DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO COM LAMPIÃO

Otacilio

Poeta repentista Otacílio Batista Patriota (Set/1923 – Ago/2003)

Otacílio Batista

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

Onildo Barbosa

Quando o dia vai embora
A tarde é quem sente a queixa
O portão da noite abre
A porta do dia fecha
A boca da noite engole
Os restos que o dia deixa.

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

* * *

Cego Aderaldo

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

* * *

Canhotinho

Quando era injusto o Brasil,
E aos negros se cativaram,
O choro dos filhos brancos
As mães pretas consolaram
E o leite dos filhos pretos,
Os filhos brancos mamaram.

* * *

Aldo Neves

Já ontem eu vi camponês
Botando os bois no arado
Passando no meu nariz
O cheiro de chão molhado
E a água tirando os ciscos
Qu’a seca tinha deixado.

Jamais destrua a floresta
Conserve-a intacta e ilesa
O sagui não vai achar
Resina que amole a presa
Quem fere um pau tá ferindo
O corpo do natureza.

* * *

Zé Adalberto

Não arquivo tristeza nem rancor,
Nem exponho meu próximo a episódios
O meu peito é blindado contra o ódio,
Mas é todo acessível pro amor.
Não consigo, sequer, mudar de cor
Quando sou ofendido por alguém.
Meu silencio é a voz que vai além,
Eu já mais me permito revidar…
É perdido a vingança me atiçar,
Não consigo ter raiva de ninguém.

* * *

Pinto do Monteiro

Ando com uma bengala
Com ela escoro uma perna
Pra não cair em buraco
Nem desabar em caverna
Sou o dono da bengala
Mas ela é quem me governa.

* * *

Sebastião Dias

Pra você segunda-feira
Eu servirei de correio
Quem tiver cartas escreva
Que levo um malote cheio
Com lágrimas de quem não foi
E lembranças de quem não veio.

*

Foi à forca Tiradentes
com a maior paciência;
seu sangue se derramava,
e a terra, por inocência,
bebia o sangue de um filho
que quis dar-lhe a independência.

* * *

Welton Melo

No silêncio da noite é que o poeta
Se levanta da cama e sai ao léu
Toma um copo de água e só se aquieta
Quando passa o que sente pra um papel
Muito mais que capricho ou vaidade
O poema que cria é na verdade
Um descanso pra o corpo e sua mente
Onde as rimas lhe servem de alento
Ser poeta é cantar o sentimento
De quem sente e não canta como a gente.

* * *

Um folheto de José Pacheco

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU

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Lampião foi no inferno
Ao depois no céu chegou
São Pedro estava na porta
Lampião então falou:
– Meu velho não tenha medo
Me diga quem é São Pedro
E logo o rifle puxou

São Pedro desconfiado
Perguntou ao valentão
Quem é você meu amigo
Que anda com este rojão?
Virgulino respondeu:
– Se não sabe quem sou eu
Vou dizer: sou Lampião.

São Pedro se estremeceu
Quase que perdeu o tino
Sabendo que Lampião
Era um terrível assassino
Respondeu balbuciando
O senhor… está… falando…
Com… São Pedro… Virgulino!

Faça o favor abra esta porta
Quero falar com o senhor
Um momento meu amigo
Disse o santo faz favor
Esperar aqui um pouquinho
Para olhar o pergaminho
Que é ordem do Criador

Se você amou o próximo
De todo o seu coração
O seu nome está escrito
No livro da salvação
Porém se foi um tirano
Meu amigo não lhe engano
Por aqui não fica não

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SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LENDA

João-Paraibano-

O saudoso poeta cantador João Paraibano, que encantou-se aos 61 anos de idade em setembro de 2014

* * *

João Paraibano

Branca, preta, pobre ou rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Lourival Batista, o rei do trocadilho

É muito triste ser pobre
Pra mim é uma mal perene
Trocando o “p” pelo “n”
É muito alegre ser nobre
Sendo pelo “c” é cobre
Cobre figurado é ouro
Botando o “t” fica touro
Como a carne e vendo a pele
O “T” sem o traço é “L”
Termino só sendo “Louro”!

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Acho lindo um bonito vagalume
Reluzindo sua luz na escuridão
Um luzidio e pomposo alazão
Quando trota exibindo seu negrume
Como é lindo os peixinhos em cardume
Se unindo pra escapar do predador
Não se imita o “rasante” de um condor
Nem o charme de uma bela “margarida”
Isso tudo pra mostra na nossa vida
Quanto é grande o poder do Criador!!!

* * *

Geraldo Gonçalves

Para quem nasce poeta
versejar é um lazer,
sinto bastante prazer
obedecendo esta meta.
No repente sou atleta,
meu verso é uma beleza,
componho com singeleza,
rimo porque acho bom,
a poesia é um dom
dado pela natureza.

* * *

Dudu Moraes

Não é que meu coração
Não consiga amar ninguém
É que este pobre indefeso
De ingratidões foi refém
De tanto levar pedrada
Tornou-se pedra também!

* * *

Diniz Vitorino

Nós temos por certa a morte,
mas ninguém deseja tê-la…
Quando morre uma criança,
o pai lamenta em perdê-la,
mas Jesus, todo de branco,
abre o céu pra recebê-la.

* * *

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva – LENDA DO CAIPORA 

A humana criatura
se pergunta insatisfeita:
Como uma coisa existe
sem nunca ter sido feita? –
Quem prega não prova nada
quem escuta não aceita.

Diz a gênese mosaica
que Deus Pai Onipotente
disse: “Faça-se a luz”
e a luz obediente
do atro abismo do nada
surgiu repentinamente.

Assim também são as lendas
as vezes surgem do nada
ou como reminiscência
duma cultura importada
que sempre sensibilizam
gente não civilizada.

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DOIS MOTES BEM GLOSADOS E UM FOLHETO DE PROEZAS

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Raimundo Caetano glosando um mote da autoria de Dilson Pinheiro:

No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

É assim lá na terra sertaneja
Bicho e gente sofrendo a mesma mágoa
No olhar do vaqueiro sobra água
Mas a bomba celeste não despeja
Quem aboia e campeia não deseja
Ver o gado com sede o ano inteiro
Nem o gado quer ver seu companheiro
Em um rio de lágrimas sufocado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

No sertão muitos sofrem sem motivo
E eu não sei se merece sofrer tanto
Falta chuva no céu sobra no pranto
De quem cuida do gado inofensivo
O vaqueiro agradece ainda estar vivo
Personagem de um drama costumeiro
Vendo o sol afastar o nevoeiro
Alvejar criação, pessoa e prado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

O trovão com a voz estrepitosa
Nas encostas do céu se locomove
O relâmpago aparece mais não chove
Que irrigue o pistilo de uma rosa
A promessa de chuva é enganosa
Só o choro do homem é verdadeiro
Quem mais sente é o fazendeiro
Vendo o gado sedento e castigado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

* * *

Silvino Pirauá de Lima glosando o mote:

“E tudo vem a ser nada”

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que ideia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive até de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele tanto moureja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam tanto dinheiro,
E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.

Honra, grandezas, brasões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discussões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.

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UMA DUPLA DE EMBOLADORES E UM POEMA DE VINICIUS GREGÓRIO

Peneira e Sonhador, dois artistas populares nordestinos ganhando a vida e exibindo a arte do improviso nas ruas de São Paulo.

* * *

* * *

O MATUTO E A INTERNET – Vinicius Gregório

Zé de Dona Quiterinha
Era um cabra amatutado
As viagens que ele tinha
Restringiam-se ao roçado
Cabra forte de coragem
Eu guardava a sua imagem
Dos tempos que longe vão
Falava errado talvez
Porque pobre não tem vez
Nem tempo pra educação.

Fazia mais de seis anos
Que eu não tinha visto Zé
Foi então que fiz os planos
De vê-lo e com muita fé
Parti para o meu sertão
Na minha imaginação
Lembrei de Zé no passado
Cabra matuto de pia
Eu nunca imaginaria
Que José tinha mudado.

A viagem foi ligeira
Cheguei aqui à tardinha
E fui em toda carreira
Pra casa de Quiterinha
Chamei mas ninguém ouviu
Chamei de novo saiu
Quitera e sua bondade
Que me abraçou dando um laço
Matando num só abraço
Seis anos de saudade.

Quitéria foi me falando
Que Zé tava no roçado
Que logo ia voltar
Depois de trancar o gado
E até ai tudo igual
Dona Quitéria normal
Zé trabalhando na roça
Fiquei ali como estava
Quando eu menos esperava
Escuto aquela voz grossa.

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MESTRES E MESTRAS DO REPENTE

Mocinha de Passira e Valdir Teles improvisando com o mote:

Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer de recordar

* * *

Roxinha da Bahia e José Gustavo em desafio:

Roxinha da Bahia

Senhor Gustavo sou neta
Do Roxinho da Bahia,
Como cantor em seu tempo,
Foi dos melhores que havia,
Faleceu e dele herdei
Dom, agrado e simpatia.

José Gustavo

Ouvi dizer que Roxinho
Foi bom cantador, outrora,
Se sua cova se abrisse
E ele aparecesse agora,
Eu tinha menos receio
Do que cantar com a senhora.

Roxinha da Bahia

Tenha remendo ou não tenha,
Na peleja perca ou ganhe,
Aperte os botões da calça,
Brinque, prose e não se acanhe,
Que eu hoje canto até missa
Se achar quem me acompanhe.

José Gustavo

A senhora hoje faz tudo,
Porque está entre os seus,
Eu me humilho como Jó
O poeta dos hebreus,
Porque só tenho por mim,
Viola, garganta e Deus.

Roxinha da Bahia

Ainda você estando
Dos anjos arrodeado,
São Miguel de espada em punho,
Santo de todos os lado,
Eu dava-lhe um chá de pisa
Que você está precisado.

José Gustavo

Dona Roxinha eu lhe aviso
Quem luta contra o José,
Tem ânsia, dor de barriga,
Fica sem ânimo e fé,
Cai o queixo, entorta a língua,
Perde o nariz, seca o pé.

Roxinha da Bahia

Eu zangada subo pedra
Veloz que só lagartixa,
Pego onça pela cauda,
E tiro o couro da bicha,
Derreto negro no tacho,
Tiro a pele e faço lixa.

José Gustavo

Roxa, tu derrete outro,
Não é um igual a eu,
Porque para derreter-me,
Mulher inda não nasceu,
Se nasceu com esse plano,
Deu-lhe a leseira e morreu.

Roxinha da Bahia

Cantor pra cantar comigo,
Precisa ter teoria,
Conhecer aritmética,
Estudar filosofia,
Discriminar consciente
Gramática e geografia.

José Gustavo

Eu garanto que a senhora
Não analisa gramática,
Que é um livro teórico,
De certeza matemática
Não é pra um burro que apenas
Come capim pela prática.

* * *

Severino da Quixaba

Tem quatro coisas no mundo
Que atormentam um cristão:
Uma casa que goteja,
E um menino chorão,
Uma mulher ciumenta
E um cavalo tanjão.
Mas o cavalo se troca,
A casa, a gente reteia,
O menino se acalanta,
Na mulher se mete a peia.

* * *

Zé da Prata

O bicho que mata o homem
Mora debaixo da saia.
Tem asa que nem morcego,
Esporão que nem arraia,
E uma brecha no meio,
Onde a madeira trabaia.

* * *

Suriel Moisés Ribeiro

O meu verso é água pura
Correndo pelo lajedo
É semente de arvoredo
Brotando na terra dura
É fruta doce madura
No pomar da poesia
É o sopro da ventania
Varrendo a terra escarpada
É noite toda estrelada
E o sol no raiar do dia.

DOIS GRANDES POETAS REPENTISTAS NORDESTINOS E UM FOLHETO MEDICINAL

Os poetas Otacílio Batista e Diniz Vitorino improvisando em Martelo Agalopado, numa peleja memorável que retrata muito bem a genialidade do cantador nordestino:

* * *

Um folheto de José Quaresma Parnaíba

O PODER DAS FRUTAS

Seu sistema imunológico
Precisa ser reforçado
E a nossa mãe Natureza
Tem um estoque sagrado,
De vitaminas e sais,
Pronto para ser usado.

Evite certas doenças
Com dieta alimentar.
A Natureza tem meios
Para as mesmas evitar,
Pois prevenir é melhor
Do que se remediar.

Cada fruta dessas tem
Seu valor nutricional,
Fibras e sais minerais,
O poder do natural,
Carboidratos, vitaminas
Ferro, cálcio sem igual.

O ABACATE, pode crer
É fonte de energia,
Tem baixo colesterol
É verdade, todavia
Jamais causa malefício
Assim como se dizia.

O ABACAXI contém
Vitaminas A, B e C
Protege da infecção
Por substâncias conter,
Deixa a garganta saudável
Boa voz você vai ter.

ACEROLA é velha amiga
Rica em vitamina C,
Além do suco gostoso,
Também vai nos defender
Da indesejada gripe
Ela imuniza você.

BANANA, prata ou maçã,
De qualquer variedade
É uma fruta barata
E alimenta de verdade.
É bastante nutritiva
Tem no campo e na cidade.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE COLUNISTA FUBÂNICO

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Poeta cantador Jó Patriota (Jan/1929 – Out/1992)

Jó Patriota

Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma.

Eu nasci em Itapetim
Lugar onde o camponês
Nunca estudou matemática
Nunca aprendeu português
Mas sabe fazer um verso
Que Castro Alves não fez.

* * *

Maria Rafael dos Anjos Ferreira (Rafelzinha)

Quem quiser sentir saudade
Faça do jeito que eu fiz
Deixe seu torrão natal
Sem querer como eu não quis
Saia por necessidade
Que depois você me diz

Para fazer como eu fiz
Não precisa ter coragem
Depende da precisão
Fazer de tudo embalagem
Se subir num caminhão
Chorar durante a viagem

Foi de cortar coração
Na hora da despedida
Saí de onde nasci
Pra terra desconhecida
Por contraste a incerteza
De arrumar o pão da vida

Foi na hora da partida
Quem assistiu lamentava
Era bem de tardezinha
Uma chuva se formava
Para o lado do nascente
Ai era que eu chorava.

Quanto mais longe eu ficava
Mais a saudade crescia
Olhava tanto pra trás
Que o pescoço me doía
Pra ver se ainda avistava
A casa que eu residia

Era tão grande o meu pranto
Que Joãozinho se comovia
De vez em quando eu olhava
Me ajeitava, me pedia
Lelê não chore tanto
Nós vamos voltar um dia.

* * *

Espedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei não me formei
Porque meu pai não podia
Jesus filho de Maria
De mim se compadeceu
E como presente me deu
Um crânio com poesia.

* * *

Oliveira de Panelas

Por este espaço onde moro
Meu sonho é tão colorido
Que eu tenho a doida impressão
Que ele foi construído
Por várias tintas confusas
De um arco-íris mexido.

* * *

Chico Alves

A ema tem ligeireza
Seja no claro ou na luz
Possui asas mas não voa
É parente de avestruz
E pesa setecentos gramas
O ovo que ela produz.

* * *

Inácio da Catingueira

Tenho pena de deixar
A Serra da Catingueira
A Fazenda Bela Vista
A maior dessa ribeira
O Riacho do Poção,
As quebradas do Teixeira.

* * *

João Paraibano

Poesia uma das flores
Que só Deus beija a corola
Joia que a mão não segura
Se aprende sem escola
Imagem que a gente amarra
Com dez cordas de viola.

* * *

Valdir Teles

Minha mulher já brigou
Com minha própria cunhada,
Chamou a irmã safada
Porque me cumprimentou.
Inda ontem perguntou
Por que é que essa cadela,
Só vem na minha janela
Quando você se apresenta?
Eita mulher ciumenta
Essa que casei com ela!

* * *

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
Que você tá no começo,
Eu já tô perto do fim;
Tô perto de ficar longe
De quem tá perto de mim.

* * *

Assis Coimbra

Eu vou mandar construir
Cadeia para corrupto,
Pois pra mim é um insulto
Essa laia progredir.
E de lá só vão sair
Para o “roubo” devolver.
Depois eu torno prender,
Esse bando de safado,
Que muito já tem roubado,
Faça igual que eu quero ver.

* * *

MARCOS MAIRTON

O ADVOGADO, O DIABO E A BENGALA ENCANTADA

Meus amigos e amigas
O caso que eu vou contar
Ocorreu em Fortaleza
Na calçada de um bar:
Fingindo ser meu amigo
O diabo bebeu comigo
E depois não quis pagar.

Eu era advogado
E tinha uma mania
De segunda a quinta-feira
Trabalhava noite e dia
Mas não fazia segredo
Sexta parava mais cedo
E uma cerveja bebia.

Assim, numa sexta-feira
Estava anoitecendo
Eu saíra do trabalho
E estava no bar bebendo
Quando um sujeito chegou
Da mesa se aproximou
E foi logo me dizendo:

– Boa noite cidadão,
Posso me sentar aqui?
Pra ouvir sua conversa
E você também me ouvir?
Tomarmos uma cerveja
Comer um pouco que seja
Desse feijão com pequi?

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DESMANTELOS DE ZÉ LIMEIRA

Orlando Tejo e seu livro sobre a vida e a obra de Zé Limeira

* * *

Quem vem lá é Zé Limeira,
Cantô de força vulcânica,
Prodologicadamente
Cantô sem nenhuma pânica,
Só não pode apreciá-lo
Pessoa semvergonhânica.

*

Meu nome é José Limeira,
Cantô que não é pilhérico,
Mais já sofreu d’alguns males,
Foi atacado de histérico,
Chame logo a junta médica,
Faça o exame cadavérico.

*

Esse é Lourisvá Batista,
Que é Batista Lourisvá,
É filho da cobra preta,
Neto da cobra corá,
Tanto faz daqui pra ali ,
Como dali pra acolá

*

Às tantas da madrugada,
O vaqueiro do Prefeito
Corre alegre e satisfeito
Atrás da vaca deitada,
Deitada e bem apojada
Com a rabada pelo chão…
A desgraça de Sansão
Foi trair Pedro Primeiro…
O aboio do vaqueiro
Nas quebradas do Sertão

*

Frei Henrique de Coimbra,
Sacerdote sem preguiça,
Rezou a Primeira Missa
Na beira duma cacimba.
Um índio passou-lhe a pimba,
Ele não quis aceitá
E agora veve a berrá
Detrás dum pau de jureme…
O bom pescador não teme
As profundezas do mar

Frei Henrique descansou
Nas encosta da Bahia,
Depois fez a travissia
Pra chegá onde chegou,
Pegou a índia, champrou,
Ela não pôde falá,
Assou carne de jabá,
Misturou com queroseme…
O bom pescador não teme
As profundezas do má

A noite vinha saindo
Pru dentro da ventania,
Vi o rastro da cutia
Na minha rede dormindo,
A tremela foi caindo,
Gritei pelo meu ganzá,
Anum preto, anumará,
Só gosto de nega feme…
O bom pescador não teme
As profundezas do má

*

Minha mãe era católica
E meu pai era católico,
Ele romano apostólico,
Ela romana apostólica,
Tivero um dia uma cólica
Que chamam dor de barriga,
Vomitaro uma lumbriga
Do tamanho dum farol,
Tomaro Capivarol,
Diz a tradição antiga

*

Minha avó, mãe de meu pai,
Veia feme sertaneja,
Cantou no coro da Igreja,
O Major Dutra não cai,
Na beira do Paraguai
Vovó pegou uma briga,
Trouve mamãe na barriga,
Eu vim dentro da laringe,
Quage me dava uma impinge,
Diz a tradição antiga

*

Não sei onde fica esse tá de oceano,
Nem sei que pagode vem sê esse má…
Eu sei onde fica Teixeira e Tauá,
Que tem meus moleques vestido de pano…
A minha patroa é quem traça meus prano,
Cem culha de milho inda quero prantá,
Farinha, lugume, feijão e jabá,
Com mói de pimenta daquela bem braba,
Valei-me São Pedro, Limeira se acaba,
Cantando galope na beira do má.

*

O navi navega só
Como a muié nos espeio
Pru dentro do mar vermeio
Que sai lá no Moxotó
O poeta vive só.
A lua tem mais calô,
O jardim logo murchô,
Quage morri da patada…
Nos olhos da minha amada
Brilham estrelas de amor

*

Peço licença aos prugilos
Dos Quelés da juvenia
Dos tofus dos audiacos
Da Baixa da silencia
Do Genuino da Bribria
Do grau da grodofobia

*

Eu sou corisco pastando
No vergel da vantania
Oceano disdobrado
No véu da pilogamia
No dia trinta de maio
Pelei trinta papagaio
Santo Deus, Ave-Maria.

*

Heleno, que bicho é esse
Que tem fala de homem macho?
Parece um tatu quadrado
Cum cinturão no espinacho
É uma coisa tão pouca
Mas ninguém sabe se a boca
Fala pro riba ou pro baixo

*

Lá na Serra do Teixeira
Nasci, sendo bem criado
Na Alemanha os japonês
Já sabe lê um bucado
Conheço esse mundo inteiro
Fica tudo no estrangeiro
Do Teixeira do outro lado

*

Eu me chamo Zé Limeira
Cantadô que tem ciúme
Brisa que sopra da serra
Fera que chega do cume
Brigada só de peixeira
Mijo de moça sorteira
Faca de primeiro gume

*

Os Hemisférios do prado
As palaganas do mundo
Os prugis da Galiléla
Quelés do meditabundo
Filosomia Regente
Deus primeiro sem segundo

*

Canto repente no Norte
Arranco feijão no Sul
Toco fogo no paul
Não tenho medo da morte
Uma mulata bem forte
Uma novilha parida
Uma sala bem comprida
Um cangote, duas perna
Poço, cacimba e cisterna
Tenho saudade da vida

*

Viajou Nossa Senhora
Naquele passado dia,
Perto duma travissia
Descansou sem ter demora.
Cortou de pau uma tora
Debruçada sobre o vento.
Ali, naquele momento,
São José sartou do jegue,
Jesus passou-lhe um esbregue.
Diz o Novo Testamento.

*

Gritou Dom Pedro Primeiro
No tempo da monarquia:
Jesus, filho de Maria.
Trovão do mês de janeiro,
São Pedro sendo o porteiro
Da capela de Belém.
Thomé comendo xerém
Com sarapaté de figo.
Se eu não me casar contigo.
Não caso com mais ninguém.

PRA QUEM BEBE E PRA QUEM NÃO BEBE

Um folheto de José Pacheco

DOIS GLOSADORES: BARRA MANSA E TORCE BOLA

* * *

Barra Mansa

Fui um dos apaixonados
No vício da bebedeira
Muitas vezes na poeira
Dormi de pés espalhados
Dando milhões de cuidados
Aos que me eram leais
Pelas calçadas e cais
Exposto à chuva e ao vento
Por isso digo e sustento
Já bebi , não bebo mais.

Torce Bola

Tenhas a capacidade
De conheceres também
Que a tal bebida já vem
Da alta sociedade
Dizem que até o frade
Bebe que fica cabano
Se isto não for engano
De alguém que fala dele
Eu vou me juntar com ele
Bebo até lascar o cano.

Barra Mansa
 
É uma propensão feia
Injuriosa e horrenda
Um homem beber na venda
Cair na calçada alheia
Ou marchar para a cadeia
Na mão dos policiais
Gritam os meninos atrás:
– Segura, Chico, não caia!…
Eu que não gosto de vaia
Já bebi , não bebo mais.

Torce Bola

Até numa sentinela
Bebe-se ali tudo junto
Para vestir-se o defunto
E não pegar a mazela
As mulheres bebem dela
Também pra não causar dano
Depois que cosem o pano
Todos bebem da branquinha
No rezar da ladainha
Bebo até lascar o cano.

Barra Mansa
 
Vive um homem acreditado
Honesto e de confiança
Farto de perseverança
Por demais conceituado
Mas chega-lhe o triste fado
Com tentações infernais
Deixa sem crença e sem paz
Sem honradez, sem pudor
Deus me livre desse horror!
Já bebi , não bebo mais.

Torce Bola

Em qualquer reunião
De passatempo na vida
Pode faltar a comida
Porém, a bebida, não
Porque dentro do salão
É só quem brilha e faz plano
Diz um ao outro: – Fulano
Traz o vidro e corre a mão
Eu fico de prontidão
Bebo até lascar o cano.

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SEIS SONETOS DE BIU DE CRISANTO E UM FOLHETO SOBRE RUI BARBOSA

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Severino Cordeiro de Souza – Biu de Crisanto (1929-2000)

Viveu e morreu em São José do Egito, Pernambuco, terra de poetas e cantadores. Contemporâneo e conterrâneo de Rogaciano Leite, Louro do Pajeú, Cancão, Antônio Marinho, Dimas e Otacílio Batista, e Jó Patriota. A rua onde viveu chama-se BECO DO POETA. Chamado também o “poeta do beco”. Cedo perdeu tudo, inclusive as duas pernas. Morava num pequeno quarto que dava frente para o sol, para a seca e o sertão da Borborema.

* * *

NA BORBOREMA

O Sol desponta ruivo cor de gema,
Iluminando o pico majestoso,
Do gigantesco dorso sinuoso
Da tão acidentada Borborema.

No sopé da montanha geme a ema,
E embaixo o terreno pedregoso,
Ouve-se o canto ingênuo e harmonioso
Da inocente pernalta, a seriema.

Chove, troveja, e o vento forte agita,
A flora se sacode, a fauna grita,
Um raio irado desce e a penha abre.

Agora é tarde, o Sol rubro descamba,
E rodopiando como roda bamba
Apaga a luz detrás da Serra-Jabre.

* * *

SAUDADE SERTANEJA

A saudade que mais maltrata a gente,
Quando a gente se acha em terra alheia,
É ouvir um trovão para o nascente
Numa tarde de março, às quatro e meia.

A zoada do rio, a orla da corrente
Fazer lindos castelos de areia;
Uma nuvem cobrindo o sol poente
E uma serra pra cá da lua cheia.

Um vaqueiro aboiando sem maldade,
Com saudade do gado, e com saudade,
O gado urrando ao eco do vaqueiro;

O cantar estridente da seriema
E o cachimbo da velha Borborema
Nas manhãs invernosas de janeiro.

* * *

NO SERTÃO ANTIGO

Um moleque no corte assobiando,
Um cavalo pastando na ladeira,
Uma briga de bois na bagaceira,
E um bueiro malfeito “cachimbando”.

Um novilho pé-duro ruminando
Na sombra do oitão da bolandeira,
Um telhado coberto de poeira,
E um rebanho de ovelhas descansando.

Dois bois mansos crioulos atrelados,
Parecidos em tudo, emparelhados,
Vão puxando a almanjarra sem preguiça.

Enquanto várias campesinas belas
Aparecem cantando nas janelas
Duma casa de alpendre à tacaniça.

* * *

DÚVIDA

Nasci! De onde vim é que não sei,
Enfim também não sei para que vim,
Se vim para voltar para que fiquei
Neste intervalo de incerteza assim?

Não foi do pó fecundo que brotei,
Não sei quem tal missão me impôs.
O acaso não foi, já estudei…
Desta incumbência desconheço o fim.

Sou a metamorfose das moneras
Desagregadas nas primeiras eras,
Reunidas hoje nesta luta infinda.

Sou a passagem irreal da forma
Submetida aos desígnios da norma,
Do meu princípio não sei nada ainda.

* * *

PRESSÁGIO

No pé daquele outeiro fumarento
Onde uma ave horripilante ulula
Pressagiando um acontecimento,
Uma jovem “perdida” se estrangula.

Langues sanguíneos tingem o firmamento,
E um nevoeiro acinzentado ondula.
Por um lado do morro já cinzento
0 verde-oliva da ramagem azula.

Uma mulher pejada à fonte desce,
Subitamente o corpo reconhece
Cheia de dó a causa entrega ao bom Jesus.

E diz pedindo a Deus: Ah um aborto!
Se for pra ser sem sorte nasça morto
Este menino que vou dar à luz.

* * *

Um folheto da autoria de Crispiniano Neto

RUI BARBOSA

rui

Quero contar a história
Verdadeira e gloriosa
De um diplomata de peso
De carreira luminosa;
Um crânio cheio de graça,
O nosso gênio da raça,
O baiano Rui Barbosa.

Rui foi um líder político,
Deputado e senador,
Ministro por duas vezes,
Foi filólogo e escritor,
Tradutor e jornalista
Um consagrado jurista
E um gênio como orador!

Porém existe um detalhe
Nas muitas aptidões
Deste crânio brasileiro.
Que deixou tantas lições:
É seu lado DIPLOMATA,
Onde ele compôs a nata
Do concerto das nações!

Foi aí que Rui Barbosa
Consagrou-se de verdade,
Tornou-se a “Águia de Haia”
Com tal legitimidade
Que armado de mente e lábios
Tornou-se um dos “Sete Sábios”
Maiores da humanidade.

Seu tipo físico era frágil:
Quase anão na estatura.
Um metro e cinquenta e oito,
Setenta e dois  de cintura.
Corpo encurvado e franzino,
Fisicamente um menino
Mas um titã na cultura!

Só quarenta e oito quilos
De peso e de sapiência;
A fragilidade física
Escondendo a inteligência…
Mas provou aos seus carrascos
Que “é nos menores frascos
Que mora a melhor essência”!

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TRÊS MOTES BEM GLOSADOS NA BASE DO IMPROVISO

Poetas repentistas Acrizio de França e Antonio Costa glosando o mote

“Eu nunca deixei de crer
no poder do Criador”.

* * *

Poetas repentistas Hipolito Moura e Jonas Bezerra glosando o mote

“Sepultei as lembranças do passado,
não vou mais padecer por causa dela”

* * *

* * *

Poetas repentistas Louro Branco e Valdir Teles glosando o mote

“É melhor matar de faca,
do que matar desse jeito”.

SEIS MOTES BEM GLOSADOS E UM FOLHETO SOBRE RAPARIGA

Manuel  Xudu glosando o mote:

Quanto é grande o poder do criador.

Admiro o caju e a castanha
Nascem os dois pendurados num só cacho
Bem unidos, um em cima, o outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela extrai-se o azeite, o sumo, a banha,
Dele o suco pra o vinho e pra o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor,
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do criador!

* * *

Zé Cardoso glosando o mote:

Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Vi um casal na calçada
Ela com ele abraçado
Ele na boca colado
Ela na língua enganchada
Uma velha admirada
Dizia: “Vixe Maria!”
E com tristeza dizia:
“Eu nunca fiz desse jeito”
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

* * *

José Lucas de Barros, quando da morte do poeta Chico Motta, glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *
                                                
Zé de Cazuza glosando o mote:

Diante da providência
A ciência é mentirosa.

Vê-se as flores naturais,
Perfumando o ambiente,
Parecendo indiferente,
Doutras artificiais,
Umas cheirando demais,
E outras sem ser cheirosas,
Quando o homem faz as rosas
Fica faltando a essência,
Diante da providência
A ciência é mentirosa.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

A seca pintou de preto
As cores do meu Sertão

Um sertanejo não quer
Secar as tripas e os ossos
Pra viajar vende os troços
Cadeira, prato e colher
Chorando abraça a mulher
Dizendo não chore não
Quando acabar sequidão
Volto correndo eu prometo
A seca pintou de preto
As cores do meu Sertão.

* * *

Paulo Barja glosando o mote:

A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

No galope cavalgamos
criando nossa poesia
porém, nesse dia-a-dia
é nossa dor que cantamos;
muitas vezes trabalhamos
sem ganhar nenhum tostão,
enquanto muito ladrão
aumenta a própria fartura
– A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

O transporte anda pra trás,
teatro é abandonado
e o Banhado é vitimado
por crimes ambientais.
Já ninguém aguenta mais:
vão aprovar a extração
de areia em votação
no meio da noite escura?
– A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

Não dá pra aceitar de novo
essa velha ladainha:
distribuem a farinha
mas privatizam o ovo!
Há quem se lembre do povo
só na hora da eleição,
mas nossa reclamação
tanto bate até que fura:
– A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

* * *

Um folheto de J.Borges

A CHEGADA DA PROSTITUTA NO CÉU

Do rosto da poesia
eu tirei o santo véu
e pedi licença a ela
para tirar o chapéu
e escrever a chegada
da prostituta no céu…

Sabemos que a prostituta
é também um ser humano
que por uma iludição
fraqueza ou desengano
o seu viver é volúvel
sempre abraça ao engano…

Vive metida em orgia
e cheia de vaidade
é raro uma que trabalha
e usa honestidade
por isso fica odiada
perante a sociedade…

Todas as religiões
para ela escala uma pena
se o homem lhe abraça
a mulher casada condena
mas sabemos que Jesus
perdoou a Madalena…

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OITO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE POLÍTICA

VILA NOVA

Ivanildo Vilanova, genial poeta cantador nascido em Caruaru, em outubro de 1945

Ivanildo Vilanova

É o céu uma abóboda aureolada
Rodeada de gases venenosos
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada
Galáxia também hidrogenada
Como é lindo o espaço azul -turquesa
E o sol fulgurante tocha acesa
Flamejando sem pausa e sem escala
Quem de nós poderia apagá-la
Só o santo doutor da natureza.

* * *

Zé Limeira

E sou Zé Limeira, caboclo do mato
Capando carneiro no cerco do bode
Não gosto de feme que vai no pagode
O gato fareja no rastro do rato
Carcaça de besta, suvaco de pato
Jumento, raposa, cancão e preá
Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará
Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão
Dom Pedro Segundo de sela e gibão
Cantando galope na beira do mar.

* * *

Cicinho Gomes

Eu admiro o canção
Na cabeça de uma estaca;
Olha pra baixo e pra cima
Acuando a jararaca
Como quem diz : “Ó meu Deus!
Ah se eu tivesse uma faca!

Eu admiro demais
É uma gata parir,
Pegar o filho na boca,
Levar pra onde quer ir.
Nem fere o filho no dente,
Nem deixa o gato cair.

* * *

Dimas Batista

Alguém já me perguntou:
o que são mesmo os poetas?
Eu respondi: são crianças
dessas rebeldes, inquietas,
que juntam as dores do mundo
às suas dores secretas.

Nossa vida é como um rio
no declive da descida,
as águas são a saudade
duma esperança perdida,
e a vaidade é a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Raimundo Nonato

Para um mundo diferente,
nossas mentes estão vindo,
quem amanhece com ela,
tem que amanhecer sorrindo,
e a poesia não sente,
mas deixa a gente sentindo.

Ela aguça o meu QI,
que dá mais um incentivo,
nessa tarde deu um show,
pra gente cantar ao vivo,
Eu passo até sem dinheiro
mas sem poesia eu não vivo.

* * *

Moacir Laurentino

Numa das noites mais belas
dos nossos interiores,
para um encontro de sonhos,
unem-se dois cantadores,
iguais a dois jardineiros
numa colheita de flores.

* * *

Antônio Batista Guedes

Longe do mar de Netuno,
O cocheiro Faetonte
Percorria o horizonte
No seu coche de tribuno,
De Anfitrite e de Juno,
Tinha ele a proteção!
Apoio, tendo na mão
Um livro de poesia,
Me ensinou com galhardia(
Cantar dez pés em Quadrão!

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Coruja dá gargalhada
Na casa que não tem dono
A borboleta azulada
Da cor de um papel carbono
Faz ventilador das asas
Pra rosa pegar no sono.

A juventude não dá
Direito a segunda via
Jesus pintou meus cabelos
No final da boemia
Mas na hora de pintar
Esqueceu de perguntar
Qual era a cor que eu queria.

* * *

Um folheto de Antonio Barreto

MENTIRAS QUE O POVO GOSTA EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO

O discurso é sempre igual
Em período de eleição.
O povo segue enganado,
Não esboça reação.
E os políticos brasileiros
Com a mesma falação:

– Se você quiser na Câmara
Um político honrado,
Vote certo para mim:
Estarei sempre ao seu lado.
Provarei ao eleitor
Ser um grande Deputado.

– Representarei você,
Meu querido eleitor.
No Congresso a minha voz
Será de grande valor.
Não esqueça de honrar
Seu voto pra Senador.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJO

João Paraibano

O que mais me admira
É ver o sapo inocente
Que gosta de lama fria
Mas detesta a terra quente
Vendo da cobra o pescoço
Pinota dentro do poço
Pra se livrar da serpente.

* * *

Rogaciano Leite

Eu nasci lá num recanto
Do sertão que amo tanto
Onde o céu desdobra o manto
Feitos de rendas de anil
Onde o firmamento extenso
É um grande espelho suspenso
Refletindo o rosto imenso
Da minha pátria o Brasil.

* * *
Rena  Bezerra

Lembro bem do meus banhos no riacho
De fazer arapuca lá na mata
Tomar banho escondido na cascata
E descer ribanceira mundo abaixo.
De subir no coqueiro e tirar cacho
No curral tomar leite sem ter nata
Ver os pássaros conduzindo uma cantata
E eu ficar lhes ouvindo bem contente,
Se o passado voltasse pro presente
Mataria a saudade que nos mata.

* * *

Henrique Brandão

Um aboio penoso do vaqueiro
Um cavalo relincha no roçado
A cancela, por onde passa o gado
A cafofa do pé de umbuzeiro
Um boi “brabo” cair no formigueiro
A cacimba na foz do ribeirão
O cuscuz, carne assada e o pirão
Um menino dizendo poesia
Uma porca fuçando a lama fria
Tudo isso são coisas do sertão.

Vaquejada, reisado e cantoria
Uma roça com milho pendoando
Um cigarro de palha, vez em quando
No programa de rádio, cantoria
A cigarra tocando a melodia
Um jumento deitado no oitão
Um sela, perneira e um gibão
Às seis horas louvar Nossa Senhora
Logo a lua se “amostra” sem demora
Tudo isso são coisa do sertão.
 
* * *

Otacílio Batista

Minha mãe me criou dentro do mar
Com o leite do peito de baleia
Me casei no oceano com a sereia
Que me fez repentista popular
Canto as noites famosas de luar
E linguagem das brisas tropicais
Entre abraços e beijos sensuais
Nos embalos das ondas seculares
Conquistei a rainha mãe dos mares
E o que é que me falta fazer mais?

* * *

Zé de Cazuza

O pobre do retirante
Viaja sem rumo certo
Quando está fatigado
Acha um juazeiro perto
Parecendo um guarda-chuva
Que Deus armou no deserto.

* * *

Guaipuan Vieira

É bem feliz quem escreve
E vê sua obra estudada
É imortal quem tem vida
Vida diversificada
Já conquistou sua glória
Prá no céu fazer morada

* * *

Joaquim Venceslau Jaqueira

Eu andei de déo em déo
E desci de gáio em gáio
Jota a-já, queira ou não queira.
Eu não gosto é de trabaio,
Por três coisa eu sou perdido:
Muiê, cavalo e baraio!…

* * *

Inacio da Catingueira

Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá, sem sê agregado,
Comê carne com gordura.

* * *

Bob Motta

Nem ostra, nem catuaba,
nem caldo de tubarão,
culhão de touro ou pirão,
nem mesmo, uma caldeirada;
vai levantar a “finada”,
que vive olhando p’ro chão.
Nem pentelho de barrão,
lhe digo, na minha verve;
isso de nada lhe serve,
quando se acaba o tezão.

* * *

Um folheto de Olegário Fernandes da Silva

O HOMEM QUE CASOU COM A JUMENTA

Jesus pai poderoso
Minha poesia aumenta
Enquanto eu escrevo um causo
Que todo mundo comenta
O homem deixou a mulher
Pra casar com a jumenta

Isto foi na Paraíba
Município de Campina
Deixou a sua esposa
Por nome de Jarmelina
E amigou-se com a Jega
Para cumprir sua sina

Esse causo se deu
Na Paraíba do Norte
O homem pra casar com burra
Precisa que seja forte
Uns diz que é safadeza
E outros diz que é sorte

No mundo aparece coisa
Que parece uma novela
Um homem assim não tem
O valor de uma cadela
Olhe na capa do livro
Ele abraçado com ela

Seu nome Senhor Pereira
Com Jarmelina casado
Porém há mais de mês
Que ele vinha amigado
Namorando uma jumenta
Lá num canto reservado

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DUAS DUPLAS EM CANTORIA E UM MESTRE DO IMPROVISO

Cantoria dos poetas repentistas Pedro Bandeira e Geraldo Amâncio, no IV Festival Nacional de Viola e Poesia, ocorrido na cidade de Juazeiro/CE.

* * *

Poetas repentistas Edmilson Ferreira e Antonio Lisboa glosando o mote

“O amor ao próximo deveria
ser a meta de todo ser humano”

 

* * *

Improvisos de Sebastião Dias

Das quatro e meia em diante,
sinto de Deus o poder,
um sopro espatifa as nuvens
para o dia amanhecer,
Deus enfeita o firmamento
E a vassoura do vento
Varre o céu pra o sol nascer.

* * *

Antônio, tire o canário
deste horrível sofrimento!
Ele já foi amarelo,
Mas tá ficando cinzento,
Que a frieza do presídio
Transforma a cor do detento!

* * *

Vamos parar a cantiga
que a garganta está cansada!
Já vejo nos horizontes
Os reflexos da alvorada
E a noite sentindo dores
Pra ser mãe da madrugada!

* * *

Já é hora em que o menino
na calçada come fuba,
debaixo de uma choupana
coberta de carnaúba,
dessas que a ventania
com qualquer sopro derruba!

* * *

Na Capital Bandeirante
eu vim fazer um passeio,
mas, ao deixar o Nordeste,
parti a alma no meio…
Ou vem a banda de lá,
Ou vai a banda que veio.

* * *

O pintor caprichou tanto
e a pintura está tão boa,
que até a garça pintada
no aceiro da lagoa
está tão linda e perfeita
que se espantar ela voa.

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QUATRO POEMAS NORDESTINADOS

A EXTINÇÃO DO JUMENTO – Donzílio Luiz

Jumento, ó velho jumento
Deste de ti cem por cento
Nunca pediste um aumento
Nem promoção no emprego
Por dez motores forçavas
Por dez homens laboravas
E à noite suportavas
As mordidas do morcego

Debaixo duma cangalha
Só por um feixe de palha
Animal nenhum trabalha
Do tanto que trabalhavas
Depois de velho caído
Certo do dever cumprido
Nunca foi reconhecido
O grande lucro que davas

Teu dono te punha a sela
Depois se escanchava nela
E na frente e atrás dela
Botava mais dois guris
Furava com as esporas
Corria duas, três horas
Quebrava cinco, seis toras
De pau malhando os quadris.

Jumento, quando eu reflito
Lembro teu pêlo bonito
Parece ouvir o apito
Da força da tua voz
Chego à triste conclusão
Que a raça em extinção
Deixa saudade ao sertão
E muita falta pra nós.

Passaste dentro da brenha
Tombando feixe de lenha
Que o sertão talvez não tenha
Animal melhor de carga
Hoje, porque estás cansado
És no desprezo atirado
Pra viver abandonado
Numa vida tão amarga.

Mas não percas a esperança
De quem espera não cansa
Adia tua vingança
Para outra encarnação
Pede para o Soberano
Para nesse outro plano
Voltares um ser humano
E o homem voltar gangão.

* * *

O CASAMENTO DOS VELHOS – Louro Branco

Tem certas coisas no mundo
Que eu morro e num acredito
Mas essa eu conto de certo
Dum casamento bonito
De um viúvo e uma viúva
Bodoquinha Papaúva
E Tributino Sibito

O véio de oitenta ano
Virado num estopô
A véia setenta e nove
Maluca por um amor
Os dois atrás de esquentar
Começaram a namorar
Porque um doido ajeitou

Um dia o véio comprou
Um corpete pra bodoquinha
Quando a véia foi vestir
Nem deu certo, coitadinha
De raiva quase se lasca
Que o corpete tinha as casca
Mas os miolo num tinha

No dia três de abril
Vêi o tocador Zé Bento
Mataram trinta preá
Selaram oitenta jumento
Tributino e Bodoquinha
Sairam de manhazinha
Pra cuidar do casamento

O veião saiu vexado
Foi se arranchar na cidade
Mandaram chamar depressa
Naquela oportunidade
O veião chegou de choto
Inda deu catorze arroto
Que quase embebeda o padre

O padre ai perguntô:
Seu Tributino, o que pensa,
Quer receber Bodoquinha
Sua esposa, pela crença?
O veião dixe: eu aceito
Tô tão vexado dum jeito
Chega tô sem paciência

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SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO COM SOGRA

louro

Lourival Batista Patriota, o Louro do Pajeú (São José do Egito, Jan/1915 – Dez/1992)

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
A sua está no princípio
A minha está bem no fim
Estou perto de estar longe
De quem está perto de mim.

*

Nem tudo que é triste chora
Nem tudo que é alegre canta
Nem toda comida é janta
Nem todo velho é escora
Nem toda moça namora
Nem todo amor tem paixão
Nem toda prática é sermão
Nem tudo que amarga é lima
Nem todo poeta rima
Nem toda terra é sertão.

* * *

Elízio Félix da Costa (Canhotinho)

Eu canto pra todo mundo
Com minha vocação santa
Cantando também se chora
Chorando também se canta
A minha mágoa secreta
Confessar não adianta.

* * *

Aldo Neves

A lua no céu vagueia
Como um barco que flutua
Inspirando o seresteiro
Jogando os raios na rua
Tudo que o poeta é
Só deve a Deus e a lua.

Pra lua sair bonita
Deus é quem abre a janela
E o quadro azul do espaço
A natureza pincela
Num sei quem é mais bonita
Se a noite ou se é ela.

* * *

Vinícius Gregório

Solidão desaparece
Quando alguém se faz presente,
A tristeza fica ausente
Quando alegria aparece,
A paz reina, vive e cresce
Quando morre a triste guerra.
No mundo tudo se encerra…
Mentira mata a verdade,
Eu mato a dor da saudade
Voltando pra minha terra!

* * *

Dimas Batista

Na vida material,
Cumpriu sagrado destino
O Filho do Deus divino
Nos deu glória espiritual;
Deu o bem, tirou o mal,
Livrando-nos da má sorte;
Padeceu suplício forte
Como o maior dos heróis,
Morreu dando a vida a nós.
A vida venceu a morte.

* * *

João Lourenço

Eu já passei tanta coisa
Que na vida nem pensava
Pra minha felicidade
A mulher que eu procurava
Deus teve pena de mim
Mostrou aonde ela estava.

* * *

A SOGRA ENGANANDO O DIABO

Um folheto de Leandro Gomes de Barros

sogra

Dizem, não sei se é ditado,
Que ao diabo ninguém logra;
Porém vou contar o caso
Que se deu com minha sogra.
As testemunhas são eu,
Meu sogro, que já morreu,
E a velha, que é falecida.
Esse caso foi passado
Na rua do Pé Quebrado
Da vila Corpo Sem Vida.

Chamava-se Quebra-Quengo
A mãe de minha mulher,
Que se chamava Aluada
Da Silva Quebra-Colher,
Filha do Zé Cabeludo.
Irmã de Vítor Cascudo
E de Marcelino Brabo,
Pai de Corisco Estupor;
Mas ouça agora o senhor
Que fez a velha ao diabo.

Minha sogra era uma velha
Bem carola e rezadeira,
Tinha seu quengo lixado,
Era audaz e feiticeira;
Para ela tudo era tolo,
Porque ela dava bolo
No tipo mais estradeiro.
Era assim o seu serviço:
Ela virava o feitiço
Por cima do feiticeiro!

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LANDRO GOMES DE BARROS

Manoel Xudu

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranqüilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo

* * *

Valdir Teles

Pai vinha de São José
Com uma bolsa na mão
Minha mãe abria a bolsa
Me dava a banda de um pão
Porque se desse o pão todo
Faltava pro meu irmão.

* * *

Nonato Costa

Quem compete com os anos perde a luta
Sem nenhum artefato de defesa,
Pois o fórum de Deus ganha a disputa
Decretando a falência da beleza,
As madeixas caindo a pele verte,
Não tem creme hidratante que conserte,
E nenhum tipo de plástica que ajude,
Na agência bancária do futuro
O presente começa a pagar juro
Do empréstimo que fez na juventude.

* * *

Mariana Teles

O levantar da cabeça
É sempre a melhor saída
Passar por cima dos baques,
Molhar com pranto a ferida,
Sem cansar, nem pedir pausa,
Na queda se enxerga a causa
Dos recomeços da vida!

* * *

João Paraibano

Branca, preta, pobre e rica,
Toda mãe pra Deus é bela;
Acho que a mãe merecia
Dois corações dentro dela:
Um pra sofrer pelos filhos;
Outro pra bater por ela.

* * *

Zé Melancia

Já fui cantador destemido
Cantador de alta classe…
Já cantei face a face
Com poeta garantido…
Com rima e verso medido,
Na matéria e em repente,
Quem fui eu antigamente,
Quem estou sendo hoje em dia,
Só resta da melancia
A casca e uma semente

* * *

Cícero Vieira da Silva

Nasci numa cordilheira
Numa casa muito ruim,
As telhas eram de capim
E a porta era uma esteira;
No pé de uma ladeira
Foi onde fizeram ela
Se um gato subisse nela
Só faltava derribar…
Antes da chuva chegar
Já chovia dentro dela.

* * *

Otacílio Batista

Fazer o bem é perdido,
fazer o mal não convém,
entre a maldade e o bem,
quem faz o bem é traído.
Eu não fui compreendido,
quando tive compaixão
de quem me estendia a mão,
desejando ser feliz:
A quem mais favor eu fiz
Só me fez ingratidão.

 * * *

Francisco Caetano

Meu dom é dado por Deus
Quando eu morrer ele fica
Eu sou pobre igual a Jó
Mas a minha rima é rica
Possui o gosto da fonte
Do olho d`água da bica.

* * *

Oliveira de Panelas

Quando o óvulo fecundo acelerado ,
Gira o sangue com toda hemoglobina,
Nisso a mãe necessita proteina
Para dar a seu filho encarcerado
Onde todo o destino foi marcado
Logo após o contato conjugal
Na primeira carícia sensual;
O espírito na carne se mistura,
O destino de cada criatura
É traçado no ventre maternal.

* * *

AS PROEZAS DE JOÃO GRILO – Leandro Gomes de Barros

João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

E nasceu de sete meses
chorou no bucho da mãe
quando ela pegou um gato
ele gritou: não me arranhe
não jogue neste animal
que talvez você não ganhe.

Na noite que João nasceu
houve um eclipse na lua
e detonou um vulcão
que ainda continua
naquela noite correu
um lobisomem na rua.

Porem João Grilo criou-se
pequeno, magro e sambudo
as pernas tortas e finas
boca grande e beiçudo
no sitio onde morava
dava noticia de tudo.

João perdeu o pai
com sete anos de idade
morava perto de um rio
ia pescar toda tarde
um dia fez uma cena
que admirou a cidade.

O rio estava de nado
vinha um vaqueiro de fora
perguntou: dará passagem?
João Grilo disse: inda agora
o gadinho de meu pai
passou com o lombo de fora.

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UM CANTORIA E DEZ MESTRES DO IMPROVISO

Hipolito Moura e Jonas Bezerra glosando  o mote:

“Sepultei as lembranças do passado
não vou mais padecer por causa dela”

* * *

José Alves Sobrinho

Temos dois aniversários
Com idades diferentes,
O pai entre os pecadores,
O filho entre os inocentes,
O pai mudando os cabelos,
O filho mudando os dentes.

* * *

Zé Salvador

Deus me tire à pretensão
Se pareço aqui metido
Sou só poeta em ação
Não quero ser enxerido
Inda me acho amador
Mesmo com luta e lavor
Tenho apreço e amor
Pelo oitavão rebatido.

* * *

Paulo Nunes Batista

Quando quero improvisar
Basta que me dêem o tema
O cabra que é macho mesmo
Só gosta de mulé fema,
Pouco importando que ria,
Que chore, que grite ou gema.

Minha mãe , quando me teve
Foi para fazer figura,
Dar surra em cabra safado
Assim da tua estatura;
Comer arroz com farofa,
E feijão com rapadura.

* * *

Luiz Campos

Essa dor que estou sentindo
Esse mal, essa moleza
Esse tremido nas pernas
Essa cólica, essa fraqueza
Trinta por cento é doença
Mas os setenta é pobreza…

* * *

Ismael Pereira

O mínimo precisaria
Aumentar uns cem por cento
Quem recebe no salário
Quinze reais de aumento
É mesmo que receber
Nota de falecimento.

* * *

José Ribamar

Quem não crê que Deus existe
Existe sem merecer
Sem Deus não tem condição
Ninguém consegue viver
Ou pelo menos ser digno
De ser chamado de Ser.

* * *

Pinto do Monteiro

Chegue pisando maneiro
Sente e afine a viola
Procure cantar bonito
Agradando a curriola
Que ainda cabe um aluno
Nos bancos da minha escola.

* * *

Geraldo Amâncio

Quem não cantar do meu tanto
não acompanha o meu passo,
não tem a força que eu tenho,
quando manejo o meu braço,
não planta a roça que eu planto
nem faz verso que eu faço.

* * *

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
Que você tá no começo,
Eu já tô perto do fim;
Tô perto de ficar longe
De quem tá perto de mim.

* * *

Cícero Manoel do Nascimento

O meu filho está desnutrido
Que parece um fantasma no mocambo!
A esposa coberta de molambo
Pois não tem com que compre outro vestido
Na bodega, ninguém me dá ouvido,
Pois fiado de mim ninguém confia…
Quando eu tento entrar na padaria,
Ouço um grito que volte da calçada,
Um pedaço de pão não vale nada,
Mas meu filho não come todo dia!

EM HOMENAGEM ÀS MÃES

MÃE – Hermes Fontes

Para dizer-te quem foi a minha mãe, não acho
uma palavra própria, um pensamento bom.
Diógenes – busco-o em vão: falta-me a luz de um facho,
– se acho som, falta a luz; se acho a luz, falta o som!

Teu nome – ó minha mãe – tem  o sabor de um cacho
de uvas diáfanas, cor de ouro e pérola, com
polpa de beijos de anjo… Ouvi-lo é ouvir um riacho
merencório, a rezar, no seu eterno tom…

Minha mãe! minha mãe! eu não fui qual devera!
Morreste e não bebi em teus lábios de cera
a doçura que as mães, inda mortas, contem…

Ao pé de nossas mães – todos nós somos crentes…
Um filho que tem mãe – tem todos os parentes…
– E eu não tenho por mim, ó minha mãe, ninguém!

* * *

PARTIDA DE MINHA MÃE – Zé de Cazuza  

Quem da terra partiu levando um riso,
Estampado nos lábios por lembrança,
Com certeza levava a esperança
De alcançar o perdão no paraíso.

Diz o filho sentindo o prejuízo,
A chorar pela mãe que fez mudança,
Aspirando de Deus a confiança,
De abraçá-la no dia de juízo.

Sobre o seu leito quando morta estava,
Sua bela feição me retratava,
A feição duma santa de capela.

Senti nos olhos arrojado pranto,
A minha mãe que me estimava tanto
Só teve um filho pra chorar por ela.

* * *

SER MÃE – Pedro Fernandes

Mãe que me deu luz e vida
Me abrigou nove meses
Se acordou muitas vezes
Pra fazer minha comida
Quando sentia a mordida
Que eu lhe dava nos seios
De água seus olhos cheios
A mamada não parava
Aí é que me abraçava
Saciando meus anseios.

Se eu dormisse de dia
Ficava a noite acordado
E ela ali do meu lado
Cochilava e não dormia
Se a noite estivesse fria
Me agasalhava na manta
A fé de mãe era tanta
Enquanto embalava o berço
Ia dedilhando um terço
Rezando pra outra santa.

Mãe, é fonte de candura
Roseira que exala amor
Seu sopro alivia a dor
O seio jorra doçura
Seu colo tem a fofura
Do capucho de algodão
Uma usina de perdão
Sinfonia que me embala
A voz da razão que fala
No palco do coração.

* * *

Domingos Fonseca

Toda mãe por qualquer filho
Se iguala num só amor
As mães: de Cristo e de Judas
Sofreram a mesma dor
Uma pelo filho justo
A outra pelo traidor.

* * *

João Paraibano

Branca, preta, pobre e rica,
Toda mãe pra Deus é bela;
Acho que a mãe merecia
Dois corações dentro dela:
Um pra sofrer pelos filhos;
Outro pra bater por ela.

* * *

Francisco das Chagas

Não encontro adjetivo
Para minha mãe querida
Ela é o ar que eu respiro
Meu mundo, minha guarida
A minha mãe não é Deus
Mas foi quem me deu a vida.

TRÊS POETAS NORDESTINOS E UMA DUPLA EM CANTORIA

Raimundo Lucas Bidinho glosando o mote:

Seis e meia na igreja
Às oito no cabaré.

Nossa Várzea Alegre cria
Uma certa criatura
Que toda noite mistura
Orações com putaria
É louca pela orgia
E nas imagens tem fé
São Vicente e São José
Bem veem a sua peleja
Seis e meia na igreja
Às oito no cabaré.

Dizem que este fulano
Pelos seus modos não mente
Pensa em ser futuramente
Um novo São Cipriano
Que todos dia do ano
É encontrado na Sé
Ajoelhado ou em pé
Por enfadado que esteja
Seis e meia na igreja
Ás oito no cabaré.

Em sua religião
É um católico acordado
Quando comete um pecado
Vai logo pedindo perdão
Não sei se terá ou não
A crença de São Tomé
Ou tendo, ou não tendo fé
À noite os altares beija
Seis e meia na igreja
Às oito no cabaré.

* * *

Leonardo Bastião

Eu também plantei saudade
Numa pequena panela
Só de quinze em quinze dias
É que eu botava água nela
Pr’ela não crescer demais
E matar quem cuidava dela

Eu não adivinho a morte
Porque Deus não quer assim
Mas as doenças que eu sinto
E as “dor” que se arrancha em mim
Dá pra perceber que a vida
Tá muito perto do fim

Na mocidade eu não pude
Vencer os planos que fiz
A velhice acompanhou
Já fez de mim o que quis
Com tanta velocidade
Que deixou a mocidade
Numa distância infeliz

Quem já passou dos sessenta
Do seu futuro tem medo
Que o tempo anda mais vexado
Pra chegar no fim mais cedo
Depois do fim é a morte
Depois da morte é segredo

No dia que eu morrer
A minha vida se encerra
Vou prestar conta a Jesus
Único juiz que não erra
E pagar pelos pecados
Que fiz em cima da terra.

* * *

Rangel Junior – QUEM SOU EU

Sou meio destrambelhado
Sempre chegando atrasado
Vivo sempre apaixonado
Só assim vejo sentido
Sou como chão de estrada
Vivo levando porrada
Ô, vida desmantelada
Essa que tenho vivido.

Às vezes sou meio gente
Às vezes sou meio bicho
Quase sempre estou contente
Igual a pinto no lixo
Quando a vida faz careta
Feito “boi-da-cara-preta”
Respondo c’uma munganga
“Isprito” de cangaceiro
Feito entidade em terreiro
Num tem quem me bote canga.

De Dona Neide sou filho
E também de Seu Tonito
Bom de mote e estribilho
Não sou feio nem bonito
Um cab’assim, mais-ô-meno
Nem muito grande ou pequeno
Nascido em Juazeirinho
Pode não saber de tudo
Mas não sabe ficar mudo
Fazendo o próprio caminho.

* * *

Poetas cantadores Hipolito Moura e Jonas Bezerra improvisando com o mote

Sepultei as lembranças do passado
E não vou mais padecer por causa dela

GRANDES DUPLAS EM CANTORIA

Geraldo Amâncio e Sebastião  da Silva trabalhando o tema “Coqueiro da Bahia”

* * *

Sebastião Dias cantando com João Paraibano o tema “Nos dez de Galope na Beira do Mar”

* * *

Pedro Ernesto cantando com Aldaci de França

Pedro Ernesto

Pensando em Jesus eu conquisto uma sé,
sonho com as coisas de um mundo distante
encontro a poesia de forma brilhante
farta, prazerosa, robusta e de pé,
ficando vaidoso me pergunto até
o porquê da vida que me faz lutar
se pouco é preciso para vislumbrar
a glória do verso sem dificuldade
mas isto não tira esta minha humildade
– nos dez de galope da beira do mar.

Aldaci de França

Pensando em Jesus, a nossa majestade,
encontro solução para os meus problemas,
supero os contrários e quebro as algemas
que um dia impediram minha liberdade,
um novo horizonte de felicidade
começa a surgir e passo a contemplar,
quando um céu de estrelas vem me iluminar
aí, sim, recupera toda autoestima
porque sigo dando uma volta por cima
– nos dez de galope da beira domar

Pedro Ernesto

Implorando a meu Deus, ele me dá rima,
implanta uma estrela no meu firmamento,
nasce a cantoria, cresce o sentimento,
e a mãe natureza me aplaude e me anima,
é quando o vernáculo de mim se aproxima
e no alto da trova começo a vagar,
montanhas de versos se geram no ar,
eu passo por elas, faço que não vejo
tentando esconder o meu maior desejo
– nos dez de galope da beira do mar.

Aldaci de França

Deus inspira a verve deste sertanejo
colocando ideias dentro do juízo,
e eu muito as transformo em grande improviso
no meu sentimento na sátira e gracejo,
o trabalho é árduo, por isso pelejo
em busca do melhor para apresentar,
Deus é meu bom suporte e vem me ajudar,
meu melhor apoio em quem sempre me encosto
cantando o que sonho, vivendo o que gosto
– nos dez de galope na beira do mar

Pedro Ernesto

Na graça divina, sem medo eu aposto
porque é grandeza e advém da bondade,
tem ouro da sorte na simplicidade,
e a quem for mais humilde amo e não desgosto,
dos ombros malditos eu me desencosto,
olho para os céus e vejo o sol brilhar,
e o anjo da guarda vem me consolar
trazendo um buquê que Jesus reservou
só para que eu fique feliz como estou
– nos dez de galope da beira do mar.

Aldaci de França

Foi, sim, Deus que me fez da forma que sou
com minhas virtudes, defeitos também,
falou tudo a mim e para mais ninguém
o mundo assistiu, só a vida escutou,
e para ele próprio sempre revelou
que a vida é assim e ninguém vai mudar,
é perda de tempo se querer tentar
mistério que Deus reservou para a gente,
ninguém me convence de que é diferente
– nos dez de galope da beira do mar.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE LEANDRO GOMES DE BARROS

V

Zé Cardoso glosando o mote:

Essa roupa de couro empoeirada
É a prova que vim lá do sertão.

A lembrança do campo, ainda carrego,
Porque foi minha única faculdade.
No momento que eu entro na cidade,
Eu me sinto perdido e não lhes nego:
Eu sei dar nó de porco, dou nó cego,
Mas um nó de gravata, eu não dou não.
Mas, caindo uma corda em minha mão,
Num segundo tá feita uma laçada.
Essa roupa de couro empoeirada
É a prova que vim lá do sertão.

* * *

Andrade Lima glosando o mote

Duas doses de saudade
Deixam a gente embriagado.

Não tem conhaque que faça
Meu peito se embriagar
Mas, já vi gente tombar
Sem beber essa desgraça.
Pois pior do que cachaça
Encontrei bem do meu lado
Senti meu peito apertado
E pra falar a verdade:
Duas doses de saudade
Deixam a gente embriagado.

A saudade é muito forte
Pode crer meu camarada.
Que quem sente essa danada
Parece que vê a morte.
Embarquei nesse transporte
E foi triste o resultado.
Não morri, mas fui trancado
E a Deus pedi piedade.
Duas doses de saudade
Deixam a gente embriagado.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

A vida só tem sentido
Enquanto houver ilusão.

Entrei na maré do vício
Sem conhecer suas águas,
Tentando afogar as mágoas
Do meu cruel sacrifício.
Quis me arrepender no início,
Mas faltou disposição…
Fiquei procurando, em vão,
O que nem tinha perdido…
A vida só tem sentido
Enquanto houver ilusão.

* * *

Rafael Neto glosando o mote:

Me afoguei na maré da sedução
Quando o barco do amor perdeu o rumo.

Já cruzei muitos mares caudalosos,
Porém nesse eu quase perco a vida.
Nesse barco a passagem é só de ida
Nos prazeres dos mares ondulosos,
Meus desejos carnais são poderosos
Pra tirar minha vida do seu prumo,
E pra viver ou morrer eu mesmo assumo,
Que o culpado de tudo é a paixão
Me afoguei na maré da sedução
Quando o barco do amor perdeu o rumo.

* * *

Salomão Rovedo glosando o mote:

Pobre cu que não tem sorte
Solta um peido a merda vem.

Um ataque agudo e forte
Bem pior que dor-de-parto
Rasga violento e farto
Pobre cu que não tem sorte.
Mais forte que a dor-da-morte
E dor-de-viado também
Castiga sempre alguém
Como fosse dor-de-corno
A tripa faz um contorno
Solta um peido a merda vem.

* * *

Dimas Bibiu glosando o mote:

Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida.

Preso a forte nervosismo
Sinto duras agressões
Me tangendo aos empurrões
Para os confins do abismo
Por falha no organismo
Meu coração já trepida
Minha mente poluída
Passa um filme de terror
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida.

Para os trabalhos normais
Me considero indefeso
Ontem suspendi um peso
Que hoje não posso mais
Já demonstrando os sinais
Duma coluna pendida
Que só será corrigida
Se a idade também for
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida. Clique aqui e leia este artigo completo »

UM FOLHETO PRA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

OS SOFRIMENTOS DE JESUS CRISTO – Um folheto de José Pacheco

Oh ! Jesus meu redentor
Dos altos céus infinitos
Abençoai meus escritos
Por vosso divino amor
Leciona um trovador
Com divina inspiração
Para que vossa paixão
Seja descrita em clamores
Desde o princípio das dores
Até a ressurreição.

Dentro do livro sagrado
São Marcos com perfeição
Nos faz a revelação
De Jesus crucificado
Foi preso e foi arrastado
Cuspido pelos judeus
Por um apóstolo dos seus
Covardemente vendido
Viu-se amarrado e ferido
Nas cordas dos fariseus.

Dantes predisse o Senhor
Meus discípulos me rodeiam
E todos comigo ceiam
Mas um me é traidor
Só a mão do pecador
Meu corpo ao suplicio vai
Porém vos digo que vai
Do homem que por dinheiro
Transforma-se traiçoeiro
Contra o filho de Deus Pai.

Todos na mesa consigo
Clamavam em alta voz
Senhor, Senhor qual de nós
Vos trai dos que estão contigo
Disse Cristo: é quem comigo
Juntamente molha o pão
E todos me deixarão
Mas São Pedro respondeu
Mestre garanto que eu
Não vos deixarei de mão.

Em verdade deixarás
Nesta noite sem tardar
Antes do galo cantar
Três vezes me negarás
Pedro com gestos leais
Disse em voz compadecida
Eis-me a morte preferida
Mas não serei teu contrário
Ainda que necessário
Me seja perder a vida.

Estava tudo benquisto
Com Pedro dizendo igual
Até na hora fatal
Da prisão de Jesus Cristo
Então quando se deu isto
Pedro a espada puxou
Num fariseu despejou
Um golpe tão destemido
Que destampou-lhe o ouvido
Quando a orelha voou.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

corrupto chinês

Corrupto chinês ouvindo a sentença de morte no tribunal

Bráulio Tavares glosando o mote:

Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!

Vou-me embora morar na velha China
que tem lá seus defeitos, tudo bem,
mas o nosso defeito ela não tem:
dar guarida a quem vive da rapina.
Deputado que lá ganha propina
pagará com a vida a corrução!
Lá na China político ladrão
bem depressa vai preso e condenado…
Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!

Desde o tempo das velhas dinastias
toda vez que um político roubava
na melhor das hipóteses ficava
na prisão pelo resto dos seus dias.
Liminares, renúncias, anistias…
nada disso na China é solução!
O remédio é fuzil e pelotão
e um apito na boca dum soldado…
Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!

Se um ministro chinês é desonesto
e é pilhado fazendo trambicagem,
a Justiça deslancha a engrenagem
que liquida a questão sem deixar resto.
Doze balas é um preço bem modesto
e o país nunca perde um só tostão
debita na conta do finado…
Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!

* * *

Diniz Vitorino glosando o mote:

A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

Adoro a noite estrelada
Pra cantar beijando as flores
E logo morrer de amores
Nos braços da madrugada;
Uma estrela prateada
Há de me servir de vela
E em cada flor amarela
Deixo um verso por lembrança…
A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

A noite é mansão divina
Onde versejo e namoro,
A Lua, noiva que adoro,
Ninfa esbelta e pequenina;
Minha dócil bailarina,
Pura, divinal e bela;
Eu poeta, ela donzela,
Enquanto eu canto ela dança.
A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

O céu é alva parede
Por onde a noite entra e sai;
Cada neblina que cai
Na terra me mata a sede;
Cada nuvem é uma rede
Feita com malha amarela;
A Lua se deita nela,
Deus pega o punho e balança…
A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

Não tem nada parecido
Com o amor da mãe da gente.

A mãe nova ou mãe antiga
Tem coragem como loba
Se tem um filho que rouba
Pra defendê-lo se obriga
Se a polícia lhe investiga
Diz que o filho é inocente
Grita, chora, jura e mente
E defende o filho bandido
Não tem nada parecido
Com o amor da mãe da gente.

* * *

Zé Adalberto glosando o mote:

Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela!

Quando aquela saudade impaciente
Me coloca no leito do seu colo
Minhas pernas não sentem mais o solo
Minha alma flutua intensamente
Fecho os olhos e a vejo em minha mente
Se despindo pra mim e eu pra ela
Parecendo uma cena de novela
Mas no fundo acontece de verdade
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela!

* * *

Ivanildo  Vila Nova glosando o mote:

Toda distância é pequena
pra se escutar cantoria.

Eu vou suar a camisa
pelo nosso interior,
pra escutar cantador,
que pensa, sente, analisa,
toca, canta, realiza,
num instante uma poesia,
eu sinto aquela magia,
como festa da novena.
Toda distância é pequena
pra se escutar cantoria.

* * *

Zilmo Siqueira glosando o mote:

Minha vida é marcada por desgosto,
Alegria só tenho quando choro.

Em São Paulo, vivi de empregado
Muitas coisas por lá adquiri
Mas deixei pra morar no Cariri
Hoje vivo no sítio do alugado
Dia e noite trabalhando no roçado
Tô feliz nesse canto onde moro
Jesus é meu santo que imploro
Me dá forças pra ser homem disposto
Minha vida é marcada por desgosto,
Alegria só tenho quando choro.

Eu nasci pra ser um andarilho
Me sinto feliz viver andado
O que ganho na vida estou guardando
Pra filha querida e pro meu filho
Meu filho, meu verdadeiro brilho
Minha filha que amo e tanto adoro
É no ombro do filho que me escoro
Minha filha me beija no meu rosto
Minha vida é marcada por desgosto,
Alegria só tenho quando choro.

* * *

Louro Branco homenageia Pinto de Monteiro glosando o mote:

O maior cantador da profissão
Foi soldado, poeta e foi vaqueiro.

Retransmito a noticia mais não brinco
Sendo da Paraíba o nato membro
Nasceu Pinto vinte e um de novembro
Mil oitocentos e noventa e cinco
Pra nascer com amor e afinco
Foi na carnaubinha o seu terreiro
Sendo no município de Monteiro
Mas viveu na fazenda do feijão
O maior cantador da profissão
Foi soldado, poeta e foi vaqueiro.

Sentou praça com veto, voz e vez
Para ser um policial disposto
Isso foi dia cinco de agosto
De mil novecentos e dezesseis
Mais os anos não foram nem a treis
Trabalhou em Recife de enfermeiro
Depois disso voltou pro seu viveiro
Pra cantar os segredos do sertão
O maior cantador da profissão
Foi soldado, poeta e foi vaqueiro.

Pinto é imortal ninguém derriba
Foi um gênio maior do que esférico
Foi amigo do grande Zé Américo
O ministro maior da Paraíba
Enfrentou Louro Branco João Furiba
João Bernado, Xudu, Jô e Granjeiro
Zé Feitosa e Sebastião Cordeiro
Mas morreu sem sofrer decepção
O maior cantador da profissão
Foi soldado, poeta e foi vaqueiro.

Se uma boca disser, depois não prova
Que viu Pinto cantando dar o prego
Com noventa foi paralítico e cego
Com seis anos depois deitou na cova
Enfrentou Venturini e Vila Nova
Os Batista, Galbini e mais Guerreiro
Conversando era muito lundunzeiro
Mas cantando dobrava a multidão
O maior cantador da profissão
Foi soldado, poeta e foi vaqueiro.

GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

CASACA

Casaca-de-Couro num pé de mandacaru

Zezo Correia trabalhando o tema “A vida de um passarinho”:

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira
No ninho da quixabeira
Canta a casaca-de-couro
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

Chico Porfírio

Eu acho bonita a ave
Ou muito grande ou pequena
Tanta beleza na pena
Uma voz branda e suave
O vagalume, uma nave
Da mais consagrada empresa
Voa com lanterna acesa
Nunca queimou um foguito
Vejo tudo de bonito
Nos filmes da natureza.

* * *

Welton Melo

Dirigindo a carreta do destino
Perdi noites de sono na rodagem
Sei do dia que fiz essa viagem
Só não sei qual a data que termino
No calor do verão do sol ao pino
Sei que a vida já tá pela metade
Viajei pra buscar felicidade
Mas só vi sofrimento no caminho
Na BR da vida estou sozinho
Trafegando com a carga da saudade.

* * *

Amaro Dias

Você prevê minha morte,
Acho seu um exagero.
Eu não bebo, você bebe,
E além disso arruaceiro.
Quem sabe se o Satanás
Não vem lhe buscar primeiro!

* * *

Zito Siqueira

Mulher, se lembre das juras
Que fizemos na matriz;
Se esqueça de advogado,
De promotor e juiz;
Se acostume a levar ponta
Pra gente viver feliz.

* * *

Espedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei, não me formei
Por que meu pai não podia
Jesus, filho de Maria
De mim se compadeceu
Como presente me deu
Um crânio com poesia!

* * *

Pedro Bandeira

Quero a minha sepultura
Na sombra de uma favela
Onde morreu minha vaca
E meu cavalo de sela
Pra ninguém saber se os ossos
São meus, do cavalo ou dela.

* * *

Dedé Monteiro

Cantador pra imitar o triplo gênio
De um Xudú, de um Filó e de um Geraldo,
É preciso que tenha um grande saldo
De grandeza, de fé, de oxigênio;
E, além disso, passar quase um decênio
Preparando o bogó do coração
Pra juntar ferramenta e munição
Necessárias na guerra das ideias
Que provoca o delírio das plateias
Embaladas por tanta inspiração.

* * *

Diniz Vitorino

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

* * *

Jó Patriota

Mesmo sem beber um trago
Sinto que estou delirando
Tal qual um cisne vagando
Na superfície de um lago
Se não recebo um afago
Vai embora a alegria
A minha monotonia
Não há no mundo quem cante
Sou poeta delirante
Vivo a beber poesia !

* * *

Pinto do Monteiro
 
Minha corda não se estica
Não se tora nem se enverga
Da terra pro firmamento
Meu pensamento se alberga
Em um lugar tão distante
Que lente nenhuma enxerga.

* * *

Heleno Severino

Pinto Velho do Monteiro
Está cansado e sem tom
Garganta faltando voz
Viola faltando som
Nem toca, nem canta mais
Nem morre, nem fica bom!

* * *

João Paraibano

Quando o dia começa a clarear
Um cigano se benze e deixa o rancho
A rolinha se coça num garrancho
Convidando um parceiro pra voar
Um bezerro cansado de mamar
Deita o queixo por cima de uma mão
A toalha do vento enxuga o chão
Vagalume desliga a bateria
Das carícias da noite nasce o dia
Aquecendo os mocambos do sertão.

* * *

João Igor

Poeta desde criança
Cantador desde menino
Acho que é dom divino
Não existe semelhança
Ainda tenho esperança
De um dia aparecer
Alguém para me dizer
Ou tentar me explicar
Se o que me faz cantar
É o que me faz viver.

Inda não se descobriu
É um mistério da ciência
Todo tipo de experiência
Nenhum efeito surtiu
Até fora do Brasil
Já tentaram entender
Mas não tem o que fazer
Tenho que me contentar
Se o que me faz cantar
É o que me faz viver.

DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE JOSÉ COSTA LEITE

 JOSÉ-COSTA-LEITE1

José Costa Leite (à esquerda), vendendo seus folhetos na feira de Itambé-PE

* * *

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei, não me formei
Por que meu pai não podia
Jesus, filho de Maria
De mim se compadeceu
Como presente me deu
Um crânio com poesia!

* * *

Hercílio Pinheiro

Na Escritura Sagrada,
me lembro que Jesus disse:
Quem tivesse pra dar, desse,
quem não tivesse, pedisse;
quem fosse triste chorasse,
quem fosse alegre sorrisse.

* * *

Erasmo Rodrigues

Vinte e oito janeiros me jogaram
Na cadeia dos tristes desenganos
Sinto falta dos meus quatorze anos
Que a soma dos meses apagaram.
Os meus dias felizes lá ficaram
Pela rua da infância adormecida
A barcaça da existência fez partida
Pela água do rio da saudade
Se dinheiro comprasse mocidade
Eu seria criança toda a vida.

Uma noite de inverno, um dia quente,
Um domingo ou por outra um feriado,
Um riacho no leito do roçado
E os estrondos do peso da enchente.
Um açude sangrando, lá na frente,
As saudades da infância inesquecida
Mas o tempo tem ordem permitida
Pra dar fim aos prazeres da idade
Se dinheiro comprasse mocidade
Eu seria criança toda a vida.

* * *

Manoel Xudu

Eu acho muito engraçado
O padre Matusalém,
Quando distribui a hóstia
É pra dez, cinquenta, cem
Mas bebe o vinho sozinho,
Não dá um gole a ninguém.

* * *

Dió de Santo Izidro

Admiro a sabiá
Por ser uma ave bela
Faz o ninho põe e choca
E quer o filho perto dela
E tem mãe que mata a criança
Pra não dar trabalho a  ela.

* * *

Raimundo Lucas Bidinho

Comi de um jerimum cabôco
Já da rama derradeira
Era mole como cera
Tinha água igual um coco
Vingou em cima de um tôco
Três palmo acima da terra
Encarnado como guerra
Com o gosto de cupim
Foi este o jerimum mais ruim
Que deu na Aba da Serra.

* * *

Aldo Neves

Jesus Cristo tem sido até agora
Protetor de ateus e de pagãos
Me entrego Senhor em Tuas mãos
Tando aqui ou andando mundo afora
Ele ajuda a quem ri e a quem chora
Porque é paciente e bom amigo
Me livrando da treva e do perigo
É o Mestre do mundo e da Igreja
E por mais longe Senhor que eu esteja
Com certeza eu alcanço o Teu abrigo.

* * *

Luciano Carneiro

Eu não tive vocação
Pra diácono nem vigário
Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário
Mas sou com muita alegria
No campo da poesia
Um verdadeiro operário .

* * *

Lourinaldo Vitorino
(Em homenagem a Otacílio Batista Patriota)

As violas de luto soluçando
Dão adeus ao Bocage do repente,
Um fenômeno de arte, um expoente,
Que de cinco a seis décadas improvisando
Sua voz de trovão saiu rasgando
Modulando a palavra em cada nota
Pra cultura um nocaute, uma derrota,
Um desastre, uma perda, um golpe horrendo,
Enlutado o repente está perdendo
Otacílio Batista Patriota.

* * *

Luciano Maia

Cantor das coivaras queimando o horizonte,
Das brancas raízes expostas à lua,
Da pedra alvejada, da laje tão nua
Guardando o silêncio da noite no monte.
Cantor do lamento da água da fonte
Que desce ao açude e lá fica a teimar
Com o sol e com o vento, até se finar
No último adejo da asa sedenta,
Que busca salvar-se da morte e inventa
Cantigas de adeuses na beira do mar.

* * *

UM FOLHETO DE JOSÉ COSTA LEITE

A ONÇA E O BODE

Uma pobre onça vivia
em uma mata deserta
dormindo ali, acolá
não tinha morada certa
exposta a chuva e o vento
cochilando no relento
sem travesseiro ou coberta.

Certa vez a onça estava
pensando na sua vida
havia chovido a noite
ela estava enfraquecida
com fome e toda molhada
além disso, resfriada
pois se molhou na dormida.

A onça disse consigo:
“Isso assim não fica bem
vivo por dentro dos matos
sofrendo como ninguém
nunca pude preparar
uma casa pra morar
e quase todo bicho tem”.

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CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO ANTIGO

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Poeta cantador Dimas Batista Patriota (1921-1986)

Dimas Batista

Quando eu pego na viola
Para cantar o Brasil:
Militar deixa o fuzil;
Jogador esquece a bola;
O aluno gazeia a escola;
O judeu sai do balcão;
O orador erra a expressão;
Pugilista perde o soco.
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Eu sou toque de corneta;
Sou barulho de batalha;
Sou o gume da navalha;
Sou a ponta da lanceta;
Sou a pancada da marreta;
Sou o golpe do facão;
Sou tiro de mosquetão;
Sou trator de arrancar toco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Cantador só passa em teste
Se consultar o Batista;
Porque Deus me fez artista;
Repentista do Nordeste;
Eu não temo nem a peste
Que tenha “pauta” com o “cão”,
Minha voz é um trovão;
Só não ouve quem for mouco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

* * *

Tárcio Costa

Se eu minto não minto só
Pois eu vi Dilma Rouseff
Mais o Lula que é seu chefe
Graça Foster, Cerveró
Adentrarem no forró
E foi quando veio à tona
Que a tal festa foi à lona
A zabumba foi roubada
Pinga superfaturada
Ninguém mais viu a sanfona.

* * *

Aldo Neves

Jesus Cristo tem sido até agora
Protetor de ateus e de pagãos
Me entrego Senhor em Tuas mãos
Tando aqui ou andando mundo afora
Ele ajuda a quem ri e a quem chora
Porque é paciente e bom amigo
Me livrando da treva e do perigo
É o Mestre do mundo e da Igreja
E por mais longe Senhor que eu esteja
Com certeza eu alcanço o Teu abrigo

* * *

Odilon Nunes de Sá

Acho graça a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Novo ninguém quer morrer
Sem ser velho ninguém vive
Bom é ser velho e viver.

* * *

Onildo Barbosa

No planeta poeta em que vivemos
Sonho muito em deixar de ser poeta
Minha alma andarilha e inquieta,
Já cansou de romper os seus extremos,
Tenho a grande impressão, que o que temos
Já perdeu seu sabor original,
Fica apenas no mundo virtual
Todo dia essa cena se repete
O que faço não passa da internet
Nada vale pra mídia nacional.

Eu queria ver lá em Jô Soares,
Cordelistas, poetas cantadores ,
Repentistas, fiéis aboiadores
Divulgando projetos populares
Sebastião Cirilo, Carlos Aires,
Moacir, Ivanildo, Biu Salvino,
O poeta maior: Júnior Adelino,
Zé Viola, Geraldo e Moacir,
E eu sentar no sofá pra assistir,
Ao mais puro elenco nordestino.

Fico triste assistindo no Faustão
Um desfile de raças de cachorro
Nosso verso ao chorar pedir socorro
Mas programa nenhum lhe dá a mão
Nossa arte criada no sertão,
Possui tantos talentos pra mostrar,
Quero vê Mestre Lemos declamar,
Com Heleno Alexandre de Sapé,
Demonstrando o cordel como ele é,
A mais rica cultura popular.

O Rolando Boldrin não me convida
Jô Soares, Datena, nem Faustão,
Cada dia me dá a impressão
Que a nossa cultura está perdida
Fico aqui neste beco sem saída
Sufocado na minha persistência
A viola, na sua resistência,
Quando toca me diz em som dolente,
Que a barreira que tem na nossa frente
É maior do que nossa inteligência.

* * *

Um folheto de Leandro Gomes de Barros

O DEZRÉIS DO GOVERNO (Publicado em 1907)

Folheto_de_Leandro_Gomes_de_Barros

Conversavam dous vizinhos
Moradores de um sobrado
Exclamou, um oh! vizinho!
Já viu o que tem se dado?
O quê? – Perguntou o outro
Os 5 réis do estado.

Pergunta outro vizinho
Não é esse do vintém?
É um imposto damnado
Que não escapa ninguém,
É peior do que bexiga
Não repara mesmo alguém.

Bexiga ainda tem vacina
Que um outro sempre escapa
Mais esse imposto d’agora!
Só a doutrina do Papa
Qualquer cousa que se compra
Os fiscais dão mão de raspa.

Não me recordo do dia
Já estraguei a lembrança
Meu tio tem avó em casa
Foi fazer uma mudança
Pois para tirar a velha
Foram com ella a balança.

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GERALDO AMÂNCIO E A ARTE DA GLOSA

O grande poeta repentista Geraldo Amâncio: cearense que é um dos maiores nomes da poesia popular e da cultura nordestina contemporânea

* * *

Todas as glosas a seguir são da autoria de Geraldo  Amâncio

Mote:

Toda lei ultrapassada
Só favorece o bandido.

Se for um parlamentar
Pode ter crime a vontade
Que o dedo da impunidade
Não deixa lhe investigar.
Se alguém o denunciar
É sujeito a ser punido,
Processado e ser tangido
Pra o beco da emboscada;
Toda lei ultrapassada
Só favorece o bandido.

Mote:

Não tem nada parecido
Com o amor da mãe da gente.

A mãe nova ou mãe antiga
Tem coragem como loba
Se tem um filho que rouba
Pra defendê-lo se obriga
Se a polícia lhe investiga
Diz que o filho é inocente
Grita, chora, jura e mente
Defende o filho bandido.
Não tem nada parecido
Com o amor da mãe da gente.

* * *

Mote:

Pra que tanto tesouro acumulado
Se ninguém leva nada no caixão.

Não adianta um pecador enganar
E nessa vida viver da fase crítica
Entre luta, entre roubo, entre política
Pra depois nesse mundo ele enricar
Que se a gente também for comparar
Desde um rico para um pobre cristão
Para Deus vale mais quem pede um pão
Do que um presidente ou deputado
Pra que tanto tesouro acumulado
Se ninguém leva nada no caixão.

Mote:

O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Quem foi pai do folheto nordestino
Foi Agostinho Nunes do Teixeira,
Escreveu a história pioneira
Com os filhos Nicandro e Ugolino.
Prosseguiu com Germano e com Silvino,
Eis aí a primeira geração.
O romance no estado de embrião
Fervilhou no poder imaginário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Teve berço no chão paraibano,
Da cultura do povo um grande guia,
Registrou a primeira cantoria
Na peleja de Inácio com Romano.
A memória do padre Otaviano
Levou luz  onde havia escuridão,
O veículo maior de informação
E o primeiro jornal do proletário
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

O cordel memoriza a cantoria
Na peleja de Pinto com Marinho,
Com o Cego Aderaldo e Zé Pretinho,
O que via apanhou do que não via.
Zé Gustavo e Roxinha da Bahia,
Nisso tudo aparece até o cão,
Na peleja do Diabo e Riachão
Foi Assu testemunha do cenário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

A maior expressão do menestrel
Não há força que atinja o seu alcance
O campônio conhece por romance
Ou então por folheto de papel.
Só depois veio o nome de cordel,
Que em feira era exposto num cordão
Ou então numa lona pelo chão
E um poeta a cantar feito um canário.
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Registrando o passado e o presente,
Para tudo o cordel tem sempre espaço:
Pra amor; pra política, pra cangaço,
Romaria, promessa e penitente.
Retirante, romeiro, presidente,
Seca, fome, fartura, inundação,
Nele encontra o melhor documentário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE DISCUSSÃO

Mote glosado pelo saudoso poeta Manoel Filó: 

Cachaça no organismo
É necessário demais

MMF-

* * *

Manoel Filó glosando o mote:

Olinda! estes teus coqueiros
São fantasmas do passado.

De manhã, quando o sol raia
As ondas mais agitadas
Jogam rendas espalhadas
Por toda extensão da praia
O nevoeiro desmaia
No calçamento ondulado
Lavando o chão pisunhado
Por milhares de estrangeiros
Olinda! estes teus coqueiros
São fantasmas do passado.

* * *

Dimas Batista glosando o mote:

Passa tudo na vida…tudo passa
Mas nem tudo que passa a gente esquece.

Os carinhos da mãe enternecida
Os brinquedos dos tempos de criança
O sorriso fugaz de uma esperança
A primeira ilusão de nossa vida
O adeus que se dá por despedida
O desprezo que a gente não merece
O delírio da lágrima que desce
Nos momentos de angústia e de desgraça.
Passa tudo na vida…tudo passa
Mas nem tudo que passa a gente esquece.

* * *

Sebastião Dias glosando o mote

Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

Eu que queria uma imagem
Pra minha lua de mel
Topei uma cascavel
Foi essa a pior viagem
Largar, não tenho coragem,
Matar, eu não vou matar
É o jeito suportar
Minha cobra peçonhenta
Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

* * *

Rafael Neto glosando o mote:

No naufrágio do barco do amor
Você foi meu colete salva-vidas.

Na borrasca da onda violenta
O barquinho do amor passava apuros,
Afundando com quatro ou cinco furos
Onde a força da onda o arrebenta.
Nesta hora você se apresenta
E me abraça com as forças combalidas,
Me encoraja a ter fôlego sem medidas,
Pra vencermos as ondas do terror
No naufrágio do barco do amor
Você foi meu colete salva-vidas.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote:

Se já gozei no passado,
Posso sofrer no presente.

Para falar sobre a farra
Não é bom que eu me afoite,
Entrava à boca da noite,
Saía ao quebrar da barra.
Fui mais do que almanjarra,
Pra moer cana no dente,
Quando eu bebia aguardente,
Cerveja, vinho e quinado,
Se já gozei no passado,
Posso sofrer no presente.

* * *

Jânio Leite glosando o mote:

A saudade insistente fez parada
No batente da minha moradia.

De amor e paixão tô padecendo
Carregando essa magoa em meu peito
Já tentei escapar de todo jeito
Quando penso que não, tá florescendo
Fica dentro do peito remuendo
Me deixando em bastante agonia
Se tornou companheira dia-a-dia
Se alojou em meu eu e fez morada
A saudade insistente fez parada
No batente da minha moradia.

* * *

Um folheto de Apolônio Alves dos Santos

DISCUSSÃO DO CARIOCA COM O PAU-DE-ARARA

Apolônio Alves dos Santos (Guarabira-PB, 1926-1998)

Já que sou simples poeta
poesia é meu escudo
com ela é que me defendo
já que não tive outro estudo
vou mostrar para o leitor
que o poeta escritor
vive pesquisando tudo

Certo dia feriado
sendo o primeiro do mês
fui tomar uma cerveja
no bar de um português
lá assisti uma cena
agora pego na pena
para contar pra vocês

Quando eu estava sentado
chegou nessa ocasião
um velho pernambucano
daqueles lá do sertão
com a maior ligeireza
foi se sentando na mesa
pediu uma refeição

O português logo trouxe
um prato grande sortido
o nortista vendo aquilo
ficou logo enfurecido
com um gesto carrancudo
começou mexendo tudo
depois falou constrangido

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UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO MUITO ATUAL

Poetas cantadores Hipolito Moura e Jonas Bezerra improvisando com o mote em decassilabo:

Sepultei as lembranças do passado
e não vou mais padecer por causa dela

* * *

AS CONSEQUÊNCIAS DA COMPRA DO VOTO

Um folheto de Francisco Diniz

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Quem negocia seu voto
Prega a corrupção,
Não pode exigir depois
Nenhuma pequena ação
Daquele seu candidato
Que escolheu na eleição.

Aquele que vende o voto
Sem saber faz aumentar
A injustiça social,
Pois não pode nem cobrar
Trabalho do candidato
Depois que este ganhar.

O crápula que compra votos
Do povo não quer saber,
O que ele pretende mesmo
É adquirir o poder
Pra roubar dinheiro público
E assim enriquecer.

O triste que compra voto
Não tem nenhum compromisso
Com saúde, educação
Nem quer saber se há serviço
Pro homem trabalhador
Da favela ou do cortiço.

Cidadão que vende o voto
Por carência ou ingenuidade
É vítima dos poderosos,
Que vêm com ar de bondade,
Disfarçados de cordeiros
Pra esconder toda maldade.

Quem oferece seu voto
Em troca de uma vantagem
Contribui para aumentar
O capitalismo selvagem
Que instalou-se em nosso meio
E é pai da politicagem.

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SEBASTIÃO DA SILVA E MOACIR LAURENTINO: UMA GRANDE DUPLA EM CANTORIA

Moacir Laurentino e Sebastião da Silva improvisando num Quadrão Perguntado:

* * *

Sebastião da Silva e Moacir Laurentino trabalhando o mote

Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

Acho linda as melodias
de Sivuca, o sanfoneiro,
do sertão ao chão brejeiro,
as produções e poesias,
do fole de Abdias,
filho de Taperoá,
Genaldo, do Ceará,
caboco, cabra da peste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

Irrigaram Petrolina,
embora com pouca chuva,
hoje em dia a sua uva
tem mais que na Argentina,
os frutos têm vitamina,
da uva ao maracujá,
de Pau D’Arco a Camará,
do Mororó do Agreste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

Manuel Xudu, violeiro,
filho dessa região,
dos poemas de Cancão,
das estrofes de Granjeiro,
também Pinto de Monteiro,
de Silvino Pirauá,
Odilon Nunes de Sá,
poeta pra todo teste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

Nordeste que não enrica,
não é terra valorosa,
que só tem planta verdosa,
juazeiro e oiticica,
o sul da gente critica,
Rio Grande e Paraná,
mas do jeito que ele está,
é sujeito à fome e peste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

O petróleo sergipano,
carne de sol em Caicó,
nosso sal de Mossoró,
e o sisal paraibano,
a pesca do oceano,
turismo que aí está,
e no norte do Quixadá,
sertanejo ainda investe.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

É o Cariri pelado,
é o cinzento sertão,
na quentura do verão,
deixa o mato sapecado,
não tem um rio de nado;
do jeito que a coisa está,
talvez muita gente vá,
daqui para o sudoeste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Sebastião da Silva

Se houvesse irrigação
e uma boa açudagem,
não teria desvantagem
nos períodos do verão,
teria muito algodão,
que a produção ainda há,
mas do jeito que está,
na seca ninguém investe.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

Moacir Laurentino

Em São Paulo tem riqueza,
em Brasília tem distrito,
o nordeste é esquisito,
não tem água pra represa,
Paraná e redondeza,
conheço o café de lá,
tem café do Paraná,
gosto do café que preste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

* * *

Sebastião da Silva e Moacir Laurentino em cantoria improvisada

Moacir Laurentino

A meu filho dar estudo,
e o curso superior,
para avistar mais na frente
o meu menino doutor
dizendo: não me envergonho
do meu pai ser cantador.

Sebastião da Silva

Seja ou não seja doutor,
quero criar meus guris,
com moral e com capricho,
honrando o nosso País,
que às vezes anel de doutor
não faz ninguém ser feliz.

Moacir Laurentino

Ir à missa na matriz,
morar num canto escondido,
ir caçar à tardezinha,
com espingarda de ouvido,
e um cacete de jucá,
pra dar carreira em bandido.

Sebastião da Silva

Queria ser prevenido,
pra manhã do meu roçado,
com inverno todo ano,
com muita ração pra o gado,
e um cavalo bom de boi
pra nele eu andar montado.

OITO MESTRES DO IMPROVISO E A DISCUSSÃO DO MACUMBEIRO COM O CRENTE

Diniz Vitorino

E as abelhas pequenas, sempre mansas
Com as asas peludas e ronceiras
Vão em busca das pétalas das roseiras
Que se deitam no colo das ervanças
Com ferrões aguçados como lanças
Pelo cálix das flores bebem essência
E fazem mel que os mestres da Ciência
Com os séculos de estudo não fabricam
Porque livros da Terra não publicam
Os segredos reais da Providência.

* * *

Manoel Bentevi

Da bobina para o distribuidor
Há um cabo que passa uma centelha clara
Meto o pé no arranco, ele dispara
Toda vez que acelero meu motor
O combustível entra no carburador
A entrada de ar transforma o gás
Com a compressão que ele faz
Forma o jato, o êmbolo vai subindo
Vai queimar na cabeça do cilindro
A fumaça da gasolina sai por trás.

* * *

Mariana Teles

Toca a brisa da noite no portão
O cabelo se assanha com o vento
O balanço da rede em movimento
E um rádio tocando uma canção
A saudade arranhando um coração
E a duvida de um sempre, ou nunca mais
Uma lágrima caindo e o vento faz
Se espalhar pela face entristecida
Eu na rua buscando achar saída
Pra tristeza que a tua falta trás.

Faço um verso, misturo com aguardente
Um cinzeiro com as cinzas do veneno
Numa noite sem lua me enveneno
Por não ter o clarão do céu presente
O espelho espelhando em minha frente
A metade de um todo que foi nosso
Eu procuro não ver, mas tem um troço
Pra abrir os meus olhos quando fecho
Sem ter sono, inquieta me remexo
Que dormir sem você ,sei que não posso.

Vem o vento, tocar-me bem mais forte
O relógio passando sem medida
Ao meu lado, um copo de bebida
Refletindo o futuro : que é a morte …
Nele afogo o desgosto, já que a sorte
Resolveu repartir nossa união
Te guiando pra outra direção
E deixando meus olhos sem os teus…
De lembrança ,restou o teu adeus
E a saudade entupindo o coração.

* * *

João Lourenço

Eu já passei tanta coisa
Que na vida nem pensava
Pra minha felicidade
A mulher que eu procurava
Deus teve pena de mim
Mostrou aonde ela estava

* * *

Fenelon Dantas

O rádio é para se ouvir
E todo mundo entender
O telefone é melhor
Para a gente ouvir sem ver
No telefone eu namoro
Sem minha mulher saber.

* * *

Dimas Batista

Na vida material
cumpriu sagrado destino :
o Filho de Deus, divino,
nos deu gloria espiritual.
Deu o bem, tirou o mal,
livrando-nos da má sorte.
Padeceu suplicio forte,
como o maior dos heróis.
Morreu pra dar vida a nós :
A vida venceu a morte.

* * *

José Adalberto

Quando aquela saudade impaciente
Me coloca no leito do seu colo
Minhas pernas não sentem mais o solo
Minha alma flutua intensamente
Fecho os olhos e a vejo em minha mente
Se despindo pra mim e eu pra ela
Parecendo uma cena de novela
Mas, no fundo, acontece de verdade
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela.

* * *

Dedé Monteiro

Vendo tanto açude cheio,
É necessário que eu diga:
“São José, peça a Jesus
Pra que essa chuva prossiga:
Transborde todas as grotas,
Encha ‘Rosário’, encha ‘Brotas’,
Deixe o meu Sertão contente,
Molhe o chão do meu roçado,
Acabe a fome do gado
E mate a sede da gente!”

* * *

DISCUSSÃO DO MACUMBEIRO E O CRENTE

Gonçalo Ferreira da Silva

Carnaval e futebol
ficaram pra se curtir,
Os santos ensinamentos
são para o crente seguir,
religião e política
embora mereçam crítica
não são pra se discutir

Evangelista e Pilintra
não pensavam do mesmo jeito,
pois enquanto Evangelista
diz que foi por Cristo aceito
Pilintra bate no bumba
dizendo que é na macumba
que se faz tudo bem feito.

Porém, embora os dois pensem
de maneira diferente,
nunca tinham discutido
porque até o presente
não tinham, por sorte rara,
oportunidade para
um encontro frente a frente.

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UM BALAIO DE IMPROVISOS E UM FOLHETO DE GRACEJOS

manoel_xudu

O grande poeta improvisador paraibano Manoel Xudu (1932-1985)

Manoel Xudu

Admiro o pica-pau
Trepado num pé de angico,
Pulando de galho em galho
Taco, taco, tico, tico,
Nem sente dor de cabeça,
Nem quebra a ponta do bico.

*

Minha mãe que me deu papa
Me deu doce, me deu bolo
Mamãe que me deu consolo
Leite fervido e garapa
Minha mãe me deu um tapa
E depois se arrependeu
Beijou aonde bateu
acabou a inchação
Quem perde mãe tem razão
De chorar o que perdeu

*

Quando eu tava no hospital
Pensei que não escapava
Que até um pires de doce
Que a enfermeira me dava
Só era doce no pires
Na minha boca amargava.

*

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranqüilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo

* * *

Zé Adalberto

Quando aquela saudade impaciente
Me coloca no leito do seu colo
Minhas pernas não sentem mais o solo
Minha alma flutua intensamente
Fecho os olhos, lhe vejo em minha frente
Se despindo pra mim e eu pra ela
Parecendo uma cena de novela
Mas, no fundo, acontece de verdade
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela.

*

A cascata não canta igual a gente
Mas chuvendo ela vira uirapuru
E um pedaço de pau de mulungu
De carona, viaja na enchente
A borracha da chuva lentamente
Sobre as páginas do chão vai se esfregando
E por capricho, onde passa é apagando
A história que a seca havia escrito
Quando eu ouço o trovão no infinito
Imagino ser Deus que está gritando.

*

Vim do ventre materno e me criei
Nesse Ventre Imortal da Poesia
Sou poeta e matuto, disso eu eu sei
Mas estar hoje, aqui, eu não sabia
Doutra terra, se eu fosse, amava enfim
Mas Jesus escolheu esta pra mim
E só o fato de eu ser de Itapetim
Já recebo homenagem todo dia!!!!!!

* * *

Dimas Batista

Nossa vida é como um rio,
no declive da descida:
as águas são as saudades
de uma esperança perdida,
e a vaidade a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Louro Branco

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas

*

Assaltei um sancristão
Lhe botei em mau caminho
Dei 3 tapas em meu padrinho
Sexta Feira da Paixão
Dei em mãe um empurrão
Cheg’ela caiu pra traz
E uma nega emprensei mais
Do que um queijo na prensa
Quem fez o que fiz não pensa
Porque se pensar não faz

* * *

Severino Ferreira  

Na hora que a morte vem
Tem a sua foice armada
Que não tem medo de nada
E nunca respeitou ninguém
Com a força que ela tem
Elimina a criatura
Bota um cordão na cintura
Caixão preto e vela acesa
A vida é uma incerteza
A morte é certeza pura.

*

O Nordeste entregou o meu espaço
Com o som da viola eu não me assombro
Que eu não tenho uma fita no meu ombro
Nem estrela na farda do meu braço
Mais pegando a viola eu também faço
De improviso a maior engenharia
Tenho taça na minha galeria
Sem anel, sem viola e sem patente
Deus me deu a viola de presente
Se eu deixar de cantar é covardia.

* * *

UM FOLHETO DE MANUEL CAMILO DOS SANTOS

O SABIDO SEM ESTUDO

Deus escreve em linhas tortas
Tão certo chega faz gosto
E fez tudo abaixo dele
Nada lhe será oposto
Um do outro desigual
Por isto o mundo é composto

Vejamos que diferença
Nos seres do Criador
A águia um pássaro tão grande
Tão pequeno um beija-flor
A ema tão corredeira
E o urubu tão voador

Vê-se a lua tão formosa
E o sol tão carrancudo
Vê-se um lajedo tão grande
E um seixinho tão miúdo
O muçu tão mole e liso
O jacaré tão cascudo

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CINCO MESTRES DO IMROVISO E UM FOLHETO DE SOGRA

Poeta repentista Elísio Felix da Costa, o Canhotinho (1912 -1965)

* * *

Canhotinho

Estou velho e acabado
Já com a vista cansada
E sendo numa distância
Daqui pr’aquela calçada
Mulher inda vejo o vulto
Mas homem eu não vejo nada.

* * *

Lima Júnior

Nascido num pé de serra
Qual facheiro em pedregulho,
Venho cantar minha terra,
Explicitar meu orgulho!
Pajeuzeiro da gema,
Da terra onde a seriema
Canta saudosa à tardinha,
Se alguém um dia cantou
A terra que lhe criou,
Também vou cantar a minha!

* * *

Pedro Rômulo Nunes

Este cacto verdejante
De muitos anos de idade
Serve de maternidade
Para qualquer avoante
Com este porte gigante
Acolhe bem sem tabu
Rolinha, xexéu e anu
Que vem pra fazer seu ninho
Recebe amor e carinho
Do pé de mandacaru.

Seus espinhos vigiando
Sempre alerta noite e dia
Ninguém tem a ousadia
De ficar atrapalhando
Só entra se for voando
Tem segurança de açu
Nem mesmo a surucucu
Querendo se alimentar
Não consegue aproximar
Do pé de mandacaru.

* * *

Pinto do Monteiro

Sendo com calma eu aceito,
com desaforo eu respondo,
porque minha natureza
é como a do maribondo:
nem que morra machucado,
meu ferrão eu não escondo.

* * *

Zé Limeira

Um sujeito chegou no cais do porto
E pediu emprego de alfaiate
Misturou cinturão com abacate
E depois descobriu que estava morto
Ligou seu rádio no focinho de um porco
E afogou-se num chá de erva cidreira
Requereu um diploma de parteira
E tocou numa ópera de sinos…
Eram mãos de dezoito mil meninos
E não sei quantos pés de bananeira.

*

Eu já cantei no Recife
Na porta do Pronto Socorro
Ganhei duzentos mil réis
Comprei duzentos cachorro
Morri no ano passado
Mas este ano eu não morro…

*

Pedro Álvares Cabral
Inventor do telefone
Começou tocar trombone
Na volta do Zé Leal
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumentos
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento!

* * *

A ALMA DE UMA SOGRA – Leandro Gomes de Barros

(Na ortografia de época em que foi escrito)

Em dias do mez passado
Vi n´uma reunião,
Um trocador de cavallos,
Um velho tabellião,
Um criado de um vigário
E a avó de um sachristão.

Veio uma dessas ciganas
Que lê a mão da pessoa,
Leu a mão de um velho e disse:
Vossa mercê anda atôa,
De cinco sogras que teve
Não obteve uma boa.

É muito exacto cigana
Disse o velho a suspirar,
A melhor de todas cinco,
Essa obrigou-me a chorar,
Depois de morta tres mezes,
Quase me faz expirar.

Disse o velho, minha vida,
Dá muito bem uma scena,
Dá um romance e um drama,
E a obra não é pequena,
O velho tabelião
Quase que chora com pena.

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MEIA DÚZIA DE SONETOS

 

Patativa do Assaré (Mar/1909 — Jul/2002)

* * *

O PEIXE – Patativa do Assaré

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

* * *

BOI DE CARRO – Jansen Filho

Há muito tempo aquele boi padece.
Levando aquele carro tão pesado!
Seu próprio dono não se compadece
de vê-lo triste como um desgraçado!

Num mar de pranto, onde o tormento cresce,
pelas mãos dos perversos foi jogado!
Flor do heroísmo que desaparece,
nos abismos das cinzas do passado!

Enquanto geme carregando a canga,
a humildade, com certeza, manga,
por vê-lo padecer com tanta calma!

Só eu lamento o seu sofrer medonho
porque também carrego, assim, tristonho,
um carro de ilusões chorando n’alma!

* * *

MORRIA O SOL NO OCASO – Otacílio de Azevedo

Morria o sol no ocaso e o olhar de minha amada
qual rubro sol distante, a rutilar, morria…
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!

Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia…

O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminho,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou…

Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!

* * *

MEU AMIGO POETA – Noé de Job Patriota

Meu amigo poeta meu irmão
Companheiro de farra em toda mesa
Nossa alma poética vive acessa
Com a luz da divina inspiração

Faça um verso repleto de ilusão
Que a ilusão do poema é mensageira
Que um poeta que canta a vida inteira
Guarda dádivas de amor no coração

Numa mesa de bar fica bebendo
E assim sempre o passado revivendo
Se embriaga com goles de emoção

Peregrino das noites inquietas
Andarilho das sendas incompletas
Navegante dos mares da paixão.

* * *

DIVERGÊNCIA – Manoel Filó

Seja grosseira, me responda aos gritos
Encha de mágoa o meu interior
Seus seios virgens, quentes e bonitos
Também tiveram culpa em minha dor.

Sem machucar os corações aflitos
Deve ser muito bom morrer de amor
Seus olhos mostram dois aerólitos
Enfeitando o espaço ao sol se pôr.

Já que não posso merecer seu porte
Fico parado condenado a sorte
Que não nos trouxe condições iguais.

Eu não sou cofre de guardar segredo
Ou tive culpa de nascer mais cedo
Ou foi você que demorou demais.

* * *

DESARMAI VOSSOS FILHOS – Pompílio Diniz

Desarmai vossos filhos pequeninos
Para depois não vê-los transformados
Em párias marginais e celerados
Cruéis e perigosos assassinos!

Lembrai-vos de que foram tais meninos
Tão cedo, seus instintos despertados
Por armas e brinquedos simulados
De “mocinhos”, “bandidos” e traquinos!

Desarmai vossos filhos, desarmai-os
Para depois não tê-los nos ensaios
Da delinquência e do ódio prematuro!

Não dei aos vossos filhos tais presentes
Esses brinquedos de armas são sementes
De crimes que plantais para o futuro!

TRÊS POEMAS DE POMPÍLIO DINIZ

A REVOLTA DOS MACADOS, COM ROLANDO BOLDRIN

* * *

TRASTE RUIM

Tem gente no mundo assim
Só vê mardade e injustiça
Ninguém presta, tudo é ruim
Cum todo mundo ele inguiça
E faiz logo sururú
É taliquá o urubú
Qui só fareja carniça

No chiquêro da mintira
Joga lama em quarqué nome
É como o porco que vira
A gamela aonde come
Uma ração farta e boa
Pru riba até da pessoa
Qui vem matá sua fome

Seu coração é um pote
Aonde se ajunta a peçonha
Da cobra que dá o bote
Naquele fúria medonha
Dispois se esconde e se enrosca
Cuma quem sintiu a cósca
Do remorso e da vergonha

Só véve má sastifeito
E a todo mundo detesta
Só ele num tem defeito
Só ele é pessoa honesta
E esse irmão de Caim
É cuma um pau de cupim
Que nem pru fogo num presta

Pois gente assim tem o dão
E a pretensão miseráve
De num gostá do qui é bão
Ou do qui seja agradáve
É Cuma uma ave agorenta
Que onde abre o bico afujenta
Toda alegria das ave…

Só fala em morte e em duença
E noutras coisa pió
Sua alma é cumu uma dispensa
Qui só tem muafo e pó
Vê tudo preto e vermeio
E traiz nos zóio os ispeio
Do mais triste por do só…

* * *

O FERRÊRO

Seu doto, eu fui ferrêro
Eu trabaiei sem cansaço
Martelano férro e aço
Na bigorna e no brazêro.
Nessi trabaio grossêro
Maiano férro, maiano
E sempre me lastimano
Dessa vida de ferrêro

Ví um dia um lenhadô
E gostei du seu trabaio
Abandonei o meu maio
Minha bigorna parô
Aí entonçe dotô
Eu tumei ôto rotêro
Eu dexei dí sê ferrêro
E mi tornei lenhado

Trabaiano di machado
Nu meio daquelas brenha
Nos mato cortano lenha
Ganhano meu pão suádo
Esse trabaio pesado
Calos de sangue dexô
Nessas mão de lenhadô
Trabaiano de machado

Um dia vi um pedrêro
Um mesti di cunstrução
Ganhando tombém seu pão
Num sirviço mais manêro
Invejei o cumpanhêro
O meu machado parô
Deixei di sê lenhadô
E me tornei um pedrêro…

De prumo e cuié na mão
Eu cumeçei trabaiá
Dia e noite sem pará
Pra mode ganhá meu pão
Disimpenhando a função
No serviço rutinêro
Da prufissão de pedrêro
De prumo e cuié na mão

Um dia vi o pintô
Trabaiano de pincé
Parei a minha cuié
Meu prumo também parô
A minha vida mudô
Entonçe mais que ligêro
Eu dexei di sê pedrêro
E me tornei um pintô

Pintano, sempre pintano
Cuntinuei a vivê
Cumprindo com meu devê
Trabaiano, trabaiano
Meu pão suado ganhano
Nessa vida de pintô
E de tudo quanto era cô
Pintano, sempre pintano

Um dia vi o escritô
Criano da sua lavra
Cum a tinta, as palavra
Num quadro de mais valô
Aí eu dexei de sê pintô
Abandonei meu pincé
Agarrei pena e papé
E me tornei escritô…

Viajei o mundo intêro
E tudo quanto ia veno
Fui iscreveno, iscreveno
Secano muitos tintêro.
Eu qui já fui bom pedrêro
Eu qui já fui lenhadô
Pruquê tornei-me escritô
E dexei di sê ferrêro?

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

João Paraibano – (1953-2014)

* * *

João Paraibano

Mote:

Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Já nasci inspirado no ponteio
Dos bordões da viola nordestina
Vendo as serras banhadas de neblina
Com uma lua imprensada pelo meio
Mãe fazendo oração de mão no seio
E uma rede ferindo o armador
Minha boca pagã cheirando a flor
Deslizando no bico do seu peito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Me criei com cuscuz e leite quente
Jerimum de fazenda e melancia
Com seis anos de idade eu já sabia
Quantas rimas se usava num repente
Fui nascido nas mãos da assistente
Na ausência dos olhos do doutor
Mamãe nunca fez sexo sem amor
Papai nunca abriu mão do seu direito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

* * *

João Paraibano

Mote:

Vou no trem da saudade todo dia
Visitar o lugar que eu fui criado.

No vagão da saudade eu tenho ido
Ver a casa que antes nasci nela
Uma lata de flores na janela
A parede de taipa e o chão varrido
Milho mole esperando ser moído
Numa máquina com ferro enferrujado
Que apesar da preguiça e do enfado
Mãe botava de pouco e eu moía
Vou no trem da saudade todo dia
Visitar o lugar que eu fui criado.

* * *

Moyses Lopes Sesyom

Mote:

Eu fiz um saco de meia
pra suspender os colhões.

Senti grossa a cordoveia,
quando vi, fiquei doente,
apressado, incontinente
eu fiz um saco de meia.
Depois da bruaca cheia
suspendi por dois cordões,
senti doer os tendões
onde a mulher tem tabaco,
eu não tenho, uso o meu saco
pra suspender os colhões.

* * *

Moyses Lopes Sesyom

Mote:

O saco que eu sempre usava
Não cabe mais os colhões.

Por esta não esperava,
De tristezas estou carpido,
Hoje vi, está perdido
O saco que eu sempre usava.
Foi uma sentença brava
Pra tirá-la em grilhões,
Porém alego as razões
Para as quais tenho de sobra,
O saco deu uma dobra
Não cabe mais os colhões.

* * *

Salomão Rovedo

Mote:

Pobre cu que não tem sorte
Solta um peido a merda vem.

Um ataque agudo e forte
Bem pior que a dor de parto
Rasga violento e farto
Pobre cu que não tem sorte.
Mais forte que a dor da morte
E dor de viado também
Castiga sempre alguém
Como fosse dor de corno
A tripa faz um contorno
Solta um pedido a merda vem.

* * *

Nelson Nunes Farias

Mote:

Lá vem o sol colorindo
O resto da madrugada.

A noite que passa lenta
Me traz rios de saudade
De mim não tem piedade
No céu a lua se ostenta
Parecendo desatenta
É tela sendo pintada
Para ser admirada
Mais um dia que vem vindo
Lá vem o sol colorindo
O resto da madrugada.

Renova-se a esperança
Chegada de um novo dia
Como um passe de magia
As nuvens todas em dança
Brincando feito criança
No ventre sendo gerada
De cores sendo pintada
Parecem dizer sorrindo
Lá vem o sol colorindo
O resto da madrugada.

* * *

Dimas Bibiu

Mote:

Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

Na porta de um cabaré
Bem na esquina da rua
Tem mulher sentada nua
Outras duas “beba” em pé
Velha que pede um café
Porque não tem refeição
Mulher com chave na mão
Com raiva de quem não veio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

A noite passa acordada
Bebe, fuma e adultera
Chora pensando em quem era
Semilouca embriagada
Ver briga, tiro e facada
Tapa, soco e empurrão
Colegas mortas no chão
Quando finda o tiroteio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

Mulher dum corpo fogoso
Mas seu olhar não tem brilho
Porque despreza seu filho
E abandona o esposo
E vai procurar repouso
Na casa da corrução
Lá recebe ingratidão
Desgosto, mágoa, aperreio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

No cassino a meretriz
Adora o álcool e o fumo
Baliza que aponta o rumo
Do seu fadário infeliz
E seu mal mostra a raiz
Quando chega à conclusão
De levar um empurrão
Dum preto, andrajoso e feio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição

Mulheres prostituídas
Que seu pudor não quiseram
E no cabaré vieram
Pecar com milhões de vidas
Suas veias poluídas
O vento em deformação
Recebe fecundação
Morre o feto, seca o seio
Cabaré cortiço cheio
De abelhas da perdição.

O NATAL NA VISÃO DE UM POETA NORDESTINO

anatal

O VERDADEIRO NATAL – Um folheto de Azulão

Peço a Deus Pai Poderoso
Inspiração divinal
Com a mensagem sagrada
Da mansão celestial
Eu vou escrever rimado
O verdadeiro Natal

Natal de Jesus Menino
Templo de amor e bondade
Data santa que registra
O símbolo da cristandade
Que se resume em três coisas
Salvação, paz e verdade

Jesus o Menino Deus
Filho do Pai Criador
Que veio ao mundo tirar
As culpas do pecador
Depositando nos homens
Bondade, paz e amor

Portanto o seu nascimento
É para ser festejado
Com paz e amor ao próximo
Cumprindo o dever sagrado
De remendar o pobre
Faminto e desamparado

O verdadeiro Natal
De Jesus Nosso Senhor
É dar a criança pobre
Amparo consolador
E ter a seu semelhante
Como a si, o mesmo amor

Porém o homem de hoje
De Deus estar muito ausente
Confundindo o seu amor
Com vaidade imponente
E dando a humanidade
Outro Natal diferente

Porque o Natal de hoje
Estar sendo transformado
Em festa, luxo e banquete
Que descristianizado
Toma um sentido contrário
Do que já foi no passado

É este o Natal sem Cristo
Que o homem faz hoje em dia
Movendo festa mundana
Com baile e bebedoria
Transformando a santa festa
Em farra e desarmonia

É este o Natal que tira
A fé no cristianismo
Encarretando família
Para um cenário de abismo
Trocando a festa de Cristo
Por coisas do paganismo

Jesus não ama a riqueza
Grandeza nem burguesia
Não escolheu palacete
Princesa nem fidalguia
Nasceu de uma virgem pobre
Numa manjedoura fria

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POEMA DE NATAL – VINICIUS DE MORAES


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