EM DERROTA

Nas vagas da sidérea correnteza,
nau solitária, vai vogando a Terra
com seu carregamento de tristeza,
Adernada navega, mas não erra;

vai firme entre os escolhos, e indefesa.
No comando, invisível mão se aferra
ao invisível leme, na devesa
extrema da galáxia. Oculta guerra

dizima os nautas. – Alma ao mar! Ao nada! –
Na derrota sem bússola ou sextante
rumo a encoberto porto de chegada,

entre o incerto oscilar de invisos mastros,
nada entende o confuso tripulante.
E espera, ansioso, a salvação dos astros.

CLAMOR

Dias há que de tudo ando descrente.
A alma como se esvai, vagando à toa,
alheia ao mundo; a solidão se escoa
entre margens de sombra, qual serpente

de névoa, lentamente, lentamente;
e em meio à multidão, sem ver pessoa,
o coração, velho cantor demente,
os seus hinos de dor, solene, entoa.

Hoje, porém, a este que o cenho franze
contra todo o universo, carrancudo,
nascente um sol vem sacudir do transe.

Já no longo torpor que o ser me invade
dói-me um cansaço de descrer de tudo,
acorda-me o clamor da eternidade.



Ébria, no orgasmo, a noite empalidece…
E eu, solitário, olho as estrelas nuas.
Eleva-se, nas auras de uma prece,
ao infinito a solidão das ruas.

Desdobra-se a cidade anoitecida
em sono, incenso e glória… E eu, só, me deito
e, só, tristonho e só, reprimo a glória
que palpita nas sombras do meu peito.

uma suave canção cheia de encanto
se escuta. Abrem-se tímidas janelas
à voz do amor, que os mundos entontece…

Beijos estalam no ar parado. E, enquanto
eu, só, tristonho e só, fito as estrelas,
numa orgia de luzes amanhece…

A CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece
que entoa a Criação na Ave-Maria,
canta a cigarra, canta e se estremece,
núncia da noite sepultando o dia.

Pobre cigarra! Canta como em prece,
e ninguém, escutando-a, desconfia
que no canto a alma simples lhe estremece
e é o canto o último raio do seu dia.

A tanta gente assim como a cigarra
a dor na pálpebra fechada esbarrra,
mas – na suave transfiguração

que nos redime desta pobre argila -,
se em lágrimas dos olhos não destila,
vem aos lábios em forma de canção.

TRAVOR

Não me fites com olhos de gazela,
olhos úmidos, quentes e vivazes,
pois, na trama de tudo quanto fazes,
te vejo tão malvada quanto és bela.

Que te impudentes, frívolas rapazes,
notando a tua sombra na janela,
“Ei-la que surge, a minha amada! é ela!”
não suspiram, ridentes e loquazes!

Mas eu, que me perdi por teus encantos
e os enganos sofri de tuas juras,
hoje enxugo da face antigos prantos.

Que, trazes no seio mil venturas
e nos olhos mil mágicos quebrantos,
só tens na alma o travor das amarguras.

À MODA ANTIGA

Eu lhe daria, à moda antiga, um beijo,
e, à moda antiga, ela enrubesceria.
Depois, tão longo o dia duraria
quão breve a noite para o meu desejo.

Serás a lira, amada (eu lhe diria,
todo imerso num sonho benfazejo);
serei o vento a desferir o arpejo.
Serei o sol… serás a cotovia.

Tu sorrindo em meus olhos, eu sorrindo
nos teus, e ambos ansiando, ambos fremindo
ao luar, sobre a relva, à moda antiga…

E a vida passaria tão de leve
que a continuaria a morte, em breve,
como uma doce e acolhedora amiga.

 

JUNTOS

Deixa que de teus fúlgidos cabelos
eu teça a tênue tela em que fixados
se vejam, sem desdouro, os aurialados
sóis de minha ternura e meus desvelos.

Deixa-me recolher teus prantos, pelos
descaminhos da vida derramados.
E não ponhas cuidado em meus cuidados,
nem te arreceies nunca de perdê-los.

