VINGANÇA – Anderson Braga Horta

Ontem à noite o luar era uma coisa estranha
pisando a escuridão. Monstruosa lanterna,
sua voz fogo-fátua, iridescente e terna,
ecoava em luz do bosque ao sopé da montanha.

E tal era o negror, e a tristeza tamanha,
e tão fundo o silêncio – a acusar a luzerna
de altura e solidão – que, numa dor superna,
explode o luar, chovendo astros em pura sanha.

A treva insulta a luz indecorosa e nua…
e a vingança do luar é um punhado de estrelas,
e uma chuva de sóis é a vingança da lua.

Assim tua alma em dor tudo ao mundo suporta,
e, vingando-se, chora o perdão dessas velas
que brilham-te na face enregelada e morta.

SOBRESSER – Anderson Braga Horta

Não chego a ser trezentos e cinquenta,
como Mário de Andrade, nem ecoa
em mim a heteronímia de Pessoa,
mas ser mais do que sou meu ser violenta.

Desbordado de mim, já me apoquenta
este excesso de ser, aura ou  coroa,
sobrepele, sei lá! – sobrepessoa
que sem tollher meu eu meu ser aumenta.

Aumenta? Diminui, que me embaraça
o olhar, como um reflexo na vidraça,
jogo entre mãos e títeres, engodo

de ser múltiplo sol, mas descontente,
que ardo de não arder completamente,
na dor de sobresser sem ser de todo!

NÚPCIAS – Anderson Braga Horta

Sobre o leito nupcial da noite arqueja a Lua,
virgem noiva a gemer, tentadora divina.
Espera o noivo, o Sono, esplendorosa e nua,
com um sorriso de amor na face alabastrina.

Ao seu riso de luz a treva se ilumina.
No côncavo do céu treme a lunar falua.
O cortejo silente e espectral da neblina,
doce véu passional, corre, assombrando a rua.

Fremem por todo o espaço arrepios sensuais,
ante o surdo rumor dos frígidos amplexos.
E do fundo palor das faces esponsais

os anjos, pelo azul, vêem, escandalizados,
fitando na amplidãos grandes olhos perplexos,
feitos astros rolando os suores congelados.

ASAS DO SONHO – Anderson Braga Horta

Vejo na luz apática do dia
fantasmagóricos clarões de luar.
Sonho desperto. E em sonhos me angustia
o histérico fulgor do teu olhar.

Na morbidez estática e sombria
do meu delírio, sonho-te a sonhar.
E sonhas, no meu sonho, se eu diria
o que apenas sonhando ouso contar.

Sonâmbulos flautins tontos de sono
se perdem nas sarjetas do abandono,
orquestrando a ilusão do meu amor.

E as sombras de uma noite erma e divina
passam cantando, em mágica surdina,
na penumbra do sonho e do torpor.

ANTEPRIMAVERA – Anderson Braga Horta

Manhãs claras, manhãs de etérea natureza.
Bailam sonhos no céu como espumas num lago.
Soluça na amplidão, sobre a quieta beleza
da terra, um beijo fluido, indefinido, vago.

Tardes de cinza e chuva. A alma, de angústias presa,
aquieta-se a chorar, os silêncios que trago.
Cala-se a passarada ante a calma frieza.
A própria solidão é um bálsamo, um afago.

Há por tudo o fremir de um silêncio emotivo…
Também sob a mudez nebulosa em que vivo
há um presságio de flor e o arder de uma cratera

– que hão de um dia explodir e, como sóis dispersos,
deflagrar em minha alma (estranha primavera!)
a erupção do desejo e a floração dos versos!

NOITE DE CHUVA – Anderson Braga Horta

Cai a chuva em torrentes. Que frieza!
Enregela-se a rua. Vão, dormentes,
passando as sombras sobre a natureza.
E a água tomba, em ciclópicas torrentes.

Que de mistérios sob a noite! Acesa
em mil fogos azuis, fosforescentes,
a alma, de sonhos e delírios presa,
arde nos ermos plácidos, albentes,

do pensamento. Anseios e lembranças
de ventura, impossíveis esperanças,
sombras, espectros, ramos de cipreste

caem também sobre minha alma agora,
qual tomba a chuva em cântaros lá fora,
como legiões fantásticas da Peste!

