DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE JOSÉ COSTA LEITE

 JOSÉ-COSTA-LEITE1

José Costa Leite (à esquerda), vendendo seus folhetos na feira de Itambé-PE

* * *

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei, não me formei
Por que meu pai não podia
Jesus, filho de Maria
De mim se compadeceu
Como presente me deu
Um crânio com poesia!

* * *

Hercílio Pinheiro

Na Escritura Sagrada,
me lembro que Jesus disse:
Quem tivesse pra dar, desse,
quem não tivesse, pedisse;
quem fosse triste chorasse,
quem fosse alegre sorrisse.

* * *

Erasmo Rodrigues

Vinte e oito janeiros me jogaram
Na cadeia dos tristes desenganos
Sinto falta dos meus quatorze anos
Que a soma dos meses apagaram.
Os meus dias felizes lá ficaram
Pela rua da infância adormecida
A barcaça da existência fez partida
Pela água do rio da saudade
Se dinheiro comprasse mocidade
Eu seria criança toda a vida.

Uma noite de inverno, um dia quente,
Um domingo ou por outra um feriado,
Um riacho no leito do roçado
E os estrondos do peso da enchente.
Um açude sangrando, lá na frente,
As saudades da infância inesquecida
Mas o tempo tem ordem permitida
Pra dar fim aos prazeres da idade
Se dinheiro comprasse mocidade
Eu seria criança toda a vida.

* * *

Manoel Xudu

Eu acho muito engraçado
O padre Matusalém,
Quando distribui a hóstia
É pra dez, cinquenta, cem
Mas bebe o vinho sozinho,
Não dá um gole a ninguém.

* * *

Dió de Santo Izidro

Admiro a sabiá
Por ser uma ave bela
Faz o ninho põe e choca
E quer o filho perto dela
E tem mãe que mata a criança
Pra não dar trabalho a  ela.

* * *

Raimundo Lucas Bidinho

Comi de um jerimum cabôco
Já da rama derradeira
Era mole como cera
Tinha água igual um coco
Vingou em cima de um tôco
Três palmo acima da terra
Encarnado como guerra
Com o gosto de cupim
Foi este o jerimum mais ruim
Que deu na Aba da Serra.

* * *

Aldo Neves

Jesus Cristo tem sido até agora
Protetor de ateus e de pagãos
Me entrego Senhor em Tuas mãos
Tando aqui ou andando mundo afora
Ele ajuda a quem ri e a quem chora
Porque é paciente e bom amigo
Me livrando da treva e do perigo
É o Mestre do mundo e da Igreja
E por mais longe Senhor que eu esteja
Com certeza eu alcanço o Teu abrigo.

* * *

Luciano Carneiro

Eu não tive vocação
Pra diácono nem vigário
Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário
Mas sou com muita alegria
No campo da poesia
Um verdadeiro operário .

* * *

Lourinaldo Vitorino
(Em homenagem a Otacílio Batista Patriota)

As violas de luto soluçando
Dão adeus ao Bocage do repente,
Um fenômeno de arte, um expoente,
Que de cinco a seis décadas improvisando
Sua voz de trovão saiu rasgando
Modulando a palavra em cada nota
Pra cultura um nocaute, uma derrota,
Um desastre, uma perda, um golpe horrendo,
Enlutado o repente está perdendo
Otacílio Batista Patriota.

* * *

Luciano Maia

Cantor das coivaras queimando o horizonte,
Das brancas raízes expostas à lua,
Da pedra alvejada, da laje tão nua
Guardando o silêncio da noite no monte.
Cantor do lamento da água da fonte
Que desce ao açude e lá fica a teimar
Com o sol e com o vento, até se finar
No último adejo da asa sedenta,
Que busca salvar-se da morte e inventa
Cantigas de adeuses na beira do mar.

* * *

UM FOLHETO DE JOSÉ COSTA LEITE

A ONÇA E O BODE

Uma pobre onça vivia
em uma mata deserta
dormindo ali, acolá
não tinha morada certa
exposta a chuva e o vento
cochilando no relento
sem travesseiro ou coberta.

Certa vez a onça estava
pensando na sua vida
havia chovido a noite
ela estava enfraquecida
com fome e toda molhada
além disso, resfriada
pois se molhou na dormida.

A onça disse consigo:
“Isso assim não fica bem
vivo por dentro dos matos
sofrendo como ninguém
nunca pude preparar
uma casa pra morar
e quase todo bicho tem”.

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CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO ANTIGO

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Poeta cantador Dimas Batista Patriota (1921-1986)

Dimas Batista

Quando eu pego na viola
Para cantar o Brasil:
Militar deixa o fuzil;
Jogador esquece a bola;
O aluno gazeia a escola;
O judeu sai do balcão;
O orador erra a expressão;
Pugilista perde o soco.
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Eu sou toque de corneta;
Sou barulho de batalha;
Sou o gume da navalha;
Sou a ponta da lanceta;
Sou a pancada da marreta;
Sou o golpe do facão;
Sou tiro de mosquetão;
Sou trator de arrancar toco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Cantador só passa em teste
Se consultar o Batista;
Porque Deus me fez artista;
Repentista do Nordeste;
Eu não temo nem a peste
Que tenha “pauta” com o “cão”,
Minha voz é um trovão;
Só não ouve quem for mouco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

* * *

Tárcio Costa

Se eu minto não minto só
Pois eu vi Dilma Rouseff
Mais o Lula que é seu chefe
Graça Foster, Cerveró
Adentrarem no forró
E foi quando veio à tona
Que a tal festa foi à lona
A zabumba foi roubada
Pinga superfaturada
Ninguém mais viu a sanfona.

* * *

Aldo Neves

Jesus Cristo tem sido até agora
Protetor de ateus e de pagãos
Me entrego Senhor em Tuas mãos
Tando aqui ou andando mundo afora
Ele ajuda a quem ri e a quem chora
Porque é paciente e bom amigo
Me livrando da treva e do perigo
É o Mestre do mundo e da Igreja
E por mais longe Senhor que eu esteja
Com certeza eu alcanço o Teu abrigo

* * *

Odilon Nunes de Sá

Acho graça a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Novo ninguém quer morrer
Sem ser velho ninguém vive
Bom é ser velho e viver.

* * *

Onildo Barbosa

No planeta poeta em que vivemos
Sonho muito em deixar de ser poeta
Minha alma andarilha e inquieta,
Já cansou de romper os seus extremos,
Tenho a grande impressão, que o que temos
Já perdeu seu sabor original,
Fica apenas no mundo virtual
Todo dia essa cena se repete
O que faço não passa da internet
Nada vale pra mídia nacional.

Eu queria ver lá em Jô Soares,
Cordelistas, poetas cantadores ,
Repentistas, fiéis aboiadores
Divulgando projetos populares
Sebastião Cirilo, Carlos Aires,
Moacir, Ivanildo, Biu Salvino,
O poeta maior: Júnior Adelino,
Zé Viola, Geraldo e Moacir,
E eu sentar no sofá pra assistir,
Ao mais puro elenco nordestino.

Fico triste assistindo no Faustão
Um desfile de raças de cachorro
Nosso verso ao chorar pedir socorro
Mas programa nenhum lhe dá a mão
Nossa arte criada no sertão,
Possui tantos talentos pra mostrar,
Quero vê Mestre Lemos declamar,
Com Heleno Alexandre de Sapé,
Demonstrando o cordel como ele é,
A mais rica cultura popular.

O Rolando Boldrin não me convida
Jô Soares, Datena, nem Faustão,
Cada dia me dá a impressão
Que a nossa cultura está perdida
Fico aqui neste beco sem saída
Sufocado na minha persistência
A viola, na sua resistência,
Quando toca me diz em som dolente,
Que a barreira que tem na nossa frente
É maior do que nossa inteligência.

* * *

Um folheto de Leandro Gomes de Barros

O DEZRÉIS DO GOVERNO (Publicado em 1907)

Folheto_de_Leandro_Gomes_de_Barros

Conversavam dous vizinhos
Moradores de um sobrado
Exclamou, um oh! vizinho!
Já viu o que tem se dado?
O quê? – Perguntou o outro
Os 5 réis do estado.

Pergunta outro vizinho
Não é esse do vintém?
É um imposto damnado
Que não escapa ninguém,
É peior do que bexiga
Não repara mesmo alguém.

Bexiga ainda tem vacina
Que um outro sempre escapa
Mais esse imposto d’agora!
Só a doutrina do Papa
Qualquer cousa que se compra
Os fiscais dão mão de raspa.

Não me recordo do dia
Já estraguei a lembrança
Meu tio tem avó em casa
Foi fazer uma mudança
Pois para tirar a velha
Foram com ella a balança.

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GERALDO AMÂNCIO E A ARTE DA GLOSA

O grande poeta repentista Geraldo Amâncio: cearense que é um dos maiores nomes da poesia popular e da cultura nordestina contemporânea

* * *

Todas as glosas a seguir são da autoria de Geraldo  Amâncio

Mote:

Toda lei ultrapassada
Só favorece o bandido.

Se for um parlamentar
Pode ter crime a vontade
Que o dedo da impunidade
Não deixa lhe investigar.
Se alguém o denunciar
É sujeito a ser punido,
Processado e ser tangido
Pra o beco da emboscada;
Toda lei ultrapassada
Só favorece o bandido.

Mote:

Não tem nada parecido
Com o amor da mãe da gente.

A mãe nova ou mãe antiga
Tem coragem como loba
Se tem um filho que rouba
Pra defendê-lo se obriga
Se a polícia lhe investiga
Diz que o filho é inocente
Grita, chora, jura e mente
Defende o filho bandido.
Não tem nada parecido
Com o amor da mãe da gente.

* * *

Mote:

Pra que tanto tesouro acumulado
Se ninguém leva nada no caixão.

Não adianta um pecador enganar
E nessa vida viver da fase crítica
Entre luta, entre roubo, entre política
Pra depois nesse mundo ele enricar
Que se a gente também for comparar
Desde um rico para um pobre cristão
Para Deus vale mais quem pede um pão
Do que um presidente ou deputado
Pra que tanto tesouro acumulado
Se ninguém leva nada no caixão.

Mote:

O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Quem foi pai do folheto nordestino
Foi Agostinho Nunes do Teixeira,
Escreveu a história pioneira
Com os filhos Nicandro e Ugolino.
Prosseguiu com Germano e com Silvino,
Eis aí a primeira geração.
O romance no estado de embrião
Fervilhou no poder imaginário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Teve berço no chão paraibano,
Da cultura do povo um grande guia,
Registrou a primeira cantoria
Na peleja de Inácio com Romano.
A memória do padre Otaviano
Levou luz  onde havia escuridão,
O veículo maior de informação
E o primeiro jornal do proletário
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

O cordel memoriza a cantoria
Na peleja de Pinto com Marinho,
Com o Cego Aderaldo e Zé Pretinho,
O que via apanhou do que não via.
Zé Gustavo e Roxinha da Bahia,
Nisso tudo aparece até o cão,
Na peleja do Diabo e Riachão
Foi Assu testemunha do cenário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

A maior expressão do menestrel
Não há força que atinja o seu alcance
O campônio conhece por romance
Ou então por folheto de papel.
Só depois veio o nome de cordel,
Que em feira era exposto num cordão
Ou então numa lona pelo chão
E um poeta a cantar feito um canário.
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Registrando o passado e o presente,
Para tudo o cordel tem sempre espaço:
Pra amor; pra política, pra cangaço,
Romaria, promessa e penitente.
Retirante, romeiro, presidente,
Seca, fome, fartura, inundação,
Nele encontra o melhor documentário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE DISCUSSÃO

Mote glosado pelo saudoso poeta Manoel Filó: 

Cachaça no organismo
É necessário demais

MMF-

* * *

Manoel Filó glosando o mote:

Olinda! estes teus coqueiros
São fantasmas do passado.

De manhã, quando o sol raia
As ondas mais agitadas
Jogam rendas espalhadas
Por toda extensão da praia
O nevoeiro desmaia
No calçamento ondulado
Lavando o chão pisunhado
Por milhares de estrangeiros
Olinda! estes teus coqueiros
São fantasmas do passado.

* * *

Dimas Batista glosando o mote:

Passa tudo na vida…tudo passa
Mas nem tudo que passa a gente esquece.

Os carinhos da mãe enternecida
Os brinquedos dos tempos de criança
O sorriso fugaz de uma esperança
A primeira ilusão de nossa vida
O adeus que se dá por despedida
O desprezo que a gente não merece
O delírio da lágrima que desce
Nos momentos de angústia e de desgraça.
Passa tudo na vida…tudo passa
Mas nem tudo que passa a gente esquece.

* * *

Sebastião Dias glosando o mote

Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

Eu que queria uma imagem
Pra minha lua de mel
Topei uma cascavel
Foi essa a pior viagem
Largar, não tenho coragem,
Matar, eu não vou matar
É o jeito suportar
Minha cobra peçonhenta
Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

* * *

Rafael Neto glosando o mote:

No naufrágio do barco do amor
Você foi meu colete salva-vidas.

Na borrasca da onda violenta
O barquinho do amor passava apuros,
Afundando com quatro ou cinco furos
Onde a força da onda o arrebenta.
Nesta hora você se apresenta
E me abraça com as forças combalidas,
Me encoraja a ter fôlego sem medidas,
Pra vencermos as ondas do terror
No naufrágio do barco do amor
Você foi meu colete salva-vidas.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote:

Se já gozei no passado,
Posso sofrer no presente.

Para falar sobre a farra
Não é bom que eu me afoite,
Entrava à boca da noite,
Saía ao quebrar da barra.
Fui mais do que almanjarra,
Pra moer cana no dente,
Quando eu bebia aguardente,
Cerveja, vinho e quinado,
Se já gozei no passado,
Posso sofrer no presente.

* * *

Jânio Leite glosando o mote:

A saudade insistente fez parada
No batente da minha moradia.

De amor e paixão tô padecendo
Carregando essa magoa em meu peito
Já tentei escapar de todo jeito
Quando penso que não, tá florescendo
Fica dentro do peito remuendo
Me deixando em bastante agonia
Se tornou companheira dia-a-dia
Se alojou em meu eu e fez morada
A saudade insistente fez parada
No batente da minha moradia.

* * *

Um folheto de Apolônio Alves dos Santos

DISCUSSÃO DO CARIOCA COM O PAU-DE-ARARA

Apolônio Alves dos Santos (Guarabira-PB, 1926-1998)

Já que sou simples poeta
poesia é meu escudo
com ela é que me defendo
já que não tive outro estudo
vou mostrar para o leitor
que o poeta escritor
vive pesquisando tudo

Certo dia feriado
sendo o primeiro do mês
fui tomar uma cerveja
no bar de um português
lá assisti uma cena
agora pego na pena
para contar pra vocês

Quando eu estava sentado
chegou nessa ocasião
um velho pernambucano
daqueles lá do sertão
com a maior ligeireza
foi se sentando na mesa
pediu uma refeição

O português logo trouxe
um prato grande sortido
o nortista vendo aquilo
ficou logo enfurecido
com um gesto carrancudo
começou mexendo tudo
depois falou constrangido

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UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO MUITO ATUAL

Poetas cantadores Hipolito Moura e Jonas Bezerra improvisando com o mote em decassilabo:

Sepultei as lembranças do passado
e não vou mais padecer por causa dela

* * *

AS CONSEQUÊNCIAS DA COMPRA DO VOTO

Um folheto de Francisco Diniz

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Quem negocia seu voto
Prega a corrupção,
Não pode exigir depois
Nenhuma pequena ação
Daquele seu candidato
Que escolheu na eleição.

Aquele que vende o voto
Sem saber faz aumentar
A injustiça social,
Pois não pode nem cobrar
Trabalho do candidato
Depois que este ganhar.

O crápula que compra votos
Do povo não quer saber,
O que ele pretende mesmo
É adquirir o poder
Pra roubar dinheiro público
E assim enriquecer.

O triste que compra voto
Não tem nenhum compromisso
Com saúde, educação
Nem quer saber se há serviço
Pro homem trabalhador
Da favela ou do cortiço.

Cidadão que vende o voto
Por carência ou ingenuidade
É vítima dos poderosos,
Que vêm com ar de bondade,
Disfarçados de cordeiros
Pra esconder toda maldade.

Quem oferece seu voto
Em troca de uma vantagem
Contribui para aumentar
O capitalismo selvagem
Que instalou-se em nosso meio
E é pai da politicagem.

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SEBASTIÃO DA SILVA E MOACIR LAURENTINO: UMA GRANDE DUPLA EM CANTORIA

Moacir Laurentino e Sebastião da Silva improvisando num Quadrão Perguntado:

* * *

Sebastião da Silva e Moacir Laurentino trabalhando o mote

Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

Acho linda as melodias
de Sivuca, o sanfoneiro,
do sertão ao chão brejeiro,
as produções e poesias,
do fole de Abdias,
filho de Taperoá,
Genaldo, do Ceará,
caboco, cabra da peste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

Irrigaram Petrolina,
embora com pouca chuva,
hoje em dia a sua uva
tem mais que na Argentina,
os frutos têm vitamina,
da uva ao maracujá,
de Pau D’Arco a Camará,
do Mororó do Agreste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

Manuel Xudu, violeiro,
filho dessa região,
dos poemas de Cancão,
das estrofes de Granjeiro,
também Pinto de Monteiro,
de Silvino Pirauá,
Odilon Nunes de Sá,
poeta pra todo teste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

Nordeste que não enrica,
não é terra valorosa,
que só tem planta verdosa,
juazeiro e oiticica,
o sul da gente critica,
Rio Grande e Paraná,
mas do jeito que ele está,
é sujeito à fome e peste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

O petróleo sergipano,
carne de sol em Caicó,
nosso sal de Mossoró,
e o sisal paraibano,
a pesca do oceano,
turismo que aí está,
e no norte do Quixadá,
sertanejo ainda investe.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

É o Cariri pelado,
é o cinzento sertão,
na quentura do verão,
deixa o mato sapecado,
não tem um rio de nado;
do jeito que a coisa está,
talvez muita gente vá,
daqui para o sudoeste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

Se houvesse irrigação
e uma boa açudagem,
não teria desvantagem
nos períodos do verão,
teria muito algodão,
que a produção ainda há,
mas do jeito que está,
na seca ninguém investe.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

Em São Paulo tem riqueza,
em Brasília tem distrito,
o nordeste é esquisito,
não tem água pra represa,
Paraná e redondeza,
conheço o café de lá,
tem café do Paraná,
gosto do café que preste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

* * *

Sebastião da Silva e Moacir Laurentino em cantoria improvisada

Moacir Laurentino

A meu filho dar estudo,
e o curso superior,
para avistar mais na frente
o meu menino doutor
dizendo: não me envergonho
do meu pai ser cantador.

Sebastião da Silva

Seja ou não seja doutor,
quero criar meus guris,
com moral e com capricho,
honrando o nosso País,
que às vezes anel de doutor
não faz ninguém ser feliz.

Moacir Laurentino

Ir à missa na matriz,
morar num canto escondido,
ir caçar à tardezinha,
com espingarda de ouvido,
e um cacete de jucá,
pra dar carreira em bandido.

Sebastião da Silva

Queria ser prevenido,
pra manhã do meu roçado,
com inverno todo ano,
com muita ração pra o gado,
e um cavalo bom de boi
pra nele eu andar montado.

OITO MESTRES DO IMPROVISO E A DISCUSSÃO DO MACUMBEIRO COM O CRENTE

Diniz Vitorino

E as abelhas pequenas, sempre mansas
Com as asas peludas e ronceiras
Vão em busca das pétalas das roseiras
Que se deitam no colo das ervanças
Com ferrões aguçados como lanças
Pelo cálix das flores bebem essência
E fazem mel que os mestres da Ciência
Com os séculos de estudo não fabricam
Porque livros da Terra não publicam
Os segredos reais da Providência.

* * *

Manoel Bentevi

Da bobina para o distribuidor
Há um cabo que passa uma centelha clara
Meto o pé no arranco, ele dispara
Toda vez que acelero meu motor
O combustível entra no carburador
A entrada de ar transforma o gás
Com a compressão que ele faz
Forma o jato, o êmbolo vai subindo
Vai queimar na cabeça do cilindro
A fumaça da gasolina sai por trás.

* * *

Mariana Teles

Toca a brisa da noite no portão
O cabelo se assanha com o vento
O balanço da rede em movimento
E um rádio tocando uma canção
A saudade arranhando um coração
E a duvida de um sempre, ou nunca mais
Uma lágrima caindo e o vento faz
Se espalhar pela face entristecida
Eu na rua buscando achar saída
Pra tristeza que a tua falta trás.

Faço um verso, misturo com aguardente
Um cinzeiro com as cinzas do veneno
Numa noite sem lua me enveneno
Por não ter o clarão do céu presente
O espelho espelhando em minha frente
A metade de um todo que foi nosso
Eu procuro não ver, mas tem um troço
Pra abrir os meus olhos quando fecho
Sem ter sono, inquieta me remexo
Que dormir sem você ,sei que não posso.

Vem o vento, tocar-me bem mais forte
O relógio passando sem medida
Ao meu lado, um copo de bebida
Refletindo o futuro : que é a morte …
Nele afogo o desgosto, já que a sorte
Resolveu repartir nossa união
Te guiando pra outra direção
E deixando meus olhos sem os teus…
De lembrança ,restou o teu adeus
E a saudade entupindo o coração.

* * *

João Lourenço

Eu já passei tanta coisa
Que na vida nem pensava
Pra minha felicidade
A mulher que eu procurava
Deus teve pena de mim
Mostrou aonde ela estava

* * *

Fenelon Dantas

O rádio é para se ouvir
E todo mundo entender
O telefone é melhor
Para a gente ouvir sem ver
No telefone eu namoro
Sem minha mulher saber.

* * *

Dimas Batista

Na vida material
cumpriu sagrado destino :
o Filho de Deus, divino,
nos deu gloria espiritual.
Deu o bem, tirou o mal,
livrando-nos da má sorte.
Padeceu suplicio forte,
como o maior dos heróis.
Morreu pra dar vida a nós :
A vida venceu a morte.

* * *

José Adalberto

Quando aquela saudade impaciente
Me coloca no leito do seu colo
Minhas pernas não sentem mais o solo
Minha alma flutua intensamente
Fecho os olhos e a vejo em minha mente
Se despindo pra mim e eu pra ela
Parecendo uma cena de novela
Mas, no fundo, acontece de verdade
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela.

* * *

Dedé Monteiro

Vendo tanto açude cheio,
É necessário que eu diga:
“São José, peça a Jesus
Pra que essa chuva prossiga:
Transborde todas as grotas,
Encha ‘Rosário’, encha ‘Brotas’,
Deixe o meu Sertão contente,
Molhe o chão do meu roçado,
Acabe a fome do gado
E mate a sede da gente!”

* * *

DISCUSSÃO DO MACUMBEIRO E O CRENTE

Gonçalo Ferreira da Silva

Carnaval e futebol
ficaram pra se curtir,
Os santos ensinamentos
são para o crente seguir,
religião e política
embora mereçam crítica
não são pra se discutir

Evangelista e Pilintra
não pensavam do mesmo jeito,
pois enquanto Evangelista
diz que foi por Cristo aceito
Pilintra bate no bumba
dizendo que é na macumba
que se faz tudo bem feito.

Porém, embora os dois pensem
de maneira diferente,
nunca tinham discutido
porque até o presente
não tinham, por sorte rara,
oportunidade para
um encontro frente a frente.

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UM BALAIO DE IMPROVISOS E UM FOLHETO DE GRACEJOS

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O grande poeta improvisador paraibano Manoel Xudu (1932-1985)

Manoel Xudu

Admiro o pica-pau
Trepado num pé de angico,
Pulando de galho em galho
Taco, taco, tico, tico,
Nem sente dor de cabeça,
Nem quebra a ponta do bico.

*

Minha mãe que me deu papa
Me deu doce, me deu bolo
Mamãe que me deu consolo
Leite fervido e garapa
Minha mãe me deu um tapa
E depois se arrependeu
Beijou aonde bateu
acabou a inchação
Quem perde mãe tem razão
De chorar o que perdeu

*

Quando eu tava no hospital
Pensei que não escapava
Que até um pires de doce
Que a enfermeira me dava
Só era doce no pires
Na minha boca amargava.

*

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranqüilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo

* * *

Zé Adalberto

Quando aquela saudade impaciente
Me coloca no leito do seu colo
Minhas pernas não sentem mais o solo
Minha alma flutua intensamente
Fecho os olhos, lhe vejo em minha frente
Se despindo pra mim e eu pra ela
Parecendo uma cena de novela
Mas, no fundo, acontece de verdade
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela.

*

A cascata não canta igual a gente
Mas chuvendo ela vira uirapuru
E um pedaço de pau de mulungu
De carona, viaja na enchente
A borracha da chuva lentamente
Sobre as páginas do chão vai se esfregando
E por capricho, onde passa é apagando
A história que a seca havia escrito
Quando eu ouço o trovão no infinito
Imagino ser Deus que está gritando.

*

Vim do ventre materno e me criei
Nesse Ventre Imortal da Poesia
Sou poeta e matuto, disso eu eu sei
Mas estar hoje, aqui, eu não sabia
Doutra terra, se eu fosse, amava enfim
Mas Jesus escolheu esta pra mim
E só o fato de eu ser de Itapetim
Já recebo homenagem todo dia!!!!!!

* * *

Dimas Batista

Nossa vida é como um rio,
no declive da descida:
as águas são as saudades
de uma esperança perdida,
e a vaidade a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Louro Branco

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas

*

Assaltei um sancristão
Lhe botei em mau caminho
Dei 3 tapas em meu padrinho
Sexta Feira da Paixão
Dei em mãe um empurrão
Cheg’ela caiu pra traz
E uma nega emprensei mais
Do que um queijo na prensa
Quem fez o que fiz não pensa
Porque se pensar não faz

* * *

Severino Ferreira  

Na hora que a morte vem
Tem a sua foice armada
Que não tem medo de nada
E nunca respeitou ninguém
Com a força que ela tem
Elimina a criatura
Bota um cordão na cintura
Caixão preto e vela acesa
A vida é uma incerteza
A morte é certeza pura.

*

O Nordeste entregou o meu espaço
Com o som da viola eu não me assombro
Que eu não tenho uma fita no meu ombro
Nem estrela na farda do meu braço
Mais pegando a viola eu também faço
De improviso a maior engenharia
Tenho taça na minha galeria
Sem anel, sem viola e sem patente
Deus me deu a viola de presente
Se eu deixar de cantar é covardia.

* * *

UM FOLHETO DE MANUEL CAMILO DOS SANTOS

O SABIDO SEM ESTUDO

Deus escreve em linhas tortas
Tão certo chega faz gosto
E fez tudo abaixo dele
Nada lhe será oposto
Um do outro desigual
Por isto o mundo é composto

Vejamos que diferença
Nos seres do Criador
A águia um pássaro tão grande
Tão pequeno um beija-flor
A ema tão corredeira
E o urubu tão voador

Vê-se a lua tão formosa
E o sol tão carrancudo
Vê-se um lajedo tão grande
E um seixinho tão miúdo
O muçu tão mole e liso
O jacaré tão cascudo

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CINCO MESTRES DO IMROVISO E UM FOLHETO DE SOGRA

Poeta repentista Elísio Felix da Costa, o Canhotinho (1912 -1965)

* * *

Canhotinho

Estou velho e acabado
Já com a vista cansada
E sendo numa distância
Daqui pr’aquela calçada
Mulher inda vejo o vulto
Mas homem eu não vejo nada.

* * *

Lima Júnior

Nascido num pé de serra
Qual facheiro em pedregulho,
Venho cantar minha terra,
Explicitar meu orgulho!
Pajeuzeiro da gema,
Da terra onde a seriema
Canta saudosa à tardinha,
Se alguém um dia cantou
A terra que lhe criou,
Também vou cantar a minha!

* * *

Pedro Rômulo Nunes

Este cacto verdejante
De muitos anos de idade
Serve de maternidade
Para qualquer avoante
Com este porte gigante
Acolhe bem sem tabu
Rolinha, xexéu e anu
Que vem pra fazer seu ninho
Recebe amor e carinho
Do pé de mandacaru.

Seus espinhos vigiando
Sempre alerta noite e dia
Ninguém tem a ousadia
De ficar atrapalhando
Só entra se for voando
Tem segurança de açu
Nem mesmo a surucucu
Querendo se alimentar
Não consegue aproximar
Do pé de mandacaru.

* * *

Pinto do Monteiro

Sendo com calma eu aceito,
com desaforo eu respondo,
porque minha natureza
é como a do maribondo:
nem que morra machucado,
meu ferrão eu não escondo.

* * *

Zé Limeira

Um sujeito chegou no cais do porto
E pediu emprego de alfaiate
Misturou cinturão com abacate
E depois descobriu que estava morto
Ligou seu rádio no focinho de um porco
E afogou-se num chá de erva cidreira
Requereu um diploma de parteira
E tocou numa ópera de sinos…
Eram mãos de dezoito mil meninos
E não sei quantos pés de bananeira.

*

Eu já cantei no Recife
Na porta do Pronto Socorro
Ganhei duzentos mil réis
Comprei duzentos cachorro
Morri no ano passado
Mas este ano eu não morro…

*

Pedro Álvares Cabral
Inventor do telefone
Começou tocar trombone
Na volta do Zé Leal
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumentos
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento!

* * *

A ALMA DE UMA SOGRA – Leandro Gomes de Barros

(Na ortografia de época em que foi escrito)

Em dias do mez passado
Vi n´uma reunião,
Um trocador de cavallos,
Um velho tabellião,
Um criado de um vigário
E a avó de um sachristão.

Veio uma dessas ciganas
Que lê a mão da pessoa,
Leu a mão de um velho e disse:
Vossa mercê anda atôa,
De cinco sogras que teve
Não obteve uma boa.

É muito exacto cigana
Disse o velho a suspirar,
A melhor de todas cinco,
Essa obrigou-me a chorar,
Depois de morta tres mezes,
Quase me faz expirar.

Disse o velho, minha vida,
Dá muito bem uma scena,
Dá um romance e um drama,
E a obra não é pequena,
O velho tabelião
Quase que chora com pena.

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MEIA DÚZIA DE SONETOS

 

Patativa do Assaré (Mar/1909 — Jul/2002)

* * *

O PEIXE – Patativa do Assaré

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

* * *

BOI DE CARRO – Jansen Filho

Há muito tempo aquele boi padece.
Levando aquele carro tão pesado!
Seu próprio dono não se compadece
de vê-lo triste como um desgraçado!

Num mar de pranto, onde o tormento cresce,
pelas mãos dos perversos foi jogado!
Flor do heroísmo que desaparece,
nos abismos das cinzas do passado!

Enquanto geme carregando a canga,
a humildade, com certeza, manga,
por vê-lo padecer com tanta calma!

Só eu lamento o seu sofrer medonho
porque também carrego, assim, tristonho,
um carro de ilusões chorando n’alma!

* * *

MORRIA O SOL NO OCASO – Otacílio de Azevedo

Morria o sol no ocaso e o olhar de minha amada
qual rubro sol distante, a rutilar, morria…
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!

Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia…

O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminho,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou…

Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!

* * *

MEU AMIGO POETA – Noé de Job Patriota

Meu amigo poeta meu irmão
Companheiro de farra em toda mesa
Nossa alma poética vive acessa
Com a luz da divina inspiração

Faça um verso repleto de ilusão
Que a ilusão do poema é mensageira
Que um poeta que canta a vida inteira
Guarda dádivas de amor no coração

Numa mesa de bar fica bebendo
E assim sempre o passado revivendo
Se embriaga com goles de emoção

Peregrino das noites inquietas
Andarilho das sendas incompletas
Navegante dos mares da paixão.

* * *

DIVERGÊNCIA – Manoel Filó

Seja grosseira, me responda aos gritos
Encha de mágoa o meu interior
Seus seios virgens, quentes e bonitos
Também tiveram culpa em minha dor.

Sem machucar os corações aflitos
Deve ser muito bom morrer de amor
Seus olhos mostram dois aerólitos
Enfeitando o espaço ao sol se pôr.

Já que não posso merecer seu porte
Fico parado condenado a sorte
Que não nos trouxe condições iguais.

Eu não sou cofre de guardar segredo
Ou tive culpa de nascer mais cedo
Ou foi você que demorou demais.

* * *

DESARMAI VOSSOS FILHOS – Pompílio Diniz

Desarmai vossos filhos pequeninos
Para depois não vê-los transformados
Em párias marginais e celerados
Cruéis e perigosos assassinos!

Lembrai-vos de que foram tais meninos
Tão cedo, seus instintos despertados
Por armas e brinquedos simulados
De “mocinhos”, “bandidos” e traquinos!

Desarmai vossos filhos, desarmai-os
Para depois não tê-los nos ensaios
Da delinquência e do ódio prematuro!

Não dei aos vossos filhos tais presentes
Esses brinquedos de armas são sementes
De crimes que plantais para o futuro!

TRÊS POEMAS DE POMPÍLIO DINIZ

A REVOLTA DOS MACADOS, COM ROLANDO BOLDRIN

* * *

TRASTE RUIM

Tem gente no mundo assim
Só vê mardade e injustiça
Ninguém presta, tudo é ruim
Cum todo mundo ele inguiça
E faiz logo sururú
É taliquá o urubú
Qui só fareja carniça

No chiquêro da mintira
Joga lama em quarqué nome
É como o porco que vira
A gamela aonde come
Uma ração farta e boa
Pru riba até da pessoa
Qui vem matá sua fome

Seu coração é um pote
Aonde se ajunta a peçonha
Da cobra que dá o bote
Naquele fúria medonha
Dispois se esconde e se enrosca
Cuma quem sintiu a cósca
Do remorso e da vergonha

Só véve má sastifeito
E a todo mundo detesta
Só ele num tem defeito
Só ele é pessoa honesta
E esse irmão de Caim
É cuma um pau de cupim
Que nem pru fogo num presta

Pois gente assim tem o dão
E a pretensão miseráve
De num gostá do qui é bão
Ou do qui seja agradáve
É Cuma uma ave agorenta
Que onde abre o bico afujenta
Toda alegria das ave…

Só fala em morte e em duença
E noutras coisa pió
Sua alma é cumu uma dispensa
Qui só tem muafo e pó
Vê tudo preto e vermeio
E traiz nos zóio os ispeio
Do mais triste por do só…

* * *

O FERRÊRO

Seu doto, eu fui ferrêro
Eu trabaiei sem cansaço
Martelano férro e aço
Na bigorna e no brazêro.
Nessi trabaio grossêro
Maiano férro, maiano
E sempre me lastimano
Dessa vida de ferrêro

Ví um dia um lenhadô
E gostei du seu trabaio
Abandonei o meu maio
Minha bigorna parô
Aí entonçe dotô
Eu tumei ôto rotêro
Eu dexei dí sê ferrêro
E mi tornei lenhado

Trabaiano di machado
Nu meio daquelas brenha
Nos mato cortano lenha
Ganhano meu pão suádo
Esse trabaio pesado
Calos de sangue dexô
Nessas mão de lenhadô
Trabaiano de machado

Um dia vi um pedrêro
Um mesti di cunstrução
Ganhando tombém seu pão
Num sirviço mais manêro
Invejei o cumpanhêro
O meu machado parô
Deixei di sê lenhadô
E me tornei um pedrêro…

De prumo e cuié na mão
Eu cumeçei trabaiá
Dia e noite sem pará
Pra mode ganhá meu pão
Disimpenhando a função
No serviço rutinêro
Da prufissão de pedrêro
De prumo e cuié na mão

Um dia vi o pintô
Trabaiano de pincé
Parei a minha cuié
Meu prumo também parô
A minha vida mudô
Entonçe mais que ligêro
Eu dexei di sê pedrêro
E me tornei um pintô

Pintano, sempre pintano
Cuntinuei a vivê
Cumprindo com meu devê
Trabaiano, trabaiano
Meu pão suado ganhano
Nessa vida de pintô
E de tudo quanto era cô
Pintano, sempre pintano

Um dia vi o escritô
Criano da sua lavra
Cum a tinta, as palavra
Num quadro de mais valô
Aí eu dexei de sê pintô
Abandonei meu pincé
Agarrei pena e papé
E me tornei escritô…

Viajei o mundo intêro
E tudo quanto ia veno
Fui iscreveno, iscreveno
Secano muitos tintêro.
Eu qui já fui bom pedrêro
Eu qui já fui lenhadô
Pruquê tornei-me escritô
E dexei di sê ferrêro?

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

João Paraibano – (1953-2014)

* * *

João Paraibano

Mote:

Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Já nasci inspirado no ponteio
Dos bordões da viola nordestina
Vendo as serras banhadas de neblina
Com uma lua imprensada pelo meio
Mãe fazendo oração de mão no seio
E uma rede ferindo o armador
Minha boca pagã cheirando a flor
Deslizando no bico do seu peito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Me criei com cuscuz e leite quente
Jerimum de fazenda e melancia
Com seis anos de idade eu já sabia
Quantas rimas se usava num repente
Fui nascido nas mãos da assistente
Na ausência dos olhos do doutor
Mamãe nunca fez sexo sem amor
Papai nunca abriu mão do seu direito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

* * *

João Paraibano

Mote:

Vou no trem da saudade todo dia
Visitar o lugar que eu fui criado.

No vagão da saudade eu tenho ido
Ver a casa que antes nasci nela
Uma lata de flores na janela
A parede de taipa e o chão varrido
Milho mole esperando ser moído
Numa máquina com ferro enferrujado
Que apesar da preguiça e do enfado
Mãe botava de pouco e eu moía
Vou no trem da saudade todo dia
Visitar o lugar que eu fui criado.

* * *

Moyses Lopes Sesyom

Mote:

Eu fiz um saco de meia
pra suspender os colhões.

Senti grossa a cordoveia,
quando vi, fiquei doente,
apressado, incontinente
eu fiz um saco de meia.
Depois da bruaca cheia
suspendi por dois cordões,
senti doer os tendões
onde a mulher tem tabaco,
eu não tenho, uso o meu saco
pra suspender os colhões.

* * *

Moyses Lopes Sesyom

Mote:

O saco que eu sempre usava
Não cabe mais os colhões.

Por esta não esperava,
De tristezas estou carpido,
Hoje vi, está perdido
O saco que eu sempre usava.
Foi uma sentença brava
Pra tirá-la em grilhões,
Porém alego as razões
Para as quais tenho de sobra,
O saco deu uma dobra
Não cabe mais os colhões.

* * *

Salomão Rovedo

Mote:

Pobre cu que não tem sorte
Solta um peido a merda vem.

Um ataque agudo e forte
Bem pior que a dor de parto
Rasga violento e farto
Pobre cu que não tem sorte.
Mais forte que a dor da morte
E dor de viado também
Castiga sempre alguém
Como fosse dor de corno
A tripa faz um contorno
Solta um pedido a merda vem.

* * *

Nelson Nunes Farias

Mote:

Lá vem o sol colorindo
O resto da madrugada.

A noite que passa lenta
Me traz rios de saudade
De mim não tem piedade
No céu a lua se ostenta
Parecendo desatenta
É tela sendo pintada
Para ser admirada
Mais um dia que vem vindo
Lá vem o sol colorindo
O resto da madrugada.

Renova-se a esperança
Chegada de um novo dia
Como um passe de magia
As nuvens todas em dança
Brincando feito criança
No ventre sendo gerada
De cores sendo pintada
Parecem dizer sorrindo
Lá vem o sol colorindo
O resto da madrugada.

* * *

Dimas Bibiu

Mote:

Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

Na porta de um cabaré
Bem na esquina da rua
Tem mulher sentada nua
Outras duas “beba” em pé
Velha que pede um café
Porque não tem refeição
Mulher com chave na mão
Com raiva de quem não veio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

A noite passa acordada
Bebe, fuma e adultera
Chora pensando em quem era
Semilouca embriagada
Ver briga, tiro e facada
Tapa, soco e empurrão
Colegas mortas no chão
Quando finda o tiroteio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

Mulher dum corpo fogoso
Mas seu olhar não tem brilho
Porque despreza seu filho
E abandona o esposo
E vai procurar repouso
Na casa da corrução
Lá recebe ingratidão
Desgosto, mágoa, aperreio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

No cassino a meretriz
Adora o álcool e o fumo
Baliza que aponta o rumo
Do seu fadário infeliz
E seu mal mostra a raiz
Quando chega à conclusão
De levar um empurrão
Dum preto, andrajoso e feio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

Mulheres prostituídas
Que seu pudor não quiseram
E no cabaré vieram
Pecar com milhões de vidas
Suas veias poluídas
O vento em deformação
Recebe fecundação
Morre o feto, seca o seio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição.

O NATAL NA VISÃO DE UM POETA NORDESTINO

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O VERDADEIRO NATAL – Um folheto de Azulão

Peço a Deus Pai Poderoso
Inspiração divinal
Com a mensagem sagrada
Da mansão celestial
Eu vou escrever rimado
O verdadeiro Natal

Natal de Jesus Menino
Templo de amor e bondade
Data santa que registra
O símbolo da cristandade
Que se resume em três coisas
Salvação, paz e verdade

Jesus o Menino Deus
Filho do Pai Criador
Que veio ao mundo tirar
As culpas do pecador
Depositando nos homens
Bondade, paz e amor

Portanto o seu nascimento
É para ser festejado
Com paz e amor ao próximo
Cumprindo o dever sagrado
De remendar o pobre
Faminto e desamparado

O verdadeiro Natal
De Jesus Nosso Senhor
É dar a criança pobre
Amparo consolador
E ter a seu semelhante
Como a si, o mesmo amor

Porém o homem de hoje
De Deus estar muito ausente
Confundindo o seu amor
Com vaidade imponente
E dando a humanidade
Outro Natal diferente

Porque o Natal de hoje
Estar sendo transformado
Em festa, luxo e banquete
Que descristianizado
Toma um sentido contrário
Do que já foi no passado

É este o Natal sem Cristo
Que o homem faz hoje em dia
Movendo festa mundana
Com baile e bebedoria
Transformando a santa festa
Em farra e desarmonia

É este o Natal que tira
A fé no cristianismo
Encarretando família
Para um cenário de abismo
Trocando a festa de Cristo
Por coisas do paganismo

Jesus não ama a riqueza
Grandeza nem burguesia
Não escolheu palacete
Princesa nem fidalguia
Nasceu de uma virgem pobre
Numa manjedoura fria

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POEMA DE NATAL – VINICIUS DE MORAES

UM FOLHETO NATALINO

 

Um folheto de Celina Ferreira

O NATAL COM JESUS CRISTO

Vinde, vinde Santo Espírito
Aclarar meu pensamento
Trazer a luz da verdade
Ao meu pobre entendimento
Para que minha palavra
Seja de Deus o fermento

Para que minha palavra
Possa entre o povo crescer
Como fermento na massa
Como o ribeiro a correr
Como a semente na terra
Como a luz do amanhecer

Minha voz não é só minha
Vem de Deus a inspiração
Vem do verdadeiro artista
Poeta da Redenção
Rei dos nossos cantadores
E poetas do sertão

E desse Rei, desse Artista
Desse Poeta Imortal
Que nasceu da Virgem Pura
Sem pecado original
Quero contar com doçura
E humildade seu Natal

Natal, Natal de Jesus
Na cidade ou lá na serra
Nas montanhas, nas planícies
Natal no Céu e na terra
Quanta beleza ele espalha
Quanta grandeza ele encerra

Jesus é Filho de Deus
Filho da Virgem Maria
A doce Estrela do Mar
Virgem antes de ser mãe
Virgem depois de ser mãe
Virgem no céu e no altar

De acordo com as profecias
Nasceria o Salvador
Numa pobre estrebaria
Sem conforto e sem calor
Seria pobre entre os pobres
Nosso Deus, nosso Senhor

E uma estrela, no Oriente
Brilhando em todo o fulgor
Traria a grande notícia
Feita de paz e amor
De uma Virgem nasceria
Nosso Deus e Redentor

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POEMAS DE NATAL NORDESTINADOS

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CARTA A PAPAI NOÉ – Luís Campos
 
Seu moço eu fui um garoto
Infeliz na minha infância
Que soube que fui criança
Mas pela boca dos outo.
Só brinquei com os gafanhoto
Que achava nos tabuleiro
Debaixo dos juazeiro
Com minhas vaca de osso
Essa catrevage, sêo moço
Que a gente arranja sem dinheiro.
 
Quando eu via um gurizin
Brincando de velocipe
De caminhão e de gipe
Bola, revólver e carrin
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruquê eu num pudia
Pegar naqueles brinquedo.
 
Mas preguntei uma vez
A uns fio de dotô
Diga, fazendo um favô
Quem dá isso pra vocês?
Mim respondeu logo uns três
Isso aqui é os presente
Que a gente é inocente
Vai drumí às vêis nem nota
Aí Papai Noé bota
Perto do berço da gente. 
 
Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na Noite de Natá
Eu fui drumi mim lembrando
Acordei fiquei caçando
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Que de presente o que tinha
Era de mijo uma pocinha
Que eu mermo tinha botado
 
Saí c’a bixiga preta
Caçando os amigos meu
Quando eles mostraram a eu
Caminhão, carro e carreta
Bola, revólver, corneta
E trem elétrico, até
Boneca, máquina de pé
Mas num brinquei, só fiz vê
E resolvi escrevê
Uma carta a Papai Noé.

“Papai Noé, é pecado
Os outro se matratá
Mas eu vou le recramá
Um troço que tá errado
Que aos fio de deputado
Você dá tanto carrin
Mas você é muito ruim
Que lá em casa num vai
Por certo num é meu pai
Que num se lembra de mim.
 
Já tô certo que você
Só balança o povo seu
E um pobe qui nem eu
Você vê, faz qui num vê
E se você vê, porque
Na minha casa num vem?
O rancho que a gente tem
E pequeno mas le cabe
Será que você num sabe
Qui pobe é gente também?

Você de roupa encarnada,
Colorida, bonitinha
Nunca reparou que a minha
Já tá toda remendada
Seja mais meu camarada
Prêu num chamá-lo de ruim
Para o ano faça assim:
Dê menos aos fio dos rico
De cada um tire um tico,
Traga um presente pra mim.

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SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJOS

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Poeta cantador Dimas Batista Patriota (1921-1986)

Dimas Batista

Quando eu pego na viola
Para cantar o Brasil:
Militar deixa o fuzil;
Jogador esquece a bola;
O aluno gazeia a escola;
O judeu sai do balcão;
O orador erra a expressão;
Pugilista perde o soco.
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Eu sou toque de corneta;
Sou barulho de batalha;
Sou o gume da navalha;
Sou a ponta da lanceta;
Sou a pancada da marreta;
Sou o golpe do facão;
Sou tiro de mosquetão;
Sou trator de arrancar toco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Cantador só passa em teste
Se consultar o Batista;
Porque Deus me fez artista;
Repentista do Nordeste;
Eu não temo nem a peste
Que tenha “pauta” com o “cão”,
Minha voz é um trovão;
Só não ouve quem for mouco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

* * *

Léo Cruz

Admiro a exuberância
De um poeta em cantoria
Com a tempestade de versos
Que num instante ele cria
E as nuvens do seu juízo
Soltam raios de improviso
Riscando o céu da poesia.

* * *

Zé Bernardo

Não sou poeta vos digo
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão.

* * *

Lima Júnior

Num engenho abandonado,
Abelhas se aglomerando.
Como que se colocando
À serviço do passado.
Onde o mel açucarado
Da cana, gerou riqueza.
As operárias, sem mesa
Sem fogo, tachos, moenda
Fabricam o mel da fazenda
Na fábrica da natureza.

* * *

José Virgolino de Alencar

Navegando nas águas da poesia
não é eito pra todo canoeiro,
há que ser um exímio timoneiro
pra guiar o seu barco em maestria
seja no mar revolto ou calmaria,
enfrentar indomável tempestade
com coragem e rara habilidade
de manter o seu barco navegando
entre as ondas seguras velejando,
são os poetas, poetas de verdade.

* * *

Galego Aboiador

Este teu olhar brilhante
Como pedra de safira
Azul da cor de anil
Onde o poeta se inspira
Repleto de boniteza
Você tem toda a beleza
Que qualquer homem admira.

* * *

Um folheto de Tárcio Costa

ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Já é sabido por todos
Que cabra raparigueiro
Pra poder fazer folia
Não economiza dinheiro
Gasta tudo em regalias
Desfrutadas no puteiro

Também é fato certeiro
Que há quem critique o excesso
Na contra mão do pecado
O crente impõe seu processo
Ganhando até importância
Na bancada do congresso

Seja ordem e progresso
Ou anarquia geral
Sempre haverá a disputa
Do chamado bem e o mal
Eis um exemplo ocorrido
Na velha praça central

Onde o culto matinal
De um pastor protestante
Chamava grande atenção
Pelo discurso constante
Na luta contra a luxúria
E quem fosse praticante

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DOIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE ABC

IVANILDOgeraldo amancio

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio: dois dos maiores poetas cantadores da atualidade

* * *

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio improvisando com o tema “Sertão”:

Ivanildo Vilanova

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
E agua forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
Um raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo piruetas
Nas espigas de milho do roçado

Geraldo Amâncio

No sertão quando é bem de manhãzinha
Sertanejo se acorda na palhoça
Chama o filho mais velho para a roça
A mulher toma conta da cozinha
Faz o fogo de lenha e encaminha
Um guisado, angu quente ou fava pura
E depois de fazer essa mistura
Sai faceira igualmente uma condessa
Com um quibongo de barro na cabeça
E vai levar aos heróis da agricultura

Ivanildo Vilanova

No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tendo a colheita, a criação
Ferramenta da roça, produção
Uma rede, um grajau de rapadura
Uma “dez polegadas” na cintura
A viola, uma baú, uma cabaça
A tarefa e um litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu, baeta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça

Geraldo Amâncio

É preciso ter muita paciência
Guardar milho num quarto empaiolado
Sustentar criação com alastrado
Numa terra que tem pouca assistência
Trabalhar numa frente de emergência
Esperando o inverno que não vem
Insistir, crer em Deus e tratar bem
Manter sempre a família tão unida
Do chão seco arrancar o pão da vida
Sertanejo faz isso e mais ninguém

Ivanildo Vilanova

No verão quando o sol se descortina
Se escuta o zumbido das abelhas
O balir melancólico das ovelhas
O dueto dos pássaros na matina
O bonito alazão sacode a crina
O vaqueiro abolando chama a rês
Os canções gritam todos de uma vez
Acusando a presença da serpente
Num concerto de música diferente
E da orquestra sinfônica que Deus fez

Geraldo Amâncio

E o traje do homem camponês
Quando sai pra uma festa ou para a feira
A calça de mescla, uma peixeira
Um paletó listrado ou xadrez
Umas botas de couro de uma rês
Para dançar forró enquanto é moço
Um chapéu abalado, grande e grosso
Com uma pena qualquer de um passarinho
E a medalha fiel do meu padrinho
Num rosário enfiado no pescoço

Ivanildo Vilanova

Falar mal do sertão hoje eu não ouço
Não se entrega ao cansaço ou enxaqueca
Um herói pelejando a seca
Contra a cheia combate sem sobrosso
Respeita a moral de velho ou moço
Também quer ver a sua respeitada
Sem Brasil a América é derrotada
Com Brasil a América vale mil
Sem nordeste o Brasil não é Brasil
E sem sertão o nordeste não é nada.

* * *

Um folheto de Antonio Gonçalves – O Patativa

ABC DO NORDESTE FLAGELADO

Capa NORDESTE FLAGELADO

A – Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.

B – Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

C – Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando… sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

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GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

milho3

Marcondes Tavares

Isso fez lembrar de nós
Morando na Mandassaia
Era pai ralando o milho
Mamãe dando o nó na paia
E eu sem nada fazer
Já chorando pra comer
Puxando na sua saia.

Um fogão movido a lenha
Onde mamãe cozinhava
Botava queijo ralado
Leite, nata e misturava
Mas quando mamãe servia
Nem os cachorros comia
Mas é porque num sobrava.

* * *

mandacaru

Pedro Rômulo Nunes

Este cacto verdejante
De muitos anos de idade
Serve de maternidade
Para qualquer avoante
Com este porte gigante
Acolhe bem sem tabu
Rolinha, xexéu e anu
Que vem pra fazer seu ninho
Recebe amor e carinho
Do pé de mandacaru.

Seus espinhos vigiando
Sempre alerta noite e dia
Ninguém tem a ousadia
De ficar atrapalhando
Só entra se for voando
Tem segurança de açu
Nem mesmo a surucucu
Querendo se alimentar
Não consegue aproximar
Do pé de mandacaru.

* * *

agua-de-pote

Marcondes Tavares

Bebi muita água de pote
Aparada na biqueira
Envolta um pano molhado
Num gancho”véi”de aroeira
Era muito mais gostosa
Que água de geladeira.

* *  *

pmf

Geraldo Amâncio

Entre os dez mandamentos dos sermões,
Respeitar pai e mãe é o primeiro,
O defeito de um filho é ser grosseiro;
A virtude dos pais é serem bons.
Todo filho tem três obrigações:
Escutar, respeitar e obedecer;
Respeitar pai e mãe é um dever;
Esquecer mãe e pai é grosseria,
Se não fossem meus pais, eu não teria
O direito sagrado de viver.

* * *

chuva4

Adelmo Aguiar

A chuva voltou molhando
Os punhos da minha rede
O tambor de doze latas
Sangrou no pé da parede
E as lágrimas da natureza
Cegaram os olhos da sede.

GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

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Geraldo Amâncio, grande cantador contemporâneo, e o saudoso Patativa do Assaré

* * *

Geraldo Amâncio

Patativa tinha o brilho
da luz de um meteorito;
um homem que virou gênio,
um gênio que virou mito;
um cantador de roçado
que foi por Deus convocado
pra cantar no Infinito.

Patativa do Assaré

Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

* * *

Zito Siqueira

Mulher, se lembre das juras
Que fizemos na matriz;
Se esqueça de advogado,
De promotor, do juiz,
Se acostume a levar ponta
Pra gente viver feliz.

* * *

Zé da Prata

Se vejo mulher bonita,
Meu corpo ainda se bole.
Mas sei que já estou velho,
É melhor que me console…
De que serve eu ter desejo,
E a correia assim tão mole?
E a correia desse jeito
O priquito não engole;
Mesmo botando a cabeça
Tirando a mão escapole.
E não posso dessa forma
Fazer mais o bole-bole.

* * *

Dimas Batista Patriota

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Zé Bernardino

Eu nada fiz na jornada
Nada ganhei nem perdi
Nada ignoro do nada
Porque do nada nasci.
Se o nada foi um abrigo
Seja o nada meu jazigo
Pois nada disso me enfada.
Eu de nada fiz estudo,
Mas sei que o nada faz tudo
E tudo se torna em nada.

* * *

José Alves Sobrinho

Jorram as águas do rio,
E elas como uma cobra,
Num andar lento e macio,
Descendo e fazendo dobra,
Derramam sobre o baixio
A quantidade que sobra.

* * *

Lourival Pereira e Expedito Sobrinho

Lourival Pereira

Eu cheguei um dia na beira do cais
Admirei muito o seu movimento
Navios fazendo descarregamentos
Pacotes maneiros, pesos desiguais
De dez toneladas, de vinte e de mais
E a um marinheiro peguei perguntar
De onde é que vem pra descarregar
Ele disse: da Bélgica, Egito e Hungria
Da Síria, da Pérsia, da Angola e Turquia
Trazendo isso tudo pra beira do mar.

Expedito Sobrinho

Perguntei o nome da mercadoria
Ele disse aqui a gente traz de tudo
Mostarda estrangeira que o grão é miúdo
Petróleo, amianto e tapeçaria
Pedras preciosas que o povo aprecia
Brilhante , ametista pra fazer colar
Ouro português pra quem quer comprar
Pedra opala e amazonita
Berilo, ouro branco, prata e tantalita
Pra fazer negócio na beira do mar

JOSÉ LUCAS DE BARROS, UM MESTRE TROVADOR

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José Lucas de Barros (1934 – 2015)

Sei que deste mundo lindo
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.

*

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.

*

O cego, com dedos certos,
tange a sanfona dorida,
e eu, com dois olhos abertos,
erro nas teclas da vida.

*

Para abraçar-te, menina,
meu anseio é tão profundo,
que a distância de uma esquina
parece uma volta ao mundo.

*

Sem ter da mulher o afeto,
não tenho felicidade.
Homem nenhum é completo
quando lhe falta a metade.

*

O amor e o sonho, querida,
são graças que Deus nos deu…
Quem não ama não tem vida,
quem não sonha já morreu.

*

– Oh! Que demora sem fim
para tua decisão!
Chegou tão tarde o teu sim,
que já parecia um não!

*

Quando o tempo se levanta
no sertão, e a seca vem,
não morre somente a planta,
morre a esperança também!

*

Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!

*

Vou brincar com pirilampos
e beijar as flores nuas
pra ver se encontro nos campos
a paz que fugiu das ruas!

*

Em muitas ocasiões,
só somos bons elementos
porque certas intenções
não passam de pensamentos.

*

– O perdão é que é o sinal
de perfeita lucidez…
Quem se vinga faz o mal
do jeito que alguém lhe fez.

*

Quem, na mocidade, trunca
os sonhos de amor e paz,
talvez não conserte nunca
o estrago que o tempo faz.

*

A menina seminua,
presa, disse ao detetive:
– eu não me queixo da rua,
mas do lar que nunca tive!

*

Mais vale da vida o espelho
que muitos sermões no templo…
Em vez de nos dar conselho,
seu padre, nos dê o exemplo!

*

Minha mulher reza tanto
aos pés de Nosso Senhor,
que eu vou precisar ser santo
pra merecer seu amor.

*

Quando estou em meu terraço,
olhando os astros risonhos,
a Lua atravessa o espaço,
puxando o carro dos sonhos!

UM FOLHETO DO CÃO

AS PRESEPADAS DE SATANÁS NA IGREJA

Um folheto da autoria de José Pedro Pontual

.

satanaz

Quem crer na misericórdia
Da Providência Divina
Nunca cai em tentação
Nem também sofre ruína
Sendo justo para Deus
Satanás não lhe domina

E quem não crer nas palavras
Do nosso Deus Criador
Não pode viver feliz
É um ente malfeitor
Que vive solto no mundo
Causando o maior pavor

Para provar o que digo
Vou contar um ocorrido
Que servirá de exemplo
A qualquer ente banido
Que profana contra as forças
Do Messias prometido

Na usina Santo Inácio
Perto da cidade Cabo
Um macumbeiro perverso
Virou-se num bichão brabo
Com o satanás no couro
Contendo esporão e rabo

Chamava-se esse ente
Antônio Pedro Morais
Ruim igualmente a peste
Matou os seus próprios pais
Maltratava Jesus Cristo
Gostava do satanás

Ele ainda era solteiro
De ruim vivia só
Era doido por um jogo
De baralho ou dominó
Dava tudo por Xangô
Vivia do catimbó

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POETAS DO REPENTE (II)

POETAS DO REPENTE (I)

CORRUPÇÃO E POLÍTICOS NA CANTORIA E NA POESIA POPULAR

Poetas repentistas Jorge Macedo e Daniel Olímpio improvisando com o mote:

“Nenhum dorme uma noite atrás da grade
nem devolve um centavo pra nação”

É importante ressaltar que os cantadores só sabem qual é o mote no momento em que ele é lido pelo apresentador. A cantoria é de improviso, feita na hora, que nem caldo-de-cana.

* * *

Sebastiana de Almeida Job (Bastinha)

O político incorrupto
Que o Brasil encantou
Conchavou com o corrupto
Que nossa pátria lesou;
Tem “vampiro”, tem juiz
Tem Valdomiro Diniz
Na gang, na roubalheira
Para aumentar nossa mágoa,
Nossa esperança deságua
Na queda da “cachoeira”.

* * *

Antônio Dutra

Os políticos brasileiros
São lenha da mesma mata
Pólvora do mesmo barril
Ferro da mesma sucata
Veneno da mesma cobra
Sobejo da mesma sobra
Ferrugem da mesma lata.

* * *

comício

Merlânio Maia

No período eleitoral
Candidato vira santo
Bota a cara em todo canto
Favela, sítio, hospital,
Tapera, escola, curral,
Velório, igreja, pensão,
Promete o céu e o chão
Jura descaradamente
Mas muda radicalmente
Quando acaba a eleição!

A teta é bem saborosa
Por isso, quem quer deixar?
O salário é um manjar
E a função é poderosa
A mala preta formosa
Enche os cofres e o colchão
Pois é na corrupção
Que o ganho se multiplica
E a politicalha enrica
Quando acaba a eleição!

O pobre eleitor coitado
Detém o real poder
De banir, cobrar, deter,
E excluir o candidato
Mas o político de fato
Encanta e ilude o povão
Como um piolho malsão
Retorna ao poder de novo
Pra sugar o nosso povo
Quando acaba a eleição!

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UMA DUPLA DE EMBOLADORES E UM FOLHETO PRA ELEIÇÃO DE DOMINGO QUE VEM

Caju e Castanha cantando  uma embolada sobre ladrões. Ou seja, um tema atualíssimo:

* * *

mundim

Poeta Mundim do Vale

QUANDO ACABA A APURAÇÃO – Mundim do Vale

Assim que fecha a contagem
Tem candidato que diz:
– O filho de Zé Luiz
Não tá na minha listagem.
Como é que teve a coragem
De apertar minha mão,
Pedir chuteira e calção
E o voto não aparece.
Só comigo isso acontece
Quando acaba a apuração.

Aquele que se elegeu
Bota o som em toda altura
Abalando a estrutura
Daquele que não venceu.
E o infeliz que perdeu
Fica na decepção
Sofrendo do coração
Com cara de estressado.
E ainda fica quebrado
Quando acaba a apuração.

O candidato arrasado
Um gozador lhe aborda
Vai logo falando em corda
Em casa de enforcado.
O infeliz derrotado
Com a listagem na mão
Soma seção por seção
Pra confirmar o tormento.
É esse o pior momento
Quando acaba a apuração.

É o maior carnaval
Na casa do vencedor,
Na casa do perdedor
Uma tristeza total.
Chega um cabo eleitoral
Com uma conta na mão,
De bebida e refeição
Consumida pelo povo.
E não sobra nem um ovo
Quando acaba a apuração.

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MESTRES E MESTRAS DO REPENTE

Mocinha de Passira e Valdir Teles improvisando com o mote:

Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer de recordar

* * *

Roxinha da Bahia e José Gustavo em desafio:

Roxinha da Bahia

Senhor Gustavo sou neta
Do Roxinho da Bahia,
Como cantor em seu tempo,
Foi dos melhores que havia,
Faleceu e dele herdei
Dom, agrado e simpatia.

José Gustavo

Ouvi dizer que Roxinho
Foi bom cantador, outrora,
Se sua cova se abrisse
E ele aparecesse agora,
Eu tinha menos receio
Do que cantar com a senhora.

Roxinha da Bahia

Tenha remendo ou não tenha,
Na peleja perca ou ganhe,
Aperte os botões da calça,
Brinque, prose e não se acanhe,
Que eu hoje canto até missa
Se achar quem me acompanhe.

José Gustavo

A senhora hoje faz tudo,
Porque está entre os seus,
Eu me humilho como Jó
O poeta dos hebreus,
Porque só tenho por mim,
Viola, garganta e Deus.

Roxinha da Bahia

Ainda você estando
Dos anjos arrodeado,
São Miguel de espada em punho,
Santo de todos os lado,
Eu dava-lhe um chá de pisa
Que você está precisado.

José Gustavo

Dona Roxinha eu lhe aviso
Quem luta contra o José,
Tem ânsia, dor de barriga,
Fica sem ânimo e fé,
Cai o queixo, entorta a língua,
Perde o nariz, seca o pé.

Roxinha da Bahia

Eu zangada subo pedra
Veloz que só lagartixa,
Pego onça pela cauda,
E tiro o couro da bicha,
Derreto negro no tacho,
Tiro a pele e faço lixa.

José Gustavo

Roxa, tu derrete outro,
Não é um igual a eu,
Porque para derreter-me,
Mulher inda não nasceu,
Se nasceu com esse plano,
Deu-lhe a leseira e morreu.

Roxinha da Bahia

Cantor pra cantar comigo,
Precisa ter teoria,
Conhecer aritmética,
Estudar filosofia,
Discriminar consciente
Gramática e geografia.

José Gustavo

Eu garanto que a senhora
Não analisa gramática,
Que é um livro teórico,
De certeza matemática
Não é pra um burro que apenas
Come capim pela prática.

* * *

Severino da Quixaba

Tem quatro coisas no mundo
Que atormentam um cristão:
Uma casa que goteja,
E um menino chorão,
Uma mulher ciumenta
E um cavalo tanjão.
Mas o cavalo se troca,
A casa, a gente reteia,
O menino se acalanta,
Na mulher se mete a peia.

* * *

Zé da Prata

O bicho que mata o homem
Mora debaixo da saia.
Tem asa que nem morcego,
Esporão que nem arraia,
E uma brecha no meio,
Onde a madeira trabaia.

* * *

Suriel Moisés Ribeiro

O meu verso é água pura
Correndo pelo lajedo
É semente de arvoredo
Brotando na terra dura
É fruta doce madura
No pomar da poesia
É o sopro da ventania
Varrendo a terra escarpada
É noite toda estrelada
E o sol no raiar do dia.

TRÊS DUPLAS EM CANTORIA E UM POEMA DE CANCÃO

Zé Viola cantando com Silvio Granjeiro

* * *

Moacir Laurentino cantando com Sebastião da Silva

* * *

Louro Branco cantando com Geraldo Brito

* * *

Um poema de João Batista de Siqueira (Cancão)

MEU LUGAREJO

Meu recanto pequenino
De planalto e de baixio
Onde eu brincava em menino
Pelos barrancos do rio
Gigantescos braunais
Meus soberbos taquarais
Cheios de viço e vigor
Belas roseiras nevadas
Diariamente abanadas
Das asas do beija-flor.

A terra da catingueira
Criada na penedia
Onde a ave prazenteira
Canta a chegada do dia
Planalto, ribeiro, prado
Onde até o próprio gado
Parece ter mais prazer
Terreno das andorinhas
Onde arrulham mil rolinhas
Quando começa a chover.

A borboleta ligeira
Que desce do verde monte
Passa voando maneira
Roçando as águas da fonte
As aragens dos campestres
Pelas florzinhas silvestres
Atravessam sem alarde
Quando o sol se debruça
A Natureza soluça
Nas sombras do véu da tarde.

Terreno em que os sabiás
Cantam com mais queixumes
Belas noites de cristais
Cravadas de vaga-lumes
Meus mangueirais magníficos
Por onde os ventos pacíficos
Atravessam mansamente
Verdes matas perfumadas
Nas lindas tardes toldadas
Das cinzas do sol poente.

Esvoaçam, preguiçosas
As abelhas pequeninas
Tirando néctar das rosas
Das regiões campesinas
Os colibris multicores
Pelos serenos verdores
Perpassam com sutileza
O orvalho cristalino
Lembra o pranto divino
Dos olhos da Natureza.

Palmeiras que o rouxinol
Canta ainda horas inteiras
As auras do pôr-do-sol
Soluçam nas laranjeiras
A pelúcia aveludada
De muitas flores bordada
Desde o vale até o outeiro
Lugar em que cada planta
Soluça, sorri e canta
Pelos trovões de janeiro.

Deslumbra a gente o encanto
Das borboletas douradas
Pousarem no róscio santo
Das manhãs cristalizadas
Fingem variadas fitas
De fato que são bonitas
Porém se fingem mais belas
Que a divina Natureza
Por ter-lhes posto a beleza
Deu mais vaidade a elas.

Oh, noite de lua cheia
De minha terra querida
Lindas baixadas de areia
Princípios da minha vida
Lugares de despenhado
Onde gozei, descansado
Sombra, frescura e carinho
Bosque, vale, serrania
Lugares onde eu vivia
Em busca de passarinho.

Os colibris delicados
Pelas manhãs de neblina
Passam voando vexados
Na vastidão da campina
Nos frondosos jiquiris
Dezenas de bem-te-vis
Elevam seus madrigais
Lugar que grita o carão
Olhando o santo clarão
Primeiro que o dia traz.

As pequeninas ovelhas
Descem buscando o aprisco
Colhendo ainda as centelhas
Do sol ocultando o disco
Seguem pelas mesmas trilhas
Como que sejam as filhas
Dum pastor que lhes quer bem
Recebendo ainda as cores
Dos derradeiros rubores
Que o céu do oeste tem.

Vivia sempre brincando
Fosse de noite ou de dia
Na alma se apresentando
Um mundo de poesia
Minhas queridas delícias
Aquelas santas primícias
Se passaram como um hino
Hoje só resta a lembrança.

DUAS DUPLAS EM CANTORIA E UM FOLHETO DA BRIGA DO CACHORRO COM O GATO

Poetas repentistas Valdir Teles e Raimundo Caetano glosando o mote

“Sou maturo assumido e declarado,
faço é rir de quem diz que eu não sou gente “

* * *

Cantoria dos poetas repentistas João Paraibano e Sebastião Dias improvisando em sextilhas:

* * *

A INTRIGA DO CACHORRO COM O GATO – J. Ferreira da Silva

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A intriga é mãe da raiva
O mau pensamento é pai
Da casa da malquerença
O desmantelo não sai
Enquanto a intriga rende
A revolução não cai.

Quando cachorro falava
Gato falava também
Gato tinha uma bodega
Como hoje os homens têm
Onde vendia cachaça
Encostado ao armazém.

Com a balança armada
Para comprar cereais
E na bodega vendia
Bacalhau, açúcar e gás
Bolacha, café, manteiga
Miudezas e tudo mais.

Quando no tempo de safra
Comprava mercadoria
Chegada no armazém
Que todo bicho trazia
Vou dizer pela metade
Esta grande freguesia.

O peru vendia milho
O porco feijão e farinha
Com um cacho de banana
Mais tarde o macaco vinha
Raposa também trazia
Um garajau de galinha.

Carneiro passava a noite
Junto com sua irmã
Descaroçando algodão
E quando era de manhã
Para o armazém do gato
Botava sacos de lã.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DO CAMELO QUE FALA

 LB

O saudoso poeta improvisador Lourival Bandeira (esq.), que era muito amigo do Editor deste JBF, cantando com Domingos Martins da Fonseca

Siqueira de Amorim:

É coisa de impressionar
Cantador improvisar
Sem a palavra faltar
Em qualquer ocasião
Ou na praia ou no sertão
No litoral ou na serra
Seu pensamento se encerra
No oitos pés a quadrão.

Lourival Bandeira:

Eu vou na mesma batida
Dou entrada e dou saída
Dou no peso e na medida
Com a maior distinção
Sou na lenha e no carvão
No fechado e no aberto
Em qualquer canto dou certo
Cantando oito a quadrão

* * *

Louro Branco:

A mulher do meu amigo
Tem falhas que ninguém soma
Ela parece um beiju
Que alguém faz com pouca goma
Na cama não tem quem queira
Na mesa não tem quem coma.

* * *

Elisio Félix:

Mulher é bicho cruel
que quando ri para a gente
é nos mostrando somente
as presas da cascavel.
Amei a uma infiel
que olhou pra mim um dia,
com ódio me dirigia
as suas presas fatais:
mordeu e saiu atrás
para ver onde eu caía.

* * *

Manoel Xudu:

Estou como um penitente
Que não possui um barraco,
Dorme à toa pela rua,
Um guabiru fura o saco,
Quando recebe uma esmola
Ela cai pelo buraco.

* * *

Luiz Quezado (Saudando o recém chegado vigário):

Ó Senhor, não batei palmas
Por um pastor ter chegado.
Eu sou o pastor do gado,
Vós sois o pastor das almas.
Vós viveis com todas calmas,
Eu vivo com lutadores,
Vós viveis entre os doutores
Instruindo e dando exemplo,
Eu no campo, vós no templo,
Nós ambos somos pastores.

* * *

Geraldo Amâncio:

Itapetim és a pista
De Louro, Otacílio e Dimas
Aonde o carro das rimas
Obedece ao motorista
Que cada página é revista
Escrita em diversas cores
És do Pajeú das Flores
A mais poética cidade
Itapetim, faculdade
Que diploma cantadores.

* * *

Domingos Tomaz:

Faz vergonha até dizer,
Que sua mãe foi branca e bela;
E este seu cabelo ruim,
Por que não puxou a ela?
Ou seu pai é muito preto,
Ou então, foi truque dela!

* * *

José Edimar (No decorrer das homenagens pelo centenário de nascimento do insigne poeta piauiense Domingos Martins Fonseca):

Foi Domingos Fonseca pra poetas
Conhecido “O armazém do improviso”
Com seus versos moldados no juízo
Construídos com linhas tão completas
Com cadências de rimas bem corretas
Se contando parece até lendário
Mas, cantou muito além do necessário
Divulgando o valor da profissão
Do poeta que é filho do sertão
Isso tudo completa o centenário.

* * *

José Adalberto:

Quando as lágrimas flutuantes
Afogam meus aperreios
Subindo demais o nível,
Deixando meus olhos cheios,
É a ressaca das ondas
Dos sofrimentos alheios.

* * *

Um folheto de Carlos Alê

O CAMELO QUE DECLAMA POESIAS NO ZOOLÓGICO DE RECIFE

O poeta quando escreve
Seu trabalho inspirado
Faz a narração das coisas
Naquilo que é versado
E quem o seu verso lê
Começa a pensar o que
Não tinha ainda pensado.

Pra ter esse resultado
Cada um versejador
Busca sempre traduzir
No que escreve o teor
Das coisas que observa
Ou daquilo que conserva
Na essência interior.

Ele mostra ao leitor
No estilo escolhido
O relato mais fiel
Do que tem acontecido
Faz um estudo diverso
E no espelho do verso
Como fica refletido.

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DUAS CANTORIAS E UM FOLHETO DO PINTO PELADO

Uma cantoria com os poetas improvisadores Valdir Teles e Louro Branco:

Uma cantoria com os poetas improvisadores Valdir Teles e Geraldo Amancio:

* * *

O HOMEM DO PINTO GRANDE – Manoel Monteiro

Ou a verdadeira estória do Pinto Pelado

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Em Gravatá de Bezerros
Existia um morador
Camponês de nascimento
De profissão, trocador,
Desses que trocam o que têm
Por qualquer traste que for.

Nesse tempo Gravatá
Era um lugar pequenino
Por isso todos dali
Conheciam Valdevino
Que já era trocador
Desde garoto franzino.

Tem gente que tem mania
De trocar tudo que tem
Troca a camisa do corpo
Troca cento e um por cem
Inda que perca na troca
Mesmo assim se sente bem.

Valdevino trocou logo
O seu nome por Vavá,
Trocou a sua chupeta
Por um velho maracá
E suas bolas de gude
Por caroço de juá.

Quem gosta de troca-troca
Troca tanto que revolta
Fazendo uma troca boa
Não se contém, logo solta
Na mão doutro trocador
Pensando em ganhar na volta.

Vavá entrou logo cedo
Em mutreta e cambalacho
Na aula trocava tudo
E só não trocou, eu acho,
Aquilo que os meninos
Iam trocar no riacho.

Quando sua mãe ralhava
Pedindo meu filho evite
Esse negócio de troca,
Ele dizia: Acredite,
Eu só não troco a senhora
Porque papai não permite.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO SOBRE O ABRAÇO

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Poeta cantador Jó Patriota (Jan/1929 – Out/1992)

Jó Patriota

Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma.

Eu nasci em Itapetim
Lugar onde o camponês
Nunca estudou matemática
Nunca aprendeu português
Mas sabe fazer um verso
Que Castro Alves não fez.

* * *

Maria Rafael dos Anjos Ferreira (Rafelzinha)

Quem quiser sentir saudade
Faça do jeito que eu fiz
Deixe seu torrão natal
Sem querer como eu não quis
Saia por necessidade
Que depois você me diz

Para fazer como eu fiz
Não precisa ter coragem
Depende da precisão
Fazer de tudo embalagem
Se subir num caminhão
Chorar durante a viagem

Foi de cortar coração
Na hora da despedida
Saí de onde nasci
Pra terra desconhecida
Por contraste a incerteza
De arrumar o pão da vida

Foi na hora da partida
Quem assistiu lamentava
Era bem de tardezinha
Uma chuva se formava
Para o lado do nascente
Ai era que eu chorava.

Quanto mais longe eu ficava
Mais a saudade crescia
Olhava tanto pra trás
Que o pescoço me doía
Pra ver se ainda avistava
A casa que eu residia

Era tão grande o meu pranto
Que Joãozinho se comovia
De vez em quando eu olhava
Me ajeitava, me pedia
Lelê não chore tanto
Nós vamos voltar um dia.

* * *

Espedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei não me formei
Porque meu pai não podia
Jesus filho de Maria
De mim se compadeceu
E como presente me deu
Um crânio com poesia.

* * *

Oliveira de Panelas

Por este espaço onde moro
Meu sonho é tão colorido
Que eu tenho a doida impressão
Que ele foi construído
Por várias tintas confusas
De um arco-íris mexido.

* * *

Chico Alves

A ema tem ligeireza
Seja no claro ou na luz
Possui asas mas não voa
É parente de avestruz
E pesa setecentos gramas
O ovo que ela produz.

* * *

Inácio da Catingueira

Tenho pena de deixar
A Serra da Catingueira
A Fazenda Bela Vista
A maior dessa ribeira
O Riacho do Poção,
As quebradas do Teixeira.

* * *

João Paraibano

Poesia uma das flores
Que só Deus beija a corola
Joia que a mão não segura
Se aprende sem escola
Imagem que a gente amarra
Com dez cordas de viola.

* * *

Valdir Teles

Minha mulher já brigou
Com minha própria cunhada,
Chamou a irmã safada
Porque me cumprimentou.
Inda ontem perguntou
Por que é que essa cadela,
Só vem na minha janela
Quando você se apresenta?
Eita mulher ciumenta
Essa que casei com ela!

* * *

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
Que você tá no começo,
Eu já tô perto do fim;
Tô perto de ficar longe
De quem tá perto de mim.

* * *

Assis Coimbra

Eu vou mandar construir
Cadeia para corrupto,
Pois pra mim é um insulto
Essa laia progredir.
E de lá só vão sair
Para o “roubo” devolver.
Depois eu torno prender,
Esse bando de safado,
Que muito já tem roubado,
Faça igual que eu quero ver.

* * *

O ABRAÇO – Tião Simpatia

abrço

Quero falar do Abraço:
Nada é mais prazeroso
Do que ser surpreendido
Com um abraço carinhoso.
Pode ser de um parente,
Um amigo, pretendente,
Ou mesmo um desconhecido.
A força de um abraço
Entorta vergalhão de aço,
Refaz amor destruído.

Um beijo, a gente rouba;
Um abraço a gente dá.
É recíproco, verdadeiro,
A coisa melhor que há
É nos tornarmos reféns
Do abraço de alguém
Que a gente ama ou estima.
É algo que tem magia,
Chega até ter poesia
Sem nem precisar de rima.

Você já se perguntou
Quanto abraços já deu?
Deve ser o mesmo tanto
Dos que você recebeu.
O abraço, ora pois,
Tem que ter ao menos dois
Pra poder acontecer.
O abraço é coletivo
É solene, é festivo,
É carinho, é bem-querer!

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NOVE MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO SOBRE O JUAZEIRO

PM

Pinto do Monteiro

Vou construir uma casa
junto ao rio Parnaíba,
de frente pra Pernambuco,
de costas pra a Paraíba,
só pra não ver duas coisas:
São Tomé e João Furiba.

Zé da Prata

A moça quando se casa,
Todo castigo merece
Troca pai e troca mãe
Por alguém que mal conhece
E fica na obrigação
De amolecer um cambão
Toda vez que endurece.

Cego Oliveira

Poeta Zé Mergulhão
Você procure a defesa,
Eu lhe dou a explicação
Com toda delicadeza,
Eu com a rabeca na mão,
Eu canto por precisão
E você por sem-vergonheza.

Essa minha rabequinha
É meus pés, é minha mão
É minha roça de mandioca,
É minha farinha, o meu feijão,
É minha safra de algodão,
Dela eu faço profissão
Por não poder trabalhar,
Mas ao padre fui perguntar
Se cantar fazia mal.
Ele me disse: Oliveira,
Pode cantar bem na praça,
Porém se cantar de graça
Cai em pecado mortal..

Antonio Marinho

Parece que não gostou
Nobre doutor Edmundo,
Que é o doutor mais feio
Que eu já vi neste mundo,
Que o fundo parece a cara
E a cara parece o fundo.

Valdir Correia

Cantador que cruzar o meu caminho
Se arrisca a sofrer passar vergonha
Ele sofre, peleja, mas não sonha
Cantar grande igualmente Canhotinho
Vai buscar Lourival, Antônio Marinho
Vai andar como Cristo Galileu
E me mostre um poeta que venceu
Que duvido cantando me vencer
Cantador que pensar em me bater
Se arrisca a apanhar mais do que eu.

Valdir Teles e Fenelon Dantas

Valdir Teles:

Meu colega nasceu com vocação
Pra viver de caçada e pescaria
Cortar lenha de foice e fazer cerca
Mexer barro em cerâmica e olaria
Cozinhar varrer chão lavar banheiro
Só não pode é viver de cantoria.

Fenelon Dantas:

Companheiro viver de poesia
Tem que ter competência pra viver
Fazer versos sabendo dos quesitos
Você tá fazendo sem saber
Quer vender a viola diga o preço
Vá caçar outra coisa pra fazer.

Severino Ferreira

Eu também lembro a infância
Meu tempo de meninice
A fase da mocidade
O período da meiguice
Mas tudo está se passando
Aos poucos vou mergulhando
No caldeirão da velhice.

Aonde fui habitante
O destino me levou
Vi a casa destelhada
A porta o vento quebrou
Só com lixo na biqueira
Ainda vi a caveira
De um boi que a seca matou.

* * *

HISTÓRIA DA GUERRA DE JUAZEIRO EM 1914 – João de Cristo Rei

FOLHETO

Vou descrever a batalha
Da guerra de Juazeiro,
Para se vê entre a luta
De metralha e fuzileiro
O poder de meu Padrinho
A vitória do romeiro.

Antes de travarem a luta
Meu Padrinho disse assim:
– O governo do Estado
Se revoltou contra mim,
Para tomar Juazeiro
Prender tudo e me dar fim

Mas ele está enganado
Aqui não entra ninguém
Juazeiro é todo meu
E da mãe de Deus também
Parte aqui na minha terra
O cão, não teve e nem tem.

Não tenho medo de homem
Por mais que seja graúdo,
Acima de mim só Deus
Homem rico e casacudo
Querendo me dominar
Se derrota e perde tudo.

E disse ao Doutor Floro
Vamos cavar os valados
Que Franco Rabelo vem
Com seus batalhões armados
E nós não temos trincheiras
Para enfrentar os malvados.

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DOIS GRANDES POETAS REPENTISTAS NORDESTINOS

Capa

Os saudosos Otacílio Batista e Diniz Vitorino improvisando num Martelo Agalopado:

A GENIALIDADE DE ORLANDO TEJO HOMENAGEANDO AS GENIALIDADES DE PINTO E DE LOURO

louro-e-pinto (1)

Os saudosos poetas repentistas Lourival Batista e Pinto do Monteiro, cantando  em Caruaru, no ano de 1969

* * *

Em homenagem a Lourival Batista Patriota, o Louro do Pajeú (1915-1992) e a Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990) um poema escrito por Orlando Tejo:

VAGAS DIVAGAÇÕES EM TORNO DE PINTO DO MONTEIRO E LOURO DO PAJEÚ

A Helena Marinho Patriota, a metade de Louro que ficou.

Grande saudade hoje sinto
Das cantorias-tesouro
Do gigante que foi Pinto,
Do uirapuru que foi Louro.

Era uma graça, um estouro
Ouvir em qualquer recinto
Os trocadilhos de Louro
Os desconcertos de Pinto.

Tal qual no Bar do Faminto,
Do Pátio do Matadouro,
Quando Louro aceitou Pinto
E Pinto abençoou Louro.

Mas no Bar Rosa de Ouro
Houve um encontro distinto
Pinto elogiando Louro,
Louro chaleirando Pinto.

Jamais ficará extinto
O meu prazer de ouvir Louro
Querendo derrubar Pinto,
Pinto bricando com Louro.

No Bar Casaca-de-Couro
Vi o maior labirinto:
Pinto depenando Louro
E Louro esganando Pinto.

No Mercado, em Rio Tinto,
Um momento imorredouro
com as emboscadas de Pinto
E as escapadas de Louro.

No Beco do Bebedouro
Um desfio ao instinto:
Pinto superava Louro,
Louro desmontava Pinto.

No bar de Moisés Aminto
(À Curva do Varadouro)
Louro acompanhava Pinto,
Pinto fugia de Louro.

Assisti, no Bar Jacinto,
Luta de cristão e mouro
Quando Louro açoitou Pinto,
E Pinto escanteou Louro.

O sol no nascedouro
E haja mel e haja absinto
Nas divagações de Louro,
Nos ultimatos de Pinto.

Num diálogo suscinto
Reverberavam em coro
Iluminuras de Pinto,
Clarividências de Louro.

Essa dupla, sem desdouro,
Reinou do primeiro ao quinto:
Pinto maior do que Louro,
Louro maior do que Pinto.

Duas fivelas num cinto,
Batéis sem ancoradouro,
Assim foram Louro e Pinto,
Assim serão Pinto e Louro.

Penso, reflito, pressinto
Que em todo o tempo vindouro
Ninguém vai superar Pinto,
Nenhum fará sombra a Louro.

Pois não há praga ou agouro
Que manche a paz do recinto
Das glórias que envolvem Louro,
Dos louros que adornam Pinto.

Aqui faço paradouro
(Ir além me não consinto),
Rendido ao gênio que é Louro,
Curvado ao estro de Pinto.

OITO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE POLÍTICA

VILA NOVA

Ivanildo Vilanova, genial poeta cantador nascido em Caruaru, em outubro de 1945

Ivanildo Vilanova

É o céu uma abóboda aureolada
Rodeada de gases venenosos
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada
Galáxia também hidrogenada
Como é lindo o espaço azul -turquesa
E o sol fulgurante tocha acesa
Flamejando sem pausa e sem escala
Quem de nós poderia apagá-la
Só o santo doutor da natureza.

* * *

Cicinho Gomes

Eu admiro o canção
Na cabeça de uma estaca;
Olha pra baixo e pra cima
Acuando a jararaca
Como quem diz : “Ó meu Deus!
Ah se eu tivesse uma faca!

Eu admiro demais
É uma gata parir,
Pegar o filho na boca,
Levar pra onde quer ir.
Nem fere o filho no dente,
Nem deixa o gato cair.

* * *

Dimas Batista

Alguém já me perguntou:
o que são mesmo os poetas?
Eu respondi: são crianças
dessas rebeldes, inquietas,
que juntam as dores do mundo
às suas dores secretas.

Nossa vida é como um rio
no declive da descida,
as águas são a saudade
duma esperança perdida,
e a vaidade é a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Raimundo Nonato

Para um mundo diferente,
nossas mentes estão vindo,
quem amanhece com ela,
tem que amanhecer sorrindo,
e a poesia não sente,
mas deixa a gente sentindo.

Ela aguça o meu QI,
que dá mais um incentivo,
nessa tarde deu um show,
pra gente cantar ao vivo,
Eu passo até sem dinheiro
mas sem poesia eu não vivo.

* * *

Moacir Laurentino

Numa das noites mais belas
dos nossos interiores,
para um encontro de sonhos,
unem-se dois cantadores,
iguais a dois jardineiros
numa colheita de flores.

* * *

Antônio Batista Guedes

Longe do mar de Netuno,
O cocheiro Faetonte
Percorria o horizonte
No seu coche de tribuno,
De Anfitrite e de Juno,
Tinha ele a proteção!
Apoio, tendo na mão
Um livro de poesia,
Me ensinou com galhardia(
Cantar dez pés em Quadrão!

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Coruja dá gargalhada
Na casa que não tem dono
A borboleta azulada
Da cor de um papel carbono
Faz ventilador das asas
Pra rosa pegar no sono.

A juventude não dá
Direito a segunda via
Jesus pintou meus cabelos
No final da boemia
Mas na hora de pintar
Esqueceu de perguntar
Qual era a cor que eu queria.

* * *

Ivanildo Vilanova

No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tem a colheita, a criação
Ferramenta da roça produção
Uma rede, um grajau de rapadura
Uma dez polegada na cintura
A viola, um baú, uma cabaça
A tarrafa e um litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu baêta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça.

* * *

Um folheto de Antonio Barreto

MENTIRAS QUE O POVO GOSTA EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO

O discurso é sempre igual
Em período de eleição.
O povo segue enganado,
Não esboça reação.
E os políticos brasileiros
Com a mesma falação:

– Se você quiser na Câmara
Um político honrado,
Vote certo para mim:
Estarei sempre ao seu lado.
Provarei ao eleitor
Ser um grande Deputado.

– Representarei você,
Meu querido eleitor.
No Congresso a minha voz
Será de grande valor.
Não esqueça de honrar
Seu voto pra Senador.

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EM HOMENAGEM ÀS MÃES

MÃE – Hermes Fontes

Para dizer-te quem foi a minha mãe, não acho
uma palavra própria, um pensamento bom.
Diógenes – busco-o em vão: falta-me a luz de um facho,
– se acho som, falta a luz; se acho a luz, falta o som!

Teu nome – ó minha mãe – tem  o sabor de um cacho
de uvas diáfanas, cor de ouro e pérola, com
polpa de beijos de anjo… Ouvi-lo é ouvir um riacho
merencório, a rezar, no seu eterno tom…

Minha mãe! minha mãe! eu não fui qual devera!
Morreste e não bebi em teus lábios de cera
a doçura que as mães, inda mortas, contem…

Ao pé de nossas mães – todos nós somos crentes…
Um filho que tem mãe – tem todos os parentes…
– E eu não tenho por mim, ó minha mãe, ninguém!

* * *

PARTIDA DE MINHA MÃE – Zé de Cazuza  

Quem da terra partiu levando um riso,
Estampado nos lábios por lembrança,
Com certeza levava a esperança
De alcançar o perdão no paraíso.

Diz o filho sentindo o prejuízo,
A chorar pela mãe que fez mudança,
Aspirando de Deus a confiança,
De abraçá-la no dia de juízo.

Sobre o seu leito quando morta estava,
Sua bela feição me retratava,
A feição duma santa de capela.

Senti nos olhos arrojado pranto,
A minha mãe que me estimava tanto
Só teve um filho pra chorar por ela.

* * *

SER MÃE – Pedro Fernandes

Mãe que me deu luz e vida
Me abrigou nove meses
Se acordou muitas vezes
Pra fazer minha comida
Quando sentia a mordida
Que eu lhe dava nos seios
De água seus olhos cheios
A mamada não parava
Aí é que me abraçava
Saciando meus anseios.

Se eu dormisse de dia
Ficava a noite acordado
E ela ali do meu lado
Cochilava e não dormia
Se a noite estivesse fria
Me agasalhava na manta
A fé de mãe era tanta
Enquanto embalava o berço
Ia dedilhando um terço
Rezando pra outra santa.

Mãe, é fonte de candura
Roseira que exala amor
Seu sopro alivia a dor
O seio jorra doçura
Seu colo tem a fofura
Do capucho de algodão
Uma usina de perdão
Sinfonia que me embala
A voz da razão que fala
No palco do coração.

* * *

Domingos Fonseca

Toda mãe por qualquer filho
Se iguala num só amor
As mães: de Cristo e de Judas
Sofreram a mesma dor
Uma pelo filho justo
A outra pelo traidor.

* * *

João Paraibano

Branca, preta, pobre e rica,
Toda mãe pra Deus é bela;
Acho que a mãe merecia
Dois corações dentro dela:
Um pra sofrer pelos filhos;
Outro pra bater por ela.

* * *

Francisco das Chagas

Não encontro adjetivo
Para minha mãe querida
Ela é o ar que eu respiro
Meu mundo, minha guarida
A minha mãe não é Deus
Mas foi quem me deu a vida.

SEIS POEMAS DE ZÉ DA LUZ

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Severino de Andrade Silva, mais conhecido como Zé da Luz, nasceu na cidade paraibana de Itabaiana em 1904, foi um alfaiate de profissão e poeta popular brasileiro; morreu no Rio de Janeiro em 1965

* * *

A CACIMBA

Tá vendo aquela cacimba
Lá na bêra do riacho,
Im riba da ribancêra,
Qui fica, assim, pru dibaxo
De um pé de tamarinêra?

Pois, um magote de môça
Quage toda menhanzinha,
Foima, assim, aquela tuia,
Na bêra da cacimbinha
Tomando banho de cuia!

Eu não sei pru quê razão,
As águas dessa nacente,
As águas qui alí se vê,
Tem um gosto deferente
Das cacimba de bêbê…

As águas da cacimbinha
Tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça…
Tem um gostim do suó
Dos suvaco déssas môça…

Quando eu vejo essa cacimba,
Qui inspio a minha cara
E a cara torno a inspiá,
Naquelas águas quilara,
Pego logo a desejá…

…Desejo, pra que negá?
Desejo ser um caçote,
Cum dois óio desse tamanho!
Pra vê, aquele magóte
De môça tumando banho!

* * *

BRASI CABOCO

O qui é Brasí Caboco?
É um Brasi diferente
do Brasí das capitá.
É um Brasi brasilêro,
sem mistura de instrangero,
um Brasi nacioná!

É o Brasi qui não veste
liforme de gazimira,
camisa de peito duro,
com butuadura de ouro…
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da “polista”
gibão e chapéu de coro!

Brasi caboco num come
assentado nos banquete,
misturado cum os home
de casaca e anelão…
Brasi caboco só come
o bode seco, o feijão,
e as veiz uma panelada,
um pirão de carne verde,
nos dias da inleição
quando vai servi de iscada
prus home de posição.

Brasi caboco num sabe
falá ingrês nem francês,
munto meno o português
qui os outros fala imprestado…
Brasi caboco num inscreve;
munto má assina o nome
pra votar pru mode os home
Sê gunverno e diputado
Mas porém. Brasi caboco,
é um Brasi brasileiro,
sem mistura de instrangero
Um Brasi nacioná!

É o Brasi sertanejo
dos coco, das imbolada,
dos samba, dos vialejo,
zabumba e caracaxá!
É o Brasi das vaquejada,
do aboio dos vaquero,
do arranco das boiada
nos fechado ou tabulero!
É o Brasi das caboca
qui tem os óio feiticero,
qui tem a boca incarnada,
como fruta de cardoro
quando ela nasce alejada!

É o Brasi das promessa
nas noite de São João!
dos carro de boi cantano
pela boca dos cocão.

É o Brasi das caboca
qui cum sabença gunverna,
vinte e cinco pá-de-birro
cum a munfada entre as perna!
Brasi das briga de galo!
do jogo de “sôco-tôco”!
É o Brasi dos caboco
amansadô de cavalo!

É o Brasi dos cantadô,
desses caboco afamado,
qui nos verso improvisado,
sirrindo, cantáro o amô;
cantando choraro as mágua:
Brasi de Pelino Guedes,
de Inácio da Catingueira,
de Umbelino do Texera
e Romano de Mãe-d’água!

É o Brasi das caboca,
qui de noite se dibruça,
machucando o peito virge
no batente das jinela…
Vendo, os caboco pachola
qui geme, chora e soluça
nas cordas de uma viola,
ruendo paxão pru ela!

É esse o Brasi caboco.
Um Brasi bem brasilero,
sem mistura de instrangêro
Um Brasi nacioná!
Brasi, qui foi, eu tô certo
argum dia discuberto,
pru Pêdo Arves Cabrá.

* * *

SERTÃO EM CARNE E OSSO

No romper das alvorada,
Quando alegre a passarada
Se desmancha em cantoria,
Anunciando ao sertão
A sua ressurreição
No despontar de outro dia!

Nos galho das baraúna
Os magote de graúna
Quando o seu canto desata,
Parece uns vigário véio
Cantando o santo evangéio
Na igreja verde da mata!

Canta nas tarde morena
Quando o sol vai descambando,
Se despedindo da terra,
Beijando a crista da serra,
Deixando o céu tão bonito,
Que o sol redondo e vermêio
Parece, mal comparando,
Um grande chapéu de couro
Na cabeça do infinito!

* * *

A TERRA CAIU NO CHÃO

Visitando o meu sertão
Que tanta grandeza encerra,
Trouxe um punhado de terra
Com a maior satisfação.
Fiz isso na intenção,
Como fez Pedro Segundo,
De quando eu deixasse o mundo
Levá-lo no meu caixão.

Chegando ao Rio, pensei
Guardá-lo só para mim
E num saquinho de brim
Essa relíquia encerrei!
Com carinho e com cuidado
Numa ripa do telhado,
O saquinho pendurei…

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UM CANTORIA E DEZ MESTRES DO IMPROVISO

Hipolito Moura e Jonas Bezerra glosando  o mote:

“Sepultei as lembranças do passado
não vou mais padecer por causa dela”

* * *

Louro Branco

No dia que eu morrer
Deixo a mulher sem conforto
Roupas em malas guardadas
E o chapéu em torno torto
E a viola com saudades
Dos dedos do dono morto.

* * *

Paulo Nunes Batista

Quando quero improvisar
Basta que me dêem o tema
O cabra que é macho mesmo
Só gosta de mulé fema,
Pouco importando que ria,
Que chore, que grite ou gema.

Minha mãe , quando me teve
Foi para fazer figura,
Dar surra em cabra safado
Assim da tua estatura;
Comer arroz com farofa,
E feijão com rapadura.

* * *

Luiz Campos

Essa dor que estou sentindo
Esse mal, essa moleza
Esse tremido nas pernas
Essa cólica, essa fraqueza
Trinta por cento é doença
Mas os setenta é pobreza…

* * *

Ismael Pereira

O mínimo precisaria
Aumentar uns cem por cento
Quem recebe no salário
Quinze reais de aumento
É mesmo que receber
Nota de falecimento.

* * *

José Ribamar

Quem não crê que Deus existe
Existe sem merecer
Sem Deus não tem condição
Ninguém consegue viver
Ou pelo menos ser digno
De ser chamado de Ser.

* * *

Pinto do Monteiro

Chegue pisando maneiro
Sente e afine a viola
Procure cantar bonito
Agradando a curriola
Que ainda cabe um aluno
Nos bancos da minha escola.

* * *

Geraldo Amâncio

Quem não cantar do meu tanto
não acompanha o meu passo,
não tem a força que eu tenho,
quando manejo o meu braço,
não planta a roça que eu planto
nem faz verso que eu faço.

* * *

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
Que você tá no começo,
Eu já tô perto do fim;
Tô perto de ficar longe
De quem tá perto de mim.

* * *

Cícero Manoel do Nascimento

O meu filho está desnutrido
Que parece um fantasma no mocambo!
A esposa coberta de molambo
Pois não tem com que compre outro vestido
Na bodega, ninguém me dá ouvido,
Pois fiado de mim ninguém confia…
Quando eu tento entrar na padaria,
Ouço um grito que volte da calçada,
Um pedaço de pão não vale nada,
Mas meu filho não come todo dia!

* * *

Raimundo Pelado

Eu como cantor
Não tenho inimigo
E só canto contigo
Pra fazer favor
Mas tenho rancor
De ver tua raça
Porque onde passa
E só pabulando
E o povo mangando
De tua desgraça.

DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LEANDRO GOMES DE BARROS

JoaoParaibano

O saudoso poeta cantador João Paraibano (1952-2014)

João Paraibano

Doutor eu sei que errei
Por dois fatos: dama e porre.
Por amor se mata e morre.
Eu nem morri, nem matei,
Apenas prejudiquei
Um ambiente de classe.
Depois de apanhar na face
Bati na flor do meu ramo.
Me prenderam porque amo
Quanto mais se eu odiasse.

Poeta mesmo ofendido
Sabe oferecer afeto.
Faz pena dormir no teto
Da morada de um bandido,
Se humilha, faz pedido
Ninguém escuta a voz sua,
Não vê o sol, nem a lua
Deixar o espaço aceso.
Por que um poeta preso
Com tantos ladrões na rua?

Sei que não sou marginal,
Mas por ciúmes de alguém,
Bebi pra fazer o bem,
Terminei fazendo o mal.
Eu tendo casa, quintal,
Portão, cortina, janela,
Deixei pra dormir na cela
Com a minha cabeça lesa,
Só sabe a cruz quanto pesa
Quem está carregando ela.

Poeta é um passarinho
Que quando está na cadeia
Sua pena fica feia,
Sente saudade do ninho,
Do calor do filhotinho,
Da fonte da imensidade.
Se come deixa a metade
Da ração que o dono bota,
Se canta esquece da nota
Da canção da liberdade.

Doutor, se eu perder meu nome
Não acho mais quem o empreste,
A minha mulher não veste,
Minha filhinha não come
E a minha fama se some
Para nunca mais voltar.
Não querendo lhe comprar,
Mas humildemente peço:
Se puder, rasgue o processo
E deixe o poeta cantar.

Joaquim Filho

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.

Hercílio Pinheiro

Canta, Severino Pinto,
massa dos quatro elementos,
catadupa do improviso,
montanha de pensamentos,
grandeza de céus e mares,
força da rosa-dos-ventos!

Manoel Filó:

Cantador pra enfrentar Manoel Filó
É preciso comer besouro assado
Dar pancadas com o gume do machado
Num angico que tem um sanharó
Se enrolar com uma cobra de cipó
Dar um chute num cão com hidrofobia
Mastigar na cabeça de uma jia
Se subir num coqueiro catolé
Se montar em Inácio Jacaré
E viajar três semanas pra Bahia.

Lycurgo Paiva:

Um dia tive saudades
Daquelas matas viçosas
Das brisas tão soluçosas,
Dos ares de meu sertão.
Era de tarde – no sitio –
Tudo era grave e sentido,
Como da rola o gemido
Perdido na solidão.

Louro Branco:

O trovão estronda andando
Pelo firmamento infindo,
Céu de nuvens se cobrindo
Cascatas cantarolando,
O pirilampo voando
Em noites de escuridão,
Só parece um avião
Com a sinaleira acesa;
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Diniz Vitorino:

E as abelhas pequenas, sempre mansas
Com as asas peludas e ronceiras
Vão em busca das pétalas das roseiras
Que se deitam no colo das ervanças
Com ferrões aguçados como lanças
Pelo cálix das flores bebem essência
E fazem mel que os mestres da Ciência
Com os séculos de estudo não fabricam
Porque livros da Terra não publicam
Os segredos reais da Providência.

José Lucas de Barros:

A lua, barco risonho,
No seu posto ingênuo e belo,
Era o mimoso castelo
Da poesia e do sonho,
Mas o astronauta medonho
Lá chegou bastante cedo,
E, como no seu degredo
Esperava um trovador,
Ao ver um explorador
A lua tremeu de medo.

José Alves Sobrinho:

Eu canto sextilha, oitava e martelo
Mourão de seis pés, de cinco e de sete
Canto carretilha, tudo que compete
Ao homem que canta repente em duelo
Faço fortaleza , construo castelo
Sou mestre de ritmo , aprendi rimar
Conheço o segredo de metrificar
E meço o compasso das minha expressão
Ouvindo as pancadas do meu coração
Cantando galope na beira do mar.

Otacílio Batista:

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

A PELEJA DE LEANDRO GOMES COM UMA VELHA DE SERGIPE – Leandro Gomes de Barros

PELEJA

Eu ainda estava orelhudo
Com estes versos que faço
Porque nunca achei poeta
Que me fizesse embaraço
Porém uma velha agora
Quase me quebra o cachaço

A velha fez-me subir
Onde nem urubu vai
Andei numa dependura
Já está cai ou não cai
Ainda chamei tio o gato
Tratei cachorro por pai

Quando partiu foi babando
O corpo vinha tremendo
Antes de dar boa noite
De longe me foi dizendo:
“Meu amigo eu venho metê-lo
Entre um quente e dois fervendo”

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