07 anos nos palcos noturnos, decide em 2006 que já era hora de registrar suas interpretações. A partir daí, resolve com o apoio do produtor Marco Costa, dar início a pesquisa de repertório para a gravação do seu primeiro álbum.
 
O registro desse álbum só veio acontecer de fato 02 anos depois, quando ela começou a gravação do disco “Patricia Talem” com produção de Marco Costa e do Sandro Albert. O disco foi gravado no Brasil e nos Estados Unidos contendo 11 faixas, onde já é possível perceber as características que guiam os dois álbum lançados até agora pela Patricia: as composições mineiras, o balanço da bossa e a sutileza e bom gosto dos arranjos jazzistícos. O álbum reúne diversos compositores, dentre os quais Alexandre Blasifera, Renato Motha, Patrícia Lobato, Keko Brandão, Jairzinho, Elder Costa, Marcelo Pompeu, Rita Altério, Pedro Altério e Sandro Albert e para uma pessoa que está debutando no mercado fonográfico algo pouco comum: letras inéditas de um medalhão da MPB, Flávio Venturini. Algumas releituras também são encontradas em seu álbum de estreia como “Só de você”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho; “Ludo real”, de Chico Buarque e Vinicius Cantuária e uma versão de Pedro Baldanza para “Stella by starlight”.
 
É importante enfatizar que na gravação deste álbum houve a participação, em todas as faixas, dos membros da conceituada banda de jazz Yellowjackets: o baixista Jimmy Haslip e do pianista Russell Ferrante. Lançado pelas gravadoras Nugroove e Points South, o álbum chegou a ser indicado ao Press Award 2010 em duas categorias: a de “Melhor álbum” e a de “Melhor tour 2009″. Porém este excelente e requintado disco ficou restrito ao mercado norte-americano e até o momento não foi lançado no Brasil. Com a excelente receptividade tanto do público quanto da crítica americana, não foi difícil para Patricia a sua inserção nos grandes circuitos musicais americanos e da Europa, onde frequentemente participa de espetáculos em cidades como Miami, Nova York e Los Angeles e brevemente estará em Portugal.
 
2011 vem como o ano da consolidação da carreira de Talem no Brasil, pois o lançamento do seu segundo álbum atravessou as fronteiras americanas e está sendo lançado também em sua pátria. O álbum vem com o nome de “Olhos” (álbum este que você pode adquirir clicando na capa existente ao lado direito de nosso site), título sugestivo porque nos remete a diversos prismas, dentre os quais os olhos de seu povo que se voltam para o seu primeiro trabalho lançado no Brasil, as peculiaridades e requintes que podemos observar no resultado final deste trabalho, os bons olhos que todos estão recepcionando este álbuns, além da perspicácia na escola do repertório. Aliás, o saudoso Toninho Spessoto na apresentação do álbum “Olhos” sintetizou bem o título do disco quando escreveu que muitos são os olhares que se debruçam sobre as canções. Alguns as vêem com o corpo rítmico, outros a enxergam somente com a sensibilidade auditiva, e há os que as entendam com a alma. Este é o caso da Patricia Talem.
 
Gravado no Bennett Studios (de propriedade do cantor Tony Bennett) em New Jersey com a produção novamente do Marco Costa e sob os arranjos do músico Russell Ferrante, “Olhos” ainda teve a participação dos músicos Christian McBride, Sandro Albert e Bob Mintzer. É um disco que é composto por 09 belíssimas canções interpretadas de maneira bastante pessoal, dando um toque particular e definitivo a canções inéditas e fazendo releituras tão distintas que mesmo conhecidas do grande público, chegam a soar como inéditas.
 
O passeio musical começa com uma versão inédita de um clássico do jazz norte-americano gravado pela primeira vez em 1933 por Joe Venuti e sua orquestra, a canção intitulada “Moonnglow” (Will Hudson, Irving Mills e Eddie DeLange) que ganhou a tradução do escritor, compositor e jornalista Carlos Rennó. Em seguida vem um clássico da bossa-nova composto pelo paulista Sérgio Ricardo, onde Talem imprime o seu talento e toda bossa que o gênero sugere em “Folha de Papel”. O álbum segue com uma belíssima versão bilíngue da canção “Nascente”, canção composta por Murilo Antunes e Flávio Venturini e gravada pela primeira vez no álbum “A página do relâmpago elétrico” do mineiro Beto Guedes. Patricia a interpreta em português e a cantora americana Jane Monheit canta a versão em inglês traduzida por Murilo e Tonico Mercador intitulada “Sunrise”.
 
O álbum segue com uma canção inédita composta por Matt Robbins (um estudante secundarista americano, fã de Patricia, que conseguiu entrar em contato com ela através do Myspace). A valsa-jazz “Shadow of Love” mostra a razão pela qual os americanos se encantaram por Talem. A quinta faixa é uma releitura, com toques jazzisticos, de uma canção do Luiz Melodia gravada originalmente no LP “Mico de circo” em 1978. Na sexta faixa vem um clássico da música popular brasileira composta por dois grandes ícones da música mineira: Lô Borges e Milton Nascimento. Na canção “Clube da Esquina 2″ traz mais uma vez o toque mineiro em seu trabalho com o auxílio luxuoso de Flávio Venturini. A sétima faixa trata-se do samba-canção “Olhos negros”, uma parceria dos cariocas Johnny Alf e Ronaldo Bastos.
 
Em seguida, Talem mostra-se de ecletismo requintado ao gravar a canção “For Your babies” do Mick Hucknall (vocalista do grupo inglês Simple Red) e que também foi registrada pelo grupo no álbum “Stars”, gravado a 20 anos atrás. O disco encerra-se com a gravação da toada “O que eu seria sem ti”, composta por Peri e Alexandre Leão e que só reforça que o talento de Patricia Talem é inquestionável pois é dona de uma voz afinada e agradável aos ouvidos, tem uma facilidade para interpretar as nuances de subidas e descidas pela escala musical. Além de pronunciar as palavras inteiras, a suavidade de sua voz encanta a quem a está ouvindo. Só me resta atestar que com esse álbum ela deu verdadeiro sentido aos versos do compositor Jota Maranhão quando escreveu que: “A voz é um colibri nas cores das canções”.
 
Segue para audição dos leitores do JBF duas canções pra lá de mineiras. A primeira trata-se de Clube da Esquina Nº2 gravada por Patrícia com a participação do Flávio Venturinni. A canção, composta por Milton Nascimento e Lô Borges, foi feita para o disco “Clube da Esquina“, de 1972 em uma versão instrumental vindo a ganhar letra anos depois para ser gravada no álbum Clube da Esquina Nº 2.
 
 
A segunda trata-se de “Nascente” canção de autoria de Murilo Antunes e Flávio Venturinni . Esta canção já foi gravada por diversos intérpretes, dentre os quais, o próprio autor Flávio Venturinni, Beto Guedes e Renato Russo.

 P.S. – Patrícia ao longo deste mês de maio lança seu mais recente trabalho intitulado “sorte”, mesmo título do clipe apresentado no início desta matéria.

Site Oficial: Patrícia Talem


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ANTONIO CARLOS NÓBREGA, O BRINCANTE DE MIL FACES

Ontem um dos artistas pernambucanos mais respeitados, tanto pela crítica quanto pela imprensa, completou 60 anos. Um artista que em cima de um palco possui um vigor jovial em suas performáticas apresentações. Ele canta, encena, dança tudo de maneira ímpar. Suas apresentações é a multiplicidade da cultura nordestina em diversos aspectos que vão, a princípio da música, porém perpassa pelo teatro, pela dança e outras formas de manifestações artísticas, pois mencionar o nome de Antônio Carlos Nóbrega é falar da multiplicidade da genuína cultura nordestina. Falo isso porque vejo Nóbrega é como uma espécie de rio que depois de sorver as caudalosas águas de diversos afluentes torna-se um imponente representante das mais autênticas manifestações do riquíssimo folclore do Nordeste brasileiro.

Nascido no Recife, Antonio Carlos Nóbrega de Almeida deu início a sua introdução no mundo das artes ainda na adolescência, quando a partir da Escola de Belas Artes do Recife dedilhava seus primeiros acordes no violão sob as instruções do violinista catalão Luís Soler e foi aluno de canto lírico com a professora Arlinda Rocha. Daí em diante as coisas foram ganhando forças sob a égide do seu pai, médico e incentivador das aptidões do filho para as artes, porém esta aptidão restringe-se a princípio a música erudita, de onde veio a sua formação. É desse período a sua participação na Orquestra de Câmara da Paraíba em João Pessoa e na Orquestra Sinfônica do Recife, mas em contrapartida, Antonio Nóbrega participava de um conjunto de música popular com suas irmãs.

Por volta de 1971, Ariano Suassuna assiste a um concerto sobre a obra Bach e ali tem a certeza que encontrou o violonista que necessitava para a formação do seu Quinteto Armorial (um dos mais importantes grupos de música de câmara erudita brasileira de raízes populares dentro da música popular brasileira). Esse convite (prontamente aceito por Nóbrega) mudou em definitivo a carreira musical do artista a partir do contato de Nóbrega com diversos artistas populares de diversas regiões do Brasil, principalmente do Nordeste brasileiro. Seu mergulho intenso no universo de ritmos como o dos brincantes do caboclinhos, brincantes do cavalo-marinho o fez assimilar peculiaridades dessas manifestações de maneira que hoje o torna indissociável de tais segmentos culturais brasileiro.

Sua passagem pelo Quinteto durou até 1976, quando apresentou nesse mesmo ano o espetáculo “A Bandeira do Divino” e procurou mostrar a partir de então um estilo próprio de concepção em artes cênicas, dança e música. Na década de 80 Nóbrega concebeu e dirigiu os espetáculos “A Arte da Cantoria” (1981); “Maracatu Misterioso” (1982); “Mateus Presepeiro” (1985) e “O “Reino do Meio Dia” (1989) sob direção de Francisco Medeiros. Além de, na Unicamp, ajuda a implantar o Departamento de Artes Corporais e ensina danças brasileiras.

A partir da década seguinte apresenta diversos espetáculos que consequentemente também transforma-se em discos substanciados pela fina-flor das culturas que regimentam a sonoridade do Nóbrega pós-quarteto. É desse período os espetáculos “Figural” (1990) e também o espetáculo “Brincante” (nome este que em 1992 batiza o teatro escola fundado por Nóbrega e atriz e dançarina Rosane Almeida e posteriormente dá nome também ao seu selo musical). Nesses espetáculos o que mais evidenciam-se são as singulares performances do pernambucano, uma perfeita fusão harmônica entre o que se faz popular e a sofisticação. Nesses espetáculos ele exerce diversas situações: canta, toca, dança, dentre outras. Um exemplo é “Figural”, que na década de 90 fez enorme sucesso no eixo Rio-São Paulo. Nele, Nóbrega já revela-se um embaixador da cultura e o imaginário nordestino.

Desde 1996, com o espetáculo “Na pancada do ganzá” que todos os espetáculos apresentados por Nóbrega tem sido acompanhado por um disco homônio, onde consequentemente o sucesso também tem sido homônio. De lá pra cá foram “Na pancada do ganzá” (1996), “Madeira que cupim não rói” (1997), “Pernambuco falando para o mundo” (1998), “O marco do meio-dia” (2001), “Lunário perpétuo” (2002), “Nove de frevereiro” (2005) e “Nove de frevereiro – volume 02” (2006). Desses “Lunário Pérpetuo” e “Nove de frevereiro” acabaram virando DVD para eternizar o sucesso de tais espetáculos. Sem contar ainda que por volta de 2004, Nóbrega desenvolveu, ao lado de Rosane Almeida, o projeto Danças Brasileiras, realizado para o Canal Futura. Foi uma série de 12 programas em que a dupla interagia com comunidades pelo Brasil afora, onde se encontram manifestações populares de dança.

Quando questionado para emitir sua opinião sobre Nóbrega, Suassuna o definiu do seguinte modo:
 
“De fato, com a aparição, na vida do palco brasileiro e no palco da vida brasileira, dessa extraordinária, ágil, lírica, e, ao mesmo tempo, cortante, aguda e satírica figura de Brincante, criado e recriado por Antonio Carlos Nóbrega – agora posso dizer, com orgulho e inveja ao mesmo tempo, que surgiu aquela maneira de encenar e representar com a qual eu sonhava e que, com minhas limitações e frustrações, não fui capaz de criar por mim mesmo. Antonio Carlos leva muito além e muito adiante aquele modelo que eu simplesmente imaginava para um verdadeiro ator brasileiro: porque ele, no campo do teatro encarado como espetáculo, é completo, sendo não somente autor, mas ainda ator. Mímico, dançarino, cantor e músico – tocador admirável de uma endemoniada rabeca, ágil, possessa e meio insana, como seu dono e como todo artista que se preza”.

Depois dessa definição do mestre Suassuna fica difícil emitir qualquer opinião sobre este brincante e resta-me apenas expressar aqui o meu desejo de felicidade plena para este homem que consegue fazer-se em tantos e que entre tantos se destaca como único. Parabéns não só pela data, mas também pela diversidade de talentos que apresenta! Salve Tonheta* e a cultura popular do Brasil!

Deixo para audição dos amigos do JBF duas canções do repertório desse grande artista. A primeira trata-se de “Pernambuco falando para o mundo“, canção composta por Wilson Freire e o próprio Antônio Nóbrega e presente no álbum de mesmo nome de 1999.

A segunda trata-se de “Nascimento do passo“, canção presente no disco “Madeira que cupim não rói”, de 1997 e que tem como compositores a mesma dupla da canção anterior.

* O grande personagem de Nóbrega é Tonheta, anti-herói popular por ele definido como um misto de pícaro, bufão, palhaço, arlequim, vagabundo, uma espécie de colcha de retalhos desses tipos populares que povoam as ruas e praças do país.

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RAUL BOEIRA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Depois de 30 anos de composição, este porto-alegrense resolveu se aventurar como intérprete de suas próprias canções como foi apresentado aos leitores do Jornal da Besta Fubana ao longo da semana passada. O resultado dessa “hora da verdade” foi um álbum coeso com os genuínos ritmos do Brasil e da América Platina. Esta semana, Raul Boeira volta como pauta a partir de uma pequena entrevista concedida. vale a pena conferir e conhecer um pouco mais sobre este grande talento da música brasileira radicado em Passo Fundo (RS).

A primeira pergunta talvez seja a que você mais tenha ouvido desde o lançamento do “Raul Boeira – Volume Um”. Por que tanto tempo para a gravação deste primeiro álbum?

Raul Boeira – Acho que a principal culpada por essa demora foi a minha autocrítica. Fiz cento e tantas canções nesses anos todos, mas o disco é a hora da verdade, hora de jogar tudo pro alto e ver o que fica na peneira, o que tem algum valor, o que possa interessar ao ouvinte.

Como se deu a escolha desse repertório autoral dentro dessa variedade de opções nesses mais de 30 anos de composição?

RB – Optei por canções que evidenciassem que a minha composição parte do violão e que o disco mostrasse variedade rítmica. Que tivesse letras enxutas, diretas, não datadas e sem ranço de qualquer espécie. Enfim, procurei mostrar que acredito na canção brasileira.

É impressão minha ou as músicas apresentadas em “Raul Boeira – Volume 01” se diferem da chamada MPG (Música Popular Gaúcha) em diversos aspectos talvez por procurar trazer um repertório de viés mais “universal” dentro dos gêneros brasileiros e dos pampas?

RB – Não consigo me enquadrar dentro da tal MPG. Ela surgiu no Rio Grande do Sul na metade da década de 70, como uma tentativa de criar uma música brasileira diferenciada, com uma cara sulina. Só que o meu ouvido musical começou a se formar bem antes disso, pelo rádio, desde o início dos 60… bossa nova, música orquestrada americana, tropicalismo, aqueles festivais… Então, quando comecei a tocar violão, lá por 73, intuitivamente parti em direção à harmonia mais elaborada oriunda da bossa nova, aos ritmos mais vibrantes, como os nordestinos e o samba. Eu não tenho nenhuma intimidade com os ritmos tradicionais gaúchos, nem com a temática nativista. Não conheço a vida campeira. Nunca me reconheci dentro dessa realidade. Eu não sou MPG, sou MPB.

Nessa “hora da verdade” (como você definiu a gravação deste primeiro álbum) você se diversifica a partir da gravação de diversos temas e ritmos como xotes, sambas, candombes entre outros sem perder a sua identidade e qualidade musical. Como foi possível a construção dessa unidade rítmica e de qualidade em sua formação musical e consequentemente em sua composição?

RB – Eu sempre fui um ouvinte da canção brasileira. Mas também sempre fui e continuo sendo um apaixonado pelo jazz e pela música instrumental brasileira. Acho que isso me tornou mais exigente em relação à minha composição. A variedade rítmica não deixa de ser também um reflexo dessa minha disposição em conhecer/ouvir de tudo, em estar aberto às manifestações musicais que vem de todas as partes, em especial àquelas em que se percebe a presença da mão negra. Ultimamente, ando ouvindo muito o candombe, que é um ritmo uruguaio criado pelos negros de Montevidéu.

