VASSALO DOIDÃO

“Não será fácil condenar o Lula. Veja a condução coercitiva. Eles achavam, segundo a descrição de um delegado, que Lula era uma estátua de gelo, e não de mármore, que você aproximava do fogo ‘tríplex/chácara’ e derretia, acabava. Foi com essa arrogância e convicção que fizeram aquela condução coercitiva. Quebraram a cara. Com o Lula cada vez mais perto do povo, crescendo, ficará cada vez mais evidente que se trata de uma brutal injustiça, de uma ação política”.

Gilberto Carvalho, caixa-preta do PT e coroinha de missa negra, em entrevista ao Valor Econômico, promovendo Lula a estátua de mármore, rebaixando a chácara o sítio em Atibaia e garantindo que o chefe está tão perto do povo que já atingiu 44% de rejeição nas pesquisas sobre a eleição de 2018.

TUDO EXPLICADO

“Acho que o PT reafirma seu compromisso com as mulheres, com o empoderamento das mulheres. De fato, uma mulher na liderança é uma forma de nós questionarmos esse governo, que é um governo ilegítimo, composto basicamente de homens brancos”.

Gleisi Hoffmann, nova líder da bancada do PT no Senado, transformada em ré pelo Supremo Tribunal Federal, ensinando que assumiu o posto porque um governo ilegítimo formado por homens brancos precisa ser combatido por uma inimiga loira e de olhos verdes.

VENDEDOR DE NUVENS

“Desde a época do Império tenta-se fazer a transposição do rio São Francisco. Até que um retirante nordestino que sofreu na pele as agruras da seca resolveu mudar essa realidade”.

Lula, informando pelo Facebook que, assim como Dom Pedro II, ele não conseguiu concluir a obra que os nordestinos esperam desde o Império.

CAJU EM PÂNICO

“Está parecendo que vivemos o período da inquisição ou da Revolução Francesa. Estão querendo pregar em todos nós a cruz de Israel no peito, como os nazistas pregaram nos judeus que viviam na Alemanha. No passado, a turba fazia linchamentos. A gente viu muito isso ao longo da história do mundo. Hoje, quem tenta fazer linchamentos não é a turba, é a imprensa e setores da sociedade”.

Romero Jucá, líder do governo no Congresso, ao confundir a Lava Jato com a Revolução Francesa, a estrela de Davi com uma cruz de Israel e a imprensa com a Ku Klux Klan, mostrando como fica a cabeça de quem pressente que o camburão está virando a esquina.

JUCÁ NÃO ADMITE FICAR FORA DA SURUBA

Assustado com a ameaça de perder o foro privilegiado, Romero Jucá agitou a segunda-feira com uma comparação audaciosa: “Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”.

As três frases insinuaram que, para o líder do governo no Congresso, há mais semelhanças que diferenças entre a Praça dos Três Poderes e um bordel de luxo frequentado exclusivamente por pais da pátria.

Ontem cedo, acuado por protestos de deputados e senadores, mudou de ideia – e tratou de excluir o Parlamento dessa ilustre zona do meretrício. “Eu tinha citado uma música dos Mamonas e isso não foi colocado”, recitou. “Mas, se alguém se sentiu ofendido, peço desculpas”.

Em menos de 24 horas, o vigarista na mira da Lava Jato passou a ver um templo das vestais onde havia enxergado uma casa de tolerância.

A retirada de Romero Jucá confirma: medo de cadeia afeta o juízo. E pode desandar em perigosos surtos de sinceridade.

DEFEITOS DE CARÁTER NÃO TÊM CONSERTO

Uma cirurgia plástica consegue mudanças espantosas – por exemplo, redesenhar um rosto e torná-lo belo com a troca do nariz achatado por outro arrebitado. Foi o caso de Gleisi Hoffmann, comprovam as fotos acima. Mas cirurgião nenhum faz milagres – nem um Ivo Pitanguy conseguiria, por exemplo, consertar um caráter com graves defeitos de fabricação. Como o de Gleisi Hoffmann, confirma o artigo publicado na Folha desta segunda-feira pela agora líder do governo no Senado. Três trechos:

Travaremos uma oposição sistemática e sem trégua a esse governo que nunca reconhecemos.

Gleisi votou duas vezes em Michel Temer, candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff na chapa formada pela coligação PT-PMDB. Subordinou-se ao atual presidente quando Dilma lhe entregou a coordenação política do governo. Chefe da Casa Civil, conviveu amavelmente com ministros que hoje estão no primeiro escalão de Temer. Só depois do impeachment descobriu que os antigos aliados merecem levar chumbo em tempo integral.

Não fugiremos ao dever de apontar saídas para a crise econômica e social que se abate sobre o Brasil. Nós temos propostas – até porque já governamos este país e sabemos o que é preciso oferecer para destravar a economia e minorar as aflições dos que sofrem com o desemprego, a queda na renda e a falta de perspectivas. Muita coisa pode ser feita.

Por que Gleisi não apontou tais saídas a Dilma quando ocupava uma sala no 4° andar do Planalto, logo acima do gabinete presidencial? Por que as propostas que destravam a economia e reduzem o desemprego não foram materializadas antes que se consumasse o desastre inverossímil? Se “muita coisa pode ser feita”, por que Dilma nada fez enquanto desgovernava o país?

O PT cometeu erros, não negamos, e estamos pagando por isso. Mas nos custa caro ver que, sob a falsa desculpa de corrigir esses erros, estão destruindo todo um legado de avanços conquistados nos últimos 13 anos.

“Erro”, sinônimo de “malfeito” no Dicionário da Novilíngua Companheira, é conversa de 171. As duas espertezas livram os poderosos canalhas da pronúncia de palavras usadas em língua de gente – crime, delinquência, bandidagem, safadeza, vigarice, roubo, sem-vergonhice, ladroagem, bandalheira, canalhice. Os governos petistas não deixaram um legado. Deixaram a verdadeira herança maldita: um país destruído pela corrupção e pela incompetência.

Gleisi chefiou a Casa Civil e agora lidera a bancada do PT no Senado. Está pronta para comandar a ala da prisão feminina que hospedará mulheres que chapinhavam no pântano drenado pela Lava Jato. Basta que o Supremo Tribunal Federal se curve às pilhas de provas reunidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Basta que a Justiça cumpra o seu dever.

JUIZ DURÃO

“É certo que a conduta em si mesma examinada se reveste de uma certa insignificância, mas o contexto revela que se trata de uma pessoa com conduta reiterada
no crime”.

Ricardo Lewandowski, ministro do Supremo Tribunal Federal, ao negar, com o apoio de Edson Fachin, o pedido de habeas corpus concedido pela maioria da Corte a Georgina Gonçalves, presa em 2011 por furtar chicletes e desodorantes no valor de R$ 42 de um estabelecimento comercial, espalhando o pânico entre os políticos que afanaram milhões dos cofres públicos no esquema do Petrolão e terão o privilégio de ser julgados pelo time da toga.

A TURMA QUE SONHA COM O FIM DA PM MERECIA ESTAR EM VITÓRIA

Num vídeo divulgado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), quatro pajés de tribos esquerdistas garantem que o aumento da criminalidade só será contido se a Polícia Militar for desarmada, emasculada ou extinta de vez. O problema, portanto, não é a proliferação de meliantes e baderneiros. É a existência de uma instituição encarregada de defender a lei e a ordem. O desfile da insensatez começa com o deputado estadual Marcelo Freixo, candidato derrotado à prefeitura do Rio pelo PSOL. Para tapear gente com cérebro, ele preconiza a “desmilitarização da PM”, expressão que camufla o conjunto de mudanças que, consumadas, tornariam qualquer batalhão tão eficaz quanto uma guarda mirim.

Depois de uma curta e amalucada aparição do humorista a favor Gregório Duvivier, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e a onipresente Luciana Genro, do PSOL gaúcho, retomam a lengalenga da “desmilitarização”. As coisas ficam claras com a segunda entrada em cena de Duvivier, que berra a palavra de ordem que rasgou a fantasia: “Eu quero o fim/da Polícia Militar./Não acabou. Tem que acabar”.

O que espera a turma do vídeo para baixar no Espírito Santo e ver de perto como é uma cidade sem PM? Que tal criar coragem e acompanhar com os próprios olhos as cenas exibidas no vídeo abaixo, uma confirmação apavorante do horror cotidiano imposto a milhões de capixabas pela greve ilegal dos chantagistas fardados? Por que os guerreiros da Revolução dos Idiotas não tentam negociar com a bandidagem a ressurreição da paz assassinada Talvez sobrevivam.

RUIM DE MIRA

“Temer preferiu escolher um guarda-costas, preferiu escolher alguém com ele comprometido até a medula”.

Wadih Damous, deputado pelo PT do Rio de Janeiro, mirando em Alexandre de Moraes, indicado por Michel Temer para a vaga no STF, e acertando na testa de Dias Toffoli, ex-chefe da Advocacia Geral da União e diretor jurídico das campanhas do PT premiado com uma toga pelo então presidente Lula.

O PRONUNCIAMENTO DE TÁSSIA CAMARGO ABRIU O CARNAVAL DE 2017

Depois de uma vigília de três dias no Hospital Sírio-Libanês, onde acompanhou na fila do gargarejo a agonia de Marisa Letícia Lula da Silva, e de mais algumas horas de plantão no velório oficial da mulher de Lula, a atriz em recesso Tássia Camargo voltou para casa pronta para um pronunciamento à nação.

Em apenas 3 min 17s, a esforçada carpideira produz uma discurseira que lembra as piores letras de enredos carnavalescos na linha samba do crioulo doido.

Trata de virtualmente tudo. Não esclarece rigorosamente nada.

Confira a transcrição da fala:

Eu tô impressionada com a cri… criatividade de todos vo… de muita gente no Facebook. Eu.. eu tô evitando de olhar, né? Eu tô muito cansada, eu fiquei uns três dias fora, no Sírio-Libanês e, depois, no velório e aí eu leio coisas tipo assim: “Ah, olha, o caixão tá fechado”, pessoas postando ainda. “Vamos fazer o DNA pra ver se a Dona Marisa está lá mesmo, porque eu acho que ela tá na Itália”. Hello! Acorda, para de assistir Big Brother. Gente, a plom-plom, a platinada, a TV Globo, ela tá colocando cocozinho na sua cabecinha, pra você ficar mais burrinho ainda! E te ferrar muito! Cê não entendeu ainda: Moro, Aécio e TV Globo, tá tudo ligado! É…é… ela teve um AVC no dia que o filho recebeu uma intimação, um dos filhos, é… Se você quiser saber quem é, você procure saber. Não por… pela Globo, nem pela VEJA, mas sim pela… é… prum, pruma ave… averiguação sua, profunda, tá bom? Que o resto é resto. E você, Luana querida, você é tão talentosa, tão bonita. É… nós somos colegas de trabalho, não amigas, né? É… se for verdade o que eu tô lendo, é… por favor, não vire uma Regina Duarte, não. A Regina recebe anos parada, é, sempre… Meu cachorro que me empurrou aqui, meu braço, pra fazer carinho nele. A Luana.. a, a… a Regina Duarte trabalha há anos ganhando muita grana… é… parada. Sempre usou ponto, nunca decorou. Era, era ótima, agora tá canastra, né? E fica ainda: “Ah, passei, por acaso, perto do Doria pra ajudar a limpar a cidade de São Paulo”. Ô, meu pai… meu pai… o que o… né? Não sei nem o que dizer. Mas você, Luana, eu achei que você fosse parecida comigo no sentido de falar as coisas que pensa. E você é, mas cuidado com o que você fala, porque você não sabe o que é um casamento de quarenta anos, de trinta, de vinte, de dez. Talvez, nem de cinco ou de três. Aí, você pode pensar assim: “Ah, mas eu tive um relacionamento curto, mas profundo”, mas você não passou o que a Dona Marisa passou. As ameaças, as décadas e décadas. Você nem era nascida. Eu tô vivendo meus cinquenta e sete anos e eu tenho experiência de um relacionamento muito longo. Eu sei, exatamente, o que ele tá passando… É difícil, viu? É muito complicado. E ele vem com força. Agora, não fala besteira não, tá? É… tá parecendo mais pra se promover, o que você não precisa porque você é inteligente. Como falam: “Ai, a Tássia Camargo publica esses vídeos pra aparecer… a Globo congelou”, coisa e tal, e eu pedi demissão da Globo… cê sabe como funciona isso, né, Luana? As pessoas que não têm nada… pra fazer e são fa… são falidas, são derrotadas… é… não fazem o que querem e não têm talento pra nada, então, resolvem falar mal da gente. Não deixem falar mal de você, não. Conserta isso aí que cê tá fazendo, porque tá errado, viu, minha amiga? Minha amiga, não; minha colega. Então, pra todos vocês, beijinhos vermelhos. E pra você, Luana, beijinho. Tchau, boa noite.

Boa noite, Tássia. Vá descansar.

Você está precisando.

A LAVA JATO AVANÇA SOBRE A ÁRVORE CARREGADA DE SOGROS E GENROS

Nascido em Niterói, Ernâni do Amaral Peixoto começou a subir na vida quando trocou o posto de ajudante-de-ordens do presidente da República pelo ofício de genro de Getúlio Vargas. Sem saber direito a diferença entre a proa e a popa, foi promovido a almirante. Em 1937, o noivo de Alzirinha ganhou do futuro sogro o cargo de interventor federal no Estado do Rio de Janeiro (e ganhou do povo o apelido de Alzirão). Até morrer no fim dos anos 80, Amaral Peixoto seria deputado federal, senador e um dos mais poderosos dirigentes partidários da história política brasileira.

Piauiense de Teresina, Wellington Moreira Franco começou a subir na vida quando deixou de ser só mais um na multidão de jovens políticos ambiciosos para assumir o emprego de genro de Amaral Peixoto. Sempre monitorado pelo sogro, foi sucessivamente eleito deputado federal, prefeito de Niterói e governador do Rio. Só em 1989, quando chegaram simultaneamente ao fim a agonia do patriarca e o casamento com Celina Vargas do Amaral Peixoto, Moreira Franco passou a perseguir caminhos próprios. Nenhum deles logrou resgatá-lo dos papéis de coadjuvante.

Depois da vitória de Leonel Brizola na sucessão de Moreira Franco, ganhou do adversário impiedoso o apelido de Angorá. O achado fez tanto sucesso que foi mantido pelos executivos da Odebrecht encarregados de identificar com codinomes os fregueses do departamento de propinas desmontado pela Lava Jato. Angorá é mais criativo que Botafogo, como é conhecido nos porões da empreiteira o deputado Rodrigo Maia, genro de Moreira Franco. Nascido no Chile, onde o pai vivia exilado, o botafoguense militante começou a carreira de caçador de votos no colo do hoje vereador César Maia. Mas está na presidência da Câmara também por ter Moreira Franco como sogro.

Essa frondosa árvore genealógica, plantada há mais de cem anos, rende frutos altamente lucrativos desde a ascensão política do almirante que não comandou sequer uma canoa. Mas já foi condenada à morte pelo Brasil da Lava Jato. A galharia atulhada de sogros, genros e agregados será triturada pelas motosserras tripuladas por informantes da Odebrecht.

Ministro da Secretaria da Aviação Civil, Moreira Franco

INVENTORA DO DILMUNHOL ESQUECE O QUE DIZ EM DILMÊS

Com a agenda deserta desde 31 de agosto de 2016, quando foi despejada do emprego e impedida de concluir a missão de liquidar o Brasil, o que andaria fazendo Dilma Rousseff com o tempo que tem de sobra? Pelo que aconteceu em Sevilha neste 25 de janeiro, a ex-presidente continua empreendendo experiências linguísticas cada vez mais bizarras. Convidada para um seminário político naquela cidade espanhola, a pior oradora do planeta misturou o dilmês castiço com um portunhol de manicômio para criar um subdialeto inacessível tanto a quem fala português quanto para quem fala espanhol.

Ouça os três trechos agrupados no vídeo. Em seguida, leia a reprodução fidelíssima – sem retoques, sem correções e sem tradução – do que Dilma foi capaz de dizer. Pois foi isso o que desgovernou o país por mais de cinco anos.

1. “Cálculo de la ONU de la evasón fiscal de los países emergentes e em desenvolvimiento é… é subestimado de 100 mil millones ano. Ano! Quién és que paga el pato? Que és pagar el pato en Brasil? É quién paga la cuenta. E después vou hablar sobre el pato…. Quién paga la cuenta? Paga la cuenta, por essa política de interdición, de discusión a respeito de las receitas, paga la cuenta aquellos que estón mais… mais necessitado de la acción del Estado para garantizar los servícios que ellos necessitam. Esses pagam la conta”.

2. “Digo que no se puéde utilizar la corrupción como instrumento político de destruicción del que ellos consideram el inimigo. Não és um réu, és un inimigo! Y inimigo se destrói. É outra atitude. La justicia del inimigo no se puéde aplicar em países democráticos y isto yo digo porque yo tuve un golpe. El golpe sobre mi foi um golpe parlamentar, diferente de un golpe militar. El golpe parlamentar… eu sempre fiz la imagen, la metáfora de la árvore. Si la democracia, la árvore, el golpe parlamentar destrói a árvore a machadadas… No sé como se habla… (a tradutora sopra a palavra certa). Hachazo! En el golpe parlamentar, yustés invade a árvore com fungos e parasítas. Isto és la diferencia imagética… na verdade, yustés tienen partes de la estrutura, de las instituições contaminadas, mas você não tem perdas de derechos para a sociedad y isto é importante saber, porque lutarás contra ele, se ampliares todos los espaços institucionales democráticos. Lutarás contra eles se defenderes la democracia”.