SERTÃO – Anderson Braga Horta

Lá dos ermos sertões nas soturnas paragens,
na placidez hostil dessas terras selvagens,
vive uma árvore triste, estranha e retorcida,
em mudo e eterno espanto ante a aflição da vida.

Do verde-plúmbeo véu das escassas ramagens,
o olhar vê, tão-somente, as plácidas paisagens
monótonas, do céu e da gleba suicida,
exposta à ânsia do sol, seca, estéril, dorida.

Minha vida é o sertão; e minha alma, essa planta,
que se afastou de tudo, e em seu refúgio canta
o tédio que alimenta a seiva de meu crânio,

num desespero lento e surdo, subterrâneo
como o interno labor dos vermes infelizes
e a transubstanciação oculta das raízes.

CRISTAIS QUEBRADOS – Anderson Braga Horta

Há uma flor que floresce em tudo e em nada
do universo febril do meu desejo.
Flor de carne e luar, rubra de pejo
cora-se ao ver, tímida e deslumbrada,

dentro em meus olhos a intenção de um beijo.
Alma de luz, na esfera inabitada
de meus íntimos céus transfigurada,
nebulosa do sonho, ardente a vejo.

Beijo-a, e por entre beijos imaturos
desperto, e ela se esvai no azul divino.
Clamo, e ao apelo de meus fortes brados

parte-se o espelho dos seus ollhos puros.
Alastram-se no azul pré-matutino
trêmulos claros de cristais quebrados.

LÁGRIMA – Anderson Braga Horta

Sob a fronde ensombrada e triste de um carvalho,
treme o fluido cristal de uma gota de orvalho.
A árvore secular, grandiosa e sobranceira,
sentira o despontar da lágrima primeira,

que luziu na ramada e rolou, galho a galho
sobre o chão poeirento e pobre de agasalho.
O pó bebeu-a, ardente, e, absorvida na poeira,
a gota se desfaz na prece derradeira.

E eu quedei a pensar, comovido de espanto:
são precisos, talvez, mil anos de tormentos
para saber chorar o pranto que conforta!

O carvalho sorriu, silencioso… Entretanto,
o crepúsculo veio, entre espasmos sangrentos,
caindo-lhe, a chorar, sobre a pupila morta.

QUANDO TE FORES – Anderson Braga Horta

Louros frutos nas frondes orvalhadas.
Folhas secas no chão. Já finda o Outono.
A Natureza, aos poucos, no abandono
cai, no rigor das frígidas noitadas.

Chega a estação caótica do sono.
O chicote das gélidas nortadas
lanha da terra as costas escalvadas
e uiva de angústia como um cão sem dono.

Breve, decerto, a Primavera em flores
fará vibrar estas soidões de Inverno,
este fosso de inércia, este letargo.

Na minha alma, porém, quando te fores,
só restará – da morte o gelo eterno
e os frutos verdes do teu beijo amargo.

INCENDIÁRIOS

O ígneo mar do poente e o mar da noite fria
misturam-se no espaço em fúlgida alquimia,
indecisos agora entre sombra penumbra.
E que fulgor de sóis o humano olhar deslumbra,

quando a noite, a tremer, cai das mãos do infinito!
São os anjos do Senhor, num clamor inaudito,
segurando nas mãos as cósmicas lanternas,
procurando-a, a chorar, pelas sendas eternas…

Silêncio iriado… o céu de luzes se reveste,
amarelas, azuis, num cortejo celeste.
(É a suprema invenção de algum Gênio Supremo!)

E, vasculhando o espaço imenso, extremo a extremo,
vão-se as chamas das mãos das estrelas douradas,
esparramando no ar incêndios e alvoradas.

VISÃO DO SÉCULO SEM ALMA

Num crepúsculo histérico e disperso,
vi, ao som de harmonias funerárias,
os homens como brutas alimárias
e o mundo em práticas de sangue imerso.

Crescente nódoa no horizonte terso,
vi bilhões de agoureiras procelárias,
e o esmorecer das luzes solitárias
que brilhavam inúteis no universo.

E, tementes do século vindouro,
vítimas neurastênicas do tédio,
os homens impassíveis vi, depois,

irem seguindo para o matadouro
com a trágica abulia sem remédio
e o olhar melancólico dos bois!

CONTRASTE

Recordas-te? o calor daquele ninho antigo,
que a natureza armou à nossa frente, veio
dar um céu mais suave e um solo mais amigo
à minha solidão de inverno triste e feio.

Não te lembras? ali, fugindo o olhar alheio,
das serpes da malícia e da inveja ao abrigo,
eu sorvia a beleza harmônica, em teu seio,
das tenras ilusões que murcharão contigo.

Há nos beijos sensuais que um puro amor desfere
um não-sei-quê de eterno e imaculado e santo,
de uma vaga dolência astral de miserere…

Pois assim meu amor tem os quentes delírios,
os aromas carnais das flores do amaranto,
e a pureza serena e espiritual dos lírios.

LOUCURA

Quando a noite sem luz, como um morcego, desce
despenhando no bosque o manto carrancudo,
o espírito noturno infiltra-se por tudo,
e a quietude da mata estranha-se e estremece.

Dos ermos o luar, cadavérico e mudo,
sobre Natura, em prata, os seus cabelos tece.
Mas, súbito, a soidão agita-se, enlouquece,
ante um surdo clamor, da treva no veludo:

a alma da noite, em vão, nos braços do arvoredo
rasga-se e clama e chora e raiva e se lamenta,
soluçando, a tremer, de fraguedo em fraguedo.

Também na solidão de meu ser, no recesso
do espírito, um clamor de vozes me atormenta.
E meu estranho amor uiva como um possesso!

OCEANO

No humano coração um oceano existe
que é síntese fugaz de todos os oceanos.
Às vezes a rugir, no esto dos desenganos,
outras vezes cantando à flor do sonho o viste.

Quando a felicidade acena, em sombra, ao triste
com o distante luzir dos astros desumanos,
ele, sem pressentir da fatal queda os danos,
ao côncavo do céu responde ondas em riste.

Mas quando a angústia o aperta entre os malignos dedos,
e os vendavais da vida o atiram nos escolhos,
e ele grita de horror na ponta dos penedos,

o homem, das ilusões, por únicos espólios,
guarda os beijos de amor que sangram mortos, quedos…
e a água do coração lhe escorre pelos olhos.

NOS BOSQUES SOLITÁRIOS

Lá no fundo dos bosques solitários,
onde sombras negrejam sonolentas,
a água corre nas rochas pardacentas
com um clamor de longínquos campanários.

Semeada de lágrimas sangrentas,
contas soltas de lúcidos rosários,
cai a noite nos bosques solitários
como garras neuróticas, violentas.

O sigilo da vida está sepulto
no coração dos bosques solitários…
Nem ouve da miséria o triste insulto.

E, como a luz do céu nos relicários,
o sonho eterno inda palpita, oculto,
lá no fundo dos bosques solitários…

TENTADORA

Ah! se em teu seio repousar pudera
meu coração ferido, ensangüentado!
Se ao teu sorrir de eterna primavera
cantar pudesse o peito meu magoado!

Não fujas, não. Dá-me um sorriso… Espera!
Não vás matar-me o tino já turvado,
com um riso assim, de escândalo e quimera,
tão suave, tão morno e perfumado!

Não me fites assim tão fundamente,
que teu olhar de estrelas e alvoradas
pode cegar meus olhos de repente.

Toma cuidado, amor, tem mais cautela:
não vás ferir, com seduções malvadas,
minha alma que à tua alma se revela.

ALTER EGO

Todas as noites, deixa o fantasma dos desencantos
ou das vitórias o lastro obscuro de cada peito,
todos os risos, todas as mágoas, todos os prantos
fogem, cantantes, e um corpo inerte fica no leito.

Esses noturnos seres estranhos, que olhos não sonham,
fremem nos ritos de alguma ronda desconhecida.
E, antes que as trevas depois do sono se decomponham,
voltam aos corpos para os labores de uma outra vida.

O eu verdadeiro vive nas sombras, belo ou monstruoso.
Só quando noite, libera as dores e as alegrias,
cantando todas – umas, cansadas; outras, em gozo.

E há, nessas horas, fundas insânias, carícias mansas,
medonhos gritos, pântanos negros, formas sombrias,
choros e anseios, trevas e angústias, sóis e esperanças.

VIA – LÁCTEA

Noite, que ignota mão, dos altos céus senhora,
desata do infinito as límpidas capelas?
Ei-la aspergindo o azul de esferas de ouro, e nelas
desce o férvido céu à fria terra agora.

Em pérolas a arder, em cadentes estrelas,
as emoções do amor, que tranquilo me fora,
tornaram-me também da alma contempladora
a via-láctea azul. Não sei como entendê-las,

tais lágrimas sem dor. Imagino, entretanto,
multiplicado em sóis, que as gotas deste pranto
são cristalizações do amor que te votei:

estrelas a brotar, deslumbradoramente,
dos meus olhos, do céu de meu desejo ardente,
das galáxias sem fim dos beijos que te dei!

NOITE DE ESPECTROS

Noite escura e pesada. Céu tristonho.
Cai na terra um silêncio, uma saudade.
Como no céu sem luminosidade,
não floresce em meu peito a flor de um sonho.

(E a tristeza profunda que me invade,
grita e me arrasta a um báratro medonho!
E esta inércia mortal em que me ponho,
mesmo no ardor de minha mocidade!)

Gesticulam as sombras e os miasmas.
Em meu cérebro a ronda dos fantasmas
transmuda-me em alguém que já não sou.

E reconheço na, que surge, calma
sombra do natimorto amor – minha alma,
que de seu corpo se desencontrou.

LETARGO

No vale e na montanha a natureza entorpecida
repousa em véus de sono e de neblina. Friamente,
banido o céu que um dia abriu-se em risos para a vida,
parece a luz dormir dentro da noite eternamente.

Assim no coração onde uma rosa emurchecida
suspira e desfalece e pende o cálix tristemente
parece a alma não mais abrir-se em cores para a vida,
parece o amor dormir dentro da noite eternamente.

Em breve outra estação semeará luz na noite escura,
enchendo o céu de glória, erguendo o cálice da flor,
Porém para o torpor da solidão, na desventura

que os sonhos meus obumbra e me aniquila e me devora,
não sei se um novo sol despertará… se eterna é a hora
de sono e frio e névoa em que adormece o meu amor.

NAVEGAÇÃO

Cintila a noite azul, povoada de estrelas.
Nos olhos do Universo ardem chispas de luz.
Velas pandas no espaço, as ástreas caravelas!
Pelo éter infinito a Via Láctea as conduz

– corrente do Alto Oceano – a ocultos portos. Velas
pandas na escuridão! Nos longos braços nus
o Cruzeiro do Sul a ignotas Compostelas
vai carregando o corpo etéreo de Jesus.

A pálpebra do luar fechou-se. Um manto baço
de nuvens cobre o céu. No entanto, em todo o espaço
ardem constelações – além dos olhos meus.

E eu sonho mil milhões de universos pulsando,
naus do imenso Oceano, ardentes navegando
para o eterno esplendo das voragens de Deus!

ARCANO

Cai o luar na terra, docemente,
embalsamando a plácida cidade.
E penetra em meu seio, lentamente,
um misto de esperança e de saudade.

Vem a noite apagar sob o clemente
manto de sombra as sombras da vaidade.
Iluminas-me, ó noite erma e silente,
de uma interior, divina claridade!

Para a minha alma, quando morre o dia,
em vez de espectros de funérea voz,
surge, da tarde à plácida agonia,

um turbilhão de risos e de sóis,
e do arcano da treva se irradia
um hino de longínquos rouxinóis.

.

TURBILHÃO

Mádidas carnes róseas, perfumadas,
luarosas, ebúrneas, palpitantes;
olhos claros, ardentes, cintilantes;
formas nuas, incertas, encantadas;

rutilações etéreas de brilhantes;
líqüidas vozes de mistério aladas;
metempsicoses de almas namoradas;
sombras vagas de espíritos distantes;

beijos castos de amor; pecaminosos
deltas ruborizados de desejo;
doce quebrar-se de cristais risonhos;

os ressaibos de amantes temerosos,
toda a história do Amor vejo e revejo
no cortejo das vidas e dos sonhos!

SÍNTESE

Muito amor, amores poucos.
Cem mil dores numa dor!
E beijos… Desejos loucos…
Tanto amor num só amor!

Meigas vozes, gritos roucos…
Róseas pét’las… Multiflor!
Doce angústia… Ouvidos moucos…
Sonho… Saudade… Torpor…

Corpos mádidos, marmóreos,
intangíveis, incorpóreos,
num só corpo rosicler…

Sóis diáfanos, fulgentes,
vidros claros, transparentes,
num sorriso de mulher!

REMORSO

Não sei que mórbida atração me arrasta
aos supremos abismos da loucura.
O pecado do sonho me tortura,
e que vale o pudor, se o não afasta?

Sofro de um mal terrível e sem cura!
Sofrer de amor… Que pode uma alma casta
contra esse tentador? “Contém-te, basta!”
– grita-me às vezes a razão – “procura

na verdade a verdade, e não no sonho!”
Fujo-lhe a voz. Depois, o desencanto,
a amargura de ver quanto pequei…

E dessas fantasias me envergonho,
no remorso de ter sonhado tanto
e de não ter vivido o que sonhei.

DELÍRIO

Nos delíquios do gozo, extasiada e fremente,
entre os ais do prazer, no prazer dos delírios,
a natureza geme, entorpecida, e sente
no contacto da brisa o sabor dos martírios…

Treme o céu, treme a terra… estremecem os lírios,
magoados, na volúpia infernal. Cautamente,
a noite vem cobrir, pálida à luz dos círios
celestes, com seu manto o erotismo do poente.

Lânguida, porejando o suor frio do orvalho,
a mata inda se estorce em seu leito, ao sereno,
e arrepios sensuais correm de galho em galho.

O céu se abraça ao mar, num desespero. E, pleno
de ternura incontida, entre as sombras me espalho,
à flor libando o aroma, e à atmosfera o veneno.

PESADELO

Não sei que torvo ser, que espírito insolente,
que tenebroso gênio evadido às florestas
em visionária noite acorda-me funestas
multidões que a dormir jaziam-me na mente.

Toscas aparições de atormentadas testas
com um olho só a olhar alucinadamente,
braços avulsos, mãos em garra, de repente,
caíram-me de mim – rindo impudentes estas,

aquelas a estender-me uns dedos asquerosos,
gritando, escancarando as fauces, fulminando
meu roto coração com seu olhar nefando.

E, à luz tentacular de globos pavorosos,
abre-me o pesadelo as portas, lado a lado,
mostrando-me a espantosa imagem do Pecado.

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TRÍPTICO DE SINOS

I – MEIA-NOITE

Noite. Noite trevosa. Escuro o firmamento.
Ulula o vento, e ruge, e espanta-se nas brenhas
com o silêncio mortal. Ruge noturnas senhas
e nas ramas se estira, estertorando, lento.

Diz a treva ao luar: “Anseio por que venhas!”
Diz o luar ao sol cansado e sonolento:
“Desperta, meu Senhor! É negro o firmamento!”
E outra vez o silêncio esconde-se nas brenhas…

Que nuvioso rumor, como de almas penadas…
Sinos de catedrais… Marcha funérea e nobre…
Soturnos carrilhões sob um céu de miasmas…

Brônzeas línguas urdindo as doze badaladas…
E, no crebro planger do misterioso dobre,
arrastam-se na treva os lívidos fantasmas!

* * *

II – VISÕES

Meia-noite. Um silêncio de agonia
a tudo invade, amortalhando tudo.
Emudece-me o peito. Quedo e mudo,
doura o luar a solidão sombria.

Penso, e estremeço. E ante a visão exsudo
de negrejantes sombras. Numa fria
escultura transmuda-se a alegria,
e eu em pálido espectro me transmudo.

