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MÃE, O PAI ARRUMOU EMPREGO!

Um dos pequenos, tão logo viu o pai abrir a porta com um pacote na mão esquerda, começou a berrar de satisfação:

– Mãe, o pai arrumou emprego, o pai arrumou emprego, vem ver, mãe, ele comprou maçã pra nós!

Os irmãos engrossaram, com igual entusiasmo, a gritaria do precipitado. E avançaram sobre o pacote com as frutas.

Ao ver a cara amarrotada de Toninho, Odete, de imediato, teve certeza de que a história não era bem aquela. Conhecia o marido como ninguém. Mas nada falou além de “oi”. Lavou as maçãs em silêncio, deu uma para cada filho, esperou que os três voltassem a brincar no quintal. Então, puxou conversa:

– Conseguiu alguma coisa?

– Nada, Odete. Ainda não foi dessa vez.

– Calma, Toninho. Uma hora vai dar certo.

– Deus te ouça. Não sei como vamos pagar o próximo aluguel.

– Meu pai e meu irmão ficaram de nos ajudar. Fome – tenho fé – não vamos passar, não. Mas beber não ajuda em nada, homem, só faz piorar o que está ruim.

– Eu sei. É que eu preciso dormir essa noite.

Em busca de outra maçã, um dos meninos retornou à cozinha e perguntou pelo pai.

– Foi dormir.

– O pai é gozado. Arrumou emprego e continua de cara feia.

– Liga não, filho. Você não conhece seu pai? Está tudo bem. Brinquem mais um pouquinho, depois vamos tomar banho, jantar e dormir.

– Tá bom, mãe. Fala para ele trazer mais maçãs, amanhã.

– Falo, sim.


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OS SANTOS ESTÃO DE FÉRIAS, MAS PLANEJAM, PLANEJAM…

Ilustração de Gustavo Rosa

Os Santos são previsíveis. Todo ano é a mesma história. Passadas as festas de final de ano, lá vão eles, de guarda-roupa renovado – invariavelmente, as roupas do verão passado já não lhes servem mais -, rumo à praia, onde permanecem por, pelo menos, quinze dias. Tempo de esbórnia familiar: muito sorvete, caipirinha, cerveja, espetinho de camarão, porção disso e daquilo, pastel de praia etc. Verdade seja dita: os Santos, rebentos inclusos, têm estômagos privilegiados. Comem e bebem de tudo, reclamam de nada. Às vezes, muito raramente, um ou outro é vítima de diarreia passageira, nada que soro caseiro e água de coco não possam consertar em 24 horas.

Durante o merecido ócio remunerado, os Santos se divertem a valer – e fazem planos, claro. O mais recorrente deles é tratar da saúde, fazer dieta saudável e duradoura, até que os muitos quilos extras, o colesterol e o diabetes os abandonem. “De vez”, no dizer sempre incisivo da mãe do casal de gorduchos. Mais cauteloso, avesso a promessas vãs, o pai se limita a dizer: “Vamos ver, vamos ver. Não é hora de pensar nisso. Até porque ninguém vai começar coisa alguma antes do Carnaval”. Mas a Quaresma promete, de acordo com a senhora Santos:

– Querido, não tenho coragem de fazer a bariátrica. Sei que você também não. Mas, estamos gordos demais, assim não dá para continuar. Amanhã, a gente tem um troço e deixa tudo aí. Além disso, também quero usar umas roupinhas mais transadas, sensuais, entende? Na José Paulino, não tem nada que me sirva. As malditas coreanas não têm bunda e acham que todo mundo deve ser igual a elas.

– Roupinha sensual para quê? Que história é essa?

– Para você, bobalhão. Meu gato angorá.

– E o que nós vamos fazer?

– A dieta da Quaresma. Uma amiga me ensinou, tenho tudo anotado no computador. Tiro e queda.

– Sei, não. Quarenta dias de água e mato?

– Vale a pena o sacrifício. Quando a gente estiver bem magrinho, vamos comemorar a Páscoa com estilo: bacalhau, vinho, chocolate, colomba. Tem mais: outra amiga já me passou umas receitas de doces caseiros irresistíveis: canjiquinha com amendoim, doce de abóbora com coco…

– Agora, senti firmeza.


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RAPIDÍSSIMAS

ESTORVO

O velho sumiu. A família levou dez dias para se dar conta.

SINA

Quem sai aos seus – é certo – não degenera, mas também raramente se regenera.

CELIBATO

– Cadê a irmã Cidinha?

– Padre Paulo comeu.

BUMERANGUE

– Américo, você é um fracassado, um homem que nunca teve ambições.

– Você está certa, Josefa. Podia ter comido coisa melhor.

CHÁ DE CADEIRA

Fulano nunca chega no horário combinado. Hábito, mania? Não. Falta de educação.

MENTIRA

Não é verdade que todos os políticos são iguais. A imensa maioria é muito pior que a escassa minoria.

DUPLA FACE

A mão que afaga também afana.

HOMENS & MULHERES

Quem alardeia intimidades não vale o que come.

DORES

Não se iluda: elas são intransferíveis.

NA DÚVIDA

Seja generoso, sai mais barato.


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HORA EXTRA

Quadro de Guy Rose

– Assim, não é possível. Está ficando difícil, mãe. Difícil, não: impossível. A senhora tem que se ajudar um pouco, saco! Tem que se alimentar direito, beber água, tomar os remédios, fazer os exercícios que o médico mandou. Puta que pariu!

– Calma, filha, calma. Se eu levanto do sofá, vocês brigam comigo, me xingam de tudo que é nome…

– Claro, queria o quê? É levantar para cair. Já lhe disse: quer ir ao banheiro? Chame alguém.

– Se eu chamo, vocês reclamam, ficam bufando.

– Não dá para ficar o dia todo à sua disposição. A gente tem mais o que fazer, mãe.

– Por isso, bebo pouca água, para não incomodar toda hora.

– Tem é que usar fralda dia e noite.

– Fico assada.

– Assada, não: mimada.

– Filha, minha doença não tem jeito. Tenha paciência.

– Eu sei. A senhora não vai melhorar mesmo. Mas quer piorar ainda mais? Já não basta o trabalho que está dando? Francamente. Há dez anos, desde que a senhora veio para cá, ninguém tem vida nessa casa. Merda.


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RAPIDÍSSIMAS

GENGIVAS

As pessoas que mais admiro são aquelas que – sem motivo aparente – ainda sorriem.

* * *

BENGALA

Exceto os mitômanos, nós, os velhos, não mentimos. Só não nos lembramos bem do que não houve.

* * *

DECADÊNCIA

Justiça seja feita: quem espera sempre a alcança; quem não espera também.

* * *

FAROESTE

Assisti a muitos clássicos nos últimos dias. John Wayne, Clint Eastwood e eu eliminamos muitos bandidos. Só não chegamos a Brasília. Questão de tempo.

* * *

PASSADO

É o presente ainda assustado com os fantasmas acorrentados.

* * *

CERTEZAS

Só as provisórias valem a pena. As demais nos engessam, nos idiotizam.

* * *

CONVENIÊNCIAS

São rabos a balançar cachorros de muitos donos.

* * *

MARIA

– Chega. Cansei de ser um triste: me perdoei.

* * *

NÃO DEU?

Paciência.

* * *

CHAGAS

– Sabe quem morreu? O Chagas.

– Descansou. Nos últimos trinta anos, fez jus ao sobrenome.


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O POETA MORREU (ANTES DE NASCER)

Américo apenas se deu conta de que jamais aprendera o que de fato importa, quando resolveu, depois de velho e absolutamente só, escrever um livro. Não queria um livrinho qualquer, burocrático ou piegas. Nada disso. Andava muito impressionado com Bandeira e Quintana, com a leveza de seus textos. Queria algo nessa linha, sedutor. Foi aí que a corda roeu. Jamais gastara tempo observando passarinho voar, muito menos admirando a beleza das flores e do vai e vem sonoro das ondas do mar. Vivera sempre acuado, escondido atrás de pilhas de relatórios e de números que mais escondiam que revelavam. Fez um esforço, buscou na memória – ainda intacta – a lembrança de um grande amor. Lamentou o fato de nunca ter tido uma mulher que hoje lhe trouxesse saudade. Resignado, enterrou o poeta antes de seu nascimento.