A gravação aconteceu em um dos templos musicais de nosso país que foi o estúdio “Nas nuvens” e de quebra você ainda conseguiu reunir Lula Galvão, Celso Fonseca, Torcuato Mariano, André Vasconcellos, Sidinho Moreira, Firmino, Dudu Trentin, Marcelo Martins entre outros grandes nomes do primeiro time de nossa música popular brasileira. Por que a escolha da gravação do álbum no Rio de Janeiro e como foi possível reunir tanta gente talentosa em um único álbum?

RB – Eu não poderia pensar em outra pessoa para produzir e dirigir o projeto que não fosse Dudu Trentin. Somos amigos desde 79, temos muitas afinidades musicais. Já nessa época trocávamos lps e fitas cassete de Hermeto, Gismonti, Joe Pass, John McLaughlin, Miles, Zawinul… Depois de ele deixar o sul, trabalhou em Viena por muitos anos, voltando mais recentemente ao Rio, onde passou a trabalhar na produção de trilhas para cinema e telenovelas, o que o colocou em contato com o Liminha, do Nas Nuvens, e todos esses craques que se tornaram seus amigos e que vieram tocar no Volume Um. Quando Dudu me falou que o Vitor Farias seria o técnico de gravação, eu não acreditei… o cara é simplesmente o melhor do Brasil! Eu já tinha os primeiros discos de Ricardo Silveira, lá nos anos 80… e agora ele está no meu disco!. E Torcuato Mariano, Lula Galvão, Celso Fonseca… Só mesmo o Dudu.

Gilberto Gil certa vez definiu o processo de criação de uma composição como algo muitas vezes tirano por não saber em quanto tempo a canção ficará pronta e se ficará pronta. Como se dá especificamente o seu processo de criação de uma composição? Qual o seu método de compor?

RB – O Gil é um pensador, um filósofo e quase sempre está com a razão. Definiu bem: é uma tirania mesmo. Já fiz canções a partir da letra. Hoje, prefiro compor a partir da música, deixando a métrica musical fluir livre, desatrelada da métrica, quase sempre regular, das letras. Uma frase melódica que surge, um arpejo ou um groove podem ser o ponto de partida pra composição. Depois de definidas a melodia e a estrutura básica do tema, passo a pensar no texto. Tenho melodias prontas há vinte anos aguardando a letra.

Segundo nossa atual ministra da cultura, Ana de Hollanda, as músicas tocadas à exaustão pela maioria das emissoras não são representativas da produção artística nacional. Qual a sua opinião como cantor e compositor?

RB – É inacreditável! O país que inventou o choro, o samba, o baião, a bossa nova está agora produzindo e consumindo esse lixo sem fim. E a formação do ouvinte do amanhã? As crianças que hoje estão ouvindo nossas rádios e tvs vão crescer acreditando que isso é a música brasileira. É uma questão de educação. Mas alguém está realmente se importando com isso? Agora, por exemplo, estou chocado com uma notícia: a Universidade de Passo Fundo, aqui no Rio Grande do Sul, esteve apoiando um show de Chitãozinho e Xororó no dia das mães…


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RAUL BOEIRA: O SOM QUE VEM DOS PAMPAS

 

Salve engano, certa vez o poeta gaúcho Mário Quintana escreveu em um de seus poemas as seguintes palavras: “Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E a minha poesia é um vício triste, desesperado e solitário que eu faço tudo por abafar“. Acho que só fundamentando-me nesse poema de um gaúcho, para falar sobre outro conterrâneo do poeta nascido em Alegrete (RS).
 
Não que esse outro gaúcho seja egoísta, fechado e mau, e sua poesia seja um vício triste, mas é sem dúvida ele é um tanto quanto recluso o suficiente para nos privar de seu talento de cantor durante esses longos anos em que se escondeu por trás de seus versos e melodias.
 
O outro gaúcho a quem vamos abordar ao longo desta semana aqui em nossa coluna no JBF nasceu em Porto Alegre, mas mora em Passo Fundo desde 1974. E vem desta época suas primeiras composições e melodias. Influenciado por grandes nomes da MPB como Joyce, Dori Caymmi e Gilberto Gil. Desde então suas canções foram gravadas por diversos artistas não só no Brasil como também na Europa e em alguns países da América do Sul (como o Uruguai por exemplo). Cantores e grupos como Leonardo Ribeiro. Mato Grosso Group, The Zawinul Syndicate, Daniela Mercury entre outros já gravaram Boeira ao longo desses mais de 30 anos dedicados a composição.
 
Porém, apesar de ser bem conceituado como compositor e crítico musical já estava na hora de Raul “desabrochar” como cantor. E quando chegou a hora da verdade (como o próprio Boeira definiu a gravação desse seu primeiro álbum), ele não fez por menos. A espera de 30 anos para que Raul Boeira lançasse-se como cantor foi válida. Essa longa espera me remete a uma analogia desse primeiro álbum de Boeira ao trabalho de pérolas nas conchas. A produção das pérolas normalmente levam de 8 a 12 anos em todo o seu estágio por parte das conchas, podendo ate atingir 20 anos para se formar uma pérola de porte grande.
 
Sendo assim 30 anos de espera não foram em vão. Raul Boeira nos presenteia com esse álbum de estreia intitulado de Volume um (que pode ser adiquirido clicando na imagem) e que sem dúvida alguma já se faz uma grande pérola da MPB. Volume um foi produzido e gravado em 2009 no estúdio de propriedade do baixista e produtor musical Liminha e que já se tornou referência na gravação de excelentes álbuns de todos os gêneros no Brasil.
 
Neste caso, o disco de Raul Boeira também merece entrar no hall dos grandes álbuns produzidos no estúdio Nas nuvens pois além dele ter sambas, ijexá, xote, baião, partido alto, candombe, milonga entre outros ritmos entre as doze faixas existentes nele, Há também a excelente qualidade das canções por conta do “know-how” de todos aqueles que deram a sua colaboração na confecção do disco. Instrumentistas como Lula Galvão, Celso Fonseca, Torcuato Mariano, André Vasconcellos, Sidinho Moreira, Firmino, e fazem parte do primeiro escalão da MPB. Além da participação da cantora Bárbara Mendes cantando uma das faixas e a produção, arranjos e teclados a cargo do também gaúcho Dudu Trentin.
 
Boeira compõe com inspiração e talento os vários ritmos e temáticas existentes no disco. Há um estilo próprio que o faz cosmopolita e ao mesmo tempo interiorano. Quando fala de temas como solidão, a saudade, o poder da natureza isso tudo o faz um compositor genuínamente brasileiro que trás em sua bagagem todas as variações rítmicas que o nosso país-continente tem e isso o faz universal. Isso o faz ir além da MPG (Música Popular Gaúcha) o aproximando dos gêneros da Bahia, de Pernambuco, Rio de Janeiro e Uruguai.
 
Analisando as doze canções presentes no disco percebe-se que nelas são abordados de tudo um pouco. A primeira canção (O Poder da benzedura), por exemplo, homenageia o seu Nabuco, conhecido benzedor e escultor de Passo Fundo. O arpejo do violão sugere a levada rítmica do candombe uruguaio. A faixa inicia com um belo arranjo de violinos executado por Glauco Fernandes, preparando a entrada dos violões, tocados por Lula Galvão (que acompanha Guinga há muito tempo).
 
A segunda canção (Negro coração) é uma parceria com Alegre Corrêa e sintetiza a visão de Boeira sobre a questão “música gaúcha versus MPB”. Nesse samba, ele lamenta a ausência da mão negra na música do Rio Grande do Sul, o quadradismo dos ritmos gaúchos e a xenofobia dos “donos da capitania”; já a terceira faixa (Oferenda) é uma microcanção. O violão foi tocado por Celso Fonseca, que acompanhava Gilberto Gil e hoje tem uma carreira consagrada como cantor, compositor e violonista. Ele também canta um dos versos da canção. Nesta canção também brilha o clarinete e a flauta em arranjo delicado de Dudu.
 
Na quarta quarta canção (Doutor cipó) há uma homenagem a um dos típicos personagens de Passo Fundo: seu Graciano, o velhinho que vendia ervas e chás em frente ao BB no centro da cidade. É uma verdadeira homenagem a fé do brasileiro na flora medicinal tupiniquim, como alternativa à medicina mercantilizada que muitos dos cidadãos comum do Brasil não tem acesso. Raul cita 25 tipos de ervas e afins nessa canção, me remetendo ao grande compositor pernambucano Onildo Almeida que na década de 50 enumerou diversos produtos existentes de uma famosa feira do nordeste, a feira de Caruaru. Trata-se de um ijexá bem ritmado. Os violões de aço tocados por João Gaspar e a percussão de Sidinho Moreira conferem à canção cores nordestinas.
 
“Na beira do rio” (a quinta canção) é uma toada sertaneja – no bom sentido! – simples e romântica. Os erros de português são propositais, pois o autor se coloca na posição do matuto que espera a morena voltar para o seu ranchinho. Nesta canção há apenas o violão de Fernando Caneca e o acordeom de Léo Brandão, mas que foram suficientes para criar o clima nostálgico que a canção pede. Já “Pro pandeiro não cair” (sexta canção do álbum) é um samba abolerado, onde há uma crítica sobre a necessidade que o brasileiro tem de cultuar os heróis do esporte e o modo como os meios de comunicação o utilizam como forma de induzir o povo à alienação. O destaque desta faixa fica para o arranjo de flautas executado pelo grande músico Marcelo Martins.
 
O álbum segue com canções bastante interessantes como é o caso de “Minha reza” que é uma das canções que mais chamam a atenção no disco. Trate-se de uma prece escrita por Boeira para São Jobim lá pelos idos de 1986 cantada sobre a guitarra de Julio Herrlein. Seguindo de “Castelhana” (um candombe suingado e bem humorado, no qual há a integração latino-americana), “Com o azul nos olhos” (um poema escrito em 2002 inspirado em uma viagem de volta de Uruguaiana e tendo o o céu da campina como inspiração e que foi musicado por Mário Falcão e interpretado no disco por Bárbara Mendes), “Tataravô” (um partido alto), o xote “Laranjeira” (com direito a sanfona, triângulo e zabumba) e por fim o samba “Clariô” (letra musicada por Alegre Corrêa na qual fala sobre fé, a resistência e a teimosa luta pela sobrevivência). A título de curiosidade vale lembrar que este samba está presente no cd 75th, do Zawinul Syndicate, que ganhou o Grammy 2010 de melhor álbum de jazz contemporâneo. Nesta canção Ricardo Silveira faz um solo excepcional.
 
Enfim, Passo Fundo e o Brasil devem se orgulhar desse grande talento musical brasileiro que traz em suas composições as peculiaridades da cidade em que mora e não se deixou render(-se) a vaidade do falso brilho das vitrines musicais do centro do país. Que esse grande achado cultural brasileiro não nos prive de sua voz e novos álbuns de agora em diante.
 
Deixo aqui, para a audição dos leitores do Jornal da Besta Fubana, não duas (como tradicionalmente deixo), mas três canções presente nesse álbum de estreia de Raul. A primeira vem a ser “Doutor Cipó“:

Segue “O poder da benzedura“:

E por fim “Negro Coração“, uma parceria com outro talentoso músico e compositor gaúcho chamado Alegre Correa:
 

Boa audição a todos!

Contatos para shows e aquisição do CD: raulboeira@gmail.com (54) 9964-3540.

Conheçam também: My Space-Raul Boeira


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ROSA PASSOS, 60 ANOS

Rosa Passos tem características que a diferenciam do tão combalido contexto musical brasileiro atual. São nuances que surgiram desde 1972, com a sua canção “Mutilados” (composição esta que venceu o Festival da Universidade da Bahia (TV Aratu)) e, com o seu primeiro álbum lançado em 1979. Esses fatos só fundamentam, por exemplo, os títulos que a ela são atribuídos atualmente, tais como “João Gilberto de saias” e tantos outros que surgiram a partir de sua particular maneira de tocar violão e também de suas elegantes interpretações.

Para a abordagem de seus 60 anos procurei abordar mais a biografia artística do que necessariamente o pessoal, onde em quase 35 anos de carreira fonográfica a cantora somou a cada novo título um sem fim de adjetivos positivos ainda mesmo no final da década de 70, quando lançou o álbum “Recriação” pela Chantecler. O disco traz 10 faixas todas de autoria da artista baiana em parceria com o Fernando de Oliveira. Para um disco de estreia a qualidade dos músicos que o compõe é impressionante. Neste disco há a participação de nomes como Gilson Peranzzetta, Luizão Maia e Wilson das Neves (nomes que figuram como referência no instrumentos que executam).

Apesar de em 1980 ter participado da coletânea “Essas mulheres”, com “Estrela-cine-teatro”, (mais uma parceria com Fernando Oliveira) só 12 anos após o lançamento do primeiro disco enveredou de vez para a música gravando os demais álbuns que compõem a sua discografia. O primeiro depois deste hiato foi “Curare“, álbum que traz uma Rosa Passos totalmente intérprete com um repertório seleto e composto por clássicos da música popular brasileira. Dois anos depois ela apresenta “Festa“, álbum que mescla composições próprias com artistas da MPB como Edu Lobo, Djavan entre outros.

Em 1994, gravou participação no “Songbook Dorival Caymmi”, interpretando “Valerá a pena” e participou também da trilha sonora da novela “Irmãos Coragem” (Rede Globo), interpretando “Amor em paz” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), incluída no CD “Irmãos Coragem – Trilha sonora da novela da Rede Globo”, lançado em 1995.

O álbum seguinte foi “Pano pra manga” (1996), um álbum que relembra um pouco o início da carreira fonográfica dela por ser um disco predominantemente autoral, contendo parcerias da artista com nomes como Paulo César Pinheiro, Vitor Martins, Ivan Lins e Sérgio Natureza. Além de contar com a participação especial de duas estrelas de nossa MPB: Chico Buarque (em duo na canção “Com açucar, com afeto“) e Ivan Lins na canção “Abajur lilás“.

É válido ressaltar que o ano de 1996 foi um ano profícuo para a artista, pois além do álbum houve também registro de algumas de suas interpretações em trabalhos distintos, como a sua participação no “Songbook Tom Jobim”, interpretando “Caminhos cruzados” e também no “Songbook Edu Lobo”, interpretando “Zanga zangada”. Além disso, apresentou-se como convidada do talentosíssimo músico Oscar Castro-Neves, da noite brasileira do “Jazz at the Bowl”, realizado no Hollywood Bowl, na Califórnia. Sem contar que pela primeira vez em sua carreira vai ao Japão ao lado do saxofonista Sadao Watanabe mostrar o seu trabalho.

Depois de sair da gravadora Velas, Rosa grava os seus três álbuns seguintes pelo selo de Almir Chediak: Lumiar. Nesta nova “casa” a artista grava 4 discos, onde os três primeiros, de certo modo, podem até ser considerado como tributos, pois tratam-se da abordagem da obra de três grandes nomes do cancioneiro popular do nosso país: Ary Barroso, Tom Jobim e Dorival Caymmi.

Em parceria com o violonista Lula Galvão, lança em 1997 o CD “Letra & Música Ary Barroso – Rosa Passos e Lula Galvão” e como o próprio título sugere traz a releitura de algumas canções da lavra do compositor Ary Barroso. Neste ano ainda é lançada a sua primeira coletânea “O melhor de Rosa Passos”, álbum este lançado pela gravadora Velas. É desse período também a sua participação no “Songbook Djavan”, onde interpreta duas faixas, em dois dos três volumes: “Seduzir” e “Obi”. Ainda em 1997, o cantor americano Kenny Rankin gravou “Those eyes” e “Stay”, versões em inglês de suas canções “Verão” e “Outono”, com participação vocal da autora.

No ano seguinte vem o disco “Rosa Passos canta Tom Jobim”, em comemoração aos 40 anos da Bossa Nova, onde a artista regrava temas como por exemplo “Brigas Nunca Mais“, e que conta com a participação especial do grande João Donato. Dois anos depois, em 2000, a artista presta uma homenagem ao conterrâneo Dorival Caymmi, onde em mais um trabalho temático interpreta clássicos como “Das Rosas“, “Você já foi à Bahia?“, “Marina“, Sábado em Copacabana” e mais alguns clássicos do mestre baiano.

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DIRCINHA BATISTA, 90 ANOS

Falar de Dircinha Batista é remeter-se a um período de nossa música onde a qualidade de seus compositores e intérpretes era algo primordial. As irmãs Batista (como eram conhecidas Linda e Dircinha) são provas desta afirmação. Hoje, abordarei aqui um pouco sobre a carreira da Dircinha, que em mais de 40 anos de carreira escreveu seu nome dentro de nossa MPB para a eternidade virando referência para nomes, por exemplo, como Nana Caymmi.

Sua carreira começou ainda criança, apresentando-se no Teatro Santana, em São Paulo, assim como também no Cine Boulevard, em Vila Isabel, Rio de Janeiro interpretando a música “Morena cor de canela“, de Raul Roulien na tenra idade dos 6 anos. Suas apresentações aconteciam ao lado do pai, considerado por muitos como o maior ventríloquo do Brasil, Batista Júnior (como era conhecido), além de ventríloquo também foi cantor, compositor e humorista. E ao longo de cerca de 40 anos de atividade artística Dircinha Batista (que no início da carreira assinava Dircinha de Oliveira) gravou LP’s, mais de trezentos discos em 78 rpm e participou de diversos programas radiofônicos e de cerca de dezesseis de filmes. Além disso, a cantora sacramentou inúmeros sucessos carnavalescos.