3. “Uno… Una persona surge como una… gran posibilidad… con gran posibilidad de ser elecho, que és Lula da Silva. Lula és para ellos, golpistas, un perigo. Un gran perigo, porque tiene toda su carga de realizacciónes y el reconhecimiento de una parte da populación. Tentaram destruí-lo de todos los jeitos, aí, hacen pesquisas e ele está na frente. Entonces, hay grande risco de que ellos… de que ellos tentem inviabilizar su eleición condenando-o, porque para que ele no sea… séa candidato, condená-lo por dos veces”.

Dois dias depois, ainda na Europa, a palestrante especializada em cruzamento de idiomas ressurgiu em Lecce, para participar do seminário “La solitudine della democrazia”, promovido pela Universidade de Salento. Ou pelo esforço despendido no palavrório em dilmunhol, ou por ignorar até o quer dizer “mamma mia” em italiano, resolveu exprimir-se em dilmês, e transferiu para a intérprete a missão de traduzir o desfile de platitudes. Confira a performance no vídeo:

“A democracia permite que nós vejamos o processo e suas causas. É iss… é por isso que eu considero que, nessa tríade, o papel central, estratégico e articulador, o que permite construir um novo presente é a democracia. E quando ocê constrói um novo presente, é porque você tá de olho no futuro. Ninguém só constrói o presente sem tá um pouco de olho no futuro e é esse o processo que eu acho que nós temos de olhar. Temos de olhar na Europa, na América Latina, nos Estados Unidos… Somos todos irmãos nessa. E nunca, nunca…”.

A pausa sublinhada pela expressão apalermada precedeu a confissão:

“Ai, esqueci o que eu tava falando…”

Entre risos constrangidos, a intérprete ainda buscava uma fresta no muro sem saída quando Dilma voltou da estratosfera sobraçando uma maluquice intraduzível:

“Só um pouquinho… No Brasil, se diz eu engrenei uma primeira e fui!”.

Já foi tarde.

O PAÍS QUE DECIDE SEU FUTURO POR SORTEIO

Até um capinha aposentado sabe que, dos quatro integrantes da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal, só Celso de Mello poderá assumir as funções de relator dos casos da Lava Jato sem que o Brasil perca o sono. Como aqui já se escreveu, ministro nenhum conseguirá deter o avanço da dedetização do país. Se tentar, será varrido pelo povo. Mas as três togas que estarão no sorteio com Celso de Mello dificilmente resistirão a truques, trapaças e trapalhadas que acabem retardando a conclusão da faxina colossal.

Um país que decide seu futuro por sorteio, aliás, também deveria eleger o presidente do Senado num jogo de palitinho e o presidente da Câmara no par ou ímpar. Os vencedores não seriam piores que Eunício de Oliveira e Rodrigo Maia.

A NOITE EM QUE ESCAPEI DE PAGAR A CONTA DO JANTAR COM EIKE

Em 30 de agosto de 2010, durante a entrevista de Eike Batista ao Roda Viva, a apresentadora Marília Gabriela quis saber onde o entrevistado guardava a montanha de dinheiro que há dois anos lhe vinha garantindo uma vaga no ranking da revista Forbes que agrupa os mais ricos do planeta. “Todos os meus recursos estão todos aplicados”, enfatizou o magnata que nunca tinha no bolso alguns trocados para o garçom ou para o flanelinha. “Você tem alguma coisa guardada?”, entrei na conversa. “Nãããooo”, enfatizou o entrevistado. “Meus recursos estão todos aplicados em meus projetos…”

Subitamente confuso, estacionou nas reticências, procurou em vão o fio da meada e soltou a frase sem nexo: “Por acaso, eu durmo bem”. Feita a ressalva amalucada, retomou o palavrório: “Mas esses meus projetos… quer dizer… projetos bem ‘engenheirados’ pagam todas as contas.” Aproveitei a pausa para dirimir a dúvida que me assaltara desde que conheci Eike Batista: “Quer dizer que se a gente sair para jantar eu pago a conta?”. Ele fugiu da resposta com um convite: “Vem comigo”. Ainda bem que não fui, disse-me no dia seguinte um amigo que sabe das coisas e conhecia muito bem o personagem: “Você não só pagaria a conta como, antes da sobremesa, compraria um lote de títulos de empresas que nunca existirão”.

O NOVO BRASIL VAI ATROPELAR QUEM OBSTRUIR O CAMINHO DA LAVA JATO

Pouco importa o nome do próximo relator dos casos da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, cujas atribuições incluem a homologação dos acordos de delação premiada. A ofensiva contra a corrupção sempre esteve acima dos humores e opiniões de Teori Zavascki. Da mesma forma, não estará subordinada aos impulsos e vontades da toga encarregada de substituir o ministro morto.

A operação que ontem decretou a prisão de Eike Batista e outros vigaristas sempre dependeu do apoio militante dos milhões de brasileiros decentes, todos fartos de ladroagem, cinismo e impunidade. Ai do ministro que ceder à tentação de obstruir a dedetização dos porões do país. Será varrido pela nação do país decidido a castigar exemplarmente a trupe de farsantes liderada por Lula.

Ninguém mais segura a Lava Jato. Palavra do novo Brasil.

LULA É EIKE BATISTA AMANHÃ

Lula é o Eike Batista da política, Eike é o Lula do empresariado, começou o texto que escancarou, em outubro de 2013, um punhado de semelhanças entre os dois destaques do elenco da Ópera dos Vigaristas. Um inventou o Brasil Maravilha, que só existe na papelada registrada em cartório. Outro ergueu o Império X – no caso, X é igual a nada.

O pernambucano falastrão que inaugurou uma proeza por dia se elogiava de meia em meia hora por ter feito o que não fez. O mineiro gabola que ganhava uma tonelada de dólares por minuto se cumprimentava o tempo todo pelo que disse que faria e não fez.

O presidente sem similares prometeu para 2010 a transposição das águas do São Francisco. O rio permanece no mesmo leito. O empreendedor incomparável adora gerúndios e só conjuga verbos no futuro. Estava fazendo um buquê de portos. Iria fazer coisas de que até Deus duvida. Não concluiu sequer a reforma do Hotel Glória.

Lula se intitulou o maior dos governantes desde Tomé de Souza sem ter concluído uma única obra visível. Eike entrou e saiu do ranking dos bilionários da revista Forbes sem que alguém conseguisse enxergar a cor do dinheiro.

Lula berrou em 2007 que a Petrobras tornara autossuficiente em petróleo o país que, graças às jazidas do pré-sal, logo estaria dando as cartas na OPEP. A estatal agora coleciona prejuízos e o Brasil importa combustível. Eike vivia enchendo milhões de barris na demasia de jazidas que continuam enterradas no fundo do Atlântico. Não vendeu uma única gota.

Político de nascença, Lula enriqueceu como camelô de empreiteiros. Filho de um empresário muito competente, Eike adiou a falência graças a empréstimos fabulosos do BNDES (com juros de mãe extremosa e prestações a perder de vista), parcerias com estatais (sempre prontas para financiar aliados do PT com o dinheiro dos pagadores de impostos) e adjutórios obscenos do governo federal.

Lula só poderia chegar ao coração do poder num lugar onde tanta gente confia em eikes batistas. Eike só poderia ter posado de gênio dos negócios num país que acredita em lulas.

É natural que tenham viajado tantas vezes no mesmo jatinho. É natural que se tenham entendido tão bem. Nasceram um para o outro. Os dois são vendedores de nuvens. Mentem mais que espião de cinema. Enquanto festejavam a fortuna da Petrobras guardada no fundo do mar, saquearam a empresa em terra firme. É previsível que tenham o mesmo destino.

Nesta sexta-feira, o empresário que o ex-presidente apresentava como exemplo para o país soube que terá de purgar na cadeia seus incontáveis pecados. O ex-presidente que o empresário promoveu a estadista do século logo seguirá seus passos. Lula é Eike amanhã.

O MOTIVO DO SUMIÇO DAS CÂMERAS DO PLANALTO TEM NOME: LINA VIEIRA

As incontáveis abjeções produzidas pela usina fora-da-lei que funcionou no Planalto por mais de 13 anos não cabem no noticiário jornalístico, tampouco na memória dos brasileiros. O escândalo da vez não fica na vitrine mais que algumas horas. É muita bandalheira para pouco espaço. É muita pauta para pouco repórter. É delinquência demais para um país só. É tanta obscenidade que, nesta segunda década do século 21, o que houve na primeira parece anterior ao Velho Testamento. Isso ajuda a explicar a curta escala nas manchetes feitas pelo sumiço das câmeras de vigilância do Planalto, assombro divulgado em entrevista à revista Veja pelo general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

A remoção dos aparelhos ocorreu no segundo semestre de 2009, informou Etchegoyen. Se tivesse consultado os jornais da época, teria descoberto que o motivo da remoção dos aparelhos teve (e tem) nome e sobrenome: Lina Vieira, secretária da Receita Federal afastada do cargo em agosto daquele ano. Entre a história protagonizada por ela e a entrevista do chefe do GSI passaram-se apenas sete anos – e no entanto o resgate do caso parece coisa de arqueologista.