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GATOS? NÃO, NÃO E NÃO!

Meus medos são muitos. Nenhum deles, porém, supera o que tenho de gatos. Não posso ver um deles. Surto. A recíproca é verdadeira. Quando me avista, o bichano se eriça e se põe em posição de ataque. Fiz novenas e mais novenas para São Judas Tadeu – o santo das causas impossíveis. Em vão. A paúra só fez crescer, piora muito a cada estação. Quando me deparo com um felino doméstico, apelo logo para Santo Expedito: “Querido, me tire daqui, agora!” Nem sempre – quase nunca seria a expressão mais precisa – consigo dar o passo. Peço ao Todo Poderoso, então, um infarto daquele, fulminante. Não fui atendido, ao menos at&eacu te; agora.

Esse pavor por gatos me fez perder oportunidades, além de dar vexames sexuais. No auge da virilidade – vinte e poucos anos -, fui ao apartamento de uma colega de faculdade, verdadeira loba, sonho de consumo de qualquer garanhão imberbe. Não consegui ir além de um selinho muito vagabundo. Ela tinha um gato na sala. Foi minha primeira broxada. Tempos depois, quase encerrei o noivado com Sabiá por conta de um gato. Meu cunhado, então um demônio em forma de guri, aproveitou um vacilo meu e jogou no meu colo um filhote. Melhor andar desarmado.

Não sei por que gatos não gostam de mim. Nunca atirei o pau (nem pedra) em gato. Nunca chutei gato. Nunca dei tiro de chumbinho em gato. Nem xingar gato xinguei.

Dona Neide me falava (saudades dela) que, por três vezes, me levou para tomar injeções na barriga contra raiva, por conta de arranhadas que sofri de gato de rua. Eram quinze injeções, a cada rodada preventiva. Verdadeira tortura. No bonde, ela me dizia: “Se você se comportar, não falar palavrões, mamãe lhe compra um doce”. Barganha inútil. Voltava sem doce. Em casa, levava tapas na bunda: “Bem feito, bem feito. Quem mandou você, moleque boca suja, dizer tantos palavrões para a enfermeira? Da próxima vez que você mexer com gato de rua, vai ver o que é bom pra tosse.”

Infância triste, a minha.


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BOTERO ME LIGOU

Não sei com vocês, amigos, mas comigo é sempre assim. Anoto tudo no papel – da quantidade diária de calorias a ser consumida aos minutos que não andarei. Preparo potes e potes de gelatina e pudins – diets, evidentemente -, cozinho legumes e carnes magras, reservo e congelo. Encho e ponho para gelar pelo menos cinco litros de água com e sem gengibre, deixo meus “fitos” às mãos, faço orações, rego a comigo-ninguém-pode. Tudo prontinho, hora de começar a dieta. Amanhã, claro.

Quando o amanhã finalmente chega, me pega animado que só. Em geral, nos dois primeiros dias, supero de longe todas as expectativas. Consumo muito menos que o planejado. Agora vai? Não vai. No terceiro dia, quando muito no quarto, uma ira insana se apossa desse corpanzil trêmulo. Viver? Que sentido faz uma coisa dessas, nessas condições de privação quase absoluta? O ser humano é um desgraçado que se empanzina a valer de tudo o que engorda – na minha frente, ao vivo ou pela tevê. Faz de propósito. Mas tudo passa. No sétimo dia – em geral, após espiadela no espelho do quarto -, uma baita prostração me toma de assalto. Já não consigo sequer ficar irado. Choramingo. Tanto sacrifício em vão, todas as ilusões perdi das. Se é para ser infeliz, melhor ser gordo. Ponto final. Que mal há em comprar um número mais confortável? Ora, a vida foi feita para ser comida e bebida. Estou longe de ser um menino. Lutar contra a natureza pra quê?

A madrugada retrasada me trouxe um sonho. Botero – o grande Botero – me ligou e disse que queria me contratar. Como modelo. Acordei pimpão, aliviado, encarei o maldito espelho, fiz poses, tomei uma resolução: vou escrever para o mestre, me colocando à sua inteira disposição. Sempre fui vaidoso. Manequim. Por que não? Vai ser duro manter a boca fechada, não dizer palavra, sina de todos os retratados pelo mestre colombiano? Claro que sim. Mas qual ofício não tem seus ossos? E com a barriga cheia – cá entre nós – tudo segue melhor. O café da manhã foi pra lá de supimpa. De rei. Almoço e jantar também prometem. Afinal, não posso perder a forma. Botero me espera.


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ARGEMIRO FOI COM AS OUTRAS E SE DEU (QUASE) MUITO BEM

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Argemiro nunca foi aluno brilhante. Do antigo primário à faculdade, o máximo que conseguiu foi assegurar, quando muito, uma vaga no grupo dos que não cheiram nem fedem. Ou seja: um lugar no pelotão dos medíocres. Ele também nunca se destacou pela capacidade profissional. Não obstante, conseguiu subir na vida, como diz o vulgo. Agradecido, reconhecia que devia muito de sua ascensão ao velho e falecido pai, um ex-comunista metido a estrategista de botequim.

Desde cedo, o pai lhe ensinou algumas coisas, entre as quais:

(1) Nunca emitir opiniões sobre assuntos polêmicos: política, religião e futebol, por exemplo. Que benefício lhe traria se posicionar sobre aborto, casamento gay, liberação da maconha e temas afins? Nenhum, evidentemente.

(2) Agora, na impossibilidade de permanecer calado, concordar sempre com a opinião do mais forte. Afinal, um comuna legítimo sabe que é preciso beijar a mão que não se pode cortar.

(3) Que jamais se preocupasse em ser rotulado de Maria vai com as outras. O que importa é desfrutar de bom dinheiro para levar vida confortável e garantir uma velhice sem grandes sobressaltos.

E assim foi feito. Argemiro engoliu sapos e mais sapos, muitos dos quais amarrados com arame farpado. Paciência. Como o velho e sábio pai lhe dizia: “Ter opiniões incisivas sobre tudo é coisa só para gente bem-nascida. Sufoque o ser para ser.” Quanta sabedoria!

Aposentado e viúvo, com os dois filhos morando no exterior, Argemiro gosta de acompanhar o noticiário. Diante de assuntos polêmicos e discussões mais acaloradas, nunca sabe de que lado está. Afinal, não há mais ao seu lado um poderoso com quem possa concordar. Mas, pensando bem, que importância tem isso?


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QUE COISA, HEIM?

qc

Há fatos que Isaura jamais conseguiu compreender e que, aliás, continua não entendendo. Chega a questionar a serventia de anos e anos de estudo, aqui e no exterior, sempre nos melhores colégios e universidades. Circulou inúmeras vezes pelas principais capitais europeias. Conhece Nova York tão bem quanto São Paulo, onde nasceu em berço esplêndido, há 40 anos. Das muitas incertezas que alimenta, tem uma convicção – menos mal, podia não ter nenhuma: quase duas décadas de análise não lhe trouxeram alento. Grana alta que se foi pelo ralo. Mas, falta de dinheiro nunca foi problema para ela. Dane-se, a perda. Não lhe fez falta.

Namoradeira, Isaura saiu e ficou com homens bonitos e cheirosos, tão ricos e viajados como ela. Divertiu-se, mas nunca criou raízes. Livre demais para depender afetivamente de quem quer que seja. Não se lembra de nada que tenha desejado e não tivesse obtido assim: num estalar de dedos, num piscar de olhos, num átimo. Linda e rica, ela nunca invejou nenhuma de suas quase amigas. Confidente? Só o travesseiro – e olhe lá.

Justamente por tudo isso, Isaura ainda busca explicações para sua birra com Josefa – uma negrinha magra que só, de pouco menos de trinta anos, pobre, dentadura no lugar dos dentes, marido feio e fedido, com direito a dois finais de semana de folga por mês, uma de suas empregadas. Como alguém nessa condição pode estar sempre sorrindo, acreditar no futuro, agradecer a Deus pelo quase nada que tem? Isaura acha que há coisas que nem Freud explica. Passa horas olhando o longe em busca de razões para a felicidade de Josefa.