Apesar de ter nascido em São Paulo, ainda criança mudou-se com a família para o bairro do Catete no estado do Rio de Janeiro. Foi na então capital do país que, em julho de1930, com apenas oito anos de idade, gravou o seu primeiro disco para a Columbia com duas composições do seu pai: “Borboleta Azul” e “Dircinha“. No ano seguinte passou a afazer parte como membro do programa de Francisco Alves na Rádio Cajuti e posteriormente na Rádio Clube do Brasil; e ao longo da década de 30 gravou  discos pela Victor  e canções em 78rpm como, por exemplo, em 1933 quando gravou as canções “A orfã” e “Anjo Enfermo” (de Cândido das Neves,o Índio, com acompanhamento do compositor ao violão); Em 1937 Dircinha Batista entra em estúdio com apenas uma canção composta por Benedito Lacerda intitulada “Não Chora“  para o 78 rpm que seria gravado. Porém não havia a outra canção para o lado oposto do disco. Para completar o discon Nássara (que estava no estúdio) tinha a primeira parte de uma marchinha que completou rapidamente para fazer parte do 78 rpm da artista e assim, Batista gravou seu primeiro grande sucesso, “Periquitinho Verde“, que estourou no Carnaval do ano seguinte. A década de 30 mostrou a ascendência a qual estava predestinada a carreira das irmãs Batistas. Dircinha recebeu a faixa de melhor cantora do governador de Minas Gerais Benedito Valadares e venceu um concurso promovido pelo jornal “O Globo” para escolher a cantora preferida da capital federal. Além de emplacar diversos outros sucessos como “Tirolesa” (um dos grandes sucessos do Carnaval de 1939), “Mamãe, Eu Vi um Touro“, “Moleque Teimoso“,  “Era Só o Que Faltava“, “Pirata“, “Muito riso, pouco siso” “Meu sonho foi balã“, “Meu moreno“, o chorinho “Moleque teimoso“, a marcha “Barba Azul” entre outros. Tantos sucessos são justificados pela quantidade de 78 rpm’s grvado pela artista na época. Só em 1939, gravou onze, cerca de um por mês!

A apesar de ter tido um hiato temporário na carreira ao longo da década motivado pelo falecimento do pai, a década de 40 sacramentou seu nome em definitivo entre as grandes intérpretes de nossa música popular emplacando diversos sucessos como “Katucha“, “Upa, Upa“, “Acredite Quem Quiser“, “Nunca Mais“, “Inimigo do Batente“, “Eu Quero É Sambar“. É dessa década o milionário contrato assinado por Dircinha Batista com a Rádio Ipanema, sua participação como rádio-atriz, na novela “Meu amor”, de Hélio Soveral; seu título de Rainha do rádio (conquistado em 1948) e a sua primeira turnê internacional, quando foi à Buenos Aires e apresentou-se no Teatro Colón e na Rádio Municipal dando início a difusão de suas gravações por outros países da América do sul..

Ao longo dos anos 50 atuou no teatro (nas companhias teatrais de Dercy Gonçalves e de Barreto Pinto), trabalhou em rádios como a Nacional e a Clube do Rio de Janeiro, foi na Rádio Clube que apresentou o programa “Recepção“, programa dedicado aos compositores populares brasileiros. Devido a sua atuação neste programa ganhou uma placa de prata na SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música) e um troféu pela UBC e foi também a década em que alcançou enorme sucesso, devido dentre outros fatores, a gravação de um de seus maiores sucessos com “Se Eu Morresse Amanhã de Manhã” e composição do pernambucano Antônio Maria, além de canções como “Guerra ao Samba” (1955), “Tira a Mão Daí“, “Depois Eu Conto” (1956), “Metido a Bacana” (1957), “É de Chuá” (1958), “Mamãe, Eu Levei Bomba” (1958), entre outras. Inclusive é dessa década uma das primeiras gravações do clássico “Nunca” (composição do gaúcho Lupicínio Rodrigues) justamente na voz de Dircinha. Seus últimos sucessos são da década de 60 com canções como “A Índia Vai Ter Neném“, “Brasinha“, “O último a saber” e “Casa de sapê“; assim como também são dessa década a sua experiência na TV Tupi como repórter e animadora de programas em 1961.

Na década de 1970, mesmo recebendo propostas vultosas para gravar programas especiais para a TV Globo abandonou definitivamente a vida artística abalada pela morte da mãe e pela falta de memória nacional  (depois de mais de 4 décadas de atividades artísticas). É nesse período que começa a convivência com uma depressão psicológica ficando praticamente reclusa, junto com as irmãs, em um pequeno apartamento no bairro de Copacabana no Rio de Janeiro. Em 1978, quando o Programa Banco de Memória (TV Globo) gravou em seu apartamento, o depoimento da irmã Linda, a equipe ficou esperando por Dircinha mais de três horas, sem qualquer resultado, pois ela recusava-se a sair de seu quarto. Nos anos 80, o cantor José Ricardo ampara a ela e as irmãs (Odete e Linda), como membros de sua família. Com a morte de Linda, em 1988, o quadro depressivo de Dircinha piorou significadamente, por isso ela foi conduzida, em estado deplorável, dois anos depois da morte de Linda, para viver no Hospital Dr. Eiras, onde faleceu numa sexta-feira, 18 de junho de 1999, no Rio de Janeiro, aos 76 anos, vítima de uma parada cardíaca.

Vale trazer ao conhecimento dos leitores que paralelamente à carreira de cantora, Dircinha participou de diversos filmes durante as principais décadas de sua carreira. Sua história com o cinema começou quando Dircinha, aos 13 anos de idade, participou do filme “Alô, Alô, Brasil“, um filme sob direção do Wallace Downey, Alberto Ribeiro e João de Barro (Braguinha) e que conta a história de dois empresários que tentam vender um espetáculo musical para um cassino, mas o show não sai como o planejado. A história é basicamente a apresentação de 22 dos mais populares músicos do rádio brasileiro da época. Posteriormente, no ano seguinte, participou dos filmes “Alô, Alô, Carnaval” (Wallace Downey) e “João Ninguém” (Mesquitinha). Daí a artista não parou de participar de diversos filmes ao longo das décadas seguintes como, por exemplo, ainda na década de 30 participou de “Bombonzinho” (Mesquitinha) (1937), “Banana da Terra“  (1938) e “Futebol Em Família” (ambos de Ruy Costa) (1938) e “Onde estás, Felicidade?” (Mesquitinha) (1939) .

Com a década seguinte vieram “Laranja da China” (Ruy Costa) (1940), “Entra Na Farra” (Luiz de Barros) (1941), “Abacaxi Azul” (Ruy Costa e Wallace Downey) (1944), “Não Adianta Chorar” (Watson Macedo) (1945), “Fogo Na Canjica” (Luiz de Barros) (1947) “Folias Cariocas” (1948) (Manoel Jorge e Hélio Thys) e “Esta É Fina!” (Moacyr Fenelon e Luiz de Barros) (1948), “Eu Quero É Movimento” (Luiz de Barros) (1949) e “Carnaval No Fogo” (Watson Macedo) (1949). Ao longo dos anos 50 a participação cinematográfica de Dircinha manteve-se no mesmo ritmo em que sua carreira ascendia, a fazendo participar de filmes como “É Fogo na Roupa” (Watson Macedo) e “Está Com Tudo” (Luiz de Barros) (ambos de 1952), “Carnaval Em Caxias” (Paulo Wanderley) (1953) , “Guerra Ao Samba” (Carlos Manga) (1955), “Tira a Mão Daí!” (Ruy Costa) (1956), “Depois Eu Conto” (José Carlos Burle) (1956), “Metido A Bacana” (J. B. Tanko) (1957), “Mulheres À Vista!”  e “Entrei de Gaiato“  (ambos de 1959 e dirigidos por J. B. Tanko).

A década de 60 foi a menos substancial dentro da carreira da paulista Dircinha, pois conta apenas com três produções cinematográficas: “O Viúvo Alegre” (Victor Lima) (1960), “007 e meio no Meio No Carnaval” (Victor Lima) (1966) e “Carnaval Barra Limpa” (J. B. Tanko)(1967) contra os nove da década anterior. E vale a pena registrar também que Dircinha, junto de Linda Batista, foram as primeiras a gravar a famosa canção “Abre alas!” de Chiquinha Gonzaga na íntegra. Até então, a música era conhecida apenas por retalhos e enxertos em outros discos.

Deixo para audição dos leitores do JBF duas canções gravadas por Dircinha e a sua irmã, Linda Batista. A primeira é uma composição do Capiba intitulada “Carro de Boi“, gravada originalmente em 1953:

A segunda é uma canção é também um registro de 1953 e  composição do pernambucano Antônio Maria. A música chama-se  “Se Eu Morresse Amanhã de Manhã“:

Uma feliz  páscoa a todos os leitores do JBF!!


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MIGUEL GUSTAVO, O COMPOSITOR POR TRÁS DE MUITAS VOZES

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Miguel Gustavo

Esta semana me veio à lembrança um dos compositores mais significativos de um determinado período da música brasileira, mais precisamente nas décadas que abrangem os anos que vão de 50 a 70 e que, se vivo fosse, estaria completando 90 anos. Muitos daqueles versos entoados nos programas de rádio e TV de todo o Brasil pelos grandes nomes de nosso cancioneiro, vinham das mãos e ideias deste carioca, este saudoso compositor, que hoje eu quero trazer ao JBF para conhecimento de alguns e recordação de outros.
 
Miguel Gustavo Werneck de Souza Martins nasceu no Rio de Janeiro em 24 de março de 1922 e foi criado em vários subúrbios da cidade: Sampaio, Osvaldo Cruz, Caxambi e no sopé do morro da Mangueira. Exercia, dentre outras funções, a de jornalista e poeta. E, além dessas características, também era radialista, atividade esta que iniciou após largar os estudos, em 1941, aos 19 anos. Foi discotecário da Rádio Vera Cruz, onde posteriormente chegou a criar o programa “As mais belas páginas“, feito em versos, o que era uma grande inovação.
 
Se vivo estivesse, esta semana estaria completando 90 anos. Porém faleceu no dia 22 de janeiro de 1972, aos 50 anos, deixando relevante legado artístico.  São inúmeras as canções populares (sambas e marchas) e também jingles publicitários compostos por ele a partir do início dos anos 50. Apesar de se achar, como ele mesmo se auto intitulava, primário. Ele não entendia de música e suas composições eram fruto apenas de sua sensibilidade natural.
 
A primeira composição de sua autoria gravada foi “Primeiro amor”, interpretada por Luiz de Carvalho, Os Tocantins e Dilu Mello em gravação Continental lançada em julho/agosto de 1946. Em 23 de setembro de 1947, Ataulfo Alves gravou na Victor o samba “O que é que eu vou dizer em casa”, de Miguel Gustavo em parceria com o intérprete. Em 1953 voltou a fazer sucesso com outra composição de sua autoria: “É sempre o papai”, um baião que Zezé Gonzaga gravou na Sinter.
 
Fez diversos jingles de sucesso, dentre os quais o das Casas da Banha, que criou fama e causou polêmica por utilizar um trecho da melodia “Jesus alegria dos homens” de J. S. Bach, o do leite Glória, entre outros. Tinham como característica as introduções marcantes que muitas vezes se tornavam um prefixo do próprio jingle e podiam ser consideradas melodias independentes dentro da peça, de tão bem estruturadas e fortes que eram.
 
Ainda na década de 50, compôs canções como “Fanzoca de rádio” (marcha gravada por Carequinha na Copacabana), “E daí“, (samba gravado por Elizeth Cardoso na Copacabana) e o baião “Esse norte é minha sorte”, em parceria com Ruy Duarte com versos assim:  

 “… Pernambuco é Agamenom
Com seu grande coração
Paraíba é João Pessoa
Bravo filho do sertão
A Bahia é Castro Alves
Oh, terra do meu Salvador
(…)
Tenho estado em tanto estado
Que até me custo a lembrar…”

Na década seguinte lançou o “Chá chá chá” “Brigitte Bardot” (gravado por Luiz Vanderley pela RCA Vitor), jingles para a campanha de Juscelino Kubitschek, de José Sarney e de João Goulart, “A dança da boneca” (composição gravada pelo Chacrinha para o carnaval de 67 e transformada posteriormente no prefixo do programa do pernambucano). Além disto, foi um dos principais compositores na retomada da carreira do saudoso Kid Morengueira, na década de 60, escrevendo canções como “O conto do pintor”, “O rei do gatilho”, “O último dos Moicanos”, “O sequestro de Ringo”, “O rei do cangaço” e “Morengueira contra 007”.
 
Há ainda entre suas composições A valsa da vovozinha, composta em parceria com Juanita Castilho e Edmundo de Souza e gravada por Carlos Galhardo, além de diversas letras nas vozes de artistas como Dircinha Batista (Carnaval prá valer); Isaura Garcia (O samba do crioulo); Carminha Mascarenhas (Per omnia saecula saeculorum); Linda Batista (Stanislau Ponte Preta); Aracy de Almeida (Conselho inútil, E dai ?…); Elizete Cardoso (Partido baixo do partido alto e Achados e perdidos); Jorge Veiga (Independência ou morte) entre outros.
 
O seu jingle mais famoso e o último a lhe dar projeção nacional foi “Pra frente, Brasil“, de 1970, que se tornou hino do tricampeonato mundial no México, quando o Brasil conquistou definitivamente a Copa Jules Rimet. Os versos “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração…” até hoje estão no inconsciente coletivo de nossa nação…
 
Abaixo, para audição dos leitores do JBF, seguem duas composições da autoria de Miguel Gustavo. A primeira, já citada ao longo do texto, é a canção “Esse norte é minha sorte”, parceria com Ruy Duarte e gravada por Dolores Duran em 1959:

 A segunda é a canção “Café Soçaite”, com a interpretação do sambista Jorge Veiga. A gravação é do álbum “Café soçaite em ritmo de samba”, de 1956. Neste álbum Jorge interpreta 8 composições de Miguel Lima.

* * *

P.S. – Pedi para 2012 não mais ser tão cruel conosco, pois ao longo desta semana perdemos três grandes nomes de nossa já tão lânguida cultura: Chico Anysio, Ademilde Fonseca e Millôr Fernandes. Que descansem em paz!


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FECHAM-SE AS CORTINAS PARA JORGE GOULART

 

O ano de 2012 tem sido cruel com aqueles que admiram a música popular brasileira. Em apenas três meses já nos privou do talento de nomes como Carminha Mascarenhas, Wando e Pery Ribeiro. E, achando pouco, acabou de nos tirar no último final de semana um dos maiores nomes da música popular brasileira dos anos 50 e que por muitos era considerado como o rei do rádio nesse período.

Aos 86 anos, Jorge Goulart (nome artístico de Jorge Neves Bastos) já não tinha mais a notoriedade de outrora, porém seu nome entrou para a história de nossa música devido aos anos de apogeu de sua carreira, principalmente os anos 50, onde sempre figurava entre as canções mais executadas. Tinha uma senhora voz, e por sugestão da atriz Heloísa Helena adotou como sobrenome Goulart, nome tirado de um fortificante, o Elixir de Inhame Goulart, bem de acordo com sua voz possante.

Em 1952, por exemplo, entre as canções mais executadas em todo o Brasil estava lá Goulart com duas: “Mundo de Zinco” (Nássara e Wilson Batista) e “Mané Fogueteiro” (Braguinha). Alcançou enorme sucesso com canções como “Balzaqueana” de autoria novamente de Nássara e Wilson Batista e sucesso absoluto no carnaval de 1950, “Lírios do Campo” (Ataulfo Alves), “No Fim da Estrada” (Nóbrega de Macedo, Wilson Batista), “Vinte e Cinco de Abril” (Roberto Martins e Eratóstenes Frazão), “Mexe Mulher” (Geraldo Pereira e Arnaldo Passos), “Falua” (Alberto Ribeiro, João de Barro), “Sereia de Copacabana” (Wilson Batista/Nássara), “Fulana de Tal” (Antônio Maria), “Samba Fantástico” (José Toledo, Jean Manzon e Leônidas Autuori) e “Um Fio de Esperança” (D.Tiomkin/N.Washington/Alberto Almeida), “Cabeleira do Zezé” (João Roberto Kelly) “A Voz do Morro” (Zé Ketti) entre outras.

Seu nome figurava entre os grandes astros da Rádio Nacional, levando a participar também de algumas produções cinematográficas como Carnaval no Fogo (1949), Não É Nada Disso (1950), Aviso Aos Navegantes (1951), Tudo Azul (1952) e muitos outros. Além disso, foi puxador das escolas de samba Império Serrano, Imperatriz Leopoldinense e Unidos de Vila Isabel.

Casado com a também cantora Nora Ney (casamento que durou mais de 40 anos e encerrou-se com a morte da artista em 2003), Jorge também foi uma das vítimas do governo militar na década de 60, devido ao enorme sucesso que fazia em países comunistas como a China e a União Soviética.

Nascido em Vila Isabel, na Rua Araripe Junior, cidade do Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1926, o neto do Visconde de Niterói era filho do jornalista Iberê Bastos e de Arlete Neves Bastos, cantora, que ao casar-se deixou de cantar.

Ainda no Colégio Pedro II, decide entrar na carreira artística, e por ter iniciado a carreira tão jovem, em algumas ocasiões alterou a idade para poder cantar em circos e dancings. Foi através do seu pai (que escrevia sobre o mundo dos espetáculos) que teve a oportunidade de conhecer nomes em evidências, como por exemplo, Custódio Mesquita, que conheceu em 1943 e passou a divulgar com exclusividade suas músicas.

Devido ao cigarro, em 1983, sofreu uma cirurgia para extrair a laringe e perdeu a voz, passando a falar pela voz exofagiana. Morreu fazendo shows onde dublava a própria voz. Depois da morte de Nora Ney ele voltou a casar com uma senhora chamada Antônia, que mandava fazer toalhinhas de crochê para ele usar nas apresentações. Essas toalhinhas ele usava devido a uma irritação que tinha ao usar o colar destinado a proteger a traqueostomia.

Enfim… Não quero me aprofundar naquilo que tão bem escreveu o também colunista aqui do JBF Walter Jorge, só quero que 2012 não seja mais tão cruel conosco, amantes da boa música.

Deixo para audição dos leitores do JBF duas belíssimas canções do repertório do já saudoso Goulart: a primeira é a marcha-rancho “Lenço branco” (Jair Amorim e Roberto Martins), de 1954:

A segunda vem a ser uma das canções citadas ao longo do texto. “Lírios do campo“, de autoria de Ataulfo Alves foi gravada em 1951:


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LIVARDO ALVES, 10 ANOS DE SAUDADES

Livardo Alves (Set/1935 – Mar/2002)

Ao longo desses dias, observando a passagem e os relatos do nosso Papa Berto por terras paraibanas, lembrei-me de imediato que 2012 seria um ano onde deveria haver justas homenagens da Paraíba, de maneira veementemente, a um de seus compositores mais conhecidos. Isso, além de tornar-se uma merecida homenagem, também serviria para trazer ao conhecimento das novas gerações a figura de um de seus mais ilustres conterrâneos, que há dez anos (completados no último dia 14 de fevereiro) partia para a eternidade e deixaria como legado maior uma série de canções que passeiam por diversos gêneros, como cocos, repentes, sambas, baiões, forrós, maracatus, e xaxados.

O artista em questão é o paraibano Livardo Alves da Costa. Filho de Antônio Alves Cassiano e Júlia Alves da Costa, nascido no dia 21 de setembro de 1935, em João Pessoa, no bairro de Jaguaribe, onde viveu até por volta dos 32 anos e, posteriormente, mudou-se para o bairro da Torre, para a rua José Severino Massa Espinelli, antiga rua Padre Pinto. Salve engano (corrijam-me se estou equivocado), dos quatro irmãos (Luzardo Alves, Leonardo Alves, Maria da Penha e Luis Carlos), foi o único que enveredou para a vida artística, de modo que sua obra hoje sempre é lembrada pela voz de grandes intérpretes de nossa música popular brasileira e, especialmente, pelos artistas nordestinos.

Entre suas obras estão canções como “Marcha da Cueca” e “Meu país”. A primeira, com versos como “Eu mato… eu mato… quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato…” Licardo ganhou destaque Brasil e no exterior. E, com a segunda (em parceria com o pernambucano Orlando Tejo), estourou na voz de Flávio José e posteriormente através de outros intérpretes, dentre os quais um de seus conterrâneos mais notórios, o cantor e compositor Zé Ramalho. Sem contar que é de sua autoria o Hino do Botafogo da Paraíba. Em 2009, o poeta foi imortalizado pela Prefeitura Municipal de João Pessoa com uma estátua de bronze em tamanho real, na praça do Ponto de Cem Réis, próximo ao Paraíba Palace Hotel, lugar que era frequentado pelo poeta.

Trazer nomes pouco mencionados por uma imprensa que acha que entretenimento se faz empurrando goela abaixo subprodutos culturais só me faz atestar o que venho observando sempre quando me refiro a artistas que acabam caindo no esquecimento, que é a verdadeira omissão de seus legados. Às vezes dá a impressão que alguns artistas parecem que nunca existiram nem muito menos contribuíram para enriquecer nossa cultura. Enquanto houver possibilidade, trarei ao conhecimento das novas gerações os artistas que o tempo e a falta de memória da maioria acabam renegando suas contribuições.

Parodiando o próprio Livardo em uma de suas mais conhecidas canções, digo o seguinte: “Tô vendo tudo, tô vendo tudo, mas nada de bico calado fazendo de conta que sou mudo…”. No início da década de 90 junto com o Grupo Peneira e Cachimbinho (outro paraibano de Guarabira) Livardo gravou o disco intitulado “Com muito amor e pimenta”. O seu último registro fonográfico foi lançado no ano de sua morte e trata-se do CD duplo intitulado “Malandro do Morro“. Deste álbum extrai para os leitores do JBF a faixa “Merda pra vocês”, interpretada pelo próprio Livardo e, por fim, “Meu país” na voz de seu conterrâneo Zé Ramalho. Boa Audição!

“Meu País” com Zé Ramalho (faixa extraída do álbum Zé Ramalho – Nação Nordestina, de 2000):


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MAESTRO JARBAS CAVENDISH – ENTREVISTA EXCLUSIVA

O professor, maestro e arranjador pernambucano Jarbas Cavendish Seixas é graduado pela Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO) desde 1992 e mestre em música brasileira; além disso é também professor auxiliar na UNIRIO, onde é responsável pelas disciplinas Harmonia e Teclado, Percepção Harmônica e Prática de Conjunto.

Seu “know-how” vai mais além, pois também exerceu funções administrativas tais como Chefe do Departamento de Educação Musical e Coordenador do Projeto de Pesquisa Universitária “Criação e Produção em Música Popular” da UNIRIO. Atualmente, é professor na Escola de Música da UFG, onde é responsável pela disciplina Práticas Instrumentais e coordena o Núcleo de Música Popular, de onde é oriunda a Banda Pequi, banda esta que foi apresentada ao público do Jornal da Besta Fubana ao longo da semana passada.

Depois de um DVD lançado em 2004 intitulado “Banda Pequi Ao vivo Itaú Cultural” e um cd em homenagem aos 10 anos de existência da banda intitulado “Leila Pinheiro Banda Pequi Nelson Faria”, o professor Jarbas mantém-se firme na árdua propagação da música instrumental brasileira. Segue abaixo uma entrevista exclusiva gentilmente concedida a mim pelo maestro Jarbas Cavendish à época do lançamento do álbum !

A primeira pergunta é mais de cunho biográfico do que necessariamente profissional. Em que cidade pernambucana nasceu o menino Jarbas e de que origem vem o sobrenome Cavendish?

Jarbas Cavendish – O “menino” Jarbas é mameluco, de Casa Forte, de Pernambuco, Recife e leão do norte. Vivi anos de ouro no maravilhoso bairro de Casa Forte como verdadeiro menino de rua. Liberdade extrema em todas as fases, coisa complicada hoje em dia. Comecei música muito cedo, acho que com 4 ou 5 anos já arranhava um pianinho com minha mãe, Carmen Cavendish, virtuosa pianista tanto na linguagem erudita quanto popular.

O Brasil é sem dúvida um celeiro de grandes nomes da música instrumental, se levarmos em consideração nomes que enaltecem os instrumentos de sopro em nosso país como por exemplo Paulo Moura, Léo Gandelman, Pixinguinha, Mauro Senise, Carlos Malta e tantos outros que a lista não caberia aqui de tão extensa. Durante a sua infância e adolescência você já tinha predileção por algum músico, disco ou cantor específico?

JC – Cara, o cara em Recife na minha época ouvia de tudo, tudo mesmo, de Luis Gonzaga a Hermeto Pascoal, passando por Frank Sinatra, Lindomar Castilho e Chico Buarque, sem deixar de falar em Caju e Castanha. As rádios tocavam tudo o que era bom. Minha infância musical foi formatada dentro de uma ampla percepção da qualidade e estudei muito piano “erudito”. Acho que aos 13 ou 14 anos, quando comecei a estudar e tocar bastante violão popular já tinha mais ou menos uns 8 anos de estudo formal, no Conservatório Pernambucano de Música. Lá conheci músicos e professores como Clóvis Pereira, Guedes Peixoto, Eliana Silveira, Edson Rodrigues e o Mestre Duda. Na verdade em diversas fases da minha vida ouvi e vivi diversos músicos e “músicas”.

E a convicção de que seguiria o caminho da música surgiu em que época de sua vida e se deu por que?

JC – Eu sempre tive a certeza que a música como profissão para mim era fato consumado. Afastei-me dela durante alguns anos, tendo a oportunidade de estudar economia (2 anos na UFPE), trabalhar no Banorte, ser proprietário de uma imobiliária e de um bar de relativo sucesso na época (1982), no bairro de casa amarela (Chop House). Mas em 1985 caiu a ficha e a partir de então direcionei minhas energias para a música. Transferi meu curso na UFPE para bacharelado em instrumento e me formei na UNIRIO, onde fiz concurso e de imediato comecei a carreira docente.

Por qual circunstância você pernambucano que é foi parar em Goiás e como se deu esse inusitado encontro entre dois pernambucanos, amantes da música e de profissão semelhantes que é você e o Alexandre Magno? (Temos que levar em consideração que do Recife a Goiás há mais de 2000 km de distância)

JC – Antes de parar em Goiás vivi 13 anos no Rio de Janeiro, onde finalizei meu curso e comecei a carreira docente. Lá desenvolvi e coordenei um projeto semelhante a Pequi intitulado Orquestra de Música Popular da UNIRIO, chegando a gravar um Cd em 1995. No Rio conheci minha atual esposa, a flautista Verônica Alde, Napolitana de nascimento que veio viver com os pais em Goiânia. Encontramos-nos na UNIRIO e no período de 1996 até 1998, pedi licença da universidade e foi morar e administrar a fazenda do meu sogro, tendo uma ímpar experiência profissional e de vida. Retornei ao Rio e em 2000 já estava definitivamente morando em Goiânia, trabalhando na UFG. Quando cheguei aqui encontrei uma escola forte em diversas áreas de atuação e minha vinda deu-se por conta de um acordo técnico cooperativo entre as instituições, para o desenvolvimento da música popular na escola de música da ufg (EMAC). A razão da minha vinda deu-se primeiro pelo meu interesse pessoal em sair do Rio, uma cidade já extremamente violenta, e o fato de no meu currículo existir diversas ações na referida matéria. Entre outras ações destacam-se o Projeto de Extensão Orquestra de Música Popular da Unirio, ter sido membro da comissão de elaboração e implantação do curso de música popular da unirio, o Projeto Workshop de música popular, com parceria com o banco do Brasil, onde troxe para sala de aulas músicos como Carlos Malta, João Lira, Cristóvão Bastos, Pedro Luis e a Parede, Lenine, Ed Mota, Joyce, Cássia Eller e o trompertista Winton Marsales. Essas ações justificaram minha vinda pra Goiânia e logo que cheguei aqui, com esforço da diretora Glacy Antudes e por sua solicitação e incondicional apoio (nossa madrinha) montei o projeto Banda Pequi. Aqui conheci meu irmão Alexandre Magno, na época professor substituto de trombone e “cabôco arretado”de bom. A liga foi imediata a partir desse momento começamos a pesquisa de repertório, adequação ao nível dos alunos, aquisição de equipamentos,etc. Hoje o Alexandre é professor efetivo e está em fase final de doutoramento nos estados Unidos, com previsão de retorno para 2012.

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A MÚSICA DE PERNAMBUCO QUE VEM DO CERRADO…

Todos os leitores aqui do JBF devem saber que o pequi é uma fruta nativa do cerrado brasileiro e sua árvore, tão comum nesta região, atinge geralmente cerca de 10 metros de altura. Inspirado no nome dessa árvore dois pernambucanos resolveram criar um projeto de extensão e cultura na Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e o batizou de Banda Pequi. Vale salientar que música e educação apesar de formarem uma parceria sem igual, convenhamos que em nosso país ainda sofrem bastantes entraves para triunfarem. Talvez por isso, até os mais crédulos talvez não acreditassem que este projeto dos professores e maestros Jarbas Cavendish e Rafael Santos chegaria aos números que hoje ostenta: 1 cd, 1 dvd e mais de uma década de sucesso.

Chegar aos dias atuais com o conceito alcançado hoje não foi tarefa fácil, todo o mérito alcançado foi na base da obstinação. Ter alcançado todo esse tempo de projeto talvez seja a força-motriz para a certeza de que Jarbas, Rafael e a Banda Pequi tenham vigor suficiente para a certeza que essa ideia perdurará por muitos anos ainda, trazendo os elementos musicais da região centro-oeste somado as influências diversas (dentre as quais a sonoridade remanescente de Pernambuco, estado natal do maestro Jarbas).

Formada em um estilo tipo “Big Band” a sua instrumentação é composta de 4 trompetes, 4 trombones, 5 saxofones e base completa, integrando um total de 20 músicos; e nesses pouco mais de 10 anos de existência (completados festivamente com o lançamento de um excelente CD em 2010) a Pequi tem procurado propagar os grandes nomes de nossa música popular além de canções de autorias próprias, tudo isso aliado a arranjos inovados e de bom gosto.

Porém sabemos que projetos no estilo “Big Band” não são muito comuns no Brasil, pois geralmente são dispendiosos por conta da grande quantidade de músicos envolvidos. Quando não isso, é complicado juntar 20, 25 músicos em uma data em que todos estejam disponíveis para reunirem-se. Essas formações eram mais comuns em épocas passadas, principalmente nos EUA nos tempos áureos das grandes orquestras de difusão do Jazz. No Brasil este tipo de formação se deu com uma certa ênfase na década de 50 e 60.

Porém, remando contra todas essas adversidades existentes, a Escola de Música e Artes Cênicas da UFG através da pessoa do maestro, arranjador e professor pernambucano Jarbas Cavendish Seixas vem fazendo um trabalho belíssimo nesse formato “Big Band” tão escasso nos dias atuais em nosso país. A Pequi faz parte de um restrito grupo de “Big Bands” nacionais que se enumeradas não chegam a um números significativo, mas em detrimento a isso procuram dignificar e exaltar a música brasileira como um todo, assim como também fazem bandas do mesmo estilo como a Mantiqueira e a Spok Frevo Orquestra (sendo esta última mais adepta do frevo).

Com a coordenação do Jarbas e o auxílio de nomes como Alexandre Magno, Fabiano Chagas, Tonico Cardoso, Fábio Oliveira, Johnson Machado, Everson Bastos e Diones Correntino, o trabalho da Banda Pequi tem sido elaborado de maneira exímia e tem mostrado ao Brasil que a música instrumental só precisa de estímulo para literalmente dar frutos. E hoje, pode-se afirmar que o propósito almejado pela Banda tem, de certa forma, sido alcançado, pois acabou tornando-se um centro de resistência ao que é imposto pelo mercado musical global e um local de culto a boa música, onde o predomínio maior de seu repertório é a música popular brasileira.

Estruturalmente a Banda Pequi tem seu território marcado na Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, no Campus II, Samambaia. Vale ressaltar que esta escola de música é uma das mais antigas do Brasil e hoje uma das mais fortes, com seu corpo docente formado em sua grande maioria por mestre e doutores. O bacana é observar que, embora consolidada com escola referência nos instrumentos “eruditos”, a Emac possibilita o desenvolvimento da música popular brasileira, através de projetos, disciplinas e pesquisas como por exemplo esse projeto da Banda Pequi.

Nesse contexto acadêmico pesquisar e executar diversos estilos e gêneros da música popular brasileira é algo corriqueiro; e nesse “laboratório” musical, arranjos de peças conhecidas e composições de novos compositores fazem parte dessa pesquisa, bem como a confecção de partituras em programas de edição musical, servindo de suporte para a Pequi.

Assim surgiu a ideia de juntar o trabalho acadêmico, com o que existe de melhor no mercado musical popular, trazendo para os integrantes da banda uma vivência ímpar e uma enorme responsabilidade, buscando superar nossas limitações para atendermos as exigências qualitativas do produto que estaria por vir (o CD).

“Estávamos àquela época com a ideia de gravar um cd de registro, caseiro. Perguntei ao Nelson se ele autorizaria gravar suas músicas e arranjos e ele prontamente concordou, com a condição de estar presente no projeto. Foi assim com o Ney e o Kiko. A Leila quando soube da história disse na hora:estou nessa.” relata Jarbas.

Esse trabalho começou a se desenhar em 2008 quando a Pequi foi convidada para fazer uma participação no Canto da Primavera com a presença de Nelson Faria, Ney Conceição, Kiko Freitas e Leila Pinheiro.

Finalmente, quase 02 anos após o início da proposta e em comemoração aos 10 anos do grupo o CD chegou em forma de presente para aqueles que acompanham a Pequi e amam a boa música instrumental brasileira. O CD tem como produção a Universidade Federal de Goiás, através da Pro-Reitoria de Extensão e Cultura, do Instituto Casa Brasil e conta com recursos da Lei Goyazes de Incentivo à Cultura.

Há no álbum a participação pra lá de especial de nomes como Ney Conceição, Nelson Faria e Kiko Freitas (integrantes do Nosso Trio) e Leila Pinheiro.

O repertório do álbum é composto por 10 faixas que deixa o ouvinte com a sensação de bem que poderia ser 20. Todas elas são registros belíssimos do nosso cancioneiro popular com um toque requintado dos arranjos de nomes como Jarbas Cavendish , Nelson Faria , Adail Fernandes e Rafael dos Santos.

 As faixas que compõem o álbum são as seguintes:

01 – Brooklyn High (Nelson Faria) – Arranjo: Nelson Faria
02 – Ioiô (Nelson Faria) – Arranjo: Nelson Faria
03 – Estamos aí (Maurício Einhorn) – Arranjo: Nelson Faria
04 – Coisa Nº10 (Moacir Santos) – Arranjo: Adail Fernandes
05 – Jirau (Rafael dos Santos) – Arranjo: Rafael dos Santos
06 – Pelas Tabelas (Chico Buarque de Hollanda)- Arranjo: Jarbas Cavendish
07 – Brejo da Cruz (Chico Buarque de Hollanda)- Arranjo: Jarbas Cavendish / Voz: Leila Pinheiro
08 – Dindi (Antônio Carlos Jobim)Arranjo: Nelson Faria / Voz: Leila Pinheiro
09 – Canibaile (Guinga – Aldir Blanc)Arranjo: Nelson Faria / Voz: Leila Pinheiro
10 – Vera Cruz (Milton Nascimento – Márcio Borges)Arranjo: Nelson Faria / Voz: Leila Pinheiro

Para aquisição do CD há a possibilidade através do seguinte e-mail: jarbascav@ig.com.br


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AI, AI SAUDADE… SAUDADE TÃO GRANDE…

Eu orgulhosamente moro na cidade de Olinda. A vantagem de quem mora neste mítico lugar, é que o carnaval emana de maneira constante e renovada em todo o seu sítio histórico todos os anos de maneira única e democrática. Saudosistas falam que o carnaval da cidade já foi melhorem outrora, mas mesmo assim estão lá. Cada pedra, cada rua (por mais pacada que possa aparentar), cada paisagem, cada detalhe remete-nos a magia que o carnaval mais democrático do mundo emana. É difícil no período em que não é carnaval não lembrarmos de tudo o que o carnaval representa.

Olinda se dá por satisfeita quando recebe mais um folião que antes não conhecia a cidade e sai do município com um gosto de quero mais e a ideia de que mais cedo ou mais tarde tem por pretensão voltar com alguém para poder mostrar a festa que essa tradição é capaz de propiciar. São peculiaridades que só a primeira capital de Pernambuco tem. Comer uma tapioca no alto da Sé, sentar nas escadarias da igreja de São Pedro para recuperar-se do cansaço, dá um pulo na Pitombeira pra tomar uma cerveja, depois passar no Centro Luiz Freire para curtir algo cultural. Sem esquecer de subir pela Prudente de Morais, contemplar os quatro cantos, depois dá uma passada na rua do amparo para beber o tradicional pau do índio do Cardoso e curtir o forró de seu Pedro tomando uma cerveja em frente a bodega do Véio com suas iguarias. Sem falar em Noca e a sua macaxeira, a Ribeira, a licoteria e outras coisas que só a primeira capital nacional da cultura tem. Talvez a soma desses fatores sejam a força-motriz que impulsiona esse mosaico cultural chamada Olinda fazendo da alegria, da magia e da irreverência as principais características dessa confraternização pra lá de democrática.

De fato, é preciso vistoriar as formas e as cores que a cidade chega a ter nesse período, até porque há a necessidade de se atestar que aquele que sai de Olinda fazendo um milhão de elogios do seu carnaval não foi vítima de uma febre pra lá de terçã ou esteve sonhando durante o período de momo. Olinda é a terra do mais autêntico carnaval, do genuíno frevo de rua; seja ele rasgado, seja ele de bloco e/ou qualquer diversificação que o mesmo tenha, pois o comprometimento com a verdadeira proposta do carnaval em Olinda sempre foi mantida: ser uma festa popular.

E é por isso que muita gente nos primeiros acordes de clarim, já dominados pela magia do carnaval, pedem licença a Momo e dizem: “Eu acho é pouco, é bom demais!!” e no final, na quarta de cinzas, lamentam o fim da folia cantando o frevo composto por Luiz Bandeira já reverenciado aqui algumas matérias na coluna do Walter Jorge (Conversa de Matuto):

“É de fazer chorar
Quando o dia amanhece
E obriga o frevo acabar,
Oh! quarta-feira ingrata,
Chega tão depressa
Só pra contrariar…
Quem é de fato um
Bom pernambucano,
Espera um ano
E se mete na brincadeira,
Esquece tudo
Quando cai no frevo,
E no melhor da festa,
Chega a quarta-feira…”

Para aqueles que almejam desde já que essa abstinência tenha fim é preciso que chegue novamente o período de momo e que Olinda se renove de cores, magia e fantasia mais uma vez. Para isso não é preciso esperar muito não… em dezembro já começa as primeiras manifestações do carnaval, porém a partir de janeiro, invariavelmente, o frevo toma conta das ladeiras e ruas da 1ª capital brasileira da cultura.


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O CARNAVAL E O CAPITÃO ZUZINHA

José Lourenço da Silva, o Capitão Zuzinha

Semana de carnaval! Panis et circencis para o meu povo! Apesar das coisas, hoje em nosso país, estarem mais para circo. Falo isso porque me vejo transfigurado de palhaço constantemente a cada nova notícia oriunda de Brasília. Às vezes, a fantasia me serve ao ler notícias locais também, afinal é carnaval! Pelo menos o nariz de palhaço, as vestimentas e os adereços que certos políticos insistem em nos adornar o ano inteiro nos cabem mais adequadamente.

Pois bem, deixemos as agruras de nossas rotinas de lado e demos vazão a alegria… falemos da folia de momo! Assunto sobre o tema proposto não falta, tanto que foi difícil escolher o assunto a ser abordado para esta semana. Sei que aqui, entre leitores e colunistas, existem pessoas de extremo conhecimento musical sobre o frevo e seus variantes como muitos podem atestar ao ler assiduamente o Jornal da Besta Fubana.

Na época em que a gravação de uma canção não tinha disponível tantos recursos quanto hoje e que devido a esse tipo de precariedade todos os músicos aglomeravam-se na frente de um captador (que mais parecia um grande gramofone) para captar as gravações (todas feitas ao vivo!), sem edição alguma, num acetato em cera. Eis que nessa época havia um músico dos mais atuantes no carnaval. Não falo de Nelson Ferreira (que no último dezembro completou-se 35 anos de seu falecimento), nem do não menos saudoso Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (que ao longo de 2012 completa-se 15 anos que partiu), mas sim de outro artista que ao longo deste ano vale a pena lembra-lo pela passagem dos 60 anos do seu falecimento. O músico a qual me refiro e hoje quero trazer ao público do JBF trata-se de José Lourenço da Silva, popularmente conhecido por Capitão Zuzinha que faleceu em 1952, aos 63 anos e mesmo depois de cerca de 60 anos após sua morte ainda é reverenciado por aqueles que fazem e admiram o mais genuíno ritmo do nosso carnaval.

Capitão Zuzinha, talvez hoje seja mais conhecido como o nome da rua que liga as avenidas Visconde de Jequitinhonha e Mal. Juarez Távora, no bairro de Boa Viagem do que o exímio e mítico músico que foi. Mais ressaltar aqui que José Lourenço da Silva é um dos nomes mais importantes da história do frevo. Capitão Zuzinha nasceu no município de Catende (cidade a 142 km da capital Recife), no dia 10 de fevereiro de 1889. Ainda adolescente, por volta dos 17 anos, começou sua carreira de regente estando à frente, nessa época, da Banda Saboeira de Goiana (banda criada no município da mata norte pernambucana em 1849). Zuzinha permaneceu na cidade de Goiana durante toda infância e adolescência, saindo da cidade apenas aos 26 anos, quando transferiu-se para a capital para assumir a função de mestre da banda da polícia militar (função essa que agregando ao seu nome a patente conseguida na carreira militar).

Hoje, merecidamente trago Capitão Zuzinha a nossa coluna, o exaltando e o colocando no merecido lugar juntamente com os grandes nomes do frevo pernambucano, pois trata-se de um dos nomes que participam ativamente da gênese do ritmo musical que hoje é a marca registrada do carnaval pernambucano.

Deixo abaixo para audição uma das várias composições do Mestre Zuzinha, escolhi esta por estar contextualizada com o período de momo, pois trata-se do hino da cidade de Olinda, República maior dos bonecos gigantes. Excelente carnaval à todos!


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DANIELLA ALCARPE – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Cantora apresentada ao longo da semana passada aqui nesta mesma coluna,  a paulista Daniella Alcarpe vem na estrada a algum tempo apresentando o álbum lançado a cerca de dois anos intitulado “Qué que cê qué?”.  Atualmente a cantora vem angariando recursos para a gravação do segundo álbum. Este imensurável talento cedeu-me esta entrevista a qual descrevo na integra ao público do Jornal da Besta Fubana.

01 – Primeiramente gostaríamos de agradecer imensamente pela atenção dispensada ao Prosódia Musical e começar essa entrevista com o seguinte questionamento: O Qué que cê qué? O que é que você almeja trazer para a MPB com esse trabalho de estreia?

Daniela Alcarpe – Olá Bruno, eu é quem agradeco imensamente por ser tão bem recebida. Parabéns pelo seu trabalho! O que eu quero é cantar, gravar e divulgar a boa música brasileira. Em casa a gente sempre privilegiou a música brasileira, os compositores e intérpretes de verdadeiro valor artístico. Tanto no que diz respeito a poesia, como a melodia. Tivemos tantas maravilhas criadas nos anos 60, 70, 80 e até mesmo nos anos 90. Impossível não se deixar influenciar pela beleza, pelo lirismo e pela responsabilidade de músicos como Chico, Caetano, Joao Bosco, Gil, a turma do Clube da Esquina, Luis Melodia, Paulinho da Viola, enfim, é ímpossível listar, são tantos! A riqueza e capacidade de criação do músico brasileiro me encanta sem parar.

02- Muitas vezes, os artistas em seu primeiro trabalho procuram no mínimo colocar alguma canção conhecida ou até mesmo mais de uma, até para poder levar como carro-chefe do disco na hora da divulgação. O seu caso foi totalmente atípico, você procurou destacar artistas sem grande notoriedades e um repertório basicamente inédito. Como se deu a escolha desses compositores e do repertório justamente em seu trabalho de estreia?

DA – Pois é. O fato é que também existem muitas intérpretes de qualidade no Brasil. E muitas fazem isso: selecionam um repertório conhecido, para apresentar sua voz e interpretação. É uma maneira de trabalhar. A escolha das músicas do meu CD buscou, além de me apresentar, mostrar que tem muita gente boa fazendo música bonita, põe aí um B maíusculo!Ao longo dos meus anos de trabalho, eu tive a sorte de me deparar com compositores incríveis que pouca gente conhece. É muito bom dividir este encantamento com as pessoas. E fico feliz quando percebo no meu show o público cantando junto comigo algumas cancões do CD. E só pra finalizar: tanto o Zé de Riba como o Carlos Careqa são compositores de longa estrada, com um público bastante fiel.

03 – Quem chega a ler o seu resumo biográfico percebe que a sua história se dá nos grandes centros urbanos, destacando aí São Paulo, a Itália e a Holanda. A partir desse prisma podemos dizer que você é uma pessoa essencialmente cosmopolita. O que fez você paradoxalmente selecionar e interpretar ritmos como baião, frevo e choro já que estes, apesar de suas respectivas notoriedades, se destacam hoje em dia lugares cada vez mais recônditos?

DA – Talvez esteja na hora de devolver ao Brasil o que é do Brasil, não é mesmo? Beleza e talento a gente encontra em qualquer endereço! Ainda bem!

04 – Durante o mês anterior destacamos a sua carreira solo e o lançamento do álbum “Qué que cê qué?”, porém há outros projetos que você desenvolve paralelamente a sua carreira de cantora como o Trio Dellaz, os duos de piano e voz, as aulas junto ao conservatório e a sua carreira de atriz. Como se dá os cuidados de sua voz para poder dar conta de todas essas obrigações profissionais?

DA – Eu estudo técnica vocal desde os 14 anos! A gente aprende a cuidar da voz… tomo muita água, levo uma vida saudável, ainda faco aulas de canto, porque é muito importante ter alguém que ouça a gente e tenho o apoio de uma fonoaudióloga. Mas o mais importante são os exercicios vocais, que eu faço diariamente.

05 – Certa vez conversando com o João Bosco falávamos sobre a questão da venda de disco no Brasil. Ele fez uma colocação bastante pertinente sobre a situação atual desse nicho de mercado, que na visão dele está mais que saturado, sendo necessário a criação de uma nova maneira de se negociar música. Ele vem de uma época que teve que se adequar ao contexto atual, você vem com o primeiro álbum já dentro desse contexto. Gostaria de saber qual a sua concepção sobre mercado fonográfico e as tendências que a música (comercialmente falando) irão tomar ao seu ver?

DA – Eu acho que cada vez mais existem tribos, né? É muita gente no mundo, muitas tendências diferentes, coisas novas surgindo a todo o momento… uma unanimidade nacional já não é mais possível, a sociedade está dividida em muitos segmentos culturais, econômicos… acho que a saída do artista é se divulgar através de shows. Divulgar os shows pela internet, criar redes de relacionamento online, se não tiver acesso à midia impressa. E vender seus CDs em shows e via internet. Que oferece também a possibilidade de vender apenas uma ou duas música, não é necessário mais comprar o CD inteiro. Estamos neste processo. Em países como a Europa e Estados Unidos, onde a compra de um computador é acessível à grande maioria, isso está cada vez mais assimilado. Para você ter uma ideia, eu tenho mais fãs fora do Brasil do que aqui, só por conta da divulgação das minhas músicas no site Jango. Essas ferramentas permitem que eu, além de divulgar meu trabalho, interaja com os fãs, mandando e recebendo mensagens, críticas, elogios. Esse contato próximo com o público é muito saudável, eu aprendo muito!

06 – Nossa cultura, apesar de riquíssima, vem ao longo dos anos sempre destacando coisas muito mais de valor comercial do que necessariamente de valor cultural e você vem “remando contra a maré” trazendo um trabalho simplório, lindíssimo e essencialmente não comercial. Quais tem sido as suas dificuldades na propagação do álbum em um país de dimensões continentais como é o nosso e como vem se dando a divulgação desse seu trabalho de estreia?

DA – “Qué que cê qué? é um CD independente, feito com muito cuidado e carinho. Estou fazendo a divulgacão pela internet, shows e programas de rádio e TV. É sem dúvida um trabalho de formiguinha, mas tem sido muito gratificante, pois o disco está sendo muito bem aceito pelo público e pela crítica especializada. Estou feliz! Claro, que é mais díficil penetrar na grande mídia por não se tratar de um repertório com foco comercial.

07 – Desde a sua infância que você vem se aperfeiçoando em seus estudos musicais em diversos conservatórios paulistas; desde o início de seus estudos que você já estava certa que seu caminho seria a música popular ou isso foi sendo descoberto ao longo dessa sua passagem pelas escolas de música?

DA – Desde criança eu sou profundamente apaixonada por música popular brasileira. Sempre sonhei em ser cantora, então comecei a estudar canto e não parei mais. Estudei canto lírico, canto popular, teatro e me formei em Música pela Faam. Sempre com o objetivo de aprimorar minha técnica para o canto popular.

08 – Quem é que te influenciou e influencia na música popular? Quem é que a Daniella costuma ouvir com frequência?

DA – Influências são muitas, mas eu posso citar: Carmem Miranda, Ney matogrosso, Isaura Garcia, Elis Regina, Adoniran Barbosa, Ná Ozzetti, Tom Jobim, Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Caetano Veloso. Eu também adoro ouvir novos compositores, como: Kléber Albuquerque, Cássio Carvalho, Luciano Garcez, Miro Dottori, além dos compositores que eu gravei no CD (Carlos Careqa, Lucy Casas, Zé de Riba, João Marcondes, Joca Freire, Dimitri Bentok).

09 – É de conhecimento de quem acompanha a sua carreira que a Paula Portella assim que voltou da Europa começou a aprimorar seus estudos no Conservatório Souza Lima Alphaville com você. Alem dela, a Flavia Panachao também aperfeiçoa-se no mesmo Conservatório Musical. A perdunta é a seguinte: Como se deu a ideia da formação do Trio Dellaz? Foi a partir desse encontro no Souza Lima ou vocês já se conheciam antes e esse encontro só foi o incentivo que faltava para o início do projeto?