Dobram sinos ocultos no meu peito.
A tristeza, o pavor, volantes, trazem
a um espírito morto… E vêm, tristonhos,

vêm, morrendo, extinguir-se no meu leito.
E no eco derradeiro se desfazem
os últimos fantasmas dos meus sonhos.

* * *

III – RESSURREIÇÃO

Acordo ao som festivo, à dança delirante
dum claro bimbalhar de sinos harmoniosos.
Uma voz dentro na alma ouço nascer, distante
como a voz da ilusão no seio dos leprosos.

Da torre da igrejinha os hinos gloriosos
vão procurar o sol para além do levante.
E é como se do amor os vasos misteriosos
derramassem na terra o seu éter vibrante.

Despertando na mata, o coro de aves canta
a manhã que lá vem como um anjo trazendo
altos feixes de luz sobre abismos medonhos.

E a voz que no meu seio, ardente, se levante
é a voz da madrugada, os carrilhões tangendo
pela ressurreição de todos os meus sonhos!

.

ANGÚSTIA

Quando foge o luar, em noites silenciosas,
vem tomar-me uma angústia, um desespero enorme,
um desejo sem nome, um pesadelo informe
como o torvelinhar das grandes nebulosas.

Durma o corpo: adernado, o coração não dorme.
E debato-me em vão nas ondas voluptuosas
de um sonho dúbio: um céu de pedras e de rosas,
com promessas de luz no seio amplo e disforme.

E, como o mar se arqueia em busca do infinito,
ergo a mão para o céu, num desespero mudo…
Mas tudo foge, em roda, e estou só, louco e só.

O sonho se dissipa. E eis-me confuso, aflito,
vendo uma sombra má em cada canto, e em tudo
o olho morto de um sol que se desfaz em pó.

CANÇÃO DE AMOR

O perfume do sândalo trescala
nos teus lábios, que falam de alegria.
Fitas-me… e ouço uma ardente melodia…
É a voz do amor, que nos teus olhos fala!

É a música do céu, maviosa e pura,
que da luz das estrelas se reveste
e canta e voa na região celeste
e desce à terra e em teu olhar murmura!

É uma suave canção que se desliza
nas curvas de teu corpo, soluçante,
e de repente, ardendo, se encapela!

É tua alma de luz dizendo à brisa
que a vida é um oceano palpitante
e o nosso amor é um barco na procela!

.

IN EXTREMIS

Sob o calor dos tropicais mormaços,
quando o sangue referve e a mente estua,
nas solidões da Vida ardente e nua
procuro sombra – e encontro-a nos teus braços.

Enxuga o pranto dos meus olhos baços,
onde clama a incerteza e tumultua.
Dá, no milagre de uma frase tua,
que os rijos membros me descansem, lassos.

Lembra-me, ao fim desta jornada inglória,
toda a emoção da flamejante história
que é história deste amor-deslumbramento…

E, afinal, ambos velhos e alquebrados,
colha-nos Deus sonhando, inda abraçados,
na saudade infinita de um momento.

ORGULHO

Nômade sem destino, ave noturna,
sem fé, sem ilusões e sem coragem,
só descanso minha alma taciturna
dos carrascais na rústica estalagem.

Nas grutas penso ouvir-te a voz, soturna,
numa ânsia rude e estranha de selvagem
julgando ver-te a luz em cada furna,
vendo-te em tudo refletida a imagem!

E me devolve o olhar das lapas frias
as chipas de um desejo insatisfeito,
garras de fogo em desabrida luta.

Mas de orgulho emudeço ante as harpias,
como se elas ferissem no meu peito
inerte coração de rocha bruta.

SILÊNCIO

Vinha descendo a escarpa do Destino,
sangrando o fel e a angústia do meu verso,
quando encontrei toda a alma do Universo
no teu olhar tão calmo e tão divino.

Tanto era belo esse clarão disperso
como notas de um meigo violino,
eu me quedei silente, em desatino,
todo na luz do teu olhar imerso.

Hoje ainda, sentindo-te a meu lado,
transpassa-me o silêncio contrafeito
a que os astros me houveram condenado…

Ó tu que me iluminas e atormentas,
estrela em céu de tempestuoso aspeito,
entre jorros de lágrimas violentas!

