Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
PSD, JK E O TOCO ONDE O GOVERNADOR QUER AMARRAR SEU JEGUE
Te cuida, Juscelino!
Que o governador Eduardo Campos almeja altos vôos nem é novidade, nem é condenável. Pelo contrário, uma meta maior sempre faz a pessoa crescer por seus atos. No entanto, a corda que ele anda engolindo da mídia tem feito com que ele comece a cometer erros primários para um político estratégico como o definem. A mais nova obsessão do mandatário pernambucano se chama Gilberto Kassab e seu PSD.
Colocar-se como uma terceira via é essencial para o plano do governador em chegar ao Palácio do Planalto. Também é sua chance de ouro, uma vez que, enquanto Lula for vivo e atuante, muito dificilmente o PT abre mão do cargo de representante das “esquerdas”. Por outro lado, apesar da crise que se abate no outro lado, o PSDB continua como o único a fazer frente em uma oposição cada vez mais combalida. Neste meio, um defunto chamado DEM, um bipolar PMDB e um rol de partidos menores com força, sobretudo, nas pequenas cidades.
Mas o questionamento é: quem é Gilberto Kassab para despertar esse interesse tão grande do PSB? Até pouco tempo, era apenas o vice-prefeito da capital paulista, tendo assumido no lugar de José Serra. Apesar de mal avaliado, elegeu-se por estas coisas que fazem um médium ser mais eficiente em interpretar a política de São Paulo que um cientista político. E a avaliação negativa só fez despencar até o presente momento.
Ele achou o DEM pequeno e quis criar um novo partido. Seria pretensão caso a esperteza do prefeito paulistano não estivesse mirando a conservação de sua condição de mandatário da capital. A ideia, após a fundação do famigerado PSD (Partido Social Democrático), segundo os analistas, seria fundí-lo com o PSB e, oficialmente, criar uma terceira via. Mas será que Eduardo Campos precisa de um cara como Kassab para formar uma nova alternativa à polarização eleitoral?
Bem, talvez esteja faltando mais acuidade política ao grupo socialista. Em primeiro lugar, esta história de terceira via, até quando eu lembro, nunca funcionou. Só serve para levar pleitos ao segundo turno ou, como aconteceu como o próprio governador em sua primeira eleição, ficar na espreita do escorregão de algum adversário e entrar no vácuo. Os processos são naturalmente polarizados em nível majoritário e, dificilmente, suportam uma terceira opção. Baseia-se no espírito de situação x oposição. É assim aqui (PT x PSDB), nos Estados Unidos (Democratas x Republicanos), Inglaterra (Trabalhistas x Conservadores), entre outros. Como o convencimento se dá na desqualificação da proposta alheia, fica muito difícil alguém propor algo novo.
Em segundo lugar, geralmente, políticos como Kassab, para entrar em uma empreitada dessas fazem uma transição para algum partido intermediário entre as propostas dominantes e vagam no limbo dos PPs ou PLs da vida. É muita informação para os eleitores, um partido fazer parte da base aliada e contar com o mais recente e virulento candidato a vice-presidente derrotado, por exemplo. A maioria dos que ali estão foram, até pouco tempo, desancadores da esquerda. Para Joaquim Francisco chegar à condição de suplente de Humberto Costa sem, necessariamente, prejudicar a votação do titular, teve de vagar num ostracismo poucas vezes visto no mundo político. Pareceu uma fênix.
Se o governador não abrir o olho, ouvir outras pessoas que não os tradicionais babões que só dizem o que ele gosta de escutar, pode se dar muito mal. Obviamente sua trajetória é muito diferente da de Collor, mas a forma como sua imagem está sendo construída pela grande mídia vai pelo mesmo caminho. Sua vantagem é ter vida própria e não ser um desconhecido no cenário nacional. Indiscutivelmente, Eduardo Campos é um político desejoso em passar a imagem de um representante moderno. Entretanto, é um pouco difícil disso não se tornar apenas uma peça de marketing em um país onde a política é feita de maneira antiquada. Até o momento isso não tem passado de embalagem.
E, enquanto isso, Juscelino Kubitschek se remexe em seu sepulcro tentando livrar seu nome de dar título à fundação dos oportunistas. Haja cara de pau!
“Não foi nada! Não foi nada!” A resposta já começa a ser dada pelo Ministério da Cultura por palavras de sua própria mandatária, Ana de Hollanda. O nada do qual ela fala é o recurso de R$ 1,3 milhões para o projeto de um blog que veiculará uma poesia por dia na net. A direção será do cinematográfico Andrucha Waddington e o recurso destinado à artista de R$ 600.000,00. Números singelos, não? Mas justificado pela superlatividade da artista. Simplesmente Maria Bethânia.
A aprovação do projeto vai de encontro ao caráter democratizante da grande rede. Diariamente, milhares, milhões de conteúdos são postados gratuitamente por anônimos e famosos. Artistas, humoristas, poetas, cronistas, curiosos, neocelebridades, todo tipo de gente, munido de um computador e uma webcam produzem materiais diversificados da maior ou menor qualidade possível. Imagina se uma pessoa como Bethânia, que deve poder comprar um bom equipamento, não poderia produzir este projeto de casa, gratuitamente?
Um outro ponto se deve à fragilidade do sistema de financiamento público de projetos. A morte do famigerado QI (Quem Indica) está longe de ser declarada. Para falar a verdade nunca esteve tão viva. Junte-se a isso pessoas de bom trânsito. Some ainda quando essa pessoa imagina que habita um panteão, um olimpo, repleto de deuses fleumáticos e inacessíveis aos simples mortais? O resultado é uma camaradagem sem fim e uma farra descarada com o dinheiro público. E isso está longe de ser exclusividade da cultura. Muito pelo contrário, encontra terrenos férteis nas obras públicas, na saúde, na educação e em tantos outros campos da administração pública.
A falta de dispositivos de controle da liberação destas verbas é algo que poderia beirar a ingenuidade se não soubéssemos quem faz esta lei. O que custa criar um dispositivo para barrar da Lei Rouanet pessoas que faturem por ano mais que um determinado valor? Em 2007, Ana Carolina ( Aquela do “É isso aíííí…”) conseguiu R$ 700.000,00 para dois shows que viriam a se transformar em um DVD. Em média, os ingressos do show financiado por nós custou R$ 120,00. O DVD não saiu por menos de R$ 40,00. Grande incentivo à cultura, não? A própria Bethânia não é nova neste ramo, no mesmo ano de 2007 já tinha requisitado ao Ministério cerca de um milhão para o seu Show Brasileirinho. Beth Carvalho conseguiu R$ 1,3 milhões para a comemoração de seu aniversário de 60 anos no Teatro Castro Alves. Caetano Veloso, Céu e Daniela Mercury são exemplo de artistas que fazem uso do expediente. É para isso que serve o financiamento público para a cultura?
A farra porém não se estende aos artistas populares. Isso porque, ao invés das empresas doarem ao Ministério da Cultura em caráter inespecífico, eles o fazem mediante apresentação do projeto dos artistas, o que faz com que elas escolham quem querem financiar. Gostaria de ver o Fim de Feira, Xico Bizerra, Maciel Melo e tantos outros. Quando muito conseguem uns trinta, quarenta mil, quando muito. Queria vê-los na casa dos milhões, espalhando cultura por aí. Mas não, não vai rolar. O sistema só premia os colegas, aqueles que estão a um telefonema de distância de nossas contribuições ao bem público.
Enquanto isso, Bethânia permanece impassível. E ela tem esse direito. Não faz nada de ilegal. É imoral, antiético, mas está dentro da lei. Não pode ser processada por nada. Tudo o que é exigido foi garantido. Mas quem constrói o sistema o faz pensando nisso, fazendo com que a coisa seja legal. Ética fica em segundo plano.
Fica vermelha, cara sem vergonha!!!!
Enquanto isso, acompanhem abaixo o primeiro vídeo do Blog da Bethânia…
Volta e meia, meia e volta, a reforma política vem à tona. Pedido encarecido, chorado, lambuzado de dez entre dez políticos, sindicalistas, cientistas políticos, colunistas sociais, setoristas de câmara de vereadores, frentistas e manicures. Falar da dita cuja é assunto de blog, portal de notícia e buteco de beira de estrada. Enfim, estamos todos cercados pela famosa reforma. Tão requisitada quanto uma participante fogosa de Big Brother, tão evocada quanto a Madeira do Rosarinho, fica a pergunta: de verdade, qual a reforma política que você imagina?
Perguntinha indigesta, não é? É chato quando a gente se sente responsável por uma resposta tão espinhosa. Principalmente porque ela é mais de nossa responsabilidade que dos próprios políticos. Talvez seja pelo fato delas dizerem mais sobre nós que sobre eles mesmos. “O grande castigo de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta!”. Sábio Arnold Toynbee!
Creio que se a ideia for simplesmente versar sobre a fidelidade partidária, os fundos destinados aos partidos ou sobre os prazos de filiação e desfiliação, aí sim, começamos muito mal. A verdadeira reforma política não será feita à letra fria da lei. Tal qual bandidos, a classe política sempre está à frente de barreiras regulatórias. De que adiantou a fidelidade partidária se os próprios interessados nos mandatos, por ocasião de acordos, abre mão deste “direito”? E agora vem o exemplo de Kassab a se aproveitar de uma brecha na lei para fundar um partido de transição e, futuramente, migrar para o ninho de Eduardo Campos.
A reforma política efetiva se dá na mentalidade de quem vota e é votado. Vivemos em um país onde as representações, desde sempre, são personalizadas. Não há a linha política, há o ator político. E começamos cedo. Na escola elegemos representantes de sala, elemento que se materializa no CDF, no babão do professor. Aprendemos precocemente a esvaziar o sentido da liderança. Na nossa rua, a liderança das brincadeiras é dada ao mais popular e não ao mediador. Ao chegar na universidade, na eleição da associação de moradores ou de conselhos tutelares, entra em pauta aqueles que gostam de política para se sobrepor aos que não gostam. O que esperar do momento de eleger os representantes do lesgislativo e do executivo?
Querem uma reforma à norteamericana? Lá se elege projetos políticos, conservadores ou democratas, não pessoas. Certamente o líder é escolhido pela sua capacidade de defender uma mensagem, no entanto, é a proposta que determina o processo. Querem saber qual a proposta para a economia, como tirar o país do buraco, o que pensam sobre a legalização das drogas, essas coisas que são fruto de um programa de partido. Mas são só dois partidos? Não. Eles são livres para montar quantos forem de sua vontade. Uma eleição presidencial chega a ter até 80 candidatos. Mas eles escolheram entre estas duas formas de pensar.
Não que os Estados Unidos tenham o melhor sistema político. Os problemas existem e são bem visíveis. Ninguém garante que o eleito será necessariamente o votado por mais pessoas. E isso é grave. E, apesar de pensarem política de maneira mais reflexiva, ainda assim elegem seus Tiriricas. Na Inglaterra, por exemplo, o poder praticamente se divide entre Trabalhistas, Democratas e Liberais Democratas. E o partido é eleito. Aquele que conseguir a maioria das cadeiras na Câmara dos Comuns vai escolher o primeiro-ministro. E se o mesmo não estiver de acordo com as questões partidárias será trocado no meio do mandato. Assim, na lata!
Voltando à Pindorama, as perspectivas não são muito boas. Muito sinceramente eu não mexeria neste vespeiro. Não importa o que fizerem, o risco da situação piorar é grande e significativo. Com uma classe política que votará em causa própria, um legislativo vítima de uma governabilidade tacanha, um judiciário cheio de vícios e suportado por uma legislação pródiga de interpretações, o conjunto desta reforma não pode sair a contento. Além de tudo o mais grave, nós, eleitores, não somos e nem queremos ser a peça mais forte nesse jogo. Ou se faz um conjunto de reformas de base ou qualquer tentativa será mero motivo para vender jornal.
Reforma de base? Poder não se dá, poder se conquista. E faça o que quiser com isso!
A VIOLÊNCIA E O CONTRATO (OU, QUANTA VIOLÊNCIA CABE NUM ESPAÇO EM PAZ?)
Em um magnífico texto de Ciro Marcondes Filho acerca da Violência Fundadora, o autor versa sobre a oposição entre a violência e o contrato. Necessariamente é uma visão que surpreende pela inovação e, o mais chocante, obviamente sobre um fenômeno confinado ao campo da culpa, do crime e da destruição. Hannah Arendt, em seu Sobre a Violência, já atestava para o poder que a mesma tem em produzir coisas e não apenas colocá-las abaixo. Isso porque os processos de transformação são violentos em si pelo próprio rompimento entre o antigo e o novo. Do caos brota o novo.
Mas não foi nem pelas palavras de Ciro Marcondes Filho ou de Hannah Arendt que vi algo neste sentido pela primeira vez. Nos idos de 1995, em uma aula de literatura com meu mais agradável mestre e padrinho Tomaz Maciel, ouvi uma frase nunca esquecida e sempre evocada quando necessário: “Não confunda paz com pasmaceira!” Nada mais apropriado para uma sociedade asséptica, capaz de optar pela ideia de uma comunidade ideal calcada em relações sem conflito.
Egito, 11 de fevereiro de 2010. A revolta popular transforma um país passivo perante leis baseadas nas imutáveis “vontades” de Allah em uma turba sedenta por algo impensável: democracia. Isso mesmo. Um modelo de sociedade ocidental, completamente estranho a seus valores e crenças. O mais sério de tudo? O sentimento desta liberdade se espalha por outras nações igualmente conduzidas pela ditadura teológica. O caos promoveu a transformação.
Índia, 12 de março de 1930. Mahatma Gandhi liderou a Marcha do Sal e seguido por uma multidão de dezenas de milhares de hindus, protestaram contra a proibição do governo inglês que impedia que os indianos de produzir seu próprio sal. Mas havia algo de muito diferente neste processo: a orientação pela não-violência dos manifestantes. No entanto isto não impediu que não houvesse agressões. Pelo contrário. Mais de 60.000 pessoas foram presas e muitas delas severamente punidas fisicamente. Na realidade este é um preceito que transfere a violência de quem protesta para quem defende o status quo. A culminância deste processo se deu em 15 de agosto de 1947 com a independência indiana.
Brasil, 31 de dezembro de 2008. De acordo com os dados do Datasus, todo ano de 2008 contabilizou oficialmente um total de 50.113 homicídios. O país das pessoas pacíficas, passivas em relação a seus direitos, dos cidadãos e cidadãs alegres, assassina o um contingente maior que a população de cerca de 90% de seus municípios. Em um ano! Mas somos o país dos sorrisos, a terra do carnaval. Na realidade somos um país em silêncio. Um país que ainda, e infelizmente, não cedeu ao caos para se transformar.
O erro das estratégias de enfrentamento da violência está na recusa de quem operacionaliza as políticas públicas na reconstrução dos contratos sociais. No Rio de Janeiro, a invasão das comunidades dominadas pelo tráfico só obteve o inédito apoio de sua população quando se evocou um contrato de proteção do Estado frente a estas pessoas. Pelo menos um contrato mais vantajoso que aqueles mantidos entre a comunidade, os traficantes e milicianos. Aqui em Pernambuco o Pacto Pela Vida ainda é uma estratégia de redução dos homicídios e não a ressignificação do contrato entre os cidadãos e seu governo. As políticas voltadas ao policiamento ostensivo sempre são linha de frente em relação às políticas sociais.
Vejo os militantes de uma difusa Cultura de Paz, entidade esta que ninguém sabe direito o que é ou como funciona. Tem vezes que parece um desejo enorme de sociedade guiada para o bem. Quem bem é esse? Quem determina este bem? Não sei. Fico com Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar.” É preciso ouvir as pessoas para tentar entender qual o tipo de convivência elas desejam para si. Até hoje foram os poderosos e eruditos a definir este padrão.
Há algo de errado em nosso modelo de sociedade cada vez mais opressor e extremista. Matar deixou de ser a última opção para ser apenas mais uma. É hora de repensar nossas atitudes e desejos. Como diria Albert Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”
Se pudesse descrever como foi meu final de semana ficaria na dúvida entre o incomum e o mágico. Fico com o segundo, já que o incomum nos ronda com mais frequência. Não sei se a tecnologia evoluiu a este ponto, mas tive a impressão de viajar duas vezes na máquina do tempo entre o sábado e o domingo. Creio eu que estou ficando velho e nostálgico, vendo as coisas que gostava quando criança indo embora e virando posts saudosistas na internet. Mas que sejam, só se sente falta daquilo que foi bom. Ou não?
Mas, voltando. Já tinha me programado pra ver de todo jeito o documentário sobre Ayrton Senna no fim de semana. A princípio pensei em ir sozinho mesmo, mas chamei minha mãe pra almoçar comigo e depois vermos o filme. Acho que a última vez que fui com minha velha ao cinema foi para assistir algum filme dos Trapalhões. Senna é o grande herói que tive na infância e adolescência. Não importava a hora em que as corridas aconteciam, eu assistia. Nem tenho ideia de quantas vezes peguei no sono no meio dos circuitos japoneses madrugada adentro. Ele era tudo aquilo que se esperada de um ídolo: corajoso, boa gente, destemido e ainda falava numa língua conhecida. Foi a primeira pessoa que, ao chegar no ponto mais alto do pódio, levantava a bandeira brasileira.
Mas hoje é fácil fazer isso. Todo mundo faz. Todo mundo usa nossa bandeira em bandanas, camisas, saídas de praia, adesivo ou qualquer outro artigo. Na década de 80 isso era impensável. Os caras queriam ser algum ator ou cantor norteamericano e as meninas se viam Madonnas. Coisa chique era a bandeira dos EUA, cantar em inglês e comprar algum produto importado. E foi em meio a este mundo de rejeição em ser brasileiro, num país onde a fome estava ao nosso lado, o desemprego era homérico e a inflação comia salários em dias, que surgiu um de nós que levantava nossa bandeira e fazia nosso hino tocar para todo mundo.
Bertold Brecht uma vez disse que triste é o país que precisa de heróis. Besteira, cabra. Triste é o país que não tem seus próprios heróis. Nós finalmente tínhamos um de verdade. Entrei na sala de projeção e, já nas primeiras cenas, senti-me no sofá da casa de meus pais vendo aquele cara fazendo loucuras inimagináveis. Para aqueles que só conhecem Schumachers e Barrichelos, com seus joguinhos de equipe e combinados, Senna foi companheiro de escuderia simplesmente de Alain Prost, seu maior rival e um dos maiores pilotos de todos os tempos. A coisa era de uma maneira tamanha que em dois campeonatos seguidos, o campeão foi decidido com um jogando o carro sobre o outro.
Mas o filme é uma viagem no tempo angustiante. A felicidade vai dando lugar à tristeza na medida em que o ano da morte de Senna se aproxima e nós sabíamos o que aconteceria. O filme poderia ficar em 1993. Já estava muito bom. Quem assistir vai ter uma vontade enorme de gritar pra ele não entrar no carro em Ímola. Foi uma sensação indescritível ver o meu grande herói de sempre novamente ultrapassando insanamente os carros à sua frente, ouvir o tema da vitória e suas corridas espetaculares na chuva.
Sinceramente, quando esta campanha presidencial teve início eu não imaginava que ela ia finalizar na maneira tão desqualificada como se mostra. Exageros à parte, caos seria a palavra correta para ser utilizada, levando-se em conta sua origem histórica. De origem grega, o termo inicialmente caracteriza o vazio que precede o nascimento dos seres e realidades do universo (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). Talvez todo este estado caótico nos leve a uma nova perspectiva de construção política.
Isso porque, diante de tantos problemas fundamentais, a campanha presidencial deste ano ultrapassou os limites do mal gosto e desqualificação do público e encampou a única coisa sobre a qual não se poderia tocar nunca em um processo eletivo: a questão religiosa. Principalmente porque religião é uma dimensão particular de cada um e não cabe de maneira participativa na gestão do Estado. Por mais que nossa ética e moral esteja calcada num molde judaico-cristão, toda e qualquer participação nas questões estatais param por aí.
A questão do aborto se tornou o fiel da balança num país onde o analfabetismo mata as pessoas por ignorância, a corrupção mata por desvio de recursos para hospitais e um sem número de atividades vitais, a má distribuição de renda mata pela impossibilidade de adquirir o mínimo possível à manutenção de sua saúde e a mentalidade política mata pelos acordos lobistas feitos para um conjunto de pessoas cada vez melhor ter acesso ao grosso do capital gerado com o esforço de uma enorme coletividade. Onde está a defesa da vida?
O que torna a situação ainda pior do que se mostra é que a briga não é em nome do Cristo vivo ou morto propagado pelas religiões. A luta é por poder, espaço político, manipulação e dinheiro. Não passa de um grande levante utilizado como moeda de troca por um conjunto de igrejas pesque-pague que se reproduzem indefinidamente, roubando seus fiéis, iludindo sua fé, fraudando milagres. Tudo isso com permissão do Estado. E tudo isso é anterior à onda neopetencostal. Seria injusto dizer que Edir Macedo ou Silas Malafaia começaram com isso.
Tudo começou no Vaticano, nas sinagogas, por entre as gregas ninfas, nas mesquitas. Nem sempre em busca de dinheiro, mas invariavelmente em busca de controle sobre a vida alheia. O Olimpo foi exterminado quando não mais servia de domínio, Papas foram mortos, rabinos incriminados, homens explodem pelas cinturas carregadas de bombas, tudo isso para incidir no coletivo humano. Obviamente pessoas como o capo da Universal do Queijo do Reino de Deus ou o grande orador Malafaia são os bastiões modernos de um controle que tinha se enfraquecido no seio da igreja católica. O controle mudou de mãos com a transição da miséria. O miserável era aquele desprovido de direitos e de recursos. Hoje os recursos são um pouco mais acessíveis, entretanto a miséria foi ampliada na exclusão do construir de um Estado que satisfaça à população como um todo. “Ore que Jesus vai te prover!” Uma semana depois chega uma bolsa família.
Será que toda a discussão das questões nacionais se resumem ao aborto? Onde está o espaço para as defesas civis, numa país onde ainda se está vulnerável a tragédias por deslizamentos? Onde está a evolução da Bolsa Família para evitar que o socorro seja permanente? Onde estão as políticas para as estradas em um país campeão de mortes por acidentes? Onde está o nosso Sistema Único de Saúde, tão sufocado pelas UPAs que resgatam o modelo hospitalocêntrico e mata a nossa Atenção Primária, nossa Estratégia de Saúde da Família?
Mas há erros de todos os lados. Nas religiões e nos religiosos com sua hipocrisia tão tóxica. Quem já viu falar de aborto com manifestações religiosas que tantas vezes recorreram a este artifício sem nenhuma nobreza motivacional? Simplesmente para preservar seus sacerdotes e fiéis mais participativos. Evitanto escândalos ou coisas que possam afetar a credibilidade das instituções. Isso também acontece com a questão da homossexualidade. Pecam os governos por nunca assumirem explicitamente uma posição clara com relação ao tema. Descriminalizar é bem diferente de apoiar. É evitar que uma mulher seja presa injustamente, além de preservar sua vida não permitindo que ela morra em uma clínica clandestina. Vale salientar que esta é uma realidade para as mulheres pobres, aquelas que não têm condição de proceder ao aborto em ambientes estéreis e asseados de exclusividade das ricas. Pecam os movimentos sociais ao concentrar a discussão em serem contra ou a favor do aborto. Foi uma das piores estratégias que já vi.
Quem em em sã consciência é a favor de abortar? Nenhuma mulher é favorável a uma coisa como essas. Um ato que traz sofrimento e mutila a mulher física e psicologicamente não é feita de maneira nenhuma com prazer ou indiferença. A pessoa sofre para tomar a decisão. Quantas delas não exitam e desistem no momento de iniciar os procedimentos? Os motivos que levam uma cidadã a esta situação, não estranhamente estão de fora do debate. Quem sabe não ganhe um capítulo especial na Veja ou um episódio do Globo Repórter? Mas só depois da eleição, é claro! No momento em que o assunto é abordado alguém se preocupa com a cabeça de uma mulher que leva o fruto de um estupro no ventre? Tem alguém se perguntando sobre como fica a mulher que gera uma criança que vai ser dada a um estranho qualquer por falta de condições para o cuidado? Mesmo que não ache que seja um motivo plausível, duvido que em meio a este processo de campanha alguém tenha parado pra refletir sobre a mulher que vai dar a luz a um filho e não ter como alimentá-lo, vestí-lo ou cuidar de sua saúde com um mínimo de qualidade.