DA – Eu conheci a Paula em 1998 em festival de música do colégio e já comecamos a cantar juntas em uma banda. A banda acabou e a amizade ficou. Posteriormente a Paula conheceu a Flávia. Logo surgiu a ideia de formarmos um trio, pois queriamos cantar juntas. É um repertório totalmente diferente do CD, eu diria mesmo que mais comercial, pois o Dellaz se apresenta em eventos corporativos e sociais. Por isso, a seleção de músicas é mais ao gosto do “freguês”.

10 – Sabemos que você ainda está nesse processo de divulgação do seu álbum de estreia intitulado “Qué que cê qué?”, mas já está sendo cogitada a possibilidade do registro fonográfico do Trio Dellaz?

DA – Sim, nós só não sabemos ainda quando conseguiremos concretizar esse projeto.

11 – Daniella, gostaria de agradecer a sua disponibilidade em nome de todos aqueles que participaram na elaboração desta entrevista nos enviando perguntas diversas; o espaço então fica então aberto para que você possa deixar uma mensagem àqueles que estão conhecendo o seu trabalho agora ou alguma colocação que você queira fazer aos nossos leitores.

DA – O Brasil é musical e a música brasileira é linda! Prestigiem o artista nacional. Vejam shows, comprem os CDs. Comprem música pela internet. Ajudem a gente a continuar criando e fazendo cultura. Vamos atrás da beleza, da poesia, da melodia. Se todo mundo fizer um pouquinho, quem sabe a gente traz de volta aquele Brasil em que as pessoas assobiavam suas canções prediletas enquanto caminhavam na rua? Faz tempo, mas não tanto tempo assim! Um beijo! Obrigada.


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DANIELLA ALCARPE – O CANTO DOCE DE UM NOVO TALENTO DA MPB

 

Dando continuidade a proposta iniciada com o cantor Ricardo Machado ao longo do mês passado, este mês trago mais um grande talento da música brasileira que não tem espaço nos grandes meios por paradoxalmente ter muita coisa pra apresentar. Aos leitores do JBF apresento este promissor talento da MPB chamado Daniella Alcarpe. Na primeira audição, o que me chamou a atenção no trabalho da Daniella foram as características tão peculiares das diversas regiões de nosso país, um trabalho que perpassa por ritmos das variadas regiões de nosso Brasil e esse regionalismo a faz universal.

Com seu canto suave, Alcarpe me envolveu de corpo e alma em seu trabalho de estreia. Guiando-me a outras vertentes culturais, e no caso dos aspectos literários, fazendo-me ter a plena convicção que nem Graciliano Ramos nem muito menos Guimarães Rosa (logo eles, os autores mais representativos do regionalismo em nossa literatura) talvez não fossem capazes de descrever ou mensurar o talento incontestável de Alcarpe em seu primeiro trabalho; algo tão simplório, mas paradoxalmente de um requinte incomparável.

Alcarpe iniciou seus estudos musicais ainda criança e, desde então, sempre procurou aperfeiçoasse ao longo dos anos. Passou por diversos conservatórios paulistas, dentre o qual o Conservatório Musical Souza Lima (renomado centro de estudos relacionado a música no estado de São Paulo) e, ainda hoje, estuda técnica vocal com o cantor lírico Jeller Filipe (o cantor brasileiro que mais cantou a obra de Mozart), tendo por propósito o aprimoramento de seu canto, voltado à música popular. Esse seu primeiro álbum é um produto que vem sendo lapidado já a algum tempo, pois Daniella já vem no mercado musical alternativo já a alguns anos com diversos projetos, dentre os quais o Trio Dellaz (que falaremos em outra oportunidade).

Formada em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FMU/FAAM) e após uma breve temporada na Europa (Itália e Holanda), Daniella voltou ao Brasil mais disposta do que nunca para divulgar a música popular brasileira e traz em seu âmago o que de melhor ela tem a oferecer. Para quem tiver a oportunidade de conhecer a esse trabalho, observará que a cantora vive em uma constante busca pela primazia da beleza e qualidade em seu repertório, trazendo versões de antigos clássicos da MPB e também de canções inéditas, tudo isso sendo amparada por compositores contemporâneos que ainda são desconhecidos do grande público.

A verdade é que há um fundamento convincente na frase dita no início deste texto: o regionalismo presente no trabalho da Daniella a faz universal e por isso ela tem conseguido se firmar cada vez mais no cenário da MPB, com um repertório requintado e diversificado.

Em seu primeiro álbum intitulado qué que cê qué? Alcarpe já mostra em sua autenticidade para o que veio e o que tem a oferecer para a nossa música popular brasileira de agora em diante.

Nessa sua estreia no mercado fonográfico, que veio de forma independente, já podemos considerar um marco na carreira da cantora, pois poucos são os artistas que conseguem prender a atenção daquele que escuta um álbum do começo ao fim, Daniella consegue.

Esse álbum é daqueles que procuram ir nas entranhas da mais tradicional musicalidade brasileira, revelando para o ouvinte uma cantora de canto marcante a partir de interpretações tão próprias. Já as composições são inéditas e tem como características a nossa diversidade musical; por tal razão o repertório passa por uma gama de ritmos, que vai desde choros, sambas e cocos até toadas, maracatus e cirandas.

Em síntese Qué que cê qué? é um trabalho lindíssimo e bem elaborado que vem trazendo como característica essa questão do regionalismo já abordado anteriormente, sem deixar de lado as influências musicais que permeia o canto e o trabalho da cantora.

A escolha do repertório foi escolhido a dedo e teve como critérios de avaliação a qualidade poética das letras, a riqueza melódica de cada obra e claro, sua identificação pessoal, adicionando a cada peça uma interpretação plena de cuidados e talento. As canções são assinadas pelo paulista Carlos Careqa (autor de Qué Que Cê Qué?, Meu Querido Santo Antônio), Dimitri Bentok (Cantiga antiga), João Marcondes e Joca Freire (com Outros tempos), Lucy Casas (com Canção do colo) e o compositor maranhense Zé de Riba (Vestidim, Não Tenho Culpa Se Você Não Sabe Sambar, Mais Um Conselho, Caradum Cara do Outro). Como arranjador e produtor musical quem está a frente é o João Marcondes (que tem um trabalho paralelo intitulado Oferendar, onde a Daniella participa também cantando a canção Passe bem).

Já a estética musical do CD busca uma sonoridade original, trazendo novos elementos musicais aos já consagrados ritmos brasileiros, em arranjos que utilizam violão de 7 cordas, violão de corda de aço, violão de corda de nylon, guitarra fretless, guitarra semi-acústica, bandolim, cavaquinho, percussões, flauta transversal, trombone, saxofone, teclado e baixo. É um disco basicamente acústico.

Enfim… sem mais muito me estender porém já me estendendo, aviso: anotem esse nome! A dona desse doce canto que encanta e emociona pelo talento e simplicidade, virá mostrando mais um bonito trabalho fonográfico ao longo de 2012.

Maiores Informações: Daniella Alcarpe


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A IMERSÃO NA OBRA DE JOBIM

Se vivo, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim estaria completando 85 anos ontem, dia 25 de janeiro. Porém, Tom faleceu em 1994 no Hospital Mount Sinai, em New York vítima de uma parada cardíaca, no dia 08 de dezembro, dia da padroeira da cidade do Recife. Pois bem, 18 anos depois Tom Jobim volta aos holofotes em duas oportunidades: será homenageado na cerimônia do Grammy 2012 (será a primeira vez que um artista brasileiro vai receber a homenagem) e está em cartaz nos cinemas desde a última sexta-feira, 20, o documentário “A Música segundo Tom Jobim”.

O filme em exibição em diversas salas do Brasil (por aqui encontra-se no UCI Ribeiro Recife, no Shopping Recife) leva a assinatura do grande cineasta Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, que souberam brilhantemente resumir em imagens a vida e obra de um dos maiores expoentes de todos os tempos da música brasileira.

É evidente que em 88 minutos não se consegue mensurar o talento e a obra de um dos precursores de um dos maiores movimentos musicais brasileiros, que foi a bossa-nova. Além de excelente músico e compositor, Jobim era uma hilária figura criador de frases como a do dia que pediram para definir Vinícius de Moraes e ele veio com a seguinte pérola: “ Vinícius era um cara plural! Se fosse uma pessoa singular seria Vinicio de Moral…”.

Quem o conheceu, hoje conta histórias como a que aconteceu na década de 60 ou 70, onde ele e o pessoal da Bossa Nova, frequentavam muito no Rio de Janeiro, o bar Velloso (atual Garota de Ipanema). Uma noite, o bar foi assaltado e Tom que já estava pra lá de Bagdá, falou para os ladrões, levarem também a caixa de charutos que ficava junto à caixa registradora, ele falou tanto, que os ladrões levaram. Um dos donos, Seu Manuel, ficou uma fera com o Tom porque dentro da caixa de charutos, ficavam as notas de todos que pagavam fiado. Além do prejuízo do assalto, lá se foram as contas que não foram pagas.

Porém nem tudo era flores para o grande Tom Jobim, alguns críticos o detratavam acusando-o de “americanizado” e de “copiador do jazz”, mas aí são outros quinhentos e deixarei para abordar em outra oportunidade.

Em tempos de Michel Teló é válido trazer para as novas gerações que já tivemos um verdadeiro e genial compositor. Fica a dica à todos do JBF!

Serviço:

A Música segundo Tom Jobim
UCI Ribeiro Recife – Sala 10
Horários: 16hs, 18hs e 20hs.
Classificação Etária: 10 anos
2ª, 3ª e 5ª: R$ 16,00 (inteira)
6a, Sáb, Dom e Feriados: R$ 19,00 (inteira)
Quarta-feira: R$ 12,00
Sessão Família: Sáb, Dom e Feriados – R$ 14,00 até 14h55m
Tícket Família: R$ 40,00 (2 adultos + 2 crianças até 12 anos)


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QUANDO A SAUDADE TEM VOZ

Falar de Elis Regina hoje é algo impreterível. Neste país-continente onde a há uma quantidade sem tamanho de cantoras e intérpretes, qualquer pessoa apaixonado por nossa música sabe que Elis trazia consigo algo de arrebatador que poucos artistas trazem. Desde a primeira aparição da pimentinha em rede nacional a partir da interpretação da canção “Arrastão” (música composta por Vinícius de Moraes e Edu Lobo em cerca de apenas 10 minutos) no I Festival Nacional da Musica Popular Brasileira, passando pelas pungentes apresentações de Elis em interpretações magníficas como, por exemplo, “Atrás da porta” de autoria de Chico Buarque até a sua última apresentação com o espetáculo “Trem Azul”, ocorrida em 11 de dezembro de 1981, no Rio Palace sob direção do grande diretor Fernando Faro.

Filha de Romeu Costa e de Ercy Carvalho, Elis nasceu em Porto Alegre e sua carreira teve início ainda na capital do Rio Grande do Sul, onde nos auditórios das rádios gaúchas a menina já impressionava com suas interpretações. Ainda em Porto Alegre gravou trabalhos como o álbum “Viva a Brotolândia” e posteriormente veio residir no eixo Rio-São Paulo, onde assinou contratos com canais de televisão, gravou inúmeros disco, deu inúmeras declarações polêmicas, arrasou corações, amou e foi amada, odiou e foi odiada, deu a luz a três talentosos filhos e saiu de cena precocemente deixando órfão um país que a idolatrava veementemente.

É por essas e outras que Elis Regina Carvalho Costa ainda hoje é a referência e parâmetro para as diversas cantoras que surgem a cada novo dia mesmo 30 anos após sua morte.

Não poderia deixar também de trazer ao conhecimento de todos os leitores do JBF o falecimento da grande cantora, pertencente aos áureos tempos da Rádio Nacional e crooner do Copacabana Palace Carminha Mascarenhas. Carminha começou a cantar no coral da Igreja Matriz de Poços de Caldas, destacando-se pela voz de contralto e foi uma das grandes intérpretes de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Ary Barroso. Sua discografia incluía cerca de 20 lp’s gravados em 8 anos e diversos shows pela América latina. Carminha foi casada com o pianista Raul Mascarenhas, com quem teve um filho, o saxofonista Raul Mascarenhas Jr. O saxofonista foi casado com a cantora Fafá de Belém e é pai da cantora Mariana Belém.

Mas é como a própria pimentinha, em certa entrevista falou: “isso aqui é uma passagem, entende? A gente vem pra cá porque tem que melhorar… a gente vem pra cá pra isso mesmo, pra ficar um tempo aqui, fazendo coisas, acrescentando uma bagagem grande, pra depois ir pra uma outra e transar uma vida melhor, porque realmente só essa eu acho que não tem sentido, entende?”

Deixo aqui para o público leitor do JBF a canção “Canto do meu coração”, composição cujo autores são Ary Barroso e Meira Guimarães, datada de 1959. Música feita para o show “Ary Barroso 1960″ e interpretada pela já saudosa Carminha Mascarenhas:

Em seguida vem “Como nossos pais”, canção composta pelo cearense Antônio Carlos Belchior e lançada em 1976 tanto por ele (no LP “Alucinação”) quanto por Elis (no álbum “Falso brilhante”):


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RICARDO MACHADO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Ao longo da semana passada abordamos o nome do entrevistado de hoje e quem acompanha a coluna Prosódia Musical, aqui no JBF talvez lembre-se que o carioca Ricardo Machado, protagonizou recentemente uma das pautas da coluna.  Tendo a boa música em seu encalço desde a infância, na fase adulta não era de espantar a ninguém que ele enveredasse naturalmente para a tal arte. Porém, o que o de fato o levou ao meio musical foram outros fatores que íam muito além de sua paixão por letras e canções, como vocês poderão observar ao longo desta entrevista exclusiva concedida por Ricardo para o nosso espaço. Divirtam-se!

* * *

Bruno Negromonte – O que percebe-se é que seus avós foram bastante atuantes em sua vida musical. Você chegou a escrever inclusive que uma de suas mais constantes lembranças afetivas da infância está o canto deles (inclusive o leitor Hélio de Araújo Fontes teve reminiscências semelhantes semelhantes); isso leva a crer que a música entrou em sua vida bastante cedo. Desta forma, gostaríamos de saber o seguinte: qual é a lembrança mais remota sobre a sua formação musical?

Ricardo Machado – Realmente venho de uma família com muita musicalidade no cotidiano. O que mais me comove ao lembrar, de mais remoto, eram as tardes dominicais na casa de meus avós, ou em Praia Brava, litoral sul do Rio, aonde passava férias ou também no Rio, no bairro do Lins de Vasconcelos. Era uma alegria musical, um privilégio. Dormia ao som de meu avô ao violão, acordava com minha avó ao acordeom, curtia as tardes com minha mãe Lúcia, arriscando músicas ingênuas também ao violão; e volta e meia, meu pai, Adyl e meu irmão Rogério cantando algo à capela. Todos afinados! Pra quem gosta de música, era um prato mais do que cheio (Risos).

BN – Quais as influências e referências musicais mais presentes nessa sua formação?

RM – Na verdade, não estudei canto oficialmente. Outro dia achei umas fitas cassetes (será que alguém ainda se lembra delas? (risos)), onde eu, com uns seis, sete anos, reproduzia jingles de comerciais da época. Foi hilariante ouvir aquilo. Notei que havia uma afinação legal, um respeito intuitivo às regras de tonalidade. Foi bacana. No canto popular, a primeira coisa que me chamou atenção, aos 5 anos, foi em uma das férias de fim de ano, ouvir uma moça, já famosa, mas pouco notada por mim até então, num “radinho” bem limitado, que me deixou em choque auditivo, no melhor dos sentidos: a música era “Teco-teco”, em 1975, com Gal Costa. Das vozes masculinas, Milton Nascimento é minha referência, com aquele timbre lindo.

BN – Essas influências foram fator determinante para a sua decisão de entrar para o Coral Gama Filho?

RM – Não, realmente não. O que na verdade me influenciou foi um motivo totalmente fora do contexto musical: O bolso! A Gama Filho, proporcionava bolsa de estudos para quem entrasse para o Coral, e eu precisava dela, para aliviar minha mãe de uma mensalidade “estratosférica”. Mas não era “bagunça” não. Havia uma prova de canto para entrar, uma avaliação semestral de rendimento artístico e outra de rendimento acadêmico. Dependendo destes 3, sua bolsa, que no máximo chegava a 95%, era expedida. Fui fazer a prova, aos 17 anos, tenso, no meio de uma multidão de alunos desejando o mesmo, pois todos os cursos estavam ali, e o meu, odontologia, era caríssimo, e com meus pais separados, a grana andava curta. Acabei passando, num inacreditável (por mim mesmo) 2º lugar geral, dada minha tensão, ao interpretar o “Lundu da Marquesa de Santos” (composição do Heitor Villa-lobos em homenagem ao romance existente entre D. Pedro e a Marquesa). A música fora passada (um trecho grave e outro agudo) rapidamente ali na hora… Um pavor, meu claro…(risos). O maestro chamava individualmente e perguntava: “Vai fazer o agudo o ou grave?”. Não pensei duas vezes, já que aos 17 anos, meus graves eram muito poucos, e respondi: “O agudo”. Era um tenor!

BN – De quanto tempo foi essa experiência no coral?

