A POESIA NORDESTINA ESTÁ DE LUTO

Encantou-se ontem, dia 18 de janeiro, aos 75 anos, o repentista Francisco Maia de Queiroz, conhecido como Louro Branco.

Um dos maiores nomes da cultura popular nordestina. Um cantador repentista talentoso e genial.

Outro grande poeta nordestino, Geraldo Amâncio, assim se expressou sobre a morte do amigo:

A viola calou-se, o som sumiu
Toda rima está vesga, o verso manco
Com a morte do grande Louro Branco
Que a convite de Deus ao céu subiu.
Se tem substituto, ninguém viu
No passado, nem tem atualmente.
Nós perdemos a última semente
Que o roçado do verso safrejou
A lagarta do tempo devorou
Os maiores artistas do repente.

Certa vez, numa cantoria com Sebastião da Silva, outro poeta de primeira grandeza, Louro Branco fez o seguinte improviso:

No dia que eu morrer
Deixo a mulher sem conforto
Roupas em malas guardadas
E o chapéu em torno torto
E a viola com saudades
Dos dedos do dono morto.

Cantando com Valdir Teles, o colega terminou um verso dizendo assim:

Qualquer dia, meu colega
Vou conhecer sua casa.

Louro pegou a deixa e respondeu na bucha:

Meu cumpade, a minha casa
É uma casa tão feia…
D’um lado é um cemitério
Do outro lado a cadeia
D’um lado se come terra
Do outro se come peia.

Noutra oportunidade, Louro exaltou a Natureza com este improviso:

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas

* * *

Francisco Maia de Queiroz, o Louro Branco, (Set/1943 – Jan/2018)

* * *

No vídeo abaixo, Valdir Teles e Louro Branco improvisando com o mote

É melhor matar de faca,
do que matar desse jeito.

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Dedé Monteiro, um dos maiores nomes da poesia nordestina contemporânea
* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

A vida só tem sentido
Enquanto houver ilusão.

Entrei na maré do vício
Sem conhecer suas águas,
Tentando afogar as mágoas
Do meu cruel sacrifício.
Quis me arrepender no início,
Mas faltou disposição…
Fiquei procurando, em vão,
O que nem tinha perdido…
A vida só tem sentido
Enquanto houver ilusão.

* * *

Zé Adalberto glosando o mote:

A cultura é o manto da igualdade:
Não destrói, não exclui, nem discrimina.

A cultura é o símbolo mais perfeito
Da história das civilizações
Porque cria e preserva tradições
Com orgulho, emoção, dom e respeito
Coração maternal sem preconceito
Com escolha, etnia ou melanina
Não aceita influência nem propina
Mas aceita somar boa vontade
A cultura é o manto da igualdade:
Não destrói, não exclui, nem discrimina.

* * *

Roberta Clarissa Leite glosando o mote:

A porteira do sítio onde eu morava
Se fechou nas lembranças do passado.

São José do Egito no sertão
Um pedaço bonito da infância
As lembranças perdidas na distância
Das viagens ao sítio pés no chão
A lembrança transborda na visão
O olhar soluçante e embaçado
No ouvido o barulho som do gado
Que o chocalho pesado carregava
A porteira do sítio onde eu morava
Se fechou nas lembranças do passado.

Que saudade do pé de umbuzeiro
Guardião do meu sítio já vendido
No registro o seu nome é esquecido
Como um tronco nascido no oiteiro
Laranjeira que ainda sinto o cheiro
Que dos frutos o suco foi tirado
Resta hoje algum galho pendurado
No quintal da casinha onde eu brincava
A porteira do sítio onde eu morava
Se fechou nas lembranças do passado.

* * *

Hélio Leite glosando o mote:

Derramei o meu pranto de vaqueiro
No portal da fazenda abandonada.

Eu nasci nas quebradas do sertão,
Sobre o lombo de um potro me criei,
Com prazer minha vida dediquei
A cuidar do rebanho do patrão;
Campear sempre foi minha paixão…
Uma seca chegou inesperada,
Perdurou, acabou com a boiada,
Quase mata de sede o marmeleiro…
Derramei o meu pranto de vaqueiro
No portal da fazenda abandonada.

* * *

Otacílio Pires glosando o mote:

É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

Uma profissão maldita
Vendedores de ilusão
Mentem, sempre, em profusão
Falas que a gente acredita
Haja conversa bonita
Problemas têm solução
Votamos de coração
Em gente sem confiança.
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

* * *

Edmilton Torres glosando o mote:

Não sei se estou no começo
No meio ou fim da ladeira.

Sessenta e dois percorri
Nas estradas do destino
Eu não sou mais um menino
Mas ainda não morri
Se até hoje eu resisti
Sem cansar, nessa carreira
Vou manter a dianteira
Sem queda e sem tropeço
Não sei se estou no começo
No meio ou fim da ladeira.

Deus traçou a minha meta
Sem me dar conhecimento
Só revelou o talento
Que me deu, de ser poeta
A trajetória completa
Desta vida aventureira
Meu Deus a conhece inteira
Mas ainda eu não conheço
Não sei se estou no começo
No meio ou no fim da ladeira.

Cada passo na estrada
É incerto e inseguro
Os mistérios do futuro
Dificultam a caminhada
Há sempre uma encruzilhada
Um abismo, uma barreira
Ora chuva, ora poeira
Mesmo assim não esmoreço
Não sei se estou no começo
No meio ou no fim da ladeira.

OITO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJO

Leandro Gomes de Barros  (Nov/1865 – Mar/1918)

* * *

Leandro Gomes de Barros

Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.

* * *

Oliveira de Panelas

Por este espaço onde moro
Meu sonho é tão colorido
Que eu tenho a doida impressão
Que ele foi construído
Por várias tintas confusas
De um arco-íris mexido.

* * *

Lourival Batista

És como milho de pobre
Que sempre se desmantela:
Vem o verão, ele murcha,
Vem a chuva, ele amarela,
Quando bota alguma espiga,
Certamente está banguela.

* * *

João Paraibano

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

Pinto do Monteiro

Aonde eu chego,não vi
Mal que não desapareça
Raposa que não se esconda
Bravo que não me obedeça
Letrado que não me escute
Cantor que não endoideça.

* * *

Cego Aderaldo
(No decorrer de uma visita ao Rio de Janeiro)

O clima do meu sertão
É mais quente e mais sadio,
Não é um clima abafado
Como este clima do Rio.
O sapo do Ceará,
Vindo aqui morre de frio.

* *

João Firmino
(Quando do falecimento do Cego Aderaldo)

Foi a forte aroeira que ruiu
Ao contato do gume do machado.
Foi o ferro melhor já fabricado
Que o mercado do mundo jamais viu;
Foi o trem, sem destino, que partiu,
E ao longo da estrada deu o prego;
Como Homero, também, ele era cego
A quem todo o seu povo admirava…
Para ser o próprio Homero só faltava
Ao invés de cearense ser um grego!

* * *

Manoel Bentevi

Na vida ninguém confia
Em nada sem ter certeza
São obras da natureza
Tudo que a terra cria:
Gente, ave, bicharia,
Tudo começou assim.
O homem é quem é ruim
Nada bom ele planeja
Por muito forte que seja
A morte pega e dá fim.

* * *

Um folheto de Apolônio Alves dos Santos

A MOÇA QUE SE CASOU 14 VEZES E CONTINUOU DONZELA

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No outro século passado
na fazenda Jequié
havia uma donzela,
religiosa de fé
no seu batismo lhe deram
o nome de Salomé

Salomé era uma virgem
de estimada simpatia,
filha de um fazendeiro
criou-se muito sadia,
era a moça mais formosa
do estado da Bahia

Contava 22 anos
aquela jovem tão bela
sempre, sempre aparecia,
namorado para ela
casou-se 14 vezes
e continuou donzela.

Um daqueles namorados,
que Salomé arranjou,
era um rapaz forte e moço
em poucos dias casou,
mas sua morte súbita
todo mundo admirou.

Porque em menos dum ano
que ele tinha casado,
começou enfraquecendo
pálido e desfigurado
a noite deitou se vivo
e amanheceu finado.

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CINCO MOTES BEM GLOSADOS

(Quando do falecimento do cantor/compositor Luiz Melodia)

Arievaldo Vianna glosando o mote

O Brasil está sem ritmo,
Sem letra e sem Melodia.

No dia quatro de agosto
De dois mil e dezessete
Recebi esse bofete
Que só me causou desgosto
Limpei a lágrima do rosto
Era outro que eu queria
Num funeral, nesse dia,
Mas mudaram o logaritmo
O Brasil está sem ritmo ,
Sem letra e sem Melodia.

Nesse mês Luiz Gonzaga
Fez sua triste partida;
Raul fez a despedida
Sob o fio dessa adaga…
Getúlio findou a saga
Quando a bala o atingia.
E a CLT sofria
Os golpes do ilegítimo
O Brasil está sem ritmo ,
Sem letra e sem Melodia.

Luiz Melodia (Jan/51 – Ago/2017)

* * *

Severino Pinto glosando o mote

Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

Vaqueiro é pra tirar couro,
Espichar, fazer correia,
Azeitar cabresto e peia,
Tirar leite e beber soro,
Visitar o logradouro,
Curtir couro, fazer sola,
Pra rabicho e rabichola,
Ferrar gado e capar bode.
Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

* * *

Jó Patriota glosando o mote

Quero ver teus seios puros
Nas conchas de minhas mãos.

Estes teus seios pulados,
Que estão me desafiando,
São dois carvões faiscando,
No fogão dos meus pecados,
São dois punhais afiados,
Que já ferem dois cristãos,
Para o meus lábios pagãos,
São dois sapotis maduros,
Quero ver teus seios puros
Nas conchas de minhas mãos.

* * *

Ademar Rafael Ferreira glosando o mote:

É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

Chove tanto no Pará
Que inunda Tucuruí
Não chove em Ouricuri
Sertânia e Jabitacá
Todo ano Marabá
Sofre com inundação
O que não vai ao sertão
Por aqui vem com bonança
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

Aqui sobra em Santarém
Castanhal e Altamira
Porem faz falta em Tabira
Floresta e Exu também
Eu vou pedir a alguém
Lá da tribo Gavião
Para em nossa região
Dançar uma pajelança
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

A terra esturricada
Que tem no meu Pajeú
Você não ver no Xingu
Onde a terra é encharcada
No campo não tem ossada
Como tem em Solidão
Em Sumé, em Conceição,
Lugares que a seca alcança
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

* * *

José Alves Sobrinho glosando o mote

Cantando hei de encontrar
tudo que perdi chorando.

Cantando sempre vivi,
o cantar me dá prazer,
cantando hei de morrer,
porque chorando nasci,
chorando sempre perdi,
quero cantar até quando
Deus quiser, sempre sonhando,
sem gemer e sem chorar.
Cantando hei de encontrar
tudo que perdi chorando.

POEMA NATALINO

PAPAI NOEL – Um poema de Jansen Filho

Por que, Papai Noel, no seu gesto sensato,
Você sempre esqueceu o meu pobre sapato,
Meu sapato marrom que o tempo desmanchou?
Foi você quem me fez triste e desiludido,
Porque, nos meus natais de menino esquecido,
Esperei tanto tempo e você não chegou!…

Você foi muito bom para as trêfegas crianças,
Só não foi para mim que vivi de esperanças,
Desejando abraçá-lo e você não chegava.
Neste último Natal, preso à bondade sua,
Você com seu fardel andou de rua em rua…
Porém não quis passar no bairro onde eu morava

Recordo-me de tudo: o meu bairro tristonho
Cobria-se de paz, vestia-se de sonho,
Para a celebração da missa universal!
E esperei por você desesperadamente!
E você não me quis trazer um só presente,
Fazendo cada vez mais triste o meu Natal!

Os meninos na rua, exibindo presentes,
Cada qual mais feliz, aguardavam contentes,
A festa matinal, quando o galo cantasse!…
Assistindo ao ferver de tantas ironias,
Cruzava as minhas mãos geladas e vazias
E pedia a JESUS que o Natal não chegasse!

Depois ia dormir magoado e insatisfeito,
Acordava, pensando encontrar no meu leito,
Um soldado de chumbo, um revólver de pau…
Mas era tudo em vão…A mágoa continuava!
Despertava a chorar e a chorar esperava,
Sem jamais perceber que você fosse mau!

Como é triste esperar e viver na incerteza!
Nunca tive um Natal de esplendor e beleza,
Porque, sobre o colchão do meu berço de cobre,
Sonhava com você e você não trazia
Um retalho de luz à minha choça fria!
Um pouco de prazer ao meu Natal de pobre!

Esperei-o demais e perdi-me na espera!…
E quando o desengano encheu minha tapera,
Eu chorei de desgosto e revolta também…
Lembrando a malvadez dos seus ínfimos atos,
No fundo de um caixão joguei os meus sapatos
E resolvi de vez não mais lhe querer bem!…

Fui crescendo e sentindo as mutações da vida!
Hoje, vendo passar a quadra colorida,
Salpicada de azul e plangências de sinos,
É que vejo que estou distante do passado
E já certo de que, no meu bairro encantado,
Você só existiu para os outros meninos…

Dissipou-se, de todo, a bruma dos segredos…
Hoje, sei que você nunca trouxe brinquedos,
Nem jamais possuiu cabelos de algodão,
Nem sandálias de lã e nem barbas de prata…
Mas quisera voltar àquela infância ingrata,
Porque nada é melhor que viver na ilusão!

Foi você quem me trouxe a primeira esperança,
No florido jardim dos meus dias de criança,
Quando a vida sorria, à flor do meu destino!
Mas, depois de esperar por você tantos anos,
Cobriu-se o meu viver de tédio e desenganos
E passei a sofrer meu drama de menino!

Mesmo assim ao saber que você não existe,
Eu não posso ficar sorumbático e triste,
Nem devo blasfemar! Você sabe por quê?
Porque sonho volver àquela doce idade,
Viver no mesmo bairro, à luz da soledade.
Esperando o Natal, e pensando em você!…

TRÊS DUPLAS EM CANTORIA E UM SONETO DE LEONARDO MOTA

Valdir Teles e Louro Branco improvisando com o mote

“É melhor  matar de faca,
do que matar desse jeito”.

* * *

Geraldo Amâncio e  Valdir Teles cantando de improviso um Dez de Galope na  Beira do Mar.

* *

Cícero Bernardes cantando de improviso com Jó Patriota

* * *

PEDRA – Leonardo Ferreira da Mota

– Pedra que eu amo, pedra confidente
De todo o mal que o coração tortura,
Tu, que tens a serena compostura
De quem da vida a inquietação não sente,

Tu, que vives de todo indiferente
Ao lodaçal desta charneca impura
Que nós chamamos mundo, pedra escura
Que eu te cobice a placidez consente!

Pudesse eu ter a calma soberana
Que tens, em vez de agitação insana
A sacudir meu peito de precito …

Faze-me, pedra à tua semelhança:
– Dá-me o sossego, a plácida confiança,
Faze desta alma um bloco de granito!.

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

O grande poeta cantador pernambucano Valdir Teles

* * *

Valdir Teles glosando o mote:

Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

A matuta faz fogo de graveto
“Freve” o leite que tem no caldeirão
Bota sal na panela do feijão
E assa um taco de bode num espeto
Onde a música do sapo é um soneto
Mais bonito na beira de um barreiro
Não precisa zabumba nem pandeiro
Que o compasso da música é Deus que toca
Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

* * *

Renato Santos glosando o mote:

Retirei a aliança do meu dedo
Sem tirar teu amor do coração.

Assinei do divórcio a papelada
Dei-te casa, dinheiro e boa vida
E você hoje se finge de esquecida
Dos bons tempos da vida de casada
Talvez minta não estar apaixonada
Mas aposto que bota o anel na mão
E por mais que engane o coração
Eu te conto meu bem o meu segredo
Retirei a aliança do meu dedo
Sem tirar teu amor do coração.

* * *

Violeiro Baixinho glosando o mote:

Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

Não sai de casa sozinha
Respeitando seu partido
Mas tem raiva se o marido
Só chega de manhãzinha
E se ele olhar pra vizinha
Mesmo sem querer olhar
Ela pega a ciumar
Nem o satanás lhe aguenta
Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

* * *

Biu Salvino glosando o mote:

Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.

Madrugada de erro e precipício
De assaltos de tráficos e escândalos
Praça pública quebrada pelos vândalos
Onde o mundo do crime tem início
Das badernas do baixo meretrício
Onde o povo de Deus se distância
Pelo laço da corda da orgia
Se avista a moral sendo enforcada
Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.

Um menino que passa a vida sua
Sem ter lar, sem escola e sem perfume
Uma vítima que o mundo não assume
Que no mundo das drogas continua
Por não ter um amparo vai pra rua
Mal vestido com fome mão vazia
Pai inútil cruel e mãe vadia
Que só fez por no mundo e não deu nada
Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.

* * *

Lenelson Piancó glosando o mote:

Um espírito de luz chamado amor
Me tirou do umbral da solidão!

Sei que Paulo de Tarso foi romano
Perseguiu os cristãos perante a cruz
Mas um dia em Damasco, viu Jesus
E a visão do amor, mudou seu plano
Sem rancor, nosso mestre soberano
Fez de Paulo de Tarso um bom cristão
E por isso eu espero o meu perdão
Porque sei que Jesus não tem rancor
Um espírito de luz chamado amor
Me tirou do umbral da solidão!

* * *

Marco Haurélio glosando o mote:

Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

Júlio César, notável general,
Vencedor dos egípcios e gauleses,
Teve o nome incluído num dos meses,
E, por isso, tornou-se imortal.
Se no campo de luta era brutal,
Noutro campo perdeu seu destemor:
De Cleópatra tornou-se vencedor,
Mas rendeu-se à musa esplendorosa.
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

* * *

Cícero Moraes glosando o mote:

Tudo o que há de beleza
Deus colocou no sertão

A suprema divindade
Caprichou no seu trabalho
Não deixou serviço falho
Fez com grandiosidade
Construiu com qualidade
Retocou com perfeição
Quem quiser diga que não
Mas afirmo com certeza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão

Um céu bonito estrelado
Que não há em outro lugar
Quem observa o luar
Fica logo encantado
Um vaga-lume amostrado
Completa a orquestração
Da bela composição
Do quadro da natureza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão

Ver um açude sangrando
Alegra qualquer matuto
Que já fica resoluto
Na pescaria pensando
Vai os compadres chamando
Para fazer o pirão
Tomar cachaça e quentão
Na beirada da represa
Tudo que há de beleza
Deus colocou no Sertão.

GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

Jó Patriota

Mesmo sem beber um trago
Sinto que estou delirando
Tal qual um cisne vagando
Na superfície de um lago
Se não recebo um afago
Vai embora a alegria
A minha monotonia
Não há no mundo quem cante
Sou poeta delirante
Vivo a beber poesia!

* * *

milho3

Marcondes Tavares

Isso fez lembrar de nós
Morando na Mandassaia
Era pai ralando o milho
Mamãe dando o nó na paia
E eu sem nada fazer
Já chorando pra comer
Puxando na sua saia.

Um fogão movido a lenha
Onde mamãe cozinhava
Botava queijo ralado
Leite, nata e misturava
Mas quando mamãe servia
Nem os cachorros comia
Mas é porque num sobrava.

* * *

mandacaru

Pedro Rômulo Nunes

Este cacto verdejante
De muitos anos de idade
Serve de maternidade
Para qualquer avoante
Com este porte gigante
Acolhe bem sem tabu
Rolinha, xexéu e anu
Que vem pra fazer seu ninho
Recebe amor e carinho
Do pé de mandacaru.

Seus espinhos vigiando
Sempre alerta noite e dia
Ninguém tem a ousadia
De ficar atrapalhando
Só entra se for voando
Tem segurança de açu
Nem mesmo a surucucu
Querendo se alimentar
Não consegue aproximar
Do pé de mandacaru.

* * *

agua-de-pote

Marcondes Tavares

Bebi muita água de pote
Aparada na biqueira
Envolta um pano molhado
Num gancho”véi”de aroeira
Era muito mais gostosa
Que água de geladeira.

* *  *

pmf

Geraldo Amâncio

Entre os dez mandamentos dos sermões,
Respeitar pai e mãe é o primeiro,
O defeito de um filho é ser grosseiro;
A virtude dos pais é serem bons.
Todo filho tem três obrigações:
Escutar, respeitar e obedecer;
Respeitar pai e mãe é um dever;
Esquecer mãe e pai é grosseria,
Se não fossem meus pais, eu não teria
O direito sagrado de viver.

* * *

chuva4

Adelmo Aguiar

A chuva voltou molhando
Os punhos da minha rede
O tambor de doze latas
Sangrou no pé da parede
E as lágrimas da natureza
Cegaram os olhos da sede.

GLOSANDO E POETANDO POLITICAMENTE

Reginaldo Melo glosando o mote:

Quando o nosso eleitor votar direito
Vamos ver o nascer de um novo dia.

Só teremos o estado de direito
Se lutarmos pela democracia
Praticar e defender cidadania
Não nos resta pensar de outro jeito
Se o ato de votar não for perfeito
E o voto for uma mercadoria
Se deixarmos nos levar por fantasias
Nosso drama jamais terá conserto
Quando o nosso eleitor votar direito
Vamos ver o nascer de um novo dia.

* * *

Renato Santos glosando o mote:

Vou mudar de país para viver
Se o país onde eu vivo não mudar.

Vou tentar esboçar uma visão crítica
De um cenário que vejo piorando
Um Brasil de corruptos se formando
Sem melhoras visíveis na política
É preciso uma vista analítica
Quando a urna seu voto computar
Que o cenário só pode melhorar
Quando o povo aprender a escolher
Vou mudar de país para viver
Se o país onde eu vivo não mudar.

Carnaval, futebol, e pegação,
Obras públicas ‘P‘aradas o ‘T‘empo inteiro
Um Brasil que não é do brasileiro
Um ‘P‘aís que ado’T‘a o mensalão.
Um império da vil corrupção
Onde o rei só tem merda pra falar
O vermelho escurece o exemplar
Do ‘P‘artido ‘T‘irano do poder
Vou mudar de país para viver
Se o país onde eu vivo não mudar.

* * *

marciano medeiros-

O poeta potiguar Marciano Medeiros

Um folheto de Marciano Medeiros

PERFIL DO CANDIDATO MENTIROSO

Existem muitos políticos
Repletos de malandragem
Que no tempo das campanhas
Esbanjam camaradagem
Dizendo pras multidões
Escutem minha mensagem

– Eu quero ser candidato
Por me sentir preparado
O meu plano de governo
Logo mais tem resultado,
Essa é a fala padrão
Do candidato safado

Assim prossegue o barulho
Combate o adversário
No seu discurso inflamado
Promete dar mais salário
Vem pregar na praça pública
O tal conto do vigário

Vemos muita agitação
Nos comícios populares
Candidato esculhambando
Falando coisas vulgares
E até amigos de infância
Brigam nas portas dos bares

É preciso ter cuidado
Com teses escandalosas
Não se deixando levar
Por falas audaciosas
Rejeitando as pilantragens
Das mentes maliciosas

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GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

geraldo-amancio-e-patativa-do-assare

Geraldo Amâncio, grande cantador contemporâneo, e o saudoso Patativa do Assaré

* * *

Geraldo Amâncio

Patativa tinha o brilho
da luz de um meteorito;
um homem que virou gênio,
um gênio que virou mito;
um cantador de roçado
que foi por Deus convocado
pra cantar no Infinito.

Patativa do Assaré

Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

* * *

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
Um vento manso desliza,
Mais tarde ao sopro da brisa,
Sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
Aparece lentamente,
Na janela do nascente,
Saudando o romper da aurora,
No sertão que a gente mora
Mora o coração da gente.

* * *

João Paraibano

Quando o dia começa a clarear
Um cigano se benze e deixa o rancho
A rolinha se coça num garrancho
Convidando o parceiro pra voar
Um bezerro cansado de mamar
Deita o queixo por cima de uma mão
A toalha do vento enxuga o chão
Vagalume desliga a bateria
Das caricias da noite nasce o dia
Aquecendo os mocambos do sertão.

* * *

Zito Siqueira

Mulher, se lembre das juras
Que fizemos na matriz;
Se esqueça de advogado,
De promotor, do juiz,
Se acostume a levar ponta
Pra gente viver feliz.

* * *

Zé da Prata

Se vejo mulher bonita,
Meu corpo ainda se bole.
Mas sei que já estou velho,
É melhor que me console…
De que serve eu ter desejo,
E a correia assim tão mole?
E a correia desse jeito
O priquito não engole;
Mesmo botando a cabeça
Tirando a mão escapole.
E não posso dessa forma
Fazer mais o bole-bole.

* * *

Dimas Batista Patriota

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Zé Bernardino

Eu nada fiz na jornada
Nada ganhei nem perdi
Nada ignoro do nada
Porque do nada nasci.
Se o nada foi um abrigo
Seja o nada meu jazigo
Pois nada disso me enfada.
Eu de nada fiz estudo,
Mas sei que o nada faz tudo
E tudo se torna em nada.

* * *

José Alves Sobrinho

Jorram as águas do rio,
E elas como uma cobra,
Num andar lento e macio,
Descendo e fazendo dobra,
Derramam sobre o baixio
A quantidade que sobra.

* * *

Lourival Pereira

Eu cheguei um dia na beira do cais
Admirei muito o seu movimento
Navios fazendo descarregamentos
Pacotes maneiros, pesos desiguais
De dez toneladas, de vinte e de mais
E a um marinheiro peguei perguntar
De onde é que vem pra descarregar
Ele disse: da Bélgica, Egito e Hungria
Da Síria, da Pérsia, da Angola e Turquia
Trazendo isso tudo pra beira do mar.

Expedito Sobrinho

Perguntei o nome da mercadoria
Ele disse aqui a gente traz de tudo
Mostarda estrangeira que o grão é miúdo
Petróleo, amianto e tapeçaria
Pedras preciosas que o povo aprecia
Brilhante , ametista pra fazer colar
Ouro português pra quem quer comprar
Pedra opala e amazonita
Berilo, ouro branco, prata e tantalita
Pra fazer negócio na beira do mar

OITO MOTES BEM GLOSADOS

Pedro Otávio

Adeus, adeus companheiros
Já são horas da partida.

Meus amigos verdadeiros
Da grande luta da vida
É hora da despedida
Adeus, adeus companheiros
Da dor, do riso, parceiros
Nesta quadra já corrida
No peito sangra a ferida
A saudade me devora
A lembrança fala, chora
Já são horas da partida.

* * *

Carlos Severiano Cavalcanti

Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

Na fazenda, nasci e me criei,
peraltava e fazia escaramuça,
morcegava, no campo, a besta ruça,
jararaca até mesmo já matei.
Não me lembro da vez em que acordei
assombrado com tiros de trovão,
pinotava da rede para o chão
e saía correndo pelo escuro.
Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

* * *

Pinto do Monteiro

Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

Vaqueiro é pra pegar touro,
Amansar bezerro e vaca,
Cortar pau, fazer estaca
E preparar bebedouro.
Comer queijo e beber soro,
Curtir couro e fazer sola;
Fazer freio e rabichola,
Tirar leite e capar bode,
Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

* * *

João Paraibano

Poesia é a própria voz divina
A vibrar no baião dos cantadores.

Eu sou mais um repórter do diário
Das notícias que a mão de Deus escreve
Se sou pobre, não estou fazendo greve
Reclamando um aumento de salário
Desconheço o que é dicionário
Onde vejo um letreiro estranho as cores
Nunca tive lição de professores
Quando eu erro um poema, Deus me ensina
Poesia é a própria voz divina
A vibrar no baião dos cantadores.

* * *

Cicinho Gomes

A lua vinha beijando
A linda barra do dia.

Num recanto de quintal,
Num cocho de catingueira,
Vi uma vaca leiteira
Lambendo um resto de sal.
O úbere, um manancial
Que nas pernas não cabia.
E enquanto a mesma lambia
O seu bezerro apojando,
A lua vinha beijando
A linda barra do dia.

* * *

Zé Barreto

Por esses caminhos venho
pedaços de mim deixando.

Nem juntos arte e engenho
de Camões podem cantar
como em vão a tropeçar
por esses caminhos venho.
O amor para mim é lenho
que em meio aos lobos em bando,
aos trancos vou carregando
e a cada mulher que passa
sou tragado na fumaça,
pedaços de mim deixando.

* * *

Nonato Costa

Pra findar a viagem sem tristeza,
É preciso saber envelhecer.

Quem não quer ficar velho é infeliz
Perde a calma de tudo e não sossega:
Passa o tempo no espelho atrás de prega
Pra depois dar serviço aos bisturis…
Sempre esconde a idade e nunca diz,
Fica velho por dentro sem querer
Tenha fé, deixe a ruga aparecer,
Não se lance de encontro à natureza
Pra findar a viagem sem tristeza,
É preciso saber envelhecer.

* * *

Zé Limeira

Me diz coração ingrato
Qual foi o mal que te fiz.

A minha amada primeira
Conheci na escritura
Comendo uma rapadura
Em riba da cumiera
Peguei minha ‘balieira’
Dei um tiro na infeliz
Errei, pegou num concriz
Mordendo a boca d’um pato
Me diz coração ingrato
Qual foi o mal que te fiz.

DEZ REPENTES DE PRIMEIRA

Otacílio Batista Patriota, nascido em set/1923, atualmente com 94 anos

* * *

Otacílio Batista

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Ivanildo Vilanova

É o céu uma abóboda aureolada
Rodeada de gases venenosos
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada
Galáxia também hidrogenada
Como é lindo o espaço azul -turquesa
E o sol fulgurante tocha acesa
Flamejando sem pausa e sem escala
Quem de nós poderia apagá-la
Só o santo doutor da natureza.

* * *

Cicinho Gomes

Depois que mamãe morreu,
Aumentaram meus fracassos.
Se estou dormindo desperto
Parecendo ouvir os passos
Daquela que em muitas noites
Me deu por berço os dois braços.

* * *

Aldo Neves

A lua no céu vagueia
Como um barco que flutua
Inspirando o seresteiro
Jogando os raios na rua
Tudo que o poeta é
Só deve a Deus e a lua.

Pra lua sair bonita
Deus é quem abre a janela
E o quadro azul do espaço
A natureza pincela
Num sei quem é mais bonita
Se a noite ou se é ela.

* * *

Ademar Macedo

Deus na sua magnitude,
Fez do sertão um palácio,
Deixou escrito um prefácio
Na parede do açude;
Disse da vicissitude
Da flor e do gineceu,
De um concriz que se escondeu
Nos garranchos da jurema,
O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

* * *

Ismael Pereira

Depois que meu pai morreu
Minha mãe ficou sozinha
Na sua vida de pobre
Trabalhando pra vizinha
Estragado a vida dela
Pra dar conforto a minha.

* * *

Hélio Crisanto

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti “avoando” perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

* * *

Bob Motta

Nem ostra, nem catuaba,
Nem caldo de tubarão,
Culhão de touro ou pirão,
Nem mesmo, uma caldeirada;
Vai levantar a “finada”,
Que vive olhando p’ro chão.
Nem pentelho de barrão,
Lhe digo, na minha verve;
Isso de nada lhe serve,
Quando se acaba o tezão.

* * *

Luiz Ferreira Lima

Acho lindo um bonito vagalume
Reluzindo sua luz na escuridão
Um luzidio e pomposo alazão
Quando trota exibindo seu negrume
Como é lindo os peixinhos em cardume
Se unindo pra escapar do predador
Não se imita o “rasante” de um condor
Nem o charme de uma bela “margarida”
Isso tudo pra mostra na nossa vida
Quanto é grande o poder do Criador!

* * *

Manuel Rabelo

Uma casa tão singela
Sem luxo e sem mordomia,
Ninguém diz que ali um dia
Morou muita gente nela
Já não tem mais na janela
Um jarro com uma flor;
E um cachorro caçador
Deitado lambendo a mão
São lembranças do sertão
Que guardo com muito amor.

UM IMPROVISO GENIAL E UM FOLHETO CEARENSE

Um improviso do poeta Aldo Neves:

No teu beijo Deus bota uma mistura
Que imitá-lo eu acho tão custoso
O teu beijo pra mim é mais gostoso,
Que uma manga depois que está madura.
Porque ele pra mim tem mais doçura
Que o miolo da própria melancia
Eu beijei o teu rosto e não sabia,
Que o teu cheiro ficava em minha face
Se o teu beijo matasse quem beijasse
Eu beijava sabendo que morria.

* * *

HISTÓRIA DAS SETE CIDADES DA SERRA DA IBIAPABA-CE – Apolônio Alves dos Santos

A poesia adverte
Ao meio estudantil
Falando sobre um Estado
Que há em nosso Brasil
A terra de Iracema
Belo torrão varonil.

É sobre o Ceará
Que dou esta explanação
Suas terras, seus encantos
E sua vegetação
Seus pontos mais pitorescos
De grande admiração.

Eu já tenho escrito várias
Histórias interessantes
Com esta quero atingir
Os pontos mais importantes
O que outros escritores
Nunca escreveram antes.

Porém esta trajetória
Um instante eu vou mudar
Seguindo em outro roteiro
Quem vai mais interessar
À muitos estudiosos
Que gostam de pesquisar.

Na história brasileira
Minha ideia penetrou
Portanto quero versar
O que outro não versou
Uma história que a história
Do Brasil pouco contou.

Antes da vinda de Cristo
Há mil cento e tantos anos
A Tróia fora invadida
Pelos gregos desumanos
Deixando subjugado
Todos os poderes troianos.

