12 maio 2012 UM TEXTO DE JOCA SOUZA LEÃO

Tem crônica que a gente escreve, manda pro jornal e fica todo ancho pensando que vai repercutir, as pessoas vão falar, comentar e… nada, não acontece nada: dá chabu. Outra, que a gente não dá nada por ela, estoura: não sei quantos leitores mandam e-mails e telefonam.
Alceu Valença me disse que o sucesso é um mistério. “Não fosse assim, o cabra só lançaria música pra estourar na parada; era um sucesso atrás do outro.” Nenhuma música daria chabu. Aqui, amigo, não tô nem falando de “sucesso”. No caso das minhas croniquinhas, espero, apenas, modestamente, que o assunto abordado interesse a algumas pessoas e eu consiga dizer coisa com coisa sem falar besteira, porque nesta página (e em qualquer outra) “pode acontecer tudo; inclusive, nada” – como profetizava Mário Leão.
Quando eu era menino, só comprava fogos Caramuru porque acreditava piamente na propaganda: “os únicos que não dão chabu.” E a verdade verdadeira é que comigo eles nunca deram. Nem o peido-de-véia cujo pavio alonguei com um pedaço de cordão encerado e, na hora do recreio, acendi e botei embaixo do birô de Bolinha (apelido de Isnar Mariano, professor de música no Nóbrega) para estourar – e estourou – bem no meio da aula. Esse episódio será, sem dúvida, o responsável pela minha eventual escala no purgatório a caminho do céu, uma vez que o pobre Bolinha quase morreu do susto. (E digo a você, caro leitor, mesmo que na justiça divina caibam tantos recursos quanto na justiça brasileira, juro não recorrer com reza nem penitência, tal a justeza da sentença).
Ao sabor da pena, como se dizia antigamente, escrevi a crônica do último sábado sobre os diminutivos em português (do Brasil, sobretudo). Não botava muita fé, confesso. Mas a danada caiu no gosto. “Mistério”, diria Alceu. E-mails e telefonemas. Vários. Não só de parentes e amigos próximos. Mas distantes, também. Como do escritor mineiro Humberto Werneck, há muitos anos vivendo em São Paulo: “Você acertou a mão uma vez mais”, disse ele entre elogios e parabéns.
Ora, ora, mestre Humberto, acabei de lembrar seu livro O Santo Sujo, sobre a vida de Jayme Ovalle, em que você, citando Vinicius de Moraes, fala com ternura dos “ovallianos diminutivos”. Para que o leitor veja quem de fato, sem esforço, sempre acerta a mão, aí vai um trecho (melhor, trechinho) do livro:
“(…) Para justificar atraso num compromisso, o poetinha (Vinicius) explicou a Paulo Mendes Campos que em sua casa tinha entrado ‘um ladrãozinho’. (…) Manuel Bandeira, o mais próximo e querido dos amigos de Jayme Ovalle, também sucumbiu ao mel dos diminutivos de seu ‘irmãozinho’ — e invocou no poema em prosa Conto cruel: ‘Meu Jesus-Cristinho!’ Adorava os inhos e inhas em que Ovalle se derretia. Não deixaria passar sem registro, entre outras pérolas, a resposta que o companheiro deu a alguém que o criticara por estar usando luto: ‘Deixa eu usar o meu lutinho!’.” Maravilha, né?
O conselheiro Aires, personagem de Machado, rogou em seu diário (ou memorial): “Papel, amigo papel, não recolhas tudo que escrever esta pena vadia.” Mas de nada lhe valeu a rogação, pois o papel, impiedoso, aceitou tudo, não quis nem saber; papel é assim. E computador, pior ainda . Enquanto o papel precisa ser impresso para que alguns saibam o que nele se escreveu, no computador basta uma teclada, “send”, e a merda tá feita, seu escrito no oco do mundo ciberespacial e sem caminho de volta, na rede quiném peixe, sujeito a dezenas, centenas, milhares de fisgadas.
Se é que uma crônica vai dar chabu, rogo, sempre, que seja, pelo menos, um “ovalliano” chabuzinho.
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Publicada originalmente no JC de 12/Mai/2012









































