QUATRO GRANDES MESTRES

Um martelo de Braulio Tavares

Superei com o valor da minha prosa
o meu mestre imortal Graciliano,
os romances de Hermilo e de Ariano
e as novelas de João Guimarães Rosa;
sou maior que Camões em verso e glosa,
com Pessoa também fui comparado,
tenho a verve do estilo de Machado
e a melódica lira de Bandeira:
sou o Gênio da Raça Brasileira
quando canto martelo agalopado!

* * *

Um quadrão de Lourival Batista

O cantador repentista
Em todo ponto de vista
Precisa ser um artista
De fina imaginação
Para dar capricho a arte
E ter nome em toda parte
Honrando o grande estandarte
Dos oito pés em quadrão.

* * *

Uma glosa de Moysés Sesyom

Vida longa não alcanço
Na orgia ou no prazer.
Mas, enquanto não morrer
- Bebo, fumo, jogo e danço!
Brinco, farreio, não canso,
Me censure quem quiser…
Enquanto eu vida tiver,
Cumprindo essa sina venho,
E, além dos vícios que tenho,
- Sou perdido por mulher!…

* * *

Um improviso de Canhotinho

Doce como os versos teus
Só o mel de uruçu,
A água do coco verde,
A flor do mandacaru,
O riiso de uma criança
E o canto do uirapuru.

MACIEL MELO, WELLINGTON VICENTE E ANTÔNIO BATISTA GUEDES

Três glosas de Maciel Melo

NA PORTA DO CU DO DONO

Essa rola antigamente
Vivia caçando briga
Furando pé de barriga
Doidinha pra fazer gente
Mas hoje tá diferente
No mais profundo abandono
Dormindo um eterno sono
Não quer mais saber de nada
Com a cabeça encostada
Na porta do cu do dono.

Já fez muita estripulia
Firme que só bambu
Mais parecia um tatu
Fuçava depois cuspia
Reinava na putaria
O priquito era seu trono
Trepava sem sentir sono
E sem precisar de escada
Mas hoje vive enfadada
Na porta do cu do dono.

Nunca mais desvirginou
Uma mata vaginosa
Há muito tempo não goza
A noite de gala passou
Vive cheia de pudor
Sonolenta e sem abono
Faz da ceroula um quimono
E da cueca uma estufa
Vive hoje a cheirar bufa
Na porta do cu do dono

* * *

Três glosas de Wellington Vicente

Minha maleta era um saco
Meu cadeado era um nó.

Quando saí do Sertão
Há muito tempo passado
Mamãe me deu como agrado
Um saco de algodão
Cheio de recordação
Do meu velho Cabrobó
A bênção da minha vó
Desviou-me do buraco
Minha maleta era um saco
Meu cadeado era um nó.

Trouxe meu velho pandeiro,
Uma peixeira, um anel,
Um folheto de Cordel,
Patuá de benzedeira,
O meu pião, a ponteira,
A carrapeta, o bozó,
Cachaça no mororó
Pra quando estivesse fraco
Minha maleta era um saco
Meu cadeado era um nó.

Trouxe a pedra de amolar,
A foto de Padim Ciço,
Reza de quebrar feitiço
(No caso de precisar).
Ainda pude lembrar
Dum disco de Matricó
Um bilhete do xodó
Tinha também no bisaco
Minha maleta era um saco
Meu cadeado era um nó.

* * *

Um cordel de Antônio Batista Guedes

COSTUMES E USOS ANTIGOS

Leitor não vos enfadeis
Em ler a apreciação
Que sobre usos e costumes
Faço com toda atenção
E depois direis comigo
Que os usos do tempo antigo
Bem diferente hoje são

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TRÊS IMPROVISOS E UM CORDEL

Um improviso de Severino Pelado

Não me fale de mulher,
Pois toda mulher é boa,
Seja honesta ou desonesta,
Mesmo sendo mulher à-toa:
Se não serve pro marido,
Serve pra outra pessoa.

* * *

Um improviso de Soares Feitosa

O dia vai começando
e diante d’Ele me calo.
No seio da escuridão
se escuta assim um abalo:
toda a caatinga estremece,
pois mais parece uma prece
o primo cantar do galo.

* * *

Um improviso de Domingos Fonseca

Toda mãe por qualquer filho
Se iguala num só amor.
As mães de Cristo e de Judas
Sofreram uma só dor:
Uma, pelo filho JUSTO
Outra, pelo TRAIDOR”

* * *

Um cordel de Leandro Gomes de Barros

O CAVALO QUE DEFECAVA DINHEIRO

Na cidade de Macaé
Antigamente existia
Um duque velho invejoso
Que nada o satisfazia
Desejava possuir
Todo objeto que via

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QUATRO IMPROVISOS E UM CORDEL

Dois improvisos de Cesário José de Pontes (Cesário Cego)

Meu camarada, uma missa
Cantada por eu e tu
é uma casa de farinha
Feita de tijolo cru
Onde o altar é o forno
E a hóstia é o beiju.

Quem só tiver dois vinténs
Por favor deixe no bolso,
Ou então fure no meio
E passe um cordão bem grosso,
Dê um nó nas duas pontas
E pendure no pescoço!

* * *

Um improviso de Otacílio Batista

Fazer o bem é perdido,
fazer o mal não convém,
entre a maldade e o bem,
quem faz o bem é traído.
Eu não fui compreendido,
quando tive compaixão
de quem me estendia a mão,
desejando ser feliz:
A quem mais favor eu fiz
Só me fez ingratidão.

* * *

Um improviso de Biu Gomes

O sabiá do sertão
faz coisa que me comove:
passa três meses cantando
e sem cantar passa nove,
como que se preparando,
pra só cantar quando chove.

* * *

Um cordel de Sebastião Nunes Batista

JESUS CRISTO, SÃO PEDRO E O LADRÃO

Jesus Cristo andou no mundo
Ensinando aos malfeitores
Com exemplos e milagres
Convertendo os traidores
No fim ainda deu a vida
Em favor dos pecadores

Os seus exemplos nos chegam
Através da sua glória
Onde muitos malfeitores
Inda alcançaram a vitória
Como esse que eu conto
Nessa pequena história

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DINIZ VITORINO E DEDÉ MONTEIRO

Um poema de Diniz Vitorino

EU CANTADOR

Eu sou o pássaro cantor,
a patativa de gola,
o colibri sem gaiola,
que, além da humanidade,
faz da garganta um piano,
para, nas verdes ramagens,
compor em versos selvagens,
as valsas da liberdade.

A cigarra da floresta
sempre foi minha irmã gêmea…
ela, a selvagem boêmia;
eu, o boêmio cantor.
Ela, cantando nos bosques,
eu, nos sertões ressequidos,
transformo feios gemidos
em liras puras de amor.

Sou um ídolo imortal.
Sou caboclo das mãos grossas.
Transformo humildes palhoças
em bonitos pavilhões.
Meu pinho, quando soluça,
deixa as mulatas tostadas,
estáticas, fulminadas
por circuitos de emoções.

É lindo cantar tranqüilo,
da maneira como canto,
sem incomodar-me tanto,
com fortunas obtusas,
e fazer d’alma um refúgio
para as ninfas virtuosas,
do peito um berço de rosas
para o repouso das musas.

* * *

Homenagem de Dedé Monteiro a Lourival Batista com o mote:

São José escurece outra metade,
que o repente de LOURO iluminou.

São José do Egito, a cada ano,
vem ficando mais pobre e enlutada:
foi MARINHO a primeira bordoada…
sofreu muito ao perder ROGACIANO…
JÓ deixou de cantar no térreo plano,
pra no plano divino fazer show…
dia seis de dezembro o REI botou
mais tristeza no peito da cidade…
São José escurece outra metade,
que o repente de LOURO iluminou.

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MANOEL XUDÚ, MANOEL FILÓ E GERALDO AMÂNCIO

Peleja de Manoel Xudú com Manoel Filó

Manoel Xudú

Cantador pra enfrentar Manoel Xudú
É preciso pular como uma bola
Ter a curva do arco da viola
Ter o doce do mel da uruçu
Ter o suco da polpa do caju
O azeite do sumo da castanha
O tecido da teia da aranha
A beleza da pena da arara
O tacape do índio ubirajara
E a destreza da fera da montanha.

Manoel Filó

Cantador pra enfrentar Manoel Filó
É preciso comer besouro assado
Dar pancadas com o gume do machado
Num angico que tem um sanharó
Se enrolar com uma cobra de cipó
Dar um chute num cão com hidrofobia
Mastigar na cabeça de uma jia
Se subir num coqueiro catolé
Se montar em Inácio Jacaré
E viajar três semanas pra Bahia.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote

Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar

Não voltei pra minha aldeia,
já faz tempo que eu não vejo
meu primeiro realejo,
e a minha bola de meia;
brincar de toca na areia
nunca mais pude brincar
também não fui mais puxar
na ponteira do pião.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Minha mãe cortou a fala,
quando eu disse: eu vou partir,
porém antes de eu sair,
botou a roupa na mala,
depois veio até a sala,
só para poder rezar;
para Deus me acompanhar,
ela fez uma oração.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Minha terra de IRACEMA,
eu deixei um certo dia,
pra viver de cantoria
e papai disse, sem problema,
treine para cantar tema,
desafio e beira-mar,
se um cantador lhe açoitar.
abandone a profissão.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Eu deixei o meu jardim,
minha primeira morada,
mas arranjei namorada,
filho solteiro é assim,
mãe esperava por mim,
pensava de eu regressar,
filho depois de casar,
não volta pra casa não.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

MANOEL RAFAEL, GERALDO ALVES E FRANCISCO DINIZ

Um improviso de Manoel Rafael Neto

Meu filho eu não digo não
Que você goste de gado
Porque pode um homem honrado
Seguir qualquer profissão.
Sendo a sua vocação,
pode mostrar seu valor
Fazendo seja o que for
Como cidadão ordeiro.
É Melhor ser bom vaqueiro
Do que não ser bom doutor.

* * *

Um soneto de Geraldo Alves

Esperar

Esperar é sinônimo de prudência;
esperar aguardando que vem cedo;
vindo tarde demais, provoca medo
no controle moral da paciência.

Esperar é guardar conveniência;
resistir às astúcias do enredo;
ser vigia da guarda do segredo
nos caminhos vitais da consciência.

Quem espera, revela confiança.
Quem da vida, não perde a esperança,
vale a pena esperar porque um dia

Pode ouvir a fortuna bater palma,
falar dentro de si, dizer a alma:
consegui, esperando o que queria.

* **

Um cordel de Francisco Diniz em homenagem a Ariano Suassuna

UM POUCO DE ARIANO
Em Folheto de Cordel

A expressão popular,
Riqueza da humanidade,
Mantida através dos tempos,
N’áurea da simplicidade,
Contudo os grandes sábios
Vêem nela grandiosidade.

