DOIS MOTES NORDESTINADOS E UM FOLHETO DE PELEJA

 

Glosas de Santina de Castro Andrade
 
Coisas do meu Sertão

No solo pernambucano
Existe suas divisões
São várias as regiões
Do sertão estou falando
E aos poucos recordando
Sua beleza e tradição
Com bastante emoção
Vou escrevendo o roteiro
Dos retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Aveloz e juazeiro
Algaroba e tamboril
Que à seca resistiu
Mandacaru e faxeiro
Siriguela e umbuzeiro
Dão fruto e proteção
São nativos deste chão
Na mata, e no terreiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Asa Branca e ribaçã
Coruja, peitica e corró
Teú, cobra-de-cipó
Papagaio, maracanã
Codorniz, nambu, acauã
Graúna, canário, azulão
Cigarra e camaleão
O gato lagarticheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Anum, sofreu, sabiá
A rola fogo pagô
Lavandeira e beija-flor
Cava chão, tamanduá
Cutia, mocó, preá
Tatu, peba e cancão
Todos em quase extinção
No nordeste brasileiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

O vem-vem, a saracura
E a mãe da lua cheia
Conto de fada e sereia
Folclore, lendas, bravura
Faz parte dessa cultura
Luiz Gonzaga e Lampião
Reis do cangaço e baião
Heróis do Brasil inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

De dezembro a janeiro
Noite chuva e garoa
O sapo seu canto entoa
Nas lagoas e barreiros
Se os açudes encheram
Peixe em cardume vão
vaga-lumes à noite estão
No campo com seus luzeiros
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Uma casa de sapé
E no quintal um caboclo
Carpindo ou arrancando toco
Com um moleque no pé
Na cozinha sua mulher
Filho no bucho, outro no chão
Tá cozinhando o feijão
Para comer sem tempero
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Na sala um rádio de pilha
Banco, tamborete e pote
Pra matar preá e capote
Espingarda e mochila
Onde agasalha família
Num quarto, rede e colchão
Lá fora tem num galpão
Pé de meizinha e canteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

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IMPROVISOS GENIAIS E UMA HISTÓRIA DOS DIABOS

Lourival Batista e Severino Pinto em noite de improvisos

Numa cantoria de Severino Pinto com Lourival Batista:

Severino Pinto
 
No lugar que Pinto canta
Não vejo quem o confunda
O rio da poesia
O meu pensamento inunda
Terça, quarta, quinta e sexta
Sábado, domingo e segunda
 
Lourival Batista
 
Sábado, domingo e segunda
Terça-feira, quarta e quinta
Na sexta não me faltando
A tela, pincel e tinta
Pinto, pintando o que eu pinto
Eu pinto o que Pinto pinta

* * *

Numa cantoria de Otacílio Batista com Lourival Batista:

Otacílio Batista
 
Seu repente tem essência
É feito sem embaraço
Mas sua viola é tão feia
Que só parece um cabaço
Mais bonita do que ela
Eu tenho visto em palhaço
 
Lourival Batista
 
Mais  feia que a dum palhaço
Mas o dono é inteligente
A sua é muito enfeitada
Mas é fraco o seu repente
Não é coleira bonita
Que faz cachorro valente

* * *

Um folheto de Sá de João Pessoa

A MULHER QUE MATOU O DIABO EM TIMBAÚBA-PE

Timbaúba – vila pacata
Pequena porém decente
Não tem nada que abale
A vida daquela gente
Pode ser a bomba atômica
Ou uma seca inclemente.

A paz ali é sagrada
E está em todos os lares
Em Timbaúba os artistas
Estão em todos lugares
Ali viveu o Poeta-
Repórter José Soares.

Poeta que deixou nome
No Recife e mais além
Vendeu milhões de folhetos
Igual a ele ali não tem
Cantador de tanta fama
Não foi nem vai nem vem.

Hoje é reconhecido
Pois duas coisas sabia
O Zé Soares fazer:
Folhetos de poesia
Que narravam com beleza
Tudo o que acontecia.

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DOIS GIGANTES DO IMPROVISO

Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (Monteiro-PB, Nov/1895 – Out/1990)

* * *

Improvisos de Onézimo Maia

Canto pra Tarcísio Maia
Porque sou Maia também;
Eu sou Maia e vivo mal;
Ele é Maia e vive bem;
Ele tem o que não tenho
Eu tenho o que ele não tem

*

Você canta Portugal,
Canta França, canta Hungria
Mas se eu tirar a tampa
Do baú da putaria
Nunca mais ninguém dá fé
Da sua sabedoria.

*

Fico feliz quando canto
Meus versos de improviso;
Os dedos chutando as cordas,
Os lábio com ar de riso;
Sopra o vento do repente
Raspando o chão do juízo.

*

Já vi uisque importado
Ter perdido pra Pitú
Saiba que um bacharel
Precisa de um papangu
Porque Monteiro Lobato
Cresceu com Jeca Tatu.

*

Doutor Aluizio Alves
Agora compareceu
Botou a mão no meu bolso
Vou ver quanto ele deu,
Do jeito que ele é vivo
Pode ter levado o meu.

*

O sapo tem muitas coisas
Mas nenhuma vale nada:
Tem couro e não dá baínha
Tem tripa e não dá buchada,
Tem sangue e não dá chouriço
Tem leite e não dá coalhada.

*

Quando eu voltar aqui
Seu menino tem crescido
Sua filha tem casado
Já tem deixado o marido
Sua mulher tá com outro,
O senhor já tem morrido.

* * *

Improvisos de Pinto do Monteiro

Eu estimo Cajazeiras
que é o terreno seu.
Eu sou Pinto do Monteiro,
mas Monteiro não é meu!
Dei tanto nome a Monteiro,
Monteiro nada me deu.

*

Eu sou como a cascavel,
que não respeita ninguém:
se enrosca numa vereda,
morde quem vai e quem vem,
e, na hora que perde o bote,
morre da raiva que tem.

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UM FOLHETO DE MINELVINO FRANCISCO

Minelvino Francisco Silva (Mundo Novo-BA, Nov/1924 – Itabuna-BA, Nov/1998)

* * *

Um folheto de Minelvino Francisco Silva

HISTÓRIA DO BICHO DE SETE CABEÇAS

São três coisas neste mundo
Que eu dou todo valor:
Mulher bonita, dinheiro
E um homem lutador,
Que, com a sua razão,
Seja um herói vencedor.

Como aqui eu vou contar
A história de um guerreiro,
Que andava pelo mundo
Como simples forasteiro
E venceu diversas lutas,
Mas nunca foi desordeiro.

Era um soldado espanhol
De muita disposição,
Com vinte anos de praça,
Seu nome era Simeão
E nunca entrou numa luta
Que não ganhasse a questão.

Era forçoso, sadio,
Ligeiro e muito animoso.
De todo o destacamento,
Ele era o mais corajoso
Já chamavam Simeão
O ferro do criminoso!…

Porque qualquer criminoso,
Que fosse mais valentão,
O delegado mandava
O soldado Simeão,
Porque dum jeito ou de outro,
O tipo ia pra prisão.

Esse soldado, em Madri
Era por todos falado,
Pelos atos de bravura
Que ele havia praticado,
Mas vivia desgostoso
Por não passar de soldado.

Divisa nunca pegou,
Não se sabe nem porque,
Ora, pois ele sabia
Ler, contar e escrever
E, por não ser promovido,
Sofria seu desprazer.

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QUATRO MOTES NORDESTINADOS

José de Sousa Dantas glosando o mote:

Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina

O barreiro tá seco esturricado
não tem água no açude e na barragem
só tem nuvem cinzenta de estiagem
todo eito do campo está pelado
não existe alimento para o gado
o cinzeiro no espaço faz cortina
foram embora meus galos de campina
e os que ficam não estão cantarolando
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

Falta rama no pé de juazeiro
não tem pasto na roça e no baixio
na vazante do açude e nem do rio
não tem sombra de angico e de pereiro
já morreram mofumbo e marmeleiro
é preciso a intercessão divina
para a chuva molhar toda campina
ninguém sabe, só Deus quem sabe quando!
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

* * *

Carlos Aires glosando o mote:

Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

As cidades são belas, e eu não nego
Lindas praças com ruas e avenidas
Clubes festas e coisas divertidas
Mas, aqui vivo triste e não sossego
Essa dor que no peito hoje carrego
Bate forte e machuca o coração
Traficante, bandido e ladrão
Vive solto e eu preso atrás da grade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Sempre lembro das coisas lá da roça
A casinha singela que eu morava
Tinha portas, porém não precisava
De fechá-las porque a gente nossa
Mesmo pobre abrigada numa choça
Enfrentando a pobreza e a sequidão
É incapaz de fazer uma invasão
Pois respeita a nossa privacidade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Eu aqui tenho a casa arrumada
Com estante, sofá, televisor
Quando escrevo é num computador
Confortável é cama arrumada
Não me esqueço do cabo da enxada
Do machado, da foice, do facão
Nem da vida na minha região
Que eu vivia em plena liberdade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

O conforto é bom e necessário
E a cidade isso tudo oferece
Quem viveu lá na roça não esquece
O lugar que nasceu mesmo precário
Empregado eu virei um operário
Vivo sempre às ordens do patrão
Recordando do gado e do alazão
E assim vou vivendo de saudade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE GRACEJOS

O grande poeta repentista caruaruense Ivanildo Vilanova

Ivanildo Vilanova glosando o mote:

Se não canta martelo do meu tanto
Se deixar de cantar faz um favor.

Se não sabe o que é o Canadá
Sobre os graus que possui o Greenwich
E se não sabe o que é o Park Beach
Que é a glória maior do Ceará
Se não sabe a religião de Alah
E não conhece quem é o Salvador,
Mínimo, múltiplo e máximo decompor
E o valor do Divino Espírito Santo
Se não canta martelo do meu tanto
Se deixar de cantar faz um favor.

* * *

Luciano Pedrosa glosando o mote:

Dois poetas brigando o povo chora
Com vontade de ouvi-los novamente.

Dois heróis numa arena duelando
Cada qual defendendo o seu talento
Cada idéia que sai do pensamento
São seus gritos de guerra se formando.
Com viola seus versos vão bradando
Derrubando as fronteiras do repente
Ganha a guerra quem for experiente
E a peleja tem fim na mesma hora
Dois poetas brigando o povo chora
Com vontade de ouvi-los novamente.

* * *

Geraldo Gonçalves glosando o mote:

A poesia é  um dom
dado pela natureza

Para quem nasce poeta
versejar é um lazer,
sinto bastante prazer
obedecendo esta meta.
No repente sou atleta,
meu verso é uma beleza,
componho com singeleza,
rimo porque acho bom,
A poesia é  um dom
dado pela natureza.

* * *

Manoel Dantas glosando o mote:

Por muito ou pouco que seja
A chuva sempre é divina.

Quando no sertão troveja,
toda a natureza vibra,
somente a chuva equilibra
Por muito ou pouco que seja.
Deslizante, murmureja,
nos riachos da campina,
em trilhas sem disciplina,
sob um sol alaranjado,
reverdecendo o queimado
A chuva sempre é divina.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

O inverno renova a esperança
que o fantasma da seca nos deixou

Minha terra é mesmo que estou vendo,
eu recordo demais a minha infância,
muito embora eu esteja na distância,
mas eu tenho o meu rio inda correndo
mata pasto que lá estava morrendo,
com a chuva, ele já ressuscitou,
canta alegre pois a fogo pegou,
sopra o vento da chuva com a mudança.
O inverno renova a esperança
que o fantasma da seca nos deixou.

Fui criado lá na zona rural,
com a graça que vem do Pai eterno,
eu não posso esquecer aquele inverno,
que eu via brilhar no meu local,
eu rapaz me mudei pra capital,
e aí minha vida transformou,
já pensei qualquer dia desse eu vou,
pra rever meu lugar que eu fui criança.
O inverno renova a esperança
que o fantasma da seca nos deixou.

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CANTORIAS E GLOSAS

Poetas repentistas Moacir Laurentino e Sebastião da Silva  cantando um Quadrão Perguntado

* * *

 Poetas repentistas João Paraibano e Raimundo Nonato glosando o mote

“Quem tiver a mãe viva cuide dela
porque mãe só tem uma e zela a gente”.

* * *

Manoel Filó glosando o mote:

A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela.

Quando eu partir deste abrigo
Seguir à mansão sagrada,
A morte está perdoada
Do que quis fazer comigo,
Quis que eu fosse igual ao trigo
Que ao vendaval se esfarela,
Mas eu vou passar por ela
De cabeça levantada
A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela.

* * *

Clécio Ferreira glosando o mote:

Quem oferta uma flor não se liberta
Do perfume da rosa que ofertou.

Nunca hesite em doar felicidade
Não maltrate ou despreze o semelhante
Pois Deus Pai nos criou em seu semblante
Pra mantermos na alma a caridade
Seja contra qualquer iniquidade
Aconselhe a quem nunca se doou
Mate as mágoas de tudo que passou
Deixe a porta do peito sempre aberta!
Quem oferta uma flor não se liberta
Do perfume da rosa que ofertou.

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UM FOLHETO PROFÉTICO DE JOSÉ COSTA LEITE

A capa do folheto e o seu autor, José Costa Leite

 A VACA MISTERIOSA QUE FALOU PROFETIZANDO

O Santo Anjo da Guarda
Vive sempre me ajudando
Jesus, Maria e José
Permitiram eu ir rimando
Com rima melodiosa
A Vaca Misteriosa
Que falou profetizando

Reside em Minas Gerais
A viúva dona Noca
Possui uma bela vaca
Que é chamada Maroca
Gorda, possante e nutrida
E é até parecida
Com a vaca da Mococa

Agora recentemente
Dona Noca se levantou
Foi tirar leite na vaca
Quando se aproximou
Pra espanto de dona Noca
A bela vaca Maroca
Por esta forma falou:

- Estamos no fim dos tempos
Só falta chegar a hora
Cada vez mais se aproxima
Está perto e não demora
Por causa da corrução
Só haverá confusão
Ninguém espere melhora

Do jeito que o povo vai
Não tem jeito que dê jeito
A vergonha teve fim
Afugentou-se o respeito
Morreu a honestidade
E o caminho da verdade
Vai ficando mais estreito

A metade do pessoal
Só gosta do cabaré
Jogo, dinheiro e cachaça
Rela-bucho, arrasta-pé
Do jeito que o povo vai
Brevemente tudo cai
No abismo e não dar fé

Três quartos do povo vive
Envolvido no pecado
Abraçando o Satanás
E deixando Deus amado
O povo vai nesse jogo
Brevemente pega fogo
Neste mundo desgraçado

Quem tem o coração mau
Não alcançará perdão
Porém muitos pedem a Deus
Numa mistificação
Ficando de goela rouca
Com o nome de Deus na boca
E Satanás no coração

Jamais terá salvação
Quem tem o coração ruim
Está escrito na Bíblia
Porque Jesus disse assim:
- Grande escolha haverá
Porque ninguém chegará
o Pai, senão por mim

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OITO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE PELEJA

Lourival Batista Patriota, o Louro do Pajeú (São José do Egito, Jan/1915 — Dez/1992)

Lourival Batista

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
A sua está no princípio
A minha está bem no fim
Estou perto de estar longe
De quem está perto de mim.

*

Esse negócio de peito
Cousa que não embaraça
Mais peito do que você
Tem uma porca de raça
Tem duas fileiras grandes
E duma porca não passa.

*

Você é velho demais
E ainda quer ser valente
Em cima não tem cabelo
Na boca não tem um dente
Por fora não tem figura
Por dentro não tem repente.

*

Nem tudo que é triste chora
Nem tudo que é alegre canta
Nem toda comida é janta
Nem todo velho é escora
Nem toda moça namora
Nem todo amor tem paixão
Nem toda prática é sermão
Nem tudo que amarga é lima
Nem todo poeta rima
Nem toda terra é sertão.

* * *

Patativa do Assaré

Eu nunca vi filho único 
Que não fosse preguiçoso! 
Quem anda com guarda-costas 
Não é valente, é medroso! 
O homem se faz por si, 
Ninguém nasce poderoso! 
O pobre fica maluco, 
O rico fica nervoso.

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QUATRO DUPLAS EM CANTORIA

Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo (Crato, junho/1878 — Fortaleza, junho/1967)

Poetas repentistas Rogerio Menezes e Hipólito Moura cantando um Dez de Galope na Beira do Mar.

* * *

Poetas repentistas Valdir Teles e Sebastião da Silva glosando o mote

“Vamos juntos salvar a natureza,
o pulmão do planeta está doente”.

* * *

Poetas repentistas Edvaldo Zuzu e Raolino  Silva em cantoria.

* * *

Cantoria do Cego Aderaldo com Domingos Fonseca
 
 Cego Aderaldo

Ó doce luz dos meus olhos
Coração e a lembrança
Tudo quanto eu percuro
Eu vejo perseverança
Meu peito vive cansado
Porém não sente mudança

Domingos Fonseca

Eu desde muito criança
Que procurei me manter
Vivendo da cantoria
Para vestir e comer
Já que ser grande poeta
Lutei, mas não pude ser

Cego Aderaldo

Jesus a mim quis fazê
Neste caso que se deu:
Eu perdê a minha vista
Meus olhos escureceu
Mas estou cantando as virtudes
Que a natureza me deu

Domingos Fonseca

Jesus me favoreceu
Com a pequena viola
Me deu a inteligência
Que ao verso desenrola
Eu acho que ele deu-me
Uma preciosa esmola

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJOS DE JOSÉ HONÓRIO

 

José Honório, da União Cordelista de Pernambuco

Pinto do Monteiro
 
Acho graça a mocidade
Não querer envelhecer.
Velho ninguém quer ficar,
Moço ninguém quer morrer,
Sem ser velho não se vive,
Bom é ser velho e viver.

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver,
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Há três coisas nesta vida
Que Deus me deu e eu aceito:
A terra para os meus pés,
A viola junto ao peito
E um castelo de sonhos
Pra ruir depois de feito.

* * *

Geraldo Amâncio
 
Um sertanejo não quer
Secar as tripas e os ossos
Pra viajar vende os troços
Cadeira, prato e colher
Chorando abraça a mulher
Dizendo não chore não
Quando acabar sequidão
Volto correndo eu prometo
A seca pintou de preto
As cores do meu sertão

* * *

Louro Branco
 
Quando eu vi perecendo a minha horta
E o açude sem água na parede
Um garrote com fome e outro com sede
Uma vaca doente e outra morta
Eu falei vou partir por essa porta
E se o inverno voltar retornarei
Mas se a seca render não voltarei
Que no chão sem ter água ninguem mora
Quando a seca chegou eu fui embora
Do sertão que nasci e me criei

* * *

Ivanildo Vilanova
 
No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tem a colheita, a criação
Ferramenta da roça produção
Uma rede, um grajau de rapadura
Uma dez polegada na cintura
A viola, um baú, uma cabaça
A tarrafa e um litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu baêta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Poeta Wellington Vicente, colunista fubânico

Wellington Vicente, em homenagem a Zé Marcolino, glosa o mote

Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

Sei que Raimundo Jacó
Ganhou um bom companheiro
Mas uma enchente de dó
Fez no meu peito um barreiro
E a saudade, num estouro,
Arrebenta o sangradouro
Que eu me ponho a chorar
Pois fiquei na soledade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

O meu sertão nordestino
Ficou triste sem seu filho
Porque José Marcolino
Foi cedo emprestar seu brilho
Ao que já tem o Infinito
Mas seu aboio bonito
Irá nos representar
À Suprema Majestade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

Ficamos eu e o Bira
E outros nossos parentes
Saudosos, seguindo a mira
Do alvo dos seus repentes
E a santa inspiração
Nas horas de aflição
Vem logo nos consolar
Com a musicalidade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

* * *

Alexandre Morais glosando o mote:

Do que fiz em minha vida
E do amor que foi meu
Não conto nem a metade
De tudo que aconteceu.

Escrevendo por mil linhas,
Falando por mil minutos,
Passando por mil redutos,
Deixando mensagens minhas…
Ou contando historinhas,
Sendo cada uma ouvida,
Muitas vezes repetida,
Regravada e remontada
Ainda não conto nada
Do que fiz em minha vida.

Nas passagens falaria
Em sonhos, realidade,
Regresso, ida, saudade,
Confrontos e calmaria.
Meninices, velharia,
Vaidades do meu eu,
Traquinagens do liceu,
O bom, o bem e o atraso,
Coisas do fundo, do raso
E do amor que foi meu.

Mas meu tempo é curto
E meu passado é extenso.
Quanto mais nele eu penso
Mais meu próprio tempo furto.
Já me toma como um surto
O registro da idade,
Redobro minha vontade
De rever a trajetória,
Mas do todo da história
Não conto nem a metade.

E do pouco que relato
São grandes as descobertas…
São muitas passadas certas.
A Jesus sou muito grato.
Entre a verdade e o fato,
A diferença sou eu,
Que só conto o que é meu
Sem temer quem me afronta,
Só no céu eu presto conta
De tudo que aconteceu.

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GERALDO AMÂNCIO E A ARTE DA GLOSA

Poeta repentista Geraldo Amâncio

Geraldo  Amâncio glosando o mote:

O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Quem foi pai do folheto nordestino
Foi Agostinho Nunes do Teixeira,
Escreveu a história pioneira
Com os filhos Nicandro e Ugolino.
Prosseguiu com Germano e com Silvino,
Eis aí a primeira geração.
O romance no estado de embrião
Fervilhou no poder imaginário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Teve berço no chão paraibano,
Da cultura do povo um grande guia,
Registrou a primeira cantoria
Na peleja de Inácio com Romano.
A memória do padre Otaviano
Levou luz  onde havia escuridão,
O veículo maior de informação
E o primeiro jornal do proletário
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

O cordel memoriza a cantoria
Na peleja de Pinto com Marinho,
Com o Cego Aderaldo e Zé Pretinho,
O que via apanhou do que não via.
Zé Gustavo e Roxinha da Bahia,
Nisso tudo aparece até o cão,
Na peleja do Diabo e Riachão
Foi Assu testemunha do cenário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

A maior expressão do menestrel
Não há força que atinja o seu alcance
O campônio conhece por romance
Ou então por folheto de papel.
Só depois veio o nome de cordel,
Que em feira era exposto num cordão
Ou então numa lona pelo chão
E um poeta a cantar feito um canário.
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Registrando o passado e o presente,
Para tudo o cordel tem sempre espaço:
Pra amor; pra política, pra cangaço,
Romaria, promessa e penitente.
Retirante, romeiro, presidente,
Seca, fome, fartura, inundação,
Nele encontra o melhor documentário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

Dos cordéis elegeu-se o mais famoso,
Entre métrica, oração, rima e estilo,
O segundo lugar é de João Grilo
E o primeiro o Pavão Misterioso,
A história de um pássaro formoso
Misturando real com ficção.
O enredo imortal de uma paixão
Imprimiu-se no nosso imaginário,
O cordel completou um centenário
Viajando nas asas do pavão.

