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QUASE HISTÓRIAS: E O AMOR SAIU PELA JANELA (9)

– Inês, eu sou obrigado a admitir: você ganhou a batalha da comunicação. Tanto fez, tanto faz que os filhos – todos eles, sem exceção – não estão nem aí comigo. .

– Pelo amor de Deus, Jorginho, vai começar? É segunda, a casa está de pernas para o ar. Em vez de ficar reclamando, inventando coisas, você devia é me-ajudar. Ontem, não foi tudo bem? O que mais você quer? Todo mundo comeu, bebeu, conversou, deu risada, não teve sequer uma discussão. Até você se comportou:-bebeu, mas não encheu a cara nem o saco de ninguém. Coisa rara, convenhamos.

A guimba ainda fumegava no cinzeiro, mas Jorginho tratou de acender outro cigarro. Sinal de que não havia dado os trâmites por findos. Retomou a velha cantilena:

– Não acredito que você não perceba. Tento puxar conversa, mas é impossível. As respostas são todas monossilábicas. Agem como se eles estivessem me fazendo um favor. E o que é pior: as duas noras e os dois genros seguem a mesma trilha. Verdadeiro complô. Daqui a pouco, serão os netinhos. Fico sabendo por terceiros que o Júnior trocou de carro, que a Maria foi promovida no serviço, que Isaura conseguiu o título de doutora… Mandam as fotos das crianças só para você.

– Jorginho, o que você quer que eu faça? Fale com eles?

– Nem pensar. Nem pensar.

– Por que não?

– Inês, eu não sou homem de passar recibo.

– É verdade. Orgulhoso, você nunca passou recibo. Em compensação, deixou rastros por toda parte. Ora, eles não gostam que você beba e faça piadas tolas na frente de todos. Eles não esquecem o caso que você teve com aquela mulher. Por eles, eu não vivia com você há muito tempo.

– Aquilo é coisa do passado. Faz tanto tempo, francamente. E, de lá para cá, nunca mais aprontei, Inês. Você sabe disso.

– Quem apanha não esquece. Eles eram pequenos. Sofremos um bocado.

– Por que você está comigo, se por eles… Você ainda me ama, Inês?

– Jorginho, vai tomar seu aperitivo, vai. Não vou fazer almoço. Sobrou muita coisa de ontem.


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RAPIDÍSSIMAS

DIFERENÇAS

Crianças passam pela fase do “por quê?” Uma chatice. Velhos enveredam pelo beco do “para quê?” Uma lástima.

* * *

RECEITINHA

Na dúvida, mostre-se pessimista. Muitos vão tomá-lo por “cabeça”.

* * *

E OS AMORES SE FORAM

Não lamento. Fui junto.

* * *

GLÓRIAS

Vivo das que jamais tive.

* * *

LIBERDADE, LIBERDADE

Não tenho mais opinião definitiva sobre nada.

* * *

TAREFA IMPOSSÍVEL

Perdão, senhor, jamais me recolherei à minha insignificância. Dela nunca saí.

* * *

BAIXA TEMPORADA

– Pois é, minha velha, está difícil inventar.

* * *

DE CARA LIMPA

É difícil sustentar, com a maioria das pessoas, um papinho de meia hora.

* * *

LAGOSTA

– Querida: você tem muitos sabores. Meu predileto é o de frutos do mar.

* * *

TPM

– Isaura, o que acaba com você não é a feiura: é o gênio.


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QUASE HISTÓRIAS: SANTA CUMPLICIDADE

CENA 1

– Você está ficando velho, meu velho. Não se preocupe, não. Ninguém lhe dá a idade que, de fato, você tem. Parece ter quinze anos a menos. Continua bonito,
conservado. Mas – como eu – envelheceu.

– Por que diz isso?

– Seus olhos marejam por qualquer coisa. Os meus também marejam à toa. Que importa? Estamos juntos.

* * *

CENA 2

Argemiro (8.6, hipertenso, cardíaco) e Esmeralda (8.7, obesa, diabética) eram casados há sessenta anos. A cada dia, a cumplicidade entre eles aumentava ainda
mais:

– Tudo bem, Argemiro, não vou dizer aos meninos que hoje você tomou hoje uma cachaça escondida e duas latas de cerveja também.

– Você jura por Deus, Esmeralda, que não vai contar aos meninos que bebi? Eles estão loucos pra nos internar…

– Juro. Mas só se você jurar também que não vai contar pra eles que eu bati uma lata de leite condensado.

– Claro que não vou contar nada pra ninguém. Só não podemos exagerar.

– Quer uma balinha de coco?

– Não, obrigado. Vou tomar mais um gole.

* * *

CENA 3

Impossível não ouvir, que bom ouvir! Quase duas horas de viagem. Eles não paravam de conversar conversa deliciosa – os dois sentados nos bancos atrás do meu.

Comentavam a paisagem, as notícias do dia, falavam – lúcidos, serenos, apaixonados – sobre tudo. Tinham, salvo engano desse contador de boteco, 190 anos de
amor.

Melhor tirar os óculos para leitura, fechar o livro e ouvir com atenção.

Hora de aprender.

Lá pelas tantas, ele disse a ela:

– Acordei duas e meia, estava meio ansioso, pensei em lhe chamar… Resolvi não incomodá-la.

E ela, feliz da silva, lhe devolveu:

– Bobagem. Você nunca me incomodou. E continua não me incomodando. Não me incomodará nunca.

* * *

CENA 4

– Cadê meu chinelinho de quarto, meu velho?

– Não sei, não, querida. Vou procurá-lo.


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RAPIDÍSSIMAS

 TRIBO

Minha taba é minha oca.

* * *

TRIBO (2)

Ante a dificuldade de encontrar amigos, a maioria opta por ingressar em tribos.

* * *

DEIXA PRA LÁ

Mágoa mata. Perdoar é para poucos. Às vezes, se possível, melhor não lembrar.

* * *

TIMING

Após décadas de escravidão, a liberdade tardia pode virar estorvo.

* * *

HOMEM DE FÉ

Sempre achou que dava para fazer de cada tombo uma limonada.

* * *

PROGRESSÃO GEOMÉTRICA

De mentirinha em mentirinha, transformou-se num mitômano.

* * *

BONS SONHOS

O galo cantou, o dia amanheceu: hora de nanar.

* * *

PACIÊNCIA

Pernas, braços e membros já não dão conta dos melhores pensamentos.

* * *

PELAS COSTAS

Quando o olho cresce, prepare-se: a facada é certa.

* * *

CONDIÇÃO

Falar sozinho é muito bom, desde que não se elimine o contraditório.

* * *

AI, AI, AI

Esse coração insensato já não suporta mais sua coerência.


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RAPIDÍSSIMAS

ÉTICA NA POLÍTICA

Assim vamos: o roto fala do rasgado, o rasgado desanca o maltrapilho. E todos afanam.

* * *

RITA LEE

Na pior idade, a forma mais comum de fazer amor é por telepatia.

* * *

QUEM DIRIA?

Tudo aquilo não passava de um faz-de-conta.

* * *

COMPADRE:

A ida é certa, mas não digo o mesmo da volta.

* * *

TODO MUNDO FICA VELHO

O problema é continuar burro.

* * *

ABUSADA

Onde você arrumou essa intimidade que nunca lhe dei?

* * *

TIM-TIM

Um beijo pra ti, outro pra mim.

* * *

ESTÁ DIFÍCIL

Hoje, pelo visto, só pego no tranco.

* * *

PILOTO AUTOMÁTICO

Quando ele assume o comando, o T já era.

* * *

SANTA CHATICE

Todo pai é chato. Se ele não for chato, não é pai.

* * *

HISTÓRIAS

Já me contaram tantas. Quase todas eram falsas.

* * *

SANTOS COPOS

Um cantinho, um violão… E o coração voa. Enternecido.


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QUASE HISTÓRIAS: QUEM É O CHEFE?

O candidato fez o que pode para quebrar as resistências dos ouvintes. Para tanto, valeu-se de sua larga experiência de ilusionista. Afinal, aquela não era sua primeira incursão na árdua tarefa de pedir votos – para ele próprio e para outrem. Distribuiu sorrisos largos e tapinhas nas costas, não deixou de perguntar como andava mãe e pai de uns e outros, financiou cachaça e cerveja para todos aqueles que estavam dispostos a quebrar o gelo. Enquanto a carne de segunda queimava na churrasqueira, fez seu discurso, entremeado de piadinhas sem graça e promessas vãs. Foi breve. Era do ramo. Estava na estrada há quase vinte anos.

Terminada a falação, o candidato abriu a palavra a quem quisesse se manifestar. Romualdo Bastos – o grande cruzadista de Vila Invernada, talvez o único -, pediu pela ordem e engatou uma sugestão:

– O que o senhor acha de incluir no currículo da rede estadual uma nova disciplina? Precisamos despertar em nossos jovens o interesse pelo saber. Fazer palavras cruzadas é a porta de entrada desse mundo maravilhoso do conhecimento.

Com ar solene, o candidato dirigiu-se a seu factótum:

– Anote aí, Gustavo, essa será uma de minhas prioridades. Vou trabalhar por sua aprovação, desde o primeiro dia de meu próximo mandato.

De jogo de camisas para o time do bairro à reforma do campo de malha, os pedidos se sucediam. Gustavo registrava com esmero as novas prioridades de Sua Excelência, um homem em prol de todas as causas que lhe pudessem render uns votos.

O Velho Marinheiro resolveu, então, entrar na conversa:

– Doutor, o senhor disse que já fez isso e aquilo, que fará muito mais no próximo mandato, que seu partido é formado por gente séria, por pessoas que não roubam nem deixam roubar etc. Só não nos disse o essencial.

O candidato mordeu a isca, não tinha como escapar:

– Perdão, mas o que seria o essencial para o caro amigo?

– Ora, o senhor tem uma dezena de processos por furto aos cofres públicos. Jornais dizem que, não satisfeito com o próprio rendimento e com as negociatas, Vossa Excelência toma parte dos salários de seus funcionários de gabinete…

– Tudo mentira da imprensa golpista.

– Ninguém faz sozinho tanta lambança. A qual quadrilha o senhor pertence? Quem é o chefe de seu bando? Precisamos conhecer seu grau de periculosidade.


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“O SENHOR TEM CERTEZA DE QUE NÃO É CORNO?”

Num passado não muito distante, aos secretários de redação dos jornais não bastava dominar os fundamentos da profissão. Era preciso ter vocação para carrasco. É lícito imaginar que, se eles pudessem, obrigariam repórteres e redatores novatos a colocar os joelhos sobre grãos de milho, por horas. Ou fariam, com satisfação, uso da palmatória. Eram (quase) todos eles adeptos da “pedagogia da porrada”. Ante a impossibilidade do castigo físico, partiam para a humilhação pública e verbal. Mandavam repórteres e redatores reescrever textos que rasgavam sem ao menos ter lido as primeiras linhas. E a justificativa era sempre a mesma: “Está um lixo”.

Nos anos 60, Ricardo Noblat era um jornalista em início de carreira. Época em que conviveu com o secretário de redação do Jornal do Commercio, no Recife. Segundo ele, Eugênio Coimbra Júnior “era um homem mau, muito mau”. Toda vez que ele convocava algum repórter ou redator à sua mesa de trabalho, a redação tremia. Humilhação à vista, grosseria na certa. Ninguém ria da desgraça alheia. Até porque muitos já haviam experimentado daquele fel. A historinha que segue foi extraída do livro “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, de Noblat, editora Contexto.

Certo dia, Coimbra Júnior convocou um repórter:

– O senhor é casado? – quis saber o secretário de redação.

– Sou – respondeu o repórter, fazendo esforço medonho para se equilibrar sobre as pernas.

– O senhor tem certeza de que sua mulher o ama?

– Claro. Certeza absoluta. Nós nos damos muito bem.

– Tem certeza de que não é corno? – insistiu Coimbra Júnior, com a voz nas alturas, para que todos pudessem ouvi-lo.

– Minha mulher é honesta. Por que isso?

– É que o senhor começou o texto assim: “Pelo simples fato de ter encontrado sua mulher nos braços do amante, o comerciário a matou com três tiros…” Só um corno escreve uma coisa dessas. Pegar a mulher nos braços de outro lhe parece coisa pouca?

O pobre repórter tentou engatar uma justificativa:

– É que eu achei…

– O senhor não está aqui para achar nada, mas para narrar os fatos. Quando quiser sua opinião, eu lhe peço.

Coimbra Júnior, à sua maneira, passou a lição: não se mistura fato com opinião.


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RAPIDÍSSIMAS

Bacanal, de Pablo Picasso

BACANAL

O “pai dos burros” nos ensina: suruba é um encontro de gente como Lula, Dilma, Temer, Sarney, Renan, Jucá e desqualificados afins.

* * *

MULHER DE CÉSAR

A ela, não basta ser honesta: tem de parecer honesta. A maioria dos nossos representantes não parece honesta. Nem é.

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TOMA LÁ, DÁ CÁ?

Qual o quê! A maioria, infelizmente, só conhece o toma lá.

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MENTIRA

Não é verdade que os políticos são iguais. A maioria é muito pior que a minoria. Aqui fora, entre nós, simples mortais, a situação não é muito diferente.

* * *

CONCLUSÃO INESCAPÁVEL

Se o Parlamento é a cara da sociedade, como afirmam os políticos, é forçoso admitir: somos uma merda.

* * *

NA REPÚBLICA DO RABO PRESO…

É impossível saber o prazo de validade de um ministro.

* * *

A QUESTÃO É OUTRA

Em breve, ninguém mais perguntará ao parlamentar a que partido ele pertence, mas, sim, de qual quadrilha ele faz parte?

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MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

Para viver no Brasil, não basta ter nervos de aço. É preciso ter um saco imenso.

* * *

TIRO AO ALVO

Temer virou especialista: não erra um tiro no próprio pé.

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DELAÇÃO PREMIADA

Cuidado, dona Marisa. Se Dom “Menas”, para salvar a própria pele, der com a língua nos dentes, o inferno lhe espera.

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CHIQUEIRO

Elles não se emendam nunca: nascem porcos, vivem e morrem como porcos.


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A QUEM? A QUEM?

Graciliano Ramos, por Hugo Braz

Graciliano Ramos, o “velho” e eterno Graça, dispensa apresentação. Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, autor de livros inesquecíveis, era de um rigor absoluto consigo mesmo, tanto na vida pessoal como na política e no trabalho literário: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

Austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux foi ensaísta, crítico de literatura e jornalista. Chegou ao Brasil em 1939, com sua mulher. Judeus, fugiam da escalada de terror promovida pelos nazistas.

Afinidades intelectuais – mas não só elas – fizeram Graciliano e Otto grandes amigos. Ambos eram pessimistas incorrigíveis. Conta-se que, numa das inúmeras conversas que tinham nos cafés e livrarias do Rio de Janeiro, ocorreu a que segue:

– A coisa está feia, vai de mal a pior. Amanhã, estaremos pedindo esmolas – teria dito um deles.

– A quem? A quem? – teria questionado o outro, ainda mais desolado.


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CADA UM COME O SEU!

O caipira tinha dinheiro de sobra, gostava de ostentar seus carrões, roupas de grife e correntes de ouro, não abria mão de frequentar restaurantes caros. Mas não gostava de passar por jeca – sejamos francos: ninguém gosta de passar por jeca, ainda mais se for jeca.

Certa feita, nosso matuto veio para a capital a negócios. Resolveu jantar num restaurante chique. A desgraça é que ele não tinha a menor ideia do que pedir para comer e beber. Não entendia o que estava escrito, em francês, no cardápio. Escolheu sua mesa a dedo. Ao lado da mesa de um grã-fino.

– Garçom, me traga o prato de sempre – pediu o bacana, frequentador assíduo da casa.

O caipira não deixou por menos:

– Dois.

O bacana pediu ao garçom “o vinho de sempre”.

E o caipira:

– Dois.

Nosso jeca foi nessa batida até a hora da sobremesa. O bacana estava a ponto de estourar. E estourou:

– Garçom, isso aqui está insuportável. Quero o manobrista.

– Dois, pediu o caipira.

– Escuta aqui, cidadão: um manobrista dá para os dois.

O caipira retrucou:

– Nada disso! Cada um come o seu.


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OS GEMIDOS DE NÉLSON RODRIGUES

O criador do moderno teatro brasileiro, o polêmico e genial Nélson Rodrigues, foi ele próprio um grande personagem. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeros percalços: teve o irmão, também jornalista, assassinado; o pai, por conta da morte do irmão, logo se foi; a tuberculose o mandou diversas vezes para sanatórios; a úlcera não lhe deu tréguas… Mesmo assim, Nélson Rodrigues trabalhou feito mouro, escreveu inúmeras peças de teatro, crônicas e tudo o mais que fosse preciso escrever para garantir a subsistência da família.

Sua trajetória, em detalhes, está descrita em “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro. Um livro que deve – mais que lido – ser degustado, pela riqueza de informações e pela qualidade do texto. É dele que retiro a historinha que segue.

Durante três meses, Nélson ficou “internado” na sala de sua casa, já que se recusava a voltar para o hospital, onde fora operado da vesícula e para o qual fora levado outra vez por conta de complicações no pós-operatório. Vivia cercado de gente: familiares, vizinhos e parentes. “Durante o dia, o ‘quarto’ de Nélson tinha uma plateia de FLA-FLU”, escreve Castro.

Nas raras vezes em que ele ficava só (tinha medo de morrer sozinho), Nélson apelava em tom dramático para a sogra:

– Dona Concetta, fique comigo. Venha me ouvir gemer.

* * *

Nélson adorava sanduíche de mortadela. Mas a úlcera, sempre ela, lhe castigava. O mestre, então, chamava o contínuo – que à época, ao contrário de hoje, não era guri – e lhe propunha um bom negócio. Que o homem fosse buscar o sanduba. Ele pagava com gosto. Mas tinha um preço: o sortudo tinha que comê-lo na frente de Nélson. Que babava de satisfação.


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NAQUELA NOITE, OTTO LARA “VIROU” ZÉ APARECIDO

O mineiro Otto Lara Resende (1922-1992) viveu mais tempo no Rio de Janeiro que em seu estado natal. Se nunca abandonou a “mineirice” trazida de São João Del Rei, incorporou, definitivamente, o senso de humor dos cariocas. Advogado, jornalista, escritor e frasista de primeira, Otto formou com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, seus amigos de juventude, todos igualmente mineiros e talentosos, o que eles próprios definiram como os quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Ou: “adolescentes definitivos”.

Antes de tudo, Otto foi um exímio contador de casos. Há quem o considere o “ultimo causeur”. Ficcionista, ele próprio transformou-se num personagem. Diz-se que certa noite, em plena ditadura militar, ele entornou uns uísques a mais no famoso Antonio’s, reduto da boemia intelectual do Leblon. Lá pelas tantas, subiu numa cadeira e fez um duro discurso contra o regime vigente. Mais um gole, Otto voltou ao palanque improvisado, agora para comunicar à assistência, em alto e bom som, quem era: “Anotem o meu nome: José Aparecido de Oliveira”.

Em tempo: José Aparecido de Oliveira, ex-secretário do ex-presidente Jânio Quadros, mineiro como ele, era amigo de Otto desde os tempos de juventude, nas Gerais. Se a história é verdadeira ou falsa, ninguém sabe. Nem o jornalista Benício Medeiros, autor de um excelente perfil sobre o “mais carioca dos mineiros”.

Da esquerda para a direita: Paulinho, Sabino, Otto e Hélio (agachado)

Nos tempos de juventude, numa brincadeira, Fernando Sabino fez a seguinte quadrinha, para adornar a lápide de Otto:

“Aqui jaz Otto Lara Resende
mineiro ilustre, mancebo guapo.
Deixou saudades, isso se entende:
Passou cem anos batendo papo.”


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RAPIDÍSSIMAS

PERDOAR? PERDOEI

Mas não me peça para ser hipócrita. Toda vez que relembro (ainda que não queira) dói uma enormidade.

* * *

INADIMPLÊNCIA

Aqui se faz. Aqui se deve. Nem sempre se consegue pagar. Paciência. Chame o síndico: Tim Maia, o único cara que bancava a festa, mas não ia ao próprio aniversário.

* * *

MELHOR DOS MUNDOS

Não tenho opinião definitiva sobre nada.

* * *

TAREFA IMPOSSÍVEL

Perdão, senhor, jamais me recolherei à minha insignificância. Dela nunca saí.

* * *

E OS AMORES SE FORAM

Não lamento. Fui junto.

* * *

SEM ELA, NÃO DÁ

– O melhor do amor é a cumplicidade.

* * *

HISTÓRIAS

Já me contaram tantas. Quase todas falsas.

* * *

BESTEIRINHA

E eu que, hoje, precisava tanto de um colo ganhei torcicolo.

* * *

QUANDO A SAUDADE BATER…Serei para você vaga lembrança.

* * *

LUAS

Há dias em que tenho orgulho de mim. Há dias em que não me olho no espelho. Coisa de maluco involuntário.


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MEMÓRIAS DO PARKINSON

Ninguém conseguia entender aquele desassossego diuturno do pai. Justo ele, sempre sereno, quase monge. Não tinha boca para reclamar de nada. Qualquer comidinha por mais trivial que fosse – ovo frito, picadinho etc. -, encarava com satisfação sincera. Aposentado, passava horas e horas lendo seus muitos livros, uns cinco mil, algo em torno disso. Quem se irritava era a mãe, que gostava mesmo de conversar, ela dizia que não tinha companhia, que aquilo não era vida, coisas do tipo.

O pai, para surpresa de todos, foi-se transformando num homem irritadiço. Passou a reclamar de tudo: do sofá da sala, do colchão, das cadeiras da cozinha. No apartamento da praia, era a mesma coisa. Queria trocar todos os móveis, algo descabido. Tudo (e creio que todos) lhe aborrecia. Já não tinha a mesma paciência para com os livros.

O médico da família não dera conta do recado. Gastou-se uma fortuna com um geriatra tão famoso quanto picareta. E nada. O terceiro doutor também não resolveu, mas pelo menos teve uma serventia: pediu ao pai que fizesse hidroginástica. Uma fisioterapeuta da clínica foi direto ao ponto: era bom levá-lo a um neurologista. Àquela altura, após vários tratamentos, o pai só fazia piorar. Cada vez mais impaciente e trêmulo, relutou em seguir a sugestão, não acreditava mais nos médicos. Mas foi. A pulso.

A neurologista lhe pediu uma série de exames, para medir o tamanho do estrago já feito pela doença: Parkinson. Receitou alguns medicamentos. Visivelmente aborrecido com o diagnóstico, o pai não queria parar na drogaria. Voto vencido.

Quando o filho chegou em casa, duas horas depois, foi avisado de que o pai ligara, queria falar com ele:

– Filho, já tomei os dois remédios da noite. Eu me sinto tranquilo e desembaraçado. Milagre.

Naquela noite, pai, mãe, filho, filha e nora choraram de alegria. Mesmo sabendo que não haveria cura.


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BODAS DE NADA

– Terça-feira está chegando, Marli.

– E daí, Osvaldo?

– A data não lhe diz nada, querida?

– Xiii. Vem, não. Quando você fica derretido feito margarina na frigideira, está pensando em aprontar uma das suas.

– Mas essa terça é uma data especial, Marli.

– Sei. Terça é dia de limpar a casa, fazer almoço e janta, lavar e passar roupa, o de sempre. Ah, é dia de feira também. Tem mais essa.

– Marli, faremos 40 anos de casados. Uma vida…

– Uma vida besta. Nos cinco primeiros anos, até que foi bom. Depois só eu sei. Não fossem os filhos…

– O que você faria?

– Ou picava a mula ou pulava de cabeça numa piscina sem água.

– Que horror, Marli.

– Não se faça de esquecido, Osvaldo. Não é possível que você não se lembre de metade do que aprontou.

– Por que metade?

– Porque boa parte do tempo você viveu tocado.


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RAPIDÍSSIMAS

FIDELIDADE

Verdade seja dita: Isaura sempre traiu Osório. Mas só em pensamentos.

* * *

SEJA FELIZ

Dispense o reconhecimento alheio.

* * *

CONSOLO

Que, cedo ou tarde, o mundo vai acabar é uma hipótese plausível. Mas não estarei por aqui para assistir ao espetáculo.

* * *

DIVÓRCIO

Ela nunca deu motivos para ele ir embora. Precavida, foi antes.

* * *

DESCULPA

– Querida, vou dar um instantinho no bar para regar meus planos.

* * *

GOSTOS

As mulheres, em geral, vão às compras; os homens, aos copos.

* * *

CULTURA DE SOVACO

Passou a vida carregando livros sob os braços.

* * *

PREÇO

Solidão não mata, mas não prescinde de fantasias.

* * *

NA LATA

– Meu caro, é sempre desprazer reencontrá-lo.


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A JINA DE JAÚ É COM JOTA. E NÃO SE FALA MAIS NISSO. CERTO?

Cadê a Jina?

Meu sogro, verdade seja dita, foi homem de muitas qualidades. Tinha memória de elefante, era inventivo e, acima de tudo, inabalável. Jamais, em momento algum, se deixava apanhar em calças de guri. Nesses três quesitos, só havia uma pessoa capaz de enfrentá-lo: dona Tereza, sua mãe. Aliás, puxar pela memória e desafiá-la no limite, salvo engano, era o esporte que mais os encantava, para desespero da assistência.

Nas tardes de domingo, mãe e filho travavam duelos memoráveis sobre qualquer assunto, muito embora houvesse um tema que lhes proporcionasse prazer imenso: dizer, por ordem de arrebentação, os dezoito nomes (todos iniciados com J) dos filhos de um casal que haviam conhecido em Jaú, terra de meu amigo José Cássio, jornalista dos bons.

Antes de prosseguir, convém ressaltar que dezoito foi resultado de um armistício entre as partes, após anos de guerra (quase) sangrenta. A mãe de meu sogro jurava que o casal de Jaú tivera dezenove filhos. Meu sogro não arredava os pés dos dezessete. Chegaram aos dezoito por exaustão e medo de que o debate não seria encerrado, por falta de plateia. De qualquer forma, das três uma: ou rasgaram a certidão de nascimento de um dos rebentos, ou deram vida a quem nunca a teve, ou – o que é mais provável – a capacidade do casal fazer filhos foi superdimensionada.

Soado o gongo, a mãe do filho dava a largada:

– Jean, José Josefa, Jina…

– Pera aí, vó: Gina é com G, não com J, protestava uma das netas.

– Aquela Gina era com J, retrucava a avó, à beira de um ataque de nervos, pela insolência da guria.

Este era um dos raros momentos em que os contendores se uniam.

– Aquela Gina era com J, sim. Eu também vi o papelucho, afirmava categoricamente o filho em defesa da mãe.

Frequentemente, a contagem não batia. Ou passavam dos vinte nomes, ou ficavam aquém dos quinze. Mas ninguém percebia, porque ninguém prestava mais atenção na contenda. E não seria eu, um estranho no ninho, que iria me meter a besta.


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RAPIDÍSSIMAS

NÃO SE ILUDA

Há jaulas e jaulas. Mas todas são jaulas.

* * *

NÃO SE ILUDA (2)

Numa jaula, você estará sempre protegido. E fodido.

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ALTO LÁ

Favor não confundir sinceridade com falta de educação.

* * *

CURTAM, CURTAM

Amanhã, ela estará seca; ele subirá com dificuldade.

* * *

GARFIELD

Viajou pouco. Por preguiça de fazer e desfazer as malas.

* * *

PERDÃO, QUERIDA

Há tempos não ando, só desando.

* * *

TRISTEZA

A passarinha posou no muro, me olhou, olhou e foi embora. Sem me dar um mísero pio.

* * *

ENGOV

Essa euforia, amanhã, com certeza, lhe apresentará a conta.


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RAPIDÍSSIMAS

REDUÇÃO DE DANOS

Melhor não fazer nada que fazer nada que não preste.

* * *

JÁ ERA

Justificativas não mudam a história.

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FINAL INFELIZ

O vício (quase) sempre vence. Que lástima.

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POP STAR

Muitos fazem, poucos levam a fama.

* * *

ELA JÁ SABE, BOBO

– Perdão, Rosinha. Broxei.

* * *

NÃO RECLAME

Poderia ser pior, sempre pode. Já imaginou hemorroidas a esta altura do campeonato?

* * *

SÁBIAS PALAVRAS

E o setentão falou: Quem me dera poder optar. Trocaria a experiência inútil pela ereção dos trinta.

* * *

DUDU

Um neto sempre lhe dá a boa ilusão de que é possível (ainda) fazer grandes coisas.


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AS PAPINHAS DO PIERINO

– Nossa Senhora! Hoje o senhor está com uma cara…

– Cara de que, Ananias?

– De poucos amigos.

– Nunca tive muitos amigos, dois ou três, no máximo. Já é muito.

Ananias enfiou a viola no saco, emudeceu.

O Velho Marinheiro, após longos minutos de silêncio, pediu uma nova rodada para o Carneiro, acendeu o cigarro e desandou a falar:

– Não é nada contra você, Ananias. Mafalda é que me tira do sério. Já cansei de lhe falar: “Mulher, não gosto de me intrometer na vida dos outros. Agora, não me calo ante coisas que acho erradas e afetam pessoas indefesas ou das quais eu gosto. Então, se é para me contar lambanças alheias e esperar que eu fique calado, pegou o bonde errado”. Adianta falar? Mafalda me conta as coisas e depois reclama de minhas reações. Vai entender.
Ananias estava mudo, mudou permaneceu, receoso de irritar ainda mais seu amigo, já a ponto de explodir.

– Você não está interessado na conversa?

– Sou todo ouvidos, Velho Marinheiro. O que aconteceu?

– Meu neto e a mulher dele – peru e perua, dois basbaques deslumbrados – levaram meu bisneto ao médico. Diagnóstico: a criança está desnutrida, gorda e desnutrida. Que vergonha! Se ainda fossem miseráveis, vá lá, daria para entender. Mas dinheiro não lhes falta, ao contrário. A criança anda mais enfeitada que poodle de pet shop, tem toda sorte de brinquedos e roupas de grife. A mãe, porém, nunca fez uma sopa para o menino. Diz que não tem tempo, vida agitada, trabalho, cursos, festas e viagens. O pai compra potes e mais potes de “papinha” pronta e tudo o que é tranqueira industrializada. E se gaba: “É da melhor qualidade, custa caro!” Pode? É essa a alimentação básica do menino: papinha industrializada. Você precisa ver a conversa dos dois sobre criação de filhos. É como se dizia: “quem vê cara não vê coração”. Posam de pais ultramodernos, discutem métodos educativos e sei lá mais o quê. Falam de viagens futuras pelo mundo. Mas são incapazes de fazer um caldo para Pierino, de dar uma fruta na boca de Pierino! Deixam tudo para a tal da babá.

– Perdão, Velho Marinheiro. Quem é Pierino?

– A puta que o pariu, Ananias.

– Como?

– Meu bisnetinho. Perdão. Ora, quem mais seria Pierino, Ananias? Tenha paciência.

– Claro, claro.

– Mas lhes falei um bocado.

Por via das dúvidas, Ananias pediu mais uma rodada completa para Carneiro, antes de perguntar ao Velho Marinheiro:

– E o que o senhor lhes disse?

– Olha aqui, vagabunda e vagabundo, quem tem preguiça de fazer comida para o próprio bebê não serve para nada. O que lhes falta é vergonha na cara. Vão-se catar. Se quiserem, Mafalda e eu criamos Pierino. Mais um não vai nos aleijar.

– E eles?

– Desligaram o telefone na minha cara. Juraram que nunca mais pisam em minha casa. Danem-se, me fariam um favor.


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