DELÍRIO – Anderson Braga Horta

Nos delíquios do gozo, extasiada e fremente,
entre os ais do prazer, no prazer dos delírios,
a natureza geme, entorpecida, e sente
no contacto da brisa o sabor dos martírios…

Treme o céu, treme a terra… estremecem os lírios,
magoados, na volúpia infernal. Cautamente,
a noite vem cobrir, pálida à luz dos círios
celestes, com seu manto o erotismo do poente.

Lânguida, porejando o suor frio do orvalho,
a mata inda se estorce em seu leito, ao sereno,
e arrepios sensuais correm de galho em galho.

O céu se abraça ao mar, num desespero. E, pleno
de ternura incontida, entre as sombras me espalho,
à flor libando o aroma, e à atmosfera o veneno.

PESADELO – Anderson Braga Horta

Não sei que torvo ser, que espírito insolente,
que tenebroso gênio evadido às florestas
em visionária noite acorda-me funestas
multidões que a dormir jaziam-me na mente.

Toscas aparições de atormentadas testas
com um olho só a olhar alucinadamente,
braços avulsos, mãos em garra, de repente,
caíram-me de mim – rindo impudentes estas,

aquelas a estender-me uns dedos asquerosos,
gritando, escancarando as fauces, fulminando
meu roto coração com seu olhar nefando.

E, à luz tentacular de globos pavorosos,
abre-me o pesadelo as portas, lado a lado,
mostrando-me a espantosa imagem do Pecado.

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TRÍPTICO DE SINOS – Anderson Braga Horta

I – MEIA-NOITE

Noite. Noite trevosa. Escuro o firmamento.
Ulula o vento, e ruge, e espanta-se nas brenhas
com o silêncio mortal. Ruge noturnas senhas
e nas ramas se estira, estertorando, lento.

Diz a treva ao luar: “Anseio por que venhas!”
Diz o luar ao sol cansado e sonolento:
“Desperta, meu Senhor! É negro o firmamento!”
E outra vez o silêncio esconde-se nas brenhas…

Que nuvioso rumor, como de almas penadas…
Sinos de catedrais… Marcha funérea e nobre…
Soturnos carrilhões sob um céu de miasmas…

Brônzeas línguas urdindo as doze badaladas…
E, no crebro planger do misterioso dobre,
arrastam-se na treva os lívidos fantasmas!

* * *

II – VISÕES

Meia-noite. Um silêncio de agonia
a tudo invade, amortalhando tudo.
Emudece-me o peito. Quedo e mudo,
doura o luar a solidão sombria.

Penso, e estremeço. E ante a visão exsudo
de negrejantes sombras. Numa fria
escultura transmuda-se a alegria,
e eu em pálido espectro me transmudo.

Dobram sinos ocultos no meu peito.
A tristeza, o pavor, volantes, trazem
a um espírito morto… E vêm, tristonhos,

vêm, morrendo, extinguir-se no meu leito.
E no eco derradeiro se desfazem
os últimos fantasmas dos meus sonhos.

* * *

III – RESSURREIÇÃO

Acordo ao som festivo, à dança delirante
dum claro bimbalhar de sinos harmoniosos.
Uma voz dentro na alma ouço nascer, distante
como a voz da ilusão no seio dos leprosos.

Da torre da igrejinha os hinos gloriosos
vão procurar o sol para além do levante.
E é como se do amor os vasos misteriosos
derramassem na terra o seu éter vibrante.

Despertando na mata, o coro de aves canta
a manhã que lá vem como um anjo trazendo
altos feixes de luz sobre abismos medonhos.

E a voz que no meu seio, ardente, se levante
é a voz da madrugada, os carrilhões tangendo
pela ressurreição de todos os meus sonhos!

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ANGÚSTIA – Anderson Braga Horta

Quando foge o luar, em noites silenciosas,
vem tomar-me uma angústia, um desespero enorme,
um desejo sem nome, um pesadelo informe
como o torvelinhar das grandes nebulosas.

Durma o corpo: adernado, o coração não dorme.
E debato-me em vão nas ondas voluptuosas
de um sonho dúbio: um céu de pedras e de rosas,
com promessas de luz no seio amplo e disforme.

E, como o mar se arqueia em busca do infinito,
ergo a mão para o céu, num desespero mudo…
Mas tudo foge, em roda, e estou só, louco e só.

O sonho se dissipa. E eis-me confuso, aflito,
vendo uma sombra má em cada canto, e em tudo
o olho morto de um sol que se desfaz em pó.

CANÇÃO DE AMOR – Anderson Braga Horta

O perfume do sândalo trescala
nos teus lábios, que falam de alegria.
Fitas-me… e ouço uma ardente melodia…
É a voz do amor, que nos teus olhos fala!

É a música do céu, maviosa e pura,
que da luz das estrelas se reveste
e canta e voa na região celeste
e desce à terra e em teu olhar murmura!

É uma suave canção que se desliza
nas curvas de teu corpo, soluçante,
e de repente, ardendo, se encapela!

É tua alma de luz dizendo à brisa
que a vida é um oceano palpitante
e o nosso amor é um barco na procela!

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IN EXTREMIS – Anderson Braga Horta

Sob o calor dos tropicais mormaços,
quando o sangue referve e a mente estua,
nas solidões da Vida ardente e nua
procuro sombra – e encontro-a nos teus braços.

Enxuga o pranto dos meus olhos baços,
onde clama a incerteza e tumultua.
Dá, no milagre de uma frase tua,
que os rijos membros me descansem, lassos.

Lembra-me, ao fim desta jornada inglória,
toda a emoção da flamejante história
que é história deste amor-deslumbramento…

E, afinal, ambos velhos e alquebrados,
colha-nos Deus sonhando, inda abraçados,
na saudade infinita de um momento.

ORGULHO – Anderson Braga Horta

Nômade sem destino, ave noturna,
sem fé, sem ilusões e sem coragem,
só descanso minha alma taciturna
dos carrascais na rústica estalagem.

Nas grutas penso ouvir-te a voz, soturna,
numa ânsia rude e estranha de selvagem
julgando ver-te a luz em cada furna,
vendo-te em tudo refletida a imagem!

E me devolve o olhar das lapas frias
as chipas de um desejo insatisfeito,
garras de fogo em desabrida luta.

Mas de orgulho emudeço ante as harpias,
como se elas ferissem no meu peito
inerte coração de rocha bruta.

SILÊNCIO – Anderson Braga Horta

Vinha descendo a escarpa do Destino,
sangrando o fel e a angústia do meu verso,
quando encontrei toda a alma do Universo
no teu olhar tão calmo e tão divino.

Tanto era belo esse clarão disperso
como notas de um meigo violino,
eu me quedei silente, em desatino,
todo na luz do teu olhar imerso.

Hoje ainda, sentindo-te a meu lado,
transpassa-me o silêncio contrafeito
a que os astros me houveram condenado…

Ó tu que me iluminas e atormentas,
estrela em céu de tempestuoso aspeito,
entre jorros de lágrimas violentas!

ESTRELA AZUL – Anderson Braga Horta

Estrela solitária, azul, cintila,
e o negro céu desmaia-se de vê-la.
Filhas da mesma comburida argila,
é irmã da minha mágoa aquela estrela!

Também na minha escuridão cintila
inalcançável, solitária estrela,
que arde da luz da mesma ardente argila
de quem nos olhos meus veio acendê-la.

Esmaece no céu nublado e frio
a estrela azul. Mas, se ora é o céu vazio,
eterno o amor flameja-me no seio.

A minha alma se anula pouco a pouco.
E, daquele fulgor cegado, louco,
sonho, sonho a ventura que não veio.
 

PALAVRAS

Nos simples versos destas quatro estrofes,
secreto escrínio, os áureos pensamentos
de amor recolho, e os loucos sentimentos,
para que dos meus sonhos tu não mofes.

Pois, que estas linhas pela ausência primem
de frases vãs… Mas isto não tem tino!
Calo-me! Que eu, por mal de meu destino,
guarde, e não diga, as ânsias que me oprimem,

nem quanto és bela, ou quanto me és querida!
Porque, clara ilusão estremecida,
serena flor da graça e da beleza,

dizer não poderia, com certeza,
o que extravasa aos mundos e universos…
nas quatro estrofes destes pobres versos.

PERPETUAÇÃO – Anderson Braga Horta

Eu trago um carrilhão dentro do peito
carrilhonando sempre, sem parar.
Ora canta sonoro, satisfeito;
ora dobra a finados, a chorar.

Meu débil coração de informe aspeito
é o silente sineiro que, a cismar,
bate as mágoas e os êxtases, desfeito
na ardente voz do eterno bimbalhar.

Quando este coração morrer, um dia,
há de cessar o cântico de sinos…
Mas um outro há de vir cantando, cheio

de amores, de tristezas e de alegrias,
badalando no bronze dos destinos
todos os sonhos trôpegos do seio!

QUIMERAS – Anderson Braga Horta

Andei lendo e sonhando, em tempos esquecidos,
declarações de amor e quiméricas frases
de algum gênio gentil, de modos atrevidos,
a alguma fada envolta em transparentes gazes.

Vivi de fantasias e sonhos coloridos,
com você junto a mim, nesses reinos falazes.
Mas isso aconteceu nos velhos tempos idos
quando falava o amor por descoradas frases…

Hoje em dia o florir de palavras limadas
na boca dos heróis de aventuras galantes
já não tem o sabor das épocas passadas.

E só o coração grita e soluça e fala,
no silêncio loquaz que envolve os dois amantes,
todo o poema de um beijo, a ecoar pela sala!

LOUCAS FRASES DE AMOR – Anderson Braga Horta

Loucas frases de amor eu proferi outrora!
Ouvindo-as, vos subia às faces tal rubor…
Parecíeis o céu que, o noturno fulgor
das estrelas guardando, é já o céu da aurora.

Lembro-lhes tristemente o vazio rumor
– frases, frases… – no longo entardecer de agora.
O céu que eu lapidei nos versos meus, Senhora,
não era o céu, enfim: faltava o vosso amor…

Quis um sonho colher nas pobres mãos nervosas,
e – sem ver que prendia a minha ilusão mesma –
meio sonho retive entre os dedos aflitos…

E é por isso que eu ando em sendas dolorosas,
e é por isso que um dia o pálido abantesma
de um beijo há de matar-me… Adeus, meus infinitos!

CONTRA MIM – Anderson Braga Horta

Este amor me nasceu contra mim – foi meu fado –
e vive contra mim… Que fazer, se é destino?
Se, eu mesmo contra mim, pondo a razão de lado,
mais me entrego do sonho ao turvo desatino?

Vi-te ontem novamente. E ou estou enganado
ou tremeu-te, nervoso, o lábio purpurino.
E, trêmulas as mãos, trêmulo o seio inflado,
toda trêmula, esgueste o tronco alabastrino.

Foi um sonho? Beijei-te. E tu me deste o braço.
Nada disse. Calaste. Entretanto, risonhos
fitamo-nos, do amor no suave embaraço…

Que eu não possa, jamais, esquecer esse beijo!
Que a ilusão desse olhar ressuscite em meus sonhos!
Que eu te veja o esplendor em tudo quanto vejo!


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