SETE MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO SOBRE BIN LADEN

Zé Amâncio

Roubaram um pobre poeta
Além de pobre, doente,
Inda mais deficiente
Com uma perna incompleta
Levaram-lhe a bicicleta
Com pneu, câmara e catraca
Um ladrão de alma fraca,
Esse roubo não descobre
Quem rouba um poeta pobre
Vendo Jesus, mete a faca.

* * *

Zé Limeira

Na corrida de mourão
quem corre mais é quem ganha
São Tomé vendia banha
na fogueira de São João
foi na guerra do Japão
que se deu essa ingrizia
Camonge quase morria
de gangrena berra-berra
quem se morre se enterra
adeus até outro dia.

* * *

João Furiba

Admiro o guabiru
bicho lá do meu sertão
que anda pelo roçado
fazendo vez de ladrão
sentado em cima do rabo
descaroçando algodão.

* * *

Cego Sinfrônio

Anda já em quarenta ano
Que eu vivo somente disso
Achando quem me proteja,
Eu sou bom nesse serviço:
Eu faço vez de machado
Em troco de pau muciço .

Esta minha rabequinha
É meus pés e minha mão,
Minha foice e meu machado,
É meu mio e meu feijão,
É minha planta de fumo,
Minha safra de algodão

* * *

Pinto do Monteiro

Estou muito diferente
Do que já fui no passado
Vivendo um resto de vida
Como um macaco chumbado
Botando folha nos furos
Sem obter resultado.

* * *

Jó  Patriota

O mar que no bojo guarda
Todo os mistérios seus
Inda é um grão de mostarda
Perante os olhos de Deus.

Estes teus seios pulados,
que estão me desafiando,
são dois carvões faiscando
no fogão dos meus pecados!
São dois punhais afiados,
que ferem muitos cristãos!
Para os meus lábios pagãos,
são dois sapotis maduros!
Quero ver teus seios puros
Nas conchas das minhas mãos!

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QUATRO DUPLAS EM CANTORIA

João Paraibano cantando com Zé Cardoso “Nos Dez de Galope na Beira do Mar”:

* * *

Moacir Laurentino cantando com João Lourenço

Moacir Laurentino

Eu sendo nordestino,
a feira livre conheço,
velha calça desbotada,
camisa pelo avesso,
sapato de várias marcas,
banana por todo preço.

João Lourenço

Eu juro como conheço,
feijão e farinha fina,
sabão de barra e de coco,
macarrão e margarina,
café, pão, bolacha, broa,
corda, trempe e lamparina,….

Moacir Laurentino

Numa feira nordestina,
tem verdura e tem mamão,
e onde tem casa de couro,
chapéu de couro e gibão,
que das feiras do passado,
guardo a recordação.

João Lourenço

Na feira tem uma latada,
com refresco e café quente,
com sandália, fumo, prego,
cebola, carne, aguardente,
camisa, calça, sapato,
brinco, marrafa e corrente.

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MULHERES EM CANTORIA (2)

Três cantorias das poetas repentistas Minervina Ferreira e Mocinha de passira.

A Mulher de Hoje

* * *

Vaquejadas da Vidas

* * *

Quadrão Mineiro

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU

Carlos Severiano Cavalcanti glosando o mote:

Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

Na fazenda, nasci e me criei,
peraltava e fazia escaramuça,
morcegava, no campo, a besta ruça,
jararaca até mesmo já matei.
Não me lembro da vez em que acordei
assombrado com tiros de trovão,
pinotava da rede para o chão
e saía correndo pelo escuro.
Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

* * *

Manoel Dantas glosando o mote:

Vou festejar o São João
Dançando rancheira e xote.

Mês de junho no sertão,
estima do povo em alta,
não devo cair em falta,
vou festejar o São João.
Pistoleta e foguetão,
sanfona puxando o trote,
o fungado é no cangote
daquela nega arredia,
num bote sem covardia,
dançando rancheira e xote.

* * *

Zé Viola glosando o mote:

Meu castelo de sonhos foi desfeito
No momento da sua despedida.

Você foi e eu fiquei sem alegria
Me obrigo a dizer esta verdade
Mas eu peço a você por caridade
Que retorne à nossa moradia
Já não tenho nem pão nem água fria
Amassei o meu copo de bebida
Minha estrada parece mais comprida
E o meu beco de paz ficou estreito.
Meu castelo de sonhos foi desfeito
No momento da sua despedida.

* * *
 
Rafael Neto glosando o mote:

A cantiga saudosa da rolinha
Faz lembrar o sertão que eu fui criado.

Quando eu vejo a rolinha atrás da grade
Eu me isolo na negra solidão
E ela canta uma fúnebre canção
Como um filho que está na orfandade
Pois quem canta precisa liberdade
Pra soltar o seu canto aclamado
Eu queria ser um advogado
Para ir defender minha rainha
A cantiga saudosa da rolinha
Faz lembrar o sertão que eu fui criado.

No sertão quando eu era criançola
Uma dessas pousou no barracão
No terreiro eu armei um açafrão
Peguei ela e prendi numa gaiola
Pai queria botar na caçarola
Pra ficar com o bucho empanzinado
Eu tristonho ouvir tudo calado
Tive pena soltei minha amiguinha
A cantiga saudosa da rolinha
Faz lembrar o sertão que eu fui criado.

A rolinha cantava em meu terreiro
E eu da rede ouvia caladinho
E deitado eu vigiava o ninho
Como um cão que vigia o galinheiro
Quando vinha um moleque presepeiro
Pra mexer com a rolinha no roçado
Eu lascava o cacete do danado
E mandava ir bulir com a vózinha
A cantiga saudosa da rolinha
Faz lembrar o sertão que eu fui criado.

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MULHERES EM CANTORIA

Minervina Ferreira e Mocinha da Passira glosando o mote

“O meu coração bate outro tanto
quando vejo você  na minha frente”.

* * *

Minervina Ferreira e Mocinha da Passira  aboiando na viola.

* * *

Maria Assunção do Senhor (Vovó Pangula)

É melhor que respeite esta vovó
A estrela de nossa Teresina
Enfrentei repentista de Campina
Dei em todos que vi em Mossoró
João Pessoa, Natal e Maceió
Fortaleza meu nome é respeitado
Pra cantar um martelo agalopado
Violeiro só faz se eu quiser
O homem que apanha da mulher
Nunca pode dar parte ao delegado.

*

Eu sou Maria Pangula
Nunca freqüentei a escola:
O que a vida me ensinou
Guardo tudo na cachola;
Você faz com a caneta,
Eu também faço com a viola.

* * *

Mocinha de Passira

Eu admiro é você
Chegar aonde chegou
Pensa até que fez um filho,
Viu a bola e não marcou.
Foi um vizinho que fez,
Ai, ai, ui, ui,
Foi o besta que criou.

* * *

Maria Soledade

A mulher hoje em dia joga bola
No esporte garante seu talento
Ocupando melhor o seu espaço
Mostrando melhor conhecimento
É guerreira fiel do improviso
Sustentáculo maior do movimento.

* * *

Terezinha Maria

A mulher no passado não foi bem
Em tudo que ela imaginou
Que o homem imbecil lhe desviou
Escondendo o talento que ela tem
Hoje temos mulheres na FEBEM
Dando aulas aos órfãos pequeninos
E outra rendendo assassinos
E levando pra mão da delegada
Acabou a mulher escravizada
Pelos brutos caprichos masculinos.

* * *

Chica Barrosa

Me danei numa certa ocasião
Fiz a água do mar parar o açoite,
Fiz o dia nascer à meia-noite,
Transformando-se a noite num clarão,
Fui ao céu escanchada num trovão,
Um curisco me vendo se escondeu,
Um raio ia descendo, não desceu,
Fiz da lua um planeta vagabundo,
Coloquei quatro roda neste mundo,
Mandei a terra correr, ela correu.

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE ONÇA ENCANTADA

Manoel Xudu

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho de feno,
No meio bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.

* * *

João Siqueira

Mulher ao nascer é um anjo;
Sendo moça, um sol nascente,
Sendo noiva, uma esperança,
Sendo esposa, uma semente,
Sendo mãe, é uma fruteira,
Sendo sogra, é uma serpente!

* * *

Pinto do Monteiro

Há vários dias que ando,
Com o satanás na corcunda:
Pois, hoje, almocei na casa
Duma negra tão imunda,
Que a prensa de espremer queijo
Era as bochechas da bunda.

* * *

José Amâncio

Felício já namorou
No seu tempo de rapaz.
Já amou, já foi amado,
Hoje é que não ama mais.
Tá qual ferro de engomar,
Solta fumaça é por trás!

* * *

Dimas Batista

Ali na cabana de alguns pescadores
Fitando a beleza do mar, do arrebol,
Bonitas morenas queimadas de sol,
Alegres ouviram cantar meus amores.
O vento soprava com leves rumores,
O pinho a gemer, depois a chorar.
Aquelas morenas à luz do luar
Me davam impressão que fossem sereias,
Alegres, risonhas, sentadas nas areias,
Ouvindo meus versos na beira do mar.

* * *

Chico Nunes

Sou natural de Alagoas,
Nasci pra ser cantador,
Francisco Nunes Brasil,
Poeta improvisador.

*

A vileza do destino
Espedaçou o meu futuro,
O meu viver é obscuro
Desde o tempo de menino..
Hoje sou um peregrino,
Não sei o que é riqueza,
Bruxuleia a luz acesa,
Perdi a perseverança…
E o retrato da minha infância
Está na minha pobreza.

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CANTORIAS

Raimundo Nonato e Nonato Costa glosando o mote

“Você pode pedir para eu  me afastar,
só não pode obrigar-me a lhe esquecer”.

* * *

Poetas repentistas Valdir Teles e Zé Viola glosando o mote

“Foi com muita saudade que deixei
meu  casebre de taipa abandonado”.

* * *

Ivanildo Vilanova cantando com Severino Feitosa
 
Severino Feitosa

Você foi muito feliz
Numa cidade avançada
Talvez não saiba que jegue
Quando leva uma lapada
Se torce tanto na dor
Que sai fora da estrada.

Ivanildo Vilanova

Mas eu deixei tabuada
Quesito e vestibular
Que aprendi muito mais
Vendo urubu voar
Do que vendo um professor
Abrir a boca e fechar.

Severino Feitosa

Você é de outro lugar
Não se criou trabalhando
Talvez que não moeu milho
Outra pessoa botando
Sem lugar para o suor
Que o rosto ta derramando.

Ivanildo Vilanova
 
Que eu de ser um doutorando
Não tive a menor vontade
Que aprendi muito mais
Vendo o céu em gravidade
Do que olhando os escândalos
Que há na universidade.

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QUATRO POEMAS DE JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA (CANCÃO) (2)

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João Batista de Siqueira, poeta popular mais conhecido por Canção, nasceu em São José do Egito, a 12/05/1912. Em 1950, deixou de participar de cantorias de viola e dedicou-se apenas à poesia escrita. Sua obra já foi classificada pelos críticos como uma versão popular à poesia de poetas românticos como Castro Alves, Fagundes Varela ou Casimiro de Abreu.

Freqüentou a escola por pouco tempo (”não cheguei ao segundo livro”) e foi, também, oficial de Justiça em sua cidade, onde morreu a 05/07/1982. Livros publicados: “Meu Lugarejo”, ”Musa Sertaneja” e “Flores do Pajeú”. Folhetos de Cordel de sua autoria: “Fenômeno da Noite”, “Mundo das Trevas”, “Só Deus é Quem Tem Poder”.

* * *

MOMENTOS MATUTINOS

Nas noites caliginosas
As estrelas luminosas
Pelas grimpas montanhosas
Derramam luz soberana
As florzinhas da paisagem
Dormem por entre a ramagem
Talvez sonhando a imagem
Dos sorrisos de Diana

Os pirilampos pequenos
Vindos de outros terrenos
Pousam, sutis e serenos
Pelos estrumes da terra
Os perfumados vapores
Passam roçando os verdores
Levando os leves rumores
Das águas brandas da serra

A Lua, alta e feliz
Linda mãe dos bugaris
Derrama raios sutis
Por toda extensão da selva
Dos lírios desabrochados
Brancos e imaculados,
Os seus perfumes sagrados
A brisa bafeja e leva

Dentro da floresta densa
A vegetação imensa
Parece ficar suspensa
Nesse ditoso momento
As carnaúbas rendadas
Criadas lá nas chapadas
Abrem as frondes copadas
Para a passagem do vento

A brisa sopra dolente
Por entre a flora virente
O céu de cor transparente
Azul, sem uma só mancha
Branca neve matutina
Envolve a vasta campina
Toalha de gaze fina
Que o dia rasga e desmancha

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QUATRO POEMAS DE JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA (CANCÃO)

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João Batista de Siqueira, poeta popular mais conhecido por Canção, nasceu em São José do Egito, a 12/05/1912. Em 1950, deixou de participar de cantorias de viola e dedicou-se apenas à poesia escrita. Sua obra já foi classificada pelos críticos como uma versão popular à poesia de poetas românticos como Castro Alves, Fagundes Varela ou Casimiro de Abreu.

Freqüentou a escola por pouco tempo (“não cheguei ao segundo livro”) e foi, também, oficial de Justiça em sua cidade, onde morreu a 05/07/1982. Livros publicados: “Meu Lugarejo”, ”Musa Sertaneja” e “Flores do Pajeú”. Folhetos de Cordel de sua autoria: “Fenômeno da Noite”, “Mundo das Trevas”, “Só Deus é Quem Tem Poder”.

* * *

O INCÊNDIO

Sobe ao lado direito da ladeira
Turbilhão de fumaça espiralada
A labareda se eleva acompanhada
Do estalo ruidoso da madeira
 
Animais se dispersam na carreira
No bafo sufocante da queimada
Passa a ave piando embaraçada
Da quentura que atinge a mata inteira

Lavas cruzam, volteiam, se embaralham
Se misturam, mergulham, se esbandalham
Numa fúria de demônios poderosos

Já tudo devastado, apenas brilha
O braseiro, que ainda se enrodilha
Crepitando nos troncos resinosos

* * *

ABANDONO

Não quero mais o teu amor, perjura
Não me seduzas, coração fingido
Repara, vê como eu estou ferido
Por teu sorriso de voraz ternura

És como a cobra ao sentir bravura
Das criaturas que já tem mordido
Em teu espírito há um mal contido
Pra teu veneno não existe cura

Foge pra longe com os teus encantos
Enxuga noutro teus malditos prantos
Não me atormente com teus falsos ‘ais’

Esquece os tempos que jamais revivem
Deixa eu viver como as aves vivem
Por minha vida não pergunte mais.

* * *

A CASA DO ÉBRIO

Era um casebre tristonho
De cujas paredes tortas
Vinha o rangido enfadonho
Dos gonzos de duas portas
As telhas já nodoadas
Duas roletas deitadas
Numa camarinha escura
O vento, quando passava
Parecia que falava
Nas frinchas da fechadura

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO SOBRE A BESTA FERA

João Batista de Siqueira (Cancão) glosando o mote:

Dorme junto aos teus pés o meu ciúme
Enjeitado e faminto como um cão.

Quando dormes vem Vênus com certeza
Escondida beijar tuas madeixas
Enquanto sonhas talvez ouvindo as queixas
Das florzinhas que choram na devesa
Tua face manchada da tristeza
Do plenilúnio das noites de verão
Grande santa da minha inspiração
Deixa, ao menos, correr o teu perfume
Dorme junto aos teus pés o meu ciúme
Enjeitado e faminto como um cão.

* * *

Wellington Vicente glosando o mote:

Tem que haver sofrimento
Pra poesia fluir.

Xexéu, grande repentista,
Com sua alma inquieta
Disse que todo poeta
Tem um “quê” de masoquista.
Pelo seu ponto de vista
Fui a campo conferir:
Vi que a rima é elixir
Para combater lamento.
Tem que haver sofrimento
Pra poesia fluir.

Fui folhear os anais
Do poeta Castro Alves,
De Casimiro e Gonçalves,
Patativa e Luís Vaz.
Percebi que são iguais
Nas maneiras de agir:
Quando a dor vem afligir
A cura vem do talento.
Tem que haver sofrimento
Pra poesia fluir.

Relendo as composições
Dos poetas pioneiros
Transformo os meus desesperos
Em meras recordações.
Minhas antigas paixões
Já não podem me ferir,
As musas mandam seguir
Nas asas do pensamento.
Tem que haver sofrimento
Pra poesia fluir.

* * *

Manoel Dantas glosando o mote:

A seca arrasa o sertão,
mas sua gente é feliz.

Já se tornou tradição
esse acidente climático,
ressurgente, problemático,
a seca arrasa o sertão.
Chega e atinge o cidadão
que sem qualquer diretriz,
dela escapa por um triz
com fé e esforço profundo,
o sertão cai moribundo,
mas sua gente é feliz.

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QUATRO DUPLAS EM CANTORIA

Poetas repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa cantando um Martelo Perguntado:

* * *

Cego Aderaldo cantando com Domingos Fonseca

Domingos Fonseca

Aderaldo eu vou na frente
Cantando conveniente
Vou traduzindo o repente
Que alguém dê atenção
Eu estou de prontidão
Junto com meu companheiro
Fazendo verso ligeiro
Eu oiço verso em quadrão

Cego Aderaldo

Eu cheguei nesse lugar
Mas aqui não é meu lar
Outras terra e outros mar
Outro céu e outro sertão
Vou falar de prontidão
Não é um cantar bem dito
Porem meu verso é bonito
Em quadrado, quadro, quadrão

Domingos Fonseca

Cheguei ao Rio de Janeiro
Junto com meu companheiro
De fato ganhei dinheiro
Mas já estou em percisão
Porém nesta ocasião
Dona Dulce nos convidou
E nossa sorte melhorou
Cantando oitavo em quadrão

Cego Aderaldo

Vou preparar o quadrado
E vou arrumar o esquadro
Para ver se faço quadro
Preparar a quadração
Ver as quadras como são
Depois do quadro bem feito
Canto muito satisfeito
O quadrado, quadro, quadrão

Domingos Fonseca

Eu dou a bala ao meu peito
Quadrando do mesmo jeito
Para ficar satisfeito
Quadro o dedo e quadro a mão
Quadro o café, quadro o pão
Quadro o pão, quadro o café
Quadro a igreja, quadro a fé
E termino tudo em quadrão

Cego Aderaldo

Pra fazê um oitavado
Pra ao depois ficá quadrado
Pra ficá sextivado
Vou fazê a quadração
Mostro os quadro como são
Tudo riscado ao compasso
Tendo lá um pé de aço
Em quadrado, quadro, quadrão

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POETAS DO REPENTE – VII

Últimos vídeos da série.

POETAS DO REPENTE – VI

POETAS DO REPENTE – V

POETAS DO REPENTE – IV

 

POETAS DO REPENTE – III

POETAS DO REPENTE – II

POETAS DO REPENTE – I

Documentário produzido pela TV Escola do Ministério da Educação.

DUAS CANTORIAS E UM MOTE

Cantoria de Lourival  Batista com Dimas Batista:

* * *

Cantoria de Otacílio Batista Patriota com Diniz Vitorino:

* * *

Sebastião Dias glosando o mote:

Minha mãe me criou queimando a mão
Na quentura de um ferro de engomar.

Mamãe soube enfrentar dificuldade
Mas me deu um futuro promissor,
O meu sonho de um dia ser doutor
Ela fez se tornar realidade,
Quando eu fui ingressar na faculdade
Prometi não decepcionar,
Fiz as provas do meu vestibular
E escrevi no final da redação:
Minha mãe me criou queimando a mão
Na quentura de um ferro de engomar.

Quando o mestre entregou o meu canudo
Que eu peguei no anel da formatura,
Pensei logo naquela criatura
Que na vida sofreu mas me deu tudo,
Minha roupa, meu pão e meu estudo
Minha mãe caprichou pra não faltar,
Se o filho com a mãe aprende a amar
Mamãe soube me dar essa lição:
Minha mãe me criou queimando a mão
Na quentura de um ferro de engomar.

Agradeço a mamãe minha rainha
Pelas noites que foi dormir sem sopa,
Por ganhar o meu pão lavando roupa
Que outro emprego também ela não tinha,
Mas agora a obrigação é minha
Vou ficar ao seu lado e lhe ajudar,
E toda vez que alguém me perguntar
Vou dizer com a voz do coração:
Minha mãe me criou queimando a mão
Na quentura de um ferro de engomar.

O CORDEL NA TERRA DO CACAU E UM CLÁSSICO DOS FOLHETOS

* * *

Um folheto de João Martins de Athayde

HISTÓRIA DE JOSÉ DO EGITO

Jacob foi um patriarca
De uma vida exemplar
Teve Raquel como esposa
Uma jovem singular
Pai de José do Egito
De quem pretendo falar.

