SERESTEIRO

Contemplando-a do céu, sem compreendê-la,
a ofuscar das estrelas o disperso,
tênue clarão, a lua, eterna vela,
singra o céu claro, como um claro verso.

Ah! Pudesse eu vogar como uma estrela
nas paragens divinas do universo,
e toda noite espiá-la, da alta umbela,
todo na sua alva nudez imerso!

Seresteiro de branca primavera
eu seria, a sonhar num céu bendito!
desceriam meus versos da alma esfera

celeste ao seio dela, e eu junto, aflito,
ardendo na volúpia da quimera,
me atirava das grimpas do infinito!

NUVEM

Vês, ao longe, uma nuvem fugidia
beijando a extrema curva do horizonte?
Qual garça fugitiva ela corria;
parada, sorve a luz da eterna fonte.

Olha-a bem. Vê-lhe a forma, que varia,
conforme a viração, de monte a monte.
Peregrina volúvel… Caberia
senão em todo o céu? Aqui defronte

fita-me agora. Como a dos espaços,
nuvem, movem-me as auras de uns carinhos,
aquieta-me a volúpia de uns abraços…

Só por ti sou todo eu: repouso e lida,
langor e crispação, brandura e espinhos,
na pulsação unânime da vida!

DANÇA MACABRA

Descem trevas e trevas nesta treva.
A noite é mais que noite: é um caos tremendo,
em cujo desplandor, fosforescendo,
uma ronda fantástica se eleva.

É a legião dos fantasmas legendários,
que emergiram do côncavo das lendas
e vêm cruzar, dançando, as mesmas sendas
que pisaram meus passos solitários!…

E a aurora, que não vem! Assassinada
pelo ímpeto das sombras, não há dia:
apenas noite bárbara, pagã.

E, única luz na rigidez do nada,
a ronda dos espectros tripudia
no cadáver sangrento da manhã.

DESAFIO

É bela, bela… Muito bela mesmo!
Mas eis que faz na face um tal jeitinho…
Que mais parece um lindo “torresminho”,
Naquele gesto desprendido a esmo!

E todos dizem: Puxa… Que “torresmo”!
Como ela ri, como ela faz beicinho!
E, desdenhosa, passa de mansinho,
Naquele gesto desprendido a esmo.

Desde as abelhas no coral das flores
Ao soluçar das pétalas de rosa
Ela consegue enlouquecer de amores.

Espero, pois, que arranje qualquer jeito
Para, com a luz de todos os doutores,
Emudecer-me as ilusões do peito!

LAGO AZUL

No lago azul das minhas ilusões
vi certa vez um rosto misterioso,
sereno e triste, embora tão formoso,
de enlouquecer incautos corações.

Perdi-me então num sonho vaporoso,
sonhei do amor as ternas emoções.
E alguém cantou tão místicas canções
que o mundo pareceu quedo e choroso.

Quis-lhe o brilho do olhar, sem ver-lhe a morte:
tinha o furor dos vendavais do Norte
e a solidão dos pélagos do Sul…

E debrucei-me sobre as águas frias,
tentei beijar-lhe os olhos de ardentias…
e em prantos me afoguei no lago azul!

ÂNSIA

Ânsia estranha e fatal, que me devora
o peito, esta de andar perdido diante
dos pórticos do amor, que hora por hora
brilha em meus olhos, fulge em meu semblante!

Fanadas ilusões! éreis a porta
brilhante e azul do meu amor primeiro.
Já não sois mais do que paisagem morta
na retina cansada de um romeiro.

Mas, como em muros recobertos de hera
se abrem botões, às vezes, num sorriso,
sigo em busca de nova primavera.

E assim vivo, e assim ando: ébrio, indeciso,
esmagado de trevas, mas à espera
da alvorada de um sol que não diviso.

NADA MAIS

Lança um manto de sombra e de cinabre
a hora crepuscular sobre o meu gesto.
Para a prece da tarde então me apresto
e me confesso à noite que se entreabre.

O próprio amor com o meu desejo empesto!
Como se a entrasse a lâmina de um sabre,
a minha velha angústia se reabre,
o meu remorso de perdê-la… – O resto?

O resto é minha vida, e é quase nada:
uma sombra a fugir no meu caminho;
uns afetos; uns beijos sensuais;

a visão de uma plácida enseada
que não vem; a esperança em desalinho;
um cipreste no peito, e nada mais.

TÉDIO

O tédio que avassala, a desventura
que aniquila, o pecado que devora
– fauna de horror, devastadora flora –
matam em mim o que de mim perdura.

A torturar-me recordando a outrora
serena alma constante e alegre e pura,
melhor me fora consumida a escura
existência, onde dor apenas mora.

Meu coração, que dele amor fizera
pasto vil de paixões, enclausurado
em si mesmo ora clama, e sem remédio.

E mais que a desventura o desespera,
não a morta lembrança do passado,
mas a viva opressão negra do tédio.

LIBERTAÇÃO

Nas rotas folhas de minha alma impressas,
pulam-me aos olhos findas alegrias,
passadas mágoas, páginas sombrias,
redolência de beijos e promessas…

Trago no peito as sombras fugidias
do meu primeiro amor. Sombras opressas,
mortas, esquivas e insondáveis, essas,
que foram vivas em remotos dias!

Múmias escuras, frígidas, caladas,
tendes na fronte o pálido segredo
que vos fugiu das órbitas fechadas.

Seguis-me rindo e soluçando… Embora!
Gritais em vão, já não vos tenho medo.
Olhai: meu coração já vos não chora.

OBSESSÃO – Anderson Braga Horta

Oh! quando foi? Já nem me lembra quando…
Mas tenho ainda a funda cicatriz.
Ando perdido de incertezas… ando
que já nem sei se um dia fui feliz.

Na garganta os protestos sufocando,
de extintos céus extintos sóis febris
busco esquecer. Mas logo, delirando,
teço de novo a trama que desfiz.

Que te posso dizer, neste momento?
Maldições, pelos céus que me negaste?
Ou o imenso desdém do esquecimento?

Nada! Nem te desdenho, nem maldigo.
E, no caos e no horror que me deixaste,
tento, tento esquecer-te, e não consigo!

DESILUSÃO

Consumira-me em chamas de ternura,
e então quis meu amor prantear em verso,
para ornar-me de luz a sorte escura,
num canto solitário do universo.

Efêmera ilusão, longa loucura…
de quem buscou em vão no amor adverso
o condão dos seus sonhos de ventura!
Não pode o humano coração num verso

iluminar do sonho findo o espectro.
Pobre espectro de amor, luz apagada
nas cinzas da esperança malograda!

E só me resta ao coração, nefando,
do lume extinto o fumo, carregando
o fantasma silente do meu plectro.

CÁCTUS

Quando a última ilusão se for, perdida
no deserto brumoso do passado,
onde é, como este cáctus desolado,
roxa saudade, apenas, permitida;

quando tu e a desgraça lado a lado
marchardes, sem conforto e sem guarida,
canta, minha alma, canta, pela vida,
inda que um canto apenas balbuciado.

Canta. Canta, e recorda: que a saudade
é o cáctus doloroso do deserto,
que, tocado, nos fere sem piedade:

mas sob a crosta enrijecida e morta
dorme um gênio acre-doce, que, desperto,
dessedenta, suaviza e reconforta.

VULCÃO

Toda a harmonia que arde no meu peito
iluminando a minha solidão
há de explodir como um vulcão desfeito
em lágrimas de estranha floração.

E as lavas de um silêncio contrafeito,
transformadas em cinzas, voarão
sobre as flores sem ódio, e sem despeito,
de meu amargurado coração.

Enfim compreenderás esta amargura…
E hás de ver meu amor, por fado adverso,
na esperança que nasce da loucura,

na ternura que ondeia entre os abrolhos,
na dolência cansada de meu verso
e na poesia que arde nos meus olhos!

ESFINGE

Pálida esfinge colossal de pedra,
perdido o olhar nas brumas do horizonte,
vivo na gleba onde nem brota a fonte
e onde somente a flor do cardo medra.

Se acaso em cólera, abalada a fronte,
expando a voz, pela vazia exedra
das solidões – vinha que o medo redra –
nada me escuta que o furor me afronte.

Nem um riso me adoça o gesto amargo,
nem uma nota pálida me agita
as cordas imprestáveis da laringe.

E quem me encontra vai passando ao largo,
sem ver que, ansiosa e trêmula, palpita
uma alma sob a máscara da esfinge.

CATALEPSIA

Noite. Em repouso, as flores e as serpentes.
Tudo na mesma quieta letargia.
Todas as forças de Natura fria
se escondem, catalépticas, latentes.