Aos fatos.

Em 9 de agosto de 2009, numa entrevista à Folha, Lina Vieira fez revelações que escancaram a causa da sua substituição. Fora demitida por honestidade.

Estava marcada para morrer desde o fim de 2008, quando fez de conta que não entendeu a ordem transmitida por Dilma Rousseff, então chefe da Casa Civil, numa reunião clandestina ocorrida no Planalto: “agilizar”a auditoria em curso nas empresas da família do ex-presidente José Sarney. Em linguagem de gente, deveria encerrar o quanto antes as investigações, engavetar a encrenca e deixar em paz os poderosos pilantras. Dilma poderia alegar que não dissera o que disse. Como serial killers da verdade primeiro mentem para só depois pensarem em álibis menos mambembes, resolveu afirmar que a conversa nunca existiu.

Lina pulverizou a opção pelo cinismo com uma saraivada de minúcias contundentes. Contou que o convite para a reunião foi feito pessoalmente por Erenice Guerra, braço-direito, melhor amiga de Dilma e gatuna ainda sem ficha policial. Como confirmou Iraneth Weiler, chefe de gabinete da secretária da Receita, Erenice apareceu por lá para combinar a data e o horário da reunião. Também queria deixar claro que, por ser sigiloso, o encontro não deveria constar das agendas oficiais. Em depoimento no Senado, descreveu a cena do crime, detalhou o figurino usado pela protetora da Famiglia Sarney e reproduziu o diálogo constrangedor.

“Foi uma conversa muito rápida, não durou dez minutos”, resumiu. “Falamos sobre algumas amenidades e, então, Dilma me perguntou se eu podia agilizar a fiscalização do filho de Sarney”. No fecho do depoimento, repetiu a frase com que o abrira: “A mentira não faz parte da minha biografia”. As informações que fornecera permitiriam a qualquer investigador de chanchada esclarecer a delinquência em poucas horas. Mas Franklin Martins, ministro da Propaganda de Lula, achou pouco. “O ônus da prova cabe ao acusador”, declamou. “Cadê as provas?”.

Estão no Palácio do Planalto, reiterou Lina. Como dissera durante a inquisição dos senadores, ela chegou sozinha para o encontro noturno, teve a placa do carro anotada ao entrar pela garagem, passou pelo detector de metais, deixou o nome na portaria, subiu pelo elevador, esperou na sala ao lado de duas pessoas e caminhou pelo andar. “É só requisitar as filmagens”, sugeriu. “Não sou invisível. Não sou fantasma”. Logo se soube que, no sistema de segurança instalado no coração do poder, todo mundo virava fantasma um mês depois de capturada por alguma câmera. Numa espantosa nota oficial, o bando fantasiado de governo confessou que as imagens eram guardadas por 31 dias.

Haviam sido destruídas, portanto, as cenas do entra-e-sai de outubro e novembro de 2008, entre as quais as que documentaram as andanças de Lina Vieira. E os registros na garagem? Esses nunca existiram. Como o serviço de segurança à brasileira confia na palavra dos visitantes, tanto as placas dos carros oficiais quanto a identidade de quem zanza por ali não são registradas em papéis ou computadores. O porteiro limita-se a perguntar ao motorista se há uma autoridade a bordo. Assim, o governo não tinha como atender às interpelações de parlamentares oposicionistas.

Conversa de 171.

Acobertados pela mentira, os sherloques a serviço da bandidagem destruíram as gravações. A ex-presidente fantasiada de mulher honrada enquadrou-se, sempre em parceria com Lula, nos crimes de ocultação de provas e obstrução da Justiça. As câmeras foram escondidas em lugar incerto e não sabido. Nunca mais deram as caras no palácio. Nos sete anos seguintes, os quadrilheiros com direito a foro privilegiado agiram com a desenvoltura de quem se livrara até daquele simulacro de esquema de vigilância. Deu no que deu.

O DONO DO TRIPLEX

“A luta para que todos tenham direito a uma moradia digna não é caso de polícia”

Lula, ao defender Guilherme Boulos pelo Facebook, insinuando que, assim como o arruaceiro milionário detido por desobediência civil, tem todo o direito de ter um triplex no Guarujá e um sítio em Atibaia.

MOSQUITA EM PERIGO

O ano em frases – Fevereiro

“Então, nós temos de combater o mosquito nas nossas casas. Por que que ele está nas nossas casas? Porque se o mosquito gosta de fruta, de inseto, enfim, o mosquito não é o mosquito macho. Ele não pica as pessoas, quem pica e gosta de se alimentar do sangue humano é a mosquita. E ela é sensível ao cheiro”.

Dilma Rousseff, no programa de comícios Minha Casa, Minha Vida, ensinando que é a mosquita que gosta de gente.

SOBRAL PINTO PULVERIZA A CONVERSA FIADA DOS BACHARÉIS DO PETROLÃO

Momentos de 2016 – (Publicado em 19 de janeiro)

Os mentores do manifesto dos advogados a favor da bandidagem do Petrolão deveriam ter promovido a primeiro signatário, in memoriam, o mestre Márcio Thomaz Bastos, morto em novembro de 2014. Todos sempre foram discípulos do jurista que transformou o gabinete de ministro da Justiça em fábrica de truques concebidos para eternizar a impunidade dos quadrilheiros do Mensalão. Todos são devotos do criminalista que, desde que o freguês topasse pagar os honorários cobrados em dólares por hora trabalhada, enxergava filhos extremosos até em parricidas juramentados.

Coerentemente, o manifesto dos bacharéis, na forma e no conteúdo, é uma sequência de exumações da fórmula aperfeiçoada por Márcio para defender o indefensável. À falta de munição jurídica, seu tresoitão retórico alvejava a verdade com tapeações, falácias e chicanas. Em artigos, entrevistas ou discurseiras, ele primeiro descrevia o calvário imposto a outro cidadão sem culpas por policiais perversos, promotores desalmados e juízes sem coração. Depois, fazia o diabo para absolver culpados e condenar à execração perpétua os defensores da lei. Foi o que fizeram os parteiros do manifesto abjeto.

Os pupilos hoje liderados por um codinome famoso – Kakay – certamente guardam cópias do texto do mestre publicado na Folha em junho de 2012. “Serei eu o juiz do meu cliente?”, perguntou Márcio no título do artigo que clamava pela imediata libertação do cliente Carlinhos Cachoeira (”Carlos Augusto Ramos, chamado de Cachoeira”, corrigiu o autor). “Não o conhecia, embora tivesse ouvido falar dele”, explicou. Ouviu o suficiente para cobrar R$15 milhões pela missão de garantir que o superbandido da vez envelhecesse em liberdade.

A pergunta do título foi reiterada no quinto parágrafo: “Serei eu o juiz do meu cliente?” Resposta: “Por princípio, creio que não. Sou advogado constituído num processo criminal. Como tantos, procuro defender com lealdade e vigor quem confiou a mim tal responsabilidade”. Conversa fiada, ensinara já em outubro de 1944 o grande Heráclito Fontoura Sobral Pinto, num trecho da carta endereçada ao amigo Augusto Frederico Schimidt e reproduzida pela coluna. Confira:

“O primeiro e mais fundamental dever do advogado é ser o juiz inicial da causa que lhe levam para patrocinar. Incumbe-lhe, antes de tudo, examinar minuciosamente a hipótese para ver se ela é realmente defensável em face dos preceitos da justiça. Só depois de que eu me convenço de que a justiça está com a parte que me procura é que me ponho à sua disposição”.

“Não há exagero na velha máxima: o acusado é sempre um oprimido”, derramou-se Márcio poucas linhas depois. “Ao zelar pela independência da defesa técnica, cumprimos não só um dever de consciência, mas princípios que garantem a dignidade do ser humano no processo. Assim nos mantemos fiéis aos valores que, ao longo da vida, professamos defender. Cremos ser a melhor maneira de servir ao povo brasileiro e à Constituição livre e democrática de nosso país”.

Com quase 70 anos de antecedência, sem imaginar como seria o Brasil da segunda década do século seguinte, Sobral Pinto desmoralizou esse blá-blá-blá de porta de delegacia com um parágrafo que coloca em frangalhos também a choradeira dos marcistas voluntariamente reduzidos a carpideiras de corruptos confessos. A continuação da aula ministrada por Sobral pulveriza a vigarice:

“A advocacia não se destina à defesa de quaisquer interesses. Não basta a amizade ou honorários de vulto para que um advogado se sinta justificado diante de sua consciência pelo patrocínio de uma causa. O advogado não é, assim, um técnico às ordens desta ou daquela pessoa que se dispõe a comparecer à Justiça. O advogado é, necessariamente, uma consciência escrupulosa ao serviço tão só dos interesses da justiça, incumbindo-lhe, por isto, aconselhar àquelas partes que o procuram a que não discutam aqueles casos nos quais não lhes assiste nenhuma razão”.

“A pródiga história brasileira dos abusos de poder jamais conheceu publicidade tão opressiva”, fantasiou o artigo na Folha. “Aconteceu o mais amplo e sistemático vazamento de escutas confidenciais. (…) Estranhamente, a violação de sigilo não causou indignação. (…) Trocou-se o valor constitucional da presunção de inocência pela intolerância do apedrejamento moral. Dia após dia, apareceram diálogos descontextualizados, compondo um quadro que lançou Carlos Augusto na fogueira do ódio generalizado”.

Muitos momentos do manifesto que parecem psicografados por Márcio. Onde o mestre viu fogueiras do ódio, os discípulos enxergaram uma Inquisição à brasileira. Como o autor do artigo da Folha, os redatores do documento se proclamam grávidos de indignação com “o menoscabo à presunção de inocência (…), o vazamento seletivo de documentos e informações sigilosas, a sonegação de documentos às defesas dos acusados, a execração pública dos réus e a violação às prerrogativas da advocacia”.

Sempre que Márcio Thomaz Bastos triunfava num tribunal, a Justiça sofria mais um desmaio, a verdade morria outra vez, gente com culpa no cartório escapava da cadeia, crescia a multidão de brasileiros convencidos de que aqui o crime compensa e batia a sensação de que lutar pela aplicação rigorosa das normas legais é a luta mais vã. A Lava Jato vem mostrando ao país, quase diariamente, que ninguém mais deve imaginar-se acima da lei.

Neste começo de 2016, todo gatuno corre o risco de descobrir como é a vida na cadeia. O juiz Sérgio Moro, a força-tarefa de procuradores e os policiais federais engajados na operação desafiaram a arrogância dos poderosos inimputáveis ─ e venceram. O balanço da Lava Jato divulgado em dezembro atesta que, embora a ofensiva contra os corruptos da casa-grande esteja longe do fim, o Brasil mudou. E mudou para sempre.

Todo réu, insista-se, tem direito a um advogado de defesa. Mas doutor nenhum tem o direito de mentir para livrar o acusado que contratou seus serviços de ser punido por crimes que comprovadamente cometeu. O advogado é o juiz inicial da causa. Não pode agir como comparsa de cliente bandido.

BALANÇO: A MORTE DA ERA DA CANALHICE

Quem acha que o Brasil já não tem salvação, que nem capim voltará a crescer na terra arrasada por oito anos de Lula e cinco de Dilma, que depois da passagem dessas duas cavalgaduras do Apocalipse está tudo para sempre dominado – quem acredita, enfim, que a única saída é o aeroporto deve adiar a compra do bilhete e visitar o site da Lava Jato. O balanço da operação – ainda muito longe do fim, insista-se – informa que os bandidos perderam. Valeu a pena a luta travada nos últimos 13 anos pela resistência democrática. O projeto criminoso de poder fracassou.

A Era da Canalhice está morrendo em Curitiba, atesta o quadro abaixo. Os números resumem o que aconteceu entre entre março de 2014, quando as investigações se concentraram no bando do Petrolão, e 18 de dezembro de 2015. “Até o momento, são 80 condenações, contabilizando 783 anos e 2 meses de pena”, avisa o tópico que fecha o cortejo de cifras superlativas. Algumas são decididamente assombrosas, como a que revela que “os crimes já denunciados envolvem pagamento de propina de cerca de R$ 6,4 bilhões”. A herança maldita do lulopetismo anexou a criação do pixuleco bilionária.

Confrontados com o maior esquema corrupto forjado desde o dia da Criação, os escândalos protagonizados pelos quadrilheiros do Mensalão e da FIFA parecem coisa de black bloc. A roubalheira consumada pelos 37 mensaleiros julgados em 2012, por exemplo, foi orçada em R$ 141 milhões pela Procuradoria Geral da República. Somadas as condenações ao regime fechado, aberto e semiaberto, as penas mal chegaram a 270 anos. E o Supremo Tribunal Federal só tratou com severidade os desprovidos de imunidades parlamentares.

A maioria dos ministros mostrou-se tão branda com a ala dos políticos que José Dirceu já dormia em casa quando foi devolvido à cadeia pelo que fez no Petrolão. A performance do reincidente sem remédio sugere que, se não tivesse entrado na mira do juiz Sérgio Moro, da força-tarefa de procuradores e da Polícia Federal, o ex-chefe da Casa Civil de Lula poderia igualar em poucos meses a quantia embolsada ao longo de 24 anos pelos cartolas da FIFA algemados por agentes do FBI e indiciados pela Justiça americana: 200 milhões de dólares.

Duas linhas do balanço – “40 acordos de colaboração premiada firmados com pessoas físicas” – ajudam a entender a angústia dos advogados que, por falta de álibis consistentes e truques eficazes, trocaram tribunais por manifestos ditados por doutores da Odebrecht e agora fingem enxergar na Lava Jato a versão brasileira da Inquisição. Para bacharéis especializados em canonizar culpados e insultar homens da lei, são 40 clientes a menos. O desespero dos doutores com a redução da freguesia será decerto aguçado pelo levantamento da Procuradoria Geral da República divulgado no Estadão desta segunda-feira.

Entre março de 2014 e dezembro passado, defensores dos quadrilheiros apresentaram 413 recursos a instâncias superiores. Desse total, apenas 16 reclamações foram aceitas, integralmente ou em parte. O STF, por exemplo, rejeitou 50 dos 54 recursos ali julgados. Tudo somado, menos de 4% das decisões do juiz Sérgio Moro foram reformadas. O levantamento pulveriza a lengalenga dos signatários do papelório que tentou transformar os condutores da Lava Jato em torturadores dos presos políticos que saquearam a Petrobras.

“Magistrados das altas cortes estão sendo atacados ou colocados sob suspeita para não decidirem favoravelmente aos acusados”, fantasiou um trecho do manifesto a favor do Petrolão. “Pura fumaça”, replicou uma nota da Associação dos Juízes Federais. Quem vê as coisas como as coisas são enxerga, atrás da fumaça, uma vigarice de quinta categoria – e mais uma evidência de que os vilões do faroeste à brasileira não escaparão do final infeliz.

Infeliz para eles, naturalmente.

A FONTE SECOU

Em fevereiro de 2014, uma campanha realizada pelo PT arrecadou, em 10 dias, R$ 920.694,38 para pagar a multa imposta a José Dirceu pelo envolvimento no escândalo do mensalão. Condenado a 7 anos e 11 meses pelo crime de corrupção ativa, o subchefe da quadrilha do mensalão conseguiu o apoio de 3.972 doadores. Meses antes, recorrendo ao mesmo método, José Genoíno havia arrecadado quase R$ 700 mil e, Delúbio Soares, R$ 1,013 milhão.

Proibida de usar o avião oficial enquanto aguardava o desfecho do impeachment, a ex-presidente Dilma Rousseff também surfou na onda do financiamento coletivo online. Com 11.471 adesões, a campanha que pretendia bancar as viagens de Dilma pelo país não dobrou, mas ultrapassou com folga a meta inicial de R$ 500 mil, conseguindo R$ 791.996.

Animados com o sucesso das anteriores, o PT tinha certeza de que a vaquinha ‘Por um Brasil Justo pra Todos e pra Lula’, “parte de um esforço nacional e internacional de defesa da democracia, do Estado de Direito e do ex-presidente Lula” – de acordo com a explicação no site da campanha – juntaria alguns milhões de pixulecos em poucos minutos. O desfecho foi bem diferente. Encerrada neste sábado, a campanha, que contou com 2.381 doadores, recebeu R$ 270.051 – bem abaixo do dos R$ 500 mil pretendidos.

O fracasso da vaquinha não dissuadiu o PT da ideia de lançar a candidatura de Lula à Presidência da República ainda no primeiro semestre de 2017. Com o fim das obesas contribuições das empreiteiras e dos convites para palestras que chegaram a render quase R$ 500 mil por hora, vai ser difícil financiar até campanhas para eleger síndicos de prédios no Guarujá. Se depender dos militantes, o afoito candidato à disputa presidencial de 2018 não conseguirá dinheiro suficiente sequer para 10 comícios.

TCHAU, PT!

“As pessoas têm que se indignar com a corrupção. A corrupção é praga, né?”

Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, conclamando os brasileiros para nunca mais votarem no PT.

O DIREITO DE AMPLA DEFESA NÃO INCLUI A LICENÇA PARA MENTIR

Os advogados de Lula destacados para combater a Lava Jato na frente curitibana são capazes de ver com nitidez assombros inacessíveis ao olhar dos seres normais. Eles conseguem enxergar, por exemplo, a luz da compaixão na face oculta de um degolador do Estado Islâmico. Ou traços de doçura e tolerância na alma de um black-bloc. Ou, ainda, a marca da clemência no coração de um estuprador compulsivo. Em contrapartida, não conseguem enxergar os limites da desfaçatez, nem a linha divisória onde acaba a veemência e começa a boçalidade. É natural que gente assim imagine que o direito de ampla defesa inclui a licença para mentir.

Heráclito Fontoura Sobral Pinto ensinou que o advogado é o primeiro juiz da causa. Se o cliente matou alguém, o doutor que o defende não pode negar a existência do homicídio – tampouco alegar que o autor do crime, ao atirar no peito da vítima, no fundo pretendia explodir a própria testa. O papel reservado a advogados éticos, explicou o grande jurista, é a apresentação de atenuantes que abrandem a pena e, caso tornem justificável o assassinato, livrem o cliente da prisão. Os que exterminam a verdade não são mais que rábulas dispostos a tudo para impedir que se faça justiça. A essa linhagem pertencem os doutores a serviço do ex-presidente metido (por enquanto) em cinco casos de polícia.

Ainda bem que Sobral Pinto não viveu para ver o Brasil degradado e envilecido por 13 anos de hegemonia do clube dos cafajestes. Certamente seria tratado como otário pela turma que se orienta nos tribunais pelo primeiro mandamento de todas as ramificações da imensa tribo dos canalhas: os fins justificam os meios. Manter Lula fora da gaiola é o fim que justifica mentiras, mistificações, chicanas, vigarices e todos os golpes abaixo da cintura do juiz Sérgio Moro. O vale-tudo repulsivo, tramado há poucas semanas num jantar que reuniu sacerdotes da seita que tem como único deus o celebrante de missas negras, tem sido escancarado nas audiências presididas pelo magistrado que personifica a Lava Jato.

Os bucaneiros escalados para o fuzilamento da lei, da ética, da moral e dos bons costumes interrompem falas dos representantes do Ministério Público, dirigem-se aos gritos a Moro e, a cada dois minutos, exigem a submissão do juiz às quatro palavras mágicas: direito de ampla defesa. Conversa fiada. O pelotão dos data vênia sonha com a voz de prisão por desacato à autoridade que até agora não ouviu. Nem ouvirá, avisa quem conhece o alvo das provocações. Desprovido de argumentos, desculpas, pretextos ou explicações minimamente aceitáveis, que amparassem ao menos a montagem de um simulacro de defesa, Lula merece a presidência de honra do Movimento dos Sem-Álibi.

Uma a uma, as invencionices foram demolidas por provas e evidências contundentes. Lula se fantasiou de perseguido político. Sítios e apartamentos o devolveram à condição de criminoso comum. Fez-se de vítima de rancores de Moro. Virou réu em vários processos por decisão de outros magistrados. Denunciou uma trama arquitetada para liquidar o PT. A maluquice ruiu com as baixas feitas pela Lava Jato no PMDB e com a entrada de políticos do PSDB no pântano do Petrolão. A adoção da estratégia do jogo sujo só serviu para consolidar a certeza de que falta alguém em Curitiba.

Quem age assim não merece o benefício da dúvida. Nem precisa de julgamento: no Brasil democrático, nenhum inocente jamais fugiu do juiz.

NO MUNDO DA FANTASIA

“Em sintonia com o sentimento da maioria da população, para recuperar a democracia violentada pelo golpe e para retomar o crescimento econômico com distribuição de renda, geração de empregos e inclusão social, ‘Diretas’ o quanto antes!”

Rui Falcão, presidente do PT, em artigo publicado no site do partido, confirmando que há muito tempo não anda a pé pelas ruas nem embarca sem disfarces num avião de carreira.

“Acho que falei merda aí em cima…”

NOCAUTEADA PELO JORNALISMO INDEPENDENTE

No melhor momento da entrevista concedida a Mehdi Hasan, da TV Al-Jazeera, Dilma Rousseff foi finalmente confrontada com a obviedade que está há alguns anos na ponta da língua dos jornalistas independentes. “Alguns dizem que ou você sabia o que estava acontecendo, o que a tornaria cúmplice, ou não sabia de nada, o que te faria uma incompetente”, constatou o repórter, que em seguida quis saber “qual das duas versões era a correta”. Perfeito. Como repete esta coluna desde o começo dos estrondos da Operação Lava Jato, ou Dilma agiu como comparsa ou o Brasil foi governado durante cinco anos por uma inepta sem cura. Não há uma terceira opção.

Tanto não há que a entrevistada ficou mais encalacrada ainda ao caçar argumentos sem pé nem cabeça. “Meu querido, esta é o tipo da escolha de Sofia, que eu não entro nela. Porque não é isso que acontece. Há uma diferença, e há no mundo inteiro, entre um conselho e uma diretoria executiva. Nem todos os membros da diretoria sabiam que aqueles diretores da Petrobras estavam fazendo… é… tinham mecanismos de corrupção e estavam se enriquecendo de outra… de forma indevida”. Fim do vídeo. Está explicado por que o poste de terninho, desde o primeiro dia no Palácio do Planalto, fugiu de entrevistadores sem medo de cara feia como o diabo foge da cruz ou Lula foge de Sérgio Moro.

Ela passou mais de cinco anos driblando jornalistas de verdade alegando “problemas na agenda” que nunca apareciam quando a entrevista era solicitada por blogueiros estatizados, colunistas sabujos, humoristas a favor e repórteres que se impressionavam até com a leitora voraz que esquecia o título e o autor da obra que jurava ter acabado de ler na véspera. Talvez por imaginar que a Al-Jazeera é uma TV palestina (e portanto amiga), a governante aposentada pelo povo protagonizou o desastre parcialmente exposto na gravação abaixo.

“Você não nega que existiu um escândalo de três bilhões de dólares na Petrobras, que havia corrupção em massa envolvendo a Petrobras, você, claramente, não nega isso”, parte para o ataque o jornalista. “No”, balbucia a carranca levada às cordas pela frase seguinte: “E você nega que integrantes do PT, incluindo o tesoureiro, seu marqueteiro e seu chefe de gabinete, estiveram envolvidos nisso? Dilma capricha na pose de quem prepara um pito daqueles que aterrorizavam Guido Mantega e ergue a voz: “Enquanto não ‘julgares’, enquanto não julgarem, eu não vou julgar. Não é meu papel aqui julgar ninguém, porque eu não vou dizer e não vou…”

O jornalista fecha o cerco e o duelo vira um Brasil e Alemanha:

– Mesmo pessoas que foram presas e julgadas, como o tesoureiro do PT? — entra na pequena área o artilheiro alemão.

– Eu não vou dizer…

– Você não vai comentar?

– Não, eu não…

– Você não tem vergonha do afundamento do PT?”

– Não é essa a questão!

– Você não nega que existiu um escândalo na Petrobras.

– Não nego.

– Alguns dizem que, dado o cargo que a você ocupou por um longo período e, depois, como presidente…

– Que eu devia saber?

Foi a deixa para a consumação do nocaute impiedoso relatado no primeiro parágrafo. Ainda grogue, a entrevistada não abriu a boca sobre o fiasco incomparável.

Permanecem desconhecidos os efeitos da pancadaria sobre o neurônio solitário.

Dependendo dos danos, nem Dilma vai saber se foi cumplicidade, se foi incompetência ou se foi a soma dos dois defeitos de fabricação.

BRASIL MARAVILHA

“O golpe foi feito para que os ricos assumissem o poder no país. Nós fizemos mal ao país quando colocamos o filho do pobre da periferia na universidade e conseguimos fazer com que as crianças parassem de morrer de desnutrição infantil. Se esse é o mal que eu fiz ao Brasil, pode esperar que eu vou continuar fazendo”

Lula, que ainda vive em outro planeta, numa discurseira para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, revelando que a Operação Lava Jato, o desemprego e a crise econômica do Brasil real ainda não chegaram ao Brasil Maravilha que ele registrou no cartório em 2010.

O INÍCIO DA CONFISSÃO DOS ODEBRECHT ANUNCIA O FIM DO AMIGO LULA

Dura é a vida de petista no Brasil da Lava Jato. No começo desta semana, por exemplo, a seita dos devotos de Lula fez o possível para animar-se com o desempenho do chefão no Datafolha. A pesquisa informa que, se a eleição de 2018 fosse realizada agora, o único líder popular do mundo que só se apresenta para plateias amestradas venceria no primeiro turno candidatos que, como ele, acabarão impugnados pela Odebrecht. Se o índice obtido pelo ex-presidente não é lá essas coisas, a taxa de rejeição está perto de 50%. Metade do eleitorado quer ver pelas costas o antigo campeão de popularidade. O que restou do PT também fez o possível para entusiasmar-se com a chegada da Lava Jato a figurões do PMDB instalados na cúpula do governo Michel Temer, como se ninguém soubesse que a ladroagem do Petrolão resultou da parceria entre o partido do governo e a sigla que não consegue respirar longe do poder.

