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A QUEM? A QUEM?

Graciliano Ramos, por Hugo Braz

Graciliano Ramos, o “velho” e eterno Graça, dispensa apresentação. Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, autor de livros inesquecíveis, era de um rigor absoluto consigo mesmo, tanto na vida pessoal como na política e no trabalho literário: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

Austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux foi ensaísta, crítico de literatura e jornalista. Chegou ao Brasil em 1939, com sua mulher. Judeus, fugiam da escalada de terror promovida pelos nazistas.

Afinidades intelectuais – mas não só elas – fizeram Graciliano e Otto grandes amigos. Ambos eram pessimistas incorrigíveis. Conta-se que, numa das inúmeras conversas que tinham nos cafés e livrarias do Rio de Janeiro, ocorreu a que segue:

– A coisa está feia, vai de mal a pior. Amanhã, estaremos pedindo esmolas – teria dito um deles.

– A quem? A quem? – teria questionado o outro, ainda mais desolado.


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CADA UM COME O SEU!

O caipira tinha dinheiro de sobra, gostava de ostentar seus carrões, roupas de grife e correntes de ouro, não abria mão de frequentar restaurantes caros. Mas não gostava de passar por jeca – sejamos francos: ninguém gosta de passar por jeca, ainda mais se for jeca.

Certa feita, nosso matuto veio para a capital a negócios. Resolveu jantar num restaurante chique. A desgraça é que ele não tinha a menor ideia do que pedir para comer e beber. Não entendia o que estava escrito, em francês, no cardápio. Escolheu sua mesa a dedo. Ao lado da mesa de um grã-fino.

– Garçom, me traga o prato de sempre – pediu o bacana, frequentador assíduo da casa.

O caipira não deixou por menos:

– Dois.

O bacana pediu ao garçom “o vinho de sempre”.

E o caipira:

– Dois.

Nosso jeca foi nessa batida até a hora da sobremesa. O bacana estava a ponto de estourar. E estourou:

– Garçom, isso aqui está insuportável. Quero o manobrista.

– Dois, pediu o caipira.

– Escuta aqui, cidadão: um manobrista dá para os dois.

O caipira retrucou:

– Nada disso! Cada um come o seu.


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OS GEMIDOS DE NÉLSON RODRIGUES

O criador do moderno teatro brasileiro, o polêmico e genial Nélson Rodrigues, foi ele próprio um grande personagem. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeros percalços: teve o irmão, também jornalista, assassinado; o pai, por conta da morte do irmão, logo se foi; a tuberculose o mandou diversas vezes para sanatórios; a úlcera não lhe deu tréguas… Mesmo assim, Nélson Rodrigues trabalhou feito mouro, escreveu inúmeras peças de teatro, crônicas e tudo o mais que fosse preciso escrever para garantir a subsistência da família.

Sua trajetória, em detalhes, está descrita em “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro. Um livro que deve – mais que lido – ser degustado, pela riqueza de informações e pela qualidade do texto. É dele que retiro a historinha que segue.

Durante três meses, Nélson ficou “internado” na sala de sua casa, já que se recusava a voltar para o hospital, onde fora operado da vesícula e para o qual fora levado outra vez por conta de complicações no pós-operatório. Vivia cercado de gente: familiares, vizinhos e parentes. “Durante o dia, o ‘quarto’ de Nélson tinha uma plateia de FLA-FLU”, escreve Castro.

Nas raras vezes em que ele ficava só (tinha medo de morrer sozinho), Nélson apelava em tom dramático para a sogra:

– Dona Concetta, fique comigo. Venha me ouvir gemer.

* * *

Nélson adorava sanduíche de mortadela. Mas a úlcera, sempre ela, lhe castigava. O mestre, então, chamava o contínuo – que à época, ao contrário de hoje, não era guri – e lhe propunha um bom negócio. Que o homem fosse buscar o sanduba. Ele pagava com gosto. Mas tinha um preço: o sortudo tinha que comê-lo na frente de Nélson. Que babava de satisfação.


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NAQUELA NOITE, OTTO LARA “VIROU” ZÉ APARECIDO

O mineiro Otto Lara Resende (1922-1992) viveu mais tempo no Rio de Janeiro que em seu estado natal. Se nunca abandonou a “mineirice” trazida de São João Del Rei, incorporou, definitivamente, o senso de humor dos cariocas. Advogado, jornalista, escritor e frasista de primeira, Otto formou com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, seus amigos de juventude, todos igualmente mineiros e talentosos, o que eles próprios definiram como os quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Ou: “adolescentes definitivos”.

Antes de tudo, Otto foi um exímio contador de casos. Há quem o considere o “ultimo causeur”. Ficcionista, ele próprio transformou-se num personagem. Diz-se que certa noite, em plena ditadura militar, ele entornou uns uísques a mais no famoso Antonio’s, reduto da boemia intelectual do Leblon. Lá pelas tantas, subiu numa cadeira e fez um duro discurso contra o regime vigente. Mais um gole, Otto voltou ao palanque improvisado, agora para comunicar à assistência, em alto e bom som, quem era: “Anotem o meu nome: José Aparecido de Oliveira”.

Em tempo: José Aparecido de Oliveira, ex-secretário do ex-presidente Jânio Quadros, mineiro como ele, era amigo de Otto desde os tempos de juventude, nas Gerais. Se a história é verdadeira ou falsa, ninguém sabe. Nem o jornalista Benício Medeiros, autor de um excelente perfil sobre o “mais carioca dos mineiros”.

Da esquerda para a direita: Paulinho, Sabino, Otto e Hélio (agachado)

Nos tempos de juventude, numa brincadeira, Fernando Sabino fez a seguinte quadrinha, para adornar a lápide de Otto:

“Aqui jaz Otto Lara Resende
mineiro ilustre, mancebo guapo.
Deixou saudades, isso se entende:
Passou cem anos batendo papo.”


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RAPIDÍSSIMAS

PERDOAR? PERDOEI

Mas não me peça para ser hipócrita. Toda vez que relembro (ainda que não queira) dói uma enormidade.

* * *

INADIMPLÊNCIA

Aqui se faz. Aqui se deve. Nem sempre se consegue pagar. Paciência. Chame o síndico: Tim Maia, o único cara que bancava a festa, mas não ia ao próprio aniversário.

* * *

MELHOR DOS MUNDOS

Não tenho opinião definitiva sobre nada.

* * *

TAREFA IMPOSSÍVEL

Perdão, senhor, jamais me recolherei à minha insignificância. Dela nunca saí.

* * *

E OS AMORES SE FORAM

Não lamento. Fui junto.

* * *

SEM ELA, NÃO DÁ

– O melhor do amor é a cumplicidade.

* * *

HISTÓRIAS

Já me contaram tantas. Quase todas falsas.

* * *

BESTEIRINHA

E eu que, hoje, precisava tanto de um colo ganhei torcicolo.

* * *

QUANDO A SAUDADE BATER…Serei para você vaga lembrança.

* * *

LUAS

Há dias em que tenho orgulho de mim. Há dias em que não me olho no espelho. Coisa de maluco involuntário.


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MEMÓRIAS DO PARKINSON

Ninguém conseguia entender aquele desassossego diuturno do pai. Justo ele, sempre sereno, quase monge. Não tinha boca para reclamar de nada. Qualquer comidinha por mais trivial que fosse – ovo frito, picadinho etc. -, encarava com satisfação sincera. Aposentado, passava horas e horas lendo seus muitos livros, uns cinco mil, algo em torno disso. Quem se irritava era a mãe, que gostava mesmo de conversar, ela dizia que não tinha companhia, que aquilo não era vida, coisas do tipo.

O pai, para surpresa de todos, foi-se transformando num homem irritadiço. Passou a reclamar de tudo: do sofá da sala, do colchão, das cadeiras da cozinha. No apartamento da praia, era a mesma coisa. Queria trocar todos os móveis, algo descabido. Tudo (e creio que todos) lhe aborrecia. Já não tinha a mesma paciência para com os livros.

O médico da família não dera conta do recado. Gastou-se uma fortuna com um geriatra tão famoso quanto picareta. E nada. O terceiro doutor também não resolveu, mas pelo menos teve uma serventia: pediu ao pai que fizesse hidroginástica. Uma fisioterapeuta da clínica foi direto ao ponto: era bom levá-lo a um neurologista. Àquela altura, após vários tratamentos, o pai só fazia piorar. Cada vez mais impaciente e trêmulo, relutou em seguir a sugestão, não acreditava mais nos médicos. Mas foi. A pulso.

A neurologista lhe pediu uma série de exames, para medir o tamanho do estrago já feito pela doença: Parkinson. Receitou alguns medicamentos. Visivelmente aborrecido com o diagnóstico, o pai não queria parar na drogaria. Voto vencido.

Quando o filho chegou em casa, duas horas depois, foi avisado de que o pai ligara, queria falar com ele:

– Filho, já tomei os dois remédios da noite. Eu me sinto tranquilo e desembaraçado. Milagre.

Naquela noite, pai, mãe, filho, filha e nora choraram de alegria. Mesmo sabendo que não haveria cura.


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BODAS DE NADA

– Terça-feira está chegando, Marli.

– E daí, Osvaldo?

– A data não lhe diz nada, querida?

– Xiii. Vem, não. Quando você fica derretido feito margarina na frigideira, está pensando em aprontar uma das suas.

– Mas essa terça é uma data especial, Marli.

– Sei. Terça é dia de limpar a casa, fazer almoço e janta, lavar e passar roupa, o de sempre. Ah, é dia de feira também. Tem mais essa.

– Marli, faremos 40 anos de casados. Uma vida…

– Uma vida besta. Nos cinco primeiros anos, até que foi bom. Depois só eu sei. Não fossem os filhos…

– O que você faria?

– Ou picava a mula ou pulava de cabeça numa piscina sem água.

– Que horror, Marli.

– Não se faça de esquecido, Osvaldo. Não é possível que você não se lembre de metade do que aprontou.

– Por que metade?

– Porque boa parte do tempo você viveu tocado.


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RAPIDÍSSIMAS

FIDELIDADE

Verdade seja dita: Isaura sempre traiu Osório. Mas só em pensamentos.

* * *

SEJA FELIZ

Dispense o reconhecimento alheio.

* * *

CONSOLO

Que, cedo ou tarde, o mundo vai acabar é uma hipótese plausível. Mas não estarei por aqui para assistir ao espetáculo.

* * *

DIVÓRCIO

Ela nunca deu motivos para ele ir embora. Precavida, foi antes.

* * *

DESCULPA

– Querida, vou dar um instantinho no bar para regar meus planos.

* * *

GOSTOS

As mulheres, em geral, vão às compras; os homens, aos copos.

* * *

CULTURA DE SOVACO

Passou a vida carregando livros sob os braços.

* * *

PREÇO

Solidão não mata, mas não prescinde de fantasias.

* * *

NA LATA

– Meu caro, é sempre desprazer reencontrá-lo.


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A JINA DE JAÚ É COM JOTA. E NÃO SE FALA MAIS NISSO. CERTO?

Cadê a Jina?

Meu sogro, verdade seja dita, foi homem de muitas qualidades. Tinha memória de elefante, era inventivo e, acima de tudo, inabalável. Jamais, em momento algum, se deixava apanhar em calças de guri. Nesses três quesitos, só havia uma pessoa capaz de enfrentá-lo: dona Tereza, sua mãe. Aliás, puxar pela memória e desafiá-la no limite, salvo engano, era o esporte que mais os encantava, para desespero da assistência.

Nas tardes de domingo, mãe e filho travavam duelos memoráveis sobre qualquer assunto, muito embora houvesse um tema que lhes proporcionasse prazer imenso: dizer, por ordem de arrebentação, os dezoito nomes (todos iniciados com J) dos filhos de um casal que haviam conhecido em Jaú, terra de meu amigo José Cássio, jornalista dos bons.

Antes de prosseguir, convém ressaltar que dezoito foi resultado de um armistício entre as partes, após anos de guerra (quase) sangrenta. A mãe de meu sogro jurava que o casal de Jaú tivera dezenove filhos. Meu sogro não arredava os pés dos dezessete. Chegaram aos dezoito por exaustão e medo de que o debate não seria encerrado, por falta de plateia. De qualquer forma, das três uma: ou rasgaram a certidão de nascimento de um dos rebentos, ou deram vida a quem nunca a teve, ou – o que é mais provável – a capacidade do casal fazer filhos foi superdimensionada.

Soado o gongo, a mãe do filho dava a largada:

– Jean, José Josefa, Jina…

– Pera aí, vó: Gina é com G, não com J, protestava uma das netas.

– Aquela Gina era com J, retrucava a avó, à beira de um ataque de nervos, pela insolência da guria.

Este era um dos raros momentos em que os contendores se uniam.

– Aquela Gina era com J, sim. Eu também vi o papelucho, afirmava categoricamente o filho em defesa da mãe.

Frequentemente, a contagem não batia. Ou passavam dos vinte nomes, ou ficavam aquém dos quinze. Mas ninguém percebia, porque ninguém prestava mais atenção na contenda. E não seria eu, um estranho no ninho, que iria me meter a besta.


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RAPIDÍSSIMAS

NÃO SE ILUDA

Há jaulas e jaulas. Mas todas são jaulas.

* * *

NÃO SE ILUDA (2)

Numa jaula, você estará sempre protegido. E fodido.

* * *

ALTO LÁ

Favor não confundir sinceridade com falta de educação.

* * *

CURTAM, CURTAM

Amanhã, ela estará seca; ele subirá com dificuldade.

* * *

GARFIELD

Viajou pouco. Por preguiça de fazer e desfazer as malas.

* * *

PERDÃO, QUERIDA

Há tempos não ando, só desando.

* * *

TRISTEZA

A passarinha posou no muro, me olhou, olhou e foi embora. Sem me dar um mísero pio.

* * *

ENGOV

Essa euforia, amanhã, com certeza, lhe apresentará a conta.


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RAPIDÍSSIMAS

REDUÇÃO DE DANOS

Melhor não fazer nada que fazer nada que não preste.

* * *

JÁ ERA

Justificativas não mudam a história.

* * *

FINAL INFELIZ

O vício (quase) sempre vence. Que lástima.

* * *

POP STAR

Muitos fazem, poucos levam a fama.

* * *

ELA JÁ SABE, BOBO

– Perdão, Rosinha. Broxei.

* * *

NÃO RECLAME

Poderia ser pior, sempre pode. Já imaginou hemorroidas a esta altura do campeonato?

* * *

SÁBIAS PALAVRAS

E o setentão falou: Quem me dera poder optar. Trocaria a experiência inútil pela ereção dos trinta.

* * *

DUDU

Um neto sempre lhe dá a boa ilusão de que é possível (ainda) fazer grandes coisas.


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AS PAPINHAS DO PIERINO

– Nossa Senhora! Hoje o senhor está com uma cara…

– Cara de que, Ananias?

– De poucos amigos.

– Nunca tive muitos amigos, dois ou três, no máximo. Já é muito.

Ananias enfiou a viola no saco, emudeceu.

O Velho Marinheiro, após longos minutos de silêncio, pediu uma nova rodada para o Carneiro, acendeu o cigarro e desandou a falar:

– Não é nada contra você, Ananias. Mafalda é que me tira do sério. Já cansei de lhe falar: “Mulher, não gosto de me intrometer na vida dos outros. Agora, não me calo ante coisas que acho erradas e afetam pessoas indefesas ou das quais eu gosto. Então, se é para me contar lambanças alheias e esperar que eu fique calado, pegou o bonde errado”. Adianta falar? Mafalda me conta as coisas e depois reclama de minhas reações. Vai entender.
Ananias estava mudo, mudou permaneceu, receoso de irritar ainda mais seu amigo, já a ponto de explodir.

– Você não está interessado na conversa?

– Sou todo ouvidos, Velho Marinheiro. O que aconteceu?

– Meu neto e a mulher dele – peru e perua, dois basbaques deslumbrados – levaram meu bisneto ao médico. Diagnóstico: a criança está desnutrida, gorda e desnutrida. Que vergonha! Se ainda fossem miseráveis, vá lá, daria para entender. Mas dinheiro não lhes falta, ao contrário. A criança anda mais enfeitada que poodle de pet shop, tem toda sorte de brinquedos e roupas de grife. A mãe, porém, nunca fez uma sopa para o menino. Diz que não tem tempo, vida agitada, trabalho, cursos, festas e viagens. O pai compra potes e mais potes de “papinha” pronta e tudo o que é tranqueira industrializada. E se gaba: “É da melhor qualidade, custa caro!” Pode? É essa a alimentação básica do menino: papinha industrializada. Você precisa ver a conversa dos dois sobre criação de filhos. É como se dizia: “quem vê cara não vê coração”. Posam de pais ultramodernos, discutem métodos educativos e sei lá mais o quê. Falam de viagens futuras pelo mundo. Mas são incapazes de fazer um caldo para Pierino, de dar uma fruta na boca de Pierino! Deixam tudo para a tal da babá.

– Perdão, Velho Marinheiro. Quem é Pierino?

– A puta que o pariu, Ananias.

– Como?

– Meu bisnetinho. Perdão. Ora, quem mais seria Pierino, Ananias? Tenha paciência.

– Claro, claro.

– Mas lhes falei um bocado.

Por via das dúvidas, Ananias pediu mais uma rodada completa para Carneiro, antes de perguntar ao Velho Marinheiro:

– E o que o senhor lhes disse?

– Olha aqui, vagabunda e vagabundo, quem tem preguiça de fazer comida para o próprio bebê não serve para nada. O que lhes falta é vergonha na cara. Vão-se catar. Se quiserem, Mafalda e eu criamos Pierino. Mais um não vai nos aleijar.

– E eles?

– Desligaram o telefone na minha cara. Juraram que nunca mais pisam em minha casa. Danem-se, me fariam um favor.


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RAPIDÍSSIMAS

PÉ NA ESTRADA

Naquele dia, sem mais nem por que, talvez por puro cansaço, ele retomou o rumo inesperado: desistiu de desistir.

* * *

AUTOENGANO

A gente (quase) sempre sabe, mas finge que não. Depois reclama do preço.

* * *

TRISTE FIGURA

Tantas ele fez, que o velho personagem se mandou. Restou a lamentação.

* * *

FEITO BANDIDO

A polícia não pede licença para disparar bala perdida.

* * *

SEM PLANO B

A partida nem sempre é a melhor saída. Mas, às vezes, é a única.

* * *

NET WORK

Não tinha tempo para mesuras. Salamaleques? Nem pensar. Um burro. Hoje, paga o preço. Trabalhar muito, ainda que bem, vale pouco.

* * *

SINA

Caminhou, tropeçou, bebeu demais, trançou as pernas, mas nunca deixou de trabalhar. Chegou à Pasárgada. Mas o rei, seu amigo imaginário, fora deposto. Paciência. Hora de ir para Maracangalha. Amália, cansada dos descaminhos dele, não foi junto, não.

* * *

HUMANOS

Não somos ruins. Somos medíocres, predadores. Será sina? Não sei. Arte é que não é.

* * *

NO MUNDO DA LUA

Não foi, olhou e não viu, não sofreu. Nunca soube o que perdeu.

* * *

PLEASE

Se a felicidade não existe – e ela não existe mesmo –, me deixem gozar sem culpa.

* * *

CERTEZAS

Em geral, estão mais para ignorância e preconceito que para sabedoria.


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PAPINHOS COM DUDU: MULHERES MADURAS

– Vovô, vovô.

– Fala, Dudu.

– Acho que estou apaixonado.

– O que é isso, menino? Você faz um mês amanhã! Francamente. Nem de casa sai.

– E daí? O amor acontece.

– Meu Deus! Apaixonado por quem?

– Pela Nathalia?

– Nathalia?

– É, vovô. A netinha da tia Eva e do tio Quincas.

– Mas você nunca a viu?

– Vi, sim.

– Quando?

– Ontem.

– Ontem?

– Foi. Você mostrou a gatinha para a vovó no facebook e falou que era muito querida. Espichei os olhos. Concordo com você, vovô: ela é bem lindinha.

– Mas ela já é quase uma jovem senhora perto de você, pirralho.

– E daí? Quem sai aos seus não degenera.

– É verdade. Mas aonde você quer chegar?

– Sou como você: gosto de mulheres maduras.


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RAPIDÍSSIMAS

O MORIBUNDO MORREU…

Antes do tempo. Por excesso de visitas.

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JUSTIÇA

Não se deve condenar toda a espécie pela ignorância da maioria.

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CANDIDATO?

Só ao esquecimento.

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EVOLUÇÃO

É quando você se dá conta de sua irrelevância. E não liga.

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MALDADE

Ela se foi e deixou no varal as duas calcinhas de que mais gosto.

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PAZ NO CAMPO

Os cães, ladram, ladram. Mas não tem jeito. A caravana não passa.

* * *
PSORÍASE

Pobre Gustavo. Virou pó em vida.

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GERAÇÃO SAÚDE

Adoro andar. De carro.

* * * 

MENOS, MENOS

Piados só de passarinho.


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O “MAESTRO” INCONFORMADO

– Marcelo, eu juro por Deus: nos conhecemos há décadas, mas cada vez menos consigo entendê-lo. Não compreendo o que o leva a tomar certas atitudes. Além de beber, você anda cheirando. Só pode ser isso. Ou, então, enlouqueceu de vez. Vai saber.

– Paulinho, eu já sei aonde você quer chegar. Está todo melindrado porque demiti o diretor de arte. Sou sócio majoritário, tenho 75% de participação na empresa. Eu decido. Quem criou a agência? Fui eu. Quem colocou essa porcaria de pé? Fui eu. Quem conseguiu os melhores clientes? Fui eu. Quem desenvolveu as melhores campanhas? Fui eu. Porra! Quer mais? Vamos lá. Quem nos tempos de bonança fez os investimentos em aplicações financeiras e imóveis, na cidade, na praia e no campo? Fui eu, meu caro. Se eu não tivesse aberto as portas para você, o que seria de sua família hoje? Seus filhos, sua mulher e você estariam na mesma pindaíba em que se criaram. Ou não? Fala a verdade.

– Impossível falar com você. Impossível argumentar com quem se julga Deus.

– Olha aqui: não cheguei a ser Deus, mas cheguei bem perto. Na nossa área, não tinha para ninguém, não. Tinha?

O silêncio pesado e arrastado se impôs. Tempo suficiente para que os dois consumissem, sem palavras ou resmungos, doses generosas de uísque e abarrotassem os cinzeiros.

Paulinho resolveu retomar o diálogo improvável:

– Marcelo, eu não quero discutir, mas preciso entender o motivo que o levou a demitir o Caio. O cara é ótimo, baita profissional, trabalhador, criativo. Além de tudo, é boa gente. Quem saiu perdendo foi nossa empresa, meu caro. Ele arruma emprego a qualquer momento, independentemente do tamanho da crise econômica. Ainda é capaz de levar para o novo emprego alguns de nossos clientes, se ele não montar a própria agência.

– Sorte dele.

Novo silêncio, nova rodada de uísque (agora, sem gelo) e cigarros. Dessa vez, foi Marcelo, o sócio majoritário, quem retomou a falação:

– Paulinho, você quer mesmo saber por que demiti o Caio?

– É evidente que sim.

– Ele é tudo de bom, como você falou agorinha. O problema dele é a vaidade. Andava dizendo para todo mundo e para amigos nossos que, sem ele, nós já tínhamos quebrado. Que era o cérebro da agência.

– Mas, ainda que ele tenha feito isso – o que duvido –, qual o problema, Marcelo? Você já foi o grande “músico”, o criador, hoje é o maestro da companhia. Não lhe basta?

– Aqui, jamais alguém brilhará mais que eu. Agora chega, é tarde. Tenho compromisso com Dora. Você tem até segunda para me dizer quanto quer pelos seus 25%. Compro sua parte, toco a empresa do meu jeito.


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RAPIDÍSSIMAS

FORASTEIRO

Serei sempre, porque sempre fui assim, um índio sem tribo. Se eu me orgulho disso? Não. Mas também não lamento.

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AS BOAS HISTÓRIAS…

Não prescindem dos deslizes.

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LÁGRIMAS

Se um dia eu perder a coragem de me emocionar, só me restará pisar nas próprias bolas.

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ESCOLHAS

Quase sempre burrice não é sina: é opção.

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O PREÇO

Quem ama faz de tudo para não torrar a paciência do outro.

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SOLIDÃO

Nem ligo para isso. Desde que Sabiá esteja por perto.

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MAKTUB

De um em um, um dia iremos todos.

* * *

ÚLTIMO DESEJO

– Querida, antes de meu suspiro final, me traga uma saideira.

* * *

LIBERDADE

Ser honesto nem sempre dá grana. Mas, como é bom não precisar comer na mão de canalhas.

* * *

PÊNALTI

Visitar quem quer que seja num final de domingo sem avisar.

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SURREALISMO

Era capaz de varar noites contando causos nos quais ninguém acredita – às vezes, nem ele. Mas era tudo verdade. Que lástima.

* * *

MORAL DA HISTÓRIA?

Vá se catar.


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RAPIDÍSSIMAS

CONFISSÃO

Ontem, perdi umas duas horas assuntando comigo mesmo. Querem saber?

Não cheguei à conclusão alguma.

* * *

TUM-TUM-TUM

Se não for bobo, coração não é.

* * *

NÃO MINTO

Às vezes, me engano feio.

* * *

AUTOESTIMA

– Fala, Totó.

– Raça indefinida é a puta que o pariu. Sou vira.

* * *

RISCOS

Só brocha quem tenta.

* * *

TÉDIO

Quando a turma do politicamente correto põe o bloco na rua, tomo um trago e me escondo. Ninguém merece.

* * *

TÉDIO (II)

Para lhe respeitar, não preciso ser igual a você.

* * *

TÉDIO (III)

Não sei quem me aborrece mais: os novos ricos ou os velhos pobres.

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TRISTEZA?

Xô, danada. Vou dançar um baile com Sabiá.


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E O AMOR SAIU PELA JANELA

– Chega de mentiras, Alceu. Basta! Entendeu? Não suporto mais essa vida que levamos. Afinal, por que você se casou comigo?

– Por interesse, Matilde, é que não foi. Muito pelo contrário.

– Como assim? Não estou entendendo.

– Quer saber?

– Quero.

– Melhor deixar pra lá, Matilde.

– Não vou deixar pra lá coisa nenhuma. Quero saber, diga de uma vez.

– Matilde: você sempre foi a mais feia das meninas, a mais pobre, a mais obtusa…

Matilde esboçou um sorriso de satisfação e apostou todas suas fichas num palpite furado:

– Então, você se casou comigo por amor, não foi?

Alceu respirou fundo, resolveu mentir (amara Matilde, sim) e colocar um ponto final na história arrastada, pois de uns tempos pra cá só tinha cabeça, coração e membro para Verinha, a cunhada mais nova, dona de bunda e peitos fartos:

– Não, Matilde. Casei por pena, pena de você.

– Cretino. Só agora, depois de vinte anos e três filhos, você me diz barbaridade dessas?

– Você nunca me perguntou antes, Matilde. Não tenho culpa.


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O PAPO FURADO DO CRUZADISTA E O LIVRO DO VELHO MARINHEIRO

Romualdo Bastos – o incansável fazedor de palavras cruzadas – estava impossível naquele começo de tarde. O bar do Carneiro, apinhado de gente, garantia audiência para sua falação. Não porque sua prosa interessasse aos presentes, mas porque aos presentes interessava tomar umas e outras, além de beliscar nacos de mortadela, de graça. Gente muito simples, sempre pronta, a clientela do Carneiro. Nessas ocasiões, o “intelectual” de Vila Invernada, como gosta de ser chamado, prefere não correr riscos. Abre a carteira, paga aos ouvintes umas rodadas disso e daquilo, garante alguns aplausos e, depois, sai para os abraços.

Pela enésima vez, Romualdo Bastos descreveu em detalhes seu método de trabalho. Com ar sempre grave, enfatizava:

– A curiosidade é a mola propulsora do saber. Um simples livrinho de palavras cruzadas é capaz de transformar a vida de uma pessoa. Desde, é claro, que ela se disponha a pesquisar, tenha disciplina e método.

Mas o pior estava por vir. Romualdo Bastos não poupou saliva para explicar à plateia, já meio tocada pela uca, o que, a seu ver, é a “função social” do escritor:

– Não basta escrever bem. É preciso enfeitar o texto com citações, muitas citações. Mais que isso: é necessário transmitir mensagens edificantes. O bom autor não abdica do seu dever maior: orientar a sociedade. Escritores devem iluminar os caminhos do povo. Uma boa história não pode terminar sem a célebre “moral da história”. Nunca.

Aplausos etílicos.

O Velho Marinheiro nem olhava para o orador. De costas estava para o falante, de costas permaneceu. De vez em quando, no entanto, anotava alguma coisa nas beiradas das páginas do jornal. O que aguçou a curiosidade de Ananias e do próprio Romualdo Bastos.

Findo o expediente, o tribuno de boteco acertou as contas com o dono do bar, abraçou os que ainda conseguiam ficar de pé e se foi, com o ego inflado.

Ananias quis saber do Velho Marinheiro o motivo de tantas anotações.

– Vou escrever um livro. Já tem até título provisório: “As Besteiras de Romualdo Bastos”. Iluminar os caminhos do povo, moral da história. Nunca ouvi tanto desconchavo em tão pouco tempo. Francamente, Ananias. Esse Romualdo é uma anta.


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NA PRÓXIMA SEGUNDA, OK?

Mais do mesmo – de novo, como sempre. Otávio percorrera a pé o quarteirão, fazendo as paradas obrigatórias: bar do Pedro, bar do Zé, bar do Paulo etc. Mas naquela segunda, mais que nas outras, não quis prosa alguma. Não estava disposto a ouvir. Falar? Nem pensar. Cogitou comprar algo para comer. Contentou-se com três maços de cigarros e dois litros de aguardente. Mestre da gororoba, ele faria um bem bolado com as sobras do domingo.

Pensou em Inês, a velha mulata de pernas ainda bem torneadas. Assanhada, ela sempre lhe dizia:

– Seu Otávio: o senhor precisa se cuidar: fazer a barba, cortar os cabelos. Que desleixo é esse? O senhor, aprumadinho, não é homem de se jogar fora.

Em casa, Otávio resolveu fazer o que há muito não fazia: olhar-se no espelho. Quase enfartou. Era uma réplica piorada do capeta. Um caco ensebado. Tinha que pôr um fim naquilo. Lembrou-se de seu Humberto, velho conhecido, dono de bar e de alguma sabedoria:

– Parei de beber, Otávio, porque percebi que estava deixando tudo para depois. E o depois nunca chegava.

Um sábio, esse seu Humberto. Otávio se prometeu mudar de vida. A partir de próxima segunda, claro.


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O PAI FOI O PAI

Homem incapaz de degenerar, o pai. Cagava uma regra ou outra, mas sempre em busca da alegria alheia. O pai foi exuberante na simplicidade. Santo, segundo minha avó, mãe dele. Nada disso, segundo o próprio. Grande sujeito, o pai. Queria comprar livros. E mais livros. Para ler, distribuir, orientar. Mãe contrariada, claro. Embirrações. Salário pequeno, gastança besta. O pai os comprou – os livros –, os recomendou e os emprestou a quem lhe parecia deles necessitado. Poucos – quase ninguém – lhe devolveram os livros. Quem toma livro alheio se mete à besta e não devolve o que não lhe pertence. Nem lê o adjutório. O pai sabia disso. O pai dava de ombros, o pai não ligava, o pai dizia não assim, quase assim: “Se leu o título ao menos, valeu: está menos burro”. Não sei se o pai salvou alma, mas tentou bom bocado.


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E TALAGADA SE FOI…

A conversa corria animada na mesa 5 do bar do Carneiro. Entre goles de cerveja e uca, três fregueses contumazes, dos que marcam o ponto todos os dias, várias vezes ao dia, faziam considerações sobre o abuso do álcool, motivados pelo assunto da semana: a morte anunciada e mais que esperada de Talagada, um dos maiores beberrões de Vila Invernada e região. Percebendo que a conversa iria longe, Carneiro ofereceu aos três, gratuitamente, rodelas de tomate como tira-gosto. Caprichou no sal, na esperança de forçar o consumo de cerveja. Não se decepcionou.

Não houve, apesar do alto consumo de bebidas, alterações, pela simples razão de que todos concordavam com todos. De fato, quem não sabe beber não deve beber, que dúvida? É preciso saber parar. Ali, por exemplo, nenhum dos três já fora visto cambaleando pelas ruas do bairro. Isso era coisa para Talagada, que vivia tocado. Agora, uma vez ou outra, pode acontecer de o sujeito bambear, ossos do ofício, acidente de percurso. Quem não sabe beber coloca à saúde em risco, cria problemas com a família (que mulher gosta de ver o marido mamado?), prejudica a carreira profissional, compromete os negócios etc. Isso sem contar os gastos, claro. Os três eram, como se vê, adeptos dos alertas estampados nas peças publicitárias: “Beba com moderação” e “Se beber, não dirija”. Mas também nesse ponto os amigos de copo e de cruz concordavam: “moderação” é conceito vago e não são umas canas a mais que vão derrubar ases do volante, como eles, três cobras criadas.

E os colegas, depois de algumas penúltimas rodadas, se foram, convencidos de que jamais terminariam como Talagada. Um deles tropeçou. Culpa da mulher do Carneiro. Maldita mania de encerar o piso.


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DE VOLTA AO RIO

Robertinho nunca foi homem de fazer reflexões, tecer planos, traçar estratégias. Impulsivo, ansioso ao extremo, tocava a vida de primeira. Para ele, era como se o mundo fosse acabar nos próximos dias. Tropeçava, ensaiava um chororô, mas logo sacudia a poeira e, se não dava a volta por cima, tratava de pegar os remos e tocar o barco. Afinal, contas a pagar são impacientes, não perdoam atrasos. Se a vida não é nada fácil, imagine com a sobrecarga de juros e correção monetária?

Apesar dos percalços, Robertinho era uma espécie de arroz de festa. Sempre (ou quase sempre) tinha “causos” divertidos para contar – o que acabava dando a ele o status de “cara legal”, de palhaço das horas felizes. Mal sabiam que, no íntimo, era um sujeito entristecido a representar um papel que se impusera. Mau ator.

Sem se dar conta, isolou-se. Queimava horas pensando coisas ruins: nos tombos que levara, nas pequenas, médias e grandes traições de uns poucos supostos amigos, nas sacanagens de alguns chefes e subchefes, na falta de apoio para que pudesse realizar seus planos etc.

Sem se dar conta, Robertinho transformou-se num chato absoluto. Passou, ainda que inconscientemente, a atribuir aos outros o motivo único de suas frustrações. Não raro, em geral após a terceira talagada, virava refém de uma ira nada santa, mas súbita. E desandava a falar impropérios nos quais nem ele via sentido.

Numa madrugada, meio que do nada (Robertinho nunca foi dado a reflexões), veio o estalo: ora, as pessoas só fazem conosco o que lhe permitimos fazer. Logo, se há culpados por isso ou por aquilo, os culpados somos nós. Se, por uma razão ou por outra, não tínhamos alternativa a não ser aceitar as cartas marcadas, leite derramado, nada a fazer. Somos o que deu para ser.

Robertinho não deu a volta por cima, mas voltou a remar. Agora, sem tanto peso na alma. Água que rola, vida que segue. Melhor assim.


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O VERDADEIRO “HOMEM” DA CASA

Domingo de sol intenso, céu de brigadeiro, nenhuma nuvem ameaçadora à vista. Piscina limpa, convidados prestes a chegar. Só faltava recebê-los e colocar a carne para assar. Ah, sim: antes, era preciso buscar pãezinhos e potes de sorvetes da marca tal, sabor tal, além de cigarros. O homem da casa foi à padaria. Meia hora depois, aperitivo tomado, missão cumprida, estava de volta com as compras.

Para seu espanto, encontrou todo mundo – mulher, filhos e convidados – em pânico, menos o verdadeiro “homem” da casa, Nilza, avó do homem da casa, senhora de setenta e poucos anos, criada na roça, mais objetiva e prática impossível, visivelmente contrariada com a covardia coletiva. Um rato imenso, saído sabe Deus de onde, veio do quintal, atravessou a cozinha e todas as fronteiras imaginárias e se instalou num dos quartos – o do casal – sob um dos criados-mudos.

E o rato dali jamais arredaria as patas, se dependesse dos homens da casa. Alguém teve coragem para fechar a porta do quarto. Mas, agora, faltava alguém com coragem para abri-la e devolver o bicho a seu devido lugar. Ninguém se dispôs a fazê-lo. Um aparentado teve uma ideia: chamar o irmão, exímio atirador, um ás com espingarda de chumbinho. O caçador, que morava pertinho, logo ali, foi recebido com pompas e circunstâncias. Resoluto, carregou a arma, conferiu a mira, abriu a porta e dali mesmo disparou vários tiros. Furou a parede toda. E o rato, incólume colosso. A velha olhava aquilo tudo com indisfarçável irritação. Resolveu dar uma basta à vergonha: foi até a lavanderia, pegou o rodo e logo avisou: “Saiam da frente, frouxos!”.

De nada adiantaram o muxoxos insinceros: “Não faça isso, vovó”, “A senhora não me apronte uma coisa dessas”, “O bicho é perigoso”. “Vou buscar munição”, dizia o atirador fracassado. “Calem a boca”, a avó do homem da casa colocou ponto final na tragicomédia: entrou no quarto, não gastou dois minutos para acabar com o inimigo. Abriu a porta, pediu a pá, recolheu os restos mortais do rato e os colocou num saco de lixo.

– Há um homem aqui pra lavar o piso? Ou vou ter que fazer isso também?

Teve, todo mundo cheio de dedos e nojo. Sabem como é?


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PQP, BRASIL!

Bolinho de arroz: santo remédio

Carneiro sentiu-se na obrigação de lembrar ao Velho Marinheiro – seu melhor freguês, o único a lhe pagar as despesas à vista, ou, na pior das hipóteses, no dia seguinte – que era sábado. Para quem não sabe, no melhor boteco da Vila Invernada, o que não significa muito, sábado é dia de bolinho de arroz com fiapos de bacalhau, uma especialidade da casa muito apreciada por todos que ali marcam ponto, em especial pelos caloteiros.

– Agora, não, Carneiro. Mais tarde, talvez, se meu humor melhorar.

Ananias não demorou a chegar. Assim que avistou o Velho Marinheiro, tratou de fazer o que sempre fazia nos dias em que seu amigo estava visivelmente irado: preparar os ouvidos e a alma para o que desse e viesse. Tudo bem. Ele sabe que os desabafos do nosso Lobo do Mar são breves, embora contundentes. Não precisou ir além do bom-dia:

– Ananias, como alguém pode ter um bom dia num país de vagabundos como o nosso, me diga?

– O que houve? – quis saber o jornalista “aposentado” pelo mercado, mas sem receber qualquer benefício da Previdência.

– No início do mês, minha filha foi até o INSS. Obteve boa notícia: conseguiu, depois de trinta e tantos anos de trabalho, a aposentadoria integral.

– Parabéns. Por que a irritação, Velho Marinheiro?

– Disseram a ela que, dentro de um mês, receberá uma carta confirmando o valor do benefício e o total dos atrasados. A carta ainda não veio. Mas a vida dela virou uma caceteação. Todos os dias pulhas lhe telefonam, várias vezes, de diferentes empresas, para lhe oferecer o tal de crédito consignado. “A senhora tem a seu dispor um crédito de até não sei quantos mil reais.” Ora, é o pessoal do INSS que passa as informações para esses vagabundos. Nome completo, endereço e telefone, tudo. Quem autorizou a canalha a fazer isso? Cadê sua privacidade? É evidente que os ordinários não repassam aos bancos e a outras empresas de crédito tais informações de graça. Pode uma coisa dessas?

– Não, não pode. Mas é assim mesmo.

– Assim mesmo o cacete. Ananias, uma coisa dessa não pode ser. Você não tem paz nem na sua própria casa. Um inferno. O telefone não para de tocar. Para se livrar dessa gente, é preciso ter paciência de Jó. Coisa que jamais tive.

Experiente no trato com o Velho Marinheiro, Ananias promoveu uma breve pausa – estratégica e silenciosa -, para reabastecer os copos e fumar um cigarrinho na calçada. Tempo suficiente para o Velho Marinheiro esfriar a cabeça.

– O senhor tem razão. O Brasil virou um bordel.

— Não ofenda as putas, Ananias.

– Vou pedir ao Carneiro uns bolinhos de arroz, que tal?

– Uma boa. Ananias, seus ouvidos generosos e os acepipes do Carneiro me fazem um bem danado. Se não me trazem de volta a paciência que nunca tive ao menos adiam o infarto.


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LEMBRANÇAS

O senhor Milton Olímpio da Silva, ao menos entre os mais íntimos, era conhecido como Papi. Quem foi Papi? Meu sogro, gente da melhor qualidade. Sua principal característica era falar, falar, falar. Adorava falar. E falava alto. O assunto sempre era detalhe menor. Bastava lhe dizer “bom dia”, e o papo estava garantido. Os mais escolados puxavam uma cadeira.

Para que incorporasse o “comandante” Fidel, não eram necessários mais que segundos. Em dia de garganta arruinada, coisa que nunca vi, a preleção era mais curta: de duas horas, em média. Quando lhe dava na telha, pedia licença e punha ponto final na prosa. Monocraticamente.

O pai, ao contrário, sempre foi quieto, recatado. Raramente, elevava o tom de voz. Mas não havia chance de lhe dizer “bom dia” e não receber algum incentivo, um conselho, um livro emprestado.

Dois loucos, dois estilos, dois mestres.

* * *

O pai nunca foi homem de farra, nunca teve muitos amigos. Gostava mesmo era de ler e reler seus muitos livros. E de fazer planos, ainda que já não tivesse mais condições de colocá-los em prática. Sempre foi um homem afável, mas sem tempo para, como se diz, jogar conversa fora.

– Por que o senhor não desce e vai conversar com outras pessoas lá embaixo, no jardim? Fica tão só…

Era o que sempre lhe perguntavam, a começar por minha irmã e eu.

E ele nos dizia:

– Não tenho nada contra ninguém, não. Tenho uma relação cordial com todos os que moram no prédio. Também não me sinto melhor ou pior que os outros. Mas o que tenho para lhes falar não é do interesse deles. A recíproca é verdadeira. E a vida é curta, filho. Nunca dá tempo para a gente ler o que precisava ler.


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UM HOMEM, QUATRO COPOS

Diariamente, de segunda à sexta-feira, por volta das 18h, ele marcava ponto na padaria do Narciso. Sempre bem vestido, chegava sorridente, acenava para uns e outros. Mas não puxava conversa com ninguém. O pessoal da copa, mais por educação que por dúvida, lhe perguntava se queria o mesmo de sempre. Claro que sim: duas doses de vodka e duas latinhas de cerveja. Um homem, quatro copos. Às vezes, pedia um pedaço de pizza de mussarela, cortada na forma de tira-gosto. Espetava dois palitos, que ele usava de forma alternada, a exemplo do que fazia com os copos. Não era homem de esquentar cadeira. Nem poderia. Nunca o vi sentado nos bancos. Preferia ficar de pé, invariavelmente no mesmo canto do balcão.

Cumprido o ritual, pagava a conta, dava boa gorjeta para os copeiros, acenava para os conhecidos e embarcava no carro. Sempre com a discrição das pessoas bem educadas.

Levei uns dias, talvez semanas, para perceber os detalhes do ritual: um homem, quatro copos, dois palitos, um pedaço de pizza. De segunda à sexta, sempre no mesmo horário, por volta das 18horas.

Uma noite, meio por acaso, soube por Sales, um dos copeiros, que ele vinha com o pai – homem igualmente discreto e elegante – diariamente à padaria. Pediam duas doses de vodka, duas latinhas de cerveja e um pedaço de pizza, sempre do mesmo sabor: mussarela. O pai morreu há cerca de três anos. Mas não para o filho.


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MÃE, O PAI ARRUMOU EMPREGO!

Um dos pequenos, tão logo viu o pai abrir a porta com um pacote na mão esquerda, começou a berrar de satisfação:

– Mãe, o pai arrumou emprego, o pai arrumou emprego, vem ver, mãe, ele comprou maçã pra nós!

Os irmãos engrossaram, com igual entusiasmo, a gritaria do precipitado. E avançaram sobre o pacote com as frutas.

Ao ver a cara amarrotada de Toninho, Odete, de imediato, teve certeza de que a história não era bem aquela. Conhecia o marido como ninguém. Mas nada falou além de “oi”. Lavou as maçãs em silêncio, deu uma para cada filho, esperou que os três voltassem a brincar no quintal. Então, puxou conversa:

– Conseguiu alguma coisa?

– Nada, Odete. Ainda não foi dessa vez.

– Calma, Toninho. Uma hora vai dar certo.

– Deus te ouça. Não sei como vamos pagar o próximo aluguel.

– Meu pai e meu irmão ficaram de nos ajudar. Fome – tenho fé – não vamos passar, não. Mas beber não ajuda em nada, homem, só faz piorar o que está ruim.

– Eu sei. É que eu preciso dormir essa noite.

Em busca de outra maçã, um dos meninos retornou à cozinha e perguntou pelo pai.

– Foi dormir.

– O pai é gozado. Arrumou emprego e continua de cara feia.

– Liga não, filho. Você não conhece seu pai? Está tudo bem. Brinquem mais um pouquinho, depois vamos tomar banho, jantar e dormir.

– Tá bom, mãe. Fala para ele trazer mais maçãs, amanhã.

– Falo, sim.


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OS SANTOS ESTÃO DE FÉRIAS, MAS PLANEJAM, PLANEJAM…

Ilustração de Gustavo Rosa

Os Santos são previsíveis. Todo ano é a mesma história. Passadas as festas de final de ano, lá vão eles, de guarda-roupa renovado – invariavelmente, as roupas do verão passado já não lhes servem mais -, rumo à praia, onde permanecem por, pelo menos, quinze dias. Tempo de esbórnia familiar: muito sorvete, caipirinha, cerveja, espetinho de camarão, porção disso e daquilo, pastel de praia etc. Verdade seja dita: os Santos, rebentos inclusos, têm estômagos privilegiados. Comem e bebem de tudo, reclamam de nada. Às vezes, muito raramente, um ou outro é vítima de diarreia passageira, nada que soro caseiro e água de coco não possam consertar em 24 horas.

Durante o merecido ócio remunerado, os Santos se divertem a valer – e fazem planos, claro. O mais recorrente deles é tratar da saúde, fazer dieta saudável e duradoura, até que os muitos quilos extras, o colesterol e o diabetes os abandonem. “De vez”, no dizer sempre incisivo da mãe do casal de gorduchos. Mais cauteloso, avesso a promessas vãs, o pai se limita a dizer: “Vamos ver, vamos ver. Não é hora de pensar nisso. Até porque ninguém vai começar coisa alguma antes do Carnaval”. Mas a Quaresma promete, de acordo com a senhora Santos:

– Querido, não tenho coragem de fazer a bariátrica. Sei que você também não. Mas, estamos gordos demais, assim não dá para continuar. Amanhã, a gente tem um troço e deixa tudo aí. Além disso, também quero usar umas roupinhas mais transadas, sensuais, entende? Na José Paulino, não tem nada que me sirva. As malditas coreanas não têm bunda e acham que todo mundo deve ser igual a elas.

– Roupinha sensual para quê? Que história é essa?

– Para você, bobalhão. Meu gato angorá.

– E o que nós vamos fazer?

– A dieta da Quaresma. Uma amiga me ensinou, tenho tudo anotado no computador. Tiro e queda.

– Sei, não. Quarenta dias de água e mato?

– Vale a pena o sacrifício. Quando a gente estiver bem magrinho, vamos comemorar a Páscoa com estilo: bacalhau, vinho, chocolate, colomba. Tem mais: outra amiga já me passou umas receitas de doces caseiros irresistíveis: canjiquinha com amendoim, doce de abóbora com coco…

– Agora, senti firmeza.


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RAPIDÍSSIMAS

ESTORVO

O velho sumiu. A família levou dez dias para se dar conta.

SINA

Quem sai aos seus – é certo – não degenera, mas também raramente se regenera.

CELIBATO

– Cadê a irmã Cidinha?

– Padre Paulo comeu.

BUMERANGUE

– Américo, você é um fracassado, um homem que nunca teve ambições.

– Você está certa, Josefa. Podia ter comido coisa melhor.

CHÁ DE CADEIRA

Fulano nunca chega no horário combinado. Hábito, mania? Não. Falta de educação.

MENTIRA

Não é verdade que todos os políticos são iguais. A imensa maioria é muito pior que a escassa minoria.

DUPLA FACE

A mão que afaga também afana.

HOMENS & MULHERES

Quem alardeia intimidades não vale o que come.

DORES

Não se iluda: elas são intransferíveis.

NA DÚVIDA

Seja generoso, sai mais barato.


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HORA EXTRA

Quadro de Guy Rose

– Assim, não é possível. Está ficando difícil, mãe. Difícil, não: impossível. A senhora tem que se ajudar um pouco, saco! Tem que se alimentar direito, beber água, tomar os remédios, fazer os exercícios que o médico mandou. Puta que pariu!

– Calma, filha, calma. Se eu levanto do sofá, vocês brigam comigo, me xingam de tudo que é nome…

– Claro, queria o quê? É levantar para cair. Já lhe disse: quer ir ao banheiro? Chame alguém.

– Se eu chamo, vocês reclamam, ficam bufando.

– Não dá para ficar o dia todo à sua disposição. A gente tem mais o que fazer, mãe.

– Por isso, bebo pouca água, para não incomodar toda hora.

– Tem é que usar fralda dia e noite.

– Fico assada.

– Assada, não: mimada.

– Filha, minha doença não tem jeito. Tenha paciência.

– Eu sei. A senhora não vai melhorar mesmo. Mas quer piorar ainda mais? Já não basta o trabalho que está dando? Francamente. Há dez anos, desde que a senhora veio para cá, ninguém tem vida nessa casa. Merda.


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RAPIDÍSSIMAS

GENGIVAS

As pessoas que mais admiro são aquelas que – sem motivo aparente – ainda sorriem.

* * *

BENGALA

Exceto os mitômanos, nós, os velhos, não mentimos. Só não nos lembramos bem do que não houve.

* * *

DECADÊNCIA

Justiça seja feita: quem espera sempre a alcança; quem não espera também.

* * *

FAROESTE

Assisti a muitos clássicos nos últimos dias. John Wayne, Clint Eastwood e eu eliminamos muitos bandidos. Só não chegamos a Brasília. Questão de tempo.

* * *

PASSADO

É o presente ainda assustado com os fantasmas acorrentados.

* * *

CERTEZAS

Só as provisórias valem a pena. As demais nos engessam, nos idiotizam.

* * *

CONVENIÊNCIAS

São rabos a balançar cachorros de muitos donos.

* * *

MARIA

– Chega. Cansei de ser um triste: me perdoei.

* * *

NÃO DEU?

Paciência.

* * *

CHAGAS

– Sabe quem morreu? O Chagas.

– Descansou. Nos últimos trinta anos, fez jus ao sobrenome.


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O POETA MORREU (ANTES DE NASCER)

Américo apenas se deu conta de que jamais aprendera o que de fato importa, quando resolveu, depois de velho e absolutamente só, escrever um livro. Não queria um livrinho qualquer, burocrático ou piegas. Nada disso. Andava muito impressionado com Bandeira e Quintana, com a leveza de seus textos. Queria algo nessa linha, sedutor. Foi aí que a corda roeu. Jamais gastara tempo observando passarinho voar, muito menos admirando a beleza das flores e do vai e vem sonoro das ondas do mar. Vivera sempre acuado, escondido atrás de pilhas de relatórios e de números que mais escondiam que revelavam. Fez um esforço, buscou na memória – ainda intacta – a lembrança de um grande amor. Lamentou o fato de nunca ter tido uma mulher que hoje lhe trouxesse saudade. Resignado, enterrou o poeta antes de seu nascimento.


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GATOS? NÃO, NÃO E NÃO!

Meus medos são muitos. Nenhum deles, porém, supera o que tenho de gatos. Não posso ver um deles. Surto. A recíproca é verdadeira. Quando me avista, o bichano se eriça e se põe em posição de ataque. Fiz novenas e mais novenas para São Judas Tadeu – o santo das causas impossíveis. Em vão. A paúra só fez crescer, piora muito a cada estação. Quando me deparo com um felino doméstico, apelo logo para Santo Expedito: “Querido, me tire daqui, agora!” Nem sempre – quase nunca seria a expressão mais precisa – consigo dar o passo. Peço ao Todo Poderoso, então, um infarto daquele, fulminante. Não fui atendido, ao menos at&eacu te; agora.

Esse pavor por gatos me fez perder oportunidades, além de dar vexames sexuais. No auge da virilidade – vinte e poucos anos -, fui ao apartamento de uma colega de faculdade, verdadeira loba, sonho de consumo de qualquer garanhão imberbe. Não consegui ir além de um selinho muito vagabundo. Ela tinha um gato na sala. Foi minha primeira broxada. Tempos depois, quase encerrei o noivado com Sabiá por conta de um gato. Meu cunhado, então um demônio em forma de guri, aproveitou um vacilo meu e jogou no meu colo um filhote. Melhor andar desarmado.

Não sei por que gatos não gostam de mim. Nunca atirei o pau (nem pedra) em gato. Nunca chutei gato. Nunca dei tiro de chumbinho em gato. Nem xingar gato xinguei.

Dona Neide me falava (saudades dela) que, por três vezes, me levou para tomar injeções na barriga contra raiva, por conta de arranhadas que sofri de gato de rua. Eram quinze injeções, a cada rodada preventiva. Verdadeira tortura. No bonde, ela me dizia: “Se você se comportar, não falar palavrões, mamãe lhe compra um doce”. Barganha inútil. Voltava sem doce. Em casa, levava tapas na bunda: “Bem feito, bem feito. Quem mandou você, moleque boca suja, dizer tantos palavrões para a enfermeira? Da próxima vez que você mexer com gato de rua, vai ver o que é bom pra tosse.”

Infância triste, a minha.


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BOTERO ME LIGOU

Não sei com vocês, amigos, mas comigo é sempre assim. Anoto tudo no papel – da quantidade diária de calorias a ser consumida aos minutos que não andarei. Preparo potes e potes de gelatina e pudins – diets, evidentemente -, cozinho legumes e carnes magras, reservo e congelo. Encho e ponho para gelar pelo menos cinco litros de água com e sem gengibre, deixo meus “fitos” às mãos, faço orações, rego a comigo-ninguém-pode. Tudo prontinho, hora de começar a dieta. Amanhã, claro.

Quando o amanhã finalmente chega, me pega animado que só. Em geral, nos dois primeiros dias, supero de longe todas as expectativas. Consumo muito menos que o planejado. Agora vai? Não vai. No terceiro dia, quando muito no quarto, uma ira insana se apossa desse corpanzil trêmulo. Viver? Que sentido faz uma coisa dessas, nessas condições de privação quase absoluta? O ser humano é um desgraçado que se empanzina a valer de tudo o que engorda – na minha frente, ao vivo ou pela tevê. Faz de propósito. Mas tudo passa. No sétimo dia – em geral, após espiadela no espelho do quarto -, uma baita prostração me toma de assalto. Já não consigo sequer ficar irado. Choramingo. Tanto sacrifício em vão, todas as ilusões perdi das. Se é para ser infeliz, melhor ser gordo. Ponto final. Que mal há em comprar um número mais confortável? Ora, a vida foi feita para ser comida e bebida. Estou longe de ser um menino. Lutar contra a natureza pra quê?

A madrugada retrasada me trouxe um sonho. Botero – o grande Botero – me ligou e disse que queria me contratar. Como modelo. Acordei pimpão, aliviado, encarei o maldito espelho, fiz poses, tomei uma resolução: vou escrever para o mestre, me colocando à sua inteira disposição. Sempre fui vaidoso. Manequim. Por que não? Vai ser duro manter a boca fechada, não dizer palavra, sina de todos os retratados pelo mestre colombiano? Claro que sim. Mas qual ofício não tem seus ossos? E com a barriga cheia – cá entre nós – tudo segue melhor. O café da manhã foi pra lá de supimpa. De rei. Almoço e jantar também prometem. Afinal, não posso perder a forma. Botero me espera.


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ARGEMIRO FOI COM AS OUTRAS E SE DEU (QUASE) MUITO BEM

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Argemiro nunca foi aluno brilhante. Do antigo primário à faculdade, o máximo que conseguiu foi assegurar, quando muito, uma vaga no grupo dos que não cheiram nem fedem. Ou seja: um lugar no pelotão dos medíocres. Ele também nunca se destacou pela capacidade profissional. Não obstante, conseguiu subir na vida, como diz o vulgo. Agradecido, reconhecia que devia muito de sua ascensão ao velho e falecido pai, um ex-comunista metido a estrategista de botequim.

Desde cedo, o pai lhe ensinou algumas coisas, entre as quais:

(1) Nunca emitir opiniões sobre assuntos polêmicos: política, religião e futebol, por exemplo. Que benefício lhe traria se posicionar sobre aborto, casamento gay, liberação da maconha e temas afins? Nenhum, evidentemente.

(2) Agora, na impossibilidade de permanecer calado, concordar sempre com a opinião do mais forte. Afinal, um comuna legítimo sabe que é preciso beijar a mão que não se pode cortar.

(3) Que jamais se preocupasse em ser rotulado de Maria vai com as outras. O que importa é desfrutar de bom dinheiro para levar vida confortável e garantir uma velhice sem grandes sobressaltos.

E assim foi feito. Argemiro engoliu sapos e mais sapos, muitos dos quais amarrados com arame farpado. Paciência. Como o velho e sábio pai lhe dizia: “Ter opiniões incisivas sobre tudo é coisa só para gente bem-nascida. Sufoque o ser para ser.” Quanta sabedoria!

Aposentado e viúvo, com os dois filhos morando no exterior, Argemiro gosta de acompanhar o noticiário. Diante de assuntos polêmicos e discussões mais acaloradas, nunca sabe de que lado está. Afinal, não há mais ao seu lado um poderoso com quem possa concordar. Mas, pensando bem, que importância tem isso?


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QUE COISA, HEIM?

qc

Há fatos que Isaura jamais conseguiu compreender e que, aliás, continua não entendendo. Chega a questionar a serventia de anos e anos de estudo, aqui e no exterior, sempre nos melhores colégios e universidades. Circulou inúmeras vezes pelas principais capitais europeias. Conhece Nova York tão bem quanto São Paulo, onde nasceu em berço esplêndido, há 40 anos. Das muitas incertezas que alimenta, tem uma convicção – menos mal, podia não ter nenhuma: quase duas décadas de análise não lhe trouxeram alento. Grana alta que se foi pelo ralo. Mas, falta de dinheiro nunca foi problema para ela. Dane-se, a perda. Não lhe fez falta.

Namoradeira, Isaura saiu e ficou com homens bonitos e cheirosos, tão ricos e viajados como ela. Divertiu-se, mas nunca criou raízes. Livre demais para depender afetivamente de quem quer que seja. Não se lembra de nada que tenha desejado e não tivesse obtido assim: num estalar de dedos, num piscar de olhos, num átimo. Linda e rica, ela nunca invejou nenhuma de suas quase amigas. Confidente? Só o travesseiro – e olhe lá.

Justamente por tudo isso, Isaura ainda busca explicações para sua birra com Josefa – uma negrinha magra que só, de pouco menos de trinta anos, pobre, dentadura no lugar dos dentes, marido feio e fedido, com direito a dois finais de semana de folga por mês, uma de suas empregadas. Como alguém nessa condição pode estar sempre sorrindo, acreditar no futuro, agradecer a Deus pelo quase nada que tem? Isaura acha que há coisas que nem Freud explica. Passa horas olhando o longe em busca de razões para a felicidade de Josefa.


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A “TORCIDA” DO VELHO MARINHEIRO

bv

Ananias volteou, volteou, antes de abordar o Velho Marinheiro:

– Não sei se devo, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.

– Desembuche. A vida é curta. Afinal, o que você quer saber?

– Ontem, no velório do pai da Deolinda, fiquei observando o senhor.

– Não tinha coisa melhor para fazer? Orasse, então, pela família do falecido. Porque quem fica é que precisa de reza, de força para driblar a saudade, se me entende. O que fiz para chamar sua atenção?

– O senhor entrou mudo e saiu calado. Não disse uma palavra a Deolinda.

– Eu a abracei e beijei com respeito e emoção.

– Eu vi. Mas por que não lhe disse nada, medo de revelar a voz embargada?

– Não seja besta. Ananias, meu pai me ensinou…

– Desculpa, quem lhe ensinou?

– Meu pai. Ou você acha que eu, por ser velho, não tive pai, que minha mãe ficou grávida por obra de um espírito nada santo? Tenha paciência.

– Perdão. Não ouvi direito. O que seu pai, afinal, lhe ensinou?

– Que a gente, quando não tem o que dizer, deve ficar em silêncio. Numa hora dessas, ninguém tem nada que preste a falar, além de platitudes nem sempre sinceras. Em geral, um olhar e um abraço dizem mais que uma penca de chavões.

– Também observei também que o senhor não esquentou cadeira.

– Verdade. Sabe por quê?

– Não.

– Ora, você é péssimo observador. Não sei como conseguiu ganhar a vida como jornalista. Ananias: como sempre acontece nessas ocasiões, formam-se rodinhas de desocupados que passam a contar piadas bestas e a falar mal dos outros. Por isso, caio fora. Para não criar confusão no velório. Torço para que Deolinda supere logo o trauma e recupere o frescor que a caracteriza, isso sim.

Ananias sorriu sorriso maroto:

– O senhor…

– Eu o quê? Vai me dizer que você torce pelo contrário, para que ela guarde luto por anos? Seria uma tragédia para todos nós. Oremos.


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QUE COISA, HEIM?

qc

Há fatos que Isaura jamais conseguiu compreender e que, aliás, continua não entendendo. Chega a questionar a serventia de anos e anos de estudo, aqui e no exterior, sempre nos melhores colégios e universidades. Circulou inúmeras vezes pelas principais capitais europeias. Conhece Nova York tão bem quanto São Paulo, onde nasceu em berço esplêndido, há 40 anos. Das muitas incertezas que alimenta, tem uma convicção – menos mal, podia não ter nenhuma: quase duas décadas de análise não lhe trouxeram alento. Grana alta que se foi pelo ralo. Mas, falta de dinheiro nunca foi problema para ela. Dane-se, a perda. Não lhe fez falta.

Namoradeira, Isaura saiu e ficou com homens bonitos e cheirosos, tão ricos e viajados como ela. Divertiu-se, mas nunca criou raízes. Livre demais para depender afetivamente de quem quer que seja. Não se lembra de nada que tenha desejado e não tivesse obtido assim: num estalar de dedos, num piscar de olhos, num átimo. Linda e rica, ela nunca invejou nenhuma de suas quase amigas. Confidente? Só o travesseiro – e olhe lá.

Justamente por tudo isso, Isaura ainda busca explicações para sua birra com Josefa – uma negrinha magra que só, de pouco menos de trinta anos, pobre, dentadura no lugar dos dentes, marido feio e fedido, com direito a dois finais de semana de folga por mês, uma de suas empregadas. Como alguém nessa condição pode estar sempre sorrindo, acreditar no futuro, agradecer a Deus pelo quase nada que tem? Isaura acha que há coisas que nem Freud explica. Passa horas olhando o longe em busca de razões para a felicidade alheia.


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