ESTRELA AZUL

Estrela solitária, azul, cintila,
e o negro céu desmaia-se de vê-la.
Filhas da mesma comburida argila,
é irmã da minha mágoa aquela estrela!

Também na minha escuridão cintila
inalcançável, solitária estrela,
que arde da luz da mesma ardente argila
de quem nos olhos meus veio acendê-la.

Esmaece no céu nublado e frio
a estrela azul. Mas, se ora é o céu vazio,
eterno o amor flameja-me no seio.

A minha alma se anula pouco a pouco.
E, daquele fulgor cegado, louco,
sonho, sonho a ventura que não veio.
 

PALAVRAS

Nos simples versos destas quatro estrofes,
secreto escrínio, os áureos pensamentos
de amor recolho, e os loucos sentimentos,
para que dos meus sonhos tu não mofes.

Pois, que estas linhas pela ausência primem
de frases vãs… Mas isto não tem tino!
Calo-me! Que eu, por mal de meu destino,
guarde, e não diga, as ânsias que me oprimem,

nem quanto és bela, ou quanto me és querida!
Porque, clara ilusão estremecida,
serena flor da graça e da beleza,

dizer não poderia, com certeza,
o que extravasa aos mundos e universos…
nas quatro estrofes destes pobres versos.

PERPETUAÇÃO

Eu trago um carrilhão dentro do peito
carrilhonando sempre, sem parar.
Ora canta sonoro, satisfeito;
ora dobra a finados, a chorar.

Meu débil coração de informe aspeito
é o silente sineiro que, a cismar,
bate as mágoas e os êxtases, desfeito
na ardente voz do eterno bimbalhar.

Quando este coração morrer, um dia,
há de cessar o cântico de sinos…
Mas um outro há de vir cantando, cheio

de amores, de tristezas e de alegrias,
badalando no bronze dos destinos
todos os sonhos trôpegos do seio!

QUIMERAS

Andei lendo e sonhando, em tempos esquecidos,
declarações de amor e quiméricas frases
de algum gênio gentil, de modos atrevidos,
a alguma fada envolta em transparentes gazes.

Vivi de fantasias e sonhos coloridos,
com você junto a mim, nesses reinos falazes.
Mas isso aconteceu nos velhos tempos idos
quando falava o amor por descoradas frases…

Hoje em dia o florir de palavras limadas
na boca dos heróis de aventuras galantes
já não tem o sabor das épocas passadas.

E só o coração grita e soluça e fala,
no silêncio loquaz que envolve os dois amantes,
todo o poema de um beijo, a ecoar pela sala!

LOUCAS FRASES DE AMOR

Loucas frases de amor eu proferi outrora!
Ouvindo-as, vos subia às faces tal rubor…
Parecíeis o céu que, o noturno fulgor
das estrelas guardando, é já o céu da aurora.

Lembro-lhes tristemente o vazio rumor
– frases, frases… – no longo entardecer de agora.
O céu que eu lapidei nos versos meus, Senhora,
não era o céu, enfim: faltava o vosso amor…

Quis um sonho colher nas pobres mãos nervosas,
e – sem ver que prendia a minha ilusão mesma –
meio sonho retive entre os dedos aflitos…

E é por isso que eu ando em sendas dolorosas,
e é por isso que um dia o pálido abantesma
de um beijo há de matar-me… Adeus, meus infinitos!

CONTRA MIM

Este amor me nasceu contra mim – foi meu fado –
e vive contra mim… Que fazer, se é destino?
Se, eu mesmo contra mim, pondo a razão de lado,
mais me entrego do sonho ao turvo desatino?

Vi-te ontem novamente. E ou estou enganado
ou tremeu-te, nervoso, o lábio purpurino.
E, trêmulas as mãos, trêmulo o seio inflado,
toda trêmula, esgueste o tronco alabastrino.

Foi um sonho? Beijei-te. E tu me deste o braço.
Nada disse. Calaste. Entretanto, risonhos
fitamo-nos, do amor no suave embaraço…

Que eu não possa, jamais, esquecer esse beijo!
Que a ilusão desse olhar ressuscite em meus sonhos!
Que eu te veja o esplendor em tudo quanto vejo!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa