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AS RAINHAS DO RÁDIO: GUARANÁ, CHEQUE EM BRANCO E COROA

MARLENE-RAINHA-DO-RÁDIO1

Marlene (Nov/1922 – Jun/2014)

Os amigos leitores perceberam ao longo das últimas semanas que o concurso para rainha do rádio além de contar com a disputa de populares nomes dos casting das principais rádios existentes no Sudeste, também trazia por característica algumas ferramentas não convencionais, mecanismos estes utilizados para somar vultosas quantidades de votos para esta ou aquela candidata, como foi o caso da Rainha apresentada ao longo da semana passada que teve como padrinho Assis Chateaubriand, o “Rei” da mídia naquela época. Chatô, como tornou-se popularmente conhecido, queria a todo custo que a rainha do Rádio daquele ano de 1956 fosse a sua contratada e eleita protegida Dóris Monteiro, que tinha votação tão inexpressiva que com aqueles números não chegaria nem ao posto de princesa, quem dera Rainha.

A obstinação em eleger Dóris foi tão grande por parte do patrão que acabou por acontecer a sua vitória deixando como segundo lugar a cantora Bárbara Martins, que naquele ano estava lançando pela Copacabana o 78 RPM com as canções “Aquarela Fluminense” e “Delirando.” Há muitas pessoas que a consideram Rainha moral da disputa daquele ano. No entanto vale salientar que a atitude do dono dos Diários Associados talvez tenha sido inspirada em procedimento semelhante e que foi adotado alguns anos antes para que outro nome chegasse em primeiro lugar em uma das disputas mais populares do povo brasileiro nas décadas de 1930 até 1950.

De modo sucinto e superficial poderia dizer que era um período onde o rádio ainda desfrutava de grande prestígio, pois a televisão só viria a aparecer no ano seguinte para disputar a audiência e atenção da população. Neste contexto as rádios do Rio de Janeiro, então capital federal, era a maior vitrine da música brasileira existente e por lá desfilavam os principais nomes do nosso cancioneiro. Uma das principais era a Rádio Nacional, que tinha em seu casting uma verdadeira constelação de nomes. As populares irmãs Linda e Dircinha Batista fazia parte desse time. Assim como também Ademilde Fonseca e Emilinha Borba, estrelas em ascensão na época. Assim como os artistas que dela participava a eleição acabou caindo na graça do povo incentivada também pelo cunho filantrópico ao qual estava associada. Os votos eram vendidos com a Revista do Rádio e o dinheiro arrecadado era destinado pela Associação Brasileira de Rádio, que coordenava o evento, para a construção de um hospital para artistas.

Vale ressaltar que até 1949 apenas dois nomes haviam sido eleitos como Rainha e o título, mesmo assim, não havia saído da clã dos Batista. Não imaginava-se que essa hegemonia duraria por muito tempo e, ao que tudo indicava, Emilinha Borba (como a a maior estrela da Rádio Nacional) mudaria esse cenário. No entanto quem venceu aquele ano foi Marlene, a artista que tempos depois iria se apresentar por quatro meses e meio no Teatro Olympia em Paris, a convite de Edith Piaf. Naquele ano Marlene venceu o concurso de modo inusitado e pouco convencional, mas que acabaria se repetindo posteriormente poucos anos depois.

Marlene, que seguindo pesquisas, encontrava-se em terceiro lugar na disputa, atrás de nomes expressivos como Emilinha Borba e Ademilde Fonseca, acabou recebendo o apoio da Companhia Antarctica Paulista, pois a mesma estava prestes a lançar junto ao mercado um novo produto, o refrigerante Caçulinha e devido a popularidade do concurso, pretendiam usar a imagem de uma das artistas que dele participava para isso. A escolhida foi Marlene, que ganhou além do título de garota propaganda do novo produto ainda levou um cheque em branco, para que ela pudesse comprar quantos votos fossem necessários para sua vitória.

Desse modo a artista, que até então estava em terceiro lugar, atingiu a marca dos 529.982 votos sendo eleita em primeiro lugar deixando Ademilde Fonseca em segundo, e Emilinha Borba, dada como vencedora desde o início do concurso, ficou em terceiro. Este título rendeu a cantora paulista diversas vitrines para os seus trabalhos originando-se daí a famosa rivalidade entre os fãs de Marlene e Emilinha, disputa esta que corroborou de modo expressivo para que as artistas ganhassem espantosa popularidade em todas as regiões do país.

Aos amigos leitores ficam aqui duas canções do repertório da artista que faleceu recentemente. A primeira canção trata-se do samba “Lata d’água”, canção que tornou-se um clássico de nosso cancioneiro a partir de 1952 ano do seu lançamento:

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A segunda canção trata-se de “Se é verdade”, canção de autoria do centenário Lupicínio Rodrigues:

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RAINHAS DO RÁDIO: O DEDO DE CHATEAUBRIAND

 dóris

Como os amigos leitores tiveram a oportunidade de acompanhar vimos demos início ao olongo da semana passada a uma série que abordará cada um dos nomes das dez rainhas do rádio existentes na áurea época da radiofonia brasileira entre as décadas de 1930 e 1950. Para ser mais exato ao longo de 21 anos, de 1937 até 1958 quando foi eleita a última rainha Julie Joy, nome abordado na primeira matéria da série abordada durante a semana passada.

A disputa era acirrada e ao final, na coroação, havia uma verdadeira festa com direito a coroa, cetro e homenagens onde quer que fossem. O concurso para a escolha da Rainha do Rádio era promovido pela ABR – Associação Brasileira do Rádio e em determinado momento passou a ser comandado, também, pela “Revista do Rádio”, fundada em 1948 por Anselmo Domingos. Vale registrar que tal concurso surgiu com objetivos filantrópicos em 1936, quando a ABR resolveu arrecadar fundos para a construção de um hospital destinado a abrigar seus associados.

Neste primeiro momento os votos eram vendidos e posteriormente a “Revista do Rádio” publicava os cupons de votação que, recortados e preenchidos, eram colocados nas urnas para o cômputo final. Nesse período não havia venda de votos; o custo era apenas o preço de capa da revista. Era comum o disse-me-disse ao longo dos períodos eleitorais e algumas campanhas eleitorais foram bastante tumultuadas, como por exemplo a da cantora que hoje vamos destacar.

Em 1956, aconteceu algo inusitado na eleição daquele ano que corroborou de modo bastante intenso para o descrédito do concurso que anos passados era motivo para intensa rivalidade entre os fãs das concorrentes. Assis Chateaubriand, na época talvez o maior empresário das telecomunicações e dono das Emissoras de Rádio Associadas, resolveu eleger como sua protegida a cantora Adelina Dóris Monteiro. Até aí tudo bem, o problema era que a cantora carioca não ia nada bem na votação, mesmo com muitos fãs aderindo ao método do recorta cupom, preenche cupom e coloca na urna.

Dóris, que começou a cantar ainda adolescente, chegou a participar em 1947 do programa “Papel carbono”, de Renato Murce e em dado momento de sua carreira teve como seu padrinho artístico o também cantor Alcides Gerardi (foi o cantor e compositor gaúcho que a apresentou ao radialista Almirante, então diretor da Rádio Tupi à época, e que propiciou a Dóris participar de um teste para cantora na emissora ao qual foi aprovada e a partir daí começou a participar dos seus programas musicais chegando a passar oito anos em seu casting). Quando ainda estudante do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro foi convidada a cantar na Rádio Guanabara (pertence a grupo Bandeirantes de Comunicação) ganhando aos poucos a devida notoriedade passando a atuar também em casas noturnas e boates, dentre elas uma do Copacabana Palace Hotel, uma das mais conceituadas do país na época.

Na década de 1950 ganhou projeção nacional ao realizar a sua primeira gravação, registrando em 78 rpm, a canção “Se você se importasse”; sendo eleita, em 1952, Rainha dos Cadetes e gravando o seu primeiro LP  “Vento soprando” pela gravadora Continental em 1954, ganhando destaque as faixas “Graças a Deus” (Fernando César) e “Joga a rede no mar” (Fernando César – Nazareno de Brito). Ainda nesta mesma década gravou uma das músicas mais marcantes do seu repertório, a canção “Mocinho Bonito”, de autoria de Billy Blanco e, em 1955, foi uma das estrelas da TV Tupi (emissora carioca dos Diários Associados, de propriedade do paraibano Assis Chateaubriand) apresentando um programa que levava seu nome.

Integrante do casting de sua emissora de TV, Chateaubriand ordenou: Dóris Monteiro têm que ganhar! No entanto esta tarefa seria complicada aquela altura do concurso, uma que vez a cantora não tinha uma significativa quantidade de votos. Para se ter uma ideia na véspera da apuração final os votos da cantora carioca não davam nem para ela sonhar em ser princesa.

No dia que antecedia o resultado final Chatô, como era conhecido Chateaubriand, chamou a sua sala o então tesoureiro dos Diários Associados e deu-lhe uma ordem:

- Consiga 5 milhões de cruzeiros, e agora!

Seria um pedido a ser atendido sem adversidades se este não tivesse sido feito a noite, no horário em que os bancos encontram-se fechados (vale ressaltar que estamos falando de 1956 e que naquela época nem imaginava-se a criação e utilização de caixas eletrônicos).

A alternativa encontrada foi recorrer a um magazine carioca que anunciava no “O Jornal”, de propriedade também do magnata paraibano. Dinheiro na mão, veio o restante da instrução para o tesoureiro, como conta Fernando Morais no seu livro “Chatô, o Rei do Brasil”, da Editora Cia. Das Letras:

“Mande comprar tudo em Revista do Rádio e ponha o pessoal da redação (de O Jornal) a preencher o cupom com o nome da dona Dóris. E tem que ser já, porque as urnas fecham à meia-noite.” O tesoureiro coçou a cabeça e fez ver ao chefe que a revista custava 5 cruzeiros. Com 5 milhões dava para comprar um milhão de exemplares, o equivalente a 5 edições da revista. E para passar das favoritas, Bárbara Martins com 160 mil votos, e Julinha Silva, com 70 mil, seria necessário preencher mais de 100 mil cupons, algo irrealizável.

Então Chatô mostrou o quanto era poderoso:

“Então o senhor leve este dinheiro ao Manoel Barcelos da ABR e ao Anselmo Domingos da Revista do Rádio e diga que eu compro todo o encalhe da revista acumulado desde que começou o concurso deste ano. E não precisa mandar ninguém preencher nenhum cupom. Diga que aqueles votos devem ser considerados para dona Dóris.”

Na apuração final Dóris Monteiro obteve 875.605 votos!

A primeira princesa, Bárbara Martins, ficou com 161 mil e Julinha Silva recebeu a faixa de segunda princesa, com 76 mil votos.

Deixo aqui para os amigos fubânicos duas canções interpretadas por esta artista ainda em atividade. A primeira é uma gravação do samba “Vou deitar e rolar” (Quaquaraquaquá), um dos maiores sucessos de 1970 e de autoria de Baden Powell e Paulo César Pinheiro:

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A segunda faixa trata-se da “Ruínas”, de autoria de Haroldo Eiras e Vítor Berbara, em gravação de 1953:

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AS RAINHAS DO RÁDIO: O ÚLTIMO REINADO

julie joy

Falecida em 12 de abril de 2011, a cantora, atriz e apresentadora Julie Joy foi a última Rainha do rádio eleita, em 1958

Dando início a série que abordará ao longo das próximas semanas o nome daquelas que foram eleitas Rainhas do rádio optei por começar de trás para a frente. Como assim? Vou explicar melhor… Começarei a falar da última artista a ter ganho o título perpassando por todas os outros nove nomes que alcançaram o título durante o tempo em que o concurso vigorou.

Com o advento da televisão a partir de 1950 a popularidade do rádio deu uma significativa baixa nos anos subsequentes e os programas de auditórios que antes levavam centenas de pessoas as emissoras muitas vezes ao longo de todos os dias da semana foram aos poucos perdendo a guerra para a comodidade do sofá e aparelhos de tv. Essa mudança de hábito acabou refletindo-se também naquele que era considerado sem dúvida alguma o maior e mais popular concurso artístico ao longo as últimas décadas:  o concurso para eleger a Rainha do Rádio.

Em 1958, quando o concurso já não contava com adesão das centenas de milhares de eleitores de outrora, foi realizado o último concurso para eleger aquela que ostentaria o mais cobiçado e nobre título do rádio brasileiro. A vencedora talvez não soubesse que aquela eleição seria a última e, além de consagrá-la e alavancar a sua carreira, a cantora ostentaria seu reinado para todo o sempre, uma vez que não houve mais eleição nos anos subsequentes.

O concurso acabou sendo vencido pela carioca Beatriz da Silva Araújo, uma jovem com 28 anos incompletos e que adotava o nome artístico de Julie Joy. Seu avô  inaugurou a indústria farmacêutica no Brasil com o vinho Reconstituinte Silva Araújo (tônico), em 1888. Sua avó foi célebre cantora de operetas no princípio do século XX, no Brasil. Sua família era numerosa eram ao todo treze irmãos, sendo Beatriz  a caçula.

A sua carreira artística teve início ainda nos anos de 1940, mas precisamente em 1948 na Rádio Guanabara interpretando standards americanos. Um ano depois assinou contrato com a Rádio Nacional, por lá permaneceu pouco tempo, até que desistiu de cantar. Só voltaria a atuar como cantora em 1955, passando a interpretar juntamente com os hits americanos algumas músicas brasileiras. Em 1956, foi contratada pela etiqueta Sinter e lançou seu primeiro disco, com o fox-trot Verão em Veneza (Incini e Ribeiro Filho) e o samba Finge gostar (Meira e Chico Anísio). Nesse período além de trabalhar no Rádio, também atuou em diversos programas da TV Tupi carioca e gravou canções como o xote Amor é bom de dar (Bruno Marnet e Roberto Faissal), o beguine Sombras (Johnny Mercer e Lavello, versão de Arierpe), o bolero Tinha que ser (Fernando César), a Valsa do primeiro filho (Ari Rabelo e Luiz de França) o bolero Podes voltar (Othon Russo e Nazareno de Brito) e a valsa E a chuva parou (Ribamar, Esdras Silva e Vitor Freire). À época em que foi eleita Rainha do Rádio chegou também a atuar no cinema nos filmes “E o Bicho Não Deu…”, produzido pela Herbert Richers, e “O Camelô da Rua Larga”, pela Cinedistri.

Na década de 1960 chegou ainda a atuar como cantora e gravar canções como os fox Você não tem razão (Bartel, Burns e Magio) e Quero sonhar (J. Gluck Jr e F. Tobias) acompanhada da orquestra e do coro de Bob Rose e chegou a lançar pela Columbia o elepê u Jóias de Julie Joy. No entanto retirou-se da vida artística ao longo desta década dedicando-se a interesses pessoais como o casamento com o compositor João Roberto Kelli e as duas filhas do casal.

Um detalhe que interessante a ser registrado foi a amizade entre Julie e a não menos inesquecível Dolores Duran. Com escassos recursos no início da carreira de ambas e a necessidade de estarem bem afeiçoadas em suas apresentações nas emissoras de rádio e televisão, procuraram as mais diversas alternativas para amenizar esta adversidade. A compra de sapatos e vestidos demandava boa parte do orçamento, então, para poupar dinheiro, a compositora de A noite do meu bem costurava os vestidos que seria utilizada por ambas. Um dia usava Julie outro Dolores, depois o tingiam, acrescentavam acessórios para dar a impressão de que era novo.

Quando eleita, Julie Joy arrecadou 329.431 votos e na época declarou “Eu até estou acreditando que sou mesmo rainha. Não é por superstição ou vaidade, mas é que a coroa ajuda a carreira. Haja o exemplo das outras cantoras que foram Rainhas anteriormente”.

Esta série idealizada por mim tem por objetivo fazer com que o nome destas artistas, figuras de extrema popularidade à época dos respectivos reinados, não caiam no ostracismo em que estão condenados pelos grandes canais midiáticos. Ao menos aqui, no Musicaria Brasil, assim como  na memória afetiva de muitos, Julie Joy e tantos outros personagens da música e do rádio vivem e são devidamente reverenciados.

Fica agora para os amigos fubânicos duas canções do repertório da saudosa intérprete. A primeira é “Verão em Veneza”, composição do italiano Alessandro Icini (no original, “Tempo d’estate a Venecia”), que teve letra em inglês de Carl Sigman (“Summertime in Venice”) . Originalmente um fox-canção, ganhou letra brasileira do radialista Ribeiro Filho, lançada pela Odeon em julho de 1956 na voz de Osny Silva, em ritmo de bolero. Um mês depois, saiu esta gravação de Julie Joy:

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A segunda canção trata-se de “Você não tem razão”, versão de Tum-ba-lov, sucesso também da cantora Regiane da gravadora Young. Julie Joy gravou este 78 rpm na gravadora Columbia, em versão de Roberto Corte Real, o outro lado traz a música “Quero sonhar” (Early to bed) em meados de 1960:

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MAREIKE VALENTIN – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Mesmo nascida na Alemanha, Mareike Valentin traz arraigada em sua sonoridade elementos sonoros genuinamente brasileiros. Isso se deu de modo bastante eficiente por intermédio de sua mãe, que por saudades do Brasil ouvia os grandes nomes de nossa música por horas na cidade alemã de Rheinfelden. Esse hábito rendeu pomposos frutos ao longo da trajetória da artista e hoje encontra-se bastante evidente no debute fonográfico da cantora como pode-se conferir na pauta “Em sensível amálgama sonoro, Mareike Valentim mostra ao que veio” que publicamos recentemente aqui mesmo nesta coluna ao longo da última semana. Homônimo ao seu nome, o primeiro projeto fonográfico da artista conta com a adesão de nomes de peso da música popular brasileira e convidados pra lá de especiais como vimos. Agora, Mareike volta ao nosso espaço para ilustrar mais uma pauta, dessa vez em uma entrevista gentilmente concedida onde aborda diversos assuntos, dentre os quais a receptividade do público ao seu trabalho, a reviravolta profissional que a fez trocar a vida de bancária pela vida artística, suas origem alemã entre outros assuntos como vocês podem conferir nesta entrevista exclusiva. Boa leitura!

Uma curiosidade acerca de sua carreira artística é você ter nascido a mais de 10 mil quilômetros do Brasil e hoje traz em seu canto características muito arraigadas de brasilidade. Existe em sua formação musical alguma reminiscência dos poucos anos que você residiu em Rheinfelden ou a sua formação musical é essencialmente brasileira?

Mareike Valentin – Eu diria que minha influência é fortemente brasileira. Tenho na lembrança algumas cantigas infantis em alemão e me lembro de alguns discos que tinha quando criança, mas como a música brasileira sempre fez parte da minha infância também, acho que esta me influenciou muito mais.

Ao longo de sua carreira você já chegou a voltar à Alemanha para mostrar um pouco da riqueza musical existente no Brasil. Foi durante essas apresentações a sua primeira volta a sua terra natal?

MV – Não, estive na Alemanha em 2005, numa viagem inesquecível com meu avô paterno. Aí sim, tive a oportunidade de retornar às cidades e casas onde vivi, rever amigos e familiares.

Quando foi que você percebeu que era a hora de decidir indelevelmente quanto a sua vida profissional? Qual foi o momento, ao seu modo de ver, que já não era mais possível conciliar a vida de bancária com as suas pretensões artísticas?

MV – Enquanto trabalhava no banco, iniciei a faculdade de música e neste período surgiam muitas oportunidades de fazer cursos fora da minha cidade, inclusive a turnê com o grupo Txai aconteceu no meu período de férias do banco. Mas não era sempre que conseguia conciliar as duas coisas e chegou um momento que recebi o convite para começar a dar aulas de canto na escola onde na época eu era aluna (onde trabalho até hoje), foi aí que decidi que não queria mais perder oportunidades de por causa do emprego na banco. Chutei o pau da barraca! (risos)

Como foi a reação das pessoas mais próximas quando você decidiu abandonar toda a burocracia de um banco para arriscar-se de arte, um universo tão oscilante?

MV – Tenho muita sorte. Meus pais me apoiaram muito e ficaram muito felizes com minha decisão. Meu marido, que só conheci uns meses depois de ter saído do banco, sempre menciona essa minha atitude como algo que ele admira. Tive muito apoio, sempre!

Leandro Braga é um dos grandes nomes de nossa música atestado por toda a sua experiência junto a artistas considerados como referências em nossa música. Como se deu o seu encontro com o maestro e o convite para que ele assinasse a produção e os arranjos do disco?

MV – Foi meu marido quem sugeriu que eu fizesse contato com Leandro, pra pedir que ele fizesse alguns arranjos que, inicialmente, gravaríamos aqui em Blumenau. Nunca achei que Leandro fosse me “dar bola”. Rsrs. Escrevi uma mensagem pelo Myspace e esqueci… depois de alguns dias quase caí de costas quando vi que ele além de ter respondido, ele havia se mostrado interessado em trabalharmos juntos. Daí pra frente nossa parceria e amizade se firmou e depois de um tempo e uma vinda de Leandro à Blumenau, veio o convite pra gravar no Rio. Desde então somos grandes amigos e nossa parceria continua. Leandro veio fazer uma participação especial no show de lançamento do meu CD aqui em Blumenau. Agora em julho devo ir ao Rio fazer uma participação num show dele, e por aí vai…

No álbum existem algumas regravações como “Passas por mim” (Simone Guimarães) e “Menina, amanhã de manhã” (Tom Zé e Perna). Quais os critérios adotados para a escolha dessas regravações que fazem-se presentes em seu álbum?

MV – “Menina, amanhã de manhã” já era uma música que eu adorava. Quando começamos a pensar o repertório foi uma sugestão minha que Leandro aceitou de imediato. Já a “Passas por mim” foi mostrada ao Leandro pela própria Simone, atendendo ao pedido dele de lhe mostrar algumas canções que pudessem vir a fazer parte do disco.

E a escolha das demais faixas como se deu?

MV – Quando decidimos gravar o disco eu já tinha as canções do Pochyua. Queria muito gravá-las. As demais foram garimpadas, gentilmente enviadas pro Leandro e pra mim pelos próprios compositores (assim foi com Zé Renato, Simone Guimarães, Sueli Mesquita). O samba da Telma Tavares foi composto especialmente para este disco, a pedido de Leandro. Um presentaço!

O disco conta com a participação do Zé Renato e do Marcos Sacramento. Ambos os nomes foram sugestões muito bem aceitas ou já era do seu desejo especificamente a participação deles no projeto?

MV – Zé Renato sempre foi um grande ídolo. Já ouvia o Boca Livre ainda na Alemanha, muito nova. Quando Leandro falou sobre as participações que poderíamos ter, e sugeriu os dois, quase morri de tanta felicidade porque nunca imaginei que cantar ao lado destes dois gigantes fosse possível. Foi um sonho. Sacramento eu conhecia há pouco tempo e era encantada com o trabalho dele. Pessoalmente me apaixonei ainda mais, pela gentileza, generosidade e bom humor com que me recebeu.

Como tem sido a receptividade do público por onde você tem levado o álbum? O que há no espetáculo além do repertório do disco que você pode nos dizer?

MV – A receptividade tem sido incrível. Tenho tido retornos muito carinhosos e emocionados. Além das canções do disco canto também uma parceria do Junior Marques (meu parceiro, amigão e pianista que me acompanha sempre) e do Gregory, chamada Bola Dividida, um partido alto super bem humorado, é uma metáfora entre uma relação de um casal e o futebol. O público adora e eu me divirto muito cantando. Outras canções também fazem parte do repertório show, mas tem que assistir o show pra saber! (risos)

Já ouvi de alguns artistas que custeiam seus próprios trabalhos que o termo independente nunca deveria ser aplicado a eles uma vez que é algo que não condiz com a realidade, pois os mesmos dependem de muitos em shows, divulgação e outras situações. Você é uma artista que contou com um apoio em seu projeto mas não deixa de estar inserida em uma gama de artistas que buscam um lugar ao sol remando contra a maré midiática existente. Qual a maior dificuldade em trabalhar desse modo?

MV – Tive a sorte de ter um apoio da Fujiro e também do Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau, mas a maior parte do trabalho, eu diria que 70%, foi realizada com recurso próprio, vindo de muito trabalho (meu e de meu marido). A maior dificuldade no meu caso, é que como não dispunha de verba pra realizar o trabalho todo de uma vez, tive que fazer tudo aos poucos. Entre o primeiro contato com Leandro e o disco pronto, lançado, foram mais de dois anos! Até tive um filho neste meio tempo! Rsrsr Sempre brinco que a gestação do meu disco durou muito mais do que a do Tom, e que o parto (do disco) foi beeem mais difícil e demorado!

Clique aqui para acessar o site oficial de Mareike Valentin


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EM SENSÍVEL AMÁLGAMA SONORO, MAREIKE VALENTIN MOSTRA A QUE VEIO

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Nascida na Alemanha porém profundamente imbuída de brasilidade, a cantora radicada em  Blumenau apresenta-nos seu primeiro projeto fonográfico sob a batuta do maestro Leandro Braga

Imbuída de talento e propensa a uma acepção por aquilo que é simples, sensível e marcante, Mareike (lê-se Maraike e que tem por definição ser uma variação de Maria, em holandês) Valentin apesar de ter nascido na Alemanha não deixou que os mais de 10 mil quilômetros que separam nosso país até sua terra de origem intervissem em suas escolhas e referências musicais (isso tudo por conta daquilo que ouvia em casa através dos pais). Foi por intermédio deles que a cantora conheceu os grandes nomes da música brasileira e, de certo modo, concebeu um fascínio por nossa cultura ao ponto de não deixar traços em sua sonoridade de que algum dia passou pelo velho mundo, pois em seu trabalho não há nada de perceptível que remeta a quem o ouve ao continente europeu. É possível afirmar isso porque sua sonoridade é genuinamente brasileira através das diversas peculiaridades que o constitui. O álbum é um debute que, de certo modo, demostra ser uma espécie de acerto de contas com o tempo em que passou longe do Brasil ao longo da infância, um período que apesar da tenra idade da artista foi essencial para delinear nos dias atuais essa espécie de afronto aos seus mais recônditos anseios.

Assim sendo, esse disco não deixa de traduzir também em versos e melodias aquilo que foi acumulando-se ao longo deste, digamos, cerne de sua formação musical quando ainda residia em Rheinfelden, a pequena cidade alemã com pouco mais de 30 mil habitantes, onde a Mareikenasceu e conviveu com a cultura local até a sua vinda para o Brasil, onde cresceu e desenvolveu sua aptidão e predileção pela boa música brasileira. É válido lembrar que ainda na Alemanha a música brasileira já fazia parte de sua rotina, principalmente quando a mãe (nascida em Minas Gerais) resolvia matar as saudades do torrão natal e ouvia diversos artistas, tais quais João Bosco, Chico Buarque, Djavan e tantos outros; sem esquecer é claro de uma de suas principais referências, o cantor e compositor Milton Nascimento e toda a turma do Clube da Esquina que ajudaram de forma bastante intensa a sedimentar e constituir este mosaico sonoro coerentemente tão bem delineado.

Já no Brasil a teve sua iniciação musical ainda criança quando estudou piano e flauta doce em Pomerode (SC). Foi durante o período em que residia em Pomerode que chegou a participar do Grupo Txai, onde atuou como cantora, flautista e pianista, chegando inclusive a excursionar por quase um mês na Áustria assim como também em sua terra natal, a Alemanha divulgando a música popular brasileira. Sem esquecer de sua participação, no período da adolescência, de diversos coros em Santa Catarina.

Na fase adulta enveredou por caminhos que divergiam daquilo que de fato desejava e chegou a atuar como bancária. Porém seu paixão pela música a fez escolher pela vida artística em tempo integral, quando em 2007 largou a profissão para dedicar-se ao ofício de cantora. Vem deste período a busca por uma excelência naquilo que Mareike decidiu-se a fazer como workshops, oficinas e cursos de curta duração em diversas áreas da música. Fora isso a artista cursou Licenciatura em Música na FURB e dedicou-se ao estudo do Canto Popular, seguimento no qual hoje leciona na Escola de Música do Teatro Carlos Gomes (além de trabalhar também com preparação vocal). O resultado de todo esse “Know-how” agora pode comprovado através desse álbum homônimo ao seu nome, um projeto de estreia que nasceu sob a forte influência de uma formação musical genuinamente brasileira, principalmente se levarmos em consideração o imprescindível gosto musical de sua mãe, que longe do Brasil matava a saudade do país através dos mais relevantes nomes da MPB.

“Pude gravar lindas canções (todas refletem a música que carrego aqui dentro)”. As palavras da artista atestam aquilo que as dez faixas por si só deixam transparecer: canções tecidas com fios de sensibilidade e sutileza, retratando um universo bastante particular da artista em versos e melodias marcantes e que são reafirmadas pelos refinados arranjos do maestro Leandro Braga e as concisas participações de dois grandes artistas: Marco Sacramento e Zé Renato, reiterando a precisa e coerente harmonia, marca tão característica deste trabalho composto por características tão peculiares.

O disco começa com a esfuziante “Menina amanhã de manhã” (Tom Zé e Perna) gravada originalmente pelo autor no álbum “Se o caso é chorar” nos idos anos de 1972. Quarenta anos depois a interpretação da cantora conseguiu manter uma leveza pueril. Transformada em um ijexá a canção retrata, segundo a própria artista, o seu jeito de ser e de levar a vida. Do pernambucano Pochyua Andrade a cantora interpreta três canções: “Estrada Real” (composta em Minas Gerais (pelo trecho da antiga estrada real que liga Ouro Branco a Ouro Preto) a partir de uma viagem de carro do Recife à Santa Catarina; Em parceria com com Gregory Haertel (marido da cantora) Andrade assina “Duas procissões” e “O teu Começo”.

A primeira traz como cerne a cumplicidade existente em um casal apaixonado e conta com a participação do cantor e compositor Marcos Sacramento; já a segunda tem como tema o mar e suas peculiaridades, expressando em versos e melodias a forte identificação que a artista confessa ter com o mar. Tendo o mar como tema e seguindo a mesma linha também há “Bóia, bóia” (Suely Mesquita e Lucina). Gregory ainda assina “Só Luiza” (com Leandro e Mareike) e “Valsa incerta” (Com Braga). A faixa “Só Luiza” nasceu de um desejo do maestro e produtor em ver a cantora compor algo para fazer parte do disco. Já “Valsa incerta” nasceu do desafio de fazer uma letra em menos de 24 horas para a densa melodia apresentada pelo maestro Leandro Braga. Uma belíssima letra impregnada de poesia foi escrita e entregue, fazendo desta faixa uma das mais belas da exitosa parceria.

O disco ainda traz o contagiante samba “De amor, de amar” (Telma Tavares), a toada “Imbora”, uma parceria dos cantores e compositores Zé Renato e Pedro Luís que retrata a vida de um poeta que faz da rima a sua companheira. Esta canção que conta com a participação do próprio Zé Renato também encontra-se presente no álbum “Tempo de Menino”, primeiro trabalho solo do carioca Pedro Luís e “Passas por mim”, canção de autoria de Simone Guimarães a partir do poema de Guilherme de Almeida. A belíssima interpretação torna-se sem dúvida um dos pontos altos do disco.

Patrocinado pela Fujiro Ecotextil, este projeto foi gravado no Rio de Janeiro ao longo de dez meses e a ficha técnica conta com nomes como João Gaspar (violões e guitarras), Jamil Joanes (baixo), Zé Nogueira (sax soprano), Felipe Rosseno (percussão), Thiago da Serrinha (percussão e coros), Zé da Velha (trombone), Paulo Sérgio Santos (clarone e clarinete), Silvério Pontes (flugel horn e trompetes), Leandro Vasques e Mayla Valentin(palmas). Além de nomes citados anteriormente como Gregory Haertel (palmas) e Leandro Braga (pianos, produção e arranjos).

Para que os amigos conheçam um pouco mais do trabalho desta nova artista deixo para degustação duas faixas do álbum de estreia de Mareike. A primeira trata-se da canção “Menina amanhã de manhã”, já descrita ao longo da matéria:

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A segunda canção é “Passas por mim”, também citada anteriormente:

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PAULINHO PEDRA AZUL – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 Paulinho

Artista nascido na região mineira do vale do rio Jequitinhonha, Paulinho Pedra Azul chega aos sessenta anos como um patrimônio artístico do seu estado natal. Difícil não associar Minas Gerais à obra do artista. E essa característica encontra-se ao longo de toda a sua trajetória desde o primeiro disco “Jardim da Fantasia” lançado em 1982 pela RCA Victor e responsável por alçar o cantor e compositor mineiro ao panteão da música mineira.

Vale ressaltar que apesar de Paulinho Pedra Azul ter se destacado como cantor e compositor, não foi este o seu primeiro contato com o universo artístico, uma vez que ainda criança o pequeno Paulinho teve contato com as artes plásticas. Daí em diante tomou gosto pela coisa e ao final adolescência já estava participando de alguns festivais musicais existentes no Vale do Jequitinhonha com o grupo “The Giants”, onde executava sucessos da Jovem Guarda e The Beatles nas festas e bailes da região com o impressionante repertório de cerca de 250 canções. Vem desta época, ainda no “The Giants”, as primeiras composições que hoje formam um apanhado de beleza e inspiração que, de certo modo, reflete-se em sua obra até os dias atuais.

Com a carreira sedimentada a partir de uma produção fonográfica caracterizada substancialmente por uma independência artística, Paulinho vem preparando-se para lançar o seu primeiro DVD, um trabalho comemorativo pela passagem dos seus 30 anos de estrada e que conta com adesão de nomes, entre outros, como o do Padre Fábio de Melo e do Rogério Flausino, do Jota Quest como ele nos confidenciou nesta entrevista exclusiva.

São sessenta anos de vida e mais da metade destes dedicados as artes, em especial a música e a literatura. Quais as maiores lições extraídas ao longo dessas seis décadas que hoje você carrega consigo em sua vida profissional e pessoal?

Paulinho Pedra Azul – 60 anos de vida é 60% de um caminho percorrido em vida, onde aprendemos, erramos, acertamos e colhemos frutos que plantamos, para a continuação do viver.

O seu envolvimento com as artes o acompanha desde sempre ao longo de sua biografia. Primeiro através das artes plásticas e posteriormente através da literatura e da música. Quais as suas reminiscências mais antigas dessa relação tão intrínseca?

PPA – Sempre gostei de artes. A pintura me relaxa e me faz concentrar. A literatura nos faz viajar e sonhar e a música nos aproxima de Deus.

Qual foi o momento que você percebeu que o seu envolvimento com a arte de modo geral era um caminho sem volta?

PPA – Quando uma professora do primário me deu nota máxima numa redação.

Leon Tolstoi certa vez afirmou: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Essa afirmação do escritor russo é possível observar em sua obra de modo substancial desde o seu primeiro trabalho. Quais são as grandes influências que, de algum modo, corroboraram para caracterizar sua arte dessa forma?

PPA – Tolstoi só esqueceu de dizer que já está quase no momento de eu voltar para minha aldeia. Ela nunca saiu de mim. É minha maior fonte de energia.

Muitos conhecem o Paulinho Pedra Azul como cantor e compositor, no entanto o Paulinho escritor antecede o ofício que o tornou mais conhecido em todo o país. Dentro do universo literário você vem atuando desde 1978, no entanto, segundo pesquisa realizada na internet, há dez anos que você não publica nenhum livro. Abandonou o seu lado escritor ou o mesmo apenas adormeceu temporariamente?

PPA – Adormeceu temporariamente, mas já estou com ideias novas para 2 livros, infantil e infanto juvenil.

Ao longo dessas três décadas de carreira você traz como uma das características mais marcantes a sua independência fonográfica em uma época que não ter seu nome vinculado a uma grande gravadora era quase que o passaporte para o insucesso. Você conseguiu provar que o contrário era possível. O que o levou (e o leva ainda hoje) a sempre procurar manter essa postura junto ao mercado?

PPA – O mercado de gravadoras (com raríssimas exceções), não tem compromisso nenhum com a educação musical. Quanto pior, mais elas investem e tiram oportunidades de quem quer ouvir músicas de boa qualidade. É a guerra da ganância e da exploração. Cairão todas em breve. Aguardem!

Você sente-se profissionalmente realizado ou ainda falta algo a ser conquistado?

PPA – Me sinto sempre em realização. Não podemos parar de sonhar e realizar. É um trabalho eterno.

O fato de estar longe dos grandes canais midiáticos não o impede de figurar entre os artistas mais conhecidos de Minas Gerais. Uma prova dessa afirmação foi a pesquisa feita pela AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), que o destacou como o segundo cantor mais conhecido de Minas Gerais, perdendo apenas para Milton Nascimento. Há, em sua opinião, alguma explicação plausível para esse carinho e reconhecimento do público mineiro ao seu trabalho?

PPA – Isso vem do trabalho. De acreditar nele e formar um público especial, que sempre se faz presente aos meus shows. Esse público me faz viver e acreditar sempre, que vale à pena cantar e compor.

Em 2004 você lançou o álbum “Os 50 Anos de Paulinho Pedra Azul”, em 2014 haverá algum projeto temático neste sentido?

PPA – Estamos preparando uma coletânea com 120 músicas remasterizadas e 2 livros; um com 150 poesias dos livros lançados e 150 poesias inéditas, para comemorarmos meus 60 anos. É um projeto de lei que estamos em fase de captação, pois já foi aprovado.

Não seria a hora de um registro em DVD para celebrar a data?

PPA – O DVD e CD já estão em fase final de montagem de imagens, mixagem, projeto gráfico, etc. Devem ser lançados em 2015. O DVD e o CD são comemorativos aos meus 30 anos de carreira.  Foram gravados no Palácio das Artes em BH, com participações de Padre Fábio de Melo, Rogério Flausino do Jota Quest, Célio Balona, Aggeu Marques, Mauro Mendes, Grupo Sarau Brasileiro e uma banda maravilhosa com 6 músicos. Abraçoss e obrigado por essa oportunidade.

Para acessar o Facebook de Paulinho Pedra Azul clique aqui

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Paulinho Pedra Azul interpretando, de sua autoria, a canção “Precisamos de amores”:


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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 10

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Dando continuidade a série “História e estórias da MPB”, hoje trago aos amigos leitores a saudosa figura da Aracy de Almeida, artista que se viva estaria completando 100 anos no próximo dia 19 de agosto de 1914. Única filha do casal de protestantes Baltazar e Hermogênea, Aracy de Almeida costumava na infância e adolescência interpretar hinos religiosos na Igreja que os pais frequentavam. Ao mesmo tempo que entoava músicas sacras na Igreja em que seus pais frequentava, a futura artista do rádio também costumava, escondida dos pais, cantar músicas de entidades em terreiros de candomblé e no bloco carnavalesco “Somos de pouco falar”.

Foi através do compositor Custódio Mesquita que conseguiu a primeira oportunidade em rádio em 1933 depois de cantar a música “Bom-dia, Meu Amor” (Joubert de Carvalho e Olegário Mariano). Ao entrar na Rádio Educadora a artista teve também a oportunidade de conhecer aquele que viria a se tornar o compositor mais expressivo em toda a sua carreira: Noel Rosa. Logo na primeira oportunidade que tiveram de conversar Noel a convidou para tomar umas cervejas Cascatinhas (marca de cerveja apreciada por Noel, entre outros boêmios da época) na Taberna da Glória. O convite foi prontamente aceito pela pretensa cantora que a partir dali passou a acompanhar o compositor por diversas noites até a sua prematura partida.

A sua convivência com Noel acabou, de certo modo, abrindo algumas portas para a carreira da artista. A primeira oportunidade deu-se a partir da gravação do seu primeiro disco em 1934 pela Columbia com a música Em plena folia (Julieta de Oliveira) e, posteriormente, o seu primeiro contrato com a Rádio Cruzeiro do Sul. Também neste mesmo ano gravou “Seu Riso de Criança“, de autoria do poeta da Vila. No ano seguinte transferiu-se para a RCA Victor participando de corista em diversas gravações e lançando diversas canções de Noel, o que acabou tornando-a numa das maiores intérpretes de samba da época e maior intérprete do compositor de Vila Isabel (com Noel vivo, Aracy chegou a gravar 34 canções de sua autoria). Sua identificação com o samba era tamanha que acabou ganhando o apelido de “O Samba em Pessoa”, pelo apresentador César Ladeira, com grande mérito a partir do resultado da gravações de canções como Palpite infeliz, O X do problema, Eu sei sofrer, Último desejo, Feitiço da Vila, Século do Progresso entre outros.

Ganhou grande popularidade ao longo dos anos de 1930 atuando em diversas emissoras de rádios cariocas, dentre elas a Rádio Philips com Sílvio Caldas, no Programa Casé; na Cajuti, Mayrink Veiga e Ipanema, excursionando com Carmen Miranda pelo Rio Grande do Sul e Tupi. Em 1939 foi responsável por lançar o compositor Davi Nasser e ser a primeira intérprete de uma canção de autoria de Ari Barroso que viria a tornar-se um clássico da música popular brasileira: “Camisa amarela“. Na década seguinte lançou outro clássico do cancioneiro popular, o samba “Fez Bobagem” (Assis Valente).

Na década de 1950 Aracy foi responsável pela reavaliação da obra do poeta da Vila ao gravar dois álbuns dedicados a sua obra acompanhada pela orquestra de Vadico. Em sua biografia merece destaque ainda alguns acontecimentos ao longo da década de de 1960 como os espetáculos realizados no Teatro Opinião batizado de “Conversa de botequim”, dirigido por Miele e Ronaldo Boscoli; o show “Samba pede passagem”, o programa de calouros “É proibido colocar cartazes” e o show “Que maravilha!”, no Teatro Cacilda Becker em São Paulo, ao lado de Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola.

A partir dos anos de 1970 Aracy começou a trabalhar em vários programas de TV e ganhou muito mais popularidade como caloura do que como a cantora popular cantora dos anos de 1930. Talvez tenha morrido realizada, uma vez que dizia que nunca gostou de cantar, via no canto a oportunidade apenas de sobreviver. Em 1988, com um edema pulmonar, ficou internada entre São Paulo e Rio de Janeiro. Neste período Silvio Santos telefonava-lhe todos os dias, às 18 horas, para saber como ela estava. Depois de dois meses em coma, voltou a lucidez por dois dias, e, num súbito aumento de pressão arterial, faleceu no dia 20 de junho, aos 74 anos. Não casou e nem teve filhos pois dizia que o homem ideal havia nascido morto por isso nunca casou.

Deixo aqui para os amigos leitores duas canções da lavra do saudoso poeta da vila. A primeira vem a ser “Último desejo“, clássico de nossa música:

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A segunda canção vem a ser “Palpite infeliz“, outro clássico do nosso cancioneiro:

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DOIS COMPASSOS DE DELICADEZA

DCD

Dois nomes, dois talentos. De um lado Delcio Carvalho, sambista carioca cujo a dureza do corte da cana lhe substanciou com uma doçura ímpar nesses mais de 40 anos de estrada e centenas de composições ao lado dos mais diversos nomes de nossa música. Dentre as canções de sua lavra há verdadeiros clássicos de nossa música popular brasileira como “Sonho meu”, “Acreditar” e “Minha verdade”, além de tantas outras em parceria com os mais diversos conceituados compositores como Dona Ivone Lara, Wilson Das Neves, Noca da Portela, Ivor Lancelotti, Zé Kéti, Luisão Maia entre outros.

Além disso o rol de intérpretes de sua canção conta com nomes como Marisa Gata Mansa, Elza Soares, Martinho da Vila, Maria Creuza, Elizeth Cardoso, Alcione, Beth Carvalho, Gal Costa, Nana Caymmi, Clementina de Jesus, Jair Rodrigues, Nara Leão, Maria Bethânia, Vanessa da Mata, Mônica Salmaso, Clara Nunes, entre outros que fazem com que seu nome figure entre os maiores compositores do gênero ao qual escolheu e defende de modo elegante e coerente desde a década de 1960, quando passou a morar na capital do Rio de Janeiro participando de diversos programas de calouros e shows de Gomes Filho, da Rádio Guanabara. Vem desse período a composição, em parceria com Dias Soares, “Pingo de felicidade”, gravado na época pela cantora Cristiane.

A partir daí passou a ingressar o grupo Lá Vai Samba, onde ganhou uma visibilidade maior como compositor, chegando a ingressar na Ala de Compositores da Imperatriz Leopoldinense no início da década de 1970 e começou a ganhar a visibilidade de grandes intérpretes como foi o caso da ‘divina’ Elizeth Cardoso, que gravou ao longo de toda a década cerca de cinco canções de sua autoria: “Serenou”, “Igual à flor” (em parceria com Neizinho) e “Pra quê, afinal?” (composta com Mauro Duarte), “Voltar” e “Minha Verdade” (composição a quatro mãos com Dona Ivone Lara). Ao longo da década seguinte Delcio chegou a fazer dois registros fonográficos, o primeiro em 1980 onde interpretou vários de seus sucessos e o segundo em 1987, álbum que contou com participações de nomes como o maestro Rildo Hora, o saxofonista Paulo Moura, Dona Ivone Lara e Elizeth Cardoso.

Nos anos seguintes sucederam-se projetos como o show “De samba e poesia”, em comemoração aos 40 anos de carreira. Nesse espetáculo Delcio apresentou 14 composições, 12 das quais inéditas em parceria com o poeta Mário Lago Filho; além de ter lançado dois projetos: o primeiro em 2006, intitulado “Profissão compositor” e o segundo, produzido por Paulão Sete Cordas e Mariozinho Lago, trata-se de “Delcio – Inédito e eterno”, um projeto que abrange três discos com cerca de 40 faixas lançados em 2007. Sem contar com 0 álbum que resultou esta pauta.

Já o segundo nome é o do também carioca Marcelo Guima, violonista e compositor que teve a sua iniciação musical em Brasília, estado onde foi morar ainda criança. Foi na capital federal que Guima obteve o bacharelado em violão pelo Departamento de Música da Universidade de Brasília e teve a oportunidade ao longo de quatro anos ser professor da Escola de Música de Brasília – EMB, uma das maiores instituições públicas de ensino musical de nível técnico da América Latina. Como instrumentista vem inscrevendo seu nome dentro da música brasileira defendendo-a em concertos tanto no Brasil quanto no exterior, mostrando a sonoridade de seu violão em países como México, Cuba, Alemanha, Guatemala, Panamá entre outros. Há de lembrar também que ao longo desses anos, o instrumentista e compositor vem atuando na produção e composição de trilhas sonoras para TV, documentários e cinema (longas e curtas metragens).

Essas incursões nos meios de comunicação renderam-lhe a apresentação e produção de dois programas de rádio: “Ouvindo Música” na Rádio MEC AM do Rio de Janeiro, com quase uma década em exibição e que traz como proposta um estilo didático usando como matéria-prima a Música Popular Brasileira para orientar o ouvinte a entender de forma mais prática os diversos aspectos da música; veiculado desde 2004, o segundo programa trata do “Arte Petrobras” na rádio MPB FM também no Rio e que tem como proposta a divulgação de artistas e projetos patrocinados pela Petrobras, servindo também como uma vitrine da cultura produzida em todo o país.

Quanto a sua discografia, Marcelo Guima tem álbuns como “Nova Mente” (disco de estreia do artista lançado em 1994); “Passagem”, álbum que chegou ao mercado no ano de 2000 e que traz releituras instrumentais de sucessos de nossa música popular brasileira, além de diversos projetos como, por exemplo, o disco “Pesquisa Musical Brasileira”, trabalho em parceria com o Ministério da Cultura, onde apresenta composições próprias utilizando como base ritmos originários do Brasil.

Com todo esse “Know-how” não é de se estranhar que a junção desses dois nomes resultasse em coisas boas como podemos atestar em “2 compassos”, álbum viabilizado pelo projeto de financiamento coletivo “Catarse” e que teve a sua estreia em show na capital San Salvador (El Salvador) a convite do Centro Cultural Brasil-El Salvador da Embaixada do Brasil. Nesta parceria juntam toda a experiência e talento para interpretações de cunho pessoal e intransferíveis a treze faixas entre inéditas e regravações. Dentre as que saíram do forno para este projeto encontramos “Deixar estar” e “Luar” (composição da dupla Delcio e Guima), “Vestido novo” (Guima e Ronaldo Monteiro), “O amor da gente” (Marcelo Guima).

Quanto às releituras, há canções como “Velha cicatriz” (Delcio e Ivor Lancelotti), “Sonho meu”, “Alvorecer” e “Minha verdade” todas compostas por Delcio Carvalho em parceria com Dona Ivone Lara. Da lavra de Guima ainda há as faixas “O amor da gente”, “Lembranças suas”, “Jamais”, “Amarelo, preto ou branco” e “Longe do mar”, parceria com Paulo César Pinheiro.Além de Delcio Carvalho e Marcelo Guima, ainda perfazem o álbum nomes como Arthur Maia (arranjos, percussão e baixolão), Alencar 7 cordas (arranjos), Toiniho Ferragutti e Chico Chagas (acordeon), Marcos Suzano, Durval Pereira e Marco Zama (percussões), Sérgio Chiavazzoli (bandolim, violões), André Vascconcellos e Nema Antunes (baixo), Carlinhos 7 cordas (violão de 7 cordas), Leandro Braga e Marco Brito (pianos e teclados), Téo Lima (bateria), Thiago da Serrinha (cavaquinho), Pedro Mamede (programação eletrônica e percussão), Ricardo Amado (violino) e Fabiano Sagalote (trombone).

No último dia 12 de novembro o mundo do samba privou-se da presença física de Delcio, que veio a falecer em decorrência de um câncer no aparelho digestivo deixando uma obra que por si só já é eterna e digna de todas as reverências possíveis e imagináveis. Delcio Carvalho hoje de divino compositor não só pela condição que se encontra, mas por ter tido a oportunidade de emoldurar na parede da memória de muitos toda a poesia e lirismo em forma de samba, um ritmo que por si só embriaga àqueles que sabem sorver de modo preciso aquilo que ele oferece. Esse encontro com Marcelo Guima atesta isso. No seu último registro fonográfico mostra-se detentor de um vigor pleno e insolúvel que substancia toda lembrança deixada por Delcio em versos e melodias escritas e eternizadas em quase meio século dedicado a música. Valeu Poeta! Sua obra, sem sombra de dúvidas, é o legado maior que você poderia deixar. De modo perene seus versos e melodias habitarão gerações e gerações que procurarem se substanciar de um samba bem feito.

Ficam aqui duas canções presentes neste projeto acabou sendo o último do Delcio. A primeira faixa trata-se de “Acreditar“, clássico do música brasileira composto por Delcio e Dona Ivone Lara gravada por diversos nomes da MPB:

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A segunda faixa é outro clássico da MPB em parceria também com Dona Ivone Lara. Trata-se da canção “Sonho Meu“:

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB – PARTE 9

DCM

É pública e notória a admiração que eu tenho por Dorival Caymmi (1914-2008) desde o primeiro contato que eu tive com a sua obra. A minha relação com a música do cantor, instrumentista e compositor baiano é intrinsecamente ligada datas comemorativas. Lembro-me nitidamente da comemoração dos seus 80 anos em Minas Gerais e que contou com a participação (além do aniversariante) com alguns dos maiores nomes de nossa MPB. Artistas como Elba Ramalho, Gilberto Gil, Djavan, Morais Moreira entre outros medalhões da música brasileira fizeram um dos mais belos tributo a um artista brasileiro visto até os dias atuais. Posteriormente os filhos Nana, Dori e Danilo prestaram uma belíssima homenagem em disco e show pela comemoração das nove décadas de vida do patriarca da família Caymmi. Esta seria a última grande homenagem que Dorival teria a oportunidade de vivenciar, pois viria a morrer pouco mais de quatro anos depois.

Hoje eu volto a retomar a série de histórias que comecei ao longo do ano passado e que havia deixado um pouco de lado. Aproveito a oportunidade nessa retomada para trazer aos amigos leitores algumas curtas passagens da biografia do baiano antes do estrondoso sucesso que ele obteve a partir de 1939, quando Carmen Miranda gravou “O que é que a baiana tem?” para a trilha sonora do filme Banana da Terra, história esta que contarei mais adiante em uma próxima oportunidade.

Para começar vale salientar que, segundo sua neta Stella, a grafia Caymmi provavelmente foi um erro de um funcionário aduaneiro responsável pela entrada de imigrantes no país quando Enrico Caimi (bisavô de Dorival) desembarcou no Brasil. A antiga família do norte da Itália tinha na grafia do seu nome a letra I e não o Y. Com a chegada no Brasil estabeleceram-se na Bahia e lá Henrique Caymmi apaixonou-se pela mulata Saloméa de Souza (avós de Dorival) e tiveram sete filhos, dentre eles Durval, pai de Dorival que casou-se com Aureliana Cândida Soares, a Sinhá. Neste casamento acabaram perdendo os 2 primeiros filhos. Daí fizeram a promessa de que se a próxima gravidez vingasse todos os próximos filhos começariam seus nomes com D e assim veio: Deraldo (5/11/12); Dorival (30/04/14); Dinah (06/08/16) e Dinahir (5/04/18).

Um dos primeiros contatos de Caymmi com a música deu-se quando o pequeno Dorival, então com 04 anos de idade, ouviu “Élégie”, de Jules Massenet e emocionou-se. Outra passagem interessante de sua infância foi quando estava na casa do seu tio Nonô o ajudando a recolher o lixo do chão. Foi lá que o pequeno Caymmi viu pela primeira vez um balangandã. Segundo o próprio Caymmi a história ocorreu da seguinte maneira: “Um dia ele estava com uma jóia sofisticadíssima em cima da bancada. Era uma peça com várias coisas penduradas> cachinho de uva, uma figa, um dedo, uma pinha, um pinhão, um caju, um boneco, uma criança. Aí tinha um correntão que entrava na parte de cima, que segurava aquela penca. Eu disse assim: ’Que coisa bonita tio Nonô!’. Ele disse assim ‘Isso é o chamado balangandã’”. A palavra que não saiu da cabeça do pequeno Caymmi iria figurar anos mais tarde em um dos clássicos do artista baiano “O que é que a baiana tem?”, justamente por conta de uma frase dita também pelo tio Nonô. O irmão de sua mãe sempre contava rindo a Dorival: “Quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim”.

Vale registrar aqui que Dorival aprendeu a tocar violão sozinho no instrumento do seu pai em companhia do amigo e vizinho Zezinho, que o acompanhava com um bandolim napolitano. Era um violão adquirido por Durval por 18 mil réis na loja A guitarra de prata, no Rio de Janeiro. Quando o pai o flagrou pela primeira vez tentou orientar o filho, mas foi a partir do método canhoto que Dorival desenvolveu o seu método todo peculiar para tocar. E foi neste instrumento que além dos primeiros acordes veio também a primeira composição de Dorival, a toada “No sertão”:

Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Nosso amor nasceu pelo São João,
Na roda brejeira, na fogueira ao soluçar de um violão
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Nosso amor morreu, com ingratidão,
Cinzas de amor e de fogueira, tristezas no meu coração
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração
Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração

Nesta mesma série voltarei a abordar o nome de Caymmi em outras oportunidades e confesso que vem a ser de modo inteiramente parcial, uma vez que Caymmi para mim fez-se Netuno no mar da canção brasileira. Não há ninguém melhor para falar das águas do que esta emblemática figura que vive no imaginário popular brasileiro a partir de sua imensurável e insubstituível obra como se é possível perceber a partir do contagiante samba “Vestido de bolero“, canção composta nos de 1940 e que deixo agora para os amigos leitores:

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PATRÍCIA TALEM

Deixando aflorar o lado compositora, Patrícia Talem flerta com a sonoridade pop sem perder a elegância

Depois de abordar a música mineira, a bossa e o jazz em uma simbiose perfeita em seu segundo álbum intitulado “Olhos”, disco sofisticado voltado para o mercado exterior e que conta com algumas participações especiais e versões para clássicos da MPB e músicas em inglês, como por exemplo a canção “For Your babies“, do repertório do famoso grupo inglês Simple Red. Patricia que apesar de ter passado pela experiência da noite paulista obteve notoriedade maior quando chegou na América do norte, particularmente nos EUA, onde seu reconhecimento se deu tanto pelo público quanto pela imprensa especializada, prova disto foi a indicação do seu primeiro álbum em duas categorias ao Press Award 2010 (Melhor Álbum e Melhor Tour).

Outro aspecto relevante é também o reconhecimento nos grandes circuitos musicais americanos e da Europa, onde frequentemente participa de espetáculos em cidades como Miami, Nova York e Los Angeles. A soma desses aspecto sedimentaram a sua carreira por terras estrangeiras de modo muito mais consistente do que aqui em seu próprio país, prova disto é o lançamento de “Olhos” ainda este ano na China, por exemplo.

Agora, Talem procura investir em sua carreira no Brasil através do seu terceiro CD intitulado “Sorte”, disco que leva este título devido a mudança de diversos aspectos em relação a vida profissional da cantora, que agora foca uma consolidação profissional também em seu país. “Sorte é ter a possibilidade de ganhar espaço, fãs e admiradores no Brasil. A minha música de trabalho leva o nome do disco e fala de uma mudança de atitude, de otimismo”, disse Patrícia Talem.

Para atingir este objetivo a cantora e compositora vem impregnada de renovação, a começar pela sonoridade, mostrando um lado diferenciado dos trabalhos que antecedem este álbum a partir de uma linguagem mais pop em parceria com o produtor e guitarrista Sandro Albert; gaúcho radicado nos EUA há 15 anos e que já atuou com nomes como Milton Nascimento, Airto Moreira entre outros. O álbum começou a ser delineado de modo interessante como relata a cantora: “Este álbum Sorte nasceu de forma nada planejada – estava de férias, quando meu amigo Sandro Albert ligou, para desejar um Feliz 2011, e aproveitou para mostrar algumas músicas que estava compondo, para uma cantora de NY, chamada Natalie. Eu gostei das músicas e resolvi me aventurar nas letras, por diversão pura… e aí, não é que ele gostou?? Rs… então começamos a fazer mais e mais músicas, na intenção de futuramente registrá-las em um disco… Na época, eu estava lançando Olhos, meu segundo álbum… como todos sabem, seguindo uma linha jazzística, que tanto amo. Sorte veio me desafiar a entrar em um universo mais pop, e a experiência foi simplesmente deliciosa, espero de verdade que curtam…”. Dez meses depois o álbum estava pronto a partir de letras que foram inspiradas em histórias pessoais e de pessoas de seu convívio.

O lado apenas intérprete da artista desta vez não vigora nas treze canções presentes no disco, o que se vê é a vazão também do lado compositora (que em parceria com Sandro Albert) assina todas as faixas do projeto, e mesmo destoando da sonoridade apresentada nos trabalhos antecessores, apresenta originalidade nesta contraposição percorrido por Patricia no exterior. Já as letras procuram trazer as relações afetivas e o amor como eixo principal, como é o caso de “Juro não querer teu mal” e “Último adeus” (canções que retratam a desilusão amorosa após o fim de um relacionamento), “Prece ao vento” (letra que aborda um relacionamento que chegou ao fim, mas que é norteada pela esperança de uma possível volta).

Há canções que abordam o amor de modo menos denso, tais quais “Sonho bom“, “Quero você“, “Par” e “Teu bem teu mal.” Canções com tendências radiofônicas também encontram-se no disco tal qual “Sorte” (faixa escolhida como a música de trabalho e que anda sendo executada em diversas rádio de todo o país) e “Bailar“. O disco ainda conta com “Compasso“, “À toa” e “Estação“, canções também regidas pelo amor. Apenas “Viagem” destoa da temática que rege o disco, apresentando, respectivamente, as belezas do sudeste do Brasil

A ficha técnica do álbum fica a cargo de Sandro Albert (que além de assinar todas as faixas com a cantora e executar guitarras e violões também é o produtor e arranjador do disco), Torcuato Mariano (Mixagem), Marco da Costa (bateria), Erick Escobar (pianos e órgão), Sérgio Carvalho (baixo), Chrystian Galante (percussão), Caroline Shaw e Courtney Orlando (violinos), Caleb Burhans (viola), Clarice Jensen (cello) e Lupa Maouze (vocais). O disco ainda conta com a participação do baixista Michael O’Brien e do tecladista Jota Rezende.

E assim uma das mais bonitas vozes da novíssima geração da nossa MPB busca seu lugar ao sol no mercado fonográfico brasileiro destacando-se com este novo projeto, arriscando em uma nova roupagem sonora, deixando de lado um pouco do seu lado intérprete e investindo também no lado compositora. “O álbum é mais do que uma promessa para ingressar no mercado brasileiro. Eu estou me expondo, arriscando e mostrado além da minha música, as minhas letras”, afirmou a artista. O álbum “Sorte” chega ao mercado nacional pelo selo Palco, com distribuição da Radar Records


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RHANA ABREU – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Artista da cena independente, a cantora e compositora Rhana Abreu vem, entre regravações de clássicos da MPB e composições inéditas, procurando firmar-se no cenário musical brasileiro com carregada autenticidade em sua veia roqueira como os leitores do nosso espaço puderam conferir ao longo da última semana a partir da pauta “A SENSÍVEL E ESMERADA AGRESSIVIDADE MUSICAL DE RHANA ABREU”. Lá foi possível conhecer não só um pouco da biografia, mas também da vida artística dessa cantora de personalidade forte e que hoje anda na divulgação do seu mais recente álbum intitulado “Episódio”. Hoje o nome da artista volta a ter evidência em nosso espaço a partir desta entrevista concedida exclusivamente a mim. Neste nosso bate-papo, a simpática artista procura mostra o ecletismo inerente a sua personalidade a partir de novos projetos que vem arquitetando para o ano de 2014, além de falar, dentre outras coisas, sobre o início da carreira e toda a dificuldade encontrada para chegar ao espaço que hoje conquistou.

Gostaria que você trouxesse um pouco do início do seu envolvimento com a música. Vem da infância essa sua aptidão devido a alguma influência familiar? Conte-nos como se deu esse sua escolha.

Rhana Abreu – O início foi mesmo cantando na missa das 18hs, na igreja São Paulo dos Apóstolos, depois no Tablado eu fazia sempre a cantora e voz nos musicais, aí resolvi, em paralelo, a ser atriz, montar uma banda. A primeira chamava Vide Bula, e eu me vestia de enfermeira e os meninos de médicos, hoje esta marca virou marca de Roupa.. e dai foi adiante, estou agora no quarto cd e traçando caminho lá fora no exterior, depois de ter passado por todo interior do Brasil , grandes capitais e o querido Canecão.

Em suas reminiscências, quais as primeiras referências dentro da música que você destaca?

RA – Como cantora Nina Simone, a voz de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jack Johnson, Red Hot Chili Peppers. Oasis, Led Zeppelin, Guns n’ Roses, The Smiths, U2 entre outras.

Segundo relato seu quando esteve no Programa do Jô, em seu início de carreira houve algumas peculiaridades, diríamos até engraçadas, na hora da divulgação de sua carreira. Dá para contar para os nossos leitores alguma dessas passagens?

RA – Ah! Foi muito incrível! Como eu não tinha equipe (telemarketing, assessoria de imprensa, pois tudo era muito caro), eu mesma me passava por tudo. Ia ao jornal de peruca e fazia a apresentação da Rhana sendo a “assessora” Ana Lúcia, e de casa ligava para todos com voz de homem me chamando de Julio. Ainda havia quem me pedia para apresentar o rapaz do telefone, mas eu dizia: “Ele tem pânico, não sai de casa…”. Se não fosse assim não dava para trabalhar profissionalmente sem patrocínio.

Você além de interprete também diversifica seu talento como compositora. Como se dá o seu processo composição?

RA – Eu geralmente tenho inspiração em situações que acontecem comigo ou terceiros Ou até mesmo no mundo ou num instante. Aí vem a melodia na cabeça e começo a escrever onde quer que eu esteja sem parar… assim se deu a maioria de todas minhas músicas.

Dentro da MPB há uma gama imensa de cantoras e intérpretes que fazem da nossa música uma das mais ricas do planeta. Você traz peculiaridades diversas que a faz diferente de muitas delas, tal qual a personalidade forte e a sonoridade que apresenta neste misto de rock com outros gêneros. Você acredita que haja alguma fórmula específica para se destacar dentro desse contingente?

RA – Hoje não acho que a poesia esteja perdida. Acredto que é preciso dá um tempo… hoje quase não há letra nas músicas e temos uma série de canções maravilhosas que estão estagnadas, sem chances… tem acontecido com muitos artistas e hoje, além de tudo isso, ainda há a onda dos “uiui, aiai”… “tchum tcham…”. Acho que é preciso dá um tempo, não perder a personalidade e continuar criando. Acho que a mistura do clássico e do rock com um misto de precisões são bem legais e é isto que estou fazendo no exterior.

Qual a sua maior dificuldade enquanto artista independente?

RA – Mídia!!! Totalmente jabarizada, paga! Se você não tem grana ou não cai na série banal de músicas que eles (im)põem, não rola! os jornais praticamente acabaram, os poucos que restam são pouco lidos e suas pautas logo são esquecidas. Já a Tv é TODA (em letras garrafais mesmo) paga, e isso acontece de modo que esses pagamentos são dados como anúncios ou promoções, mas isso tudo na verdade é jabá, propina!!!!

Seus registros fonográficos sempre contam com regravações de alguns dos grandes nomes do pop-rock nacional. Quais os critérios para a escolha dessas canções?

RA – Escolho artistas que me identifico, autores com letras que todos gostariam de contar e cantar, amo o Nando Reis, e tive a oportunidade de cantar com ele no mesmo palco a convite dele, em uma música que regravei. Ele é um fofo, um dos poucos que ajudam.

Por que um intervalo tão longo entre seus registros fonográficos? Entre 2001 e 2009 você manteve-se envolvida em projetos musicais?

RA – Não houve este intervalo. Gravei “Cidadã Civilizada”, “Jorhana D’arc” (uma homenagem a mulher guerreira na luta honesta) e Episódio em 2011. Hoje gravar um cd por ano nem existe, é um privilégio. Não há mais loja, não tem nada, só baixar na internet. Os meus estão à disposição no meu site (www.rhanaabreu.com.br) e no vagalume. E os shows no interior não se divulgam aqui, graças a Deus, tenho trabalho. Além disso tenho escrito comédia estilo stand up para atuar como atriz, algo que desejo muito.

Atualmente você vem na estrada com a turnê do álbum “Episódio”. Como tem sido a receptividade do grande público com este espetáculo?

RA – Muito boa! Eu tô feliz e as pessoas querem mesmo algo calmo. Vou em trio Power Trio e com uma programação eletro, mas sempre no final faço um tributo ao Renato Russo, à Cassia Eller e ao Cazuza. Amo o carinho do público e agradeço a Deus tudo isso.

Há projetos arquitetados para 2014?

RA – Atuar como comediante para a tv aberta e no conteúdo brasileiro das tv’s a cabo lá de fora, além de fazer um piloto com um programa sobre adolecentes virtuais e continuar cantanto. Pretendo, na carreira de cantora, expandir a carreira no exterior, procurando alcançar o Festival de Montreux outra vez e produzir com Gregore Glowin, cantar pra Deus e o famoso público com todo amor. Tentar espalhar por ai esta “vibe”, sem ser piegas!!!


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A ESMERADA AGRESSIVIDADE MUSICAL DE RHANA ABREU

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No caudaloso universo de roqueiros existentes no planeta, se chegarmos a contabilizar a quantidade de mulheres que se destacam no gênero, chegaremos, sem sombra de dúvidas, que o númeo de mulheres são infinitivamente menor que a de homens, e se pararmos para observar o rock tupiniquim a quantidade torna-se abruptamente mais ínfima, merecendo destaque pouquíssimos nomes, tais como Celly Campello, Rita Lee, Cássia Eller, Marina Lima e mais alguns que dispensam maiores apresentações.

Rita, uma das pioneiras do gênero, em 1966 juntamente comArnaldo Baptista e Sérgio Dias, surgiu a frente dosMutantes, grupo de relevância importância para o movimento que naquele período se instaurava dentro da música popular brasileira: o tropicalismo. Posteriormente com Lúcia Turnbull formou as Cilibrinas do Éden, e logo em seguida a banda Tutti Fruti com a adesão dos músicos Luis Sérgio Carlini e Lee Marcucci . Daí em diante veio a carreira solo e a exitosa parceria com o compositor, produtor, músico e marido Roberto de Carvalho, que vem desde 1976.

Cássia Eller é outro nome de destaque no gênero, uma artista que apesar da curta carreira interrompida por uma prematura e inesperada morte, também destacou-se como um dos grandes nomes femininos do rock nacional. Seus primeiros registros fonográficos mostram uma roqueira visceral em álbuns como “Cássia Eller” (1990) e “O marginal” (1992). Já no palco, cada apresentação sua era de singular. De marcante presença no palco, Eller assumia inclusive a sua preferência por gravações ao vivo em excelentes espetáculos tais quais “Cássia Eller – Ao vivo” (1996), “Veneno vivo” (1998), “Acústico MTV” (2001) e “Rock in Rio: Cássia Eller Ao Vivo” (disco póstumo lançado em 2006).

A lembrança desses dois ícones do rock nacional se deu para contextualizar o trabalho de uma artista que vem procurando o seu lugar ao sol nesse gênero predominantemente masculino mas que destaca nomes femininos que merecem destaque desde a década de 50 perpassando pelos ícones anteriormente citados até os dias atuais, com nomes como o da baiana Pitty, artista que vem se destacando no cenário nacional desde o lançamento em 2003 do seu primeiro álbum: “Admirável Chip Novo”.

É nesse contexto caudaloso, porém predominantemente masculino, que Rhana Abreu vem procurando alcançar o seu lugar ao sol a mais de uma década, quando lançou o seu primeiro trabalho. Sua carreira fonográfica teve início em 1999 com o single intitulado “Jogo duplo”, composto por faixas que já demostram a veia roqueira da artista em regravações carregadas de autenticidade como as das versões para “Down em mim” (Cazuza), “Quero voltar para Bahia” (Odibar – Paulo Diniz) e “Fala” (João Ricardo – Luhli), regravada em 1999 por Ritchie em seu CD e DVD “Outra Vez (ao vivo no estúdio)”. No ano seguinte é lançado o seu primeiro CD composto por todas as 7 faixas existentes do single mais 6 faixas, dentre elas uma versão da canção “Minha flor, meu bebê” (Cazuza – Dé) lançada em 1987 no álbum “Ideologia”. A boa receptividade do trabalho deu margem para que em 2001 fosse lançado mais um registro fonográfico de Rhana: “Cidadã civilizada”, disco que conta com 10 faixas e de cunho bastante pessoal.

De 2001 até 2009 houve um hiato na carreira fonográfica de Rhana, porém a artista não abandonou a música e dedicou-se neste período, dentre outras coisas, ao seu lado autora que veio aflorar em “JoRhana D’arc”, álbum que traz duas parcerias da cantora com o produtor, guitarrista e diretor geral do disco Gustavo Fernandes. A música de trabalho deste disco “Onde estão os homens?” a levou ao Programa do Jô.

Atualmente vem na divulgação do seu mais recente trabalho intitulado “Episódio”, trabalho que conta com uma quantidade maior de composições de sua autoria, totalizando cinco canções e somando novas parcerias com Rodrigo Pelot, Eduardo Chermont, Esdras Bedai, Eduardo Pitta, além é claro do parceiro Gustavo Fernandes nas faixas “Uau!”,Gosto do novo”, “Afrodite” e “Episódio” (canção que dá nome a mais um título na discografia da artista). O disco conta ainda com “Pensando em você“, de autoria do guitarrista Rodrigo Pelot e “Vamos voar para a lua“, de Esdras Bedai e Eduardo Pitta. Além de regravações como “Exagerado” (canção da lavra do cantor e compositor Cazuza, que deu título ao seu primeiro álbum solo), “Por Enquanto” (Renato Russo) e “Me diga” (Nando Reis). Somando forças a esses compositores e instrumentistas ainda estão presentes também no disco estão Fabiano Matos (bateria), Octávio Soares (Baixo), Daniel Gonzaga (órgão), Fred Nascimento (violões).

A artista, que de Ana Lúcia adotou como nome artístico Rhana por influência do paranormal Thomaz Green Morton e por questões numerológicas, vem de modo autêntico, fazendo a sua história no cenário musical brasileiro. “Episódio” é a prova disto, mesmo pecando na ausência do um vigor maior nas releituras das duas canções presentes no repertório da Cássia Eller, como muitos saudosistas irão analogamente observar.

Para o conhecimento dos amigos fubânicos segue duas canções que pode vir a ser do conhecimento de muitos. A primeira trata-se da canção “Luz dos Olhos“, composta pelo cantor e compositor paulista Nando Reis e que teve como maior intérprete a saudosa Cássia Eller:

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A segunda faixa é um clássico do cancioneiro brasileiro que foi escrito por Rita Lee. Trata-se de “Ovelha Negra“:

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FERNANDA CUNHA

FC

Ela perpetua em disco matizes do seleto cartão-postal musical que apresenta mundo a fora

Fernanda Cunha, cidadã do mundo, mostra-nos, sem abrir concessões, que a sua essência ainda se faz valer em suas mais genuínas influências.

Não é de hoje que a música brasileira se tornou um dos mais bem sucedidos produtos de exportação do nosso país. Desde a inserção de Carmem Miranda no mercado de entretenimento norte-americano com o espetáculo musical “Streets of Paris” em 1939, perpassando pelos 13 filmes onde a “pequena notável” atuou, sem esquecer também do clássico espetáculo Carnegie Hall em 1962 com a propagação de um gênero que posteriormente viria a se firmar como um dos ritmos brasileiro mais bem sucedidos no mundo: a bossa nova.

Desde que o mundo ajoelhou-se diante do talento do nosso “maestro soberano” (como certa vez Chico Buarque definiu Tom Jobim) e suas complexas e inovadas harmonias que a música brasileira caiu de modo definitivo no gosto popular ao redor do mundo, sendo reconhecida como uma das mais inovadoras e ricas dentre as existentes. Nomes como Airto Moreira, Flora Purim, Ivan Lins entre tantos outros hoje colhem o fruto desse reconhecimento (e em alguns casos com uma carreira até mais bem sucedida no exterior do que aqui mesmo no Brasil).

Fernanda Cunha insere-se perfeitamente neste contexto e não foge à regra. Com mais de 15 anos de estrada e uma carreira cada vez mais sedimentada no exterior, Fernanda vem galgando seu espaço de modo bastante relevante longe das grandes gravadoras no mercado internacional. Isso talvez venha a justificar o apropriado título que a artista deu ao seu quinto álbum: Coração do Brasil. O disco, que conta com dez faixas e um repertório meticulosamente bem escolhido (característica já inerente à artista desde o primeiro trabalho “O tempo e o lugar”, lançado em 2002). Neste intervalo de doze anos a artista já trouxe ao grande público uma justa homenagem a dois grandes baluartes da MPB com o álbum “Dois Corações”, que trás uma viagem musical à Johnny Alf e Suely Costa; revisitou as parcerias de Tom Jobim e Chico Buarque em “Zínzaro” e, em parceria com músicos canadenses e brasileiros, trouxe-nos o álbum “Brasil – Canadá”, onde a cantora apresenta-se também como autora de duas faixas.

Neste novo projeto cujo título é “Coração do Brasil” a artista conta mais uma vez com a presença da dupla Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques com o tema “Adeus América”, samba que, de certo modo, fundamenta o título do álbum e que retrata a saudade do torrão natal da artista quando esta encontra-se longe do nosso país levando a nossa cultura pelo mundo afora. Versos como: “Não posso mais, ai que saudade do Brasil… Ai que vontade que eu tenho de voltar…” atestam isso. Tom Jobim, recorrente artista nos álbuns da cantora, está presente cem duas parcerias com Aloysio de Oliveira: “Eu preciso de você” e “Dindi”.

 A dupla Ivan Lins e Vitor Martins também marcam presença dez anos depois da primeira doze anos depois da primeira aparição na discografia da artista mineira com a clássica “Somos todos iguais esta noite”, gravada originalmente em 1977 e posteriormente em 1984 no álbum “Juntos” por Ivan.

O Rio de Janeiro vêm em cores, versos e poesia por intermédio das composições de artistas como o “poeta da Vila” Noel Rosa (que traz o samba “Não tem tradução”, de 1933), Daniel Gonzaga, que assina a faixa “Samba pro João” (do álbum “Os passos na paralela”, de 1998, do cantor e compositor carioca) e uma composição da lavra da própria cantora intitulada “Rio”, composição de Fernanda com a pianista Camilla Dias. Outra compositora que sempre marca presença nos álbuns de Fernanda Cunha é a carioca Suely Costa, tia da cantora, e que também participa do disco ao piano. Dessa vez ela presenteia a sobrinha com a inédita “Perdido de Encantamento” (em parceria com Luiz Sergio Henriques). O disco ainda conta com mais dois nomes que figuram entre os compositores, são eles Marcio Hallack que assina (em parceria com o compositor Luiz Sergio Henriques) a faixa “Feito Andorinha” e Antonio Adolfo, que junto com o letrista Nelson Wellington assinam a canção que batiza o disco.

Assim se faz “Coração do Brasil”, um disco com um repertório requintado baseado em muitos dos números apresentados pela artistas em suas apresentações no exterior, procurando manter-se coerente com a qualidade musical que caracteriza os álbuns que antecederam este novo projeto tais quais “Dois corações”, “Zíncaro”, “Brasil-Canadá” e principalmente “O tempo e o lugar”, álbum que muito se assemelha a este recente trabalho devido a quantidade de compositores que figuram em ambos. “Alguns compositores do primeiro CD estão aí de novo, como se eu reafirmasse meu amor por eles: Sueli Costa, Ivan Lins, Haroldo Barbosa, Nelson Wellington e Márcio Hallack. Por outro lado, Coração do Brasil traz também compositores que estiveram na minha discografia e que estão sempre no meu repertório de shows, como Tom Jobim e Noel Rosa, além de um compositor da minha geração que tenho muita admiração, que é o Daniel Gonzaga. Então, é a Fernanda que eu sempre fui, fiel às minhas escolhas e aberta para o novo”, define-se Fernanda Cunha.

Vale trazer ao conhecimento do grande público que a qualidade sonora do álbum é tecida por nomes como Cristóvão Bastos (piano), Zé Carlos (violão e guitarra), Jorjão Carvalho(baixo) e Jurim Moreira (bateria), Camilla Dias (piano) e Tom Szczesniak (acordeom) fazendo do disco uma grande confraternização, onde amigos e compositores se reencontram com a voz cristalina da artista novamente. Não é à toa que a artista vem galgando espaços cada vez mais significativos no exterior apresentando-se em diversos festivais musicais em torno do mundo, bebendo dessas fontes para somá-las as raízes tão arraigadas na artista mineira. “Eu encontro inspiração na beleza que é o Brasil, no jeito afetuoso que só o brasileiro tem, no amor da minha família, nos nossos compositores fantásticos, nos nossos músicos maravilhosos”, fala a cantora e compositora, reconhecendo que suas andanças e contatos com artistas de várias lugares do mundo foi bastante importante para moldá-la do modo como hoje ela apresenta-se.

Fica aqui a título de conhecimento duas faixas deste distinto álbum dessa artista caracterizada por características ímpares. A primeira faixa um clássico do poeta da vila Noel Rosa sob o título de “Não tem tradução”:

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A segunda faixa trata-se da clássica “Adeus América”, da lavra de da dupla Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques. Gravada por nomes como João Gilberto, Jane Duboc, Rosa Passos, Os Cariocas e Wanderléa,  a canção ganha mais uma encorpada versão:

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Conheçam também:

Fernanda Cunha

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NIREZ, 80 ANOS

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Nirez, ou melhor, Miguel Ângelo de Azevedo, um dos mais respeitados conhecedores da música popular do Brasil e dono de um dos maiores acervos de discos de cera do país chega aos oitenta anos

Nirez como pesquisador e historiador é sem sombra de dúvidas um dos mais respeitados e notórios na área. Com um acervo composto por mais de 140 mil peças ao longo dos mais de cinquenta anos, o desenhista técnico, publicitário e radialista aposentado tornou-se não apenas um grande colecionador mais também um profundo conhecedor da história da música popular brasileira, sobretudo da primeira metade do século XX, assim como também da cidade de Fortaleza. Essa condição o colocou como frequente colaborador de diversos jornais de Fortaleza, tais como: Correio do Ceará, Tribuna do Ceará e O Povo; além de frequente fonte de pesquisa para artistas de todo o país que o procuram no bairro de Rodolfo Teófilo, mais precisamente na Rua Professor João Bosco, 560 para eventuais consultas através do Museu Cearense da Comunicação (antigo Museu Fonográfico do Ceará). Conforme informações do próprio historiador, pela última contagem, o acervo conta com mais de 140 mil itens, dos quais cerca de 22 mil peças (mais precisamente os discos de cera) foram digitalizados graças a um convênio firmado com o Ministério da Cultura (Minc) e a Petrobras.

O acervo que conta com fotografias (prédios, logradouros, pessoas, solenidades, acontecimentos etc.); rotulagem (carteiras de cigarros, caixas de fósforos, sabonetes, perfumaria, alimentos, bebidas etc.); propaganda (anúncios, lápis e canetas de divulgação de produtos etc.); DVDs (filmes, documentários, registros de palestras etc.); 600 LPs (vinil – todos em MP3, por exemplo); dezenas de fitas (cassete e rolo); partituras musicais (hinos, música popular e algumas eruditas); 15 rolos fonográficos entre outros contam um pouco da história não apenas do Estado do Ceará mais boa parte da cena musical da primeira metade do século passado. Por seu trabalho, Nirez recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos. Ao longo deste mês Miguel Ângelo de Azevedo, um dos grandes guardiões da memória cultural do nosso país, está chegando aos 80 anos e eu, através do Blog do Lando, tenho a oportunidade de registrar aqui em nosso espaço uma informal conversa com este homem que, além de colecionador, é também autor de obras como “Enciclopédia da Música Popular Brasileira”, “Cronologia Ilustrada de Fortaleza”, “Fortaleza de ontem e Hoje” entre outros. Figura ímpar no cenário cultural nacional, Nirez pode ser considerado hoje como um dos grandes baluartes da cultura brasileira, principalmente se levarmos em consideração a sua dedicação décadas a fio em manter viva a chama de uma arte tão rica quanto a brasileira.

Essa sua, digamos, mania de colecionar as coisas vem desde que época? Em sua infância já manifestava-se o seu interesse neste sentido?

Nirez – Sim, desde tenra idade sempre gostei de fazer coleções de figurinhas, carteiras de cigarros, caixas de fósforos, etc, mas não guardava, me desfazia com facilidade das coleções. Só vim fazer isso seriamente a partir dos 20 anos de idade.

E o seu interesse por música vem desde que época? Quais são as suas maiores reminiscências nesse sentido?

Nirez – Em 1939, quando eu tinha cinco anos de idade, meu pai recebeu, por troca de um trabalho, um gramofone com vários discos e aquilo me encantou e eu decorei o aspecto de todos os discos, de forma que ainda hoje, ao escutar um deles me vem, imediatamente, a imagem do aspecto do disco.

Você deu início a sua coleção de 78 rpm em 1954, em uma década em que já começava a se popularizar os LP’s em seus mais diversos formatos em detrimento ao segmento que você decidiu colecionar. Houve na época quem acreditasse que você rapidamente desistiria dos discos de cera e migraria para os LP’s?

Nirez – Na verdade ninguém acreditava no sucesso do LP, primeiramente porque eles não tocavam nos antigos aparelhos; outros, porque mesmo as músicas mais antigas vinham em novas interpretações e ninguém jamais pensou que os 78 rotações sairia do mercado. Pensava-se que ficariam as duas formas para sempre à venda. Logo depois surgiram os compactos e os 45 rotações, de forma que pensava-se que todas as formas ficariam.

Nestes 60 anos em busca da preservação da memória cultural cearense e brasileira quais as maiores dificuldades encontradas para manter-se neste propósito?

Nirez – Quando iniciei pouca gente escrevia a respeito das antigas gravações, dos compositores, intérpretes, etc. Os críticos só cuidavam de jazz, música de boate, sucessos contemporâneos, etc. Era muito difícil a aquisição de peças raras. Depois foram surgindo reedições de livros, novos críticos interessados em nossa música, associações de pesquisadores, passamos a ser vistos com mais respeito, a Funarte deu uma boa ajuda na publicação de obras biográficas e discográficas, etc.

Uma curiosidade que cerca a todos que tem oportunidade de tomar conhecimento do seu acervo é de como começou tudo isso. Você poderia nos dizer como se deu o início dessa coleção? Foi a partir de que peça?

Nirez – Quando aniversariei em 1954 (20 anos) um amigo me ofertou um toca discos, pois sabia ser eu um apaixonado por música e a partir daí procurei adquirir discos para ouvir; foi quando percebi que eu não gostava da música da minha época, comprei uns 15 discos e parei. Descobri então os discos de reedição e passei a comprar antigas gravações das décadas de 1920, 1930 e 1940. Também comprei discos de segunda mão nas calçadas, sebos, etc, onde consegui muitas raridades. E a coisa foi crescendo e quando me vi cercado de nomes estranhos eu quis saber quem eles eram e procurei a literatura a respeito e formei uma biblioteca especializada no assunto. Depois procurei fotos a respeito do assunto a aí deparei-me com outro tipo de foto, da cidade, formando nova coleção. Em 1963 coloquei no ar o programa “Arquivo de Cera”, que ainda hoje está no ar, onde eu presto uma homenagem ao cantor, compositor, musico aniversariante do dia, quer seja de nascimento ou morte. E assim vem sendo até hoje. O programa já passou por várias emissoras de rádio e hoje está na Rádio Universitária FM.

Dentre os 22 mil discos do acervo de 78 RPM existe a predileção por algum? Qual(is) seria(m) aquele(s) que você destacaria?

Nirez – Gosto muito tanto dos discos da década de 30, que considero a época de ouro de nossa música como gosto do chamado período heróico, que foi o início, com gravações mecânicas de modinhas, dobrados, lundus, schottisch, polcas, mazurcas, que são de uma doçura inexplicável. Não tenho preferência por nenhum em particular. Com o tempo, analisando, colocando as coisas em seu devido tempo, perde-se essa história de preferência por cantor, compositor, orquestra, músico, etc. O importante é a peça musical que nos agrada.

O povo brasileiro tem a fama de ter a memória curta. Em sua opinião enquanto pesquisador e colecionador se dá devido a algum fator específico?

Nirez – Somos um país ainda de terceiro mundo, não temos o direito de ser saudosistas. Você vê que um beijo em filme ou na televisão tem que ter uma música americana como fundo, NUNCA uma brasileira. Só se ama em inglês. O americano se dá ao luxo de lançar uma coleção de discos homenageando os grande compositores e intérpretes de lá, com gravações originais; nós fazemos aqui uma imitação, porém com gravações recentes porque nos enoja usar as originais. E o trabalho perde seu valor.

Você, ao lado do pernambucano Leon Barg (dono do selo Revivendo e falecido em 2009) são, sem sombra de dúvidas, os maiores responsáveis pela preservação da memória musical brasileira registrada na primeira metade do século XX. Vocês mantinham alguma relação de amizade?

Nirez – Sim, fomos grandes amigos e eu me sentia na obrigação de podendo, completar sua coleção no que me fosse possível. Ele vinha na minha casa, via os discos que lhe interessavam e levava. Nós nunca trocamos um disco sequer. O disco que lhe interessava eu dava a ele, em contrapartida, quando eu ia à sua casa ele me presenteava com dezenas de raridades. Foi uma pena seu desaparecimento, A cultura nacional perdeu muito com isso.

Você hoje considera-se um homem realizado?

Nirez – Eu acho que ninguém deve se achar realizado. O homem que assim pensa ele se acomoda e deixa de produzir. Sempre acho que falta muito para eu fazer e o que eu pensei fazer não cheguei a concretizar.

Qual o maior presente que você ainda gostaria de ganhar ao longo dessa comemoração de seus 80 anos?

Nirez – É muito bom o reconhecimento. Não desejo mais do que isso. Obrigado.

* * *

Serviço

Arquivo Nirez:
Rua Professor João Bosco, 560, Rodolfo Teófilo
Telefones: (85) 3281-6949 (à noite) / (85) 9982-6439
e-mail: nirez@terra.com.br

Nirez na internet: Projeto Disco de Cera

Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE):
Av. Barão de Studart, 410 – Meireles
mis@secult.ce.gov.br
Visitas com grupos e pesquisa ao acervo: (85) 3101.1206
Aberto de segunda a sexta, de 8h às 17h.


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FLÁVIO ASSIS – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

A sonoridade de Flávio Assis pode ser analogamente comparada a uma espécie de rio, que constituído por um percurso bastante peculiar, deságua em uma gama de ritmos e influências agradavelmente abrangentes. Os principais afluentes desse rio são, sem sombra de dúvidas seus pais, que souberam como poucos substanciar a musicalidade do artista e com essas características destacáveis que o cantor e compositor vem atualmente na estrada divulgando o seu segundo álbum intitulado “Feira Livre”, que conta com a adesão do também cantor e compositor Roberto Mendes assinando a produção.

Flávio, apresentado ao público do JBF, nesta coluna na semana passada, através do texto intitulado FLÁVIO ASSIS APRESENTA UMA FEIRA IMBUÍDA DE RITMOS E BRASILIDADE, se dispôs gentilmente a nos conceder essa entrevista exclusiva onde aborda dentre outros temas sob o impacto que o atingiu na primeira audição do álbum “Expresso 2222″ do Gilberto Gil e como conheceu o cantor e compositor paraibano Chico César, que participou do seu primeiro álbum “A cor da noite”, lançado por Assis em 2009.

A primeira pergunta trata-se na verdade de uma curiosidade: quais as suas maiores e mais remotas reminiscências do seu envolvimento com a música?

Flávio Assis – As lembranças mais recônditas da minha relação com a música estão, fortemente, arraigadas à minha mãe, Dona Eliene. Lembro-me, criança, tentando acompanhar, cantando, as inúmeras canções que desabrochavam da sua vitrola. Também tem papel importante a cidade de Salinas da Margarida, no Recôncavo Baiano (onde morava meu avô materno, Seu Basílio, e onde eu passava minhas férias escolares). Foi lá onde eu ouvi, pela primeira vez, o som inconfundível dos tambores sagrados do Candomblé (rum, rumpi e lé)… Soavam-me como algo mágico, e eu me espreitava entre os adultos para assistir às cerimônias, alguns ritos públicos e, principalmente, suas festas. Meu avô, Seu Basílio, que tocava modas no cavaquinho também me instigava musicalmente. Foi em Salinas que eu conheci o samba-de-roda, as mulheres sambadeiras, os cânticos e toda magia rítmica deste patrimônio imaterial do povo brasileiro. No bairro onde cresci em Salvador, na década de 1980, o Cabula, convivi com uma pessoa que foi fundamental na minha relação com o violão, o Seu Gerson (que o considero como um segundo pai, para mim). Com ele descobri e me apaixonei pela minha maior influência musical, o Gilberto Gil. Ele tocava quase tudo do mestre baiano, sensacional! Seu Gerson foi quem, também me apresentou o universo lírico-harmônico, fabuloso, da Cantoria de mestres como Elomar, Vital Farias, Renato Teixeira, Xangai, Geraldo Azevedo e o piauiense, radicado em Goiás, Francisco Aafa. Agora, imagine todo esse caldeirão na cabeça de uma criança de 11 anos, já pensou? Considero-me um privilegiado!

Sua mãe Dona Eliene foi de extrema importância para a sua formação musical principalmente a partir da coleção de discos que ela possuía. A influência dela restringia-se apenas na questão da audição ou ela também dominava algum instrumento que acabou influenciando-o de certa forma assim como o seu pai?

FA – Diferente de meu pai, Seu Assis, minha mãe não tocava nenhum instrumento musical. O gosto eclético pela música, a forma “desavergonhada” com que ela, sem o menor constrangimento, punha um LP de Maria Bethânia para tocar e em seguida, Raul Seixas, o pernambucano Reginaldo Rossi, The Fevers e, pra fechar, Stevie Wonder, já pensou? Esse foi um dos seus maiores legados na minha formação, para muito além do artista que me tornei, mas do homem, do cidadão. Olhar para o mundo despido de pré-julgamentos, das amarras estéticas, tão inúteis. Fundamental!

Apesar de você ter passado por uma escola de música talvez tenha como grande formadora de sua arte as experiências noturnas em bares e espaços culturais de Salvador. Há algo que seja evidente nas canções de seus discos e que tenha sido assimilado desse período em que você tocou na noite?

FA – Não considero profunda, tampouco extensa, a minha relação com a “noite” nos bares da minha cidade natal, confesso. Fiquei pouco tempo inserido neste contexto, mesmo porque, em paralelo à música eu tive uma outra formação profissional, a de geógrafo, que me conduziu para a sala-de-aula, como professor da disciplina na Educação Básica. Aliás, profissão que ainda agora exerço, deus sabe até quando! Mas, claro que desse período tocando na noite ficou como herança, sem dúvida alguma, a plasticidade diante do repertório musical. Tocar na “noite”, exige muito da capacidade de diversificação do artista, não apenas com o repertório, mas com as sonoridades, timbres e interpretação, por exemplo.

Tanto nas letras quanto nas melodias o continente africano se faz bastante presente em seu trabalho. Esses aspectos parecem presentes em você de maneira muito arraigada. Deixe agora o geógrafo de lado e responda: nesta questão sonora a pangeia é algo ainda existente?

FA – Gostei dessa imagem, “pangeia sonora”, muito ilustrativa! Sim. Como artista, sou produto de um mosaico musical substancial, que permeia toda minha trajetória, como já disse anteriormente. Todas essas sonoridades não se traduzem em mim apenas como potência, mas estão presentes em amálgama, transfiguradas em mim, representam o meu “ethos musical”. Este “ethos” se traduz na minha condição de homem negro, pois ter na pele, “a cor da noite”, em nossa sociedade, é uma condição política. Tudo isso se reverbera, obviamente, na minha percepção de mundo, assentada sobre bases, ética, moral, espiritual, cultural e filosófica, de matriz africana, indelevelmente. Contudo, esta perspectiva pan-africanista desabrochou em mim, por volta dos meus 18 (dezoito) anos, quando lembro me apropriar de forma mais consciente deste tema. Então, no meu caso, com licença do neologismo, em mim o continente africano foi “(re)pangelizado”, por assim dizer, à minha existência.

Você vem trilhando uma carreira de maneira independente bastante interessante. Nos dois álbuns que foram lançados até então o reconhecimento pelo seu esforço não tem deixado de acontecer, tanto que no Prêmio da Música Brasileira deste ano você teve seu trabalho dentre os pré-selecionados. Qual a maior dificuldade em seguir um caminho alternativo dentro da música como este que você vem traçando?

FA – As dificuldades são inúmeras. Desde os obstáculos para inserção nas rádios à circulação do próprio trabalho. Com exceção da radio pública, aqui na Bahia, as demais obedecem a uma lógica mercadológica muito clara na sua grade de programação, a famosa máxima do “jabá”. A circulação, divulgação e distribuição, por exemplo, se dão majoritariamente a partir das redes virtuais. O advento da internet redimensionou o lugar e o papel da música independente em todo mundo, se instituindo como canal difusor importantíssimo, pôs em xeque a velha ordem das gravadoras e dos seus executivos. Na minha trajetória a internet tem sido imperativa do ponto de vista da divulgação e circulação do meu trabalho. Esse “bate-papo”, aqui no JBF, é um grande exemplo disso, ademais nos conhecemos na rede. Há mais ou menos uma semana, o CD Feira Livre passou a ser tocado em 10 (dez) rádios de Portugal, porque um produtor local assistiu ao show em Salvador e articulou, via rede, a inserção do trabalho nas mesmas. A distribuição do CD em formato digital, também é um grande exemplo. Tem aparecido compradores de diferentes partes do mundo, com os ouvidos curiosos para o trabalho, isso é muito bom!

Conte-nos acerca da sua aproximação com o Roberto Mendes e como surgiu o convite para que ele viesse a produzir este seu trabalho mais recente?

FA – Em primeiro lugar, eu sou um fã entusiasta da obra do Roberto Mendes, que é ímpar na Música Brasileira. Trabalhar ao lado do meu ídolo teve um sabor muito especial. Conheci o Roberto em 2008, à época da divulgação do seu livro “Chula: comportamento traduzido em canção” e do CD homônimo, uma verdadeira pérola, pouco conhecida do grande público, infelizmente. Então em 2010, estreei o show “Canção é mar”, onde tive a honra de tê-lo como convidado especial. A partir desse encontro passamos a nos falar com mais freqüência, o que nos permitiu nutrir uma amizade. Então, em junho de 2011, fui visitá-lo na sua casa em Santo Amaro da Purificação, para um papo, conselhos e claro, saborear uma legítima maniçoba. Foi desse encontro que surgiu a ideia de produzirmos um novo disco. Engraçado, porque a proposta inicial era muito diferente do resultado final. Roberto imaginou um disco muito próximo da sonoridade acústica, explorando o meu violão e as informações percussivas que minha forma de tocar o instrumento sugere. Mas aí surgiu o imponderável da condição humana, que é a inventividade, a capacidade eminentemente humana de (re)criar, (re)inventar, (re)elaborar , o que é fundamental na arte. Digo isso, porque os músicos/amigos envolvidos foram protagonistas desse processo. Tedy Santana (bateria), Cuca (percussão), Bóka Reis (percussão), Gustavo Caribé (baixo), Alex Mesquita (violão folk e guitarra), que arranjou, produziu e enviou as trilhas da sua participação de Los Angeles, com muito carinho e competência. Jurandir Santana (viola), Paulo Mutti (violão folk e guitarra), Jelber Oliveira (sanfona), Duarte Velloso (guitarra) e Dinho Filho (programação, edição e mixagem do disco). Enfim, uma turma da “pesada”, que tive a honra e o privilégio de trabalhar e compartilhar a minha arte com eles.

Em seu mais recente disco “Feira Livre” é bem perceptível características da sonoridade existente no recôncavo, tanto que já na primeira audição algo me remeteu, por exemplo, a saudosa Edith do Prato, que coincidentemente também foi produzida pelo Roberto Mendes. Esse tipo de sonoridade vem naturalmente devido as influências das fontes das quais você bebeu ou de certo modo tem a interferência do Roberto?

FA – Acredito que o disco “Feira Livre” seja um produto das duas coisas. As minhas influências já mencionadas de uma lado e o Roberto do outro, perfeitamente congruentes. Por exemplo, quando ouvi pela primeira vez “Expresso 2222”, do mestre Gilberto Gil, foi muito forte! A batida, o swing, a ginga, o “resfolego” e o “groove”, traduzidos no violão marcante de Gil, foram como uma grande revolução na cabeça de um menino de 11 (onze) anos, que ensaiava os primeiros acordes ao violão. Aquela sonoridade era e é Recôncavo em estado puro e, ao mesmo tempo, também é Luiz Gonzaga, é Jackson do Pandeiro, porque essas referências foram forjadas a partir de uma matriz negra e africana, tão bem traduzida na região do Recôncavo Baiano. Roberto Mendes representa para mim e toda uma geração de músicos na Bahia e no Brasil, em geral, a decodificação da trama rítmico-melódica que se constitui a chula, o embrião do grande produto genuinamente brasileiro, o samba. Por sua vez, o próprio Roberto já é o resultado de matrizes muito caras, como Dona Edith do Prato, que você muito bem citou, Dona Dalva de Cachoeira, os mestres tocadores, Seu João do Boi, Seu Alumínio e Seu Zé de Lelinha, por exemplo. Então o disco “Feira Livre”, é filho dessa profusão musical, cultural, simbólica e, fundamentalmente, comportamental. Nas palavras do mestre Roberto Mendes, o disco se transformou em uma “quermesse cultural”.

Como se deu a participação do Chico César no álbum “A cor da noite”, de 2009, seu disco de estreia?

FA – Conheci o Chico em 2006, em São Paulo. À época estive na capital paulista para o estabelecimento de redes e a realização de cinco shows e, coincidentemente, ele estava lançando o seu álbum, “De uns tempos pra cá”, em parceria com o “Quinteto da Paraíba”, que na minha modesta opinião, é o melhor da obra do mestre paraibano, uma obra basilar da Música Brasileira, genial! Então, ao final de 2008 quando iniciei o processo de pré-produção do disco “A Cor da Noite”, foi imediata a associação com o Chico, surgindo o convite, que ele topou de imediato. Fiz a pré-produção da faixa em Salvador e gravamos a voz do Chico no seu estúdio, em São Paulo. O Chico César é um artista raro, desses que já não surgem mais, com um senso crítico, uma percepção de mundo e de vida apuradíssima, uma grande figura humana. Sou fã do Chico, também uma grande Escola para mim.

Gostaria que, se possível, você discernisse o que podemos observar como principais características existentes entre este seu álbum atual (“Feira Livre”) e o que o antecedeu (“A cor da noite”). Àqueles que só tiveram a oportunidade de ouvir o mais recente o que pode encontrar como características nele que de certo modo remete ao trabalho anterior?

FA – Ao contrário do “Feira Livre”, cuja produção se deu de forma mais espontânea, com forte influência da percepção de cada músico envolvido no processo, o disco “A Cor da Noite”, produzido por mim e o baixista baiano, Gilmário Celso, foi inteiramente arranjado. Neste primeiro trabalho, cada nota musical ali registrada foi arranjada. Se por um lado este aspecto se traduziu em uma estética harmoniosa, muito bem elaborada, por outro engessou a possibilidade do trabalho se (re)inventar, porque estava preso aos ditames do arranjo. O disco “A Cor da Noite”, é fundamentalmente temático, a partir do referencial africano. Os arranjos foram concebidos a partir da referência polifônica da música contemporânea de África, a partir dos trabalhos de artistas como, Salif Keita, Youssu N’Dou, Morkta Samba, Richard Bona, Manecas Costa, Angelic Joe, Habib Koité e outros. Isso aparece muito intencionalmente no trabalho, foi uma escolha consciente do processo de produção do disco. O “Feira Livre”, é diferente, é mais solto, mais espontâneo, eu me reconheço mais inteiro, mais maduro obviamente. O disco “A Cor da Noite” ele está disponível, na íntegra, na nossa página no MySpace e ainda é comercializado, aqui em Salvador, em lojas especializadas.

Como tem sido feita a divulgação do álbum “Feira Livre”? Você tem percorrido o Brasil ou esse trabalho a princípio restringe-se apenas à Bahia?

FA – Agora no segundo semestre estamos com agenda prevista para São Paulo e Rio de Janeiro, para circulação do disco, o que deve ser uma tendência cada vez mais natural do trabalho, à medida que Salvador, infelizmente, é pouco favorável à produção artística independente, por diversos fatores.


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FLÁVIO ASSIS APRESENTA UMA FEIRA IMBUÍDA DE RITMOS E BRASILIDADE

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Todo mundo na vida já deve ter passado por uma ou ao menos tem ideia do que é uma feira livre e suas peculiaridades. Em qualquer lugar do mundo as características de tal evento são extremamente semelhantes e muitas vezes fidedignas uma a outra. É comum cada comerciante expor as suas diversas mercadorias e, por meio das devidas retóricas, procurar atrair o cliente exercendo o seu poder de persuasão. Geralmente se dá melhor aquele que apresenta uma mercadoria de boa procedência e de qualidade inquestionável, sem contar que ter um alto grau de discernimento sobre aquilo que expõe é fundamental para um êxito maior. Essa pequena introdução se faz necessária para a abordagem do artista que aqui vos apresento e a sua respectivo “mercadoria”. O produto ao qual me refiro na verdade trata-se do fruto da imaginação do artista, cujo caudaloso sumo de inspiração deu vazão ao disco “Feira Livre“, segundo trabalho autoral do cantor e compositor Flávio Assis.

Nascido na cidade de Salvador, Flávio traz arraigado em seus trabalhos autorais todas as fontes das quais bebeu e que hoje são alicerces de sua sonoridade, tecendo em suas letras e melodias um verdadeiro mosaico constituído por imagens diversas que nos remetem às peculiaridades da cultura nordestina, mas especificamente a baiana. Lugares como a Praça Castro Alves, passando pelo Dique do Tororó, Igreja do Bonfim e Elevador Lacerda tem lembranças cativas em suas letras e molodias. Tal qual o Rio Paraguaçu (o maior rio genuinamente baiano) nada detém a sonoridade de Assis, que perpassa por boa parte do território baiano absorvendo diversas influências que desembocam em sua música. Isso talvez pelo fato do senhor Francisco Assis e dona Eliene dos Santos ter concedido ao artista nascer na cidade do Salvador. Por falar em sua progenitora, é necessário falar um pouco sobre a sua coleção de LP’s que foi outro fator preponderantemente essencial para o interesse do pequeno Flávio pela música. Nomes como Djavan, Amado Batista, Luiz Gonzaga, Geraldo Azevedo, Roberto Carlos,Caetano, Raul Seixas, Elis Regina, Chico Buarque entre tantos outros faziam parte do acervo dela e talvez por isso Assis a considere a primeira professora de música, por ser a pessoa que o ensinou a ouvir diversos artistas com ouvidos despidos de pré-julgamentos, de rótulos. A partir daí o violão se fez uma constância na vida de Flávio Assis ao longo de boa parte da infância e início da adolescência, sobretudo por influenciado do pai (que dedilhava melodias de Luiz Gonzaga) e o vizinho Gerson Veloso.

Ao completar treze anos mergulhou em definitivo no aprendizado de um instrumento e passou a estudar de maneira formal tanto o violão clássico quanto popular até os 17 anos, onde a partir daí passou a estudar na escola da vida tendo lições diárias ao tocar nas noites da capital baiana. Posteriormente acabou tornando-se professor (depois de passar pelo curso de geografia na Universidade Federal da Bahia) e em 2009 lançou o seu primeiro disco, cujo título é “A Cor da Noite”. Neste álbum de estreia a produção ficou a cargo do próprio artista e do músico Gilmário Celso e traz como repertório canções autorais a partir de suas expressões melódicas, harmônicas e textuais afro-brasileiras. O álbum conta com a participação do cantor e compositor paraibano Chico César.

Três anos depois, o trabalho da vez veio a ser “Feira Livre” disco que vem sendo divulgado pelo artista desde então. São 13 faixas autorais que perpassam pela sonoridade do recôncavo baiano, como se evidencia nos toques de origem africano presentes em “Sexta-feira“. A canção com termos em yorubá e saudações a orixás celebra o dia que é almejado por muitos ao longo da da semana; já o amor chega carregado de sonoridade no belíssimo afoxé “Cambuí“. A faixa posterior (“Embolá“) mescla a embolada nordestina com maracatu (outro ritmo genuinamente da região) em uma simbiose interessante, mostrando as peculiaridades da linguagem coloquial interiorana.

Na faixa seguinte, “Sertança“, Assis traz a elementos sonoros cosmopolitas em uma letra que aborda as agruras e características do sertão, cujo refrão nos remete ao grande clássico “Baião da Penha” de autoria Luiz Gonzaga e Guio de Moraes. A faixa posterior é a que batiza o álbum, o disco segue trazendo um samba em forma de ode a uma moça prosa que quando entra na roda ganha passe livre também para dançar no coração do interprete, esta canção leva o nome da tal dançarina: “Maria“. O álbum segue com a balada “Bouquet” que denuncia a auto-definição do artista quando diz: “Minha percepção musical é necessariamente polifônica” e “Areia” (faixa que devido ao “ocean drum” nos remete a um contexto marítimo). “Se Fosse Mar” (sem dúvida o momento mais intimista do disco) vem sob novamente sob égide do amor. Já o reggae “Meias de lã” recorre a saudade e o amor como eixo central e tem como letra um lirismo interessante, impregnado de elementos do cotidiano de um casal.

A trinca que encerra o disco é composta pelas canções “Bembé do Mercado” (canção composta em homenagem ao evento que ocorre anualmente no município baiano de Santo Amaro da Purificação para celebrar a abolição da escravatura), “Zabelê” e por fim “Trezena” (canção cujo título faz alusão ao nome que é dado aos treze dias de encontros destinados às orações concedidas a Santo Antônio). Conduzindo a produção deste trabalho está o instrumentista, cantor e compositor Roberto Mendes e sob a sua égide estão presentes Tedy Santana (bateria), Gustavo Caribé (baixo), Duarte Velloso e Paulo Mutti (guitarras), Bóka Reis e Cuca (percussões), Jelber Oliveira (sanfona), Alex Mesquita (violão folk), Dinho Filho (coro e sampler) e Jurandir Santana (viola). Sem contar com o agradável design do disco, cuja concepção foi desenvolvida pela gráfica AF Design buscando alcançar e refletir aquilo que se faz de modo mais evidente no disco: elementos sonoros de pluralidade diversas que somando-se em suas peculiaridades formam uma coerente unidade.

São letras e melodias que retratam de forma fidedigna um pouco do muito que a sonoridade tem a partir da Bahia, que tanto já foi cantada em verso e prosa por diversos nomes do cancioneiro popular brasileiro. Distante daquilo que é lúgubre e sempre em consonância com a alegria,Assis perpassa a partir de uma fusão de ritmos (uma espécie de polifonia que segundo o próprio ampara a sua arte) de maneira hibrida, por pelas fontes das quais bebeu, fazendo desse trabalho um verdadeiro cartão-postal de sonoridade sem igual.

Se posso me apropriar de algum neologismo para definir o trabalho deste artista seria “baianidade”, cujo termo seria a síntese ideal para definir um misto de musicalidade e Bahia (dois termos indissociáveis). Assim como a Ponta de Humaitá, o Abaeté, Ondina e Itapoã a música de Flavio Assis é algo indissociável ao estado. Mais um talento para somar forças à rica sonoridade existente em nossa música.

Para a audição dos amigos leitores deixo aqui duas canções do cantor e compositor Flávio Assis e que encontram-se presente no álbum “Feira Livre“. A primeira trata-se de “Sertança”:

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Já a segunda canção vem a ser “Embola“, outra canção da lavra do próprio artista:

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LETÍCIA SCARPA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com mais de 20 anos de estrada, Letícia Scarpa mostra-se uma profissional inquieta, procurando aplicar as suas aptidões naquilo que acredita, sempre pautando-se na excelência. Ela é o tipo de profissional que se joga de corpo e alma em seus projetos, dando o melhor de si naquilo que faz, e com esse novo desafio não seria diferente.

A artista, que já atuou em telenovela, locuções, passando pelo cinema e também na apresentação de programas de tv (atividades estas que puderam ser conferidas na pauta publicada aqui mesmo neste espaço a duas semanas atrás sob o título ” CONTEMPORANEIDADE E TRADIÇÃO FUNDEM-SE EM “LÊ”, ÁLBUM DE ESTREIA DE LETÍCIA SCARPA”) vem atualmente mostrando o seu primeiro disco lançado ao longo do segundo semestre de 2011.

Batizado de “Lê”, este trabalho mostra as novas habilidades dessa multifacetada mulher, dentre as quais o seu lado compositora, que aparece em 11 das 12 faixas existentes no trabalho. O resultado dessa nova aventura não poderia ser melhor, Letícia tem tido ótima receptividade tanto da crítica especializada quanto do público e a prova disto se dá através de alguns acontecimentos relevantes dentre os quais a pré-seleção ao Prêmio da Música Brasileira (maior premiação da música brasileira) e a execução de algumas faixas executadas em programas de rádio norte-americanos.

De maneira atenciosamente como sempre, a artista concedeu esta entrevista exclusiva para os leitores do JBF. E nesse bate-papo ela conta, dentre outras coisas, sobre a escolha do repertório do disco, sobre a sua receptividade as novas experiências profissionais e fala também um pouco sobre sua pretensão de cair na estrada com o repertório do disco como vocês podem conferir a seguir.

* * *

Como se deu o seu envolvimento com a música? É algo inato que vem da infância sob influência de alguém da família ou não?

Letícia Scarpa – Meus pais sempre gostaram de música e a música sempre esteve muito presente em minha vida desde menina. Ouvíamos muita música, dos mais variados estilos. E eu gostava não só de ouvir, de cantar junto também. Mas não posso dizer que o meu envolvimento profissional com a música, ou até com as artes, seja por influência direta de alguém da família, pois não há ninguém que tenha se profissionalizado nessa área. Fui descobrindo a possibilidade de fazer música aos poucos, estudando e abrindo caminhos em minha vida para que ela pudesse acontecer de outra forma.

Quem acompanhou a pauta referente ao lançamento desse seu trabalho de estreia percebeu que você tem um extenso currículo no meio artístico nessas duas décadas de carreira. Apesar de você ter passado dentre outras experiências por aulas de canto, percepção musical, harmonia, improvisação, arranjo e composição porque só resolveu se aventurar no canto agora?

LS – Vejo a aventura de cantar como um movimento natural da minha carreira artística. O canto é mais uma maneira de me expressar que experimento agora. Como atriz, cantei profissionalmente algumas vezes, como quando participei de um espetáculo musical ou em gravações de histórias infantis. Eram situações específicas, nas quais o canto complementava minha atuação, quem cantava era o personagem. Em função do meu trabalho, sempre investi em aulas de canto como um complemento à minha formação. Estudei com Nancy Miranda, Vivi Keller, Mara Melges, Paulo Brito, e fui aos poucos descobrindo a Letícia cantora. A ideia de gravar um CD era para mim um daqueles sonhos de criança que você acha que nunca vai realizar, e foi aos poucos criando forma. Mas no início achava que gravaria um CD como intérprete, não pensava em compor. Então, há algum tempo, senti necessidade de me aprofundar no conhecimento da música e parti para um curso mais completo. Descobri então a Letícia compositora e cantar acabou sendo consequência.

Na sonoridade do álbum, evidenciam-se de certo modo, as suas raízes pernambucanas em “Zumbaiá”, faixa do disco que se aproxima dos ritmos nordestinos e que conta com a participação do ator, cantor e dançarino Antônio Carlos Nóbrega. Como surgiu a ideia desse convite e a participação desse múltiplo artista?

LS – Minhas raízes estão plantadas em muitos cantos. Costumo falar que tenho o sangue “puro brasileiro”, ou seja, uma mistura total. E é claro que isso acaba aparecendo na música que faço. Meu pai é pernambucano, e a Zumbaiá traz forte influência dos ritmos nordestinos. Isso ficou ainda mais claro com a participação do Antônio Nóbrega, um dos muitos presentes que recebi neste trabalho. Conheci o Nóbrega há mais de 20 anos, quando ele estava se instalando no espaço que ocupa hoje na Vila Madalena, aqui em São Paulo, o Brincante. Eu estava terminando o curso de Arquitetura na USP e, a convite de um professor, acompanhei e registrei todo o processo de “nascimento” daquele espaço, que foi tema do meu trabalho de graduação. Quando o arranjo da Zumbaiá foi se delineando e o baião foi se mostrando, o Edu Maranhão (com quem produzi o CD) e eu pensamos em convidar o Nóbrega, não só pelo ritmo nordestino, mas também, como estava fazendo um CD autoral, por ele fazer parte de um pedaço da minha história pessoal.

“Lê” é um disco essencialmente autoral. Só não se faz por inteiro por conta da canção “Temporal”, que é uma composição do Edu Maranhão. Como se deu a escolha dessa faixa especificamente?

LS – Temporal é uma música muito especial para mim. É uma daquelas que eu queria ter feito. Foi “paixão à primeira audição”. Muito antes de eu começar a trabalhar no CD, o Edu tocou a Temporal para mim e eu me encantei imediatamente. Tocou minha alma. Assim que ele terminou de tocar eu disse que queria ser a primeira a gravá-la. Quando estávamos escolhendo as músicas para o CD, mesmo sendo a única canção que eu não assino como compositora, nem cogitei deixar de fora. Minha relação com esta canção é tamanha que, curiosamente, certa vez, o Edu Maranhão disse para alguém que ela era também parceria nossa, mas não é.

O título do disco nos remete não só a abreviação do seu nome, mas também sugere uma espécie de convite à leitura. Leitura esta que deve se dar de maneira auditiva e sensitiva. Como se deu a escolha do título do álbum?

LS – Como todo trabalho autoral, até a escolha do título foi um processo. Muitos artistas usam só o próprio nome como título num primeiro trabalho, mas eu queria que o título do meu CD dissesse algo mais sobre o trabalho. Chegamos a pensar em usar o nome de uma das canções, mas acabamos optando por LÊ pela múltipla possibilidade de interpretação. É um convite à leitura dos textos, já que muitas das canções que componho vêm de poemas que escrevo, e também à leitura da música como um todo através dos outros sentidos, além, claro, da referência ao meu nome.

As suas experiências anteriores tanto na televisão quanto no teatro como atriz e apresentadora e locutora foram valiosas até que ponto pra emoldurar Letícia Scarpa enquanto cantora?

LS – Muito. As linguagens do teatro, da televisão e do áudio, como atriz, locutora ou cantora, são muito diferentes, mas ao mesmo tempo têm muitas intersecções. E as experiências que tive nas outras áreas fazem parte do meu repertório pessoal de possibilidades artísticas. Sem dúvida esse repertório se faz presente na hora de cantar, não tem como ser diferente. E acredito que ele enriqueça e amplie as possibilidades da Letícia cantora.

O seu lado “ourives” também se faz presente no momento em que você compõe ou restringem-se ao momento em que está a serviço da hl6?

LS – Pra mim é tudo uma coisa só. Música, jóias, teatro, TV… Mudam as formas, mas tudo é expressão, são maneiras de eu interagir com o mundo, explorando os sentidos, investigando, questionando, experimentando, ousando… Meu olhar estético permeia tudo isso procurando fugir de regras ou pretensões. Na HL6 eu desenho e faço jóias como pequenas esculturas de usar. Componho e faço arranjos musicais como quem constrói uma jóia ou um personagem. E por aí vai… O lado bom de passear por tantas formas de expressão é que eu posso ir me libertando dos vícios e regras de cada uma delas, o que acaba trazendo um certo frescor ao que faço.

Na elaboração do álbum dois nomes figuram com um certo destaque: Edu Maranhão e Michele Wankenne. Você poderia nos dizer de que modo surgiram essas profícuas parcerias?

LS – O Edu Maranhão foi figura chave na elaboração deste trabalho. É meu parceiro de composição e com ele fiz os arranjos e a produção do CD. Além disso, toca vários instrumentos. Ele é muito talentoso. Ouvi o trabalho do Rodrigo Del Arc, que ele havia produzido e gostei muito. Então, convidei-o para produzir o meu CD. Começamos a compor e foi um belo encontro, temos muitas afinidades artísticas e em alguns aspectos somos complementares. Isso traz grande fluência para o nosso trabalho juntos e ao mesmo tempo amplia os olhares sobre o que estamos fazendo. A Michele Wankenne é outra parceira muito querida e talentosa. Um dia, conversando, surgiu a idéia de tentarmos compor juntas. Nosso trabalho fluiu muito bem desde o primeiro encontro e seguimos compondo. Acho que as parcerias são assim mesmo. Se tiver que ser, é e pronto.

Como têm sido receber notícias como a que seu álbum de estreia está entre os pré-selecionados para o maior prêmio da música popular brasileira e faz parte dos playlist do programa “Som do Brasil – O melhor da Música Brasileira de Todos os Tempos”, na rádio WKCR 89,9 FM de Nova York?

LS – Tenho recebido muitos presentes maravilhosos com este trabalho. Estes são alguns deles… Fiz o CD por uma necessidade artística pessoal, é um trabalho independente, sem direcionamentos comerciais. Então, fico muito feliz de ver este “filho” ganhando mundo e sendo reconhecido. Saber da pré-seleção para o Prêmio da Música Brasileira foi uma grande surpresa para mim e uma alegria enorme. Tocar em Nova York e na Bélgica em programas de MPB, ao lado dos grandes nomes da nossa música, que foram e são referência para mim e para o meu trabalho, é uma grande honra. Também é muito bom ouvir comentários bacanas, tanto de profissionais da música como dos ouvintes, e saber que as pessoas estão curtindo meu álbum. Tudo isso me incentiva a continuar querendo fazer música cada vez melhor.

Há pretensões em cair na estrada com este álbum de estreia ou as atividades exercidas paralelamente impossibilitam a princípio esse desejo?

LS – A adaptação deste trabalho para palco é mais uma empreitada criativa do tamanho ou até maior que a de produzir o CD, pois o álbum foi construído sem a preocupação com o formato, as possibilidades e as limitações de um show. Escolhemos o que achávamos mais adequado para os arranjos de cada canção. Utilizamos uma grande variedade de instrumentos para a construção dos diferentes ritmos. Para fazer o show da forma que eu gostaria teria que ter mais disponibilidade e deixar de lado as outras atividades, pelo menos por um tempo, o que para mim é inviável neste momento. E também já estou trabalhando nas composições e na elaboração de um próximo projeto de gravação enquanto divulgo este trabalho. Tudo isso faz com que meu desejo de colocar o LÊ no palco tenha que esperar um pouco, por enquanto.


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ELE SOUBE COMO POUCOS CANTAR O MAIS GENUÍNO DOS GÊNEROS MUSICAIS DO BRASIL

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Em mais de cinco décadas de estrada, Jair Rodrigues teve sua carreira pontuada por antológicas interpretações

Uma das características principais que regem o povo brasileiro é sem sombra de dúvidas a alegria. Adjetivo este que muitas vezes é perceptível nas mais singelas atitudes e quase sempre deixa-se expressar no cerne do nosso cotidiano principalmente através de nossas manifestações artístico-culturais.

Ao analisarmos este contexto perceberemos que o samba assume importantíssimo papel na expressão mais bairrista e genuína dessa alegria podendo inclusive elencarmos alguns nomes como verdadeiros representantes do gênero como é o caso deste artista nascido no interior de São Paulo em 1939. Mesmo perpassando por outros diversos gêneros musicais ao longo de sua extensa carreira, Jair Rodrigues encontrou no samba o porto seguro para a sua contagiante e pueril alegria tornando-se, ao longo dos seus mais de meia década de carreira, um dos maiores representantes deste gênero que melhor representa o nosso país.

Popularmente conhecido como intérpretes de antológicos sambas, Jair passou a ser porta-estandarte do gênero já a partir dos seus primeiros registros fonográficos como é perceptível nos títulos lançados em 1964 pela Philips: “Vou de samba com você” e “O samba como ele é”, que apesar de trazer um intérprete em início de carreira já é capaz de demostrar um grande potencial que viria a se revelar ao longo dos anos posteriores. À época o samba estava em alta. Vem deste período diversos lançamento fonográficos tendo o termo samba como título assim como os álbuns de Jair.

Enumerando alguns, só em 1964, traria como exemplo LP’s como o da conceituada intérprete Elza Soares (com Na Roda do Samba), o do promissor Jorge Ben (com Sacundin Ben samba e Ben é samba bom), o da gaúcha recém chegada a São Paulo Elis Regina (com Samba eu Canto Assim) e o do já ascendente Wilson Simonal (com A Nova Dimensão do Samba). Essa enxurrada de discos sobre a mesma temática já seria motivo mais que suficiente para que o brilho do artista igarapavense acabasse sendo de algum modo ofuscado, no entanto o que aconteceu foi justamente o inverso.

Neste mesmo ano, através da TV Excelsior do Rio canal 2, Jair Rodrigues estreou ao lado de Elis Regina o programa “Dois na Bossa“, que acabou gerando a gravação de uma série de três LP’s ao vivo e que foi de fundamental importância para a carreira do artista. Soma-se a isso o estrondoso sucesso da canção Disparada (composta em 1966 pela dupla Geraldo Vandré e Theo de Barros) que após ser visceralmente defendida por Jair no II Festival da Música Popular Brasileira tornou-se imprescindível em seu set-list. Sem contar também que o artista acabou tornando-se o primeiro rapper brasileiro ao gravar a canção “Deixa isso pra lá” (de autoria de Alberto Paz e Edson Menezes), canção esta que foi levada primeiro ao cantor Wilson Simonal, que recusando-a por não ter se agrado com ela possibilitou a Jair gravar aquela que viria a ser o seu maior sucesso. É por acontecimentos como estes que a década de 1960 acabou tornando-se talvez a mais expressiva dentro dos cinquenta anos de carreira de Jair Rodrigues.

De cunho rural, Disparada trouxe a possibilidade de Jair Rodrigues mostrar que suas vigorosas interpretações não restringia-se a apenas um gênero, ampliando a visibilidade do seu canto e oportunizando a a aglutinação de outros ritmos à sua carreira artística como é perceptível a partir de álbuns como “Carinhoso” (1983), “De Todas as Bossas” (1998), “Antologia da Seresta” (lançados em dois volumes nos anos de 1979 e 1981) entre outros títulos que acabaram tornando-se responsáveis por possibilitar o afloramento de uma latente sensibilidade presente por trás dos reluzentes sambas.

É possível perceber-se tais características em antológicas interpretações como a presente no álbum “Jair Rodrigues” de 1985, onde ao interpretar a faixa “A majestade, o sabiá“, revela a até então desconhecida compositora Roberta Miranda assim como também o tema de abertura do folhetim “Irmãos Coragem”. Escrita por Janete Clair a composição de Nonato Buzar e Paulinho Tapajós com título homônimo a novela entrou nos lares de milhares de brasileiros todas as noites durante pouco mais de um ano gerando a possibilidade de Jair comprovar a sua versatilidade.

No entanto é preciso ressaltar que o Cachorrão (como era conhecido Jair no meio artístico) nunca deixou o gênero que o consagrou de lado como se é possível perceber ao longo de toda a sua carreira. Discos como “Festa para um rei negro” (1971), “Viva meu samba” (1994), “Estou Com o Samba e Não Abro” (1977), “Orgulho de um sambista” (1973), “Eu Sou o Samba” (1975), “Jair de todos os sambas” (lançados em dois volumes ainda na década de 1960) e “Samba mesmo” (álbum que seria seu último registro em disco lançado em dois volumes neste ano de 2014 em comemoração aos 50 anos de carreira fonográfica e aos 75 anos de idade) são provas documentais disto.

Responsável por disparar Jair definitivamente para o hall dos grandes intérpretes de nossa música, o samba acabou tornando-se o elo mais vigoroso do canto do artista com as raízes musicais brasileiras permitindo a Jair deixar como legado, além das antológicas interpretações e dois talentosíssimos filhos, um eterno sorriso que iluminará por muitos e muitos anos a memória daqueles que assim como eu, além de ser apaixonado por samba, buscam a alegria como dom.

Agora deixo aos amigos do JBF duas canções que pontuaram a carreira do Jair Rodrigues em duas épocas dinstintas. A primeira trata-se do rap “Deixa isso pra lá” dos já anteriormente citados Alberto Paz e Edson Menezes:

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A segunda trata-se de “A majestade, o sabiá“, canção da lavra da paraibana Roberta Miranda. Com esta canção a compositora nordestina impulsionou a carreira de tal modo que viria a se tornar um dos grandes nomes da chamada música sertaneja nos anos seguintes:

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CONTEMPORANEIDADE E TRADIÇÃO FUNDEM-SE EM “LÊ”, ÁLBUM DE ESTREIA DE LETÍCIA SCARPA

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Letícia Scarpa

É bem provável que você deva ter ouvido o nome desta artista presente esta semana aqui em nosso espaço. Na televisão Letícia Scarpa já foi apresentadora da TV Cultura em programas como o “Vestibulando” e “Projeto Ipê”; na TV Bandeirantes em programas como o “Super Sessão Philco” e “Raio X do ABC”; no SBT atuou em novelas como “Éramos Seis” e “Pérola Negra”, além da série Telecurso 2000. Em mais de 20 anos de carreira a artista participou também de diversas peças teatrais tais como “O Sonho de Alice” (musical infantil de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, dirigido por Tanah Corrêa, incluindo aí a gravação das canções) e “A Sauna”, de Nell Dunn, (ao lado de Liana Duval, Imara Reis, Suzy Rego e Ísis de Oliveira, com direção de Wolf Maya) entre outras. Além disso, ainda figurou no filme “Meninos de Deus” e exerce a profissão de locutora, tendo um extenso currículo sempre procurando atrelar qualidade naquilo que faz.

Talvez por esta razão Letícia é considerada uma artista completa, tendo como diferencial a dedicação plena aos trabalhos em que se envolve, trazendo consequentemente um tipo de excelência a esses múltiplos projetos por ela abraçados. Com a música e a poesia não poderia ser diferente, uma vez que as mesmas fazem parte do contexto da artista desde longa data. Não é de hoje que Letícia deixa-se envolver com poemas e composições, pois para ela é algo natural. Além disso a multifacetada Letícia estudou canto em locais como Instituto Magda Tagliaferro e Voice Centro de Educação Musical, onde fez também o curso de percepção musical, harmonia, improvisação, arranjo e composição. Isso talvez seja a justificativa mais coerente para explicar a segurança apresentada neste seu álbum de estreia.

Há de se levar em consideração que talvez o disco só tenha surgido agora por ser o resultado da plenitude de uma aptidão inata ao seu talento, onde o tempo foi precioso na maturação das ideias e melodias congênitas que só agora afloraram a partir deste álbum cujo título é a abreviação do seu nome: “Lê”. Pleno de brasilidade, este primeiro álbum de Letícia Scarpa traz uma significativa amostra de toda a diversidade musical existente em nosso país, imprimindo em cada uma das faixas uma expressiva tessitura trazida a partir de suas vivências culturais mundo a fora; pois se existe um pessoa que pode ser considerada cidadã do mundo esse alguém chama-se Letícia Scarpa. De origem pernambucana e mineira, esta paulistana não só já andou pelos quatro cantos do mundo como também teve a possibilidade de em cada um desses lugares beber de suas respectivas fontes culturais, aglutinando e expondo a sua pluralidade pessoal a serviço da arte e da música como pode ser visto impresso neste disco.

No entanto, sua incursões ao redor do mundo não impediram a artista de trazer em sua sonoridade os gêneros genuinamente brasileiros, ritmos estes que são capazes de nos regozijar o suficiente para entendermos que sua vivência cosmopolita não deixou que fosse perdido ao longo das estradas por qual passou as suas diferentes raízes, a sua essência. O álbum apresenta doze faixas que passeiam por sonoridades distintas, mas que ao mesmo tempo se completam nesse trabalho que traz em seu cerne um retalho de influências diversas, mostrando o retrato de um Brasil composto por uma pluralidade rítmica e cultural, seja nas composições da própria Letícia Scarpa ou na única canção que não faz parte da lavra da artista e é assinada por um de seus parceiros.

A faixa que abre o álbum (“Canto”) mostra de cara uma miscelânea interessante e instigante, que vai desde o jogo de palavras que compõe uma letra (evidenciando uma estilística de repetição) até a atípica sonoridade da melodia (composta por bujão de gás, papel rasgado e amassado). A impressão que temos é que o ouvinte não consiga decifrar de fato aquilo que ela queira dizer ainda na primeira faixa, mas ao mesmo tempo percebemos que essa característica provavelmente servirá de chamariz e prenderá o ouvinte ao longo das outras faixas que compõem o disco. O álbum segue com “Zumbaiá” (Letícia Scarpa e Michele Wankenne), música que nos remete a mais genuína sonoridade produzida em nosso nordeste e conta com a participação especial do performático artista pernambucano Antônio Carlos Nóbrega.

Na lavra das canções que trazem os recorrentes temas amorosos estão “Sublime” (Evaldo Tocantins, Michele Wankennee Letícia Scarpa), “Ausência” e “Lá lugar nenhum” (ambas de autoria de Letícia Scarpa e Edu Maranhão), a primeira traz o amor sob a ótica da necessidade de vivê-lo em toda a sua plenitude, a segunda aborda o amor a partir da saudade enquanto a terceira traduz um amor quase infantil de tão terno. Por falar em infância, a canção que melhor nos remete a infância é “Balão” (Letícia Scarpa e Edu Maranhão) que em sua letra quase pueril traz uma singeleza interessante, nos trazendo uma gostosa sensação de reminiscência.

Já “Mulher de mil mulheres” (Letícia Scarpa e Edu Maranhão) presta uma singela homenagem ao sexo feminino e todas as especiais peculiaridades existentes dentro de cada uma que as fazem múltiplas. No álbum também há temas que recorrem à natureza como é o caso de “Temporal” de autoria do Edu Maranhão (única canção que não leva entre os compositores a assinatura da cantora) e “O canto do passarinho” de autoria única de Letícia Scarpa. Entre as três últimas faixas que fecham o disco estão “Colorindo estrelas” (Letícia Scarpa e Michele Wankenne) que recorre novamente ao amor como eixo central e os sambas “Blá bla blá” e “Toma lá dá cá” novamente de autoria da Letícia e da Michele. Um ritmo tão contagiante quanto o samba não poderia faltar nesse mosaico, apresentando-se de maneira vigorosa sob o aviso: “a roda de samba é grande cabe quem quiser entrar”.

Na contextura do trabalho, além da Letícia encontra-se Edu Maranhão (produção, violões, programações diversas, bujão de gás, papel rasgado e amassado, pads, kazoo, coro, voz, triângulo, cabaça indígena), Peter Mesquita (baixos acústico, elétrico, com arco e fretless),Stanley (acordeon), Eduardo Macedo (flautas), Fábio Mauro e Leandro Brenner (violões e guitarras), Bruno Tessele (bateria), Fábio Sá (baixo elétrico), Digo do Cavaco(bandolim), Michele Wankenne e Rodrido Del Arc (coro), além de Alex Reis, Rafael y Castro, Júlio César, Kadu Fernandes e participação de Caito Marcondes nas percussões. Vale trazer ao conhecimento dos nossos leitores que as faixas desse álbum de estreia fizeram parte do playlist do programa “Som do Brasil – O melhor da Música Brasileira de Todos os Tempos”, na rádio WKCR 89,9 FM de Nova York por um bom tempo. Sem contar que em 2012 o disco esteve entre os pré-selecionados da maior premiação acerca de música em nosso país, o Prêmio da Música Brasileira, atestando todas as qualidade da Letícia Scarpa enaltecidas aqui, reconhecendo um talento múltiplo o qual devemos dar boas vindas para o hall dos grandes talentos de nossa música.

Advindo do álbum de estreia duas composições: A primeira, que conta com a participação do multifacetado Antonio Nóbrega, trata-se da “Zumbaiá“, parceria da artista com Michele Wankenne:

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A segunda canção é “Toma Lá Dá Cá“, outra parceria da dupla Michele e Letícia:

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SE CAYMMI NÃO EXISTISSE?

CCMM

Ainda externando a minha profunda admiração pelo irrepreensível mestre Dorival Caymmi, hoje apresento algo diferente do habitual.

Trago aos amigos leitores uma letra que escrevi após a publicação do artigo publicado ao longo da última semana.

Me veio o questionamento: E se Caymmi não existisse?

Essa indagação me deu o respaldo necessário para eu me aventuar neste universo que alguns amigos leitores aqui presentes conhecem tão bem.

Eis o resultado:

Se Caymmi não existisse?

Se Caymmi não existisse
Seria tolice pensar em canção,
No meu violão não haveria Doralice,
Nem toda meiguice,
Da bossa do João.

Sem Caymmi o mar da Bahia,
Perderia a magia e a cor do Algodão,
Pra dar bofetão o João resistiria,
Sem toda a poesia,
Que o fez valentão.

Se Caymmi não existisse,
Seria mesmice a tal da criação,
O barro na mão seria heresia,
Marina morena não existiria.
Sem Adalgisa e Dora Rainha,
Severo do pão vendendo aberém,
A glória e o dinheiro não estariam aquém,
De uma felicidade que se fez mesquinha.

Se Caymmi não existisse
Talvez eu aderisse à mitologia
Netuno seria o Rei desse mar
Levando a cantiga para desaguar
Pra um mar tão distante que não o da Bahia


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DORIVAL CAYMMI, O NETUNO DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

dorival caymmi copy

A música popular brasileira, como todos devem saber, sempre foi constituída pelos mais variados elementos rítmicos. Isso se deu a partir da absorção e fusão das diversas influências culturais que sempre constituíram a nossa identidade ao longo de nossa história a partir da miscigenação a qual o povo brasileiro foi submetida ao longo de todos esses anos de formação. A junção desses elementos através das mais distintas culturas acabou por enriquecer nossa música de modo sem igual, fazendo-a uma das mais respeitadas ao redor do mundo por peculiaridades que são encontradas apenas a partir dessa coisa tão genuína e brasileira.

Ao longo da formação dessa sonoridade tão particularmente nossa é preciso destacar alguns nomes que servem e serviram não apenas para fundamentação dessa matriz sonora, mas para a constituição de certo modo de nossa identidade cultural a partir do século XX. Por mais que tentemos pontuá-la a partir de alguns marcos, há nomes que de tão emblemáticos transpõe-se ao tempo como é o caso de Dorival Caymmi, que apesar de uma obra escassa em quantidade traz nestas canções uma imensurável qualidade que acabou tornando-se imprescindível para a constituição da música brasileira como hoje ela é.

Pontuada em três momentos distintos, a obra de Dorival Caymmi traz em cada uma delas uma ótica singela e aparentemente óbvia, mas que no entanto só foi possível ser observada a partir da perspicácia do mestre baiano. Só Caymmi soube dar ritmo as peculiaridades de uma Bahia que hoje não existe mais através de sua gente e seu cotidiano; quando já morador do Rio de Janeiro, na década de 1950, foi capaz de compor diversos samba-canções fazendo, de certo modo, do seu violão o local onde o Rio fez-se mais baiano. Sem contar nas canções praieiras, fase insuperável deste cantor que fez-se Netuno em versos e canções impregnadas de mar.

E eu, de modo particular, tenho uma grande feição pelo mestre baiano, pois desses grandes nomes da música brasileira que hoje encontram-se no panteão da cultura nacional Dorival (juntamente com Jobim) foram os únicos que eu tive a oportunidade de conhecer quando os mesmos ainda encontravam-se vivos. O contato com a obra do Tom foi em uma dimensão menor, no entanto com os versos e melodias de Caymmi não… da grande festa em forma de show pela passagem dos 80 anos do mestre em diante fui ao pouco me habituando a ouvir “Oração a mãe menininha“, “A vizinha do lado“, as canções praieiras e tantas outras que fazem parte desse universo tão particular do mestre baiano. Em seguida tive a oportunidade de estar presente em um dos shows em comemoração aos 90 anos de Caymmi. Era uma grande celebração onde os três talentosíssimos filhos curvavam-se diante da obra do pai.

A obra de Caymmi nos encanta tal qual como a lenda do canto da sereia. A batida do violão, o modo simples de dizer tudo e tantas outras peculiaridades condicionam-nos de modo que torna-se impossível não admirá-lo e venerá-lo. Essa afirmação pode ser atestada a partir da opinião de alguns dos grandes nomes de nossa música a partir da segunda metade do século XX como Chico Buarque, Caetano Veloso entre tantos. João Gilberto tem uma sucinta, porém irretocável definição para o mestre baiano: “Caymmi é o verdadeiro gênio da raça”. Se vivo estivesse (Caymmi faleceu em 2008, aos 94 anos de idade) este mês esse ícone da música completa um século de existência. Mas não importa a sua presença física, pois sua obra de tão imensurável que tornou-se hoje faz-se onipresente tal qual Gil escreveu para homenagear seu grande ídolo na década de 1990 a partir dos versos de Buda Nagô: “Dorival é terra… Dorival é mar… Dorival tá no céu… Dorival tá no chão”

Caymmi é isso. Simplicidade e sofisticação, tradição e modernidade, vanguardismo e saudades a partir da sonoridade de um violão que, segundo Paulo César Pinheiro, é composto por cordas de sargaço e pedaços de uma velha embarcação capaz de navegar as águas da canção de modo ímpar. Talvez por ter sido coroado por Yemanjá para tornar-se cavaleiro do oceano com a sua voz de arrebatação só ele tenha tido a capacidade de desvendar os mais recônditos segredos de todas as marés; talvez isso tenha se dado devido a sua condição de Deus do mar reencarnado, de canoeiro de São Pedro como tão bem definiu Pinheiro.

Como criador abençoado foi capaz de criar personagens que hoje permeiam o imaginário popular como poucos. Quem não idealizou João Valentão, Dora, Marina, Rosa Morena, Doralice e tantas outras figuras do seu repertório. Parabéns Caymmi, obrigado não apenas pelo legado deixado, mas também pela prole de talentosíssimos cantores, compositores e músicos tais quais Dori, Danilo e Nana Caymmi que você nos presenteou. E obrigado sobretudo por ter deixado, de modo indelével, a sua assinatura dentre as principais influências que me levaram a essa arrebatadora paixão pela música brasileira. Que o seu nome ecoe ainda por muitos e muitos séculos e sempre sendo lembrado como um dos maiores.

Fica aqui para os amigos Fubânicos, como de costume, duas canções da lavra deste compositor ímpar. Ambas foram extraídas do antológico disco “Caymmi e seu violão”, lançado em 1959. A primeira trata-se de “É doce morrer no mar“:

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Já a segunda trata-se de “Quem vem pra beira do mar“:

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QUARTETO PRIMO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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Se a clave de sol é o símbolo musical que indica a posição da nota em uma pauta; nas composições de Dorival Caymmi (1914-2008) o que se mais evidencia são as claves de sal. Sim! Claves de sal! o mesmo sal que vem de um vigoroso mar que banha e substancia boa parte do repertório do mestre baiano. Caymmi soube desbravar como poucos e de maneira singular o mistérios e segredos do mar em verso, prosa e melodia. Dentre outras características, o artista soteropolitano soube como ninguém abordar também nuances de uma Bahia idealizada pormenorizada em sambas, sambas canções e tantas outras melodias, coisa vista apenas nas páginas da bibliografia de artistas do quilate de Jorge Amado e nas letras e melodias deste, que é o “navegador das águas da canção”, como certa vez definiu Paulo César Pinheiro.

E foi centrado nesse mar de sonoridade do universo do mestre Caymmi que as imãs Elisa Lacerda e Malu Von Krüger somaram seus talentos aos dos primos Matheus, Rogério, sob a orientação e produção de Muri Costa (vale salientar que o maestro acompanhou o próprio Dorival durante muitos anos pelos palcos do Brasil e do exterior) e formaram o Quarteto Primo, grupo vocal que abordou de maneira toda particular o repertório do compositor de clássicos da MPB como vocês podem observar ao longo da pauta “QUARTETO PRIMO ESTREIA EM DISCO DE MANEIRA VIGOROSA SOB A ÉGIDE DE UM OBÁ DE XANGÔ”, publicação esta que saiu aqui mesmo neste espaço ao longo da semana passada. Hoje trago novamente o Quarteto esta informal conversa, onde falamos, dentre outras coisas, sobre a relação com o produtor do disco e a impressão deixada do disco ao descendente Danilo Caymmi, filho do mestre baiano que participa do disco, como vocês podem conferir abaixo.

Como se deu a formação do Quarteto Primo? Dos quatro quem foi aquele a primeiro cogitou a possibilidade dessa formação?

Quarteto Primo – Como somos uma família muito grande e que está sempre junta essa parceria musical sempre existiu informalmente. A Malu lançou a idéia do projeto Dorival e quando veio a possibilidade de gravar um cd essa formação surgiu naturalmente. Malu, Eliza e Matheus já cantam profissionalmente e quando cantavam no coro os arranjos do Muri Costa para as canções do Dorival o Rogério também fazia parte deste coro. Foi tudo muito natural.

De todos os integrantes o único que não exerce profissionalmente a carreira de cantor é o Rogério. Como é que ele acabou neste projeto?

QP – O Rogério, apesar de fotógrafo, sempre esteve envolvido com música, seja em projetos próprios ou nos discos gravados pelos primos. Canta em corais há anos, e quando surgiu a ideia do quarteto, contamos com eles desde o princípio.

Caymmi é um dos poucos artistas que tem toda a sua obra baseada no perfeccionismo. Deve ter sido difícil a escolha do repertório. Como se deu a escolha das músicas para a elaboração deste disco?

QP – Foi uma difícil tarefa! Já existia uma pré seleção feita pelo Muri para o projeto do livro dele de arranjos e acabamos aos poucos optando pelo universo praiano do Dorival. O dia a dia, os sentimentos e os anseios dos pescadores está permeando o disco todo. É um disco de canções de amor e de mar.

Como foi a receptividade e as respectivas opiniões da Nana, do Dori e do Danilo sobre o projeto?

QP – Não sabemos as impressões de todos, mas o Danilo, que nos deu a honra de participar de uma das faixas do cd, sempre se mostra muito feliz com o resultado!

Como aconteceram as adesões de Cristovão Bastos e Jaques Morelembaum, dois grandes nomes da música brasileira, neste projeto fonográfico de vocês?

QP – O Cristóvão é primo da Malu e Eliza, e como é um disco em família, sua participação aconteceu muito naturalmente. O Jaques é amigo e parceiro musical do Muri desde os anos 70, quando tocaram juntos no grupo “A Barca do Sol”, e nos deixou bastante orgulhosos em aceitar o convite. As duas contribuições no disco são brilhantes!

Na biografia musical de alguns integrantes e em particular na do Quarteto, o Muri Costa é um nome bastante presente. Há como mensurar a importância dele?

QP – Ele é fundamental em vários aspectos, pois alem de ter escrito os arranjos, dirigido e produzido o CD, ele traz uma vivência singular do universo Caymmi, que não conheço outra pessoa que tenha. Acompanhou o próprio Dorival nos últimos 10 anos de carreira do mestre, alem de acompanhar por muitos anos os filhos Nana e Danilo.

O projeto gráfico da Maria Esther Lacerda von Krüger presente no disco é algo que também chama a atenção de quem manuseia o álbum. Parece-me, salvo engano, que foi feito sobre as pinturas de Dorival não é isso?

QP – Dorival, além de compositor, dedicava uma parte de seu tempos à pintura e aos desenhos. Maria Esther, que é mãe da Malu e da Eliza, ia assistir as gravações do disco no estúdio e, inspirada pelas canções, escolheu algumas pinturas do mestre baiano para fazer bordados. Assim começou a nascer a idéia do projeto gráfico feito pela agência Motiva. Quando os painéis ficaram prontos não restou dúvida: era a capa!

Como vocês receberam a notícia sobre a indicação o melhor grupo vocal de MPB vinda do prêmio mais importante da música brasileira? Era algo esperado?

QP – Dedicamos nosso tempo e coração a esse projeto procurando fazer todo o processo com muito esmero. Receber uma indicação de um prêmio tão sério e conceituado e uma bela recompensa e atestado de que estamos no caminho certo!
Agora é ficar na torcida!

Como tem sido conciliar a agenda de vocês para as apresentações que vem esporadicamente ocorrendo?

QP – Estamos conseguindo realizar de forma razoável essa tarefa. As vezes temos choques de datas de outros trabalhos, mas como tudo é decidido com antecedência, não tivemos ainda grandes problemas.

Há pretensões de correr o país com a apresentação desse espetáculo?

QP – É desejo do Quarteto levar esse trabalho ao maior número de pessoas possível! Apesar de sermos um grupo sem patrocínio, estamos tentando nos articular pra que esse show seja feito por todo o Brasil. Fizemos uma bela apresentação na Casa da Ópera em Outro Preto com os ingressos esgotados! Agora é aguardar um novo convite.


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QUARTETO PRIMO ESTREIA EM DISCO DE MANEIRA VIGOROSA SOB A ÉGIDE DE UM OBÁ DE XANGÔ

CDBX

Em 1936, a mãe de santo baiana Eugênia Anna Santos, a Mãe Aninha, no centro de candomblé ao qual tinha fundado criou uma espécie de título honorífico ao qual deu o nome de Obá de Xangô. Este título, geralmente concedido àqueles que de uma forma ou de outra eram amigos ou protetores do seu terreiro na Bahia (terra de profícua cultura africana) foi ao longo de todos esses anos distribuídos apenas a alguns nomes, dentre os ocupam este posto alguns ilustres, como o músico e compositor soteropolitano Gilberto Gil.

Esta breve explanação se dá devido a um texto escrito pelo compositor e poeta carioca Paulo César Pinheiro, autor de centenas de canções gravadas por muitos dos principais nomes de nosso cancioneiro, certa vez escreveu que Dorival Caymmi seria o Obá mais velho de Xangô, uma espécie de Rei soberano de um território o qual domina como ninguém, em uma espécie de Insígnia concedida por Yemanjá que o mestre baiano soube honrar como se fosse um verdadeiro cavaleiro do oceano e soubesse o segredo de todas as marés.

O mestre baiano, que teve a carreira iniciada por volta de 1938 com a exitosa “O Que é Que a Baiana Tem?” na voz deCarmen Miranda, teve uma produção escassa se comparada aos anos de carreira, porém, por possuir um requinte ímpar, acabou transformando-o em um dos maiores referenciais dentro da cultura brasileira, sendo reverenciado pelos maiores nomes de música brasileira que o sucederam como um dos maiores ícones do nosso cancioneiro. Esse “título” fez com que sua obra acabasse caindo no gosto popular através de diversas vozes do universo musical brasileiro tornando-se razão inclusive para trabalhos fonográficos temáticos ao longo de todos esses anos. Diversos nomes, dentre os quais este que hoje o público do Musicaria Brasil terá a oportunidade de conhecer hoje, dedicaram discos ao universo musical do artista baiano.

Com trabalhos e trajetórias distintas, os integrantes da família Von Krüger (de ascendência holandesa) somaram seus talentos e hoje compõem o Quarteto Primo. Grupo este que é formado pelo primos Matheus, Rogério, e as irmãs Eliza e Malu Von Krüger. Matheuspossui uma carreira paralela ao grupo e vem desenvolvendo um trabalho que tece influências que vão do jazz ao soul, passando por gêneros como salsa, samba entre outros. Essa pluralidade talvez venha como influência dos diversos lugares por qual passou e pelos grupos com os quais atuou. Baiano, mas vindo de uma família mineira, o músico já morou em Belém, São Luiz, passando pela Nova Zelândia até se fixar na cidade do Rio de Janeiro onde hoje desenvolve a sua carreira e vem divulgando também os seus trabalhos solos, dentre os quais o CD “Outros Tempos”; as irmãs amapaenses Malu Von Krüger (contralto) e Eliza Lacerda (soprano) também mantem uma carreira paralela desenvolvidas ao longo desses anos que antecedem esse belíssimo projeto em forma de quarteto.

Eliza começou a sua carreira ainda criança, mais precisamente aos 7 anos, quando participou da gravação corista e solista de um disco de músicas folclóricas. Os anos se passaram e ela foi acumulando diversas passagens interessantes em sua carreira, entre elas a participação com a Orquestra Sinfônica Brasileira e o Maestro Ray Lemma na abertura do Rock’n Rio III e em vários espetáculos pela Cia. da Voz Karla Boechat. Em 2006 lançou o seu primeiro CD, intitulado “Pé de Dança” (álbum este que lançado também no japão). Vale lembrar que assim como Malu, desde 2002 ela faz parte do grupo “Mulheres de Hollanda”, cujo trabalho consiste em só canta o feminino da obra de Chico Buarque de Hollanda.

Já a contralto Malu Von Krüger fez aulas de percepção corporal e de canto com nomes como Ana Abbott e Maíra Martins participando inclusive do Coral Cia. da Voz. Assim como a irmã Eliza apresentou-se na abertura do Rock’n Rio III, gravou um CD independente intitulado “Meu Rumo”, somando-se a isso, atuou em diversos shows, dentre os quais o da dupla gaúcha Kleyton e Kledir e também participa, assim como a irmã do grupo “Mulheres de Hollanda”. O único que não atua na área musical profissionalmente é o fotógrafo Rogério.

Mesmo havendo laços parentais, o grupo que vem apresentando-se esporadicamente desde 1998, só veio cogitar a possibilidade de um registro fonográfico em 2001. O engraçado é que, o maestro Muri Costa tem uma parcela significativa de responsabilidade sob esse projeto desde o momento em que os convidou para participarem de um coral que estava sendo criado por ele. Muri é o tipo de artista que dispensa apresentações, músico a cerca de 40 anos e já tendo atuado com grandes nomes da música brasileira (inclusive com a prole do mestre baiano atualmente e com o próprio Dorival durante muitos anos). Foi também um dos fundadores do bem-sucedido grupo vocal Arranco de Varsóvia, gerando desta forma uma vontade de posteriormente registrar a partir de um coral os sucessos do compositor baiano. Os “primos” chegaram em um momento oportuno, e depois da elaboração de alguns arranjos e os devidos ajustes o projeto acabou concretizando-se de maneira belíssima cujo resultado foi intitulado de “Dorival”.

O disco, apesar de trazer um autor excessivamente recorrente, traz consigo um “q” de diferenciação, um cheiro gostoso da maresia e peculiaridades musicais que só alguém que conviveu anos com o saudoso algodão (apelido dado a ele devido aos cabelos brancos que remetia à lembrança de flocos de tal fibra) seria capaz de registrar. A participação do Muri Costatanto na produção, arranjos e direção musical assim como na execução de algumas faixas (tocando seu violão) talvez tenha sido preponderadamente fundamental para dar ao trabalho esse molde. O álbum também conta com a participação dos gabaritados músicos Zeca Assumpção (baixo), Marcelo Costa (bateria e percussão), André Siqueira (violão de aço), Marcelo Caldi (acordeon) e os renomados Cristovão Bastos (piano) e Jaques Morelembaum (violoncello) que navegam no oceano musical do mestre baiano através das 13 faixas presentes no disco.

O repertório do álbum é abrangente, indo de clássicos à canções menos conhecidas da lavra do compositor baiano, trazendo como característica interpretações que prezam pelos arranjos vocais, porém encontram-se também no disco números solos de cada um dos integrantes do grupo. A primeira faixa do disco trata-se da canção “O bem do mar” do álbum “Canções Praieiras”, de 1954. Do mesmo disco também consta a faixa “Quem vem pra beira da praia“. Ainda na década de 50, do disco “Caymmi e o mar”, vem as faixas “Promessa de pescador” e a épica canção “História de pescador” (faixa esta que conta com a participação do músico, cantor e compositor Danilo Caymmi nessa homenagem ao seu pai). As outras faixas presentes no disco são “Acaçá“, “Festa de rua” (composição de 1949, a mais antiga presente no disco), “... das rosas” (1964), “Sargaço mar” (1984) e “Milagre” (1980), canção gravada também pelo autor no álbum “Setenta anos Caymmi” (1984). Destaque para o álbum “Caymmi”, de 1972 sob produção de Milton Miranda, que trouxe para o álbum do quarteto nada mais que quatro faixas: “Vou ver Juliana“, “Francisca Santos das Flores, também conhecida como Dona Chica“, “Morena do mar“, “Canto de nanã“.

O agradável resultado sonoro do disco ainda conta com os bordados, ilustrando o projeto gráfico, de Maria Esther Lacerda von Krüger sobre as pinturas de Dorival. Nosso Obá mais velho de Xangô com toda convicção está reverenciando este trabalho onde quer que esteja, o conduzindo de maneira firme aos caminhos mais seguros dentro do universo ao qual soube abordar como poucos e abrindo passagem para este grupo que tem tudo para ser um dos grandes grupos vocais existentes em nosso país do mesmo modo que foram e são tantos outros dentro da nossa música. Talvez essa seja a forma mais simples de explicar o sucesso (tanto de público quanto da crítica) do álbum. Prova disto é que o álbum “Dorival” depois de ter sido pré-selecionado ao 23º Prêmio da Música Brasileira, ficou entre os finalista e no próximo dia 13 de julho concorrerá na categoria MPB ao título de melhor grupo vocal, mostrando que a junção da técnica em harmonia com a sutileza, quando bem feita, é capaz de, além de dar qualidade ao produto, também é capaz de chamar a atenção daqueles que buscam isso para si.

Como de costume fica aqui duas canções da fase, digamos “praeira” deste artista que deixou sua marca de modo indelével dentro da música popular brasileira. A primeira trata-se de “Quem vem pra beira do mar“, canção gravada pelo próprio autor há exatamente seis décadas:

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Já a segunda canção foi registrada pelo autor em 1972, no álbum “Caymmi” e trata-se da clássica “Morena do mar“:

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PROJETO CCOMA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

A receita é a seguinte: coloque uma boa dose de jazz, acrescente música eletrônica na medida certa sem esquecer de pitadas regulares das diversas culturas existentes ao redor do planeta… ah! não deixe de lembrar também de acrescentar a melhor e mais tradicional música brasileira a gosto. Pronto! aí está uma receita que vem dando certo desde 2004, quando foi criada e foi batizada de Projeto CCOMA. Os responsáveis por essa exitosa experiência sonora são os músicos Roberto Scopel e Swami Sagara que juntaram influências distintas para elaborar uma sonoridade precisa e condizente com aquilo que se propunham como podemos conhecer aqui mesmo em nosso espaço ao longo da última semana a partir da pauta ATRELADO A SOFISTICAÇÃO, O PROJETO CCOMA TRAZ UM MISTO DE OUSADIA E VANGUARDISMO.

Acho que uma das curiosidades quando abordam vocês é saber como foi que um cruzou na vida do outro. Como se deu este encontro de vocês?

Swami Sagara – A cidade em que moramos não é muito grande (Caxias do Sul – 500 mil hab.), em geral, os músicos se conhecem. Eu e meu colega Roberto Scopel já éramos amigos lá no começo dos 90. O CCOMA começou comigo e com nosso parceiro o DJ Moishe (que é o co-produtor do CD Peregrino), quando nos encontramos pra batucar e ligar as maquininhas eletrônicas, isso há mais ou menos 8 anos. O Roberto foi em nosso primeiro show para dar uma canja e nunca mais saiu. O Moishe, hoje, vive em Londres e é DJ.

E a ideia do projeto foi algo que surgiu em parceria ou um de vocês já germinava essa proposta de algum modo e a essa formação era o que faltava para florescer?

SS – A gente começou tocando e improvisando em cima de música de outras pessoas: Dzihan & Kamien, BajoFondo, Bonobo, Ramiro Mussoto, muita coisa de minimal… A gente colocava esses sons e improvisava percussões e trompete. Um tempo depois vieram as primeiras composições e experimentações. Acho que foi natural mesmo. Até que um dia encontramos nosso próprio caminho.

A música feita por vocês é a junção de diversas sonoridades, uma miscelânea que vai de Miles Davis aos afro-sambas de Baden e Vinícius, agregando valores de várias culturas. Dentro desse caldeirão gostaria de saber: quais as influências mais arraigadas na sonoridade de vocês?

SS – Seguramente Miles é uma influência do Roberto. Ele escuta muita música brasileira… Márcio Montarroyos, Moacir Santos… Eu como percussionista sou encantado pela música do Nordeste do Brasil – Gonzaga, Sivuca, mas gosto de Salsa, de música tradicional Indiana e Árabe, de música eletrônica da Alemanha, Moonbootica, GusGus, Sebastien Tellier, Trentemoeller, Isao Tomitta e tantos mais.

A música instrumental brasileira apesar da boa receptividade da crítica não possui o espaço merecido nos grandes meios de comunicação e isso consequentemente gera uma série de estorvos. Quais as dificuldades mais frequente que vocês se deparam nesse caminho que vocês optaram por seguir?

SS – Uma coisa que seria uma dificuldade, nós conseguimos transformar em diferencial. Muita gente confunde música produzida eletronicamente com um DJ que simplesmente toca músicas. Por exemplo, no ano passado estreamos o show do CD Peregrino na MIMO, que é um dos principais festivais de música instrumental do Brasil. No mesmo palco que tocamos estava Maria João e Mário Laginha no dia seguinte. A gente conseguiu transformar a dificuldade das pessoas em nos classificarem como um diferencial. Quase que uma nova categoria. Porque os poucos grupos que fazem música com máquinas no Brasil, em geral, fazem isso em clubs, pras pessoas dançarem. E, no show do Peregrino, as pessoas até podem dançar, mas nossa música em geral é para ser assistida. Por isso, quando possível, usamos projeções de vídeos construídos pela gente mesmo.

O filme “Profissão: Músico” que vocês participaram traz um pouco dessas ideias abordadas na pergunta anterior a partir da visão de profissionais na América Latina e Europa. Desses depoimentos e experiências qual foi a lição mais significativa que vocês apreenderam?

SS – Naná Vasconcelos disse: “- Pisem nas raízes!”. Fizemos isso e fomos indicados ao Prêmio da Música Brasileira pela segunda vez.

Como tem sido a receptividade do “Peregrino” por onde vocês tem passado?

SS – Excelente. Nós sempre temos receio de como as pessoas vão entender nossa ideia. Mas depois de ter tocado “Xangô é Rei” numa igreja de 400 anos em Olinda, e ter recebido os abraços dos padres e freira de lá, temos certeza que os ouvidos e mentes estão abertos à nossa música. Acabamos de fazer dois shows em eventos bem distintos. Tocamos num festival de rock em Montevidéu e num festival de jazz em Belo Horizonte, públicos bem diferentes, e nos dois locais recebemos aplausos. Acho que o fato de nos apropriarmos da linguagem eletrônica, mas ao mesmo tempo, tocarmos instrumentos de verdade como o Trompete, o Derbak, o Hang drum e a Zurna, acho que isso acaba despertando a curiosidade das pessoas.

Festivais como o Movimento Internacional de Música de Olinda (MIMO) evidencia que a oferta de boa música cativa um público de modo bastante intenso, porém o que se vê nos grandes canais midiáticos na maioria das vezes é a desvalorização da música de qualidade. Na opinião de vocês qual o principal motivo para essa dualidade existir?

SS – Bom, a MIMO existe há 10 anos. Eles formaram o público deles. Tenho certeza de que na primeira MIMO não havia tanta gente. Eles fizeram um trabalho de doutrina. Doutrina mesmo! Como a espírita! Salvaram muitas almas!

No Brasil, desde o governo militar é bonito ser desinteressado. É bonito ficar de fora, não se envolver, não comprar brigas! Penso que a idiotização da população começou lá. Dá pra escrever um livro sobre o assunto.

SS – As pessoas confundem música de entretenimento com música artística. Quando a TV coloca uma cena de novela que acontece na Turquia e coloca um rock estilo anos 80 como trilha, ela contribui muito com a tal idiotização. Acho que vai precisar muito mais que uma Olimpíada e uma Copa do Mundo para salvar este país. Temos exibido o documentário “Profissão: Músico” em escolas de ensino médio, e a realidade é muito triste. Outro dia ouvi um aluno me dizer: “- Gosto não se discute!”. Talvez ele tenha uma parcela de razão. Mas me soou uma herança do governo militar. Um resquício. Eu respondi à ele: “- Estamos em uma sala de aula. Se aqui não é lugar pra se discutir as coisas, onde será?”.

Como se deu essa participação especial do Di Melo? A faixa foi composta já idealizando essa parceria?

SS – Conhecemo o Di Melo em Garanhuns no Festival de Inverno. Era a estreia do filme dele. E nos encantamos com essa figura que estava cristalizada no limbo do começo dos 70. E aquele disco dele é mágico!! Ficamos amigos, e a parceria foi ideia do diretor do filme o Alan Oliveira.

Como vocês receberam a notícia de mais uma indicação ao maior prêmio da música brasileira?

SS – Foi uma refrescada na alma. Hoje, o músico precisa desses prêmios para ter mais visibilidade para seu trabalho, e conseqüentemente tocar mais. Tivemos alguns percalços neste começo de ano, mas a indicação nos faz acreditar que encontramos nosso caminho, nosso jeito de fazer as coisas. E não falo só da música em si, mas do jeito de administrar nossas carreiras, de levar a profissão de músico como outra qualquer.

Quais as expectativas para o restante deste ano de 2013 com essa inesperada indicação para o 24º Prêmio da Música Brasileira?

SS – Fazer mais shows, e poder tocar em festivais, que é quando conseguimos conhecer mais pessoas e outros músicos! Trabalho novo só para 2014.


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ATRELADO A SOFISTIFICAÇÃO, O PROJETO CCOMA TRAZ UM MISTO DE OUSADIA E VANGUARDISMO

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A música brasileira é vista ao redor do mundo como uma das mais profícuas existentes noplaneta. Esse é um dos fatores que faz nosso país ser mundialmente respeitado e reconhecido como um dos maiores celeiros musicais do existentes ao redor do mundo, e quando nos detemos à música instrumental é que as coisas de fato ganham visibilidade. Esse reconhecimento foi sendo construído ao longo dos anos, mais precisamente a partir do século XVIII através do nome do nome do compositor Carlos Gomes, perpassando por Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, João Pernambuco entre outros não menos relevantes nomes até desembocar no século XXI com uma gama sonora impressionante, onde o virtuosismo divide espaço com elementos eletrônicos, propiciando aos ouvidos dos admiradores da boa e velha música encontros até pouco tempo atrás inimagináveis.

Quem pensaria na fusão de elementos sonoros aparentemente tão distintos tais quais a música eletrônica e o jazz a algum tempo atrás? Talvez isso fosse considerado até pouco tempo atrás como utópico, uma vez que a integração de elementos sonoros tão aparentemente divergentes resultaria em algo desagradável aos nossos ouvidos. No entanto, como hoje podemos ver, tudo não passou de um ledo engano; pois a evolução deu-se de modo harmonioso e hoje é possível aliar o mais rudimentar dos tambores às mais evoluídas tecnologias existentes. E neste novo panorama musical é possível afirmar que vem da região sul um dos grandes expoentes existentes em nosso país.

Advindos do estado do Rio Grande do Sul, mais precisamente da cidade de Caxias do Sul (cidade à cerca de 128 km da capital gaúcha), o Projeto CCOMA surgiu em 2004 a partir da ideia de dar vazão ao experimentalismo de dois amigos em um laboratório sonoro que corrobora, de certo modo, com o nome escolhido para o projeto, visto que o propósito era “bater de frente” com situação de estagnação induzida pela mídia de massa em nossa cultura uma vez que o nome do duo é indissociável ao estado de inconsciência profunda. No entanto há a necessidade de se levar em consideração que tal termo possui mais alguns relevantes significados que encaixam-se de modo muito peculiar visto que coma também é o espaço entre um semitom e outro das notas musicais, além de significar vírgula em espanhol. “queremos possibilitar um espaço, um momento, para as pessoas reflitam mais sobre a nossa música.”, diz Roberto Scopel quando questionado o sobre o porquê desse batismo em forma de protesto.

Como já citado anteriormente, o Projeto CCOMA trata-se de um duo formado pelos músicos Roberto Scopel e Swami Sagara. O músico Roberto é trompetista desde os 10 anos de idade quando começou sua trajetória musical influenciado por sua família. Por volta de 2003, formou-se no Conservatório Pablo Komlós, especializando tanto no estilo Erudito quanto no Popular. De modo bastante sucinto, pode-se dizer que a sua trajetória musical conta com a participação em concertos com orquestras sinfônicas e apresentações ao lado de grandes nomes da música brasileira, entre eles Leila Pinheiro, Guilherme Arantes, Ivan Lins e Zeca Baleiro além de outros projetos. Já Sagara, atua a mais de duas décadas como músico e além de percussionista é também produtor e baterista. Talvez pela larga experiência hoje ele sinta-se tão à vontade para dar ênfase a esse experimentalismo que já tornou-se marca registrada dessa dupla que traz arraigada em seu som tantas peculiaridades.

Dessa combinação de elementos sonoros tão distintos surgiu esse hibridismo entre a música instrumental e a eletrônica, fazendo um som que foge aparentemente de qualquer paradigma nesta união de bits, trompetes e elementos percussivos que resulta em uma espécie de ‘future jazz’, visto que une o tradicional ritmo norte americano à uma simbiose interessante, onde as experimentações rítmicas dão vazão a novas óticas musicais. O modo high tech como ambos encaram até os mais primitivos ritmos a partir de elementos percussivos tais quais tambores e artefatos inusitados somados a influências do rabian-beats, elektro-bossa, electro-tango, Mile Davis e uma boa dosagem de música brasileira faz desse efervescente caldeirão denominado de “Future Jazz” um dos grandes destaques da música instrumental contemporânea brasileira.

A estória em disco desta dupla teve início em 2009 com o lançamento do disco “Das CComa Projekt”, porém a visibilidade maior só veio no disco posterior, quando Roberto e Swami foram indicados ao longo do ano passado ao 23º Prêmio da Música Brasileira, concorrendo na categoria “melhor álbum eletrônico”. Nesta mistura de “saravá eletrônico com Miles Davis” (como se auto definem definem) eles estão na estrada divulgando o seu mais recente trabalho cujo título faz jus a sonoridade da dupla. Batizado de “Peregrino”, o disco conta com a assimilação sonora, rítmica e melódica de diversas culturas ao redor do mundo. O som vai das diversas culturas existentes na América do sul, passando pela cultura Turca e indiana até desaguar na influência do jazz e da música brasileira. Nessa miscelânea onde instrumentos como o theremin e a zurna juntam-se ao exótico hang drum e trompetes em uma verdadeira celebração do elemento som nas dez faixas autorais existentes no álbum, um disco que conta com a adesão de nomes como Zeca Baleiro, Di Melo (O Imorrível), Luciano Sallun (Pedra Branca), Paulo Johann, Corina Piatti, Diogenes Baptisttella e João Luiz Oliveira.

Di Melo está presente no afrobeat “Xangô é Rei”, uma canção imbuída de brasilidade onde os vigorosos metais e tambores afro revestem-se de uma sonoridade pop a partir de elementos tecnológicos em uma verdadeira, parafraseando os cantores e compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso, “bitmacumba”. O disco tem continuidade com faixas como “Grand Bazar” (uma canção que pincela elementos sonoros indianos, porém não deixa de fazer jus a classificação atribuída a ela: a word music). De influência moura o disco ainda apresenta “Bukowina”.

O gênero mais representativo do nosso país é representado através de “Partido-alto-canhoteiro” (uma alusão a partir de um dos estilos existentes do samba.) Outro ritmo reverenciado é a tradicional milonga (gênero musical de forte influências na América platina e que se faz presente também no Rio Grande do Sul, estado de origem dos músicos.). O ritmo aqui é apresentado a partir da faixa “Milonga para los perros” como pode-se conferir no video-clipe acima. As mais tradicionais raízes musicais brasileiras também surgem a partir de “Iracino e Cerolvita”, um baião vanguardista embebecido no tradicional maracatu e complementado por uma dosagem de música eletrônica. O disco ainda conta com “Amazonica fever”, “Música surda”, “Caminho do meio” e para atestar a universalidade e ecletismo da dupla a canção “Cosmopolita”, que conta com a participação de Zeca Baleiro e que ganhou recentemente um clipe.

Em 2009 o cineasta colombiano Daniel Vargas e o Projeto CCOMA produziram um média metragem com imagens produzidas em países como Grécia Colômbia, Brasil, Alemanha e Uruguai, Inglaterra e França onde diversos músicos dão os seus respectivos depoimentos sobre como é a vida de músico e suas respectivas dificuldades diante das novas perspectivas do mercado fonográfico, das novas tecnologias existentes diante dos antigos meios de fazer música entre outras dualidades existente na profissão. O Documentário encontra-se na íntegra logo acima para que possamos tirar nossas respectivas conclusões.

Como de costume segue duas canções para audição dos amigos fubânicos presentes no álbum “Peregrino”, mais recente trabalho da dupla lançado em agosto de 2012. A primeira chama-se “Xangô é rei“, de autoria de Roberto Scopel, Swami Sagara, Di Melo e Joaquim C. Coelho. A faixa conta com a participação do pernambucano “imorrível” Di Melo:

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Na segunda faixa há a participação especial do cantor e compositor Zeca Baleiro. Trata-se da faixa “Cosmopolita

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UM ANO SEM EMÍLIO SANTIAGO

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Emílio Santiago era um daqueles cntores que tinha um garbo todo seu e que fazia-se perceptível já na pronuncia das primeiras sílabas ou na entonação das primeiras notas ao cantar. Interprete ímpar, o artista carioca talvez não conseguisse mensurar a sua importância dentro do cancioneiro brasileiro em um país como o nosso, onde os grandes intérpretes são, em sua maioria, predominantemente mulheres. Com cerca de quatro décadas de carreira, o artista começou como muitos dos seus contemporâneos e, além de participar de diversos festivais musicais, participou também de alguns programas de televisão. Foi em um desses programas televisivos (“A grande chance”, capitaneado pelo apresentador Flávio Cavalcante) que sua carreira começou a ganhar a devida projeção. Emílio chegava marcando presença a partir da gravidade e beleza de sua voz aliando a essas características precisas interpretações mostrando que ali já encontrava-se o cerne de um dos maiores cantores da história da música brasileira.

Nascido em 1946 Emílio desde jovem já tinha predileção pela música de boa qualidade e para apurar esse gosto ouvia nomes como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Anísio Silva até a chegada da Bossa Nova, que arrebatou de vez o adolescente Emílio através do João Gilberto e cia. Cientes do seu talento os amigos sempre procuravam estimulá-lo a participar dos diversos concursos musicais existentes à época fazendo com que o pretenso advogado Emílio fosse vencedor na maioria daqueles que participava. No entanto seu primeiro registro fonográfico só viria a acontecer tempos depois, quando por volta de 1973 registrou em compacto as canções “Transa de amor” e “Saravá Nega” pela Polydor. Esse registro fez com que Emílio abandonasse em definitivo o desejo de exercer a carreira de advogado em detrimento a carreira de cantor. A partir daí, mesmo com o diploma de bacharel em direito na mão, resolveu investir na carreira artística cantando em várias casas noturnas no eixo Rio – São Paulo e gravando o seu primeiro Long Play, em 1975, sob produção de Durval Ferreira.

Em 1988, após gravar onze álbuns pela Polydor, Emílio recebe o convite do cantor, produtor e instrumentista Roberto Menescal para um novo projeto que ele tinha em mente e que se chamaria Aquarela Brasileira. A ideia de Menescal era gravar um álbum contendo diversos medleys de alguns dos grandes artistas brasileiros como Caetano Veloso, Paulo Vanzolini, Ari Barroso, Chico Buarque, Tom Jobim, Benito de Paula entre tantos outros. Emílio, que andava meio desiludido com a indústria fonográfica, ouviu atentamente a proposta e os apelos do ídolo e amigo mas mesmo assim decidiu que não seria o momento ideal para tal registro. Roberto não insistiu para que Emílio mudasse de posicionamento mas pediu que ele cantasse ali mesmo no estúdio algumas das pretensas canções que viria a fazer parte do álbum. Emílio assim fez e Menescal, muito vivo, registrou tudo. Essas informais interpretações renderam a Menescal o cerne daquilo que viria a ser uma das séries de maior sucesso da indústria fonográfica brasileira.

Ao ouvir tais interpretações e os diversos argumentos de Menescal e Heleno Oliveira, Santiago deixou-se levar pela proposta e aceitou fazer a releitura de clássicos como “Ronda”, “Sampa”, “Eu e a brisa”, “Minha Rainha”, “Anos Dourados”, “Bye bye Brasil” entre outras fazendo ali nascer a série que levaria o nome de Emílio aos mais recônditos lugares do país, a ter suas interpretações como temas de novela e conquistar prêmios diversos: Aquarela Brasileira. A série rendeu sete álbuns e vendeu cerca de 3 milhões de cópias entre 1988 e 1995, ano do lançamento do último álbum da série.

O último registro fonográfico de Emílio Santiago foi a gravação ao vivo do álbum “Só danço samba”, um projeto que comemora seus quarenta anos de carreira e apresenta um tributo ao “Rei dos Bailes” ED Lincoln. Ah que bom seria se Emílio soubesse que a sua vaga dentro da cena musical do Brasil será eternamente impreenchível e pudesse voltar para suprir essa lacuna deixada por sua ausência. Pena que não é assim…

Como de costume, deixo aqui para os amigos fubânicos áudios do artista abordado ao longo da matéria. Deixarei aqui duas canções do repertório do saudoso Emílio, a primeira trata-se de “Um dia desses“, canção da lavra dos compositores João Donato e Carlinhos Brown. A canção encontra-se no álbum “De um jeito diferente”, lançado por Emílio em 2007:

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A segunda canção trata-se de “Nega Dina“, canção composta por Zé Keti e presente no primeiro LP de Emílio lançado em 1975:

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RENATO BRUSHI – ENTREVISTA EXCLUSIVA

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A música independente em nosso país vem ganhando força e espaço ao longo dos últimos anos, principalmente através das novas tecnologias e redes sociais. Advindo deste cenário, o Renato Barushi vem galgando o seu espaço dentro da fértil cena musical mineira e ganhando adeptos de sua sonoridade por onde tem levado o seu som. Depois de ter passado longo período tocando nas noites de Belo Horizonte, o cantor e compositor decidiu que era chegada a hora para da gravação do seu primeiro registro fonográfico solo. Foram cerca de 13 anos até a gravação desse álbum e isso deu ao artista maturidade suficiente para reconhecer e encarar todos os percalços existentes no caminho que escolheu seguir.

Perseverante, Barushi procurou superar cada uma das dificuldades que cruzaram o seu caminho e como “se virou na raça”, como ele mesmo costuma dizer. o resultado dessa sua tenacidade vocês podem conferir um pouco na pauta publicada recentemente aqui em nosso espaço cujo título é “RENATO BARUSHI ABRE CONCESSÕES SEM PERDER A COERÊNCIA, MOSTRANDO O SEU UNIVERSO PARTICULAR EM UM VARIADO MERCADO SONORO”. A matéria mostra toda a versalidade desse mineiro de Cataguases a partir de um disco que não poderia ter título mais sugestivo: Renato e O Mercado.

Renato gentilmente nos concedeu esta entrevista onde aborda um pouco de sua trajetória, as dificuldades inerentes ao artistas independente e surpreende-se com uma agradável notícia sobre o Prêmio da Música Brasileira como vocês podem conferir, na íntegra, logo abaixo:

Em sua biografia consta que a sua família apesar de grande não é, digamos, propensa a música; porém você desde cedo se deixou envolver-se por ela. Como aconteceram esses primeiros contatos com a música em sua infância?

Renato Barushi – Com exceção de um tio paterno que sempre tocou muito bem violão, autodidata, ele dizia que eu ficava vidrado quando pegava o violão e sempre cantava junto, adorava quando tocava a canção “peixe vivo”, inclusive, foi comigo e minha mãe escolher o meu primeiro violão em Juiz de Fora, um Di Giorgio, no pré-primário a professora também havia notado que minha voz destacava, eu devia ter apenas 5 anos.

E a estória de que você desde os 10 anos de idade já compunha é verdade? Você lembra de alguma coisa referente a essa composição algum verso ou o porquê do surgimento da inspiração para escrever?

RB – Aos 10 anos, pegava canções conhecidas e brincava, trocava suas letras, lembro-me perfeitamente de uma música do grupo SPC que fiz isso, a canção chamava-se “domingo”, na verdade, até hoje faço isso..rs, coloco a letra que me referi abaixo, ganhei meu primeiro violão aos 11 anos, a partir daí comecei a prestar mais atenção nas letras e melodias, comecei escrever frases soltas, creio que após os 14 anos comecei a compor, foi muito natural, mas assim como tocar um instrumento, escrever é um exercício.

Segue a letra  -  Titulo: Segunda

Segunda, tenho que estudar
Acordar bem cedo e ir pro colégio
Aturar as professoras, até enjoadas
A de português e a de geografia outra vez

refrão:

Quando eu vou estudar
Vai ter que ser bom
Se não vou trabalhar, numa padaria
Vai ter que ser a do meu pai
La eu só entrego pão
Depois ganho um dinheirão
Só por uma entrega, amor… só por uma entrega, amor, amor, amor..
Só por uma entrega, amor… amor, segunda..

Em dado momento de sua vida, você resolve aventurar-se na capital mineira trazendo com você coragem, fé e expectativas para dar continuidade aos projetos traçados em sua cidade. Você pode nos falar um pouco dessa decisão de vir a Belo Horizonte? Essa decisão fez com que você abrisse mão de algo?

RB – Fui aos 17 anos para Belo Horizonte, sem muitas pretensões, queria somente tocar na noite, conhecer outros músicos, somar e se possível viver de arte, e foi o que fiz, fazia jingles, trilhas, direção e produção musical e executivo, em paralelo trabalho minhas canções autorais e escrevendo minhas leis de incentivo, creio que o artista hoje está cada vez mais desenvolvendo múltiplas funções em suas carreiras. Eu abri mão de ficar perto de meus familiares, amigos de infância e musicais, e por ser de família pobre tive que me virar, bancar o meu sustendo, mas feliz por sempre fazer o que amo.

Diversos músicos afirmam que não há laboratório mais válido do que a experiência de tocar na noite. Você teve a oportunidade de vivenciar essa experiência antes da gravação do seu álbum à frente da banda Machinari. Há algo que se evidencia em sua música e que seja fruto dessa época?

RB – Claro, concordo que a noite é um grande laboratório, e com o Machinari foi o período que mais toquei, eram cerca de três a quatro shows semanais, a banda começou seus ensaios no final de 1999, iniciou os shows no início de 2000, seu ultimo show, por incrível que pareça foi dia primeiro de abril de 2004, na casa chamada Pop Rock Café, tenho o convite até hoje. Em 2002 gravamos um EP com três canções autorais, essas canções estão no site Palco MP3.

Você costuma dizer que a sua música sustenta-se a partir de três, digamos, alicerces: a música negra, a MPB tradicional e o rock nacional. Dessas três vertentes musicais você poderia citar alguns nomes que são essenciais em sua formação enquanto músico e compositor?

RB – Não gosto muito de citar minhas referências, pois costumo dizer que elas se renovam constantemente e sempre esquecemos alguém importante, mas pensando rapidamente poderia citar alguns nomes que me inspiraram, como Barão Vermelho e Cazuza, Lobão, Raul Seixas, Secos e Molhados, Novos Baianos, Djavan, Tom Jobim, Chico Buarque, Tim Maia, Beto Guedes, Cartola, Noel Rosa, e gringas, Janis Joplin, Wilson Pickett, Buddy Guy, Aretha Franklin, Marvin Gaye, George Benson, Al Green, Stevie Wonder, AC/DC, Jimi, The Doors, Stones, Jimi Hendrix, dentre outros.

A sua parceria com o Robson Pitchier evidencia-se de modo significativo em seu disco. Das nove composições presentes, a maioria ele assina em parceria com você. Como se deu esse encontro musical e como é o seu processo de composição em parceria?

RB – Em 2001 eu ainda trabalhava durante o dia e tocava com o Machinari durante a noite, comecei a trabalhar como gerente de marketing em uma escola de informática, logo após Robson entrou nessa empresa, ele vivia com desenhos, perguntei o que ele gostava de fazer, me disse que era ator e gostaria de trabalhar com moda, por isso os desenhos, hoje ele trabalha em São Paulo como estilista, cerca de 7 anos, eu estava começando a tocar muito, e estávamos a todo vapor com as canções autorais, tínhamos onze, eu só pensava em compor e perguntei se ele gostaria de escrever comigo, no início ele teve uma certa resistência, mas assim que começamos não paramos mais e até hoje trabalhamos juntos, somos grandes amigos e parceiros, escrevemos até uma peça teatral, tenho outros poucos parceiros, mas metade das minhas canções são com ele, quarenta por cento sozinho e dez por cento com os demais, quero sempre somar. Quanto ao processo de composição não há regras, já peguei uma história de um parceiro e fiz música, ou a partir de uma estrofe, já fiz um personagem, já comecei com a letra e criei melodia em cima e vice-versa, de todas as formas, mas normalmente minhas parcerias são nas letras, eu crio as melodias e harmonias.

Quanto tempo foi a “gestação” desse disco?

RB – Dois anos, sendo um ano pesquisando e compondo as canções, pensando no clima e na concepção geral do cd, e um ano em estúdio.

Como se deu o critério de escolha do repertório para este álbum de estreia?

RB – Após 13 anos na noite eu quis um registro de minha obra, nesse álbum coloquei somente duas canções antigas, “Onde quero chegar” e “Meu lugar”, o restante foi criado para o cd, pensei muito no clima, queria algo leve, para colocar no carro e dirigir, por exemplo, ao mesmo tempo fazer algo mais radiofônico, letras de fácil assimilação, introduções curtas, sem solos de guitarras enormes, ao invés disso, temas e riffs, sou muito over, tenho um vocal agressivo, devido muito tempo tocando rock, e por isso trazer de novo a MPB e o balanço da música negra para minha música, foi um processo de pesquisa enorme e reencontro com algo que adoro.

Todos sabem que fazer música independente no Brasil é uma aventura na qual poucos conseguem lograr êxito. Muitas são as dificuldades existentes, e os estorvos vem nas diversas etapas, desde a captação de recursos até divulgação depois de pronto. Você acredita que a facilidade existente na atualidade acabou gerando uma demanda muito grande e isso gera alguns desses problemas ou a coisa não é bem por aí?

RB – Não há facilidade para os músicos autorais, nem atualmente, com banda você ainda divide com algumas pessoas os gastos, se você não tem dinheiro para investir ou desenvoltura para escrever leis, fica mais difícil ainda, são poucos que trabalham com leis, que tem alguém para escrever, pois é caro, eu comecei e me virei na raça, e captar é pior ainda, não captei nada até hoje, este ano tenho uma lei estadual aprovada no valor de R$ 250.000,00 reais, consegui gravar o cd Renato e O Mercado devido ao falecimento do meu pai, um cara que eu amava muito, ele estava em seu segundo casamento e o pouco que me sobrou, investi tudo no cd. A internet é muito boa pra trocar figurinhas, pesquisar, mas não pense que lhe fará famoso, normalmente, os que são conhecidos na internet, não são para o grande publico e vice-versa, na verdade a música não há receitas para o sucesso, não é como uma engenharia que você faz a faculdade, estágio e em seguida arruma um bom emprego, mas há diversas áreas para se trabalhar, não só tocar na noite ao contrário que muitos pensam.

Você já se acha um vitorioso tendo seu disco entre os pré-selecionados para o Prêmio da Música Brasileira? O que mais espera para 2014?

RB – Eu fui? Lembro-me de uma produtora do Prêmio da Música Brasileira, seu nome era Luciana Cardoso, ela pediu para enviar o meu material para seleção, isso pra mim já foi uma vitória, mas creio que não fui pré-selecionado. Em 2013, após 15 anos em Belo Horizonte, voltei para minha cidade natal, Cataguases, fica na zona da mata mineira, a cena aqui é ótima, já estou com uma banda chamada “Eu, tu, elas e os Pachiega”, com uma influência muito forte do rock’n’roll, e claro, a pitada de MPB e o balanço e alegria da música negra não pode faltar.


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RENATO BARUSHI

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Renato Barushi: abre concessões sem perder a coerência, mostrando o seu universo particular em um variado mercado sonoro

Imaginem uma sortido mercado onde os principais produtos expostos são versos e melodias que procuram mostrar a música mineira contemporânea. Esse espaço se fez possível graças a um novo talento que chega para contribuir com ideias e sons consistentes, procurando perpetuar, a seu modo, a boa fama que a música mineira vem construindo nacionalmente desde ó início da década de 70, quando o carioca Milton Nascimento lançou o antológico álbum “Clube da Esquina”, esse disco foi o marco inicial de uma revolução dentro da música produzida em Minas Gerais e que se estendeu mundo a fora.

Pois bem, Renato Barushi, mineiro de Cataguases (cidade da zona da mata mineira localizada a cerca de 320 km da capital Belo Horizonte) é o responsável por este mercado de variedades rítmicas. Na composição dessas variantes vemos o quão ele foi influenciado não só por toda essa geração antes citadas, como também por outros elementos sonoros, formando assim uma rica e belíssima “vitrine” onde são expostas a diversidade na qual está imbuído o seu som. Percebe-se que Barushi soube absorver e fundir inspirações e influências de modo bastante seguro a partir de uma sonoridade toda particular baseada em uma gama de ritmos.

De família grande e apreciadora da boa música, Barushi nasceu em 10 de fevereiro de 1981 e desde a infância já procurava desenvolver habilidades artísticas. Gostava de atuar e cantar, e aos 10 anos já brincava de escrever músicas. Tendo suas aptidões artísticas estimuladas e valorizadas aos 11 anos ganhou o seu primeiro violão, a partir daí resolveu iniciar de fato a sua formação musical indo estudar no conservatório musical existente em sua cidade. Vem desse período as suas primeiras referências musicais e que o acompanham até os dias atuais como se é perceptível na audição do seu álbum de estreia. A forte influência da chamada MPB e do Rock em suas composições mostra que o artista soube dosar de modo interessante tanto esses dois gêneros como outros que acabaram influenciando em sua formação. De certo modo, “Renato e mercado” evidencia essa teoria, pois vem impregnado dessa diversidade rítmica sem se deixar cair no lugar-comum.

Aos 17 anos Renato percebe que Cataguases acaba tornando-se pequena para os seus anseios e resolve aventurar-se em Belo Horizonte. Chega à capital mineira trazendo em sua bagagem suas primeiras composições, aquelas que seriam o cerne para o seu desenvolvimento enquanto compositor e músico de modo geral. O aperfeiçoamento veio com as diversas experiências na capital mineira, dentre as quais a sua passagem pela banda ”Machinari” como vocalista, instrumentista e compositor, pois foi como integrante do grupo que começou a dedicar-se com mais afinco à elaboração do seu trabalho autoral, criando em parceria com grandes amigos várias canções até o dissolvimento da banda, que ocorreu por volta de 2004.

Mesmo com o fim da banda e as adversidades existentes, Renato Barushi tinha planos traçados e metas determinadas. Sua força motriz encontrava-se justamente neste determinismo que alimentava seus sonhos e desejos, por isso não desanimou e continuou a acreditar que já era hora de registrar as suas letras e músicas, composições tão peculiares e carregadas fortemente pela fusão da música negra, do rock e da tradicional MPB.

É bom trazer ao conhecimento de todos que o nome “Renato e o mercado” veio em meio à conversas informais com parceiros e amigos e faz alusão às muitas vertentes que influenciaram no trabalho do músico ao longo dessa sua jornada musical. surgiu devido a diversidade sonora presente neste trabalho de estreia. A diversidade sonora dá ao álbum uma textura peculiar, mostrando uma heterogeneidade rítmica coesa e moderna a partir da execução das nove composições presentes no disco e que contam com o acompanhamento dos músicos Marcílio Rosa (guitarra), Paulo Maitá (baixo e produção musical), Tininho (bateria), Daniel Diniz(teclados), Edgar Sozzi (guitarra), Marcelo Silvah (violão), Boca Brown (percussão),Nequinho (backimg vocal), Luiz Peixoto (guitarra). “Renato e o mercado” ainda conta com a participação do rapper Lil’dawg.

O disco vem munido de nove canções que são assinadas tanto por Barushi de modo solo como em parcerias com Robson Pitchier (sete em um total de nove). São canções que acentuam uma contemporaneidade peculiar atreladas a valorizadas raízes. No som de Renato é possível encontrar pitadas de uma sonoridade advinda com os grandes nomes da Motown, é possível identificar acordes do pop rock nacional surgido a partir dos anos 80, além é claro de incursões no que há de melhor em nossa música. Tudo de modo preciso como é possível observar já na primeira faixa intitulada “Dela” (balada romântica de autoria do próprio intérprete e que fala fundamentalmente sobre a presença da amada para dar outra conotação a sua vida). O disco continua com “Onde quero chegar”, uma das parcerias com Robson Pitchier que retrata o desejo de coisas tão simples que infelizmente perdem-se em nossas caóticas rotinas, além de “Filme em Cartaz” (mais um fruto da parceria entre Renato e Pitchier), que traz a participação do rapper Lil’dawg cantando e assinando parte da letra.

O mercado continua aberto oferecendo produtos de excelente qualidade como é o caso do contagiante funk batizado de “Minha musa”, mais uma contagiante parceria da dupla e que tras como tema algo que o próprio título já denota: uma alegre declaração. Em “Sem reparo” (mais uma parceria com Robson) as guitarras mostram que a influência do rock não é algo que restringe-se apenas ao release do álbum. Outra canção que a dupla assina é a balada “O mar gelou o deserto”, que retrata fenômenos naturais incomuns influenciados por uma determinada situação afetiva.

A trinca final traz “Meu lugar”, “Malandragem” e “The end”. A primeira trata-se de uma composição assinada pelo próprio Renato. As duas que restam foram escritas a quatro mãos em parceria com Pitchier. Quanto aos temas eles retratam os mais variados assuntos, em “Malandragem”, por exemplo, há o retrato de um sujeito preso as amarras do ilícito; já “Meu lugar” e “The end” surgem atreladas as peculiaridades das relações amorosas, mostrando, desse modo, que Renato Barushi surge no atual mercado fonográfico brasileiro como um cantor e compositor possuído de acordes e estilos que mesclam todas as fontes nas quais teve a oportunidade de beber, fazendo uma sonoridade pode ser rotulada como ”Música Livre Brasileira”, como o próprio artista define.

Assim sendo, Barushi mostra-nos através da concretização desse antigo desejo, o seu rico e diversificado mercado sonoro. E apesar da diversidade existente, cada prateleira trazer o seu produto específico, mostrando-se coerente o suficiente para acreditarmos que é inevitável que venham a surgir novas filiais desse mercado. Desvinculado de rótulos, o artista mineiro chega à indústria do disco alimentando seus antigos anseios acrescidos da ciência dos desafios a enfrentar nesse mercado muito menos lírico que os violões e canções desse cataguasense, que “comendo quieto” (como costumam dizer) vem mostrando ao que veio.

Deixo aqui aos amigos fubânicos duas faixas para audição que estão incluídas neste trabalho de estreia do cantor e compositor mineiro. A primeira canção é “Dela”, de autoria do próprio Renato:

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Já a segunda faixa é “The End”, uma das já citadas parcerias de Barushi com Robson Pitchier:

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O ILUSTRE FILHO DE NAZARÉ DA MATA

Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Maestro Zé Menezes (Abr/1924 – Nov/2013)

Nazaré da Mata, cidade localizada a cerca de 65 quilômetros da capital pernambucana, tem muito mais riqueza que a Arena Pernambuco, como muito tem sido difundido ao longo dos últimos meses devido a construção do faraônico estádio que hoje tornou-se cartão-postal da cidade. Voltado para atender aos “padrões fifa” de qualidade durante a realização dos jogos organizados por tal instituição, o estádio surgiu objetivando receber os jogos de competições como a copa da confederações e o mundial de futebol a ser realizado ao longo deste ano como todos devem saber. Já no aspecto cultural a cidade ganhou notoriedade como a terra do maracatu e como berço mãe de um dos mais relevantes nomes do frevo de todos os tempos: o maestro Zé Menezes.

Filho mais velho de Teófilo Alves de Menezes e Nicolina Xavier de Menezes, o pequeno Zé conviveu com a música desde muito cedo a partir das figuras do pai e do avô. Um era regente da banda de Nazaré o outro tocava trombone, o que acabou influenciando-o a tocar trompa na Sociedade Musical 5 de Novembro (Banda Revoltosa), que este ano conseguiu a proeza de tornar-se patrimônio vivo de Pernambuco e em 2015 completa um século de existência.

Por volta dos 19 anos muda-se para a capital indo trabalhar na Rádio Clube de Pernambuco, onde chegou a integrar a Jazz Band Acadêmica, comandada pelo maestro Pádua Valfrido. Nessa época também aprimora a sua teoria musical matriculando-se no Conservatório Pernambucano de Música. A década de 1950 conta na biografia do musicista como aquela que mudaria em definitivo a sua vida como compositor, pois em 1951 a orquestra do maestro carioca Zacarias registrar, pela RCA, o frevo “Freio a Óleo“, a primeira (e mais popular) de uma série de canções do maestro que seriam gravadas a partir dali.

No levantamento de sua obra, feito pelo pesquisador José Batista Alves, foram registradas 118 gravações, no período compreendido entre 1951 e 1997, entre frevos de rua, canção e de bloco. Esse número de registros de sua obra acabou tornando-o terceiro compositor de frevos gravados do estado, só perdendo para Nelson Ferreira e Capiba. Além de “Freio a óleo” o maestro é autor de frevos como “Baba de Moça” e “Boneca” (1953); “Continental” (1956), “Terceiro dia” (1960), “Tá Faltando Alguém” (1961), “Arrasta Tudo” (1976), “Regresso do Galo” (1984), “Bico doce” (campeão do VIII Recifrevo, em 1996), o samba “Aeromoça” (em parceria com Geraldo Costa), entre outros.

Ao longo dos anos de 1960 surgiu a famosa Orquestra do Maestro José Menezes, que surgiu com o propósito de animar o Reveillon do Clube Internacional do Recife a partir da ideia dos amigos Torquato Bertrão e Hercílio Canto, que eram da diretoria do clube. De baile em baile, José Menezes foi o responsável pelos carnavais do Clube Internacional por mais de uma década, passando para o Clube Português em 1974 (onde permaneceu tocando até 92, ano do último carnaval da entidade). Dois anos depois Zé Menezes lança pela Rozemblitz o primeiro disco da orquestra. O titulo “O Frevo Vivo de Levino”, foi uma homenagem ao compositor e amigo Levino Ferreira, pessoa com a qual Zé Menezes chegou a trabalhar na época em que atuava na Rádio Clube de Pernambuco.

A orquestra ainda chegou a lançar mais dois lp’s: um em 1977 pela gravadora Philips, cujo nome é Antologia do Frevo (um projeto que registra 36 composições de diversos autores) e o segundo, lançado pela Bandeirantes, batizado de Baile da Saudade, foi lançado em 1980, reunindo antigos frevos. Vale ressaltar que o maestro Zé Menezes chegou a cursar direito (atividade esta que  lhe deu o título de bacharel), mas que não foi suficiente para interferir na paixão que carregaria por toda a vida: a música.

O maestro Zé Menezes faleceu na cidade do Recife, no dia 13 de novembro de 2013.

Já em clima de expectativa para o carnaval, deixo aos amigos fubânico dois dos frevos citados ao longo do texto. O primeiro trata-se da mais conhecida composição do maestro Zé Menezes: “Freio a óleo“. Aqui a composição é brilhantemente executada por Henrique Annes e a Oficina de Cordas de Pernambuco:

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Já a segunda composição trata-se do notório frevo “Último dia“, de autoria de Levino Ferreira e presente no LP O frevo vivo de Levino, lançado em 1982:

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A VIOLA QUE ENTERNECE O MUNDO

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Chico Lobo é o tipo de artista que conhece o terreno onde pisa e essa afirmação se dá porque ele começou a desbravar desde cedo o universo da viola. Primeiro através do seu pai, o também violeiro Aldo Lobo Leite e posteriormente por iniciativa própria. Nascido na cidade mineira de São João Del Rei (uma das cidades brasileiras eleitas como capital brasileira da cultura), o artista é o terceiro dos quatro filhos do já citado violeiro com a ex-jogadora de vôlei pelo Minas Tênis Clube, Maria Antonieta Diláscio Leite. Chico é hoje considerado como um dos mais ativos violeiros do cenário nacional e essa sua obstinação em defender a cultura da viola tem feito dele um dos músicos mais atuantes no processo de valorização e e popularização dessa música de cunho tão interiorano. Violeiro de mão cheia, Lobo orgulha-se quando alguém a ele atribui a alcunha de caipira (termo de origem tupi que foi associado as pessoas do interior ao longo dos anos de forma tão depreciativa).

Porta estandarte de uma arte bordada em notas e acordes advindos do seu instrumento, Chico Lobo vem trilhando um caminho bastante consistente na estrada que resolveu seguir, e este êxito tem trazido ao músico mineiro um reconhecimento que há tempos extrapolou nossas fronteiras e o tem levado (juntamente com o seu tradicionalismo de ritmos como folias e serestas) para alguns dos principais festivais de música ao redor do mundo. Pode-se afirmar que o artista tem sido um dos responsáveis pela globalização da mais tradicional música mineira não só a partir dos espetáculos que vem apresentando, mas também através de exímios trabalhos fonográficos que vem atestando o talento de Chico desde 2006, quando gravou o seu primeiro álbum batizado de “Nos braços dessa viola” (uma produção independente que foi indicada no ano seguinte ao Prêmio Sharp, maior premiação existente na música brasileira à época).

Desde então a coerência tem sido uma das principais características da discografia do artista, que traz registros como o álbum “Nosso coração caipira” (onde há a declamação de 25 clássicos da música caipira ao som de viola acompanhado pelo cantor e ator Jackson Antunes). Cada disco lançado por Lobo soa como algo maior, caracterizando-se mão apenas a mais genuína expressão caipira, mas mostrando-se uma verdadeira celebração de suas origens, pois cada faixa mostra um artista imbuído de corpo e alma em suas mais profundas influências e tradições, procurando mostrar não apenas sua peculiar habilidade sonora, mas também todos os elementos que adornam os acordes de suas composições a partir de inovações rítmicas; tornando-o um dos mais expressivos representantes deste contexto sonoro caipira ao longo de quase duas décadas de carreira fonográfica. Isso atesta porque o artista é um dos mais requisitados do gênero ao qual defende para viajar mundo a fora mostrando sua arte em países como a Itália (onde realizou diversos concertos, a projetos culturais, em Praças Públicas ao longo de 47 dias), China, Portugal, Canadá e Chile.

Quando o cantor e compositor Zeca Baleiro afirma: “Chico Lobo é um violeiro danado e inquieto, doido para alargar e alçar novos voos estético“, talvez ele fundamente-se nessa inovação a qual está caracterizada a obra do artista mineiro. Chico procura fazer jus a máxima que diz que não há nada mais universal do que o nosso quintal. Sua originalidade tem o dom de conectar São João Del-Rei com qualquer canto do planeta sem deixar de ser raiz. Ele sabe passear (como poucos) na tênue linha existente entre o vanguardismo e o tradicional, estabelecendo um tipo de relação precisa e esteticamente apreciável como podemos observar neste mais recente trabalho, cujo título não poderia ser mais adequado: “Caipira do mundo“.

Este é o sétimo título da carreira fonográfica do artista e, assim como os anteriores, traz características que o mesmo vem prezando desde o primeiro álbum, procurando manter cada registro em disco como um tratado de celebração, procurando abranger a sonoridade que vai além do universo da viola sem se deixar perder em sua essência. Desse modo Chico Lobo é capaz de reunir nomes como o da Banda de Pau e Corda, Suzana Travassos, Verônica Sabino, Zé Geraldo e Zeca Baleiro em seu universo particular.

Quase todas as faixas presentes no álbum levam a assinatura de Lobo em parcerias como nomes como Alice Ruiz (A mais difícil opção), Chico César (Tristeza do culto), Ricardo Aleixo (Cantiga do caminho), Sérgio Natureza (Canto a cântaros), Siba(Pássaro de alma), Verônica Sabino (No fio do olhar), Zeca Baleiro (Morena de Minas), Arnaldo Antunes (Eu ando muito cansado),  Vander Lee (Quando falta o coração), Vítor Ramil (Cantata), Maurício Pereira (Para onde que eu tava indo?) e Fausto Nilo (No fim da rua). A única faixa que não leva a assinatura do são-joanense é a canção “Dois Rios”, composta por Lô Borges, Samuel Rosa e Nando Reis ganhando projeção nacional em 2003 no álbum Cosmotron, do grupo mineiro Skank.

O álbum ainda conta com a destreza de nomes como Rogério Delayon (charango), Ricardo Prado(sanfona), Simone Julian (coro, pífano, clarinetino e piccolo), Guilherme Kastrup, Roberto Andrade,George Andersen, Mek Natividade (percussões, percussões eletrônica e bateria), Tatá Sympa (vozes de aboio), Miriam Maria (coro), Hugo Hori (Coro), Tata Fernandes (coro), Dinho Nunes (coro); Regis Damasceno, Zé Nigro, Fernando Nunes e Sérgio Eduardo (contrabaixos), Bruno Morais (coro), Lui Coimbra (violoncello), Swami Jr. (viola de 7 cordas), Paulo Sérgio Santos (clarinete), Waltinho(violão), Júlio Rangel (viola), Beto Johnson (flauta), Tuco Marcondes (guitarra, violão e aço, violão barítono e 12 cordas), Marcelo Jeneci (wurlitzer e sanfona), Zé Pitoco (clarinetes e percussão), Toninho Ferragutti (acordeon) e por fim Livio Tragtenberg (clarones).

Deste modo Chico atesta de modo veemente que a troca do curso de educação física, da especialidade em psicomotricidade e da pedagogia pela música não foi apenas uma opção. Foi a escolha mais sensata para que houvesse a possibilidade de demostrar uma arte que, de forma uníssona, consegue fazer o passado adequar-se ao presente de modo bastante harmonioso; e no seu caso especificamente a oportunidade de ir além disso; pois sua arte tem a capacidade de substanciar o futuro da tradicional moda de viola a partir da manutenção e preservação dessa cultura a qual abraçou de modo tão intenso e sincero.

Aos amigos fubânicos ficam aqui dois registros do violeiro presentes no álbum “Caipira do mundo“. A primeira é “No fio do olhar”, parceria de Chico com Verônica Sabino. A canção ainda conta com a participação de Zé Geraldo:

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A segunda canção é “Pássaro de Rima”, uma parceria do violeiro com o pernambucano Siba. Esta canção conta com a participação da Banda de Pau e Corda:

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ESTÓRIAS E HISTÓRIAS DA MPB – PARTE 08

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A cantora baiana Maria Creuza

Retomando a série que dei início ao longo do ano passado queria trazer desta vez outra figura de nossa MPB que nasceu em Esplanada, na Bahia, cidade esta que fica a 155 quilômetros de distância da capital Salvador mas que aos dois anos de idade mudou-se para a capital, local este onde houve início o interesse em seguir sua carreira artística.

No mês em que completa sete décadas de vida, Maria Creuza continua atuando como cantora fazendo espetáculos regularmente no Brasil (geralmente no Rio de Janeiro) e no Exterior, mas o que interessa aos amigos do JBF são as estórias e histórias dessa que foi afilhada musical de Vinicius de Moraes e junto com ele gravou antológico álbuns como “Eu sei que vou te amar” e “Vinicius de Moraes en La Fusa” (um dos álbuns mais populares da música brasileira em países da América Latina).

Essas regulares apresentações em países latino americano renderam à artista a gravação de quatro álbuns em Buenos Aires (cidade onde está localizada a boate La Fusa que batiza o notório álbum). Sua aproximação com Vinicius se deu quando cantava em um festival universitário da TV Tupi, em 1969. Dizem que Vinicius teria ficado doido atrás do telefone da cantora, e de tanto ir em busca acabou conseguindo o número. A partir daí nasceu uma profunda e sincera amizade entre os dois que duraria até o falecimento de Vinicius em 1980.

Vale ressaltar que o interesse pela música surgiu quando Maria estava no curso ginasial do Colégio Ipiranga, em Salvador. Lá os alunos tinham aulas de canto orfeônico, foi a partir daí que surgiu o interesse da artista pelo universo musical. Aos 15 anos formou um conjunto de moças, “Les Girls”, de curta duração, onde se destacava como crooner. Foi a partir daí que começaram suas primeiras atuações musicais nas emissoras de rádio e televisão de Salvador, o que acabou rendendo-lhe o convite para comandar um programa na TV Itapoã, na capital baiana. Aos 17 anos, a futura cantora passou a fazer parte da programação da emissora com o atrativo “Encontro com Maria Creuza”, programa este que durou quatro anos.

Posteriormente a artista seguiu para o eixo Rio-São Paulo, onde passou a participar de diversos festivais na época. Defendeu canções em festivais como “O Brasil Canta” (na extinta TV Excelsior) interpretando a canção “Se Não Houvesse Maria”; participou do “V Festival da Música Popular Brasileira” (da TV Record) com a canção “Catendê” e na mesma TV Record defendeu, no “III Festival de Música Popular Brasileira”, a composição “Festa no Terreiro de Alaketu”.

Em 1974, Maria Creuza viria a enumerar mais uma participação a sua biografia só que desta vez bem longe do Brasil. A cantora já conceituada em nosso país participou do II Festival Mundial de Música Popular realizado em Tóquio (Japão), classificando em 2º lugar a canção “Que diacho de dor”, de autoria de Antonio Carlos e Jocafi.

Para quem não sabe, Maria Creuza foi casada com Antônio Carlos Marques Pinto, que junto com José Carlos Figueiredo formaram a dupla Antônio Carlos e Jocafi, parceria de relevante sucesso na década de 1970 e 1980. Apesar do duo ter lançado o primeiro LP apenas em 1972, Antônio Carlos já figurava, como compositor, nos primeiros registros fonográficos da cantora. Um exemplo é o LP “Apollo 11″, de 1969, cujo todas as doze faixas são assinadas por Antônio, ora de modo solo, ora em parceria. Antônio ainda foi responsáveis por outras tantas canções que figuraram em diversos álbuns da esposa.

Fica aqui para os amigos do JBF duas canções presentes no álbum lançado por Maria Creuza em 1972 no álbum “Eu sei que vou te amar”. A primeira trata-se da faixa-título e é, como muitos devem saber, uma composição de Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim:

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A segunda canção trata-se de “Catendê”, de autoria de Antônio Carlos, I. Tavares e Jocafi:

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TONI COSTA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Nas décadas de 80 e 90 atuou de forma consistente em trilhas de seriados, programas de televisão e estúdios de todo o país. Gravou e acompanhou em turnês diversos nomes da música popular brasileira e foi parceiro de alguns deles como vocês podem observar de modo mais minucioso o pequeno retrospecto biográfico e artístico que fizemos a seu respeito recentemente aqui em nosso espaço cujo título é “TONI COSTA APRESENTA AS CORES DE SUA TEXTURA SONORA”, abordando inclusive acerca de sua discografia solo, que conta hoje com quatro títulos distintos: “Gente da rua”, “A sorte muda”, “Músicas para o violão brasileiro” e o atual “Textura colorida” e a participação de grandes nomes da MPB como o da saudosa Cássia Eller e Luiz Melodia.

Solicito, Toni prontamente atendeu ao nosso desejo de entrevistá-lo. Agora os leitores do Musicaria Brasil poderão conhecer um pouco mais sobre a biografia e a carreira deste músico que destaca-se pelo talento e pela perfeita alquimia sonora que apresenta. Nesta informal conversa Toni Costa fala um pouco sobre sua passagem pela Berklee College of Music e as suas experiências musicais longe do Brasil, a perseverança do músico instrumentista em nosso país, seu método na hora de compor dentre outras coisas como vocês poderão conferir abaixo. Boa leitura!

Em sua família havia alguém que o inspirou para seguir carreira artística? Como se deu o seu primeiro contato com a música (mais precisamente com o instrumento com qual você hoje toca)?

TC – Infelizmente na minha casa e na minha família não tinha ninguém envolvido com música , comecei a procurar professores de violão desde os 15 anos naquela época adolescência. Estudei com Prof. Leo Soares na Pró-arte do Rio.

A música brasileira sempre foi muito respeitada no exterior, particularmente após a difusão da bossa-nova. Em sua passagem pela Berklee College of Music era possível observar isso?

TC – Claramente, o que esses músicos fizeram para por o Brasil no circuito do jazz foi espetacular, Jobim, Gilbert, Bonfá, Luis Eça, fazem parte de qualquer Real Book (coletânea de clássicos), eu sentia maior orgulho quando pintava uma composição desses caras pra gente estudar.

E a sua experiência nos EUA integrando algumas bandas trouxe-lhe algum “Know-how” relevante para a sua vida enquanto músico no Brasil?

TC – Definitivamente minhas experiências com bandas de salsa em Boston, marcaram meu estilo, meu swing. Fora a enxurrada de conhecimento da linguagem jazz na escola e nas gigs.

Trabalhar com música instrumental no Brasil requer mais perseverança que outros segmentos musicais? Pergunto isso porque, apesar de abundantes talentos existentes em nossa música que se observa é a notória falta de espaço para esse segmento.

TC – Sem dúvida , sempre foi uma aventura fazer instrumental aqui onde moro , no Rio. Houve até uma época que teve um boom com bons festivais e o público prestigiando mas agora mesmo no lançamento desse meu CD novo não consegui pauta em nenhum orgão de imprensa convencional.

Nesses mais de 30 anos de carreira você já esteve em diversos palcos tanto de maneira solo quanto acompanhando grandes nomes de nossa música, além de atuar também como produtor e arranjador de programas de TV e trilhas sonoras para o cinema. Você destacaria algum fato que de tamanha relevância fez você ter plena convicção que a sua escolha profissional não poderia ser outra?

TC – Desde os primeiros acordes tinha convicção que minha vida e música eram uma coisa só . Tenho muito orgulho de nesses mais de 30 anos ter trocado experiências musicais e de vida com grande artistas e músicos.

Há pouco mais de 10 anos você foi uma das pessoas que implantou (ao lado maestro Luizão Paiva) a escola de música Adalgisa Paiva, na Universidade Federal do Piauí. Parece que o panorama nas escolas vem mudando ao longo dessa década que se passou desde essa sua experiência no Nordeste. Você acredita que a implementação da música nos currículos escolares é capaz de dar uma nova cara a atual conjuntura social em nosso país? Por quê?

TC – Puxa vida seria fantástico termos prática de música em todas as escolas no Brasil. Imagina quanta gente apareceria tocando, compondo, arranjando, somos um povo musical e isso daria um grande impulso.

Com exceção dos álbuns “Sorte muda” e “Músicas para o violão brasileiro” os seus demais discos foram lançados com um intervalo de tempo significativo. Há algum motivo específico para intervalos tão longos?

TC – Não há motivo, foi o tempo que levou cada projeto, com vários outros projetos rolando no meio.

“Textura Colorida” é um álbum cuja tessitura mostra-se bastante contemporânea e é composto por canções essencialmente autorais. Essa atemporalidade de suas composições é uma característica que você procura considerar na hora de compor?

TC – Não penso nisso na hora que componho, só deixo fluir a ideia, seja de que estilo for , seja de que instrumento for e vou trabalhando, burilando a composição. Cada música tem sua importância seja de que estilo for.

Em sua condição como instrumentista na hora da composição é mais fácil entregar ao letrista uma melodia já pronta ou elaborar a melodia em cima da letra? Como se dá o seu processo de composição em parcerias?

TC – Faço das duas maneiras mas é mais comum eu entregar ao parceiro uma melodia com uma harmonia e um suingue bem definido. Mas já fiz várias músicas para letras mandadas pelos parceiros . As vezes mando até um refrão já com letra.

Você já tem uma agenda solo bastante agitada, com incursões não só no Brasil quanto no exterior, agora com o lançamento desse seu mais recente trabalho a demanda de shows deve aumentar significadamente. Como será conciliar a sua agenda solo e a do Trio Moinho?

TC – Dá pra levar por que eu gosto de tudo, esse é o segredo.


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TONI COSTA APRESENTA AS CORES DE SUA TEXTURA SONORA

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Com mais de três décadas de estrada, o músico e instrumentista carioca Toni Costa é dono de um currículo invejável. Nessas décadas de carreira já acompanhou relevantes nomes do cenário musical brasileiro tais quais nomes como Nelson Gonçalves, Jussara Silveira, Moraes Moreira, Luis Melodia, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Elba Ramalho, Sergio Sampaio, Gal Costa, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Leo Gandelman entre outros. Arranjador, compositor, instrumentista e intérprete, hoje, paralelo a carreira solo, forma um dos trios mais bem conceituados da música popular brasileira contemporânea, o grupo Moinho. Ao seu lado nessa perfeita trinca estão a percussionista Lanlan e a cantora e atriz Emanuelle Araújo, onde desde 2006 vem conquistando um público cativo a partir das irreverentes e dançantes canções. O grupo, que ao longo desses anos, vem apresentando-se tanto no Brasil quanto no exterior, já gravou dois cd’s e um dvd.

Toni Costa teve os seus primeiros contatos musicais nos idos anos 70 quando deu início aos estudos de música com Léo Soares, na Escola de Música da Pró-Arte, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, morando em Salvador passou a frequentar aulas de música nos “Seminários de Música da UFBA” (Universidade Federal da Bahia) chegando a trabalhar com o músico Walter Smetak no chamado projeto de violões afinados em microtons. Ainda na década de 70 resolveu voar mais alto e aventurou-se como estudante na Berklee College of Music (Boston/E.U.A), onde fez curso de “Arranjo”, “Harmonia” e “Improvisação”. Nesse período integrou diversas bandas de ritmos latinos, apresentando-se na periferia da capital de Massachusetts.

Volta ao Brasil por volta de 1980 e passa a trabalhar além de instrumentista como compositor e arranjador para inúmeros artistas e bandas brasileiras dentre os quais os nomes que foram citados anteriormente. Como compositor constam parcerias com nomes como Orlando Morais, Luis Ariston e os poetas Carlos Rennó, Antonio Risério, Chacal e Fred Góes nesses mais de 30 anos de carreira profissional dedicados a música brasileira.

Em sua biografia ainda constam arranjos para várias composições apresentadas no programa “Chico e Caetano”, apresentado na década de 80 na rede Globo; trilhas sonoras para programas de Tv e cinema como por exemplo a série “Confissões de Adolescente”, apresentada na Tv Cultura e dirigida por Daniel Filho; a trilha sonora para o filme “Veja Essa Canção”, de Cacá Diegues, para programas do Canal Futura e para o longa-metragem “Procuradas”, dirigido por José Frazão e Zeca Pires dentre outras.

Sua carreira solo teve início ainda na década de 80, quando por volta de 1989 lançou, pelo selo Retoque, o álbum “Gente da rua”, O disco contou com a participação de diversos artistas, dentre os quais Léo Jaime em “Vem me dançar” (com Roberto Rodrigues); Raul Mascarenhas em “Cristais emoções” (com Cristiaan Oyens); Léo Gandelman em “Chimpanzé” (com Guilherme Maia e Zeca Barreto); Caetano Velosoe Carlinhos Brown na composição “Xangô é de Baê”, de João Donato e de Gal Costa na faixa-título “Gente da rua”. Nas faixas presentes no disco ainda constam as canções “O meu boi morreu” (Domínio Público), “Flecha” (com Tavinho Fialho e Carlos Rennó), “Rio Bahia” e “Radio shit”, também de sua autoria.

Quase dez anos depois Toni aos estúdios para a gravação de um álbum assinado por ele. Em 1998, grava o álbum “A sorte muda”, disco que conta com diversas participações especiais, dentre as quais a da cantoraCássia Eller (interpretando a faixa que dá título ao disco), Luiz Melodia em “Saudade do Rio”, Toni Garrido em “Grito de guerra”; Orlando Morais em “Grunhir”, parceria de ambos; Armandinho na faixa “Manaus” e a cantora mineira Jussara Silveira na composição “Lagoa”, também em parceria com Orlando. a faixa “A sorte muda” (composição em parceria com Chacal), foi incluída na trilha sonora da novela “Era Uma Vez”, da Rede Globo.

No ano posterior lançou o terceiro álbum intitulado “Músicas para o violão brasileiro”, disco cujo a ficha técnica é constituída por diversas participações, dentre as quais, Toninho Horta (violão), Claudia Coutinho (voz) e Marcos Suzano (pandeiro). O repertório deste disco é bem abrangente, indo desdeGaroto (Voltarei), perpassando por composições próprias, indo até “Allemande suíte 996 em mi menor”, de J.S.Bach.

Agora depois de mais de uma década dedicando-se a outros projetos, Toni Costa resolve voltar a fazer um registro mais intimista, expondo em cores e formas a sonoridade a qual busca ao longo de todos esses anos de carreira. Parece que a fórmula utilizada é de grande valia, pois as texturas sonoras (se assim podem ser denominadas) condizem fidedignamente com aquilo que o disco se propõe: fazer música de qualidade inquestionável sem muita preocupação.

O álbum foi batizado a partir de um quadro do artista plásticoJoão José da Costa. o quadro “Textura Colorida” além de batizar o disco também o ilustra, a colorida capa ao fundo trata-se do próprio quadro. O disco em si é composto por dez faixas que traz em sua audição um clima de total descontração e, mesmo não preocupando-se com minúcias inerentes a produção e recursos tecnológicos para “embelezar” o disco, o que resulta do produto final é de uma qualidade inquestionável.

Todas as faixas são composições do próprio Toni Costa, com exceção de “Linha Vermelha”, que vem em parceria com Miguel Gandelman. Entre as faixas presentes nesse trabalho essencialmente autoral, o artista foi capaz de sintetizar de modo bastante competente a diversidade rítmica que caracteriza a música brasileira transitando por samba, pop, baião, balada, choro, jazz, fusion e bossa. Na execução dessa gama de ritmos, Toni (no comando das guitarras) escalou um time de primeira: Pedro Mazzillo (baixo e violão), Fabrício Belo(teclados), Alexandre Caldi (sax tenor) e Maurício Braga(bateria).

Desse modo, nessa aquarela rítmica genuinamente brasileira, Toni pincela a sua parcela de contribuição na perpetuação da música instrumental brasileira de qualidade, mostrando a partir de sua sonoridade contemporânea que os laços com as matrizes rítmicas de nossa música ainda é possível sem se deixar perder na linha do tempo elementos fundamentais que as caracterizam.

Segue para audição dos amigos fubânicos duas canções do álbum aqui apresentado. A primeira de autoria do instrumentista chama-se “Linha vermelha”, de autoria de Toni em parceria com Miguel Gandelman:

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A segunda é de autoria apenas de Toni. Trata-se da canção “Baculejo”:

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PROJETO TRAZ A DELICADEZA, A SENSIBILIDADE E O GARBO DO FEMININO CANTO PERNAMBUCANO

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Da esquerda para a direita: Anastácia Rodrigues, Sônia Sinimbú, Cláudia Beija e Angela Luz

O filósofo italiano Empédocles de Agrigento (484 – 421 a.C.) concordava com outros que o antecederam de que a natureza possuía uma só origem, no entanto, Empédocles acreditava que essa teoria vista como verdade absoluta necessitava de uma complementação. Isso o fez querer ir um pouco além do convencional, fazendo-o defender a ideia de que esse princípio não derivava apenas de um princípio único, mas sim de quatro raízes fundamentais conforme podemos observar ao aprofundarmo-nos nesta área. Esta pequena explanação acerca das concepções do filósofo italiano vem, de certo modo, objetivando dar o embasamento ao projeto “Quando a canção acabar”, iniciativa concebida pelo cantor, compositor e produtor pernambucano Gonzaga Leal, que arquitetou reunir neste álbum quatro vozes: Anastácia Rodrigues, Sônia Sinimbú, Cláudia Beija e Angela Luz. Artistas conhecidas no cenário musical pernambucano elas trazem consigo em comum muito além do talento que apresentam nos palcos de algumas das principais salas e palcos do Brasil. No canto destas artistas é possível perceber não só os quatro elementos fundamentais da natureza, mas uma unidade feminina onde fogo, terra, água e ar fundem-se de forma uníssona e meticulosa; dando ao projeto uma unidade bastante coesa e de excelente bom gosto.

Mas o que seria que assemelha estas artistas além do talento? A resposta instantânea seria talento; no entanto essas cantoras além do nobre adjetivo também possuem em comum o fato de nunca terem ido além da participação em discos de outros artistas. Portanto já era chegada a hora desses talentos registrarem suas respectivas identidades em disco, uma vez que esse aspecto das cantoras nunca terem gravado seus trabalhos autorais intrigou Gonzaga, que além de propiciar esse encontro também viu no quarteto a possibilidade da realização de um sonho “perdido”, pois segundo o próprio Gonzaga “Quando a canção acabar é o disco que eu gostaria de ter gravado pra mim, mas que não se adequa à minha voz.”

A realização desse intrínseco desejo deu-se de modo bastante peculiar, uma vez que o cantor e compositor pernambucano conseguiu fazer do projeto uma obra com uma estética imbuída de características bastante peculiares, mostrando-se, de certo modo, um verdadeiro mosaico interpretativo regido por algumas das mais belas vozes do cenário musical recifense. Uma pluralidade que dosa de modo harmonioso tudo aquilo díspar entre as intérpretes. “O que regeu a batuta foram as diferenças e não as semelhanças”, afirmaGonzaga. Das treze faixas presentes no disco cada uma das quatro artistas interpretam três e juntam-se para cantar a última, que batiza o álbum.

A primeira interpretação fica a cargo da cantora Sonia Sinimbu, artista que traz além das experiências nos palcos um grande embasamento teórico adquirido a partir do Conservatório Pernambucano de Música, onde foi aluna nas classes de canto e violão. Com um timbre marcante e grande afinação, Sinimbu mostra neste trabalho um grande potencial a ser explorado. Já Angela Luz, mostra nas canções que interpreta o porquê de sua paixão pela música ter começado ainda criança e perdurar até os dias atuais trazendo em seu canto toda uma bagagem significativa, uma vez que Luz já dividiu palco com grandes nomes da música nacional e regional tais como: Luiz Gonzaga, Hermeto Pascoal, Sivuca, Dominguinhos, Genaro, Camarão,Osvaldinho, Claudionor Germano, Acioly Neto, Nana Vasconcelos, Rosaura Muniz entre outros. Sem contar com os diversos festivais de música não só em Pernambuco, mas também em todo o país que a cantora já chegou a participar. Neste disco todo o ‘know-how’ da artista evidencia-se de modo pleno como pode-se observar nas faixas interpretadas pela cantora.

O disco continua com a cantora e compositora Anastácia Rodrigues, que apesar de ter iniciado seu curso de música na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) desistiu no andamento do curso só voltando as salas de aula algum tempo depois já não mais da universidade, mas no Conservatório. Rodrigues costuma dizer que foi neste espaço que ela trocou a música barroca pela música de barraco sob a orientação do maestro Marco César, entrando de corpo e alma no choro a partir do grupoArabiando. Hoje em carreira solo a cantora tem um vasto currículo não só na musica popular como também na música erudita. Por fim e não menos importante destaca-se o nome de Cláudia Beija, artista de destaque do cenário musical recifense e que já apresentou diversos espetáculos temáticos na capital pernambucana, dentre os quais podemos destacar o show “Noel Rosa dá samba”, apresentação que contou com a participação dos músicos Tostão Queiroga, Tomás Melo, George Aragão, Renato Bandeira, Nilsinho Amarante e Caca Barreto no teatro de Santa Isabel, na série de apresentações do ‘Janeiro de grandes espetáculos’, evento realizado anualmente em Recife.

A faixa que dá título ao álbum é de autoria de Luiz Tatit, no entanto além do compositor e músico paulista o repertório do disco conta também com nomes como Noel Rosa (‘Amor de parceria’), Robertinho do Recife e Abel Silva (‘Merengue’), Geraldo Maia e João Falcão (‘Tô fora’), Accioly Neto (‘Hedionta musa’), Marcos Sacramento e Luiz Flávio Alcofra (‘Na cabeça’), Marco Polo (‘Outra vez’), Fabio Tagliaferri (‘Mergulhando’),Sérgio Cassiano (‘Tico-tico’), do folclore do Piauí Gonzaga Leal recolheu ‘Cantiga de Manoel Leandro’ e a adaptou para o projeto. O disco ainda conta com o pernambucano Juliano Holanda,que assina duas parcerias: ‘Vírgula’ (com Publius) e ‘Boa hora’ (com a cantora e compositora Alessandra Leão); e com a faixa ‘Semeação’, de autoria de Anastácia Rodrigues mostrando-se também uma excelente compositora.

Além das cantoras e do produtor Gonzaga Leal há na tecitura deste projeto nomes como Cláudio Moura (viola, violão, direção musical, direção de mixagem e regência), Marcos FM (arranjos e contrabaixo), Alex Sobreira (violão 7 cordas), Breno Lira (guitarra semi-acústica), Ivan do Espírito Santo (sax tenor), Nilsinho Amarante (trombone), Márcio Silva (bateria), George Rocha (percussão), Tomás Melo (percussão), Nilson Lopes (arranjo), Maurício Cezar (piano), Adilson Bandeira (clarinete), Frederica Bourgeois (flautas), Ricardo Fraga (bateria), Publius (bandolim), Fabinho Costa (trompete), Caca Barreto (arranjo e contrabaixo), Tostão Queiroga (bateria e percussão), Fabio Tagliaferri (arranjo e viola de aço), Adriano Busko (percussão), Daniel Nakamura (violão e contrabaixo) e Sérgio Godoy (arranjo e piano).

Assim sendo Gonzaga Leal apresenta após quatro anos de concepção “Quando a canção acabar”, um projeto que soube fazer algo muito além do convencional no cenário musical pernambucano. O disco que sai pelo selo Passadisco (do empresário Fabio Cabral, proprietário também da loja de discos homônimo ao selo) e atesta que trata-se muito mais que a realização de um obscuro desejo, ele de modo astuto e técnico soube compactar e moldar em uma coerente unidade quatro vozes que destacam-se por diversos fatores que vão muito além das qualidades técnicas. E mesmo de modo coletivo Anastácia, Sonia, Cláudia e Angela conseguem formular um mosaico único, onde seus respectivos timbres aliados à delicadeza dão o tom preciso as respectivas interpretações das artistas. Cada interpretação merece destaque, uma vez que é possível observá-las como uma verdadeira entrega, um ato de doação por parte das cantoras que dão tudo de si neste projeto que abre novas oportunidades para estas artistas que de cantos tão perenes tornaram o projeto capaz de permanecer mesmo quando a canção acabar.

Segue para audição dos amigos fubânicos a canção que dá título ao projeto. “Quando a canção acabar” é uma canção da lavra de Luiz Tatit e conta com a participação das quatro intérpretes:

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DONA EDITH DO PRATO, 5 ANOS DE SAUDADES…

Edith do prato

Incluso na região metropolitana de Salvador, o Recôncavo baiano abrange além da capital do estado da Bahia municípios como Santo Antônio de Jesus, Candeias, São Francisco do Conde entre outros municípios; como, por exemplo, Santo Amaro da Purificação, que ficou nacionalmente conhecido por trazer entre seus ilustres filhos nomes como Assis Valente, Caetano Veloso, Maria Bethânia entre outros. Localizada em torno da Baía de Todos-os-Santos, confesso que meu discernimento não alcança se há algo na região que propicia o desenvolvimento desses talentos, no entanto é público e notório o propício desenvolvimento dos samba-de-rodas (variante do tradicional ritmo brasileiro e que teve sua origem no próprio estado da Bahia).

Uma das maiores representantes deste ritmo não só em Santo Amaro, mas em todo o estado da Bahia foi Edith Oliveira Nogueira, que ficou mais conhecida por Dona Edith do Prato. De modo despretensioso a dona de casa usava uma faca e um prato como instrumentos de percussão cantando sambas-de-roda. Ninho Nascimento, produtor musical e neto de criação de Dona Edith, sabe bem como foi o início de tudo: “Ela começava a tirar os primeiros sons da metade de uma cuia de queijo quando brincava de fazer comida no quintal de casa. Na adolescência, tocava prato e assim descobriu um som diferente e foi aperfeiçoando. Para ela, o prato tinha que ser de louça e o mais barato, e a faca de inox, sem cabo de madeira. Não teve referência artística, mas um dom, que foi desenvolvendo aos poucos. Ela nunca se imaginou artista.”

Dona Edith subiu ao palco pela primeira vez na década de 1970 ao lado do cantor e compositor Roberto Mendes, em Salvado, mas em 1969 já tinha o toque do seu prato registrado na canção “Torno a repetir“, um tema de domínio público adaptado por Caetano. Quatro anos depois ela voltava para o estúdio para participar do álbum Araçá Azul, também de Caetano Veloso. No álbum ela canta uma adaptação de Veloso para tema de domínio público “Viola, Meu Bem“, além de dividir com ele os vocais em “Sugar Cane Fields Forever“. Amiga ao longo de décadas de Dona Canô, Edith acabou tornando-se figura recorrente nos trabalhos dos filhos da matriarca dos Veloso. Em 1983 participou do álbum Ciclo de Maria Bethânia com a canção “Filosofia Pura“, de autoria de Roberto Mendes e Jorge Portugal; Em 1991, grava o samba-de-roda “Boas vindas” canção composta por Caetano em homenagem ao filho Zeca, recém-nascido.

Em 2002 Edith grava o álbum Vozes da Purificação (único registro de Edith e que posteriormente gerou um DVD), e que conta com a participação não só dos Velosos (Bethânia e Caetano), mas também de nomes como Roque Ferreira, Cortejo Afro, Mariene de Castro entre outros. O álbum é composto principalmente por temas populares adaptados, as exceções são “How Beautiful Could A Being Be“, de autoria de Moreno Veloso (filho de Caetano) e o “Hino De Nossa Senhora Da Purificação“, composto por Domingos de Faria Machado, compositor santoamarense.

Raspando a faca no prato de modo bastante peculiar Dona Edith soube como poucas trazer consigo a típica sonoridade do Recôncavo, entoando seus sambas de roda de modo bastante pessoal, tornando-se a partir daí como certa vez definiu Hermínio Bello de Carvalho, uma espécie de cartão postal sonoro da Bahia.

Aos amigos do JBF deixo duas faixas deste registro fonográfico ímpar. A primeira trata-se de um pot-pourri composto pelos três sambas-de-roda de domínio público. São os sambas “Quem Pode Mais”, “Dona da Casa” e “Eu Vim Aqui”. A faixa ainda conta com a participação de Maria Bethânia:

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A segunda canção trata-se de outro pot-pourri de sambas-de-roda de domínio público. As canções “Casa Nova” e “Raiz” conta com a participação Marilene de Castro, ainda em início de carreira:

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SAMUEL CARNERO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

O contexto cosmopolita ao qual Samuel Carnero está inserido não interferiu de modo algum em sua arte. Pelo contrário, talvez venha daí a essência de seus versos e melodias. De família de músicos e poetas, o artista foi protagonista aqui mesmo no JBF da pauta intitulada “A CRÔNICA, A MÚSICA E A POESIA COSMOPOLITA DE SAMUEL CARNERO” e agora retorna ao nosso espaço para esta entrevista exclusiva, onde nos fala, dentre outras coisas, das reminiscências de infância, o modo como concilia sua condição de poeta e cronista, seu álbum “Eu não posso parar”, entre outras informações interessantes. Carnero, que vem gravando seu mais recente EP, deu uma pausa na gravação para nos conceder gentilmente esta entrevista exclusiva conforme o público leitor pode averiguar abaixo. Boa leitura a todos!

Você é um artista que toda uma genealogia que de certo modo o enveredou para a música. Quais as reminiscências de infância mais marcantes dessa família tão musical?

Samuel Carnero – A arte sempre esteve presente na Família Lopes (ascendência materna). Ainda morando em São Paulo, na infância, me lembro da Vitrola Phillips 1983, onde eu e meu pai Gérson cantávamos e brincávamos de entrevistas. Lembro também de minha mãe Roseli ter me dado de presente uma cítara infantil, com algumas partituras. Sempre tinha música tocando em casa, LP´s, K7´s e Rádio. De cantores nacionais à internacionais. De Agepê à Chitãozinho & Xororó, de Erlon Chaves à We Are The World – “USA for Africa”. Já morando em Parapuã – SP, aos 9 anos de idade, eu sempre ia à casa de minha avó Maura, onde minhas tias cantavam, tocavam piano, faziam piadas, recitais…até hoje elas fazem isso. São artistas de alma. Compositoras, escritoras, artesãs, regente de coral e pianistas. Aos 12 anos mais ou menos peguei o violão de minha tia Nely e fui fazer aula no conservatório da cidade.

Já que havia músicos e poetas em sua família, em algum momento você se questionou em qual dessas veredas iria seguir ou você desde o início procurou conciliar versos e melodias?

SC – Gosto muito de escrever sobre qualquer assunto, mas antes de saber escrever, eu já cantava e balbuciava palavras, por volta de 2 ou 3 anos de idade. A fusão letra / melodia vem naturalmente em meu processo de composição. Quando consigo musicar uma letra (crônica, poesia, homenagem…), fico muito feliz. Mas quando não tem como, o texto então fica apenas como texto mesmo, em blogs. É gratificante poder musicar um texto meu ou de alguém.

Você tem uma relação muito íntima, enquanto cronista e poeta, com a questão da escrita. Como se dá o seu processo de composição? Devido a essa condição de escritor é mais fácil a elaboração das letras antes das melodias ou isso não é problema?

SC – O meu processo de composição musical não segue uma regra ou sequência. Quando bate a inspiração, eu crio a melodia ou a letra, ou as duas ao mesmo tempo. Tenho poesias que demorei 2 anos para musicar, como tenho melodias ainda sem letras. Mas sempre sinto que uma hora sai [risos].

Segundo sua biografia o início do seu processo de composição se deu ainda na época da Escola de Engenharia a cerca de 10 anos atrás. Deste álbum existe alguma dessa período?

SC – Sim, da época da faculdade existe LIRIOS, o reggae.

Atualmente você é colaborador de alguns espaços literários com as suas crônicas e suas poesias. Locais como o “Tribuna escrita” e o “Beco dos poetas” têm publicações suas. Você pretende ou já cogitou em algum momento juntar essa produção e publicar algo forma de livro?

SC – Esses blogs são muito legais. Tribuna Escrita é de um amigo baiano, o poeta Manoel Hélio, grande pessoa! Já o Beco dos Poetas e Escritores é blog, sarau e editora literária, dos queridos Márcio Marcelo e Maria Jeremias. Eu tenho poesias publicadas em compêndios do “Beco”, de autores diversos. E sim, num futuro próximo pretendo escrever livros. Só ainda não sei sobre os gêneros: poesia, espiritualidade, sociedade, religião ou ciência. Ser eclético e universalista como eu às vezes embola o meio de campo [risos].

Em que momento você decidiu que deveria seguir carreira artística e começou a arquitetar o sonho da gravação do seu primeiro disco?

SC – Desde pequeno eu gosto das artes e de me expressar para o mundo, seja na forma falada, escrita, tocada ou cantada. Foi o meio que encontrei para externar meus sentimentos. Sempre que posso ou tenho oportunidade, me apresento artisticamente. A gravação de meu primeiro disco se deu pois eu tinha mais ou menos 30 músicas gravadas em demos caseiras e muito toscas no formato voz / violão. Então senti que estava na hora de selecionar umas faixas e gravar em estúdio, com arranjos e banda.

O repertório do disco “Eu não posso parar” é totalmente autoral não é isso? Como foi feita a seleção das onze canções?

SC – Sim, é um disco autoral, porém com três parcerias: “A Balada da Fejuca” é letra minha e de meu amigo publicitário Samuel Segatelli e melodia minha. “Lirios” é letra minha e de meu compadre Gustavo Sanches (Menudo) e melodia dele. “Ideal” e “Vitrine da Alma” são crônicas do livro Compêndio da Imaginação (Editora AG Book) de minha mãe Roseli Helena, onde tive a felicidade de musicá-los. A seleção de repertório se deu à partir de feedback de meu público, do arranjador Ronaldo Rayol e de meus gostos também. É um disco eclético, com vários estilos musicais e histórias.

Não sei se estou enganado pois não sou especialista em poesia, mas vejo que “Selva de cerveja” tem um jogo de palavras que confere a canção um certo ar de poema abstrato. Como se deu o processo de composição dessa canção especificamente? E a utilização do neologismo tão recorrente nessa faixa?

SC – Selva de Cerveja é uma das músicas mais loucas que tenho. Em 2005 eu e uns amigos saímos de Bauru – SP rumo à Londrina – PR, para o casamento de um amigo. Desde as primeiras cervejas, ainda em Bauru, até Londrina e depois por lá e na volta toda, todos nós “cozidos” falávamos e conversávamos mais ou menos assim: “ow passa a breja, vamos tomar mais uma bréja…me dá uma cerva…vamos tomar uma léuva, uma melva…”. E quanto mais “altos” ficávamos, mais apelidos carinhosos saíam para a cerveja. De volta à São Paulo (minha casa) escrevi o abecedário da cerveja, que conta a nossa saga rumo ao Paraná, Selva de Cerveja. E foi realmente uma selva [risos].

O artista independente nos dias atuais tem o total domínio sob seus projetos, desde a notória facilidade para a gravação até as questões mais burocráticas. A dificuldade que observo é quanto a distribuição desse material depois de pronto. Para que tudo isso reverbere de modo eficiente é preciso muito jogo de cintura para driblar os notórios jabás e total interatividade com as redes sociais e ferramentas cibernéticas. Como você trabalha esses dois aspectos?

SC – De fato é difícil ser artista independente, principalmente pelo lado financeiro. Isso é minha percepção. Queria muito ter um empresário, produtor ou patrocínios. Todos os dias corro atrás disso. Não me importo em ter uma gravadora, mas queria apoio para poder realizar mais e de uma forma mais eficiente e abrangente. Ser músico é ter uma empresa. É necessário o financeiro, o administrativo, o marketing, a logística e a equipe. Eu tive uns pequenos patrocínios para gravar o meu primeiro disco. Divulguei-o em mídias sociais, players e YouTube. Também disponibilizei download grátis e distribuí mil cópias físicas, promocionais. Acredito que quanto mais pessoas baixarem, compartilharem e reproduzirem minhas músicas, melhor a minha promoção e popularização. Ainda não estou na fase de visar dinheiro com minha arte. Estou na fase da promoção, e feliz assim. A internet e o corpo a corpo tem me ajudado muito. Fazer sucesso não é sinônimo de qualidade artística. Eu sinto que todos tem o seu público e que há sim espaço para todos no mercado. É uma questão de tempo, foco, força e fé. E talento é claro, pois isso o perdurará no mercado. Outro meio de se “fazer sucesso” é um vídeo “estourado” no YouTube, um produtor / investidor ver potencial em você ou quem sabe depois de 15 anos na estrada você emplacar uma música. Conheço casos assim. Não há uma receita para o sucesso, pois sucesso é uma coisa muito pessoal. Cada um tem como meta o que é sucesso para si. Sucesso para mim é poder acordar todos os dias e fazer o que ama, e amar o que faz, sem pensar em dinheiro, pois dinheiro é consequência desse trabalho amoroso e bem feito.

Quais os projetos arquitetados para este ano de 2014?

SC – Para 2014 pretendo continuar fazendo que faço, só que com mais foco e mais força. Procurar mais e mais lugares para me apresentar artisticamente, com foco no autoral, fazer mais web clipes, compor / gravar novas músicas, escrever, blogar e dispender mais tempo para os trabalhos sociais e voluntários, o que me deixa muito realizado também. Obrigado pela entrevista!


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A CRÔNICA, A MÚSICA E A POESIA COSMOPOLITA DE SAMUEL CARNERO

Samuel Carnero (Imagem)

De família extremamente musical, Carnero faz-se um multi artista sem deixar-se perder nesta pluralidade. Como poeta, soube usar dessa aguçada sensibilidade, transformado-a em um dos ingredientes primordiais na elaboração de sua arte. Como cronista trouxe peculiaridades interessantes a partir de uma ótica leve e descontraída. E assim, imbuído dessas características, Samuel soube fundir muito bem tais elementos em sua sonoridade e agora em 2012 acabou de lançar o cd “Eu não posso parar”, trabalho este que nasceu de modo independente e que vem sendo divulgado pelos canais alternativos existentes, principalmente a partir das redes sociais. No Youtube, por exemplo, o primeiro vídeo clipe já vem sendo difundido e traz como característica um lirismo quase pueril que funde-se a uma visão cosmopolita (já que retrata a ambientação na qual o artista está inserido).

Composto por onze faixas, “Eu não posso parar” trata-se de uma abordagem sonora bastante peculiar, que procura retratar em melodias conceitos e dilemas de um sujeito que tem uma relação bastante intrínseca também com as letras. Essa intimidade com versos e melodias vem de longas datas, quando Samuel Carnero no alto dos seus 3 anos ganhou do pai uma pequena vitrola. Sua lembrança mais remota vem das canções sussurradas ao seu ouvido por seu pai. Essas músicas estavam presentes em uma fita K7 e por muito tempo fez a alegria do pequeno Samuel. Não sabia seu pai que os versos escritos por Vinícius de Moraes como “Lá vem o pato pata aqui pata acolá… lá vem o pato para ver o que é que há…”, assim como outros, tocariam tão fundo em seu filho e, de certo modo, transformaria a sua vida.

Também houve incentivo do lado materno, sua mãe (que também é pianista) o presentou aos 6 anos com um instrumento pra lá de exótico para muitos, mas na visão de uma criança bastante divertido. A cítara ganha juntamente com algumas partituras de músicas natalinas e infantis. Daí vieram incentivos de outros membros da família como o da tia Nely, que além de ser professora de piano clássico foi ela que propiciou o primeiro contato do artista com o violão. Esse envolvimento com a música talvez se dê devido a geração que antecede seus tios e pais, pois segundo relatos de sua avó materna é uma história que vem de sua época. Isto talvez explique a quantidade de parentes envolvido com as artes e a sua total propensão para o universo da música.

Quase todas as composições do disco ficaram a cargo do próprio cantor, com exceção de 4 faixas, que escritas a quatro mãos têm a parceria de amigos e da mãe do artista, Roseli Helena. Enquanto autor, Samuel Carnero traz em sua bagagem a apurada linhagem a qual pertence e nos apresenta temas como a irreverente “Selva de cerveja”. Já o blues “A balada da Fejuca” descreve a degustação de uma bela feijoada seja na quarta-feira para retomar plenamente satisfeito ao trabalho, seja no sábado acompanhado de uma caipirinha e uma boa música.

O disco continua com as românticas baladas “Habib” e “Perdão outra vez, Luciana”. Já “Ideal”, que vem como música escolhida para a produção do clipe, mostra como podemos “fazer a mente” de diversos modos distintos como pode-se enumerar ao assistir ao vídeo acima. A produção ainda conta com faixas como “Whispering in your ear”, o country “Vitrine da alma” e o o reggae “Lírios”. Além das baladas “O eterno não se desfaz” e “Eu não posso parar”, faixa homônima ao título ao trabalho. O disco encerra com a faixa “Amor”, poema altruísta que ganha leve melodia e retrata um artista multifacetado. Na tecitura sonora de “Eu não posso parar” encontramos nos arranjos, guitarras e violão de Ronaldo Rayol, o baixo de Eric Budney, teclados de Moisés Alves e Nahame Casseb no comando da Bateria e, além é claro, do próprio Carnero.

Agora para os amigos fubânicos deixo, além dos meus votos de um 2014 cheio de conquistas, duas faixas deste trabalho autoral de Carnero. A primeira faixa trata-se de “Ideal“:

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A segunda canção é “Perdão outra vez, Luciana“:

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2013, UM ANO PARA A MÚSICA PERNAMBUCANA ESQUECER

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Arlindo dos 8 baixos, Dominguinhos, Sanae Shibata, Carlos Fernando, João Silva, Duda da Passira e Reginaldo Rossi são alguns dos nomes que partiram em um ano acometido por tantos infortúnios

A música pernambucana como um todo ficou substancialmente mais pobre ao longo do ano de 2013. Ela perdeu nomes que contribuíram de modo bastante efetivo nas últimas décadas para elevar o nome e a cultura do estado para o patamar que hoje é possível observá-la nos mais diversos gêneros que a constitui. No entanto, um gênero em especial, foi o que mais sentiu a perda de nomes emblemáticos em seu segmento: o forró.

Partiram nomes como Julio Nunes Pereira, ou melhor Duda da Passira. Natural de Passira, no Agreste de Pernambuco, o instrumentista começou a carreira tocando forró pé-de-serra. Com seis discos e mais de dez CDs gravados, em 1991 foi indicado ao Grammy internacional na categoria música regional e veio a sucumbir devido a uma hemorragia digestiva que talvez tenha se agravado devido a diabetes a qual o músico também sofria; Outro que também partiu ao longo deste ano foi o cantor e compositor João Silva. Autor de mais de 2000 composições e inúmeros clássicos interpretados por nomes como Luiz Gonzaga e quase todos os cantores e intérpretes do gênero, João deixa-nos como legado canções como ‘Nem se despediu de mim’, ‘Pagode Russo’, ‘Deixa a tanga voar’ entre tantas outras com os parceiros mais diversos tais quais João do Vale, Onildo Almeida, Rosil Cavalcante, Severino Ramos, Bastinho Calixto, Pedro Maranguape e Pedro Cruz. Nascido em Arcoverde, a 259 quilômetros do Recife, João Leocádio da Silva, o João Silva, foi também um dos responsáveis direto do primeiro disco de ouro de Luiz Gonzaga, o álbum ‘Danado de bom’, que vendeu cerca de 1,6 milhão de cópias vendidas.

Outras lacunas deixadas ao longo deste ano foram ocasionadas pela partida de dois ases da sanfona. De um lado Arlindo dos oito baixos, considerado Patrimônio Vivo de Pernambuco. Nascido em Sirinhaém, Arlindo morou até a adolescência no Engenho Trapiche. Saiu da cana-de-açúcar para cortar cabelos no Cabo de Santo Agostinho. Foi lá que começou a tocar sanfona em bailes, instrumento que aprendeu vendo o pai tocar os Oito Baixos. Foi em um show no Parque de Exposição do Cordeiro que Arlindo conheceu Luiz Gonzaga. Passou 22 anos tocando com o Rei do Baião. “Ele que me fez voltar aos oito baixos. Disse que já tinha sanfoneiro demais, mas ninguém tocava oito baixos. Gravei e na hora de assinar os créditos ele pediu pra trocar Arlindo do Acordeom por Arlindo dos 8 Baixos”, lembrou, em entrevista pouco antes de morrer. Em mais de 50 anos de carreira, Arlindo gravou mais de 200 músicas, a maioria instrumental.

O outro expressivo nome foi Dominguinhos, parceiro e discípulo do maior nome do gênero ao qual tão bravamente defendeu: Luiz Gonzaga. Dominguinhos foi um dos responsáveis não só pela urbanização do forró mais também por manter viva a chama do ritmo em todo o país depois da morte do Rei do Baião. Dominguinhos partiu aos 72 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo depois de lutar por cerca de seis anos contra um câncer de pulmão. Nascido em Garanhuns, no agreste de Pernambuco, o sanfoneiro conheceu Luiz Gonzaga com 8 anos. Aos 13 anos, morando no Rio, ganhou a primeira sanfona do Rei do Baião, que três anos mais tarde o consagrou como herdeiro artístico. “Gonzaga estava divulgando para a imprensa o disco ‘Forró no Escuro’ quando ele me apresentou como seu herdeiro artístico aos repórteres”, lembrava Dominguinhos sempre que questionado sobre o assunto. Instrumentista, cantor e compositor, o artista ganhou em 2002 o Grammy Latino com o “CD Chegando de Mansinho”. Ao longo da carreira, fez parcerias de sucesso com músicos como Gilberto Gil, Chico Buarque, Anastácia, Nando Cordel, Fausto Nilo e Djavan.

Já o frevo perdeu Carlos Fernando vítima de complicações causadas por um câncer de próstata. Natural de Caruaru, o pernambucano foi um dos responsáveis pela renovação do frevo não só em Pernambuco, mas em todo o país através do projeto “Asas da América” e a série de discos lançados até meados da década de 1990. Ainda na mesma década foi responsável pela série Recife Frevoé e nos anos de 2000 foi o produto do álbum “100 Anos de frevo – É de perder o sapato”, em homenagem ao centenário do ritmo. Carlos, ao lado de outros artistas pernambucanos, também participou do Movimento de Cultura Popular de Pernambuco – um dos focos da resistência ao governo militar no estado – ainda na década de 60 e foi autor, entre diversas composições, de “Banho de Cheiro“, eternizada na voz de Elba Ramalho; “Canta Coração“, eternizada por seu parceiro e amigo Geraldo Azevedo. No currículo, o pernambucano deixa como legado centenas de canções (boa parte com Geraldo Azevedo) e intérpretes como Caetano Veloso, Djavan, Chico Buarque, Jackson do Pandeiro e Gilberto Gil.

Não poderia também deixar em branco o infortúnio que vitimou de modo precoce a produtora japonesa Sanae Shibata, de 31 anos. Sanae, que morava no Recife há 10 anos e trabalhava como produtora musical, com trabalhos diversos ligados à valorização da música pernambucana, foi vítima de um atropelamento de moto.

Nascida em Tóquio, e formada em Comunicação Social pela Universidade em Tóquio, estudou cultura nordestina na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também participou do Programa de Pós-Graduação em Antropologia. “Desde 2004 trabalho como produtora cultural, na acessoria entre produtores japoneses e artistas nordestinas”, dizia seu perfil no portal Nação Cultural. A produtora fazia a ponte entre Pernambuco e Japão, levando discos do Estado para a Terra dos “olhos puxados” e desde 2007, Shibata trabalhava com patrimônio imaterial, como pesquisadora de campo para levantamentos pelo Iphan, explorando “Formas de expressão de Pernambuco e Cocos do Nordeste”. A produtora aprendeu a tocar e fabricar a rabeca, instrumento típico do Cavalo Marinho nordestino, na escola de luthieria em Ferreiros, na Zona da Mata Pernambucana.

Por fim, a menos de uma semana, perdemos um dos maiores expoentes do ritmo “brega” que foi Reginaldo Rossi. Com quase 50 anos de carreira Rossi soube como poucos expor as dores e lamentos dos traídos nos 31 discos que lançou. Deixa como legado a irreverência e a imagem peculiar acompanhado por sua cabeleira e seus óculos.

Se de um lado as coisas são desfavoráveis, por outro este ano foram lançados, até agora, entre CDs, DVDs, LPs e EPs, mais de 180 títulos de artistas pernambucanos e a Passa Disco, trincheira de resistência da cultura do estado, chegou a uma década de existência valorizando de modo cada vez mais constante a cultura de Pernambuco.


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BANDA DINDA – ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Dinda é uma banda que não precisou usar de clichês mercadológicos para alcançar o espaço que hoje tem. Grupo encabeçado pelo cantor e compositor João Bernardo que surgiu na cena índie carioca já ultrapassou os 240 mil views no Youtube. Com letras e melodias simples, o grupo vem divulgando o disco “Ano que vem eu vou ser na avenida o palhaço que eu fui na sua vida”, álbum que foi abordado recentemente aqui no JBF sob o título de “A PROFÍCUA E SIMPLÓRIA SONORIDADE DA DINDA”. Já articulando um novo projeto, gentilmente Matias e João concederam essa entrevista exclusiva falando sobre aspectos da carreira, influências, o sucesso do Youtube entre outros aspectos como vocês podem conferir abaixo. Boa leitura!

Parece que a banda surgiu a partir do desejo do João de trazer para um contexto mais de grupo aquilo que ele já fazia de maneira solo não é isso? Quanto aos integrantes, como surgiu a ideia dessa formação?

João Bernardo – Minha ideia foi de chamar pessoas que se sentissem parte de uma banda e não tocando com um cantor, por isso a proposta da Dinda. Botei minhas canções pra jogo, e cada vez mais temos músicas e parcerias entre todos. A banda já teve algumas formações pra chegar na atual. O Matias está desde o iníco, já o conhecia de longa data, e acompanhava a carreira dele no Bondesom. Beto Callado foi indicado pelo baixista Bruno Di Lullo (Tono, Gal) e trouxe com ele o Marcelo de Sá. Rodrigo Jardim entrou por último pra assumir o baixo, que antes ficava dividido pelo Marcelo e pelo Beto.

Todos participam de projetos paralelos a Dinda? Como tem sido feito esta conciliação?

Matias – Na banda todos têm projetos paralelos, é normal isso acontecer. Os músicos têm livre arbítrio para participar do projeto artístico que quiserem.

Ano que vem eu vou ser na avenida o palhaço que eu fui na sua vida” não é um título muito longo? Como se deu o, digamos, batismo do disco?

João Bernardo – Com certeza, Um dos motivos da gente querer colocar, é porque era muito longo mesmo. É uma forma de instigar.

A Dinda mostra uma diversidade rítmica muito grande no álbum de estreia e isso talvez seja consequência das várias influências as quais os integrantes da banda foram submetidos. Há a possibilidade de citar algumas?

Matias – Tudo que está na gente consciente ou inconscientemente.

Vocês esperavam que o clipe da canção “Queria me enjoar de você” teria a quantidade de acessos que hoje possui? Quando foi que vocês se deram conta que ela estava tendo a “notoriedade virtual” que hoje ela tem?

Matias e João Bernardo – Desde o início deu pra ver esse potencial no vídeo, mas o legal é que já passaram quase dois anos e o movimento dele continua. Não foi só um amor de verão.

Na faixa “Amor amora” há a participação da pequena Maria Miranda de Moraes, uma criança tão carismática que acaba aguçando a curiosidade de muitos, como se é perceptível nos comentários do youtube, por exemplo. Quem é a Maria? Como ela chegou a ingressar neste projeto com essa participação?

João Bernardo – Ela é prima da minha mulher. E e muito esperta! Quis chama la pra cantar uma m’usica minha porque sabia que ela se sairia muito bem.

Quais foram o(s) procedimento(s) adotados para a escolha do repertório do disco?

João Bernardo – Foram as músicas que estavam com o arranjo mais definido.

Vocês estão lançando esse projeto pela Bolacha Discos (selo que pelo que parece nasceu já inserido nesse novo contexto mercadológico) a um preço bastante acessível. O sucesso do disco tem seguido o mesmo das redes sociais?

João Bernardo – As duas coisas estão caminhando bem, cada um no seu ritmo.

Hoje no Brasil a música independente ou lançada a partir de selos menores tem se evidenciado cada vez não só pela qualidade dos trabalhos mais por uma série de fatores que favorecem este cenário. A maior prova desta afirmação evidenciou-se na última edição do Prêmio da Música Brasileira (considerado como a principal premiação da música em nosso país), onde Herbert Lucena (artista independente pernambucano) ficou, entre tantos renomados artistas e gravadoras, entre os maiores contemplados do prêmio com um disco com nome tão longo quanto o de vocês (Não me peça que eu dê de graça tudo aquilo que eu tenho pra vender). Em contrapartida a questão do “jabá” é algo público e notório nas relações radiofônicas, por exemplo. Como é lhe dar com essas facilidades e estorvos em uma carreira no molde como a de vocês?

Dinda – As coisas estão sempre se transformando, a forma como a internet e a transmissão de conteúdo estão entrando na vida das pessoas tem alterado todo o processo da música. O saldo é positivo.

Quais são as expectativas para o ano de 2014?

Matias – Gravar um novo disco, fazer shows pelo Brasil e produzir mais conteúdo na internet.


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A PROFÍCUA E SIMPLÓRIA SONORIDADE DA DINDA

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Matias Zibecchi, Marcelo Cardoso, João Bernardo e Beto Callado

A partir da década de 30, a referência para o sucesso de um cantor ou banda era medido através das ondas sonoras das rádios com os seus programas de auditório e por artistas que geralmente interpretava as canções de outros artistas, como era o caso de cantores como Orlando Silva, Francisco Alves e a pequena notável Carmem Miranda. Esse parâmetro perdurou até a chegada e popularização da televisão no Brasil a partir da década de 50 através da iniciativa do paraibano Assis Chateaubriand que trouxe como consequência os festivais musicais que acarretaram o lançamento de tantos nomes nas décadas de 60 (Chico Buarque, Caetano Veloso, Mutantes, Tom Zé, Geraldo Vandré, Elis Regina e tantos outros), 70 (Carlinhos Vergueiros, Djavan, Walter Franco, Jards Macalé e mais alguns) e, em uma menor proporção, os anos 80 com nomes como por exemplo Leila Pinheiro, que brilhantemente defendeu a canção “Verde” (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) no festival dos festivais em 1985.

A partir dos anos 90 com a popularização da internet as coisas ganharam outra conotação. A popularidade hoje se dá a partir das redes sociais e exibições em sites diversos, principalmente se nos referirmos a artistas e grupos em início de carreira tal qual a banda que aqui me refiro, prova disto são as mais de 200 mil exibições no youtube e os milhares compartilhamentos no facebook com o clipe “Queria me enjoar de você”, vídeo gravado de modo despretensioso no aniversário de um dos integrantes do grupo, João Bernardo, e jogado na internet pouco tempo depois ganhando rapidamente o gosto popular como se atestou pelos números citados anteriormente. O material consiste na exibição das pessoas presentes na confraternização entoando quase todos a canção que dá título ao vídeo de modo bastante informal à base de caipirinhas e sorrisos ao longo dos cerca de 6 minutos. Dentro desses novos parâmetros de medição, pode-se considerar a banda Dinda (nome dado ao grupo em homenagem a madrinha do vocalista João Bernardo) como dona de um sucesso relevante no atual contexto cibernético musical brasileiro.

A banda surgiu da decisão do cantor e compositor João Bernardo sentir a necessidade de estar junto com outros músicos fazendo algo mais coletivo (desde as composições até os arranjos), do desejo cantor e compositor incorporar uma rotina diferente para a sua carreira artística adotando um espírito de banda, diferente daquilo que estava acostumado: músicas e arranjos próprios e músicos para acompanhá-lo sem nenhuma intervenção nas letras e melodias. Daí surgiu a oportunidade de juntar-se a outros nomes como Beto Callado (guitarra e compositor, além de ter o projeto paralelo intitulado Cubo Branco), Matias Zibecchi (baterista e também integrante dos grupos Bondesom e Orquestra de Conga), Marcelo Cardoso (guitarrista e renomado professor de música, que lecionou para toda uma geração de músicos cariocas), além do baixista Rodrigo Jardim e do Pedro Mangia (baixo e teclados) que chegaram a passar banda em outra oportunidade formando assim a banda Dinda desde meados de 2009.

A cerca de um ano a banda lançou o primeiro álbum com o nome “Ano que vem eu vou ser na avenida o palhaço que eu fui na sua vida”, título extraído da marchinha “O amor vem de longe”, composição do João Bernardo que de modo análogo aborda o carnaval com o final de um relacionamento mal sucedido.

A balada “Queria me enjoar de você” (João Bernardo), que virou o principal “hit” da banda, acabou no álbum ganhando o reforço de sopros, bateria, teclados e outros instrumentos, criando uma sonoridade diferente da presente no videoclipe, onde a canção é apresentada apenas com voz e violão; além do que dos 6:38 minutos presentes no registro videográfico a canção agora é apresentada em pouco mais que 4 minutos. O disco continua com faixas que retratam o amor com uma leveza peculiar tal qual “Dinda” (parceria entre João e Piero Grandi que retrata o amor de modo pueril e cativante), “Cobra com asa” (parceria de Bernardo com a cantora e compositora carioca Ana Clara Horta), “Um túnel no fim da luz” (faixa norteada pelo tradicional funk americano e que deixa como mensagem que “Ninguém mata a sede bebendo mágoa…”. Esta canção faz parte da lavra de composições solo do João). Outras canções assinadas apenas por João Bernardo são “Sereia movediça”, “Demorou mas foi rápido” e “Amor amora”, esta última conta com a participação da pequena Maria Miranda. O disco ainda traz mais três faixas do mentor do projeto com Betto Callado, são ela “Vem de Minas”, “Carrossel” e “Flor da noite”.

Em síntese, pode-se afirmar que a banda traz consigo uma despretensiosa diversidade musical que acaba fazendo de sua abrangente sonoridade algo muito peculiar, demostrando que a leveza e simplicidade podem nortear diversos estilos sem que estes percam a qualidade nessa obra que foge da complexidade sonora sem perder a excelência. Vale salientar que o idealizador do projeto vem de dois álbuns solo (Mergulho e Vende peixe-se) e chega neste projeto assinando (em parceira ou de modo individual) todas as onze canções presentes no disco como vocês observaram, mostrando, ao seu modo, uma grande diversidade de ritmos e letras despretensiosamente agradáveis. E esse agradável passeio contou com Philippe Leon (projeto gráfico), Rogério Von Krüger (fotos e vocal), Luiz Tornaghi (masterização) e Lc Varella (produção, efeitos, mixagem e gravação), além da sonoridade dos integrantes do projeto em parceria com nomes como Ricardo Rito (teclados), Yuri Villar (sax tenor e flauta), Bruno Dilullo e Luisa Corrêa (nos vocais).

Então é isso. Com este novo parâmetro de medição para o sucesso com o advento da internet, a Dinda mostra-se não só inserida de modo exitoso nisto tudo, mas também traz consigo uma profícua sonoridade neste caldeirão de ritmos que eles souberam condensar como poucos e hoje classificam o som que fazem como pop. Vale destacar que o mais interessante é que nesta constituição há imbuído um proveitoso paradoxo: a extrema simplicidade das letras e melodias, sem deixar se perder uma qualidade inerente aos grandes trabalhos fonográficos, e é claro que isso acaba destacando a banda dentro do cenário musical como um todo, principalmente no contexto musical indie carioca. Isso mostra que eles são possuidores de relevantes adjetivos, mostrando que não vem à toa toda essa notoriedade, eles são merecedores deste destaque. Vida longa à candura sonora da Dinda!

Para os amigos fubânicos deixo aqui duas canções do grupo carioca presentes no primeiro álbum. A primeira é “O amor vem de longe“, uma composição do João Bernardo:

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Já a segunda canção trata-se da balada “Queria me enjoar de você“, também de autoria do João Bernardo e que virou o principal “hit” da banda:

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