O restante da semana reafirmou que, no Brasil enfim inconformado com a canalhice hegemônica, alegria de adorador de gatuno agora dura pouco. Nesta quinta-feira, a ofensiva contra os corruptos foi retomada pelas primeiras revelações de Marcelo Odebrecht e pelo detalhamento de bandalheiras envolvendo o patrimônio imobiliário do ex-presidente. Como insiste em jurar que não lhe pertencem propriedades que ganhou de empreiteiros amigos, o dono do triplex no Guarujá e do sítio em Atibaia só não recebeu de Guilherme Boulos uma carteirinha de sócio do clube dos sem-teto por ter registrado em cartório a posse do apartamento onde mora em São Bernardo. Alcançada no fígado pelo primeiro golpe da Odebrecht, a defesa de Lula avisou que não comentaria “especulação de delação” e enfiou o rabo entre as pernas.

O que a tropa de bacharéis sem álibi chama de “especulação” reduziu sensivelmente a distância que separa seu cliente da cadeia. Na segunda-feira e na terça, já nos depoimentos inaugurais, Marcelo Odebrecht confirmou que fez pagamentos ao ex-presidente, alguns deles em espécie. Os maços de cédulas foram providenciados pelo Setor de Operações Estruturadas, codinome do departamento de propinas da maior empreiteira do país. O Ministério Público e a Polícia Federal já podem provar que é Lula o “Amigo”, codinome que identifica nas planilhas o beneficiário de 23 milhões de reais. Desse total, 8 milhões de reais foram pagos em 2012, “sob solicitação e coordenação de [Antonio] Palocci”, informa o relatório de indiciamento do ex-ministro dos governos Lula e Dilma, hoje dando expediente na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

Só na terça-feira, a abertura da caixa-preta controlada por Marcelo Odebrecht, acompanhada por dois advogados e quatro procuradores federais, consumiram 10 horas de revelações. Não é pouca coisa, e no entanto é um quase nada diante do que está por chegar. Além de Marcelo, o herdeiro que sabe muito, logo estará em cena o patriarca que tudo sabe. O codinome do mais poderoso lobista a serviço do departamento de bandidagens da empreiteira foi sugerido pela fraterna ligação que unia o ex-presidente a Emilio Odebrecht, que cuidava pessoalmente da estratégica parceria com o Amigo. O começo da confissão de Marcelo acabou com a amizade. O depoimento de Emílio vai acabar com Lula.

MISSÃO INTERROMPIDA

“Estamos defendendo a renúncia do presidente Temer o mais rápido possível, porque ele perdeu a legitimidade, as condições políticas para continuar. E fazermos eleições diretas o mais rapidamente possível. Eleição presidencial apenas é a maneira de conquistarmos algo”.

Humberto Costa, líder do PT no Senado, sonhando com a volta ao poder do bando que insiste em concluir a missão de destruir o Brasil.

TROPA DE RÁBULAS TENTA IRRITAR SÉRGIO MORO

Por falta de álibis e excesso de delinquências, a tropa de advogados encarregada de livrar Lula da cadeia agora recorre à tática da insolência para tumultuar audiências presididas por Sérgio Moro. Sem argumentos para defender um recordista em pilantragem, os bacharéis atacam o magistrado. Não argumentam, nem ponderam; provocam, debocham e mentem. O sonho dos rábulas é a prisão por desacato à autoridade, que seria apresentada como prova da alma truculenta do condutor da Lava Jato. O Brasil decente espera reabasteça o estoque de paciência, não caia na armadilha e espere o troco que inevitavelmente virá. Lula é réu em outros tribunais. A esperteza acabará reprisada diante de algum juiz federal que revidará o desaforo com a merecidíssima punição. Algumas horas de gaiola bastam para transformar o mais arrogante data vênia num cavalheiro exemplar.

Nesta segunda-feira, a ópera dos atrevidos recomeçou em Curitiba, durante a oitiva de Marilza da Silva Marques, engenheira responsável pelo atendimento a compradores de imóveis da OAS, que escoltou Marisa Letícia e seu filho Fábio Luís numa visita ao triplex do Guarujá. Na porta do edifício Solaris, mãe e filho foram recepcionados por Léo Pinheiro e Paulo Gordilho, executivos da construtora. A certa altura, o representante do Ministério Público Federal perguntou a Marilza como haviam sido tratados pelos anfitriões a ex-primeira-dama: “como uma possível compradora do imóvel ou como uma pessoa para quem esse imóvel já havia sido destinado”? Argumentando que a opinião da depoente não tinha importância legal, os advogados interromperam a pergunta três vezes. E mais interrupções viriam se Moro não ordenasse a retomada do depoimento.

“Fica um protesto aqui de novo…”, insistiu Juarez Cirino. Moro qualificou de “inconveniente” a teimosia do advogado. “A defesa não é inconveniente na medida em que estamos no exercício da ampla defesa”, replicou Cirino. O juiz avisou que a questão já fora indeferida. “Vocês não podem cassar a palavra da defesa”, desafiou o doutor, que desandou de vez ao ouvir do juiz que a lei lhe permitia confiscar a palavra de bacharéis inconvenientes. Segue-se a continuação do duelo:

Cirino: Não pode, porque estamos colocando uma questão muito importante, relevante, o procurador da República está pedindo a opinião da testemunha e ele não pode…

Sergio Moro: Doutor, o senhor está sendo inconveniente. Já foi indeferida sua questão, já está registrada e o senhor respeite o juízo.

Cirino: Eu, mas escute, eu não respeito Vossa Excelência enquanto não me respeita como defensor do acusado…

Sergio Moro (subindo a voz alguns decibéis):O senhor respeite, o senhor respeite o juízo. Já foi indeferido.

Cirino (no limite do berro): Vossa Excelência tem que me respeitar como defensor do acusado, aí então Vossa Excelência tem o respeito que é devido a Vossa Excelência, mas se Vossa Excelência atua como acusador principal, Vossa Excelência perde todo o respeito.

Sergio Moro: Sua questão já foi indeferida, o senhor não tem a palavra…” (Voltando-se para a depoente). A senhora pode responder essa questão? Ela era tratada como adquirente em potencial ou uma pessoa à qual o imóvel já tinha sido destinado?

E então Marilza encerrou a história:

“Tratada como se o imóvel já tivesse sido destinado”.

NADA DE MAIS

“Eu achei uma cretinice dele. Se eu fiz meu aniversário e ele me deu de presente uma garrafa de vinho, uma gravata, um relógio ou uma cesta de natal, eu não vou ficar perguntando ao cara quanto custou”.

Jaques Wagner, sobre a delação de Cláudio Melo Filho, que confessou ter amansado com presentes de grife o ex-ministro de Lula e Dilma, caprichando na pose de quem acha muito natural ganhar do vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, por exemplo, um relógio de US$ 20.000.

A DISTÂNCIA ENTRE UM E OUTRO DEVE SER MEDIDA EM ANOS-LUZ

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Decidido a escapulir da cadeia antes da chegada do verão, o ex-governador Sérgio Cabral resolveu tapear o juiz federal Marcelo Bretas. Para justificar mais um pedido de liberdade, seu advogado alegou que, se continuasse engaiolado em Bangu, o cliente estaria em perigo: alojados em alas próximas, traficantes de drogas planejavam vingar-se do famoso colega de ofício que ousara instalar nos morros que dominavam unidades da chamada polícia pacificadora.

Em vez do direito de ir e vir, Cabral conseguiu do juiz Bretas uma passagem só de ida para Curitiba, onde começou a dormir sem sustos no último sábado. Fez um mau negócio. Em Bangu desde 17 de novembro, o chefão do assalto ao Rio desfrutava da companhia de velhos comparsas e podia consolar-se com a proximidade da mulher, Adriana Ancelmo, instalada há dias no setor feminino do mesmo complexo penitenciário. Na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, virou vizinho de cela do concorrente Eduardo Cunha e ficou mais perto do juiz Sérgio Moro.

Geograficamente, o carioca Sérgio Cabral nem está tão longe assim da cidade natal: por via aérea, os 676 quilômetros em linha reta que separam as duas capitais podem ser vencidos em 51 minutos. O que agora deve ser medido em anos-luz é a distância escavada pelas descobertas da Operação Calicute (uma ramificação da Lava Jato) entre o prisioneiro deste dezembro e o folião à solta que protagoniza a gravação feita há quase sete anos.

No Carnaval de 2010, Sérgio Cabral era mais que um governador a caminho da reeleição sem sobressaltos: o que se vê e ouve no vídeo é um reizinho do Rio. Amigão de Lula, cabo eleitoral predileto da candidata Dilma Rousseff, saboreava a sabujice de diferentes partidos interessados em cooptar aquilo que parecia um nome perfeito para a vice-presidência em 2014. Poucos brasileiros imaginavam que o tesouro estadual estava na mira do governador e de um segundo Cavendish ainda mais guloso que o corsário inglês de outros séculos.

Não faltavam motivos, portanto, para Cabral exibir a euforia de passista de escola campeã no vídeo que o mostra em ação no camarote da Sapucaí. Ao apresentar a cantora Madonna a candidata Dilma Rousseff, o anfitrião assassina a língua inglesa (com requintes de selvageria) para informar que aquela mulher ao seu lado será a primeira a presidir o Brasil. Quem não viu precisa aproveitar imediatamente a chance de conhecer essa relíquia audiovisual. Quem já viu vai adorar a reprise.

Sérgio Cabral anda choramingando que a falta do que fazer torna infinito o dia na gaiola.

Que tal usar o tempo que agora tem de sobra para aprender inglês?

DUPLA DA PESADA

“Um ministro da Casa Civil envolvido com grilagem? Onde chegamos?”.

Lindbergh Farias, senador do PT do Rio de Janeiro, afundado até pescoço na Operação Lava Jato, sobre as acusações a Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil do governo Temer, indignado com a presença no cargo de alguém incapaz de igualar os prontuários de José Dirceu, primeiro chefe da Casa Civil de Lula, e Antonio Palocci, primeiro chefe da Casa Civil de Dilma, ambos engaiolados em Curitiba.

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PERDIDOS NO PLANALTO

“O PT ainda precisa se organizar na oposição”.

Afonso Florence, líder do PT na Câmara, reconhecendo que, depois de 13 anos no poder, é mais fácil o partido chegar a algum tipo de acordo numa carceragem de Curitiba do que no prédio do Congresso.

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PARECE ESMOLA PERTO DOS MILHÕES DE PIXULECOS DOADOS ANTES DA LAVA JATO

“Queridos amigos, queridas amigas, em novembro nós lançamos a campanha ‘Por um Brasil Justo pra Todos e pra Lula’, comunica já nos primeiros segundos do vídeo Gilberto Carvalho, ex-coroinha convertido em colecionador de pecados mortais, ex-secretário de governo de Dilma Rousseff e caixa-preta especializada na coleta de segredos de Santo André. “Esta campanha visa, na verdade, chegar a cada brasileiro, a cada brasileira, levando a interpretação correta do que está acontecendo neste Brasil do pós-golpe”, mente em seguida. “Nós sabemos que a perseguição ao Lula e aos militantes sociais é, no fundo, uma perseguição ao nosso projeto. É uma perseguição aos pobres, é uma perseguição aos direitos sociais que eles querem tirar”.

Com as mãos cruzadas de quem vai rezar um terço, voz mansa rimando com o meio sorriso de professor de catecismo para alunos do pré-primário, Carvalho começa a tratar do que realmente interessa aos produtores do vídeo: “Pra que a gente possa chegar de fato a cada brasileiro, a cada brasileira, através de atos públicos, através da produção de materiais que facilitem a interpretação dos fatos nós precisamos da tua ajuda. Por isso vimos aqui, através desse crowdfunding da catarse, pedir a tua ajuda. Seja generoso conosco, ajude a gente levar essa mensagem de democracia e de justiça a todo território nacional, a cada brasileiro, a cada brasileira. Muito obrigado”

O falatório precede o desfile de artistas que se exibem nos palanques do PT por falta de convites para apresentações nos palcos e na telinha. “O Brasil merece Justiça, mas não essa que tá por aí”, puxa o cortejo Tonico Pereira.”O Brasil merece uma imprensa democrática, não essa imprensa que está aí”, emenda Sérgio Mamberti. Dois ou três coadjuvantes ainda menos conhecidos depois, Chico César surge rodopiando numa cena sem parentesco visível com as anteriores. Reaparece Tonico Pereira: “A Justiça que o Brasil merece é independente e apartidária”, diz. “Chega de mentiras inventadas pelos jornais e pela televisão”, retorna Mamberti, sem esclarecer se o recado se estende à TV Globo, onde trabalha de vez em quando.

Nascida há dois dias, a vaquinha destinada a divulgar a perseguição a Lula atraíra, até a tarde desta sexta-feira, pouco mais de 320 doadores ─ e arrecadara menos de R$ 30 mil. É uma ninharia se confrontada com a meta: R$ 500 mil. Quem doa R$ 10 (17 pessoas até esta sexta), o valor mais baixo, é premiado com uma citação no site Brasil Justo pra Todos e nas redes sociais da campanha, uma foto da campanha autografada pelo autor em versão digital e um “vídeo de agradecimento”. Aqueles que optam pela quantia máxima (R$ 5 mil, valor que até esta sexta ninguém se animou a doar) ganham os três mimos e mais quatro: um poster decorativo da Campanha Por um Brasil justo para todos e para Lula, em versão impressa, cinco exemplares da publicação Golpe 16 – O Livro da blogosfera em defesa da democracia, com prefácio do ex-presidente Lula, uma foto da Campanha de autoria de Ricardo Stuckert no formato A3 e três fotos da Campanha de autoria de Ricardo Stuckert no formato A2.

Pelo visto, o dinheiro arrecadado por iniciativas pró-Lula desse gênero tem minguado como as plateias interessadas em seus discursos e os convites para palestras que meses atrás custavam quase 500 mil reais. Uma das explicações está na restrição estabelecida pelo site que hospeda a campanha: “Atenção: Só serão aceitas doações de pessoas físicas”. Ficam fora da vaquinha, portanto, as gordas contribuições das empreiteiras que tinham em Lula seu camelô antes da Operação Lava Jato. Como a mudança de governo desempregou muitos contribuintes potenciais, é compreensível que o dinheiro juntado até agora esteja a uma distância sideral dos milhões de pixulecos extorquidos até recentemente pelos operadores do PT.

AMIGOS PARA SEMPRE

“Jorge não é petista, é uma instituição suprapartidária”.

Renan Calheiros, ao comentar a articulação do vice Jorge Viana para que o Supremo não afastasse do cargo o presidente do Senado, provando que quem é parceiro de Lula e Dilma Rousseff se sente em casa ao lado de um cangaceiro alagoano.

jv

XERIFE BANDIDO

“A luta contra a corrupção no Brasil é parte da recuperação da cidadania e uma importante conquista da sociedade, que caminha ao lado do fortalecimento de seus direitos e garantias fundamentais. Como resultado desse movimento, o Brasil conseguiu nos últimos anos um eficaz arcabouço legal anticorrupção. A maior parte das conquistas neste campo foi introduzida durante os governos Lula e Dilma”.

Afonso Florence, líder do PT na Câmara, na nota em que tentou explicar que 54 dos 55 deputados do partido apoiaram as emendas que desfiguraram o texto original do projeto anticorrupção porque a roubalheira promovida pelo PT foi descoberta graças ao PT.

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CATADOR DE VIGARICES

“Eles cassaram a Dilma pelo que aconteceu com os catadores, com as empregadas domésticas, com o salário mínimo… Na cabeça deles, o filho de um catador de papel só pode ser catadorzinho de papelzinho. E nós queremos que ele seja doutor”.

Lula, repetindo a ladainha de sempre na Expocatadores, em Belo Horizonte, sem conseguir explicar por que, em vez de transformar os filhos dos catadores em “doutores”, quase conseguiu, em parceria com Dilma Rousseff, transformar todos os doutores, professores, profissionais liberais e donas de casa em catadores de papel.

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A CONSPIRAÇÃO DOS CORRUPTOS SERÁ SUFOCADA PELAS MANIFESTAÇÕES DE RUA

Na madrugada desta quarta-feira, enquanto a nação inteira abraçava as vítimas do horror em Medellin, a Câmara dos Deputados aproveitou a redução da vigilância para desferir punhaladas na Constituição, pontapés no sentimento da vergonha e bofetadas na cara do país que presta. Das 10 medidas de combate à corrupção endossadas por mais de 2 milhões de brasileiros, apenas quatro não foram desfiguradas por malandragens urdidas pela grande bancada dos fora da lei.

O triunfo ilusório dos gigolôs de empreiteira logo estará confirmando que medo de cadeia anula o instinto de sobrevivência eleitoral e encurta o caminho que acaba no suicídio político. Para livrar-se do perigo de despertar com batidas na porta às seis da manhã, a bancada dos fora da lei ousou desafiar a imensidão de gente exausta de roubalheira, cinismo e cafajestagem. O troco virá no próximo domingo, 4 de dezembro.

A voz das ruas dirá aos espertalhões do Congresso que o povo continua acordado. Avisará ao presidente Michel Temer que a promessa de vetar a anistia articulada pelos vigaristas do caixa 2 tem de estender-se a todas as canalhices que transformaram o projeto original numa declaração de amor à corrupção. Os envolvidos na conspiração criminosa saberão que ninguém conseguirá impedir o avanço da Lava Jato.

VIÚVO INCONSOLÁVEL

“Nos piores momentos, quando ditaduras dominavam as principais nações de nossa região, a bravura de Fidel Castro e o exemplo da revolução cubana inspiravam os que resistiam à tirania. Sinto sua morte como a perda de um irmão mais velho, de um companheiro insubstituível, do qual jamais me esquecerei. Hasta siempre, comandante, amigo e companheiro Fidel Castro”.

Lula, aproveitando a nota publicada no Facebook sobre a morte de Fidel Castro para revelar que 1) arranjou um assessor que sabe escrever “Até sempre” em espanhol”, 2) Fidel inventou a ditadura democrática e 3) a existência de presos políticos em Cuba é outra invenção de FHC.

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