Mas isso é compreensível porque este é um debate que se dá na ponta da pirâmide social, com pessoas que podem pagar seus abortos em clínicas privadas e calar os seus para que a sociedade não saiba nunca do acontecido. Ou quando dão uns trocados para a empregada tirar com agulha de crochê o filho que ela espera do rebento do patrão. Ou pessoas que tem o que comer com fartura, ou estudaram em bons colégios e acham que isso não é necessário na vida daquele pobrezinho da esquina. Um prato de arroz, feijão e farinha é mais que suficiente. É muito fácil decidir sem ter a mínima ideia do que acontece do lado de fora do carro com ar condicionado.
Ao povo só resta Jesus, o único que lhe vale nos momentos de solidão, exclusão e fome. O único que acolhe no desespero do vício. O único que olha pra ele com ternura no momento da despedida após uma bala perdida ou achada. Bem, vocês concordando ou não, crentes ou não, para quem crê Jesus é mais importante que plano econômico, estruturação da economia, justiça social ou qualquer destes termos que não fazem sentido para a maioria de nossa população. Até porque nada chegou a eles, não é? E quem faz essa comunicação com Cristo? Quem?
Enquanto isso vemos na televisão um ateu beijando a cruz e a primeira ida de uma candidata ao santuário de Aparecida. Em pleno período eleitoral, coincidentemente. Serra esquece que foi em sua gestão no Ministério da Saúde que o processo de descriminalização do aborto teve início. E Dilma que faz parte de um governo onde este processo vivenciou avanços consideráveis, apesar das forças contrárias. E ambos abrem mão destas conquistas por populismo e medo da fúria dos pastores. Serra acusa Dilma e “esquece” que Soninha, sua coordenadora de campanha e possível ministra de alguma coisa, não só fez um aborto, como propagou aos quatro cantos do planeta a sua (bem estruturada, vale salientar) defesa. Dilma evita até a palavra descriminalizar. Serra recita os Salmos e Dilma batiza o neto ainda recém nascido para botar no guia eleitoral. Prefiro não explicitar, mas nesse caso há um lado mais hipócrita sim. Prefiro não emitir opinião. Porém, em nenhum dos casos há hombridade suficiente para defender nada.
Queria muito terminar com um conceito de Direito à Vida. Infelizmente não consigo. Não tenho como. Sei o que pra mim é ter direito a uma vida digna, sem ser tratado pelos governos como gado, onde a engorda e a vermifugação são mais que suficientes. Pra que pobre com mais que isso, não é? O que eu sei é que a campanha que eu gostaria de ver é outra. Bem diferente.
Ah, que vontade de fazer isso!!! (foto roubada ao Blog Renato Jr.)
Chego em casa e a cartinha de um candidato me esperava na caixa de correio. É a terceira que me encontra. Semana passada, um postulante à Assembléia Legislativa faz tocar meu telefone com uma gravação de campanha. Em pleno sábado. Minha caixa de e-mail foi descoberta por pessoas de Goiás, Paraná e Rio Grande do Norte, além das campanhas daqui de Pernambuco. Chega um torpedo em meu celular pedindo votos para um não-sei-quem-lá. O porteiro do prédio me mostra o balde de lixo repleto de materiais de campanha que chegam todos os dias e os condôminos pedem pra nem receber.
Qual o limite da privacidade no processo eleitoral? Em um processo cada vez mais proibitivo, adquirir uma mala de endereços ou e-mails passa a ser produto vendido a peso de ouro. O problema é que, talvez munido por fracos estrategistas, os candidatos acham que receber a ligação de um robô pedindo pra votar em fulano ou cicrano vai render frutos. Será que rende?
E não é só este tipo de invasão que está em voga ultimamente. O uso do espaço público por cavaletes, bandeirões, moldes de candidatos em tamanho natural disputam espaço com os pedestres ou voam para o meio das vias, inflados pelo vento. Aqui no Recife, circular pela Avenida Boa Viagem ou pela Agamenon Magalhães é semelhante a participar de uma dessas provas do Domingão do Faustão. Pula de um lado, desvia de outro.
Onde estão os Tribunais Eleitorais nestas horas? E quem sabe? Enquanto eles ficam bolando formas mirabolantes de evitar ilegalidade nas campanhas, o mundo real aqui de fora poderia bem servir de modelos para eles chegarem a uma fórmula satisfatória. O problema é que os juízes de todos os tipos de tribunal não têm a mínima noção de realidade. Não sabem o que pensa a sociedade (e não estão nem aí pra isso!!), além de serem profundamente complacentes com os crimes da elite. De acordo com um felicíssimo ditado chinês: “quem rouba um pão é punido, quem rouba um país vira príncipe”.
Bem, se há toda uma dificuldade para julgar um recurso pela Lei da Ficha Limpa ou para receber as multas de candidatos e políticos multados, imagine para impedir campanhas de pessoas que podem pagar por seus materiais, marqueteiros e estrategistas? As campanhas antigas favoreciam quem tinha poucos recursos e os garantia um pouco de igualdade com os poderosos. Não é interessante que na época em que tínhamos a distribuição de camisas, bonés e outros brindes, havia militância? Hoje que estes artifícios são proibidos, os militantes sumiram. Matemática estranha, não é?
Bem, eu só aguardo ansiosamente o fim das eleições para que possa parar de ouvir mentiras, promessas vazias, candidatos despreparados. Pelo menos serão dois anos em silêncio, esquecidos de mim. Não vou nem dar ideia, pois é capaz do cara ficar me telefonando relatando sua agenda parlamentar, orgulhando-se por ter conferido o título de cidadão pernambucano a algum amigo dele. Saravá, meu pai. Saravá!!!
WILSON FREIRE E A MEMÓRIA DA CULTURA POPULAR PERNAMBUCANA
Os debates acerca da cultura popular geralmente se seguem de uma aura de conservação ou, como costumo dizer, de formolização de nossas representações folclóricas. O termo é formolização mesmo, no intuito de manter em formol nossa arte. A coisa se torna chata, como se vivenciada na rotina de um museu típico, onde nada pode ser tocado, manuseado ou transformado. Alguns elementos de nossa identidade cultural são mantidas nesta redoma e vistos cada vez mais como animais em exibição e menos como personalidades pulsantes.
Mas há sempre uma luz no fim do túnel e neste caminho está Wilson Freire. Documentarista pernambucano, é médico nas horas vagas. Tive oportunidade de conhecê-lo em Olinda, quando cuidava dos materiais informativos de da Secretaria de Saúde. Wilson era responsável pelo Núcleo de Educação Popular e, com o apoio de João Veiga, secretário à época, conseguiu construir a memória das atividades realizadas na gestão, coisa que não vi ainda em nenhum outro lugar.
Em um destes trabalhos acompanhei o registro do projeto Coquistas de Olinda. Um grupo de tocadores e cantadores de Coco foram convidados para escrever e interpretar músicas que dissessem respeito aos temas do enfrentamento à violência e às DST/AIDS. Tive o prazer de fazer algumas fotografias, junto com o lendário Passarinho, e a arte dos dois CDs do projeto. Entre outras figuras, pude ver o processo de trabalho de Selma do Coco, Aurinha, D. Argentina e tantos outros. Em meio a eles uma figura que se destacava mesmo sem pronunciar uma palavra que fosse. Negro, magro, porte mediano, cabelos e barba branca, um chapéu de aba curta e uma camisa de tecido com uma de malha por dentro. Nas mãos um pandeiro e na cabeça um mundo. A voz rouca anunciava o grande mestre Galo Preto.
Não sabia eu que aquele era o retorno de um longo período de ostracismo. Não sabia eu que a história que ele carregava era imensa. Não sabia eu que seu tamanho se multiplicava quando o livro de sua vida era lido de trás pra frente. E, certamente, não saberia de nada disso se não tivesse saído de minha residência ao quinto dia do mês de setembro deste ano de 2010 em direção à cidade de Olinda, mais precisamente no Seminário de Olinda.
Era noite de céu limpo e o filme foi exibido no ponto mais alto da Marim dos Caetés. Obviamente ambos, Wilson e Galo Preto, encontravam-se na primeira fila, sem nada que os separasse da tela. Anúncios feitos, o filme se inicia e, com ele, um importante pedaço de nossa cultura popular. Não vou falar de Galo Preto nesta hora, em outro momento escrevo mais sobre ele, mas é interessante ver como Wilson Freire interpreta o registro de uma cultura popular.
Grande parte de nossa identidade foi composta no anonimato de trabalhadores comuns. Cortadores de cana, sapateiros, marceneiros e toda a sorte de profissionais dividiam sua vida com a chefia de folguedos coloridos, ritmados, magníficos. Mantiveram-se à revelia dos salões aristocráticos, em terreiros de barro, quase nada diferenciados de quilombos. Camuflados em brincadeiras despretensiosas, guardaram nosso tesouro sem o mínimo pudor de mexê-los e transformá-los. Completamente diferente das palavras difíceis dos estudiosos.
Wilson não cedeu à tentação de visualizar Galo Preto pelo eruditismo de sua arte pura. Resgatou sua vida como ela foi. Ungiu-o com o título de Menestrel. Desfiou seu reinado e registrou a mistura com a modernidade. Galo Preto faz o coco mas faz o hip hop também. Senta com Arlindo dos Oito Baixos e, em pouco minutos, põe Roger de Renor pra dançar. Escancara sua tristeza na mesma medida a qual lustra e amplia um documentado convencido, ciente de sua grandeza.
Não seria muito dizer que Wilson Freire foi justiceiro. Pistolou as trevas que cercavam uma personalidade rica, indispensável e tão invisível de nossa cultura. Agora ele está aí. Sua obra merece uma divulgação massiva, exibição exaustiva e peregrinação pelos inúmeros festivais de cinema que aí estão. Mostrar de maneira pulsante nossa cultura viva. Registrar para que outros o tenham como base e venham a produzir novas coisas tão boas quanto.
A responsabilidade de Wilson Freire se multiplicou agora. Há muita gente boa oculta por aí que merecem registro. Ele não conseguirá guardar tudo em imagens, mas se fizer uma parte com a mesma sensibilidade e brilhantismo que fez com Galo Preto – O Menestrel do Coco, conseguiremos equilibrar esta gangorra que pende tanto para manifestações mais pop, como a bossa nova e o samba. Nossos mestres e mestras merecem perpetuação. Mostrar a gargalhada de Selma, a elegância de Aurinha, a majestade de Lia e a virtuose do Mestre Salustiano, são dívidas que Pernambuco ainda tem com os seus. E assim será possível dar vida ao nosso museu, transformado-o em algo divertido, digno de aplausos e orgulho. Assim poderemos dançar nossos folguedos antes que nos transformemos em memória de computador viajando pelo espaço atrás de algum alienígena que nos entenda.
Vi no documentário sobre Tom Zé exibido na Mostra de Música em Olinda (MIMO), o trecho de uma canção que falava do compositor brasileiro. Antes de escrever este texto, lembrava-me desta peça para fazer uma analogia com nossa elite pensante. Deixa mostrar pra vocês um pedacinho de Complexo de Épico (sim, é assim mesmo que se escreve).
“Todo compositor brasileiro é um complexado
Por que então esta mania danada, esta preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de sorrir tão sério, de chorar tão sério, de brincar tão sério, de amar tão sério?”
Pois é, quando todos pensavam que o furacão da eleição estaria na disputa entre Dima e Serra, ou na elegância política de Marina Silva, ou até na comédia stand up de Plínio… Ou nos escândalos políticos das quebras de sigilo, lobby junto a empresas públicas, cooptação de parceiros, essas coisas, eis que surge a grande personalidade eleitoral em 2010: Tiririca. Palhaço, malabarista, egresso da fome, humorista e sucesso na televisão, como tantos outros que poderiam passar despercebidos, foi alçado à categoria de fenômeno político.
Bem, quem o fez foi o povão? Definitivamente não. O Tiririca, futuro deputado federal, é produto da mídia e da elite pensante e indignada brasileira. Foram eles os primeiros a intitulá-lo de escárnio por aparecer na TV dizendo não saber a função de um deputado. Pois pergunte a seus candidatos se eles sabem. Não se assustem se algum deles gaguejar e formular uma tese para, ao final, demonstrar que não tem a mínima dimensão do que significa o cargo. O problema é que foi um palhaço quem falou. No Brasil, o que não convém não pode ser dito.
Poucas foram as pessoas a observarem o fenômeno pelo lado do protesto e do descrédito com a categoria política. Na realidade, poucos foram aqueles que realmente se interessaram por uma análise mais aprofundada da situação. Preferiram a esculhambação, a oportunidade de humilhar o povo por suas escolhas. O voto é o único momento no qual as pessoas se sentem em pé de igualdade uns com os outros. Numa mesma fila pousam pobres e ricos, negros e brancos, homens e mulheres. E é justamente este o momento onde os esquecidos vomitam suas angústias e frustrações, entregando aos reis os seus bobos da corte.
O palhaço só ganhou público e a eleição quando ele se transformou em tudo aquilo que nós, sabidos, desprezamos. “É isso que os irrita? É isso o que terão.” E não se surpreendam se boa parte dos votos de Tiririca vier de uma juventude que não se sente minimamente instada a respeitar um modelo político que não o respeita. Já são algumas eleições tentadas por Reginaldo Rossi sem sucesso. Gretchen foi uma decepção ambulante em Itamaracá. Recife poderia ter elegido o Gordo Salada. O gestual 2590 de Pernambuco está aí para ser alavancado com seu dedo no nó da garganta e no “pau da venta”. Nenhum deles terá sucesso. Não foram execrados o suficiente para virarem mártires. Tiririca foi, assim como Clodovil.
À época dos votos escritos em cédulas, os protestos eram generalizados. A eleição paulistana de 1958 elegeu o rinoceronte Cacareco como o vereador mais votado da cidade. Jaboatão dos Guararapes, o Bode Cheiroso, também na década de 50. O Rio de Janeiro ainda viu o macaco Tião chegar em terceiro lugar na eleição para prefeito de 1988. Obviamente, em dias de urna eletrônica, este tipo de protesto não pode ser feito. Os animais em questão são elegíveis. Que vá o palhaço, então.
Alguns podem perguntar o que estes caras podem fazer pela política em termos de qualificação de propostas, essas coisas? Devolvo a pergunta, o que seu candidato tão bom e capacitado têm feito por você? Será que ele tem realizado algo de verdade por você? No final das contas só consegue alguma coisa o pessoal do lobby, da negociata. A Copa e as Olimpíadas estão aí pra mostrar isso, o Ato Médico também, além do enterro da CPI do Futebol. É muito fácil ver político bom, respeitável e com currículo lustroso votar contra o povão por orientação partidária ou conveniência. A lei das Organizações Sociais para gestão das novas unidades de saúde do estado contaram com vários deles. E todos estão aí, com cara de coitados, pedindo seu valioso voto.
Bem, por enquanto Tiririca continuará sendo uma exceção, uma forma de deixar um espinho incômodo por quatro anos em meio aos donos do poder. Portanto, continuo com Tom Zé, ainda em Complexo de Épico:
“Ah, meu Deus do Céu! Vá ser sério assim no inferno!”
Saramago não era ateu. Suas obras gritam isso a cada página. ó um displicente não perceberia que conversava com deus em intimidade ímpar. Só um cego não via sua busca por um deus. Seu deus. Buscava questionando, na melhor forma de buscar algo: onde está? Para onde foi? Só se procura aquilo no qual se acredita que exista. Nunca vi alguém procurar o impossível. Nem os cientistas. Buscando a máquina do tempo ou a fórmula alquímica da juventude eterna, por mais que digam ser improvável, eles buscam. Buscam porque há cem anos atrás ir ao espaço era impossível. E fomos.
Saramago não era pessimista. Não achava o otimismo uma ignorância, como profetizava. Um pessimista se conforma, fala baixo e aceita a ida à força. Saramago rejeitava o conformismo. Assim como nunca vi alguém buscar algo o qual não acredite que exista, não creio ser possível alguém gritar sem esperança. Nem um louco. E não existe esperança sem otimismo. Por uma questão de lógica matemática, era otimista sim. E ignorante, como profetizava.
Não era comunista. Pelo menos não o clássico. Uma pessoa que falava de amor não poderia nunca aceitar a ditadura. Nem a do patronato nem do proletariado. Não há possibilidade de se amar na privação dos sentidos. Podia ter afeição pelo comum, radical da palavra comunismo. Mas isso é o que menos aparece neste ideário. O importante é o trabalho e o produto do trabalho. Nos resumimos a isso. Leio sobre opressão, luta, trabalho, produção e capital. O comunismo nunca me ofereceu o amor e a compreensão. Não há isso na ditadura. Nem do patronato nem do proletariado. Havia a igualdade. Perigosa igualdade que nos faz iguais quando somos diferentes. Mágica e magnificamente distintos. Talvez ele fosse um comunista essencial. Na essência da palavra.
A descrença de Saramago não o fazia um materialista. Isso seria um paradoxo se não estivéssemos falando do menos materialista dos incrédulos. Porque quando se vai a crença no espírito só fica a matéria. Aquilo que se toca, aquilo que se sente. Um materialista não percebe o afeto. Não mais que uma série de reações químicas. Não mais que um conjunto encadeado de processos. Não mais que um incômodo que logo passa. Um materialista nunca afirmaria que a única defesa contra a morte seria o amor. Nunca.
E assim ele se foi. Não tão de repente. Gastou-se nesta terra de momentos finitos, instantâneos. Com seus parágrafos intermináveis capazes de fazer o fôlego se perder entre as marcas de tinta. Não era apenas um alimento para a mente, mas uma prova para o corpo. Caim, seu último livro, foi pródigo nesta maratona. A impossibilidade de cortar a ideia no meio fazia da obra dele uma história contada por nós mesmos. E uma hora a genialidade tem um fim, sobretudo quando nos afastamos do humano e beliscamos o fruto da árvore do conhecimento.
Bem, Saramago. Mordestes o fruto que nos tirou do paraíso. Mas como todo antídoto é feito do próprio veneno, chegou tua hora de voltar ao éden. Se é que ele existe mesmo.
Estudava na Escolinha Mundial, um local que tinha alunos de todos os lugares do planeta. Quando seu pai o viu cruzar o portão, cabeça baixa e o olhar nos tênis, imediatamente perguntou o que tinha havido. Qual não foi sua surpresa ao ouvir o relato abaixo.
“Pai. O senhor sabe que na minha escola tem gente de todo o lugar, não sabe? Pois é. Fica difícil muitas vezes o pessoal se entender. Cada um fala uma língua diferente mesmo quando querem dizer a mesma coisa. Tá complicado de entender? Mas o negócio é que teve uma briga hoje lá na escola e a coisa ficou meio feia. Esse negócio de ter muita gente num mesmo lugar dá muita confusão. Tem sempre um que gosta mais do outro, o pessoal que anda em turma e aquele que quer ficar de bem com todo mundo. Tem o chefão e aquele que lancha pedindo pedaço do lanche dos outros.
Mas o problema, pai, é que tem um menino lá na minha classe muito complicado. Ouvi dizer que ele é assim porque, quando era pequenininho, tiraram o local onde ele morava e ele ficou muito tempo na casa dos outros. A turma disse que ele vivia espalhadão por aí. E parece que isso demorou muito tempo. Nessa época parece que ele apanhou de muita gente em todo lugar que passava. Mas dizem que uns dos piores foi o Hanz, um galeguinho da 4ª série A. Disseram que ele prendia o menino, batia nele e ainda cismava de brincar de cientista com o coitado.
Acontece que houve uma briga no pátio das grandes, onde quase todo mundo da escola se envolveu. E esse foi o segundo quiprocó, viu? Parece que já tinha rolado um antes, mais ou menos com a mesma turma. O quê, pai? Ah! O que me deixou triste? Peraí um pouco que eu já chego lá. É que tem mais coisa. Teve uma turma de lá que não gostava do Hanz e, como percebia que a grande diversão dele era fazer isso com o menino, tiraram ele de lá e deram um pau no galego. Pense um cacete… Parece que tiraram um espírito dele de um jeito que hoje ele tá bonzinho demais.
Quem tirou o menino da confusão? Foi um grandão lá. A gente chama ele de Janjão, mas é porque o nome dele mesmo é John. Tem um menino que anda com ele e fala quase que do mesmo jeito, o James. Esse Janjão é metido a justiceiro e dono do mundo. Todo grandão, tem umas manias de proteger um pessoal que só falta beijar a mão dele. O problema todo é que, com o tempo, o menino que apanhava do Hanz foi ficando meio mascarado. Fazia umas coisas assim, que ninguém entendia muito o motivo, sabe? O pessoal fazia de conta que não havia nada demais. Diziam que ele era daquele jeito porque tinha sofrido muito e que, se dissessem algo, ele podia ficar traumatizado.
O primeiro ainda pode evitar a dor de cabeça do segundo
O vazamento de petróleo no Golfo do México atrapalhou os planos de exploração do pré-sal?
Qual será a cara que Lula fará ao ser perguntado sobre o assunto? Aquela de desdém, quando alguém aborda um assunto, para ele, sem importância?
Bem, pelo andar da carruagem ele deve ficar quietinho e passar um bom tempo sem falar em petróleo. Até o momento, só em uma oportunidade, ouvi alguém com esta preocupação. Meio ambiente ou desenvolvimento econômico? Nesta situação só um dos dois pode ser escolhido. Temos aí um exemplo extremamente preocupante para o futuro. As reservas de combustível fóssil estão ficando cada vez mais inacessíveis e sua exploração mais difícil. A reserva do Golfo do México não chega perto nem de ser pré-sal. O que faríamos nós em caso de um acidente destas proporções?
Neste caso tempos envolvida uma empresa britânica instalada em águas norte-americanas. Um negócio de um país cuidadoso com sua imagem e contratos em outro que não deixa qualquer um entrar em seu quintal. Fico imaginando uma coisa dessa tendo que ser resolvida pelos burocratas da Petrobras. Histórico de acidentes semelhantes já ocorreram em nossos mares.
É sempre bom relembrar o caso da Plataforma P36, afundada após explosão na Bacia de Campos no mês de março de 2001. Em julho de 2000, 4 milhões de litros de petróleo vazaram da Refinaria Getúlio Vargas, em Araucária/PR. No mês de fevereiro de 2004, o escape de um volume não calculado de petróleo atingiu o rio Guaecá, na cidade paulista de São Sebastião. O acidente chegou a atingir o litoral paulista. Em 18 de janeiro de 2000, a Baía de Guanabara sofreu com o despejo acidental de 1,29 toneladas do produto.
O vazamento do Hemisfério Norte ocorreu há 1.500 metros de profundidade e ninguém consegue conter. Só o campo de exploração de Tupi, na Bacia de Santos (SP), encontra-se entre 5.000 e 7.000 metros de profundidade. Qual a segurança que há neste tipo de exploração? Vale a pena arriscar o ecossistema desta forma? Não sou ambientalista e nem pretendo ser, mas este planeta é a casa que compartilhamos.
Quem pensa que o acidente do Golfo de México não vai nos atingir se engana profundamente. O ecossistema é um organismo só. O marinho mais ainda. Quando falamos dos espaços sólidos, estamos abordando um terreno sem continuidade de superfície. Mas os oceanos estão todos interligados. As correntes marítimas percorrem todo globo terrestre. Peixes, vegetais, moluscos, crustáceos e aves já estão sendo atingidos em larga escala e isso pode prejudicar nossa cadeia alimentar.
Algumas coisas parecem estar destinadas a acontecer de maneira incomum. Hoje foi comigo. Tenho o prazer de, como biomédico, falar de saúde pública para meus futuros colegas de profissão. É um dos momentos mais prazerosos que tenho como sanitarista. A Biomedicina é um campo que ainda consegue se observar pouco no campo coletivo da saúde e isto contribuía para que me sentisse apenas um sanitarista. Minha reaproximação com a profissão se deu com o convite feito pelo Professor Paulo Miranda para integrar a diretoria do Instituto Nacional de Biomedicina.
As aulas eu já dava há alguns períodos, não era novidade. Entretanto, após esta nova atribuição na construção do INB, pude me perceber verdadeiramente como biomédico. Mas a questão não é essa. Eis que hoje, após a aula, pego a lista dos alunos para fazer a chamada e tomo uma pedrada. Sabe aqueles petardos que fazem sua cabeça girar e pensar em mil coisas ao mesmo tempo? Foi um desses. O primeiro nome da lista, acompanhado de traços de ausência, era o de Alcides Nascimento.
Não vou contar toda história, até porque o Brasil inteiro conhece o trajeto do filho de uma catadora de lixo assassinado em sua casa há mais de três meses. E era o primeiro nome. Meu coração ficou pequeno. Era pra ele estar ali naquela sala, aprendendo um pouco de saúde pública. Mas ele não estava. E é nesses momentos que você se dá conta de como a realidade do mundo é fria. Respirei fundo e chamei os demais nomes.
Eu falei com Alcides poucas semanas antes dele ser assassinado, por ocasião do Encontro de Verão da Biomedicina, organizado por Paulo Miranda em São José da Coroa Grande. Quando ele ligou pra mim, estava no Detran renovando minha carteira de motorista. Como ele tinha ligado de última hora, a van estava cheia e, infelizmente, não conseguiu a carona para a comemoração. Algum tempo depois, o próprio Paulo Miranda me ligaria dando a notícia de sua morte.
Pensei na época em escrever um texto sobre Alcides, mas não tinha a mesma convivência dos demais colegas da UFPE. Além do mais, meu coração não permitiria que eu escrevesse como o desconhecido que ele não era. Uma coisa, porém, eu pensei: existem pessoas que nascem para ser exemplos. Ele já era um, não precisava ser de novo. Muito menos por este motivo, muito menos naquelas condições. Incompetência do poder público, leis imbecis e caducas, uma sociedade entorpecida.
Entretanto, no caminho de volta pra casa, a rádio deu a notícia mais esperada nos últimos meses: o assassino estava preso. Justo no dia o qual me deparei com a presença ausente de Alcides. Coisa do destino? Não sei o nome, mas não foi por acaso. Na primeira aula que dei pra esta turma não houve caderneta. Por que será que apareceu uma hoje, justo no dia em que o ciclo se fecha? Não sei e nem creio que alguém possa explicar.
Obviamente agora vem o novo circo: o da justiça. Julgamento, advogados, fotógrafos e cinegrafistas. Repórteres se acotovelando por uma declaração de sua mãe ou irmãs. Independente disso, o ciclo fechou. O assassino agora é oficialmente o algoz de Alcides. Infelizmente, em pouco tempo, uma progressão de pena, indulto ou fuga o colocará na rua novamente. É o caminho natural da “justiça” brasileira. A mesma que impede um inadimplente de assumir um cargo público (e assim quitar sua dívida) e permite um político criminoso assumir as nossas representações (apesar do Ficha “Limpa”).
Hoje, na sala de aula, com a caderneta na mão, chamei Alcides em pensamento. Seu nome estava lá no papel. Ele não respondeu. Mas algo me diz que ele estava lá. Algo me diz.
Quando, há 20 anos, a lei federal de nº 8.080 oficializou a adoção do Sistema Único de Saúde, muita água já tinha passado por baixo da ponte. A coisa não começou com a Constituição de 1988, muito menos com a 8ª Conferência Nacional de Saúde em 1986. Os primórdios do SUS são bem anteriores às Ações Integradas de Saúde, pois estiveram dissolvidos no interior e nas periferias das grandes cidades brasileiras em áreas remotas.
O processo de constituição do, então, novo Sistema deu a tônica de como deveria ser depois de instituído com as necessidades gerando intervenções. Mas isso funcionava enquanto era anseio, desejo e bandeira. Com a regulamentação, veio o ajuste aos paradigmas econômicos, às jogatinas políticas, aos lobbys e tantas outras condições capazes de fazer do sonho um grande protocolo.
Eis que damos um pulo no tempo e, quase no meio do ano de 2010, podemos começar a contar os dias para o fim do Sistema Único de Saúde. Mas não será um final brusco, de filme, onde um algoz qualquer chega na surdina e, traiçoeiramente, desfere um tiro fatal na vítima. A coisa será devagar, asfixiante. Será dada em doses mínimas de um veneno capaz de se acumular lentamente, sem efeitos visíveis para um leigo e dificilmente diagnosticados por um especialista. Será uma película finalizada com um defunto desnutrido, olhos fundos, dentição evidente, ossos protuberantes.
O primeiro dia pôde ser contado hoje. Na segunda entrevista feita com os pré-candidatos a presidente da república, Dilma Rousseff atestou sua simpatia ao processo de repasse do sistema de saúde às organizações sociais. E ainda deu como exemplo a experiência do estado de Pernambuco. Por cima, ainda cometeu a indelicadeza de “esquecer” o governador José Serra, mentor da ideia. Hoje, a última alternativa de reverter este processo foi por água a baixo.
Não vejo nenhum problema em otimizar a estrutura de um determinado sistema. Também não creio que haja, necessariamente, cheiro de enxofre na relação com a iniciativa privada. Por outro lado, um problema bastante sério diz respeito à responsabilidade com a coisa pública. A primeira pergunta que faço é: por que pagar para outro fazer um serviço que é de sua responsabilidade?
A ideia das fundações realizando um trabalho mais eficiente porque o serviço público é incompetente para realizá-lo soa, no mínimo, estranho. O serviço vai sair mais caro. O funcionário público isenta seu patrão (o governo) de custear com uma série de encargos que o celetista certamente terá. Além do mais, a fundação não fará isso de graça. O pior de tudo: se as fundações conseguirem fazer melhor que o governo, será a maior humilhação imposta ao ente governamental.
ATÉ QUANDO VIOLÊNCIA SERÁ (APENAS) SINÔNIMO DE MALDADE?
Bem, esse aí faz justiça ao verbete maldade
Maldade. Segundo o dicionário Houaiss é “qualidade do que é mau; perversidade, malignidade, crueldade.” Um escape, uma desculpa, uma sentença. Além disso, mais nada. O que se pode fazer contra um sentimento? Como se agir diante daquilo que é tão etéreo frente a uma sociedade materialista? Creio que não muita coisa. É uma dispersão perigosa, permissiva de um sortimento incrível de interpretações. E quanto mais imagens, menos objetividade nas ações.
O crime cometido pelo segurança de um banco paulista na última quinta (06.05.2010), ao desferir um tiro contra um homem impossibilitado de passar pela porta de segurança em função de um marcapasso, esconde uma série de situações e mascaram possíveis reações da sociedade no enfrentamento à violência. Certamente o espaço será pouco, assim como a paciência de vocês, para desfilar todos os argumentos neste artigo. Por isso, ficarei restrito aos mais visíveis.
Manias de perseguição e teorias da conspiração à parte, em primeiro lugar é impossível não salientar o papel da mídia. Autointitulando-se a voz da população, seu objeto, claramente, é o espetáculo. O choro da viúva, o calvário do criminoso, as interrogações sem resposta finalizando as matérias. Nem se importam mais em demonstrar superficialidade. “É o tempo da velocidade”. Deve ser. Perder tempo apurando e cascavilhando aquilo que está perto da raiz dos problemas leva tempo e a concorrência não pode passar à frente. Aprofundamento só em cadernos especiais. E cada vez mais especiais. Bem, no resto das páginas e canais, é o espetáculo que manda.
O eixo da responsabilidade governamental não pode ser esquecido jamais. Não! Não é que tudo seja culpa dos governantes, mas temos que dar a César o que é de César. Quanto tempo mais negligenciaremos as pessoas que trabalham no ramo da segurança, tanto privada quanto pública? Demorará ainda muito tempo para cuidarmos da mente destas pessoas? Pressão, cobranças, baixos salários, más condições de trabalho, pouco treinamento e pouca retaguarda. Tudo isso para pessoas que carregam armas e são obrigadas tomar decisões rápidas, instantâneas, no intuito de defender a coletividade.
Tenho três cidades fazendo morada em minha alma. Em Recife nasci, construí a vida e um local para onde voltar. Em Taquaritinga cultivei amizades, vivenciei minha adolescência e pude usufruir verdadeiramente da idéia de liberdade e contato com a natureza. Mas houveram dias onde eu buscava no sopé da Serra do Ororubá a energia para criar e nutrir minhas raízes. Naquelas bandas, vivi o amor puro de cafuné. É lá que minha mente ainda se abriga e aquece quando o mundo está frio e cinzento. E assim, entre três cidades, construí meus caminhos.
A primeira imagem de Pesqueira não está na cidade em si, mas na rodoviária do Recife. Esperando o ônibus com meus pais e minha irmã, sinto agorinha mesmo a ansiedade de me acomodar na janela pra esperar Ela chegar. Vem o cheiro de laranja cravo, pipoca e ouço o barulho das pessoas no antigo prédio, ainda sediado no Cais de Santa Rita. O ônibus saía deixando o Recife para trás. Caruaru me dava a noção da proximidade com o destino final. Algumas vezes chegávamos à noite e o marco de “Seja Bem Vindo” acalentava minha inquietude. Se era de manhã, procurava ansioso a pista do pequeno aeroporto com o “Pesqueira” escrito no telhado do galpão.
Os Bezerra (eu eu nos braços de Vera)
Mas meu destino final, de verdade mesmo, estava na Praça da Rosa. Aguardava o carro fazer a curva e reduzir até parar em frente ao meu castelo. Hoje existe um bem famoso e esquisito por lá, mas o dos meus avós era muito melhor. O motorista buzinava e não tardava a apontar dona Lourdes à porta. Logo após, num andar calmo, o velho Badu e tia Dete, também minha madrinha. Gosto de guardar cheiros, e o de meu avô nunca esquecerei. Há muito tempo ele me deixou aqui nesta terra sem confeito, careca ou cantiga do ai. Sem ele os pés de goiaba perderam a graça, eu passei comer toda comida do prato e me resignava até o final dos castigos. Só depois de muitos anos eu entendi ter sido esta a forma que ele encontrou pra ficar comigo todos os dias. Velho inteligente aquele.
Hoje, 19 de abril do ano de 2010, às nove e meia da manhã, volto para casa com o Recife parado novamente. Não creio que exista manifestação maior da liberdade que o direito de ir e vir. Expressar sua opinião sem ser censurado é um direito importantíssimo, mas não garante a escuta atenta e respeitosa de suas idéias. Fazer ouvido de mercador também é um direito do qual lançamos mão.
A liberdade de circular, quando exercida livremente, independe da vontade alheia. Talvez por isso ela seja utópica, talvez uma fantasia. Lembro de meu amigo e pesquisador da mobilidade urbana, Paul Nobre, ao demonstrar um dos ciclos da exclusão e miséria. Uma das características da pobreza é a ausência de recursos e são estes mesmos pobres que moram mais longe, necessitam mais de transporte público e pagam mais por ele. Resultado: a senzala hoje não tem muros, é definida pelo poder econômico.
Ao ver o que faz o protesto do Movimento dos Sem Terra hoje na capital pernambucana, fico pensando se a idéia deste tipo de estratégia não seria esfregar em nossa cara que esta liberdade não existe. Até porque meu direito de ir e vir não é opcional. Houve um tempo no qual havia preocupação em se obter apoio popular na luta pelo seu direito. Por mais que os teóricos tentem complicar os conceitos, a idéia básica da democracia é a vontade da maioria. Hoje não, você está sujeito a ser refém. E vence quem grita mais alto.
A luta pela terra em um país de alta concentração fundiária é legítima. Temos uma das maiores concentrações de renda do mundo e algo precisa ser feito. O problema é a forma como se protesta. Não há sensibilização da sociedade. Para falar a verdade, não há sensibilização nem de seu próprio grupo. Não há novidade na mobilização de uma massa de manobra, um batalhão robotizado de pessoas andando em fila indiana sem nenhuma possibilidade de ascensão dentro do próprio movimento. Além de ser extremamente machista.
Tente defender o seu direito a se movimentar livremente pelo espaço público ocupado por eles. Presenciei isso diversas vezes. Ninguém me contou, eu vi. Mas para tudo há uma justificativa, uma tese em questão. E há outras questões muito mais sérias, criminosas, que contam com a adesão de diversos setores influentes da sociedade, de nossa “elite pensante”. Adesão não pelo estímulo, mas pelo que afirmava o Bispo Desmond Tutu: “Quando você diz que é neutro em relação a uma injustiça ou opressão, você decidiu apoiar o status quo do injusto.”
No Recife nem precisa mais chover: É só esperar a maré subir.
Se fosse possível escolher uma característica para a classe política brasileira escolheria a ignorância. Esta, por sua vez, não tem nada haver coma falta de escolaridade tantas vezes evocada de forma jocosa, beirando e mergulhando no preconceito. A ignorância que cito aqui vem do desconhecimento. Não um desconhecer despreocupado, advindo simplesmente do não pensar em algo. Este existe também. Mas falo do desconhecimento maldoso, opcional, o lavar as mãos consciente, a escolha pelo não saber.
O companheiro Lula agora há de colher o fruto de sua ignorância, assim como tantos outros. O Brasil se ressente de políticos com política nas veias. Aqueles que, de tanto conhecerem e se aprofundarem no jogo, são mestres do protagonismo representativo. Quase filósofos. Destes tivemos há muito tempo, numa época que o Estado excludente os requeria como contrapeso para os seus desmandos. Hoje, nenhum. Temos o atabacado do Suplicy, a austeridade insosa de Pedro Simon, a Marina uniproposta e, talvez, só.
Quando surgiram os vídeos da prostituição política no Distrito Federal teci um comentário que já havia feio no caso do dinheiro escondido na cueca. A gente até sabe como as coisas acontecem, mas presenciar, visualizar o ponto onde as pessoas chegam, o rastejamento, o migalhar pela esmola do corruptor, isso é de uma dor enorme. Dói por saber que aquelas pessoas soterradas sob lixo e chorume de Niterói estarem mortas pela negligência de indivíduos como estes.
Votei em Lula e, apesar de tudo (além da falta de opções viáveis), votaria novamente. Não há como negar o seu sucesso no fortalecimento do Brasil no cenário internacional, o estrado reforçado da economia, a evolução no combate à desigualdade. Uns dizem que isso só foi possível por conta do governo de FHC. Concordo plenamente. Mas Lula teve a coragem que outros nunca tiveram, ao manter as bases estipuladas ainda na época de Itamar Franco. Bem, Fernando Henrique teve oito anos para viabilizar o sucesso de sua teoria econômica e não teve capacidade para fazer. Isso é fato.
Durante quase oito anos fui gerente da Política de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa do Recife. Essa experiência me proporcionou uma profunda mudança na forma de ver a vida, perceber o envelhecimento e compreender as pessoas. Por outro lado não houve uma grande modificação na forma de conviver com os idosos uma vez que a minha própria história é repleta de uma vivência espontânea e respeitosa com a velhice. Fui agraciado com o presente de ter uma boa parte dos meus avós por um bom tempo em minha vida e hoje, ainda tenho um que posso abraçar e pedir a bênção.
Voltando à minha experiência profissional, aprendi que a velhice é o produto daquilo tudo que você fez sua vida toda. Ninguém colhe mamão com um quintal de laranjeiras. E conheci os abrigos. Na realidade o nome técnico não é esse, mas essa tradição brasileira de tentar mudar o nome das coisas para reduzir os preconceitos não me sensibiliza de jeito nenhum. Só para matar a curiosidade, hoje estes locais são chamados de Instituição de Longa Permanência para Idosos. Em um país que tem uma “elite” intelectual imbecilizada pelo vírus do politicamente correto, isso não diz absolutamente nada.
E nestes abrigos vi histórias de vida se empoeirarem, mofarem no esquecimento do frio tratamento profissional, serem chamados de vovôs por pessoas que nem se importavam com seu passado. Conheci instituições de caridade, para ricos, públicas, religiosas, improvisadas, caça níqueis, tudo isso. Em algumas encontrei respeito, em outras a completa negligência, na maioria a indiferença com a alma, demonstrada por quem cuidava do corpo preso à frieza dos protocolos de limpeza. Atenção asséptica.
Em todas elas vi pessoas sozinhas no mundo. Sem parentes, amigos, nada. Para esses, estar ali ou em qualquer outro lugar era a mesma coisa. São pessoas-caracóis, a levar nas costas o mundo. Seu mundo. A maioria, porém, tinha descendência, parentesco e uma vida social além daqueles muros. Alguns poucos estavam ali por vontade própria e motivos diversos. Outros gozavam da indiferença e solidão de sua própria multidão de familiares e preferiam estar sós de verdade. Já uma outra parte forçava a própria retirada na preservação do direito à vida de filhos e netos. Em um movimento típico do filme “A Balada de Narayama”, suplicam para serem deixados de lado para preservar a existência do restante de sua manada.
Pela cara, Severino Sérgio de Estelita Guerra deve estar adorando os números do Datafolha
Copa do Mundo e eleições num mesmo ano. Dose pra leão. Em ambas o brasileiro pratica o seu esporte favorito: o palpite. Nunca estive em outros países mas conheço pessoas de diversas localidades do mundo, gosto de me informar sobre o que acontece lá fora e costumo acompanhar os processos eleitorais no restante do mundo. Posso estar errado, mas não creio que haja um povo que se divirta tanto com eleições como nós.
Divertir? Alguns de vocês podem perguntar atônitos. Exatamente. O processo eleitoral é nossa terapia em grupo favorita. Posso voltar a comparar ao futebol. Para quem gosta de uma boa partida só tem uma coisa melhor que o próprio jogo: assistir ou ouvir as resenhas esportivas no final de cada embate. As desculpas do derrotado, a alegria do vencedor. Ver e rever os gols de diversas formas, ângulos, velocidades. Será que estava impedido? Isso rende uma semana inteira.
Na eleição é a mesma coisa. Para aqueles que acompanham o pleito não há nada melhor que o período eleitoral. Já perceberam que todo mundo esculhamba o horário eleitoral gratuito ainda que, no outro dia, absolutamente todos comentem aquele depoimento engraçado ou a informação bombástica soltada contra o concorrente? Cada qual pra seu lado. Meu candidato é meu time.
Tenho em meu coração uma cidade onde eleição é uma coisa tão séria que não raramente dá em morte. Em Taquaritinga do Norte, agreste suíço-pernambucano, a coisa é tão tensa que a cidade é dividida entre calabares e bocas-pretas. Tinha até o CalabarFolia, carnaval fora de época. Lá existem dois irmãos amigos meus de infância que passaram bom tempo da vida sem se falar, separados pela crença política de cada um. O mais interessante é que andavam colados pra todo lugar. Calados. Taquaritinga merece um post especial aqui no blog. Um dia escrevo.
E tem um temperinho especial que dá gosto a todo este prato: as pesquisas. Pesquisa é motivo de briga pra quem está em desvantagem ao mesmo tempo em que vira um troféu nas mãos de quem cresce. E isso funciona no trajeto de uma montanha russa com os lugares e insatisfações sendo trocados no meio da história. Nunca vi uma delas não ser motivo de discórdia entre as partes.
A pesquisa também envolve as paixões de quem não deveria manifestá-las nem sobre tortura. Você vê Joel Santana, Luxemburgo, Leão e tantos outros que, para defenderem seus times, preferem ser pais dos jogadores a profissionais. Nos institutos de pesquisa as coisas funcionam assim também. Cada um defende seu método da forma mais paternal possível. Estava lendo uma matéria sobre Carlos Augusto Montenegro no Portal IG dizendo que não acreditava que tinha dito que Dilma não ia crescer mais que 15%. Pois é, o presidente do IBOPE, falou no ano passado que depois dos 15%, a “Filha do Lula” ia ter que suar muito pra conseguir cada ponto.
DE REPENTE A TAMARINEIRA VIROU UM PROBLEMA TÃO PEQUENO…
Olha a belezinha que vem aí! Eu não sabia que no Recife existia esta floresta à beira-mar
É, pessoal! E a gente achando que o maior problema do Recife nos próximos anos seria o Shopping da Tamarineira. Quanto engano! Pela primeira vez eu achava que a mídia ia, sinceramente, de encontro a um potencial cliente em função do bem comum da cidade. Bobagem! Todo espaço dado à campanha contra o negócio da Santa Casa tinha um motivo especial: o megashopping de Paes Mendonça.
Se alguém imaginava que o impacto seria grande para um negócio que, provavelmente, terá um tamanho intermediário entre o Plaza e o Tacaruna, o que dizer de plantar no meio do Pina aquele que seria o maior centro de compras do Norte-Nordeste? Além disso há duas torres empresariais envolvidas. E, novamente, para amanteigar a proposta, vem a balela da área verde.
Sugiro que o movimento de amigos da Tamarineira amplie seu foco e crie os “Amigos do Recife”. Bem, o Pina é um local inabitado, com tão pouco trânsito que eu nem sei porque é que existe aquela via larga terminando na Domingos Ferreira. Às 17h você pode andar de bicicleta e atravessar a rua tranquilamente, sem nenhum problema. Naquela localidade, as crianças podem saber como é jogar bola no meio da rua, fazendo barrinha (Isso é uma ironia, viu?). Eu sei que é loucura pra todo mundo menos para João Carlos Paes Mendonça, João da Costa e a mídia que, quando não é empregada pelo homem do JC, veicula gordas propagandas de seus negócios.
Até hoje a cidade não resolveu o problema do entorno do Shopping Center Recife. Fui vizinho por dois anos daquela loucura e atesto que a confusão é muita. Nem o aporte de eletricidade, uma coisa óbvia, foi bem planejado. Vez ou outra, sobretudo no final do ano, as quedas de energia eram constantes em função da necessidade de abastecimento do mesmo. Além do trânsito. Tenho pena de quem mora naquelas ruazinhas que são entradas do Shopping. O inferno é grande.
Talvez o único sucesso da cidade nesta área foi o Shopping Tacaruna. O segredo? A área. Pouco habitada em termos de prédios. Apesar de ser entrada para a cidade de Olinda, a forma como as vias foram distribuídas favorecem a circulação. Além do mais não é um enorme centro de compras. Tem o tamanho certo para o entorno certo. Deve ter seus problemas, mas é um local agradável de se visitar sem surpresas.
Não quero nem falar do impacto ambiental de um negócio destes. Até porque numa cidade como a nossa, o ecossistema já é outro: concreto, esgoto a céu aberto, morro ocupado na encosta, barulho, fumaça e poeira. E algumas árvores “nativas” para aplacar nossa consciência tão pesada. É justamente numa situação como essa que lembro de nossa incompetência em pensar a Região Metropolitana como um todo.
Conheci a obra de Glauco ainda adolescente. Enquanto boa parte dos meus amigos achava que quadrinho era Disney e Turma da Mônica eu tinha descoberto uma outra forma de humor com a turma do Chiclete Com Banana e Mad. Agradeço do fundo do peito ter tido contato tão cedo com a verborragia malemolente, a sacanagem-arte e o humor-malandro feito pelos grandes mestres dos anos 80.
A Mônica nunca foi minha musa e nunca quis ser o dono do Pluto. Preferia Los Três Amigos correndo no meio do deserto a fugir do encaralhado Don Picón, as maldades dos Spy vs Spy, a depressão hilária da Rê Bordosa, a queimação de orégano de Wood&Stock e a saga virginal do Geraldão. Glauco, Algeli, Laerte, Quino e Don Martin são entidades que ajudaram de forma irreversível a deformar o meu caráter.
E deformar é realmente a palavra certa. Foram eles que me vacinaram ainda muito cedo contra o vírus imbecilizante do politicamente correto. São caras como esses que ajudam o mundo a não se tornar um lugar asséptico e sem tesão, como é o desejo de muitos idiotas de mente reta, alma reta e vida reta, numa retidão completamente dispensável. Glauco foi uma das pessoas que salvou o meu mundo de ser um lugar chato.
Apesar das drogas, neuras, putarias e tudo mais que pudesse fazer um cartunista vulgar, ele veio de uma escola que transmitia o submundo de forma bem singela, se for possível usar esta palavra. O drogado do Glauco era um drogado de verdade, com overdose, paranóia, loucura, depressão. Não era a glamurização da droga, fazer do personagem um cara descolado, cheio de possibilidades. Geraldão era um cara virgem, solteirão e que morava com a mãe. Dói Jorge vivia em paranóia, assim como tantos outros.
Mas Glauco fazia humor e como todo humor tem que ser, era cruel. Ninguém gargalha de uma criança dando os primeiros passos, mas se ela cair no meio do aniversário com a cara no bolo, isso vai ser falado até o último dia de sua velhice. O humor é a consciência de nosso ridículo. Por que não há humor politicamente correto? Porque é chato, é pobre e insoso.
VOCÊS NÃO PODEM SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO (OU, POR QUE NÃO NÓS?)
Em breve, mais um empreendimento bento!
Esta passagem bíblica atribuída a Mateus é a chamada da Campanha da Fraternidade do ano de 2010. Realizada no período da quaresma, a ação é coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em todo território brasileiro desde 1964. Neste ano, seu primeiro lema foi: “Lembre-se, você também é Igreja”. Para mim, particularmente, dois temas me chamaram atenção: o de 1985, quando ainda tinha seis anos, e a de 2003.
Na realidade, o tema da campanha de 85 só me chamou atenção alguns anos depois, quando entendi a mensagem do lema “Pão para quem tem fome”. E achei bonito, achei justo, principalmente por ainda ser católico de uma igreja chefiada pelas brandas e piedosas mãos de Dom Hélder Câmara. Em 2003, já como Gerente de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa, a campanha chegou a mim com o lema “Vida, dignidade e esperança”. Um olhar sobre os nossos invisibilizados idosos.
O tema de 2010 me lembra com muita força como a igreja católica é cheia de contradições e dedos indicadores apontados para toda humanidade. Lembro mais uma vez de Dom Hélder quando dizia: “Ao apontar o dedo para os outros, lembre-se que há quatro apontando para vocês”. Tentem fazer o gesto e entenderão o que a mensagem diz. Eis que hoje, mais uma vez, os sucessores de Pedro se mostram novamente despreocupados com seus atos e inquirem novamente o próximo sem o mínimo pudor.
Logo agora que a Arquidiocese de Olinda e Recife, refrescada pelos ares de um pastor de riso fácil e palavras de acalanto, vive um momento novo, de maior tolerância. Justo neste momento, em plena quaresma, surge o acordo entre a sede da igreja na capital pernambucana e um grupo de empresários para arrendar a área da Tamarineira, onde fica o Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano. Ou Deus é um especulador imobiliário ou alguém está servindo ao senhor errado.
VINÍCIUS X POLANSKI (OU JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL)
A Garota de Ipanema: clássico nascido e alimentado nas tetas do governo
Acabei de ler uma notícia na internetbastante curiosa. “Câmara promove Vinícius de Moraes ao posto mais alto da diplomacia” . Isso bem que poderia passar despercebido se não tivesse assistido há algum tempo um Programa Ensaio com o mestre brasileiro do violão, Baden Powell.
Bem. Antes vamos ao fato mais recente. Vinícius de Moraes, conhecido como Poetinha, e mais conhecido ainda como um dos pais da “Garota de Ipanema”, também foi diplomata. Em 1968 ele foi destituído de seu posto pelo governo militar de um Brasil já em ares de ditadura. O motivo da dispensa foi, no mínimo, curioso: alegavam os militares que o mesmo não se dedicava às suas atribuições devido à vida boêmia. Talvez o falatório tivesse caído em esquecimento se não fizesse parte de um pacotão de dispensas que atingiu outros 40 diplomatas em uma clara demonstração de perseguição política.
Hoje, o governo brasileiro, sob a pretensa égide do resgate da cidadania perdida, comete, ao que parece, um enorme erro. Sem dúvida nenhuma a motivação política foi real e bastante forte pois o não comparecimento ao emprego de um funcionário público de alto – o qualquer – escalão nunca foi motivo de exoneração no Estado brasileiro. Pelo contrário, sempre foi a prática corrente. Uma característica facilmente reconhecível de nossa identidade nacional.
O que tem Baden Powell e o Programa Ensaio haver com isso? Tudo. Em uma entrevista dava no intervalo entre duas músicas, o violonista sai com uma revelação (que nem era tão nova assim, tendo em vista a mesma ser contada em meio a gargalhadas nas rodas boêmias do Rio de Janeiro). Logo após conhecer Vinícius, o mesmo propôs que ambos trabalhassem em uma música que vagava na cabeça do poeta/diplomata. Após esse encontro Baden Powell foi ao seu encontro e, no apartamento ficaram trancados quatro meses. Segundo o próprio instrumentista, Vinícius não ia ao Itamaraty, ele despachava de casa por intermédio da secretária.
Graças às conquistas da tecnologia vocês não terão isso por minhas letras simplesmente. Vejam e ouçam no vídeo abaixo. Quem não tiver paciência, pode avançar aos 3:00 minutos.
Tá, Baden Powell já foi explicado, e Polanski? Obviamente que o crime de Polanski é infinitamente mais grave. O cineasta foi condenado por ter mantido relação sexual com uma menina de 13 anos. Depoimentos dão conta de que o encontro foi consensual. Isso, porém, não importa muito. Com ou sem consentimento da menor, sexo com crianças (a idade depende do país em questão) é considerado estupro. Durante a prisão de Polanski na Suíça, um séquito de amigos e fãs protestou indignado contra o ato. O país europeu tem um tratado de cooperação com o governo americano que o permite deter condenados pela justiça americana.
Será o povo pernambucano uma espécie megalomaníaca? Realista, alguns argumentam. Sei que a polêmica ganha novo capítulo sempre no mês do carnaval. Nossa festa máxima, durante muito tempo foi brincada em forma de tábula redonda onde só os dignos poderiam gozar deste privilégio. Apenas nós, os pernambucanos, parecíamos merecedores desta honraria. Na festa de Momo, por incrível que pareça, demonstramos simultaneamente toda nossa alegria e tradicionalismo.
Às vezes tenho a impressão que Pernambuco seria o único lugar no mundo a sustentar uma monarquia com todos os elementos que ela deve ter. O conservadorismo das bandas de cá muitas vezes é bem mais arraigado que aquele responsável pela imagem da rainha Elizabeth II na Inglaterra. Temos os nossos reinos e nos orgulhamos muito de suas tradições. Na festa de Momo todos saímos às ruas em busca de um estandarte para jurar amor eterno e reverenciar nossos reis e rainhas nagôs.
Temos também os nossos segredos, tão proibidos quanto os códigos da maçonaria. Quem haverá de questionar o tamanho do cortejo infindável do Galo da Madrugada? Diversas autoridades tentaram algumas vezes. Em vão. Não compreendem os materialistas que continuamos também a contar aqueles que a burocracia normalmente não levaria em consideração. Ou vocês acham que Enéas Freire ou Capiba tiraram férias de seus respectivos séquitos?
Relativamente a pouco tempo aceitamos o desafio de mostrar esta maravilha para o mundo. Mais protegida que a fórmula da Coca-Cola, os mistérios de nossa folia não tardaram a chegar aos quatro cantos do planeja e rivalizar com os carnavais-publicidade do Rio e de Salvador. Mostramos que nossa festa não está apenas em Recife e Olinda. Onde tiver gente e lata pra bater, em Pernambuco, há folia. E folia boa, animada. Bezerros, Vitória, Nazaré da Mata, Pesqueira e tantos outros.
Somos sim o melhor carnaval do mundo porque somos vários. E sabemos ser vários. Não forçamos esta variedade, não o fazemos por força do mercado ou da política. Inclusive temos uma dificuldade enorme de vender o que é nosso. Até porque é legado e legado se deixa. Entregamos de bom grado. “Quer um pouco? Venha comigo, entre no bloco! É de graça! ” Só não podemos revelar tudo de uma vez, a inveja é coisa que, quando não aleija, deixa cicatriz.
Você é capaz de dizer que Haiti é esse? (Imagem de Sebastião Salgado)
Outro dia, conversando com uns amigos, fiz a afirmação que intitula este post. Eu, tão acostumado a polêmica, não imaginei uma reação tão intensa. Com mais ou menos força, uma parte concordava e outra discordava. Entretanto, o que mais me deixou surpreso (e feliz) foi o fato de nenhuma das opiniões ter ido por minha linha de pensamento. Poucas vezes eu presenciei um sortimento tão grande de imagens acerca de uma única frase.
Estávamos falando da cobertura da mídia acerca do terremoto haitiano, coisa interessante de acompanhar por uma perspectiva mais crítica. Eu, particularmente, identifico algumas fases nestas situações. A comoção coletiva se segue da exploração das vítimas, os analistas de situação, os questionadores de situação e o silêncio. Nos acontecimentos de Angra dos Reis, por exemplo, a cobertura ostensiva (e perfeitamente compreensível) demora uns dois dias. Logo após, o sofrimento das famílias. Nesta fase, quanto mais lágrimas, desmaios, velórios, gritos, fotos, vídeos e perfis no orkut, melhor. Depois apareceram os engenheiros, políticos, moradores, curiosos e a Miriam Leitão, todo mundo dando um pitaco sobre o que deveria e não deveria ser feito.
Depois vem a melhor parte. Chegaram aqueles que não admitiam se falar tanto de Angra se em outros locais há tragédias muito piores, com pessoas igualmente carentes. Alguns crêem verdadeiramente que aquilo nem aconteceu de verdade, que o homem não pisou na Lua e que Hugo Chávez tem razão em afirmar que o terremoto foi causado por Obama. Pelo menos, depois disso tudo vem o silêncio. Não se fala mais nada, não se toma nenhuma providência, o exemplo não serve de nada e, quando muito, só vai merecer uma ou outra nota de pé-de-página na liberação dos laudos do acidente.
Mas, por que não temos Haiti? Bem, sem querer Caetano deu a resposta: O Haitiiiiiii não é aquiiiiiiii! O Haiti é lá, com as pessoas vivendo problemas que são próprios de sua realidade. Esse é o primeiro ponto. A realidade não é uma foto, é um filme. Uma foto é uma cena congelada no tempo, extremamente dependente da interpretação de seu fotógrafo. Podemos encontrar muitas fotografias parecidas, até iguais, em partes diversas do mundo. Se você tiver a oportunidade de filmar uma situação da qual você tem a foto, compartilhará uma outra visão dos fatos.
Não há Haitis no Brasil. Nem em Gana. Nem na China. Nem na Inglaterra. Nossas misérias são de nossa propriedade e responsabilidade. Participei por dois anos de um projeto que me dava a oportunidade de conhecer as comunidades dos engenhos do Ipojuca. Alguns, para chegar, só em carros com tração nas quatro rodas. Casas de taipa, chão de terra batida, água de cacimba, crianças com lombriga e pessoas com leishmaniose conviviam com televisões de LCD, potentes aparelhos de som, antena parabólica, motos de 250 cilindradas. Estas pessoas não são menos pobres por terem estas coisas. Elas têm a sua miséria própria.
Prometi a mim mesmo não ser muito ácido caso viesse a falar da COP 15. Para quem conseguiu não ver nada a respeito, este é um encontro que acontece na Dinamarca com o intuito de discutir o aquecimento global. Desde a ECO 92, no Rio de Janeiro, ninguém via um fuzuê tão grande acerca do meio ambiente. Mas está sendo bem engraçado de acompanhar e tenho um leve pressentimento que o encontro do Rio vai se repetir. A pergunta que martela minha cabeça, porém, é a que está no título: a quem serve o COP 15?
Tem muita gente interessada no evento. Acompanhando os blogs políticos tenho visto que é uma ótima oportunidade de turismo para políticos incapazes de mudar qualquer coisa no encontro. A contribuição deles lá na Dinamarca é a mesma que estou dando de minha casa acompanhando pela internet. Espero, de verdade, que eles me tragam um chocolatezinho daquelas bandas. Segundo dizem, coisa melhor não há.
O que tem de deputado passeando, mandando foto pra aparecer ao lado dos cartazes da COP e preparando material para o período eleitoral vindouro não está no gibi. Já houve até encontro cinematográfico: o vampiro Serra sorrindo para o Exterminador do Futuro. Schwarzenegger pelo menos vem de um estado americano conhecido por iniciativas “ecologicamente corretas”. O Serra? Acho que foi mostrar a experiência do Tietê, das indústrias de fogos, preservação das praias paulistas e os dilúvios da cidade de São Paulo.
Os únicos desta patota não deslocados no evento são os chefes de estado e os diplomatas. A COP 15 foi feita para eles, não para nós. Aí vem a segunda turma. O que esta quantidade de manifestantes está fazendo lá? Sabem que não vão participar no evento e não vão tensionar em nada os resultados das discussões. Já sei. Foram buscar o troféu universal da “militontância”: cadeia e porrada da polícia. Muitos vão chegar exibindo o roxo da borrachada e a foto deles sendo detidos.
Quano eu era moço um dia / arrisulví saí andano / pula estrada da aligria (Cantador do Nordeste)
“Marido se alevanta / e vai armá um mundé / pra pegar uma paca gorda / pra nóis fazê um sarapaté”. Escutei estes versos pela primeira vez entre os anos de 1986 e 1987 na casa de meu querido e finado tio Lula. A casa dele era o meu paraíso particular. Um mundaréu de livros e discos onde passava longos períodos viajando em frases e acordes. Minha infância sempre foi cercada de cultura e meus pais sempre tiveram o cuidado de garantir a mim e minha irmã uma boa educação e o contato com conteúdos de qualidade. Como sempre gostei muito de ler, até bula de remédio me chamava a atenção. Lembro até hoje de meu pai arretado porque eu lia até pichação no muro do Clube do Bandepe quando esperávamos ônibus.
Mas naquele momento estava nas mãos com o vinil do Cantoria 1. Meu tio tinha uma coleção de 2 ou 3.000 vinis, não lembro bem. No meio deles, Caetano, Chico, Gil, Caju e Castanha, Jean Michel Jarre, John Lennon e o Cantoria 1 e 2. Aos 8 anos de idade eu adorava Geraldo Azevedo e, naquele dia, foi o nome dele que me chamou atenção na capa do bolachão. A tarefa mais esperada das minhas férias era ir para Taquaritinga e colocar todos aqueles discos em ordem alfabética, ouvir os meus preferidos, descobrir coisas novas. Ficava admirando as capas. Nunca esqueço o vinil do Gonzaguinha com a foto granulada do barbudo com os ombros nus. Só vim escutar as músicas daquela obra quase 10 anos depois.
Só precisei dos primeiros versos pra deixar Geraldo pra lá (mas só por enquanto). De quem era aquela voz escrachada, forte, hora aguda, hora grave? “Sinhores dono da casa / o cantadô pede licença”. Foi uma pedrada no peito, foi como descobrir um universo novo. Não conhecia música daquele jeito e não entendia o motivo. Era coisa do dia-a-dia da gente, com som de pisada de terra e cascalho, cheiro de caju maduro, canto de passarinho e banho de açude. Com esse disco eu aprendi a fechar os olhos para sentir o ritmo, compreender a letra, imaginar-me nas histórias e fazer minhas turnês imaginárias.
A VIOLÊNCIA (OU, COMO VOLTAR A REFLETIR SOBRE A REALIDADE?)
Chega muito perto pra ver no que dá (foto roubada do Google)
Não sou uma pessoa muito dada a conceitos e lugares comuns. Desconfio de tudo aquilo proferido com radicalidade. Prefiro os três pontos ao ponto final para encerrar minhas frases. Sou um acadêmico atípico por preferir as ruas aos livros, as pessoas aos filósofos, os acontecimentos às projeções teóricas. Há teorias interessantes, há fatos incontestáveis (apesar de relativos). Uso os conceitos pela necessidade de cumprir o método científico. Uso o dia-a-a-dia por não ter opções mais interessantes a ela.
Desde minha entrada na universidade, nada me deixou tão intrigado quanto os estudos no campo da violência. Temática complexa, ao mesmo tempo se mostra cheia de paixões e parcialidades. Diferente das ciências exatas onde opi, desde o seu anúncio, sempre valeu 3,14159265, os fenômenos sociais se modificam em função do momento. Neste aspecto, uma coisa sempre surpreendente é a questão histórica.
Quando estou em sala de aula sempre digo aos alunos que a História não pode ser julgada, por mais controverso que seja o acontecimento. Primeiro, o relato histórico é feito de forma parcial por um representante do lado vitorioso. Mas História é sempre guerra? Não, mas sempre há uma visão prevalecendo sobre outra (ou outras) visões diferentes do mesmo fato.
A II Guerra Mundial sempre é lembrada pelo horror nazista e os campos de concentração. Estes, por sua vez, em seis anos vitimaram estimados seis milhões de judeus. Sem dúvidas, um crime contra a humanidade. Entretanto, em dois dias (na realidade, em segundos), duas bombas atômicas jogadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, vitimaram 200.000 pessoas. Não haviam soldados, não havia resistência, não haviam bases militares nem governantes importantes a decidir o futuro da guerra. O que foi mais cruel? Depende. Os “aliados” venceram a guerra, portanto, toda maldade é germânica. Caso a Alemanha tivesse prevalecido, os norteamericanos certamente receberiam o título de genocidas (bem, eles já o receberam assim mesmo). Ah, e hoje o Estado de Israel repete os campos de concentração com os Palestinos. Abalizados pela história (com “h” minúsculo mesmo).
O IX CONGRESSO BRASILEIRO DE SAÚDE PÚBLICA (OU, E AGORA, QUEM PODERÁ NOS DEFENDER?)
Ainda há chance?
Para mim é difícil dizer (ou escrever, como queiram) o que pensar do que vi e ouvi no IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. Realizado entre os dias 31 de outubro e 04 de novembro, no Centro de Convenções de Pernambuco, pudemos observar um evento no mínimo contraditório, paradoxal. Muito sinceramente gostaria de dizer que a luz no fim do túnel ficou um pouco mais forte. Por mais que me esforce não tenho argumentos para tanto.
Não afirmo porém que o mesmo foi decepcionante. A decepção é uma qualidade diretamente ligada à expectativa e, como a minha era baixa, não houve grandes prejuízos. Creio até que os fatos falam por si só.
No espaço do congresso, cerca de 7.000 pessoas circulavam em salas, stands, auditórios, livrarias, lanchonetes e tendas. Numa época onde o interesse pela qualificação reduz gradativamente, este número é espantoso. Para se ter idéia, esta população de inscritos, trabalhadores e convidados foi maior que as de cerca de 2.000 cidades do Brasil.
Os primeiros momentos do Congresso podem ser considerados ao menos como “engraçados”. Imaginem um Congresso de Saúde C0letiva invadido por mosquitos. Não eram alguns, eram muitos. Cenas inusitadas puderam ser vistas como pessoas se besuntando de repelente e, em meio ao calor nordestino, camisas de mangas compridas. O pior? A infeliz idéia da Secretaria de Saúde do Estado de distribuir o folhetinh “Seja um Mosqueteiro”. Quando eu vi as pessoas que trabalhavam no local com raquetes elétricas pensei se não seria melhor o slogan “Seja um Tenista!” junto com uma foto do Guga.
Entretanto, antes de falar dos problemas e contradições, vamos ao que foi bom. Além da oportunidade de encontrar amigos cuja profissão leva a uma certa diáspora, a possibilidade de ouvir deles uma gama infindável de outras experiências e realidades faz dos corredores e lanchonetes um espaço de eferverscência inigualável. Grandes debates não foram presenciados de cadeiras acolchoadas. Algumas comunicações coordenadas aconteceram encostadas em pilastras, entrelaçadas por uma ou outra boa gargalhada. Para mim o verdadeiro espírito do encontro. Além disso, a presença das editoras proporciona o acesso à literatura geralmente distante geograficamente da grande maioria das pessoas ali presentes. Uma festa para os olhos, uma tragédia para o bolso. Mas calma, o 13º vem aí (para aqueles que o recebem, é claro).
Aos poucos a luz deixa de ofuscar meus olhos e vejo um movimento lá fora. Ponho a cabeça meio de lado e reconheço aquelas pessoas. Sei quem são cada uma delas. Bem, pensam que eu não saio só porque me pregaram nesta cruz. Meu corpo de pedra, gesso, acrílico, barro, o que seja, fica na parede. Mas meu espírito passeia.
Ouço um choro também. Quem são estas? Quem é esta criança que chora aqui? Parece ser só uma, mas no corpo franzino choram milhares, milhões de outras meninas. Violentadas, espancadas, roubadas no sonho, estupradas, assaltadas na alma. Ela chora só, mas seu soluço é repleto de ecos que não têm fim.
E essa mulher assustada. Quem é? Segura na mão da filha, solidária na dor, apesar de sua própria escara. É a mãe. Sei quem é ela assim como sei quem são todos. Ela é como tantas mães que, acima de tudo são mulheres. Com desejos desconsiderados, vaidades injuriadas, tesões reclusos, cidadania negada. Assim como a filha, é uma mulher cheia de muitas. Quase nunca unidas no amor e na justiça. Quase sempre unidas na dor e na violência.
O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL (E POR QUE NINGUÉM QUESTIONA DAVOS?)
O que significa conviver com a desigualdade social? Frei Betto escreveu há alguns anos atrás os “10 Mandamentos do Militante de Esquerda”. Saliento, antes de tudo, que esta idéia de esquerda nada tem haver com a cartilha hoje rezada pelo PT, PC do B ou até mesmo os pretensos baluartes Psol e PSTU. É uma esquerda ideológica, independente da veiculação partidária. Voltando à desigualdade, Frei Betto adota o método de Norberto Bobbio, o qual atesta que a direita considera a mesma tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. Um verdadeiro militante de esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada.
Entretanto, todos os anos os mesmos eventos acontecem: FSM e Fórum de Davos. E como tal, um sem número de artigos, reportagens, opinião e outras coisas. Porém, o que cada coisa significa realmente? O Fórum Econômico suíço é um encontro anual que acontece há 38 anos nas cidades de Davos-Klosters na Suíça. O encontro reúne chefes de estado, ministros da fazenda e autoridades dos países mais importantes do mundo. Lá, além do café, whisky, biscoitos, chocolates e muitos dólares e euros, é decidido o destino econômico do mundo como se este fosse o único problema nele existente.
O mundo em que vivo me assusta pela capacidade de me colocar diante de meu próprio ridículo, minha própria crueldade.
No mundo em que vivo, sua nação mais racista elege um negro para recuperar as poupanças e hipotecas que o branco levou para a guerra. Neste local, todos enchem os olhos de lágrimas, exaltam a igualdade entre os povos, a capacidade de superar adversidades. Tudo em nome do deus-moeda. E escrito em sua moeda: “Deus abençoe!”
Neste lugar, o homem que mais poderia se beneficiar da cor de sua pele foi o mais sensato de todos e passou ao largo da hipocrisia. Assim, pela primeira vez, aquele que manipula se cala, para que os manipulados masturbem suas próprias mentes com esperanças de sua própria autoria (ou mesmo fantasia).
No mundo em que vivo, Deus é o comandante da guerra ao invés do interlocutor da paz. De um lado da cerca ostenta uma estrela de seis pontas, do outro um trançado em branco e preto. Entre eles um grupo de pessoas exatamente iguais, alimentando-se da mesma comida, bebendo da mesma bebida, respirando do mesmo ar, com sangue igualmente vermelho. Neste lugar, ainda que sejam todos humanos, do outro lado do muro seus olhos só enxergam demônios.
RETRATO DE UM FORRÓ: RELATOS DA VIOLÊNCIA NA MÚSICA NORDESTINA
Deixem só eu explicar uma coisa. Este não é um texto onde a música é vista como a grande responsável por influenciar as pessoas em suas atitudes e valores. Considero aqui uma energia complementar e recíproca entre aquilo que influencia a música e o que a mesma influencia nas pessoas. O sertão nordestino tem em suas expressões artísticas uma forma de contar a sua história e compartilhar o que lhes é caro. E tem sido assim no forró, cordel, xilogravura, entre outros. Podemos e contamos a nossa história por intermédio de nossa arte. É a forma encontrada por nós para perpetuar aquilo que somos.
Por motivos óbvios (e de gosto pessoal) só há exemplos direcionados ao forró tradicional, o nosso pé-de-serra. Talvez um dia, caso eu tenha paciência para escutar o que atualmente chamam de forró estilizado, escreva alguma coisa sobre. Por enquanto é só, e me desculpem o preconceito e falta de desprendimento.
O forró apresenta duas linhas maiores no relato da violência. A primeira é estrutural e manifestada, pelo que diz Milton Santos, na violência geradora de todas as demais violências. É a injúria da exclusão social, da desigualdade, a seca não assistida. A segunda é relacionada às relações interpessoais, seja na lida com o restante da sociedade ou à violência do ciúme, contra a mulher, enfim, dos relacionamentos pessoais como um todo.
No último sábado (13.12.2008), às 05:50h da manhã, mais um acidente foi registrado na cidade do Recife. Mais precisamente no conhecido bairro de Boa Viagem. Até aí, nada demais. Uma pessoa morta e três feridas. Infelizmente e mais uma vez, nada demais. Nada demais? Retiremos este caso das frias estatísticas (as mesmas que comporão minha pesquisa) e convertamos a senhora Aurinete Gomes em uma cidadã, assassinada pelo condutor do outro veículo e pela negligência do poder público.
Quem estiver lendo este post deve estar se perguntando o que aconteceu. Bem, um grupo de amigos egressos de uma boate, completamente bêbados, pegam uma caminhonete de luxo e saem em alta velocidade pela Avenida Domingos Ferreira, riscando sinais vermelhos e ignorando toda e qualquer lei de trânsito. Em determinado momento o carro da senhora Aurinete e sua família cruza uma das transversais no sinal verde (para ela, obviamente). Resultado: a condutora morta e os demais passageiros feridos.
Não quero me ater no homicídio cometido pelo condutor da caminhonete (o qual em breve deverá estar nas ruas de novo, com um novo carro, provocando novos acidentes), apesar do polcial que o recolheu ter afirmado que o mesmo chegou à delegacia rindo junto aos amigos. A negligência do poder público foi o que me marcou neste caso.