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RAPIDÍSSIMAS

MENOS

Ninguém é absolutamente sincero. Eu não sou. Às vezes, digo até logo, mas o verdadeiro desejo é dizer adeus.

CESTA BÁSICA

Há dias em que eu quero muito. Há dias em que o pouco me basta. Na média, uns selinhos já estão de bom tamanho.

ESPELHO MEU

Já não sou mais o mesmo. Pensando bem, nunca fui o mesmo.

ESPELHO MEU (II)

Não me tomem por um triste inveterado. Sou apenas um amuado passageiro.

Não me orgulho de minha fé miúda. Mas, toda vez que ouço/vejo certas pessoas, me benzo. E engato um Pai Nosso.

BRASIL

Ame-o e deixe-o.

RIO DE JANEIRO

Ele continua lindo. Se não fossem os ladrões do morro e do asfalto…

PLATEIA

Por trás de um ditador, há sempre uma legião de imbecis a idolatrá-lo.

CARAS-DE-PAU

Desplante não carece de adubo, alimenta-se de si próprio.

MEIA SOLA

Não basta dormir na cadeia. Tem que devolver parte (tudo é impossível) do dinheiro roubado.

BOLA CANTADA

Sina? Não. Falta de caráter. Surpresa? Nenhuma.

DE CARTOLA PARA A TURMA DA MALA

– Chega de clamares inocência.


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RAPIDÍSSIMAS

FERIADO

Quando cai na quarta, é pênalti. A semana passa a ter duas segundas – a segunda propriamente dita e a quinta, segunda meia sola.

* * *

XÔ, TRISTEZA

Você é a pior das amantes.

*  * *

# EU PRESTO

Perdão, pela imodéstia. Amo vocês.

* * *

VELHO PASSARINHO

Com vontade de voar.

* * *

LUA DE MEL

Não havia hora marcada. Era assim: um beijo, uma explosão. Filhos e filhos. As contas cada vez mais salgadas trataram de arrefecer o tesão.

* * *

UMA DOSE, GARÇOM

Amor é feito uísque: se é dos bons, envelhece com dignidade.

* * *

CUIDADO, IRMÃO

Às vezes, o noticiário não esclarece: emburrece.

* * *

GENTE DO CÉU

Quem não gosta de beijo bom sujeito não é.

* * *

SINAL DOS TEMPOS

Pelo andar da carruagem, em breve, ninguém mais perguntará ao parlamentar a que partido ele pertence, mas, sim, de qual quadrilha ele faz parte.


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DE PEÃO A MARAJÁ

A euforia de Antoninho Lisboa saltava aos olhos de todos. Cumprimentava quem cruzasse seu caminho, fosse amigo ou não, fosse conhecido ou não. Mandava beijos para crianças, fazia mesuras para as senhoras de meia idade para cima. Parecia candidato em ampanha. Mas, Lisboa, como todos o chamavam, não era candidato a nada, exceto a viver a vida. Na véspera, saíra sua aposentadoria. E que aposentadoria! Vencimento integral, equivalente ao que recebia na ativa, coisa de cinco vezes o teto de INSS. Ainda era novo, saúde em perfeitas condições. O que mais alguém pode querer? Ia pelas ruas cantarolando aquela música de antigas festas de fim de ano, embora estivéssemos na Quaresma: “Adeus, vida velha; feliz, vida nova. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”.

Lembrou-se de comprar algum presente e fazer visita para doutor Quirino. Precisava agradecê-lo. E muito. Ninguém fez por ele o que o-ex-diretor-geral da Câmara Municipal lhe fez. Ninguém. Nem o próprio pai. Primeiro deu um jeito para que ele passasse no concurso para ajudante geral. O salário não era nem uma maravilha, mas também não era de se jogar fora. Em seguida, o tutor o chamou para uma conversa reservada. Até hoje, Toninho português lembra-se com exatidão daquelas sábias palavras:

– Meu querido Lisboa, eu vou lhe pedir duas coisas: (1ª) que você acredite em mim e (2ª) que você se deixe levar pela engrenagem da Câmara. Enquanto eu estiver no comando, o teu céu será de brigadeiro. Mas é fundamental que tenhas paciência.

Três meses depois, doutor Quirino o chamou para uma segunda conversa:

– Meu amigo, a partir da próxima semana, você irá trabalhar para o vereador Vadão. Ele vai lhe dar um cargo comissionado. Só que você terá que lhe devolver a diferença.

– Que vantagem eu levo, doutor Quirino? Perdão, eu não entendi.

– Várias. Você não precisará vir à Câmara às segundas e sextas. Com sua habilidade, não terá dificuldades para arrumar uns bicos, a fim de reforçar o orçamento. O mais importante, porém, é que, de tempos em tempos, parte do seu salário de assessor será incorporada ao seu salário de origem. E isso ninguém mais lhe tira. Quando você se aposentar, terá uma baita aposentadoria. E tem mais: vou pedir ao vereador Vadão que lhe dê R$ 500 por mês. Ou seja: você começa como peão e termina como marajá. Entendeu?

– Entendi. Como posso lhe agradecer?

– Não se preocupe com isso, querido. Apareça em meu apartamento aos sábados. Tenho andado muito só, carente mesmo. E não se esqueça: deixe-se levar pela engrenagem.

E assim foi feito.


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AS VIAGENS DE ZÉ LINS

Zé Lins esperou, pacientemente, que todos convidados fossem embora e que mulher e filha – a única dos rebentos que ainda morava com eles, embora já beirasse os trinta anos – destilassem os inevitáveis comentários pós-festa e se recolhessem. Demorou, mas sua hora chegara. Serviu-se de uma dose generosa de uísque. Apanhou cigarros e cinzeiro. Certificou-se de que não lhe faltariam os fósforos. Dirigiu-se à varanda, puxou a espreguiçadeira. Hora de manter as pernas estendidas. Malditas varizes.

Zé Lins, então, puxou prosa com Guilhermino, desde sempre seu melhor amigo. Mais que irmão, um confidente. A única pessoa com a qual se abria inteiramente. Entre eles, não havia segredos. Falavam sobre tudo, não havia assunto proibido. Guilhermino ainda tinha uma vantagem em relação a todas demais pessoas que Zé Lins conhecia: Guilhermino não dizia sim, não dizia não. Guilhermino nada falava, só ouvia.

O anfitrião dava de ombros, achava ótimo. A cumplicidade entre eles era tanta que Zé Lins adivinhava o que o amigo queria lhe perguntar, sabia quando ele estava de acordo, quando tinha alguma objeção a fazer. Então, deitava falação, caprichava nos argumentos, detalhava seus planos, buscava as minúcias do passado. Como a conversa iria longe, Zé Lins achou por bem deixar o litro de uísque por perto. E assim foi feito. Coisa chata interromper, de tempos em tempos, bate-papo tão gostoso. Corre-se sempre o risco de perder o fio da meada.

Foram horas de confabulação. Zé Lins e Guilhermino falaram sobre tudo: de amores perdidos, de conquistas e fracassos profissionais e, claro, da paixão pelo time alvinegro. Zé Lins apagou. Não viu Guilhermino ir embora. Nem ouviu o galo cantar. Foi despertado pela mulher, quando o sol já lhe corava as bochechas:

– Vai dormir na cama, homem. Está todo torto. As varizes já lhe arruinaram as pernas. Agora, quer escangalhar a coluna?

– E o Guilhermino, onde ele está?

– Que Guilhermino o quê! Francamente. Você passou a noite falando sozinho. Depois desandou a cantar “Antonico”. Zé Lins, você precisa se tratar. Vai por mim. É só ficar sem ninguém por perto para chamar os fantasmas.


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UM CONSOLO AOS FOFOS E FOFAS, MEUS COLEGAS DE PESO E DE CRUZ

Sei que é triste namorar uma roupa por semanas, sonhar com ela acordado e, na hora H, não encontrar seu número. Há muitas peças disponíveis, claro, mas nelas você só entraria nem se lhe cortassem ao meio. Algo que nem rei Salomão pensaria em fazer, sábio que era. Bate, então, aquela revolta medonha. A vontade é torrar o dinheiro da roupa nova que você não terá em chope, sanduíche, chocolate, sorvete, enfim, em tudo aquilo que não é imoral nem ilegal, mas que engorda uma barbaridade. “Se tenho que ir à festa com a roupa velha, eu vou. Mas vou de barriga cheia”, diz você para você mesmo, antes de lambuzar a primeira batata frita de maionese, mostarda e molhos diversos.

Calma. Pense positivamente. Ora, se você nunca encontra seu número, é porque muita gente está tão gorda quanto você. A diferença é que alguns gordos dão sorte ou são mais espertos. Compram o tamanho SUPER GGGG antes que outros gordos cheguem à loja. Sei que tal raciocínio não resolve seu problema. Mas serve de consolo. Afinal, ninguém gosta de se ferrar sozinho. E de ilusão também se vive, dizem.

* * *

Quer acabar com o efeito sanfona? É fácil: não emagreça.

* * *

A MELHOR DIETA…

… é a que não precisa ser feita.

* * *

SEU ROSTO, QUERIDA, JÁ AFINOU

Você, então, resolve fazer uma dieta, perder uns muitos quilos, para poder vestir uma roupa que não a deixe com a aparência de um colchonete amarrado. Vai à luta, mais uma vez. Empanzina-se de mato e frango na chapa, jura por Deus que gelatina light é uma delícia, muito mais saborosa que quindim. Depois de semanas de sacrifício, encontra a “amiga” que paga para não encontrar. E ela não lhe poupa “elogios”:

– Nossa! Você está bem! Seu rosto já afinou…

Não reaja, conte até mil, seja sertaneja, seja forte. A mãe de sua amiga é o que dela se diz: uma p… Mas, lembre-se, querida: xingamentos não diminuem seu manequim.


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QUEM AVISA AMIGO É

– Não lhe falei? Quem mandou você fazer compras na José Paulino? Ali, não é lugar para você. Não adianta insistir. Nada do que está à venda lhe serve. Depois, fica assim: deprimida.

– Cretino. Está me chamando de gorda?

– Não, querida. É que coreanas, você sabe, não têm bunda. Por isso, fazem roupas minúsculas. Já você, com a graça de Deus, tem um pandeiro de encher os olhos.


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É SIMPLES ASSIM

– Ananias, duas coisinhas, apenas para colocar os pingos em seus devidos lugares: (1) não tenho a presunção de estar sempre certo. Ter razão não me interessa mais, há tempos; (2) não estendo prosa com a maioria das pessoas não porque me sinta superior a elas, nada a ver. É uma questão de afinidade. Compreende?

– Sei disso, Velho Marinheiro, sei disso. Não precisa se explicar.

– Não estou me explicando. Estamos conversando.

– É que algumas pessoas acham que o senhor…

– Que pensem o que quiserem. Não lhes dou a mínima. Por isso, jamais tome minhas dores. Sei me defender, mas nem perco tempo com isso.

– Está certo.

– Mudo de opinião quantas vezes forem necessárias, desde que me convençam com argumentos lógicos, não com burrices generalizadas. Nessa espelunca do Carneiro, que só frequento por falta de opções, o melhor informado não foi além do “Caminho Suave”. Mesmo assim, não conseguiu absorver todos os ensinamentos.

– Verdade. Deixa pra lá. Não quero chatear o senhor.

– Ananias, você não me chateia. A não ser quando se comporta feito guri precisando de afago. Só para concluir: não dou muita conversa para essa turma por uma simples e definitiva razão: o que eles têm a me dizer não me interessa, e o que tenho a lhes contar não interessa a eles. É simples assim. Então, cada um no seu cercado. Agora, prove um bolinho de arroz. Está bom. É uma das poucas coisas que presta nesse boteco.


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RAPIDÍSSIMAS

CARCARÁ?

Que nada. Sou bom velhinho: não pego, não mato, não como.

* * *

VADE RETRO

Dos convertidos quero distância. São muito chatos.

* * *

TRUNFO

– Por que você não se trata?

– Enlouqueceu? Quer que eu perca meus álibis?

* * *

GERÚNDIO

Essa coisa é como bebida: só para profissionais.

* * *

ATREVIDA

A burrice não pede licença. Nem perdão.

* * *

JUSTIÇA

Quando ela não tarda nem falha, faz vistas grossas.

* * *

QUEM SEMEIA VENTO…

Os políticos aprontam tanto e há tanto tempo que nos botecos a sentença está dada: não basta cassá-los, é preciso caçá-los.

* * *

REFORMA POLÍTICA

Não há uma que dê jeito na falta de caráter.

* * *

NÃO

Dizê-lo não é fácil. Às vezes, ele nos custa os olhos da cara. Mas, afinal, quem precisa de olhos?

* * *

PAPAGAIOS

Sejamos francos: para além da consciência, a pior inimiga é aquela conta que vence amanhã. E que não encontra respaldo em seu saldo bancário.


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A FARRA DOS SINOS

O sino da igreja faz sua algazarra diária. São dezoito horas em ponto. Ele convoca os fiéis para a missa das seis com o entusiasmo típico dos pentecostais, embora esteja dependurado na torre de uma igreja católica. Deve ser da corrente carismática, o sino. Salvo engano, entusiasmo maior que o badalar das dezoito horas só aos domingos de manhã. Missa das dez. A alameda que leva à igreja ganha, então, um contingente considerável de transeuntes – homens e mulheres de fé variada, mas todos arrumadinhos. Nesse dia, Juvenal, por exemplo, toma banho, troca a roupa que usara ao longo da semana e passa fixador nos poucos fios de cabelo que ainda lhe restam. Uca só depois da cerimônia. Está certo, o Juvenal. Não tem cabimento entrar tocado na igreja. É questão de respeito, ora.

Sempre que o sino soa chamando os fiéis uma dúvida passageira me acomete. Vou, não vou? Vou, não vou?

Claro que eu não vou, nunca fui de missa. Participei de algumas, evidentemente, quase sempre meio contrariado: batizado e crisma (dos filhos e dos filhos dos amigos), casamento de colegas de repartição, missa de sétimo dia de gente que fora próxima. Eventos assim. Nem por isso desgosto de igrejas. Ao contrário. Mas só as visito fora dos horários de culto, quando estão vazias. Não consigo rezar com gente ao meu redor. Nem com cantoria. Meu pai sempre me dizia que Deus se manifesta no silêncio. Penso que ele estava certo. Nessas horas, à minha maneira, converso com Ele, arrisco um Pai Nosso entre dois sinais da cruz. Sei lá. Acho que Deus me entende. Até aonde me recordo, nunca me faltou. Doenças, mortes e perda de emprego fazem parte da vida, são inevitáveis. Pode ser excesso de otimismo de minha parte – vai saber -, mas penso que Ele releva essa minha falta de jeito.


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QUASE HISTÓRIAS: E O AMOR SAIU PELA JANELA (9)

– Inês, eu sou obrigado a admitir: você ganhou a batalha da comunicação. Tanto fez, tanto faz que os filhos – todos eles, sem exceção – não estão nem aí comigo. .

– Pelo amor de Deus, Jorginho, vai começar? É segunda, a casa está de pernas para o ar. Em vez de ficar reclamando, inventando coisas, você devia é me-ajudar. Ontem, não foi tudo bem? O que mais você quer? Todo mundo comeu, bebeu, conversou, deu risada, não teve sequer uma discussão. Até você se comportou:-bebeu, mas não encheu a cara nem o saco de ninguém. Coisa rara, convenhamos.

A guimba ainda fumegava no cinzeiro, mas Jorginho tratou de acender outro cigarro. Sinal de que não havia dado os trâmites por findos. Retomou a velha cantilena:

– Não acredito que você não perceba. Tento puxar conversa, mas é impossível. As respostas são todas monossilábicas. Agem como se eles estivessem me fazendo um favor. E o que é pior: as duas noras e os dois genros seguem a mesma trilha. Verdadeiro complô. Daqui a pouco, serão os netinhos. Fico sabendo por terceiros que o Júnior trocou de carro, que a Maria foi promovida no serviço, que Isaura conseguiu o título de doutora… Mandam as fotos das crianças só para você.

– Jorginho, o que você quer que eu faça? Fale com eles?

– Nem pensar. Nem pensar.

– Por que não?

– Inês, eu não sou homem de passar recibo.

– É verdade. Orgulhoso, você nunca passou recibo. Em compensação, deixou rastros por toda parte. Ora, eles não gostam que você beba e faça piadas tolas na frente de todos. Eles não esquecem o caso que você teve com aquela mulher. Por eles, eu não vivia com você há muito tempo.

– Aquilo é coisa do passado. Faz tanto tempo, francamente. E, de lá para cá, nunca mais aprontei, Inês. Você sabe disso.

– Quem apanha não esquece. Eles eram pequenos. Sofremos um bocado.

– Por que você está comigo, se por eles… Você ainda me ama, Inês?

– Jorginho, vai tomar seu aperitivo, vai. Não vou fazer almoço. Sobrou muita coisa de ontem.


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RAPIDÍSSIMAS

DIFERENÇAS

Crianças passam pela fase do “por quê?” Uma chatice. Velhos enveredam pelo beco do “para quê?” Uma lástima.

* * *

RECEITINHA

Na dúvida, mostre-se pessimista. Muitos vão tomá-lo por “cabeça”.

* * *

E OS AMORES SE FORAM

Não lamento. Fui junto.

* * *

GLÓRIAS

Vivo das que jamais tive.

* * *

LIBERDADE, LIBERDADE

Não tenho mais opinião definitiva sobre nada.

* * *

TAREFA IMPOSSÍVEL

Perdão, senhor, jamais me recolherei à minha insignificância. Dela nunca saí.

* * *

BAIXA TEMPORADA

– Pois é, minha velha, está difícil inventar.

* * *

DE CARA LIMPA

É difícil sustentar, com a maioria das pessoas, um papinho de meia hora.

* * *

LAGOSTA

– Querida: você tem muitos sabores. Meu predileto é o de frutos do mar.

* * *

TPM

– Isaura, o que acaba com você não é a feiura: é o gênio.


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QUASE HISTÓRIAS: SANTA CUMPLICIDADE

CENA 1

– Você está ficando velho, meu velho. Não se preocupe, não. Ninguém lhe dá a idade que, de fato, você tem. Parece ter quinze anos a menos. Continua bonito,
conservado. Mas – como eu – envelheceu.

– Por que diz isso?

– Seus olhos marejam por qualquer coisa. Os meus também marejam à toa. Que importa? Estamos juntos.

* * *

CENA 2

Argemiro (8.6, hipertenso, cardíaco) e Esmeralda (8.7, obesa, diabética) eram casados há sessenta anos. A cada dia, a cumplicidade entre eles aumentava ainda
mais:

– Tudo bem, Argemiro, não vou dizer aos meninos que hoje você tomou hoje uma cachaça escondida e duas latas de cerveja também.

– Você jura por Deus, Esmeralda, que não vai contar aos meninos que bebi? Eles estão loucos pra nos internar…

– Juro. Mas só se você jurar também que não vai contar pra eles que eu bati uma lata de leite condensado.

– Claro que não vou contar nada pra ninguém. Só não podemos exagerar.

– Quer uma balinha de coco?

– Não, obrigado. Vou tomar mais um gole.

* * *

CENA 3

Impossível não ouvir, que bom ouvir! Quase duas horas de viagem. Eles não paravam de conversar conversa deliciosa – os dois sentados nos bancos atrás do meu.

Comentavam a paisagem, as notícias do dia, falavam – lúcidos, serenos, apaixonados – sobre tudo. Tinham, salvo engano desse contador de boteco, 190 anos de
amor.

Melhor tirar os óculos para leitura, fechar o livro e ouvir com atenção.

Hora de aprender.

Lá pelas tantas, ele disse a ela:

– Acordei duas e meia, estava meio ansioso, pensei em lhe chamar… Resolvi não incomodá-la.

E ela, feliz da silva, lhe devolveu:

– Bobagem. Você nunca me incomodou. E continua não me incomodando. Não me incomodará nunca.

* * *

CENA 4

– Cadê meu chinelinho de quarto, meu velho?

– Não sei, não, querida. Vou procurá-lo.


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RAPIDÍSSIMAS

 TRIBO

Minha taba é minha oca.

* * *

TRIBO (2)

Ante a dificuldade de encontrar amigos, a maioria opta por ingressar em tribos.

* * *

DEIXA PRA LÁ

Mágoa mata. Perdoar é para poucos. Às vezes, se possível, melhor não lembrar.

* * *

TIMING

Após décadas de escravidão, a liberdade tardia pode virar estorvo.

* * *

HOMEM DE FÉ

Sempre achou que dava para fazer de cada tombo uma limonada.

* * *

PROGRESSÃO GEOMÉTRICA

De mentirinha em mentirinha, transformou-se num mitômano.

* * *

BONS SONHOS

O galo cantou, o dia amanheceu: hora de nanar.

* * *

PACIÊNCIA

Pernas, braços e membros já não dão conta dos melhores pensamentos.

* * *

PELAS COSTAS

Quando o olho cresce, prepare-se: a facada é certa.

* * *

CONDIÇÃO

Falar sozinho é muito bom, desde que não se elimine o contraditório.

* * *

AI, AI, AI

Esse coração insensato já não suporta mais sua coerência.


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RAPIDÍSSIMAS

ÉTICA NA POLÍTICA

Assim vamos: o roto fala do rasgado, o rasgado desanca o maltrapilho. E todos afanam.

* * *

RITA LEE

Na pior idade, a forma mais comum de fazer amor é por telepatia.

* * *

QUEM DIRIA?

Tudo aquilo não passava de um faz-de-conta.

* * *

COMPADRE:

A ida é certa, mas não digo o mesmo da volta.

* * *

TODO MUNDO FICA VELHO

O problema é continuar burro.

* * *

ABUSADA

Onde você arrumou essa intimidade que nunca lhe dei?

* * *

TIM-TIM

Um beijo pra ti, outro pra mim.

* * *

ESTÁ DIFÍCIL

Hoje, pelo visto, só pego no tranco.

* * *

PILOTO AUTOMÁTICO

Quando ele assume o comando, o T já era.

* * *

SANTA CHATICE

Todo pai é chato. Se ele não for chato, não é pai.

* * *

HISTÓRIAS

Já me contaram tantas. Quase todas eram falsas.

* * *

SANTOS COPOS

Um cantinho, um violão… E o coração voa. Enternecido.


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QUASE HISTÓRIAS: QUEM É O CHEFE?

O candidato fez o que pode para quebrar as resistências dos ouvintes. Para tanto, valeu-se de sua larga experiência de ilusionista. Afinal, aquela não era sua primeira incursão na árdua tarefa de pedir votos – para ele próprio e para outrem. Distribuiu sorrisos largos e tapinhas nas costas, não deixou de perguntar como andava mãe e pai de uns e outros, financiou cachaça e cerveja para todos aqueles que estavam dispostos a quebrar o gelo. Enquanto a carne de segunda queimava na churrasqueira, fez seu discurso, entremeado de piadinhas sem graça e promessas vãs. Foi breve. Era do ramo. Estava na estrada há quase vinte anos.

Terminada a falação, o candidato abriu a palavra a quem quisesse se manifestar. Romualdo Bastos – o grande cruzadista de Vila Invernada, talvez o único -, pediu pela ordem e engatou uma sugestão:

– O que o senhor acha de incluir no currículo da rede estadual uma nova disciplina? Precisamos despertar em nossos jovens o interesse pelo saber. Fazer palavras cruzadas é a porta de entrada desse mundo maravilhoso do conhecimento.

Com ar solene, o candidato dirigiu-se a seu factótum:

– Anote aí, Gustavo, essa será uma de minhas prioridades. Vou trabalhar por sua aprovação, desde o primeiro dia de meu próximo mandato.

De jogo de camisas para o time do bairro à reforma do campo de malha, os pedidos se sucediam. Gustavo registrava com esmero as novas prioridades de Sua Excelência, um homem em prol de todas as causas que lhe pudessem render uns votos.

O Velho Marinheiro resolveu, então, entrar na conversa:

– Doutor, o senhor disse que já fez isso e aquilo, que fará muito mais no próximo mandato, que seu partido é formado por gente séria, por pessoas que não roubam nem deixam roubar etc. Só não nos disse o essencial.

O candidato mordeu a isca, não tinha como escapar:

– Perdão, mas o que seria o essencial para o caro amigo?

– Ora, o senhor tem uma dezena de processos por furto aos cofres públicos. Jornais dizem que, não satisfeito com o próprio rendimento e com as negociatas, Vossa Excelência toma parte dos salários de seus funcionários de gabinete…

– Tudo mentira da imprensa golpista.

– Ninguém faz sozinho tanta lambança. A qual quadrilha o senhor pertence? Quem é o chefe de seu bando? Precisamos conhecer seu grau de periculosidade.


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“O SENHOR TEM CERTEZA DE QUE NÃO É CORNO?”

Num passado não muito distante, aos secretários de redação dos jornais não bastava dominar os fundamentos da profissão. Era preciso ter vocação para carrasco. É lícito imaginar que, se eles pudessem, obrigariam repórteres e redatores novatos a colocar os joelhos sobre grãos de milho, por horas. Ou fariam, com satisfação, uso da palmatória. Eram (quase) todos eles adeptos da “pedagogia da porrada”. Ante a impossibilidade do castigo físico, partiam para a humilhação pública e verbal. Mandavam repórteres e redatores reescrever textos que rasgavam sem ao menos ter lido as primeiras linhas. E a justificativa era sempre a mesma: “Está um lixo”.

Nos anos 60, Ricardo Noblat era um jornalista em início de carreira. Época em que conviveu com o secretário de redação do Jornal do Commercio, no Recife. Segundo ele, Eugênio Coimbra Júnior “era um homem mau, muito mau”. Toda vez que ele convocava algum repórter ou redator à sua mesa de trabalho, a redação tremia. Humilhação à vista, grosseria na certa. Ninguém ria da desgraça alheia. Até porque muitos já haviam experimentado daquele fel. A historinha que segue foi extraída do livro “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, de Noblat, editora Contexto.

Certo dia, Coimbra Júnior convocou um repórter:

– O senhor é casado? – quis saber o secretário de redação.

– Sou – respondeu o repórter, fazendo esforço medonho para se equilibrar sobre as pernas.

– O senhor tem certeza de que sua mulher o ama?

– Claro. Certeza absoluta. Nós nos damos muito bem.

– Tem certeza de que não é corno? – insistiu Coimbra Júnior, com a voz nas alturas, para que todos pudessem ouvi-lo.

– Minha mulher é honesta. Por que isso?

– É que o senhor começou o texto assim: “Pelo simples fato de ter encontrado sua mulher nos braços do amante, o comerciário a matou com três tiros…” Só um corno escreve uma coisa dessas. Pegar a mulher nos braços de outro lhe parece coisa pouca?

O pobre repórter tentou engatar uma justificativa:

– É que eu achei…

– O senhor não está aqui para achar nada, mas para narrar os fatos. Quando quiser sua opinião, eu lhe peço.

Coimbra Júnior, à sua maneira, passou a lição: não se mistura fato com opinião.


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RAPIDÍSSIMAS

Bacanal, de Pablo Picasso

BACANAL

O “pai dos burros” nos ensina: suruba é um encontro de gente como Lula, Dilma, Temer, Sarney, Renan, Jucá e desqualificados afins.

* * *

MULHER DE CÉSAR

A ela, não basta ser honesta: tem de parecer honesta. A maioria dos nossos representantes não parece honesta. Nem é.

* * *

TOMA LÁ, DÁ CÁ?

Qual o quê! A maioria, infelizmente, só conhece o toma lá.

* * *

MENTIRA

Não é verdade que os políticos são iguais. A maioria é muito pior que a minoria. Aqui fora, entre nós, simples mortais, a situação não é muito diferente.

* * *

CONCLUSÃO INESCAPÁVEL

Se o Parlamento é a cara da sociedade, como afirmam os políticos, é forçoso admitir: somos uma merda.

* * *

NA REPÚBLICA DO RABO PRESO…

É impossível saber o prazo de validade de um ministro.

* * *

A QUESTÃO É OUTRA

Em breve, ninguém mais perguntará ao parlamentar a que partido ele pertence, mas, sim, de qual quadrilha ele faz parte?

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MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

Para viver no Brasil, não basta ter nervos de aço. É preciso ter um saco imenso.

* * *

TIRO AO ALVO

Temer virou especialista: não erra um tiro no próprio pé.

* * *

DELAÇÃO PREMIADA

Cuidado, dona Marisa. Se Dom “Menas”, para salvar a própria pele, der com a língua nos dentes, o inferno lhe espera.

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CHIQUEIRO

Elles não se emendam nunca: nascem porcos, vivem e morrem como porcos.


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A QUEM? A QUEM?

Graciliano Ramos, por Hugo Braz

Graciliano Ramos, o “velho” e eterno Graça, dispensa apresentação. Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, autor de livros inesquecíveis, era de um rigor absoluto consigo mesmo, tanto na vida pessoal como na política e no trabalho literário: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

Austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux foi ensaísta, crítico de literatura e jornalista. Chegou ao Brasil em 1939, com sua mulher. Judeus, fugiam da escalada de terror promovida pelos nazistas.

Afinidades intelectuais – mas não só elas – fizeram Graciliano e Otto grandes amigos. Ambos eram pessimistas incorrigíveis. Conta-se que, numa das inúmeras conversas que tinham nos cafés e livrarias do Rio de Janeiro, ocorreu a que segue:

– A coisa está feia, vai de mal a pior. Amanhã, estaremos pedindo esmolas – teria dito um deles.

– A quem? A quem? – teria questionado o outro, ainda mais desolado.


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CADA UM COME O SEU!

O caipira tinha dinheiro de sobra, gostava de ostentar seus carrões, roupas de grife e correntes de ouro, não abria mão de frequentar restaurantes caros. Mas não gostava de passar por jeca – sejamos francos: ninguém gosta de passar por jeca, ainda mais se for jeca.

Certa feita, nosso matuto veio para a capital a negócios. Resolveu jantar num restaurante chique. A desgraça é que ele não tinha a menor ideia do que pedir para comer e beber. Não entendia o que estava escrito, em francês, no cardápio. Escolheu sua mesa a dedo. Ao lado da mesa de um grã-fino.

– Garçom, me traga o prato de sempre – pediu o bacana, frequentador assíduo da casa.

O caipira não deixou por menos:

– Dois.

O bacana pediu ao garçom “o vinho de sempre”.

E o caipira:

– Dois.

Nosso jeca foi nessa batida até a hora da sobremesa. O bacana estava a ponto de estourar. E estourou:

– Garçom, isso aqui está insuportável. Quero o manobrista.

– Dois, pediu o caipira.

– Escuta aqui, cidadão: um manobrista dá para os dois.

O caipira retrucou:

– Nada disso! Cada um come o seu.


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OS GEMIDOS DE NÉLSON RODRIGUES

O criador do moderno teatro brasileiro, o polêmico e genial Nélson Rodrigues, foi ele próprio um grande personagem. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeros percalços: teve o irmão, também jornalista, assassinado; o pai, por conta da morte do irmão, logo se foi; a tuberculose o mandou diversas vezes para sanatórios; a úlcera não lhe deu tréguas… Mesmo assim, Nélson Rodrigues trabalhou feito mouro, escreveu inúmeras peças de teatro, crônicas e tudo o mais que fosse preciso escrever para garantir a subsistência da família.

Sua trajetória, em detalhes, está descrita em “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro. Um livro que deve – mais que lido – ser degustado, pela riqueza de informações e pela qualidade do texto. É dele que retiro a historinha que segue.

Durante três meses, Nélson ficou “internado” na sala de sua casa, já que se recusava a voltar para o hospital, onde fora operado da vesícula e para o qual fora levado outra vez por conta de complicações no pós-operatório. Vivia cercado de gente: familiares, vizinhos e parentes. “Durante o dia, o ‘quarto’ de Nélson tinha uma plateia de FLA-FLU”, escreve Castro.

Nas raras vezes em que ele ficava só (tinha medo de morrer sozinho), Nélson apelava em tom dramático para a sogra:

– Dona Concetta, fique comigo. Venha me ouvir gemer.

* * *

Nélson adorava sanduíche de mortadela. Mas a úlcera, sempre ela, lhe castigava. O mestre, então, chamava o contínuo – que à época, ao contrário de hoje, não era guri – e lhe propunha um bom negócio. Que o homem fosse buscar o sanduba. Ele pagava com gosto. Mas tinha um preço: o sortudo tinha que comê-lo na frente de Nélson. Que babava de satisfação.


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