Sim, todas as potências na sombria
noite descansam, para enfim aos entes
dar solidárias luzes esplendentes,
na mesma formidável sinergia!

O espírito, cansado, no abandono
abisma-se de um caos de longas calmas,
nas dobras de noturnas solidões…

mas exsurge afinal do estranho sono
no coletivo despertar das almas
para as eternas iluminações!

ADEUS

Basta! Se nosso amor é como o vinho amargo
que primeiro embriaga e afinal envenena,
deixa-me só! Assim prefiro, sem embargo
do muito que te quis. Não sentirias pena

de perder-me. E eu, por mim, deste torvo letargo,
nem guardarei rancor, nem desprezo. Serena
irás. E eu, vendo à frente o horizonte tão largo,
tornarei minha dor mais pura e mais amena.

Se outro amor me nascer, será como uma aurora
chuvosa, sonolenta, acanhada e sombria,
em que as frestas de sol brilharão sem ternura.

E os beijos que tiver de outros lábios, agora,
tão fugazes serão, e eivados de ironia,
como a flor que sorri sobre uma sepultura.

LUZ E ÁGUA

Quero ter-te entre os braços apertada,
num amplexo profundo, imorredouro,
qual da esfera sustém nos braços de ouro
o sol o colo altivo na alvorada.

Como aos olhos de luz da madrugada
arrasta a noite o seu rebanho louro,
no teu olhar, sidéreo sorvedouro,
quero a alma perder iluminada.

O meu olhar no teu olhar mergulho,
louco de amor, por teu amor vencido,
e achando em teu amor razão e orgulho.

Quero abraçar-te assim, em ânsia e frágua,
num abraço fecundo, almo, incontido,
como o abraço total da luz e da água.

FLOR DO CARDO

Caminhei sem descanso – o passo tardo,
o olhar vazio, amargurado, incerto –
através da existência, este deserto,
cujo extremo horizonte ansioso aguardo.

Bem vi nascer e florescer por perto
de minha sombra, como a flor do cardo,
amor de afiadas garras de leopardo
mas de sereno céu no peito aberto.

E, no entanto, parti. Neste saara,
ontem, vi-a de novo, e tão selvagem,
tão fresca e natural quanto a deixara!…

E empós dela voei! Ah! comovido,
solitário me entrego a uma miragem,
abraçado no pó… areia… olvido…

BEIJOS PERDIDOS

Se entre nuvens, flutuando, te revejo,
espanto a voz de pensamentos sábios.
E o beijo que me deste, sem ressábios,
deriva à flor do sonho e vem, sem pejo…

Se o ideal que em ti descubro, e o meu desejo,
devem morrer, digo-te agora: acabe-os
a volúpia esperada de teus lábios,
onde, aurora de amor, desponta um beijo!

Ai, e escondes tua alma, de vergonha,
atrás do meu orgulho malferido…
Mais forte, embora, inda suspira e sonha

por ti meu coração cheio de pranto.
E eu conto, amada, os beijos que hei perdido
porque (triste ventura!) te amo tanto!

PATER NOSTER

I

Enquanto em mornos raios esbagoa,
ocíduo, um sol, e em sombra o céu coagula,
na abóbada do crânio lhe esdruxula
a primeiríssima centelha, e voa.

Arfa, e os aços dos músculos açula
no júbilo do salto, antes que os roa
a pátina das horas. Solfa, à toa:
se o move o sol que lhe nos olhos pula!

Sola a ária tosca o peito, os labios rugem.
Ri-se. E do tempo esquece-lhe a ferrugem:
que para a morte a íntima claridade,

flúmen fluindo à flor do olhar, o cega
que no gesto e no cérebro carrega
sem saber que carrega a Humanidade.

II

Rude nosso ancestral que por primeira
vez, frouxo ainda, o clarão do sonho viste,
e do nascente verbo então urdiste
orientemente a rútila fogueira:

Tua máquina antiga esfez-se em poeira.
Escasso sobrevives. Mas persiste,
cresce o fogo eterníssimo que urdiste,
nesta maior que a olímpica fogueira.

Quando em esto vernal balbuciaste
a primeira palavra, e a débil haste
enfloresceu do sonho a vez primeira,

era latente um sol nessa fogueira,
era de um dia azul já nascitura
a estrela cuja luz brilha futura!


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