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UM CARDEAL DESASSOMBRADO

Quando do conclave que elegeu Bento XVI, torci abertamente por um seu concorrente, o cardeal Carlo Maria Martini (1927-2012), ex-arcebispo de Milão e líder da corrente modernista defensora do chamado “espírito do Concílio Vaticano II”. Temia-se que uma noite tenebrosa continuasse a cair sobre a Igreja Católica depois do Concílio Vaticano II, o que de fato aconteceu, apesar da estupenda cultura do eleito, ex-prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Santa Inquisição na terminologia antiga, quando da sua lavra emergiu o silêncio obsequioso imposto ao então franciscano Leonardo Boff, por seu livro Igreja, Carisma e Poder, uma leitura que muito me entusiasmou, após leitura de Jesus Cristo Libertador, à época no Mestrado em Educação da PUC-Rio de Janeiro, 1973. A Santa Inquisição foi instituída, em 1542, pelo papa Paulo II, sendo composta de seis cardeais, se constituindo na mais antiga das nove atuais congregações vaticanas.

Em 2007, o cardeal Martini, juntamente com o padre Georg Sporschill, responsável por um estupendo trabalho social com meninos de rua na Romênia e na Moldávia, elaboraram o livro Diálogos noturnos em Jerusalém: sobre o risco da fé, editado no Brasil, em 2008, pela editora Paulus, com prefácio do próprio cardeal. E no diálogo com os jovens, perceberam que “onde há conflitos, arde o fogo, o Espírito de Deus está agindo.

Na suas primeiras linhas, o padre Sportschill, também jesuíta, postula uma Igreja que ouse e que possua cada vez mais credibilidade, com coragem e abertura, na certeza de que “você aprende mais a crer quando ajuda outros a aproximar-se da fé.” E vai bem mais longe: “Experimentar Deus é a coisa mais fácil e ao mesmo tempo a mais importante na vida. Posso experimentá-lo na natureza, na palavra da Bíblia e de muitos outros modos. É a arte da atenção que se deve aprender do mesmo modo como se aprende a arte do amor ou a arte de se ser bom no trabalho.

Num livro de pouco mais de 150 páginas, sintetizei algumas reflexões do cardeal feitas para atender às perguntas de muitos jovens. Abaixo, algumas das respostas dadas aos jovens por quem muito contribuiu para a melhoria das relações da Igreja, encarapitada muitas vezes em pedestais de pés carcomidos, com uma Europa que está a necessitar de mais harmonia entre suas diversas comunidades e etnias.

“Se olho o mal no mundo, perco o fôlego. Entendo as pessoas que chegam à conclusão de que não há Deus. Só quando contemplamos o mundo – tal como ele é – com os olhos da fé, podemos mudar alguma coisa. A fé desperta o amor, esse nos leva ao engajamento a favor de outros. Da dedicação nasce a esperança – apesar do sofrimento.”

“Deus deu ao homem a liberdade. Ele não quer robôs, não quer escravos, Ele quer interlocutores livres. Interlocutores livres respondem a oferta dizendo sim ou não, eles amam ou não amam, não são forçados.”

“Temos que tomar cuidado de empregar a riqueza como um instrumento para nossa felicidade e para promover maior justiça, de forma que ela não se transforme num peso.”

“Muita desgraça é produzida pelo homem. Isso nos obriga a pensar politicamente e a lutar por justiça, a lutar por um lugar para as crianças, para os idosos, para os enfermos, e a lutar contra a fome e a AIDS. De quais restrições e renúncias sou capaz para que alguma coisa mude?”

”A felicidade existe para ser partilhada. Felicidade não é algo que venha ao encontro da gente ou algo pelo qual tenhamos que esperar. Temos que procurá-la.”
“Numa situação difícil, ou diante de uma grande tarefa, ganha força aquela oração que um dia aprendemos de forma natural, sem pensar nela.”

“Se passo todo meu tempo olhando televisão ou diante do computador, então os ‘músculos’ do amor, da imaginação e do relacionamento com Deus se atrofiam. Estou convencido que temos que nos exercitar: orações, exercícios espirituais, conversações e compromissos sociais. Quem o faz, se aproxima de Deus, sente com mais força que está se tornando interlocutor de Deus.”

Uma das afirmações mais corajosas do cardeal Martini, ela a pronunciou em Jerusalém, numa das suas caminhadas noturnas, quando o notável religioso liderava uma ala da Igreja que desejava desempoeirar os recantos de uma instituição que necessita ir ao encontro dos mais desassistidos do planeta, onde, segundo ele, quando ocorrem os conflitos, são sinais da ação de Deus: “Passos no caminho de Deus podem significar também conhecer outras religiões, aprender uma língua estrangeira, para que a compreensão e a paz se estendam cada vez mais.

Certa feita, o cardeal Martini ouviu de uma senhora abastada que trabalhava voluntariamente num campo de refugiados: “A miséria que a TV mostra todos os dias é deprimente. Agora, me defronto com ela, e meu serviço me dá uma alegria que não tinha ficando em casa. Descubro que muitos refugiados são mais criativos e têm mais espírito de humor, são mais religiosos e melhores amigos que muitos dos meus velhos conhecidos”.

Eis, acima, uma das razões pelas quais sou voluntário do Centro Espírita Irmã Gertrudes, no Recife, assimilando cada vez mais as linhas mestras da doutrina kardecista. E me tornando mais solidariamente humano, a cada amanhecer.


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INICIATIVA OURO DE LEI

No Livro dos Médiuns, também denominado Guia dos médiuns e dos evocadores, editado em Paris em janeiro de 1861, Allan Kardec explicita no Capítulo III (Método) da Primeira Parte (Noções Preliminares), itens 34/35: “Em dez pessoas completamente novatas no assunto, que assistam a uma sessão de experimentação, ainda que das mais satisfatórias na opinião dos adeptos, nove sairão sem estar convencidas e algumas mais incrédulas do que antes, porque as experiências não corresponderam ao que esperavam. Dar-se-á o inverso com as que puderem compreender os fatos, mediante conhecimento teórico antecipado. … Aos que quiserem essas noções preliminares, pela leitura das nossas obras, aconselhamos que as leiam nesta ordem: 1ª. O que é espiritismo – Uma brochura de uma centena de páginas, uma exposição sumária dos princípios da Doutrina Espírita, uma visão geral que permite ao leitor abranger o conjunto dentro de um quadro restrito. Em poucas palavras, ele percebe o seu objetivo e pode julgar o seu alcance. Aí se encontram respostas às principais questões ou objeções que os novatos costumam fazer; 2ª. O livro dos Espíritos – Contendo a doutrina completa, tal como a ditaram os próprios Espíritos, com toda a sua filosofia e todas as suas consequências morais. Quem o lê compreende que o Espiritismo tem um fim sério, que não constitui frívolo passatempo; 3ª. O livro dos médiuns – Destinado a guiar os que queiram entregar-se à prática das manifestações, dando-lhes o conhecimento dos meios mais aprimorados para se comunicarem com os Espíritos. É um guia, tanto para os médiuns, como para os evocadores, e o complemento de O livro dos Espíritos; 4ª. Revista Espírita – Variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos isolados, que completam o que se encontra nas duas obra precedentes, e que representam, de certo modo, a sua aplicação. Sua leitura pode ser feita ao mesmo tempo que a daquelas obras, porém será mais proveitosa e, sobretudo, mais inteligível, se for depois de O livro dos Espíritos.” E Kardec complementa com a sensatez de sempre: “Não nos cabe ser juiz e parte e não alimentamos a ridícula pretensão de ser o único distribuir da luz. Compete ao leitor separar o bom do mau, o verdadeiro do falso.”

Alguns esclarecimentos históricos se fazem indispensáveis, expostos na orelha da primeira coletânea em Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Ano 1958, pela primeira vez publicada no Brasil, em julho de 2016, pela Edicel Editora, tradução do francês de Júlio Abreu Filho: “Um ano após a publicação de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec sentiu a necessidade de publicar o conteúdo dos seus estudos, pesquisas, correspondências e mensagens que continuavam a surgir: ‘Apressei-me, diz Allan Kardec, em redigir o primeiro número, que fiz publicar em 1º. de janeiro de 1858, sem ter dito nada a ninguém. Não havia nenhum assinante, nem financiador algum. A publicação foi feita, portanto, por minha conta e risco, mas não tive por que me arrepender, pois o sucesso ultrapassou a minha expectativa. A partir dessa data, os números saíram sem interrupção e, como tinha previsto o Espírito, a revista tornou-se para mim eficiente auxiliar. … Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder a causa inteligente está em razão da magnitude do efeito’”.

Na contra capa: “Durante onze anos e quatro meses de trabalho intensivo, de janeiro de 1958 a março de 1869, Kardec ofereceu-nos mensalmente toda a História do Espiritismo, no processo de seu desenvolvimento e sua propagação no século dezenove… A coleção da Revista Espírita é a mais prodigiosa fonte de instruções doutrinárias e informações sobre o Espiritismo.”

A Editora Cultura Espírita – EDICEL resolveu fazer história no campo editorial do Espiritismo no Brasil, lançando a coleção completa da Revista Espírita, bastando acessar o site Boanova.net. E logo no primeiro volume, jan-dez de 1858, observarão a intenção maior da publicação: “Nossa Revista será, assim, uma tribuna, na qual, entretanto, a discussão jamais deverá afastar-se das normas das mais estritas conveniências. Numa palavra, discutiremos, mas não disputaremos. As inconveniências de linguagem jamais foram boas razões aos olhos da gente sensata: é a arma daqueles que não possuem algo melhor, e que se volta contra quem a maneja.”

Na Introdução apresentada na primeira revista, publicada em janeiro de 1858, justifica-se a necessidade de editar uma revista de tamanha importância histórica: “Largo espaço será reservado às comunicações escritas ou verbais dos Espíritos, desde que tenham um fim útil, assim como às evocações de personagens antigas ou atuais, conhecidas ou obscuras, sem desprezar as evocações íntimas que, muitas vezes, nem por isso são menos instrutivas. Numa palavra: abarcaremos todas as fases das manifestações materiais e inteligentes do mundo incorpóreo.

A coleção da Revista Espírita é a mais prodigiosa fonte de instruções doutrinárias e informações sobre 0 Espiritismo. Uma iniciativa editorial que merece entusiásticos aplausos!


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POSTURAS SEMENTEIRAS

Em Gana, fundada em 2008, o Meltwater Empresarial Escola Superior de Tecnologia (MEST), juntamente com o programa MEST Incubadora, fornece treinamento, investimento e mentoring para aspirantes a empreendedores de tecnologia, objetivando a criação de empresas de sucesso mundial, criadoras de riquezas e postos de trabalho no próprio continente africano. Além disso, o MEST oferece, a cada doze meses, programa de tempo integral intensivo, capacitando os melhores alunos formados em Gana e Nigéria, favorecendo a construção de empresas de tecnologia bem sucedidas, envolvendo programação de computadores, desenvolvimento de software, gestão de produtos, finanças, marketing e práticas de liderança.

Desde a sua criação, MEST já treinou mais de 200 empresários nigerianos e ganenses e investiu US$ 15 milhões em programa de treinamento e incubação. O MEST foi recentemente reconhecido pela Fast Company como uma das 10 Empresas Mais Inovadoras da África.

Uma das lideranças africanas, Ashok Bhanault, um nascido em 1943 em Mombasa, Quênia, fez a introdução do livro O Futuro de Deus – ética, religião e espiritualidade na nova ordem mundial, de Adjiedj Bakas & Minne Buwalda, editado no Brasil pela editora Girafa, em 2011. Segundo ele, “no livro, eles escrevem sobre as tendências na religião, ética e espiritualidade no século 21, proporcionando uma leitura essencial para pais e filhos, professores e alunos, políticos e policiais, órgãos de governo e instituições de ciências sociais. Ler e absorver essas tendências é muito importante, para que cada pessoa, instituição, organização ou até mesmo governo possa considerar as implicações de tantas transformações em suas políticas e estilos de vida. … O século 21 vai testemunhar o surgimento de ideais e filosofias manifestadas por várias crenças, assumindo um papel importante como doutrinas da conectividade global.

Quais são, segundo os autores, as megatendências atuais? São sete: 1. Individualização da religião num cenário religioso multiforme; 2. Novas ortodoxias e a politização da religião; 3. Comercialização da religião e à midiatização de Deus; 4. Ascensão do Deus Verde; 5. Mercado crescente de crenças apocalípticas e o desenvolvimento de uma consciência mais elevada; 6. Deslocamento do foco da doutrina religiosa para a experiência religiosa; 7. Existência de religiões influenciadas por superpotências multiculturais e de ascensão do moralismo.

Dois outros livros, além do acima citado, um editado em 2013 e outro no ano passado, podem servir de sólida complementação, favorecendo uma compreensão mais consistente sobre os amanhãs que nos esperam, onde uma espiritualidade se consolida a olhos vistos, o ser humano contemporâneo há muito já percebendo que todas as denominações religiosas possuem visões e revelações, inclusive o próprio Cristianismo, com seus santos portadores de ampla mediunidade, conforme comprovações efetivadas pela Doutrina Kardecista.

O primeiro deles, o mais recente, é Homo Deus uma breve história do amanhã, Yuval Noah Narari, São Paulo, Companhia das Letras, 2016, 444 p. Uma combinação monumental de ciência, história e filosofia, numa tessitura capaz de esclarecer os mais renitentes na compreensão de quem fomos, somos e seremos nos amanhãs que nos aguardam.

Tido e havido por muitos analistas como o melhor livro escrito sobre a história da humanidade, comprovando que a guerra está se tornando obsoleta, a fome se encontra em declínio e a morte tornou-se tão somente um problema técnico, apesar dos múltiplos sinais desanimadores que disseminam desesperos, depressões e suicídios entre jovens. Será ainda que as modificações genéticas estarão à disposição de todos ou apenas disponíveis para uma elite biológica capaz de dominar uma Inteligência artificial que saiba coordenar os aspectos mais relevantes da vida e da sociedade? Tudo analisado e estruturado a partir de uma visão incrivelmente original de nossos ontens, sempre mesclando com maestria pesquisas de ponta e estupendas análises de redescoberta de quem fomos e do que seremos.

Um segundo livro, editado em novembro de 2016 pela Companhia das Letras, Editora Globo, 848 p., é de autoria de Thomas Mann, escrito em 1924, e intitula-se A Montanha Mágica. Narra a história de Hans Castorp, um jovem e promissor engenheiro naval, acometido de tuberculose, internado num sanatório situado nos Alpes suíços. No internamento, o paciente se relaciona com inúmeros personagens enfermos, portadores de um sem-número de conflitos espirituais e ideológicos antecessores da Primeira Guerra Mundial. Considerado a obra-prima do premiado escritor alemão, o texto trata de temas os mais variados: estados doentios e corpóreos, a arte, o amor, a natureza do tempo e da morte, o embate entre democracia e totalitarismo. O autor ressalta que desenvolverá seu texto “pormenorizadamente, com exatidão e minúcia – pois desde quando a natureza cativante, ou enfadonha de uma história depende do espaço ou do tempo que exige? Sem medo de sermos acusados de meticulosidade, inclinamo-nos, pelo contrário, a opinar que realmente interessante só é aquilo que tem bases sólidas.” Uma leitura que não ser feita de afogadilho, muito pelo contrário. Necessita de tempo disponível para meditar sobre uma época que jamais retornará.

Leituras sementeiras, certamente amplamente cidadanizadoras, para finais estágios mentais paulinos (1Co 13,11).


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PARA OS DIAS PRIMEIROS DE 2017

Neste início de 2017, num momento em que a expansão da mente humana se torna cada vez mais estudada nos centros científicos mais adiantados, um recente debate sobre o “Futuro de Deus” na TV norte-americana envolveu dois talentos mundiais. De um lado, Deepak Chopra, médico indiano radicado nos Estados Unidos, cujos livros dedicam-se à difusão da filosofia oriental. Do lado oposto, Leonardo Mlodinow, professor de física no Instituto de Tecnologia da Califórnia, autor de O Andar do Bêbado, best-seller mundialmente aplaudido.

Visões de mundo distintas. “Para o primeiro, a realidade existe numa consciência que antecede a vida no Universo; o segundo acredita que só a física pode explicar a criação do cosmo. Um defende a espiritualidade, o outro, a ciência”. Quatro questões fundamentais – o Universo físico, a vida, o cérebro humano e Deus -, foram explicitadas num diálogo cordial e respeitoso, onde suas interpretações promoveram divergentes pontos de vista numa perspectiva dos amanhãs da humanidade.

Nas livrarias brasileiras, os diálogos acima foram editados pela Sextante – Ciência x Espiritualidade, Deepak Chopra & Leonard Mlodinow -, reproduzindo o que aconteceu no auditório do Instituto de Tecnologia da Califórnia perante uma plateia de admiradores, cientistas e leigos, cada qual com suas convicções e dúvidas.

No prefácio, um esclarecimento dos autores: “este livro abrange dezoito tópicos, com ensaios dos dois autores. Cada pensador contou seu lado da história, um tema de cada vez. Porém, em cada tópico, quem escreveu depois fez isso com o texto do outro à mão, sentindo-se à vontade para apresentar uma réplica. Como as réplicas tendem a convencer as plateias, buscou-se ser justo sobre quem teria essa vantagem”.

Quatro tendências culturais são observadas atualmente. A mais visível é a confiança cada vez menor nos líderes religiosos. Em pesquisa de 1988, os líderes religiosos eram os mais confiáveis na sociedade americana, decaindo para o quarto lugar, em 1993, depois de farmacêuticos, professores universitários e engenheiros. A segunda tendência se relaciona com o desencanto com a religião organizada, face os escândalos acontecidos, principalmente com a prática da pedofilia. Uma terceira tendência se relaciona com uma disposição mental pluralista, onde muitos tendem a encarar a religião como ficção útil. E a quarta prende-se à autonomia intelectual, onde cada um pode ter sua convicção religiosa sem a intermediação de organização religiosa.

Num dos tópicos – Qual o futuro da fé? -, Mlodinow afirmou: “acreditar é humano, e acreditar no Deus tradicional parece uma tendência viva que continua muito bem, com a perspectiva de um futuro longo e estável”. E Chopra declarou: “a crença se torna um conhecimento em que se pode confiar, e, sobre essa base, Deus pode ser reverenciado outra vez”. Textos conscientes que engrandecem a convivialidade entre os de pensares diferentes.

Para todos os brasileiros, particularmente os pernambucanos e pernambucanizados que nem eu, que seja melhorado o bom em 2017, descobrindo-se a essência das coisas. Que nossas mentes nos impulsionem para um caminhar de cabeça serenamente mais erguida, mais solidário e menos solitário. E que tenhamos suficiente coragem de correr o risco de efetivar até as boas ideias passadas, muitas delas ridicularizadas porque não devidamente entendidas pelos que se estacionaram nos pretéritos.

No raiar de 2017, saibamos abordar com serenidade as razões mais recônditas dos méritos fingidos. Reconhecendo as urgências e as ressurgências, para erradicar as previsões megalômanas, redimensionando acabrunhadas esperanças, as hipocrisias estrepitosamente vencidas pelas consistentes intercomplementariedades entre o ter e o sonhar.

Empenhemos múltiplos esforços na busca de uma “viabilização do impossível”, ousando muito além da mera “implementação do viável”. Jamais olvidando que a miséria é muito má conselheira, além de conservadora, saudosista e autoritária. Lastimando menos, cidadanizando-se mais, para adquirir novas posturas, pessoais e comunitárias, percebendo, sempre sem medos, que pão-trabalho-liberdade-civilidade é a melhor das receitas para se obter uma paz social nunca cemiterial.

Encontremos novas lideranças políticas, multipliquemos os Héldercâmara e os Chico Xavier, sem jamais menosprezar os severinosdemaria do poeta João Cabral de Mello Neto, para quem “o dinheiro é muito parecido com estrume; se não ficar espalhado, fede muito”. Posto que ainda vale a pena pugnar por um Brasil para todos os brasileiros, com os Direitos Humanos jamais sendo confundidos com favorecimentos a banditismos de qualquer idade ou classe social.

Que os mais lúcidos se envolvam, evitando a proliferação dos pústulas. Que as atenções para o Ensino Fundamental se multipliquem, desbobocadamente. Que as Universidades não se transformem em estrebarias, os mais talentosos sendo amplamente aplaudidos. Que a estabilidade no emprego não favoreça a malandragem, nem a vitaliciedade acoberte cavilosas divinizações.

Orgulhemo-nos das nossas tradições culturais, jamais humilhando as das demais regiões da Terra. Porque o frevo, que é pernambucano, necessita ser também admirado pelo mundo afora. E aprofundemos nossos conhecimentos culturais, evitando as firulas dos que apenas desejam levar vantagens, fingindo-se de popular.


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CRIANÇAS DIFERENCIADAS

O notável baiano Divaldo Franco, um dos maiores médiuns vivos do cenário kardecista mundial, numa conferência realizada nos Estados Unidos, narrou um caso acontecido na Mansão do Caminho, instituição infanto-juvenil por ele coordenada no Centro Espírita Caminho da Redenção (Rua Jayme Vieira Lima 104 – Pau de Lima, 41235-000 Salvador – Bahia – Brasil). Resumindo:

Um menino de cinco anos era tão endiabrado que o seu apelido era Júlio Terror. Segundo Franco, “ele sabia de tudo, estava sempre no lugar que não devia, na hora errada, falava o que não era próprio, não ficava quieto, e não sabíamos como educá-lo. Eu usei todos os métodos possíveis: o carinho, ele me agredia; a severidade, ele não obedecia; deixei-o por conta própria e ele ficou aborrecido”. E continuou Divaldo: “Certo dia, o porteiro da instituição me comunicou pelo telefone da portaria que uma senhora desejava insistentemente falar comigo. Pedi que informasse que eu não estava. Ao desligar, saiu debaixo da mesa o Júlio Terror, olhar zombeteiro, logo censurando-me: – Mentindo, hein?? Liguei, então, para a portaria e disse que atenderia a senhora pois já havia chegado. E o menino reagiu: – Mentindo de novo, porque você não saiu, como é que chegou? Tentei justificar: – Às vezes também minto. O rebate veio de imediato: – Mas não deve. Busquei explicar: – Há dois tipos de mentira: a mentira branca que é uma desculpa, e a mentira pesada, a negra. E nova pergunta veio à tona de imediato: – “Ah!! Até a mentira sofre de preconceito de cor?!”

E o médium famoso concluiu: “Julinho Terror era índigo. Tudo que lhe falávamos, ela perguntava Por quê? Certo dia ele estava subindo no muro, e eu lhe propus: – Julinho desça daí. -Por quê? – Porque você vai cair. -Como é que você sabe? – Por que todo mundo cai. – Ah! Mas eu não vou cair. E não caiu”.

A palestra feita pelo Divaldo Franco resultou num livro bilíngue editada no Brasil pela LEAL sob título A Nova Geração: Visão Espírita das Crianças Índigo e Cristal, conjuntamente com a neurocientista Vanessa Cristina Zilli Anseloni, Ph.D., Psy.D., da Universidade de São Paulo. No capítulo 5 do livro, alguns esclarecimentos são de fundamental importância: “O índigo é uma criança rebelde que muitas vezes é confundido com o hiperativo e cria uma terrível dificuldade da educação, porque ela não fica quieta durante a aula, não tem capacidade de manter a atenção, tem sempre uma resposta nova, quase atrevida, para qualquer problema. E os adultos que estão acostumados a impor, entram em área de atrito.” Ressalta ainda: “Importante notar a diferença entre os que são índigo dos hiperativos. De acordo com as observações científicas do Instituto Nacional Americano de Drogas de Abuso (NIDA), a desordem de atenção deficitária e hiperatividade consiste num padrão persistente de níveis anormais de atividade, impulsividade e desatenção que aparecem com maior frequência e mais severidade do que tipicamente observado em indivíduos comparáveis de desenvolvimento. A hiperatividade é um sinal de que algo está em desajuste. A hiperatividade em si mesma não classifica o índigo. Ela pode ser um dos sinais comportamentais da criança índigo.

As crianças índigo são divididas em quatro grandes categorias: as humanistas, as artistas, as conceituais e as interdimensionais ou transdimensionais. As humanistas são aquelas que possuem uma natural tendência para ajudar. São generosas, gentis, embora não fiquem quietas nem sejam obedientes. As artistas possuem uma inquietação especial, não se interessando pelas doutrinas científicas, tampouco excogitações filosóficas. As conceituais têm grande aptidão para a música, para a solidariedade, para o trato social com outras pessoas. E as transdimensionais vê os Espíritos desde cedo, identificando-lhes as auras, percebendo-lhes os sentimentos.

As crianças índigo necessitam de uma educação mais espiritualizada.

No capítulo 8 do livro citado, os autores revelam que espíritos mais elevados estão chegando à Terra, para auxiliarem na grande transição planetária. São as crianças denominadas cristal. Não são rebeldes, mantendo-se silenciosas, observadoras, responsáveis. Não são inquietas e são introspectivas, gentis e amorosas.

Os autores anunciam que mundiais transformação já estão acontecendo nos quatro cantos do planeta, exigindo novos ensinamentos e procedimentos educacionais, favorecendo a emersão de crianças dotadas de uma estrutura mental diferenciada, fortalecendo a esperança num mundo mais fraterno e pacífico.

No livro, Franco e Anseloni relatam descobertas acontecidas entre os anos 1990 e 2000, quando os neurologistas dos Estados Unidos solicitaram ao Congresso Americano que considerassem esse decênio como o da Década do Cérebro. Homologado o pedido pelo Congresso, tal período passou a ser considerado como “o mais grandioso da evolução das referidas neurociências.” E foi em tal período que ocorreu uma maravilhosa descoberta. Em 1992, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, o neuropsiquiatra Michael Persinger, “analisando o cérebro humano mediante uma tomografia computadorizada, através de um escaneamento topográfico com emissão de pósitrons, identificou uma área que brilhava no cérebro humano. Ele percebeu que o cérebro emitia uma específica luminosidade. Resolveu procurar o neuropsicólogo Dr. Vilayanur Ramachandran que, examinando essa luz cerebral, chegou a uma conclusão curiosa: toda vez que ele anunciou o nome de Deus, aquela luminosidade aumentava. Eles resolveram, então, denominar essa área entre os lóbulos temporais como ‘o ponto de Deus’.

Indo mais adiante: “mais tarde, a grande física norte-americana Danah Zohar, professora da Universidade de Oxford, veio examinar a questão, e depois concluiu que nessa área cerebral localizava-se a inteligência espiritual, definindo, após acuradas reflexões, que nesse campo se encontra o correlato biológico da inteligência espiritual. Equivale dizer que o Espírito já não é mais uma produção cerebral, mas que este decodifica-lhe os conteúdos profundos através nos neurônios.” (grifo nosso)

E uma conclusão extraordinária se estabeleceu entre inúmeros neurocientistas: a criatura humana não é somente um ser constituído de células, mas também uma consciência de natureza transpessoal!!

Divaldo Franco concluiu sua palestra, reproduzindo Joanna de Ângelis, seu Guia Espiritual: “O amor é o único tesouro que, quanto mais se divide, mais se multiplica”.

Feliz 2017 para todos aqueles que ainda persistem em manter suas esperanças numa Fraternidade Universal irreversível e perene !!


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GUIAS HISTÓRICOS E CULTURAIS

Outro dia, num educandário recifense de classe média, particular e misto, todos vestibulandos 2016, apresentei uma questão na fase final de um papo sem fricotes, a ser respondida por escrito: Na opinião de vocês, quem é a mulher mais célebre de todos os tempos, em todas as áreas da história? A classe toda se agitou, a votação tomou conta do ambiente, tudo transcorrendo na mais esfuziante participação coletiva.

Dos quase duzentos votantes (rigorosamente 197), Maria, a mãe do Homão da Galileia só foi lembrada por três alunos, duas mulheres e um homem, possibilitando-me a oportunidade de recomendar um livro sem bobajadas religiosas edificadas como verdades absolutas: Maria: a mãe de Jesus, Jacques Duquesne, RJ, Bertrand Brasil, 2005, 194 p. E ainda apontei três leituras de textos apócrifos (não canônicos) que despertaram a curiosidade de inúmeros cristãos sobre a mãe do Homão: o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho do pseudo-Mateus e o Livro da Infância do Salvador. A fonte citada foi Apócrifos da Bíblia e pseudo-epígrafos, 2v., Eduardo de Proença (org), SP, Fonte Editorial, 2010/2012. E incentivei todos para que pesquisassem no Google a Sagrada Família, consultando ainda o evangelho de Lucas (2,40), de tríade (Jesus, Maria e José) muito difundida a partir da Renascença.

Aproveitei a oportunidade para sugerir também aos presentes um livro que muito ampliará os conhecimentos de crentes e não crentes: Para conhecer a Bíblia: um guia histórico e cultural, Philippe Sellier, SP, Martins Fontes, 2011, 332 p. Sua leitura proporcionará uma visão mais consistente sobre a riqueza e a diversidade dos Livros que compõem o AT e o NT, seus personagens e os episódios que marcaram a cultura ocidental, incentivando uma plêiade de notáveis – escritores, filósofos, pintores, iluminadores, mestres-vidraceiros, escultores, gravadores, diretores de cinema e de televisão e cordelistas, além de exegetas e analistas em assuntos religiosos.

O autor do livro acima, Sellier, é professor emérito da Universidade de Paris IV – Sorbonne, traz informações históricas e culturais elucidadoras por excelência. Alguns exemplos: na expressão corrente “separar o joio do trigo” (Mt 13,24-30), joio em latim é zizania, que gerou a expressão “semear cizânia”, significando “introduzir perturbação, discórdia”; a expressão “descobrir seu caminho de Damasco”, ainda hoje usada, tem origem no Atos dos Apóstolos 9, quando o fariseu Saulo de Tarso, um perseguidor de cristãos, converteu-se aos cristianismo, após ter sofrido uma queda de cavalo, ficado cego e ver, posteriormente, caídas as escamas dos seus olhos, significando uma mudança radical de vida; o Salmo 119, um poema organizado em ordem alfabética no hebraico, foi aplicado pelos cristãos à Lei do Amor do Evangelho; o Evangelho de São João, escrito em Éfeso pelos anos 90 e diferentes dos outros três, denominados sinópticos, posiciona-se contrariamente às tendências pré-gnósticas surgidas ao final do primeiro século da nossa era, tendo o último capítulo (21) sido provavelmente acrescido pelos que cercavam o apóstolo.

Leituras que amadurecem consciências religiosas, favorecendo o que dizia o apóstolo Paulo: “quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e racionava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino” (1Co 13, 11).

Com base nos resultados pífios do levantamento feito pelos alunos, também fiz menção a uma biografia sobre a mãe de Jesus, escrita por uma brasileiro. Intitulado Maria: a biografia da mulher que gerou o homem mais importante da história, o livro foi editado pela Globo, em 2015, tendo como autor Rodrigo Alvarez, um pesquisador que escreve sob assuntos complexos de um jeito muito compreensivo, sendo a leitura do seu texto de grande utilidade para os neófitos no conhecimento dos temas relacionados com os misteriosos desígnios de Deus para com esta singular personalidade. Muitos acontecimentos, esquecidos em papiros empoeirados, foram resgatados pelo autor, favorecendo uma compreensão mais nítida sobre a hoje considerada “Mãe de Deus”, uma mulher notável, que após uma gravidez controvertida, de uma fuga para o Egito, das pregações do filho ainda quase adolescente e de sofrimentos insuportáveis aos pés do madeiro onde ele foi crucificado como subversivo, dividiu a história da humanidade em antes e depois do seu próprio filho, o “deus encarnado”, na concepção de John Hick, teólogo de referência internacional, premiado, em 1991 com o Prêmio Grawemeyer, destinado ao pensamento inovador da área dos estudos de religião, autor do aplaudido A Metáfora do Deus Encarnado, RJ, Vozes, 2000, onde “a ideia da encarnação divina é melhor compreendida como ideia metafórica, e não literal, Ele agindo através da corporificação de um amor que é reflexão humana do amor divino”.

Finalmente, para solidificar mais as reflexões escritas e orais de uma vida futura, profissional e pessoal da turma de vestibulandos, uma ferramenta de muita valia, inclusive para estudantes de Ensino Médio que pretendem alcançar uma vivência acadêmica consistente, de sólidas estruturas cognitivas: Os 100 argumentos mais valiosos da filosofia ocidental: uma introdução concisa sobre lógica, ética, metafísica, filosofia da religião, ciência, linguagem, epistemologia e muito mais, Michael Bruce & Steven Barbone (orgs), São Paulo Cultrix, 2013. Na contracapa a proposta: “Esmiuçando a prosa filosófica, normalmente densa, os autores separaram 100 argumentos famosos e influentes, incluindo citações-chave, para explicar a abordagem e o estilo original. Cada argumento é revelado em sua forma essencial, com premissas e conclusões claramente identificadas e a forma do argumento especificado”.

PS. Um Natal 2016 muito porreta, sem muitos sacos de Noel, embora recheado de mil e um bons propósitos não fingidos, mais solidário com todos aqueles que, no Brasil, desempregados, podem ser classificados como os “Severinos de Maria”, do sempre lembrado poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto, que devem ser mais respeitados e com pleno direito a terra, trabalho, capacitação profissional e liberdade.


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ASSUNTOS DA SEGUNDA GUERRA

1. UM ASSASSINO COVARDE

Um oportuno livro-reportagem, relatando o acontecido nos dias 15 e 17 de agosto de 1942 nas costas nordestinas, quando o submarino alemão U-507 torpedeou covardemente cinco dos nossos navios mercantes – Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará – ensejando a entrada do Brasil na guerra, atendendo anseios da população que saiu às ruas em protestos furiosos.

Intitulado U-507: o submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Marcelo Monteiro, Salto-SP, 2012, 344 p., o texto relata o drama de mais de 600 brasileiros, vitimados por um plano terrível dos nazistas do III Reich, executado nas costas de Sergipe e Bahia, que tentava amedrontar o Brasil por este se encontrar numa postura aparentemente neutra, embora colaborando com o esforço de guerra norte-americano.

O submarino assassino assim foi descrito por Monteiro: “Fabricado em 1940, o submarino tem 1.120 toneladas de deslocamento na superfície, com 76,76 metros de comprimento. Movido por uma combinação de motores diesel e elétrico, quando submerso só pode usar a propulsão elétrica, que, ao contrário dos motores a combustível, não precisa de ar. Em contrapartida, a navegação submersa se dá a uma velocidade bastante inferior, a apenas 4 nós, cerca de 7,5 quilômetros por hora, enquanto, na superfície, a diesel, o U-507 pode alcançar 10 nós, ou 18,5 quilômetros por hora. Contudo, o principal está nas duas pontas da embarcação: na proa e na popa, duas salas podem carregar, juntas, até 22 torpedos, cada um deles capaz de afundar um navio de grande porte.

Nos meses que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial, o então ditador brasileiro Getúlio Vargas buscou aparentar uma neutralidade diante do conflito. Assim, em 2 de setembro de 1939, tornou público o Decreto-Lei 1.561, onde seu artigo primeiro assim explicitava: “O governo do Brasil abster-se-á de qualquer ato que, direta ou indiretamente, facilite, auxilie ou hostilize a ação dos beligerantes. Não permitirá também que os nacionais ou residentes no País pratiquem alto algum que possa ser considerado incompatível com os deveres de neutralidade do Brasil.” Paralelamente, no entanto, o Brasil iniciou o reaparelhamento das suas Forças Armadas, sempre com apoio dos Estados Unidos.

Ainda em 1941, antes mesmo do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro, as relações entre Brasil e Alemanha se encontravam estremecidas, bem antes da criação do Ministério da Aeronáutica brasileiro, onde aeronaves são fornecidas pelos Estados Unidos, também auxiliando o governo norte-americano na construção de campos de aviação. Ressalte-se que a capacitação dos pilotos brasileiros foi patrocinada pelos EEUU.
A partir de 1941, alguns fato ampliaram a fúria do III Reich em relação ao Brasil. Em janeiro, quando da efetivação da Conferência de Chanceleres Americanos que redundou no rompimento de relações com os países do Eixo, uma varredura feita pela polícia brasileira, em conjunto com o FBI, capturou 36 agentes alemães italianos e japoneses em atuação no território brasileiro, inclusive Franz Wasa Jordan, agente especial alemão, de insuspeitada periculosidade, que tinha a missão de assassinar o chanceler Oswaldo Aranha.

Através de rádio recebido de Karl Dönitz, comandante as operações alemães no Atlântico, autorizou o comandante do U-505, Harro Schacht a utilizar “manobras livres” ao longo da costa brasileira, não mais havendo restrições a ataques aos nossos navios, tanto em alto mar quanto em regiões costeiras. Segundo conceitos divulgados à época, Schacht era “destemido, dedicado e impiedoso em ação, o típico oficial disposto a qualquer coisa pelo III Reich”.

* * *

2. O INFERNO DA GUERRA 1939-1945

Quem desejar conhecer sobre o sofrimento e morte de milhões no período 1939-1945, onde 27 mil pessoas morreram diariamente entre setembro de 1939 e agosto de 1945, a leitura de um livro considerado pelo Washington Post como “a melhor obra sobre a guerra escrita em apenas um volume … feito monumental sobre todos os aspectos”, é mais que suficiente. Intitulado Inferno – o Mundo em Guerra 1939-1945, de Max Hastings, RJ, Intrínseca, 2012, 764p., seu autor sendo considerado um dos maiores historiadores militares do mundo, o livro traça um vasto painel da Segunda Guerra Mundial em todas as suas frentes, iniciando com a agonia da Polônia, invadida covardemente pelos nazistas, em setembro de 1939, enfocando comoventes testemunhos de pessoas comuns, documentados em cartas, diários, memórias e depoimentos.inferno

No livro, o autor esclarece alguns assuntos relevantes. Alguns deles: “A concepção ocidental moderna de que a guerra foi travada por causa dos judeus é tão generalizada que se deve enfatizar que não foi esse o caso. Embora Hitler e seus seguidores preferissem atribuir aos judeus a culpa pelos problemas da Europa e pelas injustiças sofridas pelo Terceiro Reich, a luta da Alemanha contra os Aliados era sobre e dominação hemisférica”; “A limitada atenção dada pelos Aliados às dificuldades dos judeus durante a guerra foi uma fonte de frustração e de revolta para outros judeus bem informados e é motivo de grande indignação desde então”; “Quase todos os participantes da guerra sofreram em algum grau: a escala variada e a natureza diversa de suas experiências são temas do livro, mas o fato de as aflições de outras pessoas serem piores pouco faziam para promover a estoicismo pessoal”.

Os testemunhos prestados, documentados em cartas, diários e memórias, muito contribuíram para o autor ir além de uma mera narrativa dos eventos trágicos acontecidos entre 1939-1945., onde o esforço de guerra alemão foi conduzido com assombrosa incompetência, enquanto o exército de Hitler lutava com eficácia estupenda. Realça ainda a morte de mais de um milhão de indianos, em 1943, devido à negligência do governo britânico. Análises feitas sem contemporizações nem inconsequências.

Uma leitura sem apologias que amplia o horror pela guerra e suas tenebrosas sequelas, embora ressalte que nem sempre Churchill e Roosevelt eram a voz da razão. Que um deles acreditava, sem muita convicção, que “os conflitos do futuro serão bastante diferentes, e talvez eu não esteja sendo precipitadamente otimista ao sugerir que serão menos terríveis”. No que acredito que serão “diferentes”, embora nem um pouco menos terríveis.


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UM JUDEU MUITO ESTUDADO

Confesso que uma segunda leitura do livro muito ampliou minhas enxergâncias sobre o Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador, a primeira tendo acontecido há mais de uma década. Quando li pela vez primeira o texto de Jesus segundo o judaísmo: rabinos e estudiosos dialogam em nova perspectiva a respeito de um antigo irmão, Beatrice Bruteau (org.), Paulus, SP, 2011, 2ª. edição, logo o percebi como uma contribuição notável para a ampliação do diálogo entre cristãos e judeus, substituindo preconceitos chiliques por consistentes conhecimentos, favorecendo gigantescos poços de energia espiritual entre os dois sistemas religiosos, ensejando uma fraternidade mais convincente e solidária, imprescindível para acalmar as atuais turbulências planetárias, trumpianas por derradeiro.jc

Advertindo que a sua intenção não é a de converter judeus ao cristianismo, tampouco vice-versa, Beatrice Bruteau, cofundadora da Scola Contemplationis, uma comunidade em rede internacional de contemplativos de todas as tradições, sediada na Carolina do Norte, apresenta três motivações para a efetivação do seu trabalho. A primeira delas tem a ver com o próprio Jesus. Segundo ela, “faz algum tempo que tenho a impressão de que o cristianismo, na qualidade de religião que fala de Jesus, é em muitos aspectos sobremodo distinta da religião que Jesus praticou pessoalmente e cuja prática estimulou”.

A segunda motivação se encontra relacionada com o povo judeu. Segundo ela, “os maus-tratos sofridos por judeus da parte de cristãos é uma longa história de vergonha e amargor. … É trágico que os judeus viessem a odiá-los em função do que os cristãos fizeram com eles”.

A motivação terceira está vinculada aos próprios cristãos, quando muitos anseiam ver Jesus em seu contexto original, assimilando melhor a atuação do Homão sob perspectivas judaicas, embora a maioria de ambas as partes ainda nutra dificuldades para discutir o tema sem sectarismos emocionais.

Antes do primeiro ensaio, a organizadora reproduz no livro uma reflexão de Laura Bernstein, psicoterapeuta infantil e mestre pela Universidade de Chicago, intitulada Uma Judia Escreve Sobre Jesus, o Judeu. Transcrevo seu texto integralmente: “Não posso escrever sobre Jesus. Sobre como você entrou em minha vida abruptamente, em meus 17 anos quando meu primeiro amor, do Moody Bible Institute, me apresentou a você e você se tornou meu segundo amor por algum tempo. Aprendi a rezar em seu nome e também consultei sua mãe sobre questões espirituais. Minha mãe disse que cultuar você era pior que ser prostituta. Fui para a faculdade, meu coração oprimido, minha cabeça em uma coroa de espinhos. Durante anos parei de me comunicar com você. Tivemos um estremecimento. Parei totalmente de rezar e comecei a pagar a psiquiatras pela minha salvação. E tornei-me eu mesma terapeuta, um médico ferido, ainda buscando, ansiando, sofrendo; ainda não rezando. Décadas mais tarde, a escola rabínica me atraiu, e vi-me lançada no deserto de seu gramado natal, Jehoshua – aprendi hebraico, li a Torá, cantei salmos, entoei súplicas místicas. Chamei você de meu amado irmão quando os homens amish que estavam no jardim me perguntaram se eu o amava. E você veio a mim em um sonho: juntos recitamos orações litúrgicas em outro jardim. Seus olhos eram transparentes, suas mãos macias. Você me deu dois presentes – um cachecol e um par de meias, vestes para a jornada. Para manter abrigado meu pescoço? Para evitar que me esfriassem os pés? Nas minhas mãos, reluzia o tetragrama como estigmas – o nome sacratíssimo, impronunciável, de nosso pai. Está bem… Tudo está bem. Posso escrever sobre Jesus.

O livro organizado pela Bruteau tem quatro partes – Concepções históricas e teológicas, Avaliações e interpretações, Concepções pessoais e A Conversa continua -, possui 250 páginas e um epílogo da autora, curto e denso, onde ela agradece aos colaboradores, ansiando por uma outra linha de desenvolvimento de estudos e pesquisas, a de passar do nível acadêmico ao congregacional e familiar, multiplicando as atividades inter-religiosas que atualmente já fecundam promissoramente os horizontes judaico-cristãos.

No prefácio do livro Cristianismo da perspectiva judaica, por aqui não publicado, seus editores assim se pronunciaram: “Acreditamos que chegou a hora de os judeus aprenderem sobre o cristianismo em termos judaicos: redescobrir as categorias básicas do judaísmo rabínico e escutar a maneira como soam as categorias cristãs básicas quando ensinadas nos termos desse judaísmo rabínico. Ouvir o cristianismo em nossos próprios termos é de fato compreendê-lo, quem sabe pela primeira vez”. (Christianity in Jewish Terms, Colorado, USA, Westview, 2000).

Alguns ensaios do livro merecem atenção, muita reflexão e apreendências: A evolução das concepções judaicas a respeito de Jesus, Conversando sobre a Torá com Jesus, Jesus e eu, e Jesus – um profeta do judaísmo universalista.

A leitura do livro da Beatrice Bruteau seguramente proporcionará uma mais acurada compreensão sobre o Homão da Galileia sob múltiplas perspectivas, favorecendo uma espiritualidade mais acurada, historicamente separando o joio do trigo nas denominações judaico-cristãs. Também substituindo preconceitos por conhecimentos, ensejando a emersão de uma humanidade mais ampla e plena.

PS. Para quem deseja se enfronhar melhor sobre a vida desse evolucionário muito amado pelo Pai, recomendo para início de 2017 a leitura de JESUS – A BIOGRAFIA, de Jean-Christian Petitfils, SP, Editora Benvirá, 2015, 528 p. Uma análise baseada nas mais recentes descobertas arqueológicas e aquisições da exegese bíblica, principalmente a partir dos manuscritos do Mar Morto.

PS – A solidariedade prestada pelo torcedor colombiano ao Chapecó, na última quarta-feira num campo de futebol de Medellin, sensibilizou um sem-número de espectadores, inclusive eu, que cheguei às lágrimas. Uma demonstração inequívoca de fraternidade latinoamericana. Força Chape !!!!


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PRESENTES DE NATAL CLASSUDOS PARA AMIGOS ÍDEM

Uma amiga muito querida, colega de estudos, pesquisas, reflexões e militância em prol de um mundo menos violento e mais fraterno, solicita sugestões de livros para presentear no Natal, os contemplados sendo amigos seus de sólidas caminhadas culturais, situados muito acima das mediocridades políticas que enxovalham a nossa atual vida brasileira.

Com alegria, escolhi seis livros para uma consistente lembrança natalina, que deverá ser sempre acompanhada de um oferecimento carinhosamente fraternal e criativo.

1. HOMO DEUS – UMA BREVE HISTÓRIA DO AMANHÃ, Yuval Noah Harari, São Paulo, Companhia das Letras, 2016, 444 p.yu

Do mesmo autor de Sapiens uma breve história da humanidade (dois milhões de exemplares vendidos no mundo), um PhD em História por Oxford, nascido israelense em 1976, analisa o futuro da humanidade com excepcional maestria, combinando ciência, história e filosofia, buscando entender quem somos e para onde estamos indo. Várias questões são pesquisadas minuciosamente. Uma amostra: O que representa a existência de uma inteligência artificial que gerencie aspectos cada vez mais relevantes da vida e da sociedade?; Num mundo dominado por algoritmos, até que ponto o livre-arbítrio será importante para as futuras gerações?; O que significa o fim da fome, se considerarmos a brutalidade com que tratamos milhões de animais para nos alimentar? Uma análise que possibilita análises múltiplas sobre quem fomos e que caminhos tomamos para chegar até aqui, na direção de amanhãs cada vez mais iluminados.

2. JESUS DE NAZARÉ – O QUE ELE QUERIA? QUEM ELE ERA?, Gerhard Lohfink, Petrópolis, Vozes, 2015, 486 p.

Sem exigir qualquer conhecimento prévio, este livro sobre Jesus nos leva a aprofundar as questões tratadas por especialistas, colocando o leitor diante de questões decisivas. Uma delas: Será que a Igreja divinizou Jesus posteriormente ou interpretou corretamente seu mistério? Outra: Aquilo que foi divulgado por Jesus originou em uma utopia e começo de um novo mundo, ou uma esperança única para sarar as feridas do nosso planeta? E mais: Quem foi Jesus? Um rabino inteligente? Um profeta de palavras poderosas? Um revolucionário social radical? Ou um curador carismático de sucesso?

3. ESCRITOS JUDAICOS, Hannah Arendt, Barueri, SP, Amarilys, 2016, 894 p.

Uma coletânea de ensaios produzidos entre 1930 e 1960 por Hannah Arendt (1906-1975), considerada uma das intelectuais mais importantes do século XX, que trata especificamente de questões relacionadas aos “assuntos judaicos”, período em que moldou seu entendimento da história e da política. Hannah esmiúça os desafios enfrentados pelos judeus, analisando temas como a assimilação e o acesso à política, o antissemitismo como categoria social e a criação do Estado de Israel e o Sionismo.

Segundo Cláudia Perrone Moisés, professora de Direito Internacional da USP e Coordenadora do Centro de Estudos Hannah Arendt, “este livro é precioso para todos aqueles que, tendo ‘amor ao mundo’, desejam refletir, de forma inteligente e fundamentada, acerca dos grandes desafios que ainda devem ser enfrentados no mundo moderno.

4. EU E DEUS – UM GUIA PARA OS PERPLEXOS, Vito Mancuso, SP, Paulinas, 2014, 440 p.

Por séculos, o pensamento de Deus foi divulgado a partir da Igreja e da Bíblia. Ainda hoje essa postura predomina. O presente livro, de autoria de um teólogo casado, pai de dois filhos e professor da Universidade San Rafaelle de Milão, segue uma trilha diferenciada, pretendendo falar de Deus a partir do Eu, no ar livre do pensamento, convicto de que “só os pensamentos que surgem em movimento têm valor” (Nietzsche). O autor justifica seu texto: “Esse livro nasce da consciência da gravidade do tempo que o Ocidente está vivendo. Falo de gravidade porque toda grande civilização foi grande apenas à medida que soube alcançar a harmonia entre saber de Deus, ou do divino, enquanto sentido abrangente do viver, e hierarquia dos valores, e saber do mundo, enquanto experiência concreta da natureza e da história. … Por isso, uma religião imposta a uma sociedade se torna simplesmente inútil; e sempre por isso uma sociedade sem enraizamento na religião se torna presa fácil do caos, é corroída pelo niilismo e, pior ainda, pelo comercialismo. … Decorrendo disso uma depressão coletiva da esperança e da imaginação social e, pior , uma desconfiança de fundo acerca da humanidade em si mesma.” Hoje, “mundo sem religião se encontra sem coesão interna, esmagado sob uma dimensão só, em poder de um egoísmo que sabe apenas calcular, muito próximo do cinismo, às vezes do desespero”, lamenta o autor.

5. A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann, SP, Companhia das Letras, 2016, 842 p.

Escrito em 1924, agora editada a partir da edição produzida pela S. Fischer Verlag, 2002, relata a trajetória de um jovem e ingênuo engenheiro chamado Hans Castorp, quando ele se vê internado num sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços, nele se deparando com inúmeros personagens dotadas de conflitos espirituais e ideológicos que antecedem a Primeira Guerra Mundial. Obra-prima do renomado autor alemão, nascido em 1875 e eternizado em 1955.

6. O NOVO TESTAMENTO, tradução de Haroldo Dutra Dias, Brasília, FEB, 2016, 607 p.

Pela primeira vez surge um projeto de tradução do Novo Testamento, diretamente dos manuscritos gregos, com foco na linguagem e sem menosprezar as questões culturais, históricas e teológicas. Profundamente enriquecido pela riqueza das suas notas, “onde expressões idiomáticas, palavras enigmáticas, tradições religiosas, questões culturais e históricas, arqueologia e crítica textual são abordadas de forma direta e sucinta, favorecendo o entendimento do texto.” Na contra capa, o objetivo: “Transportar o leitor ao cenário onde Jesus viveu, agiu e ensinou, a fim de que escute suas palavras, seus ensinamentos, como se fosse um morador daquela região, e então possa ouvir a voz do Mestre galileu em toda sua originalidade, vigor, riqueza cultural, para compartilhar com Ele a pureza genuína dos ensinamentos espirituais superiores.” Nascido em 1971, em Belo Horizonte, MG, o autor estuda há alguns anos hebraico, aramaico e tradição judaica, sendo Juiz de Direito na capital mineira.

Presentes valiosos para mentes privilegiadas, as que já são paulinamente adultas, deixando para trás os pensamentos e análises ingênuos próprios dos ainda infantilizados.


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INCAPACITAÇÕES DESTRUTIVAS

Se alguém desejar ler um romance de suspense não ficcional que retrata de forma meticulosa a ascensão vertiginosa de Adolf Hitler ao poder, o maior assassino da história da Humanidade, uma notável reconstituição histórica se encontra explicitada no livro No Jardim das Feras: intriga e sedução na Alemanha de Hitler, Erik Larson, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2012, 448 p.

E o relato tem início em 1933, quando o professor William E. Dodd, da Universidade de Chicago, sem qualquer experiência no complexo mundo da diplomacia, recebe um inesperado convite do então presidente Franklin Delano Roosevelt para assumir a Embaixada dos Estados Unidos na Alemanha, uma aparentemente privilegiada função agora não mais desejada pelas perspectivas negras que se anunciavam através de comentários advindos de turistas e analistas argutos.nj

Devidamente orientado para manter uma posição de neutralidade em relação ao novo governo, que já se iniciara pondo as garras de fora, implementando o estabelecido no livro Mein Kumpf (Minha Luta), escrito na prisão pelo novo mandatário máximo, Dodd se instala em Berlim, juntamente com a esposa Mattie e seus dois filhos adultos William Jr. e Martha, esta uma mulher desvinculada das discrições diplomáticas mínimas então vigentes, logo tornada deslumbrada pela pomposidade social, a animação dos eventos diplomáticos e o charme sedutor dos homens mais significativos do III Reich, principalmente o do chefe da Gestapo Rudolf Diels, famoso pelas sua incontáveis bimbadas em lugares pouco discretos, nunca dantes para tal fim destinados.

Durante os seus primeiros meses na Alemanha, a família Dodd logo percebeu, com estupefação, a crescente perseguição aos judeus, a instalação da censura na imprensa e a implantação de novas e terrificantes leis. Preocupações transmitidas pelo Embaixador Dodd ao Departamento de Estado, recebidas com cretiníssima indiferença pelos dirigentes máximos da diplomacia norte-americana, mais preocupados em receber uma dívida de US$ 1,2 bilhão, contraída com magnatas americanos.

Mas tudo mesmo começou umas semanas antes da chegada de Dodd, numa quinta-feira 29 de junho de 1933, quando dois funcionários consulares receberam a visita de Joseph Schachno, 31 anos, médico recém chegado de Nova York e devidamente instalado num dos subúrbios berlinenses. Que tinha sido violentamente chicoteado, dias antes, por dois homens fardados da gangue nazista, sob acusação falsa de conspiração contra o Estado. Devidamente hospitalizado e com um novo passaporte, logo fugiu com a esposa para a Suécia, seguindo posteriormente para os Estados Unidos.

O perfil do novo embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, de birô, burocracia e sala de aula, beirava a simplicidade idiótica de quem se encontrava distanciado dos sinais animalescos que emergiam nos cenários germânicos, já identificados através de um comunicado anteriormente enviado ao então muito lerdo Departamento de Estado: “Com raras exceções, os homens que comandam este governo têm uma mentalidade que vocês e eu não conseguimos compreender. Alguns são verdadeiros psicopatas e em qualquer outro lugar estariam em tratamento”. As prisões, os espancamentos e os assassinatos já aconteciam aos montes, praticados pelas Tropas de Assalto, as famigeradas SA, que praticavam barbaridades sob o eufemismo burlesco de “praticar custódia protetora”, vitimando comunistas, socialistas, ciganos, deficientes e judeus.

O livro do Larson, uma leitura que embrenha por madrugadas várias, pode ser definido como um romance de suspense repleto de personagens altamente ambivalentes, alguns idióticos, outros animalizados, a grande maioria hipnotizada por alucinados nazistas, submetida a uma liderança máxima de inteligência privilegiada, embora voltada para ideários funestos, ainda hoje reacendidos, aqui e ali, por psicopatas que se imaginam seguidores perpétuos de posturas arianas antissemitas.

Em setembro de 1936, o nomeado embaixador norte-americano em Paris, William C. Bullitt, assim opinava sobre as atividades de Dodd: “ele tem muitas qualidades admiráveis e simpáticas, mas está quase idealmente despreparado para seu cargo atual”. O conceito negativo de Dodd se alastrava rapidamente, proporcionando ao famoso colunista Drew Pearson a publicação de reflexões contundentes numa coluna da United Features Syndicate, em dezembro de 1936, sobre a missão diplomática do embaixador, classificando sua atuação como “um fracasso total”, retratando a incapacidade dele de ajustar-se às emergentes manifestações do regime nazista.

O livro alerta, numa didática que não infelicita a dinâmica romanceada dos acontecimentos históricos, sobre os infortúnios que podem ser cometidos por personalidades despreparadas para o exercício de cargos que requerem decisões eivadas de consistentes estratégias políticas. Incluindo, aqui, as praticadas pelos familiares mais próximos. Um exemplo significativo pode ser colhido através de um telegrama secreto de Moscou para Nova York, em janeiro de 1942, classificando Martha, a filha de Dodd, de “mulher talentosa, esperta e instruída”, alertando que a mesma “requer controle constante de seu comportamento”. Um dos agentes soviéticos testemunhou contundentemente: “Ela se considera comunista e diz aceitar o programa do partido. Na realidade, é uma representante típica da boemia americana, uma mulher sexualmente corrompida e pronta para dormir com qualquer homem bonito”.

O talento de escritor, associado ao de historiador-pesquisador tornaram o livro de Erik Larson de leitura pra lá de sedutora, favorecendo o conhecimento de fatos que humilharam a dignidade mundial, ao mesmo tempo que advertindo para as terríveis consequências advindas quando se nomeia ou elege personalidades dotadas de inteligências limitadas ou pouco dotadas para as atividades de comando, que requerem competência, criatividade e compromisso solidário com os destinos de todos os seres humanos, sem as discriminações que enegrecem o caminhar de cada um.


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ACHADO CIDADANIZADOR

Dentre minhas preferências literárias, aprecio temas vinculados à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). E a leitura do diário de uma garota judia de catorze anos que vivia no gueto de Lodz, na Polônia, encontrado perto das ruínas dos crematórios de Auschwitz-Birkenau pela médica do Exército Vermelho Zinaida Berezovskaia, em junho de 1945, me comoveu bastante, fortificando minha ojeriza radical pelas práticas violentas que afetam crianças e adolescentes.o-diario-de-rywka

Somente tornado público sete décadas depois do final da guerra, O Diário de Rywka: encontrado em Auscwitz em 1945, publicado pela primeira vez 70 anos depois, Rywka Lipszyc, São Paulo, editora Seguinte, 2015, retrata os temores, horrores, sonhos e esperanças de uma quase criança marcada por tragédias acumuladas pela perda dos pais, deportações de dois irmãos e uma vida em condições bastante precárias ao lado de primas.

Rywka, depois que o gueto se transformou num campo de trabalhos forçados, depois da ocupação da Polônia pelos alemães em 1939, perdeu os pais, dois dos seus irmãos foram deportados, ela passando a viver com duas primas em situação muito precária. Suas angústias, pesadelos e sonhos, registrados entre 1943 e 1944, veio a se constituir no documento mais importante sobre a vida da população judaica confinada em Lodz.

O diário de Rywka retrata a vida dos judeus em Lodz entre 1943 e 1944: medos, trabalhos forçados, fome e miséria. Mas também mostra os modos de resistir e protestar, como uma estratégia de dar sentido a um derredor horripilante. As memórias encontradas é mais que um mero documento histórico. É um testemunho da força e da fé de uma adolescente que queria sobreviver, apesar de todos os sofrimentos causados por uma perseguição criminosamente urdida por um regime assassino, quando “até a falta de comida tornava os habitantes do gueto mais animais do que humanos”.

Um trecho do diário bem revela o espírito forte de uma quase criança de 14 anos, que bem percebe o lado benéfico das Ciências Humanas: “Na nossa escola (nem é mais uma escola, porque seu nome foi mudado para fach kurse (curso vocacional), não teremos mais aulas de hebraico ou matemática, só cinco horas de costura e uma hora de desenho técnico. Não são permitidos livros nem cadernos de trabalho. … Isso machuca tanto (para eles não somos humanos, apenas máquinas)”. Uma tremenda bofetada século XXI nos executivos governamentais que menosprezam a construção de bibliotecas de formação humanísticas, apenas preocupados em robotizar seres humanos nos mecanismos das técnicas.

Segundo Judy Janec, num dos anexos do diário, “a última passagem do diário de Rywka Lipszyc foi escrita em 1944”, embora daí para frente um enigma histórico persiste: qual o destino último de Riwka? O parágrafo último do texto de Janec, diretora da Biblioteca Tauber Holocaust e dos Arquivos do JFCS Holocaust Center em San Francisco de 2004 a 2013, se mostre esperançoso: “Se algum leitor tiver informações que possam ser úteis em nossa busca por Rywka Lipszyc, por favor entre em contato com o Jewish Family and Children’s Service Holocaust Center, 2245 Post Street, San Francisco, Califórnia, 94115.

Dois textos complementam O Diário de Rywka, além de uma análise de Alexandra Zapruder. . O primeiro deles, de Fred Rosenbaum, intitula-se A Cidade de Rywka, o Gueto de Rywka, e analisa porque Lodz se transformou no gueto mais isolado e oprimido de toda a Europa ocupada pelos nazistas. Até antes da Primeira Guerra Mundial, Lodz era reputada como centro de gigantesca pluralidade cultural, dotada de um portentoso dinamismo econômico. Em 1900, os judeus constituíam quase um terço da população, também a metade dos homens de negócio de Lodz. O antissemitismo em Lodz se intensificou depois da morte do chefe de Estado da Polônia Josef Pilsudski, que durante seu governo de nove anos buscou proteger as minorias nacionais. Lodz foi o primeiro, e o de maior duração, dos duzentos guetos estabelecidos pelo III Reich, também classificado como o mais impenetrável. Em 1942, setembro, aconteceram as deportações mais cruéis, quando milhares de judeus foram tirados de suas casas e levados para outros locais, inclusive os que se utilizavam as famigeradas câmaras de gás.

O segundo texto, de autoria da historiadora tenta solucionar o mistério que até hoje impera sobre o destino de Rywka Lipszyc. Inclusive respondendo uma questão até hoje repleta de mistério: “Como o caderno de Rywka sobreviveu desde a chegada dela a Auschwitz-Birkenau, passando pelo rígido inverno polonês, até a primavera de 1945, quando foi encontrado pela médica soviética Zinaida Berezovskaia?

A leitura atenta de O Diário de Rywka seguramente adensará a aversão dos que ainda não aquilataram devidamente a criminosa gestão do III Reich. E a resistência de uma quase adolescente pela sobrevivência pessoal e dos demais companheiros de infortúnio. O testemunho escrito dela é imorredouro: “A fome sempre teve um impacto muito ruim em mim, e continua tendo. … É uma sensação terrível a de passar fome.

Um livro que não deve apenas ser lido. Mas referenciado como de alto teor cidadanizador. Próprio dos desafios de um século ainda obtuso, descalibrado, inteiramente (trump)iano.


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IMPUNIDADES GRITANTES

Uma questão paira no ar de uns tempos para cá, desafiando historiadores dos mais variados calibres: como alguns célebres culpados do massacre industrializado nazista de milhões de judeus e outras minorias, na Segunda Guerra Mundial, conseguiram encontrar lugar de destaque na sociedade dita civilizada ocidental, a mesma sociedade que eles tentaram criminosamente destruir? Impunidades que vitimaram duplamente as vítimas do Holocausto: pelos sofrimentos causados nas mãos dos nazistas e quando contemplaram, impotentes, os algozes escaparem da Justiça depois da guerra, passando ao convívio pleno de uma vida normal, após as atrocidades cometidas nos guetos e campos de morte.

Um livro de um jovem historiador, PhD em História pela Universidade de São Paulo, também pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação daquela universidade, especializado em nazismo e antissemitismo, refaz a caminhada pós-guerra de seis notórios carrascos nazistas: Klaus Barbie, Josef Mengele, Albert Speer, Franz Stangl, Gustav Wagner e Adolf Eichmann, autores de indescritíveis atrocidades, excessão do arquiteto Speer, considerado uma testemunha privilegiada daqueles tenebrosos tempos, visto hoje como um narrador daquilo que por ele foi observado, como se tivesse nenhuma responsabilidade, mesmo sendo o principal ministro do ditador nazista como Ministro do Armamento, considerado após a guerra e sua libertação da prisão de Spandau como memorialista, por ter escrito dois livros – Por Dentro do III Reich, Os Anos de Glória e Por Dentro do III Reich, A Derrocada, RJ, Artenova, 1971 -, criando uma imagem de alguém que não teve escolha e que possuía bom coração.mg

O livro recentemente lançado intitula-se Nazistas entre nós: a trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra, Marcos Guterman, SP, Contexto, 2016, 192 p., onde uma explicação se explicita: “A principal explicação para tamanho desvirtuamento da justiça está na época em que esses fatos se deram. Viviam-se os paranoicos tempos da Guerra Fria, em que, principalmente nos Estados Unidos, a luta contra os comunistas adquiriu contornos épicos, solapando qualquer outra consideração. Os americanos entenderam que os ex-oficiais nazistas poderiam ser úteis para esse combate considerado sobrevivencial, já que, durante a Segunda Guerra, tais criminosos haviam sido especialmente ferozes contra os soviéticos.

Segundo o autor, fazendo justiça a uma posição brasileira, “no que diz respeito especificamente aos nazistas em fuga da Europa em direção à América Latina, nazistas esses que os americanos estavam interessados em proteger e cujo trabalho queriam explorar, o Brasil, até onde se sabe, nunca demonstrou interesse, muito menos empenho em recebê-los. Pode-se dizer que o Brasil dos militares era indiferente aos nazistas, embora soubesse que muitos deles – não necessariamente criminosos – haviam emigrado para o país depois da guerra, concentrando-se sobretudo na região Sul, de grande presença alemã.

No livro está ressaltado que “o genocídio dos judeus e o massacre de outras minorias não teria sido possível sem a colaboração direta da sociedade europeia e, principalmente, alemã, seja na forma de colaboração direta, seja por omissão. Responsabilizar apenas Hitler e seus sequazes mais conhecidos foi a forma que o mundo encontrou para superar sua própria responsabilidade naquela imensa tragédia.” Inclusive, depois da Guerra, quando diversos empreendimentos foram organizados para tirar nazistas da Europa, alocando-os em lugares seguros, onde escapariam da justiça. Inclusive uma delas, chamada Ratline, “Linha dos Ratos”, também conhecida como “Rota dos Monastérios”, um dos principais protagonistas sendo o padre Krunoslav Draganovic, um fascista croata com grande trânsito nos serviços de inteligência americano, que contava com um importante operador, o bispo Alois “Luigi” Hudal, reitor de um seminário austro-germânico em Roma, que pessoalmente organizou a fuga do carrasco Franz Stangl, ex-comandante de Treblinka, para a Síria, também de Adolf Eichmann e Josef Mengele. Somente em uma carta datada de agosto de 1948, o bispo Hudal pede ao ditador argentino Juan Domingo Perón CINCO MIL vistos de entrada para três mil alemães e dois mil austríacos, dizendo terem sido soldados que combateram os comunistas. E com o bispo Hudal, trabalhava o padre húngaro Edoardo Dömöter, responsável pelo passaporte concedido a Eichmann, na sua fuga para a Argentina.

O livro, em capítulos especiais, traz detalhes sobre os criminosos nazistas acima citados. Abaixo, uma síntese de dois fascínoras.

Klaus Barbie, alcunhado “O Açougueiro de Lyon”, nascido em 1913, simbolizou um tipo muito particular de nazista: aquele que cumpria suas tarefas com prazer indescritivelmente sádico. Era um psicopata organicamente cruel. Sua crueldade ficou conhecida por ter ele desenvolvido terríveis técnicas de tortura e sevícias. Somente após 40 anos de cometer seus crimes foi a julgamento, acontecido em 1987, quando em 4 de julho saiu sua condenação à prisão perpétua, morrendo na prisão quatro anos depois sem demonstrar o menor sinal de arrependimento.

Josef Mengele, somente superado por Hitler no bestiário nazista. Conhecido como “Anjo da Morte”. Em Auschwitz, escolhia pessoalmente aqueles que seriam submetidos às mais terríveis experiências, as crianças gêmeas sendo as preferidas pelo médico monstro.

Depois de uma temporada na Argentina e no Paraguai, resolveu abrigar-se no Brasil, para isso contando com a proteção de Wolfgang Gerhard, ex-líder da Juventude Hitlerista na Áustria, que se encontrava no Brasil desde 1948, detestava os brasileiros por considerá-los de raça inferior, tendo conhecido Mengele no Paraguai, através do coronel nazista Hans-Ulrich Rudel. Para Mengele, Gerhard adquiriu para ele um pequeno sítio em Itapecerica da Serra, distante apenas 30 km da capital paulista.

Em janeiro de 1979, Mengele aceitou passar férias em Bertioga, na casa alugada por um casal amigo, se permitindo sair com ele de casa para um banho de mar, em 7 de fevereiro, quando às 16 horas, dentro d´água, sentiu o corpo paralisado por um derrame cerebral, em dez minutos morrendo sem qualquer socorro.

Enterrado sob identidade falsa, Mengele foi reconhecido em maio de 1985, quando a Polícia Federal brasileira encontrou na casa de Hans Seldmeier, um velho amigo, a correspondência que o Anjo da Morte guardava, posteriormente alguns arquivos sendo recolhidos também na casa do casal Bossert, identificando sua ossada no cemitério do Embu.

As trajetórias dos demais criminosos, eu as deixo para os amigos leitores interessados em Segunda Guerra Mundial. Vale a pena uma conferida.


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SOBRE A MORTE E O MORRER

Permitam-me os leitores da Besta Fubana tratar de um assunto que ainda incomoda algumas pessoas, proporcionando uma série de questionamentos sobre o tema do título acima, sejam quais forem suas crenças na eternidade.

Nas áreas comunitárias, médicas e hospitalares, há uma crescente quantificação de profissionais e instituições religiosas que estão ampliando suas análises metodológicas sobre como relacionar-se com os pacientes que portam enfermidades irreversíveis. Alternativas as mais diferenciadas estão sendo postas em discussão em diversos encontros especializados, envolvendo equipes interdisciplinares, incluindo acadêmicos de medicina e demais áreas paramédicas.

Até bem pouco tempo atrás, o binômio morte/morrer era assunto integralmente descartado das capacitações proporcionadas aos profissionais ligados aos centros hospitalares e ambulatoriais, uma impotência analítica parecendo dominar mentes e corações, como se o tema não existisse desde os primordiais tempos históricos.smo

Tenho uma admiração bastante acentuada por uma médica suíça, naturalizada norte-americana, cuja vida profissional foi dedicada ao estudo dos relacionamentos pacientes-médicos-familiares em hospitais com internados acometidos de enfermidades irreversíveis. E que escreveu um livro, Sobre a Morte e o Morrer, que mereceu incontáveis aplausos e algumas rejeições nos quatro cantos do planeta, os elogios gigantescamente mais numerosos que as críticas, muitas destas efetivadas sob clima emocional debilitado ou fugidio ao extremo.

Após milhares de seminários efetivados pelos vários continentes, a Dra. Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004), que inovou a medicina ocidental sobre a morte e o morrer, idealizando uma série de técnicas que proporcionassem um fim de vida mais ameno para pacientes, lançou um outro livro onde esclareceu questionamentos os mais diversos. Respostas que favoreceram conteúdos programáticos de uma futura especialidade denominada tanatologia: Perguntas e Respostas sobre a Morte e o Morrer, editado no Brasil pela Martins Fontes, em primeira edição, em 1979.

Relendo o livro após a morte de uma pessoa por mim muito amada, resolvi dele extrair algumas considerações para o JBF, favorecendo a ampliação da “enxergância” de muitos diante dos casos irreversíveis de enfermidade.

1. Toda pessoa acometida de um mal danado de brabo passa por várias etapas, antes de findar-se: a. negar o diagnóstico veementemente, continuando a viver tinindo e forte como sempre imaginou ser; b. procurar ansiosamente alguns médicos conhecidos, na esperança de ver o diagnóstico negativo rejeitado definitivamente; c. aceitando a realidade, revoltar-se, indagando para amigos e familiares “por que eu?”; d. principiar a chantagear, oferecendo às autoridades do Alto um bom comportamento de agora por diante, dedicando-se mais amiúde a ajudar os mais necessitados; e. tentar arrumar sua vida e a dos seus negócios; f. entrar numa fase depressiva, lamentando as perdas ocorridas; g. perder o interesse pelo mundo exterior; h. reduzir sua curiosidade por pessoas e fatos; g. desapegar-se gradativamente pela vida, alcançando o estágio final de aceitação.

2. Nenhum paciente deve ser informado de que está morrendo, privando-o de um lampejo de esperança, embora deva ser informado sobre a gravidade do seu estado;

3. Ensinar carinhosamente às crianças e jovens da família como encarar a realidade da morte;

4. Entender o que se deve e o que não se deve falar no quarto do paciente, posto que todos os pacientes em estado de coma são capazes de ouvir o que se está a dizer no seu derredor;

5. Diante de dores atrozes, jamais recusar a ministração de sedativos, sob orientação médica;

6. Estar sempre preparado para lidar com a Síndrome de Lázaro, quando o paciente moribundo, já enfrentando o ritual da morte, começa a se recuperar;

7. Respeitar o paciente que recusa submeter-se a um determinado tratamento;

8. Ideal seria que, tanto paciente como a família, pudessem atingir o estágio de aceitação antes do último suspiro do doente;

9. Trate com os pacientes idosos que sofrem de enrijecimento das artérias cerebrais (senilidade) como se tratasse de um recém-nascido: dê comida, conserve-os enxutos, aquecidos e confortáveis, pegando neles como exatamente se faria com um bebê.

10. É sempre melhor, ao agir, cometer um erro, do que não tentar agir de nenhum modo.
Para não me prolongar mais, sintetizo a seguir sobre dois pontos que abalam significativamente as estruturas familiares contemporâneas: o suicídio e a morte repentina.

Os pacientes que pensam em suicídio pertencem a algumas das quatro categorias abaixo:

a. Os que possuem grande necessidade de controlar tudo e a todos;

b. Os que são cruelmente informados de que portam uma doença maligna;

c. Os que se submetem a diálise ou estão à espera de transplante, que perdem repentinamente a esperança, vitimados por “suicídio passivo”; e

d. Os que são negligenciados, abandonados, isolados, recebendo tratamentos médicos, emocional ou espiritual, inadequados.

Quanto à morte súbita e inesperada de uma pessoa querida, é uma experiência trágica para uma sociedade como a nossa, que é “negadora da morte”. E quando é criança, adolescente ou adulto jovem, a ocorrência é mais dolorosa ainda. Que se faça a autópsia com todo cuidado, compreendendo as razões pelas quais muitas dessas famílias permanecem durante meses num estágio de não-aceitação, muitas delas ficando a necessitar de terapias profissionais especializadas.

No capítulo 12 do livro, a Dra. Kübler-Ross responde sobre humor, temor, fé e esperança. E sobre o relacionamento dela com seus pacientes moribundos, nos deixando uma lição inesquecível:

“Tenho a ousadia de envolver-me emocionalmente com eles, o que me poupa o trabalho de usar parte de minha energia para encobrir meus sentimentos”.

 


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SOBRE GUERRA E ESPIONAGEM

I – SOBRE GUERRA

Quatro homens poderosos, Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman, no período acontecido entre a Conferência de Yalta e o bombardeio de Hiroshima, testemunharam acontecimentos que alteraram a arquitetura política mundial: a transformação dos Estados Unidos e da União Soviética nas duas nações mais poderosas do planeta; a derrota da Alemanha nazista e do Japão imperial; o Império britânico à beira de um colapso econômico; a morte de um presidente três vezes eleito; um ditador doentio que quase conquistou o mundo; um primeiro-ministro que havia inspirado seu povo durante os dias de guerra derrotado em eleições livres; milhões de pessoas sendo enterradas em vala comum; cidades históricas reduzidas a escombros; e um tzar vermelho redesenhando o mapa da Europa e erguendo uma “cortina de ferro” entre Oriente e Ocidente. Além da aliança entre exércitos de duas grandes potências, oficialmente aliadas, embora guiadas por ideologias opostas, configurando a previsão de Alexis de Tocqueville, efetivada mais de um século antes: “Seus pontos de partida são diferentes, assim como seus percursos não são os mesmos; contudo, cada um deles parece destinado pela vontade dos céus a conduzir o destino da metade do globo”.sm

Para quem deseja se inteirar melhor do ocorrido entre Yalta e Hiroshima, o livro Seis Meses em 1945: Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman; da Segundo Guerra Mundial à Guerra Fria, do historiador e jornalista Michael Dobbs, também professor de Princeton e Harvard, Compahia Das Letras, 2015, é uma excelente recomendação para quem apreender com segurança os dramáticos acontecimentos verificados em metade de um ano.

Num último capítulo, Michael Dobbs analisa o início e o fim da Guerra Fria, quando já nos primeiros dias do segunda semestre de 1945, americanos e russos já tinham comprovações suficientes de que o outro lado não estava cumprindo os acordos estabelecidos em Yalta.

No mundo político, onde quase todos fingem cumprir diretrizes partidárias, a lição do homem público Darcy Ribeiro deve ser decantada em prosa e verso: inteligência transcende posicionamentos políticos, integridade analítica independe de cores partidárias, divergir com honestidade se posta acima dos alicerces do cotidiano convivencial. Por estas plagas, os bundas de cá costumam aplaudir tudo o que chefe de cá faz, lascando o pau no chefe dos bundas de lá, como se erros e omissões de todo calibre não existissem nos dois lados da banda.

Outro dia, aqui no Recife, alguém foi convidado para um café com bolacha na casa de um renomado líder político, consagrado nacionalmente por saber administrar bem a mauricéia. Recusou delicadamente, alegando que o seu chefão poderia não gostar, sendo muito provável sua queimação, se comparecesse. E uma amizade sólida quase fica chamuscada por uma frouxura tamanho família. Um cagaço de entrar pro livro dos recordes.

II – SOBRE ESPIONAGEM

Para quem leu Arte da Guerra, de Sun Tzu, a espionagem é um ato só permitido entre beligerantes, nações, grupos guerrilheiros em guerra e/ou guerrilha. Consiste na prática de obter informações de caráter sigiloso relativas a governos ou organizações, sem a autorização desses, para obter certa vantagem militar, política, econômica, científica, tecnológica e/ou social.

Consultando o Google, a palavra “espionagem” vem da palavra francesa “espionner“, que significa “espionar“, e do italiano clássico “spione“. A palavra “spy” é originária de várias palavras antigas significando “olhar e observar“, como no latim “specere” ou no anglo-normando “espier“.

Os antigos egípcios possuíam um sistema completamente desenvolvido para a aquisição de informações, e os hebreus também o usaram. Mais recentemente, a espionagem teve participação significativa na história da Inglaterra no período elizabethano. No entanto o primeiro serviço secreto oficial foi organizado sob ordens do rei Luís XIV de França.

Em muitos países, a espionagem militar ou governamental é crime punível com prisão perpétua ou pena de morte. Nos Estados Unidos, por exemplo, a espionagem é ainda um crime capital, embora a pena de morte seja raramente aplicada nesses casos, pois em geral o governo oferece ao acusado um abrandamento da pena, em troca de informações.

Aos interessados em saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura de A História da Espionagem, de Ernest Volkman, SP, editora Escala, 2013. O autor é uma autoridade consagrada no assunto, possuindo vários livros sobre inteligência e segurança nacional. Veterano da inteligência do Exército dos EUA, reside em Massachusetts. Seu livro analisa o assunto desde os tempos antigos até o mundo pós-9/11, numa ordem cronológica cativante e excelentemente bem exposta.

Segundo Volkman, a inteligência funciona em três níveis: o estrategico, de avaliar as intenções e evoluções; o tático, que operacionaliza; a contrainteligência, que protege os segredos a partir de operações efetuadas por outras áreas/instituições. Como toda atividade do ser humano, tudo sempre sujeito aos seus caprichos. Daí nunca ser infalível qualquer tipo de espionagem.

Como nasceu a espionagem? Surgiu a partir das obcecadas ideias das grandes civilizações antigas – egípcia, hitita, assíria, babilônica e persa – de edificarem impérios universais, para isso sempre carentes de informações dos concorrentes. Tabuletas de barro, gravadas há mais de 4.000 anos já descreviam operações de espionagem. E uma tabuleta, encontrada na Mesopotâmia, continha informações sobre o fabrico de esmalte, o maior segredo da antiga Suméria, prova cabal de que a espionagem industrial era também dos tempos a.C..

O livro do Volkman é uma agradável leitura instrutiva para quem deseja ampliar conhecimentos sobre espionagem, desde os tempos pré-bíblicos até as contemporâneas guerras contra o Terror e a espionagem nuclear. Desde antes Judas até o inesquecivelmente trágico 11 de setembro.


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DUAS RECOMENDAÇÕES

1. FÉ, FATOS, FALSIFICAÇÕES

Acontecimentos com mais de dois mil anos, verificados na Judeia, ainda fascinam seres humanos dos quatro quadrantes do planeta, em pleno século XXI, crentes e não crentes. A bibliografia sobre os fatos e feitos que revolucionaram o mundo é repleta de pesquisas sérias, baboseiras mil, infantilismos e enganações. Textos que fazem refletir, leituras investigativas ecumênicas e escritos teologais transecumênicos são muitas vezes preteridos pelos que, leitores ainda dotados de uma transitividade ingênua, a la Paulo Freire, buscam escritos anestésicos, ilusórios ou que prometem mundos e fundos financeiros, deixando milhões de abobados sem eira nem beira, inclusive salvacionista, a mercê da misericórdia do Alto. Enquanto muitos “sabidos evangelizadores” se tornam podres de ricos.ebdj

Confesso que muitos livros fingidamente religiosos me enfastiam rapidamente, me dando a certeza de uma desenvagelização crescente acontecem nas mentes menos críticas, aquelas que “falam como criança, pensam como menino e raciocinam como menino” (1Co 13,11), nunca se deixando resvalar para uma maturidade religiosa cativante, bem sedimentada, século 21.

Para os paulinamente amadurecidos, os “convictos em suas próprias mentes” (Rm 14,5), portadores de vários tipos de dons e ministérios, embora o Espírito seja o mesmo (1Co 12,4), uma leitura fascinante foi lançada em junho passado pela editora Fontanar, São Paulo. Trata-se de Em Busca de Jesus: Seis Relíquias que Contam a Notável História dos Evangelhos, de David Gibson & Michael McKinley, o primeiro um jornalista premiado e também diretor de cinema, especializado na cobertura de temas religiosos. O segundo, também jornalista e cineasta premiado, ainda é roteirista para a CNN.

As pesquisas realizadas pela dupla foram as seguintes: João Batista: messias rival, ossos da discórdia; Ossuário de Tiago: a mão de Deus ou o crime do século?; Maria Madalena: prostituta, apóstola, santa ou esposa de Jesus?; O Evangelho de Judas: a maior novela policial do cristianismo; A verdadeira cruz: suficiente para encher um navio; e A mortalha e o sudário: Jesus da história, Jesus do mistério. Além de um ensaio introdutório denominado Quem é Jesus?, favorecendo um pano de fundo dos seis estudos efetivados.

Algumas iniciativas pitorescas são narradas, como as acontecidas com o arcebispo anglicano James Ussher, no século XVII, que através de complexos cálculos baseados na Bíblia, determinara a data da Criação: a noite que precedeu o domingo de 23 de outubro de 4004 a.C. E também a tradição islâmica que localiza a cabeça de João Batista na Mesquita de Umayad, em Damasco. Ou as contradições existentes sobre Madalena, que muitos a definem como uma rameira, e que era apóstola maior que os seguidores do Homão e companheira fiel de Jesus. Para não falar no Evangelho de Judas, considerado falso por uns e verdadeira boa nova para muitos outros.

O livro é muito bem escrito, sendo muito apropriado para mentes cristãs amadurecidas.

2. GUIA PARA O SÉCULO 21

Estou estudando sobre novas formas de espiritualidades, diferenciadas de muitas das atuais, descativantes por derradeiro. E um desafio surge, num mundo que anseia por mais amor e caridade, refugando os individualismos que subvertem vidas e felicidades, favorecendo um efetivo distanciamento do sagrado: o que será necessário para dar às pessoas uma vida espiritual mais poderosa que a oferecida pelas atuais denominações?chopra

Um físico quântico, Amit Goswami, comentou o livro O Futuro de Deus: um guia espiritual para os novos tempos, do médico hindu Deepak Chopra, editado pela Planeta, em fevereiro passado: “A luta contínua entre duas visões de mundo, uma religiosa e outra científica, tem confundido a mente ocidental. O Futuro de Deus é importante por duas razões: a primeira é desbancar os chamados céticos, pessoas como Richard Dawkins, que, ao que parece, não conseguem sequer distinguir os aspectos populares e os esotéricos da religião. A espiritualidade encontrou novos suporte na física quântica e em outros avanços recentes da ciência. A segunda razão para a importância do livro é que ele é realmente um guia confiável sobre como buscar Deus mesmo em tempos confusos”.

O livro do Chopra ressalta como Deus está evoluindo com a consciência da humanidade. Ele ressalta como um Deus sem ilusões é condição primeira e necessária para o bem-estar físico dos seres humanos, indo muito além dos dogmatismos em involução crescente. Destaca que o antigo modelo de Deus está sendo gradativamente posto de lado, quando “a racionalidade, a experiência pessoal e a sabedoria de muitas culturas estão se unindo, a própria evolução humana dá um salto nas questões do espírito”. O Deus 1.0 está sendo substituído por uma nova versão, o Deus 2.0, no mundo ocidental, onde Ele é a interface entre você e a consciência infinita. E Chopra conclui: “Vivenciar Deus passa a ser a norma, nada espetacular como algum tipo de milagre, mas no sentido muito mais profundo de uma transformação”.

No livro, Chopra reproduz resposta dada por Einstein a alguém que duvidou que ele acreditasse em Deus: “Tente desvendar, com os nossos recursos limitados, os segredos da natureza e verá que, por trás de todas as leis e conexões discerníveis, permanece algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração que transcende qualquer coisa que somos capazes de compreender é a minha religião. Nessa medida, posso dizer que sou um religioso”. O que Einstein reforçava era a ideia de que a busca por Deus não deve envolver a velha imagem de um patriarca sentando no trono, de vestes alvas e resplandecentes. Que externou numa frase famosa: “A ciência sem a religião é manca. A religião sem a ciência é cega”.

Excelente “leitura garimpeira” para tempos de braba crise de espiritualidade.


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RECRIANDO UTOPIAS

A PRIMEIRA

Um livro alcançou, meses atrás, a 12ª. edição no Brasil. De Thomas Merton, francês nascido em 1915, convertido ao cristianismo em 1938, ordenado aos 34 anos e eternizado em 1968, A Via de Chuang Tzu, Vozes, analisa o considerado maior filósofo asiático, de excepcional sabedoria num mundo que necessita voltar a conhecer suas raízes, sob pena de naufragar num fisiologismo letal.tm

Merton ressalta o significado do taoismo num linguajar simples sem simploriedades, humildade sem subserviência, despojamento sem vitimizações, favorecendo o fortalecimento de uma mentalidade despojada de sonhos alucinatórios descabidos. Tampouco messiânicos.

As citações de Merton são frutos de cinco anos de leituras, estudos, notas e meditações. Que se transformaram em reflexões sobre os pensamentos, “aventuras em interpretações pessoais e espirituais”. Ele mesmo justifica sua vontade de estudar Chuang: “Ele é grande demais para necessitar de quaisquer explicações de minha parte. Se Santo Agostinho pôde ler Plotino, se Santo Tomás pôde ler Aristóteles e Averróis (ambos bastante distanciados do cristianismo, nem mais do que jamais o fora Chuang Tzu!), e se Teilhard de Chardin pôde fazer um amplo uso de Marx e Engels em sua síntese, acho que me podem desculpar estas minhas relações com um recluso chinês, que compartilha do clima e da paz, da minha própria solidão, e que é o meu tipo característico de pessoa”.

Na Bíblia há um livro que muito se assemelha aos clássicos taoistas, o Eclesiastes, onde muitos dos ensinamentos lá contidos estão explicitados em Chuang Tzu e Tao Te Ching, formando um todo que renuncia “aquelas espiritualidades exaltadas e não encarnadas que dividem o homem contra si mesmo, colocando uma metade no reino angelical, e, a outra, num inferno terreno”.

Chuang diferencia um homem de espírito de um homem verdadeiro. O primeiro “não é muito íntimo de ninguém, nem muito distante. Interiormente, permanece atento e mantém o equilíbrio para não entrar em conflito com ninguém”. O segundo “vê o que o seu olho vê e nada acrescenta do que ali não se encontra. Ouve o que o ouvido escuta e não percebe coisas imaginárias, exagerando ou subtraindo a realidade”.

Chuang proclamava a existências de três classes de pessoas vis: os joguetes, os sanguessugas e os manipuladores. Os primeiros, tolos por completo, submetem-se sempre à linha de conduta do superior. Os segundos são semelhantes aos piolhos do corpo de uma porca, imaginando-se ali eternos, nunca percebendo que, um dia, o açougueiro virá de facão amolado. E os terceiros vivem de gabinete em gabinete, sem jamais deixar a ribalta, tampouco se esquecendo de estacionar suas carroças.

E ainda há aqueles que praticam ardentes babaovismos, com “nobilitantes” intenções hedonistas.

* * *

A SEGUNDA

Quando o papa Francisco, recentemente na Colômbia, pediu cautela para com todas as ideologias, dando uma baita sacudidela nos extremos do mundo político contemporâneo, lembrei-me de um pequeno livro lido por volta de 2000, editado pela Vozes, integrando a coleção Zero à Esquerda, possuindo como integrantes do seu Conselho Editorial Otília Arantes, Roberto Schwartz, Modesto Carone, Fernando Haddad, Maria Elisa Cevasco e José Luís Fiori. Uma coleção que editou inclusive Desorganizando o Consenso e Em Defesa do Socialismo, do atual prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o primeiro tendo Haddad apenas como organizador dos ensaios.

Da coleção, à época apenas me chamou a atenção o trabalho do economista Paulo Singer intitulado Uma Utopia Militantes – Repensando o Socialismo, Petrópolis, RJ, Vozes, 1998. Que na Introdução, explicava a razão do livro: “a preocupação de reconceituar a revolução social e de reavaliar suas perspectivas e possibilidades, face às vicissitudes do capitalismo e do movimento operário nos anos finais do século e do milênio”. Uma preocupação originada também “do fracasso histórico da tentativa de alcançar – ou ‘construir’ – o socialismo através da estatização dos meios de produção e da instituição do planejamento centralizado da economia”. De um outro modo: A experiência fracassada revitalizou a hipótese de que “o socialismo, enquanto modo de produção, teria de ser desenvolvido ainda sob hegemonia do capitalismo”, posto que “o socialismo sem aspas terá que ser construído pela livre iniciativa dos trabalhadores em competição e contraposição ao modo de produção capitalista dentro de uma mesma formação social.” E advertiu Singer sem apelação: “Organizações como essas (a dos trabalhadores) não podem ser formadas de cima para baixo, por decreto de algum poder pseudo-socialista, desconhecendo os anseios e propósitos dos produtores/consumidores”. E ressaltou: “O desenvolvimento de modos de produção socialista em formações sociais capitalistas já está ocorrendo há mais de 200 anos.” E ainda esbofeteou com maestria os esquerdeiros e esquerdosos corruptos, de sorrisinhos debiloides, de múltiplas alisadas nos bagos dos dirigentes egolátricos e zero-cri (zero criatividade) empreendedora: “A noção de revolução política ofuscou a de revolução social, por causa da tese de que a condição necessária para a conquista do socialismo seria a conquista do poder estatal por forças empenhadas naquele objetivo.

Nos tempos atuais de despetelhamento na via partidária brasileira, sempre é oportuno explicitar como um dos fatores causais as merdices e canalhices praticadas pelos messiânicos e messiânicas “salvadores(as) da pátria”, fraudadores(as) do erário público travestidos(as) de erradicadores(as) da miséria de milhões.


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REENCARNAÇÃO, UMA LEI BIOLÓGICA?

No recente SIMESPE – Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas em Pernambuco, acontecido no Centro de Convenções com estupendas palestras e frequência que sobrepujou as mais promissoras estimativas, tive a oportunidade de conhecer o Dr. Décio Iandoli Jr, médico especialista em cirurgia geral, PhD em Medicina, professor universitário, atualmente presidente da Associação Médico-Espírita de Mato Grosso do Sul (AME-MS), apresentador de um programa de televisão de ampla audiência denominado Ciência e Espiritualidade, também autor de vários livros, entre os quais Da Alma ao Corpo Físico e A Reencarnação como Lei Biológica. Sua palestra no SIMESPE, O Laboratório do Mundo Invisível: a Importância das Obras Ditadas pelo Espírito André Luiz, causou uma extraordinária repercussão, ensejando posteriores contatos com os mais interessados, minha mulher e eu inclusive.

Do Dr. Iandoli recebi uma indicação valiosa: a de ser possuidor do dicionário O Espiritismo de A a Z, um compêndio coordenado por Geraldo Campetti Sobrinho, Basília, FEB, 2013, 964 p., já em sua quarta edição, esta em sua quarta impressão com três mil exemplares. Um excelente guia para quem deseja se orientar diante das análises, estudos, teorias, ideias, pensamentos e psicografias publicadas no Brasil, onde somente a Federação Espírita Brasileira detém em seu acervo editorial mais de 400 títulos. O dicionário certamente em auxiliará inúmeros na coleta de informações relacionadas à Doutrina Espírita, esclarecendo adeptos, propagadores, trabalhadores e pesquisadores interessados na área. Cada conceito inclui em seu final as fontes, o dicionário ainda contendo as referências e um índice dos vocábulos apresentados.di

Após o curto bate-papo mantido com o Dr. Iandoli Jr, ouvi de um dos seus admiradores, menção elogiosa a um livro dele que deveria servir de leitura reflexiva para todos aqueles que buscam entender melhor a palingenesia (doutrina da transmigração das almas) como lei universal. O estudo do Dr. Iandoli, médico e médium, intitula-se A Reencarnação como Lei Biológica, e foi editada em 2004, em São Paulo, pela FE Editora Jornalística. Baseado nas ideias e pesquisas efetuadas pelo brasileiro Dr. Hernani Guimarães Andrade, Iandoli apresenta uma série de argumentos científicos que apontam a reencarnação como uma lei biológica, atualmente uma hipótese ainda um tanto obstaculizada pelos preconceitos estabelecidos contra as religiões reencarnacionistas existentes, ratificando uma reflexão de Arthur Schopenhauer contida num dos seus estudos: “Toda verdade passa por três etapas: primeiro é ridicularizada. Depois, é violentamente antagonizada. Por último, ela é aceita universalmente como auto-evidente.

O termo palingenesia tem uma explicação mais abrangente no livro Filosofia Espírita da Educação e suas Consequências Pedagógicas e Administrativas, Ney Lobo, Rio de Janeiro, FEB, 1993, 5v.: “Os escritores espíritas costumam aplicar o termo palingenesia exclusivamente à doutrina da pluralidade das existências, ou reencarnação dos Espíritos em corpos físicos novos e sucessivos. Podemos considerar esse emprego do termo como de sentido estrito. Todavia, mais genericamente, palingenesia é predicado em sentido lato, a toda ideia, teoria, doutrina religiosa, filosófica ou científica, que denote recapitulação, renascimento, reaparecimento, renovação dos mesmo fatos, dos mesmos mundos, das mesmas vidas ou das mesmas almas”.

No prefácio do seu livro, Dr. Iandoli ressalta que a reencarnação não é um conceito novo. E conclui, sem pestanejar: “As grandes religiões da Terra são reencarnacionistas, como o Hinduísmo, o Jainismo, o Sinkismo (fundado no século XVI), o Budismo, o Mazdeísmo, o Maniqueísmo, o Judaísmo (na Cabala, a reencarnação está claramente expressa no livro Zohar); o Cristianismo (inicialmente reencarnacionista, abdicou dessa crença ao transformar-se em Catolicismo e Protestantismo); o Islamismo (Sura 2:28) e Sura 25-5-10-6); e o Sulfismo (ramo do Islamismo).

Para quem tem vocação para ser Tomé, sempre buscando ver o que se diz, recorri a O Zohar: o livro do Esplendor, passagens selecionadas pelo rabino Ariel Bension (1880-1932), São Paulo. Polar, 2006, 362 p. No capítulo 11 – Revelações sobre a alma está escrito: “… Todos os condutores de homens em todas as gerações existiram em imagem no Céu antes de descerem à terra. E cada alma aparecerá no Céu já delineada no corpo no qual foi destinada a entrar. Tudo que o homem aprende neste mundo era conhecido pela alma antes de ela ter descido nele. Isso se aplica apenas às almas dos justos. As almas dos malfeitores devem descer abismo adentro antes de virem à terra. Eles lançam para fora de si a santidade que lhes é inerente e se tornam impuros por meio de seu contato com a fêmea do abismo. Nesse estado, a alma vem à terra para animar o corpo ao qual está destinada. Mas, se o homem se arrepende, a alma encontra outra vez a santidade que havia perdido.

Tenho tomado ciência de que, independentemente das várias religiões que pregam a existência da reencarnação, investigadores paranormais rotineiramente analisam incidentes de almas antigas que possivelmente reaparecem em novos corpos. As histórias não passaram por qualquer controle científico e os fatos relacionados não foram todos verificados, embora elas contenham evidências inexplicáveis que podem fazer até mesmo a mente mais cética refletir e pensar. Exemplos notáveis: marcas de nascimento transferidas; crianças nascidas com ferimentos de bala; caligrafias reencarnadas; bebês nascidos sabendo uma língua estrangeira; e cicatrizes de parentes próximos, entre tantos outros.

No prefácio do livro do Dr. Iandoli, a Dra. Marlene Nobre cita Carl Gustav Jung: “a mente promana de uma psique inconsciente que é mais antiga do que ela e continua funcionando juntamente com ela ou mesmo apesar dela.” Foi Jung quem distinguiu, em seus estudos, duas esferas de psique inconsciente: um inconsciente pessoal, pertencente ao indivíduo, e um inconsciente coletivo, estrato mais profundo da psique comum a toda a humanidade.

Como deploro os que reduziram o materialismo em postura dogmática, pouco se apercebendo das evoluções cognitivas contemporâneas, sem atentar para o que seja a inacessibilidade do real.


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TIPOS INESQUECÍVEIS

1. Para quem gosta de ler textos que deixam você se urinando nas calças de tanto rir, nesta época pós impeachment, de final de ano que não será tranquilo, apesar do sorriso monalisítico dos nossos dirigentes, recomendo aos de mente culturalmente desassombrada um livro que foi considerado por Bertolt Brecht como uma das três obras literárias do século XX: As aventuras do soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, RJ. Objetiva, 2014, traduzido do tcheco por Luís Carlos Cabral. Uma leitura que traz uma sedução irresistível, uma vontade de quero-mais quando se termina as quase setecentas páginas do folhudo.jrl

O autor nasceu em Praga, Boêmia, hoje República Theca, à época parte do Império Austro-Húngaro, e viveu entre 1883 e 1923. De família humilde, abandonou os estudos aos 15 anos para trabalhar numa farmácia. Em 1902 concluiu os estudos de Comércio, sendo admitido num banco, onde foi logo demitido por um alcoolismo que foi a marca da sua vida. Casou-se, descasou-se, foi bígamo e fundou uma agremiação política denominada Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei. Alistou-se no Exército Austro-Húngaro em 1915, na Primeira Guerra Mundial, passando para o lado dos russos. Em 1920, de retorno a Praga, militou politicamente como nacionalista, iniciando a publicação de As aventuras do soldado Švejk, uma obra que previa seis volumes.

Segundo Luís Carlos Cabral, o tradutor, Jaroslav Hašek foi ainda comerciante de cães, passou uns períodos na prisão por suas atividades anarquistas, perambulou pelo país sem um centavo no bolso, tentou o suicídio pulando no rio Moldava, atuou como ator e produziu cerca de doze mil contos, artigos e reportagens, falecendo na miséria, por alcoolismo, seguindo os passos do pai, um mestre-escola que também morreu por vício similar. Seu livro, considerado sujo e vulgar para os moralistas da época, chamou a atenção de Max Brod, editor da obra de Franz Kafka, que o equiparou entusiasticamente a François Rabelais e Miguel de Cervantes.

Em 1938, com autor já falecido, As aventuras do soldado Švejk foi levado à fogueira pelos exércitos nazistas, juntamente com outros autores consagrados como Thomas Mann e Stefan Zweig, sendo reabilitado pelos soviéticos, que consideraram o texto popular e anti-imperialista. E o tradutor Luís Carlos Cabral declara que os leitores se divirtam, sem deixar de pensar, vendo como as coisas mudaram no último século para que muitas coisas continuassem parecidas.

O autor proclama: “Gosto muito do soldado Švejk. E estou convencido de que, quando narrar as aventuras que viveu ao longo da Guerra Mundial, todos os leitores sentirão a mesma simpatia por este herói humilde e desconhecido”. Assino embaixo sem titubear. Uma leitura para mentes que buscam assimilar um sadio humor universal, pacifista por derradeiro.

2. Há releituras, e algumas polileituras, que agigantam em nossos interiores uma vontade de continuar mais brasileiro que nunca a cada amanhecer, apesar das impunes esculhambações civis, militares e eclesiásticas que maculam, desde os anos 1500 e danou-se, a imagem de um país que sempre teve perspectivas futuras, segundo Stefan Zweig.vpb

Para ficar somente nos autores nordestinos não-pernambucanos, evitando bajulações estaduais tão em voga de uns tempos para cá, a favorecer dinastias nos campos e nas cidades das regiões interioranas, aproveitei o período olímpico para reler Viva o Povo Brasileiro (RJ, Objetiva, 2014, 672 p., edição especial de 30 anos), do baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), nascido João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro na Ilha de Itaparica, num 23 de janeiro, de infância vivenciada em Aracaju, Sergipe, onde seu pai era chefe de policia.

O livro do João Ubaldo é tido e havido como um dos mais importantes romances surgidos na literatura brasileira do século passado. Um trabalho que já nasceu monumental, inaugurando novo olhar ficcional sobre o nosso nem sempre glorioso passado, com suas violências físicas, suas elites autoritárias, seus abismais desníveis sociais, seus preconceitos enrustidos, suas hipocrisias religiosas, suas atividades parlamentares oriundas de compras de votos, caciquismos e carros pipas, brabezas demagógicas e populismos desvairados, baixa cidadania e golpes contra a democracia e novos modos corruptos de agir e pensar.

Quando se perguntava ao João Ubaldo como teria surgido o Viva o povo brasileiro, ele respondia sem aquela afetação dos que se imaginam gigantes pela própria natureza, recheados de blá-blá-blás intelectualoides: “Eu queria escrever um livro grande”. E o calhamaço findo, devidamente pesado numa venda de Itaparica, perto da antiga casa do seu avô, atingiu a marca de seis quilos e seiscentas gramas, resultando em um “folhudo” de 673 páginas, que venceria os prêmios Jabuti e Golfinho de Ouro de Melhor Romance, sendo vertido para o inglês (EEUU) em 1989, para a Alemanha (1988), Espanha e França (1989) e Itália (1997).

Segundo Rodrigo Lacerda, um dos prefaciadores da edição especial de 30 anos de Viva o povo brasileiro, “são heróis e anti-heróis, que nascem tanto nas classes dominantes quanto no meio popular, e um ponto alto do romance é o encontro desses dois mundos, a história de amor entre Patrício Macário, um homem de posição convertido à causa do povo, e à rebelde Maria da Fé, líder da misteriosa Irmandade Brasileira.” Um romance de estilo “abarrocado”, segundo o próprio autor, com pitadas de humor deliciosas, para muxoxos dos bostíferos que imaginam o humor sintoma de desseriedade patológica.

Acabei de reler o romance do Ubaldo minutos antes da final da Paralimpíadas Rio 2016, emocionado pelas medalhas conquistadas pelo notável Daniel Dias, um atleta arretado de ótimo.


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DO SER, DO DESTINO E DA DOR

Desde as épocas mais remotas, o ser humano se depara com três questionamentos basilares que muito persistentemente sempre o incomodaram: Quem somos? De onde viemos? e Para onde vamos? Questões que desafiam a mente humana desde os primórdios da humanidade, quando o homem principiou a agir mais curiosamente, dotado de mecanismos pensantes, ainda que inicialmente simiescamente ingênuos.

No mundo científico pós-moderno, por exemplo, teorias emergentes sugerem que a morte não é o evento terminal que pensamos. Em tempos recentes, cientistas idôneos tatearam as primeiras evidências da existência de universos paralelos. Descobertas que estão conduzindo ao desenvolvimento de uma área denominada “Biocentrismo”. Um dos seus estudiosos mais proeminentes chama-se Robert Lanza, PhD, autor do livro O Biocentrismo, que cascavilha ontens inimagináveis até recentes ontens.lda

Segundo Lanza, já com alguns companheiros também cientistas buscando desvendamentos pioneiros, vida e consciência são as chaves para entender a verdadeira natureza do Universo, posto que refletem inúmeras razões pelas quais o morrer deve ficar restrito apenas ao esfriamento da parte material. No pensar dele, a morte não é o fim, como muitos de nós pensamos. “Acreditamos que vamos morrer porque é o que nos foi ensinado desde criança”, diz Lanza em seu livro. E ele exterioriza uma curiosidade gigantesca: Será que continuamos a viver em universos paralelos?

Há muitas experiências científicas que questionam com seriedade científica o termo morte, tal como a entendemos. De acordo com a física quântica, certas observações não podem ser previstas com certeza. Em vez disso, há uma gama de possíveis observações, cada uma delas com uma probabilidade diferente.

A interpretação “de muitos mundos” afirma que cada uma dessas observações possíveis corresponde a um universo diferente, o que é geralmente chamado de “multiverso“. Robert Lanza explicitou essas teorias de modos os mais interessantes. Ele acredita que “há um número infinito de universos”, e tudo o que poderia acontecer ocorre em algum universo. Daí porque a energia que existe em cada um de nós nunca morre.

A morte não existe em qualquer sentido real nesses cenários infinitos. Todos os universos possíveis existem simultaneamente, independentemente do que acontece em qualquer um deles. Embora corpos individuais estejam destinados a auto-destruição, o sentimento vivo – o “Quem sou eu?” – é apenas uma fonte de 20 watts de energia operando no cérebro. Mas esta energia não desaparece com a morte. Um dos mais seguros axiomas da ciência é o de que tal energia nunca morre, nem pode ser destruída. E ela pode transcender de um mundo para outro.

Em relação à consciência, experimentos confirmam que ela se encontra integrada no tecido da realidade, só fazendo sentido a partir de uma perspectiva biocêntrica. Se há realmente um mundo lá fora, com partículas saltando ao redor, então devemos ser capazes de medir todas as suas propriedades. Mas nós não podemos. Considere a experiência da dupla fenda: se uma partícula subatômica ou um pouco de luz passa através das fendas em uma barreira, ela se comporta como uma partícula e cria batidas de aspecto sólido por trás das fendas individuais sobre a barreira final que mede os impactos.Como uma pequena bala, que logicamente passa através de um ou de outro furo. Mas se os cientistas não observam a trajetória da partícula, então ela exibe o comportamento de ondas que permitem que ela passe através de ambos os furos, ao mesmo tempo. Por que a nossa observação pode mudar o que acontece? Resposta de Lanza: “Porque a realidade é um processo que requer a nossa consciência .”

Nós não existiríamos sem a consciência. Uma das razões para Robert Lanza achar que nós não vamos morrer é porque nós não somos um objeto. Somos seres especiais. De acordo com o biocentrismo, nada poderia existir sem consciência. Lembremo-nos que não podemos ver através do osso que circunda o cérebro. O espaço e o tempo não são objetos duros, mas são as ferramentas que nossa mente usa para tecer tudo junto. Tudo o que nós experimentamos é um turbilhão de informações que ocorre em nossa mente. O espaço e o tempo são simplesmente as ferramentas para colocar tudo junto.

O Dr. Lanza ressalta ainda que a morte não existe em um mundo sem espaço atemporal. Não há distinção entre passado, presente e futuro. É apenas uma ilusão teimosamente persistente. A imortalidade não significa uma existência perpétua no tempo sem fim, mas reside fora de tempo completamente. Albert Einstein disse uma vez: “A realidade é meramente uma ilusão, embora muito persistente.” Como podemos dizer o que é real e o que não é? Como podemos saber com certeza que o nosso cérebro não está nos dando a ilusão de um mundo físico?

Recomendaria aos meus caríssimos leitores, um livro de um educador brasileiro extraordinário chamado Huberto Rohden, eternizado em 1981. Intitula-se De Alma para Alma, SP, Matin Claret, 2007, 220 p. Um livro que possibilita perceber como integraremos a Grande Humanidade, onde todos colherão o que semearam, tateando estradas de diferenciados tamanhos, sempre na direção de um mundo de luz infinda, onde desnascidos da matéria aguardam missões as mais diferenciadas, sem máscaras nem conveniências, auxiliando muitos a deixarem o labirinto das trevas na direção de mundos de plena luz, reta final de todos nós.

Ler De Alma para Alma, de Huberto Rohden, proporcionará um despertar radioso de muita paz e sossego existenciais, na escalada de uma montanha muito íngreme na busca integradora com o Eu maior de todos, Produtor de Amor Infinito, o mais indecifrável de todos os nossos sentimentos.


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LEITURAS DE DENSIDADES VÁRIAS

Um vício maravilhoso, transmitido pelo meu saudoso pai e pela professora Miriam Didier do Rego Maciel, que morava em frente à nossa casa, na Rua Tito Rosas, em Parnamirim, no Recife, me fizeram um devorador de livros de todos os tipos e tamanhos, menos os medíocres e idiotizados, os alienantes e os abilolantes, aqueles que transformam mentes leitoras em mentes ruminantes, só faltando o rabo, a crina, o relincho e as patas.

Outro dia, na casa de um paraibano amigo querido, uma senhora de fino trato me pediu que lhe enviasse algumas indicações de livros para que ela pudesse presentear pessoas de vários calibres cognitivos, habitantes do seu jardim cardiológico, parentes algumas. De pronto aceitei afoitamente atendê-la, embora lhe informando que o faria através do site do Jornal da Besta Fubana, uma iniciativa coordenada pelo escritor Luiz Berto, que muito tem contribuído para a disseminação de um “desabestalhamento internético” para gregos e troianos de todas as qualificações afetivas, 16 já devidamente registradas em documentos de ensino, pesquisas e análises de modos de vida sexual. Todas as indicações passaram por uma leitura devoradora minha, posto que seria desonestidade indicar leituras que estivessem ao largo dos meus olhos de viciado contumaz em rabiscar páginas de livros. Para Dona Larinha, gente que estimo e de cuca sem mas-mas-mas nostálgico que emburrece e nada edifica, eis o que me pediu:

1. Sabedoria das palavras, Huberto Rohden, São Paulo, Editora Martin Claret, 1997, 258 p. Através de luminosas intuições, HR, educador e filósofo brasileiro (1893-1981), especialista na Filosofia Univérsica, explica a simbologia das parábolas do Homão da Galileia, destinando uma parte do texto para traçar um auto-retrato da alma de Jesus, através das Bem-aventuranças, que muitos consideram, eu inclusive, como o coração do Novo Testamento. Experiências pessoais de vida para quem busca uma iluminação maior do seu interior na atual passagem terrestre. Caberá a cada leitor, perceber as bem-aventuranças como uma proposta estratégica de caminhada, para cumprir com efetividade, depois de vivências várias, o objetivo de tornar-se também Luz para todo o sempre.

2. Por que fazemos o que fazemos?; aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização, Mário Sergio Cortella. São Paulo, Planeta, 2016, 174 p. Um texto incrivelmente desfrescurizado que esclarece sobre os reais objetivos da vida de cada um, seja ela de graduação, administrativa, de comerciante, dona de casa, estudante de nível médio ou ainda em busca de se encontrar na caminhada percorrida. Uma excelente oportunidade para avaliar ontens percorridos, hoje vivenciados e amanhãs almejados, entendendo as razões pelas quais bem colhe quem sabe plantar bem, dignificando os talentos proporcionados pela Criação. E entendendo que não há prazeres contínuos e que sorte nunca foi condição para ganhos imediatos. O desistir fácil pode levar à depressões profundas, o persistir continuado certamente levará a galgar patamares mais compatíveis com o seu querer vencer sem diminuir quem quer que seja.p1

3. O melhor do humor brasileiro: antologia, Flávio Moreira da Costa (org), São Paulo, Companhia das Letras, 2016, 452 p. Um recomendável método de oxigenar o interior com um humor sadio, de várias épocas. Uma pequena enciclopédia de olhar abrangente sobre a sagacidade do nosso povo, a favorecer pelo riso os momentos nem sempre tranquilos do existir, mandando à merda moralistas e puritanos que apenas “só pensam naquilo”. Nunca se olvidando daquele tarado acompanhador de procissões que cantava piedosamente “No céu, no céu, com sua mãe estarei…” Tampouco renegando o poeta Mário Quintana (1906-1994): “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer” … “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente” … “Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente” … “Só se deve beber por gosto: beber por desgosto é uma cretinice” … “Sonhar é acordar-se para dentro” … “Vale a pena viver – nem que seja para dizer que ela não vale a pena”.

4. O fio das missangas; contos, Mia Couto, São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 148 p. Páginas do notável escritor moçambicano, nascido em 1955, também biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros provocadores de ansiosos quero-mais. Pequenos enredos que dão vida a tramas, situações e personagens que ampliam a vontade de viver, ensinam a melhor escrever e deixa os espíritos repletos de significados positivos, despertando a sensibilidade daqueles que teimam em pulular na não-existência, imaginando-se esquecidos ou nunca mais desejantes. A escrita de Mia Couto enfeitiça, provoca a lembrança de adaptação de um provérbio moçambicano: “O coração é como a árvore – onde quiser volta a nascer”. Para quem gosta de contos, uma leitura arretada de muito ótima!

5. Para uma especialidade leiga: sem crenças, sem religiões, sem deuses, Marià Corbi, SP. Paulus, 2010, 296p. Um texto inteligentemente contextualizado, cujo autor, um PhD em Filosofia, é epistemólogo de renome, tendo consagrado sua vida ao estudo das consequências ideológicas e religiosas das transformações geradas pelas sociedades pós-industriais de inovações tecnológicas e descobertas científicas. O autor se baseia num “tempo axial”, expressão cunhada por Karl Jaspers, indicando a emergência de uma era onde as ideias mudaram o sentido mais profundo do sentir a Criação, qualitativa e quantitativamente, na qual o espiritual adquire novas formatações, favorecendo amanhãs diferenciados, no religioso, no axiológico, no econômico, no político, na organização da vida familiar, nas relações entre indivíduos, regiões e países, acelerando as obsolescências das religiões tradicionais, minimizando fatores culturais e ideológicos que impulsionaram sociedades nos séculos passados. Uma leitura necessária para quem tem responsabilidade sobre as posturas libertadoras de todos os consequentes credos religiosos, favorecendo as suas sobrevivências institucionais e práticas pastorais.

Espero, Dona Larinha, que a senhora faça bom destino das indicações acima, proporcionando sadias complementações cognitivas existenciais entre os presenteados pela sua generosidade. Um cheirão arretado de ótimo na sua cuca maravilhosamente contemporânea.


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OUTROS AMANHÃS PARA A CLASSE MÉDIA

O nível abestalhacional de grande parte da classe média, ironicamente denominada de “classe me(r)dia” por alguns gaiatos da mídia brasileira, urge ser radicalmente reduzida nos próximos tempos nacionais, quando a área educacional deverá sofrer uma reestruturação sistêmica de grande porte, tornando-se qualitativamente muito mais acima das atuais merdices instrucionais, públicas e particulares, que apenas desejam obter ganhos por cima de paus e pedras, independentemente de sonhos e aspirações dos educandos de áreas financeiramente mais sofríveis.

O fato aconteceu há alguns anos, mas vale a pena reproduzi-lo uma vez mais num site que mantém um nível intelectual de visitações elevado, conscientizador por derradeiro. O fato abaixo narrado é por demais representativo para o momento atual , onde um desabestalhamento se faz indispensável em todos os setores, num Brasil que se deseja passado a limpo com todos os erres e effes, muitos falantes postos atrás das grades, sem lero-lero nem mas-mas-mas, tornando-se a nação mais dignificante pelos quadrantes do planeta, para orgulho dos seus filhos de todas as classes sociais, etnias, gêneros e afetividades sexuais, civis, militares e demais situações.

Um endinheirado nordestino classe mais que média-média , fantasiado de empreendedor XXI, resolveu observar o milagre japonês no seu endereço de origem, bem ali do outro lado do mundo. Comprou passagem ida-e-volta, conseguiu a companhia de um alguém que arranhava bem um inglês quebra-galho e partiu lampeiro que só para conhecer o berço do sol.

Após os desembaraços alfandegários, anunciou seu maior desejo: conhecer, no Japão antigo, um Mestre Zen, desses tidos e havidos como um danado-de-ótimo na sabedoria. E foi ele parar num dos mosteiros existentes, obstinado e pretensioso que só vendo.

Encontrar um convento antigo foi quase um já. E um Mestre Zen à sua inteira disposição foi cortesia nipônica de primeira hora. Apresentado, as inevitáveis perguntas, argumentações lógicas à parte, não tardaram.

De repente, o Mestre Zen, já sem os bagos bem acomodados, resolveu também questionar: “Você sabe muitas coisas, não sabe?”. A petulância veio de bate-pronto: “Percebe-se , Mestre?”.

Sorriso sibilino, todo já análise feita, o Mestre retornou: “Estou disposto a lhe testar, o amigo concorda?”. Peito estufado, sem pestanejar, bagos inflados, externou um “Como não, caríssimo Mestre” enxeridíssimo e sem qualquer reticência. E com um acréscimo desafiador: “Pode perguntar o que quiser”.

O diálogo foi mais ou menos assim, como me contaram :

– “O amigo sabe onde está neste momento?”

– “Claro que sei, Mestre. Estamos num lindo bosque”.

– “E onde está este bosque?”

– “Ora, caro Mestre. No Japão”.

– “E onde está o Japão?”

– “No nosso planeta Terra, Mestre, com certeza”.

– “E onde está o nosso planeta?”.

– “Ora, Mestre …No Universo!”.

– “E onde está o Universo, caríssimo brasileiro?”.

O embatucamento foi pra ninguém botar defeito. O suor principiava a correr sovaco abaixo. Mas a resposta não tardou: “Na verdade, caríssimo Mestre, eu realmente não sei”. A ponderação severa, a penúltima, aconteceu: “Veja só, o amigo nem sabe onde está e acha que já sabe muito. O amigo ainda tem muito que aprender, com certeza”.

Emputecidíssimo, o “notável” rebateu sem mais as conveniências de um bom relacionamento: ” Qualé, Mestre, até mesmo o senhor não sabe a resposta correta, né não?”

O xeque-mate até hoje não se desinstalou da abestada cuca: ” Pois esta é a nossa diferença, amigo caríssimo. Minha ignorância é baseada em meu entendimento, enquanto o seu entendimento é baseado em sua ignorância. Sou um tolo bem humorado, você é um sério idiota“.

A posição da parte da classe média brasileira será decisiva para os destinos nacionais, às vésperas de um ainda pouco definido final de década. Lamentavelmente, nos últimos vinte anos, a classe media brasileira tem estado acorrentada a duas visões equivocadas. A primeira, quando defende os imensos privilégios de um sofisticadíssimo consumo, como se ele fosse viável para o todo nacional. A segunda, mais ingênua ainda, é a de exigir sacrifício dos privilegiados de sempre, como se eles estivessem dispostos a desprendimentos.

Uma modernidade sadia deve reincorporar as inúmeras vantagens das relações perdidas, dos gostos esquecidos, dos níveis culturais despedaçados por um consumismo imediato e asneirento pelos endinheirados de final-de-semana, culturalmente apatetados, presas fáceis dos “magos da mente“, inúmeros já explicitando um cansaço generalizado, incomodativo até, rima perfeita para atocaiados fascistóides.

Deveria uma atenta classe média estar sempre alertada diante do notável provérbio iídiche: “Para o verme num rabanete, o mundo inteiro é um rabanete“.


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TRABALHOS DE PÓS-GRADUAÇÃO

No final do mês passado, um pós-graduando em Ciências Humanas de uma universidade situada numa das principais capitais brasileiras me envia uma correspondência encarecendo uma referência bibliográfica para ele e alguns colegas melhor se orientarem na elaboração dos seus trabalhos de conclusão de mestrado. Confessando-se meio atordoado, pois na sua graduação não dera a devida importância às aulas ministradas sobre a matéria, imaginando-as sem muito significado para sua carreira de “cientista social” (sic). Sem traços vitimosos, a carta revelava ainda uma ausência mais densa de conteúdo do curso frequentado, a grande maioria do corpo docente composta de professores “decorebólogos, verborrágicos e viciados em estudo de grupo em sala de aula, eles postados coçando os bagos, elas afagando os próprios cabelos, os grupos sem mínimas finalizações, todos se danando para as áreas de lazer ao tocar da sirene”. Uma confissão que me sensibilizou bastante, posto que retrato fiel de um aluno vitimado por um sistema universitário de fingimento, sem eira nem beira cognitiva, alçapão para ganhos financeiros de sabidórios devidamente “abençoados” por autorizações espúrias emitidas por entidades federais eivadas de estupendos vícios estruturais tronchamente adquiridos.

Eis a resposta que enviei ao pós-graduando em desesperança:

“Prezado UTR: Recebi sua correspondência e me solidarizo com seus aperreios e os do seu grupo. Mas como águas passadas não movem moinho, envio-lhe algumas linhas, buscando contribuir para um ‘desatolamento técnico-científico’ grupal. Me basearei num livro que preencherá a contento as necessidades primeiras, minimizando as dificuldades: A Arte da Tese, Michel Beaudi, Rio de Janeiro, BestBolso, 2014, 192 p.

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Segundo a professora Érica Resende, Bibliotecária CFCH/UFRJ e prefaciadora do livro, “Michel Beaud, como educador, conseguiu neste livro não só sistematizar conhecimentos, mas também ‘confortar’ alunos. Trata o assunto de forma muito séria e deixa claro que nem todos chegarão ao fim. Por outro lado, proporciona uma espécie de carinho em relação ao aluno pesquisador e alerta para a importância do descanso, do lazer e da vida social durante o processo de construção da tese”.

Quando o livro foi editado pela vez primeira na França, o Le Monde, periódico que prima pela seriedade analítica, fez o seguinte comentário: “O trabalho intelectual não é fruto de uma inspiração súbita. É um trabalho árduo de pesquisa que precisamos dominar para evitar decepções e perda de tempo”. Por isso, peço-lhe a devida vênia para assimilar, abaixo, alguns pontos essenciais para um caminhar que resulte em final promissor:

1. Não admita confeccionar uma tese tida como “teórica” com a finalidade de apenas adular textos e autores de renome, a partir de frágeis releituras fichadas. De modo idêntico, não aceite fazer um trabalho “empírico” com base em reproduções de informações factuais de terceiros sobre determinados assuntos. Uma boa tese é consequência de uma boa pesquisa, implicando um bom equilíbrio entre teoria e empirismo.

2. Após a escolha criteriosa do assunto e do orientador, atentar para três problemáticas: a Provisória, que acompanha os primeiros passos do trabalho, a Problemática I, que guia o trabalho de pesquisa investigatória, e a Problemática II, que possibilita a estruturação do trabalho de redação, a exposição final do assunto.

3. Na fase de pesquisa, uma constatação sempre paramétrica: Não há pesquisa sem método. Tanto para a reflexão teórica quanto para a formulação da pesquisa de campo (entrevista, no caso de pesquisa social). É preciso método dominado na área em que se trabalha: literatura, filosofia, história, direito, geografia, economia, ciências políticas, sociologia, antropologia). Erro grasso se dedicar a uma tese sem estar possuído de lastro consistente mínimo.

4. Infelizmente, inúmeras vezes teses medíocres resultam de alicerces pouco consistentes, sem tesão criativa como se diz nos setores acadêmicos.

5. Faça as seguintes perguntas antes de decidir elaborar uma tese, respondendo “sim” ou “não”: Imagina seu futuro profissional inserido no ensino superior ou na pesquisa?; Poderá se dedicar com afinco, nos próximos três ou quatro anos, ao seu trabalho de tese?; É capaz de fazer um recorte de determinado assunto em um dado momento?; É capaz de, com mínimo esforço, escrever três páginas “coerentes” sobre um assunto dado?; É capaz de pôr ordem em suas ideias?; É capaz de organizar sua documentação e de se localizar contextualmente?; Consegue adequar-se a uma disciplina de trabalho por vários meses?; Dispõe de vontade e tenacidade suficientes para ultrapassar uma sucessão de dificuldades e contrariedades?; Já redigiu alguma trabalho satisfatório com várias dezenas de páginas?; Está muito motivado para fazer uma tese? Se respondeu “sim” 8 ou 10 vezes, pode seguir adiante!

6. Tenha sempre à mão endereços internéticos importantes durante sua elaboração de tese. Eis alguns: Capes, Currículo Lattes, Periódicos Capes, Minerva, Teses, Lume.

7. Não é razoável se comprometer na efetivação de uma tese por razões negativas: falta de perspectiva de emprego, ociosidade, frustração.

8. Somente se envolver para valer numa tese de doutorado se for possuidor de uma vontade férrea, além de dotado de capacidade cognitiva.

9. Na escolha de um assunto, todo cuidado é pouco para não se resvalar para o imediatismo. Se um orientador o desaconselhar a escrever sobre determinado tema, aceite repensar o assunto.

10. Lembre-se sempre que a não conclusão de uma tese de pós-graduação pode ser um excelente sinal para que você abrace uma atividade profissional, a partir da qual poderá ingressar num processo de aperfeiçoamento, passo primeiro para galgar patamares superiores.

E siga sempre uma recomendação do ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara: “Não faça de uma lagartixa um jacaré, pois ficará sem ação diante de um jacaré de verdade”.

Abração bem nordestino, brasileiro acima de tudo.

PS. Para Anita Cantarelli, desejando-lhe um sucesso arretado de ótimo na sua dissertação de mestrado!!!


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DUAS PONDERAÇÕES

PRIMEIRA

Num ontem ainda bem pertinho, ousei, sem qualquer alvo específico, alertar a sociedade acerca dos prejuízos causados por uma vaidade doentia, imensamente prejudicial, fatal em alguns casos. Recebi quase duas dezenas de telefonemas. Alguns matreiros, outros curiosos, todos desejando pistas para identificar os “doentes”. Apareceram uns amigos apontando A, outros indicando B, buscando “coincidências”, todas elas disparatadamente elaboradas para estontear ansiosos. O objetivo de todos foi o de ver parte do Recife menos hedonista, mais acelerador da chegada do seu futuro, promissor se não patola.

Nas farmácias homeopáticas do Recife, uma excelente homeopatia foi recentemente tornada, a preços módicos, estáveis, apesar da crise atual, brabosa por incompetência de uns alucinados que se imaginaram messiânicos, nada mais sendo que cínicos ladrões, assaltadores dos cofres públicos. Uma cápsula de Simancol, manhã cedo e antes do desjejum, atenua bastante os efeitos perversos causados pelo vírus da vaidade excessiva, Pernambuco-falando-para-o-mundo. Além de manter em alto nível a curiosidade científica, a competitividade sadia e uma a emulação coletiva, a homeopatia faz contagiar uma competência salutarmente contemporânea, capaz de entender as razões pelas quais o vocábulo poder vem a ser uma palavra incrivelmente catapultadora para a maioria que busca sadios amanhãs, erradicando falsas humildades, rompendo mesuras fingidas, desmascarando inteligências nocivas que se valorizam das pouco éticas espertezas em detrimento de uma sabedoria existencial portentosa, as primeiras fogosas, esta última em acelerado plano inclinado decrescente, somente em recuperação de uma educação cidadã de densidade elevada seja aplicada em todos os nossos setores de ensino.

Contam os monges budistas uma parábola sempre oportuna. Numa excursão, um jovem rico, corado e muito independente subiu ao alto de uma montanha, encontrando um ninho de águia. Retirando de lá um ovo, alojou-o em casa sob uma galinha sua, chocadora de uma meia dúzia de outros tantos. O resultado foi o nascimento de um filhote de águia no meio dos pintainhos. Bem criada, a aguiazinha não sabia sequer que não integrava a categoria. Contentou-se com a sua sina, muito embora, vez por outra, ânsias interiores provocassem o seu interior, como que a dizer “devo ser algo mais que uma simples galinha”.

A falsa galinha jamais tomou qualquer iniciativa, até observar uma águia sobrevoando o galinheiro em missão caçadora. E a convicção aflorou imediatamente: “Não sou galinha. Não nasci prá viver em galinheiro. Meu destino é o céu, ainda que não seja de brigadeiro”. E alçou voo, deslumbrada, imaginando-se muito águia, embora conservando toda a formação de galinha. Resultado: tornou-se águia, sem jamais ter abandonado uma mentalidade de galinha.

Todo vaidético é uma águia com cuca de galinha. Sem descobrir seu verdadeiro EU, fantasia-se, empavona-se, vangloria-se tolamente sob o manto de uma impunidade-carcaça que não o incrimina, embora o torne incapaz de efetivar grandes obras com a naturalidade dos realmente notáveis.

O contaminado pela vaidade patológica não se controla. Necessita de diuturnas automassagens, jamais renegando os despudoradamente rasgados elogios dos baba-eggs de uma mídia que necessita ser mais desemocionalizada, desgalvãobuenizada, duas expressões ouvidas nos últimos dias em casa de amigo querido, durante a conquista da trimedalha de ouro do notável jamaicano Usain Bolt.

SEGUNDA

Um excelente texto, de menos de duzentas páginas, que poucos economistas leram nos últimos tempos, mais preocupados com equações matemáticas e prognósticos enrolocráticos, para favorecer ou estrangular as Bolsas de Valores do mundo ocidental: A Prosperidade do Vício: uma viagem inquieta pela economia, Daniel Cohen, RJ, Zahar, 2010. Ele é professor da École Normale Supérieure e vice-presidente, até pouco tempo, da École de Economique de Paris.dc

Na contracapa, algumas indagações muito pertinentes para a atual conjuntura mundial: 1. Por que, de todas as civilizações, foi a ocidental que impôs seu modelo sobre as outras? E qual a validade, hoje, desse modelo, baseado na rivalidade entre as nações e no acúmulo de riquezas? Se a fartura é essencial para a felicidade, por que as sociedades mais ricas têm fracassado em tornar as pessoas felizes? Para onde o capitalismo nos conduz? A humanidade será capaz de evitar o colapso ecológico?

Com linguagem clara e momentos de suspense, A prosperidade do vício relata as aventuras do homem para enriquecer e revela como a economia tem moldado a sociedade. O resultado é um abrangente panorama da história econômica do mundo, em que fatos do passado e do presente se interligam apontando as possibilidades de futuro.

O renomado economista francês Daniel Cohen relaciona história, economia, política e meio ambiente com fartos exemplos para analisar a conjuntura atual. Apresentada em capítulos curtos, sua narrativa funciona como uma viagem no tempo – da queda do Império romano à recente crise dos subprimes, em Wall Street; da Alemanha de Hitler à entrada da Índia e da China no jogo do mercado internacional.

O autor faz um alerta: é preciso adotar, já, uma nova maneira de conceber o crescimento econômico, tendo por base uma mentalidade solidária – afinal, somos todos uma única civilização.

A leitura do livro é deveras alertadora. Sem muitos salamaleques, Cohen relata as aventuras do homem para produzir e acumular riquezas, muitas vezes empregando os artificialismos mais diversificados. E faz alguns questionamentos significativos: Por que o mesmo Ocidente que indicou formas de tirar os povos da miséria promoveu duas guerras mundiais? Que vício oculto contaminou a Europa? Por que os desafios da economia são claramente pouco distributivos?

Daniel Cohen, no seu capítulo final, faz um alerta: “O 11 de setembro provou que as violências do cibermundo não são menos assassinas do que as outras. No entanto, isso não é o mais grave. A pergunta central colocada pela nova era da comunicação planetária é saber se ela será capaz de responder à maior questão do século XXI: gerenciar a crise ecológica anunciada e transformar hábitos de consumo ocidentais de modo a torná-los compatíveis com sua expansão para o resto do mundo”.

Só depende nós…

* * *

PS. E viva a Seleção Brasileira Olímpica Masculina de Futebol !! Com Neymar, apesar do Galvão Bueno!!


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ANJOS, SAFADÕES E OUTROS ESCÂNDALOS

Poucos ainda conhecem os dez segredos que resistiram por mais de 70 anos de história após o Holocausto, barbaridade assassina acontecida na Segunda Guerra Mundial. Enumero-os para os leitores amigos da Besta Fubana: 1. O cerco do Itamaraty ao cônsul brasileiro que ajudava os judeus em Marselha; 2. Os detalhes sobre a investigação do esquema de fraude de vistos brasileiros concedidos na França; 3. A história do cônsul paraguaio em Turim, que vendeu sua fábrica falida, no coração inóspito da América do Sul, em troca de um punhado de vistos diplomáticos; 4. Os procedimentos para a venda de vistos brasileiros em Gênova e em Frankfurt; 5. O comércio ilegal de vistos uruguaios e peruanos em Paris; 6. A história do cônsul centro-americano que vendia passaportes à Gestapo, em Hamburgo; 7. A confirmação pelo FBI da descoberta da Polícia de Hitler: o cônsul uruguaio tido como salvador de judeus, era, na verdade, um caçador; 8. A lista de Oswaldo Aranha: dezessete diplomatas brasileiros jubilados da carreira sob as mais diversas “acusações”, inclusive a de proteger judeus; 9. As suspeitas sobre o certificado emitido pelo ministro uruguaio em Varsóvia, destinado a proteger um casal de poloneses contra os invasores alemães; e 10. O diplomata que foi a Praga para passar um passaporte hondurenho aos inimigos de Stálin.

O livro de Roberto Lopes, Anjos e Safados no Holocausto (1938-1939): histórias da diplomacia latino-americana na Europa durante a perseguição nazista aos judeus, SP. Lafonte, 2012, bem que poderia servir de base para reportagens ou seriados televisivos. O autor, pesquisador associado ao Laboratório de Estudos da Etnicidade, Racismo e Discriminação do Departamento de História da USP, correspondente de guerra na África e no Oriente Médio, é possuidor de um arquivo de 3.200 documentos sobre a Segunda Guerra Mundial. Seu livro, segundo o jornal O Estado de São Paulo, “põe em cheque a diplomacia latina”.rl

Segundo o editor do livro acima citado, a obra é também um repositório de episódios famosos que chegaram aos nossos dias insuficientemente relatados, como o real papel do cônsul-adjunto do Brasil no porto de Hamburgo, João Guimarães Rosa, na operação de extração de judeus da Alemanha hitlerista, comandada por sua companheira Aracy Moebius de Carvalho, uma filha de mãe alemã, nascida no município de Rio Negro, Paraná. Que juntamente com seu amado Guimarães Rosa salvou centenas de judeus das garras nazistas. Segundo o jornalista René Daneil Deco, filho de um sobrevivente do Holocausto, “Aracy tinha algo de Hannah Arendt, a intelectual liberal alemã que não aceitava o totalitarismo”.

Grandezas e vilanias de uma diplomacia latino-americana, quando não havia ainda a Operação Lava-jato, que higienizará o serviço público brasileiro e as iniciativas empresariais.

No campo das instituições religiosas, por outro lado, destaque-se o pedido de desculpas feito pelo papa Francisco, recentemente, pelos escândalos praticados pela Igreja. Fico a imaginar as angústias do pontífice ao pressentir e constatar bandalheiras e falcatruas, traições, fuxicos, falsificações, mentiras, fingimentos, hipocrisias e outras vergonhosidades dos seus comandados, deslustrando a mensagem do Homão da Galileia, aquele judeu muito arretado que pregava novas configurações existenciais para um viver comunitário solidário, fraterno e temente a Deus.

Terminando de ver a reportagem que narrava o pedido de perdão do papa, lembrei-me de um texto lido no ano passado, de autoria de um vaticanista e historiador aplaudido, Cláudio Rendina, também editor da Grande Enciclopédia de Roma. De título sedutor, Os pecados do Vaticano – soberba, avareza, luxúria, pedofilia: os escândalos e os segredos da Igreja Católica, teve edição brasileira da editora Gryphus, Rio de Janeiro, 2013.

Em suas 358 páginas, Rendina informa que o trabalho nasceu “de uma revisitação histórica da Igreja de Roma ou mesmo do Vaticano e da ‘santa casta’, a partir de uma narrativa centrada na problemática teológica dos sacramentos, dogmas e mandamentos que encabeçam os pecados”. Tudo explicitado através de informações complementares, cuja utilização de alguns termos resultou num Glossário do Vaticano, localizado ao final do livro.

Nas sete partes – Falso Testemunho, Avareza, Luxúria, Gula, Homicídio, Soberba e Preguiça – revelam-se os pecados cometidos nos 44 hectares de terra da área definida em 1928, pelo Tratado de Latrão, incluindo fatos acontecidos desde os primórdios petrinos, tido e havido como primeiro bispo de Roma, muito embora inexista qualquer fundamento histórico comprobatório.

O primeiro pecado do Vaticano, segundo Claudio Rendina, é o oitavo dos Dez Mandamentos – “Não darás falso testemunho” -, sempre manifestado através de uma série de acontecimentos, desde à falsificação da estrutura da Igreja até à elevação à glória dos altares de santos inexistentes ou não dotados de virtudes especiais, além da proclamação de relíquias sem quaisquer comprovação. Além do falso testemunho sobre a condenação da Maçonaria, prevendo excomunhão dos integrantes daquela sociedade secreta, quando muitos dos representantes da Santa Sé foram inscritos naquela sociedade, sobre eles jamais pesando um pingo sequer de penitência. Apesar do cânone 2335 do Código de Direito Canônico proclamar a proibição de leigos e clérigos se agregarem àquela entidade, o livro traz um apêndice contendo 112 pressupostos “maçons vaticanos”, entre eles cardeais, bispos, prelados, professores de academias pontifícias e empregados da Santa Sé. Uma lista jamais desmentida, onde estão inclusos Paul Marcinkus, Jean-Marie Villot e Agostinho Casaroli. Em 1983, o Novo Código de Direito Canônico não fala mais em excomunhão, mas em pecado grave e proibição de receber sacramentos, embora sem excomunhão de nenhum dos citados na lista.

O livro é minucioso, merece ser lido por gregos e troianos. Como a igreja, já dizia Dom Hélder, é santa e pecadora, nada como dar uma boa espiadinha …


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GRANDES RELIGIÕES

Ganhei, num Natal passado, do amigo muito querido padre João Pubben, hoje na Holanda, um livro pra lá de oportuno para aqueles que buscam minimizar sua deficiência cognitiva em áreas religiosas. Da editora portuguesa Texto & Grafia, As Grandes Religiões do Mundo – Cronologia, História e Doutrinas, Henri Tincq (coordenador), 2010, 446 p., o livro foi estruturado sob três abordagens: a observação, a convicção e a pedagogia.

A observação decorre de uma constatação: a espiritualidade emerge cada vez mais nos quatro rincões do mundo, reconhecida inclusive por aqueles que não pertencem a qualquer denominação ou que declaram não ter religião. Além das crescentes informações na mídia – ebulição do islamismo, atividades desenvolvidas pelo papa Francisco, escalada da direita religiosa nos Estados Unidos, influência do budismo no Ocidente, os textos de Chico Xavier e Divaldo Franco –, os modos considerados clássicos de transmissão dos conhecimentos religiosos (escola, família e catequese) já não possuem a mesma efetividade dos tempos pretéritos. Em 1955, o escritor francês André Malraux já anunciava: “o principal problema do fim de século será o problema religioso”, acrescentando a necessidade de reintegração do divino diante das terríveis ameaças que pairavam e ainda pairam sobre a humanidade, principalmente de um Humanismo sem Deus.

A convicção advém de uma constatação histórica: o fato religioso, nas sociedades modernas, não deixou de exercer influência nas mentalidades, nos comportamentos e nos sistemas políticos, a religião continuando a ser fonte inspiradora para mais de três quartas partes da humanidade, ampliando-se a curiosidade religiosa de milhões, a exigir respostas que reduzam drasticamente a ignorância, mãe de todos os integrismos e materialismos.

O projeto pedagógico se prende à necessidade de se ter um ensino cultural do fato religioso. Um projeto que, sem erudições excessivas, preocupe-se em oferecer ao público de todas as idades uma ferramenta indispensável de orientação balizadora. Uma exposição baseada em seis grandes vertentes: a. A História dos textos originais, dos fundadores e da sua expansão; b. Os dogmas e as doutrinas características de cada religião; c. Os ritos e as práticas; d. As instituições e seus sistemas de autoridade; e. O mapa mundial das crenças e sua evolução através dos tempos; f. A visão de cada religião sobre o homem e o mundo; g. As grandes heranças da Humanidade.

O sumário do livro está assim caracterizado: as religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), as tradições orientais (hinduísmo, budismo e demais filosofias e sabedorias), e as manifestações situadas à margem das religiões, como o animismo, os sincretismos e os sectarismos. Inclusos no livro uma cronologia e um glossário, além de uma bibliografia e um índice remissivo.

Alguns acadêmicos que estudam o assunto têm dividido as religiões em três categorias amplas: religiões mundiais, um termo que se refere à crenças transculturais e internacionais; religiões indígenas, que se referem a grupos religiosos menores, oriundos de uma cultura ou nação específica; e o novo movimento religioso, que se relaciona a crenças recentemente desenvolvidas. Uma teoria acadêmica sobre a religião, o construtivismo social, diz que a religião é um conceito moderno que sugere que toda a prática espiritual e adoração segue um modelo semelhante ao das religiões abraâmicas, como um sistema de orientação que ajuda a interpretar a realidade e definir os seres humanos, muito embora tal conceituação venha sendo aplicada de forma inadequada para culturas não-ocidentais que não estão baseadas naquele sistema, edificados sob uma construção substancialmente mais simples.

As religiões que afirmam a existência de deuses podem ser classificadas em dois tipos: monoteísta ou politeísta. As religiões monoteístas (monoteísmo) admitem somente a existência de um único deus, um ser supremo. As religiões politeístas (politeísmo) admitem a existência de mais de um deus. Atualmente, as religiões monoteístas são dominantes no mundo: judaísmo, cristianismo e islamismo, juntos, agregam mais da metade dos seres humanos e quase a totalidade do mundo ocidental. Além destas, o zoroastrismo, a fé bahá’i, o espiritismo e bnei noah são religiões monoteístas.

Os filósofos têm examinado a verdade e a justificação racional para as alegações, e têm explorado os fenômenos religiosos interessantes como a fé, a experiência religiosa, e os traços distintivos do discurso religioso. A segunda metade do século XX foi um período especialmente frutífero, com os filósofos que utilizam novos desenvolvimentos em lógica e da epistemologia para montar as suas defesas sofisticadas, e ou os ataques às afirmações religiosas.

A expressão “filosofia da religião” não entrou em uso geral até o século XIX, quando foi empregada para se referir à articulação e crítica da consciência religiosa da humanidade e suas expressões culturais em pensamento, linguagem, sentindo e prática. Historicamente, a reflexão filosófica sobre temas religiosos teve dois focos:, atitudes, sentimentos e práticas que se acreditava em primeiro lugar, Deus ou Brahma ou Nirvana ou qualquer outra coisa que seria o objeto do pensamento religioso, e, em segundo lugar, o tema religioso humano, isto é, os pensamentos, atitudes, sentimentos e as práticas.

Um livro esclarecedor por derradeiro. Por exemplo, você sabia que Siddhartha Gautama foi aclamado como Buda, que em sânscrito significa O Desperto?

PS. Creio que o mundo tornar-se-ia bem mais integradamente solidário e seguidor do Homão da Galileia se a Doutrina Espírita fosse melhor estudada, principalmente por todos aqueles que, sem preconceitos, analisam as religiões através da razão e da lógica experimental, percebendo todas como um modo de caminhar para a Luz Eterna.


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POR UM AGIR CONSEQUENTE

O muito conhecido médium Waldo Vieira, que militou ao lado do Chico Xavier, na década de 1950, na Comunhão Espírita Cristã, era natural de Montes Claros, Minas Gerais, nascido em 1932. Médico e também dentista, Vieira transferiu-se para o Rio de Janeiro em meados do anos 60, onde psicografou diversas obras, uma das quais, Conduta Espírita, BSB, FEB, 2015, 118 p., recebeu 32 edições, a última com seis impressões, numa tiragem total de 21 mil exemplares, da qual 4 mil em dezembro do ano passado. E o psicografado foi o Espírito de André Luiz, que se descreve como um aprendiz, tendo sido médico sanitarista no Rio de Janeiro quando encarnado, nos princípios do século XX, cujo primeiro livro de sua autoria espiritual, Nosso Lar, foi publicado na década de 1940, psicografado por Chico Xavier, um texto considerado fundamental para o entendimento do mundo espiritual, dada suas descrições e evidências da vida após a morte. Hoje, o Espírito de André Luiz é considerado um dos mais fiéis seguidores dos preceitos divulgados pela Doutrina Espírita e das orientações de Allan Kardec, o Codificador.

O livro Conduta Espírita transmite um conjunto de recomendações e lembretes para uso pessoal daqueles cristãos que buscam um caminhar repleto de concordâncias com os ensinamentos do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador. Muito embora, para tanto, segundo André Luiz, não basta apenas admirar o Cristo e divulgar seus preceitos, sendo imprescindível acompanhá-lo para que estejamos sempre na bênção da luz. A leitura do livro provoca ampliação do bom senso, ajudando a discernir, posto que quem aprende a discernir sabe bem como sempre deve fazer.

Dos 47 temas expostos no livro, ousamos escolher os mais fundamentais para os tempos turbulentos de agora, quando todo o contexto planetário se encontra atordoado com os múltiplos e inconsequentes fundamentalismos.

Da Mulher – “Preservar os valores íntimos, sopesando as próprias deliberações com prudência e realismo, em seus deveres de irmã, filha, companheira e mãe.”

Do Jovem – “A imprudência constrói o desajuste, o desajuste cria o extremismo e o extremismo gera a perturbação.”

No Lar – “Evitar o luxo supérfluo em aposentos, objetos e costumes, imprimindo em tudo características de naturalidade, desde os hábitos mais singelos até os pormenores arquitetônicos da própria moradia.”

Na Via Pública – “Abolir o divertimento impiedoso com os mutilados, com os enfermos mentais, com os mendigos e com os animais que nos surjam à frente.”

Em Viagem – “Não se esquecer do respeito, da gentileza e da cordialidade com que se devem tratar indistintamente funcionários e servidores em veículos, hotéis, repartições e lugares públicos.”

No Trabalho – “Em nenhuma ocasião desprezar as ocupações de qualquer natureza, desde que nobres e úteis, conquanto humildes e anônimas.”

Na Sociedade – “A evolução requer da criatura a necessária dominação sobre o meio em que nasceu.”

Nos Embates Políticos – “Cumprir os deveres de cidadão e eleitor, escolhendo os candidatos aos postos eletivos, segundo os ditames da própria consciência, sem, contudo, enlear-se nas malhas do fanatismo de grei.”

Perante a Criança – “Eximir-se de prometer às crianças que estudam, quaisquer prêmios ou dádivas como recompensa ou (falso) estímulo pelo êxito que venham a atingir no aproveitamento escolar, para não lhes viciar a mente.’

Perante os Doentes – “Em nenhuma circunstância garantir a cura ou marcar o prazo para o restabelecimento completo dos doentes, em particular dos obsidiados, sob pena de cair em leviandade.”

Perante os Profitentes de Outras Religiões – “Sistematicamente não impor ou forçar a transformação religiosa dos irmãos alheios à fé que lhe consolo o coração.”

Perante a Oração – “Controlar a modalidade da voz nas preces públicas, para fugir à teatralidade e à convenção.”

Perante a Pátria – “O genuíno amor à pátria, longe de ser demagogo, é serviço proveitoso e incessante.”

Perante a Natureza – “Eximir-se de reter improdutivamente qualquer extensão de terra sem cultivo ou sem aplicação para fins elevados.”

Perante os Animais – “Apoiar, quanto possível, os movimentos e as organizações de proteção aos animais por meio de atos de generosidade cristã e humana compreensão.”

Perante o Corpo – “Fugir de alimentar-se em excesso e evitar a ingestão sistemática de condimentos e excitantes, buscando tomar as refeições com calma e serenidade.”

Perante o Tempo – “Ainda que assoberbado de realizações e tarefas, jamais descurar o bem que possa fazer em favor dos outros.”

Perante a Instrução – “Na academia do Evangelho, todos somos adultos.”

Perante a Ciência – “Quando chamado a responsabilidade no setor científico, superar limitações e preconceitos sem perder a simplicidade e a modéstia.”

Perante Jesus – “Identificar a posição que lhe cabe em relação a Jesus, o Emissário de Deus, evitando confrontos inaceitáveis.”

Diante das dificuldades surgidas, uma releitura dos balizamentos acima nos possibilita ampliar a “enxergância”, nos possibilitando um direcionamento mais consentâneo com os desígnios da Criação.

Sejamos todos irmãos!!!

PS. De parabéns o Grupo Espírita Seara de Deus, pela excepcionalidade do 11º SIMESPE – Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas de Pernambuco, realizado neste último final de semana no Centro de Convenções de Pernambuco sob o tema central “A visão espírita em torno do viver: os desafios ético-morais e os caminhos para o crescimento do ser”. Excepcionais as palestras de Divaldo Franco, Décio Iandoli e Frederico Menezes. Auditório superlotado e com muita participação!


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ARQUITETO DO III REICH

Em 30 de setembro de 1966, abertos os portões da Prisão de Spandau, deles emergiu a figura de Alberto Speer (1905-1981), Ministro de Armamentos da Alemanha Nazista, arquiteto, confidente e amigo de Adolfo Hitler, responsável direto pelo funcionamento da máquina assassina nazista e considerado o Homem nº 2 do III Reich, embora sempre cinicamente se declarasse apolítico. Libertado após 20 anos de prisão, condenado que fora pelo Tribunal de Nuremberg, em 1946, na prisão redigiu o considerado até hoje o maior documento histórico e político do mundo, em 1970. Traduzido em doze línguas, no Brasil foi editado em dois volumes pela editora Artenova, em 1971, sob título Por dentro do III Reich – Os anos de glória e Por dentro do III Reich – A derrocada.

Seu nome completo era Berthold Konrad Hermann Albert Speer, conhecido como “o bom nazista”. Em Nuremberg, ele assumiu todas as responsabilidades pelos atos cometidos durante o período nazista. Ingressando no Partido Nazista em 1931, logo se tornou uma das pessoas mais íntimas do ditador nazista, sendo responsável pela construção da Chancelaria do Reich e pelos planos de reconstrução de Berlim, tendo sido posteriormente nomeado Ministro do Armamento, em muito ampliando a produtividade do setor bélico nos anos finais da guerra.

Speer afirmava ser apolítico em sua juventude, até participar de um desfile nazi, seguido de um discurso de Hitler, em dezembro de 1930 em Berlim. Ele ficou surpreso ao encontrar Hitler em um traje azul ao invés do tradicional uniforme marrom que era visto em propagandas nazistas. Também chamaram a atenção de Speer as propostas de Hitler para a Alemanha e a maneira com que elas eram passadas ao povo. Algumas semanas depois, Speer participou de outro desfile, desta vez liderado por Joseph Goebbels. Speer ficou impressionado com a facilidade que Goebbels tinha para levar a plateia ao estado de frenesi, decidindo entrar para o Partido Nazista em março de 1931.

Hitler procurava Speer e seu assistente quase todos os dias para perguntar sobre os progressos e renovações pretendidas para as obras. Certa feita, após uma conversa, Hitler convidou Speer para almoçar, oportunidade que o arquiteto considerou de grande emoção. Hitler deixou claro o interesse que tinha em Speer, e disse-lhe que estava procurando pôr um arquiteto capaz de realizar seus sonhos e projetos para a nova Alemanha. Com isso, Speer rapidamente entrou no restrito círculo de amizades de Hitler.

Comprovadamente, Speer apoiou a invasão da Polônia e a Segunda Guerra Mundial em 1939, e mesmo sabendo que isto poderia atrapalhar seus planos para a Alemanha, deixou seu departamento à disposição do Wehrmacht . O arquiteto comandou a rápida construção de pontes e estradas, através de uma equipe treinada por ele próprio.

Em 8 de fevereiro de 1942, o ministro dos armamentos Fritz Todt morreu em um acidente de avião em Rastenburg. Speer, que tinha chegado na cidade na noite anterior, tinha aceitado voar com Todt para Berlim, mas decidiu não ir horas antes de Todt embarcar. Segundo Speer, ele estava exausto com a viagem que havia enfrentado e com a reunião que teve com Hitler. No mesmo dia, Hitler nomeou Speer para ocupar o cargo de Todt. No livro Por dentro do III Reich, Speer conta que não tinha interesse em assumir um ministério, e apenas o fez pois Hitler havia ordenado. Speer também declara que Hermann Göring foi direto ao gabinete de Hitler após saber da morte de Todt, esperando tomar o cargo.

Em 15 de maio de 1945, os estadunidenses chegaram e perguntaram para Speer se ele estava disposto a fornecer informações sobre a guerra. Speer concordou, e durante os dias seguintes detalhou ações do governo de Hitler. No dia 23 de maio, após a Alemanha se entregar, os Aliados prenderam todos os membros do governo, levando a era nazista ao fim. Speer foi levado a diversas prisões e interrogado. Em setembro de 1945, foi dito ao arquiteto que ele seria julgado por ter cometido crimes de guerra. Alguns dias depois, ele foi levado para Nuremberg, onde ficou aguardando o julgamento. Speer foi indiciado em todas as quatro acusações: conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Speer foi considerado culpado nas acusações de crimes de guerra e contra a humanidade. Em 1 de outubro de 1946, ele foi sentenciado a 20 anos de prisão. Enquanto dois dos oito juízes (um soviético e outro estadunidense) optaram pela pena de morte, os outros não o fizeram, e a sentença foi confirmada após dois dias de discussão. Doze réus foram sentenciados à morte (incluindo Martin Bormann, in absentia) e três foram considerados inocentes; sete foram condenados a prisão.

A saída de Speer da prisão foi um evento que chamou a atenção da imprensa do mundo inteiro. Todos estavam a espera de ouvir as primeiras palavras de liberdade de Speer após 20 anos. Mas ao se retirar da prisão, Speer disse pouco, e guardou todas relevações para uma entrevista publicada em novembro de 1966 no jornal Der Spiegel. Na entrevista, Speer novamente assumia suas responsabilidades por seus atos no regime nazista e contava detalhes das horas finais da Alemanha de Hitler.

Em 1° de setembro de 1981, Speer sofreu um AVC num quarto de hotel londrino, falecendo a caminho do hospital.

Mais de 30 anos após sua morte, historiadores descobriram documentos que comprovam que o “bom nazista” não só encobriu o seu conhecimento sobre o Holocausto, mas também participou do roubo de obras de arte de judeus. Quando os russos se aproximavam de Berlim, ele pessoalmente supervisionou a remoção de quadros para um esconderijo na casa de um amigo que os guardou até que saisse da prisão de Spandau.

Entretanto, o conhecimento do holocausto por Speer se complica com seu status pós-guerra. Ele se tornou símbolo para as pessoas que haviam participado do NSDAP negarem e rejeitarem todas as ações no regime (inclusive dizendo que nunca fizeram parte do Partido Nazi). O diretor de cinema Heinrich Breloer declarou que Speer criou uma imagem que permitia as pessoas dizer: “Acredite em mim, eu nunca soube nada sobre o holocausto. Basta olhar para o amigo pessoal do führer, ele não sabia de nada também.”

O livro, à parte as megalomanias de Speer e os segredos levados para o túmulo, é leitura recomendada para quem deseja saber mais sobre um Reich que pretendia durar mil anos.


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MÃE MUITO AMADA

Permitam-me os leitores da Besta Fubana, reverenciando o Dia das Mães ontem comemorado, que eu reproduza, abaixo, artigo do Reverendo Carlos Eduardo Calvani, Coordenador do CEA – Centro de Estudos Anglicanos, uma mente cada vez mais privilegiada na divulgação de estudos e análises evangelizadoras:

“Fui criado em uma Igreja Protestante tradicional. Como todos sabem, nessas igrejas a figura de Maria é, no mínimo, ignorada. Em grupos evangélicos pentecostais mais fanáticos, chega-se até ao ponto de ser mesmo hostilizada. Desse modo, a devoção a Maria nunca fez parte de minha espiritualidade. Porém, o trabalho pastoral nos coloca diante de pessoas que vivem essa fé de forma bastante sincera e isso se intensifica nas proximidades do dia 12 de outubro com as romarias a Aparecida ou a outros santuários marianos. Isso sempre me chamou a atenção, pois o respeito à fé das pessoas é um princípio que está nas origens do cristianismo, embora não seja muito praticado pelos que seguem o Cristo. … O que significa parar para pensar em Maria nesses dias?

Geralmente a notícia de uma gravidez é motivo de alegria para muitas mulheres. Outras, porém, ao saber que estão grávidas reagem primeiramente com preocupação e medo: medo da gestação, do parto e das responsabilidades para com uma nova vida; outras ainda reagem em desespero porque são jovens demais ou por não serem casadas ou até mesmo porque engravidaram em circunstâncias inesperadas e sabem que terão que criar seu filho sozinha. Certamente o anúncio da gravidez de Maria a pegou de surpresa, pois se constituía em um grande problema: ela ainda não era casada e estava grávida. Se ainda hoje o anúncio da gravidez de uma jovem solteira é assunto de comentários maldosos, o que dirá naquela época …

Coloquemo-nos em seu lugar e imaginemos o que não passou por sua cabeça: ouvir comentários maledicentes e ser humilhada… o casamento marcado… como explicar ao noivo o que aconteceu? Será que ele entenderia ou a rejeitaria?

O tempo da gravidez também foi turbulento. Teve que fazer uma longa viagem e teve seu filho em condições precárias, ao que tudo indica sem a ajuda de familiares (exceto o marido) que pudessem apoiá-la naquele momento. Após o parto, outra longa viagem. Conforme o evangelho de Mateus, toda família teve que se exilar no Egito para evitar que seu bebê fosse morto.

O tempo passa, os meses e lá está ela vivendo a maternidade: a criança acorda aos gritos na madrugada querendo mamar, começa a andar, cai, se machuca e quando começa a descobrir o mundo, inevitavelmente, como toda criança, quebra coisas em casa, e ela está lá…

Papinha, comidinha, banho, lavar as fraldas sujas, limpar o bumbum, cortar as unhas, dar aquele beijinho de mãe quando a criança esbarra em algo e se machuca, tantas tarefas… e ela está lá…

De repente, a criança começa a crescer… e como acontece com toda criança normal, faz suas artes… perde-se dos pais durante uma visita ao Templo (quantos pais e mães já não viveram isso quando em um passeio pelo shopping, mercado ou uma grande loja, o filho se perde…) e quando é encontrado já tem a ousadia de responder de modo consciente e até meio rebelde aos pais… mas ela está lá…

De repente, ele é um homem… crescido, com barba, pensa por si só e já não aceita opiniões que contradigam o que ele quer fazer… já é dono do seu próprio nariz… chega até a repreendê-la publicamente quando ela resolve interferir… mas ela está lá, acompanhando o ministério do filho, às vezes surpresa, outras vezes orgulhosa dele, outras vezes certamente preocupada com seu futuro… mas ela está lá…

Até que um dia, seu filho é preso. Quanta dor para uma mãe saber que o filho está preso… aquela criança frágil, cuidada com tanto zelo, que várias vezes correu aos seus braços procurando consolo após uma queda, após um desentendimento com um amiguinho ou após um pesadelo noturno, agora precisava novamente dela e, embora ela estivesse por perto, nada podia fazer…

Na condição de mulher, ela não podia entrar no Sinédrio onde seu filho estava sendo julgado e, de repente, vem a sentença: seu filho seria crucificado. Imaginemos a dor dessa mãe ao ver seu filho naquela situação.

Creio que naquela hora Maria sofreu como mãe, sem pensar em qualquer significado teológico que justificasse tamanha barbaridade e sofrimento. Não era o “filho de Deus” que estava sofrendo ali. Era o seu bebê, o seu filhinho que estava passando por humilhações públicas, sendo xingado e espancado… não era o “Verbo encarnado”, mas seu bebê que sangrava no meio da rua, e ela nada podia fazer… Não era “o Messias prometido, o Ungido, o Cristo” que estava pendurado no madeiro, era o seu bebê cuidado com tanto carinho que agora assumia o lugar de maldito perante todos e perante Deus… era o seu bebê que exclamava na cruz “Tenho sede…” e ela não podia lhe levar água; era o seu bebê que dava altos gritos de dor e sofrimento, e ela assistia a tudo com imensa dor e perplexidade… mas estava ali… era o seu bebê que, em total humilhação tem suas vestes rasgadas e é pendurado nu para agonizar até a morte, e ela ali, ao lado dele…Ah, Maria… o que se passou em sua mente aquela hora? Foi escolhida para isso?

Maria foi escolhida para ser mãe do Redentor, mas não foi poupada de ser humana e sofrer como tantas mães-Marias da história. É juntamente a sua humanidade e a sua maternidade que a tornam santa e bem-aventurada entre as mulheres. É difícil acreditar que Maria assistiu à crucificação de seu filho como se fosse um momento necessário no plano divino de salvação. Não! Quem estava ali não era “o Cristo”, era o seu bebê, o seu filhinho…

Não é difícil compreender porque a devoção a Maria ganhou peso na história do cristianismo. Não é difícil compreender porque todos os anos o santuário de Aparecida ou outros santuários marianos espalhados pelo mundo recebem tantos romeiros… porque nas carências e necessidades da espiritualidade popular, o santuário é a casa da mãe, da mãe que sofre por causa das opções de vida que o filho ou a filha fazem, mas que está ali, como diz a música de Chico César, Mama África: “filhinho tem que entender que Mama África vai e vem, mas não se afasta de você”.

Após o feriado do dia 12 de outubro, o comércio começa a se preparar para o Natal e as igrejas começam a recontar a história da salvação. Maria está grávida de novo… nascerá seu filho… e durante o ano litúrgico acompanharemos seu ministério até a semana da sua morte, e ela estará ali também, como sempre esteve, no coração de tantos sofredores que na hora do sofrimento a invocam: “Ave Maria, cheia de graça… rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Não é difícil entender porque tantos cristãos e cristãs, mesmo protestantes e evangélicos que nunca foram estimulados a refletir mais sobre Maria, possam agora se sentir mais perto de Deus e reconhecer: “Bem-aventurada és tu entre as mulheres”.


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EXERCÍCIO DE IMAGINAÇÃO

Fiquei a conceber mentalmente, outro dia, após minhas leituras noturnas diárias, uma visita que o Allan Kardec faria ao Congresso Nacional do Brasil, buscando classificar os políticos que ali atuam nas diferenciadas agremiações partidárias com base no que foi por ele mesmo delineado no Livro dos Espíritos, 3ª edição comemorativa do sesquicentenário da primeira edição, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, página 116 e seguintes.

Segundo explicita o Codificador da Doutrina Espírita, há três ordens principais de espíritos, com suas respectivas classes. Apresento uma síntese dessas ordens e classes, das ordens inferiores às mais elevadas, encarecendo aos leitores deste site muito aplaudido em todos os recantos latino-americanos o “enquadramento” dos parlamentares dos seus estados, ensejando favorecer uma maior enxergância cidadanizadora dos seus derredores comunitários nas próximas eleições.

Na Terceira Ordem, a dos espíritos menos adiantados, se encontram os espíritos imperfeitos. Principais características: predominância da matéria sobre o espírito. Propensão ao mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as más paixões que lhe são consequentes. Nela, cinco classes principais são identificadas, a partir das menos evoluídas.

Na Décima Classe da Terceira Ordem, a última, se encontram os espíritos impuros, aqueles que dão conselhos pérfidos, insuflam a discórdia e a desconfiança, mascarando-se de todas as formas possíveis para melhor enganar. Apegam-se às pessoas de frágil caráter, induzindo-as à perdição. Suas expressões são triviais e grosseiras, revelando a baixeza dos seus pendores, não conseguindo sustentar seus argumentos por muito tempo, traindo sempre suas origens.

Na Nona Classe se agrupam os espíritos levianos, ignorantes, maliciosos, inconsequentes e zombeteiros. Intrometem-se em tudo, sem qualquer preocupação com a verdade. Alegram-se em proporcionar pequenos desgostos, induzindo maliciosamente muitos ao erro, utilizando mistificações e espertezas. São designados de duendes, trasgos, gnomos e diabretes. Utilizam-se de linguagens pouco profundas, sempre explorando o lado ridículo dos seres humanos, retratando-os em traços mordazes e satíricos. Utilizam-se de nomes fictícios, mais por malícia que por maldade.

Na Oitava Classe estão os espíritos pseudo sábios. Acreditam saber mais do que realmente sabem. Utilizam-se de linguagem aparentemente séria que muitas vezes não passa de um reflexo dos seus preconceitos, que não conseguem camuflar presunção, orgulho, ciúme e obstinação.

Na Sétima Classe situam-se os espíritos neutros. Não são bastante bons para fazerem o bem, nem bastante mal para fazerem o mal, jamais se elevando acima da condição vulgar da Humanidade, quer em moral, quer em inteligência. Sempre apegados às coisas miúdas do cotidiano.

Na Sexta Classe posicionam-se os espíritos batedores e perturbadores. Podendo pertencer a todas as demais classes da Terceira Ordem, se explicitam através de pancadas, deslocamentos anormais, agitação do ar, parecendo ser os agentes principais das vicissitudes comunitárias.

Na Segunda Ordem, surgem os Espíritos Bons, cada vez mais adiantados, sempre aliando saber às qualidades morais. Não são movidos pelo orgulho, nem pelo egoísmo, tampouco pela ambição. Não experimentam ódio, rancor, inveja ou ciúme, sempre fazendo o bem pelo bem. Nesta Segunda Ordem, quatro classe são identificadas. Na Quinta Classe, os espíritos benévolos, os que sentem prazer em prestar serviços aos seres humanos, sempre os protegendo através dos seus ainda limitados conhecimentos. Na Quarta Classe estão os espíritos de ciência, reconhecidos pela amplitude de seus conhecimentos. Preocupam-se com as questões morais, só encarando a Ciência pelo prisma da utilidade, nunca sendo dominados pelas paixões peculiares dos espíritos imperfeitos. Na Terceira Classe atuam os espíritos de sabedoria, com suas elevadas qualidades morais, não sendo possuidores de conhecimentos ilimitados, embora dotados de uma capacidade intelectual que lhes faculta juízo reto sobre homens e acontecimentos. Na Segunda Classe pontificam os espíritos superiores, amalgamando sempre Ciência, Sabedoria e Bondade. Utilizam uma linguagem que exala benevolência, comunicando-se de bom grado com os que os procuram de boa fé, afastando-se dos que apenas ensejam satisfazer curiosidade, influenciados por apenas matéria.

Finalmente na Primeira Ordem, os espíritos puros, situados numa classe única, a primeira. São infinitamente felizes, muito distanciados das ociosidades monótonas vivenciadas em contínuas contemplações. São tidos e admirados como mensageiros e ministros de Deus, sempre executando ordens que fortaleçam a harmonia universal. São designados planetariamente pelos nomes de anjos, arcanjos e serafins.

A partir do acima exposto, propomos aos queridos leitores um exercício grupal de imaginação. Possuindo a relação dos parlamentares do Congresso Nacional, busquem classificá-los, favorecendo uma escolha mais cidadã nas próximas eleições municipais e estaduais. Qual o objetivo do exercício grupal feito? A redução do nível abestalhacional do próprio grupo, inserido às vezes numa classe ironicamente denominada de “classe me(r)dia” por alguns gaiatos da mídia brasileira, que urge ser radicalmente reduzida nas próximas legislaturas, quando a área educacional deverá sofrer uma reestruturação sistêmica de grande porte, tornando-se qualitativamente muito acima das atuais “coisas” instrucionais públicas e particulares, que apenas desejam obter ganhos por cima de paus e pedras, independentemente de sonhos e aspirações dos advindos de áreas financeiramente sofríveis.

O Congresso Nacional é celeiro de todos os tipos de espíritos acima definidos, principalmente os da Terceira Ordem. Só inexistindo lá os de Primeira Ordem, celeiro de personalidades que muito honram a Dignidade Mundial de todos os tempos, não sendo o caso daquela casa onde pululam 299 picaretas, um deles já tendo se retirado tempos atrás, atraído por palestras bem rendosas.

Mãos à obra, leitores cidadanizados deste site muito ótimo do escritor Luiz Berto, na eleição/defenestração dos políticos da sua região!!


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ATEÍSMOS X CRENÇAS

PARTE PRIMEIRA

Um advogado renomado que muito fraternalmente estimo, o PHM, permitam-me chamá-lo assim, que se declara materialista, detesta o termo “ateu”. Consultando o História do Ateísmo, de Georges Minois, Unesp, recentemente tornado público, nele se constata “que o termo ‘ateu’ conserva uma vaga conotação pejorativa, e sempre causa medo: herança de muitas séculos de perseguição, de desprezo e ódio por todos aqueles que negavam a existência de Deus e se viam, assim, irremediavelmente amaldiçoados”. Um termo que “exala um vago odor de fogueira”. E é do autor acima citado uma tese nada raivosa: “O ateísmo, independente das religiões, pode ser concebido como a grandiosa tentativa do homem criar para si mesmo, de justificar para si mesmo sua presença no universo material, de nele construir um lugar inexpugnável”.

Há alguns meses, li um livro de físico brasileiro, radicado nos Estados Unidos, de bela feitura, que analisa os problemas ambientais que enfrentamos. De Marcelo Gleiser, Criação Imperfeita – Cosmo, Vida e o Código Oculto da Natureza, RJ, Record, 2010.

Gleiser nasceu a 19 de março de 1959, bacharelou-se em Física, PUC-RJ, em 1981, obteve o Mestrado no ano seguinte, UFRJ, e doutorou-se em 1986 pelo King’s College London, na Inglaterra. Declarando-se um ateu liberal, reconhece o papel que a fé desempenha no desenvolvimento das civilizações, embora destaque com sinceridade: “Se sou ateu; se fico transtornado quando vejo a infiltração de grupos religiosos extremistas nas escolas, querendo mudar o currículo, tratando a ciência em pé de igualdade com a Bíblia; se concordo que o extremismo religioso é um dos grandes males do mundo; se batalho contra a disseminação de crenças anticientíficas absurdas como o design inteligente e o criacionismo na mídia; por que, então, critico o ateísmo radical de Dawkins? Porque não acredito em extremismos e intolerância. … É essa crença ignorante que deve ser combatida; … É a hipocrisia usada sob a bandeira da fé que deve ser combatida, não a fé em si.

Gleiser ainda declara-se crítico das posturas perfeccionistas do universo, na busca da comunidade de físicos pela “teoria do tudo“. Para Gleiser, o Universo é repleto de imperfeições, e nele não se pode identificar, baseado em nossa tecnologia limitada, uma lei única que reja toda a natureza. Para Gleiser, tais cientistas deveriam ter uma maior “autocrítica“: “Nós conhecemos o mundo por causa de nossos instrumentos… O problema é que toda máquina tem uma precisão limitada. É impossível criar uma teoria final porque nunca vamos saber tudo. Temos de aprender a ser humildes com relação a nosso conhecimento de mundo, que sempre será limitado.

Uma leitura de argumentação consistente, de quem sabe respeitar as opiniões contrárias, as mais diferenciadas e não histéricas ou compulsivas.

* * *

PARTE SEGUNDA

Um livro, editado pela Paulus, me proporcionou excelentes momentos de leitura reflexiva: O Católico de Amanhã: para entender Deus e Jesus em um novo milênio. Seu autor, Michael Morwood, especialista em Ministério Pastoral, utiliza uma linguagem clara e bastante prática para todas as denominações cristãs, buscando ultrapassar as lacunas existentes entre a doutrina da Igreja (católica) e a mensagem evangélica do legado cristão.

O texto de Morwood tem cinco propósitos principais: ajudar católicos e outros cristãos a desenvolver um sentimento de fascínio no Deus em quem creem; auxiliar todos os cristãos a melhor apreciar o lugar de Jesus nos assuntos humanos; ampliar a compreensão dos cristãos de que o mesmo Espírito Santo de Deus que intercede em Jesus intercede em todos nós; que a presença do Espírito desafia todos nós a ser presença de Deus no mundo de hoje; e buscar estabelecer qual o tipo de liderança e autoridade da Igreja que procuramos neste terceiro milênio.

No livro, Morwood transcreve a visão de Michael Dowd, descrevendo a história do universo na escala de um ano: “Imaginemos que a nossa história de 15 bilhões de anos seja reduzida a um único ano. A galáxia da Via Láctea se organizou no fim de fevereiro, nosso sistema solar surgiu da nebulosa elementar de uma supernova no início de setembro; os oceanos planetários formaram-se em meados de setembro; a Terra acordou para a vida no fim de setembro; o sexo foi inventado no fim de novembro; os dinossauros viveram durante alguns dias no início de dezembro, as plantas florescentes explodiram em cena com uma sucessão de cores em meados de dezembro e o universo começou a refletir conscientemente no ser humano e por meio dele, com escolha e livre-arbítrio, menos de dez minutos antes da meia noite de 31 de dezembro… Nessa escala, o Homão da Galileia nasceu às 11h59 num 31 de dezembro!!

O livro traz questões incrivelmente despertadoras. Duas delas: o que acontece agora quando somos confrontados com provas esmagadoras de que desenvolvimento, morte, desastre e revolução eram partes essenciais deste planeta milhões e milhões de anos antes que os seres humanos entrassem em cena?; o que acontece quando as imagens de Deus que estavam tão entranhadas em nós, que ainda tanto fazem parte de nossa maneira de pensar e prática religiosa, são postas em dúvida por modos diferentes de ver a criação, o universo, a realidade?

Especial atenção deve ser dada ao capítulo 5 – Para entender Jesus -, que aponta novos caminhos libertadores para católicos de formação tradicionalista, revitalizando o pensamento cristão, sem perder seus alicerces essenciais. Entendendo porque a pregação d’Ele estava sempre relacionada à libertação das pessoas do medo, da ignorância e do desamor.


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AMPLIANDO A EXISTENCIALIDADE

Não há postura mais cavilosa que a de um sujeito metido “às pregas de Odete”, como dizia minha saudosa avó Zefinha, que tinha uma inteligência privilegiada embora assinasse o nome com dificuldade, mal tendo concluído a alfabetização em Escada, município de Pernambuco, em “mil novecentos muito antes da segunda guerra”, conforme ela própria declarava.

Outro dia, visitando uma escola de ensino médio, pude observar de longe, sem ser minimamente notado, a exposição de um professor que reproduziu para uma classe de jovens atordoados, atônita mesmo, a reflexão de William Shakespeare, em Rei Lear: “Tu és a própria coisa. O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal como tu, nu e bifurcado”. E, após isso, terminou a aula levantando o braço e de punho cerrado proclamou alto e bom som: “Por isso mesmo, somos todos uns bundões!!”.

Num intervalo de aula, fazendo um lanche com toda escola, sentei-me perto de um grupo alegre, serelepe todo, que havia participado da aula do “filósofo”. Foi quando ouvi um deles desabafar numa voz sem uma mínima preocupação de não ser ouvido: “– Bundão um cacete!! Não sabe ensinar e vem com um filosofês macarrônico, bostel mesmo, imaginando que todos da classe nada querem com os amanhãs profissionais!!!

Olhei para ele e sorri concordando. Ele, então, resolveu, sentando na minha mesa, me perguntar o que aconselharia para que ele e seus colegas ampliassem sua visão do mundo. Andava de saco cheio com tanta embromação ouvida de quem não possuía uma mínima capacidade didática para cidadanizar jovens de 15 a 20 anos, alunos de um ensino médio que urgia se reestruturar para propiciar uma ambiência profissional e humanística aos seus alunos, a partir de uma seleção mais efetiva do seus professores.

Identificando-me melhor, parabenizei o aluno pela vontade de ampliar sua pensação, favorecendo um caminhar mais resoluto na busca de amanhãs mais condizentes com a dignidade humana pessoal e coletiva. Foi então que ele ponderou: – Que leituras deveria eu efetuar para entender melhor a alegoria da caverna platônica, posto que o professor tinha se atrapalhado todo nas suas explicações?

Esclarecendo que não era um especialista em Filosofia, prometi a ele expor neste pedaço de site coordenado pelo escritor Luiz Berto, muito visitado por ele e seus colegas de classe, algumas leituras por mim feitas nos últimos tempos. Ei-las abaixo, com os votos de um fortalecimento existencial para ele e os seus companheiros desabilolados, aqueles que desejam trilhar uma profissionalidade condizente com os desafios de um século trepidante, mortal por derradeiro para quem não sabe fazer a hora, sempre esperando acontecer. Leituras não indigestas, didaticamente compatíveis com a escolaridade deles, parte de uma juventude que deseja ser mais para ter mais.

1. Uma Nova História do Mundo, Alex Woolf, SP, M.Books do Brasil Editora, 2014, 320 p. – Uma visão abrangente, ágil e acessível da história da humanidade, elaborada numa linguagem objetiva que proporciona aos leitores uma compreensão sistêmica dos acontecimentos, desde quando, entre dez e cinco milhões de anos atrás, os seres humanos e os macacos antropoides principiaram suas evoluções a partir de um ancestral comum. Um livro de apresentação gráfica inovadora, onde estão incluídas 350 ilustrações. A leitura do livro proporcionará mais enxergância sobre as várias etapas da história da humanidade: a pré-história, o mundo antigo, o clássico, o medieval, o início do mundo moderno, o século XIX e o mundo contemporâneo. Quadros cronológicos favorecem mentalmente a compreensão das evoluções históricas de cada etapa da história mundial.

2. Curso de Filosofia: para professores e alunos dos cursos de ensino médio e de graduação, Antônio Rezende (organizador), Rio de Janeiro, Zahar, 2014, 312 p. Considerado um Manuel padrão, mais de 15 vezes reeditado, destina-se àqueles que se iniciam no estudo. De maneira metódica e sistematizada, busca organizar as mais significativas ideias filosóficas, constituindo um instrumento valioso para jovens adolescentes do ensino médio ou ingressados nos primeiros períodos de vida universitária. O livro busca atender, segundo seu organizador, uma reclamação sistemática feita pelo filósofo brasileiro Antônio Cândido, segundo o qual “os da sua geração, nem ele próprio, nada escreveram que tivesse como destinatários os jovens adolescentes dos colégios”. O livro do professor Rezende busca ocupar um espaço no setor específico do saber filosófico, ensejando contribuir para a edificação de uma juvenil inteligência crítica naqueles que são possuidores de uma curiosidade existencial acima da média. Na Introdução – O que é Filosofia e para que serve -,a professora Maura Iglésias, da PUC-RJ, mostra como a filosofia tem a ver com uma forma de saber, que não é um saber qualquer, decorebal, próprio das pessoas que decoram sem se preocuparem em aprender ou assimilar. Mas um “saber que se percebe como sendo mais relevante, relativo a coisas mais fundamentais, existencialmente basilares na estruturação de um viver situado e datado”.

3. A História da Filosofia: da Grécia Antiga aos tempos modernos, de Anne Rooney, São Paulo, M.Books do Brasil Editora, 2015, 208 p. Uma história do pensamento na Filosofia ocidental, desde os gregos da Antiguidade aos tempos de hoje. Um relato fascinante sobre alguns temas reinantes em todos os tempos: O que é a realidade?; Deus existe?; Como sabemos se algo é verdadeiro?; O que é “virtude”?; Como julgamos o certo e o errado?; Como sabemos o que é bem e o que é mal?; e Como julgamos as nossas concepções que fazemos do mundo?.

Sempre ao seu inteiro dispor, agora amigo JVS! Parabéns por querer ser sempre cidadão, assimilando bem o pensamento de John Stuart Mill: “É melhor ser um homem insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o idiota, ou o porco, têm opiniões diferentes, é porque eles só conhecem seu próprio lado da questão”.

E pense sempre, JVS, como Platão (427-347 a.C.): “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”.


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VERBETES CIDADANIZADORES

Gosto que me enrosco de ler cutucações que catapultam a criticidade para níveis mais elevados, bem acima das me(r)diocridades de uma classe política que está retardando o desenvolvimento brasileiro, fazendo o país estagnar-se diante de um contexto mundial velozmente evolucionário, na direção de patamares nunca dantes vivenciados.

Na Semana Santa ultima, em Gravatá, acredito que muito cresci lendo um dicionário de citações construído por dois economistas consagrados, Gustavo Franco e Fábio Giambiagi. O primeiro foi diretor do Banco Central do Brasil, tendo sido um dos idealizadores do Plano Real. O outro, do BNDES desde 1984, integrou o staff do Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington, sendo autor/organizador de 25 livros publicados sobre economia brasileira.

A coleção de verbetes dos dois economistas foi intitulada de Antologia da Maldade: um dicionário de citações, associações ilícitas e ligações perigosas, editado pela Zahar, RJ, 304 p. e tornada pública em novembro do ano passado. Com muitos aplausos e recomendações, posto que se trata de uma pesquisa exaustiva, dotada de uma excelente dose de humor, muito embora sem abandonar a verdade histórica, com suas “mentiras sinceras” e “mentiras estratégicas”.gf

Solicitei à minha mulher Rejane, docente concursada de Inglês e Espanhol do Sistema Estadual de Educação de Pernambuco, que escolhesse alguns verbetes que pudessem, aqui expostos, ampliar o desejo nos leitores de ter acesso aos demais. Eis os verbetes por ela escolhidos, cabendo ao leitor fubânico explicar criticamente o que por ventura se encontra por debaixo dos panos, a favorecer o caminhar seguro de todo brasileiro situado acima de tudo, sem chiliques nem choramingas, percebendo-se sempre um incompleto aprendiz de tudo:

Vaidade – “Não ter vaidades é a maior de todas as vaidades” (Millôr Fernandes)

Santidade – “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que os pobres não têm comida, me chamam de comunista” (Dom Hélder Câmara)

Estatura – “Há uma nítida diferença entre o estadista e o político. O primeiro é alguém que pertence à nação; o segundo, alguém que pensa que a nação lhe pertence” (Antônio Ermírio de Morais)

Dinheiro de campanha – “É necessário que uma pessoa do métier, relacionada no comércio, nos meios bancários, vá pessoalmente às firmas simpáticas obter o concurso monetário, com garantia de absoluto sigilo, porque tais elementos, fundamentalmente conservadores, não querem complicações com o governo” (Getúlio Vargas, em carta a um amigo).

Almoço – “Não existe almoço grátis. Não existe doação que depois a empresa não queira recuperar” (Paulo Roberto Costa, ex-Petrobras, delator na Lava-Jato)

Alienação – “O homem que se sente totalmente feliz é um imbecil” (Umberto Eco)

Déficit Público – “O Brasil ainda é um país onde são muito fortes as forças em favor da gastança de recursos públicos sem lastro. Creio que deva ser um dos últimos países do mundo nessa situação” (Paul Krugman, economista Prêmio Nobel)

Corrupção – “A gente sabe perfeitamente o que é o enigma brasileiro, não precisa ficar procurando. O Brasil é metade falta de caráter – corrupção -, metade incompetência. Você pode explicar quase tudo o que acontece no Brasil por uma dessas duas metades do mesmo fenômeno” (Evaldo Cabral de Mello, historiador pernambucano)

Crente – “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”. (Carl Sagan, astrônomo americano)

Inveja – “A inveja é a homenagem que o medíocre presta ao mérito” (José Ingenieros, escritor argentino)

Desilusão – “É muito melhor cair das nuvens que de um terceiro andar” (Machado de Assis)

Ego – “Tem hora em que estou no avião e, quando alguém começa a falar bem de mim, meu ego vai crescendo, crescendo, crescendo… Tem hora que ocupo, sozinho, três bancos com o mesmo ego” (Luiz Inácio Lula da Silva, maior ilusionista político da História do Basil)

Militância – “Não há nada mais perigoso que um entusiasmo pago” (Lima Barreto)

Fidelidade partidária – “Um traidor é um indivíduo que deixou nosso partido para ingressar em outro. Um convertido é um traidor que deixou seu partido para ingressar no nosso” (Georges Clemenceu, ministro francês)

Liderança – “Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados” (Barão de Itararé). Um retrato fidelíssimo do atual Ministro da Saúde.

Politicamente correto – “Lord Acton disse uma vez que o patriotismo é o último refúgio do canalha. Na universidade, o proselitismo democratizante pode se converter no último refúgio da mediocridade” (Rogério C. Cerqueira Leite, físico brasileiro de nomeada)

Popularidade – “Escrever mal e ser idiota é uma combinação irresistível para ser popularíssimo nos Estados Unidos” (Gore Vital, escritor)

Eis um dicionário de verbetes que alavancarão seu humor, sua compreensão sobre o cotidiano mundial e brasileiro, tornando-o eleitoralmente mais antenado e comprometido com o futuro do país, do seu e dos seus derredores, nunca olvidando o que disse, numa entrevista, o Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, aquele que experimentava charutos na tabacaria da Mônica Lewinsky: “Você pode colocar asas em um porco, mas não poderá fazer dele uma águia”.


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PARA NOVOS ESCRITORES

Para todos aqueles que gostam de escrever, afoitamente indicaria um livro que me proporcionou momentos de muita aprendência. Considerado “o melhor livro sobre escrita de todos os tempos”, Stephen King é autor de inúmeros best-sellers no mundo inteiro, recebendo, em 2003, a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation, sendo nomeado, quatro anos depois, Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos.

Classificado como “um dos 100 melhores livros de não-ficção de todos os tempos” pelo Times, Sobre a Escrita foi editado este ano, no Brasil, pela Objetiva. Suas 255 páginas trazem uma monumental exposição sobre a arte de escrever, também não deixando de lado as memórias e as experiência do autor, um dos maiores contadores de história da atualidade. A partir de uma reflexão de Miguel de Cervantes – “A honestidade é a melhor política” – King também narra suas memórias de infância, os conselhos realistas e práticos transmitidos aos aspirantes a autor, embasados nos estilos clássicos de George Orwell e Ernest Hemingway. Um texto onde King ensina a construir personagens e tramas, a partir das vivências da infância, referenciadas com muita energia e tesão.Sobre-a-Escrita

No capítulo Currículo, o primeiro, Stephen King revela que teve uma infância bizarra e imprevisível, indo parar na casa de uma tia, quando seu pai, depois de acumular todo tipo de dívida, se mandou e nunca mais apareceu. E ele mostra como se forma um escritor, nunca como se faz, posto que “eu não acredito que escritores possam ser feitos, nem pelas circunstâncias nem por autodeterminação”, embora “muitas pessoas têm algum talento para escrever ou contar histórias, e esse talento pode ser fortalecido e afiado.”

Na sua infância, King teve várias babás. E de uma delas, Eula-Beulah, guarda recordações inesquecíveis, posto que ela era “dada a peidos – daqueles barulhentos e fedidos”. E a história de sete ovos fritos comidos por ele, dados pela babá Eula, merece gargalhadas prolongadas.

Em outro momento da sua infância, Stephen conta como cumpriu a ideia de “cagar como um caubói”. Sentindo vontade de “empurrar”, termo então usado pela família para a função corporal, imaginou-se na pele de Hopalong Cassidy e de arma em punho, detrás de um arbusto, fez o que tinha que fazer, limpando-se com folhas, seguindo orientação do irmão que dizia que assim procediam caubóis e índios. O pior aconteceu quando King descobriu, já tarde demais, que aquelas folhas verdes eram de urtiga. Ficou dois dias com uma área vermelha e ardida do joelho até os ombros. De pênis poupado, mas de testículos acesões, mais parecendo dois faróis. Além da mão utilizada, inchada, “do tamanho da mão do Mickey, depois de levar uma martelada do Pato Donald, e havia bolhas gigantescas entre os dedos.” Obrigando o “urtigado” a tomar banho morno com amido durante seis meses, “me sentindo arrasado, humilhado e estúpido, ouvindo, com a porta aberta do banho, minha mãe e meu irmão rirem.”

Nascido em 1947, a família de Stephen King só teve televisão em 1958. E ele confessa: “Parando para pensar, faço parte de um grupo seleto: um dos poucos e derradeiros romancistas americanos que aprenderam a ler e escrever antes de aprenderem a comer uma porção diária de porcarias televisivas.”

Depois de assimiladas as diretrizes formuladas pelo King, aos novos escritores resta uma tarefa complementar: a de conhecer como as ideias se estão propagando nos últimos tempos. E um livro que levanta questões reestruturadoras pode excelentemente auxiliar as vocações dos escritores mais jovens, não os permitindo resvalar para criações sensaboronas, que apenas afastam leitores principiantes. Recomendaria o livro Notícias – Manual do usuário, de Alain de Botton, editado recentemente pela editora Intrínseca. Um volume que revela como a escrita criativa amplia sabedorias, estimula cidadanias, faz emergir anseios libertários, proporcionando utopias para um mundo que está a carecer de novos bandeirantes teóricos em todos os campos do saber. Escritos, eletrônicos, internéticos e extraterrestres.

Em breve, os mais antenados perceberão a “futurologia” do filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938): “Nós mesmos seremos dirigidos a uma transformação interna pela qual ficaremos frente a frente – em experiência direta com – a dimensão há muito sentida mas constantemente ocultada do ‘transcendental’. A base da experiência, revelada em sua infinidade, tornar-se-á então o solo fértil de uma filosofia de trabalho metódico, com a autoevidência, além disso, de que todos os concebíveis problemas filosóficos e científicos do passado estarão destinados a serem apresentados e resolvidos a partir dessa base”.

Assino embaixo o pensar registrado num para-choque de caminhão: “quem escreve foge ao besteirol de uma sociedade que prefere se atordoar a melhor se conhecer”.


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PARA PAIS E MÃES DE ADOLESCENTES

Com muita frequência, deparo-me com mães e pais de jovens adolescentes incrivelmente distanciados das suas responsabilidades para com os “eus” dos seus filhos. De todas as classes sociais, imaginam que a rua e a escola ensinam, não necessitando ministrar quaisquer diretrizes para com seus rebentos, presas fáceis de sabidões e espertos, muitos deles marginais de bom calibre. Na área da sexualidade, então, o problema beira do ridículo ao inacreditável, o individualismos dos pais estacionado muitos furos acima de uma convivialidade mínima instrutiva por derradeiro.

Consultando profissionais especializados, deles recebi algumas orientações bibliográficas. Duas delas me chamaram a atenção. Uma da cada vez, então.

A primeira, História da Sexualidade, de Peter N. Stearns, SP, Contexto, 286 p., possui uma Introdução do próprio autor aos leitores brasileiros. Que se inicia assim: “Este é um livro sobre a sexualidade no passado e sobre como a sexualidade no passado ajuda a explicar a sexualidade no presente”. … “A sexualidade é um elemento importante da condição humana, e sua história pode e deve ser investigada a partir dessa perspectiva, sem a intenção deliberada de excitar ou ofender” … “O ponto principal e a razão-chave para o estudo da história da sexualidade envolvem saber até que medida as sociedades, incluindo a nossa, ainda estão reagindo à mudança histórica, por meio de comportamentos sexuais e valores contemporâneos, além de debates invariavelmente ferozes”. O livro é composto de três parte: A sexualidade antes da época moderna, A sexualidade no mundo moderno (1750-1950) e A sexualidade na era da globalização. O livro analisa também a influência ocidental na América Latina, proporcionando o surgimento de revistas femininas, novelas de televisão, mudanças no vestuário e os serviços de terapia sexual, alterando comportamentos machistas e favorecendo manifestações feministas dos mais variados calibres, o sexo pré-marital, as manifestações homossexuais, a redução da natalidade e a proliferação dos anticonceptivos.

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A segunda publicação complementa bem a primeira. A História da Virgindade, Yvonne Knibiehler, SP, Contexto, 2016, 224 p., analisa alguns posicionamentos contraditórios: numa pós-modernidade, quando se proclama que a virgindade “já era”, por que aumenta a procura de jovens por clínicas médicas para reconstituírem o hímen, incentivada pelo movimento No Sex norte-americano, que revaloriza a virgindade, também na esperança de limitar o número de adolescentes grávidas e frear a propagação da Aids. Até uma famosa personagem do mundo social dos EEUU, conhecida internacionalmente pelos escândalos sociais provocados, declarou que, se novamente contraísse matrimônio, reconstituiria o hímen. Em contraste com um anúncio de jornal, onde uma jovem leiloaria sua virgindade para financiar seus estudos universitários. O livro traz uma Introdução – O que é virgindade? – e cinco outras partes – A virgindade mítica, A glória de Deus e o valor das virgens, O apogeu da virgindade feminina, A dessacralização e O novo contexto, incluindo aqui as tradições no ambiente muçulmano, onde o hímen tem valor como documento de identidade, os irmãos exercendo uma poder fiscalizador muitas vezes violento. O livro narra o que aconteceu com uma jovem imigrante muçulmana em 2002, em Vitry-le-François, vitimadas por queimaduras terríveis infligidas por um idiota sectário local, de nome Djamel, 19 anos, para “dar exemplo”.

As atuais autoridades religiosas, as mais contemporâneas seja ressaltado, lembram frequentemente que o pudor fundado na ignorância não tem nenhum valor moral, como no romance As semivirgens, do romancista Marcel Prévost, que denuncia “as moças ingênuas, confeitadas de devoção arrepiadas de vergonha diante do sexo”.

A cultura rural ainda é recheada de muitas ingenuidades, muito embora as comunicações televisivas tenha reduzido bastante o desconhecimento sobre o assunto sexo. Conta-se que, um idiotinha machista da capital decidiu casar-se com uma jovem do campo por considerar um casamento mais sadio, posto que ela não teria qualquer “vício”. Encontrou uma, casou-se e na noite de núpcias, mostrando seu instrumento à esposa, informou-lhe que “aquilo” se chamava pênis, no que rebatido pela noiva: – Não, amor, isso é um pintinho. Pênis é o de um primo meu, que é deste tamanho!!

Que os senhores pais percebam que o mundo atual se encontra sob a bandeira da dromologia (ciência da velocidade), não mais sendo cabível transmitir aos mais jovens conceitos e expectativas já amplamente superados, favorecendo o predomínio do que transmitido pelas ruas, proporcionando mais preconceitos e informações nada verdadeiras. Caberá a eles algumas tarefas inadiáveis no conviver com seus filhotes. Escolhi seis: 1. Destruir as barreiras das mediocridades educacional e religiosa; 2. Libertar a inteligência; 3. Identificar bem convivialidade e conflitividade; 4. Ter princípios, jamais medos, receios, imitações acríticas; 5. Exercer a criatividade; e 6. Ser consumidor das indispensáveis vitaminas A (Amor) e H (Humor). Para não resvalar para situações “trágicas”, como aconteceu naquela festinha escolar, quando a professora de geografia perguntou à meninada qual era a coisa mais pesada do mundo. Que a Moniquinha respondeu que era “o pinto de papai”, assim justificando: – Outro dia, quase meia noite, eu ouvi maínha dizer para pai: – Essa, nem Jesus levanta…

Reconhecer-se uma metamorfose ambulante, a la Raul Seixas, é função obrigatória de mães e pais que se desejam ver como educadores de filhos.


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O HOMÃO DA GALILEIA

Ontem, 20 de março, Domingo de Ramos, iniciou-se mais uma Semana Santa, onde se reverencia um rabi que transformou o mundo ao encarecer um relacionamento humano fundado na fraternidade de todos, sem discriminação de espécie alguma.

Filho muito amado de pais extremosos, ele era de profissão carpinteiro, idêntica a do seu genitor. Uma atividade que requeria saber escrever bem e fazer cálculos com precisão, requisitos básicos para o exercício de uma especialidade tida e havida, à época, como “de referência”.

Mesmo sem ter deixado nada rascunhado, possuía esmerado trato, consolidado na escola rabínica de Nazaré. Uma educação sinagogal, que lhe proporcionou uma formação apropriada de homem e de judeu, da parte não aristocrática de um povo convicto de ter sido eleito por um Deus tido como único.

Percebia-se escolhido para renovar a Aliança, tendo sido ungido como um não integrante dos meios sacerdotais. Mas que estaria possuidor de um selo de aprovação já anunciado com antecedência de muitas centenas de anos.Domingo-de-Ramos

Atuando num movimento liderado por um primo próximo, de nome João Batista, depois do assassinato deste constituiu grupo próprio, nele tornando-se Mestre, batizando até mais que o próprio parente e sempre apregoando rupturas dos modos de ser e de viver dos que persistiam em continuar sobrevivendo apenas sob procedimentos ultrapassados.

Em suas andanças e falas, favorecia reencontros substantivos com os fundamentos judaicos, que deveriam renascer para o Pai, mesmo que da Lei não se retirasse sequer uma vírgula. Com falas, gestos concretos e proposições, jamais deixou de expressar o mais puro ideal judaico, sempre a reconhecer urgência de uma restauração imediata nos princípios basilares.

Apregoando que o Vento soprava para onde bem desejasse se manifestar, assegurava que somente os que praticassem a Verdade poderiam ver a Luz, confirmando sem restrições o transmitido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.

Sem intenção alguma de julgar quem quer que fosse, encontrava-se ciente sobre a identidade de quem o tinha enviado e de para onde deveria ir, jamais renegando suas tarefas de ser Luz do mundo para os que pelejavam por vida, e vida em abundância.

Convivendo com as mais diferenciadas categorias sociais, somente irava-se ao extremo com os hipócritas, aqueles fingidos que se travestiam do que não poderiam ser. E reiterou, em incontáveis ocasiões, que jamais rejeitaria os que dele se aproximassem, buscando novos comportamentos e saudáveis reestruturações existenciais.

Ungido certa feita, e por uma vez segunda, com nardo puro, perfume importado de grande valia, recomendou que se guardasse uma certa quantidade para o dia do seu sepultamento, quando regressaria para o seio de quem o havia enviado como um mais que notável profeta.

Portando um ideário intrinsecamente evolucionário para a sua época, o Homão da Galileia desabridamente anunciava que nenhum escravo é maior que o seu senhor, como nenhum mensageiro seria maior do que o remetente, nunca desmerecendo sua condição de filho de Deus obediente.

Sem complexos de superioridade, inúmeras vezes repetiu, para os ensurdecidos do seu derredor, que todos aqueles que tivessem fé fariam coisas mais surpreendentes que as dele. E que ainda fariam bem maiores que as por ele praticadas.

Com determinação solidária, apregoava que tocava flauta em praça pública, embora muitos nada percebessem ou não desejassem com ele dançar e que tampouco explicitavam entristecimento diante dos lamentos por ele entoados.

Em múltiplas oportunidades, condoeu-se dos cegos, coxos e prostitutas, exteriorizando entusiasmo pela fé demonstrada por todos eles, seres humanos que não possuíam qualquer empatia com os social e eclesiasticamente bem aquinhoados de então.

Não admitia a serventia simultânea a dois senhores, Deus e Dinheiro, anunciando que o amanhã já comportava suas próprias preocupações. E no seu dia-a-dia de militante garantia recompensa a quem oferecesse ajuda, nem que fosse um simples copo d’água fria, aos rejeitados da sociedade.

Aos que o classificavam de beberrão e comilão, louvava aos céus por somente proporcionar esclarecimentos mais significativos aos menorzinhos e aos que em nada se assemelhavam aos fundamentalistas de plantão.

Enalteceu os verdadeiros, dando como exemplo aquela viúva empobrecida que contribuiu com duas moedinhas numa coleta de dízimos. E para os que jejuavam, recomendava uma boa lavagem de rosto, tornando-o o mais alegre possível, para que ninguém pudesse constatar neles os sacrifícios praticados.

Durante um bom tempo, quase três anos, o Homão da Galileia semeou, como bom médico que buscava curar os não sarados, nada exigindo além de muita fraternidade de uns para com os outros. Como um não exclusivista credal, através de parábolas e relatos que favoreciam uma rápida memorização, transmitia boas novas, anunciando a chegada próxima do Reino no íntimo de cada um. Demonstrando ainda aos incrédulos como saciar a fome de muitos mediante uma organização social compatível com a dignidade de todas as coisas, quando todos poderiam comer pão.

Em momento algum, o Homão da Galileia exigiu carteirinha denominacional de qualquer dos seus admiradores, até prometendo estar sempre presente nos pequenos grupos que o reverenciassem. Sem brabezas, soube diluir no vazio o pleito de uma mãe obsessiva que cabalava lugares privilegiados para dois dos seus filhos, na mesa diretora do escritório do além-daqui.

Ajuntador especial de mentes e corações, bom semeador de palavras, o Galileu alertava que o egoísmo corrói toda grandeza d’alma, dilapidando as candeias individuais que deveriam, solidárias, iluminar as veredas e os descampados das estruturas cósmicas. E de vez em quando repetia Isaías, um dos seus profetas preferidos, aquele mesmo que denunciava sem contemporizações os que oravam da boca para fora, muito distanciados do coração, considerando os ensinamentos religiosos apenas rituais ditados por alguns de outras eras.

Percebendo-se na reta final de sua estadia terrestre, anunciou que iria adiante de todos para a Galileia, depois da sua imolação, sofrida no madeiro, condenado que foi como subversivo político e blasfemo religioso.

Antecipou-se aos poetas de agora há quase dois mil anos, ao asseverar que viver não era preciso, ainda que navegar fosse, sempre sob as coordenadas do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

O Homão da Galileia nunca mais voltou. Mas continua mais vivo que nunca, muitos furos acima das instituições que o têm como porta-estandarte, ainda que algumas delas, metidas a única do pedaço, persistam em escondê-lo como propriedade debaixo dos documentos dos seus purpurados, olvidando o ensinamento do próprio: o de que não havia mais judeu, nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, posto que todos são um sob as bênçãos de um Criador que não tem nem cabelo, nem barba, nem bigode, tampouco traje e rosto, mas que é eternamente glorificado sob o inefável codinome Eu Sou O Que Sou.

FELIZ PÁSCOA 2016, LEITORES DESTE JORNAL SEMPRE ARRETADO DE ÓTIMO!!


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SEMEADOR DE ESTRELAS

Um dia, na PUC do Rio de Janeiro, assisti uma palestra do médium Chico Xavier, testemunhando algumas páginas por ele psicografadas. E posteriormente por ele próprio lidas para um auditório lotado, majoritariamente não kardecista. E que o aplaudiu intensamente, reconhecendo nele uma personalidade do bem.df

Falando de Chico Xavier com amigos, um deles me presenteou um livro de outro espírita brasileiro: Divaldo Franco, baiano de Feira de Santana, respeitado orador, admirado no Brasil e no exterior, divulgador da Doutrina Espírita há mais de 65 anos, já tendo realizado palestras em mais de duas mil cidades brasileiras, também conferencista em 65 países. E que, em 2005, recebeu, em Genebra, Suíça, o título de Embaixador da Paz no Mundo.

Divaldo Franco já publicou mais de 250 livros, através de 211 autores espirituais, com mais de dez milhões de exemplares vendidos, em versões para 16 idiomas. Com toda renda sendo revertida para a Mansão do Caminho, um complexo educacional e de assistência social de 80.000 metros quadrados, sediado na capital baiana que atende diariamente 3.200 crianças e jovens de famílias de baixa renda. Situado na rua Jayme Vieira Lima 104, Pau da Lima, 41.235 Salvador, Bahia. Todos os que o conhecem dão testemunho público do seu exemplo de perseverança, fé e amor contagiante, sempre propagando a Doutrina Espírita em nome do Senhor Jesus.

O livro recebido intitula-se Divaldo Franco Responde, 2v., São Paulo, Intelítera Editora, 2013. Organizado pela jornalista Cláudia Saegusa, traz uma série de perguntas feitas ao médium, sem o conhecimento prévio dele, todas respondidas de forma clara, lógica e intensamente didática.

Algumas questões, eu as apresento abaixo, enviando a todos o desejo de ler integralmente os dois livros, favorecendo a ampliação da admiração para com uma personalidade voltada para o amor e a paz.

P – Existem sonhos premonitórios?

R – Sem dúvida alguma. Basta que nos recordemos do sonho que teve Zacarias com sua mulher, Isabel, que era infértil, quando o anjo veio lhe dizer que ela seria mãe.

P – Qual a explicação que o Espiritismo oferece para a Síndrome do Pânico?

R – O nome vem do deus Pan, que na tradição grega apresenta-se metade do corpo com forma humana e a outra com modelagem caprina. E causava pânico nos que visitavam as montanhas de Arcádia. Foi o psicólogo norte-americano Jacob Mendes da Costa quem definiu as características da patologia.

P – O tratamento de um transtorno pode ser tratado pelo Centro Espírita, sem o tratamento médico ou psicológico?

R – Jamais! A função do Espiritismo não é curar corpos, mas erradicar os males que se encontram na alma e se manifestam através dos problemas orgânicos.

P – Algumas pessoas têm dito que você é o sucessor do Chico Xavier? Isto é verdade?

R – É uma referência um tanto chocante, porque, no Espiritismo, não temos herdeiros. Chico Xavier é hors concours. Ele iniciou um ministério sublime e desincumbiu-se com a maior nobreza. Chico Xavier foi um apóstolo da mediunidade, enquanto nós somos ainda trabalhadores da seara de Jesus em tentativias de acertos e muitos erros.

P – Para evolução do Espírito, é melhor ser rico ou ser pobre?

R – Pouco importa em que situação o indivíduo se encontra. O essencial é que seja justo e digno na pobreza que mantém honorabilidade, na abundância que mantém a generosidade.

P – Por que as pessoas chegam a ficar irritadas com a felicidade e a alegria dos outros?

R – Porque temos a tendência a invejar. Experiências feitas na Universidade da Califórnia, Los Angeles, demonstraram que quem sorri produz uma substância na saliva que faz parte da digestão. Um indivíduo carrancudo guarda muito mais sentimentos negativos, mágoas, ressentimentos, iras, o que proporciona a geração de substâncias prejudiciais à saúde.

P – O que realmente os benzedores fazem para acalmar crianças?

R – São normalmente pessoas portadoras de energia curativa. Aqueles tradicionais rezadores, benzedeiros, são pessoas portadoras de faculdade mediúnica curativa, que logram resultados dispensando qualquer substância ou objeto.

P – Somente os espíritas são médiuns?

R – Não, de forma alguma. A mediunidade é inerente à criatura humana. Em todas as épocas existiram médiuns. A mediunidade não é uma conquista do Espiritismo e que lhe pertença.

P – Em todos esses anos como médium, qual a sua maior dificuldade?

R – É a luta pela transformação moral para melhor, a luta interior para poder conseguir a plenitude espiritual. A mediunidade é uma faculdade abençoada por Deus. O apóstolo Paulo a chamava carisma ou dom.

Uma reflexão final de um talento baiano brasileiríssimo: “Somente através do amor curamos o ciúme. As pessoas costumam dizer: ‘Em todo amor sempre há um pouco de ciúme!’ É lindo, mas não é verdadeiro. Ciúme é um fenômeno psicológico de insegurança. Quando falta autoestima, a pessoa não acredita que alguém seja capaz de amá-la. Quando alguém a ama, ela duvida. E fica sempre com medo de perder, porque acha que não merece. A insegurança emocional gera ciúme. Se estiver com uma pessoa mais bonita do que ela, se der mais atenção a outrem, logo pensa que a vai perder, porque não está em condições de ser amada por quem está ao seu lado. É um conflito de insegurança psicológica.

Dois volumes essencialmente sementeiros. Lições de um pessoa abençoada por Deus, batalhador gigante por um mundo a necessitar de uma ampla regeneração, sempre crescente.


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ANÁLISE ESCLARECEDORA

Com não raridade, emociono-me com fatos históricos analisados por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo. Sua coleção Histórias da Intolerância trata de um só tema, “que vai desde os estudos e pesquisas sobre a história colonial do Brasil, especificamente inquisição e marranismo, até a história contemporânea, que registra o preconceito contra os imigrantes japoneses e chineses radicados no Brasil, o antissemitismo como política do Estado, a proliferação dos mitos políticos e o nazismo como paradigma.” Suas publicações são dissertações e teses defendidas nos Programas de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, recebendo as orientações devidas, entre outras, das notáveis pesquisadoras Anita Waingort Novinsky, Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro. Estudos e análises só possíveis após a abertura dos arquivos inquisitoriais, policiais e diplomáticos, que se encontravam ocultados por omissão, covardia ou conveniência, abjetas práticas repressivas e totalitárias. Um modo de conhecer melhor o Brasil, conforme Paulo Prado, dinamizada a partir dos anos 60, quando a direção dos Institutos dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Portugal, iniciou a catalogação sistemática dos seus acervos, abrindo-os aos pesquisadores especializados, “revelando a existência de sociedades secretas onde circulava uma contracultura que questionava os valores e verdades eternas do catolicismo.

Na apresentação da coleção acima citada encontra-se uma explicação basilar: “o elemento central atingido pelo regime totalitário português foi o judeu, que, mascarado de cristão-novo durante quase três séculos, tornou-se alvo de um programa destrutivo e de um ódio sem precedentes na história. Os judeus foram o único povo para o qual foi criado um tribunal específico, com a finalidade de vigiar e punir qualquer prática e memória do judaísmo. Esse ódio estendeu-se ao Brasil e foi movido e instigado pelos representantes do governo português e da Inquisição; mas não teve a colaboração de uma significativa parcela da população … Os trabalhos publicados na coleção Histórias da Intolerância demonstram que o antijudaísmo em Portugal moderno antecedeu em modernidade o nacional-socialismo alemão por apresentar as características mais globais do antissemitismo: foi econômico, racial, político e religioso … Concentrados em uma temática única, esses estudos demonstram que o racismo e o fanatismo têm muito em comum: não escolhem raça, religião nem a nacionalidade. Cristalizam-se em momentos de crise, de uma sociedade em transformação que exige reformulação radical de valores”.

Um dos trabalhos mais tocantes por mim lido foi o do professor Luiz Nazario, Mestre e PhD em História Social pela FFLCH da USP, também com estudos efetuados na Alemanha e em Israel. Seu livro Autos-de-fé como espetáculos de massa, SP, Fapesp, 2005, 210 p., foi prefaciado pela professora Novinsky, sua orientadora. Sua dissertação de mestrado, “apresenta um quadro sobre o funcionamento da Inquisição e os vários ‘tipos’ de autos-de-fé , misto de terror e indignação, que levou o próprio inquisidor a chamá-lo ‘horrendo e tremendo espetáculo’”.

A orelha do livro explicita sem contemporizações espúrias: “O autor observa que, com métodos infalíveis de investigação da alma (espionagem, delação, censura, acusações secretas, prisões preventivas, interrogatórios capciosos e sessões de tortura), a Inquisição afirmou-se como uma instância privilegiada de inspiração divina para apanhar suspeitos, arrancar confissões, julgar e condenar ‘judaizantes’”.

Segundo Nazario, houve quatro Inquisições, embora tenha sido o antijudaísmo europeu, em diversos momentos históricos, o principal motor para o estabelecimento de todas elas, aqui também se incluindo nas perseguições outras ‘minorias” (dissidentes religiosos e políticos, desajustados sociais, homossexuais, estrangeiros, mouros, índios e, sobretudo, judeus).

Com a oficialização da religião cristã por Constantino, em 324, apareceram as primeiras legislações contra aqueles que não aceitavam a doutrina em sua totalidade. Em 394, o imperador Teodósio ordenou a morte dos não-cristãos, com o confiscos dos seus bens. A perseguição foi crescendo e no Concílio de Latrão, 1215, o papa Inocêncio III decretou que “os judeus não poderiam mais ocupar cargos públicos, coabitar com os cristãos ou mostrar-se nas ruas em dias santos, restringindo-se às ruas e bairros judaicos”.

O antijudaísmo disseminou-se através dos meios de comunicação de massa monopolizados pela Igreja. Só as pregações de Santo Antônio de Lisboa, conhecido no século XIII como “Martelo das Heresias”, aconteciam em ambientes apinhados de mais de 30 mil pessoas. Até São Tomás de Aquino, que não incluiu os judeus entre os hereges, recomendava que eles fossem mantidos em estado de servidão perpétua e que os príncipes confiscassem seus bens, deixando-os apenas com o necessário.

O primeiro auto-de-fé português aconteceu em 26 de setembro de 1540, em Lisboa, muito embora o mais terrível tenha se efetivado em 10 de maio de 1682, naquela cidade, quando saíram da penitenciária 102 réus de uma só vez, entre os quais o boticário e poeta judeu Antônio Serrão de Castro, preso há dez anos com seus dois filhos, estudantes de medicina em Coimbra, um morto sob tortura e outro garroteado e queimado na frente do pai, que ficou cego no cárcere, tendo que usar o sambenito (hábito em forma de saco, em baeta amarela e vermelha, que se enfiava pela cabeça, usado pelos penitentes pelo resto da vida).

Para quem não está por dentro da história, sabiam os leitores deste Jornal da Besta Fubana arretado de ótimo que as inquisições de Portugal e Espanha foram as únicas que prestavam contas tanto à Coroa quanto à Igreja?

O trabalho do Luiz Nazario ressalta exemplarmente a não-criatividade do assassino Adolf Hitler, reles copiador de métodos inquisitoriais pretéritos, que liderou o III Reich e seus facínoras, cujas ideias, vez por outra, ainda persistem nas mentes de alguns idiopatas contemporâneos, inclusive brasileiros.


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PARA DEBATES DE NÍVEL

O acanalhamento da política brasileira será uma das principais causas do declinante futuro brasileiro nas próximas décadas, tese contrária ao do ex-presidente Bill Clinton, um especialista em charutos enfiantes, recentemente dando pitacos por nossas bandas.

Um oitentão recente, Wanderley Guilherme dos Santos, renomado cientista político brasileiro, notabilizado pelo texto “Quem vai dar golpe no Brasil”, publicado em 1962 pela Editora Civilização Brasileira, volume 5 da Coleção Cadernos do Povo Brasileiro, prenunciando o Golpe Militar e a queda do presidente João Goulart em 1964, lançou recentemente uma coletânea de 34 consistentes análises/entrevistas, de 2002 a 2015, intituladas À margem do abismo: conflitos na política brasileira, RJ, Revan, 2015, 200 p., o primeiro texto, escrito em 2002 para a Revista Inteligência, intitulado “A Ora do Anaufabeto”, onde destaca que “países do primeiro mundo são aqueles que possuem capacidade e poder de redefinir permanentemente o próprio conceito de modernidade, regulando em consequência os instáveis termos da competição internaciona”, ressaltando a importância de se diferenciar países “apenas modernos” de países “primeiromundistas”. E já denunciava: “a obsolescência implícita no mundo contemporâneo não é apenas de máquinas, mas, sensivelmente, de operadores”.wg

No último capítulo do livro, “o mais original teórico da paralisia decisória que levou ao golpe de 1964” reproduz uma entrevista concedida ao Jornal Valor Econômico, em final de março 2015. Nela, ele não duvida de que estamos vivendo uma gravíssima crise política causada pela corrosão do que ele denomina de “poder causal” das instituições. Sobre os posicionamentos da esquerda brasileira, ele não titubeia: “Divirjo profundamente da opinião majoritária da esquerda. Está equivocada no diagnóstico, na interpretação do passado recente e nas suas propostas. A começar pelo fato anedótico de reclamar da direita por estar ela se comportando como direita sem procurar entender o que a levou a uma mobilização como em décadas não havia. Supondo que tenham sido apenas manifestação de direita – e não o foram – o que me importa é que a direita está liderando no centro”.

Sobre o outrora líder sindical Lula da Silva, o muito lúcido sociólogo oitentão Wanderley Guilherme dos Santos não se faz de rogado: declara que ele não é mais uma liderança como era, entrando no desgaste geral, suas convocatórias não sendo mais atendidas como antes, ele permitindo que o centro passasse a ser liderado pela direita, posto que a esquerda se encontra acéfala de lideres, nem mesmo a presidenta Dilma sendo possuidora de liderança mínima.

E termina a entrevista com um diagnóstico deveras preocupante: “Nosso problema é complicado porque a liderança da oposição é fraca. Os conservadores atuais são medíocres e agressivos no vocabulário. A esquerda também é, mas para quem precisa competir e mostrar a diferença , tem que ter mais”. E sobre Marina Silva, como terceira via, a paulada é antológica: “Marina Silva é o que há de mais atrasado dentro do espectro político brasileiro. Ela é atrasada economicamente, na concepção de sustentabilidade que tem, na modernização da política da produção, em termos de costumes sociais, em relação a tudo. É uma missionária retrógrada.

No livro, alguns textos possuem títulos provocativos. Alguns deles: “Entre um PT indeciso e um PSDB arcaico”, “Grotões e coronéis vivem de estatística”, “A balada sem fim da corrupção primordial”, “Oposição quer colher o que não plantou”, “O programa de índio dos fiscais de democracia” e “Esplendor e queda da classe média nacional”, para ficar apenas numa amostra pequena. O conjunto resulta numa “cartilha reveladora dos conflitos na política brasileira”, onde cada texto é uma aula de um talento nacional, sem “sociologuês”, “economês”, “politiquês”, “embromation system” e outras cavilosidades que “extravacam o progresso”, como dizia humorista genial, proprietário de uma escolinha de grande audiência.

Segundo Maurício Dias, colunista da revista Carta Capital e autor das “orelhas” do livro, “que ninguém se engane. O autor tem um lado. Não cede, porém, à escravidão das circunstâncias. Por isso, nem sempre é possível emergir sem inquietações do mergulho das interpretações. Elas entram na contramão de consensos estabelecidos, principalmente aqueles formulados pela maioria que dispõe de trânsito livre na mídia. Permanece na mão inversa e enfrentas as trombadas.”

Para os jovens que estão ingressando na vida universitária e que buscam participar de uma “militância enxergante cidadã”, À Margem do Abismo, com suas 200 páginas, navegando de 2002 a 2015, serve excelentemente como um roteiro para debates propositivos criativos para todos aqueles que “desejam fazer a hora, sem esperar mais acontecer”.

E para os mais velhos, que muitas vezes perambulam sem conhecer a cor histórica da chita, um “curta-metragem analítico” de um período da vida política brasileira, 2002-2015, que proporciona uma observância consistente, muito além das debiloides “espiadinhas televisivas”, próprias das mentes asininas, que ainda mais avacalham o nível da já descriativa programação midiática nacional.

PS. Excelente as Páginas Amarelas da revista VEJA edição 2466, de 24 de fevereiro. Uma esclarecedora entrevista com a pesquisadora Paula Louzano sobre a proposta da BNC – Base Nacional Comum Curricular do MEC, um projeto que amplia a criticidade sistêmica da Gente Brasileira.


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FATOS VERGONHOSOS

Quando o governo luso tornou público os arquivos do Santo Ofício da Inquisição, até recentemente, décadas de 1960 e 1970, mantidos no mais absoluto segredo por quase quinhentos anos, quatro pesquisadoras brasileiras da Universidade de São Paulo resolveram esmiuçar o acervo misterioso, descobrindo barbaridades praticadas no Brasil contra os judeus tornados cristãos-novos. Através de documentos, as quatro pesquisadoras comprovaram que o nosso país também foi patrocinador de atrocidades sórdidas, tais e quais as acontecidas na Europa. Inclusive com mortes em fogueiras, como aconteceu, em Lisboa, com a paraibana Guiomar Nunes.jd

No livro Os judeus que construíram o Brasil: fontes inéditas para uma nova visão de Brasil, SP, Planeta do Brasil, 2015, 288 p., as pesquisadoras Anita Novinsky, Daniela Levy, Eneida Ribeiro e Lina Gorenstein resolveram dedicar aos jovens o realmente acontecido no final do século XVI, ressaltando que o povo brasileiro de então não nutria ódio algum aos judeus e seus descendentes, fato comprovado nos processos da Inquisição, onde quase não aparecem brasileiros delatores. Também narra casos da população baiana que se rebelou ao negar denunciar amigos, vizinhos e colegas, fazendo com que o governador áulico da época usasse a força militar para coagir o povo. E ainda relata as bravuras de brasileiros da própria Igreja Católica, a exemplo do padre Antônio Vieira, que testemunharam corajosamente contra a condenação injusta de cristãos-novos, “cuja prisão dependia mais de suas fortunas e de sua origem judaica do que de suas heresias.

Antes de ler o livro acima citado e para quem deseja melhor se enfronhar na história vergonhosa da Inquisição, a medieval (século XIII), a ibérica (séculos XVI,XVII e XVIII), esta última com amplas raízes fincadas em terras brasileiras, o livro A Inquisição, da pesquisadora Anita Novinsky, editado pela Brasiliense, Coleção Tudo é História nº 49, com a colaboração das duas pesquisadoras do primeiro livro citado, fornece um retrato bastante nítido, critico por excelência, do que foi praticado inicialmente por incentivos pouco dignos da Igreja Católica Romana, em 1198, do papa Inocêncio III, apoiado em deliberações acontecidas no Concílio de Verona, de 1184. Posteriormente, em 1215, o IV Concílio de Latrão determinou que os judeus usassem um distintivo específico, com a finalidade de se tornarem diferenciados dos cristãos de então, numa antecipação do que seria estabelecido pelo assassino Adolf Hitler, ao obrigar, no III Reich, que todos os judeus usassem a estrela de David em suas vestimentas, “para ostentar a vergonha de sua origem”.

Para se ter uma ideia das crueldades induzidas pela Igreja Católica de então, basta que se registre que, antes da Inquisição, em Espanha e Portugal, cristãos, muçulmanos e judeus conviveram pacificamente, em mútuo repeito, moldando os dois países com um caráter único e distinto dos demais durante os tempos medievais. A própria autora explicita: “As relações interétnicas atingiam as esferas familiares. Os judeus frequentavam as festas religiosas dos seus amigos cristãos, e estes eram convidados para as cerimônias judias. … A Espanha apresentava aspectos extremamente originais. Quando os cristãos saíam em procissões com a imagem do Santíssimo para festejar a visita de um rei ou algum acontecimento relevante, os judeus caminhavam acompanhando a procissão, carregando nos braços os rolos de Torá (lei de Moisés). Como disse o hispanista Américo Castro – da simbiose dos cristãos, árabes e judeus nasceu o espanhol de hoje. E o português de hoje.

O processo de degradação dos judeus na península ibérica levou séculos, ampliado pela inveja da burguesia cristã diante das posições de destaque alcançadas pelos judeus na península ibérica, tanto na área política quanto na área econômica, havendo inúmeros destaques de intelectuais, médicos, filósofos, professores e astrônomos. Por isso, “as três comunidades, cristã, judaica e muçulmana, faziam parte integrante da nação espanhola e cada uma sentia a terra como sua”.

A partir o século XIV, gradativamente foram ampliados os pedidos de restrição das atividades dos judeus, frequentemente acusados de ocuparem as posições mais significativas na sociedade. Em 1391, em Castela, Navarra e Aragão aconteceu um massacre em massa de judeus, vitimando 4.000 deles nas ruas de Sevilha. Um clero fanático e supersticioso insuflou uma gigantesca onda antijudaica, ocasionando a destruição de florescentes comunidades hebraicas. Tal e qual o acontecido quando da implantação do nazismo na Alemanha.

A pesquisadora Novinsky concluiu assim o seu livro A Inquisição: “Por meio de seu sistema de ameaças, de suas técnicas de perseguição e da tortura, a Inquisição garantiu a continuidade da estrutura social do antigo regime e a religião preencheu sua função político-ideológica.

E se alguém perguntar sobre os tentáculos da Inquisição da Igreja Católica nos tempos contemporâneos, agora travestida de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, favor pesquisar o acontecido com o famoso teólogo alemão Hans Küng, um dos mais lúcidos analistas da atualidade, autor do muito ótimo Ser Cristão, RJ, Imago, 1976, um texto escrito inclusive “para os que não creem, e no entanto indagam seriamente”, também para os que já tiveram fé, os inseguros na fé, os que oscilam indecisos e os céticos diante das suas convicções religiosas.


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PARA UM UNIVERSITÁRIO

Através de e-mail, um ex-aluno, hoje pai de família de quatro rebentos, solicita envio de pontos de reflexão para um filho acadêmico de Administração 2016. Com os votos de sucesso para o jovem, exponho alguns parágrafos preparados para papos com jovens profissionais recém contratados no mercado de trabalho:

1. Com sabedoria se diz que “a vida é curta demais para se pensar pequeno” e que “se você deseja saber se realmente consegue nadar, não perca tempo em águas rasas”, posto que “qualquer pessoa que escolhe um alvo plenamente alcançável na vida já definiu os seus próprios limites”. Uma atriz famosa já dizia: “Nunca diga nunca. Nunca é algo muito distante e incerto, e vida é rica demais em possibilidades para que seja restringida dessa forma”. Perceba-se sempre sobrepairando sobre o dia-a-dia trivial, semeando além do que já está plantado.

2. Lembre-se sempre que o ser humano foi feito para agir. Já dizia o notável Shakespeare que “nada pode resultar de nada”. A palavra trabalho não é um conceito bíblico obscuro. Ela e suas derivações aparecem mais de duzentas vezes nas Escrituras Sagradas. Há um ditado antigo que diz que “a preguiça viaja tão devagar que a pobreza logo a ultrapassa”. No mundo encontramos os que fazem as coisas e os que falam sobre fazer coisas. Molière dizia, numa das suas obras, que “todo homem é igual quanto às suas promessas. Eles se distinguem apenas pelos seus feitos”. Perceba sempre que a maioria dos nossos problemas surge quando optamos pelo nada-fazer em lugar do trabalho.

3. Nasceu cega, surda e muda, mas soube dar a volta por cima, tornando-se uma das grandes personalidades norte-americanas. Foi Helen Keller que disse, certa ocasião, numa conferência internacional: “A ciência pode ter encontrado a cura para a maioria dos males, no entanto ainda não encontrou o remédio para o pior de todos – a apatia dos seres humanos”.

4. Aviso encontrado numa Universidade Norueguesa: “Não conseguimos encontrar respostas para todos os nossos problemas. As que encontramos apenas nos levaram a formular novas questões. Sentimo-nos, hoje, tão confusos como antes. Acreditamos, entretanto, que estamos confusos num nível mais alto e sobre coisas mais importantes”.

5. Muito bem já dizia a poeta Cora Coralina, que nem tinha nível superior: “A verdade não envelhece, o caminho não tem fim, a vida sempre se renova“.

6. Todo cuidado é pouco com os seres humanos medíocres. Na definição de José Ingenieros, um médico psiquiatra argentino já eternizado, autor de O Homem Medíocre, no Brasil editado pela Juruá, “o homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é por essência imitativo e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, refletindo as rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade. Assim como os seres inferiores herdam a “alma da espécie”, o medíocre adquire a “alma da sociedade”. Sua característica é a de imitar a quantos o rodeiam, pensar com a cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios”.

7. Reflexões de um rabino famoso, explicitadas no seu livro QUANDO TUDO NÃO É O BASTANTE, Nobel, várias edições:

a. Por que gente, com tantas razões para ser feliz sente, de maneira tão intensa, que lhe falta alguma coisa?

b. O dinheiro e o poder não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma.

c. O que nos frustra e rouba a alegria de nossas vidas é a ausência de significado delas.

d. A Psicologia pode nos ensinar a ser normais, mas precisamos procurar em outra fonte a ajuda de que necessitamos para sermos humanos.

e. Visualizar a vitória como objetivo da vida nos força a ver os outros como competidores ou como ameaças à nossa felicidade.

f. Se você ama uma pessoa porque ela está sempre tentando lhe agradar, e só faz o que você quer que ela faça, isto não é amor.

g. As pessoas que se sentem impotentes e frustradas são mais perigosas para a sociedade do que as que conhecem os efeitos de sua influência e sabem usá-la com sabedoria.

h. Nenhuma gota d’água sozinha é mais forte que a rocha, mas muitas delas juntas conseguem a vitória final.

i. Há ocasiões na vida em que temos que nos diminuir para nos tornamos maiores.

j. Se fôssemos perfeitos, nada poderíamos aprender, porque isto implicaria uma falha interior.

8. Era uma vez um velho que costumava meditar bem cedo, todas as manhãs, debaixo de uma grande árvore na margem do rio Ganges, na Índia. Uma manhã ele viu um escorpião boiando indefeso na correnteza do rio. De repente, o escorpião foi levado pela correnteza para perto da árvore e ficou preso entre as raízes que se estendiam para dentro do rio. Lutava desesperadamente para se libertar, mais cada vez mais se enrolava. Quando o velho viu isso, imediatamente estirou-se ao longo das raízes e procurou salvar o escorpião que se afogava. O animal virou-se e o mordeu. Instintivamente, o homem retirou a sua mão. Mas tendo retomado o equilíbrio, mas uma vez esticou-se para salvar o agonizante escorpião, e cada vez que o velho chegava perto, o escorpião o mordia tão furiosamente que as mãos do velho ficaram inchadas e ensanguentadas, e sua face se contorcia de dor. Naquele momento, alguém que passava, vendo o velho estirado sobre as raízes, lutando com o escorpião gritou: – Velho idiota, estás louco? Somente um louco arriscaria a sua vida para salvar esse animal mal-agradecido! Vagarosamente o velho virou sua cabeça e olhando calmamente bem nos olhos do estranho, disse: – Amigo, porque é da natureza do escorpião morder, devo eu abandonar a minha própria que é a de salvar?

No mais, jovem muito amado pelos seus pais, seguir adiante sem olhar para trás nostalgicamente, posto que uma velha lição aprendi com o coronel-médico Tércio Bacelar, pai da notável economista pernambucana Tânia Bacelar, talento brasileiro na sua especialidade: “Quem gosta de passado é museu!” Sucesso nos seus caminhos acadêmicos, amigo!!. Disponha sempre!!!


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