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RAPIDÍSSIMAS

FORASTEIRO

Serei sempre, porque sempre fui assim, um índio sem tribo. Se eu me orgulho disso? Não. Mas também não lamento.

* * *

AS BOAS HISTÓRIAS…

Não prescindem dos deslizes.

* * *

LÁGRIMAS

Se um dia eu perder a coragem de me emocionar, só me restará pisar nas próprias bolas.

* * *

ESCOLHAS

Quase sempre burrice não é sina: é opção.

* * *

O PREÇO

Quem ama faz de tudo para não torrar a paciência do outro.

* * *

SOLIDÃO

Nem ligo para isso. Desde que Sabiá esteja por perto.

* * *

MAKTUB

De um em um, um dia iremos todos.

* * *

ÚLTIMO DESEJO

– Querida, antes de meu suspiro final, me traga uma saideira.

* * *

LIBERDADE

Ser honesto nem sempre dá grana. Mas, como é bom não precisar comer na mão de canalhas.

* * *

PÊNALTI

Visitar quem quer que seja num final de domingo sem avisar.

* * *

SURREALISMO

Era capaz de varar noites contando causos nos quais ninguém acredita – às vezes, nem ele. Mas era tudo verdade. Que lástima.

* * *

MORAL DA HISTÓRIA?

Vá se catar.


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RAPIDÍSSIMAS

CONFISSÃO

Ontem, perdi umas duas horas assuntando comigo mesmo. Querem saber?

Não cheguei à conclusão alguma.

* * *

TUM-TUM-TUM

Se não for bobo, coração não é.

* * *

NÃO MINTO

Às vezes, me engano feio.

* * *

AUTOESTIMA

– Fala, Totó.

– Raça indefinida é a puta que o pariu. Sou vira.

* * *

RISCOS

Só brocha quem tenta.

* * *

TÉDIO

Quando a turma do politicamente correto põe o bloco na rua, tomo um trago e me escondo. Ninguém merece.

* * *

TÉDIO (II)

Para lhe respeitar, não preciso ser igual a você.

* * *

TÉDIO (III)

Não sei quem me aborrece mais: os novos ricos ou os velhos pobres.

* * *

TRISTEZA?

Xô, danada. Vou dançar um baile com Sabiá.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA

– Chega de mentiras, Alceu. Basta! Entendeu? Não suporto mais essa vida que levamos. Afinal, por que você se casou comigo?

– Por interesse, Matilde, é que não foi. Muito pelo contrário.

– Como assim? Não estou entendendo.

– Quer saber?

– Quero.

– Melhor deixar pra lá, Matilde.

– Não vou deixar pra lá coisa nenhuma. Quero saber, diga de uma vez.

– Matilde: você sempre foi a mais feia das meninas, a mais pobre, a mais obtusa…

Matilde esboçou um sorriso de satisfação e apostou todas suas fichas num palpite furado:

– Então, você se casou comigo por amor, não foi?

Alceu respirou fundo, resolveu mentir (amara Matilde, sim) e colocar um ponto final na história arrastada, pois de uns tempos pra cá só tinha cabeça, coração e membro para Verinha, a cunhada mais nova, dona de bunda e peitos fartos:

– Não, Matilde. Casei por pena, pena de você.

– Cretino. Só agora, depois de vinte anos e três filhos, você me diz barbaridade dessas?

– Você nunca me perguntou antes, Matilde. Não tenho culpa.


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O PAPO FURADO DO CRUZADISTA E O LIVRO DO VELHO MARINHEIRO

Romualdo Bastos – o incansável fazedor de palavras cruzadas – estava impossível naquele começo de tarde. O bar do Carneiro, apinhado de gente, garantia audiência para sua falação. Não porque sua prosa interessasse aos presentes, mas porque aos presentes interessava tomar umas e outras, além de beliscar nacos de mortadela, de graça. Gente muito simples, sempre pronta, a clientela do Carneiro. Nessas ocasiões, o “intelectual” de Vila Invernada, como gosta de ser chamado, prefere não correr riscos. Abre a carteira, paga aos ouvintes umas rodadas disso e daquilo, garante alguns aplausos e, depois, sai para os abraços.

Pela enésima vez, Romualdo Bastos descreveu em detalhes seu método de trabalho. Com ar sempre grave, enfatizava:

– A curiosidade é a mola propulsora do saber. Um simples livrinho de palavras cruzadas é capaz de transformar a vida de uma pessoa. Desde, é claro, que ela se disponha a pesquisar, tenha disciplina e método.

Mas o pior estava por vir. Romualdo Bastos não poupou saliva para explicar à plateia, já meio tocada pela uca, o que, a seu ver, é a “função social” do escritor:

– Não basta escrever bem. É preciso enfeitar o texto com citações, muitas citações. Mais que isso: é necessário transmitir mensagens edificantes. O bom autor não abdica do seu dever maior: orientar a sociedade. Escritores devem iluminar os caminhos do povo. Uma boa história não pode terminar sem a célebre “moral da história”. Nunca.

Aplausos etílicos.

O Velho Marinheiro nem olhava para o orador. De costas estava para o falante, de costas permaneceu. De vez em quando, no entanto, anotava alguma coisa nas beiradas das páginas do jornal. O que aguçou a curiosidade de Ananias e do próprio Romualdo Bastos.

Findo o expediente, o tribuno de boteco acertou as contas com o dono do bar, abraçou os que ainda conseguiam ficar de pé e se foi, com o ego inflado.

Ananias quis saber do Velho Marinheiro o motivo de tantas anotações.

– Vou escrever um livro. Já tem até título provisório: “As Besteiras de Romualdo Bastos”. Iluminar os caminhos do povo, moral da história. Nunca ouvi tanto desconchavo em tão pouco tempo. Francamente, Ananias. Esse Romualdo é uma anta.


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NA PRÓXIMA SEGUNDA, OK?

Mais do mesmo – de novo, como sempre. Otávio percorrera a pé o quarteirão, fazendo as paradas obrigatórias: bar do Pedro, bar do Zé, bar do Paulo etc. Mas naquela segunda, mais que nas outras, não quis prosa alguma. Não estava disposto a ouvir. Falar? Nem pensar. Cogitou comprar algo para comer. Contentou-se com três maços de cigarros e dois litros de aguardente. Mestre da gororoba, ele faria um bem bolado com as sobras do domingo.

Pensou em Inês, a velha mulata de pernas ainda bem torneadas. Assanhada, ela sempre lhe dizia:

– Seu Otávio: o senhor precisa se cuidar: fazer a barba, cortar os cabelos. Que desleixo é esse? O senhor, aprumadinho, não é homem de se jogar fora.

Em casa, Otávio resolveu fazer o que há muito não fazia: olhar-se no espelho. Quase enfartou. Era uma réplica piorada do capeta. Um caco ensebado. Tinha que pôr um fim naquilo. Lembrou-se de seu Humberto, velho conhecido, dono de bar e de alguma sabedoria:

– Parei de beber, Otávio, porque percebi que estava deixando tudo para depois. E o depois nunca chegava.

Um sábio, esse seu Humberto. Otávio se prometeu mudar de vida. A partir de próxima segunda, claro.


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O PAI FOI O PAI

Homem incapaz de degenerar, o pai. Cagava uma regra ou outra, mas sempre em busca da alegria alheia. O pai foi exuberante na simplicidade. Santo, segundo minha avó, mãe dele. Nada disso, segundo o próprio. Grande sujeito, o pai. Queria comprar livros. E mais livros. Para ler, distribuir, orientar. Mãe contrariada, claro. Embirrações. Salário pequeno, gastança besta. O pai os comprou – os livros –, os recomendou e os emprestou a quem lhe parecia deles necessitado. Poucos – quase ninguém – lhe devolveram os livros. Quem toma livro alheio se mete à besta e não devolve o que não lhe pertence. Nem lê o adjutório. O pai sabia disso. O pai dava de ombros, o pai não ligava, o pai dizia não assim, quase assim: “Se leu o título ao menos, valeu: está menos burro”. Não sei se o pai salvou alma, mas tentou bom bocado.


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E TALAGADA SE FOI…

A conversa corria animada na mesa 5 do bar do Carneiro. Entre goles de cerveja e uca, três fregueses contumazes, dos que marcam o ponto todos os dias, várias vezes ao dia, faziam considerações sobre o abuso do álcool, motivados pelo assunto da semana: a morte anunciada e mais que esperada de Talagada, um dos maiores beberrões de Vila Invernada e região. Percebendo que a conversa iria longe, Carneiro ofereceu aos três, gratuitamente, rodelas de tomate como tira-gosto. Caprichou no sal, na esperança de forçar o consumo de cerveja. Não se decepcionou.

Não houve, apesar do alto consumo de bebidas, alterações, pela simples razão de que todos concordavam com todos. De fato, quem não sabe beber não deve beber, que dúvida? É preciso saber parar. Ali, por exemplo, nenhum dos três já fora visto cambaleando pelas ruas do bairro. Isso era coisa para Talagada, que vivia tocado. Agora, uma vez ou outra, pode acontecer de o sujeito bambear, ossos do ofício, acidente de percurso. Quem não sabe beber coloca à saúde em risco, cria problemas com a família (que mulher gosta de ver o marido mamado?), prejudica a carreira profissional, compromete os negócios etc. Isso sem contar os gastos, claro. Os três eram, como se vê, adeptos dos alertas estampados nas peças publicitárias: “Beba com moderação” e “Se beber, não dirija”. Mas também nesse ponto os amigos de copo e de cruz concordavam: “moderação” é conceito vago e não são umas canas a mais que vão derrubar ases do volante, como eles, três cobras criadas.

E os colegas, depois de algumas penúltimas rodadas, se foram, convencidos de que jamais terminariam como Talagada. Um deles tropeçou. Culpa da mulher do Carneiro. Maldita mania de encerar o piso.


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DE VOLTA AO RIO

Robertinho nunca foi homem de fazer reflexões, tecer planos, traçar estratégias. Impulsivo, ansioso ao extremo, tocava a vida de primeira. Para ele, era como se o mundo fosse acabar nos próximos dias. Tropeçava, ensaiava um chororô, mas logo sacudia a poeira e, se não dava a volta por cima, tratava de pegar os remos e tocar o barco. Afinal, contas a pagar são impacientes, não perdoam atrasos. Se a vida não é nada fácil, imagine com a sobrecarga de juros e correção monetária?

Apesar dos percalços, Robertinho era uma espécie de arroz de festa. Sempre (ou quase sempre) tinha “causos” divertidos para contar – o que acabava dando a ele o status de “cara legal”, de palhaço das horas felizes. Mal sabiam que, no íntimo, era um sujeito entristecido a representar um papel que se impusera. Mau ator.

Sem se dar conta, isolou-se. Queimava horas pensando coisas ruins: nos tombos que levara, nas pequenas, médias e grandes traições de uns poucos supostos amigos, nas sacanagens de alguns chefes e subchefes, na falta de apoio para que pudesse realizar seus planos etc.

Sem se dar conta, Robertinho transformou-se num chato absoluto. Passou, ainda que inconscientemente, a atribuir aos outros o motivo único de suas frustrações. Não raro, em geral após a terceira talagada, virava refém de uma ira nada santa, mas súbita. E desandava a falar impropérios nos quais nem ele via sentido.

Numa madrugada, meio que do nada (Robertinho nunca foi dado a reflexões), veio o estalo: ora, as pessoas só fazem conosco o que lhe permitimos fazer. Logo, se há culpados por isso ou por aquilo, os culpados somos nós. Se, por uma razão ou por outra, não tínhamos alternativa a não ser aceitar as cartas marcadas, leite derramado, nada a fazer. Somos o que deu para ser.

Robertinho não deu a volta por cima, mas voltou a remar. Agora, sem tanto peso na alma. Água que rola, vida que segue. Melhor assim.


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O VERDADEIRO “HOMEM” DA CASA

Domingo de sol intenso, céu de brigadeiro, nenhuma nuvem ameaçadora à vista. Piscina limpa, convidados prestes a chegar. Só faltava recebê-los e colocar a carne para assar. Ah, sim: antes, era preciso buscar pãezinhos e potes de sorvetes da marca tal, sabor tal, além de cigarros. O homem da casa foi à padaria. Meia hora depois, aperitivo tomado, missão cumprida, estava de volta com as compras.

Para seu espanto, encontrou todo mundo – mulher, filhos e convidados – em pânico, menos o verdadeiro “homem” da casa, Nilza, avó do homem da casa, senhora de setenta e poucos anos, criada na roça, mais objetiva e prática impossível, visivelmente contrariada com a covardia coletiva. Um rato imenso, saído sabe Deus de onde, veio do quintal, atravessou a cozinha e todas as fronteiras imaginárias e se instalou num dos quartos – o do casal – sob um dos criados-mudos.

E o rato dali jamais arredaria as patas, se dependesse dos homens da casa. Alguém teve coragem para fechar a porta do quarto. Mas, agora, faltava alguém com coragem para abri-la e devolver o bicho a seu devido lugar. Ninguém se dispôs a fazê-lo. Um aparentado teve uma ideia: chamar o irmão, exímio atirador, um ás com espingarda de chumbinho. O caçador, que morava pertinho, logo ali, foi recebido com pompas e circunstâncias. Resoluto, carregou a arma, conferiu a mira, abriu a porta e dali mesmo disparou vários tiros. Furou a parede toda. E o rato, incólume colosso. A velha olhava aquilo tudo com indisfarçável irritação. Resolveu dar uma basta à vergonha: foi até a lavanderia, pegou o rodo e logo avisou: “Saiam da frente, frouxos!”.

De nada adiantaram o muxoxos insinceros: “Não faça isso, vovó”, “A senhora não me apronte uma coisa dessas”, “O bicho é perigoso”. “Vou buscar munição”, dizia o atirador fracassado. “Calem a boca”, a avó do homem da casa colocou ponto final na tragicomédia: entrou no quarto, não gastou dois minutos para acabar com o inimigo. Abriu a porta, pediu a pá, recolheu os restos mortais do rato e os colocou num saco de lixo.

– Há um homem aqui pra lavar o piso? Ou vou ter que fazer isso também?

Teve, todo mundo cheio de dedos e nojo. Sabem como é?


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PQP, BRASIL!

Bolinho de arroz: santo remédio

Carneiro sentiu-se na obrigação de lembrar ao Velho Marinheiro – seu melhor freguês, o único a lhe pagar as despesas à vista, ou, na pior das hipóteses, no dia seguinte – que era sábado. Para quem não sabe, no melhor boteco da Vila Invernada, o que não significa muito, sábado é dia de bolinho de arroz com fiapos de bacalhau, uma especialidade da casa muito apreciada por todos que ali marcam ponto, em especial pelos caloteiros.

– Agora, não, Carneiro. Mais tarde, talvez, se meu humor melhorar.

Ananias não demorou a chegar. Assim que avistou o Velho Marinheiro, tratou de fazer o que sempre fazia nos dias em que seu amigo estava visivelmente irado: preparar os ouvidos e a alma para o que desse e viesse. Tudo bem. Ele sabe que os desabafos do nosso Lobo do Mar são breves, embora contundentes. Não precisou ir além do bom-dia:

– Ananias, como alguém pode ter um bom dia num país de vagabundos como o nosso, me diga?

– O que houve? – quis saber o jornalista “aposentado” pelo mercado, mas sem receber qualquer benefício da Previdência.

– No início do mês, minha filha foi até o INSS. Obteve boa notícia: conseguiu, depois de trinta e tantos anos de trabalho, a aposentadoria integral.

– Parabéns. Por que a irritação, Velho Marinheiro?

– Disseram a ela que, dentro de um mês, receberá uma carta confirmando o valor do benefício e o total dos atrasados. A carta ainda não veio. Mas a vida dela virou uma caceteação. Todos os dias pulhas lhe telefonam, várias vezes, de diferentes empresas, para lhe oferecer o tal de crédito consignado. “A senhora tem a seu dispor um crédito de até não sei quantos mil reais.” Ora, é o pessoal do INSS que passa as informações para esses vagabundos. Nome completo, endereço e telefone, tudo. Quem autorizou a canalha a fazer isso? Cadê sua privacidade? É evidente que os ordinários não repassam aos bancos e a outras empresas de crédito tais informações de graça. Pode uma coisa dessas?

– Não, não pode. Mas é assim mesmo.

– Assim mesmo o cacete. Ananias, uma coisa dessa não pode ser. Você não tem paz nem na sua própria casa. Um inferno. O telefone não para de tocar. Para se livrar dessa gente, é preciso ter paciência de Jó. Coisa que jamais tive.

Experiente no trato com o Velho Marinheiro, Ananias promoveu uma breve pausa – estratégica e silenciosa -, para reabastecer os copos e fumar um cigarrinho na calçada. Tempo suficiente para o Velho Marinheiro esfriar a cabeça.

– O senhor tem razão. O Brasil virou um bordel.

— Não ofenda as putas, Ananias.

– Vou pedir ao Carneiro uns bolinhos de arroz, que tal?

– Uma boa. Ananias, seus ouvidos generosos e os acepipes do Carneiro me fazem um bem danado. Se não me trazem de volta a paciência que nunca tive ao menos adiam o infarto.


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LEMBRANÇAS

O senhor Milton Olímpio da Silva, ao menos entre os mais íntimos, era conhecido como Papi. Quem foi Papi? Meu sogro, gente da melhor qualidade. Sua principal característica era falar, falar, falar. Adorava falar. E falava alto. O assunto sempre era detalhe menor. Bastava lhe dizer “bom dia”, e o papo estava garantido. Os mais escolados puxavam uma cadeira.

Para que incorporasse o “comandante” Fidel, não eram necessários mais que segundos. Em dia de garganta arruinada, coisa que nunca vi, a preleção era mais curta: de duas horas, em média. Quando lhe dava na telha, pedia licença e punha ponto final na prosa. Monocraticamente.

O pai, ao contrário, sempre foi quieto, recatado. Raramente, elevava o tom de voz. Mas não havia chance de lhe dizer “bom dia” e não receber algum incentivo, um conselho, um livro emprestado.

Dois loucos, dois estilos, dois mestres.

* * *

O pai nunca foi homem de farra, nunca teve muitos amigos. Gostava mesmo era de ler e reler seus muitos livros. E de fazer planos, ainda que já não tivesse mais condições de colocá-los em prática. Sempre foi um homem afável, mas sem tempo para, como se diz, jogar conversa fora.

– Por que o senhor não desce e vai conversar com outras pessoas lá embaixo, no jardim? Fica tão só…

Era o que sempre lhe perguntavam, a começar por minha irmã e eu.

E ele nos dizia:

– Não tenho nada contra ninguém, não. Tenho uma relação cordial com todos os que moram no prédio. Também não me sinto melhor ou pior que os outros. Mas o que tenho para lhes falar não é do interesse deles. A recíproca é verdadeira. E a vida é curta, filho. Nunca dá tempo para a gente ler o que precisava ler.


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UM HOMEM, QUATRO COPOS

Diariamente, de segunda à sexta-feira, por volta das 18h, ele marcava ponto na padaria do Narciso. Sempre bem vestido, chegava sorridente, acenava para uns e outros. Mas não puxava conversa com ninguém. O pessoal da copa, mais por educação que por dúvida, lhe perguntava se queria o mesmo de sempre. Claro que sim: duas doses de vodka e duas latinhas de cerveja. Um homem, quatro copos. Às vezes, pedia um pedaço de pizza de mussarela, cortada na forma de tira-gosto. Espetava dois palitos, que ele usava de forma alternada, a exemplo do que fazia com os copos. Não era homem de esquentar cadeira. Nem poderia. Nunca o vi sentado nos bancos. Preferia ficar de pé, invariavelmente no mesmo canto do balcão.

Cumprido o ritual, pagava a conta, dava boa gorjeta para os copeiros, acenava para os conhecidos e embarcava no carro. Sempre com a discrição das pessoas bem educadas.

Levei uns dias, talvez semanas, para perceber os detalhes do ritual: um homem, quatro copos, dois palitos, um pedaço de pizza. De segunda à sexta, sempre no mesmo horário, por volta das 18horas.

Uma noite, meio por acaso, soube por Sales, um dos copeiros, que ele vinha com o pai – homem igualmente discreto e elegante – diariamente à padaria. Pediam duas doses de vodka, duas latinhas de cerveja e um pedaço de pizza, sempre do mesmo sabor: mussarela. O pai morreu há cerca de três anos. Mas não para o filho.


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MÃE, O PAI ARRUMOU EMPREGO!

Um dos pequenos, tão logo viu o pai abrir a porta com um pacote na mão esquerda, começou a berrar de satisfação:

– Mãe, o pai arrumou emprego, o pai arrumou emprego, vem ver, mãe, ele comprou maçã pra nós!

Os irmãos engrossaram, com igual entusiasmo, a gritaria do precipitado. E avançaram sobre o pacote com as frutas.

Ao ver a cara amarrotada de Toninho, Odete, de imediato, teve certeza de que a história não era bem aquela. Conhecia o marido como ninguém. Mas nada falou além de “oi”. Lavou as maçãs em silêncio, deu uma para cada filho, esperou que os três voltassem a brincar no quintal. Então, puxou conversa:

– Conseguiu alguma coisa?

– Nada, Odete. Ainda não foi dessa vez.

– Calma, Toninho. Uma hora vai dar certo.

– Deus te ouça. Não sei como vamos pagar o próximo aluguel.

– Meu pai e meu irmão ficaram de nos ajudar. Fome – tenho fé – não vamos passar, não. Mas beber não ajuda em nada, homem, só faz piorar o que está ruim.

– Eu sei. É que eu preciso dormir essa noite.

Em busca de outra maçã, um dos meninos retornou à cozinha e perguntou pelo pai.

– Foi dormir.

– O pai é gozado. Arrumou emprego e continua de cara feia.

– Liga não, filho. Você não conhece seu pai? Está tudo bem. Brinquem mais um pouquinho, depois vamos tomar banho, jantar e dormir.

– Tá bom, mãe. Fala para ele trazer mais maçãs, amanhã.

– Falo, sim.


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OS SANTOS ESTÃO DE FÉRIAS, MAS PLANEJAM, PLANEJAM…

Ilustração de Gustavo Rosa

Os Santos são previsíveis. Todo ano é a mesma história. Passadas as festas de final de ano, lá vão eles, de guarda-roupa renovado – invariavelmente, as roupas do verão passado já não lhes servem mais -, rumo à praia, onde permanecem por, pelo menos, quinze dias. Tempo de esbórnia familiar: muito sorvete, caipirinha, cerveja, espetinho de camarão, porção disso e daquilo, pastel de praia etc. Verdade seja dita: os Santos, rebentos inclusos, têm estômagos privilegiados. Comem e bebem de tudo, reclamam de nada. Às vezes, muito raramente, um ou outro é vítima de diarreia passageira, nada que soro caseiro e água de coco não possam consertar em 24 horas.

Durante o merecido ócio remunerado, os Santos se divertem a valer – e fazem planos, claro. O mais recorrente deles é tratar da saúde, fazer dieta saudável e duradoura, até que os muitos quilos extras, o colesterol e o diabetes os abandonem. “De vez”, no dizer sempre incisivo da mãe do casal de gorduchos. Mais cauteloso, avesso a promessas vãs, o pai se limita a dizer: “Vamos ver, vamos ver. Não é hora de pensar nisso. Até porque ninguém vai começar coisa alguma antes do Carnaval”. Mas a Quaresma promete, de acordo com a senhora Santos:

– Querido, não tenho coragem de fazer a bariátrica. Sei que você também não. Mas, estamos gordos demais, assim não dá para continuar. Amanhã, a gente tem um troço e deixa tudo aí. Além disso, também quero usar umas roupinhas mais transadas, sensuais, entende? Na José Paulino, não tem nada que me sirva. As malditas coreanas não têm bunda e acham que todo mundo deve ser igual a elas.

– Roupinha sensual para quê? Que história é essa?

– Para você, bobalhão. Meu gato angorá.

– E o que nós vamos fazer?

– A dieta da Quaresma. Uma amiga me ensinou, tenho tudo anotado no computador. Tiro e queda.

– Sei, não. Quarenta dias de água e mato?

– Vale a pena o sacrifício. Quando a gente estiver bem magrinho, vamos comemorar a Páscoa com estilo: bacalhau, vinho, chocolate, colomba. Tem mais: outra amiga já me passou umas receitas de doces caseiros irresistíveis: canjiquinha com amendoim, doce de abóbora com coco…

– Agora, senti firmeza.


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RAPIDÍSSIMAS

ESTORVO

O velho sumiu. A família levou dez dias para se dar conta.

SINA

Quem sai aos seus – é certo – não degenera, mas também raramente se regenera.

CELIBATO

– Cadê a irmã Cidinha?

– Padre Paulo comeu.

BUMERANGUE

– Américo, você é um fracassado, um homem que nunca teve ambições.

– Você está certa, Josefa. Podia ter comido coisa melhor.

CHÁ DE CADEIRA

Fulano nunca chega no horário combinado. Hábito, mania? Não. Falta de educação.

MENTIRA

Não é verdade que todos os políticos são iguais. A imensa maioria é muito pior que a escassa minoria.

DUPLA FACE

A mão que afaga também afana.

HOMENS & MULHERES

Quem alardeia intimidades não vale o que come.

DORES

Não se iluda: elas são intransferíveis.

NA DÚVIDA

Seja generoso, sai mais barato.


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HORA EXTRA

Quadro de Guy Rose

– Assim, não é possível. Está ficando difícil, mãe. Difícil, não: impossível. A senhora tem que se ajudar um pouco, saco! Tem que se alimentar direito, beber água, tomar os remédios, fazer os exercícios que o médico mandou. Puta que pariu!

– Calma, filha, calma. Se eu levanto do sofá, vocês brigam comigo, me xingam de tudo que é nome…

– Claro, queria o quê? É levantar para cair. Já lhe disse: quer ir ao banheiro? Chame alguém.

– Se eu chamo, vocês reclamam, ficam bufando.

– Não dá para ficar o dia todo à sua disposição. A gente tem mais o que fazer, mãe.

– Por isso, bebo pouca água, para não incomodar toda hora.

– Tem é que usar fralda dia e noite.

– Fico assada.

– Assada, não: mimada.

– Filha, minha doença não tem jeito. Tenha paciência.

– Eu sei. A senhora não vai melhorar mesmo. Mas quer piorar ainda mais? Já não basta o trabalho que está dando? Francamente. Há dez anos, desde que a senhora veio para cá, ninguém tem vida nessa casa. Merda.


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RAPIDÍSSIMAS

GENGIVAS

As pessoas que mais admiro são aquelas que – sem motivo aparente – ainda sorriem.

* * *

BENGALA

Exceto os mitômanos, nós, os velhos, não mentimos. Só não nos lembramos bem do que não houve.

* * *

DECADÊNCIA

Justiça seja feita: quem espera sempre a alcança; quem não espera também.

* * *

FAROESTE

Assisti a muitos clássicos nos últimos dias. John Wayne, Clint Eastwood e eu eliminamos muitos bandidos. Só não chegamos a Brasília. Questão de tempo.

* * *

PASSADO

É o presente ainda assustado com os fantasmas acorrentados.

* * *

CERTEZAS

Só as provisórias valem a pena. As demais nos engessam, nos idiotizam.

* * *

CONVENIÊNCIAS

São rabos a balançar cachorros de muitos donos.

* * *

MARIA

– Chega. Cansei de ser um triste: me perdoei.

* * *

NÃO DEU?

Paciência.

* * *

CHAGAS

– Sabe quem morreu? O Chagas.

– Descansou. Nos últimos trinta anos, fez jus ao sobrenome.


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O POETA MORREU (ANTES DE NASCER)

Américo apenas se deu conta de que jamais aprendera o que de fato importa, quando resolveu, depois de velho e absolutamente só, escrever um livro. Não queria um livrinho qualquer, burocrático ou piegas. Nada disso. Andava muito impressionado com Bandeira e Quintana, com a leveza de seus textos. Queria algo nessa linha, sedutor. Foi aí que a corda roeu. Jamais gastara tempo observando passarinho voar, muito menos admirando a beleza das flores e do vai e vem sonoro das ondas do mar. Vivera sempre acuado, escondido atrás de pilhas de relatórios e de números que mais escondiam que revelavam. Fez um esforço, buscou na memória – ainda intacta – a lembrança de um grande amor. Lamentou o fato de nunca ter tido uma mulher que hoje lhe trouxesse saudade. Resignado, enterrou o poeta antes de seu nascimento.


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GATOS? NÃO, NÃO E NÃO!

Meus medos são muitos. Nenhum deles, porém, supera o que tenho de gatos. Não posso ver um deles. Surto. A recíproca é verdadeira. Quando me avista, o bichano se eriça e se põe em posição de ataque. Fiz novenas e mais novenas para São Judas Tadeu – o santo das causas impossíveis. Em vão. A paúra só fez crescer, piora muito a cada estação. Quando me deparo com um felino doméstico, apelo logo para Santo Expedito: “Querido, me tire daqui, agora!” Nem sempre – quase nunca seria a expressão mais precisa – consigo dar o passo. Peço ao Todo Poderoso, então, um infarto daquele, fulminante. Não fui atendido, ao menos at&eacu te; agora.

Esse pavor por gatos me fez perder oportunidades, além de dar vexames sexuais. No auge da virilidade – vinte e poucos anos -, fui ao apartamento de uma colega de faculdade, verdadeira loba, sonho de consumo de qualquer garanhão imberbe. Não consegui ir além de um selinho muito vagabundo. Ela tinha um gato na sala. Foi minha primeira broxada. Tempos depois, quase encerrei o noivado com Sabiá por conta de um gato. Meu cunhado, então um demônio em forma de guri, aproveitou um vacilo meu e jogou no meu colo um filhote. Melhor andar desarmado.

Não sei por que gatos não gostam de mim. Nunca atirei o pau (nem pedra) em gato. Nunca chutei gato. Nunca dei tiro de chumbinho em gato. Nem xingar gato xinguei.

Dona Neide me falava (saudades dela) que, por três vezes, me levou para tomar injeções na barriga contra raiva, por conta de arranhadas que sofri de gato de rua. Eram quinze injeções, a cada rodada preventiva. Verdadeira tortura. No bonde, ela me dizia: “Se você se comportar, não falar palavrões, mamãe lhe compra um doce”. Barganha inútil. Voltava sem doce. Em casa, levava tapas na bunda: “Bem feito, bem feito. Quem mandou você, moleque boca suja, dizer tantos palavrões para a enfermeira? Da próxima vez que você mexer com gato de rua, vai ver o que é bom pra tosse.”

Infância triste, a minha.


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BOTERO ME LIGOU

Não sei com vocês, amigos, mas comigo é sempre assim. Anoto tudo no papel – da quantidade diária de calorias a ser consumida aos minutos que não andarei. Preparo potes e potes de gelatina e pudins – diets, evidentemente -, cozinho legumes e carnes magras, reservo e congelo. Encho e ponho para gelar pelo menos cinco litros de água com e sem gengibre, deixo meus “fitos” às mãos, faço orações, rego a comigo-ninguém-pode. Tudo prontinho, hora de começar a dieta. Amanhã, claro.

Quando o amanhã finalmente chega, me pega animado que só. Em geral, nos dois primeiros dias, supero de longe todas as expectativas. Consumo muito menos que o planejado. Agora vai? Não vai. No terceiro dia, quando muito no quarto, uma ira insana se apossa desse corpanzil trêmulo. Viver? Que sentido faz uma coisa dessas, nessas condições de privação quase absoluta? O ser humano é um desgraçado que se empanzina a valer de tudo o que engorda – na minha frente, ao vivo ou pela tevê. Faz de propósito. Mas tudo passa. No sétimo dia – em geral, após espiadela no espelho do quarto -, uma baita prostração me toma de assalto. Já não consigo sequer ficar irado. Choramingo. Tanto sacrifício em vão, todas as ilusões perdi das. Se é para ser infeliz, melhor ser gordo. Ponto final. Que mal há em comprar um número mais confortável? Ora, a vida foi feita para ser comida e bebida. Estou longe de ser um menino. Lutar contra a natureza pra quê?

A madrugada retrasada me trouxe um sonho. Botero – o grande Botero – me ligou e disse que queria me contratar. Como modelo. Acordei pimpão, aliviado, encarei o maldito espelho, fiz poses, tomei uma resolução: vou escrever para o mestre, me colocando à sua inteira disposição. Sempre fui vaidoso. Manequim. Por que não? Vai ser duro manter a boca fechada, não dizer palavra, sina de todos os retratados pelo mestre colombiano? Claro que sim. Mas qual ofício não tem seus ossos? E com a barriga cheia – cá entre nós – tudo segue melhor. O café da manhã foi pra lá de supimpa. De rei. Almoço e jantar também prometem. Afinal, não posso perder a forma. Botero me espera.


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ARGEMIRO FOI COM AS OUTRAS E SE DEU (QUASE) MUITO BEM

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Argemiro nunca foi aluno brilhante. Do antigo primário à faculdade, o máximo que conseguiu foi assegurar, quando muito, uma vaga no grupo dos que não cheiram nem fedem. Ou seja: um lugar no pelotão dos medíocres. Ele também nunca se destacou pela capacidade profissional. Não obstante, conseguiu subir na vida, como diz o vulgo. Agradecido, reconhecia que devia muito de sua ascensão ao velho e falecido pai, um ex-comunista metido a estrategista de botequim.

Desde cedo, o pai lhe ensinou algumas coisas, entre as quais:

(1) Nunca emitir opiniões sobre assuntos polêmicos: política, religião e futebol, por exemplo. Que benefício lhe traria se posicionar sobre aborto, casamento gay, liberação da maconha e temas afins? Nenhum, evidentemente.

(2) Agora, na impossibilidade de permanecer calado, concordar sempre com a opinião do mais forte. Afinal, um comuna legítimo sabe que é preciso beijar a mão que não se pode cortar.

(3) Que jamais se preocupasse em ser rotulado de Maria vai com as outras. O que importa é desfrutar de bom dinheiro para levar vida confortável e garantir uma velhice sem grandes sobressaltos.

E assim foi feito. Argemiro engoliu sapos e mais sapos, muitos dos quais amarrados com arame farpado. Paciência. Como o velho e sábio pai lhe dizia: “Ter opiniões incisivas sobre tudo é coisa só para gente bem-nascida. Sufoque o ser para ser.” Quanta sabedoria!

Aposentado e viúvo, com os dois filhos morando no exterior, Argemiro gosta de acompanhar o noticiário. Diante de assuntos polêmicos e discussões mais acaloradas, nunca sabe de que lado está. Afinal, não há mais ao seu lado um poderoso com quem possa concordar. Mas, pensando bem, que importância tem isso?


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QUE COISA, HEIM?

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Há fatos que Isaura jamais conseguiu compreender e que, aliás, continua não entendendo. Chega a questionar a serventia de anos e anos de estudo, aqui e no exterior, sempre nos melhores colégios e universidades. Circulou inúmeras vezes pelas principais capitais europeias. Conhece Nova York tão bem quanto São Paulo, onde nasceu em berço esplêndido, há 40 anos. Das muitas incertezas que alimenta, tem uma convicção – menos mal, podia não ter nenhuma: quase duas décadas de análise não lhe trouxeram alento. Grana alta que se foi pelo ralo. Mas, falta de dinheiro nunca foi problema para ela. Dane-se, a perda. Não lhe fez falta.

Namoradeira, Isaura saiu e ficou com homens bonitos e cheirosos, tão ricos e viajados como ela. Divertiu-se, mas nunca criou raízes. Livre demais para depender afetivamente de quem quer que seja. Não se lembra de nada que tenha desejado e não tivesse obtido assim: num estalar de dedos, num piscar de olhos, num átimo. Linda e rica, ela nunca invejou nenhuma de suas quase amigas. Confidente? Só o travesseiro – e olhe lá.

Justamente por tudo isso, Isaura ainda busca explicações para sua birra com Josefa – uma negrinha magra que só, de pouco menos de trinta anos, pobre, dentadura no lugar dos dentes, marido feio e fedido, com direito a dois finais de semana de folga por mês, uma de suas empregadas. Como alguém nessa condição pode estar sempre sorrindo, acreditar no futuro, agradecer a Deus pelo quase nada que tem? Isaura acha que há coisas que nem Freud explica. Passa horas olhando o longe em busca de razões para a felicidade de Josefa.


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A “TORCIDA” DO VELHO MARINHEIRO

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Ananias volteou, volteou, antes de abordar o Velho Marinheiro:

– Não sei se devo, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.

– Desembuche. A vida é curta. Afinal, o que você quer saber?

– Ontem, no velório do pai da Deolinda, fiquei observando o senhor.

– Não tinha coisa melhor para fazer? Orasse, então, pela família do falecido. Porque quem fica é que precisa de reza, de força para driblar a saudade, se me entende. O que fiz para chamar sua atenção?

– O senhor entrou mudo e saiu calado. Não disse uma palavra a Deolinda.

– Eu a abracei e beijei com respeito e emoção.

– Eu vi. Mas por que não lhe disse nada, medo de revelar a voz embargada?

– Não seja besta. Ananias, meu pai me ensinou…

– Desculpa, quem lhe ensinou?

– Meu pai. Ou você acha que eu, por ser velho, não tive pai, que minha mãe ficou grávida por obra de um espírito nada santo? Tenha paciência.

– Perdão. Não ouvi direito. O que seu pai, afinal, lhe ensinou?

– Que a gente, quando não tem o que dizer, deve ficar em silêncio. Numa hora dessas, ninguém tem nada que preste a falar, além de platitudes nem sempre sinceras. Em geral, um olhar e um abraço dizem mais que uma penca de chavões.

– Também observei também que o senhor não esquentou cadeira.

– Verdade. Sabe por quê?

– Não.

– Ora, você é péssimo observador. Não sei como conseguiu ganhar a vida como jornalista. Ananias: como sempre acontece nessas ocasiões, formam-se rodinhas de desocupados que passam a contar piadas bestas e a falar mal dos outros. Por isso, caio fora. Para não criar confusão no velório. Torço para que Deolinda supere logo o trauma e recupere o frescor que a caracteriza, isso sim.

Ananias sorriu sorriso maroto:

– O senhor…

– Eu o quê? Vai me dizer que você torce pelo contrário, para que ela guarde luto por anos? Seria uma tragédia para todos nós. Oremos.


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QUE COISA, HEIM?

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Há fatos que Isaura jamais conseguiu compreender e que, aliás, continua não entendendo. Chega a questionar a serventia de anos e anos de estudo, aqui e no exterior, sempre nos melhores colégios e universidades. Circulou inúmeras vezes pelas principais capitais europeias. Conhece Nova York tão bem quanto São Paulo, onde nasceu em berço esplêndido, há 40 anos. Das muitas incertezas que alimenta, tem uma convicção – menos mal, podia não ter nenhuma: quase duas décadas de análise não lhe trouxeram alento. Grana alta que se foi pelo ralo. Mas, falta de dinheiro nunca foi problema para ela. Dane-se, a perda. Não lhe fez falta.

Namoradeira, Isaura saiu e ficou com homens bonitos e cheirosos, tão ricos e viajados como ela. Divertiu-se, mas nunca criou raízes. Livre demais para depender afetivamente de quem quer que seja. Não se lembra de nada que tenha desejado e não tivesse obtido assim: num estalar de dedos, num piscar de olhos, num átimo. Linda e rica, ela nunca invejou nenhuma de suas quase amigas. Confidente? Só o travesseiro – e olhe lá.

Justamente por tudo isso, Isaura ainda busca explicações para sua birra com Josefa – uma negrinha magra que só, de pouco menos de trinta anos, pobre, dentadura no lugar dos dentes, marido feio e fedido, com direito a dois finais de semana de folga por mês, uma de suas empregadas. Como alguém nessa condição pode estar sempre sorrindo, acreditar no futuro, agradecer a Deus pelo quase nada que tem? Isaura acha que há coisas que nem Freud explica. Passa horas olhando o longe em busca de razões para a felicidade alheia.


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RAPIDÍSSIMAS

DEGUSTAÇÃO

Mastigo sem pressa o último desejo.

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SAUDOSISTAS

São todos muitos chatos. Só se lembram do que nunca foi bem assim.

DOMINGUEIRAS

Era difícil “ficar”, mas “amassar” nem tanto.

MODISMOS

Como as demais pestes, eles vêm e vão sem deixar saudade. A desgraça é que sempre dão lugar a outros idiotismos.

PSIU

O bloco de notas repousa em branco ao lado da caneta sem tinta. Esperam, em vão, pela mão que não tem mais nada a dizer.

OLHARES

Naquele olhar acuado, havia um canto de guerra.

ÚLTIMO DESEJO

– Não quero dó, Marilda, quero chance.

A NECESSIDADE…

É sempre péssima conselheira, ainda mais quando extremada.

AMADORES

Afinal, que serventia eles têm?

BLACK FRIDAY

Toda promoção é enganosa. Inclusive a minha.


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ANANIAS, O PRÍNCIPE DO SAMBA-CANÇÃO

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– Ananias, Ananias: você é um caso perdido, não aprende nunca, vai morrer com essa cara, tem jeito, não.

– Que cara, Velho Marinheiro? É a única que tenho, ora.

– Cara de viúva saudosa. Sempre cabisbaixo, choramingando e suspirando pelos cantos. Você choraminga e suspira, mesmo quando não verte lágrimas nem solta vento pela boca.

– É que são muitas as decepções. O senhor sabe disso. Minha vida nunca foi nem tem sido fácil.

– Ananias, você sofre porque se decepciona e se decepciona porque é burro. No fundo, vai saber, gosta de sofrer, de ficar com pena de si mesmo. Deixe de ser besta. Só trouxa se decepciona com os outros.

– O senhor nunca se decepcionou com ninguém? Duvido.

– Claro que sim.

– Então?

– Mas isso, Ananias, foi há muito tempo. Desse mal, não sofro há décadas. Dos outros exijo apenas – eu disse “exijo”, não disse “espero” – respeito. Nada mais. Se o sujeito é ingrato, problema dele. Não espero nada de ninguém. Se puder ajudar, ajudo. Se não puder, aviso: não posso fazer nada por você, vá procurar adjutório em outra freguesia. Nem da mulher amada, se deve esperar reciprocidade. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.

– Sei não, sei não. Acho que o senhor não é tão duro assim…

– Ananias: é pena que você, embora escreva com correção e clareza e seja um triste, não saiba fazer letras.

– Letras?

– Letras de música. Não se faça de besta.

– Por quê?

– Você desbancaria Lupicínio. Transformaria Antônio Maria em pinto. Seria o verdadeiro rei da fossa, o príncipe do samba-canção. Agora, chega. Vamos tomar uns tragos. Para potencializar sua tristeza. Quem sabe você consegue fazer uma letrinha?


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DESGRAÇA POUCA…

Verdade seja dita: Ananias, nosso repórter em fim de carreira, fez o que pode, mas não conseguiu segurar a curiosidade, inerente a todo repórter, inclusive aos que estão em final de carreira:dp

– Velho Marinheiro: o que houve ontem entre o senhor e Romildo Bastos, irmão de Romualdo, nosso cruzadista?

– Nada.

– Nada?

– Quer saber? Mandei o tipo se catar. Só isso. Um pouquinho mais. Qualquer pessoa normal, com dois neurônios faria o mesmo. Romildo repetiu dez vezes a mesma falação, até que eu a ouvisse. Ele queria platéia, aplauso ordinário: “Almerindo, meu amigo, um afro na melhor idade, padece de sofrimentos inúmeros – não tem recursos para manter a casa, cardíaco não consegue mais cumprir com as obrigações domésticas. Paga o preço. Almerindo é meu irmão.”

– E então?

O Velho Marinheiro entornou o aperitivo:

– E aí é o seguinte, Ananias: “Romildo – disse eu, de saco cheio: ‘O que você quer dizer é: Almerindo é um negro pobre e ferrado. Velho aos cacos, que no final da vida virou corno. Ponto”. E tem mais: Romildo, você é um afetado. Até falando abusa das reticências e dos pontos de exclamação’”.

– O que o senhor tem contra umas e outros?

– Tudo. Umas e outros são coisas afetadas, sua cara. Por partes: primeiro, se tenho que dizer, digo logo, não deixo no ar; segundo, não sou veado pra me espantar com qualquer coisa. Leia Graciliano.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA (3)

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Maria entrou pisando duro, com cara de nenhum amigo, soltando fogo pelas ventas. Zé pressentiu que ia sobrar para ele. E sobrou. Sem novidade.

– O que aconteceu, Maria?

– O de sempre. Zé, eu estou cheia de você. Cheia. Esgotada. Você só me faz passar vergonha nessa vida desgraçada que levo.

– O que eu lhe fiz dessa vez?

– Quando souberam, no salão, que fiz aniversário ontem, todo mundo quis saber se você tinha me levado para jantar fora, que presente você me deu, essas coisas. Menti. Disse às moças que ganhei uma bolsa lindíssima e que deixamos o jantar para sábado, que ontem estava indisposta etc. Não sei se colou. Nós, mulheres, temos o tal do sexto sentido.

– Pelo amor de Deus, Maria, não seja injusta. Há anos, você não quer que eu lhe compre presente algum. Você não cansa de repetir que eu não sei fazer compras, erro sempre no tamanho, tenho gosto duvidoso e sei lá mais o quê. Além disso, estamos numa situação complicada. O dinheiro da poupança está no fim, eu não consigo emprego. O que você quer que eu faça? Anteontem, você ainda me disse: “Não me traga nada, por favor. O mar não está pra peixe.” Lembra?

– Francamente. Você é um obtuso. Leva tudo ao pé da letra. Mas quem sofre as humilhações sou eu.

– Maria…

– Vá se catar.


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O IRREDUTÍVEL

– Então, mestre dos mares, o que o senhor achou de meu amigo, o doutor Joaquim Barbosa de Oliveira Pinto e Silva? – quis saber do Velho Marinheiro o maior, talvez único, cruzadista profissional da Vila Invernada: Romualdo Bastos.

– Uma besta, seu Romualdo, uma besta.ob

– Uma besta?! Não posso acreditar numa coisa dessas, não posso mesmo. Velho Marinheiro, o doutor Joaquim Barbosa de Oliveira Pinto e Silva é um homem de extensa e consolidada cultura, um homem que…

– Não estou dizendo o contrário. Não estou pondo em xeque a cultura de seu amigo. Deu para perceber que ele é um sujeito letrado, bem preparado etc. O que não o impede de ser uma besta.

– Velho Marinheiro: estou atordoado, não consigo entendê-lo.

– Romualdo: seu amigo fez questão de deixar claro – por reiteradas vezes e com a empáfia dos metidos a sabichão – que ele jamais muda de opinião. E se gaba disso.

– Ora, o doutor Joaquim Barbosa de Oliveira Pinto e Silva é um homem de posições firmes, de convicções arraigadas. Jamais será uma Maria vai com as outras.

– Sim. Que beleza. Só que, por achar que sabe tudo, ele fechou a porta para a curiosidade, ele se recusa a aprender novos conceitos, acredita que o mundo vai deixar de evoluir só porque ele não muda de opinião. Um sujeito assim o que é? Uma besta, uma besta arrogante. Entendeu agora?

– Velho Marinheiro: estou aturdido com suas palavras, não sei o que lhe dizer.

– Então, não me diga nada, tome um trago e relaxe.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA (2)

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– Vou até a padaria comprar cigarros. Você precisa de alguma coisa?

– Preciso. Mas não adianta pedir pra você. Nunca traz a marca que eu peço, parece que faz de propósito, só para me irritar.

– Quando fiz isso, Marilda?

– Anteontem. Paulo: as bolachas que você trouxe eram lixo.

– Mas, no dia seguinte, não tinha uma pra contar história. Só trago de outra marca quando não tem a que você me pediu, ora!

– Então, não traga. Entendeu? Não traga nada.

– Está certo. Diga logo o que você quer?

– Anota aí, pra não fazer confusão. Não demore, não. Está quase na hora do café. Já estou com fome.

Duas horas depois, Paulo estava de volta com as encomendas de Marilda.

– Que demora! Aposto que ficou bebendo na padaria.

– Nada disso. Tive que ir a três mercados. No da esquina, não tinha a bolacha nem o requeijão das marcas que você me pediu. Na venda do Norberto, tinha as bolachas, mas não tinha o requeijão. Fui ao Mambo.

– Lá é tudo mais caro, me deixe ver a nota fiscal.

– Está aqui.

– Puta que o pariu. Que absurdo! Você teve coragem de pagar tudo isso? Não há dinheiro que chegue. Quando for assim, não compre.

– E sua fome?

– Passou. Paulo: ando com o saco tão cheio de você!


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RAPIDÍSSIMAS

PÊNDULO

Um dia ele vai e não volta.

rt

CLÍNICO GERAL

Espécie em extinção. A hora é de especialistas. Eles conhecem as partes, mas desprezam o todo.

VIVER

Essa coisa custa caro. Sem chamego, não há por quê.

NO DIA DE MINHA MORTE

Não me tragam flores. Nem paletó, gravata, bobagens afins. Choro nem pensar. Velório é proibido. Seria cínico. Vou como vivi – de bermuda, sem camisa, chinelo de dedos, um homem improvável. Ah! Tragam os malditos cigarros. Com fósforos. Nada mais lhes peço.

GAIOLA

Não precisava mais de abrigo. Queria voltar a voar.

GHOST-WRITTER

Costuma ser um sujeito de boa fé: quase sempre acredita que seus clientes acreditam mesmo no que assinam.

ZERO A ZERO

Não devo nada a ninguém, ninguém me deve nada. Como seria fácil se a vida fosse uma operação contábil. Não é.

O TRATO

Ficamos assim: tarde e noite de domingo são “sagradas”, ok? Então, você não me visita, e eu não vou à sua casa. Sem aviso prévio.

SABEDORIA

Trocou a gula pelo prazer de degustar.


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VIDA MANSA

– Isaura: ando bastante preocupado, muito mesmo.

– Por quê?

– Temos que ser mais discretos. Você, então… Pelo amor de Deus. Meio mundo já sabe. A outra metade desconfia. Minha mulher anda com a pulga atrás da orelha. Logo, logo, seu marido vai começar a lhe seguir. Temo pela sua segurança e – sendo franco – pela minha também. Há homens e mulheres que não perdoam traição, são capazes de tudo, tornam-se vingativos e violentos. Porra! Estou falando sério, e você gargalha! Vá se catar!vm

– Armando, querido: você acha mesmo que meu marido desconfia de alguma coisa?

– Sei lá, Isaura. Espero que não.

– Bobinho. Ele sempre soube de tudo.

– Não brinca com essas coisas, mulher. A coisa é séria.

– Tem mais, Armando: ele me incentiva.

– Isaura: só pode ser gozação sua.

– Calma. Ele sabe de sua generosidade para comigo. Nós temos um pacto: ele não me cria embaraços, faz vistas grossas, e eu sustento a casa e seus vícios prediletos: cachaça e cigarro. Ele leva uma baita vida: come, bebe, fuma e dorme. Está muito bem cevado. Sexo? Com ele, não faço há uns cinco, seis anos. Ele não liga, eu agradeço aos céus.

– Um problema a menos, Isaura, um problema a menos.

– Agora, você que se esforce para que sua mulher não saiba de nada. Não quero perder meu gostosão.


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RAPIDÍSSIMAS

EX

Quando um não quer, dois não ficam.

rd

* * *

CREMATÓRIO

É rapidinho, rapidinho. Em pouco tempo, o agora insignificante recupera a definitiva relevância: vira pó.

* * *

PROMESSA

Deus não é adepto do escambo.

* * *

COMO ANTES

Deixou a bronca de lado. De madrugada, aquiesceu. Foi tão bom.

* * *

CÁ ENTRE NÓS

Desde quando um déspota pode ser esclarecido?

* * *

GENEROSIDADE

É fazer pelos os outros o que os outros jamais farão por você.

* * *

AÇÃO E REAÇÃO

Odeio pernilongos. Mas eles não precisavam me jurar de morte.

* * *

QUESTÃO DE COERÊNCIA

Se não tem alegria para desfilar na avenida, por que levar o amuo para fazer feio na Apoteose?

* * *

AJUSTE FISCAL

Tonico já promoveu o dele: devolveu a sogra para a casa do filho.


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A TURMA DA BALINHA

Iracema não tem boca pra nada, nunca teve. Suporta tudo calada. Quando excepcionalmente reage, não consegue dormir. No dia seguinte, não sossega enquanto não pega o telefone e se desculpa com irmãos e cunhadas, ainda que tenha razão. Com os dois cunhados nunca se aborreceu. Nem poderia. Um e outro jamais aparecem por lá – na casa em que ela e irmãos nasceram e se criaram. Todos irmãos cuidaram de si; ela, dos pais.tb

Continua virgem, mas nunca teve lábios de mel. Com o tempo engordou um bocado. Às vezes, conversa por telefone com uma amiga do ginásio. Ao cinema, foi meia dúzia de vezes, se tanto. Ao teatro, apenas uma vez. Viajou bastante quando era criança e o pai ainda tinha saúde. Depois, miau. Gosta de televisão, em especial dos programas de culinária. Acha que as moças de hoje são muito assanhadas, talvez mais que os rapazes de seu tempo de guria.

Quando o pai morreu, há dez anos, combinou com a mãe que viajariam bastante. A velha ficou de pensar. Não deu tempo. O Alzheimer mostrou suas garras. Mas, como já foi dito, Iracema não reclama. Ao contrário. Pede a Deus forças para cuidar da mãe. É grata ao Senhor por Ele ter colocado Tiana na vida dos Silva, há mais de vinte anos. Para Iracema, mais que empregada, ela faz parte da família, é amiga, solidária, pau pra toda obra.

Os irmãos, de tempos em tempos, visitam a mãe. Trazem sempre algum doce, balas de preferência, coisas assim. Mas não esquentam cadeira, todos muito atarefados. A caçula é a que menos aparece, mas, em contrapartida, liga todos os dias, três vezes ao dia, de segunda a segunda, para saber como mamãe está. E fazer cobranças indiretas: cuidaram disso? Cuidaram daquilo?

Tiana não esconde sua irritação com a corja, como ela costuma chamar todos da família que não moram naquela casa:

– Iracema, seus irmãos são uns vagabundos. Não estão nem aí com você e sua mãe. Não ajudam em nada, são incapazes de levar dona Isaura ao médico. Aparecem ou telefonam apenas para nos aborrecer. Se eu fosse você, mandava todos eles enfiarem as balinhas que trazem…

– Tia-a-na.

– Me desculpe, sei que você não gosta de palavrões. Se não tem coragem de mandar essa gente pro inferno, deixa comigo.

– Tiana: é minha sina. Se brigar com eles é pior, mamãe vai ficar triste.


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SOBRE PERUCAS E ASAS DE GRAÚNA

Deolinda – único símbolo sexual da Vila Invernada – não conteve o espanto:

– Gente: não acredito no que estou vendo. Olha só quem vem lá: Romualdo Bastos e o chato do irmão dele. Romualdo pintou os cabelos de preto, da cor das asas da graúna. O irmão colocou peruca – disse a moça de seios fartos e decote generoso a seus dois companheiros de mesa: Velho Marinheiro e Ananias.

– Barbaridade. Perderam o senso de ridículo. Estão pedindo para, como diz a moçada, serem zoados – limitou-se a dizer nosso Lobo do Mar.

Ananias – adepto dos panos quentes – tentou justificar o injustificável:

– Eles sempre foram vaidosos.

– Ananias: isso não é vaidade, é coisa de boiola – retrucou o Velho Marinheiro, com a concordância imediata de Deolinda. Vaidade é o sujeito andar limpo, de cabelos cortados, com uma roupinha mais ou menos. Você já viu alguma peruca que preste? Imagine eu, que tenho os cabelos brancos, chegar aqui de cabelos pretos, feito urubu. Francamente. O irmão do Romualdo ficou a cara do Zacarias.

– Zacarias?

– Aquele humorista, dos Trapalhões.

– É meio estranho, sim.

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– Meio estranho uma ova. Há anos, eu estava com Mafalda e minha neta num hotel em Serra Negra. Estávamos na piscina, quando chegou uma turma já meio tocada pela uca. O mais tolo de todos era um velho barrigudo, arrogante e peruqueiro. Continuaram bebendo. Depois, sempre falando alto, pularam na piscina. A peruca do homem se soltou. Então, começaram a jogá-la de um lado para outro. De mão em mão. E o velho puto. E mais puto ele ficou quando vários hóspedes, que não eram da família, resolveram aderir à farra. A peruca parecia peteca. Não esquentava a mão de ninguém.

– Que vexame. E aí? – quis saber Deolinda.

– Aí que, passado o efeito da cachaça, o velho peruqueiro ficou o feriado prolongado dentro do apartamento, trancado, cheio de vergonha. De lá não saía nem para fazer as refeições. Durante quatro dias, foi o assunto do hotel. Bem feito.


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RAPIDÍSSIMAS

SANTA FOSSA

Mais que um estado de espírito, é uma necessidade orgânica. Para quem não tem vergonha de chorar, claro.

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SANTA FOSSA (2)

O que seria da MPB sem ela?

SOLIDÃO

Não desperdice essa oportunidade.

CIÚME

Quem ama tem. Quem diz que não tem não ama. Ou é um afetado moral.

CIÚME (2)

Tavares, o canalha sincero de Vila Invernada, foi direto ao ponto: “Suruba? Só com a mulher dos outros.”

MICARETA

Fantasiaram a solidão de tristeza. Bobagem.

MULTIDÃO

Estão vendo esse bando ao meu redor? Não me serve pra nada.

BONS TEMPOS

Na infância, quase sempre, a gente não tem motivos pra sentir saudade.


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DE CARTOLA E PINCENÊ

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– Gostei de ver meu amigo Velho Marinheiro ontem à noite, na fila de autógrafos, todo nos trinques, arrumado, cheirando perfume bom. Até Deolinda comentou.

– O que ela lhe disse?

– Que o senhor estava um “gato”.

– Não me venha com zombaria, seu vagabundo.

– Verdade, Velho Marinheiro, juro. “Gato”. Palavra dela.

– Não me importa. Deolinda é minha amiga, tem idade para ser minha filha. Vamos voltar ao livro.

– Tudo bem. O senhor é quem manda.

– Ananias: tenho gênio difícil, mas não sou homem de fazer desfeita para seu ninguém, nunca fui. Não suporto uma coisa dessas. Não poderia deixar de ir ao lançamento do livro. Muito embora você saiba o que eu penso de Romualdo Bastos: é uma besta de discurso oco e empolado. Nem poderia ser diferente. O homem não faz outra coisa, além palavras cruzadas.

– Mas o senhor gostou do romance?

– Não.

– Mas já leu o livro inteiro?

– Não li nem vou ler. Livro é como mulher. De cara, a gente percebe se vale a pena. Aliás, se você quiser, eu lhe dou o meu exemplar.

– Não precisa. Eu também comprei um.

– Qual o problema? Você dá de presente para um desafeto. Não é possível que você não tenha nenhum desafeto. Além do mais, até onde sei, sua sogra está viva e com saúde.

– Está bom. Vou pensar. Mas por que não gostou do romance?

– Porque o livro é a cara do autor. Ele deve ter escrito aquela porcaria caçando palavras difíceis no dicionário, para impressionar os incautos. É uma escrita de cartola e pincenê, se me entende. O que poderia ser dito num único parágrafo consome páginas e mais páginas. Romualdo também abusa dos gerúndios. E o pior de tudo: escreve como se estivesse cumprindo uma missão impossível – salvar o mundo. A função do romance é outra. Se gostasse de conselheiros, vivia de mãos dadas com o padre Chico. Deixa pra lá. Mas, afinal, você quer ou não quer o livro?

– Aceito.

– Sua sogra vai gostar. Amanhã lhe trago o danado. Vamos esquecer o livro e o autor. Por mera curiosidade, Ananias, o que Deolinda lhe disse mesmo a meu respeito?


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O FAROL BAIXO DE ANANIAS

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Ananias está naquela fase da vida em que lembranças e questionamentos são, praticamente, inevitáveis. Num dia, orgulha-se de ter dito muitos “nãos”, de nunca – ao menos até onde sua memória alcança – ter aberto mão daquilo que julgava correto, do ponto de vista ético, para obter vantagens econômicas. Noutro dia, baixa o farol e se questiona se não tinha sido apenas besta. Afinal, passou a vida numa pindaíba daquelas, enquanto vários colegas de trabalho enricaram. Em certos momentos, ele tem orgulho de sua trajetória; em outros, vai ao fundo do poço sem fundo da tristeza, acha que sua história não é digna de um saco de lixo.

O fato é que o dilema tardio de Ananias – deveria ter feito isso ou deveria ter feito aquilo? – começou a torrar a paciência zero do Velho Marinheiro, que, a bem da verdade, é o único que se dispõe a ouvi-lo, pela simples razão de que dele gosta. Por quais motivos? Ninguém sabe bem. Há preferências que são quase inexplicáveis.

Naquela tarde fria e garoenta, Ananias ameaçou retomar a cantilena, mas foi interrompido de pronto pelo Velho Marinheiro, em dia de pouco papo:

– Escuta aqui, Ananias. Essa coisa de ficar toda hora remoendo o passado não leva ninguém a lugar algum. Só torra a paciência dos ouvidos alheios. Não dá para voltar no tempo. Eu já lhe disse: o passado mais machuca que ensina. Ora, você agiu de acordo com sua consciência. Fez bem. Mas não há – todo mundo sabe – almoço de graça. Se lhe serve de consolo, vamos lá: os meios qualificam ou desqualificam os fins. Preciso desenhar? Agora, vamos mudar de assunto. Deolinda está chegando. Espero que o decote de hoje seja generoso, como costuma ser. Vamos tomar uns tragos, comer bolinhos de arroz e assuntar bobagens. Ok?


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SÓ OS IGNORANTES SÃO FELIZES

– Ananias, meu amigo: ouça o que esse Velho Marinheiro tem a lhe dizer.

– Pode falar. Gosto muito de ouvi-lo.

– Não precisa puxar o saco. Todos nós somos ignorantes, porque ignoramos muitas coisas, talvez a maioria delas. O que, às vezes, vira motivo de angústia. Mas só os ignorantes são felizes. Agora, tem de ser um ignorante total, porque, aí, o sujeito não tem noção de sua burrice. Então, ele dá palpite sobre tudo, tem opiniões definitivas sobre qualquer assunto. Não tem a menor noção do quanto é ridículo.

– O que houve? Estou curioso.

– Acaba de sair daqui a besta do Chico Pança. Pra variar, estava tocado. Por mais de hora, torrou a paciência da gente, não sei se de todos, porque muitos aqui são iguais a ele. Pior ninguém consegue ser…

– Conheço o tipo. Mas, afinal, o que ele disse, Velho Marinheiro?

– Ananias: a anta desandou a falar sobre política. Disse que o Brasil precisa de um presidente macho, que feche o Congresso e o Judiciário, que soque a mesa e diga: “Daqui pra frente, quem manda somos eu e a junta de generais”.

– É um coitado.

– Disse mais: que ele nunca votou em ninguém, que a culpa é de quem vota. Que ele também nunca leu livro, nem perdeu tempo com jornais e revistas. Que tudo que ele sabe – a anta não sabe nada – é fruto da vivência. E foi por aí afora. Sempre aos berros. Ameaçou sentar-se à minha mesa.

– E aí?

– Aí, eu fiz o que tinha que ser feito: “Chico: não ouse, vá vender sua estupidez incurável em outra freguesia.” Ele saiu trançando as pernas, mas pisando duro. Ananias, o Carneiro é bom sujeito, mas é muito tolerante. Estou pensando em mudar de bar. Ou em só beber em casa. Isso aqui virou antro de insuportáveis. Vamos tomar uma, porque ninguém merece a prosa tola do Chico Pança. Carneiro, nossos copos estão vazios.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA

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– Não sei como você, Paulo, consegue passar o dia assim.

– Assim como, Carlota?

– Sem fazer nada.

– Estou lendo o jornal. É o que me resta fazer, mulher.

– Além de tomar umas e outras. Porque também não fica sem a cachaça e o cigarro. Deus me livre. Se ainda me ajudasse em casa.

– Não seja injusta, Carlota. É o único lazer que tenho.

– Injusta uma ova. Você acha que me divirto lavando suas cuecas?

– Você sabe que tenho a coluna arruinada.

– Isso é verdade, sempre foi um inválido.

– Sei aonde você quer chegar. Mas você é testemunha de que gastei muita sola de sapato atrás de emprego. Não tenho culpa da crise. Numa situação dessas, quem vai dar trabalho para um velho de 65 anos, quem? Cansei de ir atrás de um e de outro. Procurei muitos colegas por mais de uma vez. Em vão. Só sei fazer contas. Não sirvo para mais nada.

– Isso é verdade. A dona Candinha, da quitanda, me disse que o bicheiro está precisando de cambista. Por que você não o procura?

– Não entendo nada de jogo de bicho. Está aí coisa que não entra na minha cabeça. Além disso, é ilegal.

– Que luxo é esse, Paulo? Tudo bem. Quando vou às comprinhas, vejo por aí um monte de velho trabalhando para imobiliárias. Passam o dia sentado, não sei quanto ganham.

– Uma miséria.

– Melhor que nada. Além do mais, você e seu jornal ficariam longe dos meus olhos. O que não seria pouco.


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