Foram pais de onze filhos
De uma só geração
Não quero falar de todos
Pra não fazer confusão
Falo em José do Egito
Benjamim e Simeão.

José era o mais moço
De Jacob era estimado
Devido essa simpatia
Pelos outros era odiado
Esse ódio aumentou tanto
Que o velho tinha cuidado.
 
José conhecendo isso
A todos ele temia
A intriga aumentou mais
Porque José disse um dia
Um crime que tinham feito
De cujo ninguém sabia.

Eles pensavam consigo
O que deviam fazer
Para dar fim a José
Sem o velho conhecer
Vivia o pobre menino
Sentenciado a morrer.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE ROMANCE

José de Sousa Dantas glosando o mote:

Quem foi sujo no passado
Quer ser limpo no presente

Quem tem o dom de roubar,
vive procurando um meio
de se valer do alheio
para se locupletar,
manter-se e continuar
ganhando irregularmente;
trapaceia, finge e mente,
com seu jeito descarado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

Faz de tudo para ter
uma oportunidade
que dê rentabilidade
e possa se promover,
ganhando, sem merecer,
livre e descaradamente,
enganando a muita gente,
num esquema enviesado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

Não tem vergonha na cara
e se mostra como santo,
o seu fingimento é tanto
que dissimula e mascara,
e ainda se declara
ser leal e coerente,
mas não passa finalmente,
de covarde e de safado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

O sujopode deixar
a família envergonhada,
marcada e prejudicada,
sem saber como encarar
tanta sujeira sem par,
e sentir-se realmente
ofendida moralmente,
com críticas de todo lado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

Além de ser sujo quer
viver ganhando dinheiro
pra manter-se o tempo inteiro
como bem lhe convier,
dê o caso no que der,
mente deslavadamente,
usa desse expediente
que nos deixa indignado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

É preciso punição
para toda criatura
acusada de usura,
calote e corrupção,
além de devolução
de valor integralmente,
logrado indevidamente
de ato ilegal provado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

Tem sujo que quer ficar
limpo de cara lavada,
com sua vida inovada,
procura se lapidar,
para se purificar
externo e internamente,
mudando literalmente
o rumo antes traçado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente !

Ser limpo é uma virtude,
uma forma de respeito;
mas ser sujo é um defeito,
um vício, uma ilicitude,
um tipo de atitude
abusiva, inconsequente,
desleal e indecente,
que constitui um pecado.
Quem foi sujo no passado
quer ser limpo no presente!

* * *

Carneiro Portela glosando o mote:

Neste Brasil de novela
Futebol e carnaval.

Veja a coisa como anda
Nesta Pátria idolatrada
Sua honra está manchada
Apesar da propaganda
Está entrando na ciranda
Da mídia fenomenal
E todo povo em geral
Com isto se desmantela
Neste Brasil de novela
Futebol e carnaval.

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UM POETA EM SEU OFÍCIO E UM DISCURSO DE POSSE EM FOLHETO

Glosas diversas do poeta Antonio Nunes:

* * *

Discurso de posse  do poeta popular e cordelista mossoroense Antônio Francisco, que ocupa a cadeira número 15, que foi de Patativa do Assaré, na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC)

Eu já sonhei galopando
Num cavalo colorido
Pescando em cima das nuvens
Tucunaré já cozido
Mas nunca tinha sonhado
Que eu já tinha morrido.

E foi no ano passado
Que eu tive um sonho assim
Morto de papo pra cima
Numa cama de capim
Com três anjos recitando
E cantando perto de mim.

Cada um dos anjos tinha
O nome no seu coeiro
Cantador Marcos Lucena
Cordelista e violeiro
Vate Gonçalo Ferreira
Poeta Manoel Monteiro.

Mesmo morto como estava
ouvi um deles dizer
Eu acho que já é hora
Deste poeta escolher
Onde quer nascer de novo
E o que ele quer ser.

E me tiraram da cama
Pegados na minha mão
E me levaram pra dentro
De um enorme salão
Me mandaram sentar
Na frente de um telão.

E começaram a passar
Com arte e suavidade
Todos recantos da terra
País, Estados e cidades
Com tudo, tudo que tinham
Em cada comunidade.

O anjo Marcos Lucena
Disse batendo na tela
Poeta escolha a cidade
Que você quer nascer nela
Crescer junto com seu povo
E morrer nos braços dela.

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OITO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO GRAMÁTICO

João Paraibano

(Prestando homenagem à saudosa Irmã Dulce)

Essa ovelha da Bahia
Foi atrás do seu pastor,
a boca cheia de preces,
o caixão cheio de flor.
Já rezou, mas tá calada;
Foi a maior punhalada
No peito de Salvador.

Uma pessoa querida
que a Bahia não esquece,
que não gostou do pecado,
vivia de hóstia e prece.
O céu é sua morada;
Se não foi canonizada,
Todos acham que merece.

Aquela deusa tão linda
tem Jesus em companhia;
deixou o lar que morava,
partiu para a lousa fria,
que a doença sempre mata…
Se a terra não fosse ingrata,
Preservava e não comia.

* * *

Leandro Gomes de Barros

Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.

* * *
               
Raimundo Cassiano

Eu entrei no hospital
Já quase no fim do dia
Ali falei ao doutor
Na mesa de cirurgia
Mexam no meu coração
Mas me deixem a poesia!

* * *

Severino Feitosa

Admiro a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Novo ninguém quer morrer
Sem ser velho não se vive
Bom é ser velho e viver.

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CINCO MOTES BEM GLOSADOS E UM FOLHETO SOBRE FREI DAMIÃO

Zé Cardoso glosando o mote:

Cantador pra cantar na minha frente
Deus não faz, nunca fez, nem vai fazer.

Pra topar o “terror riograndense”
Zé Viola talvez que não aceite
Moacir diga não, Valdir enjeite
Se Geraldo souber talvez dispense
Vilanova sabendo que não vence
Chega a carta, ele abre e não quer ler
Louro Branco com medo de perder
A desculpa é “não vou porque sou crente”
Cantador pra cantar na minha frente
Deus não faz, nunca fez, nem vai fazer.

* * *

Wanderley Pereira glosando o mote:

Vi dois brilhantes cravados
Num rosto moreno e lindo.

Numa face sem pecado
numa moldura que encanta
como num rosto de santa,
vi dois brilhantes cravados,
belos, negros, ovalados,
como dois pontos se unindo
ou duas luas saindo,
quais duas tochas humanas,
detrás de negras pestanas
num rosto moreno e lindo.

* * *

Joaquim Eduvirges de Mello Açucena glosando o mote:

A estrela d’alva é bonita,
Mas não é como o meu bem.

Quando o rebanho se agita
Pela flauta do pastor,
Quando o rocio enfeita a flor,
A estrela d’alva é bonita.
Seu nobre esplendor imita
Ao da cândida cecém,
Seu fulgor que fica além
Do brilhante e da safira,
É lindo, é bom, sem mentira,
Mas não é como o meu bem.

