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A MENSAGEM REVIVIDA

Durante a Semana Santa última, aproveitei os feriados para principiar a ler uma das mais cativantes histórias de Jesus, tudo fundamentado em pesquisas e estudos teológicos, onde se analisa a mensagem do Homão da Galileia que muito amo e as distorções nela introduzidas ao longo dos tempos, edificadas por interesses vários, para atender interesses de grupos que objetivavam apenas dominar regiões e povos. Um texto que me proporcionou uma maior aproximação com as diretrizes emanadas por aquele que foi enviado para semear Justiça e Paz entre todos os seres humanos, sem distensão de espécie alguma, acima, muito acima mesmo, das denominações que foram estabelecidas.

O livro intitula-se Cristianismo: a mensagem esquecida, 4ª. edição da Casa Editora O Clarim, 2016, 416 p., de autoria de Hermínio C. Miranda (1920-2013), um dos principais pesquisadores e escritores espíritas brasileiros, autor de mais de 40 livros, entre os quais A Memória e o Tempo, editado pelo Instituto Lachastre, 2013 (8ª. edição), 328 p., um estudo minucioso da memória integral do indivíduo, utilizando-se a técnica da regressão de memória pelo magnetismo como instrumento de exploração dos arquivos da mente.

Os estudos e análises descritos no livro se iniciaram logo depois da Primeira Guerra Mundial, quando um grupo de teólogos e pensadores cristãos resolver esmiuçar a crise vivenciada pela sociedade de então, publicando o livro Christianity and the crisis, lançado na Inglaterra em 1933, por ocasião dos primeiros passos cometidos por um assassino chamado Adolf Hitler, alçado ao poder democraticamente na Alemanha.

No livro, lançado em 1933, duas questões básicas estavam potencialmente explicitadas nos diversos ensaios apresentados. A primeira: “Teria falhado o cristianismo na tarefa de ordenar uma sociedade, senão ideal, pelo menos razoavelmente equilibrada e feliz?” A segunda: “Teria ainda o cristianismo condições de realizar essa tarefa?” E quais seriam as razões basilares para tamanha falha? E como se poderia oferecer uma contribuição que favorecesse uma melhora significativa da situação mundial?

E uma questão sobrepairava sobre todo o estudo grupal: Será que as denominações cristãs então existentes não teriam trabalhado com um modelo de cristianismo muito distanciado dos ensinamentos difundidos pelo Nazareno, com uma doutrina adulterada que afastava milhões de seguidores dos seus compromissos para com os seus derredores, todos irmãos, independentemente de credos, raças, ideologias, modelos econômicos, etnias e gênero? Dentre as hipóteses possíveis, uma certeza se agigantava: o cristianismo de então não possuía respostas convincentes para as mazelas que se agigantavam na civilização da época, às vésperas do assassinato de milhões de judeus em nome de uma estúpida teoria da raça pura.

Passados mais de meio século, depois do final da Segunda Guerra Mundial, a crise humanitária mundial se ampliou, muita tragédia se agigantou num mundo que se angustiava cada vez mais “em cima de um depósito descomunal de armas nucleares capazes de desintegrá-lo numa imperceptível fração do tempo que levou a sua formação.

Daí a cativação proporcionada pela leitura do livro Cristianismo: a mensagem esquecida, do professor Hermínio C. Miranda, onde ele esmiúça a mensagem do Senhor Jesus, comprovando a desconcertante simplicidade e nitidez dos seus ensinamentos, sem as pedanterias teológicas e hierárquicas patrocinadas por presunçosos distanciados dos mansos e humildes, estes sempre aptos na apreensão da visão transcendental da Luz, através de portentosas manifestações intuitivas, enaltecendo o amor no interior de cada um, seguidores que são da observação do Mestre Jesus, a de que “os homens desejam a paz, mas não buscam as coisas que trazem a paz”.

Como um incipiente estudioso da Doutrina Espírita, em contínuo processo evolucionário, de formação inicial católico-romana, helderista de carteirinha e hoje transecumênico por derradeiro, crente nos procedimentos reencarnatórios e colaborador num Centro Espírita da capital pernambucana, tenho me dedicado nos últimos anos a um continuado programa de estudos sistemáticos kardecistas, tornando-se um admirador inicial dos livro da Codificação Espírita – O Livro dos Espíritas (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868) -, considerando o primeiro deles de imenso valor para todos os crentes, independentemente de religião, porque trata de Deus, da imortalidade da alma, da natureza dos Espíritos, de suas relações com os homens, das leis morais, da vida presente, da vida futura e do porvir da humanidade, assuntos de interesse geral e de portentosa atualidade.

Recentemente, um outro livro adquirido recentemente pela internet, me proporcionou momentos de complementar emoção. Trata-se de Mediunidade dos Santos, Clovis Tavares (1915-1984), Brasília, FEB, 2015, 223 p. Onde o autor explicita logo na sua página primeira: “Desde o princípio, o Cristianismo é uma religião de visões e de revelações – e isso o homem moderno, o moderno cristão deve reconhecer. O Novo Testamento não deixa dúvidas a esse respeito.” Onde uma postura de fé sem padres, pastores, altares e imagens se baseava nos sentimentos do coração, no seguimento dos ensinamentos do Nazareno, no confronto da consciência com o Pai Celeste.


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FATOS NADA SURPREENDENTES

Outro dia, numa livraria bem frequentada do Recife, donde sou cliente há mais de vinte anos, deparei-me com o Bituca, colega meu do Ginásio São Luís, hoje Marista, ele um ano mais adiantado, atualmente formado em Direito e vidrado em leituras plurirreligiosas, pesquisador das múltiplas crenças existentes no passado e as ainda sobreviventes nos quatro cantos do planeta.

Examinava ele um exemplar do romance espírita O Agênere, de Ângelo Inácio (psicografado por Robson Pinheiro), Contagem MG, Casa dos Espíritos, 2015, 380 p., merecedor de múltiplos elogios de leitores espíritas e não-espíritas.

Acompanhado de um auxiliar de seu escritório, Bituca definia para ele o que era um agênere: “uma aparição em que o desencarnado se revestia da forma mais precisa, das aparências de um corpo sólido, a ponto de causar completa ilusão ao observador, que supõe ter diante de si um ser corpóreo.” E detalhava mais, mostrando um texto de autoria de Tereza Cristina D’Alessandro, de março de 2005, extraído de consulta feita por ele no Google: “Esse fato ocorre devido à natureza e propriedades do perispírito que possibilitam ao Espírito, por intermédio de seu pensamento e vontade, provocar modificações nesse corpo espiritual a ponto de torná-lo visível. Há uma condensação (os Espíritos usam essa palavra a título de comparação apenas) tal, que o perispírito, por meio das moléculas que o constituem, adquire as características de um corpo sólido, capaz de produzir impressão ao tato, deixar vestígios de sua presença, tornar-se tangível, conservando as possibilidades de retomar instantaneamente seu estado etéreo e invisível. Para que um Espírito condense seu perispírito, tornando-se um agênere, são necessárias, além da sua vontade, uma combinação de fluidos afins peculiares aos encarnados, permissão, além de outras condições cuja mecânica se desconhece. Nesses casos, a tangibilidade pode chegar a tal ponto que é possível ao observador tocar, palpar, sentir a resistência da matéria, o que não impede que o agênere desapareça com a rapidez de um relâmpago, através da desagregação das moléculas fluídicas. Os seres que se apresentam nessas condições não nascem e nem morrem como os homens; daí o nome: agênere – do grego: a privativo, e géine, géinomai, gerado: não gerado, ou seja, que não foi gerado. Podendo ser vistos, não se sabe de onde vieram, nem para onde vão. Não podem ser presos, agredidos, visto que não possuem um corpo carnal. Desapareceriam, tão logo percebessem a intenção diferente ou que os quisessem tocar, caso não o queiram permitir. Os agêneres, embora possam ser confundidos com os encarnados, possuem algo de insólito, diferente. O olhar não possui a nitidez do olhar humano e, mesmo que possam conversar, a linguagem é breve, sentenciosa, sem a flexibilidade da linguagem humana. Não permanecem por muito tempo entre os encarnados, não podendo se tornar comensais de uma casa, nem figurar como membros de uma família.”

E pediu a cada um de nós que consultasse a Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – 1859, fevereiro, p. 49, editada pela EDICEEL, que traz o seguinte exemplo: “Uma pobre mulher estava na igreja de Saint-Roque em Paris, e pedia a Deus vir em ajuda de sua aflição. Em sua saída da igreja, na rua Saint-Honoré, ela encontrou um senhor que a abordou dizendo-lhe: – Minha brava mulher, estaríeis contente por encontrar trabalho? – Ah! Meu bom senhor, disse ela, pedia a Deus que me fosse achá-lo, porque sou bem infeliz. – Pois bem! Ide em tal rua, em tal número; chamareis a senhora T…; ela vo-lo dará. – Ali continuou seu caminho. A pobre mulher se encontrou, sem tardar, no endereço indicado – Tenho, com efeito, trabalho a fazer, disse a dama em questão, mas como ainda não chamei ninguém, como ocorre que vindes me procurar? A pobre mulher, percebendo um retrato pendurado na parede, disse: – Senhora, foi esse senhor ali, que me enviou. – Esse senhor! Repetiu a dama espantada, mas isso não é possível; é o retrato de meu filho, que morreu há três anos. – Não sei como isso ocorre, mas vos asseguro que foi esse senhor, que acabo de encontrar saindo da igreja onde fui pedir a Deus para me assistir; ele me abordou, e foi muito bem ele quem me enviou aqui.”

Na Revista em apreço, sendo o Espírito São Luiz consultado, ele ministrou as seguintes orientações: “Não basta a vontade do Espírito; é também necessário permissão para ocorrer o fenômeno; existem, muitas vezes na Terra, Espíritos revestidos dessa aparência; podem pertencer à categoria de Espíritos elevados ou inferiores; têm as paixões dos Espíritos, conforme sua inferioridade; se inferiores buscam prazeres inferiores; se superiores visam fins elevados; não podem procriar; não temos meios de identificá-los, a não ser pelo seu desaparecimento inesperado; não têm necessidade de alimentação e não poderiam fazê-la; pois seu corpo não é real.”

E o próprio Bituca relembrou o que está contido no Evangelho de Lucas 24,13-33, quando o Senhor, após caminhar com dois discípulos a caminho de um povoado chamado Emaús, desapareceu quando, convidado para cear, após abençoar o pão que estava à mesa.

Marcamos um novo bate-papo para quando o romance espírita acima citado for lido pelos três, quando debateremos outros agêneres que perambulam nos quatro cantos de um planeta que anda meio conturbado, influenciado por poder, dinheiro, dominação e conquistas, sem atentar para as forças dos espíritos do mal que estão a necessitar de um bom combate, para libertação de uma tragédia mundial há muito tempo já anunciada.


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UM ESPECIALISTA EM KARDEC

Apreciador de textos elaborados por quem sabe dominar as técnicas da pesquisa documental, deparei-me recentemente, num sebo paraibano, de uma biografia de José Herculano Pires, mais conhecido por J. Herculano Pires ou Herculano Pires, um dos maiores defensores brasileira da Doutrina Espírita. Intitulada J. Herculano Pires – O Apóstolo de Kardec, Jorge Rizzini, São Paulo, Paideia, 2001, 288 p. Um livro que “arrebata e faz o leitor crescer espiritualmente”, segundo testemunho do biógrafo sobre um filósofo, educador, jornalista, escritor, parapsicólogo, romancista, poeta e fiel tradutor de Allan Kardec, de inteligência superior iluminada pelo Espiritismo, dotado de uma cultura humanística de grande magnitude. Cujo capítulo mais dramático da sua trajetória existencial, considerado um dos mais significativos do Movimento Espírita Mundial foi a batalha travada contra uma falsificação feita de uma das obras principais de Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo.

O próprio biógrafo de Herculano reproduz, na Apresentação, trecho de crônica de Caio Porfírio Carneiro, escritor não kardecista, publicado no jornal Linguagem Viva, outubro de 2000, um 3 x 4 perfeito do analisado: “Parece que estou vendo o Herculano Pires sentado no bar, em frente ao prédio do Diários Associados, na Rua 7 de Abril, aqui em São Paulo, onde trabalhava, naquela tarde ensolarada, cercado de amigos, bebendo qualquer coisa, creio que nada alcoólico, e respondendo nossas perguntas curiosas sobre espiritismo. Era ele um estudioso e devoto da doutrina, kardecista famoso, convidado anualmente pela direção do Bradesco para a festa na Cidade de Deus, criação do presidente do Banco, Amador Aguiar, para os funcionários. Era e sempre foi uma festa belíssima no Dia de Ação de Graças. Compareciam representantes de destaque das mais diversas religiões cristãs. O único que representava uma corrente espiritual não religiosa era Herculano Pires. Quando chegava sua vez de falar e abria o verbo, encantava a todos. … Tipo mais ou menos gordo, estatura mediana, óculos, andar meio bamboleante, rosto cheio, corado, irradiava uma simpatia pessoal muito grande. … Não externava sua cultura, sua vasta leitura em praticamente todos os campos do conhecimento. Criatura modesta, cavalheiro de primeira linha, simples por natureza. Apenas quando soltava o verbo, como nas festas na Cidade de Deus, o vulcão vinha ao vivo, mostrava-se fulgurante, brilhante, dono de uma inteligência privilegiada.”

Sobre o capítulo considerado mais dramático da vida de J. Herculano Pires, também classificado como um dos mais significativos da História do Movimento Espírita, aconteceu em 1973, quando Herculano Pires combate, com todas as suas forças intelectuais, contra uma publicação apócrifa do Evangelho Segundo o Espiritismo, efetuada sob o selo da Federação Espírita do Estado de São Paulo, a partir de uma ingenuidade cometida por Chico Xavier, por ocasião da visita de dois espertalhões a Uberaba. Um dos trechos da denúncia do J. Herculano: “É realmente triste, para mim, ter de reconhecer e precisar dizer de público que Chico revelou desconhecer a extensão de sua responsabilidade no campo doutrinário. Mas a verdade é essa, pois se o reconhecesse não teria formado com Paulo e Jamil o trio interessado em ‘abrandar’ o Evangelho. Chico entrou numa canoa furada por invigilância, como ele mesmo confessa, e ainda agora, reconhecendo o erro, quer sustentá-lo para não faltar com a solidariedade aos dois patetas, sem se lembrar das consequências que o seu endosso a essa miserável trapaça, filha da ignorância e da vaidade, poderá acarretar para o movimento espírita. É duro dizer isto, mas é verdade.”

Posteriormente, em 1978, Herculano e Chico Xavier publicaram o livro Na Hora do Testemunho, ratificando a fidelidade de ambos à doutrina kardecista, onde declara: “Não façamos do Espiritismo uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece uma concepção realista do mundo e uma visão viril do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão, os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais. Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos da força e do poder do espírito encerrado no corpo. Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não façamos da existência um muro de lamentações. Somos artesãos, artistas, operários, construtores do mundo e temos de construí-lo segundo um modelo dos mundos superiores que esplendem nas constelações. Estudemos a doutrina aprofundando-lhe os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas do seu Evangelho. Essa é a nosso tarefa.”

A produção literária do J. Herculano Pires, considerado um dos maiores especialistas brasileiros na Doutrina Kardecista foi pródiga em fecundas antecipações acerca da sua desencarnação. Minutos após sua desencarnação, o corpo ainda se encontrando no hospital, o Herculano Pires enviou a seguinte mensagem, através de um médium amigo, para sua família: “Família querida/Vivendo contigo/Dias felizes e amenos/Uma experiência do lar prossegue a vida/Coragem e otimismo/Não quero ‘pompas nem velas’/ Apenas a simplicidade de um professor de interior em metrópole e céus e estrelas!/ Sustente em apoio vibratório a casa!/Ampare o livro da codificação. … Se há dificuldade de captar a escrita, imagine a de despertar aqui, para dizer aos daí: Sobrevivência d’alma! Muita paz em Jesus.”

Uma biografia que dignifica a vida de um autêntico divulgador kardecista.

PS. Recomendo com entusiasmo a leitura de Introdução ao Espiritismo, SP, Editora Paideia, 2009, 534 p, organizado pelo J. Herculano Pires. Uma leitura sementeira por derradeiro.


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PARA SABER REDIGIR

Uma das minhas atividades atuais prende-se ao atendimento de executivos de empresas e gerentes institucionais no tocante às revisões dos textos não-ficcionais por eles preparados para os escalões superiores. Gente capaz que não foi devidamente preparada na redação de documentos/relatórios, talvez vitimada por uma educação somente voltada para as obsessões gramatiqueiras, posta de lado a graciosidade documental de relatos que melhor seduziria os leitores destinatários.

Muito recentemente, a editora Três Estrelas, São Paulo, ofereceu ao público brasileiro um clássico manual americano de escrita jornalística não-ficcional: Como Escrever Bem, William Zinser, 2017, 178 pp., lançado em 1975 nos Estados Unidos. Seu autor, eternizado em 2015, é até hoje reconhecido como um dos mestres de escritores e jornalistas, tendo colaborado com as principais publicações norte-americanas, o livro sendo reeditado nove vezes, sofrendo quatro atualizações, obedecendo as novidades tecnológicas últimas acontecidas, permanecendo com suas lições essenciais sobre criação e estilo, favorecendo a iluminação das trajetórias dos profissionais que deseja expor suas ideias e argumentos com correção, graça e coerência.

A redação de um bom texto não é tarefa fácil, sempre a exigir pesquisa, técnica e muito trabalho, principalmente em nossa contemporaneidade, quando a leitura compete com múltiplos meios de informação audiovisuais. E Zinser deseja oferecer aos seus leitores um instrumento que possibilite estruturar um texto que desperte prazer, juntamente com a força do estilo e a profundidade das ideias. Ele afirma que o excesso é o mal da escrita americana. E vai mais além: “somos uma sociedade sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações pomposas e jargões sem nenhum sentido.

Num livrinho pequeno, brilhantemente sedutor, Zinser faz umas recomendações pra lá de oportunas, absolutamente indispensáveis numa época como a nossa, quando a prolixidade, mancomunada com as frases sem quaisquer nexos, campeiam numa sociedade como a brasileira, onde a vulgaridade didática do Ensino Fundamental é responsável pelo desastre educacional de uma geração de frases descabidas e desconexas.

Para não cansar muito os leitores fubânicos deste site excepcionalmente antenado às diatribes do nosso cotidiano, transcrevo, abaixo, algumas das principais dicas e conselhos contidas no livro, encarecendo uma leitura bem rabiscada e atenta das suas páginas, que devem ser vez em quando relidas para evitar atropelamentos desastrosos e caducidades desprimorosas.

1. A redação de textos se alterou bastante nos últimos 30 anos. Novas tendências sociais e literárias, além de um extraordinário avanço das mulheres escrevendo não ficção. Novas palavras e usos, juntamente com um acelerado desenvolvimento dos computadores, favorecendo o fortalecimento de coisas intangíveis, como confiança, prazer, intenção e integridade. Desde os anos 1980, os processadores de texto, a internet, o e-mail, o Messenger e o whatsapp, além da emersão das redes sociais, em muito facilitaram a emissão de textos sintéticos, embora favorecendo o surgimento de armadilhas, o desaparecimento da essência do “escrever é reescrever”, posto que o fato de escrever fluentemente não significa escrever bem, de modo sedutoramente atraente.

2. Dois fatos comprovados após o aparecimento dos processadores de texto, diametralmente opostos: os bons escritores ficaram melhores e os escritores ruins pioraram. Os primeiros perceberam a potencialidade de alterar inúmeras vezes suas frases e parágrafos, ensejando revisões e remoções, acréscimos, sem a trabalheira de datilografar tudo novamente, enquanto os escritores ruins tornaram-se mais verborrágicos, a favorecer textos mais herméticos e inúmeras vezes propositadamente complexos.

3. Inevitavelmente, nos próximos 30/40 anos, novos procedimentos eletrônicos serão acrescidos aos processadores de textos, em muito beneficiando os bons e complexificando ainda mais os que foram gerados em pé numa rede…

4. Com a evolução dos processadores de texto, amplia-se o necessário hábito de pensar. E pensar bem, sempre organizando as ideias a partir da lógica, seguindo uma orientação muito lida de Lewis Carroll, autor consagrado de Alice nos País das Maravilhas: “Ela (a lógica) lhe dará clareza do pensamento, o hábito de arranjar suas ideias numa forma acessível e ordeira, e mais valioso que tudo, o poder de detectar falácias e despedaçar argumentos ilógicos e inconsistentes que você encontra tão facilmente nos livros, jornais…”

5. Há pessoas que imaginam ser a escrita um passatempo, algo extremamente divertido, as palavras fluindo facilmente. O autor do livro define o escrever como algo difícil e solitário, as palavras raramente fluindo com facilidade.

6. Outras pessoas imaginam que reescrever não seja necessário. O Zinsser afirma que reescrever é radicalmente necessário, proclamando que reescrever é a essência da escrita, existindo escritores profissionais que reescrevem suas frases inúmeras vezes, novamente reescrevendo o que tinha reescrito.

7. Todo profissional da escrita deve estabelecer uma rotina diária, atendo-se firmemente a ela. Segundo Zinsser, escrever não ficção é um ofício, não uma arte, todo sujeito que abandona seu ofício, por falta de inspiração, não deve ser levado a sério, podendo terminar economicamente destroçado.

8. Um escritor profissional são trabalhadores solitários, raramente frequentadores de almoços convencionais ou eventos promocionais.

9. Todos os escritores profissionais são vulneráveis e tensos. A questão maior é encontrar o verdadeiro homem a verdadeira mulher que existe por trás dessa tensão.

10. Todo escritor profissional persegue duas qualidades muito importantes: a sensibilidade para o humano e o entusiasmo.

Infelizmente, William Zinsser está coberto de razão: “somos uma sociedade sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações quase histéricas e jargões sem um mínimo de sentido.”

Creio ser chegada a hora de liquidar o juridiquês, o economês, o sociologuês, o teologuês e os demais embromation systems capazes de iludir abilolados, a grande maioria consumista deste mundão de meu Deus.


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RESISTÊNCIA DESPERTADORA

Embora tenha sido editado pela Zahar no final da década passada, os discursos do escritor Thomas Mann contra Hitler, de 1940 a 1945, deveriam ser relidos por aqueles que estão antenados com a atual crise mundial, brasileira inclusive, onde ideologias se fragmentaram e uma sociedade civil se encontra amplamente estilhaçada por interesses individualistas, nunca solidários, recheados de preconceitos e tipicamente voltados para um mercado capitalista sectariamente ambicioso.

No livro Ouvintes Alemães! – Discursos contra Hitler (1940-1945), Zahar, 2009, estão reunidos discursos que o escritor alemão Thomas Mann, do exílio, a convite da rádio BBC, enviava aos seus conterrâneos, comentando a realidade da guerra e incentivando seus irmãos germânicos a derrotarem Hitler, o nazismo e seus assassinos.

O livro reúne 58 pronunciamentos de Mann, onde ele, sincero, enfático, emocionado, irado, esperançoso, revoltado, sarcástico, realista e profundamente engajado, proclamava a cidadania alemã, batendo-se contra “o sujeito miserável que ainda se diz Führer da Alemanha”.

Com as comunicações modernas de hoje, tudo seria mais fácil. Mas vejam os leitores deste site fubânico como a operação se processava: todo o discurso, de cinco a oito minutos, era gravado no Recording Department da NBC, em Los Angeles, a gravação sendo enviada a Nova York por via aérea e transferida por telefone para uma outra gravação em Londres, executada diante do microfone, ensejando a escuta clandestina de milhões de alemães, suíços, suecos, holandeses e tchecos. Todos ansiosos por uma voz vibrante, que incutisse esperança na luta pelo término de um regime nefasto para o mundo inteiro. Mesmo sob a ameaça de um Führer que denunciou, numa cervejaria de Munique, que havia emissões de Thomas Mann que tentavam incitar o povo alemão à revolução contra ele e seu famigerado sistema.

Aos leitores fubânicos, algumas reflexões do escritor alemão, autor de A Montanha Mágica, Nova Fronteira, 2006, uma leitura que merece entusiásticas releituras. Ei-las: 1940 – Esta luta será demorada, ninguém tem ilusões quanto a isso. Porém quanto mais ela durar, mais certo será seu desfecho; 1941 – Seus tiranos lhes inculcaram a ideia de que a liberdade é uma quinquilharia obsoleta; 1942 – Conheço o suficiente das leis morais do mundo e sinto por elas respeito o bastante para dizer a vocês: uma depuração, uma purificação e uma libertação devem e vão acontecer na Alemanha, tão radicais e tão determinadas que estejam à altura de atos criminosos nunca antes vistos no mundo; 1943 – Creio que o estrondo da porta batida será superado por um imenso concerto de vaias no auditório do mundo, pois nunca se encenou nada tão miserável quanto a peça dessa trupe sanguinária de atores de feira; 1944 – Nenhum canalha quer ir para o inferno sozinho; ele sempre procurará levar o maior número possível de pessoas com ele. Que outros sejam culpados como ele, essa a sua alegria; 1945 – Apesar de tudo, o retorno da Alemanha à humanidade é um momento grandioso. Ele é duro e triste porque a Alemanha não pôde conduzi-lo com suas próprias forças. O nome da Alemanha sofreu um dano terrível, difícil de reparar, e o poder se foi. Mas o poder não é tudo, não é nem mesmo a coisa mais importante, e a dignidade alemã nunca foi uma mera questão de poder. Pode voltar a ser o poder de obter respeito e admiração através da colaboração humana, do espírito livre.

Uma pequena amostra de uma estratégia de resistência de um intelectual alemão famoso que combateu com sua escrita para a erradicação do nazismo numa Alemanha que tinha caído na esparrela de um líder inteligentemente delinquente com seu grupo de seguidores assassinos.

Para os mais jovens, que ainda não aquilataram a tragédia de 12 anos que se espraiou pela Alemanha, 1933-1945, recomendo dois livros incrivelmente esclarecedores, ambos de um mesmo autor, Ian Kershaw, historiador inglês, professor de História Contemporânea da Universidade de Sheffield, da qual se aposentou em 2008, reconhecido como um dos maiores especialistas da história da Alemanha nazista.

O primeiro livro é Hitler, SP, Companhia das Letras, 2010, a mais completa biografia do assassino nazista, superando todos os relatos já publicados. Numa linguagem incisiva, lúcida, penetrante e incrivelmente reveladora, o texto de Kershaw, agora condensado em um só volume, tornou-se, segundo o Los Angeles Times, “um guia indispensável e definitivo sobre Hitler, o nazismo a nação que, por algum tempo, refletiu vergonhosamente seu gênio maligno”. Uma abordagem que explica com ampla serenidade analítica “as expectativas e motivações da sociedade alemã” para o III Reich, onde Adolf Hitler foi o epicentro do ataque nazista às raízes da civilização germânica.

O segundo livro, O fim do Terceiro Reich: a destruição da Alemanha de Hitler, 1944-1945, SP, Companhia das Letras, 2015, Ian Kershaw decifra, com base em amplos levantamentos históricos ainda inéditos, os meses finais da Alemanha nazista, do malsucedido atentado a Hitler, julho de 1944 (Operação Walkyria) à capitulação final, o suicídio do tirano, cumprindo sua obstinação, a de que jamais se entregaria vivo às forças aliadas. Segundo Hitler, a destruição total, mas heroica, era infinitamente preferível às capitulações consideradas por ele como atos de covardia.

A leitura dos três textos em muito ampliará a consciência cidadã dos que almejam uma democracia de características mínimas para todos os quadrantes de um planeta, erradicados as ideologias sectárias e os fundamentalismos religiosos de todos os naipes, inclusive romanos.


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UNIVERSIDADE PARA PERNAMBUCO 21

Em 2022, certamente com programação festiva e sem subfaturamento, comemoraremos duzentos anos da independência do Brasil. De país com “complexo de vira-latas”, como proclamava o pernambucano Nelson Rodrigues, e repleto de sabidos e sabidões, cínicos dilapidadores do erário público, alcançamos certo reconhecimento no cenário mundial, muito embora inúmeros problemas ainda nos atormentem, inclusive o da melhoria substancial da qualidade do nosso ensino superior. Cujas carências e desafios não devem ser ofuscados por imediatismos irresponsáveis ou omissões dos poderes públicos, desatentos aos desencantos crescentes de uma juventude que anseia por melhores amanhãs acadêmicos, com níveis de desenvolvimento técnico-científico que não maculem a dignidade nacional.

Em nossa região, com a fase economicamente claudicante em que se encontra o Estado de Pernambuco, o terceiro grau ainda se encontra em estágio muito aquém do ideal. Por iniciativa dos dirigentes universitários, como alerta estratégico, deveria ser obrigatória a entrega, para os aprovados nos vestibulares, de um panfleto similar ao Mapa do Fracasso, de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia. Onde estariam ressaltados os balizamentos que precipitaram o mercado mundial num despenhadeiro em 2008 e 2010, principalmente o norte-americano. Parâmetros fatídicos que alertariam os novos acadêmicos para descaminhos letais que conduzirão os desatentos para percursos profissionais e acadêmicos nulificantes, causando desesperos existenciais, desumanizações e despolitizações. Ei-los: 1. Pensar em curto prazo – Não projetar, nem raciocinar para além de cinco anos; 2. Ser obsessivo – Ter como objetivo ganhar sempre, sem considerar os limites para os ganhos financeiros; 3. Acreditar que existe sempre alguém mais tolo do que você – Desprezar os outros, porque “sempre haverá alguém, inclusive ele um dia, suficientemente estúpido para só perceber o que está acontecendo quando for tarde demais”; 4. Acompanhar a manada – Não ouvir as vozes discordantes, que precisam ser ridicularizadas e silenciadas; 5. Generalizar sem limites – Criar preconceitos e condenar ou louvar instituições e pessoas por critérios difusos e subjetivos, sempre bajulatórios; 6. Seguir a tendência – Procurar ver o que está dando certo, copiando acriticamente e esperar que os resultados se repitam; 7. Jogar com o dinheiro dos outros – Arriscar progredir com o capital alheio.

A dinamicidade universitária por que passa Pernambuco provocará certamente, com a distribuição do panfleto, um viés positivo, favorecendo a emersão de iniciativas estruturadoras: ampliação da criticidade cidadã, contemporaneidade dos conhecimentos técnicos e humanísticos, ampliação da democracia universitária sem populismos eleitoreiros, fortalecimento cognitivo complementar dos ingressos através das cotas étnicas e sociais, construção de bibliotecas e ampliação sistemática dos seus acervos com a contratação de profissionais qualificados, consolidação de uma política pública de ensino a distância de qualidade, seleção pública de quadros docentes e administrativos com níveis salariais adequados, agressividade editorial, erradicação das temporalidades docentes e administrativas pela efetivação de concursos públicos, e a consolidação dos centros universitários regionais, respeitadas as vocações de cada uma das áreas geográficas.

Em época de generalizada passividade comunitária como a que estamos vivenciando, urge um planejamento estratégico que não seja vago nem fantasioso, tampouco meramente carimbológico, que não obstaculize decisões sementeiras, nem favoreça a diluição demagógica dos objetivos estabelecidos. Em toda universidade ou instituição de ensino superior do Estado de Pernambuco, o como começar não deverá ser viabilizado de uma única maneira. Cada uma deverá preservar suas peculiaridades, que exigirão procedimentos específicos, capazes de proporcionar um aproveitamento ideal entre talento e experiências locais.

Na construção de horizontes universitários promissores para Pernambuco, todo cuidado é pouco com os medíocres. Na definição de José Ingenieros, médico psiquiatra argentino já eternizado, autor de O Homem Medíocre, no Brasil editado pela Juruá, “o homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é por essência imitativo e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, refletindo as rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade. Assim como os seres inferiores herdam a ‘alma da espécie’, o medíocre adquire a ‘alma da sociedade’. Sua característica é a de imitar a quantos o rodeiam, pensar com a cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios”.

Necessitamos, através das múltiplas maneiras de debater e deliberar, bem equacionar as diretrizes alavancadoras para o ensino superior pernambucano: Qual é a missão do ensino superior estadual?; Como bem diferenciar erro de negligência?; Que iniciativas poderão a curto e médio prazos serem tomadas diante das mudanças velozes que estão se processando na década atual?; Como implementar nosso planejamento estratégico com maturidade, sem as fobias advindas da idiótica dicotomia direita-esquerda? Como ser dirigentes conscientes, sem bajulações e subserviências?; Como reconhecer o desconhecido, sempre se vendo como um eterno aprendiz, sabendo bem diferenciar aprender e apreender? Que razões mais substantivas exigem ações sem procrastinações?; Como explicitar nossas inquietações propositivas, nunca nos comportando tal e qual aquele cego num quarto escuro procurando um gato preto que lá não mais se encontrava?; e até quando poderemos conservar, em nosso sistema universitário público, o título de Ensino Superior, diante de iniciativas outras que evoluem com mais rapidez e efetividade?

É dever de todos combater a “cegueira do progresso”, expressão feliz de Adorno, evitando a transformação da vida universitária brasileira em espetáculo e consumo circenses, favorecendo a conscientização de uma sociedade que ainda não questionou porque, no ranking mundial da educação, o Brasil se encontra numa muito vexatória colocação.

Não teria chegada a hora de se estruturar, no Poder Executivo de Pernambuco, uma Secretaria de Educação Superior, com seu Conselho de Educação Superior, desafogando a Secretaria de Ciência e Tecnologia, possibilitando que ela siga adiante com seus dinamismos próprios em prol de um Ensino Técnico e de uma C&T voltada para os amanhãs que necessitamos em todos os nossos setores econômicos? Tal como fez o Estado de São Paulo, numa iniciativa eminentemente catapultadora?

PS. No Dia dos Namorados, nesta segunda 12, confesso publicamente os meus dois amores institucionais: a Fundação Joaquim Nabuco e a FCAP-Universidade de Pernambuco.


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PARA ENTENDER NOSSO TEMPO

Eis que palavras-chave surgem para ampliar nossa “enxergância” sobre os imbróglios desconcertantes que estão acontecendo nos quatro cantos do planeta, incluindo Trump, Temmer e outros aparvalhados dirigentes descontemporâneos. Que que não se apercebem das responsabilidades mil que possuem como dirigentes, imaginando-se os “ós do borogodó”, impávidos colossos situados muitos pontos acima de uma população que exige seus direitos de viver com dignidade, trabalho, liberdade e participação nos destinos do mundo.

Tais palavras-chave estão devidamente analisadas num livro recém editado pela editora Objetiva, de autoria do notável Domenico de Massi, professor de sociologia do trabalho na Universidade La Sapienza, de Roma. Intitulado Alfabeto da sociedade desorientada: para entender o nosso tempo, 2017, 598 p. Uma coleção de estupendas sínteses de conceitos atualmente em vigência, que envolvem uma cultura mundial que necessita ser analisada com profundidade e franqueza, proporcionando reflexões restauradoras de uma dignidade planetária que erradique a infelicidade proporcionada a milhões por sistemas que castram a liberdade de bem viver numa paz social duradoura, sem discriminação de espécie alguma.

Na Introdução, uma reflexão de Arthur Schopenhauer que nos proporciona um instante de reenergização ética civilizatória: “A vida e os sonhos são páginas do mesmo livro. Lê-las em ordem é viver, folheá-las ao acaso é sonhar”. E Masi reconhece que, muitas vezes, já sentiu vontade de ter “vivido na Atenas de Péricles, na Roma de Adriano, na Florença de Lourenço, o Magnífico, na Paris de Voltaire”. Mas, segundo ele próprio deduz, “ninguém me garante que seria justamente eu no lugar desses personagens, desfrutando de seus privilégios. Seja como for, no tempo deles a expectativa de vida era bem mais breve do que a atual, e em caso de dor de dente não havia analgésico para aliviá-la.”

Cada uma das análises feitas nos 26 conceitos vem encabeçada por uma reflexão feita por alguma personalidade que fez história em nossas épocas de ontens e hojes, quase todas indispensáveis para reacender a chama de uma humanidade que minoritariamente vive apenas das tecnologias e cientificidades que mutilam fatos, muitos deles sem uma mínima chance de serem vivenciados pelas comunidades distanciadas de uma contemporaneidade ainda não humanisticamente assimilada.

Escolhemos algumas dessas reflexões, encarecendo aos possíveis leitores, uma releitura meditativa, favorecendo a compreensão mais consistente das palavras-chave por Massi utilizadas, binoculizando os prós e os contras dos amanhãs que nos aguardam, principalmente de um Brasil que está em contínua estupefação político-empresarial, que esmaga nosso conceito internacional de “país criado por Deus e bonito por natureza.” Ei-las:

“O espírito criativo afirma-se onde reina a serenidade.” – Le Corbusier

“Um dos maiores problemas da humanidade não consiste na imperfeição dos meios, mas na confusão dos fins.” – Albert Eisntein

“A clareza é uma distribuição adequada de luz e de sombra.” – Goethe

“Muitas coisas maravilhosas, cuja causa é desconhecida, ocorrem segundo a natureza, enquanto outras ocorrem contra a natureza, produzidas pela techné em benefício dos homens.” – Aristóteles

“O que conta não é a arquitetura, mas a vida, os amigos, a família e este mundo injusto que devemos mudar.” – Oscar Niemeyer

“Não é do trabalho que nasce a civilização; ela nasce do tempo livre e da diversão.” – Alexandre Koyré

“Continuemos a desperdiçar a mesma energia que era necessária antes da invenção das máquinas; nisso fomos tolos, mas não há razão para continuarmos a sê-lo.” – Bertrand Russell

“O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são.” – Protágoras

“As minhas ideias são as minhas putas.” – Denis Diderot

“A sociedade do consenso é a sociedade do consenso dos gigantes e através dos gigantes.” – Wright Mills

“Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos.” – Nelson Rodrigues

“Encontro neste pequeno povo o trabalho mais álacre e engenhoso, não para enriquecer, mas para viver sem pensamento.” – Goethe

“A vida é o que acontece enquanto pensamos em outra coisa.” – Oscar Wilde

“Homem que trabalha perde tempo precioso.” – Provérbio espanhol

“Há bandos em que governam os mais inteligentes: é o caso dos babuínos.” Konrad Lorenz

“Todos llevamos dentro um grano de locura, sin el cual és imprudente vivir.” – Frederico Garcia Lorca

“Não faço nada sem alegria.” – Michel de Montaigne

“Nunca um esforço, num um pouco de energia: nada que vá com pressa.” – Stendhal

“Ter sede significa ter sede de Coca-Cola.” – Ivan Illich

“A ética do trabalho é aética do escravo, e o mundo moderno não precisa mais de escravo.” – Bertrand Russell

“Educar significa enriquecer as coisas de significado.” – John Dewey

“O homem é aquilo que ele faz para ser.” – Jean-Paul Sartre

“Considero a Web um todo potencialmente ligado a tudo, como uma utopia que nos concede uma liberdade jamais vista.” – Tim Berners-Lee

“Nossa natureza está no movimento. A única coisa que nos consola das misérias é a diversão.” – Blaise Pascal

“Quanto menos inteligente é o branco, mais o negro lhe parece estúpido.” – André Gide

“Seja qual for a sua idade, alegria e sofrimento estão misturados. Permaneça fiel à alegria e esteja pronto para enfrentar o sofrimento com coragem,” – Robert Schumann

Regenerar a mente é mais que necessário, neste século XXI tão atabalhoado, repleto de fundamentalismos, prenhe de incompreensões e sectarismos políticos. Que a leitura das palavras-chave do Domenico de Masi nos possibilite a ampliação da nossa Cidadania Brasileira, onde os mais escolarizados deverão estender as suas mãos na direção daqueles que ainda se encontram num estágio inicial de uma transitividade ingênua.
O livro do Massi provoca um baita desabilolamento existencial.

PS. Para Dona Irene, hospedada na Casa dos Humildes, no Recife, serenidade vivencial exemplar, alegria permanente, interior sempre lindo, abençoado por Deus, com admiração e crescente estima pessoal.


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PARA QUEM TEM CORAGEM DE MUDAR

Para quem ainda desconhece descobertas religiosas recentes, é bom recordar que, em 1945, um camponês árabe fez ocasionalmente, no Alto Egito, uma extraordinária descoberta arqueológica. Entretanto, inúmeros boatos obscureceram o feito, muito embora, trinta anos mais tarde, o seu descobridor, Muhammad ‘Ali al-Salmmãn, tenha revelado como tudo aconteceu. Entre os texto encontrados, os chamados evangelhos gnósticos. Um deles, o de Tomé.

No século segundo da era cristã, o então bispo de Alexandria, ciente do seu papel de mantenedor da ortodoxia eclesiástica que já se instalava em seus domínios, determinou a destruição dos documentos tidos como heréticos. Inclusive os “contaminados” pelo Gnosticismo, um movimento que favorecia uma criticidade libertadora embasada no misticismo e na especulação filosófica.

Alguns monges, entretanto, mantiveram inúmeros documentos sob sete chaves, terminando por enterrá-los numa área pouco habitada, num grande jarro de argila, somente descoberto em 1945, no Egito. Continham papiros datados dos primórdios do Cristianismo e redigidos para servir de testemunhas de acontecimentos pretéritos.

O achado é composto de 12 códices, mais um décimo terceiro incompleto, além de 52 outros tratados, sendo o conjunto mundialmente conhecido como Biblioteca de Nag Hammadi, cuja versão inglesa teve primeira edição em 1977. Em 1996, uma nova edição inglesa foi publicada, amplamente revisada, subsidiada pelas recentes pesquisas científicas e arqueológicas.

Recentemente, a editora brasileira Madras, São Paulo, lançou a tradução integral daquele achado, com uma Introdução de James M. Robinson, para quem “uma revolução agressiva não é o que se busca, mas sim uma retirada do nosso envolvimento na contaminação que destrói a clareza da visão”. Sempre a fincar novas raízes interpretativas no já criteriosamente distanciado do joio.

Como em todo movimento, o pensar cristão diferente incomoda bastante e é muito temido pelos que consideram a continuidade e a estabilidade como alicerces de uma trajetória sem contestação. Ainda que situada, numa contramão nem sempre inconsciente, num sentido oposto à mensagem original pregada pelo Judeu de Nazaré, assassinado no madeiro por sua intrepidez evolucionária.

Os incontáveis ramos do Cristianismo, subdivisões criadas tão logo concluídos os quarenta dias do Ressurreto entre nós, em sua maioria emergiram por interesses financeiros, ânsias de poder, fanatismos idiossincráticos, busca de novos nichos evangelizadores e interesse em manipular o inconsciente coletivo de uma área, entre outras intenções menos notórias. Como as que entrechocaram João e Tomé, Pedro e Paulo, e Paulo e Barnabé. Para não se falar das infâmias levantadas contra Maria de Magdala, mais conhecida como Madalena. Além das atrocidades praticadas com os que não seguiam a cartilha imposta pela maioria.

Aplausos para o Mahatma Gandhi: “Creio que, se pudéssemos ler as escrituras das diversas religiões, abraçando, cada vez, o ponto de partida de seus respectivos adeptos, perceberíamos que elas são idênticas, na base, e se completam maravilhosamente”. Um pensar que, seguramente, deixaria muitos com olhares arregalados, com uma vontade danada de também colocar Gandhi no madeiro, entre dois ladrões, se a época possibilitasse. Ou se a Opus Dei ainda fosse possuidora de instrumentos de fácil eliminação.

Sempre estarão, os mais clarividentes, buscando erigir uma binoculidade diferente, numa transcendentalidade com o Superior situada acima das denominações religiosas. Como cristão, também descendente de Abraão, Isaac e Jacó, aprendiz da Doutrina Espírita, complementam-me, continuadamente e para o alto, os ensinamentos daqueles que pregam o direito de todos os seres humanos a uma existência abundante, material e espiritualmente, sob o signo do Amor, como muito bem estão situadas as análises feitas pelo bispo anglicano aposentado John Shelby Spong, em seu texto Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo – a Fé Além dos Dogmas, recentemente lançado em língua portuguesa pela editora Verus. Uma reflexão de gigante, para quem não deseja tornar-se cristãmente pigmeu.

Entre o status quo atual da quase totalidade das denominações cristãs e os ensinamentos do Judeu Nazareno, um fosso se amplia a cada novo amanhecer, infelicitando muitos, desanimando outros tantos, alienando um bom bocado. Embora ampliando, em inúmeros, uma vontade de centuplicar as reflexões através de debates exaustivos com todas as religiões do planeta, fazendo agigantar a tolerância e a compreensão pelo pensar e agir alheios, sem moralismos nem puritanismos, ninguém se arvorando de juízes ou sósias de Deus.

Uma das autoras consideradas clássicas pelos críticos literários e estudiosos da Bíblia, Elaine Pagels é autora de Os Evangelhos Gnósticos, RJ, Objetiva, 2006, 246 p., um estudo brilhante e surpreendente em suas conclusões. A professora Pagels participou do grupo que estudou os rolos encontrados em Nag Hammadi, escrevendo seu livro especialmente para os leigos, tendo sido ele considerado um dos 100 melhores livros do século XX. No livro, ela argumenta que a Igreja cristã foi fundada em uma sociedade que expunha inúmeros pontos-de-vista contraditórios. O gnosticismo era um movimento não muito coerente e havia algumas áreas em desacordo. O gnosticismo atraiu as mulheres em particular devido à sua perspectiva igualitária que permitia a sua participação em rituais sagrados.

Num livro recente, O Evangelho de Tomé – O Elo Perdido, de José Lázaro Boberg, Santa Luzia, MG, Editora Cristo Consolador, 2011, 266 p., mostra como os 114 logions (dizeres) de Jesus são diferentes dos canônicos, sem os acréscimos que nos evangelhos foram introduzidos. O livro de Boberg ressalta as origens do Cristianismo, desmistificando algumas “verdades” impostas à Humanidade até os anos recentes. Uma análise que reata os elos perdidos entre os ensinamentos do Mestre Nazareno e as versões oficiais impostas desde Constantino. Aprimorando segundo o logion 2 do Evangelho de Tomé: Jesus disse: “Deixai aquele que busca continuar buscando até que encontre. Quando encontrar, se tornará aflito. Quando se tornar aflito, será surpreendido e reinará acima de Tudo.”


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UMA EXISTÊNCIA ABENÇOADA

Há personalidades que cativam pela solidariedade humana oferecida aos mais necessitados. Tive a felicidade de conhecer algumas e de conviver com outras por longos anos. Na convivência, o meu orientador maior, depois do Carolino meu pai, foi Dom Hélder Câmara, um ser humano que irradiava um magnetismo pessoal gigantesco, próprio das lideranças contempladas por forças transcendentais, dessas que iluminam os já de espíritos aperfeiçoados por múltiplas vivências.

Entretanto, uma outra personalidade que ainda não conheço pessoalmente, embora dele seja admirador de carteirinha, sempre me deixou sensibilizado pelos serviços prestados à comunidade, pelas pregações feitas ao longo de uma vida dedicada a praticar a mensagem de Jesus de Nazaré através do Espiritismo: Divaldo Pereira Franco. De biografia escrita pela historiadora Ana Cláudia Landi – Divaldo Franco – a trajetória de um dos maiores médiuns de todos os tempos, São Paulo, Bella Editora, 2015, 302 p.-, um livro que recomendo a todos os cristãos, independentemente de segmento religioso.

Divaldo Pereira Franco, mais conhecido como Divaldo Franco ou simplesmente Divaldo (Feira de Santana, 5 de maio de 1927) é um professor, médium e orador espírita brasileiro mundialmente conhecido, recentemente tornado nonagenário. O mais importante espírita brasileiro em atividade, com mais de cinquenta anos dedicados a cuidar dos meninos de rua de Salvador, na Bahia, tendo fundado, em 15 de agosto de 1952, com Nilson de Souza Pereira, a casa de assistência Mansão do Caminho, responsável pela orientação e educação de mais de 33 mil crianças e adolescentes carentes.

Divaldo apresentou, desde jovem, diversas faculdades mediúnicas, tanto de efeitos físicos quanto de efeitos intelectuais. Destaca-se, dentre elas, no entanto, a psicografia. Com mensagens assinadas por diversos espíritos, dentre eles, Joanna de Ângelis, que durante muito tempo apresentava-se como “um Espírito Amigo“, ocultando-se no anonimato, à espera do instante oportuno para se fazer conhecida. Ela revelou-se como sua orientadora espiritual, escrevendo inúmeras mensagens, num estilo agradável, repassado de profunda sabedoria e infinito amor, que conforta aos mais diversos leitores e necessitados de diretrizes espirituais.

Em 1964, Joanna de Ângelis selecionou várias das mensagens de sua autoria e enfeixou-as num livro, intitulado Messe de Amor. Foi o primeiro livro que o médium Divaldo Franco publicou. Logo em seguida, Rabindranath Tagore ditou Filigranas de Luz. E o que se seguiu constitui-se num verdadeiro fenômeno editorial, pois, em seus anos de atividade como médium, Divaldo teve publicados mais de 300 títulos, totalizando mais de cinco milhões e quinhentos mil exemplares, muitos deles ocupando lugar de destaque na literatura, no pensamento e na religiosidade universal. Dessas obras, editou-se 80 versões para 15 idiomas (alemão, castelhano, esperanto, francês, italiano, polonês, tcheco, braile, entre outros). Os livros de Divaldo Franco englobam uma grande variedade de estudos literários, como prosas, romances, narrações e etc., abrangendo temas filosóficos, doutrinários, históricos, infantis, psicológicos e psiquiátricos.

Nas obras psicografadas por Divaldo, apresentam-se 211 alegados autores espirituais, além de Joanna de Ângelis. Entre eles, Manoel Philomeno de Miranda, Victor Hugo, Amélia Rodrigues, Ignotus, Vianna de Carvalho, Carlos Torres Pastorino, Bezerra de Menezes, Rabindranath Tagore, João Cléofas, Eros e Simbá.

A maioria das obras escritas por Divaldo Franco sob a inspiração de Joanna de Ângelis almeja incentivar o autodescobrimento e facilitar a aplicação no dia-a-dia dos ensinamentos morais de amor fraterno contidos nos Evangelhos e na Doutrina Espírita, estimulando o leitor a enfrentar as dificuldades cotidianas de modo mais prático e otimista.

Como orador, Divaldo iniciou-se em 1947, difundindo a Doutrina Espírita e hoje apresenta uma histórica e recordista trajetória no Brasil e no exterior, sempre atraindo multidões, com sua palavra inspirada e esclarecedora. Há vários anos, viaja em média 230 dias por ano, realizando palestras e também seminários no Brasil e no mundo. Suas palestras promovem o pacifismo, estabelecendo pontos de convergência entre a doutrina espírita e a ciência (principalmente a psicologia), sempre incentivando a busca constante pelo autoconhecimento, ancorada em conhecimentos sobre psicologia e doutrina kardecista.

Desde jovem, Divaldo teve vontade de cuidar de crianças. Educou mais de 800 “filhos”, hoje emancipados, a maioria com família constituída e profissão – magistério, contabilidade, serviços administrativos e até medicina. Na década de 60 iniciou a construção de escolas-oficinas profissionalizantes e de atendimento médico. Hoje, a Mansão do Caminho é um admirável complexo educacional que atende milhares de crianças e jovens, na Rua Jaime Vieira Lima, 01 – Pau de Lima, um dos bairros periféricos mais carentes de Salvador, com 83.000 m² e 43 edificações. A obra é basicamente mantida com a venda de livros mediúnicos e das fitas gravadas nas palestras.

Ainda recentemente, março de 2017, Divaldo lançou a 6ª. reimpressão , com 5.000 exemplares, do seu livro psicografado Transição Planetária, pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, Salvador, LEAL, 264 p., com todos os direitos reservados única e exclusivamente para o Centro Espírita Caminho da Redenção, Bahia, de onde apresentamos, abaixo, a reflexão contida da introdução Transição Planetária, do Espírito Manoel Philomeno:

“As criaturas que persistirem na acomodação perversa da indiferença pela dor do seu irmão, que assinalarem a existência pela criminalidade conhecida ou ignorada, que firmarem pacto de adesão à extorsão, ao suborno, aos diversos comportamentos delituosos do denominado colarinho branco, mantendo conduta egotista, tripudiando sobre as aflições do próximo, comprazendo-se na luxúria e na drogadição, na exploração indébita de outras vidas, por um largo período não disporão de meios de permanecer na Terra, sendo exiladas para mundos inferiores, onde irão ser úteis limando as arestas das imperfeições morais, a fim de retornarem, mais tarde, ao seio generoso da mãe-Terra que hoje não quiseram respeitar.”

No livro, Divaldo Franco nos aponta mecanismos e razões de ordem superior da transição planetária em favor das mudanças urgentes e necessárias direcionadas para um maior respeito à Natureza e às populações menos desenvolvidas do nosso planeta.

* * *

PS. Abraço fraternal no irmão kardecista Bruno Tavares, da Casa dos Humildes, de quem tenho recebido excelentes orientações nas sessões de estudo, todas as sextas-feiras à noite, naquela instituição.


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AMPLIANDO ENXERGÂNCIA

Tem gente que está distanciado léguas da realidade social do seu derredor, ignorando inteiramente com quantos paus se faz uma canoa, tampouco se lixando para os seus amanhãs, sempre mentalmente ao deus-dará, sem eira nem beira cognitiva, pouco se lixando em aprimorar sua existencialidade.

Outro dia, usei numa reunião social a expressão “desabilolamento”, provocando uma risadinha incômoda em alguns dos presentes. Um deles, no corredor de saída, me perguntou, sem maldade alguma, como ele e seus dois filhos poderiam ampliar sua criticidade, posto que todos os três eram peritos em Ciências da Computação, acometidos com-puta-dor de cabeça quando o tema dos papos com amigos de trabalho se bandeava para assuntos humanísticos. Reconheceu que nas últimas eleições tinha votado nulo diante das suas decepções e rancores para com aqueles que surrupiavam seus bolsos e os do povo brasileiro, encarapitados em postos de comando nos três níveis das máquinas administrativas públicas, federais, estaduais e municipais.

Convidei o quarentão pai para um almoço num restaurante popular de muito sabor caseiro, lá citando uma primeira referência bibliográfica, para mim enviada por um amigo antenado de São Paulo. Que era coordenador de um aplaudido blog esclarecedor nas redes sociais, sem filiação partidária, mas muito politizado através de uma educação familiar promissora, que lhe proporcionara excelentes balizamentos analíticos. O livro indicado pelo amigo sulista intitula-se Política: 50 conceitos e teorias fundamentais explicados de forma clara e precisa, editado por Steven L. Taylor, São Paulo, Publifolha, 2016, 156 p. E se inicia com um glossário que embasa uma questão preliminar – Quem governa? -, onde define alguns dos termos mais utilizados nas análises políticas contemporâneas, tais como burguesia, cidade-Estado, despotismo esclarecido, economia mista, marxismo-leninismo, meritocracia, monarquia constitucional, monarquia hereditária, poder absolutista, proletariado, socialismo árabe e tirania.

Nas páginas seguintes do livro, alguns outros conceitos são esmiuçados, com pensamentos oportunos inseridos, entre os quais o de Montesquieu – “A tirania de um príncipe numa oligarquia não é tão perigosa para o bem-estar da população como a apatia de um cidadão numa democracia” -, o de Winston Churchill – “A democracia é o único sistema que continua perguntando aos poderes existentes se eles são os poderes que deveriam existir” -, e o de François Noël Babeuf – “Que a diferença revoltante entre ricos e pobres desapareça de uma vez por todas!”.

Num outro capítulo – Governo de poucos -, ao leitor é esclarecido outros termos utilizados nos meios de comunicação modernos. Escolhemos alguns, a título de amostra: Anschluss – anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938, violando acintosamente o Tratado de Versalhes, sofrendo apenas uma leve objeção da França e da Grã-Bretanha; Clientelismo – Prática social em que pessoas ricas com ambição política e indivíduos poderosos (“benfeitores”) asseguram que os recursos públicos sejam direcionados para um setor da população, em troca de apoio em forma de votos; Neonazismo – termo utilizado para definir qualquer movimento de extrema direita que compartilhe de alguns dos valores políticos da Alemanha nazista; Politizar – ato de transformar um tema não político em um tema político, como aquecimento global ou questões morais e sociais como o aborto ou a legalização de certos entorpecentes.

O papo transcorreu até depois das quatro da tarde, quando idealizamos algumas reestruturações legislativas para o Brasil século XXI, quando ainda temos uma das piores distribuições de renda do mundo, o machismo ainda impera, emissoras de televisão também são proprietárias de rádios e jornais, um Poder Judiciário radicalmente débil, com rara exceções, favorece a eternização da liberdades dos que deveriam estar encarcerados, o ensino fundamental deveria ser público e gratuito para todos, o parlamentarismo com voto distrital deveria ser o recomendado, a representatividade parlamentar reduzida de 2/3, fusão dos municípios instituídos por interesses puramente demagógicos, uma agressiva política ferroviária dada as planas características territoriais brasileira, uma não-reeleição para os cargos executivos, a eliminação do imposto sindical compulsório, o fim das isenções tributárias para as denominações religiosas, obrigatoriedade de horários culturais televisivos de boa qualidade entre 21 e 23 horas, combate efetivo à bandidagem, redução da idade mínima da criminalidade, castração química para estupradores, nivelamento dos aumentos salariais para todos os poderes, ficando para um outro encontro temas como aborto, construtivismo, casamento religioso gay e oposição sistemática aos estados unitários, aqueles que detêm todo poder sobre os governos regionais. Onde uma reflexão de Antônio Gramsci servirá de base para a discussão desse último tema: “A crise do Estado unitário estimulou o renascimento de uma confusa ideologia patriótica.”

A tarde se foi e o papo persistiu em outras áreas, entre elas duas que bastante preocupam: a decadência vertiginosa dos esportes amadores de Pernambuco e a acelerada derrapagem do futebol maurício, bem como a bosticidade das transmissões esportivas locais. Setores onde pontificam bobajadas que enodoam o passado esportivo do outrora Leão do Norte, onde pontificavam atletas, locutores e comentaristas consagrados, patrocínios vibrantes e públicos entusiásticos, ecoando fortemente seus gritos de guerra nos bares e restaurantes de toda região.

Atualmente, quando comparamos os atuais níveis pernambucano – político, esportivo, jornalístico, religioso, empresarial e de criatividade gestionária -, verificamos uma bostalização generalizada de fazer dó, onde uma me(r)diocridade robusta parece estar a debilitar ainda mais os amanhãs canequeanos da terra dos altos coqueiros, num 2017 que nos faz até esquecer as bravuras rebeldes dos heróis de 1817.


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JESUS, O EVANGELHO E A PSICOLOGIA

Fui levado, certa feita, por amigo dileto, Humberto Vasconcelos, então companheiro de bancada do CEE-PE, para assistir uma palestra do médium baiano Divaldo Franco, na Federação Espírita de Pernambuco, Av. João de Barros 1629, Recife-PE. E confesso que fiquei entusiasmado com as reflexões daquele que é considerado um dos maiores oradores da conjuntura mundial kardecista.

Recentemente, ano passado, na capital baiana, deparei-me com mais um livro do notável propagador da Doutrina Espírita: Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda, pelo Espírito Joanna de Ângelis, sua mentora, de quem tem psicografado mais de 250 obras.

Para quem ainda não conhece detalhadamente a caminhada do médium Divaldo Pereira Franco, recentemente ele foi merecedor de duas gigantescas homenagens. A primeira ocorreu no dia 31 de julho de 2015, por ocasião do 10º Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas de Pernambuco – SIMES-PE, realizado no Centro de Convenções de Pernambuco, no Recife, sob tema “Da Célula à Espiritualidade, a Fascinante Construção do Homem de Bem”, quando ele recebeu o título de Cidadão Paulistense, proposto pelo vereador Fábio Barros, Paulista-PE. A segunda teve lugar na Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, em 6 de agosto passado, quando Divaldo Franco recebeu a Comenda 2 de Julho, outorgada a figuras ilustres que contribuíram ou contribuem para o desenvolvimento social daquele estado e da sociedade em geral. Suas atividades na Mansão do Caminho, bairro Pau de Lima, Salvador, foi a razão da homenagem. A Mansão do Caminho já tirou da miséria mais de 150 mil pessoas, através da oferta de escola e profissão. Nela funcionam creches e escolas que atendem diariamente mais de 3 mil crianças, alimentadas gratuitamente. Lá também funciona um Centro de Saúde, atendendo mais de 2 mil adultos, mensalmente e de forma gratuita. E possui ainda o Centro de Parto Normal Marieta de Souza Pereira, considerado o primeiro do Norte-Nordeste, também com atendimento gratúito. A Mansão do Caminho conta com cerca de 400 pessoas, entre funcionários e voluntários. Um exemplo de solidariedade social numa época de vacas magérrimas como a vivenciada pela Nação Brasileira.

O livro Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda, psicografado por Divaldo Franco, é de autoria de Joanna de Ângelis, uma Mártir da Independência do Brasil, também considerada uma das maiores poetisas da língua hispânica. A obra mediúnica de Joanna de Ângelis é composta por dezenas de livros, muitos deles traduzidos para diversos idiomas, versando sobre temas existenciais, filosóficos, religiosos, psicológicos e transcendentais. Dentre as suas obras destacam-se as da Série Psicológica, composta por mais de uma dezena de livros, nos quais a entidade estabelece uma ponte entre a Doutrina Espírita e as modernas correntes da Psicologia, em especial a transpessoal e a junguiana.

No prefácio do livro acima citado, datado de 30 de junho de 2000, quando ela diz “comemorar modestamente os dois mil anos do nascimento de Jesus na Terra, trazendo sua mensagem libertadora de amor para toda humanidade”, algumas de suas reflexões merecem toda atenção e mais alguns bons instantes de meditação. Vejamos algumas delas: a. Jesus é o mais notável Ser da História da Humanidade, seus evangelhos sendo os mais comentados e discutidos em todos em tempos; b. Muito, entretanto, ainda se pode dizer e examinar sobre Ele e Seus ensinamentos, pois se trata do mais belo poema de esperanças e consolações que se tem notícia; c. Jesus cindiu o lado escuro da sociedade do seu tempo até os dias atuais, transmitindo através dos séculos um precioso tratado de psicoterapia capaz de erradicar os incontáveis males que afligem o mundo atual; d. Apesar da astúcia e perversidade dos seus perseguidores, nunca se deixou atemorizar ou se desviar dos seus objetivos basilares, conseguindo atordoar seus inquisidores inclementes com respostas sábias e muito lúcidas; e. Misturou-se ao povão, com ele apequenando-se sem jamais diminuir sua própria grandeza; f. Em perfeita sintonia da anima com o animus, sempre proclamando Boas Novas viáveis, sempre ambicionando a plenitude, sua mensagem atinge seres humanos que buscam uma autossuperação direcionada à plenitude; f. Apesar das distorções e omissões efetuadas na Sua mensagem, a essência dos seus ensinamentos ainda permanece sintetizada no “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

A leitura de Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda, psicografado por Divaldo Franco, foi motivo de muita reflexão para meu caminhar setentenário de pai, professor, consultor, rabiscador apaixonado e marido novamente presenteado pelo Criador, sempre cristão transecumênico. Um livro que merece ser lido por todos aqueles que buscam a fraternidade solidária muitos pontos acima das denominações religiosas, todas elas simples cabines do grande Transatlântico da Criação, cujo Comandante é Único, Indivisível e Eterno desde tempos indelimitados.

O parágrafo último do livro merece ser aqui reproduzido, como grande final de uma psicografia feita pelo médium internacionalmente aplaudido: “Quando o desespero de qualquer forma circunde a casa mental e o departamento emocional da criatura, cabe-lhe, na dificuldade de discernimento ou de dor em que se encontre, abrir-se à prece e pedir amparo a Deus, tocando-se de luz, porquanto tudo obterá e concedido lhe será o que pedir”.

Uma excelente leitura-meditação para gregos e troianos de todas as crenças, sonhos e caminhadas!!

PS1. Para meu amigo-irmão Humberto Vasconcelos que, um dia, me proporcionou a alegria de ouvir Divaldo Franco em sua companhia. Dos ensinamentos do Franco, deles me tornei entusiasta, tornando-me bem mais espiritualizado.

PS2. Nos próximos 4,5 e 6 de agosto de 2017, no Centro de Convenções de Pernambuco, o 12º SIMESPE – Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas de Pernambuco, quando aplaudirei novamente Divaldo Franco, tornando nonagenário no dia 5 da semana passada, sob as Graças de Deus. Promoção do Grupo Espírita Seara de Deus. Fones: 3434-1128 e 3010-1092 . Poucos lugares sobrando!!


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AMOR E CARIDADE

Há relatos que santificam vivências solidárias com os sofrimentos alheios. Lendo o livro As Vidas de Chico Xavier, Marcel Souto Maior, São Paulo, Leya, 2010, me deparei com a trajetória de uma enfermeira que deveria merecer referências honrosas nos Cursos de Enfermagem deste Brasil que tanto está a carecer de apoio aos mais necessitados, principalmente das classes mais abonadas.

O nome da heroína? Aparecida Conceição Ferreira, enfermeira técnica do Setor de Isolamento da Santa Casa de Misericórdia, Uberaba, Minas Gerais. Nascida em 19 de maio de 1915, em Igarapava, São Paulo, foi criada por um tio. Quando meninota, vendia doces, frutas e verduras para auxiliar nas despesas da casa. Em 1934, casou-se com Clarimundo Emídio Marques e principiou a criar a apanhar crianças de rua para criar. Um acidente com o marido obrigou-a a duplicar suas atividades, mudando-se para cidade mineira de Nova Ponte, onde exerceu atividade de magistério na zona rural, além de trabalhar como parteira. Posteriormente, já em Uberaba, exerceu atividade profissional de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia, quando, a partir de 1957, principiou a tratar de pacientes portadores do Pênfigo Foliácio, chamada vulgarmente de Doença do Fogo Selvagem.

Rejeitados pela Santa Casa de Misericórdia, Aparecida saiu pelas ruas de Uberaba com os doentes que deixavam rastros de sangue por onde passavam, até encontrar um homem que se interessou pelo assunto e que a fez retornar com os enfermos ao hospital, determinando à diretoria que os eles permanecessem internados. O homem providencial era o Promotor de Justiça de Uberaba.

Magoada pelo tratamento recebido pela direção do hospital, Aparecida resolveu ir embora, sendo acompanhada pelos doentes que, impossibilitados de sair pela porta da frente, quebraram um pedaço do muro, indo o grupo alojar-se na própria residência de Aparecida, cujo marido e filhos encareceram-lhe uma tomada de decisão: ou eles ou os doentes. E os doentes foram os eleitos e ela foi auxiliada pelos vizinhos com colchões, cavaletes, tábuas, caixotes e tudo o mais que pudesse servir de camas. À tarde, estavam todos os doze devidamente agasalhados. Posteriormente, compreendendo a missão de Aparecida, marido e filhos retornaram ao lar, ajudando-a nos cuidados com os enfermos.

Dias depois de instalada, recebeu Aparecida a visita do diretor da Saúde Pública e do Assessor Municipal de Educação, que dependências do Asilo São Vicente de Paula. Disseram-lhe que poderia ali ficar por dez dias, até encontrar alojamentos mais convenientes. Ela permaneceu com seus doentes por dez anos! Em 1961 havia 363 enfermos, logo Aparecida percebendo que a situação se agravava e que o local estava inapropriado. Embarcou para São Paulo, onde, no Viaduto do Chá, pedia esmola para seus doentes, chamando a atenção da Segurança Pública. Foi presa por quatro dias, sendo libertada através de uma advogada voluntária chamada Dra. Izolda M. Dias, sua defensora no processo. Na ocasião, um repórter, Saulo Gomes, da TV Tupi, fez uma reportagem, filmando e mostrando a realidade dos enfermos. A reportagem resultou numa ampla campanha beneficente, com a participação de muitas cidades paulistas.

Quando a situação financeira apertava, Aparecida ia para São Paulo, onde contava com o apoio da comunidade espírita paulistana. Segundo ela própria, a população paulistana ajudou muitas vezes mais que a própria comunidade uberabense. E quando a alimentação tornava-se periclitante, Aparecida tomava um caminhão e percorria as fazendas de Uberaba, encarecendo e recebendo alimentos dos fazendeiros.

Certa feita, premida por mil e uma dificuldades, Aparecida resolveu pedir SOS a Chico Xavier, que havia se transferido de São Leopoldo para Uberaba. No dia seguinte, um auxiliar de Chico Xavier levaria dois conjuntos de roupa para cada doente, além de lençóis, fronhas, pijamas, toalhas de rosto e banho, além de vestidos e um par de sapatos para ela. E o que mais impressionou Aparecida foi o número do sapato enviado, 40, um exagero para mulheres de baixa estatura. Como teria Chico adivinhado o tamanho do seu sapato?

Na semana seguinte, foi o próprio Chico em pessoa que visitou sua residência, levando um envelope com 300 cruzeiros, quantia necessária para que ela pudesse saldar as dívidas pendentes e ainda reforçar a despensa.

Em 1961, o número de pacientes do pavilhão de São Vicente de Paula atingiu 363, tornando a área muito diminuta para tanta gente. Foi quando Aparecida encasquetou a ideia de construir um hospital. Deu 300 mil cruzeiros por um terreno oferecido por um amigo, coletas múltiplas feitas nas ruas, e quando se preparava para iniciar a construção, descobriu que tinha caído numa armadilha, posto que o terrena tinha sido adquirido de pessoa errada, os verdadeiros proprietários dispostos a processá-la por invasão de propriedade.

Negociado acordo com os proprietários, Aparecida partiu para São Paulo na busca de auxílios, levando apenas um cartão de apresentação do Chico Xavier para um jornalista já consagrado, Assis Chateaubriand, que pôs à sua disposição suas emissoras de rádio, proporcionando-lhe uma campanha que arrecadou 720 mil cruzeiros.

Visitando, na capital paulista, um Centro Espírita, Aparecida foi convidada compor a mesa de reunião, tendo o presidente da sessão solicitado a aplicação de um passe na presidente da Centro, vítima de uma paralisia repentina que a impedia de andar. Mesmo sem nada ter aprendido sobre o assunto, Aparecida rezou junto à enferma, que no dia seguinte já se levantava, caminhava com suas próprias pernas, tornando-se sua amiga, também companheira em várias campanhas beneficentes. A partir de então, Aparecida começou a aplicar passes curadores em seus doentes, beneficiando inúmeros com resultados surpreendentes.

Internada, em 2009, no Lar da Caridade, novo nome do Hospital do Pênfigo, Aparecida, com problemas cardiológicos, desencarnou na manhã de 22 de dezembro, com 95 anos, depois de mais de cinquenta anos de cuidados múltiplos com doentes e crianças.

Ao tomar conhecimento da desencarnação de Aparecida Conceição Ferreira, Divaldo Franco assim se manifestou: “Recebida com júbilos por verdadeira multidão capitaneada pelo irmão Chico Xavier, mais uma estrela retorna ao mundo espiritual, para iluminar a noite das almas errantes e sofredoras da Terra.”

Sobre a vida e obra de Aparecida Conceição Ferreira, a Dona Cida como era por muitos conhecida, um livro merece ser lido: “Uma Vida de Amor e Caridade”, Izabel Bueno, Editora Espírita Cristã Fonte Viva, Belo Horizonte, Minas Gerais.


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POR MAIS PROFISSIONALIDADE FUTURA

Quando das atividades por mim desenvolvidas Brasil afora, divulgando as linhas principais de um desenvolvimento profissional compatível com os novos e desafiadores tempos modernos, tenho recomendado muito fraternalmente, aos diversos níveis profissionais das instituições visitadas, uma consistente reflexão sobre uma experiência biológica denominada A Síndrome do Sapo Fervido, frequentemente levada a cabo na área biológica. Ela tem servido para despertar em todos uma inadiável Reengenharia Profissional Individualizada, oportuníssima num cenário nacional cada vez mais crítico, onde a criatividade vem se tornando fator indissociável da competência e do compromisso para com uma dinâmica profissional que objetive um casamento, o mais perfeito possível, entre retorno positivo dos investimentos aplicados e satisfação profissional auferida. A experiência biológica é a seguinte: um sapo é colocado num recipiente, com água da sua própria lagoa, ficando estático durante todo o tempo em que a água é aquecida até ferver. O sapo não reage ao aquecimento gradual da temperatura da água, morrendo quando a água principia a ferver. O sapo morre inchadinho e feliz.

Inúmeros profissionais, alguns até com boa folha de serviços prestados em tempos que já não mais voltam, lamentavelmente estão com um comportamento muito similar ao do Sapo Fervido. Não estão percebendo as mudanças que se estão processando velozmente, achando sempre que tudo está bom, que a amizade com os “homens de cima” vai suprir suas deficiências de relacionamento ou relevar suas práticas de antigamente, suas principais muletas. E por não saberem “enxergar” que a era do paternalismo já cedeu vez a uma época de muita profissionalidade, terminam fazendo um estrago dos diabos em suas próprias carreiras, “morrendo” inchadinhos, teimando em esconder o lixo debaixo do tapete, não percebendo que “um pequeno buraco pode afundar um grande navio”. Ou buscando tapar ingenuamente o sol com a peneira, quando o mais oportuno seria “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, assimilando pra valer o pensar da Cora Coralina, uma mulher arretadamente ótima e também poeta, que um dia escreveu que “a verdade não envelhece, o caminho não tem fim, a vida sempre se renova”.

Que procedimentos deveriam ser adotados para que uma Reengenharia Profissional Individualizada surtisse efeitos positivos, beneficiando profissionais e organização? Declino algumas posturas individuais que muito contribuiriam para a superação dos ibopes gerenciais negativos de inúmeros:

a. Comece por pequenos gestos, mas comece, enfatizando a descoberta de novos caminhos, as eternas lamentações sendo apenas um mote para não enfrentar novos desafios;

b. Lembre-se sempre que o valor maior está no envolvimento pessoal, na capacitação, no relacionamento e na influência para fazer as coisas acontecerem;

c. Jamais se deixe iludir pela sensação de ser apenas uma agulha no palheiro;

d. Uma cabeça estratégica é bem melhor que uma mente saudosista, posto que “quem vive de passado é museu”;

e. Experimente dar o primeiro passo, nem que seja para participar acanhadamente das discussões de alguma palestra, ou ler algo sobre novas posturas comportamentais, semente de criatividade;

f. Evite “gastar todo o seu gás”, matutando como fazer sua ideia tornar-se concreta, cansando-se antes de dar o primeiro passo;

g. Observe com mais atenção o que está acontecendo no seu derredor, descobrindo as potencialidades ainda não detectadas.

As “dicas” acima, possuem embasamento teórico em “mandamentos sagrados” deixados pelos que experimentaram na própria pele os dissabores provocados por desagradáveis desatrelamentos, ficando para trás por negligência, desatenção, comodismo ou desprofissionalidade aguda. Refletir sobre cada um dos “mandamentos” abaixo, seguramente fortalecerá o interior profissional de cada um:

1. O que nos faz sobreviver e nos manter interessados, como espécie humana, é o hábito de aprender;

2. O segredo para uma profissionalidade contemporânea é a percepção plena de que somos eternamente inconclusos;

3. Realizam mais coisas as pessoas que aprenderam a pensar regularmente;

4. O verdadeiro aprendizado é aquele consubstanciado numa voraz curiosidade, vivenciada nas oportunidades surgidas;

5. Sozinhos jamais lidaremos com a Vida e com o Mundo;

6. É sempre muito sensato pedir as graças de Deus, posto que ELE é inteligente e sabe infinitamente muito mais do que nós;

7. Uma auto-estima deficiente somente favorece o surgimento de pernósticos e pusilânimes “ispecialistas”;

8. O sucesso é um conjunto integrado de várias coisas ao nosso alcance, todas elas abordadas de maneira correta, sem precipitações nem pirações;

9. A função de toda administração micro e macro é fazer com que todos sejam bem sucedidos;

10. Difícil é reconhecer de pronto um arrogante, posto que ele não mostra esse tipo de comportamento para aqueles que são importantes para ele, principalmente os superiores hierárquicos.

Finalmente, para não torrar miolos, alguns princípios pessoais ajudam a refletir melhor sobre procedimentos profissionais, num dia-a-dia cada vez mais desafiador:

a. Manter sempre uma atitude crítica;

b. Entender em definitivo que só aprende quem tem dúvidas;

c. Desconfiar positivamente dos seus atos e princípios, para contínuas ultrapassagens;

d. Estar seguro de que quanto mais preparado, mais claras são as ideias;

e. Buscar aprender com outras pessoas, comprovando possuir inteligência e capacidade de assimilação;

f. Perceber que só os desinformados e tolos caem no conto da varinha mágica;

g. Desconfiar, mas desconfiar mesmo, dos donos da verdade, dos que se imaginam saber tudo, descobridores de receitas infalíveis;

h. E jamais esquecer que uma das melhores formas de aprender é errar.

No mais, é continuar seguindo adiante, injetando sempre anticorpos nos estilos pessoais de aprender, desaprender, reaprender e apreender. E como o volume dos conhecimentos está duplicando a cada meia década, profissional é aquele que aprende a desaprender com facilidade, para aprender um pouco mais, usando sua intuição criadora para promover o crescimento da organização, das pessoas que nela trabalham e de si próprio, o seu melhor amigo, logo abaixo do Criador.


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HOLOCAUSTO, UM ESTUDO SEMINAL

Ultimamente, um dos assuntos mais pesquisados na área planetária das Ciências Humanas, capaz de preencher salas e mais salas de uma biblioteca, é o que está relacionado com o Holocausto. E um aplaudido analista sobre o mais estúpido assassinato coletivo da história da humanidade, Raul Hilberg (1926-2007), lançou, em inglês e em 2003, pela Universidade de Yale, um estudo seminal, recentemente lançado em língua portuguesa, no Brasil: A destruição dos judeus europeus, São Paulo, editora Amarilys, 2016, 2v., 1658 p. Uma leitura obrigatória para todos aqueles que militam na cidadanização de um mundo mais digno e humano para todos, sem discriminação de qualquer espécie.

A notável pensadora Hannah Arendt, em carta escrita a Karl Jaspers, já definia a grandeza do maior livro de referência sobre a Shoá (Holocausto), agora tornado edição brasileira: “Ninguém será capaz de escrever sobre o assunto sem recorrer a ele (o autor). Numa pesquisa exaustiva de muitas décadas, é um livro “que é um verdadeiro farol, um quebra-mar de história ancorado a seu tempo e a um aspecto além do tempo, imortal, inesquecível, e ao qual nada na produção histórica comum pode ser comparado”. E mais escreveu: “não é apenas uma crônica de horrores. É um estudo cuidadoso, analítico e tridimensional de uma experiência sociopolítica única na história, uma experiência em que ninguém podia acreditar e cujo significado ainda nos atordoa”.

O livro de Hilberg traz depoimentos que promovem o destrinchar minucioso da logística e da implementação da Solução Final ordenada pelo III Reich, um processo de destruição em massa de um povo, o hebreu, no continente europeu, em nome de uma ideologia, a da raça ariana, cultivada em tempos pré-hitleristas, bem antes do nascimento do assassino Adolf Hitler.

Segundo informações colhidas num site especializado, Hilberg era tido como solitário, buscando passatempos na geografia e na música. Embora seus pais participassem de atividades sinagogais, ele, pessoalmente, encontrava irracionalidades na religião dos pais, que provocava alergias nele. Após a Anschluss de 1938, a sua família foi despejada de casa e seu pai preso pelos nazistas, sendo liberado por causa de seu registro de serviço como combatente na Primeira Guerra Mundial. Um ano depois, em abril de 1939, aos 13 anos, Hilberg fugiu para a Áustria com a sua família, alcançando posteriormente a França, todos embarcando em um navio com destino a Cuba. Após quatro meses, Hilberg e seus familiares chegaram aos Estados Unidos em 1º de setembro de 1939, quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu na Europa.

Os Hilbergs estabeleceram-se em Nova York, onde Raul frequentou o Abraham Lincoln High School e o Brooklyn College . Desistindo de ser químico, por descobrir-se não vocacionado, ele abandonou os estudos. Indo trabalhar numa fábrica, sendo posteriormente convocado para o serviço militar.

Tendo servido na 45ª Divisão de Infantaria (Estados Unidos) na II Guerra Mundial , dada a sua fluência nativa e interesses acadêmicos, Hilberg logo foi ligado ao Departamento de Documentação de Guerra, encarregado de analisar arquivos em toda a Europa. Foi sua a descoberta de parte da biblioteca de Hitler encaixotada em Munique , que o tornou interessado na investigação sobre o Holocausto, um termo usado para identificar a destruição genocida dos judeus na Europa.

Retornando à vida civil, Hilberg escolheu estudar Ciência Política, graduando-se no Brooklyn College, em 1948. Em um determinado ponto no curso, Hilberg foi tomado de surpresa por uma observação de um professor seu: “As atrocidades perpetradas mais perversas sobre uma população civil nos tempos modernos ocorreu durante a ocupação napoleônica da Espanha.” Interrompendo a fala do professor, Hilberg indagou por que o recente assassinato de 6 milhões de judeus não figurava na avaliação do docente. O professor Rosenberg respondeu que era um assunto complicado, mas que as palestras só lidavam com a história até 1930. Hilberg ficou impressionado com o desconhecimento docente, servindo o episódio para fortalecer seu interesse pelo assunto. Que se ampliou bastante quando, em 1951, ele obteve uma nomeação para trabalhar no Projeto de Documentação de Guerra.

Ouvindo uma exposição de Salo Baron, a principal autoridade sobre historiografia judaica à época, dele recebeu uma indagação: estaria ele interessado em trabalhar, sob orientação, nos estudos de aniquilação da população judaica da Europa? Agradecendo o convite, Hilberg decidiu escrever a maior parte de seu Ph.D. sob a supervisão de Franz Neumann, autor de uma análise do tempo de guerra do estado totalitário alemão. Neumann foi inicialmente relutante em tomar Hilberg como aluno de doutoramento.

Em 1979, Hilberg foi nomeado para a Comissão Presidencial sobre o Holocausto por Jimmy Carter. Mais tarde, ele serviu por muitos anos como consultor do Conselho Memorial do Holocausto dos Estados Unidos. Após sua eternização, o Museu estabeleceu o Raul Hilberg Fellowship, destinado a apoiar o desenvolvimento de novas gerações de estudiosos do Holocausto. Sua tese de doutorado foi premiada com o prestigioso prêmio Clark F. Ansley, publicada pela Columbia University Press, numa tiragem reduzida.

A Destruição dos Judeus Europeus descreve com uma lucidez argutamente exaustiva os mecanismos políticos, jurídicos, administrativos e organizacionais em que o Holocausto foi perpetrado, como ele foi visto através dos olhos alemães, muitas vezes pelos funcionários anônimos cuja dedicação incondicional às suas funções foi fundamental para a eficácia do projeto industrial do genocídio. Hilberg absteve-se, no entanto, de enfatizar o sofrimento dos judeus, as vítimas ou suas vidas nos campos de concentração.

Um livro que não é apenas uma crônica das atrocidades nazistas, mas “um estudo cuidadoso, analítico e tridimensional de uma experiência sociopolítica única na história.” Muito embora as primeiras iniciativas antijudaicas tivessem principiado, em Roma, no século IV d.C.


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O HOMÃO DA GALILEIA

Filho muito amado de pais extremosos, era de profissão carpinteiro, idêntica a do genitor. Uma atividade que requeria saber escrever e fazer cálculos com precisão, requisitos básicos para o exercício de uma especialidade tida e havida, à época, como “de referência”.

Mesmo sem ter deixado nada rascunhado, possuía esmerado trato, consolidado na escola rabínica de Nazaré. Uma educação sinagogal, que lhe proporcionou uma formação apropriada de homem e de judeu, da parte não-aristocrática de um povo convicto de ter sido eleito por um Deus tido como único.

Percebia-se escolhido para renovar a Aliança, tendo sido ungido como um não-integrante dos meios sacerdotais. Mas que estaria possuidor de um selo de aprovação já anunciado com antecedência de muitas centenas de anos.

Atuando num movimento liderado por um primo próximo, de nome João Batista, depois do assassinato deste constituiu grupo próprio, nele tornando-se Mestre, batizando até mais que o próprio parente e sempre apregoando rupturas dos modos de ser e de viver dos que persistiam em continuar sobrevivendo apenas sob a Lei.

Em suas andanças e falas, favorecia reencontros substantivos com os fundamentos judaicos, que deveriam renascer para o Pai, mesmo que da Lei não se retirasse sequer uma vírgula. Com falas, gestos concretos e proposições, jamais deixou de expressar o mais puro ideal judaico, sempre a reconhecer urgência de uma restauração imediata nos princípios basilares.

Apregoando que o vento soprava onde bem desejasse se manifestar, assegurava que somente os que praticassem a verdade poderiam ver a Luz, confirmando sem restrições o transmitido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.

Sem intenção alguma de julgar quem quer que fosse, encontrava-se ciente sobre a identidade de quem o tinha enviado e de para onde deveria ir, jamais renegando suas tarefas de ser Luz do mundo para os que pelejavam por vida e vida em abundância.

Convivendo com as mais diferenciadas categorias sociais, somente irava-se ao extremo com os hipócritas, aqueles fingidos que se travestiam do que não poderiam jamais ser. E reiterou, em incontáveis ocasiões, que jamais rejeitaria os que dele se aproximassem, buscando novos comportamentos e saudáveis agires.

Ungido certa feita, e por uma vez segunda, com nardo puro, perfume importado de grande valia, recomendou que se guardasse uma certa quantidade para o dia do seu sepultamento, quando regressaria para o seio de quem o havia enviado como um mais que notável profeta.

Portando um ideário intrinsecamente evolucionário para a sua época, o Homão da Galileia desabridamente anunciava que nenhum escravo é maior que o seu senhor, como nenhum mensageiro seria maior do que o remetente, nunca desmerecendo sua condição de filho de Deus obediente.

Sem complexos de superioridade, inúmeras vezes repetiu, para os ensurdecidos de então, que todos aqueles que tivessem fé fariam coisas mais surpreendentes que as dele. E que ainda fariam bem maiores que as por ele produzidas.

Com determinação solidária, apregoava que tocava flauta em praça pública, embora muitos nada percebessem ou não desejassem com ele dançar e que tampouco explicitavam entristecimento diante dos lamentos por ele entoados.

Em múltiplas oportunidades, condoeu-se dos cegos, coxos e prostitutas, exteriorizando entusiasmo pela fé demonstrada por todos eles, seres humanos que não possuíam qualquer empatia com os social e eclesiasticamente bem aquinhoados de então.

Não admitia a serventia simultânea a dois senhores, Deus e Dinheiro, anunciando que o amanhã já comportava suas próprias preocupações. E no seu dia-a-dia de militante garantia recompensa a quem oferecesse ajuda, nem que fosse um simples copo d’água fria, aos rejeitados da sociedade.

Aos que o classificavam de beberrão e comilão, louvava aos céus por somente proporcionar esclarecimentos mais significativos aos menorzinhos e aos que em nada se assemelhavam aos fundamentalistas de plantão.

Enalteceu os verdadeiros, dando como exemplo aquela viúva empobrecida que contribuiu com duas moedinhas numa coleta de dízimos. E para os que jejuavam, recomendava uma boa lavagem de rosto, tornando-o o mais alegre possível, para que ninguém pudesse constatar neles os sacrifícios praticados.

Durante um bom tempo, quase três anos, o Homão da Galileia esperanças concretas semeou, como bom médico que buscava curar os não-sarados, nada exigindo além de muita solidariedade de uns para com os outros. Como um não exclusivista credal, através de parábolas e relatos que favoreciam uma rápida memorização, transmitia boas novas, anunciando a chegada próxima do Reino no íntimo de cada um. Demonstrando ainda aos incrédulos como saciar a fome de muitos mediante uma organização social compatível com a dignidade de todos os participantes.

Em momento algum, o Homão da Galileia exigiu carteirinha institucional de qualquer dos seus admiradores, até prometendo estar sempre presente nos pequenos grupos que o reverenciassem. Sem brabezas, soube diluir no vazio o pleito de uma mãe obsessiva que cabalava lugares privilegiados para dois dos seus filhos, na mesa diretora do escritório do além-daqui.

Ajuntador especial de mentes e corações, bom semeador de palavras, o Nazareno alertava que o egoísmo corrói toda grandeza d’alma, dilapidando as candeias individuais que deveriam, solidárias, iluminar as veredas e os descampados das estruturas cósmicas. E de vez em quando repetia Isaías, um dos seus profetas preferidos, aquele mesmo que denunciava sem contemporizações os que oravam apenas da boca para fora, muito distanciados do coração, considerando os ensinamentos religiosos apenas rituais ditados por alguns de outras eras.

Percebendo-se na reta final de sua estadia terrestre, anunciou que iria adiante de todos para a Galileia, depois da sua imolação, sofrida no madeiro, condenado que foi como subversivo político e blasfemo religioso.

Antecipou-se aos poetas de agora há mais de dois mil anos, ao asseverar que viver não era preciso, ainda que navegar fosse, sempre sob as coordenadas do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

O Homão da Galileia nunca mais voltou. Mas continua mais vivo que nunca, muitos furos acima das instituições que o têm como porta-estandarte, ainda que algumas delas, metidas a única do pedaço, persistam em escondê-lo como propriedade debaixo dos documentos dos seus purpurados, desconhecendo os ensinamentos do mesmo Galileu: o de que não havia mais judeu, nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, posto que todos são um sob as bênçãos de um Criador que não tem nem cabelo, nem barba, nem bigode, tampouco traje e rosto, mas é eternamente glorificado sob o inefável codinome Eu Sou O Que Sou.


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UM DICIONÁRIO FACILITADOR

No campo da espiritualidade, inúmeros ainda se encontram distanciados das últimas análises e interpretações, não percebendo as mudanças que se estão processando muito velozmente nos quatro cantos do mundo, achando sempre que tudo está bom, que a amizade com os “homens de cima” vai suprir suas deficiências ou relevar suas práticas de antigamente, suas principais muletas. Inúmeros militantes religiosos, alguns até com relevante folha de serviços prestados, lamentavelmente estão com um comportamento muito similar ao do Sapo Fervido, terminando por fazer um estrago dos diabos em suas próprias atuações, teimando em esconder o lixo debaixo do tapete ou não percebendo que “um pequeno buraco pode afundar um grande navio”. Ou buscando tapar ingenuamente o sol com a peneira, quando o mais oportuno seria “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, assimilando pra valer o pensar da Cora Coralina, uma mulher arretada de ótima e também poeta, que um dia escreveu que “a verdade não envelhece, o caminho não tem fim, a vida sempre se renova”.

Como se repete a experiência do Sapo Fervido? Muito simples: um sapo é colocado num recipiente, com água da sua própria lagoa, ficando estático durante todo o tempo em que a água é aquecida até ferver. O sapo não reage ao aquecimento gradual da temperatura da água, morrendo quando a água principia a ferver. O sapo morre inchadinho e feliz. Inúmeros portadores de uma mentalidade cristã infantilizada não percebem que a civilização mundial desenvolve-se aceleradamente, com novas e emergentes reflexões sobre os relacionamentos dos seres humanos com o mundo espiritual, o outro lado da rua, sob aspectos filosóficos, científicos, morais e religiosos.

Um dos setores mais desenvolvidos nos últimos tempos, no Brasil, é o da divulgação da Doutrina Espírita, onde exposições orais e escritas estão a exigir um glossário amplamente elucidativo sobre os vocábulos utilizados nos livros desenvolvidos por Allan Kardec, pseudônimo adotado pelo professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em Lyon, França, em 3 de outubro de 1804, que teve como tarefa missionária codificar, metódica, didática e logicamente, os postulados e ensinamentos contidos em suas obras O Livro dos Espíritas (1851), O Que é Espiritismo (1859), O Livro dos Médiuns (1861), O Espiritismo na sua expressão mais simples (1862), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865), A Gênese (1868) e Obras Póstumas (1890).

No Brasil, a FEB – Federação Espírita Brasileira, sediada em Brasília, em muito boa hora resolveu, em 1985, executar o Projeto Série Bibliográfica, favorecendo informações práticas dos livros publicados.

Sobre conceitos e definições compiladas de obras sobre a Doutrina Espírita, a FEB editou O Espiritismo de A a Z, já em quarta edição, 2013, 964 p., favorecendo os estudos e pesquisas aprofundados, também ensejando inspiração para novas iniciativas. Dentre os 2.100 vocábulos e cerca de 10.000 conceitos e definições, escolhemos uma amostra que bem poderá traduzir o esforço gigantesco do Professor Geraldo Campetti Sobrinho, coordenador geral dos trabalhos:

Anticristo – O conjunto das forças que operam contra o Evangelho, na Terra e nas esferas vizinhas do homem.

Atividade espiritual – Aquela que enriquece e eleva a mente, conduzindo-a a um conhecimento superior, à mais ampla compreensão da verdade divina.

Conhecer – Patrocinar a libertação de nós mesmos, colocando-nos a caminho de novos horizontes.

Corajoso – Aquele que nada teme de si mesmo.

Doutrina Espírita – Com a DE tudo está definido, tudo está claro, tudo fala à razão; numa palavra, tudo se explica, e os que se aprofundaram em sua essência encontram nela uma satisfação interior, à qual não mais desejam renunciar.

Educação – A vida tem uma finalidade clara e positiva, que é a evolução. Esta se processa nos seres conscientes e responsáveis mediante renovações íntimas, constantes e progressivas. Semelhante fenômeno denomina-se Educação.

Espiritismo – Ciência de observação, nunca uma arte de adivinhar e especular. Apoia-se sobre fatos, que embasados em raciocínio e rigorosa lógica dão à Doutrina Espírita o caráter de positivismo que convém à nossa época. Ele revive as lições de Jesus, tornando-se a melhor herança a ser deixada aos filhos.

Fanatismo – Na área religiosa é sectarismo que encarcera a liberdade de consciência, pretendendo uma liberdade dirigida na esfera do pensamento, que torna o homem escravo de postulados que lhe proíbem a expansão da alma pela ideia e pela razão.

Inimigos – Os maiores são o orgulho, a vaidade, o egoísmo, a inveja e a ignorância.

Magnetismo – É a utilização, sob nome de fluido, da força psíquica por aqueles que abundantemente a possuem.

Médiuns – Somos todos nós que registramos, conscientes ou inconscientemente, ideias e sugestões dos Espíritos, externando-as, muitas vezes, como se nossas fossem.

Oração – É o elixir de longa vida que nos proporciona os recursos para preservar os valores de edificação, perseverando no trabalho iluminativo.

Reencarnação – Lei que determina venha um Espírito habitar sucessivamente vários corpos, somente ela explicando as diferenças materiais, intelectuais e morais entre os homens, engrandecendo Deus e tornando perfeita a sua justiça.

Religião – É a ligação com Deus que cada Espírito procura manter, na medida do próprio estágio evolutivo.

Vocação – Soma dos reflexos das experiências que trazemos de outras vidas.

Inúmeros outros vocábulos estão disponíveis, favorecendo as mais diversas tonalidades de esclarecimentos, sempre a favorecer a evolução do ser humano na direção do Ômega, reverenciado pelo memorável Pierre Teilhard de Chardin, um jesuíta que soube fazer história evolutiva.


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BINOCULIZAÇÕES DE APRENDIZ

Através de um bilhete colocado no meu correio eletrônico, tomo conhecimento de uma curiosa indagação de um aluno de Ciências Humanas: “Às vésperas da conclusão em um curso superior, que binoculizações me poderiam ser oferecidas, favorecendo-me uma profissionalidade cidadã desprovida de ingenuidades futurísticas e alienações ingênuas? Confesso que estou meio assustado com a bandalheira e os jeitinhos brasileiros que estão desmascarados diante dos cenários internacionais! Não sou moralista nem puritano, mas não me conformo com a imagem do Brasil no exterior, onde estive recentemente: um país tido como de mais corrutos que honestos, mais desbundes que solidariedades, mais fingimentos políticos que propósitos saneadores, onde não se distingue muitas vezes quem é da lei e quem é bandido, os dois lados muitas vezes vestindo farda, batina, toga, jaleco, paletó e macacão. Encareço-lhe algumas orientações para os meus amanhãs existenciais. Inclusive algumas leituras binoculares. Atenciosamente, CLMT”.

Caríssimo jovem: o que eu poderia dizer para um estudante que está concluindo um curso superior se resume em algumas apreensões que sinto diante das leituras de jornais, revistas e alguns livros de cabeceira. Espero que você aproveite as linhas abaixo, sempre se ojerizando dos puritanos e moralistas da atual conjuntura mundial, duas raças que enojam a Criação e favorecem a emersão de extremismos ideológicos .

1. Na sua vida profissional, carregue sempre nas suas anotações três reflexões. A primeira é de Alexis Carrel, cirurgião francês, prêmio Nobel de Medicina: “A inteligência é quase inútil para quem não tem outras qualidades”. A segunda é de Albert Einstein, outro prêmio Nobel (Física), para quem “o primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma”. E a terceira é do criador do detetive famoso Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, um talento espírita cujos livros muito me encantam até os dias de agora: “A mediocridade não conhece nada melhor que ela mesma, mas o talento reconhece instantaneamente o gênio”. Se você refletir bem sobre tais reflexões, perceberá visíveis ilações amplamente convergentes. Seus autores detestavam os sabe-tudos empavonados que se imaginam acima do bem e do mal, sem reconhecerem os de inteligência superior às deles, imaginando-se tampas-de-foguete diante do mundo. Nunca sabendo diferenciar talento e genialidade: os primeiros atingindo as metas além dos outros, os segundos binoculizando metas que ou demais ainda não conseguiram vislumbrar.

2. Siga, como liderança empreendedora, a lição oferecida por um palestrante num seminário sobre Gestão Pública: “O que faz uma gestão ter apoio político não é a habilidade do governante nem a compreensão dos aliados. Uma administração é bem ou mal sucedida se a equipe que a conduz for bem escolhida e se a ação que desenvolve for focada em objetivos claros para construir melhoria na vida das pessoas”. E ele conhecia mais que ninguém a lição deixada por José Saramago, um lusitano dezoito quilates: “Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo”. Um escritor que estava sempre preparado, com as duas mãos e o sentimento do mundo, para novos desafios reflexivos.

3. Leia bastante, entendendo além do que está nas linhas expostas. E lembre-se sempre que nenhuma instituição ensina sucesso, posto que a chave para o sucesso está na sua maneira de pensar, com os olhos voltados para os amanhãs, os ontens apenas servindo para não mais repetir certos encaminhamentos frustrantes. Nunca se olvide da reflexão de Galileu Galilei, um que quase se lasca nas unhas de uma Inquisição que nada tinha de santa: “Não se pode ensinar nada a um homem; só é possível ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si”.

4. Nunca se esqueça de que, na história do pensamento humano, todas as ideias foram consideradas faróis definitivos quando elas apenas refletiam uma periodicidade, decompondo-se quando a inventividade criativa da humanidade as substituía por outras também consideradas faróis, ainda que tão periódicas quanto as anteriores. E perceba, num século XXI ainda um tanto nebuloso, de medíocres dirigentes políticos nas principais áreas desenvolvidas do mundo, que as ciências não são estáticas, aproximando-se ou se reagrupando ao longo dos séculos. E para consolidar sua caminhada, nada como uma leitura bem meditada de um texto sobre os amanhãs dos tempos correntes: Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã, de Yuval Noah Harari, Companhia das Letras, 2016, 444 p. Onde traz uma estupenda advertência: “Em 2016, há um único candidato sentado na sala de espera da história aguardando a entrevista para admissão no emprego. O candidato é a informação. A religião mais interessante que emerge disso tudo é o dataísmo, que não venera nem deuses nem homens – venera dados.”

5. Sinta-se sempre, cotidianamente, um aprendiz de tudo, uma metamorfose ambulante, como proclamava o menestrel baiano Raul Seixas, hoje do outro lado da rua. E não deixe de ler o capítulo 6 – Por que (às vezes) o populismo é muito bom na prática, mas não na teoria – do livro Em defesa das Causas Perdidas, de Slavoj Zizek, Boitempo 2011, um dos mais notáveis filósofos políticos do nosso tempo. Que sabe estimular os que buscam querer pensar sem idiotias: “Para viver, para ser capaz de existir, a mente precisa ligar-se a algum tipo de ordem. Tem de apreender a realidade, como um todo independente […] e tem de prender-se, de forma estável, a certas características do que chamamos realidade”.

6. Seja sempre ecológico. E nunca esqueça, como Ortega y Gasset, espanhol e filósofo, que você é o que lhe cercando está. E se não preservar o seu derredor, logo com ele se findará.

Um abração arretadamente ótimo deste que continua sempre aprendendo, pois sabe que nada sabe.


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PARA MAIS SABEDORIA

Há poucos dias, na FSP de 26 de fevereiro último, li um artigo do notável cientista brasileiro Marcelo Gleiser, hoje radicado nos Estados Unidos. O título do trabalho é provocante: A presença do inexplicável – o inesperado nos muitos níveis de realidade. E o resumo amplia a curiosidade por uma leitura atenta: “Ainda que a ciência busque oferecer chaves de leitura totalizantes para a realidade, o fato é que estamos cercados por mistérios. Há quem considere uma derrota da razão essa incapacidade de decifrar os enigmas que cadenciam a experiência humana. O texto insta o leitor a se deixar surpreender pelo insondável.” Vale a pena capturar na internet o artigo do Gleiser, autor do notável livro A Simples Beleza do Inesperado, recentemente lançado pela editora Record.

Vez por outra, deparo-me com gente que se declara entendido nisso e naquilo numa determinada área, imaginando-se muitos furos acima daqueles que se dedicam décadas de estudos a temas antigos e também correlatos, muito embora sempre conscientes de serem eternos aprendizes, nunca menosprezando ensinamentos dos primeiros desbravadores. Mas “eram homens e, como tais, se enganaram, tomando suas próprias ideias pela luz. No entanto, mesmo os seus erros servem para realçar a verdade, mostrando o pró e o contra. Ademais, entre esses erros se encontram grandes verdades que um estudo comparativo torna apreensíveis”, como alerta Allan Kardec em seu O Livro dos Espíritos, item 145. Muito bem complementado na muito contemporânea questão 628, um baita stop nas pretensões daqueles que se imaginam tampas-de-foguete e definitivos nas matérias por eles desenvolvidas: “para o estudioso, não há nenhum sistema antigo de filosofia, nenhuma tradição, nenhuma religião, que seja desprezível, pois em tudo há germens de grandes verdades que, se bem pareçam contraditórias entre si, dispersas que se acham em meio de acessórios sem fundamentos, facilmente coordenáveis se vos apresentam, graças à explicação que o Espiritismo dá de uma imensidade de coisas que até agora se vos afiguraram sem razão alguma e cuja realidade está hoje irrecusavelmente demonstrada. Não desprezeis, portanto, os objetos de estudo que esses materiais oferecem. Ricos eles são de tais objetos, e podem contribuir grandemente para vossa instrução.”

Numa época em que os russos tornaram-se extraordinários com as experiências de telepatia, muitos cientistas norte-americanos ratificaram a tese de que a mente e o pensamento não são matérias, outros que estudam a sobrevivência da mente após a morte do corpo, e também Joseph Banks Rhine (1895-1980), botânico estadunidense fundou a investigação científica na parapsicologia, definindo a Parapsicologia como “uma ciência da natureza não física, uma disciplina envolvida com fenômenos que falhavam em mostrar relações regulares com o tempo, espaço, massa e outros critérios fisicalistas, escapando a mente dos limites corporais sobre certas condições”, o mundo ingressa num tempo axial. E por tempo axial, segundo Karl Jaspers, é aquela conjuntura onde as ideias se alteraram qualitativa e quantitativamente, onde até o papa Francisco, muito corajosamente distanciado das antessalas sinistras do Vaticano afirmou, em 23/2, que é preferível a sinceridade dos ateus que as hipocrisias dos que se postam de cristãos.
Encontramo-nos numa estupenda encruzilhada da História da Humanidade, onde tudo se convulsiona, nos mais diferenciados aspectos: religioso, axiológico, econômico, político, familiar, relacionamentos humanos, entre grupos sociais e entre países e continentes. Vivenciamos a mais profunda mudança da história humana, onde a instantaneidade das informações ampliam perplexidades, inconformismos e tragédias, incompetências gerenciais e estratégias institucionais, públicas, empresariais, militares e religiosas, onde amplia aceleradamente a busca por uma espiritualidade mais solidária para com os menos favorecidos, de maior conformidade com a sobrevivência do todo planetário.

Atualmente, o ser humano está pensando muito pouco, tornado pela civilização pós-moderna num homem prático, inteiramente voltado para os problemas imediatos, funcionando como uma máquina, não raras vezes recorrendo ao suicídio ou às drogas, por não mais aceitar sua cegueira mental. Age como um robotizado, crendo sem qualquer indagação a partir de uma tradição que lhe foi imposta quando as circunstâncias eram bem outras. Daí se dizer que o ateísmo e a crendice idiotizada são os dois extremos perigosos da atual condição humana, tornadas ausentes as luzes do indispensável esclarecimento espiritual.

Para aqueles que buscam ampliar seu humanismo, recomendo a leitura de O Homem Novo, de J. Herculano Pires, São Bernardo do Campo SP, Correio Fraterno, 2008, 159 p. E também Para uma espiritualidade leiga – sem crenças, sem religiões, sem deuses, Marià Corbi, São Paulo, Paulus, 296 p. E ainda Sabedoria Espírita: aprendendo a viver melhor com Allan Kardec, de Daniel Araújo Lima, Curitiba, Nobilitá, 2015, 142p. Esta última, elaborada por um cearense graduado em Direito e com especialidade em Filosofia pela University of Oxford, busca a imbrincação cognitiva entre a Filosofia e a Doutrina Espírita, buscando respostas para três questões fundamentais: O que podemos saber?, O que devemos fazer? e O que nos é lícito esperar?

No mais, as indicações acima possibilitam um salutar início de uma vida sem preconceitos, abrangente e profunda, densamente cultural, sem as merdalhadas atuais que enodoam uma contemporaneidade desparafusada pelo desconhecimento de uma maioria em como desenvolver uma pensação essencialmente libertadora, uma base racional de crença para combater o agnosticismo que se espraia em todos os continentes.

PS. Plena razão tem J. Herculano Pires em seu livro: “Não basta tornar-se alguém um especialista na letra, é preciso que procure, com humildade, sem pretensões sectárias, a compreensão espiritual.”


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AZEDOS E ABILOLADOS

Não existe gente mais azeda do que aquela que carrega na ponta da língua um monte de nãos recheado de um pessimismo gota serena. Que se assusta com qualquer peido-do-meio, não se desgrudando das preocupações mais abobadas, sempre transformando tudo em odiosas reticências prenhes de derrotismos. Quando tal negativismo desagregador se instala, o azedume é explícito, risível, fazendo aflorar, em alguns, uma dor de cotovelo da bexiga-lixa, em outros uma vontade mórbida de se escafeder, sem qualquer esperança num melhor amanhã.

Os negativistas, hoje seita bastante crescidinha, são, regra quase geral, mal amados, possuem uma estupidificante insuficiência cultural, apesar dos bens importados adquiridos e parcerias já transadas. De muito ínfima razão crítica, portadores de crasso egoísmo, envenenam-se com as mentiras que enaltecem seus pseudo-sucessos e/ou empobrecem políticos que despudoradamente se auto-anistiam ou cinicamente elegem para a mesa diretora do Senado da República personalidade citada na Enciclopédia Britânica como traficante de cocaína.

O reinado dos negativistas se robustece quando a parte menos protegida do corpo social vai-se habituando com os sintomas de uma perversa decadência moral, apavorada com a possibilidade de ser tragada em definitivo por um ciclo econômico onde apenas refestelam-se os eleitos de um autofágico mercado financeiro. Diante de uma acomodação quase simplória, acreditam os negativistas que voar e rastejar são verbos destinados a categorias sociais distintas, com as exceções que se fazem necessárias para, enaltecidas, confirmarem a regra geral.

Sem uma educação cidadã, colonizados e colonizadores não domesticarão seus instintos primários. A lição do mais que notável Albert Einstein baliza quem busca propósitos altaneiros: “Se os homens, como indivíduos, cedem ao apelo de seus instintos básicos, evitando a dor e buscando satisfação apenas para si próprios, o resultado para todo o seu conjunto é, forçosamente, um estado de insegurança, medo e sofrimento geral. Se, além disso, eles usam sua inteligência numa perspectiva individualista, isto é, egoísta, baseando suas vidas na ilusão de uma existência feliz e descompromissada, as coisas dificilmente podem melhorar. Em comparação com os outros instintos e impulsos primários, as emoções do amor, da piedade e da amizade são fracas e limitadas demais para conduzir a sociedade humana a uma condição tolerável”.

Cultivar amizade com pessoas de espírito elevado, ainda que de opiniões divergentes, eis ainda um grande mote revivificador. Admirar pessoas de pensamentos anti-nostálgicos, criadoras de uma atmosfera sadia, que abjuram ser donas da verdade, cultivando serenas apreensões, oxigenadoras de salutares estratégias de superação de situações conflituosas, faz civicamente muito bem.

Estejamos sempre aptos para destruir o comodismo e a estabilidade, os principais adversários da inovação, tratando com equidade direitos e prestígios individuais e coletivos. Reconhecendo que as vassouras novas, além de novas, devem estar de pelagem luzidia, sem pregos-esporões nem enviesamentos cavilosos, mesmo que travestidos de socialista.

Além dos azedos, de quando em vez, deparo-me com um atoleimado ser humano pela frente. Abilolado, como dizia minha vó Zefinha. Sem entender bulhufas de uma contemporaneidade cada vez mais dinâmica, destila besteiras por todos os poros, irracionaliza fatos do cotidiano mais simples, perambula rodeado de crenças malucas, retratando um subdesenvolvimento mental que é o pior de todos eles. E vive a engabelar ele mesmo e o seu derredor com suas invencionices e presepadas.

O João Silvino da Conceição, esse arretado PhD em coisas da vida, costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”. Ele ficou impressionado com uma entrevista concedida pelo Stephen Hawkings, esse físico britânico portador de uma crescentemente gravíssima doença neurológica, quando ele declarou estar se sentindo muito feliz por ter contribuído para um melhor conhecimento das origens do Universo! E o Stephen está recém-casado!!

Numa das últimas visitas que fiz à casa-quase-casebre do Silvino da Conceição, conversa vai, conversa vem, cerveja sempre gelada e uns pedacinhos de queijo coalho para desenfastiar o estômago, ele me disse que bem vive quem sabe entender as três regras de um jogo de damas. Atendendo a minha curiosidade, declinou-as: 1. não se pode fazer duas jogadas por vez; 2. somente se pode mover para frente; 3. quando se chega na última fila, se está livre para se ir onde quiser. E arrematou, riso franco, peito aberto, sem medo algum de ser feliz: “Se todo pangaré soubesse aplicar as regras de um jogo de dama, logo deixaria de ser um pangaré cheio de estrepolias”. E concluiu, cheio de convicção: “Todo ser humano que sofre antes do necessário sofre mais do que o necessário”.

Gosto muitíssimo de papear com o Silvino da Conceição, principalmente quando, vez por outra, insatisfações múltiplas parecem querer catapultar meu otimismo realista para bem longe. Quando de minha visita última, já portão aberto e abraços de até-outro-dia dados, ele presenteou-me com uma das suas, uma “saideira” de primeiríssima: “Quando alguém se considera um ser humano puro e simples, e com um terceiro acontece o mesmo, então é natural se encontrarem para um bate-papo sempre aberto, as diferenças administradas com sabedoria e paciência recíprocas. Quando, entretanto, um deles se considera uma altíssima montanha, o outro pensando o mesmo, as convergências jamais acontecerão. Montanhas podem ser altas, mas jamais podem se tocar…”

De retorno às minhas atividades, depois de um Carnaval arretado de ótimo com a Rejane, sinto-me mais apto na identificação dos pangarés da província, para rejeitar suas farolagens, inclusive políticas, que apenas ampliam inquietações e desconfortos. E bem mais afiado na identificação dos “fingidos e amacacados” do João Silvino da Conceição, engabeladores de panacas, sem esquecer o Mário Quintana, poeta gigante, “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Quintana e Silvino da Conceição, doutores de Vida, sem brasões nem lamentações.


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COMEMORAÇÃO JUBILOSA

Li com entusiasmo e muita atenção, nos feriados momescos, os anais do III Congresso Espírita Brasileiro, ocorrido em Brasília, em abril de 2010, comemorando o centenário de nascimento do médium Chico Xavier. Uma edição da Federação Espírita do Brasil, que teve como apresentação um texto do próprio Chico, em 1971, numa entrevista dada em Uberaba, MG: “Compreendemos que o Espiritismo […] é realmente o Consolador Prometido por Jesus à Humanidade, porque quantos dele se aproximam com sinceridade e com devotamento à verdade, encontram recursos para a resistência contra qualquer perturbação […]; a renovação está chegando para todos, na Terra, à maneira de explosão: explosão de sentimentos, de pensamentos, de palavras, de ações, e sem a explicação do Espiritismo evangélico, que coloca […] os termos do destino e do sofrimento no lugar justo, sinceramente – nós teríamos muita dificuldade para harmonizar o nosso próprio mundo íntimo. Por isto mesmo nós consideramos que o Espiritismo no panorama atual da Humanidade é manifestação da providência da Divina Misericórdia do Senhor […].”

Na memória do III Congresso também está reproduzido o texto Palavras Minhas, do Chico Xavier, escritas em dezembro de 1931, onde o médium, nascido em 1910, se identifica como “filho de um lar muito pobre, órfão de mãe aos cinco anos, tenho experimentado toda a sorte de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome, porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo.” E confessa corajosamente: “Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética, história e vernáculo, como o são as lições das escolas primárias. É verdade que, em casa, sempre estudei o que pude, mas meu pai era completamente avesso à minha vocação para as letras, e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados.

No encerramento do Congresso, a mensagem psicofônica de Adolfo Bezerra de Meneses, conclamando: “Que sejamos nós aqueles Espíritos que demonstrem a grandeza do amor de Jesus em nossas vidas. Que outros reclamem, que outros se queixem, que outros deblaterem, que nós outros guardemos, nos refolhos da alma, o compromisso de amar, e amar sempre, trazendo Jesus de volta com toda pujança daqueles dias que vão longe, e que estão muito perto. Jesus, filhas e filhos queridos, espera por nós.”

No III Congresso Espírita Brasileiro, o mais difícil foi eleger as conferências que mais sensibilizaram o gigantesco público presente. Afoitamente, após concluída a leituras das memórias do evento, explicito as três falas que mais me sensibilizaram, excluída a fala inaugural do Divaldo Franco. A primeira foi a da Dra. Marlene Rossi Severino Nobre, então presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil. O tema exposto pela pesquisadora – Atualidade Científica da Obra Psicografada por Chico Xavier – seguramente foi uma das mais aplaudidas. E ela iniciou sua conferência citando Emmanuel, psicografado pelo próprio Chico: “Químicos e físicos, geômetras e matemáticos, erguidos à condição de investigadores da verdade, são hoje, sem o desejarem, sacerdotes do Espírito, porque, como consequência de seus porfiados estudos, o materialismo e o ateísmo serão compelidos a desaparecerem, por falta de matéria, a base que lhes assegurava as especulações negativas.”

A segunda conferência que muito me impactou foi a do médico Décio Iandoli Júnior, à época vice-presidente da Associação Médico-Espírita de Mato Grosso. Sua exposição, A Vida no Plano Espiritual, retratou como ele próprio, nascido e crescido no seio de uma família católica, muito se inquietava com a questão da morte. E que após a leitura do livro Nosso Lar, por curiosidade e indicação de uma amiga leu O Livro dos Espíritos. E ressaltou: “As revelações mostram que a morte é simplesmente um passo além da experiência física. Simplesmente um passo. Nada há de deslumbramento, de espetáculos, de transformações imediatas, milagres. Somos apenas nós mesmos. … Quando eu medito sobre isso, me lembro de Jesus: Há muitas moradas na Casa do meu Pai.”

O terceiro impacto quem me proporcionou foi a declamação do texto do apóstolo Paulo, segunda epístola aos Coríntios, feita pelo ator Carlos Vereza, militante espírita, ator principal do filme Bezerra de Menezes, o Diário de Um Espírito. Uma exortação que exalta a caridade como a maior das virtudes cristãs.

Memórias de um Congresso inesquecível, que homenageou um apóstolo brasileiro, Francisco Cândido Xavier, hoje um espírito de muita luz!!

Para quem não sabe, há três tipos de adeptos do Espiritismo: 1. Os que se limitam a crer na realidade das manifestações e buscam acima de tudo os fenômenos. Consideram o espiritismo uma série de fatos mais ou menos interessantes; 2. Os que veem nele algo além dos fatos, compreendem o seu alcance filosófico, admiram a moral que disso decorre, mas não a praticam; para eles, a caridade cristã é uma bela máxima, mas isso é tudo; 3. Os que praticam a moral espírita e aceitam todas as consequências desta. Acreditam que a existência terrestre é uma prova passageira, esforçam-se em aproveitar esses curtos instantes para avançar pelo caminho do progresso que os espíritos traçam, aplicando-se em fazer o bem e reprimir suas inclinações malévolas; suas relações são sempre seguras, pois suas convicções os afastam de todo pensamento do mal. São os verdadeiros espíritas cristãos.

Continuo um esforçado aprendiz, sempre pedindo a Deus para clarear mais minha cabeça, a cada amanhecer.


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ULTRAPASSANDO MERDALHADAS

De uns tempos para cá ando enjoado e meio com algumas programações midiáticas. Rádio, televisão, jornais e revistas se estão apresentando com um deplorável nível de criatividade, encharcados de bobajadas, fétidas algumas, outras fingidamente moralizadoras, uma terceiras eivadas de um sensacionalismo ridiculoso. Tudo sem um mínimo de densidade analítica, como se a população brasileira fosse um mar de idiotizados seduzidos pelos informes próprios para uma retenção memorial de alguns instantes, os responsáveis sem mínimos necessários levantamentos criteriosos.

Muitos conhecidos têm evitado noticiários os mais diversos, preferindo acomodar-se nos seus redutos residenciais individualizados, nunca se importando de integrar-se numa contemporaneidade cada vez menos edulcorada por reais acontecimentos, merecedores de ações humanitárias mais solidárias e menos marqueteiras.

Para os que possuem ainda doses substantivas de cidadania planetária, do meu canto de nordestino inquieto pediria vênia para indicar três leituras que bem poderiam ampliar as “enxergâncias” dos porvires que nos aguardam, sombrios sob todas as principais vertentes.

A primeira delas é Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida, Zygmunt Bauman & Leonidas Donskis, Rio de Janeiro, Zahar, 2014, 264 p. Bauman, recentemente eternizado, um dos mais lúcidos pensadores sociais contemporâneos, analisa a perda da sensibilidade, esse sinal maléfico que assola nossa conjuntura, nos anestesiando e nos fazendo desinteressar pelas alterações mundiais necessárias em prol de um ambiente planetário menos injusto, mais distributivista, sem os horrores da fome e das guerras. Na Introdução, a advertência para os apenas curiosos vapt-vupt: “a localização do mal da insensibilidade social numa nação ou num país específico é um fenômeno muito mais complexo que apenas viver num mundo de estereótipos ou suposições.” E complementa: “A geopolítica simbólica do mal não para nas fronteiras dos sistemas políticos, mas penetra em mentalidades, culturas, espíritos nacionais, padrões de pensamento e tendências de consciências.

Lamentavelmente, diante do que aconteceu do lado de fora do Hospital Sírio-Libanês, por ocasião de visitas de solidariedade ao ex-presidente Lula, diante do infortúnio da Dona Marisa Letícia, sua senhora, sem mais esperança de vida, quando um grupo de acanalhados se postou para apupar autoridades que lá compareciam, a Moral e a Ética da atual sociedade brasileira se acham muito bem retratadas por Zygmunt Bauman no seu livro, que deveria ser por todos lido. Uma análise sobre o maior mal do século XXI, a anestesia coletiva pelo sentimento alheio, nos deve inspirar para caminhos menos vexatórios.

O segundo texto é de um filósofo professor de linguística: Ambições Imperiais: o mundo pós-11/9, Noam Chomsky, em entrevista a David Barsamian, Rio de Janeiro, Ediouro, 2006, 198 p. Uma coletânea de nove entrevistas com Avram Noam Chomsky, efetivadas entre março de 2003 e fevereiro de 2005, onde ele desenvolve temas como o medo que se tornou o combustível da indústria da propaganda, as armas nucleares, as “intervenções humanitárias”, o futuro da segurança social e do sistema de saúde e o aquecimento global. Na contracapa, uma nota oportuna por derradeiro, talvez profética: “A ideia de império que por muito tempo foi considerada uma ofensa contra a herança democrática norte-americana, ameaça agora o relacionamento entre os Estados Unidos e o resto do mundo. Noam Chomsly questiona manifestações, examina a origem das aspirações imperiais norte-americanas, analisa suas ramificações internas e externas e debate alternativas a essa perigosa tendência.

A terceira indicação não é um livro recentemente editado, mas um texto por mim já lido algumas vezes, que sempre me retempera os ânimos na minha caminhada por um mundo mais harmonioso, sem estupidezes e cafajestadas autoritárias, como as atualmente praticadas por Donald Trump, um troglodita fascista político alçado às funções de presidente da república de um país que se imagina dono do planeta, perseverando na ideia simiesca de que democracia é força. O livro É isto um homem?, Primo Levi, Rio de Janeiro, Rocco, 1988, 254 p., é um gigantesco testemunho sobre uma tragédia que afetou milhões de pessoas. É considerado o livro mais belo já escrito sobre as atrocidades praticadas sobre milhões de judeus durante a governança assassina do III Reich, sob um funesto ideário nazista edificado sob a ilusão de um reino de mil anos. Na contracapa: “Desprovidos de esperanças e saúde, os judeus nos campos de concentração de extermínio dificilmente poderiam ser identificados com os homens que eram antes da tragédia. Muito menos seus algozes sem rosto, senhores de escravos, mas sem vontade própria, num campo de morte onde ela, afinal, era o menor dos males.

O autor do livro acima, Primo Levi, nasceu em Turim, formado em Química, antes que as leis fascistas impedissem aos judeus o acesso ao ensino superior. Deportado para o campo de concentração Auschwitz, em 1944, voltou à Itália em 1945, sentindo necessidade de deixar seu testemunho sobre suas terríveis lembranças. Eternizou-se em 1987.

Livros de poucas páginas mas de muita densidade analítica, próprios para todos aqueles que manifestem intenções pessoais de melhor se redirecionar nas trilhas da solidariedade humana e da fraternidade universal.

PS. Seguramente, algumas merdosas lideranças governamentais brasileiras ainda não leram nenhum dos três livros. Por ausência de densidade neuronial, certamente.


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LEITURA RESTAURADORA

Recomendo com vivo entusiasmo, para os que se distanciarão dos feriados momescos que se aproximam, a leitura do livro de um físico consagrado mundialmente, apaixonado por questões que até bem pouco tempo não eram consideradas científicas, sempre seguro de que é a curiosidade que se agiganta em nosso interior, nos erguendo acima das mediocridades do cotidiano e das banalidades que asfixiam os despreparados imediatistas ao longo das suas existências nulificantes.

O livro se intitula A simples beleza do inesperado: um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida, Marcelo Gleiser, Rio de Janeiro, Record, 2016, 194 p. Que homenageia “a truta que não peguei e a equação que não resolvi”, ratificando um pensar famoso do filósofo Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.), um pré-socrático: “Não entramos nos mesmos rios, pois as águas que fluem são sempre outras.

O talentoso cientista brasileiro Marcelo Gleiser é articulista da FSP desde 1997, escrevendo semanalmente uma coluna onde explica a ciência para milhares de leigos, inclusive eu. Na Universidade de Dartmouth, EUA, leciona a disciplina “Física para Poetas”, atraindo centenas de pessoas que não possuem nenhuma ligação com a Física. Suas explanações se caracterizam por relatos da História da Ciência e dos seus principais cientistas, sempre com explicações elucidativas sobre os fundamentos dos experimentos científicos demonstrados em sala de aula.

Em 1997, lançou, no Brasil, seu primeiro livro, A Dança do Universo, tratando da origem do Universo sob as vertentes científica e religiosa. O livro, dirigido a um público não especializado, logo tornou-se um marco da divulgação científica em nosso país.

Declaradamente agnóstico, Marcelo Gleiser possui uma postura equilibrada, afastado dos radicalismos religiosos paspalhões, que enervam e multiplicam agnosticismos idiotizantes por uma mídia distanciada léguas das posturas centradas no bom senso e na razão. Eis duas opiniões dele: “Para mim, não há absolutamente nenhuma dúvida de que o sobrenatural é completamente incompatível com uma visão científica”; “Se sou ateu, só fico transtornado quando vejo a infiltração de grupos religiosos extremistas nas escolas, querendo mudar o currículo, tratando a ciência em pé de igualdade com a Bíblia; se concordo que o extremismo religioso é um dos grandes males do mundo; se batalho contra a disseminação de crenças anticientíficas absurdas como o design inteligente e o criacionismo na mídia, por que, então, critico o ateísmo radical de Dawkins? Porque não acredito em extremismos e intolerância. É essa crença ignorante que deve ser combatida. É a hipocrisia usada sob a bandeira da fé que deve ser combatida, não a fé em si.

Gleiser reconhece o papel que a fé desempenhou e desempenha nos contextos socioculturais, históricos e de definição do ser humano, posicionando-se contra o radicalismo tanto religioso quanto antirreligioso. Em suas palavras: “Nós conhecemos o mundo por causa de nossos instrumentos… O problema é que toda máquina tem uma precisão limitada. É impossível criar uma teoria final porque nunca vamos saber tudo. Temos de aprender a ser humildes com relação a nosso conhecimento de mundo, que sempre será limitado.

No seu livro, Gleiser reproduz a metáfora por ele construída no seu livro A Ilha do Conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido, Rio de Janeiro, Record, 2014: “Considere que o conhecimento que acumulamos através dos séculos forme uma ilha. À medida que aprendemos mais sobre o mundo, a ilha cresce. Como toda boa ilha, essa também é cercada por um oceano, no caso, o oceano do desconhecido. Entretanto – e aqui vem a surpresa -, quando a ilha cresce, cresce também o perímetro que a separa do desconhecido. Com isso, ao aprendermos mais sobre o mundo, acabamos de criar mais ignorância: as novas perguntas que podemos fazer que, antes, não podiam ser antecipadas. Ou seja, o conhecimento gera novos desconhecimentos.

A honestidade intelectual do Gleiser sensibiliza todos aqueles que possuem um mínimo de bom senso: “Nada melhor para um jovem com aspiração de ser cientista do que ser forçado a entender de cara que devemos confiar na razão como guia, mas não exclusivamente. O Universo é racional, mas sendo uma ‘estrutura magnífica que podemos compreender apenas imperfeitamente’, nosso pensamento não pode abrangê-lo em sua totalidade.” E declara, sem titubeios: “No Brasil, o kardecismo – a doutrina espírita baseada na obra de Allan Kardec – conta com milhões de adeptos. Tenho vários amigos cientistas que se proclamam espíritas sem ver qualquer conflito entre sua ciência e sua crença no mundo do além.

Confesso que relerei o livro brevemente. Para rabiscá-lo ainda mais, admirando a beleza intelectual de um cientistas brasileiro amplamente desfrescurizado, que não se imagina o ó-do-borogodó, mas que confessa ser um desafio enfrentar, sem destemor nem corporativismos, o grande vão espiritual da contemporaneidade, onde inúmeros ainda não perceberam, sempre proclamando que “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, embora o triângulo nunca tenha sido retângulo.

PS. A dedicatória do livro já sensibiliza de saída para a leitura: “Para a truta que não pequei e a equação que não resolvi.


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UM ENSAIO NOCAUTEADOR

Raras vezes um livro me provocou tanta vergonha como o que acabo de ler, muito embora ampliando ainda mais a minha solidariedade para com os despossuídos: A Fome, de Martín Caparrós, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2016, 714 p. Um ensaio que impressiona, incomoda, fascina e desacomoda todos aqueles que ainda são possuidores de “duas mãos e o sentimento do mundo”, como bem proclamou um amado talento poético brasileiro chamado Carlos Drummond de Andrade.

O autor, argentino nascido em 1957, graduou-se em História pela Universidade de Paris e percorreu meio mundo – Bangladesh, Niger, Quênia, Sudão, Madagascar, Argentina, Estados Unidos e Espanha – entrevistando pessoas que, por diferentes motivos – secas, miséria, guerras, marginalizações as mais diferenciadas – sofreram estupidificantes privações alimentares.

Numa das orelhas, a primeira, uma definição do livro: “A Fome é um livro construído a partir de histórias dos que trabalham em condições bastante precárias para mitigá-la e daqueles que usam o alimento como meio de especulação financeira. A Fome tenta, sobretudo, destrinchar os mecanismos que impedem quase um bilhão de pessoas de suprir sua necessidade de alimentação.” E explicita alguns questionamentos que estão a merecer um vigoroso repensar civilizatório de todos nós: “Seria a fome um produto inevitável de nossa ordem mundial? Fruto da preguiça e do atraso? Um negócio de poucos? Um problema prestes a ser solucionado? O fracasso de uma civilização?” E arremata: “Este é um livro incômodo e apaixonado, uma crônica que faz pensar, um ensaio que relata e um panfleto que denuncia a pressão de uma vergonha incessante e que busca formas de acabar com esse mal.”

Ao iniciar a leitura do livro-bofetada do Caparrós, lembrei-me da Geografia da Fome, do pernambucano Josué de Castro, e de um poema de Manuel Bandeira, outro pernambucano ilustre, intitulado O Bicho, que dizia: Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa,/ Não examinava nem cheirava:/ Engolia com voracidade./ O bicho não era um cão, / Não era um gato,/ Não era um rato./ O bicho, meu Deus, era um homem! Nunca esquecendo um outro pernambucano muito arretado chamado João Cabral de Mello Neto, autor no inesquecível Vida e Morte Severina, que muito sensibiliza quantas vezes seja apresentado.

Para Caparrós, a imagem da fome mais antiga registrada em sua mente é a de um menino com a barriga inchada e as pernas magrinhas de uma região chamada Biafra, quando ele ouviu pela vez primeira a versão mais brutal da palavra fome: hambruna, que não tem correspondência em língua portuguesa, a significar fome generalizada. Um fenômeno que é escândalo do nosso século, “a destruição, a cada ano, de dezenas de milhões de homens, de mulheres e de crianças pela fome, onde de cinco em cinco segundos, uma criança de menos de 10 anos morre de fome em um planeta que é repleto de riquezas. Em seu estado atual, de fato, a agricultura mundial poderia alimentar sem problemas 12 bilhões de seres humanos, quase duas vezes a população atual. Uma criança que morre de fome é uma criança assassinada, escreve Jean Ziegler, ex-relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação.” E indaga repleto de indignação: “Como, porcaria, conseguimos viver sabendo que essas coisas acontecem?”

Uma descrição feita por Caparrós, logo no primeiro capítulo, atordoa, sem resvalar para pieguices, tampouco fazendo uso lacrimoso da dor alheia: “Quando um corpo come menos do que precisa, começa a comer suas reservas de açúcar; depois, as de gordura. Cada vez se movimenta menos: fica letárgico. Perde peso e perde defesas; seu sistema imunológico se debilita, por momentos. É atacado por vírus que provocam diarreias que o vão esvaziando. Parasitas que o corpo não sabe mais rejeitar instalam-se em sua boca, causam imensas dores; infecções bronquiais dificultam a respiração e doem muito. Por fim, começa a perder sua pouca massa muscular: não consegue ficar mais ficar de pé e depois perde a capacidade de se movimentar; dói. Se acocora, fica enrugado, sua pele enfraquece, fica quebradiça; dói. Chora devagar; quieto, espera acabar.”

Segundo pesquisas por nós feitas, “as últimas décadas foram de grande evolução no combate à fome em escala global. Nos últimos 25 anos, 7,7% da população mundial superou o problema, o que representa 216 milhões de pessoas. É como se mais que toda a população brasileira saísse da subnutrição em menos de três décadas. Contudo, 10,8% do mundo ainda vive sem acesso a uma dieta que forneça o mínimo de calorias e nutrientes necessários para uma vida saudável, e 21 mil pessoas morrem diariamente por fome ou problemas derivados dela.”

Nos países subdesenvolvidos, uma em cada sete crianças morre antes de completar 5 anos; nos países desenvolvidos, morre uma em cada 150. Mas as mortes das crianças não aparecem nos meios de comunicação. Nem poderiam: a cegueira moral e a perda da sensibilidade social na modernidade muito contribuem para distanciar tais tragédias cotidianas das consciências humanas.

Um ensaio incomodativo, as informações reveladas por Martín Caparrós, um argentino nascido em 1957, em Buenos Aires, autor de mais de 30 livros, também detentor de vários prêmios internacionais, inclusive o conferido pelo Rei da Espanha. Também tradutor de Voltaire e Shakespeare.

Vale a pena ampliar nossa solidariedade social, apesar de todas as nossas dificuldades.

PS. Sinto asco do tecnocratês, uma barreira cretinamente edificada para evitar a generalização do conhecimento. Atualmente, fome é “insegurança alimentar”. Segundo Caparrós, “um dos eufemismos mais tristes de uma época de eufemismos tristes.”


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LEITURAS MEMORÁVEIS

Uma amiga muito querida, a Káthya, tem no marido e no neto dois admiradores ferrenhos de histórias de guerra, principalmente da Segunda Guerra Mundial. E certamente dois livros, um editado no Brasil em 2015 e o outro divulgado ano passado, provocarão neles horas de leitura prazerosa, favorecendo a ampliação do conhecimento sobre as atividades desenvolvidas pelas principais lideranças envolvidas no conflito que derrotou o regime assassino de Adolf Hitler, dando início a uma nova etapa de redefinição dos rumos do mundo, numa corrida gigantesca iniciada pela Guerra Fria.

O primeiro livro intitula-se Seis Meses em 1945 – Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman: da Segunda Guerra à Guerra Fria, Michael Dobbs, São Paulo, Companhia das Letras, 2015, 494 p. Um relato que ratificaria uma previsão feita por Alexis de Tocqueville, mais de um século antes: “Seus pontos de partida são diferentes, assim como seus percursos não são os mesmos; contudo, cada um deles parece destinado pela vontade dos céus a conduzir o destino de metade do globo.

O livro do Dobbs se desenrola na seguinte cronologia, tudo acontecendo de fevereiro a agosto de 1945: 4/02 – Início da Conferência de Yalta, que vai até 11 de fevereiro; 13 a 15/2 – Bombardeio de Dresden; 27/2 – Vyshinsky organiza golpe comunista na Romênia; 7/3 – Exército americano cruza o Reno em Remagen; 12/4 – Roosevelt morre, sendo sucedido por Truman; 23/4 – Truman adverte Molotov para cumprir promessas sobre a Polônia; 25/4 – Conferência de fundaão das Nações Unidas, americanos e russos encontram-se no Elba; 10/4 – Suicídio de Hitler; 2/05 – Berlim cai diante do Exército Vermelho; 8/5 – Rendição da Alemanha; 26/5 – Emissários de Truman reúnem-se com Churchill e Stálin; 1º/6 – Truman decide usar a bomba atômica contra o Japão; 18/6 – Líderes da oposição polonesa vão a julgamento em Moscou; 24/6 – Parada da vitória em Moscou; 4/7 – Tropas americanas ocupam Berlim Ocidental; 16/7 – Abertura da Conferência de Postdam, que se estende até 2/8; primeiro teste atômico; 26/6 – Renúncia de Churchill; 6/8 – Lançamento da bomba atômica em Hiroshima.

Depois da bomba atômica lançada contra Hiroshima, os primeiros sinais da Guerra Fria surgiram, cujo término aconteceu com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. As versões existentes sobre a Guerra Fria apontam sempre para a ação de um líder responsável, muito embora seus primeiros sinais tenham surgido nos seis meses entre fevereiro e agosto de 1945. Aguarda-se uma nova etapa com o alucinado Donald Trump.

O segundo livro foi editado no Brasil em outubro do ano passado. Relata o período histórico que teve inicio em 1914 e que se estende até 1949, considerado um tempo sem precedente na história da humanidade. Envolvendo pesquisa original e prosa muito envolvente, o livro se intitula De volta do inferno: Europa, 1914-1949, Companhia das Letras, 2016, 574 p., sendo seu autor Ian Kershaw, também responsável pela monumental biografia de Adolf Hitler, editado pela mesma editora, em 2010. No prefácio, Kershaw assim define o seu último trabalho: “Este é o primeiro de dois volumes sobre a história da Europa, de 1914 aos nossos dias. De certa forma, é a obra mais difícil que já escrevi. Cada um de meus livros foi, em certo sentido, uma tentativa de chegar a uma melhor compreensão de um problema do passado. … Pensei em encerrar este primeiro volume em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial. Todavia, apesar de as hostilidades formais na Europa terem acabado em maio daquele ano (prosseguindo até agosto contra o Japão), o rumo funesto dos anos 1945-9 foi determinado de forma tão clara pela guerra e pelas reações a ela que considerei justificado me estender para além do momento em que a paz voltou oficialmente ao continente. … Este volume trata apenas da primeira metade de um século extraordinário e dramático. Uma era em que a Europa travou duas guerras mundiais, ameaçou os alicerces da própria civilização e parecia temerariamente se autodestruir.

O autor retrata seu texto em quatro grandes eixos: 1. A ascensão do nacionalismo étnico, que favoreceu o fim dos impérios Austro-Húngaro, Otomano e russo; 2. As demanda por revisão das fronteiras territoriais entre França e Alemanha, no Leste Europeu, na Europa Central e em todos os Balcãs; 3. O conflito de classes, à medida que os trabalhadores e o incipiente movimento socialista se insurgiam contra os patrões e a aristocracia, sobretudo a partir da Revolução Bolchevique de 1917; 4. A crise do capitalismo, que atingiu a Europa em cheio no início dos anos 1930 e ajudou a preparar o terreno para o nazismo.

O britânico Ian Kershaw, um nascido em 1943, hoje professor aposentado da Universidade de Sheffield, traça um panorâmico retrato desse período histórico com humanidade, estilo e originalidade, aqui e ali acrescidos de uma pitada de bom humor inglês.

Dois textos que muito encantarão os que buscam inteirar-se melhor de um passado histórico que ainda hoje respinga fortemente no desenvolvimento dos quatro recantos do planeta.


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RELATO DE UMA DESINTEGRAÇÃO

Quando o alemão Joseph Goebbels, em 23 de julho de 1944, pronunciou a frase “Hitler precisa de uma bomba debaixo do rabo para usar a razão”, prenunciava o início da derrocada do III Reich, finalmente capitulado em maio do ano seguinte.

Para quem deseja saber mais sobre como tudo aconteceu, uma impressionante pesquisa foi efetivada por Ian Kershaw, editada em 2015, no Brasil, pela Companhia das Letras, sob título O Fim do Terceiro Reich: A destruição da Alemanhe de Hitler, 1944-1945. Que traz na contracapa o seguinte comentário do historiador Mark Mazower, professor da Universidade de Colúmbia, Nova York, e analista de assuntos internacionais do Financial Times: “O Fim do Terceiro Reich tem por tema um dos maiores enigmas históricos do século XX. Como explicar a extraordinária coesão da sociedade alemã até o último minuto? Como entender a ausência de revolta, a pusilanimidade, as taxas relativamente baixas de deserção entre as Forças Armadas e o controle tenaz e renitente do Estado pelo Partido Nazista à custa da vida de pessoas comuns?

O livro foi elaborado com base em amplos levantamentos e consultas múltiplas a fontes inéditas, onde Kershaw, também autor de Hitler, Companhia das Letras, 2010, a biografia clássica do tirano nazista, deixa bem claro o que o livro não retrata: “Não é uma história militar, portanto não descrevo em detalhes o que ocorreu no campo de batalha, limitando-se apenas a fornecer uma visão panorâmica dos acontecimentos nos vários fronts, como pano de fundo para as questões que toma como centrais. Tampouco tento aqui apresentar uma história do planejamento das forças aliadas, ou das fases de sua conquista. Na verdade, o livro examina a guerra sempre pelos olhos alemães, na tentativa de compreender melhor como e por que o regime nazista conseguiu sobreviver por tanto tempo. Por fim, não abordo a importante questão de continuidade além da capitulação e no período de ocupação, nem o comportamento da população alemã quando algum território foi ocupado antes do fim da guerra”.

Na Introdução, Kershaw relata os acontecimentos ocorridos em 18 de abril de 1945, quando tropas aliadas estão às portas de Ansbach, capital administrativa da Francônia Central, onde a resistência do fanático comandante militar da cidade, Ernst Meyer, um coronel da Luftwaffe e com doutorado em física, provocou num estudante de teologia de dezenove anos, Robert Limpert, um tido como incapaz para o serviço militar, a bravura de distribuir folhetos implorando a rendição de Ansbach, para conservar sua arquitetura em estilo barroco. Inutilmente, ele tenta cortar os fios telefônicos do comando militar, sem saber que ele já tinha sido transferido para outra área. Sua prisão e morte por enforcamento ocorreu poucas horas antes da chegada dos americanos, o “corajoso” comandante tendo fugido às pressas da cidade numa bicicleta.

Na Conclusão – Anatomia da autodestruição -, Kershaw revela a disposição fanática dos principais líderes nazistas na compulsão de se encaminhar para uma destruição total, jamais se entregando às forças militares vitoriosas, quando a “rendição incondicional” exigida desfavorecia e muito as loucuras hitleristas de lutar até o fim, até a destruição total de tudo. Para Hitler, “uma destruição total, mas com heroísmo”, era infinitamente preferível ao que ele considerava a saída covarde da capitulação, sendo o suicídio dele o ponto terminal de uma liderança que não mais teria chance de ressurgir, se permanecesse vivo após Nuremberg.

As considerações finais do autor são convincentes: “Entre as razões pelas quais a Alemanha teve capacidade e disposição para lutar até o fim, essas estruturas de poder e as mentalidades subjacentes constituem as mais importantes. Todos os demais fatores – o prolongado apoio popular a Hitler, o cruel aparato de terror, o domínio ampliado do Partido Nazista, os papéis preponderantes do quarteto Bormann-Goebbels-Himmler-Speer, a integração negativa causada pelo receio da ocupação bolchevique e a disposição continuada por parte dos servidores civis do alto escalão e dos lideres militares de prosseguir cumprindo seu dever quando tudo estava perdido -, tudo isso, em última análise, subordinava-se à maneira como o carismático regime do Führer estava estruturado e ao modo como funcionou os seus momentos finais. … As elites dominantes não tinham a disposição coletiva nem os mecanismos de poder capazes de impedir que Hitler arrastasse a Alemanha à destruição total”.

Um relato que esclarece com maestria a destruição de uma iniciativa assassina. Um texto que explica o funcionamento ininterrupto do regime até seus momentos finais, a partir de uma análise criteriosa das mentalidades alemãs em seus diferenciados níveis, dos que davam e dos que recebiam ordens. E como o regime nazista mostrou-se capaz de cometer terríveis atrocidades até seus derradeiros instantes, transformando a Alemanha num inacreditável matadouro. Muito embora, uma carta de alemã encontrada duas semanas após o término da guerra, nos escombros de Frankfurt revelasse: “Sempre me perguntaram se eu gostaria de deixar a Alemanha, e eu sempre faço esta pergunta a mim mesma. Gostaria de tomar parte na reconstrução, embora isso de forma alguma significa que meu ódio contra os responsáveis se abrandou. Pelo contrário, eu gostaria até de ajudar a levar os criminosos para a forca.

Por estas bandas, sejamos cada vez mais brasileiros, abjurando pelo voto consciente os políticos corruptos, também defenestrando os dirigentes incompetentes, os executivos que se aproveitam da miséria dos despossuídos, dos religiosos que iludem, dos fingidos e amacacados que apenas desejam levar vantagem em tudo, tal e qual um infeliz anúncio de cigarro que se imaginava rabo de foguete, enriquecendo poucos e deixando os rabos dos milhões de viciados, e seus pulmões, em petição de miséria.


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UM CARDEAL DESASSOMBRADO

Quando do conclave que elegeu Bento XVI, torci abertamente por um seu concorrente, o cardeal Carlo Maria Martini (1927-2012), ex-arcebispo de Milão e líder da corrente modernista defensora do chamado “espírito do Concílio Vaticano II”. Temia-se que uma noite tenebrosa continuasse a cair sobre a Igreja Católica depois do Concílio Vaticano II, o que de fato aconteceu, apesar da estupenda cultura do eleito, ex-prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Santa Inquisição na terminologia antiga, quando da sua lavra emergiu o silêncio obsequioso imposto ao então franciscano Leonardo Boff, por seu livro Igreja, Carisma e Poder, uma leitura que muito me entusiasmou, após leitura de Jesus Cristo Libertador, à época no Mestrado em Educação da PUC-Rio de Janeiro, 1973. A Santa Inquisição foi instituída, em 1542, pelo papa Paulo II, sendo composta de seis cardeais, se constituindo na mais antiga das nove atuais congregações vaticanas.

Em 2007, o cardeal Martini, juntamente com o padre Georg Sporschill, responsável por um estupendo trabalho social com meninos de rua na Romênia e na Moldávia, elaboraram o livro Diálogos noturnos em Jerusalém: sobre o risco da fé, editado no Brasil, em 2008, pela editora Paulus, com prefácio do próprio cardeal. E no diálogo com os jovens, perceberam que “onde há conflitos, arde o fogo, o Espírito de Deus está agindo.

Na suas primeiras linhas, o padre Sportschill, também jesuíta, postula uma Igreja que ouse e que possua cada vez mais credibilidade, com coragem e abertura, na certeza de que “você aprende mais a crer quando ajuda outros a aproximar-se da fé.” E vai bem mais longe: “Experimentar Deus é a coisa mais fácil e ao mesmo tempo a mais importante na vida. Posso experimentá-lo na natureza, na palavra da Bíblia e de muitos outros modos. É a arte da atenção que se deve aprender do mesmo modo como se aprende a arte do amor ou a arte de se ser bom no trabalho.

Num livro de pouco mais de 150 páginas, sintetizei algumas reflexões do cardeal feitas para atender às perguntas de muitos jovens. Abaixo, algumas das respostas dadas aos jovens por quem muito contribuiu para a melhoria das relações da Igreja, encarapitada muitas vezes em pedestais de pés carcomidos, com uma Europa que está a necessitar de mais harmonia entre suas diversas comunidades e etnias.

“Se olho o mal no mundo, perco o fôlego. Entendo as pessoas que chegam à conclusão de que não há Deus. Só quando contemplamos o mundo – tal como ele é – com os olhos da fé, podemos mudar alguma coisa. A fé desperta o amor, esse nos leva ao engajamento a favor de outros. Da dedicação nasce a esperança – apesar do sofrimento.”

“Deus deu ao homem a liberdade. Ele não quer robôs, não quer escravos, Ele quer interlocutores livres. Interlocutores livres respondem a oferta dizendo sim ou não, eles amam ou não amam, não são forçados.”

“Temos que tomar cuidado de empregar a riqueza como um instrumento para nossa felicidade e para promover maior justiça, de forma que ela não se transforme num peso.”

“Muita desgraça é produzida pelo homem. Isso nos obriga a pensar politicamente e a lutar por justiça, a lutar por um lugar para as crianças, para os idosos, para os enfermos, e a lutar contra a fome e a AIDS. De quais restrições e renúncias sou capaz para que alguma coisa mude?”

”A felicidade existe para ser partilhada. Felicidade não é algo que venha ao encontro da gente ou algo pelo qual tenhamos que esperar. Temos que procurá-la.”
“Numa situação difícil, ou diante de uma grande tarefa, ganha força aquela oração que um dia aprendemos de forma natural, sem pensar nela.”

“Se passo todo meu tempo olhando televisão ou diante do computador, então os ‘músculos’ do amor, da imaginação e do relacionamento com Deus se atrofiam. Estou convencido que temos que nos exercitar: orações, exercícios espirituais, conversações e compromissos sociais. Quem o faz, se aproxima de Deus, sente com mais força que está se tornando interlocutor de Deus.”

Uma das afirmações mais corajosas do cardeal Martini, ela a pronunciou em Jerusalém, numa das suas caminhadas noturnas, quando o notável religioso liderava uma ala da Igreja que desejava desempoeirar os recantos de uma instituição que necessita ir ao encontro dos mais desassistidos do planeta, onde, segundo ele, quando ocorrem os conflitos, são sinais da ação de Deus: “Passos no caminho de Deus podem significar também conhecer outras religiões, aprender uma língua estrangeira, para que a compreensão e a paz se estendam cada vez mais.

Certa feita, o cardeal Martini ouviu de uma senhora abastada que trabalhava voluntariamente num campo de refugiados: “A miséria que a TV mostra todos os dias é deprimente. Agora, me defronto com ela, e meu serviço me dá uma alegria que não tinha ficando em casa. Descubro que muitos refugiados são mais criativos e têm mais espírito de humor, são mais religiosos e melhores amigos que muitos dos meus velhos conhecidos”.

Eis, acima, uma das razões pelas quais sou voluntário do Centro Espírita Irmã Gertrudes, no Recife, assimilando cada vez mais as linhas mestras da doutrina kardecista. E me tornando mais solidariamente humano, a cada amanhecer.


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INICIATIVA OURO DE LEI

No Livro dos Médiuns, também denominado Guia dos médiuns e dos evocadores, editado em Paris em janeiro de 1861, Allan Kardec explicita no Capítulo III (Método) da Primeira Parte (Noções Preliminares), itens 34/35: “Em dez pessoas completamente novatas no assunto, que assistam a uma sessão de experimentação, ainda que das mais satisfatórias na opinião dos adeptos, nove sairão sem estar convencidas e algumas mais incrédulas do que antes, porque as experiências não corresponderam ao que esperavam. Dar-se-á o inverso com as que puderem compreender os fatos, mediante conhecimento teórico antecipado. … Aos que quiserem essas noções preliminares, pela leitura das nossas obras, aconselhamos que as leiam nesta ordem: 1ª. O que é espiritismo – Uma brochura de uma centena de páginas, uma exposição sumária dos princípios da Doutrina Espírita, uma visão geral que permite ao leitor abranger o conjunto dentro de um quadro restrito. Em poucas palavras, ele percebe o seu objetivo e pode julgar o seu alcance. Aí se encontram respostas às principais questões ou objeções que os novatos costumam fazer; 2ª. O livro dos Espíritos – Contendo a doutrina completa, tal como a ditaram os próprios Espíritos, com toda a sua filosofia e todas as suas consequências morais. Quem o lê compreende que o Espiritismo tem um fim sério, que não constitui frívolo passatempo; 3ª. O livro dos médiuns – Destinado a guiar os que queiram entregar-se à prática das manifestações, dando-lhes o conhecimento dos meios mais aprimorados para se comunicarem com os Espíritos. É um guia, tanto para os médiuns, como para os evocadores, e o complemento de O livro dos Espíritos; 4ª. Revista Espírita – Variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos isolados, que completam o que se encontra nas duas obra precedentes, e que representam, de certo modo, a sua aplicação. Sua leitura pode ser feita ao mesmo tempo que a daquelas obras, porém será mais proveitosa e, sobretudo, mais inteligível, se for depois de O livro dos Espíritos.” E Kardec complementa com a sensatez de sempre: “Não nos cabe ser juiz e parte e não alimentamos a ridícula pretensão de ser o único distribuir da luz. Compete ao leitor separar o bom do mau, o verdadeiro do falso.”

Alguns esclarecimentos históricos se fazem indispensáveis, expostos na orelha da primeira coletânea em Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Ano 1958, pela primeira vez publicada no Brasil, em julho de 2016, pela Edicel Editora, tradução do francês de Júlio Abreu Filho: “Um ano após a publicação de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec sentiu a necessidade de publicar o conteúdo dos seus estudos, pesquisas, correspondências e mensagens que continuavam a surgir: ‘Apressei-me, diz Allan Kardec, em redigir o primeiro número, que fiz publicar em 1º. de janeiro de 1858, sem ter dito nada a ninguém. Não havia nenhum assinante, nem financiador algum. A publicação foi feita, portanto, por minha conta e risco, mas não tive por que me arrepender, pois o sucesso ultrapassou a minha expectativa. A partir dessa data, os números saíram sem interrupção e, como tinha previsto o Espírito, a revista tornou-se para mim eficiente auxiliar. … Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder a causa inteligente está em razão da magnitude do efeito’”.

Na contra capa: “Durante onze anos e quatro meses de trabalho intensivo, de janeiro de 1958 a março de 1869, Kardec ofereceu-nos mensalmente toda a História do Espiritismo, no processo de seu desenvolvimento e sua propagação no século dezenove… A coleção da Revista Espírita é a mais prodigiosa fonte de instruções doutrinárias e informações sobre o Espiritismo.”

A Editora Cultura Espírita – EDICEL resolveu fazer história no campo editorial do Espiritismo no Brasil, lançando a coleção completa da Revista Espírita, bastando acessar o site Boanova.net. E logo no primeiro volume, jan-dez de 1858, observarão a intenção maior da publicação: “Nossa Revista será, assim, uma tribuna, na qual, entretanto, a discussão jamais deverá afastar-se das normas das mais estritas conveniências. Numa palavra, discutiremos, mas não disputaremos. As inconveniências de linguagem jamais foram boas razões aos olhos da gente sensata: é a arma daqueles que não possuem algo melhor, e que se volta contra quem a maneja.”

Na Introdução apresentada na primeira revista, publicada em janeiro de 1858, justifica-se a necessidade de editar uma revista de tamanha importância histórica: “Largo espaço será reservado às comunicações escritas ou verbais dos Espíritos, desde que tenham um fim útil, assim como às evocações de personagens antigas ou atuais, conhecidas ou obscuras, sem desprezar as evocações íntimas que, muitas vezes, nem por isso são menos instrutivas. Numa palavra: abarcaremos todas as fases das manifestações materiais e inteligentes do mundo incorpóreo.

A coleção da Revista Espírita é a mais prodigiosa fonte de instruções doutrinárias e informações sobre 0 Espiritismo. Uma iniciativa editorial que merece entusiásticos aplausos!


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POSTURAS SEMENTEIRAS

Em Gana, fundada em 2008, o Meltwater Empresarial Escola Superior de Tecnologia (MEST), juntamente com o programa MEST Incubadora, fornece treinamento, investimento e mentoring para aspirantes a empreendedores de tecnologia, objetivando a criação de empresas de sucesso mundial, criadoras de riquezas e postos de trabalho no próprio continente africano. Além disso, o MEST oferece, a cada doze meses, programa de tempo integral intensivo, capacitando os melhores alunos formados em Gana e Nigéria, favorecendo a construção de empresas de tecnologia bem sucedidas, envolvendo programação de computadores, desenvolvimento de software, gestão de produtos, finanças, marketing e práticas de liderança.

Desde a sua criação, MEST já treinou mais de 200 empresários nigerianos e ganenses e investiu US$ 15 milhões em programa de treinamento e incubação. O MEST foi recentemente reconhecido pela Fast Company como uma das 10 Empresas Mais Inovadoras da África.

Uma das lideranças africanas, Ashok Bhanault, um nascido em 1943 em Mombasa, Quênia, fez a introdução do livro O Futuro de Deus – ética, religião e espiritualidade na nova ordem mundial, de Adjiedj Bakas & Minne Buwalda, editado no Brasil pela editora Girafa, em 2011. Segundo ele, “no livro, eles escrevem sobre as tendências na religião, ética e espiritualidade no século 21, proporcionando uma leitura essencial para pais e filhos, professores e alunos, políticos e policiais, órgãos de governo e instituições de ciências sociais. Ler e absorver essas tendências é muito importante, para que cada pessoa, instituição, organização ou até mesmo governo possa considerar as implicações de tantas transformações em suas políticas e estilos de vida. … O século 21 vai testemunhar o surgimento de ideais e filosofias manifestadas por várias crenças, assumindo um papel importante como doutrinas da conectividade global.

Quais são, segundo os autores, as megatendências atuais? São sete: 1. Individualização da religião num cenário religioso multiforme; 2. Novas ortodoxias e a politização da religião; 3. Comercialização da religião e à midiatização de Deus; 4. Ascensão do Deus Verde; 5. Mercado crescente de crenças apocalípticas e o desenvolvimento de uma consciência mais elevada; 6. Deslocamento do foco da doutrina religiosa para a experiência religiosa; 7. Existência de religiões influenciadas por superpotências multiculturais e de ascensão do moralismo.

Dois outros livros, além do acima citado, um editado em 2013 e outro no ano passado, podem servir de sólida complementação, favorecendo uma compreensão mais consistente sobre os amanhãs que nos esperam, onde uma espiritualidade se consolida a olhos vistos, o ser humano contemporâneo há muito já percebendo que todas as denominações religiosas possuem visões e revelações, inclusive o próprio Cristianismo, com seus santos portadores de ampla mediunidade, conforme comprovações efetivadas pela Doutrina Kardecista.

O primeiro deles, o mais recente, é Homo Deus uma breve história do amanhã, Yuval Noah Narari, São Paulo, Companhia das Letras, 2016, 444 p. Uma combinação monumental de ciência, história e filosofia, numa tessitura capaz de esclarecer os mais renitentes na compreensão de quem fomos, somos e seremos nos amanhãs que nos aguardam.

Tido e havido por muitos analistas como o melhor livro escrito sobre a história da humanidade, comprovando que a guerra está se tornando obsoleta, a fome se encontra em declínio e a morte tornou-se tão somente um problema técnico, apesar dos múltiplos sinais desanimadores que disseminam desesperos, depressões e suicídios entre jovens. Será ainda que as modificações genéticas estarão à disposição de todos ou apenas disponíveis para uma elite biológica capaz de dominar uma Inteligência artificial que saiba coordenar os aspectos mais relevantes da vida e da sociedade? Tudo analisado e estruturado a partir de uma visão incrivelmente original de nossos ontens, sempre mesclando com maestria pesquisas de ponta e estupendas análises de redescoberta de quem fomos e do que seremos.

Um segundo livro, editado em novembro de 2016 pela Companhia das Letras, Editora Globo, 848 p., é de autoria de Thomas Mann, escrito em 1924, e intitula-se A Montanha Mágica. Narra a história de Hans Castorp, um jovem e promissor engenheiro naval, acometido de tuberculose, internado num sanatório situado nos Alpes suíços. No internamento, o paciente se relaciona com inúmeros personagens enfermos, portadores de um sem-número de conflitos espirituais e ideológicos antecessores da Primeira Guerra Mundial. Considerado a obra-prima do premiado escritor alemão, o texto trata de temas os mais variados: estados doentios e corpóreos, a arte, o amor, a natureza do tempo e da morte, o embate entre democracia e totalitarismo. O autor ressalta que desenvolverá seu texto “pormenorizadamente, com exatidão e minúcia – pois desde quando a natureza cativante, ou enfadonha de uma história depende do espaço ou do tempo que exige? Sem medo de sermos acusados de meticulosidade, inclinamo-nos, pelo contrário, a opinar que realmente interessante só é aquilo que tem bases sólidas.” Uma leitura que não ser feita de afogadilho, muito pelo contrário. Necessita de tempo disponível para meditar sobre uma época que jamais retornará.

Leituras sementeiras, certamente amplamente cidadanizadoras, para finais estágios mentais paulinos (1Co 13,11).


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PARA OS DIAS PRIMEIROS DE 2017

Neste início de 2017, num momento em que a expansão da mente humana se torna cada vez mais estudada nos centros científicos mais adiantados, um recente debate sobre o “Futuro de Deus” na TV norte-americana envolveu dois talentos mundiais. De um lado, Deepak Chopra, médico indiano radicado nos Estados Unidos, cujos livros dedicam-se à difusão da filosofia oriental. Do lado oposto, Leonardo Mlodinow, professor de física no Instituto de Tecnologia da Califórnia, autor de O Andar do Bêbado, best-seller mundialmente aplaudido.

Visões de mundo distintas. “Para o primeiro, a realidade existe numa consciência que antecede a vida no Universo; o segundo acredita que só a física pode explicar a criação do cosmo. Um defende a espiritualidade, o outro, a ciência”. Quatro questões fundamentais – o Universo físico, a vida, o cérebro humano e Deus -, foram explicitadas num diálogo cordial e respeitoso, onde suas interpretações promoveram divergentes pontos de vista numa perspectiva dos amanhãs da humanidade.

Nas livrarias brasileiras, os diálogos acima foram editados pela Sextante – Ciência x Espiritualidade, Deepak Chopra & Leonard Mlodinow -, reproduzindo o que aconteceu no auditório do Instituto de Tecnologia da Califórnia perante uma plateia de admiradores, cientistas e leigos, cada qual com suas convicções e dúvidas.

No prefácio, um esclarecimento dos autores: “este livro abrange dezoito tópicos, com ensaios dos dois autores. Cada pensador contou seu lado da história, um tema de cada vez. Porém, em cada tópico, quem escreveu depois fez isso com o texto do outro à mão, sentindo-se à vontade para apresentar uma réplica. Como as réplicas tendem a convencer as plateias, buscou-se ser justo sobre quem teria essa vantagem”.

Quatro tendências culturais são observadas atualmente. A mais visível é a confiança cada vez menor nos líderes religiosos. Em pesquisa de 1988, os líderes religiosos eram os mais confiáveis na sociedade americana, decaindo para o quarto lugar, em 1993, depois de farmacêuticos, professores universitários e engenheiros. A segunda tendência se relaciona com o desencanto com a religião organizada, face os escândalos acontecidos, principalmente com a prática da pedofilia. Uma terceira tendência se relaciona com uma disposição mental pluralista, onde muitos tendem a encarar a religião como ficção útil. E a quarta prende-se à autonomia intelectual, onde cada um pode ter sua convicção religiosa sem a intermediação de organização religiosa.

Num dos tópicos – Qual o futuro da fé? -, Mlodinow afirmou: “acreditar é humano, e acreditar no Deus tradicional parece uma tendência viva que continua muito bem, com a perspectiva de um futuro longo e estável”. E Chopra declarou: “a crença se torna um conhecimento em que se pode confiar, e, sobre essa base, Deus pode ser reverenciado outra vez”. Textos conscientes que engrandecem a convivialidade entre os de pensares diferentes.

Para todos os brasileiros, particularmente os pernambucanos e pernambucanizados que nem eu, que seja melhorado o bom em 2017, descobrindo-se a essência das coisas. Que nossas mentes nos impulsionem para um caminhar de cabeça serenamente mais erguida, mais solidário e menos solitário. E que tenhamos suficiente coragem de correr o risco de efetivar até as boas ideias passadas, muitas delas ridicularizadas porque não devidamente entendidas pelos que se estacionaram nos pretéritos.

No raiar de 2017, saibamos abordar com serenidade as razões mais recônditas dos méritos fingidos. Reconhecendo as urgências e as ressurgências, para erradicar as previsões megalômanas, redimensionando acabrunhadas esperanças, as hipocrisias estrepitosamente vencidas pelas consistentes intercomplementariedades entre o ter e o sonhar.

Empenhemos múltiplos esforços na busca de uma “viabilização do impossível”, ousando muito além da mera “implementação do viável”. Jamais olvidando que a miséria é muito má conselheira, além de conservadora, saudosista e autoritária. Lastimando menos, cidadanizando-se mais, para adquirir novas posturas, pessoais e comunitárias, percebendo, sempre sem medos, que pão-trabalho-liberdade-civilidade é a melhor das receitas para se obter uma paz social nunca cemiterial.

Encontremos novas lideranças políticas, multipliquemos os Héldercâmara e os Chico Xavier, sem jamais menosprezar os severinosdemaria do poeta João Cabral de Mello Neto, para quem “o dinheiro é muito parecido com estrume; se não ficar espalhado, fede muito”. Posto que ainda vale a pena pugnar por um Brasil para todos os brasileiros, com os Direitos Humanos jamais sendo confundidos com favorecimentos a banditismos de qualquer idade ou classe social.

Que os mais lúcidos se envolvam, evitando a proliferação dos pústulas. Que as atenções para o Ensino Fundamental se multipliquem, desbobocadamente. Que as Universidades não se transformem em estrebarias, os mais talentosos sendo amplamente aplaudidos. Que a estabilidade no emprego não favoreça a malandragem, nem a vitaliciedade acoberte cavilosas divinizações.

Orgulhemo-nos das nossas tradições culturais, jamais humilhando as das demais regiões da Terra. Porque o frevo, que é pernambucano, necessita ser também admirado pelo mundo afora. E aprofundemos nossos conhecimentos culturais, evitando as firulas dos que apenas desejam levar vantagens, fingindo-se de popular.


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CRIANÇAS DIFERENCIADAS

O notável baiano Divaldo Franco, um dos maiores médiuns vivos do cenário kardecista mundial, numa conferência realizada nos Estados Unidos, narrou um caso acontecido na Mansão do Caminho, instituição infanto-juvenil por ele coordenada no Centro Espírita Caminho da Redenção (Rua Jayme Vieira Lima 104 – Pau de Lima, 41235-000 Salvador – Bahia – Brasil). Resumindo:

Um menino de cinco anos era tão endiabrado que o seu apelido era Júlio Terror. Segundo Franco, “ele sabia de tudo, estava sempre no lugar que não devia, na hora errada, falava o que não era próprio, não ficava quieto, e não sabíamos como educá-lo. Eu usei todos os métodos possíveis: o carinho, ele me agredia; a severidade, ele não obedecia; deixei-o por conta própria e ele ficou aborrecido”. E continuou Divaldo: “Certo dia, o porteiro da instituição me comunicou pelo telefone da portaria que uma senhora desejava insistentemente falar comigo. Pedi que informasse que eu não estava. Ao desligar, saiu debaixo da mesa o Júlio Terror, olhar zombeteiro, logo censurando-me: – Mentindo, hein?? Liguei, então, para a portaria e disse que atenderia a senhora pois já havia chegado. E o menino reagiu: – Mentindo de novo, porque você não saiu, como é que chegou? Tentei justificar: – Às vezes também minto. O rebate veio de imediato: – Mas não deve. Busquei explicar: – Há dois tipos de mentira: a mentira branca que é uma desculpa, e a mentira pesada, a negra. E nova pergunta veio à tona de imediato: – “Ah!! Até a mentira sofre de preconceito de cor?!”

E o médium famoso concluiu: “Julinho Terror era índigo. Tudo que lhe falávamos, ela perguntava Por quê? Certo dia ele estava subindo no muro, e eu lhe propus: – Julinho desça daí. -Por quê? – Porque você vai cair. -Como é que você sabe? – Por que todo mundo cai. – Ah! Mas eu não vou cair. E não caiu”.

A palestra feita pelo Divaldo Franco resultou num livro bilíngue editada no Brasil pela LEAL sob título A Nova Geração: Visão Espírita das Crianças Índigo e Cristal, conjuntamente com a neurocientista Vanessa Cristina Zilli Anseloni, Ph.D., Psy.D., da Universidade de São Paulo. No capítulo 5 do livro, alguns esclarecimentos são de fundamental importância: “O índigo é uma criança rebelde que muitas vezes é confundido com o hiperativo e cria uma terrível dificuldade da educação, porque ela não fica quieta durante a aula, não tem capacidade de manter a atenção, tem sempre uma resposta nova, quase atrevida, para qualquer problema. E os adultos que estão acostumados a impor, entram em área de atrito.” Ressalta ainda: “Importante notar a diferença entre os que são índigo dos hiperativos. De acordo com as observações científicas do Instituto Nacional Americano de Drogas de Abuso (NIDA), a desordem de atenção deficitária e hiperatividade consiste num padrão persistente de níveis anormais de atividade, impulsividade e desatenção que aparecem com maior frequência e mais severidade do que tipicamente observado em indivíduos comparáveis de desenvolvimento. A hiperatividade é um sinal de que algo está em desajuste. A hiperatividade em si mesma não classifica o índigo. Ela pode ser um dos sinais comportamentais da criança índigo.

As crianças índigo são divididas em quatro grandes categorias: as humanistas, as artistas, as conceituais e as interdimensionais ou transdimensionais. As humanistas são aquelas que possuem uma natural tendência para ajudar. São generosas, gentis, embora não fiquem quietas nem sejam obedientes. As artistas possuem uma inquietação especial, não se interessando pelas doutrinas científicas, tampouco excogitações filosóficas. As conceituais têm grande aptidão para a música, para a solidariedade, para o trato social com outras pessoas. E as transdimensionais vê os Espíritos desde cedo, identificando-lhes as auras, percebendo-lhes os sentimentos.

As crianças índigo necessitam de uma educação mais espiritualizada.

No capítulo 8 do livro citado, os autores revelam que espíritos mais elevados estão chegando à Terra, para auxiliarem na grande transição planetária. São as crianças denominadas cristal. Não são rebeldes, mantendo-se silenciosas, observadoras, responsáveis. Não são inquietas e são introspectivas, gentis e amorosas.

Os autores anunciam que mundiais transformação já estão acontecendo nos quatro cantos do planeta, exigindo novos ensinamentos e procedimentos educacionais, favorecendo a emersão de crianças dotadas de uma estrutura mental diferenciada, fortalecendo a esperança num mundo mais fraterno e pacífico.

No livro, Franco e Anseloni relatam descobertas acontecidas entre os anos 1990 e 2000, quando os neurologistas dos Estados Unidos solicitaram ao Congresso Americano que considerassem esse decênio como o da Década do Cérebro. Homologado o pedido pelo Congresso, tal período passou a ser considerado como “o mais grandioso da evolução das referidas neurociências.” E foi em tal período que ocorreu uma maravilhosa descoberta. Em 1992, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, o neuropsiquiatra Michael Persinger, “analisando o cérebro humano mediante uma tomografia computadorizada, através de um escaneamento topográfico com emissão de pósitrons, identificou uma área que brilhava no cérebro humano. Ele percebeu que o cérebro emitia uma específica luminosidade. Resolveu procurar o neuropsicólogo Dr. Vilayanur Ramachandran que, examinando essa luz cerebral, chegou a uma conclusão curiosa: toda vez que ele anunciou o nome de Deus, aquela luminosidade aumentava. Eles resolveram, então, denominar essa área entre os lóbulos temporais como ‘o ponto de Deus’.

Indo mais adiante: “mais tarde, a grande física norte-americana Danah Zohar, professora da Universidade de Oxford, veio examinar a questão, e depois concluiu que nessa área cerebral localizava-se a inteligência espiritual, definindo, após acuradas reflexões, que nesse campo se encontra o correlato biológico da inteligência espiritual. Equivale dizer que o Espírito já não é mais uma produção cerebral, mas que este decodifica-lhe os conteúdos profundos através nos neurônios.” (grifo nosso)

E uma conclusão extraordinária se estabeleceu entre inúmeros neurocientistas: a criatura humana não é somente um ser constituído de células, mas também uma consciência de natureza transpessoal!!

Divaldo Franco concluiu sua palestra, reproduzindo Joanna de Ângelis, seu Guia Espiritual: “O amor é o único tesouro que, quanto mais se divide, mais se multiplica”.

Feliz 2017 para todos aqueles que ainda persistem em manter suas esperanças numa Fraternidade Universal irreversível e perene !!


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GUIAS HISTÓRICOS E CULTURAIS

Outro dia, num educandário recifense de classe média, particular e misto, todos vestibulandos 2016, apresentei uma questão na fase final de um papo sem fricotes, a ser respondida por escrito: Na opinião de vocês, quem é a mulher mais célebre de todos os tempos, em todas as áreas da história? A classe toda se agitou, a votação tomou conta do ambiente, tudo transcorrendo na mais esfuziante participação coletiva.

Dos quase duzentos votantes (rigorosamente 197), Maria, a mãe do Homão da Galileia só foi lembrada por três alunos, duas mulheres e um homem, possibilitando-me a oportunidade de recomendar um livro sem bobajadas religiosas edificadas como verdades absolutas: Maria: a mãe de Jesus, Jacques Duquesne, RJ, Bertrand Brasil, 2005, 194 p. E ainda apontei três leituras de textos apócrifos (não canônicos) que despertaram a curiosidade de inúmeros cristãos sobre a mãe do Homão: o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho do pseudo-Mateus e o Livro da Infância do Salvador. A fonte citada foi Apócrifos da Bíblia e pseudo-epígrafos, 2v., Eduardo de Proença (org), SP, Fonte Editorial, 2010/2012. E incentivei todos para que pesquisassem no Google a Sagrada Família, consultando ainda o evangelho de Lucas (2,40), de tríade (Jesus, Maria e José) muito difundida a partir da Renascença.

Aproveitei a oportunidade para sugerir também aos presentes um livro que muito ampliará os conhecimentos de crentes e não crentes: Para conhecer a Bíblia: um guia histórico e cultural, Philippe Sellier, SP, Martins Fontes, 2011, 332 p. Sua leitura proporcionará uma visão mais consistente sobre a riqueza e a diversidade dos Livros que compõem o AT e o NT, seus personagens e os episódios que marcaram a cultura ocidental, incentivando uma plêiade de notáveis – escritores, filósofos, pintores, iluminadores, mestres-vidraceiros, escultores, gravadores, diretores de cinema e de televisão e cordelistas, além de exegetas e analistas em assuntos religiosos.

O autor do livro acima, Sellier, é professor emérito da Universidade de Paris IV – Sorbonne, traz informações históricas e culturais elucidadoras por excelência. Alguns exemplos: na expressão corrente “separar o joio do trigo” (Mt 13,24-30), joio em latim é zizania, que gerou a expressão “semear cizânia”, significando “introduzir perturbação, discórdia”; a expressão “descobrir seu caminho de Damasco”, ainda hoje usada, tem origem no Atos dos Apóstolos 9, quando o fariseu Saulo de Tarso, um perseguidor de cristãos, converteu-se aos cristianismo, após ter sofrido uma queda de cavalo, ficado cego e ver, posteriormente, caídas as escamas dos seus olhos, significando uma mudança radical de vida; o Salmo 119, um poema organizado em ordem alfabética no hebraico, foi aplicado pelos cristãos à Lei do Amor do Evangelho; o Evangelho de São João, escrito em Éfeso pelos anos 90 e diferentes dos outros três, denominados sinópticos, posiciona-se contrariamente às tendências pré-gnósticas surgidas ao final do primeiro século da nossa era, tendo o último capítulo (21) sido provavelmente acrescido pelos que cercavam o apóstolo.

Leituras que amadurecem consciências religiosas, favorecendo o que dizia o apóstolo Paulo: “quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e racionava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino” (1Co 13, 11).

Com base nos resultados pífios do levantamento feito pelos alunos, também fiz menção a uma biografia sobre a mãe de Jesus, escrita por uma brasileiro. Intitulado Maria: a biografia da mulher que gerou o homem mais importante da história, o livro foi editado pela Globo, em 2015, tendo como autor Rodrigo Alvarez, um pesquisador que escreve sob assuntos complexos de um jeito muito compreensivo, sendo a leitura do seu texto de grande utilidade para os neófitos no conhecimento dos temas relacionados com os misteriosos desígnios de Deus para com esta singular personalidade. Muitos acontecimentos, esquecidos em papiros empoeirados, foram resgatados pelo autor, favorecendo uma compreensão mais nítida sobre a hoje considerada “Mãe de Deus”, uma mulher notável, que após uma gravidez controvertida, de uma fuga para o Egito, das pregações do filho ainda quase adolescente e de sofrimentos insuportáveis aos pés do madeiro onde ele foi crucificado como subversivo, dividiu a história da humanidade em antes e depois do seu próprio filho, o “deus encarnado”, na concepção de John Hick, teólogo de referência internacional, premiado, em 1991 com o Prêmio Grawemeyer, destinado ao pensamento inovador da área dos estudos de religião, autor do aplaudido A Metáfora do Deus Encarnado, RJ, Vozes, 2000, onde “a ideia da encarnação divina é melhor compreendida como ideia metafórica, e não literal, Ele agindo através da corporificação de um amor que é reflexão humana do amor divino”.

Finalmente, para solidificar mais as reflexões escritas e orais de uma vida futura, profissional e pessoal da turma de vestibulandos, uma ferramenta de muita valia, inclusive para estudantes de Ensino Médio que pretendem alcançar uma vivência acadêmica consistente, de sólidas estruturas cognitivas: Os 100 argumentos mais valiosos da filosofia ocidental: uma introdução concisa sobre lógica, ética, metafísica, filosofia da religião, ciência, linguagem, epistemologia e muito mais, Michael Bruce & Steven Barbone (orgs), São Paulo Cultrix, 2013. Na contracapa a proposta: “Esmiuçando a prosa filosófica, normalmente densa, os autores separaram 100 argumentos famosos e influentes, incluindo citações-chave, para explicar a abordagem e o estilo original. Cada argumento é revelado em sua forma essencial, com premissas e conclusões claramente identificadas e a forma do argumento especificado”.

PS. Um Natal 2016 muito porreta, sem muitos sacos de Noel, embora recheado de mil e um bons propósitos não fingidos, mais solidário com todos aqueles que, no Brasil, desempregados, podem ser classificados como os “Severinos de Maria”, do sempre lembrado poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto, que devem ser mais respeitados e com pleno direito a terra, trabalho, capacitação profissional e liberdade.


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ASSUNTOS DA SEGUNDA GUERRA

1. UM ASSASSINO COVARDE

Um oportuno livro-reportagem, relatando o acontecido nos dias 15 e 17 de agosto de 1942 nas costas nordestinas, quando o submarino alemão U-507 torpedeou covardemente cinco dos nossos navios mercantes – Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará – ensejando a entrada do Brasil na guerra, atendendo anseios da população que saiu às ruas em protestos furiosos.

Intitulado U-507: o submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Marcelo Monteiro, Salto-SP, 2012, 344 p., o texto relata o drama de mais de 600 brasileiros, vitimados por um plano terrível dos nazistas do III Reich, executado nas costas de Sergipe e Bahia, que tentava amedrontar o Brasil por este se encontrar numa postura aparentemente neutra, embora colaborando com o esforço de guerra norte-americano.

O submarino assassino assim foi descrito por Monteiro: “Fabricado em 1940, o submarino tem 1.120 toneladas de deslocamento na superfície, com 76,76 metros de comprimento. Movido por uma combinação de motores diesel e elétrico, quando submerso só pode usar a propulsão elétrica, que, ao contrário dos motores a combustível, não precisa de ar. Em contrapartida, a navegação submersa se dá a uma velocidade bastante inferior, a apenas 4 nós, cerca de 7,5 quilômetros por hora, enquanto, na superfície, a diesel, o U-507 pode alcançar 10 nós, ou 18,5 quilômetros por hora. Contudo, o principal está nas duas pontas da embarcação: na proa e na popa, duas salas podem carregar, juntas, até 22 torpedos, cada um deles capaz de afundar um navio de grande porte.

Nos meses que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial, o então ditador brasileiro Getúlio Vargas buscou aparentar uma neutralidade diante do conflito. Assim, em 2 de setembro de 1939, tornou público o Decreto-Lei 1.561, onde seu artigo primeiro assim explicitava: “O governo do Brasil abster-se-á de qualquer ato que, direta ou indiretamente, facilite, auxilie ou hostilize a ação dos beligerantes. Não permitirá também que os nacionais ou residentes no País pratiquem alto algum que possa ser considerado incompatível com os deveres de neutralidade do Brasil.” Paralelamente, no entanto, o Brasil iniciou o reaparelhamento das suas Forças Armadas, sempre com apoio dos Estados Unidos.

Ainda em 1941, antes mesmo do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro, as relações entre Brasil e Alemanha se encontravam estremecidas, bem antes da criação do Ministério da Aeronáutica brasileiro, onde aeronaves são fornecidas pelos Estados Unidos, também auxiliando o governo norte-americano na construção de campos de aviação. Ressalte-se que a capacitação dos pilotos brasileiros foi patrocinada pelos EEUU.
A partir de 1941, alguns fato ampliaram a fúria do III Reich em relação ao Brasil. Em janeiro, quando da efetivação da Conferência de Chanceleres Americanos que redundou no rompimento de relações com os países do Eixo, uma varredura feita pela polícia brasileira, em conjunto com o FBI, capturou 36 agentes alemães italianos e japoneses em atuação no território brasileiro, inclusive Franz Wasa Jordan, agente especial alemão, de insuspeitada periculosidade, que tinha a missão de assassinar o chanceler Oswaldo Aranha.

Através de rádio recebido de Karl Dönitz, comandante as operações alemães no Atlântico, autorizou o comandante do U-505, Harro Schacht a utilizar “manobras livres” ao longo da costa brasileira, não mais havendo restrições a ataques aos nossos navios, tanto em alto mar quanto em regiões costeiras. Segundo conceitos divulgados à época, Schacht era “destemido, dedicado e impiedoso em ação, o típico oficial disposto a qualquer coisa pelo III Reich”.

* * *

2. O INFERNO DA GUERRA 1939-1945

Quem desejar conhecer sobre o sofrimento e morte de milhões no período 1939-1945, onde 27 mil pessoas morreram diariamente entre setembro de 1939 e agosto de 1945, a leitura de um livro considerado pelo Washington Post como “a melhor obra sobre a guerra escrita em apenas um volume … feito monumental sobre todos os aspectos”, é mais que suficiente. Intitulado Inferno – o Mundo em Guerra 1939-1945, de Max Hastings, RJ, Intrínseca, 2012, 764p., seu autor sendo considerado um dos maiores historiadores militares do mundo, o livro traça um vasto painel da Segunda Guerra Mundial em todas as suas frentes, iniciando com a agonia da Polônia, invadida covardemente pelos nazistas, em setembro de 1939, enfocando comoventes testemunhos de pessoas comuns, documentados em cartas, diários, memórias e depoimentos.inferno

No livro, o autor esclarece alguns assuntos relevantes. Alguns deles: “A concepção ocidental moderna de que a guerra foi travada por causa dos judeus é tão generalizada que se deve enfatizar que não foi esse o caso. Embora Hitler e seus seguidores preferissem atribuir aos judeus a culpa pelos problemas da Europa e pelas injustiças sofridas pelo Terceiro Reich, a luta da Alemanha contra os Aliados era sobre e dominação hemisférica”; “A limitada atenção dada pelos Aliados às dificuldades dos judeus durante a guerra foi uma fonte de frustração e de revolta para outros judeus bem informados e é motivo de grande indignação desde então”; “Quase todos os participantes da guerra sofreram em algum grau: a escala variada e a natureza diversa de suas experiências são temas do livro, mas o fato de as aflições de outras pessoas serem piores pouco faziam para promover a estoicismo pessoal”.

Os testemunhos prestados, documentados em cartas, diários e memórias, muito contribuíram para o autor ir além de uma mera narrativa dos eventos trágicos acontecidos entre 1939-1945., onde o esforço de guerra alemão foi conduzido com assombrosa incompetência, enquanto o exército de Hitler lutava com eficácia estupenda. Realça ainda a morte de mais de um milhão de indianos, em 1943, devido à negligência do governo britânico. Análises feitas sem contemporizações nem inconsequências.

Uma leitura sem apologias que amplia o horror pela guerra e suas tenebrosas sequelas, embora ressalte que nem sempre Churchill e Roosevelt eram a voz da razão. Que um deles acreditava, sem muita convicção, que “os conflitos do futuro serão bastante diferentes, e talvez eu não esteja sendo precipitadamente otimista ao sugerir que serão menos terríveis”. No que acredito que serão “diferentes”, embora nem um pouco menos terríveis.


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UM JUDEU MUITO ESTUDADO

Confesso que uma segunda leitura do livro muito ampliou minhas enxergâncias sobre o Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador, a primeira tendo acontecido há mais de uma década. Quando li pela vez primeira o texto de Jesus segundo o judaísmo: rabinos e estudiosos dialogam em nova perspectiva a respeito de um antigo irmão, Beatrice Bruteau (org.), Paulus, SP, 2011, 2ª. edição, logo o percebi como uma contribuição notável para a ampliação do diálogo entre cristãos e judeus, substituindo preconceitos chiliques por consistentes conhecimentos, favorecendo gigantescos poços de energia espiritual entre os dois sistemas religiosos, ensejando uma fraternidade mais convincente e solidária, imprescindível para acalmar as atuais turbulências planetárias, trumpianas por derradeiro.jc

Advertindo que a sua intenção não é a de converter judeus ao cristianismo, tampouco vice-versa, Beatrice Bruteau, cofundadora da Scola Contemplationis, uma comunidade em rede internacional de contemplativos de todas as tradições, sediada na Carolina do Norte, apresenta três motivações para a efetivação do seu trabalho. A primeira delas tem a ver com o próprio Jesus. Segundo ela, “faz algum tempo que tenho a impressão de que o cristianismo, na qualidade de religião que fala de Jesus, é em muitos aspectos sobremodo distinta da religião que Jesus praticou pessoalmente e cuja prática estimulou”.

A segunda motivação se encontra relacionada com o povo judeu. Segundo ela, “os maus-tratos sofridos por judeus da parte de cristãos é uma longa história de vergonha e amargor. … É trágico que os judeus viessem a odiá-los em função do que os cristãos fizeram com eles”.

A motivação terceira está vinculada aos próprios cristãos, quando muitos anseiam ver Jesus em seu contexto original, assimilando melhor a atuação do Homão sob perspectivas judaicas, embora a maioria de ambas as partes ainda nutra dificuldades para discutir o tema sem sectarismos emocionais.

Antes do primeiro ensaio, a organizadora reproduz no livro uma reflexão de Laura Bernstein, psicoterapeuta infantil e mestre pela Universidade de Chicago, intitulada Uma Judia Escreve Sobre Jesus, o Judeu. Transcrevo seu texto integralmente: “Não posso escrever sobre Jesus. Sobre como você entrou em minha vida abruptamente, em meus 17 anos quando meu primeiro amor, do Moody Bible Institute, me apresentou a você e você se tornou meu segundo amor por algum tempo. Aprendi a rezar em seu nome e também consultei sua mãe sobre questões espirituais. Minha mãe disse que cultuar você era pior que ser prostituta. Fui para a faculdade, meu coração oprimido, minha cabeça em uma coroa de espinhos. Durante anos parei de me comunicar com você. Tivemos um estremecimento. Parei totalmente de rezar e comecei a pagar a psiquiatras pela minha salvação. E tornei-me eu mesma terapeuta, um médico ferido, ainda buscando, ansiando, sofrendo; ainda não rezando. Décadas mais tarde, a escola rabínica me atraiu, e vi-me lançada no deserto de seu gramado natal, Jehoshua – aprendi hebraico, li a Torá, cantei salmos, entoei súplicas místicas. Chamei você de meu amado irmão quando os homens amish que estavam no jardim me perguntaram se eu o amava. E você veio a mim em um sonho: juntos recitamos orações litúrgicas em outro jardim. Seus olhos eram transparentes, suas mãos macias. Você me deu dois presentes – um cachecol e um par de meias, vestes para a jornada. Para manter abrigado meu pescoço? Para evitar que me esfriassem os pés? Nas minhas mãos, reluzia o tetragrama como estigmas – o nome sacratíssimo, impronunciável, de nosso pai. Está bem… Tudo está bem. Posso escrever sobre Jesus.

O livro organizado pela Bruteau tem quatro partes – Concepções históricas e teológicas, Avaliações e interpretações, Concepções pessoais e A Conversa continua -, possui 250 páginas e um epílogo da autora, curto e denso, onde ela agradece aos colaboradores, ansiando por uma outra linha de desenvolvimento de estudos e pesquisas, a de passar do nível acadêmico ao congregacional e familiar, multiplicando as atividades inter-religiosas que atualmente já fecundam promissoramente os horizontes judaico-cristãos.

No prefácio do livro Cristianismo da perspectiva judaica, por aqui não publicado, seus editores assim se pronunciaram: “Acreditamos que chegou a hora de os judeus aprenderem sobre o cristianismo em termos judaicos: redescobrir as categorias básicas do judaísmo rabínico e escutar a maneira como soam as categorias cristãs básicas quando ensinadas nos termos desse judaísmo rabínico. Ouvir o cristianismo em nossos próprios termos é de fato compreendê-lo, quem sabe pela primeira vez”. (Christianity in Jewish Terms, Colorado, USA, Westview, 2000).

Alguns ensaios do livro merecem atenção, muita reflexão e apreendências: A evolução das concepções judaicas a respeito de Jesus, Conversando sobre a Torá com Jesus, Jesus e eu, e Jesus – um profeta do judaísmo universalista.

A leitura do livro da Beatrice Bruteau seguramente proporcionará uma mais acurada compreensão sobre o Homão da Galileia sob múltiplas perspectivas, favorecendo uma espiritualidade mais acurada, historicamente separando o joio do trigo nas denominações judaico-cristãs. Também substituindo preconceitos por conhecimentos, ensejando a emersão de uma humanidade mais ampla e plena.

PS. Para quem deseja se enfronhar melhor sobre a vida desse evolucionário muito amado pelo Pai, recomendo para início de 2017 a leitura de JESUS – A BIOGRAFIA, de Jean-Christian Petitfils, SP, Editora Benvirá, 2015, 528 p. Uma análise baseada nas mais recentes descobertas arqueológicas e aquisições da exegese bíblica, principalmente a partir dos manuscritos do Mar Morto.

PS – A solidariedade prestada pelo torcedor colombiano ao Chapecó, na última quarta-feira num campo de futebol de Medellin, sensibilizou um sem-número de espectadores, inclusive eu, que cheguei às lágrimas. Uma demonstração inequívoca de fraternidade latinoamericana. Força Chape !!!!


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PRESENTES DE NATAL CLASSUDOS PARA AMIGOS ÍDEM

Uma amiga muito querida, colega de estudos, pesquisas, reflexões e militância em prol de um mundo menos violento e mais fraterno, solicita sugestões de livros para presentear no Natal, os contemplados sendo amigos seus de sólidas caminhadas culturais, situados muito acima das mediocridades políticas que enxovalham a nossa atual vida brasileira.

Com alegria, escolhi seis livros para uma consistente lembrança natalina, que deverá ser sempre acompanhada de um oferecimento carinhosamente fraternal e criativo.

1. HOMO DEUS – UMA BREVE HISTÓRIA DO AMANHÃ, Yuval Noah Harari, São Paulo, Companhia das Letras, 2016, 444 p.yu

Do mesmo autor de Sapiens uma breve história da humanidade (dois milhões de exemplares vendidos no mundo), um PhD em História por Oxford, nascido israelense em 1976, analisa o futuro da humanidade com excepcional maestria, combinando ciência, história e filosofia, buscando entender quem somos e para onde estamos indo. Várias questões são pesquisadas minuciosamente. Uma amostra: O que representa a existência de uma inteligência artificial que gerencie aspectos cada vez mais relevantes da vida e da sociedade?; Num mundo dominado por algoritmos, até que ponto o livre-arbítrio será importante para as futuras gerações?; O que significa o fim da fome, se considerarmos a brutalidade com que tratamos milhões de animais para nos alimentar? Uma análise que possibilita análises múltiplas sobre quem fomos e que caminhos tomamos para chegar até aqui, na direção de amanhãs cada vez mais iluminados.

2. JESUS DE NAZARÉ – O QUE ELE QUERIA? QUEM ELE ERA?, Gerhard Lohfink, Petrópolis, Vozes, 2015, 486 p.

Sem exigir qualquer conhecimento prévio, este livro sobre Jesus nos leva a aprofundar as questões tratadas por especialistas, colocando o leitor diante de questões decisivas. Uma delas: Será que a Igreja divinizou Jesus posteriormente ou interpretou corretamente seu mistério? Outra: Aquilo que foi divulgado por Jesus originou em uma utopia e começo de um novo mundo, ou uma esperança única para sarar as feridas do nosso planeta? E mais: Quem foi Jesus? Um rabino inteligente? Um profeta de palavras poderosas? Um revolucionário social radical? Ou um curador carismático de sucesso?

3. ESCRITOS JUDAICOS, Hannah Arendt, Barueri, SP, Amarilys, 2016, 894 p.

Uma coletânea de ensaios produzidos entre 1930 e 1960 por Hannah Arendt (1906-1975), considerada uma das intelectuais mais importantes do século XX, que trata especificamente de questões relacionadas aos “assuntos judaicos”, período em que moldou seu entendimento da história e da política. Hannah esmiúça os desafios enfrentados pelos judeus, analisando temas como a assimilação e o acesso à política, o antissemitismo como categoria social e a criação do Estado de Israel e o Sionismo.

Segundo Cláudia Perrone Moisés, professora de Direito Internacional da USP e Coordenadora do Centro de Estudos Hannah Arendt, “este livro é precioso para todos aqueles que, tendo ‘amor ao mundo’, desejam refletir, de forma inteligente e fundamentada, acerca dos grandes desafios que ainda devem ser enfrentados no mundo moderno.

4. EU E DEUS – UM GUIA PARA OS PERPLEXOS, Vito Mancuso, SP, Paulinas, 2014, 440 p.

Por séculos, o pensamento de Deus foi divulgado a partir da Igreja e da Bíblia. Ainda hoje essa postura predomina. O presente livro, de autoria de um teólogo casado, pai de dois filhos e professor da Universidade San Rafaelle de Milão, segue uma trilha diferenciada, pretendendo falar de Deus a partir do Eu, no ar livre do pensamento, convicto de que “só os pensamentos que surgem em movimento têm valor” (Nietzsche). O autor justifica seu texto: “Esse livro nasce da consciência da gravidade do tempo que o Ocidente está vivendo. Falo de gravidade porque toda grande civilização foi grande apenas à medida que soube alcançar a harmonia entre saber de Deus, ou do divino, enquanto sentido abrangente do viver, e hierarquia dos valores, e saber do mundo, enquanto experiência concreta da natureza e da história. … Por isso, uma religião imposta a uma sociedade se torna simplesmente inútil; e sempre por isso uma sociedade sem enraizamento na religião se torna presa fácil do caos, é corroída pelo niilismo e, pior ainda, pelo comercialismo. … Decorrendo disso uma depressão coletiva da esperança e da imaginação social e, pior , uma desconfiança de fundo acerca da humanidade em si mesma.” Hoje, “mundo sem religião se encontra sem coesão interna, esmagado sob uma dimensão só, em poder de um egoísmo que sabe apenas calcular, muito próximo do cinismo, às vezes do desespero”, lamenta o autor.

5. A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann, SP, Companhia das Letras, 2016, 842 p.

Escrito em 1924, agora editada a partir da edição produzida pela S. Fischer Verlag, 2002, relata a trajetória de um jovem e ingênuo engenheiro chamado Hans Castorp, quando ele se vê internado num sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços, nele se deparando com inúmeros personagens dotadas de conflitos espirituais e ideológicos que antecedem a Primeira Guerra Mundial. Obra-prima do renomado autor alemão, nascido em 1875 e eternizado em 1955.

6. O NOVO TESTAMENTO, tradução de Haroldo Dutra Dias, Brasília, FEB, 2016, 607 p.

Pela primeira vez surge um projeto de tradução do Novo Testamento, diretamente dos manuscritos gregos, com foco na linguagem e sem menosprezar as questões culturais, históricas e teológicas. Profundamente enriquecido pela riqueza das suas notas, “onde expressões idiomáticas, palavras enigmáticas, tradições religiosas, questões culturais e históricas, arqueologia e crítica textual são abordadas de forma direta e sucinta, favorecendo o entendimento do texto.” Na contra capa, o objetivo: “Transportar o leitor ao cenário onde Jesus viveu, agiu e ensinou, a fim de que escute suas palavras, seus ensinamentos, como se fosse um morador daquela região, e então possa ouvir a voz do Mestre galileu em toda sua originalidade, vigor, riqueza cultural, para compartilhar com Ele a pureza genuína dos ensinamentos espirituais superiores.” Nascido em 1971, em Belo Horizonte, MG, o autor estuda há alguns anos hebraico, aramaico e tradição judaica, sendo Juiz de Direito na capital mineira.

Presentes valiosos para mentes privilegiadas, as que já são paulinamente adultas, deixando para trás os pensamentos e análises ingênuos próprios dos ainda infantilizados.


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INCAPACITAÇÕES DESTRUTIVAS

Se alguém desejar ler um romance de suspense não ficcional que retrata de forma meticulosa a ascensão vertiginosa de Adolf Hitler ao poder, o maior assassino da história da Humanidade, uma notável reconstituição histórica se encontra explicitada no livro No Jardim das Feras: intriga e sedução na Alemanha de Hitler, Erik Larson, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2012, 448 p.

E o relato tem início em 1933, quando o professor William E. Dodd, da Universidade de Chicago, sem qualquer experiência no complexo mundo da diplomacia, recebe um inesperado convite do então presidente Franklin Delano Roosevelt para assumir a Embaixada dos Estados Unidos na Alemanha, uma aparentemente privilegiada função agora não mais desejada pelas perspectivas negras que se anunciavam através de comentários advindos de turistas e analistas argutos.nj

Devidamente orientado para manter uma posição de neutralidade em relação ao novo governo, que já se iniciara pondo as garras de fora, implementando o estabelecido no livro Mein Kumpf (Minha Luta), escrito na prisão pelo novo mandatário máximo, Dodd se instala em Berlim, juntamente com a esposa Mattie e seus dois filhos adultos William Jr. e Martha, esta uma mulher desvinculada das discrições diplomáticas mínimas então vigentes, logo tornada deslumbrada pela pomposidade social, a animação dos eventos diplomáticos e o charme sedutor dos homens mais significativos do III Reich, principalmente o do chefe da Gestapo Rudolf Diels, famoso pelas sua incontáveis bimbadas em lugares pouco discretos, nunca dantes para tal fim destinados.

Durante os seus primeiros meses na Alemanha, a família Dodd logo percebeu, com estupefação, a crescente perseguição aos judeus, a instalação da censura na imprensa e a implantação de novas e terrificantes leis. Preocupações transmitidas pelo Embaixador Dodd ao Departamento de Estado, recebidas com cretiníssima indiferença pelos dirigentes máximos da diplomacia norte-americana, mais preocupados em receber uma dívida de US$ 1,2 bilhão, contraída com magnatas americanos.

Mas tudo mesmo começou umas semanas antes da chegada de Dodd, numa quinta-feira 29 de junho de 1933, quando dois funcionários consulares receberam a visita de Joseph Schachno, 31 anos, médico recém chegado de Nova York e devidamente instalado num dos subúrbios berlinenses. Que tinha sido violentamente chicoteado, dias antes, por dois homens fardados da gangue nazista, sob acusação falsa de conspiração contra o Estado. Devidamente hospitalizado e com um novo passaporte, logo fugiu com a esposa para a Suécia, seguindo posteriormente para os Estados Unidos.

O perfil do novo embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, de birô, burocracia e sala de aula, beirava a simplicidade idiótica de quem se encontrava distanciado dos sinais animalescos que emergiam nos cenários germânicos, já identificados através de um comunicado anteriormente enviado ao então muito lerdo Departamento de Estado: “Com raras exceções, os homens que comandam este governo têm uma mentalidade que vocês e eu não conseguimos compreender. Alguns são verdadeiros psicopatas e em qualquer outro lugar estariam em tratamento”. As prisões, os espancamentos e os assassinatos já aconteciam aos montes, praticados pelas Tropas de Assalto, as famigeradas SA, que praticavam barbaridades sob o eufemismo burlesco de “praticar custódia protetora”, vitimando comunistas, socialistas, ciganos, deficientes e judeus.

O livro do Larson, uma leitura que embrenha por madrugadas várias, pode ser definido como um romance de suspense repleto de personagens altamente ambivalentes, alguns idióticos, outros animalizados, a grande maioria hipnotizada por alucinados nazistas, submetida a uma liderança máxima de inteligência privilegiada, embora voltada para ideários funestos, ainda hoje reacendidos, aqui e ali, por psicopatas que se imaginam seguidores perpétuos de posturas arianas antissemitas.

Em setembro de 1936, o nomeado embaixador norte-americano em Paris, William C. Bullitt, assim opinava sobre as atividades de Dodd: “ele tem muitas qualidades admiráveis e simpáticas, mas está quase idealmente despreparado para seu cargo atual”. O conceito negativo de Dodd se alastrava rapidamente, proporcionando ao famoso colunista Drew Pearson a publicação de reflexões contundentes numa coluna da United Features Syndicate, em dezembro de 1936, sobre a missão diplomática do embaixador, classificando sua atuação como “um fracasso total”, retratando a incapacidade dele de ajustar-se às emergentes manifestações do regime nazista.

O livro alerta, numa didática que não infelicita a dinâmica romanceada dos acontecimentos históricos, sobre os infortúnios que podem ser cometidos por personalidades despreparadas para o exercício de cargos que requerem decisões eivadas de consistentes estratégias políticas. Incluindo, aqui, as praticadas pelos familiares mais próximos. Um exemplo significativo pode ser colhido através de um telegrama secreto de Moscou para Nova York, em janeiro de 1942, classificando Martha, a filha de Dodd, de “mulher talentosa, esperta e instruída”, alertando que a mesma “requer controle constante de seu comportamento”. Um dos agentes soviéticos testemunhou contundentemente: “Ela se considera comunista e diz aceitar o programa do partido. Na realidade, é uma representante típica da boemia americana, uma mulher sexualmente corrompida e pronta para dormir com qualquer homem bonito”.

O talento de escritor, associado ao de historiador-pesquisador tornaram o livro de Erik Larson de leitura pra lá de sedutora, favorecendo o conhecimento de fatos que humilharam a dignidade mundial, ao mesmo tempo que advertindo para as terríveis consequências advindas quando se nomeia ou elege personalidades dotadas de inteligências limitadas ou pouco dotadas para as atividades de comando, que requerem competência, criatividade e compromisso solidário com os destinos de todos os seres humanos, sem as discriminações que enegrecem o caminhar de cada um.


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ACHADO CIDADANIZADOR

Dentre minhas preferências literárias, aprecio temas vinculados à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). E a leitura do diário de uma garota judia de catorze anos que vivia no gueto de Lodz, na Polônia, encontrado perto das ruínas dos crematórios de Auschwitz-Birkenau pela médica do Exército Vermelho Zinaida Berezovskaia, em junho de 1945, me comoveu bastante, fortificando minha ojeriza radical pelas práticas violentas que afetam crianças e adolescentes.o-diario-de-rywka

Somente tornado público sete décadas depois do final da guerra, O Diário de Rywka: encontrado em Auscwitz em 1945, publicado pela primeira vez 70 anos depois, Rywka Lipszyc, São Paulo, editora Seguinte, 2015, retrata os temores, horrores, sonhos e esperanças de uma quase criança marcada por tragédias acumuladas pela perda dos pais, deportações de dois irmãos e uma vida em condições bastante precárias ao lado de primas.

Rywka, depois que o gueto se transformou num campo de trabalhos forçados, depois da ocupação da Polônia pelos alemães em 1939, perdeu os pais, dois dos seus irmãos foram deportados, ela passando a viver com duas primas em situação muito precária. Suas angústias, pesadelos e sonhos, registrados entre 1943 e 1944, veio a se constituir no documento mais importante sobre a vida da população judaica confinada em Lodz.

O diário de Rywka retrata a vida dos judeus em Lodz entre 1943 e 1944: medos, trabalhos forçados, fome e miséria. Mas também mostra os modos de resistir e protestar, como uma estratégia de dar sentido a um derredor horripilante. As memórias encontradas é mais que um mero documento histórico. É um testemunho da força e da fé de uma adolescente que queria sobreviver, apesar de todos os sofrimentos causados por uma perseguição criminosamente urdida por um regime assassino, quando “até a falta de comida tornava os habitantes do gueto mais animais do que humanos”.

Um trecho do diário bem revela o espírito forte de uma quase criança de 14 anos, que bem percebe o lado benéfico das Ciências Humanas: “Na nossa escola (nem é mais uma escola, porque seu nome foi mudado para fach kurse (curso vocacional), não teremos mais aulas de hebraico ou matemática, só cinco horas de costura e uma hora de desenho técnico. Não são permitidos livros nem cadernos de trabalho. … Isso machuca tanto (para eles não somos humanos, apenas máquinas)”. Uma tremenda bofetada século XXI nos executivos governamentais que menosprezam a construção de bibliotecas de formação humanísticas, apenas preocupados em robotizar seres humanos nos mecanismos das técnicas.

Segundo Judy Janec, num dos anexos do diário, “a última passagem do diário de Rywka Lipszyc foi escrita em 1944”, embora daí para frente um enigma histórico persiste: qual o destino último de Riwka? O parágrafo último do texto de Janec, diretora da Biblioteca Tauber Holocaust e dos Arquivos do JFCS Holocaust Center em San Francisco de 2004 a 2013, se mostre esperançoso: “Se algum leitor tiver informações que possam ser úteis em nossa busca por Rywka Lipszyc, por favor entre em contato com o Jewish Family and Children’s Service Holocaust Center, 2245 Post Street, San Francisco, Califórnia, 94115.

Dois textos complementam O Diário de Rywka, além de uma análise de Alexandra Zapruder. . O primeiro deles, de Fred Rosenbaum, intitula-se A Cidade de Rywka, o Gueto de Rywka, e analisa porque Lodz se transformou no gueto mais isolado e oprimido de toda a Europa ocupada pelos nazistas. Até antes da Primeira Guerra Mundial, Lodz era reputada como centro de gigantesca pluralidade cultural, dotada de um portentoso dinamismo econômico. Em 1900, os judeus constituíam quase um terço da população, também a metade dos homens de negócio de Lodz. O antissemitismo em Lodz se intensificou depois da morte do chefe de Estado da Polônia Josef Pilsudski, que durante seu governo de nove anos buscou proteger as minorias nacionais. Lodz foi o primeiro, e o de maior duração, dos duzentos guetos estabelecidos pelo III Reich, também classificado como o mais impenetrável. Em 1942, setembro, aconteceram as deportações mais cruéis, quando milhares de judeus foram tirados de suas casas e levados para outros locais, inclusive os que se utilizavam as famigeradas câmaras de gás.

O segundo texto, de autoria da historiadora tenta solucionar o mistério que até hoje impera sobre o destino de Rywka Lipszyc. Inclusive respondendo uma questão até hoje repleta de mistério: “Como o caderno de Rywka sobreviveu desde a chegada dela a Auschwitz-Birkenau, passando pelo rígido inverno polonês, até a primavera de 1945, quando foi encontrado pela médica soviética Zinaida Berezovskaia?

A leitura atenta de O Diário de Rywka seguramente adensará a aversão dos que ainda não aquilataram devidamente a criminosa gestão do III Reich. E a resistência de uma quase adolescente pela sobrevivência pessoal e dos demais companheiros de infortúnio. O testemunho escrito dela é imorredouro: “A fome sempre teve um impacto muito ruim em mim, e continua tendo. … É uma sensação terrível a de passar fome.

Um livro que não deve apenas ser lido. Mas referenciado como de alto teor cidadanizador. Próprio dos desafios de um século ainda obtuso, descalibrado, inteiramente (trump)iano.


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IMPUNIDADES GRITANTES

Uma questão paira no ar de uns tempos para cá, desafiando historiadores dos mais variados calibres: como alguns célebres culpados do massacre industrializado nazista de milhões de judeus e outras minorias, na Segunda Guerra Mundial, conseguiram encontrar lugar de destaque na sociedade dita civilizada ocidental, a mesma sociedade que eles tentaram criminosamente destruir? Impunidades que vitimaram duplamente as vítimas do Holocausto: pelos sofrimentos causados nas mãos dos nazistas e quando contemplaram, impotentes, os algozes escaparem da Justiça depois da guerra, passando ao convívio pleno de uma vida normal, após as atrocidades cometidas nos guetos e campos de morte.

Um livro de um jovem historiador, PhD em História pela Universidade de São Paulo, também pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação daquela universidade, especializado em nazismo e antissemitismo, refaz a caminhada pós-guerra de seis notórios carrascos nazistas: Klaus Barbie, Josef Mengele, Albert Speer, Franz Stangl, Gustav Wagner e Adolf Eichmann, autores de indescritíveis atrocidades, excessão do arquiteto Speer, considerado uma testemunha privilegiada daqueles tenebrosos tempos, visto hoje como um narrador daquilo que por ele foi observado, como se tivesse nenhuma responsabilidade, mesmo sendo o principal ministro do ditador nazista como Ministro do Armamento, considerado após a guerra e sua libertação da prisão de Spandau como memorialista, por ter escrito dois livros – Por Dentro do III Reich, Os Anos de Glória e Por Dentro do III Reich, A Derrocada, RJ, Artenova, 1971 -, criando uma imagem de alguém que não teve escolha e que possuía bom coração.mg

O livro recentemente lançado intitula-se Nazistas entre nós: a trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra, Marcos Guterman, SP, Contexto, 2016, 192 p., onde uma explicação se explicita: “A principal explicação para tamanho desvirtuamento da justiça está na época em que esses fatos se deram. Viviam-se os paranoicos tempos da Guerra Fria, em que, principalmente nos Estados Unidos, a luta contra os comunistas adquiriu contornos épicos, solapando qualquer outra consideração. Os americanos entenderam que os ex-oficiais nazistas poderiam ser úteis para esse combate considerado sobrevivencial, já que, durante a Segunda Guerra, tais criminosos haviam sido especialmente ferozes contra os soviéticos.

Segundo o autor, fazendo justiça a uma posição brasileira, “no que diz respeito especificamente aos nazistas em fuga da Europa em direção à América Latina, nazistas esses que os americanos estavam interessados em proteger e cujo trabalho queriam explorar, o Brasil, até onde se sabe, nunca demonstrou interesse, muito menos empenho em recebê-los. Pode-se dizer que o Brasil dos militares era indiferente aos nazistas, embora soubesse que muitos deles – não necessariamente criminosos – haviam emigrado para o país depois da guerra, concentrando-se sobretudo na região Sul, de grande presença alemã.

No livro está ressaltado que “o genocídio dos judeus e o massacre de outras minorias não teria sido possível sem a colaboração direta da sociedade europeia e, principalmente, alemã, seja na forma de colaboração direta, seja por omissão. Responsabilizar apenas Hitler e seus sequazes mais conhecidos foi a forma que o mundo encontrou para superar sua própria responsabilidade naquela imensa tragédia.” Inclusive, depois da Guerra, quando diversos empreendimentos foram organizados para tirar nazistas da Europa, alocando-os em lugares seguros, onde escapariam da justiça. Inclusive uma delas, chamada Ratline, “Linha dos Ratos”, também conhecida como “Rota dos Monastérios”, um dos principais protagonistas sendo o padre Krunoslav Draganovic, um fascista croata com grande trânsito nos serviços de inteligência americano, que contava com um importante operador, o bispo Alois “Luigi” Hudal, reitor de um seminário austro-germânico em Roma, que pessoalmente organizou a fuga do carrasco Franz Stangl, ex-comandante de Treblinka, para a Síria, também de Adolf Eichmann e Josef Mengele. Somente em uma carta datada de agosto de 1948, o bispo Hudal pede ao ditador argentino Juan Domingo Perón CINCO MIL vistos de entrada para três mil alemães e dois mil austríacos, dizendo terem sido soldados que combateram os comunistas. E com o bispo Hudal, trabalhava o padre húngaro Edoardo Dömöter, responsável pelo passaporte concedido a Eichmann, na sua fuga para a Argentina.

O livro, em capítulos especiais, traz detalhes sobre os criminosos nazistas acima citados. Abaixo, uma síntese de dois fascínoras.

Klaus Barbie, alcunhado “O Açougueiro de Lyon”, nascido em 1913, simbolizou um tipo muito particular de nazista: aquele que cumpria suas tarefas com prazer indescritivelmente sádico. Era um psicopata organicamente cruel. Sua crueldade ficou conhecida por ter ele desenvolvido terríveis técnicas de tortura e sevícias. Somente após 40 anos de cometer seus crimes foi a julgamento, acontecido em 1987, quando em 4 de julho saiu sua condenação à prisão perpétua, morrendo na prisão quatro anos depois sem demonstrar o menor sinal de arrependimento.

Josef Mengele, somente superado por Hitler no bestiário nazista. Conhecido como “Anjo da Morte”. Em Auschwitz, escolhia pessoalmente aqueles que seriam submetidos às mais terríveis experiências, as crianças gêmeas sendo as preferidas pelo médico monstro.

Depois de uma temporada na Argentina e no Paraguai, resolveu abrigar-se no Brasil, para isso contando com a proteção de Wolfgang Gerhard, ex-líder da Juventude Hitlerista na Áustria, que se encontrava no Brasil desde 1948, detestava os brasileiros por considerá-los de raça inferior, tendo conhecido Mengele no Paraguai, através do coronel nazista Hans-Ulrich Rudel. Para Mengele, Gerhard adquiriu para ele um pequeno sítio em Itapecerica da Serra, distante apenas 30 km da capital paulista.

Em janeiro de 1979, Mengele aceitou passar férias em Bertioga, na casa alugada por um casal amigo, se permitindo sair com ele de casa para um banho de mar, em 7 de fevereiro, quando às 16 horas, dentro d´água, sentiu o corpo paralisado por um derrame cerebral, em dez minutos morrendo sem qualquer socorro.

Enterrado sob identidade falsa, Mengele foi reconhecido em maio de 1985, quando a Polícia Federal brasileira encontrou na casa de Hans Seldmeier, um velho amigo, a correspondência que o Anjo da Morte guardava, posteriormente alguns arquivos sendo recolhidos também na casa do casal Bossert, identificando sua ossada no cemitério do Embu.

As trajetórias dos demais criminosos, eu as deixo para os amigos leitores interessados em Segunda Guerra Mundial. Vale a pena uma conferida.


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SOBRE A MORTE E O MORRER

Permitam-me os leitores da Besta Fubana tratar de um assunto que ainda incomoda algumas pessoas, proporcionando uma série de questionamentos sobre o tema do título acima, sejam quais forem suas crenças na eternidade.

Nas áreas comunitárias, médicas e hospitalares, há uma crescente quantificação de profissionais e instituições religiosas que estão ampliando suas análises metodológicas sobre como relacionar-se com os pacientes que portam enfermidades irreversíveis. Alternativas as mais diferenciadas estão sendo postas em discussão em diversos encontros especializados, envolvendo equipes interdisciplinares, incluindo acadêmicos de medicina e demais áreas paramédicas.

Até bem pouco tempo atrás, o binômio morte/morrer era assunto integralmente descartado das capacitações proporcionadas aos profissionais ligados aos centros hospitalares e ambulatoriais, uma impotência analítica parecendo dominar mentes e corações, como se o tema não existisse desde os primordiais tempos históricos.smo

Tenho uma admiração bastante acentuada por uma médica suíça, naturalizada norte-americana, cuja vida profissional foi dedicada ao estudo dos relacionamentos pacientes-médicos-familiares em hospitais com internados acometidos de enfermidades irreversíveis. E que escreveu um livro, Sobre a Morte e o Morrer, que mereceu incontáveis aplausos e algumas rejeições nos quatro cantos do planeta, os elogios gigantescamente mais numerosos que as críticas, muitas destas efetivadas sob clima emocional debilitado ou fugidio ao extremo.

Após milhares de seminários efetivados pelos vários continentes, a Dra. Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004), que inovou a medicina ocidental sobre a morte e o morrer, idealizando uma série de técnicas que proporcionassem um fim de vida mais ameno para pacientes, lançou um outro livro onde esclareceu questionamentos os mais diversos. Respostas que favoreceram conteúdos programáticos de uma futura especialidade denominada tanatologia: Perguntas e Respostas sobre a Morte e o Morrer, editado no Brasil pela Martins Fontes, em primeira edição, em 1979.

Relendo o livro após a morte de uma pessoa por mim muito amada, resolvi dele extrair algumas considerações para o JBF, favorecendo a ampliação da “enxergância” de muitos diante dos casos irreversíveis de enfermidade.

1. Toda pessoa acometida de um mal danado de brabo passa por várias etapas, antes de findar-se: a. negar o diagnóstico veementemente, continuando a viver tinindo e forte como sempre imaginou ser; b. procurar ansiosamente alguns médicos conhecidos, na esperança de ver o diagnóstico negativo rejeitado definitivamente; c. aceitando a realidade, revoltar-se, indagando para amigos e familiares “por que eu?”; d. principiar a chantagear, oferecendo às autoridades do Alto um bom comportamento de agora por diante, dedicando-se mais amiúde a ajudar os mais necessitados; e. tentar arrumar sua vida e a dos seus negócios; f. entrar numa fase depressiva, lamentando as perdas ocorridas; g. perder o interesse pelo mundo exterior; h. reduzir sua curiosidade por pessoas e fatos; g. desapegar-se gradativamente pela vida, alcançando o estágio final de aceitação.

2. Nenhum paciente deve ser informado de que está morrendo, privando-o de um lampejo de esperança, embora deva ser informado sobre a gravidade do seu estado;

3. Ensinar carinhosamente às crianças e jovens da família como encarar a realidade da morte;

4. Entender o que se deve e o que não se deve falar no quarto do paciente, posto que todos os pacientes em estado de coma são capazes de ouvir o que se está a dizer no seu derredor;

5. Diante de dores atrozes, jamais recusar a ministração de sedativos, sob orientação médica;

6. Estar sempre preparado para lidar com a Síndrome de Lázaro, quando o paciente moribundo, já enfrentando o ritual da morte, começa a se recuperar;

7. Respeitar o paciente que recusa submeter-se a um determinado tratamento;

8. Ideal seria que, tanto paciente como a família, pudessem atingir o estágio de aceitação antes do último suspiro do doente;

9. Trate com os pacientes idosos que sofrem de enrijecimento das artérias cerebrais (senilidade) como se tratasse de um recém-nascido: dê comida, conserve-os enxutos, aquecidos e confortáveis, pegando neles como exatamente se faria com um bebê.

10. É sempre melhor, ao agir, cometer um erro, do que não tentar agir de nenhum modo.
Para não me prolongar mais, sintetizo a seguir sobre dois pontos que abalam significativamente as estruturas familiares contemporâneas: o suicídio e a morte repentina.

Os pacientes que pensam em suicídio pertencem a algumas das quatro categorias abaixo:

a. Os que possuem grande necessidade de controlar tudo e a todos;

b. Os que são cruelmente informados de que portam uma doença maligna;

c. Os que se submetem a diálise ou estão à espera de transplante, que perdem repentinamente a esperança, vitimados por “suicídio passivo”; e

d. Os que são negligenciados, abandonados, isolados, recebendo tratamentos médicos, emocional ou espiritual, inadequados.

Quanto à morte súbita e inesperada de uma pessoa querida, é uma experiência trágica para uma sociedade como a nossa, que é “negadora da morte”. E quando é criança, adolescente ou adulto jovem, a ocorrência é mais dolorosa ainda. Que se faça a autópsia com todo cuidado, compreendendo as razões pelas quais muitas dessas famílias permanecem durante meses num estágio de não-aceitação, muitas delas ficando a necessitar de terapias profissionais especializadas.

No capítulo 12 do livro, a Dra. Kübler-Ross responde sobre humor, temor, fé e esperança. E sobre o relacionamento dela com seus pacientes moribundos, nos deixando uma lição inesquecível:

“Tenho a ousadia de envolver-me emocionalmente com eles, o que me poupa o trabalho de usar parte de minha energia para encobrir meus sentimentos”.

 


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SOBRE GUERRA E ESPIONAGEM

I – SOBRE GUERRA

Quatro homens poderosos, Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman, no período acontecido entre a Conferência de Yalta e o bombardeio de Hiroshima, testemunharam acontecimentos que alteraram a arquitetura política mundial: a transformação dos Estados Unidos e da União Soviética nas duas nações mais poderosas do planeta; a derrota da Alemanha nazista e do Japão imperial; o Império britânico à beira de um colapso econômico; a morte de um presidente três vezes eleito; um ditador doentio que quase conquistou o mundo; um primeiro-ministro que havia inspirado seu povo durante os dias de guerra derrotado em eleições livres; milhões de pessoas sendo enterradas em vala comum; cidades históricas reduzidas a escombros; e um tzar vermelho redesenhando o mapa da Europa e erguendo uma “cortina de ferro” entre Oriente e Ocidente. Além da aliança entre exércitos de duas grandes potências, oficialmente aliadas, embora guiadas por ideologias opostas, configurando a previsão de Alexis de Tocqueville, efetivada mais de um século antes: “Seus pontos de partida são diferentes, assim como seus percursos não são os mesmos; contudo, cada um deles parece destinado pela vontade dos céus a conduzir o destino da metade do globo”.sm

Para quem deseja se inteirar melhor do ocorrido entre Yalta e Hiroshima, o livro Seis Meses em 1945: Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman; da Segundo Guerra Mundial à Guerra Fria, do historiador e jornalista Michael Dobbs, também professor de Princeton e Harvard, Compahia Das Letras, 2015, é uma excelente recomendação para quem apreender com segurança os dramáticos acontecimentos verificados em metade de um ano.

Num último capítulo, Michael Dobbs analisa o início e o fim da Guerra Fria, quando já nos primeiros dias do segunda semestre de 1945, americanos e russos já tinham comprovações suficientes de que o outro lado não estava cumprindo os acordos estabelecidos em Yalta.

No mundo político, onde quase todos fingem cumprir diretrizes partidárias, a lição do homem público Darcy Ribeiro deve ser decantada em prosa e verso: inteligência transcende posicionamentos políticos, integridade analítica independe de cores partidárias, divergir com honestidade se posta acima dos alicerces do cotidiano convivencial. Por estas plagas, os bundas de cá costumam aplaudir tudo o que chefe de cá faz, lascando o pau no chefe dos bundas de lá, como se erros e omissões de todo calibre não existissem nos dois lados da banda.

Outro dia, aqui no Recife, alguém foi convidado para um café com bolacha na casa de um renomado líder político, consagrado nacionalmente por saber administrar bem a mauricéia. Recusou delicadamente, alegando que o seu chefão poderia não gostar, sendo muito provável sua queimação, se comparecesse. E uma amizade sólida quase fica chamuscada por uma frouxura tamanho família. Um cagaço de entrar pro livro dos recordes.

II – SOBRE ESPIONAGEM

Para quem leu Arte da Guerra, de Sun Tzu, a espionagem é um ato só permitido entre beligerantes, nações, grupos guerrilheiros em guerra e/ou guerrilha. Consiste na prática de obter informações de caráter sigiloso relativas a governos ou organizações, sem a autorização desses, para obter certa vantagem militar, política, econômica, científica, tecnológica e/ou social.

Consultando o Google, a palavra “espionagem” vem da palavra francesa “espionner“, que significa “espionar“, e do italiano clássico “spione“. A palavra “spy” é originária de várias palavras antigas significando “olhar e observar“, como no latim “specere” ou no anglo-normando “espier“.

Os antigos egípcios possuíam um sistema completamente desenvolvido para a aquisição de informações, e os hebreus também o usaram. Mais recentemente, a espionagem teve participação significativa na história da Inglaterra no período elizabethano. No entanto o primeiro serviço secreto oficial foi organizado sob ordens do rei Luís XIV de França.

Em muitos países, a espionagem militar ou governamental é crime punível com prisão perpétua ou pena de morte. Nos Estados Unidos, por exemplo, a espionagem é ainda um crime capital, embora a pena de morte seja raramente aplicada nesses casos, pois em geral o governo oferece ao acusado um abrandamento da pena, em troca de informações.

Aos interessados em saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura de A História da Espionagem, de Ernest Volkman, SP, editora Escala, 2013. O autor é uma autoridade consagrada no assunto, possuindo vários livros sobre inteligência e segurança nacional. Veterano da inteligência do Exército dos EUA, reside em Massachusetts. Seu livro analisa o assunto desde os tempos antigos até o mundo pós-9/11, numa ordem cronológica cativante e excelentemente bem exposta.

Segundo Volkman, a inteligência funciona em três níveis: o estrategico, de avaliar as intenções e evoluções; o tático, que operacionaliza; a contrainteligência, que protege os segredos a partir de operações efetuadas por outras áreas/instituições. Como toda atividade do ser humano, tudo sempre sujeito aos seus caprichos. Daí nunca ser infalível qualquer tipo de espionagem.

Como nasceu a espionagem? Surgiu a partir das obcecadas ideias das grandes civilizações antigas – egípcia, hitita, assíria, babilônica e persa – de edificarem impérios universais, para isso sempre carentes de informações dos concorrentes. Tabuletas de barro, gravadas há mais de 4.000 anos já descreviam operações de espionagem. E uma tabuleta, encontrada na Mesopotâmia, continha informações sobre o fabrico de esmalte, o maior segredo da antiga Suméria, prova cabal de que a espionagem industrial era também dos tempos a.C..

O livro do Volkman é uma agradável leitura instrutiva para quem deseja ampliar conhecimentos sobre espionagem, desde os tempos pré-bíblicos até as contemporâneas guerras contra o Terror e a espionagem nuclear. Desde antes Judas até o inesquecivelmente trágico 11 de setembro.


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DUAS RECOMENDAÇÕES

1. FÉ, FATOS, FALSIFICAÇÕES

Acontecimentos com mais de dois mil anos, verificados na Judeia, ainda fascinam seres humanos dos quatro quadrantes do planeta, em pleno século XXI, crentes e não crentes. A bibliografia sobre os fatos e feitos que revolucionaram o mundo é repleta de pesquisas sérias, baboseiras mil, infantilismos e enganações. Textos que fazem refletir, leituras investigativas ecumênicas e escritos teologais transecumênicos são muitas vezes preteridos pelos que, leitores ainda dotados de uma transitividade ingênua, a la Paulo Freire, buscam escritos anestésicos, ilusórios ou que prometem mundos e fundos financeiros, deixando milhões de abobados sem eira nem beira, inclusive salvacionista, a mercê da misericórdia do Alto. Enquanto muitos “sabidos evangelizadores” se tornam podres de ricos.ebdj

Confesso que muitos livros fingidamente religiosos me enfastiam rapidamente, me dando a certeza de uma desenvagelização crescente acontecem nas mentes menos críticas, aquelas que “falam como criança, pensam como menino e raciocinam como menino” (1Co 13,11), nunca se deixando resvalar para uma maturidade religiosa cativante, bem sedimentada, século 21.

Para os paulinamente amadurecidos, os “convictos em suas próprias mentes” (Rm 14,5), portadores de vários tipos de dons e ministérios, embora o Espírito seja o mesmo (1Co 12,4), uma leitura fascinante foi lançada em junho passado pela editora Fontanar, São Paulo. Trata-se de Em Busca de Jesus: Seis Relíquias que Contam a Notável História dos Evangelhos, de David Gibson & Michael McKinley, o primeiro um jornalista premiado e também diretor de cinema, especializado na cobertura de temas religiosos. O segundo, também jornalista e cineasta premiado, ainda é roteirista para a CNN.

As pesquisas realizadas pela dupla foram as seguintes: João Batista: messias rival, ossos da discórdia; Ossuário de Tiago: a mão de Deus ou o crime do século?; Maria Madalena: prostituta, apóstola, santa ou esposa de Jesus?; O Evangelho de Judas: a maior novela policial do cristianismo; A verdadeira cruz: suficiente para encher um navio; e A mortalha e o sudário: Jesus da história, Jesus do mistério. Além de um ensaio introdutório denominado Quem é Jesus?, favorecendo um pano de fundo dos seis estudos efetivados.

Algumas iniciativas pitorescas são narradas, como as acontecidas com o arcebispo anglicano James Ussher, no século XVII, que através de complexos cálculos baseados na Bíblia, determinara a data da Criação: a noite que precedeu o domingo de 23 de outubro de 4004 a.C. E também a tradição islâmica que localiza a cabeça de João Batista na Mesquita de Umayad, em Damasco. Ou as contradições existentes sobre Madalena, que muitos a definem como uma rameira, e que era apóstola maior que os seguidores do Homão e companheira fiel de Jesus. Para não falar no Evangelho de Judas, considerado falso por uns e verdadeira boa nova para muitos outros.

O livro é muito bem escrito, sendo muito apropriado para mentes cristãs amadurecidas.

2. GUIA PARA O SÉCULO 21

Estou estudando sobre novas formas de espiritualidades, diferenciadas de muitas das atuais, descativantes por derradeiro. E um desafio surge, num mundo que anseia por mais amor e caridade, refugando os individualismos que subvertem vidas e felicidades, favorecendo um efetivo distanciamento do sagrado: o que será necessário para dar às pessoas uma vida espiritual mais poderosa que a oferecida pelas atuais denominações?chopra

Um físico quântico, Amit Goswami, comentou o livro O Futuro de Deus: um guia espiritual para os novos tempos, do médico hindu Deepak Chopra, editado pela Planeta, em fevereiro passado: “A luta contínua entre duas visões de mundo, uma religiosa e outra científica, tem confundido a mente ocidental. O Futuro de Deus é importante por duas razões: a primeira é desbancar os chamados céticos, pessoas como Richard Dawkins, que, ao que parece, não conseguem sequer distinguir os aspectos populares e os esotéricos da religião. A espiritualidade encontrou novos suporte na física quântica e em outros avanços recentes da ciência. A segunda razão para a importância do livro é que ele é realmente um guia confiável sobre como buscar Deus mesmo em tempos confusos”.

O livro do Chopra ressalta como Deus está evoluindo com a consciência da humanidade. Ele ressalta como um Deus sem ilusões é condição primeira e necessária para o bem-estar físico dos seres humanos, indo muito além dos dogmatismos em involução crescente. Destaca que o antigo modelo de Deus está sendo gradativamente posto de lado, quando “a racionalidade, a experiência pessoal e a sabedoria de muitas culturas estão se unindo, a própria evolução humana dá um salto nas questões do espírito”. O Deus 1.0 está sendo substituído por uma nova versão, o Deus 2.0, no mundo ocidental, onde Ele é a interface entre você e a consciência infinita. E Chopra conclui: “Vivenciar Deus passa a ser a norma, nada espetacular como algum tipo de milagre, mas no sentido muito mais profundo de uma transformação”.

No livro, Chopra reproduz resposta dada por Einstein a alguém que duvidou que ele acreditasse em Deus: “Tente desvendar, com os nossos recursos limitados, os segredos da natureza e verá que, por trás de todas as leis e conexões discerníveis, permanece algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração que transcende qualquer coisa que somos capazes de compreender é a minha religião. Nessa medida, posso dizer que sou um religioso”. O que Einstein reforçava era a ideia de que a busca por Deus não deve envolver a velha imagem de um patriarca sentando no trono, de vestes alvas e resplandecentes. Que externou numa frase famosa: “A ciência sem a religião é manca. A religião sem a ciência é cega”.

Excelente “leitura garimpeira” para tempos de braba crise de espiritualidade.


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