ADEUS

Basta! Se nosso amor é como o vinho amargo
que primeiro embriaga e afinal envenena,
deixa-me só! Assim prefiro, sem embargo
do muito que te quis. Não sentirias pena

de perder-me. E eu, por mim, deste torvo letargo,
nem guardarei rancor, nem desprezo. Serena
irás. E eu, vendo à frente o horizonte tão largo,
tornarei minha dor mais pura e mais amena.

Se outro amor me nascer, será como uma aurora
chuvosa, sonolenta, acanhada e sombria,
em que as frestas de sol brilharão sem ternura.

E os beijos que tiver de outros lábios, agora,
tão fugazes serão, e eivados de ironia,
como a flor que sorri sobre uma sepultura.

LUZ E ÁGUA

Quero ter-te entre os braços apertada,
num amplexo profundo, imorredouro,
qual da esfera sustém nos braços de ouro
o sol o colo altivo na alvorada.

Como aos olhos de luz da madrugada
arrasta a noite o seu rebanho louro,
no teu olhar, sidéreo sorvedouro,
quero a alma perder iluminada.

O meu olhar no teu olhar mergulho,
louco de amor, por teu amor vencido,
e achando em teu amor razão e orgulho.

Quero abraçar-te assim, em ânsia e frágua,
num abraço fecundo, almo, incontido,
como o abraço total da luz e da água.

FLOR DO CARDO

Caminhei sem descanso – o passo tardo,
o olhar vazio, amargurado, incerto –
através da existência, este deserto,
cujo extremo horizonte ansioso aguardo.

Bem vi nascer e florescer por perto
de minha sombra, como a flor do cardo,
amor de afiadas garras de leopardo
mas de sereno céu no peito aberto.

E, no entanto, parti. Neste saara,
ontem, vi-a de novo, e tão selvagem,
tão fresca e natural quanto a deixara!…

E empós dela voei! Ah! comovido,
solitário me entrego a uma miragem,
abraçado no pó… areia… olvido…

BEIJOS PERDIDOS

Se entre nuvens, flutuando, te revejo,
espanto a voz de pensamentos sábios.
E o beijo que me deste, sem ressábios,
deriva à flor do sonho e vem, sem pejo…

Se o ideal que em ti descubro, e o meu desejo,
devem morrer, digo-te agora: acabe-os
a volúpia esperada de teus lábios,
onde, aurora de amor, desponta um beijo!

Ai, e escondes tua alma, de vergonha,
atrás do meu orgulho malferido…
Mais forte, embora, inda suspira e sonha

por ti meu coração cheio de pranto.
E eu conto, amada, os beijos que hei perdido
porque (triste ventura!) te amo tanto!

PATER NOSTER

I

Enquanto em mornos raios esbagoa,
ocíduo, um sol, e em sombra o céu coagula,
na abóbada do crânio lhe esdruxula
a primeiríssima centelha, e voa.

Arfa, e os aços dos músculos açula
no júbilo do salto, antes que os roa
a pátina das horas. Solfa, à toa:
se o move o sol que lhe nos olhos pula!

Sola a ária tosca o peito, os labios rugem.
Ri-se. E do tempo esquece-lhe a ferrugem:
que para a morte a íntima claridade,

flúmen fluindo à flor do olhar, o cega
que no gesto e no cérebro carrega
sem saber que carrega a Humanidade.

II

Rude nosso ancestral que por primeira
vez, frouxo ainda, o clarão do sonho viste,
e do nascente verbo então urdiste
orientemente a rútila fogueira:

Tua máquina antiga esfez-se em poeira.
Escasso sobrevives. Mas persiste,
cresce o fogo eterníssimo que urdiste,
nesta maior que a olímpica fogueira.

Quando em esto vernal balbuciaste
a primeira palavra, e a débil haste
enfloresceu do sonho a vez primeira,

era latente um sol nessa fogueira,
era de um dia azul já nascitura
a estrela cuja luz brilha futura!

AO VENTO

Do fumo, em espiral, sobem densas volutas,
a suster no ar parado invisíveis castelos.
Arde o cigarro em vão. Queima em fluidos anelos,
e ao nada sacrifica as arcadas polutas…

Forma-se a fumarada em débeis, frouxos elos
que flutuam. Mas vem o vento… E, em doidas lutas
contra o vento que a envolve e traz nas asas brutas,
dilui-se na amplidão, derrocados os belos,

ingênuos paços na alma azul da imensidade.
Assim meu coração, sonhador imprudente,
queimou-se em ilusões, ardendo de vaidade…

e os sonhos mortos viu, qual do cigarro o alado
improviso em fumaça ao vento indiferente.
E eis que a vida é de novo um não-ser no ar parado…

QUANDO?

Foi numa noite azul de primavera
(tanto tempo depois, hoje o relembro)…
Ah! por tudo passara já setembro,
menos por mim, que em trevas me fizera.

Era um suave domingo… Não, não era.
Seria o mês outubro? ou foi novembro?
Não me lembro direito, não me lembro…
Sei apenas que foi na primavera.

Enquanto a placidez de branda aragem
entornava uma etérea sinfonia
de suspiros eólios na ramagem…

quando tudo era sonho, encanto e calma…
eu, só, trazia a morte dentro de alma,
eu somente, entre todos, não vivia!

ÊXTASE

Choveu. A noite vai descer em breve
e estender o seu manto de veludo
sobre o torpor da terra. Paira um leve
ar de mistério no ar parado e mudo.

A treva é um deus pagão que nunca teve
um riso no semblante carrancudo.
Nem um vago rumor, que ao céu se eleve.
Indiferença e solidão por tudo.

Molhado inda de chuva o rosto imenso
da Natureza, um outro rio o invade…
E, na cisma profunda em que me ponho,

adormeço a queimar do Amor o incenso…
no turíbulo ardente da Saudade…
nos delubros fantásticos do Sonho…

BOAS – VINDAS

Quando cheguei e as portas se me abriram,
a vida me embalou, meus pais sorriram
e, mostrando-me a luz, que tudo enseja,
ninaram-me a cantar: Bem-vindo seja!

Quando o amor me chegar, puro e tranqüilo,
morto eu de frio, ele a ofertar-me asilo,
na calma de quem nada mais deseja
eu lhe murmurarei: Bem-vindo seja!

Outra mulher virá, virá decerto,
(ora sinto-a distante, ora tão perto)
e será misteriosa, e será linda…

Quando vier e, como quem se fosse,
aconchegar-me ao seio amargo e doce,
não sei se lhe direi: Seja bem-vinda!…

ORIGEM DA CHUVA

Na cúpula divina
do claro céu sereno
um garotinho urina
azul-de-metileno.

Ora, às vezes a fina
uretra do pequeno
constringe-se e, mofina,
nega o líquido ameno.

É quando o céu se turva,
a superfície curva
zangado fecha à luz

e sobre nós despeja
a mijada sobeja
do Menino – Jesus

SAUDADE

Que nostalgia nos chorosos, lentos
carros de boi monótonos da aldeia!
Que tristonha beleza nos rebentos
de meu sertão, à luz da lua cheia!

Recordo agora os rostos poeirentos
dos tropeiros da vila quieta e feia…
E o coração, revendo esses momentos,
de longínqua saudade se incendeia.

Repentino clamor de cavalgadas
na síncope noturna das estradas
vem devolver-me extintas emoções.

E no cheiro da terra e na ramagem
pressinto o rouco pássaro selvagem
que cantava nas minhas solidões…

O POETA E A VIDA – Anderson Braga Horta

“A alma galopa no corcel da vida,
em peregrinação áspera e dura.
Se alguma vez colhe uma rosa pura,
de toda hora é a chaga dolorida

de um espinho, de um seixo. Ah! que na lida
deste viver uma canção não dura!
Logo do tempo a trágica urdidura
vai deparar-lhe a dor, fera dormida.”

Assim falou, desiludidamente,
o sábio. Mas o poeta, alma risonha,
a plenitude da beleza sente:

arranca ao fado a máscara tristonha,
e entre os vaivéns da sorte oscila ardente…
e sofre e chora, sim… mas canta e sonha!

VENENO

Uma desilusão aberta em chagas,
um carcomido ideal, feito em gangrenas…
Que me ficou das afeições terrenas?
penso, agoniado. E, entanto, inda me afagas

com teu olhar de inquietações aziagas,
com tua voz de ondulações serenas…
Beijos de sedutoras madalenas
ou de astuciosas, impudentes magas?

serão feitos de sonho esses teus beijos,
cintilações, palpitações de abraço,
de cárneo aroma e cálidos desejos?

ou são feitos de angústias dolorosas?
Oh! sinto apenas que me deixam lasso,
como o saibo de essências venenosas!

MULTICREPUSCULAR – Anderson Braga Horta

Tarde. Um manto espectral acinzenta a cidade.
Mas, ao passo que a noite o surdo império implanta,
de minha alma uma orquestra em luzes se levanta…
para breve morrer nas sombras da verdade.

E é tão mais funda a treva, e a minha angústia é tanta,
na queda, que de um sol o coração me invade
lenitiva invenção – e, imerso em claridade,
alado semideus, ruflando as asas, canta!

É a canção do sol-pôr, o desmaiar da tarde
novamente a tombar sobre a minha aflição…
E, à estranha vibração das derradeiras notas,

um crepúsculo vem de paragens ignotas,
doce, belo e imortal como uma extrema-unção
cair-me na pupila, onde um sol já não arde.

MADRUGADA

Sonham no espaço estrelas lactescentes,
como um ante-sorriso de alvorada.
Sonhas tu, no teu leito. E eu sonho, amada,
com teus seios de luas turgescentes.

Nua e tímida aponta a madrugada
com seu colar de luzes. Vê! não sentes
o ansiar de lírios pálidos, trementes,
aos ecos de longínqua serenada?

Do extremo arfar do véu de sombras ganha
o último alento o sonho, e arde, e flutua…
Entanto as longes formas da montanha

delineiam-se além, serenamente.
E, esbatido no azul, palpita e estua
o cortejo espectral do sol nascente.

VINGANÇA – Anderson Braga Horta

Ontem à noite o luar era uma coisa estranha
pisando a escuridão. Monstruosa lanterna,
sua voz fogo-fátua, iridescente e terna,
ecoava em luz do bosque ao sopé da montanha.

E tal era o negror, e a tristeza tamanha,
e tão fundo o silêncio – a acusar a luzerna
de altura e solidão – que, numa dor superna,
explode o luar, chovendo astros em pura sanha.

A treva insulta a luz indecorosa e nua…
e a vingança do luar é um punhado de estrelas,
e uma chuva de sóis é a vingança da lua.

Assim tua alma em dor tudo ao mundo suporta,
e, vingando-se, chora o perdão dessas velas
que brilham-te na face enregelada e morta.

SOBRESSER – Anderson Braga Horta

Não chego a ser trezentos e cinquenta,
como Mário de Andrade, nem ecoa
em mim a heteronímia de Pessoa,
mas ser mais do que sou meu ser violenta.

Desbordado de mim, já me apoquenta
este excesso de ser, aura ou  coroa,
sobrepele, sei lá! – sobrepessoa
que sem tollher meu eu meu ser aumenta.

Aumenta? Diminui, que me embaraça
o olhar, como um reflexo na vidraça,
jogo entre mãos e títeres, engodo

de ser múltiplo sol, mas descontente,
que ardo de não arder completamente,
na dor de sobresser sem ser de todo!

NÚPCIAS – Anderson Braga Horta

Sobre o leito nupcial da noite arqueja a Lua,
virgem noiva a gemer, tentadora divina.
Espera o noivo, o Sono, esplendorosa e nua,
com um sorriso de amor na face alabastrina.

Ao seu riso de luz a treva se ilumina.
No côncavo do céu treme a lunar falua.
O cortejo silente e espectral da neblina,
doce véu passional, corre, assombrando a rua.

Fremem por todo o espaço arrepios sensuais,
ante o surdo rumor dos frígidos amplexos.
E do fundo palor das faces esponsais

os anjos, pelo azul, vêem, escandalizados,
fitando na amplidãos grandes olhos perplexos,
feitos astros rolando os suores congelados.

ASAS DO SONHO – Anderson Braga Horta

Vejo na luz apática do dia
fantasmagóricos clarões de luar.
Sonho desperto. E em sonhos me angustia
o histérico fulgor do teu olhar.

Na morbidez estática e sombria
do meu delírio, sonho-te a sonhar.
E sonhas, no meu sonho, se eu diria
o que apenas sonhando ouso contar.

Sonâmbulos flautins tontos de sono
se perdem nas sarjetas do abandono,
orquestrando a ilusão do meu amor.

E as sombras de uma noite erma e divina
passam cantando, em mágica surdina,
na penumbra do sonho e do torpor.

ANTEPRIMAVERA – Anderson Braga Horta

Manhãs claras, manhãs de etérea natureza.
Bailam sonhos no céu como espumas num lago.
Soluça na amplidão, sobre a quieta beleza
da terra, um beijo fluido, indefinido, vago.

Tardes de cinza e chuva. A alma, de angústias presa,
aquieta-se a chorar, os silêncios que trago.
Cala-se a passarada ante a calma frieza.
A própria solidão é um bálsamo, um afago.

Há por tudo o fremir de um silêncio emotivo…
Também sob a mudez nebulosa em que vivo
há um presságio de flor e o arder de uma cratera

– que hão de um dia explodir e, como sóis dispersos,
deflagrar em minha alma (estranha primavera!)
a erupção do desejo e a floração dos versos!

NOITE DE CHUVA – Anderson Braga Horta

Cai a chuva em torrentes. Que frieza!
Enregela-se a rua. Vão, dormentes,
passando as sombras sobre a natureza.
E a água tomba, em ciclópicas torrentes.

Que de mistérios sob a noite! Acesa
em mil fogos azuis, fosforescentes,
a alma, de sonhos e delírios presa,
arde nos ermos plácidos, albentes,

do pensamento. Anseios e lembranças
de ventura, impossíveis esperanças,
sombras, espectros, ramos de cipreste

caem também sobre minha alma agora,
qual tomba a chuva em cântaros lá fora,
como legiões fantásticas da Peste!

SERTÃO – Anderson Braga Horta

Lá dos ermos sertões nas soturnas paragens,
na placidez hostil dessas terras selvagens,
vive uma árvore triste, estranha e retorcida,
em mudo e eterno espanto ante a aflição da vida.

Do verde-plúmbeo véu das escassas ramagens,
o olhar vê, tão-somente, as plácidas paisagens
monótonas, do céu e da gleba suicida,
exposta à ânsia do sol, seca, estéril, dorida.

Minha vida é o sertão; e minha alma, essa planta,
que se afastou de tudo, e em seu refúgio canta
o tédio que alimenta a seiva de meu crânio,

num desespero lento e surdo, subterrâneo
como o interno labor dos vermes infelizes
e a transubstanciação oculta das raízes.

CRISTAIS QUEBRADOS – Anderson Braga Horta

Há uma flor que floresce em tudo e em nada
do universo febril do meu desejo.
Flor de carne e luar, rubra de pejo
cora-se ao ver, tímida e deslumbrada,

dentro em meus olhos a intenção de um beijo.
Alma de luz, na esfera inabitada
de meus íntimos céus transfigurada,
nebulosa do sonho, ardente a vejo.

Beijo-a, e por entre beijos imaturos
desperto, e ela se esvai no azul divino.
Clamo, e ao apelo de meus fortes brados

parte-se o espelho dos seus ollhos puros.
Alastram-se no azul pré-matutino
trêmulos claros de cristais quebrados.

LÁGRIMA – Anderson Braga Horta

Sob a fronde ensombrada e triste de um carvalho,
treme o fluido cristal de uma gota de orvalho.
A árvore secular, grandiosa e sobranceira,
sentira o despontar da lágrima primeira,

que luziu na ramada e rolou, galho a galho
sobre o chão poeirento e pobre de agasalho.
O pó bebeu-a, ardente, e, absorvida na poeira,
a gota se desfaz na prece derradeira.

E eu quedei a pensar, comovido de espanto:
são precisos, talvez, mil anos de tormentos
para saber chorar o pranto que conforta!

O carvalho sorriu, silencioso… Entretanto,
o crepúsculo veio, entre espasmos sangrentos,
caindo-lhe, a chorar, sobre a pupila morta.

QUANDO TE FORES – Anderson Braga Horta

Louros frutos nas frondes orvalhadas.
Folhas secas no chão. Já finda o Outono.
A Natureza, aos poucos, no abandono
cai, no rigor das frígidas noitadas.

Chega a estação caótica do sono.
O chicote das gélidas nortadas
lanha da terra as costas escalvadas
e uiva de angústia como um cão sem dono.

Breve, decerto, a Primavera em flores
fará vibrar estas soidões de Inverno,
este fosso de inércia, este letargo.

Na minha alma, porém, quando te fores,
só restará – da morte o gelo eterno
e os frutos verdes do teu beijo amargo.

INCENDIÁRIOS

O ígneo mar do poente e o mar da noite fria
misturam-se no espaço em fúlgida alquimia,
indecisos agora entre sombra penumbra.
E que fulgor de sóis o humano olhar deslumbra,

quando a noite, a tremer, cai das mãos do infinito!
São os anjos do Senhor, num clamor inaudito,
segurando nas mãos as cósmicas lanternas,
procurando-a, a chorar, pelas sendas eternas…

Silêncio iriado… o céu de luzes se reveste,
amarelas, azuis, num cortejo celeste.
(É a suprema invenção de algum Gênio Supremo!)

E, vasculhando o espaço imenso, extremo a extremo,
vão-se as chamas das mãos das estrelas douradas,
esparramando no ar incêndios e alvoradas.

VISÃO DO SÉCULO SEM ALMA

Num crepúsculo histérico e disperso,
vi, ao som de harmonias funerárias,
os homens como brutas alimárias
e o mundo em práticas de sangue imerso.

Crescente nódoa no horizonte terso,
vi bilhões de agoureiras procelárias,
e o esmorecer das luzes solitárias
que brilhavam inúteis no universo.

E, tementes do século vindouro,
vítimas neurastênicas do tédio,
os homens impassíveis vi, depois,

irem seguindo para o matadouro
com a trágica abulia sem remédio
e o olhar melancólico dos bois!

CONTRASTE

Recordas-te? o calor daquele ninho antigo,
que a natureza armou à nossa frente, veio
dar um céu mais suave e um solo mais amigo
à minha solidão de inverno triste e feio.

Não te lembras? ali, fugindo o olhar alheio,
das serpes da malícia e da inveja ao abrigo,
eu sorvia a beleza harmônica, em teu seio,
das tenras ilusões que murcharão contigo.

Há nos beijos sensuais que um puro amor desfere
um não-sei-quê de eterno e imaculado e santo,
de uma vaga dolência astral de miserere…

Pois assim meu amor tem os quentes delírios,
os aromas carnais das flores do amaranto,
e a pureza serena e espiritual dos lírios.

LOUCURA

Quando a noite sem luz, como um morcego, desce
despenhando no bosque o manto carrancudo,
o espírito noturno infiltra-se por tudo,
e a quietude da mata estranha-se e estremece.

Dos ermos o luar, cadavérico e mudo,
sobre Natura, em prata, os seus cabelos tece.
Mas, súbito, a soidão agita-se, enlouquece,
ante um surdo clamor, da treva no veludo:

a alma da noite, em vão, nos braços do arvoredo
rasga-se e clama e chora e raiva e se lamenta,
soluçando, a tremer, de fraguedo em fraguedo.

Também na solidão de meu ser, no recesso
do espírito, um clamor de vozes me atormenta.
E meu estranho amor uiva como um possesso!

OCEANO

No humano coração um oceano existe
que é síntese fugaz de todos os oceanos.
Às vezes a rugir, no esto dos desenganos,
outras vezes cantando à flor do sonho o viste.

Quando a felicidade acena, em sombra, ao triste
com o distante luzir dos astros desumanos,
ele, sem pressentir da fatal queda os danos,
ao côncavo do céu responde ondas em riste.

Mas quando a angústia o aperta entre os malignos dedos,
e os vendavais da vida o atiram nos escolhos,
e ele grita de horror na ponta dos penedos,

o homem, das ilusões, por únicos espólios,
guarda os beijos de amor que sangram mortos, quedos…
e a água do coração lhe escorre pelos olhos.

NOS BOSQUES SOLITÁRIOS

Lá no fundo dos bosques solitários,
onde sombras negrejam sonolentas,
a água corre nas rochas pardacentas
com um clamor de longínquos campanários.

Semeada de lágrimas sangrentas,
contas soltas de lúcidos rosários,
cai a noite nos bosques solitários
como garras neuróticas, violentas.

O sigilo da vida está sepulto
no coração dos bosques solitários…
Nem ouve da miséria o triste insulto.

E, como a luz do céu nos relicários,
o sonho eterno inda palpita, oculto,
lá no fundo dos bosques solitários…

TENTADORA

Ah! se em teu seio repousar pudera
meu coração ferido, ensangüentado!
Se ao teu sorrir de eterna primavera
cantar pudesse o peito meu magoado!

Não fujas, não. Dá-me um sorriso… Espera!
Não vás matar-me o tino já turvado,
com um riso assim, de escândalo e quimera,
tão suave, tão morno e perfumado!

Não me fites assim tão fundamente,
que teu olhar de estrelas e alvoradas
pode cegar meus olhos de repente.

Toma cuidado, amor, tem mais cautela:
não vás ferir, com seduções malvadas,
minha alma que à tua alma se revela.

ALTER EGO

Todas as noites, deixa o fantasma dos desencantos
ou das vitórias o lastro obscuro de cada peito,
todos os risos, todas as mágoas, todos os prantos
fogem, cantantes, e um corpo inerte fica no leito.

Esses noturnos seres estranhos, que olhos não sonham,
fremem nos ritos de alguma ronda desconhecida.
E, antes que as trevas depois do sono se decomponham,
voltam aos corpos para os labores de uma outra vida.

O eu verdadeiro vive nas sombras, belo ou monstruoso.
Só quando noite, libera as dores e as alegrias,
cantando todas – umas, cansadas; outras, em gozo.

E há, nessas horas, fundas insânias, carícias mansas,
medonhos gritos, pântanos negros, formas sombrias,
choros e anseios, trevas e angústias, sóis e esperanças.

VIA – LÁCTEA

Noite, que ignota mão, dos altos céus senhora,
desata do infinito as límpidas capelas?
Ei-la aspergindo o azul de esferas de ouro, e nelas
desce o férvido céu à fria terra agora.

Em pérolas a arder, em cadentes estrelas,
as emoções do amor, que tranquilo me fora,
tornaram-me também da alma contempladora
a via-láctea azul. Não sei como entendê-las,

tais lágrimas sem dor. Imagino, entretanto,
multiplicado em sóis, que as gotas deste pranto
são cristalizações do amor que te votei:

estrelas a brotar, deslumbradoramente,
dos meus olhos, do céu de meu desejo ardente,
das galáxias sem fim dos beijos que te dei!

NOITE DE ESPECTROS

Noite escura e pesada. Céu tristonho.
Cai na terra um silêncio, uma saudade.
Como no céu sem luminosidade,
não floresce em meu peito a flor de um sonho.

(E a tristeza profunda que me invade,
grita e me arrasta a um báratro medonho!
E esta inércia mortal em que me ponho,
mesmo no ardor de minha mocidade!)

Gesticulam as sombras e os miasmas.
Em meu cérebro a ronda dos fantasmas
transmuda-me em alguém que já não sou.

E reconheço na, que surge, calma
sombra do natimorto amor – minha alma,
que de seu corpo se desencontrou.

LETARGO

No vale e na montanha a natureza entorpecida
repousa em véus de sono e de neblina. Friamente,
banido o céu que um dia abriu-se em risos para a vida,
parece a luz dormir dentro da noite eternamente.

Assim no coração onde uma rosa emurchecida
suspira e desfalece e pende o cálix tristemente
parece a alma não mais abrir-se em cores para a vida,
parece o amor dormir dentro da noite eternamente.

Em breve outra estação semeará luz na noite escura,
enchendo o céu de glória, erguendo o cálice da flor,
Porém para o torpor da solidão, na desventura

que os sonhos meus obumbra e me aniquila e me devora,
não sei se um novo sol despertará… se eterna é a hora
de sono e frio e névoa em que adormece o meu amor.

NAVEGAÇÃO

Cintila a noite azul, povoada de estrelas.
Nos olhos do Universo ardem chispas de luz.
Velas pandas no espaço, as ástreas caravelas!
Pelo éter infinito a Via Láctea as conduz

– corrente do Alto Oceano – a ocultos portos. Velas
pandas na escuridão! Nos longos braços nus
o Cruzeiro do Sul a ignotas Compostelas
vai carregando o corpo etéreo de Jesus.

A pálpebra do luar fechou-se. Um manto baço
de nuvens cobre o céu. No entanto, em todo o espaço
ardem constelações – além dos olhos meus.

E eu sonho mil milhões de universos pulsando,
naus do imenso Oceano, ardentes navegando
para o eterno esplendo das voragens de Deus!

ARCANO

Cai o luar na terra, docemente,
embalsamando a plácida cidade.
E penetra em meu seio, lentamente,
um misto de esperança e de saudade.

Vem a noite apagar sob o clemente
manto de sombra as sombras da vaidade.
Iluminas-me, ó noite erma e silente,
de uma interior, divina claridade!

Para a minha alma, quando morre o dia,
em vez de espectros de funérea voz,
surge, da tarde à plácida agonia,

um turbilhão de risos e de sóis,
e do arcano da treva se irradia
um hino de longínquos rouxinóis.

.

TURBILHÃO

Mádidas carnes róseas, perfumadas,
luarosas, ebúrneas, palpitantes;
olhos claros, ardentes, cintilantes;
formas nuas, incertas, encantadas;

rutilações etéreas de brilhantes;
líqüidas vozes de mistério aladas;
metempsicoses de almas namoradas;
sombras vagas de espíritos distantes;

beijos castos de amor; pecaminosos
deltas ruborizados de desejo;
doce quebrar-se de cristais risonhos;

os ressaibos de amantes temerosos,
toda a história do Amor vejo e revejo
no cortejo das vidas e dos sonhos!

SÍNTESE

Muito amor, amores poucos.
Cem mil dores numa dor!
E beijos… Desejos loucos…
Tanto amor num só amor!

Meigas vozes, gritos roucos…
Róseas pét’las… Multiflor!
Doce angústia… Ouvidos moucos…
Sonho… Saudade… Torpor…

Corpos mádidos, marmóreos,
intangíveis, incorpóreos,
num só corpo rosicler…

Sóis diáfanos, fulgentes,
vidros claros, transparentes,
num sorriso de mulher!


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