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BRÁULIO TAVARES, OTACÍLIO DE AZEVEDO E RUBENIO MARCELO

Uma homenagem de Bráulio Tavares:

Numa nuvem do céu que tem escrito
“Botequim da Poesia Brasileira”,
Otacílio chegou, puxou cadeira,
e encostou na parede do Infinito.
Na platéia se ouvia palma e grito,
vi até Jesus Cristo assobiando,
Otacílio, a viola ponteando,
se juntou ao baião de Louro e Dimas,
num dilúvio de glosas e de rimas…
A trindade no céu está cantando.

* * *

Um soneto de Otacílio de Azevedo

A flor do Maracujá

Sintetiza essa flor, de uma estranha estrutura,
de um simbolismo em outras flores nunca visto,
todo o poema de amor que encerra, em miniatura,
vida, paixão, tortura e trespasse de Cristo !

Sobre o cálix, ao centro, a hóstia de etérea alvura
é de luz e pureza impressionante misto.
Cinco chagas em flor desabrocham… Fulgura
a estrela, o emblema ideal pelos Magos previsto.

Postos à forma de um triângulo perfeito
os três cravos. A esponja, a coluna, o martelo
e a aguda lança cruel que lhe rasgara o peito.

E a contornar a flor, alva como os arminhos,
fulge, evocando o horror do supremo flagelo,
como um círculo rubro, a Coroa de Espinhos !

* * *

Um cordel de Rubenio Marcelo

Chegada de Patativa do Assaré no Paraíso

São Pedro veio correndo
E disse pra São José:
— Convoque todos os anjos
Para cantarem com fé
E para o céu enfeitar,
Pois acabou de chegar
Patativa do Assaré!

A notícia espalhou-se
Na edênica amplidão;
Foi grande o alvoroço
Rumo ao principal salão…
Todos na expectativa
De abraçar Patativa
Logo na recepção.

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PROFIRO PARANAGUÁ, JOSÉ ALVES SOBRINHO E PATATIVA DO ASSARÉ

Um improviso de Profiro Paranaguá

Tem confecção bem feita
A roupa que eu recebi.
No mesmo instante vesti
E a calça ficou perfeita,
Porém um pouco estreita
Pelas curtas dimensões,
Apertei os seus botões,
Ficou arrochada na coxa,
Acumulei a minha trouxa
Mas sobrou os meus cunhões.

* * *

Trecho do poema “Quando eu deixei de cantar” de José Alves Sobrinho

Eu também fui cantador
Repentista e violeiro,
Todo o norte brasileiro
Inda lembra, sim senhor,
O meu nome, o meu valor,
A minha voz estridente,
Porém, repentinamente,
A mão do destino atroz
Arrebatou minha voz.
Deixei de cantar repente

Eu era um irapuru
Na voz e na melodia
Mas sem esperar,um dia
Fiquei qual urubu:
Sem voz,sem som,nu e cru,
Fui forçado a abandonar
A profissão popular
De cantar para viver!
Como é triste não poder
Cantar,sabendo cantar.

* * *

Um poema de Patativa do Assaré

O Sabiá e o Gavião

Eu nunca falei à toa.
Sou um cabôco rocêro,
Que sempre das coisa boa
Eu tive um certo tempero.
Não falo mal de ninguém,
Mas vejo que o mundo tem
Gente que não sabe amá,
Não sabe fazê carinho,
Não qué bem a passarinho,
Não gosta dos animá.

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JOAQUIM FILHO, JOAQUIM VITORINO E MANOEL NENEN

Um galope de Joaquim Filho

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da Lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.

* * *

Um Martelo Agalopado com Joaquim Vitorino e Manoel Nenem

Joaquim Vitorino

Nos pediram um martelo agalopado
E eu, com todo o jeito e leveza
Vou agora fazê uma defesa
De um corpo velho e depauperado,
De um espírito antigo, atrofiado,
Que só vive a Deus pedindo a morte,
De um fardo que não tem passaporte
Mas contudo se revela e tem destino;
Canta e brinca e diverte, Vitorino,
Cantadô de Viçosa e Boa-Sorte.

Manoel Nenen

Eu também já fui cantadô do norte,
Hoje sou cantadô de Alagoas,
Aqui estou brincando as minhas loas,
Não recramo o valô da minha sorte;
Se eu perdê, diz, também ninguém se importe,
De eu cantá e fazê as minhas loas,
Agradá muito bem essas pessoas,
E cantá no braço da “regra inteira”
Canta e brinca o véio Mané Ferreira
Que é o bamba poeta de Alagoas.

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PEDRO BANDEIRA, ANTONIO FRANCISCO E GONÇALO FERREIRA DA SILVA

Um soneto de Pedro Bandeira

Hoje me chamam de universitário,
Faço Letras, pretendo me formar,
Mas não fujo do meu vocabulário
De violeiro e poeta popular.

De mãos postas prometo não deixar
De cantar as belezas do sertão,
A palhoça, a noite de luar,
A macumba, a cachaça e o violão.

Juro a Deus ser o mesmo cantador,
Repentista da gota, trovador,
Cordelista na mesma profissão.

Seresteiro do bar e da latada,
Da bodega da feira e da calçada,
Onde a gente tem mais inspiração.

* * *

Um galope de Antonio Francisco

Nasci numa casa de frente pra linha,
Num bairro chamado Lagoa do Mato.
Cresci vendo a garça, a marreca e o pato,
Brincando por trás da nossa cozinha.
A tarde chamava o vento que vinha
Das bandas da orais pra nos abanar.
Titia gritava: está pronto o jantar!
O Sol se deitava, a Lua saía,
O trem apitava, a máquina gemia,
Soltando faísca de fogo no ar.

* * *

Um cordel de Gonçalo Ferreira da Silva

Labareda – O Capador de Covardes

Como criação divina
a vida fosse entendida
representaria a morte
simples porta de saída
para conduzir o homem
à plenitude da vida.

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JOÃO SIQUEIRA E MUNDIM DO VALE

Um improviso de João Siqueira

Mulher ao nascer é um anjo;
Sendo moça, um sol nascente,
Sendo noiva, uma esperança,
Sendo esposa, uma semente,
Sendo mãe, é uma fruteira,
Sendo sogra, é uma serpente!

* * *

Um poema de Mundim do Vale

A BANDEIRA DO SERTÃO

Toca viola guerreira
Nas mãos do teu cantador
Mostra ser a pioneira
Prova teu grande valor
Vais também para a cidade
Mostrar tua qualidade
De cultura resistente
Pede licença ao sertão
E vais mostrar perfeição
Tocando pra outra gente.

Tocaste anos atrás
Com “Catulo e Aderaldo”
Hoje vens tocando mais
Com “Zé Maria e Geraldo”
És a boa companhia
Que ilustra a cantoria
De um repentista seguro
Tu que conservas a história
De um passado de glória
Olhas também teu futuro.

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ZEZO PATRIOTA E ZÉ ADALBERTO DO CAROÇO DO JUÁ

Zezo Patriota versando com o tema:

A VIDA DO PASSARINHO

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira;
No ninho da quixabeira,
Canta a casaca-de-couro.
Eu admiro é um louro,
Lá no oco apertadinho,
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã.
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho,
Tirar depois sem gorar:
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

Zé Adalberto do Caroço do Juá glosando o mote:

RETIREI SEU RETRATO DA CARTEIRA
SEM TIRAR SEU AMOR DO CORAÇÃO

Seu veículo de amor ainda cabe
Na garagem do peito que era seu,
O chassi do seu corpo está no meu
Se eu tentar alterá-lo o mundo sabe
Não existe paixão que não se acabe
Mas amor não possui limitação
Vai além das fronteiras da razão
E o que eu sinto por ela é sem fronteira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.

Da carteira eu tratei de dar um jeito
De tirar sua foto de olhos vivos
Mas não pude apagar os negativos
Que ficaram gravados no meu peito
Junto à lei nosso caso foi desfeito
A igreja anulou nossa união
Mas do peito não tive condição
De tirar esse amor por mais que eu queira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.

Seu retrato foi todo incinerado
Mas até na fumaça deu pra vê-la
Não há nada que faça eu esquecê-la
Eu nem sei se por ela sou lembrado
Meu desejo está contaminado
Pelo vírus da sua sedução
Junta médica não faz intervenção
Se souber que a doença é roedeira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.

Esse meu coração só pensa nela
Apesar de bater no meu reduto
120 batidas por minuto
São as 20 por mim, e as 100 por ela
Eu com raiva rasguei a foto dela
Mas amor não se rasga com a mão
Se vontade rasgasse ingratidão
Eu só tinha deixado a pedaceira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.

PATATIVA DO ASSARÉ, SEBASTIÃO DA SILVA E ISMAEL PEREIRA

Um soneto de Patativa do Assaré

AMANHÃ

Amanhã, ilusão doce e fagueira,
Linda rosa molhada pelo orvalho:
Amanhã, findarei o meu trabalho,
Amanhã, muito cedo, irei à feira.

Desta forma, na vida passageira,
Como aquele que vive do baralho,
Um espera a melhora no agasalho
E outro, a cura feliz de uma cegueira.

Com o belo amanhã que ilude a gente,
Cada qual anda alegre e sorridente,
Como quem vai atrás de um talismã.

Com o peito repleto de esperança,
Porém, nunca nós temos a lembrança
De que a morte também chega amanhã.

* * *

Improvisos de Sebastião da Silva e Ismael Pereira com o mote:

Foi preciso eu entrar na profissão,
pra saber como vive o cantador

Sebastião da Silva

Eu queria avisar pra toda gente,
que eu sempre gostei de poesia,
comecei freqüentando cantoria,
eu vivi a história do repente,
eu também enfrentei o sertão quente,
já trilhei pelo nosso interior,
já cantei muitas frases de amor,
já vivi de saudade e de emoção.
Foi preciso eu entrar na profissão,
pra saber como vive o cantador.

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MARCO HAURÉLIO E PATATIVA DO ASSARÉ

Glosas de Marco Haurélio

Mote:

EU NÃO TROCO O MEU ÔXENTE
PELO OK DE SEU NINGUÉM

Além das falsas fronteiras
por mãos humanas forjadas,
das extensas paliçadas,
dos hinos e das bandeiras,
das invisíveis barreiras,
do deboche e do desdém,
a alma que um povo tem
é o que torna a gente GENTE
- eu não troco o meu ôxente
pelo “ok” de seu ninguém.

Escrevendo a sua história,
sem troféus e nem brasões,
preservando as tradições,
nos arquivos da memória.
esta é a maior glória
que o nordestino tem.
Pra século sem fim, amém
viva o cordel e o repente
- eu não troco o meu ôxente
pelo “ok” de seu ninguém.

* * *

Patativa do Assaré

ABC do Nordeste Flagelado

A — Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.

B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

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JOMACI DANTAS, PEDRO ORNELAS E UMA PELEJA DESMANTELADA

Um improviso de Jomaci Dantas

Seu gesto nos embeleza
tem um coração coeso,
ganha do filho o desprezo
mas ao filho não despreza;
é divina quando reza
é santa sem ter andor,
inocente como a flor
e linda quando engravida;
toda mãe é parecida
com a mãe do salvador.

* * *

Um soneto de Pedro Ornelas

F A N T A S I A

Na casa tosca e pobre a mesa parca,
coração cheio e mãos sempre vazias…
fartura de ilusões e fantasias
no reino em que, soberbo, eu fui monarca!

Por sobre a areia fina dos meus dias
o tempo deslizou deixando a marca,
sulcos profundos que o meu pranto encharca
quando o passado volta em noites frias!

Como era doce a antiga brincadeira…
meu trono: um simples banco de madeira,
e de esperanças meu castelo eu fiz!

Hoje, à mercê da vida que me afronta,
já não sou mais o rei do faz-de-conta…
já não sei mais brincar de ser feliz!

* * *

Um cordel de Arievaldo Viana

Peleja de Zé Ramalho com Zé Limeira

Glorioso Santo Afonso
Da Siqueira do Tetéu
Chica Bela, Neco Filho
Meu “padini” Cabra Miguel
Ajudai a minha lira
Pra rimar mais um Cordel…

Eu falo de uma peleja
Cantoria de primeira
Que houve no ano passado
Lá na Serra do Teixeira
Entre o cantor Zé Ramalho
E a alma de Zé Limeira.

Eu estava um dia na feira
Traçando um velho baralho
Soprou uma ventania
Mais quente do que borralho
Chegou ali de helicóptero
O Cantador Zé Ramalho.

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UM IMPROVISO E UMA PELEJA

Um improviso de Pinto do Monteiro

Mote:

O carão que cantava em meu baixio
teve medo da seca e foi embora

Se em janeiro não houver trovoada
fevereiro não tem sinal de chuva
não se vê a mudança da saúva
carregando a família da morada
só se ouve do povo é a zuada
pai e mãe, noivo e noiva, genro e nora
homem treme com fome, o filho chora
se arruma e vão tudo para o Rio
O carão que cantava em meu baixio
teve medo da seca e foi embora.

* * *

A peleja de Allan Sales com Adiel Luna

Allan Sales

Meu poeta Adiel
és um ás de poesia
eu aqui sou aprendiz
na coisa boa que cria
afoito que nem capote
pra entrar na cantoria

Adiel Luna

Mas você tem maestria
em tudo que desempenha
quem corta,risca e faz
é quem publica resenha
organiza,fura a fila
arrudeia, entrega a senha

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JOMACI DANTAS, ZÉ DE CAZUZA E LEANDRO GOMES DE BARROS

Um soneto de Jomaci Dantas

Desejos de um poeta

Quero só um boêmio como amigo,
Uma flor, o luar, uma calçada,
E um poeta na minha madrugada
Pra cantar a canção que não consigo.

Uma simples mulher beba comigo,
Totalmente de amor necessitada,
Eu conduza no drinque ou na tragada
Minha última esperança pra o jazigo.

Quero, sim, um boteco na cidade,
Pra que eu possa esconder minha saudade
Colocando no copo a minha dor.

E o meu corpo ao perder toda a estrutura,
Alguém bote na minha sepultura
“Aqui jaz um cativo do amor”.

* * *

Um improviso de Zé de Cazuza

Fica o homem diferente
quando cai em alta idade,
os traços da mocidade
fogem do rosto da gente,
não tem mais força no dente
pra mastigar rapadura,
acaba-se a dentadura
aí a boca emurchece,
depois que a gente envelhece
nosso mal fica sem cura.

* * *

Um poema de Leandro Gomes de Barros

A Seca do Ceará

Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.

Não se vê uma folha verde
Em todo aquele sertão
Não há um ente d’aqueles
Que mostre satisfação
Os touros que nas fazendas
Entravam em lutas tremendas,
Hoje nem vão mais o campo
É um sítio de amarguras
Nem mais nas noites escuras
Lampeja um só pirilampo.

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GERALDO AMÂNCIO E LOURO BRANCO

Glosas de Geraldo Amâncio

Mote:

Só na velha guarda eu vejo
cantoria original

Repentista verdadeiro
foi Louro do Pajeú,
o nosso Manuel Xudu
e o Rei Pinto do Monteiro,
que cantava o mundo inteiro,
esse era especial,
um França e um Juvenal,
no certame ou no gracejo.
Só na velha guarda eu vejo
cantoria original .

Repentista nordestino
tem que ter boa garganta
para cantar o que canta
o Moacir Laurentino,
pra falar do peregrino
numa refeição frugal,
mas essa turma atual
não possui esse traquejo.
Só na velha guarda eu vejo
cantoria original.

* * *

Um cordel de Louro Branco

A MULHER DOS DOIS MARIDOS

Tem gente que faz
um pedido e vem menor,
se depois pedir maior,
aí vem grande demais,
dois tamanhos desiguais,
um perde pra os encolhidos,
o outro dá nos compridos,
um cresceu, outro encolheu,
foi assim que aconteceu
com a MULHER DOS DOIS MARIDOS.

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GERMANO DA LAGOA, WALDIR TELLES E MOREIRA DE ACOPIARA

Uma glosa de Germano da Lagoa

Mote:

Tudo são honras da casa

Da casa viva a fronteira,
Calçada, quina e oitão,
Armário, baú, caixão,
Sala, corredor, traseira,
Quartinha, pires, chaleira,
E o bico por onde vaza,
Torno, pote, copo e asa,
Chinelo, botina e meia,
Caibros, pregos, ripa e teia,
Tudo são honras da casa!

* * *

Uma glosa de Waldir Telles

Mote:

Quando morre um alguém que agente adora
Nasce um broto de dor no coração.

Quando morre um parente ou um amigo
Resta só lamentar, ninguém dá jeito
A tristeza se aloja em nosso peito
A angústia se apossa do abrigo
O seu corpo levado pra o jazigo
É seguido por uma multidão
Nem compensa apertar na sua mão
É inútil dizer não vá agora
Quando morre um alguém que agente adora
Nasce um broto de dor no coração.

* * *

Versos de Moreira de Acopiara

Tema:

Eu me orgulho de ser um nordestino

Pelo rei do baião Luiz Gonzaga
Pelo líder Antonio Conselheiro
Por Antônio Silvino e sua saga
Pela muita coragem do vaqueiro
Pelo canto dos bons aboiadores
Pelos versos dos nossos cantadores
Pelo faro do bravo Virgulino
Pelas festas de reis, literatura
Mamulengo, cordel, xilogravura
eu me orgulho de ser um nordestino.

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DOIS IMPROVISOS E UM NECROLÓGIO

Um improviso de Manoel Galdino da Silva Duda, que era conhecido por Duda do Zumbi:

Fui moço, hoje estou velho!
Pois o tempo tudo muda!
Já fui um dos cantadores
Chamado Deus nos acuda …
Este que estão vendo aqui
Foi Zé Duda do Zumbi!
Hoje Zumbi do Zé Duda!

* * *

Um improviso de José Benedito:

Há entre o tempo e o homem
Contradições bem fatais:
O homem não faz, mas diz,
O tempo não diz, mas faz,
O homem não traz , nem leva,
Mas o tempo leva e traz.

* * *

Necrológio de Francisco Romano feito por Silvino Pirauá de Lima:

Na era 91
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.

Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.

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JOÃO LOURENÇO, RAIMUNDO CAETANO E JOÃO PARAIBANO

João Lourenço e Raimundo Caetano glosando o mote

Cachaça e mulher bonita
faz o velho ficar novo

João Lourenço

Velho roda como disco,
senta, bebe, come e fuma,
mas quando ele encontra uma
mulher diz, eu me arrisco,
quando não tem um petisco,
vai tomar uma com ovo,
se levanta e cai de novo,
e se escora na birita.
Cachaça e mulher bonita
faz o velho ficar novo.

Raimundo Caetano

É boa uma carraspana,
que deixa o sujeito esperto,
e o velho fica por perto,
duma menina bacana,
tomando dose de cana,
pensa que é jovem de novo,
diz: a aguardente eu louvo,
namora lambe e se agita.
Cachaça e mulher bonita
faz o velho ficar novo.

João Lourenço

O velho chega, adivinha,
tendo mulher gorda ou magra,
não precisa de viagra,
basta uma sapecadinha,
ele toma uma caninha
e salta no meio do povo,
fica igual um galo novo,
dá pinote e se arrebita.
Cachaça e mulher bonita
faz o velho ficar novo.

Raimundo Caetano

O velho fica mais quente,
elimina o seu cansaço,
com uma mulher no braço,
encarando frente a frente,
com três dedos de aguardente,
com abacaxi e ovo,
ele diz: eu me promovo,
que nem o diabo acredita.
Cachaça e mulher bonita
faz o velho ficar novo.

* * *

Um improviso de João Paraibano

Saí com meu filho feliz passeando
Nas areias brancas da Praia do Pina
Dei logo de cara com uma menina
Com um peixe na mão vinha balançando
Caiu na areia ficou rebolando
De pernas abertas pra me provocar
Meu filho com medo começou gritar
Pai se nunca viu venha ver agora
O peixe da moça com a língua de fora
Nos dez de galope na beira do mar

O VALOR QUE O PEIDO TEM – Um cordel de Otacílio Batista Patriota

O “peido” é bom toda hora
Sem peido não há quem passe
A criança quando nasce
Tanto “peida” como chora
Um “peido” ao romper da aurora
Eu não troco por ninguém
Há noites que eu solto cem
“Peidos” grandes e pequenos
Já conheço mais ou menos
O valor que o “peido” tem

Um velho já moribundo
Nas agonias da morte
Soltou um “peido” tão forte
Que se ouviu no outro mundo
O “peido” gritou no fundo
Que só apito de trem
O velho sentiu-se bem
Levantou-se no outro dia
Dizendo a quem não sabia
O valor que o “peido” tem

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DIMAS BATISTA E “FIM DE FEIRA” DE DEDÉ MONTEIRO

Um improviso de DIMAS BATISTA:

Eu muito admiro o poeta da praça,
que passa dois anos fazendo um soneto,
depois de três meses acaba um quarteto,
com todo esse tempo inda fica sem graça.
Com tinta e papel o esboço ele traça,
contando nos dedos pra metrificar,
que noites de sono ele perde a estudar,
pra no fim mostrar tão minguado produto,
pois desses eu faço dois, três, num minuto,
cantando galope na beira do mar.

* * *

DEDÉ MONTEIRO – Fim de feira

o lixo atapeta o chão
um caminhão se balança
quem vem de fora se lança
em cima do caminhão
um ébrio esmurra o balcão
no botequim da esquina
o gari faz a faxina
um cego ensaca a sanfona
e um vendedor dobra a lona
depois que a feira termina.

miçanga, fruta, verdura,
milho feijão e farinha,
bode, suíno, galinha,
miudeza, rapadura.
é esta a imagem pura
de uma feira nordestina
que começa pequenina,
dez horas não cabe o povo.
e só diminui de novo
depois que a feira termina

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“MATUTO NO FUTIBÓ” E UM CORDEL DE ZÉFERRO

O poeta Zé Laurentino era o goleiro do “Improviso Futebol Clube” time de cantadores e apologistas fundado por Ivanildo Vila Nova e compôs estes versos:

“Matuto no Futibó”.

E no paito da fazenda
mandou botar duas barra
e eu fui assitir a farra
do lote de vagabundo
mas quando eu vi afroxei
e acredite que achei
a coisa mió do mundo.

Me dero um calção listrado
e um pá de jueieira
também um pá de chuteira,
uma camisa de gola
e eu gritei arra diabo
eu já peguei touro brabo
e segurei pelo rabo
porque não pego uma bola?

E quando eu fui pegá a bola
me atrapaei meu patrão
passou pru entre meus braço
bateu numa região
que foi batendo eu caindo
espulinhando no chão.

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DOIS POEMAS – PATATIVA DO ASSARÉ E CANCÃO

PATATIVA DO ASSARÉ

DOIS QUADROS

Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

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UM IMPROVISO DE FURIBA E GLOSAS DE SEBASTIÃO SILVA E MOACIR LAURENTINO

João Furiba:

Admiro o guabiru
bicho lá do meu sertão
que anda pelo roçado
fazendo vez de ladrão
sentado em cima do rabo
descaroçando algodão.

Sebastião da Silva e Moacir Laurentino glosando o mote:

NORDESTE SÓ É NORDESTE
DO SÃO FRANCISCO PRA CÁ


Sebastião da Silva

Acho linda as melodias
de Sivuca, o sanfoneiro,
do sertão ao chão brejeiro,
as produções e poesias,
do fole de Abdias,
filho de Taperoá,
Genaldo, do Ceará,
caboco, cabra da peste.
Nordeste só é nordeste
do São Francisco pra cá.

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DESMANTELOS DE ZÉ LIMEIRA E UM CORDEL DE MUNDIM DO VALE

ZÉ LIMEIRA:

Minha muié chama Bela
Quando eu vou chegando em casa
O galo canta na brasa,
Cai o texto da panela
Eu fico olhando para ela
Cheio de contentamento
O satanaz num jumento
Pra mordê a Mãe de Deus
Não mordeu ela nem eus
Diz o novo testamento.

Eu vi numa gavetinha
Da casa de João Moisés
Mais de cem contos de réis
Só de ovo de galinha
Ela comeu uma tinha
Da carcaça de um jumento
Que bicho má, peçonhento
Lacrau e piôi de cobra
Não pode mais fazer obra,
Diz o novo testamento.

Jesus nasceu em Belém,
Conseguiu sair dalí
Passou por Tamataí
Por Guarabira também
Nessa viagem de trem
Foi pará no Entroncamento
Não encontrando aposento
Dormiu na casa do cabo
Jantou cuscus com quiabo
Diz o novo testamento.

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UM MOTE E UM CORDEL PARA ZÉ MARCOLINO

Rubenio Marcelo glosando o mote:

Se não tenho o QUEIXO duro,
Não tinha sobrevivido

Se não tenho o QUEIXO duro,
Não tinha sobrevivido
Quando chegou o marido
Gritando: – Agora eu furo!
Eu, em flagrante, no escuro,
Inda em trajes de Adão,
Com banca de Ricardão
Na casa alheia, incauto,
Também gritei (e foi alto!)
Com cara de valentão.

Eu disse: “Gosto de ação,
Encaro qualquer parada;
Sou bom de mão e pernada,
Mas prefiro o três oitão;
Adoro uma confusão…
De nada me intimido
E quando fico mordido
Eu pego corno e penduro!”
Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido.

O cabra guardou a faca,
- Minha bravata colou -
Abriu a porta e gelou…
E eu vestindo a casaca.
Como quem faz gol de placa,
Saí restabelecido.
Igual a mim, eu duvido
Exista ator mais seguro.
Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido.

De fora, com energia,
Bradei, encerrando a cena:
- Não maltrate Madalena,
Não vá fazer covardia.
Cornélio, em letargia,
Só disse “sim”, convencido
Que ali tinha conhecido
A expressão do esconjuro.
Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido.

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UM DESAFIO

Improvisos de Pano Branco e Edvaldo Zuzu com o mote:

Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de–série ou genial…

Edvaldo Zuzu

Repentista só canta a mais de mil
se acaso eu der-lhe permissão
Se tiver nessa arte condição
não precisa de vírgula nem de til
For igual a Camões para o Brasil
descobrindo o caminho principal
Ser igual a Joãozinho no carnaval
a Licurgo nas leis e no respeito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de–série ou genial…

Pano Branco

Cantador como eu ninguém num fez
Deus deixou pra mandar muito depois
Que se o cabra for grande eu dou em dois
e se o cabra for médio eu dou em três
E se for bem pequeno eu dou em seis
que a minha riqueza é bem total
Cantador como eu não nasce igual
ou nasce mais baixo ou mais estreito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de-série ou genial…

Edvaldo Zuzu

Repentista só tem minha cachola
se acaso agradar aos fregueses
Se Jesus ajudar quarenta vezes
for igual a Inácio de Loiola
Quando ele pegar numa viola
a tarracha aprumada e o dorsal
Afinar suas cordas de metal
fazer muito sonora no seu peito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de–série ou genial…

Pano Branco

Essa minha cantiga é bem segura
pra cantar despeitado ninguém ganha
Cantador pra cantar só me acompanha
se tiver com Jesus na cobertura
Que eu nasci maioral nessa cultura
essa minha existência é bem total
Eu já dei uma pisa em Juvenal
que ele foi se tratar não teve efeito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de-série ou genial…

Edvaldo Zuzu

Repentista que existe no país
ele canta maior do que Zuzu
Se for igual a um Pinto ou um Xudu
ou então um poeta o Zé Luiz
Ou assim Laurentino ou o Diniz
Sebastião outro vate sem igual
For igual a um Jal ou Lourival
fora esses poetas eu não respeito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de-série ou genial…

Pano Branco

Na viola eu nasci pra ser sozinho
no repente não tenho medo de nada
Cantador não trevessa minha estrada
e genial não tem nada em meu caminho
Uma vez dei em Ontonho Silvino
que ele foi residir lá em Natal
Foi vender a cachaça e a mineral
macarrão com batata e com confeito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de-série ou genial…

Edvaldo Zuzu

Só preciso dum simples idioma
pra cantar agradando ao meu freguês
Eu açoito colega todo mês
quantas surras já dei não tem mais soma
Quem nas aulas da vida tem diploma
não precisa de código penal
E quem é papa-angu de carnaval
pois comigo o buraco é mais estreito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de-série ou genial…

Pano Branco

Toda vida cantando eu sou assim
canto vendo trabalho subo e desço
Que eu sou Jararaca no começo
inda sou Cascavel do meio pro fim
Só se faz cantador igual a mim
se papai separasse do casal
Se a cama ajeitasse no local
e mamãe se deitar sem ter respeito
Repentista só canta do meu jeito
se for fora-de-série ou genial.

DOIS POETAS E UM CORDEL

Dedé Monteiro

Uma cruz, uma história e uma estrada

Uma cruz faz lembrar o Rei da Glória
Trucidado por nossa incompetência
Uma história relembra uma existência
Com momentos de perda e de vitória
Uma estrada que além da própria história
Conta a vida da gente antepassada
Por quem passa precisa ser lembrada
Pois a estrada é a mãe do movimento
Não merecem ficar no esquecimento
Uma cruz, uma história e uma estrada

* * *

Zezo Correia Patriota

A vida de um passarinho

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira.
No ninho da quixabeira,
Canta a casaca-de-couro.
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã.
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

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DOIS IMPROVISOS E UM CORDEL

Manoel Filó

Numa cerca de aveloz
Depois do sol amparado
O vaga-lume assustado
Fica testando os faróis
Os pescadores de anzóis
Embocam na água fria
Ficam naquela agonia
Se uma piaba belisca
Termina roubando a isca
Depois da morte do dia.


Manoel Francisco

Eu me embriaguei num bar
E não quis pagar a conta
O dono meteu-me a faca
Quando eu vi da bicha a ponta
Mijei sem tá com vontade
Caguei sem ter merda pronta.

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UM IMPROVISO E UM SONETO

Um improviso de Manel Xudu

Analise o caju e a castanha,
São os dois pendurados num só cacho,
Bem unidos, um em cima, outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela, extrai o azeite, o sumo, a banha,
Dele, o suco pro vinho e o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do CRIADOR.

* * *

Um soneto João Batista de Siqueira ( Cancão)

Aquela rolinha do meu sombrião
Sem o seu ninho seu primeiro leito
Já chorou tanto que feriu o peito
Sem saber dos filhos, do lugar que estão.

Percorre às vezes toda a vastidão
Volta de novo a reparar direito
De galho em galho a espreitar com jeito
Procura ainda, mas procura em vão.

Assim a pobre e infeliz rolinha
Levando as horas a gemer sozinha
Eriça as penas, depois as sacode.

Ela não chora porque não tem pranto
Se tivesse pranto choraria tanto
Mas sem ter pranto quer chorar não pode.

GERALDO AMÂNCIO E FIRMO BATISTA

Geraldo Amâncio glosando o mote:

O tempo passou depressa,
Fui feliz e não sabia


Eu corria atrás de cobre
só por ter necessidade
mas a minha mocidade
pra mim foi um tempo nobre
eu era muito mais pobre,
mas tinha mais alegria
essa minha nostalgia
não tem ciência que meça
O tempo passou depressa,
fui feliz e não sabia .

Com a alma corrompida
dos sopapos da saudade,
57 de idade,
e a matéria dolorida
eu sei que em outra vida
como afirma a profecia
só não sei qual é o dia
eu quero aproveitar essa
O tempo passou depressa,
fui feliz e não sabia .

Minha aurora foi embora
é isso que desanima
o crepúsculo se aproxima
minha noite se apavora
mocidade foi embora
nessa minha poesia
nossa vida é como dia
só é bom quando começa.
O tempo passou depressa,
fui feliz e não sabia .

Eu disse pra o Criador
se eu for bom repentista
em todo ponto de vista
pago promessa ao Senhor
mas nunca fui rezador
esqueci da romaria
enganei Cristo e Maria
e nunca paguei a promessa
O tempo passou depressa,
fui feliz e não sabia .

* * *
Firmo Batista retratando o cotidiano de Monteiro/PB, nos anos 70

Quem nunca me viu aperreado
Nunca viu João Honório na igreja
E Abelardo do banco na cerveja
Escrevendo um soneto apaixonado.
Severino passando um rio a nado
Zé Eusébio falando em valentia
Tadeu Mendes no tempo que bebia
Mestre Bira tomando uma bicada
Zé Tempero fazendo cachorrada
E Cláudio Leite chorando em cantoria

UM CORDEL DE SILVINO PIRAUÁ

Necrológio de Francisco Romano


Na era 91
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.

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© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa