1912 – UM SÉCULO DA PRIMEIRA EDIÇÃO DO EU – 2012

Concepção artística da foto em preto e branco do Poeta, quando se formou em Direito no Recife, em 1907 e Capa da primeira Edição do EU autografada para um amigo no Rio de Janeiro
O primeiro contato que tive com Augusto dos Anjos foi aos 11 anos de idade, já morando em Campina Grande.
Na sala da casa de um vizinho parede-meia havia um grande retrato a lápis, emoldurado e protegido com vidro, de um moço de bigode, cabelos lisos e bem penteados, de paletó e gravata.
Um dia perguntei ao filho mais velho do vizinho quem era o distinto, se era parente deles. Ele me respondeu que era um poeta que o pai dele desenhou e de quem gostava muito, mas ele, o meu amigo, não sabia o nome.
Um certo dia criei coragem e perguntei sobre o retrato ao vizinho (um senhor sisudo e de poucas palavras). Ele me respondeu que era o poeta Augusto dos Anjos e me mostrou um velho livro, acho hoje que uma edição dos anos 30 do ‘EU’, mas nos aconselhou (a mim e ao seu filho) a ler os poetas que nossas professoras nos indicavam, Álvares de Azevedo, Casemiro de Abreu, Fagundes Varela, Castro Alves etc.
Esse ‘conselho’ me aguçou a curiosidade e daí passei a cascavilhar poemas do Augusto. Perguntei primeiro às Irmãs Cecília e Antoinete, diretora e vice do Grupo Escolar onde estudava. Levei um disfarçado esporro e fui também aconselhado a ler os poetas que o vizinho circunspecto já havia citado; e indicou mais alguns romances dos escritores José de Alencar, Aloísio Azevedo e outros que não mais me lembro.
Mas não desisti do Augusto dos Anjos, pois meu vizinho sisudo recitou alguns poemas do Poeta do Engenho Pau d’Arco e, aqueles estranhos versos ficaram grudados nas paredes da minha memória e não era pra menos…
Daí por diante ouvi de alguns senhores ilustrados, outros poemas de AA. Uma vez um amigo me mostrou uma antologia com três poemas e uma pequena nota sobre o Poeta. Decorei somente ‘Vandalismo’. Tempos depois, um amigo de João Pessoa ‘teve’ que recitar de memória, até eu decorar, o famoso e imprecatório ‘Versos Íntimos’.
Já adolescente, morando no Rio de Janeiro, frequentador assíduo da Lapa (nessa época, meados dos anos 50, a Lapa vadia não mais era frequentada por seus famosos malandros, Miguelzinho, Camisa-Preta, Meia-Noite, Edgar e o maior de todos, o pernambucano João Francisco dos Santos, o Madame Satã, que se encontrava preso, pela morte numa briga, do sambista Geraldo Pereira). Nos botequins, nas rodas de boêmios doutores e/ou pés-de-chinelo, ouvia frequentemente alguns deles recitar longos poemas, emocionados, do Poeta do Pau d’Arco. Tinha um, famoso, que recitava o poema ‘A Meretriz’, da primeira à última estrofe.
Procurei nos melhores ‘sebos’ e livrarias do Rio o EU e não tive sorte. Em 1960 fui transferido para Brasília, mas viajava com frequência pro Rio. Numa dessas viagens encontrei num ‘sebo’ um pequeno livrinho da Agir sobre AA, organizado por Antônio Houaiss. Tive que comprar um bom dicionário, pra entender tanto o Augusto quanto o Houaiss, mas valeu a pena o ‘sacrifício’.
Em 1962 comemorava-se o cinquentenário do EU e a Livraria São José(RJ) publicou, no ano seguinte, pela primeira vez, uma bem cuidada edição (a 29a) do já famoso livro. Comprei em 1964 a 30a, com as correções das poucas falhas da anterior. Esse livro, agora com ares de ‘definitivo’, além do “Elogio a Augusto dos Anjos”, do seu amigo em vida, Órris Soares (tio-avô do Jô Soares), traz dois estudos da maior importância e bastante esclarecedor sobre a vida e o fazer poético do Augusto, um do carioca Antônio Houaiss e outro do pernambucano Fausto Cunha.
A bibliografia sobre o Eu é muito extensa. Em 1994 o poeta carioca Alexei Bueno publicou, para a Nova Aguilar a “Obra Completa de Augusto dos Anjos”, que organizou, fez a fixação de textos e publicou notas diversas, inclusive os versos de circunstâncias.
Não cabe aqui expor tudo o que foi dito sobre o poeta paraibano, pois seus críticos e biógrafos, entre verdades e equívocos, tentaram explicar sua originalidade, seu desvio do estilo que agradava à sociedade da belle époque que vigorava também no Rio de Janeiro.
Augusto dos Anjos, no meu entender, tinha consciência do que pretendia mostrar, não para aquele momento histórico, mas para a posteridade, com os seus poemas diferentes de tudo o que existia na época. E conseguiu, embora não satisfeito com os resultados da sua incessante procura, por toda a sua curta existência. E reconhecia isso em muitos poemas, entre os quais no famoso soneto “Solilóquio de um Visionário”, que transcrevo abaixo somente os dois tercetos.
Vestido de Hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais…
Subi talvez ás máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que ainda eu suba mais!