Que, a me perderes, antes eu me perca:
eis o mais que dizer-te posso acerca
de quanto o amar-te é-me sustento. E, a fim

de que apartados não nos colha a morte,
dá-me tudo de ti, e de tal sorte
que, em me perdendo, percas tudo em mim.

PROMETEU

A Noite – Prometeu na Eternidade,
acorrentado à rocha do Inferno –
fere o éter caótico de um grito
de luz que o pranto abafa e a angústia invade.

E em seus olhos opacos de proscrito,
lacerados de súbita Verdade,
surge a indecisa, a vaga claridade
da gestação dos sóis. Gênio maldito,

cujo lúcido grito em luz se eleva!
forçado de alta comoção secreta
forçando louco as temerárias portas!

Também eu, também eu vi minha treva
inflar de um sonho, e amanhecer repleta
de estrelas! De cruéis estrelas mortas…

PERGUNTAS AO TEMPO E AO VENTO

O macio entregar-me a quem me vele,
o duro despertar na cama larga.
O café da manhã. O sol na pele.
O dia, o mundo, a solidão à ilharga.

O almoço, a paz do bife com batatas.
A cerveja talvez, talvez a sesta.
E de novo a engrenagem, dentes, patas,
e a entrega à deusa noite do que resta.

Que rotina fatal, ao jeito e à moda
das cruéis invenções do inferno lento!
E na volta do ciclo que nos poda

este bicho da Terra ao tempo, ao vento!
Que me querem os astros na alta roda?
E que faço eu aqui, se não me invento!?

CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece
que entoa a Criação na Ave-Maria,
canta a cigarra, canta e se estremece:
núncia da noite sepultando o dia.

Pobre cigarra! Canta como em prece,
e ninguém, escutando-a, desconfia
que no canto a alma simples lhe estremece
e é o canto o último raio do seu dia.

A tanta gente assim como a cigarra
a dor na pálpebra fechada esbarra,
mas – na suave trasnfiguração

que nos redime desta pobre argila -,
se em lágrimas dos olhos não destila,
vem aos lábios em forma de canção.

ENTREMEZ

Do obscuro do antes ao depois ignoto
distende a vida um arco de incerteza.
Que flecha ela dispara? Amor, beleza,
ódio, guerra, a canção e o maremoto.

Tiro da vida uma instantânea foto,
capturo a sua essência e guardo-a presa
a uns traços no papel, de natureza
contraditória e efêmera, que anoto.

Se há flores no percurso, procuramos
deter o pé do vento contra os ramos.
Se espinhos há, vamos metendo o pé

em tudo à frente, em fúria desmedida…
E assim, Senhor, vamos levando a vida
neste grande entremez que a vida é. 

DIVAGAÇÃO SOB AS ÁGUAS

A vida o que é? O mar que nos sepulta.
Mas, então, que é a vida senão morte?!
Se é um escapar das gárgulas da sorte,
morte a morte não é, mas vida oculta…

Tudo é breve na vida, e tudo muda
na sucessão torrencial dos dias.
Sob as águas volúveis, ora frias,
ora férvidas, a alma não se iluda!

Peixes míopes, deuses esquecidos,
rastejamos no fundo destas águas.
Acima, em pranto, os astros confundidos.

Nossas doces canções, uma por uma,
saliniza-as o tempo em densas mágoas.
Mas ousamos o olhar além da espuma!

SERESTEIRO

Contemplando-a do céu, sem compreendê-la,
a ofuscar das estrelas o disperso,
tênue clarão, a lua, eterna vela,
singra o céu claro, como um claro verso.

Ah! Pudesse eu vogar como uma estrela
nas paragens divinas do universo,
e toda noite espiá-la, da alta umbela,
todo na sua alva nudez imerso!

Seresteiro de branca primavera
eu seria, a sonhar num céu bendito!
desceriam meus versos da alma esfera

celeste ao seio dela, e eu junto, aflito,
ardendo na volúpia da quimera,
me atirava das grimpas do infinito!

NUVEM

Vês, ao longe, uma nuvem fugidia
beijando a extrema curva do horizonte?
Qual garça fugitiva ela corria;
parada, sorve a luz da eterna fonte.

Olha-a bem. Vê-lhe a forma, que varia,
conforme a viração, de monte a monte.
Peregrina volúvel… Caberia
senão em todo o céu? Aqui defronte

fita-me agora. Como a dos espaços,
nuvem, movem-me as auras de uns carinhos,
aquieta-me a volúpia de uns abraços…

Só por ti sou todo eu: repouso e lida,
langor e crispação, brandura e espinhos,
na pulsação unânime da vida!

DANÇA MACABRA

Descem trevas e trevas nesta treva.
A noite é mais que noite: é um caos tremendo,
em cujo desplandor, fosforescendo,
uma ronda fantástica se eleva.

É a legião dos fantasmas legendários,
que emergiram do côncavo das lendas
e vêm cruzar, dançando, as mesmas sendas
que pisaram meus passos solitários!…

E a aurora, que não vem! Assassinada
pelo ímpeto das sombras, não há dia:
apenas noite bárbara, pagã.

E, única luz na rigidez do nada,
a ronda dos espectros tripudia
no cadáver sangrento da manhã.

DESAFIO

É bela, bela… Muito bela mesmo!
Mas eis que faz na face um tal jeitinho…
Que mais parece um lindo “torresminho”,
Naquele gesto desprendido a esmo!

E todos dizem: Puxa… Que “torresmo”!
Como ela ri, como ela faz beicinho!
E, desdenhosa, passa de mansinho,
Naquele gesto desprendido a esmo.

Desde as abelhas no coral das flores
Ao soluçar das pétalas de rosa
Ela consegue enlouquecer de amores.

Espero, pois, que arranje qualquer jeito
Para, com a luz de todos os doutores,
Emudecer-me as ilusões do peito!

LAGO AZUL

No lago azul das minhas ilusões
vi certa vez um rosto misterioso,
sereno e triste, embora tão formoso,
de enlouquecer incautos corações.

Perdi-me então num sonho vaporoso,
sonhei do amor as ternas emoções.
E alguém cantou tão místicas canções
que o mundo pareceu quedo e choroso.

Quis-lhe o brilho do olhar, sem ver-lhe a morte:
tinha o furor dos vendavais do Norte
e a solidão dos pélagos do Sul…

E debrucei-me sobre as águas frias,
tentei beijar-lhe os olhos de ardentias…
e em prantos me afoguei no lago azul!

ÂNSIA

Ânsia estranha e fatal, que me devora
o peito, esta de andar perdido diante
dos pórticos do amor, que hora por hora
brilha em meus olhos, fulge em meu semblante!

Fanadas ilusões! éreis a porta
brilhante e azul do meu amor primeiro.
Já não sois mais do que paisagem morta
na retina cansada de um romeiro.

Mas, como em muros recobertos de hera
se abrem botões, às vezes, num sorriso,
sigo em busca de nova primavera.

E assim vivo, e assim ando: ébrio, indeciso,
esmagado de trevas, mas à espera
da alvorada de um sol que não diviso.

NADA MAIS

Lança um manto de sombra e de cinabre
a hora crepuscular sobre o meu gesto.
Para a prece da tarde então me apresto
e me confesso à noite que se entreabre.

O próprio amor com o meu desejo empesto!
Como se a entrasse a lâmina de um sabre,
a minha velha angústia se reabre,
o meu remorso de perdê-la… – O resto?

O resto é minha vida, e é quase nada:
uma sombra a fugir no meu caminho;
uns afetos; uns beijos sensuais;

a visão de uma plácida enseada
que não vem; a esperança em desalinho;
um cipreste no peito, e nada mais.

TÉDIO

O tédio que avassala, a desventura
que aniquila, o pecado que devora
– fauna de horror, devastadora flora –
matam em mim o que de mim perdura.

A torturar-me recordando a outrora
serena alma constante e alegre e pura,
melhor me fora consumida a escura
existência, onde dor apenas mora.

Meu coração, que dele amor fizera
pasto vil de paixões, enclausurado
em si mesmo ora clama, e sem remédio.

E mais que a desventura o desespera,
não a morta lembrança do passado,
mas a viva opressão negra do tédio.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa