Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
Sempre que um artista talentoso desencarna o fato nos comove como se a fatalidade tivesse se abatido sobre alguém muito próximo de nós. Eu, particularmente, acompanhei o surgimento da cantora Whitney Houston quando militava na radiofonia local. Todos (eu, Alberto Arcela, Tico Pinto e Deodato Borges) se deslumbraram quando ela começou a fazer sucesso aqui por essas plagas. Mas, como sempre, as unanimidades são coisas raras e merecidas única e tão somente pelos gênios, pelos diferenciados. Aí eu entro para desafinar. Tendo ciência de que Whitney (09 de agosto de 1963 – 11 de fevereiro de 2012) era detentora de uma voz bela e afinadíssima, capaz de alcançar territórios elevadíssimos com sua extensão vocal; no entanto eu não gostava de seus discos.
I Will Always Love You
Para falar a verdade não tenho nenhum álbum de Whitney na minha estante, mas tenho de sua mãe (essa sim, diferenciada) Cissy Houston, brilhante cantora de gospel e soul. Não cairei na esparrela do comparativismo, mas para mim uma grande cantora pode ter sua carreira minimizada em qualidade quando não faz repertórios rigorosamente seletos. Principalmente no reduto soul-pop são muitas as concorrentes que congestionam esses espaços. Se ela vendeu tantos discos deve ter agradado há muito gente, e levemos em contra o seu séquito que não era pequeno. Na realidade isso não muda muito, porque podemos citar Amy Winehouse como contraponto; um meteoro quebrando convenções de estilo e de mercado; e essa sim apontando para um diferencial de canto. Whitney ficou empastelada entre sua voz bela e a produção “comercialesca” de discos cansativos e de temáticas quase sempre sobre amores sem graça e sem cor. Mesmo com as notícias de que ela estava dependente das drogas, isso não a fez canalizar o sofrimento, a agonia, para sua música como levaram Winehouse, Janis Joplin, Nico e Marianne Faithfull. Da agonia dessas artistas citadas ficou um legado diferenciado, sobretudo por que elas realmente saltaram na caldeira da agonia como cigarras que se matam, mas se matam cantando o melhor que podem. Claro que a música está de luto – esse é o chavão mais inútil que já vi – mas bem que de dentro de seus infernos pessoais e demasiadamente humanos Whitney Houston devia ter cantado de forma mais impactante. Pois dos discos seus que ouvi, sinceramente pouca coisa valerá a pena; a não ser a sua voz poderosa, afinada mas sem sangue. “It’s all right ma, I’m only a bleeding”, é Bob Dylan em uma canção dizendo que “está tudo bem mamãe, eu estou apenas sangrando”.
Livro de autoria do paraibano José Teles narra a história do Quinteto Violado e Marcelo Melo fala sobre a obra e sobre outros projetos
Um dos grupos mais importantes e longevos da Música Popular Brasileira tem a sua história de 40 anos de estrada contada de forma brilhante pelo paraibano José Teles, crítico de música radicado em Recife há décadas. O livro intitulado de “Lá Vêm os Violados” (Edições Bagaço) faz justiça a um dos núcleos mais importantes da MPB, que se mantém firme na defesa de uma proposta musical única na música de nosso país. Nós entrevistamos o líder do QV, Marcelo Melo, que é o front-man do quinteto e tem laços familiares que o ligam à Paraíba, além do fato histórico dele ter convivido com o mitológico paraibano Geraldo Vandré (o quinteto gravou um disco inteiro com músicas suas) na Europa. Em entrevista exclusiva Marcelo Melo trata também do CD que o grupo gravou com obras de José Marcolino e outro que se divide entre as composições de Jackson do Pandeiro e Adoniran Barbosa numa ponte belíssima entre o Nordeste e o Sul do país. Marcelo garante que está nos planos do Quinteto Violado vir comemorar as 4 décadas do grupo em palcos paraibanos e aproveitou para dizer que pretende contar com o empenho do compositor Chico César, Subsecretário de Cultura da Paraíba na viabilização desse desejo. “Nossos laços são muito estreitos”, disse. A seguir vocês conferem a entrevista na íntegra.
- “Lá Vêm os Violados”, o livro, passa a limpo toda história do grupo?
Passar a limpo toda a história é meio pretencioso, Mas acho que o mérito do trabalho está na reconstituição dos mais importantes fatos da trajetória violada, contextualizada com os momentos históricos do país e sua cultura.
- De alguma forma o termo “violados” sugere um duplo sentido? Vocês se sentiram violados em algum momento da carreira?
O nome violado foi sugerido em uma expressão de crianças que nos assistira nas pedras da Nova Jerusalem, e que gritaram “lá vem os violados!”… quando estávamos descendo com alguma dificuldade das pedras carregado os violões e violas. Sem nenhum outro sentido que não fosse referência às nossas violas.
- Quando vocês estiveram com Geraldo Vandré fora do Brasil, tinham engajamento político acirrado contra a ditadura ou não?
Apenas eu (Marcelo) tive contato com Vandré fora do Brasil. Nada que fizemos por lá teve nenhuma conotação política explícita. Procurava-se apenas produzir um trabalho artístico musical, ou seja, um disco com canções inéditas do Vandré, baseado num romance de sua imaginação, que tratava das “terras do bemvirá..!”.
- Por que o Vandré implicou quando vocês gravaram o CD com músicas dele?
Coisas normais ao seu comportamento, sua vaidade e seu preciosismo. Não foi uma iniciativa nem uma idealização musical dele. Assim ele regia e reage sempre para quem mexe com a sua obra. Mas, tanto deixa crer que ele gostou que algum tempo depois ele me consultou para saber se uma determinada canção, ele poderia usar o playback para colocar o seu canto substituindo Toinho. Foi exatamente “República Brasileira”. - A morte de Toinho Alves (baixista do quinteto) enfraqueceu de alguma forma a força musical do grupo?
De nenhuma maneira ocorreu enfraquecimento do nosso trabalho. Apenas podemos dizer que toda a criatividade do Toinho nos arranjos musicais da nossa obra, ficou impresso na forma de elaboração musical do grupo. Sem dúvida ele teve uma grande contribuição pela sua valiosa e genial musicalidade. Mas, acho que a continuidade está se desenvolvendo com bastante ritmo e produtividade. Aprendemos muito com ele.
- Esse híbrido de regionalismo com a música armorial foi algo pensado ou aconteceu naturalmente?
Acontece normalmente. Foi percebido que nosso trabalho possui interfaces entre o erudito e o popular. Assim é normal que aconteçam similaridades sonoras num universo que tem como esteio a mesma matéria prima que é a cultura regional nordestina. A presença do erudito colonizador nas manifestações musicais dos nossos folguedos é um dado incontestável.
- A sonoridade camerística do grupo foi uma marca proposital na música do quinteto?
Considero que nada em nosso trabalho musical tenha sofrido alguma marca proposital de qualquer caminho ou modismo de época. Nosso processo criativo obedecia apenas às intuições musicais do grupo. Trazendo assim um diferencial a sonoridade do Quinteto Violado.
- Como foi aceito por crítica e público o disco com músicas de Jackson do Pandeiro e Adoniran Barbosa?
Acho que acertamos bem, no tratamento dado a obra desses dois mestres. Foi bem recebido pela crítica e pelo nosso público. Tanto, que foi através desse trabalho que fomos merecedores no 22º Prêmio da Musica Brasileira em 2011. O troféu de Melhor Grupo na categoria de Música Regional.
- Lançando um álbum todo dedicado a Zé Marcolino vocês sugerem que se lembre mais desse saudoso gênio?
Claro, nossa homenagem a Marcolino não foi de agora. Havíamos feito esse trabalho alguns anos atrás, ainda com a presença do Toinho Alves. Chegamos a viajar com Marcolino e apresentá-lo conosco em alguns palcos brasileiros. O único disco que Marcolino canta suas próprias composições foi produzido dirigido e teve o quinteto como arranjador e nossos músicos. Comemorando seus 80 anos fizemos essa homenagem póstuma editando na nossa série ‘Quinteto canta…’ esse item a Zé Marcolino.
- Os dois discos que dedicaram a Luiz Gonzaga ganharão reedições nesse ano de Centenário do “Rei”?
Estamos pensando seriamente em produzir um novo albúm “Coisas que Lua Canta nº2.” e entendemos que essa é uma maneira de estarmos participando do mestre Gonzagão e, claro, há a possibilidade como falei lá atrás, de gravarmos um novo disco com as suas obras geniais.
- Que visão vocês têm de grupos como Aviões do Forró e artistas como Michel Telo entre outros?
São artistas que se utilizam das tendências que a mídia oferece para a massificação de produto da indústria cultural e de eventos. Fazem parte desses fenômenos. Não agregam nada a música brasileira de qualidade. Esses fenômenos não chegam a nos inquietar nem altera nossa caminhada. Temos apenas que lamentar o predomínio da baixa qualidade desses produtos que são massificados em detrimento de tanta música boa que nosso país produz. Mas, nada nos desestimula a continuar produzindo o que estamos fazendo ao longo dos nossos 40 Anos.
O ser (dito) humano já não me surpreende mais, principalmente se a novidade for maléfica. Tenho andado cético em relação a nosso espécime, cada vez mais. O homem que nos oferta flores é o mesmo homem que apedreja uma mulher até a morte? É sim. E então, como depositar nesse “bicho homem” (procurem ler o poema com esse título, de autoria de Francisco Carvalho e já musicado por Fagner) algum fio de esperança?! Se essa criatura que desce ao buraco mais fundo for a mesma criatura que voa nos céus, a qual devemos seguir? Como podemos crer ou descrer daquele que a si próprio não se conhece? Como garimpar semelhanças entre Madre Tereza de Calcutá e Margareth Tatcher? Pois bem, voltemos ao nosso tempo e ao nosso país. Como podem coabitar um mesmo mundo Chico Xavier e José Sarney? Provavelmente estamos aqui de passagem para flexibilizar-nos sobre nossas incongruências de seres primários que ainda somos. Somente assim podemos explicar certos anúncios de vitórias do bem sobre o mal, do egoísta sobre o caridoso. Fiz uma volta enorme para chegar ao debate interior que tenho travado comigo mesmo. É grande a minha ânsia de decodificar um programa chamado de “Big Brother”, exibido na TV aberta e que atrai a atenção de milhares (ou milhões, sei lá) de seres humanos a parar diante da telinha para prestigiá-lo. É engano meu ou realmente a humanidade faliu, abriu concordata? Pelo menos parte dela, é claro. Mas uma fatia bastante significativa se observarmos os números do Ibope, e as conversas que ouvimos nos nossos lares, nas ruas, nos consultórios etc. Se não faliu, o homem caminha para tal. E essa falência é pior do que a falência de órgãos. Claro que é. A falência moral e intelectual é uma prova inconteste de que realmente o “bicho homem” que acendeu a chama de Hiroshima é o mesmo que nos oferta um ramo de rimas; citando novamente aqui o poeta Francisco Carvalho. “Big Brother Brasil” é sim o fundo do poço. E eu que cheguei a pensar um dia que o baixo mais baixo que podíamos descer era “Calcinha Preta” e “Tiririca”. Com que cara eu explicarei isso às crianças da minha casa? Como se seus pais e avós dão crédito a essas aberrações televisivas? Não, eu não me sinto ultrapassado. Eu me sinto vitorioso. Isso mesmo. Vitorioso por não ter sido vencido pelo micróbio fatal da alienação e da degradação moral sendo vendida na mídia como algo digerível e moralizado. A mim não mais me farão de bobo. Foi-se o tempo em que eu acreditava em político e em Papai Noel. Dia desses, meu sobrinho veio me perguntar o que era BBB, e eu corei de vergonha porque tive que dizer a ele que – em tese – era um programa de TV no que ele logo percebeu minha cara de mentiroso: “E aquele tal de estupro?”, perguntou-me do elevado de sua inocência. Esforcei-me – e acho que valeu a pena – para explicar a ele que “Estupro” era o nome de um daqueles idiotas promíscuos que nada têm a ver com ele e nem comigo. Pois é. Até estupro acontece naquela “Casa”. E o Pedro Bial pelo qual um dia eu tive até certa admiração, com ar de caquético se prestando a ser um “grande irmão” daqueles seres amorais. Aonde vamos parar? Eu que agora me coloco cético em relação a tal da democracia, coro ao precisar mentir providencialmente ao meu sobrinho. Que vergonha! Então decidi dizer a verdade a ele. Chamei-o e expliquei que aquilo lá é um depósito de lixo humano não-reciclável jogado ali para ver quem era o pior entre eles. E ele: “e qual é o pior, tio?”. Como eu jurei não mentir mais, me sai com essa: “São todos iguais nessa noite!”. E acrescentei: “Ainda bem que somos diferentes, e não estamos naquela casa”. Aí ele entendeu que aquele “mundo” é feito de espíritos decadentes, de seres perdidos; que um dia certamente serão levados ao caminho do bem. Não enganem suas crianças. Digam a verdade a elas, mesmo que de uma maneira tênue, que não as faça cair no poço fundo da desesperança. O ser humano tem jeito sim. Quem não tem jeito é aquela escória do BBB.
“Matriarch of the Blues” e “Let’s Roll” resumem bem a importância desta monstruosa e saudosa cantora
At Last!
A cada ano que passa vão se enfileirando cruzes nos terrenos – hoje mais áridos do que férteis – da música popular mundial. Na sexta-feira (23) a grandiosa norte-americana Etta James fez essa lacuna bem maior ao subir à casa do Pai. Aos … anos a fabulosa intérprete desencarnou e nos deixou uma pergunta a ser respondida: estão aparecendo cantoras com talento relativo ao das que estão desencarnando? Minha resposta é um taxativo não. Claro que existem jovens e talentosas intérpretes desfilando seus diversos timbres e estilos. Buika e Ayo são maravilhosas, e de uma geração mais rodada podemos citar a francesa Madeleine Peyroux e a portuguesa Dulce Pontes entre tantas outras, e também podemos reverenciar aqui a precocemente saudosa Amy Winehouse entre outras mais. Contudo, convenhamos que existe uma lacuna abissal entre a geração de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Edith Piaf e Sara Vaughan; e das citadas no parágrafo anterior. Pois bem; Etta James atuava nessa zona de campo, onde a supremacia da voz tinha (e tem) um que se sagração. Certamente vão me questionar porque não citei Elis Regina e outras brasileiras como Dalva de Oliveira e Ângela Maria; e reconheço sim que elas poderiam reivindicar espaço no clube das grandes cantantes. Etta James, porém, me emocionava quanto cantava Jazz, Blues e até quando se atirava no mais genuíno ‘rock and roll’ como em um de seus últimos álbuns, o maravilhoso e emocionante “Let’s Roll” que pode ser encontrado em lojas nacionais sem muito esforço.
O citado CD na verdade é um documento de EJ com a voz já apresentando claramente os efeitos do tempo sobre as cordas vocais, e talvez por isso mesmo seja o seu registro que mais me emociona. Mas na verdade eu não conheço discos fracos na trajetória dessa dama de voz portentosa e que sabia como poucas transitar entre as pérolas do passado e os diamantes do presente. Por isso discos como “Matriarch Of The Blues” (A Matriarca do Blues) soam-nos tão brilhantes do que quando ela vai ao Jazz e ao Soul.
Nós que escrevemos sobre música temos que assumir publicamente certas esquisitices, porque nem sempre o melhor disco (na nossa avaliação) é o que gostamos mais de ouvir. Em se tratando de Etta eu prefiro bem mais “Let’s Roll” do que o perfeito “Matriarch Of The Blues”. Só tenho citado essas duas pérolas para que o leitor entenda os mundos diversos dessa voz que se calou. O Blues, o Soul e o Jazz eram domados e atiçados ao mesmo tempo por ela, na base do “bate e assopra”. Por essas e outras recomendo que, quem ainda não tem CD de Etta James em casa, corra para comprar. Aqui mesmo em João Pessoa vocês encontrarão nas lojas e nos sebos. E que a saudade não mate nenhum de vocês, e que todos sejam alentados pela tecnologia e levem Etta para dentro de casa.
Filha do músico fala com exclusividade sobre o livro que ela organizou e editou
A filha do músico paraibano Sivuca (in-memoriam) a socióloga Flávia Barreto colocou no mercado editorial o livro “Sivuca e a Música do Recife”, a única obra existente no Brasil sobre esse que foi um dos maiores gênios da música brasileira e mundial.
Severino de Araújo Dias (o Sivuca) nasceu na cidade de Itabaiana, interior da Paraíba, e depois ganhou o mundo. Sivuca morou na Europa e nos Estados Unidos, aonde chegou a gravar grandes discos e até recebeu um elogio de Miles Davis (um dos maiores e mais geniais solistas e arranjadores do Jazz) que confessou só ter passado a suportar o acordeom depois de ouvir o albino paraibano tocá-lo.
Flávia Barreto me concedeu uma entrevista exclusiva na qual fala do livro e de outros projetos que devem se concretizar muito em breve.
Confiram a entrevista na íntegra a seguir.
- Por que situou o livro apenas na atuação de Sivuca no Recife?
O livro “Sivuca e a Música do Recife”, foi a conseqüência de um enorme esforço de pesquisa que gerou, sobre a cidade do Recife material bastante substancial e que não podia ser desprezado. Em conseqüência do estímulo que recebi por parte de Fernando Duarte, atual Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, e que na ocasião estava à frente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, vinculada à Prefeitura, decidi fazer uma primeira publicação que tratasse especificamente desta etapa da vida de meu pai. - A formação musical dele começou no Recife?
Sim. Recife foi a cidade em que Sivuca se formou, entre as décadas de 40 e 50, e ali alcançou um prodigioso desenvolvimento do seu talento natural. Uma conjugação de fatores contribuiu para que isso se desse. Desde o convívio com grandes nomes da cultura musical brasileira, vinculados a variados gêneros musicais, à inúmeras oportunidades de tocar com instrumentistas de formação variada, popular ou clássica. Dentre muitos, todos igualmente relevantes, posso destacar o maestro Guerra-Peixe, que introduziu o jovem Sivuca nos mistérios da harmonia e da orquestração. O livro trata especificamente da relação de Sivuca com a cidade do Recife e busca situar em minúcias as peripécias vividas por ele na juventude, além das experiências com a Orquestra Sinfônica pernambucana. - Tem algum outro projeto em livro sobre o mestre Sivuca?
Certamente, o livro “Sivuca e a Música do Recife” não abarca toda a trajetória da vida profissional de meu pai. Estou nos últimos arremates do projeto gráfico do próximo livro, que estará disponível ao público no início de 2012. Agora sim, virá a biografia completa, disposta em sete capítulos que tratam com maior abrangência da vida e da obra dele “Magnífico Sivuca Maestro da Sanfona”. Diferente do primeiro, em que compartilhei a elaboração com um jornalista, que acompanhou de perto o processo de pesquisa, “Magnífico Sivuca” foi exclusivamente escrito por mim. Trata-se de livro direcionado para um público mais diversificado, com o objetivo de sensibilizar principalmente os jovens sobre a contribuição de Sivuca para a cultura musical brasileira. Por isso, o texto está mais acessível, com a preocupação de ter um tom menos acadêmico do que o primeiro, que foi destinado a um público de apreciadores.
- Pretende investir no mercado estrangeiro com esse livro?
O segundo livro está programado para um processo de divulgação mais abrangente do que o primeiro. “Sivuca e a Música do Recife” trata de um ambiente bem definido e acredito que pode ser considerado como uma referência para quem quer entender melhor o contexto musical recifense. “Magnífico Sivuca Maestro da Sanfona” inclui as experiências de meu pai em vários países, e com certeza, vai atrair a curiosidade de um público de apreciadores do trabalho musical de Sivuca, nos Estados Unidos e na Europa. A tradução para o inglês está avançadíssima e espero que tão logo seja lançado no Brasil, o mesmo aconteça no exterior. Além do lançamento do livro para o exterior, pretendo cumprir uma agenda bem planejada de lançamentos por vários estados brasileiros. Isso inclui a Paraíba e demais estados do nordeste, locais em que devo estar ainda no primeiro semestre de 2012. Temos organizado um circuito de eventos institucionais, além de universidades e livrarias.
Senhor, que tendeis pelos rumos pródigos; fazei-nos dignos de vossos bálsamos.
Senhor, nós que somos mínimos. Nós que somos féculas, a ti dedicamos nossas fábulas.
Fabulosas são tuas palavras. Tu que nos guias pelas veredas luminosas, e que consagras nossos dias como uma falésia de estrelas. Somos teus filhos. E sob tuas lições nos consternamos ao ver-te à cruz; porque somos mínimos, e não absorvemos a mensagem.
Purificai-nos, Senhor. Mas não perdei a esperança em nossa redenção. Posto que pelos calvários inda vamos tateando, como a buscar farturas que açoitaram a escuridão.
Sim, somos teus filhos, Senhor! E pela tua palavra, pelo lavrador e pelo que peca; estamos caminhando sobre o campo de centeio. Faremos do pão uma prece, e do vinho a fraternidade de todos em volta da mesa.
Senhor; somos todos leprosos, penitentes que esperam honrar teu nome e teus ensinamentos. Porque aqui estamos com o intuito de fazer da lição gestos reais. E que nossos irmãos tenham a mesa farta e o coração refrescado. Somente quando extirpar-se o tumor da inveja e da violência, saberemos que estamos todos começando a parecermo-nos contigo.
Nada somos; Pai, sem o teu auxílio. E nada seremos a não ser quando estivermos plenos e pudermos te chamar de irmão. Sim, porque até agora, não somos merecedores de tal dádiva.
Esperaremos o dia em que o trataremos por “Amigo” e aí, Pai, estaremos todos cumprindo a tarefa que nos confiaste. Qual seja vivermos de amor, de caridade; e entre irmãos. Somos todos filhos de um mesmo Pai. O Pai que nunca falta, e que nunca erra. Amém!
No dia 29 de outubro artistas como Jessier Quirino, Maciel Melo, Irah Caldeira e Beto Brito estarão juntos no palco da “Encantoria”
O público pessoense deve ir se preparando para assistir a um encontro raro na cultura nordestina, no dia 29 de outubro, quando estarão dividindo o palco artistas como o poeta Jessier Quirino, o compositor Maciel Melo, e cantora Irah Caldeira e o cantor Beto Brito. Esse encontro é o primeiro de duas etapas que tem por objetivo mostrar a riqueza poético-musical dos dois Estados (Paraíba e Pernambuco) e assim deixar claro que a legítima identidade artística do Nordeste ainda é a mais forte do país.
A idéia partiu do crítico e pesquisador musical Ricardo Anísio e foi encampada pelos artistas. Na verdade, além do grupo citado anteriormente, a “EnCantoria” ainda terá participações especiais como as da cantora Diana Miranda e do cantador-poeta Oliveira de Panelas. A intenção, segundo Anísio, é elevar a auto-estima de nossa região a partir de dois Estados que foram fundamentais para a construção da nossa identidade cultural.
“Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro mostram bem como Pernambuco e Paraíba tiveram uma decisiva importância na formação musical de nossa gente”, comenta o jornalista adiantando que uma segunda edição de “EnCantoria” já está prevista também para este ano já com a confirmação de Santanna O Cantador no elenco. Por enquanto serão somente dois eventos, mas há a expectativa de que o projeto vingue e outros grupos sejam formados.
Jessier Quirino é o maior fenômeno nordestino da última década, e por onde passa (de canto a canto do Brasil) impressiona a todos com sua capacidade de ser lírico e engraçado ao mesmo tempo. Jessier, paraibano de Campina Grande e radicado em Itabaiana, mora na mesma cidade onde nasceu o poeta Zé da Luz, um dos ícones maiores da chamada “poesia matuta” nordestina. Maciel Melo é o maior compositor nordestino de sua geração (e pode ser inserido entre mestres de outras épocas) assinando clássicos como “Caboclo Sonhador”, “Caia por Cima de Mim”, “A Poeira e a Estrada”, “Que Nem Vem-vem”, “Retinas” e dezenas de outras pérolas.
Beto Brito (piauiense de nascimento) conquistou um espaço importante na cena musical da Paraíba com seu CD “Imbolê”, no qual musicou um poema de Orlando Tejo e gravou com a participação de Zé Ramalho. Beto é autor de “Bazófias de Um Cantador”, o “maior livro do mundo” e pleiteia um lugar no Guines Book, o Livro dos Recordes; e é rabequeiro dos bons. Irah Caldeira é a herdeira de Marinês (a voz feminina mais bela do Forró) e assim como Beto, não é paraibana, nasceu em Minas Gerais. Irah é cidadã recifense e tem discos belíssimos na praça, tal como “Do Calango ao Baião”.
“EnCantoria” terá sua segunda edição também este ano, e já está confirmada a participação de Santanna O Cantador como sua atração principal. A Paraíba estava precisando reunir seus ícones da cultura popular em eventos dessa natureza. Maiores informações podem ser obtidas através do celular (83) 9314-6308.
Leda Dias lança CD e LP, relê “Tropeiros da Borborema” e diz que acredita no “Brasil da delicadeza”
A cantora Leda Dias, além de fazer um disco belíssimo, resolveu lançar simultaneamente duas versões: uma em CD, outra em LP, o velho e bom vinil. Dona de uma voz delicada e bela, Leda optou por escapar das massas sonoras e apostar na força das canções com interpretações emocionais e delicadas.
Duas faixas em especial me chamaram a atenção: “Tropeiros da Borborema” (Rosil Cavalcanti) e “Curvas” (Zeto). O primeiro, um dos mestres que atuaram nos anos doirados em que reinava o rei Luiz Gonzaga. O segundo um ‘Raul Seixas brotado dos sertões com uma filosofal poética embalada por melodias lindas e comoventes.
Leda Dias me concedeu uma entrevista na qual fala sobre esses aspectos e outros mais. Leiam a seguir.
- Com quais critérios você selecionou o repertório desse disco?
A idéia inicial que motivou Anselmo Alves a fazer a produção do disco, era registrar parte do repertório que eu fazia ao violão, por apresentar uma interpretação muito própria de músicas brasileiras pouco cantadas na atualidade, embora clássicos, e pelas características de minha voz, como o timbre e suavidade. Para o disco escolhi algumas canções que mais me sensibilizavam ao cantar, e que eu percebia que também emocionavam as pessoas quando eu cantava. Como esse disco levou alguns anos para ser concluído, o repertório inicial sofreu algumas mudanças, com a saída de algumas músicas e escolha de outras. A pedido de Anselmo entraram “Tropeiros da Borborema” e “Curvas”. Para homenagear os mestres do fole, incluí Oito Baixos. As composições Tecelã e Canção Espacial não faziam parte de meu repertório.
- Por que decidiu fazer edição em CD e LP?
O formato LP foi acrescentado ao projeto no momento final. Anselmo propôs a prensagem no bolachão porque percebeu o interesse crescente pelo vinil, com o movimento de alguns artistas, principalmente no exterior, de voltar a lançar seus trabalhos em LP. Também por ser um formato mais estável que o CD, com durabilidade comprovada, e pela qualidade sonora do registro, superior ao do CD.
- Como é cantar Lamartine Babo e Dominguinhos em um mesmo projeto?
Ambos são grandes, cada qual com sua sofisticação. Lamartine eternizado com suas marchinhas, sambas e músicas carnavalescas e Dominguinhos nosso grande mestre da sanfona. Com Dominguinhos tenho uma relação mais estreita, pessoal mesmo, reforçada pelo grande amor que nutro pelo instrumento que ele carrega no peito. Ele é um artista muito especial, que passeia com muita facilidade pela música, seu meio natural. Um mestre reconhecido internacionalmente. Nasceu assim, iluminado. A MPB tem uma riqueza imensa de grandes compositores e fico muito feliz de ter conseguido reunir alguns num mesmo disco.
Lêda Dias cantando “Serra da Boa Esperança”, de Lamartine Babo:
- Você gravou o lendário Zeto. Concorda que pouco se dá a ele a dimensão real da sua obra?
Sim. Zeto tinha um jeito único de tocar o violão, uma veia poética preciosa, uma interpretação diferente, própria. Ele era verdadeiro, sensível. Pena que não deixou muita coisa em disco. Temos que recorrer aos registros informais, e à memória de amigos e parentes. Penso que em 2012, quando terão se passado dez anos de seu encantamento, alguém deveria tentar reunir e registrar todas essas informações, e tudo o que ele deixou gravado na televisão, num memorial, para que sua obra não ficasse restrita aos amantes da poesia e do canto que o conheceram, mas verdadeiramente pudesse ficar acessível a quem desejasse conhecer melhor suas composições, poesias e (en)canto.
- O Brasil da delicadeza vencerá o Brasil do barulho um dia?
Acredito que o Brasil da delicadeza sempre terá seu espaço. Como disse Sivuca e Paulinho Tapajós, “enquanto houver dois corações, nem mesmo mil ladrões podem roubar canções.” (No tempo dos quintais estava na primeira seleção do repertório, mas acabou saindo, e hoje lamentamos muito não tê-la mantido). Acredito no Brasil de Pereira da Viola, de Edilza, de Ceumar, de Renato Teixeira, de Ferragutti e de tantos outros que continuam fazendo seus trabalhos, apesar de tudo.
- Você corrobora com a tese de que a música tem uma linguagem universal?
Sim. A música tem essa característica de independer de idiomas ou fronteiras para expressar sentimentos e provocar emoções. Acredito que a música tem um potencial curativo incrível e é uma das ferramentas de entendimento e união entre os povos.
- As emissoras de rádio em sua maioria renderam-se a vulgaridade. Qual sua leitura desse quadro?
Penso que esse é um problema que tem o interesse econômico de frente, porque é um mercado que atinge grandes populações. Hoje há o famoso jabá, e os grupos que podem “investir” soltam grana mesmo. As grandes massas já estão intoxicadas de música de baixa qualidade, e pedem por isso como quem tem síndrome de abstinência. Aprofundando um pouco, penso que a nossa sociedade vive uma crise de valores. Vejo uma sociedade meio perdida, com pessoas individualistas, que tem nivelado muitas coisas pelo piso, por baixo, com o imediatismo ditando regras. E a música das massas e das grandes mídias reflete isso.
- A produção de seu disco foi esmerada. Fale-nos sobre ela…
Desde o primeiro momento nos preocupamos com todos os detalhes. O repertório, a produção musical, a programação visual, o acabamento. Por isso, Anselmo Alves e eu procuramos trabalhar com a melhor qualidade dentro de nossas possibilidades, principalmente no tocante aos arranjadores e músicos. E as possibilidades eram sempre meio que no patamar do sonho, que perseguíamos com garra, embora muitas vezes nos encontrássemos exaustos. Não foi uma produção fácil, até porque éramos marinheiros de primeira viagem, e tivemos que contornar situações simples, que se complicaram um pouco por nossa falta de experiência. Também porque não tivemos, em toda a fase de gravação, mixagem e masterização, apoio financeiro significativo. Poucos chegaram junto com alguma contribuição, e agradecemos imensamente os que o fizeram. Mas como custeamos praticamente toda essa fase com recursos próprios, o cd demorou 5 anos para sair da fase de estúdio.
Manezinho Araújo tem obra lembrada na voz de Geraldo Maia no CD “Ladrão de Purezas”, uma obra-prima
Manezinho Araújo (Setembro/1913 — Maio/1993)
O cantor pernambucano Geraldo Maia é um dos melhores intérpretes da MPB na atualidade. Se não obteve ainda a projeção nacional é porque a mídia descumpre seu papel de honestidade e projeta-se para os abestalhamentos vigentes. “Ladrão de Purezas” (Biscoito Fino) é um CD indispensável. Não somente pelo protagonista, mas pelo tributo que ele presta ao genial Manezinho Araújo que, como se trata de um nordestino, pouca gente deve conhecer.
Manezinho Araújo habita a mesma constelação na qual se encontram Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva e Elino Julião entre outros mestres que fizeram do rojão, do coco e do forró suas bandeiras de luta. Geraldo Maia deu uma sonoridade delicada a obra de Manezinho, quase camerística, mas manteve a força rítmica e poeta do saudoso mestre. Confiram a entrevista de Geraldo Maia.
- Como lhe veio a brilhante idéia de saudar a memória de Manezinho Araújo?
Sou fã já faz um tempo. Meu disco de 2007, o Samba de São João, traz 2 músicas dele: Pra onde vai, valente?, uma das famosas emboladas com que ele ficou conhecido e Sôdade de Pernambuco. Fiz o Sr. Brasil, de Rolando Boldrin (TV Cultura – SP) cantando essas músicas dele. E esse apreço vem acrescido por um desejo de ajudar, no meu modesto alcance, a tirar Manezinho do injusto e absurdo esquecimento a que ele foi relegado.
- Como cantor-intérprete tem planos de fazer outros discos temáticos com outros autores?
Sim. Fernando Lobo (parceiro e amigo de Manezinho), por exemplo, me interessa como compositor. E penso em dar continuidade ao Samba de São João, ou seja, ampliar o leque de compositores pernambucanos da primeira metade do séc.XX que deram enorme contribuição ao desenvolvimento e consolidação da nossa música e que hoje são praticamente desconhecidos do grande público.
- É impressão minha ou o Brasil está ficando sem vozes masculinas?
São poucas, realmente. Ney Matogrosso foi o último grande intérprete que atingiu uma projeção nacional e isso já faz tempo, né mesmo? Mas não sei diagnosticar isso e nem acho que isso deva nos preocupar porque as coisas mudam naturalmente.
- Como analisa essa coisa dos autores decidirem eles mesmos gravarem sua obra?
Isso responde um pouco também sobre a questão anterior. Acho legítimo que o compositor queira ser o intérprete de suas músicas, mas sem dúvida isso acaba gerando um certo empobrecimento, pois o fato é que muitos desses compositores (alguns sabidamente excelentes) são cantores medianos, às vezes medíocres mesmo, não reúnem as qualidades mínimas requeridas para que se estabeleça ali uma condição de cantor, de intérprete. Obviamente estou fazendo menção a requisitos clássicos, parâmetros universalmente aceitos, mas que entraram em parafuso com o advento das tecnologias que hoje em dia “tornam” qualquer um cantor, por assim dizer.
“Quando a rima me fartá”, de Manezinho Araújo, canta Geraldo Maia
- No âmbito geral não acha que se valoriza pouco o compositor no Brasil?
Isso também é verdade. Na grande maioria dos casos a música é de “autoria” de quem a canta, não importando se esse alguém é Lulu Santos, que compõe praticamente 100% do que canta, ou Maria Bethânia, que não compõe, é meramente intérprete.
Compreendo e legitimidade do luto pelos mortos nos atentados de 11 de setembro de 2001, quando terroristas “cortaram os chifres da besta” (assim chamavam as torres gêmeas) americana, sustentáculo do capitalismo voraz que imprimiu um bloqueio criminoso à Cuba e causou um destroço sem precedentes à sua população.
Tento compreender porque ninguém nunca se rebelou contra a sanha belicista dos ianques que mataram dez vezes mais pessoas do que Bin Laden e seus suicidas dizimaram naquele fatídico dia. Eu não sou do time dos bandidos, mas também não dou dado a mocinhos de ficção.
Queria tanto que a mídia se libertasse da emoção sensacionalista barata e analisasse os fatos à luz da justiça. Vocês sabem quantas pessoas tombaram no Vietnã? Vocês têm idéia de quantas mortes os Estados Unidos patrocinaram na Guerra do Golfo? E o Iraque? E etc. etc. etc.
Na verdade eu me comovi quando vi aqueles aviões decepando torres como se fossem córneos. A genialidade (mesmo que a serviço do mal) de Osama Bin Laden, também me arrepiou. Fiquei completamente atônito, mas lhes confesso que desde cedo aprendi, lendo, que toda guerra deixa muitas cruzes pelo caminho.
Fiquei sim, triste pelos mortos do Word Trade Center, fiquei triste pelos órfãos, pelos viúvos e viúvas. Fiquei triste de forma enviesada, porque infelizmente o mundo só tem se transformado no furacão das guerras. Cheguei a chorar pelas crianças, estas sim; alvos inocentes de um débito que a América do Norte tinha com o restante do mundo.
Cresci vendo (e lendo) os EUA bebendo sangue, como um vampiro celerado que precisava demonstrar seu poder bélico para submeter os países menores à sua soberana vontade. Nós brasileiros pagamos também por esta configuração criminosa que “Tio Sam” encontrou para tentar reger o mundo ao seu bel prazer.
O “11 de Setembro” me remete ao kardecismo no qual se estuda a lei de “causa & efeito” e onde se decodifica a tese de que ninguém morre por acaso. Toda morte é possivelmente explicável, e aqui eu evoco uma fantástica palestra que assisti de Sueli Andrade Dias sobre esse tipo de evento em que muitas pessoas desencarnam.
Para fazer-me entender mais claramente, afirmo que jamais desejaria que aquelas pessoas morressem durante os ataques, mas ao mesmo tempo não vou ser cabotino de negar que em outro viés se fazia necessário um “soco” no queixo da “besta” capitalista bebedora de sangue. Indiretamente sobrou uma parte disso tudo para nós terceiro-mundistas que batíamos cabeça e balançávamos o rabinho que nem lagartixas a tudo que Tio Sam nos impunha.
Botamos bebop no nosso samba bem antes de Tio Sam pegar no tamborim. Nosso baião nunca chegou aos salões americanos e a zabumba sequer soou quando as torres ruíram. Á luz do legalismo recuaríamos até a lei de “causa e efeito” e a inevitável construção do “quem bate leva”. Chorei a 11 de setembro de 2001. Chorei sim. Chorei do meu peito humano. Chorei para desembaçar a minha opinião e fazer-me crer que realmente nada é por acaso e tudo tem seu lado positivo.
Sem Osama Bin Laden não teríamos chegando tão rápido a Barack Obama. Entre Osama e Obama mora um rio. Provavelmente um rio que a história saberá guardar para recontar o “11 de Setembro” sem a névoa do simplismo. O mundo muda com a paz e também muda com a guerra. Segundo o poeta Gil “a guerra é produto da paz” e “uma bomba sobre o Japão fez nascer um Japão de paz”.
Quem era pior: Bush ou Bin Laden? Quem matou mais? Quem fez mais guerras? Quem fez mais mal ao mundo, os EUA ou o Oriente? O Vietnã não nos deixa dúvidas. O Golfo, Cuba, etc. Façamos uma oração pelos que choram os mortos do 11 de setembro. Choremos mais ainda pelos tantos mortos pelos EUA. Esqueçam Hollywood. Esqueçam as matérias postas nas tevês. Meditem. (Re) vejam a história. Não há inocentes nesse imbróglio.
Jessier Quirino abre mão da música e volta a fazer show solo no Teatro Paulo Pontes
Nestes dias 01 e 02 de setembro os inúmeros fãs do poeta e contador de causo Jessier Quirino, vão ter a oportunidade de rever o artista em sua plenitude, dominando o palco como poucos nesse mundão de meu Deus sabem fazer. A apresentação solo do autor de “Paisagem do Interior” desta vez não terá o excelente grupo de músicos que o acompanha, e em determinada passagem o autor de “Comício em Beco Estreito” prestará uma homenagem póstuma a seu amigo Paulo Germano Macedo (filho do compositor Genival Macedo, autor entre outros sucessos, de “Meu Sublime Torrão”, hino popular da Paraíba) assassinado sexta-feira no Recife durante um assalto. Quem quiser garantir logo seu lugar nos shows de Jessier pode obter informações através dos telefones (83) 9971-0808 ou (83) 3211-6232.
Jessier Quirino é um dos maiores fenômenos da cultura popular brasileira na última década. Recordista de público dos teatros paraibanos e pernambucanos, ele não é menos popular nos outros rincões brasileiros por onde tem se apresentado. Seu livro mais recente, “Berro Novo” (Edições Bagaço) reedita a qualidade do Best-Seller “Prosa Morena”, coisa rara de acontecer pelo fato de seus grandes clássicos constarem em seu livro de estréia.
Está redondamente enganado quem pensa que o sucesso desse campinense universal (com pedaço do coração em Itabaiana e outro em Campina Grande) deu-se de forma casual e rápida. A construção dos personagens, assim como a construção dos causos e dos poemas, resulta de uma elaboração aplicada; de uma dedicação visceral do criador com suas criaturas. Jessier foi conquistando o público de forma cadenciada, ocupando uma lacuna deixada pelos saudosos mestres. E aí não há como negar que ele bebeu da fonte de Chico Pedrosa, de Zé Laurentino e do pesquisador e contador de causos Joselito Nunes entre outros.
A diferença entre Quirino e seus pares é que sua formação não expulsa os causos apimentados. Ele transita célere entre a piada direta e os poemas de extremo lirismo, tal como “Linda Não, Aquelas Tuias”, um de seus poemas mais bonitos, dedicado a sua esposa. Jessier Quirino é um mestre na colheita permanente de causos, de versos e de anedotas.
Jessier também é compositor, e “Bolero de Isabel” é uma obra marcante dessa sua seara paralela. De onde vem a musicalidade de Quirino? Ora, vem do ritmo natural que ele imprime a construção de sua poeticidade. Porque estamos tratando de um artista popular que não renega o rebuscamento de Chico Buarque e de Luiz Gonzaga.
“Bolero de Isabel”, interpretado por Jessier e Macial Melo
É desse entendimento de que Gonzagão e Chico têm parâmetros semelhantes e apenas estilos e rebuscamentos diferentes, que construiu-se um artista da poesia popular carregada de humor e lirismo. Ele se valeu da capacidade catedrática e da intuição como poucos souberam fazer no Brasil. Por isso JQ agrada a Jô Soares e a Zé de Cazuza. Porque ele permeia o Brasil com doses portentosas de beleza, independente dos rótulos que fiquem querendo lhe atribuir.
O que Jessier Quirino não é mesmo é humorista. E aqui não vai nenhum demérito aos humoristas, porém a percepção de que há uma enorme diferença entre ele e Nairon “Zé Lezim” Barreto. No matuto de Nairon há um jorrar de humorismo bem retocado, porém sem o menor contato com a poeticidade. Alguns leigos costumam fazer comparação de um com o outro, e se equivocam redondamente.
Não raro eu vi em shows de Jessier muitas pessoas chorando na platéia. Sim, porque ele é um artista domador de emoções plenas. O que não podemos negar em Jessier é o regionalismo. Mas não um regionalismo tacanho e xenófobo, mas um regionalismo “desses que não dá no c… de qualquer um” (citação de um de seus causos) e sim um regionalismo que reverbera em Zé Laurentino, em Chico Pedrosa (genial!) e nos irmãos Batista (Otacílio, Lourival e Dimas).
Não bastasse seu talento de arquiteto que desenha babéis de emoção, ele se coloca em plena discussão sobre o que vem a ser a poesia regional do Nordeste e a poesia prenhe de universalismo. Embora sendo um homem de alma aldeã Quirino transgride o prurido dos cobradores das essências estáticas e coloca sua formação poético-cênica a serviço de uma amplitude muito mais interessante.
Quando falamos de Jessier Quirino já não cabemos mais na aldeia e nem no mundo. A literatura está acima de guetos e de amplidões. Por isso quando você for a uma de suas apresentações vá preparado para alternar de emoções, do riso ao choro, com a mesma rapidez do opa e ao imediatismo do upa. A obra de JQ tem sido estudada e debatida, mas isso é o que menos importa. A obra de um artista enquanto porta-voz de emoções não requer clausuras e nem intelectualismos em volta dela. A arte é plena por sê-lo. Não mais que isso. Porque eu creio na tese de que os artistas (de todos os segmentos, e quando são verdadeiros e não impostores) nascem marcados pelo dedo de Deus. Por isso uma palavra bastaria para resumir e/ou traduzir todo esse texto: Jessier é Gênio, ou Gessier é Jênio!
Disco da série “Letra & Música” traz as canções de Bob Dylan na interpretação de artistas díspares da música nacional
Caetano Veloso
Robert Allen Zimmerman é um dos mais geniais astros da canção popular mundial. Talvez por isso, pela sua enorme importância, sua obra tenha chamado a atenção de artistas brasileiros das mais diversas tendências. Um caso típico dessa admiração ficou na conta do paraibano Zé Ramalho, que lançou um CD inteiro cantando versões das obras de Dylan. Recentemente chegou às lojas brasileiras (em João Pessoa já pode ser encontrado) o álbum “Bob Dylan – Letra & Música”, lançado pelo selo alternativo Discobertas (assim mesmo com a Letra I como na canção de Gonzagão), que é mais uma amostra de que a genialidade desconhece fronteiras e quintais embandeirados.
Se o leitor me perguntar sobre a qualidade da obra em questão eu direi que a relevância da mesma é relativa. Primeiro porque há uma irregularidade gritante entre os intérpretes brasileiros de Dylan (nome inspirado pelo mestre Dylan Thomas, poeta irlandês de quem Bob é fã confesso) e segundo porque o disco não teve uma linha de produção original. Ou seja, as faixas foram coletadas de discos diversos e agrupadas para essa deliciosa coletânea.
Mas isso não tira a graça e o frescor da maioria das versões. Ouvir Caetano Veloso cantando “Jokerman” (do CD “Infidels”, de Dylan) é muito bom. Caetano já havia escrito a versão de “It’s All Over Now, Baby Blue” com o título de “Negro Amor”, gravada por Gal Costa no álbum “Caras & Bocas”. A jovem promessa Mallu Magalhães dá um frescor delicado a “It Ain’t me Babe” e Renato Russo carrega de emoção a leitura que faz para “If You See Him Say Hello”.
Gal Costa
Pelas faixas já citadas os fãs de Bob Dylan já podem ter percebido que, para fãs de carteirinha, esse disco é fundamental. Talvez os nem tão apaixonados possam tecer alguns senões, mas na verdade eu recomendaria o CD para os dois grupos. No mínimo você vai se divertir, se bem que Dylan nunca quis (e nem deve) ser encarado como artista de entretenimento, mas sim de reflexão, seja política ou religiosa. Seus discos cristãos, entre os quais se inclui o belo “Slow Train Comming” (“O Trem vem lentamente”) são muito saborosos.
Dylan se projetou como cantor de protesto e no ‘disco brasileiro’ do selo Discobertas vale a pena prestar atenção em “Joquim” versão do gaúcho Vitor Ramil (um tiete confesso de BD) para “Joey” que consta no indispensável irretocável CD “Desire”. Vitor gravou outra canção do autor de “It’a a Hard Rain a Gonna Fall”, para mim a mais bela canção já escrita no cancioneiro popular mundial. Perceberam que quando falo de Bob Dylan não consigo disfarçar a tietagem?
Vocês se lembram de Ruy Maurity? Pois bem, eis que esse tributo brasileiro a Dylan o “ressuscita” no mercado musical. Maurity gravou a versão de “Man Gave Name to the Animals” (algo como “O homem batizou todos os animais”) e o fez com propriedade, provando que o mercado da MPB ejetou muita gente boa em detrimento de um mercado que só pensa em ‘novidades’ e sucessos efêmeros.
Aos 60 anos de idade Elba Ramalho exibe talento e personalidade de uma vencedora que soube virar o jogo
Creio (pode ser presunção) que nenhum outro crítico de música tenha mais autoridade para elogiar a cantora paraibana Elba Ramalho do que eu. Não porque eu tenha mais talento ou capacidade do que todos os meus colegas. Nada disso. Talvez seja pela minha sinceridade exercida lá no nascedouro dessa artista maravilhosa em que Elba se constituiu.
Quando o disco “Ave de Prata” chegou às minhas mãos, ainda nos tempos do LP de vinil, eu elogiei muito o repertório (hoje ainda um dos mais completos dentro do conceito da artista) eu exerci uma crítica ferrenha, desafinando o coro daqueles que se danaram a rasgar ceda para Elba.
Realmente o repertório era tão bom e Elba imprimiu uma emotividade tão forte ao disco, que muita gente deixou se levar por isso. Trazendo canções como “Veio D’água” (Luiz Ramalho), “Bodocongó” (Rosil Cavalcanti), “Canta Coração” (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando) e a faixa-título (de autoria de Zé Ramalho) o álbum tinha esse vigor inebriante dado a empolgação.
À época achei que o disco era razoável para a estréia de uma atriz que decidira cantar. As bênçãos de Chico Buarque, e sua então esposa Marieta Severo, colocaram Elba Ramalho na lista das vozes emergentes. E a seu favor a cantora paraibana trazia a carga emocional herdada das artes cênicas.
Elba Ramalho com Ricardo Anísio
“Não Sonho Mais” (de Chico Buarque) foi o melhor registro da ER que se iniciava profissionalmente na música, mesmo tendo atuado em grupos quando ainda morava em Campina Grande vinda da cidade de Conceição. O tempo da banda As Brasas (grupo no qual Elba se deleitava cantando e tocando bateria) pode ter oferecido a ela um cabedal de possibilidades…
A verdade é que o disco “Ave de Prata” estourou e ela firmou sua carreira musical ainda sem me convencer. No disco seguinte, “Capim do Vale”, ela já apontaria uma evolução esperançosa, e eu fui depositando esperanças naquela que cheguei a chamar de “a Janis Joplin” dos sertões. Claro que errei. Claro que Janis era mais cantora do que Elba, à época.
Elba Ramalho cantando “Não Sonho Mais” de Chico Buarque:
Ocorreu que a paraibana veio subindo degrau por degrau, e sabendo driblar os críticos incrédulos entre os quais constava esse que vos escreve. Avaliar a carreira de Elba é uma tarefa que requer cuidado. Ela teve fases as mais distintas, repertórios amenos (o “Elba” da capa azul) e outros excelentes (“Leão do Norte”) e eu sempre torcendo para que ela se firmasse.
Essa afirmação veio. Elba Ramalho estava pronta desde o tal “Leão do Norte” e viria a fazer um disco perfeito (a perfeição existe, amigo W. J. Solha) com “Qual o Assunto que Mais Lhe Interessa?” uma obra para constar em qualquer coleção que se pretenda completa. Aqui ER está plena como cantora e como intérprete. Sim, erra completamente quem achar é uma redundância.
Há quem interpreta e não canta divinamente (Fagner) e quem canta bem (Paula Fernandes) e não encanta. Mas Elba Ramalho dá um banho cantando e interpretando no disco “Qual o Assunto…?” com a produção moderna e ousadíssima do meu amigo Lula Queiroga. Elba canta em cima de eletrônica, soa pop, soa experimental, soa sambista. Enfim essa artista de quem tornei-me amigo, me fez calar a boca e engolir o ceticismo lá de detrás. Ossos dos ofícios, o meu e o dela.
A intérprete que não gosto (a de “Ave de Prata”) não deixou de ser minha amiga e nos respeitamos mutuamente. A cantora que eu adoro (a de discos como “Leão do Norte” e “Baioque”) segue plena, dominando os palcos, burilando discos de fidelidade regional como “Balaio de Amor”, sua devoção ao Nordeste de Maciel Melo, Petrúcio Amorim e Xico Bizerra; gênios da Nação Nordestina que me dão o direito de ser além de fã, amigo.
Tudo acaba bem quando a alma não é pequena. Porque quando nos esbarramos pelai em rotas opostas nem sempre quer dizer que somos diferentes ou que buscamos outros Oasis. Sobrevivemos a tantos Saara…Mas, como diz Climério, da banda Chá de Zabumba, “a gente não vai morrer mais nunca!”. E quem disse que morreríamos?
Otacílio Batista será lembrado em mais um tributo e filho do autor de “Mulher Nova Bonita e Carinhosa” reclama mais homenagens
Otacílio Batista é (não uso “foi) um dos maiores nomes da cantoria de viola e da poesia popular brasileira. Membro da família Patriota, ele formou a tríade mais famosa do repente ao lado dos irmãos Dimas e Lourival (o Louro do Pajeú) e embrenhou-se na sigla MPB graças a composições como “Mulher Nova Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer sem Sentir Dor”.
Todos os anos seu filho Fernando Patriota realiza um evento (já vai na oitava edição) para manter viva a memória desse artista genial que teve como parceiro mais efetivo o não menos grandioso Oliveira de Panelas. O “VII Tributo a Otacílio Batista” vai acontecer no dia 06 de agosto às 20hs na sede do Sindicato dos Bancários, sito a Av. Beira Rio, João Pessoa, com entrada franca.
Este ano duas duplas de cantadores, dentre elas Baudethe Bandeira e Antônio Costa, os irmãos declamadores Raimundo Patriota e José Patriota, o grupo de Ser Tão Teatro, um quinteto de metais formado por músicos da Banda 5 de Agosto e, ainda, a intérprete Silva Patriota. Fernando Patriota concedeu-nos entrevista na qual aborda temas pontuais sobre vida e obra de seu saudoso pai. Confiram.
Fernando Patriota
- Você acha que esses tributos têm sido prestigiados como seu pai merecia?
Pelo público sim. Tanto é que no ano passado registramos uma platéia formada por mais de 400 pessoas. E tem sido assim nas versões anteriores. Agora, em relação o apoio público não podemos negar a limitação. Nosso parceiros têm sido a Funjope, o Sindicato dos Bancários e O Sebo Cultural, O projeto para a realização do tributo deste ano ainda não foi apreciado pela Funjope. Estou esperando um esse posicionamento por parte da Diretoria do órgão. A Secretaria de Cultura do Estado, por exemplo, que tem a frente um músico (Chico César) nunca mostrou o menor interesse em apoiar o Tributo a Otacílio Batista, que já faz parte do calendário cultural da cidade.
- Nos últimos anos de vida seu pai se considerava um artista realizado?
Meu pai sempre se sentiu realizado. Ele era um artista nato e independia de críticas. Para ele, juntamente com minha mãe, ter conseguido criar e educar dez filhos com o braço da viola e o pó de giz, já que minha mãe era professora, a realização estava completa. Mas, se você se referindo o estado de saúde que ele se encontrada nos seus últimos dias de vida, eu lhe digo que ele estava triste, mas não frustrado. Acredito que um homem que conseguiu o que ele conseguiu dentro da profissão, seria praticamente impossível não se sentir realizado. Otacílio Batista era um privilegiado.
Antonio Adolfo lança o CD “Chora Baião”, com músicas de Chico Buarque de Guinga, e diz que o rádio optado pelo lixo
“Lixo. Lixo mesmo. São poucos os heróis que tentam ir na contramão dessa postura estética radiofônica”. Com essa frase o pianista-compositor Antonio Adolfo define o momento atual das programações de rádio e da fabricação de mitos sem nenhum talento. Certamente para um músico como AA deve ser uma tortura perceber o que tem se passado com a MPB.
Lançando seu novo CD “Chora Baião” (R$ 34 em média) o músico em questão tem muita (e grandiosa) história. Não bastasse seu enorme talento de solista, arranjador e compositor; Adolfo foi o artista que lançou o primeiro disco independente no Brasil, o “Vira Lata”, que se junta a “Feito em Casa” no que há de melhor em sua discografia.
“Chora Baião” é uma homenagem de Antonio Adolfo a dois monstros da composição popular: Chico Buarque e Guinga. No meio, ele enfiou “Chicote”, um tema por ele composto e que confirma seu virtuosismo. AA concedeu entrevista e falou sobre sua filha (a cantora Carol Saboya, que canta no disco) e sobre a atual situação das programações radiofônica e televisiva.
* * *
- Qual foi o norte usado para a seleção de repertório desse disco?
A idéia sempre é gravar a musica que gosto, a musica que tenha a ver com o que vivo e já vivi na minha carreira. Já ha alguns anos, desde que conheci um pouco do repertorio de Guinga, que fiquei maravilhado e interessado em mergulhar fundo em seu estilo, que trazia novidades, principalmente na harmonia e melodia. O Chico, - não precisa falar – sempre foi um gênio, com destaque para as letras maravilhosas que sempre escreveu.
- Que acha do Chico Buarque enquanto músico?
Claro que tem músicas lindas, mas, há na música que ele compõe, principalmente em algumas canções, uma sofisticação harmônica que nunca teve o foco que deveria ter. Chico, músico, sempre foi quase autodidata, mas o que é incrível é que, tanto ele quanto Guinga, também quase autodidata, compõem música (digo música, independente de letra) com elementos altamente sofisticados, com estilo totalmente de cada uma deles, alem de uma sofisticação de quem estudou musica pra valer.
- Qual foi o maior desafio para montar o repertório desse disco?
O desafio, além de combinar o repertório dos dois, seria casar a musica deles com a música que toco, com meu estilo, e com minhas composições. E acabei compondo uma musica (Chorosa Blues) já quando havia decidido quais as musicas de cada um deles que iria gravar, após ter pesquisado mais de 300 canções. A musica Chora Baião, que havia composto ha uns dois anos e estava inédita, ainda não tinha nome definido, e se encaixava perfeitamente no estilo musical do disco, um misto de choro e baião. E Chicote, foi gravada primeiramente no disco Feito em Casa, em 1977 – foi composta num exercício de composição, quando estudava com o maestro Guerra-Peixe, e gravada, aqui, com arranjo totalmente novo, diferente do original.
O pianista Gilson Peraneezzeta e o saxofonista Mauro Senise falam sobre CD que acabam de lançar com músicas de Noel Rosa
Não é todo dia que dois músicos do quilate de Mauro Senise e Gilson Peranzzetta se unem para gravarem um CD juntos. E o que também nos chama muito a atenção é o fato dos dois virtuoses terem escolhido a obra de Noel Rosa justamente para celebrar os “100 anos de Noel Rosa” (Biscoito Fino, R$ 30) “Poeta de Vila”, como era conhecido o autor de “Três Apitos”.
Tive a honra de entrevistar os dois músicos e provoquei-os, por exemplo, quando lembrei a eles que a maioria das melodias gravadas por Noel Rosa eram escritas pelo seu parceiro Vadico. Eles se valem dos registros e saem em defesa do grande Noel, alegando que nos documentos que pesquisaram aparecia o nome do “poeta da vila”.
Trazendo-os um pouco para a Paraíba arranquei deles elogios ao mestre Sivuca e a alegria com a possibilidade de um dia gravarem alguma obra de Geraldo Vandré. Outro paraibano elogiado (por Gilson, que é pianista) foi Antônio Guedes Barbosa, um dos maiores pianistas clássicos brasileiro. Confiram a entrevista na íntegra.
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- Ao gravarem um disco com repertório de Noel Rosa, não acham que cometem uma injustiça com Vadico, que era na verdade o autor das melodias?
Gilson Peranzzetta – Vadico era um grande compositor, pianista, mas não é verdade que ele era o autor de todas as melodias da obra de Noel. Este trabalho foi idealizado exatamente para mostrar que Noel era também um grande melodista, além de ser um excepcional letrista. Neste CD a maioria das obras tem música e letra de Noel Rosa. Neste CD/DVD que está sendo lançado pela Biscoito Fino as seguintes músicas tem Noel Rosa como compositor da melodia e da letra: “Fita Amarela”, “Gago Apaixonado”, “Com que Rouba”, “Último Desejo”, “Palpite Infeliz”
Mauro Senise – Não concordo. Quando há parceria do Vadico, como por exemplo, Feitiço da Vila, Pra que Mentir, Conversa de Botequim e Feitio de Oração o nome do Vadico é merecidamente citado. As outras, como constam do ECAD, têm letra e música do Noel, sem parceiros.
- A onda de regravação de clássicos tem aumentado a cada ano. Faltam bons compositores para os nossos solistas?
Gilson – Esse CD não é um trabalho de regravação e sim uma homenagem aos 100 Anos de nascimento de Noel Rosa. Não faltam no Brasil bons compositores para nossos solistas mas sobram produtores fonográficos equivocados que insistem em não gravar os novos excelentes compositores e ficam sempre bolando essa “novidade” pra lá de antiga de regravar os compositores que já foram gravados exaustivamente.
Mauro – Clássicos são sempre benvindos. É muito bom tocar e aprender com os grandes mestres como Tom Jobim, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Edu Lobo, Sueli Costa, Noel, Vadico…. A produção atual não é tão inspirada como antes, mas temos excelentes compositores e instrumentistas nesta nova geração.
Estojo com 04 CDs traz gravações históricas dos ídolos de Bob Dylan e se constitui em uma obra obrigatória a toda discoteca que se preze
Para ser bastante sincero com o caro leitor, eu devo confessar que atirei no que vi (ou pensei ver) e acertei no que não vi. Fazendo minhas compras mensais de CDs, entrei no site CD Point e dei logo de cara com um estojo creditado a meu ídolo Bob Dylan com o título de “Cover to Cover – The Originals”. Imediatamente pensei tratar-se de uma coleção dedicada às gravações que o bardo fizera ao longo de sua estrada, de canções de seus mestres. Quase acertei.
Na verdade “Cover to Cover” também não é um disco de cover (para os menos avisados esse é o nome que se usa quando um artista grava hits do outro) porque Dylan não canta nenhuma das faixas dos quatro volumes. A proposta da caixa veio por um viés bastante interessante que foi a de reunir as canções (e seus intérpretes) preferidas e que influenciaram o autor de “Like a Rolling Stone”.
A obra se torna imprescindível a todas as pessoas que apreciam música e que têm bom gosto sem a sombra xenófoba que tanto nos martiriza. Os 04 discos valem não apenas pela questão histórica, mas também pela maravilhosa viagem que se faz através de suas dezenas de faixas (passam de 80) que se iniciam com Buddy Holly cantando “That’ll Be The Day”. Holly que tem passado em branco nas reedições que têm sido feitas na era do compact-disc.
Preciosidades como Bo Carter interpretando “Corrina Corrina” provavelmente já valeria o preço do estojo para muitos colecionadores, mas a fartura prossegue do começo ao fim dos quatro CDs. Hank Williams (uma das maiores referências de Dylan) está aqui com seu clássico “I Head That”, Fats Domino com “Blue Monday”, Woody Guthrie (talvez, esse sim, o maior influenciador de Bob Dylan) comparece com “Gypsy Davey”. Deu para perceber o norte do estojo?
Erasmo Carlos celebra meio século de carreira e mostra fertilidade em seus discos recentes
Quando li em alguns órgãos de imprensa nacional a notícia de que Erasmo Carlos estava comemorando meio-século de carreira artística, fiquei sem entender em que data ele se baseou para fechar esses 50 anos. Depois vi que era bobagem descortinar minúcias quando estou tratando de um dos mais brilhantes compositores brasileiros, que soube soar rebelde e romântico com a mesma fluência.
A estrada artística de Erasmo começou mesmo foi com o disco “A Pescaria”, de 1965, e mesmo se tratando de um trabalho pueril (até porque ele ainda era jovem) deixou uma marca diferente na cena pop-rock que começava a se amoitar na Jovem Guarda. Nesse período anotamos o disco “Sonhos e Memórias” como um divisor de águas, embora o melhor da carreira de EC ainda estivesse por vir.
Foi em grande estilo, com o álbum “Projeto Salva Terra”, que ele conseguiu um espaço entre os grandes da Música Popular Brasileira. De alma roqueira, e de postura irreverente, Erasmo Carlos deu ao pop e ao rock’n’roll feito no Brasil o status merecido, para reverenciar mestres como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Little Richard e Chuck Berry entre outros.
O esboço da Jovem Guarda tem mais a digital de Erasmo do que mesmo a de Roberto, porque é preciso de uma vez por todas que não se confunda visibilidade com vendagem de discos e/ou popularidade. A visibilidade da obra de Erasmo Carlos é de sua capacidade autoral. Uma capacidade questionada por alguns historiadores quando se trata de Roberto Carlos, indiscutivelmente um grande cantor-intérprete que tem sua atuação autoral colocada em xeque por muita gente.
CDs dos violonistas Nonato Luiz e Cláudio Almeida vestem o nordeste com smoking
Nonato Luiz
Sou avesso ao purismo inconseqüente na mesma intensidade que tenho alergia a degeneração estética. Para mim tudo depende de como se faz e com quais propósitos. Os dois músicos de quem vou tratar aqui nesse texto merecem toda minha confiança, e conquistaram há tempos a minha admiração. O que já me seria bastante para fazer-lhe uma oblação? Nada disso. Nunca fui de elogiar por afeições ou de detonar por antipatias. Quando escrevo, o coração sai pro lado, dando lugar às avaliações imparciais.
“Baião Erudito” e “Noites Brasileiras” (do cearense Nonato Luiz e do pernambucano Cláudio Almeida); são discos fundamentais, obrigatórios, ousados e repletos de virtudes. E não me atenho aqui ao lugar-comum, ao elogio comprometido ou a empolgação de algumas poucas edições.
Cláudio Almeida
Ouvi cada um pelo menos umas dez vezes. E cada vez que os escuto mais me apaixono. Nonato Luiz é um violonista clássico, formalista, ritualístico. O que não o torna menor (nem maior) mas que o faz soar bem menos atirado do que Cláudio Almeida, que parece ter bebido mais na fonte dos violonistas que transgridem à partitura.
Adeus Maria Fulô – Nonato Luiz
Por isso “Baião Erudito” agrada a um público mais seduzido pelo o padrão modal que vem das tradições de um Dilermando Reis do que de um de um ‘transgressor’ como Yamandú Costa. Mas é bom que se entenda que quando fazemos um juízo de valor é comparando duas obras-primas do violão popular. Nada por baixo. Nada superficial.
“Baião Erudito” tem faixas emocionantes, como a que abre o repertório, que é “Adeus Maria Fulo”, parceria de Sivuca com Humberto Teixeira que toca-nos muito os corações. O maestro Sivuca reaparece na faixa 04 novamente como parceiro de Teixeira em “Fogo Pago” e nos captura de vez, pelo sentimento e pela arte pura e sedutora.
O cantor pernambucano Gonzaga Leal pode até não ser conhecido dos paraibanos, mas saibam que ele é um intérprete dois mais importantes e férteis de sua geração. Fazer uma aferição de talento e compará-lo com outros marcantes nomes da MPB recente é um exercício estéril. Os gostos vão sempre ser díspares nesse mosaico maravilhoso chamado MPB.
Ninguém pode questionar é a qualidade dos discos e do intérprete em questão. Gonzaga Leal não precisa provar mais nada a ninguém. Escolheu seu caminho e obstinadamente inscreveu seu nome na cena musical pernambucana, nordestina e brasileira.
Sim, GL tem um espaço muito bom no Sul e no Sudeste, chegando a criar parcerias com músicos de vanguarda como José Miguel Wisnik e outros da mesma estatura. Mas a verdade aponta também para o amor que Gonzaga Leal tem pelo seu Pernambuco, o Estado fértil em música, e música brasileira de matizes variados.
Para quem não sabe Leal gravou um disco totalmente dedicado ao mestre Nelson Ferreira e outro a o também genial Capiba. Você pode até se perguntar o porquê de obras tão relevantes não aparecem nas lojas e nem são citadas pela imprensa cultural. Eu lhes direi que também acho isso estranho, portanto recomendo que entrem em contato com o artista (gonzaga-leal@uol.com.br).
A seguir a entrevista na íntegra com esse cantor que não se cansa de pesquisar e ousar. Porque é isso que diferencia um artista de um mero mercador de arte.
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Qual a diferença desse CD mais recente para os demais da sua discografia?
“E o que mais aflore” é um CD que se diferencia dos demais por interagir com muito mais força com os cantos de tradição oral. Canções estas que dialogam com muito mais simplicidade e comoção, um link mais direto com quem ouve.
Nesse disco você realmente deixa aflorar sua religiosidade. Foi proposital?
Sou um homem de uma profunda convicção religiosa e nesse aspecto os cânticos sagrados foram importantes para arrematar o conceito deste trabalho, que ganha corpo com as composições de Geraldo Maia, Júnio Barreto, Aristides Guimarães, Juliano Holanda e Publius, compositores da nova “Cena Musical” recifense, por quem tenho enorme respeito e admiração.
Você sempre se interessou pela oralidade brasileira?
A tradição oral brasileira sempre exerceu um fascínio sobre mim. No meu primeiro CD “Olhar Brasileiro” gravei “Moreninha”, que diria foi o começo da minha intimidade com este repertório. A partir daí fui me aprofundando e utilizando, em vários dos meus shows.
O disco traz um violeiro mineiro e um sambista baiano praieiro. Como se deu esse diálogo estético?
O diálogo com Chico Lobo, violeiro de Minas e Roberto Mendes, de Sto. Amaro da Purificação e mais o Antonio Vieira do Maranhão, foi definitivo para conceituar este meu novo trabalho. Chico e Roberto me enviaram respectivamente uma moda de viola e um samba de roda e Antonio Vieira me introduziu dentro do universo das Folias de Reis.
Fica evidente a sua generosidade de dividir seus discos com outros artistas, não é verdade?
Tenho um enorme prazer em dividir a cena e os CDs com amigos parceiros que me emocionam e acrescentam ao meu trabalho. Assim este CD conto com preciosas participações, a exemplo de: Neneu Liberalquino, Anastácia Rodrigues, Naara, Marcos Sacramento, Dominguinhos, Abissal. Que cada um à seu modo emprestam beleza ao trabalho.
Você faz questão dessa política da divisão de espaços?
Como artista além de ter uma preocupação estética, tenho uma preocupação política no sentido de que em função da minha singela visibilidade dar visibilidade a tantos outros talentos.
Vê-se que você tem um cuidado grande também com a apresentação gráfica do CD. Acha importante?
O trabalho ainda ganha potencia a partir do projeto gráfico idealizado por Tânia Avanzzi, o figurino de Eduardo Ferreira e a fotografia de Renato Filho, inspirado nos claros e escuros de Rembrant e no barroco brasileiro.
Dez anos depois de sua morte, John Lee Hooker ainda é uma das maiores referências do gênero
No dia 21 de junho, enquanto nós nos aquecíamos perto das fogueiras e o forrobodó corria solto pelas cidades brasileiras, eu reservei uma noite inteira para re-escutar os meus CDs de John Lee Hooker. Fiz a minha celebração íntima a um dos músicos que melhor apontaram a minha cabeça para abraçar o Rock como uma cultura universal.
Quer queiram quer não os puristas, os nacionalistas, a música é sim completamente desamarrada das bandeiras que separam quintais. Cada um com seu sotaque e seu ritmo. Cada um com seu idioma. Uns com sanfona, outros com guitarra. Uns negros retintos, outros mulatos. A musicalidade se sobrepondo às bandeiras que separam quintais, como filosofava o saudoso Raul Seixas.
Antes (e durante também) de começar esse texto corri à minha farta prateleira de CDs e peguei “The Healer” para ouvir. Fiquei muito mais impressionado do que na primeira vez em que ouvi um disco de Hooker. Percebi coisas que antes não conseguia perceber. Vi genialidade onde antes eu entendia apenas muito talento.
A maneira de John Lee Hooker cantar era (e é, porque os discos perpetuam os sonos) completamente sem concorrentes. E olhem que eu sou um devoto fiel de Muddy Waters, principalmente o Muddy de “Folksinger”. Mas é que Lee Hooker impõe-nos o misticismo redivivo brotado da semente de Robert Johnson. Poderíamos dizer que John Lee Hooker tenha sido o João Gilberto do Blues, mas aí seria diminuir demais a obra, a musicalidade e a voz do João Lee Hooker (grafei João de forma propositada) e ferir o mítico reino desse deus de ébano da guitarra e da voz.
Teorias a parte eu na verdade sou vidrado é no CD “Chill Out”, que saiu no Brasil sem a menor atenção por parte da mídia em geral, leia-se rádio e TV. Esse sim é meu disco de cabeceira. Ouço-o semanalmente. Fico pensando como é que um bluesman como Hooker consegue cantar, tocar e compor com tanta destreza. Coisas de Deus. Coisas de quem deixou a encruzilhada da maldição blueseira para trás e observou a senha luminosa da criação.
John Lee Hooker é um gênio. E é claro que outros fenômenos seguiram seus passos, tais como Johnny Winter, Eric Clapton, Steve Ray Vaughan; para citar os seguidores mais jovens. Mas citemos ainda Muddy Watters, B. B. King, Joe Louis Walker e Jimmy Rogers; todos próximos do topo onde Hooker se fincou para a eternidade.
Dez anos sem John Lee Hooker e o tempo parece ter parado; exceto por causa do seu desencarne. No mais, ficamos torcendo para que a história se repita e que as gravadoras se valham das datas comemorativas para poder reeditar os grandes álbuns de um artista, esse sim, universal. Com música não se brinca. Com gênios muito menos. Por isso esqueça essa onda de xenofobia e perceba quais os músicos que cabem em qualquer contexto.
Quando a música e o intérprete são geniais, as bandeiras se queimam sozinhas e os idiomas parecem tão iguais…É quando a gente percebe que uma ópera de Bizet ou um flamenco de Camarón De La Isla têm a mesma sintonia da criação divina. Nós somos um mundo, e não um país. O que não podemos é importar marmotas como Júlio Iglesias e/ou Shakira. Temos que manter a vibração elevada. Ouvir um blues de/com John Lee Hooker nos obriga a crer que não há distâncias e nem raças e nem idiomas, que nos segreguem. John, sing the blues in the Sky. E estará tudo very good. Só não confundam esse Blues com Azul, porque na verdade o blues aqui está mesmo é para a tristeza, a melancolia. E viva o Blues!
A primeira formação do Quinteto Violado, no início dos anos setenta: Marcelo Melo, Fernando Filizola, Luciano Pimentel, Sando, Toinho Alves
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- Nos conte como nasceu a idéia de formar o Quinteto Violado…
Do meu reencontro com Toinho Alves, no meu retorno da Europa em 1971. Trazendo novidades encontro Toinho no departamento de música da TV Universitária. Daí começamos a trocar idéias, eu mostrando o disco que havia gravado com o Vandré na França, com os caboverdeanos na Holanda, então devido ao momento político do país eu não tive interesse de continuar minha carreira acadêmica e resolvemos investir numa leitura da música regional e foram se configurando as leituras que definiram nossa proposta na sonoridade que definiu o Quinteto Violado.
- Como foi que a mídia recebeu o grupo no início?
A mídia, que estava carente de um dado novo para a MPB. Percebeu e encantou-se pela nova maneira que o QV interpretava a música popular nordestina. Pós Bossa Nova, Tropicalismo e a onda do Ei ei ei. Assumimos então a bola da vez.
- Você enquadraria o Quinteto na seara regionalista?
Poderia até ser enquadrado nesta seara, no entanto nossa primeira gravadora nos deu o selo Philips que era do mais refinado cast da MPB e a novas linguagem da música regional nordestina assumia um novo papel que despertou muita curiosidade e admiração pelos críticos da imprensa nacional.
- Quando sentiu a convicção de que a idéia do grupo tinha dado certo?
Logo após o primeiro LP (Asa Branca), pela maneira com a gravadora nos apresentou ao mundo da MPB nas maiores praças que eram na época Rio e S. Paulo.Sem dúvida que a nossa leitura da Asa Branca, foi e ainda é até hoje o grande marco definidor da música do Quinteto Violado. Reconhecida publicamente pelo próprio Luis Gonzaga.
- Há um tom camerístico na sonoridade de vocês. Isso é casual?
É provável, pois sempre meu gosto musical voltava-se para um estilo mais introspectivo, interessado pela suavidade sonora. Toinho tinha uma formação em canto gregoriano e harmonia do jazz. Então é possível que os resultados das nossas criações e leituras trouxessem essa característica.
- Quando você saiu do Brasil foi por causa da ditadura militar?
Não. Minha saída do Brasil foi com bolsa de estudo da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, para estudar sociologia do desenvolvimento. Tinha formação de Eng. Agrônomo. Fiz ali uma pós-graduação e em seguida fui para Paris e iniciei os créditos de um mestrado em Sociologia Rural. Como em Paris, não tive bolsa, precisei utilizar a música como alternativa de sobrevivência.
O impacto que Bob Dylan me causou quando ouvir um disco seu pela primeira vez (no início da década de 1980) foi brutal. Ora, eu estava saindo da fase em que tudo que não fosse rock era tolice. E mais; imaginem-me naquela época, ouvindo um cantor fanho se acompanhando de violão e da popular gaita de boca, hoje conhecida muito mais como harmônica. Foi tudo estranho. Eu nem pensei em aderir ao grupo de aficionados que arrancavam os cabelos para advogar em defesa do autor de “Like a Rolling Stone”.
Todos os argumentos me levavam sempre a gostar mais de bandas como Led Zeppellin e Deep Purple e, com cada vez mais convicção, correr para longe do autor de “Blowin’in The Wind”. Lembro-lhes que eu não tinha mais que 22 anos, me iniciando no jornalismo e tendo estreado como articulista com um texto sobre o movimento Punk. Ou seja, da pedrada do The Clash para o folk caipira de Bob Dylan, eu correria o risco de ter um choque e fatal. Por isso foi melhor que o tempo se encarregasse de fazer o meu namoro com o baixinho de nariz de papagaio e dono de uma das vozes mais feias da história do folk-rock.
Um belo dia estava eu namorando uma bela gaúcha recém-chegada a esta linda Parahyba, quando ela me convida a uma audição musical em sua vivenda. E qual seria o prato sonoro? Bob Dylan, exatamente ele. Foi quando ela botou na vitrola o LP “Blonde on Blonde”, o libelo psicodélico do bardo americano. Então eu me apaixonei por Dylan e nunca mais consegui ter um namoro tão apaixonado quanto platônico.
Por aí fui devorando todos os seus discos. Do sofrível “New Morning” ao escandalosamente genial “Another Side of Bob Dylan” (que a esmagadora maioria da crítica detona sem dó nem piedade) onde encontrei a mais bela canção popular de todos os tempos; para meu gosto, claro. A balada “Chimes Of Freedom” é como uma oração para mim, pois a escuto todo santo dia. Os “Carrilhões da Liberdade” chegaram a me inspirar alguns poemas do meu livro “Canção do Caos” e foi por causa de Dylan que eu decidi que um dia seria poeta, e venho tentando sê-lo.
Outros discos de Dylan que ouço sistematicamente são “The Times They Are Changing” e “The Freewheelin’ Bob Dylan”, mas não dispenso o fabuloso “Desire” e o estranhíssimo “Self Portrait”. Ou seja, quase tudo em sua discografia me tocam de alguma forma. Por isso eu até suporto o CD que Zé Ramalho dedicou inteiramente a sua obra, que deixa a desejar muito mas Dylan é Dylan. É como a versão cantada por Geraldo Azevedo para “Tomorow Is a Long Time”, que não é lá um dos clássicos do cancioneiro dylaniano, mas que tem um verso que vale por tudo, que é a filosofia de que “o amanhã é distante”, porque na verdade nunca alcançaremo-lo.
Enfim, um cara nanico, narigudo e de voz tão sofrível não chegaria aonde chegou se não fosse um gênio. Meio mundo de artistas gravou canções suas, de Steve Wonder a Gal Costa, dos Rolling Stones a Vitor Ramil. Ou seja, minha paixão por Bob Dylan é daquelas às quais chamamos de eternas. Porque a genialidade não tem fim, nem teve começo. Saiu do meio de um ventre de estrelas garimpadas em um jardim de versos.
Lula Côrtes desencarnou, mas sua busca agoniada pelo som sem rédeas jamais sairá de dentro de nós
Um artista pode ser avaliado pelo número de discos que lança, ou lançou? Claro que não. E nem pelo fato de ter estado ou não no glamour inebriante do estrelato. Muitos preferem correr à margem. E esses parecem nos encantar mais ainda, pelo fascínio que emana de seu despojamento. Lula Côrtes, falecido sábado em Recife, era um desses “maluco beleza” que deixarão em nossos corações a certeza de que nossos tímpanos ainda não flertaram com a senilidade estética.
Por várias vezes conversei com Lula Côrtes nos últimos 6 anos, quando estreitei minha relação de apaixonado pela música com a Veneza brasileira. Quando lancei um livro na loja “Passadisco”, lá estava ele. Então já se digladiando com o câncer, essa ferrugem moderna que come carne, mas não como essência.
Eu trabalhava em rádio quando Lula Côrtes veio a João Pessoa, com o amigo Lenine, lançar “O Gosto Novo da Vida”. Um disco que passou por muita gente sem que se apercebessem que “Desencanto” é uma canção antológica, e que “Lua Viva” (depois gravada por Elba) era uma das mais comoventes declarações de amor feitas ao nosso Estado.
Lula era um “parabucano”. Assim como Lenine. E assim como Bráulio Tavares e Ariano Suassuna são “pernaibanos”. O que me intriga e açoita é que astros como Lula Côrtes passam como um bólido pela Terra e nos rasgam de saudade, nos empenham de orfandade. Provavelmente muitos dos que lerem essas mal-traçadas nem têm idéia de que é de Lula, em parceria com Zé Ramalho, o disco mais caro do mercado paralelo. Refiro-me a “Paêbirú”, um álbum duplo com dois LPs de som lisérgico que nos fez entrar na psicodélica linha dos discos experimentais.
Na capa, as Itacoatiaras do Ingá, dois artistas esquálidos e uma experimentação sonora de endoidar todos quantos pensem que música é algo assim normal, formal, careta. Música é a poesia sem palavras. E justamente isso fez de “Paêbirú” trazer no seu eito os elementos “terra-ar-fogo-água”. Cítaras e violas duelam ensandecidas. Os trovadores se expõem sem medo e transgridem a moderação de seus pares. Saltam a diante.
Meu Orkut tá de luto. O endereço por onde eu ainda trocava palavras com Lula Côrtes não me diz mais nada. Quando o encontrei da última vez ele me alertou que “saí várias vezes do hospital, mas sinto que se eu voltar a me internar não saio mais”. E qual de nós sairá dos nossos infernos?
Lula era de abril de 1951, ariano que nem eu, que sou de 3 de abril de 1959. Seu disco “Lula Côrtes & Má Companhia” foi pouco notado. A força da grana já estava matando o experimento em prol do retardamento do comodismo aculturado. Lula Côrtes teve muque para sustentar a pisada, como os grandes gladiadores que rechaçam a mordaça.
Dizer que a MPB está de luto é tripudiar da inteligência arisca de Côrtes. De luto estão (e estarão sempre) todos aqueles que nunca conseguirão ouvir “Paêbirú” sem pensar que Zé Ramalho e Lula Côrtes estavam chapados e coita e tal. Fica essa qualquer coisa dentro doida. Ficam os enigmas como se fossem aqueles escritos em pedra no Ingá da minha mãe. Se vocês querem saber mesmo quem foi (e é, e será) Lula Côrtes procurem ouvi-lo. De onde estiver, perto de Raul Seixas e Sérgio Sampaio, ele vai querer que você lute para não ser uma coisa qualquer, ou qualquer coisa dentro doida.
Que bom, Lula, ter sido seu amigo, e seu fã. Lula está pra lá de Bagdá. Desde o dia 26 de março, ele não tem mais material sólido para lhe oferecer. Porque segundo Marshall Bergman “tudo que é sólido desmancha no ar”.
Cantora Leila Pinheiro lança CD com canções de Renato Russo e diz que quer trazer show a PB
A cantora paraense Leila Pinheiro – dona uma das mais belas vozes do Brasil e uma das artistas mais coerentes e estáveis da MPB – acaba de lançar um novo CD. Desta vez, na verdade, ela realiza um sonho antigo, que é gravar um disco todo dedicado às canções de Renato Russo e sair em turnê pelo país para manter viva a memória do amigo.
Em entrevista exclusiva Leila fala com desembaraço sobre um episódio negro que viveu em João Pessoa, sobre a era dos festivais e sobre a importância de poder gravar aquilo em que acredita e que lhe dá prazer. A cantora só se negou a falar sobre aquilo que chamam de música (“rebolations” e outras coisas do nível) alegando que “prefiro não comentar”.
Leila Pinheiro não descarta a possibilidade de gravar um disco também todo dedicado a Cazuza e prometeu que a turnê deste “Meu Segredo Mais Sincero” – título do CD em que canta Renato Russo – chegará até João Pessoa. “Adoro essa cidade e tenho muitos amigos aí”, ressaltou. A seguir confiram a entrevista da cantora na íntegra.
- Gravar CD dedicado todo a Renato Russo a aproxima mais da possibilidade de um flerte mais amplo com a música pop?
Já gravei Cazuza, Dulce Quental, Frejat, Calcanhoto, Alvin L, Marina Lima, tenho duas parcerias ainda inéditas com Zélia Duncan…e me sinto em casa neste universo. Até porque tem muito pop que parece a canção mais tradicional e vice-versa. Com isso quero dizer que sempre gravei canções pop, embora não fossem prioridade em nenhum dos meus discos.
- O Brasil é um país pródigo de grandes autores. Tem mais alguns em mente para projetos futuros depois de Russo e de Guinga?
Estou em pleno lançamento deste novo CD. Vou viajar pelo Brasil com este trabalho a partir de agosto próximo e, certamente, ainda durante todo o ano que vem. É cedo pra falar sobre novos projetos.
- Me parece que sua face autoral ficou um pouco relegada. Não sente necessidade de criar com mais efetividade?
Gosto de compor, mas vibra muito mais forte em mim, a intérprete e pianista que sou, do que a compositora. Tem tanta música pra gravar, regravar, reler, revisitar, descobrir…temos tão grandiosos compositores e poetas, que não sinto necessidade de compor porque me falte o que cantar. Se vem a vontade de criar alguma música, sento ao piano e me dedico a isso. Se não, nem penso no assunto. Estou muito bem assim.
- Para fazer esse tributo a Renato Russo você seguiu sua preferência afetiva ou as escolhas estéticas?
O poeta Renato Russo sempre foi o meu foco – o que ele escreveu e virou música foi sempre o meu maior interesse. Ouvi tudo o que Renato e a Legião gravaram. Nem tudo ficou confortável na minha voz. Assim, escolhi cantar e gravar o que, tocando ao piano, me emocionava especialmente. As letras são maravilhosas, densas, fortes. As músicas, muitas vezes não faziam sentido pra mim, eu não entendia o caminho que tomavam e as descartava. Este CD é o resultado de um trabalho de quase 2 anos, entre a audição da obra, a escolha e o amadurecimento das 14 canções gravadas.
Cantador e poeta Oliveira de Panelas recebe a Medalha Ariano Suassuna e vê coroados os seus 50 anos de atividades artísticas.
Oliveira de Panelas, ao lado de Vital Farias, Ricardo Anísio e Jessier Quirino, comemora 50 anos de carreira
Certa vez o escritor (Dramaturgo, poeta, romancista etc.) disse textualmente: “Se eu tivesse os talentos de Oliveira eu era todo besta e só andava de nariz empinado”. O mestre autor de “O Romance da Pedra do Reino” quis dizer que o grande artista nascido na cidade de Panelas (PE) e que adotou a Paraíba como sua Terra, tem qualidades que estão muito além do seu magistral ofício de violeiro e cantador.
Oliveira Francisco de Melo, o nosso genial Oliveira de Panelas, recebeu a Medalha Ariano Suassuna, outorgada pela Assembléia Legislativa da Paraíba, com propositura de Jorge Camilo. Mas Oliveira é a estrela maior, aliás, ele é a estrela.
Com dezenas de discos gravados e livros lançados, Oliveira de Panelas é, senão o maior repentista de todos os tempos, o artista mais completo da seara que escolheu para brilhar. Na média, nenhum outro cantador popular chega a sua estatura. Repentista dos bons, poeta idem; Oliveira tem a seu favor o fato de ser mestre dos aforismos (tem um livro pronto), da poesia escrita e, além disso, quando sobe ao palco se transforma em um ator dos grandes, um interprete insuperável.
Teve canções gravadas por Zé Ramalho e Teca Calazans entre outros nomes da MPB e é admirado por estrelas como Geraldo Azevedo, Vital Farias, Geraldo Vandré e Belchior. Somando todas as suas aptidões veremos que Ariano Suassuna está coberto de razão quando define o astro de Panelas como um artista completo, a ser invejado, no melhor e mais brincante dos sentidos.
“Eu nunca me vi com essa dimensão toda e nem tenho tanta pretensão, mas é claro que quando figuras exponenciais como Ariano Suassuna, Zé Ramalho e Vital Farias me elogiam, eu fico muito feliz”, diz Oliveira de Panelas lembrando sinceramente que “afinal de contas a vaidade é uma coisa que todo ser humano tem, e que só faz mal quando é doentia”.
Nesse meio-século de estrada artística Oliveira venceu diversos festivais, mas de um tempo para cá, se confessa saturado. “Jamais deixarei de ser cantador, repentista, violeiro. Mas tenho me interessado mais por outras atividades, e não acho que isso seja nada demais”. Entre os projetos consta a gravação de um CD (com produção deste redator) com canções do paraibano Vital Farias e do baiano Elomar Figueira Melo. “Para mim os dois maiores, monstros sagrados”, diz.
Ambos (Vital e Elomar) são fãs da voz de Oliveira de Panelas e concordaram com o projeto. “Também tenho um livro de poemas e o meu projeto de aforismos, por isso, e por estar já sem o mesmo fôlego, é que tenho participado pouco de festivais de violeiros”. Aliás, esses eventos têm escasseado muito a cada ano, então não parece ser uma fadiga exclusiva de Oliveira, que teve em Otacílio Batista seu maior parceiro e amigo. “Para falar a verdade desde que o Otacílio se foi eu não tive mais a mesma empolgação, senti sua falta e sinto até hoje”, confessa emocionado.
Uma coisa é certa: Oliveira de Panelas está imortalizado ma cultura artística de seu país. Além disso, levou sua voz à França, à Cuba e à Portugal. É um artista incontestável, e pode se dar ao luxo de tirar um pouco o pé do acelerador. “Afinal de contas a máquina já não é a mesma”, como diz ele em um dos seus momentos de Brincante.
Renato Phaelante cobre um século de música pernambucana em livro e diz que maiores foram Capiba, Nelson Ferreira e Luiz Gonzaga
O escritor, jornalista, músico e compositor pernambucano Renato Phaelante acaba de lançar mais uma obra de enorme relevância para a história da Música Popular Brasileira. Trata-se do livro “MPB – Compositores Pernambucanos (Coletânea bio-músico-fonográfica)” que como bem anuncia o título, cobre um século de compositores e intérpretes do Estado de Pernambuco.
Phaelante nos concedeu entrevista e nela deixou claro que a idéia da obra é muito mais registrar do que ranquear. Mesmo assim Renato Phaelante não se esquivou de dizer quais são, para ele, os três músicos mais importantes de Pernambuco: “Luiz Gonzaga, Capiba e Nelson Ferreira, sem dúvida. E acho que nem preciso explicar”. Uma curiosidade desta obra é que seu autor teve que experimentar um desafio curioso, o de falar sobre si mesmo, já que RP está citado no livro, de forma muito legítima, diga-se de passagem.
Renato admite que o maestro Severino Araújo é muito mais paraibano do que pernambucano e justificou afirmando que o músico e regente teve uma atuação muito maior na Paraíba. Confiram a entrevista na íntegra.
- Foi muito trabalhoso formar esse painel da música pernambucana?
Meu caro Anísio, esse painel sobre o compositor pernambucano, vem sendo elaborado desde a década passada e me tomou muito tempo. Essa produção vem aumentando de forma assustadora e o aparecimento de novos talentos também. Mesmo sendo um trabalho de resistência, pois as gravadoras continuam, agora mais do que nunca, mantidas no eixo Rio/São Paulo e as emissoras locais de Radio e TV, em geral pertencem a redes situadas no sudeste. Restam algumas emissoras de rádio como Universitária AM e FM, a rádio JC AM e FM, além da TVU. Mesmo assim esses compositores conseguem criar e vender seus próprios discos e marcar presença na história da MPB.
- Sem querer ranquear, o senhor acha que Pernambuco teve uma relevância maior do que estados sulistas?
Em vários momentos da MPB, sim. Lembremos, por exemplo na década de 20, os Turunas da Mauricéia revolucionaram a MPB com suas novidades musicais. Dos anos 30 aos anos 50 Manézinho Araujo, Fernando Lobo, Antonio Maria, Luiz Gonzaga, Luiz Vieira, Luiz Bandeira e outros mais, tornaram a música popular mais alegre e divertida além de deixarem aflorar variedades de ritmos que se firmaram no nosso cancioneiro. Sem falar nos compositores de frevo que fizeram história como Capiba, Nelson Ferreira, os irmãos Valença ,só para citar alguns. Então, acho sim que tivemos maior relevância que muitos estados do Sul e Sudeste do Brasil.
- Quanto tempo o senhor levou para fazer esse levantamento?
Eu falava em década na pergunta anterior. Em 1997 lancei pela Editora Massangana o volume I desse catálogo resgatando, aproximadamente, 120 compositores. Agora em dezembro de 2010, mais de 200 deles, o que vem provar que mesmo sem certas motivações os pernambucanos têm chegado à mídia, as vezes até nacional, como é o caso mais atual de Dudu Falcão e Lenine só para citar esses dois, que atualmente fazem as trilhas sonoras de quase todas as novelas da TV Globo.
Lançando seu terceiro CD “Herói Trancado” o pernambucano Ortinho fala de assuntos diversos, e detona a mídia
Quando ouvi os dois primeiros CDs do compositor, músico e intérprete Ortinho, me senti mais aninhado do que com esse seu novo disco, “Herói Trancado”. E isso é ruim ou é bom? É bom. Porque, para mim, disco que não me inquieta não serve para nada. Música tem que mexer, seja de que maneira for.
Ortinho esteve sempre nas cercanias do Mangue Beat, é “comparsa musical” do saudoso Chico Science, de Fred Zero Quatro e do indefinível Rogê (cadê Rogê) que foi o George Martin do movimento espocado de Pernambuco para o mundo.
O disco “Herói Trancado” é muito bom. É pop, é rock, é música, é Ortinho. Para entender melhor esse lero-lero aconselho que tentem comprar o CD ou cascavilhar na internet. Ortinho me concedeu esse entrevista exclusiva na qual falamos sobre esse heróis trancafiado e sobre mais um bocado de assuntos, todos ligados à música e a mídia. Leiam a entrevista que Ortinho concedeu ao crítico de música RICARDO ANÍSIO.
- Você ainda percebe a semente do Mangue Beat na produção musical do Recife?
Acho que tudo que surge em Pernambuco, de certa forma tem um reflexo do movimento mangue.
- Esse seu disco me parece nem mais comportado do que os dois anteriores. A que se deve isso?
Entendo que é um disco mais maduro, não diria comportado. Esse disco foi bem mais pensado e trabalhado que os outros.
- Certa vez encontrei com você na casa de Josildo Sá e percebi a sua inquietação. Ortinho mudou?
Nunca fui de me repetir, já tenho 41 anos e tento fazer da minha vida um caminhar mais seguro e leve e isso reflete nas minhas canções.
- Qual o Pernambuco mais pulsante nesse momento, o do rock ou o do forró?
Acho que os dois estilos andam juntos, aqui tem uma cultura muito forte de raiz e o rock tem uma força muito grande na história da música de Pernambuco.
Morta há 40 anos, Janis Joplin é outro dos cometas que marcaram a música de forma ímpar com sua passagem
Alguns artistas passam pela Terra e deixam um rastro indelével. Um desses astros de luz grandiosa sem dúvida alguma foi Janis Lyn Joplin, autora da mais seminal e antológica gravação de “Summertime” (de Gershwin) e uma daquelas entidades que, ao lado de Jimi Hendrix e Bob Dylan, deu um status elevadíssimo ao que todos nós resolvemos chamar de rock, e que estava muito acima de um simples rótulo ou gênero.
No dia 4 de outubro do ano passado completaram-se 40 anos de sua morte. Uma morte (?) controversa assim como a de Hendrix, que deixou não apenas o rock, mas toda a música popular mundial, muito mais pobre. Janis Joplin tinha uma atitude roqueira quando se espalhava pelo palco, e cantava como uma cigarra que espera logo em seguida, estourar e morrer.
Ao analisarmos bem as performances de Janis nos depararemos com uma artista suicida, um verdadeiro meteoro que passou veloz por este plano de vida (eu acredito em reencarnação) e cunhou seu nome na imortalidade dos astros. Podem passar anos, décadas, séculos, mas a sua marca não passará. Porque toda arte que tem, além de qualidade, diferencial, fica armazenada em algum lugar do Cosmos.
Quando Janis Joplin desencarnou alguns jornalistas começaram a trabalhar em um tear de enigmas que dava a letra J como um tipo de maldição. Lembro-me de ter lido uma matéria com o titulo de “A Morte se escreve com J”, se reportando a Janis, Jimi Hendrix e Jim Morrison, esse último poeta e frontman da banda The Doors. Lembremos que nessa leva de jotas se inclui também o guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, para muitos o maior talento dos quatro pedras rolantes.
A discografia de Janis Joplin pode ser resumida em seus quatro álbuns de estúdio, embora os seus fãs a prefiram em performances como a de Woodstock, por exemplo, quando ela e Hendrix roubaram a cena dos demais astros convidados, entre eles Joe Cocker e Joan Baez, somente para citar dois cujos nomes começam com J e não tombaram pelo caminho.
Como na histórica de Getúlio Vargas eu acredito que eles “saíram da vida para entrar na história”. Imaginem Joplin e Hendrix grisalhos, barrigudos e sem a fúria genial de voz e guitarra. É como se Pelé tivesse ido a Copa de 1974, perdesse para a Holanda e voltasse para casa derrotado. Hoje não seria o Pelé que é.
Beto Brito dá um tempo na música para marcar seu nome no panteão nacional da cultura popular
O compositor, cantor, rabequeiro e cordelista Beto Brito acaba de colocar no mercado uma obra que certamente ganhará notoriedade nacional. Se traduzida, repercutiria também em outros países que – para quem não sabe mantêm viva a tradição dos cantadores, inclusive com muito destaque. Beto acaba de lançar o livro “Bazófias de Um Cantador Pai Dégua-O Maior Cordel do Mundo”, com mil e quatrocentos versos, escritos em septilhas.
Esse vinha sendo há anos o grande projeto desse multifacetado artista que mantêm um amor imensurável pela cultura popular nordestina, seja musical ou literária. Beto Brito já tem diversos CDs lançados, sendo o mais importante deles o “Imbolê” no qual ele canta uma música com Zé Ramalho, justamente a que traz os versos do grandioso Orlando Tejo, criador de Zé Limeira – O Poeta do Absurdo. Nesta entrevista Beto Brito fala da obra revolucionária e de sua carreira de uma forma ampla.
- Quando – e por que – você decidiu fazer o “Maior Cordel do Mundo”?
Certa vez eu estava assistindo a uma peça de teatro “Mercadorias de Futuro” cujo protagonista era o Lirinha, do Cordel de Fogo Encantado, após uns quarenta minutos de monólogo, ele anuncia que vai recitar um poema que tem mil estrofes. Naquele instante percebi a reação de espanto do púbico, como quem diria: Eu não acredito! Ele, estrategicamente, acalma a todos e diz: É brincadeira, narrou “Briga na Procissão” de Chico Pedrosa, que não tem mil estrofes, longe disso, embora seja muito longo. Esse Foi o grande “estalo”.
- Como tem sido a repercussão dessa obra tão importante, até agora?
Muito significativa! Já conseguimos o registro oficial na empresa “Rank Brasil” como o maior cordel do Brasil – escritores do nível de Braulio Tavares, Jessier Quirino, Oliveira de Panelas e Marco Di Aurélio, fizeram suas considerações sobre essa obra e tenho recebido boas e honrosas críticas. O grande púbico e outros intelectuais que têm apreço e ligação com a cultura popular, passarão a tomar conhecimento do Bazófias a partir do dia vinte de janeiro, quando faremos o lançamento inicial em João Pessoa e, a partir daqui, para o restante do Nordeste e do Brasil.
- O cordel lhe ajuda a escrever as letras de suas composições?
As minhas composições sempre tiveram uma relação direta com a literatura popular de cordel e as formas do repente de viola. Com o Bazófias não foi diferente! O disco homônimo, com quatorze faixas e as participações de Caju e Castanha e Geraldo Azevedo, será lançado logo após o carnaval. A minha carreira, ou melhor, a minha formação, se deu sob a influência dessas duas nobres formas de arte.
- Você tem aspiração de pleitear um lugar no Guiness Book, o livro dos recordes?
Sem dúvida! O Projeto “Bazófias” é composto de dois capítulos, o Capítulo Um já foi homologado no Brasil, quando eu lançar o Capítulo Dois – provavelmente no segundo semestre de 2011- irei pleitear junto ao Guiness, como O Maior Cordel do Mundo – que já é de fato!- com, aproximadamente 400.000 caracteres.