GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

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Geraldo Amâncio, grande cantador contemporâneo, e o saudoso Patativa do Assaré

* * *

Geraldo Amâncio

Patativa tinha o brilho
da luz de um meteorito;
um homem que virou gênio,
um gênio que virou mito;
um cantador de roçado
que foi por Deus convocado
pra cantar no Infinito.

Patativa do Assaré

Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

* * *

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
Um vento manso desliza,
Mais tarde ao sopro da brisa,
Sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
Aparece lentamente,
Na janela do nascente,
Saudando o romper da aurora,
No sertão que a gente mora
Mora o coração da gente.

* * *

João Paraibano

Quando o dia começa a clarear
Um cigano se benze e deixa o rancho
A rolinha se coça num garrancho
Convidando o parceiro pra voar
Um bezerro cansado de mamar
Deita o queixo por cima de uma mão
A toalha do vento enxuga o chão
Vagalume desliga a bateria
Das caricias da noite nasce o dia
Aquecendo os mocambos do sertão.

* * *

Zito Siqueira

Mulher, se lembre das juras
Que fizemos na matriz;
Se esqueça de advogado,
De promotor, do juiz,
Se acostume a levar ponta
Pra gente viver feliz.

* * *

Zé da Prata

Se vejo mulher bonita,
Meu corpo ainda se bole.
Mas sei que já estou velho,
É melhor que me console…
De que serve eu ter desejo,
E a correia assim tão mole?
E a correia desse jeito
O priquito não engole;
Mesmo botando a cabeça
Tirando a mão escapole.
E não posso dessa forma
Fazer mais o bole-bole.

* * *

Dimas Batista Patriota

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Zé Bernardino

Eu nada fiz na jornada
Nada ganhei nem perdi
Nada ignoro do nada
Porque do nada nasci.
Se o nada foi um abrigo
Seja o nada meu jazigo
Pois nada disso me enfada.
Eu de nada fiz estudo,
Mas sei que o nada faz tudo
E tudo se torna em nada.

* * *

José Alves Sobrinho

Jorram as águas do rio,
E elas como uma cobra,
Num andar lento e macio,
Descendo e fazendo dobra,
Derramam sobre o baixio
A quantidade que sobra.

* * *

Lourival Pereira

Eu cheguei um dia na beira do cais
Admirei muito o seu movimento
Navios fazendo descarregamentos
Pacotes maneiros, pesos desiguais
De dez toneladas, de vinte e de mais
E a um marinheiro peguei perguntar
De onde é que vem pra descarregar
Ele disse: da Bélgica, Egito e Hungria
Da Síria, da Pérsia, da Angola e Turquia
Trazendo isso tudo pra beira do mar.

Expedito Sobrinho

Perguntei o nome da mercadoria
Ele disse aqui a gente traz de tudo
Mostarda estrangeira que o grão é miúdo
Petróleo, amianto e tapeçaria
Pedras preciosas que o povo aprecia
Brilhante , ametista pra fazer colar
Ouro português pra quem quer comprar
Pedra opala e amazonita
Berilo, ouro branco, prata e tantalita
Pra fazer negócio na beira do mar

OITO MOTES BEM GLOSADOS

Pedro Otávio

Adeus, adeus companheiros
Já são horas da partida.

Meus amigos verdadeiros
Da grande luta da vida
É hora da despedida
Adeus, adeus companheiros
Da dor, do riso, parceiros
Nesta quadra já corrida
No peito sangra a ferida
A saudade me devora
A lembrança fala, chora
Já são horas da partida.

* * *

Carlos Severiano Cavalcanti

Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

Na fazenda, nasci e me criei,
peraltava e fazia escaramuça,
morcegava, no campo, a besta ruça,
jararaca até mesmo já matei.
Não me lembro da vez em que acordei
assombrado com tiros de trovão,
pinotava da rede para o chão
e saía correndo pelo escuro.
Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

* * *

Pinto do Monteiro

Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

Vaqueiro é pra pegar touro,
Amansar bezerro e vaca,
Cortar pau, fazer estaca
E preparar bebedouro.
Comer queijo e beber soro,
Curtir couro e fazer sola;
Fazer freio e rabichola,
Tirar leite e capar bode,
Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

* * *

João Paraibano

Poesia é a própria voz divina
A vibrar no baião dos cantadores.

Eu sou mais um repórter do diário
Das notícias que a mão de Deus escreve
Se sou pobre, não estou fazendo greve
Reclamando um aumento de salário
Desconheço o que é dicionário
Onde vejo um letreiro estranho as cores
Nunca tive lição de professores
Quando eu erro um poema, Deus me ensina
Poesia é a própria voz divina
A vibrar no baião dos cantadores.

* * *

Cicinho Gomes

A lua vinha beijando
A linda barra do dia.

Num recanto de quintal,
Num cocho de catingueira,
Vi uma vaca leiteira
Lambendo um resto de sal.
O úbere, um manancial
Que nas pernas não cabia.
E enquanto a mesma lambia
O seu bezerro apojando,
A lua vinha beijando
A linda barra do dia.

* * *

Zé Barreto

Por esses caminhos venho
pedaços de mim deixando.

Nem juntos arte e engenho
de Camões podem cantar
como em vão a tropeçar
por esses caminhos venho.
O amor para mim é lenho
que em meio aos lobos em bando,
aos trancos vou carregando
e a cada mulher que passa
sou tragado na fumaça,
pedaços de mim deixando.

* * *

Nonato Costa

Pra findar a viagem sem tristeza,
É preciso saber envelhecer.

Quem não quer ficar velho é infeliz
Perde a calma de tudo e não sossega:
Passa o tempo no espelho atrás de prega
Pra depois dar serviço aos bisturis…
Sempre esconde a idade e nunca diz,
Fica velho por dentro sem querer
Tenha fé, deixe a ruga aparecer,
Não se lance de encontro à natureza
Pra findar a viagem sem tristeza,
É preciso saber envelhecer.

* * *

Zé Limeira

Me diz coração ingrato
Qual foi o mal que te fiz.

A minha amada primeira
Conheci na escritura
Comendo uma rapadura
Em riba da cumiera
Peguei minha ‘balieira’
Dei um tiro na infeliz
Errei, pegou num concriz
Mordendo a boca d’um pato
Me diz coração ingrato
Qual foi o mal que te fiz.

DEZ REPENTES DE PRIMEIRA

Otacílio Batista Patriota, nascido em set/1923, atualmente com 94 anos

* * *

Otacílio Batista

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Ivanildo Vilanova

É o céu uma abóboda aureolada
Rodeada de gases venenosos
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada
Galáxia também hidrogenada
Como é lindo o espaço azul -turquesa
E o sol fulgurante tocha acesa
Flamejando sem pausa e sem escala
Quem de nós poderia apagá-la
Só o santo doutor da natureza.

* * *

Cicinho Gomes

Depois que mamãe morreu,
Aumentaram meus fracassos.
Se estou dormindo desperto
Parecendo ouvir os passos
Daquela que em muitas noites
Me deu por berço os dois braços.

* * *

Aldo Neves

A lua no céu vagueia
Como um barco que flutua
Inspirando o seresteiro
Jogando os raios na rua
Tudo que o poeta é
Só deve a Deus e a lua.

Pra lua sair bonita
Deus é quem abre a janela
E o quadro azul do espaço
A natureza pincela
Num sei quem é mais bonita
Se a noite ou se é ela.

* * *

Ademar Macedo

Deus na sua magnitude,
Fez do sertão um palácio,
Deixou escrito um prefácio
Na parede do açude;
Disse da vicissitude
Da flor e do gineceu,
De um concriz que se escondeu
Nos garranchos da jurema,
O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

* * *

Ismael Pereira

Depois que meu pai morreu
Minha mãe ficou sozinha
Na sua vida de pobre
Trabalhando pra vizinha
Estragado a vida dela
Pra dar conforto a minha.

* * *

Hélio Crisanto

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti “avoando” perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

* * *

Bob Motta

Nem ostra, nem catuaba,
Nem caldo de tubarão,
Culhão de touro ou pirão,
Nem mesmo, uma caldeirada;
Vai levantar a “finada”,
Que vive olhando p’ro chão.
Nem pentelho de barrão,
Lhe digo, na minha verve;
Isso de nada lhe serve,
Quando se acaba o tezão.

* * *

Luiz Ferreira Lima

Acho lindo um bonito vagalume
Reluzindo sua luz na escuridão
Um luzidio e pomposo alazão
Quando trota exibindo seu negrume
Como é lindo os peixinhos em cardume
Se unindo pra escapar do predador
Não se imita o “rasante” de um condor
Nem o charme de uma bela “margarida”
Isso tudo pra mostra na nossa vida
Quanto é grande o poder do Criador!

* * *

Manuel Rabelo

Uma casa tão singela
Sem luxo e sem mordomia,
Ninguém diz que ali um dia
Morou muita gente nela
Já não tem mais na janela
Um jarro com uma flor;
E um cachorro caçador
Deitado lambendo a mão
São lembranças do sertão
Que guardo com muito amor.

UM IMPROVISO GENIAL E UM FOLHETO CEARENSE

Um improviso do poeta Aldo Neves:

No teu beijo Deus bota uma mistura
Que imitá-lo eu acho tão custoso
O teu beijo pra mim é mais gostoso,
Que uma manga depois que está madura.
Porque ele pra mim tem mais doçura
Que o miolo da própria melancia
Eu beijei o teu rosto e não sabia,
Que o teu cheiro ficava em minha face
Se o teu beijo matasse quem beijasse
Eu beijava sabendo que morria.

* * *

HISTÓRIA DAS SETE CIDADES DA SERRA DA IBIAPABA-CE – Apolônio Alves dos Santos

A poesia adverte
Ao meio estudantil
Falando sobre um Estado
Que há em nosso Brasil
A terra de Iracema
Belo torrão varonil.

É sobre o Ceará
Que dou esta explanação
Suas terras, seus encantos
E sua vegetação
Seus pontos mais pitorescos
De grande admiração.

Eu já tenho escrito várias
Histórias interessantes
Com esta quero atingir
Os pontos mais importantes
O que outros escritores
Nunca escreveram antes.

Porém esta trajetória
Um instante eu vou mudar
Seguindo em outro roteiro
Quem vai mais interessar
À muitos estudiosos
Que gostam de pesquisar.

Na história brasileira
Minha ideia penetrou
Portanto quero versar
O que outro não versou
Uma história que a história
Do Brasil pouco contou.

Antes da vinda de Cristo
Há mil cento e tantos anos
A Tróia fora invadida
Pelos gregos desumanos
Deixando subjugado
Todos os poderes troianos.

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DOIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LUTA

IVANILDOgeraldo amancio

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio: dois dos maiores poetas cantadores da atualidade

* * *

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio improvisando com o tema “Sertão”:

Ivanildo Vilanova

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
E agua forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
Um raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo piruetas
Nas espigas de milho do roçado

Geraldo Amâncio

No sertão quando é bem de manhãzinha
Sertanejo se acorda na palhoça
Chama o filho mais velho para a roça
A mulher toma conta da cozinha
Faz o fogo de lenha e encaminha
Um guisado, angu quente ou fava pura
E depois de fazer essa mistura
Sai faceira igualmente uma condessa
Com um quibongo de barro na cabeça
E vai levar aos heróis da agricultura

Ivanildo Vilanova

No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tendo a colheita, a criação
Ferramenta da roça, produção
Uma rede, um grajau de rapadura
Uma “dez polegadas” na cintura
A viola, uma baú, uma cabaça
A tarefa e um litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu, baeta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça

Geraldo Amâncio

É preciso ter muita paciência
Guardar milho num quarto empaiolado
Sustentar criação com alastrado
Numa terra que tem pouca assistência
Trabalhar numa frente de emergência
Esperando o inverno que não vem
Insistir, crer em Deus e tratar bem
Manter sempre a família tão unida
Do chão seco arrancar o pão da vida
Sertanejo faz isso e mais ninguém

Ivanildo Vilanova

No verão quando o sol se descortina
Se escuta o zumbido das abelhas
O balir melancólico das ovelhas
O dueto dos pássaros na matina
O bonito alazão sacode a crina
O vaqueiro abolando chama a rês
Os canções gritam todos de uma vez
Acusando a presença da serpente
Num concerto de música diferente
E da orquestra sinfônica que Deus fez

Geraldo Amâncio

E o traje do homem camponês
Quando sai pra uma festa ou para a feira
A calça de mescla, uma peixeira
Um paletó listrado ou xadrez
Umas botas de couro de uma rês
Para dançar forró enquanto é moço
Um chapéu abalado, grande e grosso
Com uma pena qualquer de um passarinho
E a medalha fiel do meu padrinho
Num rosário enfiado no pescoço

Ivanildo Vilanova

Falar mal do sertão hoje eu não ouço
Não se entrega ao cansaço ou enxaqueca
Um herói pelejando a seca
Contra a cheia combate sem sobrosso
Respeita a moral de velho ou moço
Também quer ver a sua respeitada
Sem Brasil a América é derrotada
Com Brasil a América vale mil
Sem nordeste o Brasil não é Brasil
E sem sertão o nordeste não é nada.

* * *

Um folheto de Abraão Bezerra Batista

LUTA DE UM HOMEM COM UM LOBISOMEM

Agora que eu andei
pelas florestas do além
penetrei no inconsciente
íntimo que cada um tem,
sinto-me autorizado
para escrever o que vem.

Fui aos céus pra ver Jesus
e no inferno eu vi Caifaz;
nestes cantos eu tive a luz
que na terra ninguém faz,
meus pensamentos aqui pus
descrevendo uma luta assaz.

Presenciei por sete tempos
a luta de um certo homem
na mais cruenta das lutas
com o mais cruel lobisomem;
lá nesta peleja eu vi
miolo, coração, abdomem.

Numa encruzilhada que tem
cortando certa avenida
fazendo ponto estratégico
com o segredo da vida
bem na boca das cobras
para lá fui em seguida.

Não conduzia arma de fogo’
nem pau, peixeira ou foice
mas, tive coragem bastante
de olhar seja o que fosse
pois um barulho daquele
era pra guerra e danou-se.

Aproximei-me com cuidado
pra não entrar numa fria…
foi quando eu percebi
a vida e a agonia
a luta de um certo homem
com uma fera vã e baldia.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO

Poeta repentista Oliveira de Panelas

Hélio Crisanto (colunista do JBF)

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti “avoando” perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

Cego Aderaldo

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
Um vento manso desliza,
Mais tarde ao sopro da brisa,
Sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
Aparece lentamente,
Na janela do nascente,
Saudando o romper da aurora,
No sertão que a gente mora
Mora o coração da gente.

Zé Bernardo

Não sou poeta vos digo
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão.

Leonardo Bastião

Eu também plantei saudade
Numa pequena panela
Só de quinze em quinze dias
É que eu botava água nela
Pr’ela não crescer demais
E matar quem cuidava dela.

Na mocidade eu não pude
Vencer os planos que fiz
A velhice acompanhou
Já fez de mim o que quis
Com tanta velocidade
Que deixou a mocidade
Numa distância infeliz.

Pedro Bandeira

Admiro demais o ser humano
Que é gerado num ventre feminino
Envolvido nas dobras do destino
E calibrado nas leis do soberano
Quando faltam três meses para um ano
A mãe pega a sentir uma moleza
Entre gritos lamúrias e esperteza
Nasce o homem e aos poucos vai crescendo
E quando aprende a falar já é dizendo:
Quanto é grande o poder da Natureza.

Gleison Nascimento

A vida é um sopro da eternidade,
Que esfria a sopa da morte malvada,
Que espera a hora, sofrida e calada,
De mostrar pro mundo a sua maldade,
E um cantador preso à liberdade,
Uns versos cansados gosta de rimar,
E quando a morte vem pra lhe buscar,
Recorre a fé, buscando guarida
Briga com a morte, pois gosta vida
Cantando galope na beira do mar.

E faz sua arte um trunfo eterno,
E canta bonito prá Deus lhe sentir,
E por essa prece, Deus vai lhe ouvir,
E vai lhe tocar, no afago mais terno
E manda a morte , voltar pro inferno
Pois esse poeta ela não vai levar,
E segue o poeta na vida à rimar,
E Deus escutando seu canto mais grato
Tomando um vinho daqueles barato
Com dez de galope na beira do mar.

Cego Sinfrônio

Eu, atrás de cantadô
Sou como boi por maiada
Como rio por enchente
Como onça por chapada
Como ferrôi por janela
Menino por gargaiada!

Eu, atrás de cantadô
Sou como abêia por pau
Como linha por agúia
Como dedo por dedal
Como chapéu por cabeça
E nêgo por berimbau

Eu, atrás de cantadô
Sou como vento por praia
Como junco por lagoa
Como fogo por fornaia
Como piôi por cabeça
Ou pulga por cós de saia!

Lourinaldo Vitorino

(Em homenagem a Otacílio Batista Patriota)

As violas de luto soluçando
Dão adeus ao Bocage do repente,
Um fenômeno de arte, um expoente,
Que de cinco a seis décadas improvisando
Sua voz de trovão saiu rasgando
Modulando a palavra em cada nota
Pra cultura um nocaute, uma derrota,
Um desastre, uma perda, um golpe horrendo,
Enlutado o repente está perdendo
Otacílio Batista Patriota.

Zé Bezerra

Inesquecível sertão
Terra dos meus ancestrais
Dos meus avós, dos meus pais
Todos do mesmo rincão
Tenho a recordação
Daquele tempo passado
Que tirava no roçado
As moitas de mororó
Caçava, armando quixó
No sertão que fui criado.

Ali o povo vivia
Com muita simplicidade
Sem requinte e vaidade
Sem modismo e fantasia
Cada família queria
Ver cada filho educado
O povo era acostumado
A servir e respeitar
Dava gosto se morar
No sertão que fui criado.

Sertão caboclo da luta
Do camponês destemido
Que mesmo sendo esquecido
Faz valer sua conduta
E da cabocla matuta
Que faz serviço pesado
Limpa mato, tange gado
Ceva capão e suíno
Todo ano tem menino
No sertão que fui criado.

Essa gente nordestina
Tem cultura e tradição
É bom se ver no sertão
Toda festança junina
No toque da concertina
O forró é animado
No pavilhão enfeitado
Ali perto da floresta
É meio mundo de festa
No sertão que fui criado.

Sertão fértil, terra boa
Que tem raposa e gambá
Xexéu, concriz, sabiá
Garça e pato na lagoa
Orelha de pau e broa
Fígado de porco torrado
Milho assado e cozinhado
Galinha que cacareja
Bode que berra e bodeja
No sertão que fui criado.

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE PELEJA

GGF

Poeta cearense Gonçalo Ferreira da Silva, inspirado folhetista

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Cai a chuva no sertão
Cai o palhaço do palco
Cai a tinta no decalco
Cai o jumento no chão
Cai o preço do feijão
Cai o artista em cena
Cai o pivô da antena
Cai a arca do “Sinai”
Mas Michel Temer não cai
Nem com a gota serena.

Cai a árvore na cidade
Cai a lata de azeite
Cai o mosquito no leite
Cai a coroa do frade
Cai raio na tempestade
Cai Silvio Santos e Datena
Cai o galho da verbena
Cai no penhasco o “bonsai”
Mas Michel Temer não cai
Nem com a gota serena.

Cai do pescoço a corrente
Cai o menino no rio
Cai o carro no desvio
Cai o guiso da serpente
Cai o cabelo no pente
Cai o chinês em Xangai
Cai o tio e cai o pai
Cai o toucinho na brasa
Mas nem com o “caray” de asa
O Michel Temer não cai.

Cai o Collor no lixão
Cai o Cunha acabrunhado
Cai o Aécio cagado
Cai Jucá no mensalão
Cai a bandeja da mão
Cai o peso no Uruguai
Cai o hotel em Dubai
Cai bomba na faixa de gaza
Mas nem com o “caray” de asa
O Michel Temer não cai.

* * *

George Alves

Cancão glosava bonito,
Feliz de quem o conheceu.
Foi gênio enquanto viveu,
Faleceu pra virar mito.
De São José do Egito,
Voou para a imensidão
Onde não tem alçapão,
Baladeira e espinho.
Na terra é difícil um ninho,
Mas no céu tem de Cancão.

* * *

Zezo Correia

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira
No ninho da quixabeira
Canta a casaca-de-couro
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

Hélio Crisanto

Eu só sei cortar mato de enxada
Amansar burro brabo e fazer broca
Dar solfejos com flauta de taboca
Tirar leite rompendo a madrugada
Meu cardápio é queijo com coalhada,
Rapadura batida com feijão
Já botei muita água de galão
Enchi pote com água de barreiro
Sou poeta, matuto e violeiro
E as histórias que conto é do sertão.

* * *

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva

PELEJA DE OSCAR ALHO E FRANCISCO MALAGUETA

Quem não leu ainda, leia
a mais acirrada e preta
peleja que já se viu
em cima deste planeta
a luta de Oscar Alho
e Francisco Malagueta.

Malagueta era filho
de João Antônio Barbalho
nunca violeiro algum
lhe deu o menor trabalho
assim queria encontrar-se
com o famoso Oscar Alho.

Cantava o velho Oscar Alho
alegre e descontraído
quando avistou Malagueta
mas na distração lhe fez
este convite atrevido

Francisco Malagueta

Meu Oscar Alho não pense
numa só palavra tola
senão você não dará
alimento à sua rola
e até o dono da casa
lhe chamará de baitola.

Oscar Alho

Trocar alho por cebola
é trocar leite por creme
o dono da casa acha
que hoje aqui ninguém treme
portanto pede que nós
cantemos na letra eme.

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DOZE MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJOS

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O saudoso Poeta Manoel Filó

 

Manoel Filó

Eu acho que não convém
Falar de quem bebe porre
Porque se quem bebe morre
Sem beber morre também
Apenas quem bebe tem
Suas artérias normais
Trata das fossas nasais
Controla o metabolismo
Cachaça no organismo
É necessário demais

*

Por muito prazer que a gente
Na vida já tenha tido
Só presta o que está na frente
O que passou, tá perdido.

* * *

Diomedes Mariano

Quando o carro do tempo vem ligeiro,
Fumaçando o motor, faltando luz,
Assustando as pessoas que conduz,
Pondo em pânico o mais calmo passageiro,
Nessa hora aparece um patrulheiro,
Conduzindo um talão de apontamento,
Autuando o chofer em dez por cento,
Do que o código dos anos determina,
O embalo da vida só termina,
No semáforo do último cruzamento.

* * *

Louro Branco

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas.

* * *

Lenelson Piancó

Eu admiro a formiga
Que tem problema de vista
Andando no ziguezague
Sem carta de motorista
Não se atrasa no trabalho
Nem congestiona a pista.

* * *

Hélio Crisanto

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti voando perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

* * *

Geraldo Amâncio

O mundo se encontra bastante avançado
A ciência alcança progresso sem soma
Na grande pesquisa que fez do genoma
Todo o corpo humano já foi mapeado
No mapeamento foi tudo contado
Oitenta mil genes se podem contar
A ciência faz chover e molhar
Faz clone de ovelha, faz cópia completa
Duvido a ciência fazer um poeta
Cantando galope na beira do mar.

* * *

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

João Paraibano

Terreno ruim não dá fruto,
Por mais que a gente cultive,
No seu céu eu nunca fui,
Sua estrela eu nunca tive,
Que o espinho não se hospeda,
Na mansão que a rosa vive.

* * *

Rogério Menezes

Quando a mulher é jogada
Na mais detestável lama,
Recebendo humilhações
Da pessoa que mais ama,
A Terra bebe chorando
As lágrimas que ela derrama

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO COM LAMPIÃO

Otacilio

Poeta repentista Otacílio Batista Patriota (Set/1923 – Ago/2003)

Otacílio Batista

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

Onildo Barbosa

Quando o dia vai embora
A tarde é quem sente a queixa
O portão da noite abre
A porta do dia fecha
A boca da noite engole
Os restos que o dia deixa.

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

* * *

Cego Aderaldo

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

* * *

Canhotinho

Quando era injusto o Brasil,
E aos negros se cativaram,
O choro dos filhos brancos
As mães pretas consolaram
E o leite dos filhos pretos,
Os filhos brancos mamaram.

* * *

Aldo Neves

Já ontem eu vi camponês
Botando os bois no arado
Passando no meu nariz
O cheiro de chão molhado
E a água tirando os ciscos
Qu’a seca tinha deixado.

Jamais destrua a floresta
Conserve-a intacta e ilesa
O sagui não vai achar
Resina que amole a presa
Quem fere um pau tá ferindo
O corpo do natureza.

* * *

Zé Adalberto

Não arquivo tristeza nem rancor,
Nem exponho meu próximo a episódios
O meu peito é blindado contra o ódio,
Mas é todo acessível pro amor.
Não consigo, sequer, mudar de cor
Quando sou ofendido por alguém.
Meu silencio é a voz que vai além,
Eu já mais me permito revidar…
É perdido a vingança me atiçar,
Não consigo ter raiva de ninguém.

* * *

Pinto do Monteiro

Ando com uma bengala
Com ela escoro uma perna
Pra não cair em buraco
Nem desabar em caverna
Sou o dono da bengala
Mas ela é quem me governa.

* * *

Sebastião Dias

Pra você segunda-feira
Eu servirei de correio
Quem tiver cartas escreva
Que levo um malote cheio
Com lágrimas de quem não foi
E lembranças de quem não veio.

*

Foi à forca Tiradentes
com a maior paciência;
seu sangue se derramava,
e a terra, por inocência,
bebia o sangue de um filho
que quis dar-lhe a independência.

* * *

Welton Melo

No silêncio da noite é que o poeta
Se levanta da cama e sai ao léu
Toma um copo de água e só se aquieta
Quando passa o que sente pra um papel
Muito mais que capricho ou vaidade
O poema que cria é na verdade
Um descanso pra o corpo e sua mente
Onde as rimas lhe servem de alento
Ser poeta é cantar o sentimento
De quem sente e não canta como a gente.

* * *

Um folheto de José Pacheco

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU

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Lampião foi no inferno
Ao depois no céu chegou
São Pedro estava na porta
Lampião então falou:
– Meu velho não tenha medo
Me diga quem é São Pedro
E logo o rifle puxou

São Pedro desconfiado
Perguntou ao valentão
Quem é você meu amigo
Que anda com este rojão?
Virgulino respondeu:
– Se não sabe quem sou eu
Vou dizer: sou Lampião.

São Pedro se estremeceu
Quase que perdeu o tino
Sabendo que Lampião
Era um terrível assassino
Respondeu balbuciando
O senhor… está… falando…
Com… São Pedro… Virgulino!

Faça o favor abra esta porta
Quero falar com o senhor
Um momento meu amigo
Disse o santo faz favor
Esperar aqui um pouquinho
Para olhar o pergaminho
Que é ordem do Criador

Se você amou o próximo
De todo o seu coração
O seu nome está escrito
No livro da salvação
Porém se foi um tirano
Meu amigo não lhe engano
Por aqui não fica não

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SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LENDA

João-Paraibano-

O saudoso poeta cantador João Paraibano, que encantou-se aos 61 anos de idade em setembro de 2014

* * *

João Paraibano

Branca, preta, pobre ou rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Lourival Batista, o rei do trocadilho

É muito triste ser pobre
Pra mim é uma mal perene
Trocando o “p” pelo “n”
É muito alegre ser nobre
Sendo pelo “c” é cobre
Cobre figurado é ouro
Botando o “t” fica touro
Como a carne e vendo a pele
O “T” sem o traço é “L”
Termino só sendo “Louro”!

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Acho lindo um bonito vagalume
Reluzindo sua luz na escuridão
Um luzidio e pomposo alazão
Quando trota exibindo seu negrume
Como é lindo os peixinhos em cardume
Se unindo pra escapar do predador
Não se imita o “rasante” de um condor
Nem o charme de uma bela “margarida”
Isso tudo pra mostra na nossa vida
Quanto é grande o poder do Criador!!!

* * *

Geraldo Gonçalves

Para quem nasce poeta
versejar é um lazer,
sinto bastante prazer
obedecendo esta meta.
No repente sou atleta,
meu verso é uma beleza,
componho com singeleza,
rimo porque acho bom,
a poesia é um dom
dado pela natureza.

* * *

Dudu Moraes

Não é que meu coração
Não consiga amar ninguém
É que este pobre indefeso
De ingratidões foi refém
De tanto levar pedrada
Tornou-se pedra também!

* * *

Diniz Vitorino

Nós temos por certa a morte,
mas ninguém deseja tê-la…
Quando morre uma criança,
o pai lamenta em perdê-la,
mas Jesus, todo de branco,
abre o céu pra recebê-la.

* * *

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva – LENDA DO CAIPORA 

A humana criatura
se pergunta insatisfeita:
Como uma coisa existe
sem nunca ter sido feita? –
Quem prega não prova nada
quem escuta não aceita.

Diz a gênese mosaica
que Deus Pai Onipotente
disse: “Faça-se a luz”
e a luz obediente
do atro abismo do nada
surgiu repentinamente.

Assim também são as lendas
as vezes surgem do nada
ou como reminiscência
duma cultura importada
que sempre sensibilizam
gente não civilizada.

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DOIS MOTES BEM GLOSADOS E UM FOLHETO DE PROEZAS

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Raimundo Caetano glosando um mote da autoria de Dilson Pinheiro:

No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

É assim lá na terra sertaneja
Bicho e gente sofrendo a mesma mágoa
No olhar do vaqueiro sobra água
Mas a bomba celeste não despeja
Quem aboia e campeia não deseja
Ver o gado com sede o ano inteiro
Nem o gado quer ver seu companheiro
Em um rio de lágrimas sufocado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

No sertão muitos sofrem sem motivo
E eu não sei se merece sofrer tanto
Falta chuva no céu sobra no pranto
De quem cuida do gado inofensivo
O vaqueiro agradece ainda estar vivo
Personagem de um drama costumeiro
Vendo o sol afastar o nevoeiro
Alvejar criação, pessoa e prado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

O trovão com a voz estrepitosa
Nas encostas do céu se locomove
O relâmpago aparece mais não chove
Que irrigue o pistilo de uma rosa
A promessa de chuva é enganosa
Só o choro do homem é verdadeiro
Quem mais sente é o fazendeiro
Vendo o gado sedento e castigado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

* * *

Silvino Pirauá de Lima glosando o mote:

“E tudo vem a ser nada”

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que ideia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive até de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele tanto moureja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam tanto dinheiro,
E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.

Honra, grandezas, brasões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discussões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.

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UMA DUPLA DE EMBOLADORES E UM POEMA DE VINICIUS GREGÓRIO

Peneira e Sonhador, dois artistas populares nordestinos ganhando a vida e exibindo a arte do improviso nas ruas de São Paulo.

* * *

* * *

O MATUTO E A INTERNET – Vinicius Gregório

Zé de Dona Quiterinha
Era um cabra amatutado
As viagens que ele tinha
Restringiam-se ao roçado
Cabra forte de coragem
Eu guardava a sua imagem
Dos tempos que longe vão
Falava errado talvez
Porque pobre não tem vez
Nem tempo pra educação.

Fazia mais de seis anos
Que eu não tinha visto Zé
Foi então que fiz os planos
De vê-lo e com muita fé
Parti para o meu sertão
Na minha imaginação
Lembrei de Zé no passado
Cabra matuto de pia
Eu nunca imaginaria
Que José tinha mudado.

A viagem foi ligeira
Cheguei aqui à tardinha
E fui em toda carreira
Pra casa de Quiterinha
Chamei mas ninguém ouviu
Chamei de novo saiu
Quitera e sua bondade
Que me abraçou dando um laço
Matando num só abraço
Seis anos de saudade.

Quitéria foi me falando
Que Zé tava no roçado
Que logo ia voltar
Depois de trancar o gado
E até ai tudo igual
Dona Quitéria normal
Zé trabalhando na roça
Fiquei ali como estava
Quando eu menos esperava
Escuto aquela voz grossa.

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MESTRES E MESTRAS DO REPENTE

Mocinha de Passira e Valdir Teles improvisando com o mote:

Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer de recordar

* * *

Roxinha da Bahia e José Gustavo em desafio:

Roxinha da Bahia

Senhor Gustavo sou neta
Do Roxinho da Bahia,
Como cantor em seu tempo,
Foi dos melhores que havia,
Faleceu e dele herdei
Dom, agrado e simpatia.

José Gustavo

Ouvi dizer que Roxinho
Foi bom cantador, outrora,
Se sua cova se abrisse
E ele aparecesse agora,
Eu tinha menos receio
Do que cantar com a senhora.

Roxinha da Bahia

Tenha remendo ou não tenha,
Na peleja perca ou ganhe,
Aperte os botões da calça,
Brinque, prose e não se acanhe,
Que eu hoje canto até missa
Se achar quem me acompanhe.

José Gustavo

A senhora hoje faz tudo,
Porque está entre os seus,
Eu me humilho como Jó
O poeta dos hebreus,
Porque só tenho por mim,
Viola, garganta e Deus.

Roxinha da Bahia

Ainda você estando
Dos anjos arrodeado,
São Miguel de espada em punho,
Santo de todos os lado,
Eu dava-lhe um chá de pisa
Que você está precisado.

José Gustavo

Dona Roxinha eu lhe aviso
Quem luta contra o José,
Tem ânsia, dor de barriga,
Fica sem ânimo e fé,
Cai o queixo, entorta a língua,
Perde o nariz, seca o pé.

Roxinha da Bahia

Eu zangada subo pedra
Veloz que só lagartixa,
Pego onça pela cauda,
E tiro o couro da bicha,
Derreto negro no tacho,
Tiro a pele e faço lixa.

José Gustavo

Roxa, tu derrete outro,
Não é um igual a eu,
Porque para derreter-me,
Mulher inda não nasceu,
Se nasceu com esse plano,
Deu-lhe a leseira e morreu.

Roxinha da Bahia

Cantor pra cantar comigo,
Precisa ter teoria,
Conhecer aritmética,
Estudar filosofia,
Discriminar consciente
Gramática e geografia.

José Gustavo

Eu garanto que a senhora
Não analisa gramática,
Que é um livro teórico,
De certeza matemática
Não é pra um burro que apenas
Come capim pela prática.

* * *

Severino da Quixaba

Tem quatro coisas no mundo
Que atormentam um cristão:
Uma casa que goteja,
E um menino chorão,
Uma mulher ciumenta
E um cavalo tanjão.
Mas o cavalo se troca,
A casa, a gente reteia,
O menino se acalanta,
Na mulher se mete a peia.

* * *

Zé da Prata

O bicho que mata o homem
Mora debaixo da saia.
Tem asa que nem morcego,
Esporão que nem arraia,
E uma brecha no meio,
Onde a madeira trabaia.

* * *

Suriel Moisés Ribeiro

O meu verso é água pura
Correndo pelo lajedo
É semente de arvoredo
Brotando na terra dura
É fruta doce madura
No pomar da poesia
É o sopro da ventania
Varrendo a terra escarpada
É noite toda estrelada
E o sol no raiar do dia.

DOIS GRANDES POETAS REPENTISTAS NORDESTINOS E UM FOLHETO MEDICINAL

Os poetas Otacílio Batista e Diniz Vitorino improvisando em Martelo Agalopado, numa peleja memorável que retrata muito bem a genialidade do cantador nordestino:

* * *

Um folheto de José Quaresma Parnaíba

O PODER DAS FRUTAS

Seu sistema imunológico
Precisa ser reforçado
E a nossa mãe Natureza
Tem um estoque sagrado,
De vitaminas e sais,
Pronto para ser usado.

Evite certas doenças
Com dieta alimentar.
A Natureza tem meios
Para as mesmas evitar,
Pois prevenir é melhor
Do que se remediar.

Cada fruta dessas tem
Seu valor nutricional,
Fibras e sais minerais,
O poder do natural,
Carboidratos, vitaminas
Ferro, cálcio sem igual.

O ABACATE, pode crer
É fonte de energia,
Tem baixo colesterol
É verdade, todavia
Jamais causa malefício
Assim como se dizia.

O ABACAXI contém
Vitaminas A, B e C
Protege da infecção
Por substâncias conter,
Deixa a garganta saudável
Boa voz você vai ter.

ACEROLA é velha amiga
Rica em vitamina C,
Além do suco gostoso,
Também vai nos defender
Da indesejada gripe
Ela imuniza você.

BANANA, prata ou maçã,
De qualquer variedade
É uma fruta barata
E alimenta de verdade.
É bastante nutritiva
Tem no campo e na cidade.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE COLUNISTA FUBÂNICO

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Poeta cantador Jó Patriota (Jan/1929 – Out/1992)

Jó Patriota

Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma.

Eu nasci em Itapetim
Lugar onde o camponês
Nunca estudou matemática
Nunca aprendeu português
Mas sabe fazer um verso
Que Castro Alves não fez.

* * *

Maria Rafael dos Anjos Ferreira (Rafelzinha)

Quem quiser sentir saudade
Faça do jeito que eu fiz
Deixe seu torrão natal
Sem querer como eu não quis
Saia por necessidade
Que depois você me diz

Para fazer como eu fiz
Não precisa ter coragem
Depende da precisão
Fazer de tudo embalagem
Se subir num caminhão
Chorar durante a viagem

Foi de cortar coração
Na hora da despedida
Saí de onde nasci
Pra terra desconhecida
Por contraste a incerteza
De arrumar o pão da vida

Foi na hora da partida
Quem assistiu lamentava
Era bem de tardezinha
Uma chuva se formava
Para o lado do nascente
Ai era que eu chorava.

Quanto mais longe eu ficava
Mais a saudade crescia
Olhava tanto pra trás
Que o pescoço me doía
Pra ver se ainda avistava
A casa que eu residia

Era tão grande o meu pranto
Que Joãozinho se comovia
De vez em quando eu olhava
Me ajeitava, me pedia
Lelê não chore tanto
Nós vamos voltar um dia.

* * *

Espedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei não me formei
Porque meu pai não podia
Jesus filho de Maria
De mim se compadeceu
E como presente me deu
Um crânio com poesia.

* * *

Oliveira de Panelas

Por este espaço onde moro
Meu sonho é tão colorido
Que eu tenho a doida impressão
Que ele foi construído
Por várias tintas confusas
De um arco-íris mexido.

* * *

Chico Alves

A ema tem ligeireza
Seja no claro ou na luz
Possui asas mas não voa
É parente de avestruz
E pesa setecentos gramas
O ovo que ela produz.

* * *

Inácio da Catingueira

Tenho pena de deixar
A Serra da Catingueira
A Fazenda Bela Vista
A maior dessa ribeira
O Riacho do Poção,
As quebradas do Teixeira.

* * *

João Paraibano

Poesia uma das flores
Que só Deus beija a corola
Joia que a mão não segura
Se aprende sem escola
Imagem que a gente amarra
Com dez cordas de viola.

* * *

Valdir Teles

Minha mulher já brigou
Com minha própria cunhada,
Chamou a irmã safada
Porque me cumprimentou.
Inda ontem perguntou
Por que é que essa cadela,
Só vem na minha janela
Quando você se apresenta?
Eita mulher ciumenta
Essa que casei com ela!

* * *

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
Que você tá no começo,
Eu já tô perto do fim;
Tô perto de ficar longe
De quem tá perto de mim.

* * *

Assis Coimbra

Eu vou mandar construir
Cadeia para corrupto,
Pois pra mim é um insulto
Essa laia progredir.
E de lá só vão sair
Para o “roubo” devolver.
Depois eu torno prender,
Esse bando de safado,
Que muito já tem roubado,
Faça igual que eu quero ver.

* * *

MARCOS MAIRTON

O ADVOGADO, O DIABO E A BENGALA ENCANTADA

Meus amigos e amigas
O caso que eu vou contar
Ocorreu em Fortaleza
Na calçada de um bar:
Fingindo ser meu amigo
O diabo bebeu comigo
E depois não quis pagar.

Eu era advogado
E tinha uma mania
De segunda a quinta-feira
Trabalhava noite e dia
Mas não fazia segredo
Sexta parava mais cedo
E uma cerveja bebia.

Assim, numa sexta-feira
Estava anoitecendo
Eu saíra do trabalho
E estava no bar bebendo
Quando um sujeito chegou
Da mesa se aproximou
E foi logo me dizendo:

– Boa noite cidadão,
Posso me sentar aqui?
Pra ouvir sua conversa
E você também me ouvir?
Tomarmos uma cerveja
Comer um pouco que seja
Desse feijão com pequi?

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DESMANTELOS DE ZÉ LIMEIRA

Orlando Tejo e seu livro sobre a vida e a obra de Zé Limeira

* * *

Quem vem lá é Zé Limeira,
Cantô de força vulcânica,
Prodologicadamente
Cantô sem nenhuma pânica,
Só não pode apreciá-lo
Pessoa semvergonhânica.

*

Meu nome é José Limeira,
Cantô que não é pilhérico,
Mais já sofreu d’alguns males,
Foi atacado de histérico,
Chame logo a junta médica,
Faça o exame cadavérico.

*

Esse é Lourisvá Batista,
Que é Batista Lourisvá,
É filho da cobra preta,
Neto da cobra corá,
Tanto faz daqui pra ali ,
Como dali pra acolá

*

Às tantas da madrugada,
O vaqueiro do Prefeito
Corre alegre e satisfeito
Atrás da vaca deitada,
Deitada e bem apojada
Com a rabada pelo chão…
A desgraça de Sansão
Foi trair Pedro Primeiro…
O aboio do vaqueiro
Nas quebradas do Sertão

*

Frei Henrique de Coimbra,
Sacerdote sem preguiça,
Rezou a Primeira Missa
Na beira duma cacimba.
Um índio passou-lhe a pimba,
Ele não quis aceitá
E agora veve a berrá
Detrás dum pau de jureme…
O bom pescador não teme
As profundezas do mar

Frei Henrique descansou
Nas encosta da Bahia,
Depois fez a travissia
Pra chegá onde chegou,
Pegou a índia, champrou,
Ela não pôde falá,
Assou carne de jabá,
Misturou com queroseme…
O bom pescador não teme
As profundezas do má

A noite vinha saindo
Pru dentro da ventania,
Vi o rastro da cutia
Na minha rede dormindo,
A tremela foi caindo,
Gritei pelo meu ganzá,
Anum preto, anumará,
Só gosto de nega feme…
O bom pescador não teme
As profundezas do má

*

Minha mãe era católica
E meu pai era católico,
Ele romano apostólico,
Ela romana apostólica,
Tivero um dia uma cólica
Que chamam dor de barriga,
Vomitaro uma lumbriga
Do tamanho dum farol,
Tomaro Capivarol,
Diz a tradição antiga

*

Minha avó, mãe de meu pai,
Veia feme sertaneja,
Cantou no coro da Igreja,
O Major Dutra não cai,
Na beira do Paraguai
Vovó pegou uma briga,
Trouve mamãe na barriga,
Eu vim dentro da laringe,
Quage me dava uma impinge,
Diz a tradição antiga

*

Não sei onde fica esse tá de oceano,
Nem sei que pagode vem sê esse má…
Eu sei onde fica Teixeira e Tauá,
Que tem meus moleques vestido de pano…
A minha patroa é quem traça meus prano,
Cem culha de milho inda quero prantá,
Farinha, lugume, feijão e jabá,
Com mói de pimenta daquela bem braba,
Valei-me São Pedro, Limeira se acaba,
Cantando galope na beira do má.

*

O navi navega só
Como a muié nos espeio
Pru dentro do mar vermeio
Que sai lá no Moxotó
O poeta vive só.
A lua tem mais calô,
O jardim logo murchô,
Quage morri da patada…
Nos olhos da minha amada
Brilham estrelas de amor

*

Peço licença aos prugilos
Dos Quelés da juvenia
Dos tofus dos audiacos
Da Baixa da silencia
Do Genuino da Bribria
Do grau da grodofobia

*

Eu sou corisco pastando
No vergel da vantania
Oceano disdobrado
No véu da pilogamia
No dia trinta de maio
Pelei trinta papagaio
Santo Deus, Ave-Maria.

*

Heleno, que bicho é esse
Que tem fala de homem macho?
Parece um tatu quadrado
Cum cinturão no espinacho
É uma coisa tão pouca
Mas ninguém sabe se a boca
Fala pro riba ou pro baixo

*

Lá na Serra do Teixeira
Nasci, sendo bem criado
Na Alemanha os japonês
Já sabe lê um bucado
Conheço esse mundo inteiro
Fica tudo no estrangeiro
Do Teixeira do outro lado

*

Eu me chamo Zé Limeira
Cantadô que tem ciúme
Brisa que sopra da serra
Fera que chega do cume
Brigada só de peixeira
Mijo de moça sorteira
Faca de primeiro gume

*

Os Hemisférios do prado
As palaganas do mundo
Os prugis da Galiléla
Quelés do meditabundo
Filosomia Regente
Deus primeiro sem segundo

*

Canto repente no Norte
Arranco feijão no Sul
Toco fogo no paul
Não tenho medo da morte
Uma mulata bem forte
Uma novilha parida
Uma sala bem comprida
Um cangote, duas perna
Poço, cacimba e cisterna
Tenho saudade da vida

*

Viajou Nossa Senhora
Naquele passado dia,
Perto duma travissia
Descansou sem ter demora.
Cortou de pau uma tora
Debruçada sobre o vento.
Ali, naquele momento,
São José sartou do jegue,
Jesus passou-lhe um esbregue.
Diz o Novo Testamento.

*

Gritou Dom Pedro Primeiro
No tempo da monarquia:
Jesus, filho de Maria.
Trovão do mês de janeiro,
São Pedro sendo o porteiro
Da capela de Belém.
Thomé comendo xerém
Com sarapaté de figo.
Se eu não me casar contigo.
Não caso com mais ninguém.

PRA QUEM BEBE E PRA QUEM NÃO BEBE

Um folheto de José Pacheco

DOIS GLOSADORES: BARRA MANSA E TORCE BOLA

* * *

Barra Mansa

Fui um dos apaixonados
No vício da bebedeira
Muitas vezes na poeira
Dormi de pés espalhados
Dando milhões de cuidados
Aos que me eram leais
Pelas calçadas e cais
Exposto à chuva e ao vento
Por isso digo e sustento
Já bebi , não bebo mais.

Torce Bola

Tenhas a capacidade
De conheceres também
Que a tal bebida já vem
Da alta sociedade
Dizem que até o frade
Bebe que fica cabano
Se isto não for engano
De alguém que fala dele
Eu vou me juntar com ele
Bebo até lascar o cano.

Barra Mansa
 
É uma propensão feia
Injuriosa e horrenda
Um homem beber na venda
Cair na calçada alheia
Ou marchar para a cadeia
Na mão dos policiais
Gritam os meninos atrás:
– Segura, Chico, não caia!…
Eu que não gosto de vaia
Já bebi , não bebo mais.

Torce Bola

Até numa sentinela
Bebe-se ali tudo junto
Para vestir-se o defunto
E não pegar a mazela
As mulheres bebem dela
Também pra não causar dano
Depois que cosem o pano
Todos bebem da branquinha
No rezar da ladainha
Bebo até lascar o cano.

Barra Mansa
 
Vive um homem acreditado
Honesto e de confiança
Farto de perseverança
Por demais conceituado
Mas chega-lhe o triste fado
Com tentações infernais
Deixa sem crença e sem paz
Sem honradez, sem pudor
Deus me livre desse horror!
Já bebi , não bebo mais.

Torce Bola

Em qualquer reunião
De passatempo na vida
Pode faltar a comida
Porém, a bebida, não
Porque dentro do salão
É só quem brilha e faz plano
Diz um ao outro: – Fulano
Traz o vidro e corre a mão
Eu fico de prontidão
Bebo até lascar o cano.

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SEIS SONETOS DE BIU DE CRISANTO E UM FOLHETO SOBRE RUI BARBOSA

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Severino Cordeiro de Souza – Biu de Crisanto (1929-2000)

Viveu e morreu em São José do Egito, Pernambuco, terra de poetas e cantadores. Contemporâneo e conterrâneo de Rogaciano Leite, Louro do Pajeú, Cancão, Antônio Marinho, Dimas e Otacílio Batista, e Jó Patriota. A rua onde viveu chama-se BECO DO POETA. Chamado também o “poeta do beco”. Cedo perdeu tudo, inclusive as duas pernas. Morava num pequeno quarto que dava frente para o sol, para a seca e o sertão da Borborema.

* * *

NA BORBOREMA

O Sol desponta ruivo cor de gema,
Iluminando o pico majestoso,
Do gigantesco dorso sinuoso
Da tão acidentada Borborema.

No sopé da montanha geme a ema,
E embaixo o terreno pedregoso,
Ouve-se o canto ingênuo e harmonioso
Da inocente pernalta, a seriema.

Chove, troveja, e o vento forte agita,
A flora se sacode, a fauna grita,
Um raio irado desce e a penha abre.

Agora é tarde, o Sol rubro descamba,
E rodopiando como roda bamba
Apaga a luz detrás da Serra-Jabre.

* * *

SAUDADE SERTANEJA

A saudade que mais maltrata a gente,
Quando a gente se acha em terra alheia,
É ouvir um trovão para o nascente
Numa tarde de março, às quatro e meia.

A zoada do rio, a orla da corrente
Fazer lindos castelos de areia;
Uma nuvem cobrindo o sol poente
E uma serra pra cá da lua cheia.

Um vaqueiro aboiando sem maldade,
Com saudade do gado, e com saudade,
O gado urrando ao eco do vaqueiro;

O cantar estridente da seriema
E o cachimbo da velha Borborema
Nas manhãs invernosas de janeiro.

* * *

NO SERTÃO ANTIGO

Um moleque no corte assobiando,
Um cavalo pastando na ladeira,
Uma briga de bois na bagaceira,
E um bueiro malfeito “cachimbando”.

Um novilho pé-duro ruminando
Na sombra do oitão da bolandeira,
Um telhado coberto de poeira,
E um rebanho de ovelhas descansando.

Dois bois mansos crioulos atrelados,
Parecidos em tudo, emparelhados,
Vão puxando a almanjarra sem preguiça.

Enquanto várias campesinas belas
Aparecem cantando nas janelas
Duma casa de alpendre à tacaniça.

* * *

DÚVIDA

Nasci! De onde vim é que não sei,
Enfim também não sei para que vim,
Se vim para voltar para que fiquei
Neste intervalo de incerteza assim?

Não foi do pó fecundo que brotei,
Não sei quem tal missão me impôs.
O acaso não foi, já estudei…
Desta incumbência desconheço o fim.

Sou a metamorfose das moneras
Desagregadas nas primeiras eras,
Reunidas hoje nesta luta infinda.

Sou a passagem irreal da forma
Submetida aos desígnios da norma,
Do meu princípio não sei nada ainda.

* * *

PRESSÁGIO

No pé daquele outeiro fumarento
Onde uma ave horripilante ulula
Pressagiando um acontecimento,
Uma jovem “perdida” se estrangula.

Langues sanguíneos tingem o firmamento,
E um nevoeiro acinzentado ondula.
Por um lado do morro já cinzento
0 verde-oliva da ramagem azula.

Uma mulher pejada à fonte desce,
Subitamente o corpo reconhece
Cheia de dó a causa entrega ao bom Jesus.

E diz pedindo a Deus: Ah um aborto!
Se for pra ser sem sorte nasça morto
Este menino que vou dar à luz.

* * *

Um folheto da autoria de Crispiniano Neto

RUI BARBOSA

rui

Quero contar a história
Verdadeira e gloriosa
De um diplomata de peso
De carreira luminosa;
Um crânio cheio de graça,
O nosso gênio da raça,
O baiano Rui Barbosa.

Rui foi um líder político,
Deputado e senador,
Ministro por duas vezes,
Foi filólogo e escritor,
Tradutor e jornalista
Um consagrado jurista
E um gênio como orador!

Porém existe um detalhe
Nas muitas aptidões
Deste crânio brasileiro.
Que deixou tantas lições:
É seu lado DIPLOMATA,
Onde ele compôs a nata
Do concerto das nações!

Foi aí que Rui Barbosa
Consagrou-se de verdade,
Tornou-se a “Águia de Haia”
Com tal legitimidade
Que armado de mente e lábios
Tornou-se um dos “Sete Sábios”
Maiores da humanidade.

Seu tipo físico era frágil:
Quase anão na estatura.
Um metro e cinquenta e oito,
Setenta e dois  de cintura.
Corpo encurvado e franzino,
Fisicamente um menino
Mas um titã na cultura!

Só quarenta e oito quilos
De peso e de sapiência;
A fragilidade física
Escondendo a inteligência…
Mas provou aos seus carrascos
Que “é nos menores frascos
Que mora a melhor essência”!

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TRÊS MOTES BEM GLOSADOS NA BASE DO IMPROVISO

Poetas repentistas Acrizio de França e Antonio Costa glosando o mote

“Eu nunca deixei de crer
no poder do Criador”.

* * *

Poetas repentistas Hipolito Moura e Jonas Bezerra glosando o mote

“Sepultei as lembranças do passado,
não vou mais padecer por causa dela”

* * *

* * *

Poetas repentistas Louro Branco e Valdir Teles glosando o mote

“É melhor matar de faca,
do que matar desse jeito”.

SEIS MOTES BEM GLOSADOS E UM FOLHETO SOBRE RAPARIGA

Manuel  Xudu glosando o mote:

Quanto é grande o poder do criador.

Admiro o caju e a castanha
Nascem os dois pendurados num só cacho
Bem unidos, um em cima, o outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela extrai-se o azeite, o sumo, a banha,
Dele o suco pra o vinho e pra o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor,
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do criador!

* * *

Zé Cardoso glosando o mote:

Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Vi um casal na calçada
Ela com ele abraçado
Ele na boca colado
Ela na língua enganchada
Uma velha admirada
Dizia: “Vixe Maria!”
E com tristeza dizia:
“Eu nunca fiz desse jeito”
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

* * *

José Lucas de Barros, quando da morte do poeta Chico Motta, glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *
                                                
Zé de Cazuza glosando o mote:

Diante da providência
A ciência é mentirosa.

Vê-se as flores naturais,
Perfumando o ambiente,
Parecendo indiferente,
Doutras artificiais,
Umas cheirando demais,
E outras sem ser cheirosas,
Quando o homem faz as rosas
Fica faltando a essência,
Diante da providência
A ciência é mentirosa.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

A seca pintou de preto
As cores do meu Sertão

Um sertanejo não quer
Secar as tripas e os ossos
Pra viajar vende os troços
Cadeira, prato e colher
Chorando abraça a mulher
Dizendo não chore não
Quando acabar sequidão
Volto correndo eu prometo
A seca pintou de preto
As cores do meu Sertão.

* * *

Paulo Barja glosando o mote:

A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

No galope cavalgamos
criando nossa poesia
porém, nesse dia-a-dia
é nossa dor que cantamos;
muitas vezes trabalhamos
sem ganhar nenhum tostão,
enquanto muito ladrão
aumenta a própria fartura
– A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

O transporte anda pra trás,
teatro é abandonado
e o Banhado é vitimado
por crimes ambientais.
Já ninguém aguenta mais:
vão aprovar a extração
de areia em votação
no meio da noite escura?
– A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

Não dá pra aceitar de novo
essa velha ladainha:
distribuem a farinha
mas privatizam o ovo!
Há quem se lembre do povo
só na hora da eleição,
mas nossa reclamação
tanto bate até que fura:
– A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

* * *

Um folheto de J.Borges

A CHEGADA DA PROSTITUTA NO CÉU

Do rosto da poesia
eu tirei o santo véu
e pedi licença a ela
para tirar o chapéu
e escrever a chegada
da prostituta no céu…

Sabemos que a prostituta
é também um ser humano
que por uma iludição
fraqueza ou desengano
o seu viver é volúvel
sempre abraça ao engano…

Vive metida em orgia
e cheia de vaidade
é raro uma que trabalha
e usa honestidade
por isso fica odiada
perante a sociedade…

Todas as religiões
para ela escala uma pena
se o homem lhe abraça
a mulher casada condena
mas sabemos que Jesus
perdoou a Madalena…

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