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A “TORCIDA” DO VELHO MARINHEIRO

bv

Ananias volteou, volteou, antes de abordar o Velho Marinheiro:

– Não sei se devo, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.

– Desembuche. A vida é curta. Afinal, o que você quer saber?

– Ontem, no velório do pai da Deolinda, fiquei observando o senhor.

– Não tinha coisa melhor para fazer? Orasse, então, pela família do falecido. Porque quem fica é que precisa de reza, de força para driblar a saudade, se me entende. O que fiz para chamar sua atenção?

– O senhor entrou mudo e saiu calado. Não disse uma palavra a Deolinda.

– Eu a abracei e beijei com respeito e emoção.

– Eu vi. Mas por que não lhe disse nada, medo de revelar a voz embargada?

– Não seja besta. Ananias, meu pai me ensinou…

– Desculpa, quem lhe ensinou?

– Meu pai. Ou você acha que eu, por ser velho, não tive pai, que minha mãe ficou grávida por obra de um espírito nada santo? Tenha paciência.

– Perdão. Não ouvi direito. O que seu pai, afinal, lhe ensinou?

– Que a gente, quando não tem o que dizer, deve ficar em silêncio. Numa hora dessas, ninguém tem nada que preste a falar, além de platitudes nem sempre sinceras. Em geral, um olhar e um abraço dizem mais que uma penca de chavões.

– Também observei também que o senhor não esquentou cadeira.

– Verdade. Sabe por quê?

– Não.

– Ora, você é péssimo observador. Não sei como conseguiu ganhar a vida como jornalista. Ananias: como sempre acontece nessas ocasiões, formam-se rodinhas de desocupados que passam a contar piadas bestas e a falar mal dos outros. Por isso, caio fora. Para não criar confusão no velório. Torço para que Deolinda supere logo o trauma e recupere o frescor que a caracteriza, isso sim.

Ananias sorriu sorriso maroto:

– O senhor…

– Eu o quê? Vai me dizer que você torce pelo contrário, para que ela guarde luto por anos? Seria uma tragédia para todos nós. Oremos.


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QUE COISA, HEIM?

qc

Há fatos que Isaura jamais conseguiu compreender e que, aliás, continua não entendendo. Chega a questionar a serventia de anos e anos de estudo, aqui e no exterior, sempre nos melhores colégios e universidades. Circulou inúmeras vezes pelas principais capitais europeias. Conhece Nova York tão bem quanto São Paulo, onde nasceu em berço esplêndido, há 40 anos. Das muitas incertezas que alimenta, tem uma convicção – menos mal, podia não ter nenhuma: quase duas décadas de análise não lhe trouxeram alento. Grana alta que se foi pelo ralo. Mas, falta de dinheiro nunca foi problema para ela. Dane-se, a perda. Não lhe fez falta.

Namoradeira, Isaura saiu e ficou com homens bonitos e cheirosos, tão ricos e viajados como ela. Divertiu-se, mas nunca criou raízes. Livre demais para depender afetivamente de quem quer que seja. Não se lembra de nada que tenha desejado e não tivesse obtido assim: num estalar de dedos, num piscar de olhos, num átimo. Linda e rica, ela nunca invejou nenhuma de suas quase amigas. Confidente? Só o travesseiro – e olhe lá.

Justamente por tudo isso, Isaura ainda busca explicações para sua birra com Josefa – uma negrinha magra que só, de pouco menos de trinta anos, pobre, dentadura no lugar dos dentes, marido feio e fedido, com direito a dois finais de semana de folga por mês, uma de suas empregadas. Como alguém nessa condição pode estar sempre sorrindo, acreditar no futuro, agradecer a Deus pelo quase nada que tem? Isaura acha que há coisas que nem Freud explica. Passa horas olhando o longe em busca de razões para a felicidade alheia.


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RAPIDÍSSIMAS

DEGUSTAÇÃO

Mastigo sem pressa o último desejo.

rq

SAUDOSISTAS

São todos muitos chatos. Só se lembram do que nunca foi bem assim.

DOMINGUEIRAS

Era difícil “ficar”, mas “amassar” nem tanto.

MODISMOS

Como as demais pestes, eles vêm e vão sem deixar saudade. A desgraça é que sempre dão lugar a outros idiotismos.

PSIU

O bloco de notas repousa em branco ao lado da caneta sem tinta. Esperam, em vão, pela mão que não tem mais nada a dizer.

OLHARES

Naquele olhar acuado, havia um canto de guerra.

ÚLTIMO DESEJO

– Não quero dó, Marilda, quero chance.

A NECESSIDADE…

É sempre péssima conselheira, ainda mais quando extremada.

AMADORES

Afinal, que serventia eles têm?

BLACK FRIDAY

Toda promoção é enganosa. Inclusive a minha.


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ANANIAS, O PRÍNCIPE DO SAMBA-CANÇÃO

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– Ananias, Ananias: você é um caso perdido, não aprende nunca, vai morrer com essa cara, tem jeito, não.

– Que cara, Velho Marinheiro? É a única que tenho, ora.

– Cara de viúva saudosa. Sempre cabisbaixo, choramingando e suspirando pelos cantos. Você choraminga e suspira, mesmo quando não verte lágrimas nem solta vento pela boca.

– É que são muitas as decepções. O senhor sabe disso. Minha vida nunca foi nem tem sido fácil.

– Ananias, você sofre porque se decepciona e se decepciona porque é burro. No fundo, vai saber, gosta de sofrer, de ficar com pena de si mesmo. Deixe de ser besta. Só trouxa se decepciona com os outros.

– O senhor nunca se decepcionou com ninguém? Duvido.

– Claro que sim.

– Então?

– Mas isso, Ananias, foi há muito tempo. Desse mal, não sofro há décadas. Dos outros exijo apenas – eu disse “exijo”, não disse “espero” – respeito. Nada mais. Se o sujeito é ingrato, problema dele. Não espero nada de ninguém. Se puder ajudar, ajudo. Se não puder, aviso: não posso fazer nada por você, vá procurar adjutório em outra freguesia. Nem da mulher amada, se deve esperar reciprocidade. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.

– Sei não, sei não. Acho que o senhor não é tão duro assim…

– Ananias: é pena que você, embora escreva com correção e clareza e seja um triste, não saiba fazer letras.

– Letras?

– Letras de música. Não se faça de besta.

– Por quê?

– Você desbancaria Lupicínio. Transformaria Antônio Maria em pinto. Seria o verdadeiro rei da fossa, o príncipe do samba-canção. Agora, chega. Vamos tomar uns tragos. Para potencializar sua tristeza. Quem sabe você consegue fazer uma letrinha?


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DESGRAÇA POUCA…

Verdade seja dita: Ananias, nosso repórter em fim de carreira, fez o que pode, mas não conseguiu segurar a curiosidade, inerente a todo repórter, inclusive aos que estão em final de carreira:dp

– Velho Marinheiro: o que houve ontem entre o senhor e Romildo Bastos, irmão de Romualdo, nosso cruzadista?

– Nada.

– Nada?

– Quer saber? Mandei o tipo se catar. Só isso. Um pouquinho mais. Qualquer pessoa normal, com dois neurônios faria o mesmo. Romildo repetiu dez vezes a mesma falação, até que eu a ouvisse. Ele queria platéia, aplauso ordinário: “Almerindo, meu amigo, um afro na melhor idade, padece de sofrimentos inúmeros – não tem recursos para manter a casa, cardíaco não consegue mais cumprir com as obrigações domésticas. Paga o preço. Almerindo é meu irmão.”

– E então?

O Velho Marinheiro entornou o aperitivo:

– E aí é o seguinte, Ananias: “Romildo – disse eu, de saco cheio: ‘O que você quer dizer é: Almerindo é um negro pobre e ferrado. Velho aos cacos, que no final da vida virou corno. Ponto”. E tem mais: Romildo, você é um afetado. Até falando abusa das reticências e dos pontos de exclamação’”.

– O que o senhor tem contra umas e outros?

– Tudo. Umas e outros são coisas afetadas, sua cara. Por partes: primeiro, se tenho que dizer, digo logo, não deixo no ar; segundo, não sou veado pra me espantar com qualquer coisa. Leia Graciliano.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA (3)

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Maria entrou pisando duro, com cara de nenhum amigo, soltando fogo pelas ventas. Zé pressentiu que ia sobrar para ele. E sobrou. Sem novidade.

– O que aconteceu, Maria?

– O de sempre. Zé, eu estou cheia de você. Cheia. Esgotada. Você só me faz passar vergonha nessa vida desgraçada que levo.

– O que eu lhe fiz dessa vez?

– Quando souberam, no salão, que fiz aniversário ontem, todo mundo quis saber se você tinha me levado para jantar fora, que presente você me deu, essas coisas. Menti. Disse às moças que ganhei uma bolsa lindíssima e que deixamos o jantar para sábado, que ontem estava indisposta etc. Não sei se colou. Nós, mulheres, temos o tal do sexto sentido.

– Pelo amor de Deus, Maria, não seja injusta. Há anos, você não quer que eu lhe compre presente algum. Você não cansa de repetir que eu não sei fazer compras, erro sempre no tamanho, tenho gosto duvidoso e sei lá mais o quê. Além disso, estamos numa situação complicada. O dinheiro da poupança está no fim, eu não consigo emprego. O que você quer que eu faça? Anteontem, você ainda me disse: “Não me traga nada, por favor. O mar não está pra peixe.” Lembra?

– Francamente. Você é um obtuso. Leva tudo ao pé da letra. Mas quem sofre as humilhações sou eu.

– Maria…

– Vá se catar.


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O IRREDUTÍVEL

– Então, mestre dos mares, o que o senhor achou de meu amigo, o doutor Joaquim Barbosa de Oliveira Pinto e Silva? – quis saber do Velho Marinheiro o maior, talvez único, cruzadista profissional da Vila Invernada: Romualdo Bastos.

– Uma besta, seu Romualdo, uma besta.ob

– Uma besta?! Não posso acreditar numa coisa dessas, não posso mesmo. Velho Marinheiro, o doutor Joaquim Barbosa de Oliveira Pinto e Silva é um homem de extensa e consolidada cultura, um homem que…

– Não estou dizendo o contrário. Não estou pondo em xeque a cultura de seu amigo. Deu para perceber que ele é um sujeito letrado, bem preparado etc. O que não o impede de ser uma besta.

– Velho Marinheiro: estou atordoado, não consigo entendê-lo.

– Romualdo: seu amigo fez questão de deixar claro – por reiteradas vezes e com a empáfia dos metidos a sabichão – que ele jamais muda de opinião. E se gaba disso.

– Ora, o doutor Joaquim Barbosa de Oliveira Pinto e Silva é um homem de posições firmes, de convicções arraigadas. Jamais será uma Maria vai com as outras.

– Sim. Que beleza. Só que, por achar que sabe tudo, ele fechou a porta para a curiosidade, ele se recusa a aprender novos conceitos, acredita que o mundo vai deixar de evoluir só porque ele não muda de opinião. Um sujeito assim o que é? Uma besta, uma besta arrogante. Entendeu agora?

– Velho Marinheiro: estou aturdido com suas palavras, não sei o que lhe dizer.

– Então, não me diga nada, tome um trago e relaxe.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA (2)

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– Vou até a padaria comprar cigarros. Você precisa de alguma coisa?

– Preciso. Mas não adianta pedir pra você. Nunca traz a marca que eu peço, parece que faz de propósito, só para me irritar.

– Quando fiz isso, Marilda?

– Anteontem. Paulo: as bolachas que você trouxe eram lixo.

– Mas, no dia seguinte, não tinha uma pra contar história. Só trago de outra marca quando não tem a que você me pediu, ora!

– Então, não traga. Entendeu? Não traga nada.

– Está certo. Diga logo o que você quer?

– Anota aí, pra não fazer confusão. Não demore, não. Está quase na hora do café. Já estou com fome.

Duas horas depois, Paulo estava de volta com as encomendas de Marilda.

– Que demora! Aposto que ficou bebendo na padaria.

– Nada disso. Tive que ir a três mercados. No da esquina, não tinha a bolacha nem o requeijão das marcas que você me pediu. Na venda do Norberto, tinha as bolachas, mas não tinha o requeijão. Fui ao Mambo.

– Lá é tudo mais caro, me deixe ver a nota fiscal.

– Está aqui.

– Puta que o pariu. Que absurdo! Você teve coragem de pagar tudo isso? Não há dinheiro que chegue. Quando for assim, não compre.

– E sua fome?

– Passou. Paulo: ando com o saco tão cheio de você!


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RAPIDÍSSIMAS

PÊNDULO

Um dia ele vai e não volta.

rt

CLÍNICO GERAL

Espécie em extinção. A hora é de especialistas. Eles conhecem as partes, mas desprezam o todo.

VIVER

Essa coisa custa caro. Sem chamego, não há por quê.

NO DIA DE MINHA MORTE

Não me tragam flores. Nem paletó, gravata, bobagens afins. Choro nem pensar. Velório é proibido. Seria cínico. Vou como vivi – de bermuda, sem camisa, chinelo de dedos, um homem improvável. Ah! Tragam os malditos cigarros. Com fósforos. Nada mais lhes peço.

GAIOLA

Não precisava mais de abrigo. Queria voltar a voar.

GHOST-WRITTER

Costuma ser um sujeito de boa fé: quase sempre acredita que seus clientes acreditam mesmo no que assinam.

ZERO A ZERO

Não devo nada a ninguém, ninguém me deve nada. Como seria fácil se a vida fosse uma operação contábil. Não é.

O TRATO

Ficamos assim: tarde e noite de domingo são “sagradas”, ok? Então, você não me visita, e eu não vou à sua casa. Sem aviso prévio.

SABEDORIA

Trocou a gula pelo prazer de degustar.


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VIDA MANSA

– Isaura: ando bastante preocupado, muito mesmo.

– Por quê?

– Temos que ser mais discretos. Você, então… Pelo amor de Deus. Meio mundo já sabe. A outra metade desconfia. Minha mulher anda com a pulga atrás da orelha. Logo, logo, seu marido vai começar a lhe seguir. Temo pela sua segurança e – sendo franco – pela minha também. Há homens e mulheres que não perdoam traição, são capazes de tudo, tornam-se vingativos e violentos. Porra! Estou falando sério, e você gargalha! Vá se catar!vm

– Armando, querido: você acha mesmo que meu marido desconfia de alguma coisa?

– Sei lá, Isaura. Espero que não.

– Bobinho. Ele sempre soube de tudo.

– Não brinca com essas coisas, mulher. A coisa é séria.

– Tem mais, Armando: ele me incentiva.

– Isaura: só pode ser gozação sua.

– Calma. Ele sabe de sua generosidade para comigo. Nós temos um pacto: ele não me cria embaraços, faz vistas grossas, e eu sustento a casa e seus vícios prediletos: cachaça e cigarro. Ele leva uma baita vida: come, bebe, fuma e dorme. Está muito bem cevado. Sexo? Com ele, não faço há uns cinco, seis anos. Ele não liga, eu agradeço aos céus.

– Um problema a menos, Isaura, um problema a menos.

– Agora, você que se esforce para que sua mulher não saiba de nada. Não quero perder meu gostosão.


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RAPIDÍSSIMAS

EX

Quando um não quer, dois não ficam.

rd

* * *

CREMATÓRIO

É rapidinho, rapidinho. Em pouco tempo, o agora insignificante recupera a definitiva relevância: vira pó.

* * *

PROMESSA

Deus não é adepto do escambo.

* * *

COMO ANTES

Deixou a bronca de lado. De madrugada, aquiesceu. Foi tão bom.

* * *

CÁ ENTRE NÓS

Desde quando um déspota pode ser esclarecido?

* * *

GENEROSIDADE

É fazer pelos os outros o que os outros jamais farão por você.

* * *

AÇÃO E REAÇÃO

Odeio pernilongos. Mas eles não precisavam me jurar de morte.

* * *

QUESTÃO DE COERÊNCIA

Se não tem alegria para desfilar na avenida, por que levar o amuo para fazer feio na Apoteose?

* * *

AJUSTE FISCAL

Tonico já promoveu o dele: devolveu a sogra para a casa do filho.


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A TURMA DA BALINHA

Iracema não tem boca pra nada, nunca teve. Suporta tudo calada. Quando excepcionalmente reage, não consegue dormir. No dia seguinte, não sossega enquanto não pega o telefone e se desculpa com irmãos e cunhadas, ainda que tenha razão. Com os dois cunhados nunca se aborreceu. Nem poderia. Um e outro jamais aparecem por lá – na casa em que ela e irmãos nasceram e se criaram. Todos irmãos cuidaram de si; ela, dos pais.tb

Continua virgem, mas nunca teve lábios de mel. Com o tempo engordou um bocado. Às vezes, conversa por telefone com uma amiga do ginásio. Ao cinema, foi meia dúzia de vezes, se tanto. Ao teatro, apenas uma vez. Viajou bastante quando era criança e o pai ainda tinha saúde. Depois, miau. Gosta de televisão, em especial dos programas de culinária. Acha que as moças de hoje são muito assanhadas, talvez mais que os rapazes de seu tempo de guria.

Quando o pai morreu, há dez anos, combinou com a mãe que viajariam bastante. A velha ficou de pensar. Não deu tempo. O Alzheimer mostrou suas garras. Mas, como já foi dito, Iracema não reclama. Ao contrário. Pede a Deus forças para cuidar da mãe. É grata ao Senhor por Ele ter colocado Tiana na vida dos Silva, há mais de vinte anos. Para Iracema, mais que empregada, ela faz parte da família, é amiga, solidária, pau pra toda obra.

Os irmãos, de tempos em tempos, visitam a mãe. Trazem sempre algum doce, balas de preferência, coisas assim. Mas não esquentam cadeira, todos muito atarefados. A caçula é a que menos aparece, mas, em contrapartida, liga todos os dias, três vezes ao dia, de segunda a segunda, para saber como mamãe está. E fazer cobranças indiretas: cuidaram disso? Cuidaram daquilo?

Tiana não esconde sua irritação com a corja, como ela costuma chamar todos da família que não moram naquela casa:

– Iracema, seus irmãos são uns vagabundos. Não estão nem aí com você e sua mãe. Não ajudam em nada, são incapazes de levar dona Isaura ao médico. Aparecem ou telefonam apenas para nos aborrecer. Se eu fosse você, mandava todos eles enfiarem as balinhas que trazem…

– Tia-a-na.

– Me desculpe, sei que você não gosta de palavrões. Se não tem coragem de mandar essa gente pro inferno, deixa comigo.

– Tiana: é minha sina. Se brigar com eles é pior, mamãe vai ficar triste.


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SOBRE PERUCAS E ASAS DE GRAÚNA

Deolinda – único símbolo sexual da Vila Invernada – não conteve o espanto:

– Gente: não acredito no que estou vendo. Olha só quem vem lá: Romualdo Bastos e o chato do irmão dele. Romualdo pintou os cabelos de preto, da cor das asas da graúna. O irmão colocou peruca – disse a moça de seios fartos e decote generoso a seus dois companheiros de mesa: Velho Marinheiro e Ananias.

– Barbaridade. Perderam o senso de ridículo. Estão pedindo para, como diz a moçada, serem zoados – limitou-se a dizer nosso Lobo do Mar.

Ananias – adepto dos panos quentes – tentou justificar o injustificável:

– Eles sempre foram vaidosos.

– Ananias: isso não é vaidade, é coisa de boiola – retrucou o Velho Marinheiro, com a concordância imediata de Deolinda. Vaidade é o sujeito andar limpo, de cabelos cortados, com uma roupinha mais ou menos. Você já viu alguma peruca que preste? Imagine eu, que tenho os cabelos brancos, chegar aqui de cabelos pretos, feito urubu. Francamente. O irmão do Romualdo ficou a cara do Zacarias.

– Zacarias?

– Aquele humorista, dos Trapalhões.

– É meio estranho, sim.

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– Meio estranho uma ova. Há anos, eu estava com Mafalda e minha neta num hotel em Serra Negra. Estávamos na piscina, quando chegou uma turma já meio tocada pela uca. O mais tolo de todos era um velho barrigudo, arrogante e peruqueiro. Continuaram bebendo. Depois, sempre falando alto, pularam na piscina. A peruca do homem se soltou. Então, começaram a jogá-la de um lado para outro. De mão em mão. E o velho puto. E mais puto ele ficou quando vários hóspedes, que não eram da família, resolveram aderir à farra. A peruca parecia peteca. Não esquentava a mão de ninguém.

– Que vexame. E aí? – quis saber Deolinda.

– Aí que, passado o efeito da cachaça, o velho peruqueiro ficou o feriado prolongado dentro do apartamento, trancado, cheio de vergonha. De lá não saía nem para fazer as refeições. Durante quatro dias, foi o assunto do hotel. Bem feito.


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RAPIDÍSSIMAS

SANTA FOSSA

Mais que um estado de espírito, é uma necessidade orgânica. Para quem não tem vergonha de chorar, claro.

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SANTA FOSSA (2)

O que seria da MPB sem ela?

SOLIDÃO

Não desperdice essa oportunidade.

CIÚME

Quem ama tem. Quem diz que não tem não ama. Ou é um afetado moral.

CIÚME (2)

Tavares, o canalha sincero de Vila Invernada, foi direto ao ponto: “Suruba? Só com a mulher dos outros.”

MICARETA

Fantasiaram a solidão de tristeza. Bobagem.

MULTIDÃO

Estão vendo esse bando ao meu redor? Não me serve pra nada.

BONS TEMPOS

Na infância, quase sempre, a gente não tem motivos pra sentir saudade.


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DE CARTOLA E PINCENÊ

dcp

– Gostei de ver meu amigo Velho Marinheiro ontem à noite, na fila de autógrafos, todo nos trinques, arrumado, cheirando perfume bom. Até Deolinda comentou.

– O que ela lhe disse?

– Que o senhor estava um “gato”.

– Não me venha com zombaria, seu vagabundo.

– Verdade, Velho Marinheiro, juro. “Gato”. Palavra dela.

– Não me importa. Deolinda é minha amiga, tem idade para ser minha filha. Vamos voltar ao livro.

– Tudo bem. O senhor é quem manda.

– Ananias: tenho gênio difícil, mas não sou homem de fazer desfeita para seu ninguém, nunca fui. Não suporto uma coisa dessas. Não poderia deixar de ir ao lançamento do livro. Muito embora você saiba o que eu penso de Romualdo Bastos: é uma besta de discurso oco e empolado. Nem poderia ser diferente. O homem não faz outra coisa, além palavras cruzadas.

– Mas o senhor gostou do romance?

– Não.

– Mas já leu o livro inteiro?

– Não li nem vou ler. Livro é como mulher. De cara, a gente percebe se vale a pena. Aliás, se você quiser, eu lhe dou o meu exemplar.

– Não precisa. Eu também comprei um.

– Qual o problema? Você dá de presente para um desafeto. Não é possível que você não tenha nenhum desafeto. Além do mais, até onde sei, sua sogra está viva e com saúde.

– Está bom. Vou pensar. Mas por que não gostou do romance?

– Porque o livro é a cara do autor. Ele deve ter escrito aquela porcaria caçando palavras difíceis no dicionário, para impressionar os incautos. É uma escrita de cartola e pincenê, se me entende. O que poderia ser dito num único parágrafo consome páginas e mais páginas. Romualdo também abusa dos gerúndios. E o pior de tudo: escreve como se estivesse cumprindo uma missão impossível – salvar o mundo. A função do romance é outra. Se gostasse de conselheiros, vivia de mãos dadas com o padre Chico. Deixa pra lá. Mas, afinal, você quer ou não quer o livro?

– Aceito.

– Sua sogra vai gostar. Amanhã lhe trago o danado. Vamos esquecer o livro e o autor. Por mera curiosidade, Ananias, o que Deolinda lhe disse mesmo a meu respeito?


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O FAROL BAIXO DE ANANIAS

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Ananias está naquela fase da vida em que lembranças e questionamentos são, praticamente, inevitáveis. Num dia, orgulha-se de ter dito muitos “nãos”, de nunca – ao menos até onde sua memória alcança – ter aberto mão daquilo que julgava correto, do ponto de vista ético, para obter vantagens econômicas. Noutro dia, baixa o farol e se questiona se não tinha sido apenas besta. Afinal, passou a vida numa pindaíba daquelas, enquanto vários colegas de trabalho enricaram. Em certos momentos, ele tem orgulho de sua trajetória; em outros, vai ao fundo do poço sem fundo da tristeza, acha que sua história não é digna de um saco de lixo.

O fato é que o dilema tardio de Ananias – deveria ter feito isso ou deveria ter feito aquilo? – começou a torrar a paciência zero do Velho Marinheiro, que, a bem da verdade, é o único que se dispõe a ouvi-lo, pela simples razão de que dele gosta. Por quais motivos? Ninguém sabe bem. Há preferências que são quase inexplicáveis.

Naquela tarde fria e garoenta, Ananias ameaçou retomar a cantilena, mas foi interrompido de pronto pelo Velho Marinheiro, em dia de pouco papo:

– Escuta aqui, Ananias. Essa coisa de ficar toda hora remoendo o passado não leva ninguém a lugar algum. Só torra a paciência dos ouvidos alheios. Não dá para voltar no tempo. Eu já lhe disse: o passado mais machuca que ensina. Ora, você agiu de acordo com sua consciência. Fez bem. Mas não há – todo mundo sabe – almoço de graça. Se lhe serve de consolo, vamos lá: os meios qualificam ou desqualificam os fins. Preciso desenhar? Agora, vamos mudar de assunto. Deolinda está chegando. Espero que o decote de hoje seja generoso, como costuma ser. Vamos tomar uns tragos, comer bolinhos de arroz e assuntar bobagens. Ok?


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SÓ OS IGNORANTES SÃO FELIZES

– Ananias, meu amigo: ouça o que esse Velho Marinheiro tem a lhe dizer.

– Pode falar. Gosto muito de ouvi-lo.

– Não precisa puxar o saco. Todos nós somos ignorantes, porque ignoramos muitas coisas, talvez a maioria delas. O que, às vezes, vira motivo de angústia. Mas só os ignorantes são felizes. Agora, tem de ser um ignorante total, porque, aí, o sujeito não tem noção de sua burrice. Então, ele dá palpite sobre tudo, tem opiniões definitivas sobre qualquer assunto. Não tem a menor noção do quanto é ridículo.

– O que houve? Estou curioso.

– Acaba de sair daqui a besta do Chico Pança. Pra variar, estava tocado. Por mais de hora, torrou a paciência da gente, não sei se de todos, porque muitos aqui são iguais a ele. Pior ninguém consegue ser…

– Conheço o tipo. Mas, afinal, o que ele disse, Velho Marinheiro?

– Ananias: a anta desandou a falar sobre política. Disse que o Brasil precisa de um presidente macho, que feche o Congresso e o Judiciário, que soque a mesa e diga: “Daqui pra frente, quem manda somos eu e a junta de generais”.

– É um coitado.

– Disse mais: que ele nunca votou em ninguém, que a culpa é de quem vota. Que ele também nunca leu livro, nem perdeu tempo com jornais e revistas. Que tudo que ele sabe – a anta não sabe nada – é fruto da vivência. E foi por aí afora. Sempre aos berros. Ameaçou sentar-se à minha mesa.

– E aí?

– Aí, eu fiz o que tinha que ser feito: “Chico: não ouse, vá vender sua estupidez incurável em outra freguesia.” Ele saiu trançando as pernas, mas pisando duro. Ananias, o Carneiro é bom sujeito, mas é muito tolerante. Estou pensando em mudar de bar. Ou em só beber em casa. Isso aqui virou antro de insuportáveis. Vamos tomar uma, porque ninguém merece a prosa tola do Chico Pança. Carneiro, nossos copos estão vazios.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA

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– Não sei como você, Paulo, consegue passar o dia assim.

– Assim como, Carlota?

– Sem fazer nada.

– Estou lendo o jornal. É o que me resta fazer, mulher.

– Além de tomar umas e outras. Porque também não fica sem a cachaça e o cigarro. Deus me livre. Se ainda me ajudasse em casa.

– Não seja injusta, Carlota. É o único lazer que tenho.

– Injusta uma ova. Você acha que me divirto lavando suas cuecas?

– Você sabe que tenho a coluna arruinada.

– Isso é verdade, sempre foi um inválido.

– Sei aonde você quer chegar. Mas você é testemunha de que gastei muita sola de sapato atrás de emprego. Não tenho culpa da crise. Numa situação dessas, quem vai dar trabalho para um velho de 65 anos, quem? Cansei de ir atrás de um e de outro. Procurei muitos colegas por mais de uma vez. Em vão. Só sei fazer contas. Não sirvo para mais nada.

– Isso é verdade. A dona Candinha, da quitanda, me disse que o bicheiro está precisando de cambista. Por que você não o procura?

– Não entendo nada de jogo de bicho. Está aí coisa que não entra na minha cabeça. Além disso, é ilegal.

– Que luxo é esse, Paulo? Tudo bem. Quando vou às comprinhas, vejo por aí um monte de velho trabalhando para imobiliárias. Passam o dia sentado, não sei quanto ganham.

– Uma miséria.

– Melhor que nada. Além do mais, você e seu jornal ficariam longe dos meus olhos. O que não seria pouco.


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CÍNICOS OU LESOS?

col

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, estava sorumbático naquele final de tarde. Sozinho à mesa, degustava seu aperitivo no bar do Carneiro, enquanto rabiscava o jornal da manhã. De tempos em tempos, virava a cabeça de um lado para outro, sinal de que reprovava, com veemência, alguma coisa. Eis que chegou Ananias acompanhado de Deolinda. Difícil de acreditar. Mas nem o único e legítimo símbolo sexual de Vila Invernada foi capaz de entusiasmá-lo – ao menos no primeiro momento. Uma e outro quiseram saber qual era o problema.

– Querem saber? Ando cansado. Penso seriamente em cancelar a assinatura do jornal e deixar de acompanhar o noticiário de rádio e tevê. Não suporto ler, ver e ouvir tanta lambança. Tenho a impressão, Ananias, de que seus colegas de profissão nos tomam por imbecis.

– O que houve? – lhe perguntaram os dois, em uníssono.

– Com a possível reforma da Previdência, não há dia nem hora, em que não apareça um gaiato (ou gaiata) para nos dizer que as pessoas precisam ter cautela, mais responsabilidade etc. Onde já se viu alguém não ter previdência privada? Esses “analistas” são lesos. Ou cínicos – o que é mais provável. Vão-se catar. A maioria das pessoas não ganha sequer para comer, isso quando está empregada. Francamente.

– Veja bem, Velho Marinheiro: é que…

– Ananias, não me venha com esse seu corporativismo de padaria. Não é tudo, não. Não há santo dia em que não apareça “especialista”, para nos lembrar que o mercado de trabalho exige, cada vez mais, aperfeiçoamento continuado. Quem não fizer novos cursos, não investir em línguas e sei lá o que mais está lascado. Ora, volto ao que há pouco já lhes disse. Se o sujeito não ganha para comer, se é obrigado a fazer bicos e mais bicos, para sustentar a família, como ter tempo e dinheiro para estudar?

– É verdade, é verdade – concordaram Deolinda e seu decote generoso.

– Ananias: vamos mudar de assunto, esse já rendeu o que tinha que render. Vamos comemorar a presença, entre nós, da “Gabriela” de Vila Invernada.

– Boa ideia, boa ideia – animou-se o jornalista desempregado.

– Carneiro: traga bebida para a gente e uma porção de bolinhos de arroz, mas fritos na hora. Deolinda só merece coisas boas. E os analistas que se danem, safados.


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DOCE DE BAR OU: JURUBEBA PRECISA DE PINGA

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Jurubeba – o morador de rua mais famoso de Vila Invernada – parou na porta do bar do Carneiro. Não disse palavra. Nem precisava. Seus olhos embotados suplicavam por cachaça. É como se rogassem: “Uma dose por Deus”.

Encostado no balcão, Chico Pança, cujos olhos estavam tão embotados quanto os de Jurubeba, desandou a falar – aos berros, evidentemente, para que todos o ouvissem:

– Quer comer uma coxinha? Eu pago. Quer um doce? Eu pago. Agora, só não dou dinheiro nem pago cachaça pra pinguço. Isso eu não faço.

O Velho Marinheiro levantou-se da cadeira, foi até o balcão e pediu ao dono do bar que pegasse um copo descartável e o enchesse de aguardente até a boca. Fez-se silêncio. Então, foi até a porta e o entregou a Jurubeba, junto com uma nota de cinco reais. “É pra mais tarde”. Retornou para a mesa e tentou retomar o papo com Ananias, seu amigo.

Chico Pança resolveu cutucar a fera com varinha de condão:

– É por isso que pinguço não se emenda. Tem sempre um otário…

Não teve tempo de concluir sua fala ordinária.

– Escuta aqui, vagabundo: o dinheiro é meu, faço dele o que quero. Quem precisa de pinga para ficar em pé não quer saber de coxinha. E você o que é? Um bêbado ordinário que ainda tem casa pra morar. Jurubeba precisa mesmo é de tratamento. Você vai pagar, vai? Você é um ignorante incorrigível, Chico. Pega sua coxinha e enfia no rabo, junto com seu moralismo safado. E tem mais: se você humilhar Jurubeba de novo, eu lhe soco a cara. Espero nunca vê-lo dormindo na rua, totalmente dominado pelo vício. Cuide-se. Porque nunca lhe pagarei uma cachaça nem lhe darei uma moeda sequer. Mas lhe garantirei – tenha certeza – uma coxinha e um doce de bar.


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CALMARIA

– Odorico: se você é incapaz de guardar segredo, por que acha que Ananias e eu seríamos capazes de trancar a sete chaves o que você já espalhou para o mundo?

Faça bom proveito de sua história. Não temos interesse em conhecê-la. Francamente.

De nada adiantou a reprimenda do Velho Marinheiro. Boquirroto, Odorico deu continuidade à conversa frouxa:

– Conto com a discrição dos senhores. Tenham paciência com Teobaldo. Ele está vivendo momentos difíceis, de grave crise conjugal. Ele e a patroa já não dormem mais juntos, não dividem a mesma cama. Soube por fonte confiável.

– Que beleza. Na idade deles, fizeram a coisa certa. Mafalda e eu há tempos não dormimos no mesmo quarto. Nosso relacionamento melhorou. Ela não reclama dos meus roncos, eu não me queixo de suas falações. Cada um se cobre mais ou menos, de acordo com o frio que sente, entendeu?

– Mas atitude tão radical não esfria o relacionamento?

– Depois de certa idade, Odorico, o mar revolto dá lugar à calmaria. Quem diz o contrário mente. Preciso desenhar? Agora, nos dê licença. Ananias e eu temos negócios a tratar.

clm


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CADÊ O SAPATO DO PAI?

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Cumprira rigorosamente o ritual: dera banho no pai, enxugara o pai, colocara a roupa no pai, passara creme hidratante nas pernas do pai e pomada nos ferimentos (o pai caía muito), dera os comprimidos para “administrar” o Parkinson, pingara os colírios etc. Só faltava colocar os sapatos. Mas faltava um sapato. Vasculhou a casa toda. Em vão.

A empregada chegou, fez o café, mimou o pai e disse ao filho que ficasse tranquilo, fosse escrever seus textos, cuidar da vida. Na hora da faxina, ela daria uma geral e encontraria o sapato fujão. Também não encontrou.

No dia seguinte, o pai pediu ao filho que fosse até a biblioteca, abrisse a gaveta tal e pegasse alguns reais num envelope pardo para comprar umas miudezas. O fujão estava lá.

– Pai, o senhor esteve ontem na biblioteca?

– Acho que estive. Por quê?

– Seu sapato estava lá, na gaveta. Quem o colocou ali?

– Não sei. Eu é que não fui.


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RAPIDÍSSIMAS

HORA DO RECREIO

Como o sono não chega, o jeito é sonhar acordado.

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UM A ZERO

Dizem que nada acontece por acaso. Pode ser, pode não ser. De qualquer forma, o ocaso reforça a tese.

* * *

BONS TEMPOS

É bom ter cautela. A memória costuma pregar peças.

* * *

CARENTE

Hoje, estou com saudades de todos. Até dos inimigos que não tenho.

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FINGE

Só agora.

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TE AMAR

Foi um detalhe que alterou a rota.

* * *

NÓS

Aquele roçar involuntário de mãos – quem diria? – despertou o desejo insone.

* * *

MIOPIA

Por trás daqueles olhinhos espremidos escondiam-se desejos inconfessáveis. Não eram poucos, os danados.

* * *

DOUTORES

Sejamos francos: ninguém chama médico e dentista de “doutor” por respeito. É mero cagaço.

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BOM MENINO NÃO FAZ PIPI NA CAMA

MENINO

Zé Paulo passou a maior parte dos seus muitos anos ouvindo da mamãe e do papai coisas assim:

1) Ainda não é momento, querido;

2) Tenha paciência, meu filho, sua hora chegará;

3) Para que tanta pressa? O mundo não vai acabar amanhã;

4) Não se arrisque: deixe para fazer essa viagem, quando tiver uma sólida condição financeira, entendeu?

5) Esqueça a Joana, não é mulher para você. Muito assanhada;

6) Filho, vocação é dinheiro no bolso. Faça Direito, como seu pai;

7) Etc.

Toda vez – e não foram poucas vezes – em que pensou em se rebelar, em por fim na intromissão indevida, Zé Paulo abortou a ideia. O coração do pai era fraco; o diabetes da mãe, alto. Não suportariam tamanha desfeita de quem tanto amavam. Além disso, os velhos já eram velhos, porque se casaram velhos. Zé Paulo veio à luz mais tarde ainda, porque naquele tempo apenas “vadias” engravidavam sem o alvará do padre.

A tática de Zé Paulo – a de nunca contrariá-los – deu resultados. Os velhos foram longe, morreram, no mesmo semestre, com 185 anos: ela com 90, ele com 95. Certo de que fez o certo, Zé Paulo vivia repetindo para quem quisesse ouvir que papai foi na frente para preparar o caminho para mamãe, nunca vi amor igual. Às vezes, lembrava-se das viagens que não fez e do fogo indômito de Joana. Mas sem qualquer laivo de arrependimento. Fora bem domesticado.


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QUASE HISTÓRIAS

COLECIONADOR DE GALHOS

Maria José, com um simples olhar, sabia exatamente o que José Maria estava matutando. José Maria, por sua vez, coitado, sempre foi incapaz de perceber qualquer uma das múltiplas intenções de Maria José – menos ainda da mais recorrente. Melhor assim. A seu modo, foi um homem feliz. Morreu sem saber.

galhos

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O POETA MORREU (antes de nascer)

Américo apenas se deu conta de que jamais aprendera o que de fato importa, quando resolveu, depois de velho e absolutamente só, escrever um livro. Não queria um livrinho qualquer, burocrático ou piegas. Nada disso. Andava muito impressionado com Bandeira e Quintana, com a leveza de seus textos. Queria algo nessa linha, sedutor. Foi aí que a corda roeu. Jamais gastara tempo observando passarinho voar, muito menos admirando a beleza das flores e do vai e vem sonoro das ondas do mar. Vivera sempre acuado, escondido atrás de pilhas de relatórios e de números que mais escondiam que revelavam. Fez um esforço, buscou na memória – ainda intacta – a lembrança de um grande amor. Lamentou o fato de nunca ter tido uma mulher que hoje lhe trouxesse saudade. Resignado, enterrou o poeta antes de seu nascimento.


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RAPIDÍSSIMAS

CUSTO X BENEFÍCIO

Depois de quarenta anos de casado, trocou a velha jararaca por uma gatinha siamesa. Ganhou uma alegria estridente e um monte de galhos.

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ZAS-TRÁS

O pensamento pensa ligeiro demais, atropela o tempo, nada resolve.

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DE PAI PARA FILHO

– Jurubebinha: o papai já não lhe disse que menino bonzinho nunca deixa bebida no copo?

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DOIS PALITOS

Matuto, engole as ideias sem matutar. Só faz besteiras.

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AMOR X PAIXÃO

O primeiro pode ser pio; a segunda não: é cio.

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CAMA DE CASAL

Dormir é o destino menos nobre que se dá a esse treco.

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BURRICE

Ele não desanima nunca. Mais por teimosia que por convicção.

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RAPIDÍSSIMAS

ANDANTE

Percorreu em pensamentos todos os descaminhos.

op

OUTONO (I)

A mais linda das estações. Ela não afirma, sugere.

OUTONO (II)

Aquela folha caída é um pedaço de mim, tiquinho de nós.

O PRIMEIRO BEIJO

Digam o que quiserem. É sempre uma lástima. Ninguém sabe muito bem o que fazer com a língua.

MATILDE

Esses seus olhinhos míopes me botam afogueado.

A CONTA

Elles tropeçam na ética, mas quem beija a lona somos nós.

PIXINGUINHA

– O que sou? Um coração vadio a procura do seu.

TEMPOS

Hoje, foi um dia tristinho. Amanhã, micareta.

O GRITO

– Doutora, você é tão meiga, tão linda, puro êxtase… Mas esse boticão em sua mão me provoca os piores instintos.

pi

GUIOMAR, GUIOMAR

– Deixe de besteira. Faça jus à fama.

QUEREM SABER?

Escrever, às vezes, enche o saco.


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DE CARTOLA E PINCENÊ

CP

– Gostei de ver meu amigo Velho Marinheiro ontem à noite, todo nos trinques, arrumado, cheirando perfume bom. Até Deolinda comentou.

– O que ela lhe disse?

– Que o senhor estava um “gato”.

– Não me venha com zombaria, seu vagabundo.

– Verdade, juro. “Gato”. Palavra dela.

– Não me importa. Deolinda é minha amiga, tem idade para ser minha filha. Vamos voltar ao livro.

– Tudo bem. O senhor é quem manda.

– Ananias: tenho gênio difícil, mas não sou homem de fazer desfeita para seu ninguém, nunca fui. Não suporto uma coisa dessas. Não poderia deixar de ir ao lançamento do livro. Muito embora você saiba o que penso de Romualdo Bastos: é uma besta de discurso oco e empolado. Nem poderia ser diferente. O homem não faz outra coisa, além palavras cruzadas.

– Mas o senhor gostou do romance?

– Não.

– Mas já leu o livro inteiro?

– Não li nem vou ler. Livro é como mulher. De cara, a gente percebe quem é. Aliás, se você quiser, eu lhe dou o meu exemplar.

– Não precisa. Eu também comprei um.

– Qual o problema? Você dá de presente para um desafeto. Não é possível que você não tenha nenhum desafeto. Além do mais, até onde sei, sua sogra está viva e com saúde. Ainda enxerga para o gasto.

– Está bom. Vou pensar. Mas por que não gostou do romance?

– Porque o livro é a cara do autor. Ele deve ter escrito aquela porcaria caçando palavras difíceis no dicionário, para impressionar os incautos. É uma escrita de cartola e pincenê, se me entende. O que poderia ser dito num parágrafo consome páginas e mais páginas. Romualdo também abusa dos gerúndios. E o pior de tudo: escreve como se estivesse cumprindo uma missão impossível – salvar o mundo. A função do romance é outra. Se gostasse de conselheiros, vivia de mãos dadas com o padre Chico. Deixa pra lá. Mas, afinal, você quer ou não quer o livro?

– Aceito.

– Sua sogra vai gostar. Amanhã lhe trago o danado. Vamos deixar o livro pra lá. Agora, por mera curiosidade, o que Deolinda lhe disse mesmo a meu respeito?


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O BASTA

VC

Vicente estava farto de todos e de quase tudo. Aos 75 anos, queria viver em paz, a seu modo, sem interferências e palpites de quem quer que seja – muito menos dos mais próximos. Cordato, pagara a vida inteira para não discutir. Sem abandonar suas convicções e vontades, fizera o que não estava disposto a fazer só para não contrariar a falecida, filhos, genros, noras e a parentalha toda. Uma vida de engolir sapos amarrados por arame farpado. Sem piar. Agora, chega. Resolveu fazer reunião com filhos e agregados. Marcou dia e hora. Disse-lhes que a conversa não era conversa, não; era comunicado -, importante, mas de curta duração –, que era melhor não trazerem as crianças e que o caçula não viesse tocado. E assim foi feito.

Diante dos filhos, noras e genros, Vicente foi direto ao ponto, com firmeza:

– Sei das boas intenções de todos vocês. Sei que querem meu bem. Mas, de agora em diante, não quero mais ouvir “o senhor tem que fazer isso, o senhor tem que fazer aquilo”. Não tenho interesse em sentar no banco da praça e conversar com outros velhos, muito menos em ir a Poços de Caldas tomar licor de jenipapo e comer goiabada com queijo. Gosto de ficar só, com meu trabalho. Pouco me importa se não há interessados em comprar minhas maquetes, elas não estão à venda, não preciso de mais dinheiro para viver. Minhas doze horas diárias de labuta são o grande prazer do resto de minha vida. Espero que não me tomem também isso. Enquanto faço o que gosto, viajo mundo afora, livre, feliz, como se tivesse trinta anos. Espero que me deixem em paz. Venham sempre, mas nunca mais toquem nesses assuntos, dispenso conselhos. Não quero mais essa conversa “se eu fosse o senhor…” Com licença, vou trabalhar na minha oficina. A empregada fez uns doces gostosos, estão na geladeira, sirvam-se. Fiquem com Deus. Um beijo a todos.

Indignados, filhos, noras e genros concluíram que Vicente enlouquecera. Só podia ser isso. Onde já se viu falar assim com quem só quer sua felicidade?


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COM SAÚDE NÃO SE BRINCA

RV

Passei anos – tenho certeza de que você também – ouvindo de meus pais o que vai acima: com saúde não se brinca. E sempre dei de ombros ao conselho que me davam. Mas, o tempo passa, o tempo voa… Ora, se nem o Bamerindus continua numa boa – ao contrário, quebrou -, quem sou eu para desafiar a “lei da idade”? Resolvi me tratar por conta e risco próprios. Médicos são incapazes de fechar qualquer diagnóstico sem pedir o tal de exame de sangue. Agulhas não se dão bem comigo, se me entendem. Elas entram num braço, eu quedo sobre o outro.

Optei pelos fitoterápicos. Peguei uma relação de ervas, analisei a utilidade de cada uma delas e escalei meu “time”: Carqueja (gol); Salsaparrilha, Artemísia, Assa Peixe e Avenca (zaga); Barbatimão (em homenagem ao glorioso Timão), Boldo do Chile e Cabreúva (meio-campo); Hortelã, Porangaba e Cactus (ataque). Na reserva, mantenho uma erva para cada titular. Tomo vários copos por dia. Trato simultaneamente de vários problemas, ok? Excluí do time duas plantas: Urtiga e Agoniada. Segundo a vasta literatura fitoterápica, a primeira dá jeito na menstruação irregular e a segunda acaba com a inflamação uterina. Concluí que elas não me seriam úteis.

Como todo tratamento, o que adotei também apresenta efeitos colaterais. Tenho produzido pouco e dormido menos ainda. Quando não estou tomando chá, estou eliminando chá. Por falar nisso, tenho que encerrar a conversa. Hora de passar o pano no chão e trocar de bermuda. Até. Em breve, lhes darei notícias sobre o andar do tratamento.


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