Lusbel, o anjo sem dita,
Que no céu fez rebeldia,
Por Lúcifer se dizia
A estrela d’alva é bonita.
Por ser lindo, ele acredita,
Não ser sujeito a ninguém
Neste planeta também,
De nome e beleza igual,
Julga-se só, sem rival,
Mas não é como o meu bem.

* * *

Josinaldo Mota da Silva glosando o mote:

Do meu pai só a saudade
Ficou no meu coração.

Descansa eternamente
No reino do paraíso
Calou seu improviso
E morreu o seu repente
Quando estava doente
Em cima de um colchão
A morte na traição
O levou sem piedade
Do meu pai só a saudade
Ficou no meu coração.

Ele quem me deu a vida
Me ensinou desde a infância
A não ter ignorância
E ser pessoa querida
A morte é a despedida
Da vida de um cristão
O poeta do sertão,
Partiu para eternidade
Do meu pai só a saudade
Ficou no meu coração .

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GRANDES DUPLAS EM CANTORIA

Geraldo Amâncio e Sebasstião  da Silva trabalhando o tema “Coqueiro da Bahia”

* * *

Sebastião Dias e João Paraibano - Nos 10 de Galope na Beira do Mar

* * *

Cego Aderaldo cantando com Domingos Fonseca

Cego Aderaldo

Ó doce luz dos meus olhos
Coração e a lembrança
Tudo quanto eu percuro
Eu vejo perseverança
Meu peito vive cansado
Porém não sente mudança

Domingos Fonseca

Eu desde muito criança
Que procurei me manter
Vivendo da cantoria
Para vestir e comer
Já que ser grande poeta
Lutei, mas não pude ser

Cego Aderaldo

Jesus a mim quis fazê
Neste caso que se deu:
Eu perdê a minha vista
Meus olhos escureceu
Mas estou cantando as virtudes
Que a natureza me deu

Domingos Fonseca

Jesus me favoreceu
Com a pequena viola
Me deu a inteligência
Que ao verso desenrola
Eu acho que ele deu-me
Uma preciosa esmola

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DOIS POEMAS

Onildo Barbosa, paraibano, poeta repentista, radialista, cantor e compositor de forró pé de serra, declamando, de Zé  Laurentino, o poema  intitulado “O mal se paga com o bem”.

* * *

Um poema de Ivanildo Vilanova

O SERTÃO EM CARNE E ALMA

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
Água forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
O raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo pirueta
Nas espigas de milho do roçado.

No sertão quando o chão está molhado
Corre água nas veias de um regato
Pula a onça da furna corre o gato
Um cavalo galopa estropiado
Um garrote atravessa o rio de nado
Uma cobra se  acua com um cancão
A cantiga saudosa do carão
Faz lembrar o lugar que fui nascido
Entre as telas do filme colorido
Que Deus fez pra o cinema do sertão.

Quando é festa animada de São João
Nunca falta canjica nem sequilho
Pamonha, mingau, bolo de milho
Buscapé, estrelinha e foguetão
Cantoria, namoro, discussão
Quebra pote, corrida de argolinha
Padrinho de fogueira e a madrinha
Casamento matuto, samba e jogo
E a cabocla com o rosto cor de fogo
Tocaiando as panelas da cozinha.

No sertão quando é bem de manhãzinha
Sertanejo se acorda na palhoça
Chama o filho mais velho sai pra roça
A mulher toma conta da cozinha
Faz o fogo de lenha e encaminha
Um guisado, angu quente ou fava pura
E depois de fazer essa mistura
Sai faceira igualmente uma condessa
Com um quibumbo  de barro na cabeça
E vai levar aos heróis da agricultura.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE MARCOS MAIRTON

Prof. Garcia glosando o mote:

Vi dois gatinhos mamando
num peito da mesma gata.

A natureza me deu
outro exemplo de grandeza,
parece que a natureza
inda é viva e não morreu;
tudo isso aconteceu
porque mãe nunca é ingrata,
quem com fome a fome mata
exemplo de amor vai dando,
vi dois gatinhos mamando
num peito da mesma gata.

* * *

José Lucas de Barros glosando o mote:

Vindo ao mundo, peguei o trem da vida,
Mas não sei o tamanho da viagem.

-Neste mundo, ninguém tem a medida
Do caminho do berço para a morte,
E eu, que tinha de achar algum transporte,
Vindo ao mundo, peguei o trem da vida;
Anotei o momento da partida
E enfrentei a jornada com coragem;
Deus me deu o bilhete da passagem
E mandou-me seguir estrada afora.
Inda estou caminhando até agora,
Mas não sei o tamanho da viagem.

* * *

Clarindo Batista glosando o mote:

A festa que a gente faz
Na terra que a gente ama.

Cada ano cresce mais
em termos de proporção,
é a maior atração
a festa que a gente faz.
De Roraima até Goiás,
de São Paulo ao Alabama,
vem pisar a nossa grama
os turistas mais distantes,
são ilustres visitantes
na terra que a gente ama.

* * *

Hélio Pedro Souza glosando o mote:

A seca arrasa o sertão
Mas o seu povo é feliz.

É de cortar coração,
quando esse fato acontece,
o sertanejo padece,
a seca arrasa o sertão.
O povo sem condição
não quer fugir da raiz,
mesmo assim não se maldiz,
recorre a Deus numa prece,
todo o sertão entristece,
mas o seu povo é feliz.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote:

Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Não voltei pra minha aldeia,
já faz tempo que eu não vejo
meu primeiro realejo,
e a minha bola de meia;
brincar de toca na areia
nunca mais pude brincar
também não fui mais puxar
na porteira do pião.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Minha mãe cortou a fala,
quando eu disse: eu vou partir,
porém antes de eu sair,
botou a roupa na mala,
depois veio até a sala,
só para poder rezar;
para Deus me acompanhar,
ela fez uma oração.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Minha terra de Iracema,
eu deixei um certo dia,
pra viver de cantoria
e papai disse, sem problema,
treine para cantar tema,
desafio e beira-mar,
se um cantador lhe açoitar.
abandone a profissão.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

Eu deixei o meu jardim,
minha primeira morada,
mas arranjei namorada,
filho solteiro é assim,
mãe esperava por mim,
pensava de eu regressar,
filho depois de casar,
não volta pra casa não.
Foi com dor no coração
que eu deixei o meu lugar.

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CINCO MOTES BEM GLOSADOS

Zilmo Siqueira glosando o mote:

O cabra que bebe cana
não tem futuro nenhum.

Já tomei da Tatuzinho,
Serra Grande, Caranguejo,
Pitu matou meu desejo,
Praianinha e Cavalinho.
Depois mudei para o vinho,
Que é preto que só anum,
A tal de Cinqüenta e Um,
Nessa o caboclo se dana.
O cabra que bebe cana
não tem futuro nenhum.

* * *

Diniz Vitorino glosando o mote:

A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

Adoro a noite estrelada
Pra cantar beijando as flores
E logo morrer de amores
Nos braços da madrugada;
Uma estrela prateada
Há de me servir de vela
E em cada flor amarela
Deixo um verso por lembrança…
A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

A noite é mansão divina
Onde versejo e namoro,
A Lua, noiva que adoro,
Ninfa esbelta e pequenina;
Minha dócil bailarina,
Pura, divinal e bela;
Eu poeta, ela donzela,
Enquanto eu canto ela dança.
A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

O céu é alva parede
Por onde a noite entra e sai;
Cada neblina que cai
Na terra me mata a sede;
Cada nuvem é uma rede
Feita com malha amarela;
A Lua se deita nela,
Deus pega o punho e balança…
A noite é uma criança
E eu sou o brinquedo dela.

* * *

Pedro Ernesto Filho glosando o mote:

Quando morre um poeta nordestino
nasce um pé de saudade no sertão.

(Quando  do falecimento do poeta repentista Diniz Vitoriino)

Quando um vate de nome e de cartaz
dá adeus a seus fãs e deixa a terra,
uma neve de dor envolve a serra
e os poetas que ficam perdem a paz,
a viola, sequer, se afina mais
e a poesia recita o seu refrão
como quem presta a última informação
pondo a culpa na ordem do destino
Quando morre um poeta nordestino
nasce um pé de saudade no sertão.

A canção erudita se entristece
e o luar de repente perde a cor,
quando a morte carrega um cantador
a cultura por si se desconhece,
a platéia chorosa permanece
enfrentado o calor da emoção
se pudesse se opor dizia não
mas conhece a grandeza do Divino
Quando morre um poeta nordestino
nasce um pé de saudade no sertão.

Uma voz no espaço triste diz
foi embora um poeta renomado,
todo pé de parede tem gravado
um poema da lavra de Diniz,
só o tempo restaura a cicatriz
que este fato gerou na multidão,
é possível encontrar em cada oitão
o sabor do seu verso cristalino
Quando morre um poeta nordestino
nasce um pé de saudade no sertão.

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UM MOTE DA BIXIGA LIXA E UM FOLHETO DE GRACEJOS

O mote é:

A marreta da morte é tão pesada
Que a pedreira da vida não agüenta.

Wellington Vicente

Quando o tempo alinha os seus ponteiros
E o destino determina aquela hora
A esposa lamenta o filho chora
Ficam tristes os inúmeros companheiros
Mas aí já passaram alguns janeiros
Podem ser vinte, trinta, até noventa
Quando a corda do relógio se arrebenta
É porque terminou nossa jornada
A marreta da morte é tão pesada
Que a pedreira da vida não agüenta.

Independe de nível social
Pode ser rico, pobre, branco ou preto
Não existe simpatia ou amuleto
Que consiga desviar deste final
Se na vida foste bom, simples, leal
A balança das virtudes acrescenta
Ao contrário o Arcanjo só lamenta
Fica triste, mas não pode fazer nada
A marreta da morte é tão pesada
Que a pedreira da vida não agüenta.

* * *

Bráulio Tavares

Esta vida é uma nuvem passageira
e é de perto que a morte a acompanha:
até mesmo a mais sólida montanha
todos sabem que é feita de poeira.
E eu comparo esta vida a uma pedreira
majestosa, elevada e pardacenta,
mas a morte, com mão sanguinolenta
quebra pedra por pedra à martelada.
A marreta da morte é tão pesada
que a pedreira da vida não agüenta.

Também penso que a morte é um martelo
fabricado de ferro, chumbo e aço
que derruba pedaço por pedaço
um rochedo imponente, forte e belo.
Não tem muro ou parede de castelo
que resista ao poder da ferramenta
que é mortífera, dura e violenta
e espatifa com o peso da pancada. A
A marreta da morte é tão pesada
que a pedreira da vida não agüenta.

Certas vezes eu penso que a morte
é igual a marreta impaciente
quando bate na rocha resistente
e não acha uma pedra que a suporte.
A marreta então bate, bate forte,
chega o ferro avermelha quando esquenta,
e essa rocha tão forte se arrebenta
se transforma em poeira bem pisada …
A marreta da morte é tão pesada
que a pedreira da vida não agüenta.

* * *

Betty Gonçalves

Hoje eu sei da poeira da estrada
E do verso na minha companhia
Não descanso na noite nem no dia
E o vento me segue na jornada
O seu canto é o tom para a toada
Para estrofes na tarde pardacenta
E assim eu encaro essa tormenta
Nessa luta esperando a desditada
A marreta da morte é tão pesada
Que a pedreira da vida não aguenta!

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE GRACEJO

Israel Maria dos Santos Segundo glosando o mote:

Qualquer que seja o motivo
Que a razão nos tenta impor,
Não se passa o corretivo
Quando um erro é por amor.

Qualquer que seja o motivo
Pelo qual tu me deixaste,
Sei que é um paliativo…
E eu bem sei: tu não me amaste!

Querendo seguir o caminho
Que a razão nos tenta impor
Lembro tudo, tão sozinho…
Sozinho… só… sem amor.

Desde tua partida eu vivo
Imerso inteiro em lembranças…
Não se passa o corretivo
Onde resta a esperança.

Meu erro foi querer-te amar
Sem admitir esta dor
Que não se pode apagar
Quando um erro é por amor.

* * *

Manuel de Castro glosando o mote:

Fui nova cortante enxada
Desbravei, cavei o chão,
Fui sucata abandonada,
Ando agora num canhão!

Quase me lembro de ser
A pedra dum mineral
E lembro-me a luta fatal
Do braço p’ra me colher;
Levaram-me a derreter,
Fui em ferro transformada,
Fui depois à martelada
Numa bigorna estendida,
Deram-me a forma devida
Fui nova, cortante enxada.

Comprou-me um moço possante,
Pôs-me um cabo de madeira
E lá vou na segunda-feira
Nos braços desse gigante;
Desde esse dia em diante
Foi a minha profissão
Desbravar terras de pão,
Relvas, vinhas olivais,
Vinte anos, talvez mais,
Desbravei, cavei o chão.

Começava de manhã
Sempre em luta vigorosa,
Mesmo em terra pedregosa,
Cada vez com mais afã,
Resisti enquanto sã
A poder ser consertada,
Já rasinha e dilatada,
Deixei de ser ferramenta,
Fui p’ró canto ferrugenta,
Fui sucata abandonada.

Passei anos sem valor
Com velhos ferros como eu,
Até que um dia apareceu
Lá por cassa um comprador;
Meteram-me num vapor,
Fui a nova fundição,
Por meu destino ou condão
Nunca mais cavei na terra,
Mandaram-me para a guerra,
Ando agora num canhão!

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UMA DECLAMAÇÃO E UMA BANDA DE PIFE

O poeta Antonio Francisco declama, de sua autoria, “O ataque de Mossoró ao bando de Lampião”

* * *

Banda Cabaçal Fulô da Aurora, de Fortaleza/CE

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Ivanildo Vilanova glosando o mote:

Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Todo jovem, a princípio é sectário,
atuante, grevista, condutor,
antagônico, exaltado, pregador,
um perfeito revolucionário,
cresce, casa e se torna secretário,
veja aí o que trata de fazer,
leva logo a família a conhecer
Disneylândia, Washington e Hollywood.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

* * *

Aldo Neves glosando o mote:

Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

O sertão quando a terra está molhada
A enchente no rio faz rumores
As abelhas brincando com as flores
Sertanejo se acorda à madrugada
Meia noite uma serra é aguada
Com um chuveiro depois de destrancado
Carro pipa de tanque enferrujado
E a cigarra esquecida do verão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

Uma nuvem se forma no nascente
Com a força do vento se balança
Jitirana nas cercas fazem trança
Cantam os sapos felizes na enchente
Para a terra Deus manda esse presente
Tantas vezes e nada tem cobrado
E as formigas trabalham no roçado
Igual gente fazendo procissão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

Quando sobra fartura o pobre enrica
E recupera de novo a esperança
E um moleque com fome encosta a pança
Na panela melada de canjica
Vai embora o verão, o carão fica
Pra cantar quando o rio está de nado
E o nordeste só cheira a milho assado
Nas fogueiras de noite de São João
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

O cenário enfeitando a capoeira
Só o tempo querendo ele desmancha
E um enxame de abelhas se arrancha
Num buraco de um pau de aroeira
Na segunda o matuto vai à feira
Contar o que fez no seu roçado
E o fantasma da seca encarcerado
Sem querer Deus botou-lhe na prisão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

De manhã quando o sol enfeita a barra
Uma flor se desprende e cai do galho
Camponês recomeça o seu trabalho
Sem ouvir a cantiga da cigarra
À tardinha as gangarras fazem farra
Com o milho depois de pendoado
E a enchente parece um aleijado
Sem andar se arrastando pelo chão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

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SETE MESTRES DO IMPROVISO E UMA DUPLA EM CANTORIA

Uma antológica cantoria entre dois poetas que já partiram para o infinito: Otacílio Batista Patriota e Diniz Vitorino.

* * *

Onildo Barbosa

Foram feitas mil rezas pra chover
Molhando esse chão duro e ressequido
E já fazia tempo… foi esquecido
Por Ele, o Pai Eterno, mas um dia
Ele ouviu o clamor da cantoria
E pensou: Vou atender a essa gente
E num final de tarde, ao sol poente
Com amor choveu num povo festeiro…
Quando o dono do céu abre o chuveiro,
O sertão toma um banho de Repente.

* * *

Ademar Macedo

Quando é noite enluarada
na praça,  tem a morena,
na capela tem novena
nos sítios tem a caçada
nas casas de farinhada
tem trabalho e diversão
do menino ao ancião,
uns brincando outros bebendo
isso é mesmo que estar vendo
paisagens do meu sertão.

* * *

Otacílio Batista

Certa vez fui convidado
Para dançar numa festa
Perto de Nova Floresta
Na vila do Pau Inchado
Eita forró animado:
Chega a poeira cobria
Mas a mulher que eu queria
Do Pau não se aproximava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia.

* * *

Geraldo Amâncio
(Homenageando Patativa do Assaré)

Foi o número um, foi invencível
parecendo com ele não há nada
sua xerox não pode ser tirada
não existe poeta do seu nível
construir sua cópia é impossível
do seu clone não há cogitação
se for pelo Autor da criação
outro Antônio Gonçalves não se cria
Patativa foi tudo que a poesia
precisou pra chegar à perfeição.

* * *

Jó Patriota

Se o pranto é irmão do riso
Nascido do mesmo amor
Tanto me faz estar rindo
Como sentindo uma dor
Que o sofrimento é da vida
Como o perfume é da flor.

* * *

Zé Catota

Essa noite eu tive um sonho
Com coisa desconhecida
Eram dois bichos correndo
Em carreira desmedida
Era o cavalo da morte
Atrás da besta da vida.

* * *

José Lucas de Barros
(Homenageando o poeta repentista Sebastião Dias Filho)

Sebastião Dias Filho,
a mais afinada lira
de nosso chão potiguar,
virou canário em Tabira,
onde é dono dos aplausos
e o povo o ama e admira.

Neste Nordeste, ninguém
canta com mais poesia.
Ao som de sua viola,
brinca de emoções e cria
as imagens mais bonitas
do mundo da cantoria.

DUAS DUPLAS EM CANTORIA E UM FOLHETO POLÍTICO

Poetas repentistas Raimundo Nonato e Nonato Costa glosando o mote:

“Preto e branco eu pedi que Deus me desse,
Deus me deu  cem por cento colorido”.

* * *

Minervina Ferreira e Mocinha de Passira glosando o mote:

“O meu coração bate outro tanto,
quando vejo você na minha frente”.

* * *

Um folheto de José Augusto

 O LADRÃO E O POLÍTICO

Eu cresci numa família
Que dizia todo dia:
– Pode andar remendado,
Contudo nunca podia
Andar sujo pelos cantos
Essa era a filosofia.

E também dizia que:
– Tem um sujo que não sai
Nem com água com sabão,
Quarando dias não vai
Ser limpo nem esquecido
É o roubo, disse papai.

Disso nunca esqueci.
Como me lembro também
De Tio Chico Cachico
Que era pra nós armazém
De história pra contar
Da terra, céu e além.

Pois Tio Chico Cachico
Era um homem tranqüilo
Nunca se preocupava
Nem com isso, nem com aquilo
E vivia viajando,
Assim posso defini-lo.

Uma noite ele contou
Depois do nosso jantar
Pra gente uma história
Que ouviu alguém contar
Dum ladrão e dum político
Das terras do além-mar.

Na capital dessa terra
Ele disse que existia
Muitos ladrões, traficantes
De toda categoria,
Mentirosos, enganadores
Em todo ponto se via.

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GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO COM LAMPIÃO

Jonas Bezerra glosando o mote:

O amor é o único presidente
Que governa o país do coração.

Não confundo o amor com aparência
Que o amor possui uma plenitude
O conceito de mãe não tem quem mude:
Uma flor que transcende a inocência.
O amor sempre tá na presidência,
Mas não bota o seu nome em eleição.
Não tem urna fazendo apuração
Nem ninguém procurando ser suplente.
O amor é o único presidente
Que governa o pais do coração.

 
* * *

João Paraibano e Sebastião Dias glosando o mote:

Quanto mais canto o sertão,
Mais tem sertão pra cantar.

João Paraibano

Lembro armadilha e quixó,
Pássaro beliscando frutas,
Mas não esqueço das matutas
Com o rosto cheirando a pó.
Doidas pra ir pra o forró,
E o pai sem querer deixar,
Mas é perdido empatar:
Quando ele dorme, elas vão.
Quanto mais canto o sertão,
Mais tem sertão pra cantar.

Sebastião Dias

Quando eu canto a capoeira,
O sertão é minha cara.
Canto o preá na coivara,
Canto o tejo na carreira
E o boi, quando tem coceira
Que pega a lhe incomodar,
Para a coceira parar,
Passa a língua como a mão.
Quanto mais canto o sertão,
Mais tem sertão pra cantar.

* * *

Jó Patriota glosando o mote:

Morrendo eu levo pra cova
Os sinais da poesia.

Eu na derradeira ânsia
Guardarei no coração
As imagens do sertão
Que completei na infância
Do vento a ressonância
Das águas a sinfonia
As cores do fim do dia
O rosto da lua nova
Morrendo eu levo pra cova
Os sinais da poesia.

* * *

Lourival Batista glosando o mote:

Quem casa faz uma cruz
Pra morrer cravado nela.

Jesus não morreu tão moço
mas nunca quis companheira,
quis uma cruz de madeira,
porém, não de carne e osso.
Não lhe seduziu o esboço
do perfil da mulher bela,
não deu tais honras a ela,
sabido só foi Jesus,
quem casa faz uma cruz
pra morrer cravado nela.

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TRÊS DUPLAS EM CANTORIA

Poetas repentistas  João Furiba  e Raimundo Borges glosando o mote

“Apesar das belezas da cidade,
eu prefiro  as imagens do sertão”.

* * *

Poetas repentistas Valdir  Teles e Geraldo Amâncio glosando o mote

“Meu verso é peso pesado
pra cantador carregar”.

* * *

Poetas repentistas  Chico Alves e Jonas Bezerra glosando o mote

“O maior pregador da humanidade
foi pregado na cruz sem merecer”.

GRANDES DUPLAS EM CANTORIA

Bule-Bule cantando com Mocinha de Passira

MOURÃO DE SETE SILABAS (Trocado)

Mocinha de Passira

Troque o amor pela paz
Os lábios pelo sorriso
O sucesso no cartaz
A cabeça no juízo
A fonte no escarcéu
O firmamento no céu
A terra no paraíso

Bule-Bule

Cantiga no improviso
O ritmo na melodia
O teto troque no piso
A casa na moradia
O travesseiro na cama
A lingerie no pijama
E a hora morna na fria

Mocinha de Passira

Troque José por Maria
Depois Maria em José
O lavatório na pia
O bangalô no Chalé
A janta troque na ceia
A taba pela aldeia
E o cacique no pajé

Bule-Bule

O leite pelo café
Açúcar por adoçante
O sapato pelo pé
O troféu pela estante
Clero na religião
A reza na oração
E o próximo no semelhante

Mocinha de Passira

Ciência na cartomante
Cartomante na ciência
O ouro pelo brilhante
O perfume na essência
O cardápio pelo prato
Fotografia em retrato
Saudade em reminiscência

Bule-Bule

A distância na ausência
O desejo na vontade
O perdão na indulgência
O bem pela caridade
O Cristão por batizado
Padrinho por afilhado
Respeito por amizade
 
Mocinha de Passira

Mistura em promiscuidade
Correria em movimento
Capuchinho pelo frade
Batismo no sacramento
Sacramento no batismo
O amor no romantismo
A alma no sentimento

Bule-Bule

Imagem no pensamento
Aorta no coração
Receita em medicamento
Clínico por cirurgião
Enfermo pelo ferido
A pílula no comprimido
A drágea na injeção

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SETE MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE POLÍTICA

Cicinho Gomes

Eu admiro o canção
Na cabeça de uma estaca;
Olha pra baixo e pra cima
Acuando a jararaca
Como quem diz : “Ó meu Deus!
Ah se eu tivesse uma faca!

Eu admiro demais
É uma gata parir,
Pegar o filho na boca,
Levar pra onde quer ir.
Nem fere o filho no dente,
Nem deixa o gato cair.

* * *

Dimas Batista

Alguém já me perguntou:
o que são mesmo os poetas?
Eu respondi: são crianças
dessas rebeldes, inquietas,
que juntam as dores do mundo
às suas dores secretas.

Nossa vida é como um rio
no declive da descida,
as águas são a saudade
duma esperança perdida,
e a vaidade é a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Raimundo Nonato

Para um mundo diferente,
nossas mentes estão vindo,
quem amanhece com ela,
tem que amanhecer sorrindo,
e a poesia não sente,
mas deixa a gente sentindo.

Ela aguça o meu QI,
que dá mais um incentivo,
nessa tarde deu um show,
pra gente cantar ao vivo,
Eu passo até sem dinheiro
mas sem poesia eu não vivo.

* * *

Moacir Laurentino

Numa das noites mais belas
dos nossos interiores,
para um encontro de sonhos,
unem-se dois cantadores,
iguais a dois jardineiros
numa colheita de flores.

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GRANDES DUPLAS EM CANTORIA

Uma raridade que só é possível encontrar aqui no JBF:

Martelo a desafio com Pinto do Monteiro e Zé Pequeno

* * *

Cantoria dos poetas repentistas Chico Sobrinho e Jorge Macedo.

* * *

Cantoria dos poetas repentistas Otacílio Batista e Oliveira de Panelas.

* * *

Cantoria em desafio, dos poetas  repentistas Valdir Teles e Fenelon Dantas

UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO SOBRE ZÉ LIMEIRA

Rubenio Marcelo glosando o mote:

Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido

Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido
Quando chegou o marido
Gritando: – Agora eu furo!
Eu, em flagrante, no escuro,
Inda em trajes de Adão,
Com banca de Ricardão
Na casa alheia, incauto,
Também gritei (e foi alto!)
Com cara de valentão.

Eu disse: “Gosto de ação,
Encaro qualquer parada;
Sou bom de mão e pernada,
Mas prefiro o três oitão;
Adoro uma confusão…
De nada me intimido
E quando fico mordido
Eu pego corno e penduro!”
Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido.

O cabra guardou a faca,
- Minha bravata colou -
Abriu a porta e gelou…
E eu vestindo a casaca.
Como quem faz gol de placa,
Saí restabelecido.
Igual a mim, eu duvido
Exista ator mais seguro.
Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido.

De fora, com energia,
Bradei, encerrando a cena:
- Não maltrate Madalena,
Não vá fazer covardia.
Cornélio, em letargia,
Só disse “sim”, convencido
Que ali tinha conhecido
A expressão do esconjuro.
Se não tenho o queixo duro,
Não tinha sobrevivido.

* * *

Um folheto de Mundin do Vale

CARTA DE PERO VAZ, SEGUNDO ZÉ LIMEIRA

Certa vez lá em Natal
Limeira tava cantando
Todo tempo misturando
Mossoró com Portugal.
Falava de carnaval
Numa casa de farinha,
Até que Zé de Ritinha
Perguntou: – Tu é perito?
Pois rime o que tava escrito
Na missiva de Caminha.

Rimo porque sei rimar
Carta, recado e cartilha
Tratado de Tordesilha
E Cabral em alto mar.
Rimo o rei a reclamar
Das viagens da rainha,
Gastando tudo que tinha
De Portugal pro Egito.
E agora rimo o escrito
Da missiva de caminha.

A carta:

Senhor rei de Portugal
Aos vinte e nove de abril
De um tronco de pau Brasil
Escrevo a carta real.
A viagem foi normal
Com as graças de Jesus
Que nos mostrou uma luz
Para uma ação pioneira.
Onde ergui sua bandeira
Na terra de Vera Cruz.

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