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DOIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LUTA

IVANILDOgeraldo amancio

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio: dois dos maiores poetas cantadores da atualidade

* * *

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio improvisando com o tema “Sertão”:

Ivanildo Vilanova

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
E agua forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
Um raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo piruetas
Nas espigas de milho do roçado

Geraldo Amâncio

No sertão quando é bem de manhãzinha
Sertanejo se acorda na palhoça
Chama o filho mais velho para a roça
A mulher toma conta da cozinha
Faz o fogo de lenha e encaminha
Um guisado, angu quente ou fava pura
E depois de fazer essa mistura
Sai faceira igualmente uma condessa
Com um quibongo de barro na cabeça
E vai levar aos heróis da agricultura

Ivanildo Vilanova

No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tendo a colheita, a criação
Ferramenta da roça, produção
Uma rede, um grajau de rapadura
Uma “dez polegadas” na cintura
A viola, uma baú, uma cabaça
A tarefa e um litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu, baeta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça

Geraldo Amâncio

É preciso ter muita paciência
Guardar milho num quarto empaiolado
Sustentar criação com alastrado
Numa terra que tem pouca assistência
Trabalhar numa frente de emergência
Esperando o inverno que não vem
Insistir, crer em Deus e tratar bem
Manter sempre a família tão unida
Do chão seco arrancar o pão da vida
Sertanejo faz isso e mais ninguém

Ivanildo Vilanova

No verão quando o sol se descortina
Se escuta o zumbido das abelhas
O balir melancólico das ovelhas
O dueto dos pássaros na matina
O bonito alazão sacode a crina
O vaqueiro abolando chama a rês
Os canções gritam todos de uma vez
Acusando a presença da serpente
Num concerto de música diferente
E da orquestra sinfônica que Deus fez

Geraldo Amâncio

E o traje do homem camponês
Quando sai pra uma festa ou para a feira
A calça de mescla, uma peixeira
Um paletó listrado ou xadrez
Umas botas de couro de uma rês
Para dançar forró enquanto é moço
Um chapéu abalado, grande e grosso
Com uma pena qualquer de um passarinho
E a medalha fiel do meu padrinho
Num rosário enfiado no pescoço

Ivanildo Vilanova

Falar mal do sertão hoje eu não ouço
Não se entrega ao cansaço ou enxaqueca
Um herói pelejando a seca
Contra a cheia combate sem sobrosso
Respeita a moral de velho ou moço
Também quer ver a sua respeitada
Sem Brasil a América é derrotada
Com Brasil a América vale mil
Sem nordeste o Brasil não é Brasil
E sem sertão o nordeste não é nada.

* * *

Um folheto de Abraão Bezerra Batista

LUTA DE UM HOMEM COM UM LOBISOMEM

Agora que eu andei
pelas florestas do além
penetrei no inconsciente
íntimo que cada um tem,
sinto-me autorizado
para escrever o que vem.

Fui aos céus pra ver Jesus
e no inferno eu vi Caifaz;
nestes cantos eu tive a luz
que na terra ninguém faz,
meus pensamentos aqui pus
descrevendo uma luta assaz.

Presenciei por sete tempos
a luta de um certo homem
na mais cruenta das lutas
com o mais cruel lobisomem;
lá nesta peleja eu vi
miolo, coração, abdomem.

Numa encruzilhada que tem
cortando certa avenida
fazendo ponto estratégico
com o segredo da vida
bem na boca das cobras
para lá fui em seguida.

Não conduzia arma de fogo’
nem pau, peixeira ou foice
mas, tive coragem bastante
de olhar seja o que fosse
pois um barulho daquele
era pra guerra e danou-se.

Aproximei-me com cuidado
pra não entrar numa fria…
foi quando eu percebi
a vida e a agonia
a luta de um certo homem
com uma fera vã e baldia.

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO

Poeta repentista Oliveira de Panelas

Hélio Crisanto (colunista do JBF)

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti “avoando” perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

Cego Aderaldo

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
Um vento manso desliza,
Mais tarde ao sopro da brisa,
Sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
Aparece lentamente,
Na janela do nascente,
Saudando o romper da aurora,
No sertão que a gente mora
Mora o coração da gente.

Zé Bernardo

Não sou poeta vos digo
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão.

Leonardo Bastião

Eu também plantei saudade
Numa pequena panela
Só de quinze em quinze dias
É que eu botava água nela
Pr’ela não crescer demais
E matar quem cuidava dela.

Na mocidade eu não pude
Vencer os planos que fiz
A velhice acompanhou
Já fez de mim o que quis
Com tanta velocidade
Que deixou a mocidade
Numa distância infeliz.

Pedro Bandeira

Admiro demais o ser humano
Que é gerado num ventre feminino
Envolvido nas dobras do destino
E calibrado nas leis do soberano
Quando faltam três meses para um ano
A mãe pega a sentir uma moleza
Entre gritos lamúrias e esperteza
Nasce o homem e aos poucos vai crescendo
E quando aprende a falar já é dizendo:
Quanto é grande o poder da Natureza.

Gleison Nascimento

A vida é um sopro da eternidade,
Que esfria a sopa da morte malvada,
Que espera a hora, sofrida e calada,
De mostrar pro mundo a sua maldade,
E um cantador preso à liberdade,
Uns versos cansados gosta de rimar,
E quando a morte vem pra lhe buscar,
Recorre a fé, buscando guarida
Briga com a morte, pois gosta vida
Cantando galope na beira do mar.

E faz sua arte um trunfo eterno,
E canta bonito prá Deus lhe sentir,
E por essa prece, Deus vai lhe ouvir,
E vai lhe tocar, no afago mais terno
E manda a morte , voltar pro inferno
Pois esse poeta ela não vai levar,
E segue o poeta na vida à rimar,
E Deus escutando seu canto mais grato
Tomando um vinho daqueles barato
Com dez de galope na beira do mar.

Cego Sinfrônio

Eu, atrás de cantadô
Sou como boi por maiada
Como rio por enchente
Como onça por chapada
Como ferrôi por janela
Menino por gargaiada!

Eu, atrás de cantadô
Sou como abêia por pau
Como linha por agúia
Como dedo por dedal
Como chapéu por cabeça
E nêgo por berimbau

Eu, atrás de cantadô
Sou como vento por praia
Como junco por lagoa
Como fogo por fornaia
Como piôi por cabeça
Ou pulga por cós de saia!

Lourinaldo Vitorino

(Em homenagem a Otacílio Batista Patriota)

As violas de luto soluçando
Dão adeus ao Bocage do repente,
Um fenômeno de arte, um expoente,
Que de cinco a seis décadas improvisando
Sua voz de trovão saiu rasgando
Modulando a palavra em cada nota
Pra cultura um nocaute, uma derrota,
Um desastre, uma perda, um golpe horrendo,
Enlutado o repente está perdendo
Otacílio Batista Patriota.

Zé Bezerra

Inesquecível sertão
Terra dos meus ancestrais
Dos meus avós, dos meus pais
Todos do mesmo rincão
Tenho a recordação
Daquele tempo passado
Que tirava no roçado
As moitas de mororó
Caçava, armando quixó
No sertão que fui criado.

Ali o povo vivia
Com muita simplicidade
Sem requinte e vaidade
Sem modismo e fantasia
Cada família queria
Ver cada filho educado
O povo era acostumado
A servir e respeitar
Dava gosto se morar
No sertão que fui criado.

Sertão caboclo da luta
Do camponês destemido
Que mesmo sendo esquecido
Faz valer sua conduta
E da cabocla matuta
Que faz serviço pesado
Limpa mato, tange gado
Ceva capão e suíno
Todo ano tem menino
No sertão que fui criado.

Essa gente nordestina
Tem cultura e tradição
É bom se ver no sertão
Toda festança junina
No toque da concertina
O forró é animado
No pavilhão enfeitado
Ali perto da floresta
É meio mundo de festa
No sertão que fui criado.

Sertão fértil, terra boa
Que tem raposa e gambá
Xexéu, concriz, sabiá
Garça e pato na lagoa
Orelha de pau e broa
Fígado de porco torrado
Milho assado e cozinhado
Galinha que cacareja
Bode que berra e bodeja
No sertão que fui criado.

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE PELEJA

GGF

Poeta cearense Gonçalo Ferreira da Silva, inspirado folhetista

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Cai a chuva no sertão
Cai o palhaço do palco
Cai a tinta no decalco
Cai o jumento no chão
Cai o preço do feijão
Cai o artista em cena
Cai o pivô da antena
Cai a arca do “Sinai”
Mas Michel Temer não cai
Nem com a gota serena.

Cai a árvore na cidade
Cai a lata de azeite
Cai o mosquito no leite
Cai a coroa do frade
Cai raio na tempestade
Cai Silvio Santos e Datena
Cai o galho da verbena
Cai no penhasco o “bonsai”
Mas Michel Temer não cai
Nem com a gota serena.

Cai do pescoço a corrente
Cai o menino no rio
Cai o carro no desvio
Cai o guiso da serpente
Cai o cabelo no pente
Cai o chinês em Xangai
Cai o tio e cai o pai
Cai o toucinho na brasa
Mas nem com o “caray” de asa
O Michel Temer não cai.

Cai o Collor no lixão
Cai o Cunha acabrunhado
Cai o Aécio cagado
Cai Jucá no mensalão
Cai a bandeja da mão
Cai o peso no Uruguai
Cai o hotel em Dubai
Cai bomba na faixa de gaza
Mas nem com o “caray” de asa
O Michel Temer não cai.

* * *

George Alves

Cancão glosava bonito,
Feliz de quem o conheceu.
Foi gênio enquanto viveu,
Faleceu pra virar mito.
De São José do Egito,
Voou para a imensidão
Onde não tem alçapão,
Baladeira e espinho.
Na terra é difícil um ninho,
Mas no céu tem de Cancão.

* * *

Zezo Correia

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira
No ninho da quixabeira
Canta a casaca-de-couro
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

Hélio Crisanto

Eu só sei cortar mato de enxada
Amansar burro brabo e fazer broca
Dar solfejos com flauta de taboca
Tirar leite rompendo a madrugada
Meu cardápio é queijo com coalhada,
Rapadura batida com feijão
Já botei muita água de galão
Enchi pote com água de barreiro
Sou poeta, matuto e violeiro
E as histórias que conto é do sertão.

* * *

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva

PELEJA DE OSCAR ALHO E FRANCISCO MALAGUETA

Quem não leu ainda, leia
a mais acirrada e preta
peleja que já se viu
em cima deste planeta
a luta de Oscar Alho
e Francisco Malagueta.

Malagueta era filho
de João Antônio Barbalho
nunca violeiro algum
lhe deu o menor trabalho
assim queria encontrar-se
com o famoso Oscar Alho.

Cantava o velho Oscar Alho
alegre e descontraído
quando avistou Malagueta
mas na distração lhe fez
este convite atrevido

Francisco Malagueta

Meu Oscar Alho não pense
numa só palavra tola
senão você não dará
alimento à sua rola
e até o dono da casa
lhe chamará de baitola.

Oscar Alho

Trocar alho por cebola
é trocar leite por creme
o dono da casa acha
que hoje aqui ninguém treme
portanto pede que nós
cantemos na letra eme.

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DOZE MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJOS

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O saudoso Poeta Manoel Filó

 

Manoel Filó

Eu acho que não convém
Falar de quem bebe porre
Porque se quem bebe morre
Sem beber morre também
Apenas quem bebe tem
Suas artérias normais
Trata das fossas nasais
Controla o metabolismo
Cachaça no organismo
É necessário demais

*

Por muito prazer que a gente
Na vida já tenha tido
Só presta o que está na frente
O que passou, tá perdido.

* * *

Diomedes Mariano

Quando o carro do tempo vem ligeiro,
Fumaçando o motor, faltando luz,
Assustando as pessoas que conduz,
Pondo em pânico o mais calmo passageiro,
Nessa hora aparece um patrulheiro,
Conduzindo um talão de apontamento,
Autuando o chofer em dez por cento,
Do que o código dos anos determina,
O embalo da vida só termina,
No semáforo do último cruzamento.

* * *

Louro Branco

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas.

* * *

Lenelson Piancó

Eu admiro a formiga
Que tem problema de vista
Andando no ziguezague
Sem carta de motorista
Não se atrasa no trabalho
Nem congestiona a pista.

* * *

Hélio Crisanto

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti voando perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

* * *

Geraldo Amâncio

O mundo se encontra bastante avançado
A ciência alcança progresso sem soma
Na grande pesquisa que fez do genoma
Todo o corpo humano já foi mapeado
No mapeamento foi tudo contado
Oitenta mil genes se podem contar
A ciência faz chover e molhar
Faz clone de ovelha, faz cópia completa
Duvido a ciência fazer um poeta
Cantando galope na beira do mar.

* * *

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

João Paraibano

Terreno ruim não dá fruto,
Por mais que a gente cultive,
No seu céu eu nunca fui,
Sua estrela eu nunca tive,
Que o espinho não se hospeda,
Na mansão que a rosa vive.

* * *

Rogério Menezes

Quando a mulher é jogada
Na mais detestável lama,
Recebendo humilhações
Da pessoa que mais ama,
A Terra bebe chorando
As lágrimas que ela derrama

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO COM LAMPIÃO

Otacilio

Poeta repentista Otacílio Batista Patriota (Set/1923 – Ago/2003)

Otacílio Batista

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

Onildo Barbosa

Quando o dia vai embora
A tarde é quem sente a queixa
O portão da noite abre
A porta do dia fecha
A boca da noite engole
Os restos que o dia deixa.

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

* * *

Cego Aderaldo

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

* * *

Canhotinho

Quando era injusto o Brasil,
E aos negros se cativaram,
O choro dos filhos brancos
As mães pretas consolaram
E o leite dos filhos pretos,
Os filhos brancos mamaram.

* * *

Aldo Neves

Já ontem eu vi camponês
Botando os bois no arado
Passando no meu nariz
O cheiro de chão molhado
E a água tirando os ciscos
Qu’a seca tinha deixado.

Jamais destrua a floresta
Conserve-a intacta e ilesa
O sagui não vai achar
Resina que amole a presa
Quem fere um pau tá ferindo
O corpo do natureza.

* * *

Zé Adalberto

Não arquivo tristeza nem rancor,
Nem exponho meu próximo a episódios
O meu peito é blindado contra o ódio,
Mas é todo acessível pro amor.
Não consigo, sequer, mudar de cor
Quando sou ofendido por alguém.
Meu silencio é a voz que vai além,
Eu já mais me permito revidar…
É perdido a vingança me atiçar,
Não consigo ter raiva de ninguém.

* * *

Pinto do Monteiro

Ando com uma bengala
Com ela escoro uma perna
Pra não cair em buraco
Nem desabar em caverna
Sou o dono da bengala
Mas ela é quem me governa.

* * *

Sebastião Dias

Pra você segunda-feira
Eu servirei de correio
Quem tiver cartas escreva
Que levo um malote cheio
Com lágrimas de quem não foi
E lembranças de quem não veio.

*

Foi à forca Tiradentes
com a maior paciência;
seu sangue se derramava,
e a terra, por inocência,
bebia o sangue de um filho
que quis dar-lhe a independência.

* * *

Welton Melo

No silêncio da noite é que o poeta
Se levanta da cama e sai ao léu
Toma um copo de água e só se aquieta
Quando passa o que sente pra um papel
Muito mais que capricho ou vaidade
O poema que cria é na verdade
Um descanso pra o corpo e sua mente
Onde as rimas lhe servem de alento
Ser poeta é cantar o sentimento
De quem sente e não canta como a gente.

* * *

Um folheto de José Pacheco

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU

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Lampião foi no inferno
Ao depois no céu chegou
São Pedro estava na porta
Lampião então falou:
– Meu velho não tenha medo
Me diga quem é São Pedro
E logo o rifle puxou

São Pedro desconfiado
Perguntou ao valentão
Quem é você meu amigo
Que anda com este rojão?
Virgulino respondeu:
– Se não sabe quem sou eu
Vou dizer: sou Lampião.

São Pedro se estremeceu
Quase que perdeu o tino
Sabendo que Lampião
Era um terrível assassino
Respondeu balbuciando
O senhor… está… falando…
Com… São Pedro… Virgulino!

Faça o favor abra esta porta
Quero falar com o senhor
Um momento meu amigo
Disse o santo faz favor
Esperar aqui um pouquinho
Para olhar o pergaminho
Que é ordem do Criador

Se você amou o próximo
De todo o seu coração
O seu nome está escrito
No livro da salvação
Porém se foi um tirano
Meu amigo não lhe engano
Por aqui não fica não

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SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LENDA

João-Paraibano-

O saudoso poeta cantador João Paraibano, que encantou-se aos 61 anos de idade em setembro de 2014

* * *

João Paraibano

Branca, preta, pobre ou rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Lourival Batista, o rei do trocadilho

É muito triste ser pobre
Pra mim é uma mal perene
Trocando o “p” pelo “n”
É muito alegre ser nobre
Sendo pelo “c” é cobre
Cobre figurado é ouro
Botando o “t” fica touro
Como a carne e vendo a pele
O “T” sem o traço é “L”
Termino só sendo “Louro”!

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Acho lindo um bonito vagalume
Reluzindo sua luz na escuridão
Um luzidio e pomposo alazão
Quando trota exibindo seu negrume
Como é lindo os peixinhos em cardume
Se unindo pra escapar do predador
Não se imita o “rasante” de um condor
Nem o charme de uma bela “margarida”
Isso tudo pra mostra na nossa vida
Quanto é grande o poder do Criador!!!

* * *

Geraldo Gonçalves

Para quem nasce poeta
versejar é um lazer,
sinto bastante prazer
obedecendo esta meta.
No repente sou atleta,
meu verso é uma beleza,
componho com singeleza,
rimo porque acho bom,
a poesia é um dom
dado pela natureza.

* * *

Dudu Moraes

Não é que meu coração
Não consiga amar ninguém
É que este pobre indefeso
De ingratidões foi refém
De tanto levar pedrada
Tornou-se pedra também!

* * *

Diniz Vitorino

Nós temos por certa a morte,
mas ninguém deseja tê-la…
Quando morre uma criança,
o pai lamenta em perdê-la,
mas Jesus, todo de branco,
abre o céu pra recebê-la.

* * *

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva – LENDA DO CAIPORA 

A humana criatura
se pergunta insatisfeita:
Como uma coisa existe
sem nunca ter sido feita? –
Quem prega não prova nada
quem escuta não aceita.

Diz a gênese mosaica
que Deus Pai Onipotente
disse: “Faça-se a luz”
e a luz obediente
do atro abismo do nada
surgiu repentinamente.

Assim também são as lendas
as vezes surgem do nada
ou como reminiscência
duma cultura importada
que sempre sensibilizam
gente não civilizada.

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DOIS MOTES BEM GLOSADOS E UM FOLHETO DE PROEZAS

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Raimundo Caetano glosando um mote da autoria de Dilson Pinheiro:

No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

É assim lá na terra sertaneja
Bicho e gente sofrendo a mesma mágoa
No olhar do vaqueiro sobra água
Mas a bomba celeste não despeja
Quem aboia e campeia não deseja
Ver o gado com sede o ano inteiro
Nem o gado quer ver seu companheiro
Em um rio de lágrimas sufocado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

No sertão muitos sofrem sem motivo
E eu não sei se merece sofrer tanto
Falta chuva no céu sobra no pranto
De quem cuida do gado inofensivo
O vaqueiro agradece ainda estar vivo
Personagem de um drama costumeiro
Vendo o sol afastar o nevoeiro
Alvejar criação, pessoa e prado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

O trovão com a voz estrepitosa
Nas encostas do céu se locomove
O relâmpago aparece mais não chove
Que irrigue o pistilo de uma rosa
A promessa de chuva é enganosa
Só o choro do homem é verdadeiro
Quem mais sente é o fazendeiro
Vendo o gado sedento e castigado
No sertão falta água para o gado,
Porém sobra nos olhos do vaqueiro.

* * *

Silvino Pirauá de Lima glosando o mote:

“E tudo vem a ser nada”

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que ideia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive até de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele tanto moureja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam tanto dinheiro,
E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.

Honra, grandezas, brasões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discussões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.

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