RM – Durante todo curso: Quatro anos. Gravávamos todo ano, especial de Roberto Carlos, e cantávamos erudito, popular, outros idiomas, óperas incríveis, réquiens emocionantes… Um verdadeiro aprendizado. O saudoso maestro Abelardo Magalhães, regente do Coral, me marcou muito com uma frase: “Cantem articulando, pronunciando bem as sílabas. Todos devem entender o que se canta”. Assim como a professora do coral, Edênia, que me fez admirar o canto feminino, lírico, bem colocado e com um timbre cristalino. Só depois, comecei a apreciar o mito Bidu Sayão, por exemplo. Mas confesso não ser um profundo entendedor do clássico. Tenho noções.

BN – O que se pode observar em sua discografia é a fusão entre o popular e aquilo que é chamado por erudito. Um exemplo dessa observação é a presença de um lado, de nomes como Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos; e de outro, nomes como Cartola e Paulinho da Viola. Você procura fazer essa dicotomia de maneira consciente ou pra você a música não tem rótulos?

RM – É consciente. O que muda, é a forma de cantar, de um para o outro. No popular, deve-se ser mais econômico, segurar os vibratos, a emissão e não esquecer que o ouvinte quer algo mais leve, não frio, compreenda-se bem. O erudito é volume (seguindo o regente e a partitura), vibrato, emoção, carga dramática. Acho exaustivo e admirável. Quando trago esta influência erudita, procuro sempre adaptá-la ao popular, com todo respeito a escola lírica, claro.

BN – Quem ouve o seu trabalho observa que a busca pela excelência vocal é algo comum neles. Há algum cuidado específico ou técnica para manter esse lirismo e beleza estética em seu canto?

RM – Obrigado (risos). Me acho muito técnico, muito preocupado com cada sílaba. É um perigo, pois acaba-se colocando a emoção em segundo plano. Creio que só consegui unir os dois, de verdade, neste novo trabalho, “A sombra confia ao vento”. Mas minha cabeça não tem jeito. Canto pensando nas sílabas, como cada uma deve sair. Antes do coral, já era assim. Quanto a cuidados com a voz em si, acho que deveria ter sim. Sou meio desatento.

BN – Em sua carreira discográfica o músico e produtor Ricardo Calafate se faz muito presente e atuante. Fale-nos um pouco sobre essa sua parceria que vem desde o início de sua carreira.

RM – O Ricardo Calafate é um mestre. Desde o início houve uma sintonia. Ele entende como quero cantar. É impressionante! Como pode um mestre do choro, profundo conhecedor de boa MPB que grava com tantos medalhões da música, compreender um cara, que ele pouco conhecia e nunca ouvira? É fantástico. Calafate é um grande músico, com Cds lindíssimos gravados e obrigatórios de se ter. Além de ser um grande incentivador do meu trabalho. Sabe que gosto de estúdio, da coisa da técnica. Um grande amigo, que posso dizer: daqueles que o tempo e a distância, não dizem “não”. Não dá pra esquecer de um cara que me ajudou muito neste projeto, também mencionado no cd: O jornalista-escritor, autor de um livro incrível, cujo título é “Fatal”, Jeocaz Lee-Meddi, que me sugeriu algumas músicas e foi incansável, tudo espontaneamente e por admirar nosso trabalho.

BN – Por que a escolha deste título (A sombra confia ao vento) para o disco?

RM – É uma frase da canção “Melodia Sentimental”. Achamos, que tinha tudo com a aura do Cd, além de ter uma efeito muito bonito. Pode-se imaginar muita coisa com ela. Na canção ela tem um fraseado musical lindo… Me comove.

BN – Uma característica dos dois primeiros álbuns gravados são as participações especiais de mulheres, nomes como Márcia Coelho e Ana Claudia Casaca estão presentes. Por que esta característica não esteve presente neste terceiro álbum?

RM – A Márcia e a Ana, foram integrantes do Coral da Gama-Filho comigo. Ouvia as duas cantando, só admirando… Sou tenor e elas soprano, portanto, ficávamos próximos (vozes agudas). São duas grandes vozes. Mas desta vez, resolvi radicalizar. Fazer um trabalho coeso. Música brasileira que me fosse ligada à memória afetiva pessoal, onde não cabia um convite. Tanto que gravamos tudo (as bases) em voz & violão, para o canto ficar o mais exigido técnica e emocionalmente possível, exigência minha, mais uma vez, compreendida pelo Calafate. Depois da voz definitiva, só com a viola, então, chamamos os músicos. Fizemos o caminho inverso. Mas o resultado foi o que esperava. Aliás, melhor do que eu esperava.

BN – Djavan, em uma entrevista sobre o seu mais recente álbum de estúdio, onde há apenas regravações, afirmou que achava a vida de intérprete era bem mais fácil que a de compositor; pois com as canções prontas, teoricamente a única preocupação era selecionar. Depois da gravação do disco mudou de ideia por achar complicadíssimo a escolha de um repertório diante da gama de opções existentes. Segundo ele, o critério adotado para a escolha das canções foram reminiscência diversas. No seu caso, como se deu a escolha de um repertório que abrange mais de 150 anos de música?

RM – Selecionar é muito difícil mesmo. Guardadas as devidas proporções, seria como o famoso drama, “A escolha de Sofia”, decidir qual filho sobreviver. Doloroso!!! Minhas lembranças de infância foram fundamentais. Tive sugestões, num universo gigantesco de boas músicas, algumas acatadas com satisfação; mas, o que pesou mesmo, foi a vontade de fazer um trabalho honesto e com um som puro, na comovente ingenuidade musical brasileira, na sua brejeirice, no seu gingado, no seu balanço de variedades, tentando unir a emoção com a técnica, o que eu achava contraditório. Acho que valeu. O bom gosto dos arranjos do Ricardo Calafate, abriram caminho para tudo. Uma outra amiga do Coral, uma linda voz, a Andrea Borges, ao me contar que o Cd.”A sombra confia ao vento”, tinha emocionado uma plateia, numa palestra da qual foi orientadora, me deu a garantia de que meu objetivo tinha sido alcançado. Estou muito grato à esta repercussão positiva e ao apoio dos grandes músicos que me presentearam, de verdade, sabendo que era uma produção independente de um cara muito “tímido e abusado”, como me classifico (risos), porém apaixonado pela boa música e pelo canto.

BN – Ricardo, gostaria de agradecer a toda a sua atenção em conceder esta entrevista e deixo esse espaço final para que você possa fazer as considerações cabíveis. Fique à vontade!

RM – Já acabou? Ahhh…Minha timidez estava até indo embora (risos). Quero agradecer, de coração, o espaço aqui no Musicaria Brasil. Uma grande honra ver meu trabalho elogiado e indicado. Aparecer aqui, junto destas feras, que são minhas referências musicais, é maravilhoso e me deixa incentivado, encorajado a tentar trazer mais trabalhos como este recente. Foi uma alegria e um prazer. Agradeço novamente. Um beijo no coração de todos!!

* * *

Fica aqui mais uma das faixas presentes no álbum, trata-se da canção “Quem sabe?”  de autoria de Carlos Gomes e Francisco Sampaio e datada de 1859.

Como havia prometido  informações acerca da aquisição do álbum, o mesmo pode ser feito, a princípio, através do próprio Ricardo (machadorick@uol.com.br). O álbum (autografado, se optarem) custa R$ 20,00 com as despesas dos Correios já inclusa. Um custo irrisório diante da grandeza de trabalho de resgate musical tão valioso.


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UM PASSEIO MUSICAL NA VOZ DE RICARDO MACHADO

Nas gratas estradas vicinais de nossa música sempre houve pessoas de extremo talento, mas que geralmente ficam à margem do conhecimento do grande público porque tanto as gravadoras quanto os grandes meios de comunicação quase não procuram mais investir ou arriscar em qualidade. A dicotomia entre vendagem e qualidade está cada vez mais acentuada, e a qualidade está perdendo feio. O que consola aquele que é ávido por boa música é que o talento resiste e não se deixa esmorecer diante das adversidades impostas pelo mercado e mesmo nos mais recônditos lugares de nosso país a boa música ainda floresce. E isso é maravilhoso porque em todas as regiões do Brasil descobrem-se diariamente novos talentos. Falo isso com conhecimento de causa e por conta da proposta que defendo aqui e em um espaço paralelo ao JBF, que é o Musicaria Brasil.

Dentre esses novos nomes da MPB alguns são merecedores dos mais sinceros elogios por nos trazer trabalhos de extremo bom gosto. Por tal razão gostaria de apresentar aos amigos do JBF o álbum de um carioca que vem mostrando um trabalho lindíssimo permeando diversas épocas dentro de nosso cancioneiro popular. Confesso que por ter tanta diversidade, talento e bom gosto, o trabalho do Ricardo Machado me faz acreditar que um dia o verdadeiro talento sobressairá as imposições vigentes no mercado da música.

Este trabalho que trago ao conhecimento do público do JBF trata-se do primeiro, comercialmente falando, deste novo artista e traz como título “A sombra confia ao vento“, neste disco Ricardo procura adotar uma linha que dá ênfase a belos arranjos e a qualidade na escolha do repertório, tendo como característica um belo passeio por mais de 150 anos da música popular brasileira trazendo diversos compositores que tem por característica comum a qualidade.

Procurando seguir uma ordem cronológica a primeira canção do álbum trata-se da modinha do século XIX intitulada “Se essa rua fosse minha“, canção de autoria desconhecida que acabou ganhando o gosto popular ao longo dos anos até hoje. Em seguida, ainda no século XIX, vem “Quem sabe?” (Carlos Gomes e Francisco Sampaio, 1859). O álbum fecha o século XIX com a canção de “Menina Faceira” (Chiquinha Gonzaga, 1885).

Do século XX o álbum começa com outra modinha tradicional, lançada em disco pela primeira vez por Mário Pinheiro em 1906 chamada “A casinha pequenina” (autoria desconhecida) apesar de ser atribuída a três pessoas: Leopoldo Fróes, Pedro Augusto e Bernardino Belém. O passeio segue com a composição parte integrante da peça Bachianas Brasileiras nº 2 de Villa-Lobos intitulada “Tocata” (popularmente conhecida como “O Trenzinho Caipira“, de 1930). Uma curiosidade é que esta melodia recebeu letra de Ferreira Gullar  45 anos depois.

Vamos em frente seguindo nessa viagem pelos trilhos da história musical brasileira com o samba-canção “Serra da Boa Esperança” (Lamartine Babo, 1937) rumo a década de 50 com o popular chorinho “Pedacinho do Céu” (Waldir Azevedo e Miguel Lima, 1951); a toada “Prece ao Vento” (Gilvan Chaves/Alcyr Pires Vermelho / Fernando Luiz Câmara Cascudo, 1954); o conhecido samba “A flor e o espinho” (Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito, 1957); e dois clássicos de nosso cancioeiro datados de 1958: “Melodia Sentimental” (Dora Vasconcelos e Villa-Lobos) e “Castigo” (Dolores Duran).

O passeio musical de Ricardo Machado em “A sombra confia ao vento” termina na década de 70, onde depois de decorrer vários anos de boa parte da história da MPB ele entoa três grandes canções: “Sábado” composição de Fredera (1970), integrante do extinto Som Imaginário; o clássico samba do Cartola intitulado “O Mundo é Um Moinho” (1976) e por fim “Toada” (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho, 1979).

O canto límpido, definido e pungente de Machado e seus conhecimentos em técnicas vocais o faz ficar a vontade diante desta gama de gêneros e ritmos presentes no álbum. Seguro de si e dos requintados arranjos de Ricardo Calafate este lhano trabalho sacramenta a ideia de que a música de qualidade e bem feita é atemporal, por isso surge imediatamente o prazer ao ouvir o disco.

Enfim, Ricardo Machado é uma prova de que na nova geração da música brasileira ainda existe pessoas cujo o talento é inexorável. E para contextualizar com o conselho que gostaria de deixar para todos trago os versos do poeta português Fernando Pessoa que escreveu: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. Procuremos sair da mesmice e ouvir novos talentos de nossa música, pois há muita coisa requintada nessa lavra de artista que vem surgindo ao longo desses últimos anos.

Vem a seguir duas das faixas já descritas anteriormente e presentes no álbum. A primeira trata-se de “Casinha Pequenina“:

A seguinte vem a ser a clássica “Se essa rua fosse minha“:

Em breve estarei em contato com o Ricardo para tentar viabilizar a venda deste álbum aqui em Pernambuco.


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CÁSSIA ELLER, 10 ANOS

Cássia Rejane Eller – (Rio de Janeiro, Dez/1962 — Rio de Janeiro, Dez/2001)

A coluna desta semana me fez lembrar da passagem dos 10 anos de morte da cantora Cássia Eller e antes de desejar a todos leitores do JBF meus sinceros votos de um 2012 cheio de conquistas, saúde e positividade gostaria de lembrar um pouco do jeito, digamos, agridoce de uma das maiores intérprete que o rock nacional já teve. A acidez e meiguice associados a imagem de Cássia a fez diferenciada e o seu talento era reconhecido por todos.

Pois bem, em dezembro de 2001 todos já se preparavam para as festividades do reveillon, ano este extremamente importante por trazer em definitivo a consagração para Cássia Eller enquanto artista popular. Foi o ano em que ela teve o projeto Acústico MTV vinculado ao seu nome e conseguiu estrondoso sucesso de crítica e público. Isso era possível atestar a partir da sua agenda de shows e das vendagens expressivas do álbum “Acústico MTV”, disco este que pela primeira vez dava a artista o disco de platina duplo pela vendagem de quase um milhão de discos.

O ano de 2002 prometia, pois a agenda de Cássia já tinha várias datas reservadas. Seus 900 mil discos vendidos do último projeto pareciam que iriam além desses significativos números e essa sua consagração seria absoluta, porém toda essa exposição e a agenda invariavelmente cheia trouxeram graves consequências para a cantora, que na tarde do dia 29 de dezembro de 2001 sentiu os efeitos dessa rotina intensa e estressante.

Por volta das 13 horas, Cássia chegou a Clínica Santa Maria, no Bairro de Laranjeiras (zona sul do Rio de Janeiro) queixando-se, dentre outras coisas, de mal estar e enjôo. Segundo o empresário de Cássia, os sintomas eram consequência de estresse provocado por excesso de trabalho, pois, conforme seu relato, ela havia feito em apenas sete meses mais de 100 shows. Ao dar entrada na clínica ela foi imediatamente acolhida na unidade coronariana chegando a ficar também no CTI (Centro de Terapia Intensiva). Segundo o boletim médico, assinado na época pelo diretor da clínica, Gedalias Heringer Filho, a cantora e instrumentista havia chegado à clinica “com quadro de desorientação e agitação, tendo evoluído rapidamente para depressão respiratória e parada cardiorrespiratória”.

O único boletim médico divulgado na data do falecimento da cantora não revelou a causa morte, fato que acabou gerando diversas versões para o fato, dentre os quais que ela havia falecido em consequência de uma overdose. Depois dos laudos periciais do IML carioca foi-se concluído a hipótese de causa morte um infarto do miocárdio deixando uma lacuna eterna dentro da música popular brasileira.

Agora peço licença aos fubânicos para desejar-lhes que ao longo do novo ano que se aproxima todos consigam aquilo que almejam, sem esquecer que só nós temos a capacidade de semear a paz e eliminar do nosso vocabulário termos como intolerância e desigualdade. Está em nossas mãos as ferramentas para fazermos um mundo melhor, só depende de nossa vontade para mudarmos nossa realidade. Um ano se iniciará e com ele novas esperanças surgirão para que possamos alimentá-la com atitudes que por mais compendiada que sejam, se fazem necessárias para iniciarmos com pé direito esse novo ciclo. Saúde e paz aos leitores, editores e participantes do JBF em 2012!

Abaixo segue três canções do repertório da saudosa Cássia:

A primeira trata-se de “Toda vez que eu digo adeus” uma belíssima versão feita pelo poeta e compositor Carlos Rennó para a música “Every time I say goodbye”, de 1944. Gravada por alguns dos maiores nomes da música mundial esta é uma composição do americano Cole Porter.

A segunda é uma composição do saudoso poetas Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho intitulada “Erva daninha” . Esta gravação foi lançada no mesmo ano em que a artista faleceu no álbum “Samba guardado” do Guilherme

A terceira e última,vem a ser a canção “Non, Je Ne Regrette Rien”, letra de Michel Vaucaire e melodia de Charles Dumont foi um enorme sucesso na voz da cantora francesa Edith Piaf.


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ICONOCLASTIA CULTURAL

Hoje ao sentar aqui em frente ao computador para originar o tema desta semana da coluna me deparei com a lembrança do talentoso e saudoso Wilson Simonal. Com a lembrança dele me veio a ideia de quantas pessoas ainda são acreditam em sua culpa, sua máxima culpa por muitas coisas que atribuem ao seu nome até os dias de hoje. Esqueceram de anistiá-lo.

Pensando em Simonal resolvi adotar um tipo de papel de significado historicamente pejorativo, o de iconoclasta, porém assumir esse postura se faz necessário, ao menos nesse momento, para trazer à tona que somos capazes de quebrarmos estigmas e aceitarmos o novo. E mesmo tendo o termo iconoclastia geralmente associado a uma conjuntura de cunho religiosos é possível trazê-lo para o nosso cotidiano em contextos à parte, como hoje, que o trago para o musical.

Como é difícil quebrarmos estigmas! O pobre do Wilson Simonal que o diga… sofre até os dias atuais (mesmo depois de morto) com a mácula de caguete da MPB. Um dos artistas mais populares de sua geração, Simonal foi do céu ao inferno sem escala e sem anistia… o à época o Pasquim soube como ninguém fazer de Simonal o “carrasco” dos artistas apontando-o como delator da classe. Pois foi a partir de uma matéria vinculada ao Pasquim, que Simonal se tornou o “dedo-duro” mais notório do Brasil que somado a outros fatores o fez ojerizado por muita gente da classe artística ou não.

Atirado a essa espécie de limbo, ou antesala do inferno, sob essa tão batida acusação de colaborador e “dedo-duro” do regime militar, Wilsom Simonal acabou execrado pelos diversos canais existentes da mídia, odiado por muitos de seus colegas de profissão, e talvez o pior venha agora: desconhecido da nova geração (que perde de conhecer o talento incomensurável que ele tinha) e, permaneceu nos últimos anos quase totalmente, esquecido de seu outrora gigantesco público.

A alguns anos o historiador Gustavo Alonso defendeu uma dissertação de mestrado sobre a memória da ditadura brasileira no âmbito musical, e Simonal foi o objeto de estudo: “Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga – Wilson Simonal e os Limites de Uma Memória Tropical” e recentemente essa mesma tese foi publicada pela editora Record (livro este que tem o preço médio de R$ 39,90).

Vítima maior – e única – da inveja, do preconceito, do rancor e da hipocrisia que habitam os porões da mídia institucionalizada e do meio artístico, esse artista único morreu, ou “viajou fora do combinado” (conforme costuma dizer Rolando Boldrim), em 25 de junho de 2000.

* * *

Simonal canta “Sá Marina”, composição de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar:


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NESTOR DE HOLANDA, 90 ANOS

Nestor de Hollanda Cavalcanti Neto (Dez/1921 – Nov/1970)

Hoje eu vim aqui para falar um pouco sobre uma das tantas figuras da cultura pernambucana do século XX, porém ao abordar o nome desse artista não poderia deixar de registrar também dados sobre sua genitora: a médica Lourdes Galhardo. Mas vamos por partes…

Para alguns que chegarão a ler esta coluna essa semana o nome Nestor de Holanda soará estranho, mas a partir do momento que der continuidade ao texto e ver descrito aqui um pouco de sua obra provavelmente o reconhecerão.

Pois bem, Nestor de Hollanda foi um multifacetado e contemporâneo de seu tempo, e se vivo estivesse estaria completando 90 anos de idade ao longo deste mês de dezembro. Queria trazer um pouco sobre a biografia deste ícone pernambucano para os leitores do JBF a partir dos dados que obtive para o Musicaria Brasil. Segundo informações recolhidas a partir do site elaborado em sua homenagem e mantido por seu filho (que além de ter o mesmo nome do pai também segue o mesmo ofício de compositor) Nestor de Hollanda Cavalcanti Neto nasceu em Vitória de Santo Antão (município da zona da mata do estado de Pernambuco) e perdeu seu pai aos 2 anos de idade (o pai de Nestor contava, apenas, com 22 anos de idade quando faleceu).

Nestor deu início aos seus estudos no Recife e muito jovem ingressou no jornalismo. Ainda no Ginásio dirigiu um semanário que acabou impossibilitado de circular por motivos políticos. Seu primeiro emprego na imprensa pernambucana foi de aprendiz de suplente de revisor.

Daí em diante trabalhou em jornais como a Gazeta do Recife, Jornal Pequeno, Jornal do Comércio, Diário da Manhã, Folha Carioca, Democracia, O Imparcial, A Noite, Folha do Rio, Shopping News, Diário Carioca, Última Hora e Diário de Notícias, como repórter, crítico de rádio e depois de televisão, e colunista (mantendo crônica diária), tendo sido também secretário de redação (hoje seria editor-chefe) em vários desses jornais; nas revistas: Manchete, A Noite Ilustrada, Carioca, como colaborador; nas estações de rádio: Clube Fluminense, Cruzeiro do Sul, Clube do Brasil, Globo, Nacional e Ministério da Educação e Cultura – Rádio MEC, como produtor de diversos programas e nas equipes de jornalismo; nas emissoras de televisão: Continental, Excelsior, Rio, onde foi redator e diretor de relações públicas (hoje seria diretor de marketing); além de ter fundado com nomes como Paulo Cavalcanti, Mário Souto Mayor, Sousa Leão Neto, Raul Teixeira a editora Geração, através da qual Nestor publicou o livro de poemas Fontes Luminosas. Com o apoio do grande Valdemar de Oliveira chegou a escrever várias comédias, dentre a qual “Nassau”, que acabou obtendo relativo sucesso na época. Inclusive sendo levada para ser exibida na Rádio Clube de Pernambuco.

Além de grande jornalista e escritor (publicando dentre outros títulos o romance  Jangadeiros e diversas peças de teatro) Nestor destaca-se também naquilo que fundamenta essa coluna que é a música. Compôs mais de uma centena de canções entre frevos–canções (como “Fala, Pierrô”, com Levino Ferreira, “Barafunda”, com Ernani Reis, “O Frevo é Assim”, com Nelson Ferreira, entre outros) entre outros ritmos, tendo parceiros como Geraldo Medeiros (no choro Xém-ém-ém que figurou na trilha sonora de um filme de Walt Disney), Luiz Gonzaga (na toada Balance eu), Ismael Neto (na valsa Último Beijo), Fernando Lobo (dentre outras a batucada “O vizinho é do contra”), Abelardo Barbosa (Chacrinha) (com o samba intitulado “Esperança”) e Ary Barroso (o samba “Vou procurar outro bem”).

Além dos nomes antes citados Nestor ainda compôs com grandes referências da composição nacional no século XX como Guio de Morares, Haroldo Lobo, Lucio Alves, Luiz Bandeira, Manezinho Araújo, Paulo Soledade e Moreira da Silva e foi um dos fundadores da SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores Compositores e Escritores de Música) e da SADEMBRA (Entidades arrecadadoras de direitos autorais em música). Nestor veio a falecer em 14 de novembro de 1970, longe do seu torrão natal, na cidade do Rio de Janeiro.

Fica aqui então uma das canções compostas por Nestor para que os leitores venham conhecer um pouco mais sobre a obra deste grande pernambucano. Abaixo a toada “Balance eu” que foi composta em parceria com o nosso inesquecível rei do baião Luiz Gonzaga (que por sinal deixo aqui meus parabéns em forma de agradecimento pela passagem do seu aniversário de nascimento na última terça):


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SERIA SETE A CONTA DO MENTIROSO?

Sete. Ao longo deste início de semana vi este número entrar em bastante evidência na imprensa como um todo, por tal algarismo ser a quantidade exata de ministros que caíram do governo da presidente Dilma. Fui aos cálculos (e se não me fugiu algum da mente) me deparei realmente que do Palocci ao mais recente Carlos Lupi já foram 7. Contem comigo: Palocci, Alfredo Nascimento, Jobim, Wagner Rossi, Pedro Novais, Orlando Silva e Lupi. Todos do primeiro escalão.

Daí então comecei a associar o tal algarismo a diversas coisas que enumerarei mais adiante e cheguei a conclusão que tanto o povo oriental como nós do ocidente (não sei por qual razão) escolhemos dentre tantos números existentes justamente o sete para mistificá-lo. Alguns podem achar que não passa de exagero meu da coincidência descrita no parágrafo anterior, porém vos digo que várias coisas estão associadas ao número conforme pesquisei para este artigo.

Dentre as coisas pesquisadas há a data em que comemora-se a Independência do Brasil (7 de setembro); Alguns cientistas afirmam que a renovação celular do corpo humano ocorre de 7 em 7 anos; Considera-se a Terra formada por 7 continentes (Américas, Europa, África, Oceania, Ásia, Pólo Norte e Sul); Os hindus conhecem 7 yogas: raja, jnana, karma, bhakti, hatha, tantra ou kundalini e kriya; Dizem que são 7 as virtudes humanas (fé, esperança, prudência, amor, justiça, fortaleza e temperança); Na Bíblia Católica, 7 são os livros sagrados do Antigo Testamento (Livro de Jô, Livro dos Salmos, Livro dos Provérbios, Livro dos Eclesisates, Livro da Sabedoria e Livro de Seriac Eclesiástico); 7 são os mares navegáveis ( mar Adriático, mar Arábico, mar Cáspio, mar Mediterrâneo, mar Negro, Golfo Pérsico e mar Vermelho); 7 também são os pecados Capitais (vaidade, avareza, ira, preguiça, luxúria, inveja e gula).

Contam-se em 7 as cores do arco-íris (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta); Consideram-se 7 Chakras como principais; São 7 dias da semana; classificam em 7 as Maravilhas do Mundo Antigo (as pirâmides de Gizé – Egito, os jardins suspensos da Babilônia, a estátua de Zeus em Olímpia, o templo de Ártemis em Éfeso, o mausoléu de Helicarnasso, o Colosso de Rodes e o farol de Alexandria) e 7 Maravilhas do Mundo Moderno (a Muralha da China, a cidade de Petra na Jordânia, a cidade de Machu Picchu no Peru, as pirâmides de Chichén Itzá no México, o Coliseu de Roma, o Taj Mahal na Índia e o Cristo Redentor no Rio de Janeiro); Deus criou o mundo em 7 dias; além de haver também o manifesto das 7 Artes (música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema. Segundo pesquisa que fiz dizem que o cinema é popularmente conhecido por sétima arte por ser o sétimo dessa lista) e por fim são 7 as notas musicais (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si).

E por falar em notas música quase esquecia o propósito desta coluna. Para não descontextualizar com o tema, deixo aqui para a audição de vocês não sete canções, mas três músicas que referem-se ao tema proposto para hoje.

A primeira é uma gravação inclusa no álbum “Quem me levará sou eu” de 1980 do grande Dominguinhos: “Sete meninas” de autoria do próprio em parceria com o saudoso Toinho Alves (do Quinteto Violado):

A segunda chama-se “7 X 7”, de autoria de Guinga e Aldir Blanc e interpretada pelo cantor paulista Renato Braz em seu álbum de estreia em 1996:

A terceira é uma gravação do Bando da Lua de 1935 e intitulada “Menina que pinta o sete” cujo autores são Roberto Martins e Ataulfo Alves:


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QUAL É A LÍNGUA DA MÚSICA?

Este meu debute no JBF com a coluna que aqui vos apresento. É para mim motivo de extremo orgulho por está dividindo espaço com pessoas de tão alto teor cultural (cool). Confesso que júbilo maior só terei se, por ventura, ganhar sozinho esse atual prêmio da mega-sena da virada de R$ 170 milhões. Como acho improvável esse meu devaneio, vejo-me satisfeito em participar ativamente do Jornal da Besta Fubana com esse espaço gentilmente cedido por Berto. Tenho ciência que a alegria não me isentará da responsabilidade de vir a este espaço regularmente para falar daquilo que tanto substancia a muitos: a música.

A proposta desta coluna, a princípio, é dar destaque a uma arte que muitos já procuraram definir, mas vejo que ninguém soube definir de forma precisa até então o que é a música (e não sou que vou me meter a besta para tentar definir também…). Falar sobre música é sempre algo extremamente gratificante quando se tem a plena consciência que tal arte é algo essencial na vida das pessoas independente do estilo ou gênero que procuram ouvir. Ela é uma espécie de alimento para as nossas almas como alguns costumam dizer.

A música por si só é transformadora e atemporal, pois é capaz de influenciar nosso estado de espírito de forma positiva ou não, além de ter o privilégio de passear pelos anos, décadas e séculos com um tipo de vigor perene capaz de nos fazer tecer reminiscências do nosso mais longínquo passado como se fosse o hoje. Para termos noção do quanto ela se constitui arrebatadora, após os épicos relatos sobre a Torre de Babel só ela trouxe consigo a capacidade de unificar todas as línguas de maneira uníssona a partir de acordes e melodias (um só instrumento é capaz de “falar” por inúmeras culturas, seja ela oriental ou ocidental através de estilos e gêneros).

Então falar desse tipo de arte requer o mínimo de coerência, que procurarei ter e/ou adquirir a partir do amadurecimento da coluna e da participação de todos, principalmente através das críticas, e erratas a mim dirigidas.

Por fim gostaria de externar que muito me envaidece dividir este espaço com nomes como o do escritor e editor-chefe desta “gazeta da bixiga lixa” Luiz Berto, o inestimável ícone do rádio pernambucano Hugo Martins, o compositor Xico Bizerra, o poeta Jessier Quirino, o advogado, historiador e jornalista Leonardo Dantas, o médico e cronista Paulo Carvalho, além de tantos outros nomes fundamentais para o tornar esta  relevância semelhante para este espaço quanto aos que aqui foram citados. 

Obrigado a Berto e a Aline pelo convite, ao bacharel em Direito e amigo Jorge Macêdo, que me conduziu a princípio como leitor entusiasta e depois me apresentou a alguns relevantes nomes dessa confraria chamada Besta Fubana. Enfim, para encerrar essa primeira participação não há definição mais apropriada para o tema que norteará todas as minhas participações aqui nesta gazeta do que a escrita pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche quando disse:

“Sem a música a vida seria um erro”.


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25 ANOS SEM WALTER WANDERLEY

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O pianista e organista pernambucano Walter José Wanderley Mendonça, ficou conhecido tanto nacionalmente quanto nos EUA nos circuitos de jazz como Walter Wanderley. Sua carreira de músico começou quando ainda residia em Recife e já decidido em profissionalizar-se no mundo da música, resolveu seguir para São Paulo no final dos anos 50, onde no início de sua estadia por terras paulistanas trabalhou como pianista no conjunto do Bar Claridge, além das boates Michel e Rêverie e com o conjunto da Boate Oásis, levado por Isaura Garcia, com quem veio a se casar e fazer a sua primeira gravação, que foi registrada em 1959, tocando órgão na faixa “E daí?” (Miguel Gustavo), em disco pela gravadora Odeon.

Era declaradamente fã do cantor Tony Bennett, talvez por isso, em 1960 influenciado pelo cantor norte-americano criou ao ser convidado para trabalhar no Captain’s Bar do Hotel Comodoro, o grupo Walter Wanderley e seu Conjunto , com o qual acompanhou no órgão, em gravações e programas de televisão, diversos cantores como Isaura Garcia, Dóris Monteiro, João Gilberto, Morgana e Francisco Egídio, entre outros. Nesse mesmo período gravou os LPs “Eu, você e Walter Wanderley” (1960), “Walter Wanderley” (1961) e “Sucessos dançantes em ritmo de romance” (1961).

Nos anos posteriores gravou diversos lp’s, dentre os quais “O sucesso é samba” e “Samba é samba com Walter Wanderley” (ambos em 1962); “O samba é mais samba com Walter Wanderley“, “Walter Wanderley e o bolero” e “Samba no esquema de Walter Wanderley” (em 1963).

Em 1964 , mudou a formação de seu conjunto e apresentou-se no Juan Sebastian Bar e fechou contrato com a gravadora Philips, que lançou, ainda nesse ano, os LPs “Entre nós” e “Órgão, sax e sexy“, com Portinho, e “O toque inconfundível de Walter Wanderley“.

No ano seguinte, gravou os LPs “O autêntico Walter Wanderley“, “Samba só” e “Quarteto Bossamba“.

Em 1966, lançou o LP “Sucessos + Boleros = Walter Wanderley“. Transferiu-se, nesse ano, para os Estados Unidos, onde viveu até o final de sua vida. Ainda em 1966, gravou “Samba de Verão” (com Paulo Sérgio Valle), alcançando o 2º lugar nas paradas de sucesso norte-americanas vendendo mais de um milhão de cópias. Lá tocou com diversos artistas brasileiros, como Eumir Deodato e Heraldo do Monte.

São também da década de 1960 seus LPs “Rainforest” (1966), “A certain smile, a certain sadness“, gravado com Astrud Gilberto, “Chegança” (1967), “Popcorn” (1967), com Luiz Henrique, “Kee-ka-roo” (1967), “Batucada” (1968), “When it was done” (1968) e “Moondreams” (1969). Teve reconhecimento internacional pelo trabalho realizado com a cantora Astrud Gilberto, com a qual dividiu os créditos de A Certain Smile, A Certain Sadness e, daí em diante, consolidou uma carreira no meio jazzístico californiano.

Na década de 1970, lançou os LPs “The return of the original Walter Wanderley sound” (1971) e “Brazil’s greatest hits!” (1972). Na década de 80 lançou apenas o LP “Perpetual motion love“, em 1981.

Walter Wanderley não retornou mais para fixar residência no Brasil após sua partida na década de 60, vindo a falecer em São Francisco, no dia 4 de setembro de 1986 vítima de câncer. Dez anos depois, foram lançadas as coletâneas “The fantastic Walter Wanderley – Boss of the bossa nova” e “Samba swing!”.

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Walter Wanderley – Discografia Completa

Festa dançante (1959)

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Eu, você e Walter Wanderley (1960)

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Sucessos dançantes em ritmo de romance (1961)

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O sucesso é samba (1962)

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