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JÓ PATRIOTA, UM MESTRE DA CANTORIA E DO IMPROVISO

Job Patriota de Lima, (1º/Jan/1929 – 11/Out/92)

Eu nasci em Itapetim
Lugar onde um camponês
Nunca estudou matemática
Nunca aprendeu português
Mas sabe fazer um verso
Que Castro Alvez não fez

* * *

Eu comparo a nossa vida
Com o mar irritado e forte
Alguma bússola indicando
Leste, oeste, sul e norte
Dum lado a praia da vida
Do outro o porto da morte.

* * *

Mesmo sem beber um trago
Sinto que estou delirando
Tal qual cisne vagando
Na superfície de um lago
Se não recebo um afago
Vai embora a alegria
A minha monotonia
Não há no mundo quem cante
Sou poeta delirante
Vivo a beber poesia!

* * *

Mágoa, pranto e agonia
É tudo do mesmo tanto
Felicidade completa
Só existe em quem é santo
Porque num gole de riso
Há  cem mil doses de pranto.

* * *

O meu prazer foi extinto
Hoje no meu pensamento
Passam como passa o vento
As alegrias que eu sinto
Fiz do mundo um labirinto
E saí em busca do amor
Encontrei um dissabor
Me oferecendo agonias
Porque minhas alegrias
São intervalos da dor.

* * *

Eu na minha mocidade
Passei o tempo indeciso
Fiz do mundo um purgatório
Desta vida um paraíso
Depois ocultei meu pranto
Pra desmanchá-lo em sorriso.

* * *

Se o pranto é irmão do riso
Nascidos do mesmo amor
Tanto me faz eu estar rindo
Como sentindo uma dor
Que o sofrimento é da vida
Como o perfume é da flor.

* * *

Os meus eu não tenho mais
Vivo como um passarinho
Que os pais desapareceram
Deixando implume no ninho
O primeiro vôo vida
Quando dei já foi sozinho

* * *

Passei a crer na bondade
Nos amigos inda creio
Depois que vi dois mendigos
Repartir o pão no meio

* * *

Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Ora calmo, ora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

 * * *

Quem falar de um ancião
Ou manchar a inocência
Pode esperar que algum dia
O pincel da Providência
Com a tinta dos remorsos
Vem tingir-lhe a consciência.

MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE NILTO MANOEL

Otacílio Batista Patriota: nasceu a 26 de setembro de 1923, na Vila Umburanas, São José do Egito, sertão pernambucano do Alto Pajeú e morreu a 05 de agosto de 2003, na cidade de João Pessoa, Paraíba

Dois monstros sagrados da Nação Nordestina, dois grandes poetas repentistas, Otacilio Batista e Diniz Vitorino, ambos já no infinito, em memorável encontro:

* * *

Otacílio Batista

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

Dimas Batista

Quando eu pego na viola
Para cantar o Brasil:
Militar deixa o fuzil;
Jogador esquece a bola;
O aluno gazeia a escola;
O judeu sai do balcão;
O orador erra a expressão;
Pugilista perde o soco.
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Eu sou toque de corneta;
Sou barulho de batalha;
Sou o gume da navalha;
Sou a ponta da lanceta;
Sou a pancada da marreta;
Sou o golpe do facão;
Sou tiro de mosquetão;
Sou trator de arrancar toco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Cantador só passa em teste
Se consultar o Batista;
Porque Deus me fez artista;
Repentista do Nordeste;
Eu não temo nem a peste
Que tenha “pauta” com o “cão”,
Minha voz é um trovão;
Só não houve quem for mouco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

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OS NONATOS EM CANTORIA

Raimundo Nonato e Nonato Costa

Poetas repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa glosando o mote  

“A Europa nos fez de sub raça
e a América do Norte escravizou”.

* * *

Poetas repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa glosando o mote

“Só a natureza ensina
tudo isso e muito mais”.

* * *

Poetas repentistas   Raimundo Nonato e Nonato Costa trabalhando o tema:

“ O nordeste é rico em tudo”.

* * *

Cantoria dos poetas repentistas  Os Nonatos:

DUAS DUPLAS EM FESTIVAIS E UM POEMA DE PATATIVA DO ASSARÉ

Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002)

* * *

Poetas repentistas Silvio Granjeiro e Francinaldo Oliveira cantando um Quadrão Perguntado no Festival de Juazeiro/CE

* * *

Poetas repentistas Valdir Teles e Zé Cardoso em cantoria no festival de Itapetim/PE

* * *

CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁ – Patativa do Assaré

Poeta, cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo
Aqui Deus me insinou tudo,
Sem de livro precisá,
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisas do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só o que provou da comida
Sabe o gôsto que ela tem.

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A VIDA DO CANGACEIRO JESUINO BRILHANTE

 

Cantiga do Jesuíno – Terezinha do Acordeon:

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva

JESUÍNO BRILHANTE – BRAÇO AVANÇADO DA JUSTIÇA

 A vida de Jesuíno
apresenta-se humana
depois que saiu perfeita
ao cabo de uma semana
do prodigioso bico
da pena gonçaliana.

Para dar fidelidade
ao cuidadoso relato
da produção deste texto
sou imensamente grato
à Aglae, Mestre Cascudo
e a Raimundo Nonato.

Ao longo da narrativa
por natureza empolgante
em razão do nosso estilo
envolvente e fascinante
veremos parte da vida
de Jesuíno Brilhante.

De posse de dados tais
o meu nervoso sistema
repousou como tocado
por inspiração suprema
e ao cair do crepúsculo
estava pronto o poema.

Ao longo da narrativa
minha região vivia
a saudade evanescente
dos tempos idos sentia
e a sensação de nordeste
me fazia companhia.

Eu tenho quase certeza
que o próprio Jesuíno
sentia o mesmo que sinto
quando fatal desatino
mudou-lhe as regras do jogo,
modificou seu destino.

No sítio Tuiuiú
de Patu bem afastado
então Vila Potiguá
foi nascido e batizado
o menino Jesuíno
Alves de Melo Calado.

Cresceu sempre demonstrando
ter apurado juízo,
empunhando a baladeira
tinha arremesso preciso
e no rosto iluminado
um permanente sorriso.

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GRANDES MESTRES DO IMPROVISO

Casaca-de-Couro num pé de mandacaru

Zezo Correia trabalhando o tema “A vida de um passarinho”:

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira
No ninho da quixabeira
Canta a casaca-de-couro
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

Dedé Monteiro

Cantador pra imitar o triplo gênio
De um Xudú, de um Filó e de um Geraldo,
É preciso que tenha um grande saldo
De grandeza, de fé, de oxigênio;
E, além disso, passar quase um decênio
Preparando o bogó do coração
Pra juntar ferramenta e munição
Necessárias na guerra das ideias
Que provoca o delírio das plateias
Embaladas por tanta inspiração.

* * *

Diniz Vitorino

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

* * *

Jó Patriota

Mesmo sem beber um trago
Sinto que estou delirando
Tal qual um cisne vagando
Na superfície de um lago
Se não recebo um afago
Vai embora a alegria
A minha monotonia
Não há no mundo quem cante
Sou poeta delirante
Vivo a beber poesia !

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SETE MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE SONHOS

Zé Saldanha

Sou poeta sertanejo,
Sei o caminho onde passo
Tem muito poeta grande
Que nunca fez o que faço
Nem sabe tudo que sei
Nem traça o traço que traço.

A poesia me traz
As sintomáticas inclusas
De onde Camões saiu,
Tangido por doces musas
Inspirado nos acordes
Das mais doces liras lusas.

Baralho tem 4 ases,
Quatro Duques, 4 Três,
Quatro 4, quatro 5,
Quatro 8, quatro 6,
Quatro 9, quatro 7,
Quatro 10, quatro valetes,
Quatro Damas, quatro Reis.

* * *

José Lucas de Barros

Quando menino, eu queria
Ser homem com rapidez,
Depois, contabilizando
Tudo que o tempo me fez,
Hoje morro de vontade
De ser menino outra vez.

* * *

Chico Monteiro

Isso aqui é Salamandra,
São Francisco  do Oeste,
Já faz uns 40 anos
Que eu conheço esta peste,
Tirando o nome do santo,
Não tem mais ninguém que preste!

* * *

Zé de Vidal

O coveiro é um vivente
De pequena autoridade;
De baixo nível  e salário,
Porém na realidade,
Preso que coveiro prende
Nunca mais tem liberdade!

* * *

Josué da Cruz

O pobre do cantador
Sofre que só jumento
Pra sustentar a família
De roupa e de alimento
Por um pedaço de carne,
Preto, feio e fedorento!

Me disse um velho matreiro
Cientista de mister,
Que um burro não tem as manhas
Que uma mulher tiver…
Já outros, dizem também,
Que sete burros não têm
As manhas de uma mulher.

* * *

João Martins de Ataíde

Poeta como Leandro,
O Brasil inda não criou,
Por ser um dos escritores,
Que mais livros registrou,
canções não se sabe quantas,
Foram seiscentas e tantas,
As obras que publicou.

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O LEGENDÁRIO PINTO DE MONTEIRO CANTANDO COM ZÉ PEQUENO

“Poeta é aquele que tira de onde não tem e bota onde não cabe” (Pinto de Monteiro)

Capa do livro de autoria do Cardeal Zelito Nunes

Pinto de Monteiro e Zé Pequeno cantando Frei Damião:

* * *

Pinto de Monteiro e Zé Pequeno cantando uma Gemedeira:

* * *

Pinto de Monteiro e Zé Pequeno cantando um Galope a Beira Mar:

QUATRO DUPLAS EM CANTORIA

Poetas repentistas João Paraibano e Raimundo Nonato:

* * *

Poetas repentistas  Raimundo Lira e Silvio Granjeiro cantando 

“O que é que me falta  fazer mais,
se o que fiz até hoje ninguém faz”.

* * *

Poetas repentistas Valdir Teles e Raimundo Caetano glosando o mote

“Não consigo tirar do pensamento
as imagens da vida no sertão”.

* * *

Poetas repentistas  Zé Ferreira e João Quindingues cantando um Martelo Agalopado:

DOIS POEMAS DE ORLANDO TEJO

Orlando Tejo

 O MEU PAÍS

 (Em parceria com Livardo Alves e Gilvan Chaves, interpretação de Zé Ramalho)

 

Um país que crianças elimina,
Que não ouve o clamor dos esquecidos,
Onde nunca os humildes são ouvidos,
E uma elite sem Deus é quem domina,
Que permite um estupro em cada esquina,
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão baixa cerviz,
E massacram-se o negro e a mulher,
Pode ser um país de quem quiser,
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos,
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis,
Um país onde os homens confiáveis
Não tem voz, não tem vez, nem diretriz,
Mas corruptos tem vez, voz e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser um país de qualquer um
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país que seus índios discrimina
E a ciência e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina;
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de Raio-X
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol,
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir na noite escura;
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil “brasis”
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz de conta
Mas não é, com certeza, o meu país.

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UMA PELEJA ESMAGADORA PARA FECHAR O ANO DE 2011

Um folheto de José Pedro Pontual

A ESMAGADORA PELEJA DE JOÃO VICENTE EMILIANO COM JOSÉ PEDRO PONTUAL

Surgiu mais outra peleja
do forte pernambucano
José Pedro Pontual
João Vicente Emiliano
que cantam tanto repente
que abala até o tutano.

João Vicente Emiliano
improvisa e canta história
nasceu a 20 de junho
na cidade de Vitória
no ano 42
canta e tem boa memória.

Já Pontual tem a glória
de grande batalhador
canta de viola e vende
livros do grande escritor
Senhor João José da Silva
bom poeta e autor.

Porque em qualquer setor
quando entrar em cantoria
parece que a natureza
chega no seu crânio e cria
assuntos misteriosos
que admira a freguesia.

Vinha de uma romaria
do padre Cícero Romão
passou por Caruaru
comeu arroz com capão
de lá destinou-se a ir
a Vitória de Santa Antão.

Encontrou-se com o vate
José Vicente Emiliano
em casa de Antônio Porrete
foi um combate tirano
lá na Nova Descoberta
vamos ver quem é bacano.

José Vicente Emiliano
estava cantando só
dizendo ao pessoal
- sou tronco de mororó
quando chegou Pontual
foi de causar até dó.

Dr. Pedro Piancó
disse Pontual se sente
que quero ouvir de você
meia dúzia de repente
com João Emiliano
rastro de tigre valente.

Pontual sentou-se urgente
e começou a questão
dizendo ao pessoal
sou cisco de furacão
cantador por bom que seja
me vendo perde a ação.

João Vicente

Deixe de sua ilusão
gabamento é papel feio
repare o que Jesus disse
sem demonstrá aperreio
dai comida a quem tem fome
que ele nos dará o meio.

José Pedro Pontual

Quando Jesus Cristo veio
no mundo já existia
ignorância e tragédia
aumentando dia a dia
já hoje o tempo só presta
com safadeza e orgia.

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UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO DE VIADAGEM

Aldo Neves glosando o mote:

Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

O sertão quando a terra está molhada
A enchente no rio faz rumores
As abelhas brincando com as flores
Sertanejo se acorda à madrugada
Meia noite uma serra é aguada
Com um chuveiro depois de destrancado
Carro pipa de tanque enferrujado
E a cigarra esquecida do verão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

Uma nuvem se forma no nascente
Com a força do vento se balança
Jitirana nas cercas fazem trança
Cantam os sapos felizes na enchente
Para a terra Deus manda esse presente
Tantas vezes e nada tem cobrado
E as formigas trabalham no roçado
Igual gente fazendo procissão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

Quando sobra fartura o pobre enrica
E recupera de novo a esperança
E um moleque com fome encosta a pança
Na panela melada de canjica
Vai embora o verão, o carão fica
Pra cantar quando o rio está de nado
E o nordeste só cheira a milho assado
Nas fogueiras de noite de São João
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

O cenário enfeitando a capoeira
Só o tempo querendo ele desmancha
E um enxame de abelhas se arrancha
Num buraco de um pau de aroeira
Na segunda o matuto vai à feira
Contar o que fez no seu roçado
E o fantasma da seca encarcerado
Sem querer Deus botou-lhe na prisão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

De manhã quando o sol enfeita a barra
Uma flor se desprende e cai do galho
Camponês recomeça o seu trabalho
Sem ouvir a cantiga da cigarra
À tardinha as gangarras fazem farra
Com o milho depois de pendoado
E a enchente parece um aleijado
Sem andar se arrastando pelo chão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

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CANTORIAS DA DUPLA SEBASTIÃO DA SILVA E MOACIR LAURENTINO

* * *

Cantando um Oitavão Rebatido:

* * *

Cantando um Quadrão Perguntado:

 

* * *

Cantando uma Gemedeira e um Galope a Beira Mar:

* * *

Moacir Laurentino cantando com Sebastião da Silva

Moacir Laurentino

Eu gosto tanto do xote
e da poesia divina,
quando eu começo a cantar
sinto que a voz se afina,
penso que nunca adoeço
e que a vida nunca termina.

Sebastião da Silva

Cantar é minha doutrina,
foi a opção que fiz,
pra defender a cultura,
e para cantar meu País,
cantar pra viver alegre,
sonhar pra viver feliz.

Moacir Laurentino 

Alcancei o que mais quis
e arranjei conhecimento,
afinando as 7 cordas
tocando o meu instrumento,
eu sinto a marca divina
ligada em meu pensamento.

Sebastião da Silva

Já passei por sofrimento,
por tristeza e ameaça,
pelas queixas e as dores
e herança da nossa raça;
porém cantando repente,
todo sofrimento passa.

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DEZEMBRO, MÊS DE JESUS

* * *

Um folheto de Manuel Camilo dos Santos

Nascimento, vida e morte de Jesus

No ano de trinta e nove
Viajei para o sertão
Do Rio Grande do Norte
Com a minha profissão
Cantando e vendendo versos
Por vila e povoação

Cheguei num dia de sábado
Na vila de São Miguel
Às cinco horas da tarde
Me hospedei num hotel
Depois me deram um cartão
Do padre João Rafael

O cartão dizia assim:
Seu cantor, não lhe conheço
Mas se quer cantar um pouco
Minha casa lhe ofereço
De acordo a seu valor
Também farei o seu preço

Eu disse ao portador
Depois do cartão ter lido:
O senhor diga ao vigário
Que vou fazer-lhe o pedido
Pra faltar a gente boa
Antes eu não fosse nascido

O hoteleiro me disse:
— O vigário é especial
Às sete horas da noite
Me preparei afinal
Foi muita gente comigo
Pra casa paroquial

Chegando na porta eu vi
O padre se levantar
Com muita delicadeza
Tratei de o cumprimentar
Às ordens, seu reverendo
Disse ele: pode sentar

Sentei-me numa cadeira
Com a viola afinada
O padre também sentou-se
Noutra cadeira encostada
Perguntou se eu cantava
na Escritura Sagrada

Eu disse: seu reverendo
Quase nada estudei
Na Escritura Sagrada
Poucas lições decorei
Mas como o senhor me pede
Vou vê se o satisfarei

Disse o padre — na Escritura
Qualquer coisa me conforma
Sobre a vida de Jesus
É uma cantiga norma
Então com a ordem dele
Comecei por esta forma

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POEMAS NORDESTINADOS DE NATAL

CARTA A PAPAI NOÉ – Luís Campos
 
Seu moço eu fui um garoto
Infeliz na minha infância
Que soube que fui criança
Mas pela boca dos outo.
Só brinquei com os gafanhoto
Que achava nos tabuleiro
Debaixo dos juazeiro
Com minhas vaca de osso
Essa catrevage, sêo moço
Que a gente arranja sem dinheiro.
 
Quando eu via um gurizin
Brincando de velocipe
De caminhão e de gipe
Bola, revólver e carrin
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruquê eu num pudia
Pegar naqueles brinquedo.
 
Mas preguntei uma vez
A uns fio de dotô
Diga, fazendo um favô
Quem dá isso pra vocês?
Mim respondeu logo uns três
Isso aqui é os presente
Que a gente é inocente
Vai drumí às vêis nem nota
Aí Papai Noé bota
Perto do berço da gente. 
 
Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na Noite de Natá
Eu fui drumi mim lembrando
Acordei fiquei caçando
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Que de presente o que tinha
Era de mijo uma pocinha
Que eu mermo tinha botado
 
Saí c’a bixiga preta
Caçando os amigos meu
Quando eles mostraram a eu
Caminhão, carro e carreta
Bola, revólver, corneta
E trem elétrico, até
Boneca, máquina de pé
Mas num brinquei, só fiz vê
E resolvi escrevê
Uma carta a Papai Noé.

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UM FOLHETO NATALINO – 2

Azulão

O verdadeiro Natal

Peço a Deus Pai Poderoso
Inspiração divinal
Com a mensagem sagrada
Da mansão celestial
Eu vou escrever rimado
O verdadeiro Natal

Natal de Jesus Menino
Templo de amor e bondade
Data santa que registra
O símbolo da cristandade
Que se resume em três coisas
Salvação, paz e verdade

Jesus o Menino Deus
Filho do Pai Criador
Que veio ao mundo tirar
As culpas do pecador
Depositando nos homens
Bondade, paz e amor

Portanto o seu nascimento
É para ser festejado
Com paz e amor ao próximo
Cumprindo o dever sagrado
De remendar o pobre
Faminto e desamparado

O verdadeiro Natal
De Jesus Nosso Senhor
É dar a criança pobre
Amparo consolador
E ter a seu semelhante
Como a si, o mesmo amor

Porém o homem de hoje
De Deus estar muito ausente
Confundindo o seu amor
Com vaidade imponente
E dando a humanidade
Outro Natal diferente

Porque o Natal de hoje
Estar sendo transformado
Em festa, luxo e banquete
Que descristianizado
Toma um sentido contrário
Do que já foi no passado

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UM FOLHETO NATALINO – 1

 

Um folheto de Celina Ferreira

O NATAL COM JESUS CRISTO

Vinde, vinde Santo Espírito
Aclarar meu pensamento
Trazer a luz da verdade
Ao meu pobre entendimento
Para que minha palavra
Seja de Deus o fermento

Para que minha palavra
Possa entre o povo crescer
Como fermento na massa
Como o ribeiro a correr
Como a semente na terra
Como a luz do amanhecer

Minha voz não é só minha
Vem de Deus a inspiração
Vem do verdadeiro artista
Poeta da Redenção
Rei dos nossos cantadores
E poetas do sertão

E desse Rei, desse Artista
Desse Poeta Imortal
Que nasceu da Virgem Pura
Sem pecado original
Quero contar com doçura
E humildade seu Natal

Natal, Natal de Jesus
Na cidade ou lá na serra
Nas montanhas, nas planícies
Natal no Céu e na terra
Quanta beleza ele espalha
Quanta grandeza ele encerra

Jesus é Filho de Deus
Filho da Virgem Maria
A doce Estrela do Mar
Virgem antes de ser mãe
Virgem depois de ser mãe
Virgem no céu e no altar

De acordo com as profecias
Nasceria o Salvador
Numa pobre estrebaria
Sem conforto e sem calor
Seria pobre entre os pobres
Nosso Deus, nosso Senhor

E uma estrela, no Oriente
Brilhando em todo o fulgor
Traria a grande notícia
Feita de paz e amor
De uma Virgem nasceria
Nosso Deus e Redentor

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UM FILME E UM FOLHETO DE DALINHA CATUNDA

Um curta metragem com um folheto de J. Borges

A MOÇA QUE DANÇOU DEPOIS DE MORTA

* * *

Um folheto de Dalinha Catunda

NÃO DEIXE O HOMEM BATER, NEM EM SEU ATREVIMENTO!

Desde pequena eu ouvia
Nas declarações de amor
Que não se bate em mulher
Nem mesmo com uma flor
E para viver comigo
Com sinceridade digo:
Cuidado com o andor.

Não nasci para apanhar,
Nunca fui uma qualquer.
Respeito é bom e eu gosto
Isto toda fêmea quer.
Se quiser ser respeitado
O meu recado tá dado
E é conselho de mulher.

Homem que bate em mulher
Com toda sinceridade
É um projeto de homem
Não é homem de verdade
E a mulher que é surrada
Também chamo de culpada
Por sua cumplicidade.

Quem apanha uma vez,
Vira saco de pancada.
Quando ele alterar a voz
Procure logo a estrada.
Botar culpa na bebida,
Já é tática conhecida
E desculpa esfarrapada.

No começo são palavras,
Depois vem o palavrão.
E com a voz alterada
Ele vem e senta a mão,
E a mulher dependente,
Apanha de quebrar dente,
E esconde a situação.

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CINCO MOTES E UM FOLHETO DE RAPARIGAGEM

Manuel  Xudu glosando o mote:

Quanto é grande o poder do criador.

Admiro o caju e a castanha
Nascem os dois pendurados num só cacho
Bem unidos, um em cima, o outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela extrai-se o azeite, o sumo, a banha,
Dele o suco pra o vinho e pra o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor,
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do criador!

* * *

José Lucas de Barros, quando da morte do poeta Chico Motta, glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *
                                                
Zé de Cazuza glosando o mote:

Diante da providência
A ciência é mentirosa.

Vê-se as flores naturais,
Perfumando o ambiente,
Parecendo indiferente,
Doutras artificiais,
Umas cheirando demais,
E outras sem ser cheirosas,
Quando o homem faz as rosas
Fica faltando a essência,
Diante da providência
A ciência é mentirosa.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

A seca pintou de preto
As cores do meu Sertão

Um sertanejo não quer
Secar as tripas e os ossos
Pra viajar vende os troços
Cadeira, prato e colher
Chorando abraça a mulher
Dizendo não chore não
Quando acabar sequidão
Volto correndo eu prometo
A seca pintou de preto
As cores do meu Sertão.

* * *

Paulo Barja glosando o mote:

A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

No galope cavalgamos
criando nossa poesia
porém, nesse dia-a-dia
é nossa dor que cantamos;
muitas vezes trabalhamos
sem ganhar nenhum tostão,
enquanto muito ladrão
aumenta a própria fartura
- A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

O transporte anda pra trás,
teatro é abandonado
e o Banhado é vitimado
por crimes ambientais.
Já ninguém aguenta mais:
vão aprovar a extração
de areia em votação
no meio da noite escura?
- A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

Não dá pra aceitar de novo
essa velha ladainha:
distribuem a farinha
mas privatizam o ovo!
Há quem se lembre do povo
só na hora da eleição,
mas nossa reclamação
tanto bate até que fura:
- A seca d´alma é tão dura
Quanto a seca do sertão.

* * *

Um folheto de J.Borges

A CHEGADA DA PROSTITUTA NO CÉU

Do rosto da poesia
eu tirei o santo véu
e pedi licença a ela
para tirar o chapéu
e escrever a chegada
da prostituta no céu…

Sabemos que a prostituta
é também um ser humano
que por uma iludição
fraqueza ou desengano
o seu viver é volúvel
sempre abraça ao engano…

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SEIS MESTRES DO IMPROVISO E DUAS DUPLAS EM CANTORIA

Antonio Lisboa e Edmilson Ferreira em cantoria

Poetas repentista Antonio Lisboa e Edmilson Ferreira glosando mote

“Estude o dicionário
se quiser saber também”

* * *

Cantoria dos poetas repentistas Valdir Teles e Fenelon Dantas:

* * *

Zé Limeira

Pedro Álvares Cabral
Inventor do telefone
Começou tocar trombone
Na banda do Zé Leal.
Mas como tocava mal
Injeitou três instrumento
Jesus saiu lá de dento
Correndo atrás duma lebre
Quem for podre que se quebre
Diz o novo testamento.

* * *

Cego Aderaldo

O retrato de Lampião
Eu descrevo com capricho:
Não brigando, era simpático,
Dentro da luta era um bicho,
Com o seu terno de mescla
E alpargata de rabicho…

Pulava igualmente a gato,
Com o rifle e a cartucheira
Mais um rifle  pequenino
Que tinha na bandoleira
E um revólver Anagão
Chamado espanta-ribeira.

Ostentava na cabeça
Um grande chapéu de couro,
O seu pescoço era ornado
Com um lindo colar de ouro.
Se lia no rosto dele:
“Não suporto desaforo.”

Zé Antonio do Fechado
Foi um grande valentão:
Zé Dantas, João Vinte e Dois
Era uma assombração…
Jesuíno brigou muito,
Mas não como Lampião.

* * *

José Lucas de Barros
(Em homenagem ao poeta repentista João Paraibano)

A natureza precisa
Valer-se do Soberano,
Fazer um longo projeto
E aprimorar mais de um ano
Para criar um poeta
Como João Paraibano.

Nasceu com o dom do improviso
E um rouxinol na garganta;
Seus repentes são prodígios
De inspiração pura e santa,
E ninguém canta as belezas
Do sertão como ele canta.

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CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE ARIEVALDO VIANA

Monumento a Cego Aderaldo em Quixadá-CE
(Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo – Crato, Jun/1878 — Fortaleza, Jun/1967)

Cego Aderaldo

Só nos falta vê agora
Dá carrapato em farinha
Cobra com bicho-de-pé
Foice metida em bainha
Caçote criá bigode
Tarrafa feita sem linha
 
Muito breve há de se vê
Pisá-se vento em pilão
Botá freio em caranguejo
Fazê de gelo carvão
Carregá água em balaio
Burro subi em balão.

* * *

Pedro Amorim

Eu sou é Pedro Amorim
Um dromedário inalcansável
Uma serra intransponível
Um  prédio inexpugnável
Navalhas vulcanográficas
De aço inoxidável

* * *

Jacó Passarinho

Cantador que dá-se a preço
Não se areia nem faz troça:
Sujeito de bom calibre
Depois de velho remoça;
Quem beija a boca de um filho
A boca de um pai adoça.

Nossa Senhora é mãe nossa,
Jesus Cristo é nosso pai
Na minha boca repente
É tanto que sobra e cai…
Quem beija a boca de um filho
Adoça a boca de um pai

Mostro a quem vem e a quem vai,
Mostro a todos da jornada:
Mais vale quem Deus ajuda
Do que quem faz madrugada.
Quem beija a boca de um filho
Deixa a de um pai adoçada.

Este mundo é uma charada…
Ai de mim, se Deus não fosse!
Repente em minha cabeça
Ainda não acabou-se:
Quem beija a boca de um filho
Deixa a boca de um pai doce.

Foi o inverno quem trouxe
Ao Ceará a fartura.
Eu, em casa de homem rico,
Gosto de fazer figura…
Quem beija a boca de um filho
Deixa a de um pai com doçura.

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UM MOTE FEMEEIRO E UM FOLHETO MITOLÓGICO

Dédalo e Ícaro: da mitologia grega para o cordel

Silva Filho glosando o mote:

Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar

Quatro grandes maravilhas
Que se resumem em três
Mulher, Cachaça (na vez)
Valem por quatro partilhas;
Sem auxílio de planilhas
Quem quiser vai comprovar
Como quem sabe pescar
E tem domínio de proa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Quando entra no forró
Pra ficar bem abraçado
Quer o homem um rachado
Que desata qualquer nó;
Nos confins dum cafundó
Onde se queira sondar
Ninguém fica sem um par
Ninguém espera à toa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Num jogo de futebol
Mesmo sendo só pelada
Os olhos da mulherada
Brilham como luz do sol;
Como que um arrebol
Ou um campo estelar
Vale a pena contemplar
Qualquer moça ou coroa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Melhor ainda na praia
Com ela quase despida
Quase que toda lambida
Por um sol que se espraia;
Sem obstrução de saia
Tem poupança pra mostrar
Todos querem degustar
Todos querem fazer loa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Se o momento é de samba
Como quer o carnaval
Logo vem um vendaval
Que arranca a mutamba;
Não confunda com muamba
Pra não dar o que falar
É melhor se preparar
Pra entrar nessa canoa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

* * *

Um folheto de Maércio Lopes Siqueira

A MORTE DE ÍCARO

A mitologia grega
é rica de ensinamento
para toda nossa vida
pois nos dá conhecimento
da natureza humana,
mostrando como se engana
nosso pobre pensamento.

Uma lenda dessas diz
que Dédalo trabalhava
para Minos, um rei grego
e a ele agradava
com as suas invenções,
pois suas fabricações
o rei muito apreciava.

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OS NONATOS EM CANTORIA E UM FOLHETO DE HISTÓRIA DO BRASIL

Poetas repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa glosando o mote:

“A velhice é um débito que a idade
pode até prorrogar, mas não dispensa”

* * *

Poetas repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa em cantoria no  5º DESAFIO NORDESTINO DE CANTADORES

* * *

Um folheto de Tárcio Costa

Em terra de cego quem tem vista fecha os olhos

Há mais de quinhentos anos
Lusitanas caravelas
Guiadas por brisa leve
Que sopravam suas velas
Rumaram ao monte Paschoal
E avistando o litoral
Ouviu-se de uma delas:

_ Terra à vista capitão!
E Cabral na disparada
Olhou lá pra terra firme
Vendo as nativa pelada
Coçou forte seus pentelhos
Juntou colar, pente e espelhos
Pronto a zona estava armada

Comprando o velho cacique
C’umas bugiganga falsa
Os marujo da península
Puderam arriar as calça
As índia aprova o tamanho
Levando os branco pro banho
Ditando os passo da valsa

Olhando pra tudo aquilo
Que a todo gosto seduz
Pedro Álvares batiza
A terra de Vera Cruz
E o clero c’oa catequese
Diz pro índio: _ Filho reze
Peça perdão pra Jesus!

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DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE RAPARIGA

Pinto do Monteiro

Aqui é minha oficina,
Onde eu conserto e remendo,
Quando o ferro é grande, eu corto,
Quando é pequeno, eu emendo,
Quando falta ferro, eu compro,
Quando sobra ferro, eu vendo.

* * *

Vitorino Bezerra

Ensinei Patativa a fazer glosa
Inspirei Casemiro de Abreu
Castro Alves foi grande aluno meu
Passei muitas lições pra Rui Barbosa
Ensinei a Dercy ser vaidosa
Com as suas piadas imorais
Gravei disco com os filhos de Goiás
Expulsei Wanderley botei Leão
Pra ser técnico da nossa seleção
E o que é que me falta fazer mais…

* * *

Manoel Filó

Eu acho que não convém
Falar de quem bebe porre
Porque se quem bebe morre
Sem beber morre também
Apenas quem bebe tem
Suas artérias normais
Trata das fossas nasais
Controla o metabolismo
Cachaça no organismo
É necessário demais.

* * *

Geraldo Amâncio

O mundo se encontra bastante avançado
A ciência alcança progresso sem soma
Na grande pesquisa que fez do genoma
Todo o corpo humano já foi mapeado
No mapeamento foi tudo contado
Oitenta mil genes se podem contar
A ciência faz chover e molhar
Faz clone de ovelha, faz cópia completa
Duvido a ciência fazer um poeta
Cantando galope na beira do mar.

* * *
 
Otacílio Batista

No romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

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CHICO NUNES DAS ALAGOAS, O ROUXINOL DA PALMEIRA

 

Capa do livro de Mario Lago, publicado pela Civilização Brasileira em 1975

Quando a vida me sorria
Por ôtro prisma eu oiava,
Mir maravilhas gozava
E um novo amor me surgia.
Gozei tanta simpatia,
Que a natureza enciúmô-se.
Tudo de mim desviô-se,
Hoje me resta a saudade,
Vivê não tenho vontade…
O Chico Nunes acabô-se.

Quem vê Chico Nunes agora
É capaz de não reconhecê,
Não pode se parecê,
Com o Chico Nunes de outrora.
Que bebia de hora em hora
E agora regenerô-se,
Em tristeza transformô-se,
Por deixá a boemia.
Digo sem hipocrisia:
O Chico Nunes acabô-se.

Até os amigos que tinha
Comigo se intrigaro,
As muié me despezaro,
Estrela ruim foi a minha,
Minha sorte foi mesquinha.
Que Deus de mim afastô-se,
Satanaz aproximô-se,
Sobre mim jogô o laço,
Acabei quebrando um braço…
O Chico Nunes acabô-se.

Vivo pensando demais
Que esse mundo é uma desgraça,
Deixei de bebê cachaça
Pra fazê gosto a meus pais,
Dando supiros e ais
Porque o grogue afastô-se,
Aquele elixi tão doce
Que afogava minhas mágua.
Com os oio raso dágua;
O Chico Nunes acabô-se.

* * *

No verdor da mocidade
Brincou e fez muitas farras,
Hoje caiu entre as garras
Da negra fatalidade…
Só tem de seu a saudade,
Que é a sua companheira,
Junto a ele a vida inteira
Acalmando o seu sofrer,
Porém só pensa em morrer
O Rouxinol da Palmeira.

Tá magro de se acabar,
De carne só tem a língua
E só não morreu a míngua
Devido ao seu Gaspar
E a uma preta que, pra ajudar,
Trabalha a semana inteira
Faz tudo com rapidez
Pra não se acabar de vez
O Rouxinol da Palmeira.

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DUAS DUPLAS EM CANTORIA E UM FOLHETO DE BICHOS

João Paraibano e Diomedes Mariano cantando no 10º Festival de Violeiros de Princesa Isabel-PB

Poetas repentistas João Paraibano e Diomedes  Mariano glosando o mote:

“O meu tempo infantil  foi sepultado
na gaveta do túmulo  da lembrança”.

* * *

Galope a beira mar  com os poetas repentistas Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio   improvisando sobre turismo no Brasil


* * *

Um folheto de José Pacheco

A FESTA DOS CACHORROS

Caro leitor se não lestes
mas alguém já vos contou
que nos remotos passados
até barata falou
porém isto foi no tempo
quando o Trancoso reinou.

Eu ainda estou lembrando
que meus bisavós contavam
muitas histórias passadas
de quando os bichos falavam
como bem fosse a da festa
quando os cachorros casavam.

Nesse tempo os animais
era tudo interesseiro
só se casavam com bichas
que os pais tinham dinheiro
tanto que devido a isto
um gato morreu solteiro.

Contudo sempre viviam
em regimes sociais
respeitando aos governos
ao atos policiais
crendo no catolicismo
conforme a lei de seus pais.

Não eram lá tão chegados
à nossa religião
mas não desvalorizavam
nem faziam mangação
dizem até que macaco
deu provas de bom cristão.

Tamanduá era padre
como todos sabem disto
naquele tempo também
pelos antigos foi visto
uma lavadeira velha
lavando a roupa de Cristo

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TRÊS DUPLAS EM CANTORIA E UM FOLHETO SOBRE A VOLTA DE LAMPIÃO

Valdir Teles e Louro Branco glosando o mote

“É melhor  matar de faca,
do que matar desse jeito”.

* *

Geraldo Amâncio e  Valdir Teles cantando um Dez de galope na  Beira do Mar.

* *

Cícero Bernardes cantando com Jó Patriota

* * *

Um folheto de José Honório da Silva

A volta de Virgulino para consertar o sertão

Conta Caetano Veloso
Num verso espetacular:
“Minha mãe me deu ao mundo
De maneira singular
Me dizendo uma sentença
Pra eu sempre pedir licença
Mas nunca deixar de entrar”.

E por isso eu peço à História
E aos guardiões da verdade
Permissão para escrever
Com natural liberdade
Solto no tempo e no espaço
Um tema sobre Cangaço
Justiça, Moralidade.

O tempo bom já se foi
Muita gente pensa assim
E se a vida era difícil
Por certo está mais ruim
Parece até que este mundo
Mergulha num caos profundo
Já decretando o seu fim.

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© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa