CHABU OR NOT CHABU

Tem crônica que a gente escreve, manda pro jornal e fica todo ancho pensando que vai repercutir, as pessoas vão falar, comentar e… nada, não acontece nada: dá chabu. Outra, que a gente não dá nada por ela, estoura: não sei quantos leitores mandam e-mails e telefonam.

Alceu Valença me disse que o sucesso é um mistério. “Não fosse assim, o cabra só lançaria música pra estourar na parada; era um sucesso atrás do outro.” Nenhuma música daria chabu. Aqui, amigo, não tô nem falando de “sucesso”. No caso das minhas croniquinhas, espero, apenas, modestamente, que o assunto abordado interesse a algumas pessoas e eu consiga dizer coisa com coisa sem falar besteira, porque nesta página (e em qualquer outra) “pode acontecer tudo; inclusive, nada” – como profetizava Mário Leão.

Quando eu era menino, só comprava fogos Caramuru porque acreditava piamente na propaganda: “os únicos que não dão chabu.” E a verdade verdadeira é que comigo eles nunca deram. Nem o peido-de-véia cujo pavio alonguei com um pedaço de cordão encerado e, na hora do recreio, acendi e botei embaixo do birô de Bolinha (apelido de Isnar Mariano, professor de música no Nóbrega) para estourar – e estourou – bem no meio da aula. Esse episódio será, sem dúvida, o responsável pela minha eventual escala no purgatório a caminho do céu, uma vez que o pobre Bolinha quase morreu do susto. (E digo a você, caro leitor, mesmo que na justiça divina caibam tantos recursos quanto na justiça brasileira, juro não recorrer com reza nem penitência, tal a justeza da sentença).

Ao sabor da pena, como se dizia antigamente, escrevi a crônica do último sábado sobre os diminutivos em português (do Brasil, sobretudo). Não botava muita fé, confesso. Mas a danada caiu no gosto. “Mistério”, diria Alceu.  E-mails e telefonemas. Vários. Não só de parentes e amigos próximos. Mas distantes, também. Como do escritor mineiro Humberto Werneck, há muitos anos vivendo em São Paulo: “Você acertou a mão uma vez mais”, disse ele entre elogios e parabéns.

Ora, ora, mestre Humberto, acabei de lembrar seu livro O Santo Sujo, sobre a vida de Jayme Ovalle, em que você, citando Vinicius de Moraes, fala com ternura dos “ovallianos diminutivos”. Para que o leitor veja quem de fato, sem esforço, sempre acerta a mão, aí vai um trecho (melhor, trechinho) do livro:

“(…) Para justificar atraso num compromisso, o poetinha (Vinicius) explicou a Paulo Mendes Campos que em sua casa tinha entrado ‘um ladrãozinho’. (…) Manuel Bandeira, o mais próximo e querido dos amigos de Jayme Ovalle, também sucumbiu ao mel dos diminutivos de seu ‘irmãozinho’ — e invocou no poema em prosa Conto cruel: ‘Meu Jesus-Cristinho!’ Adorava os inhos e inhas em que Ovalle se derretia. Não deixaria passar sem registro, entre outras pérolas, a resposta que o companheiro deu a alguém que o criticara por estar usando luto: ‘Deixa eu usar o meu lutinho!’.” Maravilha, né?

O conselheiro Aires, personagem de Machado, rogou em seu diário (ou memorial): “Papel, amigo papel, não recolhas tudo que escrever esta pena vadia.” Mas de nada lhe valeu a rogação, pois o papel, impiedoso, aceitou tudo, não quis nem saber; papel é assim. E computador, pior ainda . Enquanto o papel precisa ser impresso para que alguns saibam o que nele se escreveu, no computador basta uma teclada, “send”, e a merda tá feita, seu escrito no oco do mundo ciberespacial e sem caminho de volta, na rede quiném peixe, sujeito a dezenas, centenas, milhares de fisgadas.

Se é que uma crônica vai dar chabu, rogo, sempre, que seja, pelo menos, um “ovalliano” chabuzinho.

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Publicada originalmente no JC de 12/Mai/2012

O BRASILEIRO É MAIS CARINHOSO

O diminutivo em português é quase sempre jeito delicado e carinhoso de falar. Mas pode ser também maneira precavida de usar a língua, como diz Luis Fernando Verissimo numa crônica: “para desarmar palavras por vezes ameaçadoras”. Por exemplo, operação. Se alguém diz que vai fazer uma operação, a coisa é séria, anestesia geral, sei lá quantos dias de hospital. Agora, se disser operaçãozinha, moleza, anestesia local, entra num dia e sai no outro.
 
Churrasquinho, feijoadinha, pirãozinho, sarapatelzinho, mãozinha-de-vaca, buchadinha e rabadinha são pratinhos leves, de fácil digestão e quase zero calorias. Agora, em suas versões originais, churrasco, feijoada, buchada, rabada… é comer e ligar para o Roto-Rooter vir correndo desentupir suas coronárias.

O mesmo acontece com as bebidas. Uma coisa é beber; outra, muito diferente, é tomar uma cervejinha. Vê só. O cara chega em casa aí pelas 11 e pouquinho (se for 11 e tanto já complica) e a mulher mete bronca: “Tava bebendo, né?” “Não, querida, tava tomando uma cervejinha com Pedrinho (até aqui o diminutivo ajuda; um cara  que ela própria também chama de Pedrinho não pode ser má companhia).” Isso vale para todas (quero dizer, para todas as bebidas; quanto às mulheres, algumas são insensíveis): uisquinho no happy hour (mesmo que você tenha ficado mais happy que o normal e a hour tenha sido das mais longas), runzinho com Coca, ginzinho com tônica, caninha com caldinho etc. No diminutivo, a graduação alcoólica reduz paca. No máximo dá pilequinho. Jamais, bebedeira.

Em relação ao tempo, tudo depende do resultado esperado, melhor, desejado. Se você quiser se ver livre da pessoa que o espera, é só dizer: “Mais meia hora”. E ela se manda sem você. Mas se, ao contrário, o que você quer é que ela lhe espere, aí, então, é só diminuir o tempo, quer dizer, diminuir no diminutivo, bem entendido: “Mais meia horinha.” Qualquer pessoa, por mais apressada e ansiosa que seja, não tem como negar à outra “meia horinha.”

Bairrismo à parte, a crônica mais bonita e emocionada de Clarice Lispector é, pra mim, Restos de Carnaval, em que ela lembra o Carnaval que quase brincou no bairro da Boa Vista, aqui no Recife, onde morou da infância até mocinha. Chegou a se fantasiar, mas não deu: a mãe doente, à morte. Da mais profunda tristeza a salvou “um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, (…) e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos de confete. E eu então, mulherzinha de oito anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido (…).” Como será que ela diria (se é possível dizer) em ucraniano, sua língua nativa, “mulherzinha de oito anos”?
 
Na lonjura do sertãozinho de Caxangá, o menino Manuel Bandeira espiava banheiros de palha às margens do Capibaribe; adulto e poeta, evocou o seu primeiro alumbramento: “vi uma moça nuinha no banho.” Não nua nem nuazinha, mas “nuinha”.
  
Mário de Andrade disse a Bandeira que “o diminutivo brasileiro é mais carinhoso que o português”. Achava ele qu’isso nos veio do sentimento amoroso do africano. Assim, “bodezinho pra nós ficou bodinho”. E negrinho ficou neguinho, digo eu (que não tô nem aí pras patrulhas politicamente corretas – e burramente chatas –, uma vez que neguinho e, principalmente, neguinha é tratamento nordestino reservado apenas para quem se tem intimidade e afeto; independente de cor).
 
Mas, sabe-se lá por quê, virou moda no Brasil tratar cabra safado pelo diminutivo. O bandido da vez chama-se Carlos Augusto Ramos, mas a imprensa o trata por Carlinhos Cachoeira. Vôte!

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Publicada originalmente no JC de 5/Mai/2012

MINHA MOÇA DO TEMPO

Apresentadora de noticiário de TV todo mundo sabe o nome. Leda Nagle (faz tempo, né?), Leila Cordeiro, Ana Paula Padrão, Sandra Annenberg, Glória Maria, Fátima Bernardes, até mesmo das que têm nomes nada facinhos de escrever e pronunciar, como Leilane Neubarth e Lilian Witte Fibe (aquela que explodiu na gargalhada ao noticiar um casal de velhinhos preso no aeroporto contrabandeando Viagra, lembra?). Não é por nada, não, mas qualé mesmo o nome daquela lourinha que era a moça do tempo na Band e, agora, tá no SBT? Lembra? Não, né? Deixa pra lá.

A primeira moça do tempo a ficar famosa foi Patrícia Poeta. E não foi porque  era da Globo, não, porque a Globo teve outras moças do tempo antes dela e ninguém lhes sabia os nomes. E também não era porque Patrícia era linda, não, por que as moças que a antecederam também deviam ser lindas.  Nem porque tinha nome original, curtinho, sonoro e, mais do que poético, poeta. Tampouco porque inventou um jeito diferente de anunciar o tempo. Necas! Nada disso. Patrícia não inventou nada. Foi inventada por divinos sopros alísios. E descoberta por um cronista.

Patrícia Poeta ficou famosa por que Luis Fernando Verissimo era arriado nos quatro pneus por ela e vivia a exaltá-la em suas crônicas. Eu, mesmo, via Patrícia todos os dias na TV, mas nem ao menos ligava o nome à pessoa. No máximo, como todo mundo, achava a moça do tempo da Globo bonita e gostosa. Mais bonita e mais gostosa que as outras, é verdade, só isso (só?). Mas bastava Patrícia anunciar a aproximação de uma onda de calor vinda do Pacífico para Luis Fernando se derreter todo. E assim, derretido, criou a AAPP – Associação dos Adoradores de Patrícia Poeta.

“(…) Máxima de 55 graus no Rio. Máxima é ela. Neve no Ceará, furacão no centro-oeste, e o que foi mesmo que ela disse sobre o Amazonas correr ao contrário e inundar o Peru? Quem se importa com o tempo hoje, quando é a Patrícia que apresenta?” – disse ele numa crônica. Noutra, quando a musa voltou dos Estados Unidos e foi para o Fantástico: “Ela voltou ainda mais bonita. A veremos todos os domingos.” Aí, ela foi para o Jornal Nacional: “Que bom! Agora teremos poesia todos os dias.”

Luis Fernando é um cronista supimpa, tchê! Se é o melhor do Brasil, há controvérsias. Mas que está entre os três melhores (sejam quais forem os outros dois) não há a menor dúvida. E o cara trabalha paca: três crônicas semanais (que foram diárias por uma porrada de tempo) publicadas em jornal e reunidas em dezenas de livros; personagens famosos como o analista de Bagé, Ed Mort e a velhinha de Taubaté; crônicas que viraram série de sucesso na TV, como As Comédias da Vida Privada; além de poeta, tradutor, desenhista e cartunista (As cobras), romancista e “saxofonista nas horas vagas”. Pois é, o sacana ainda tem hora vaga. Será que já viu a nova moça do tempo na TV? Eu vi. E vou logo falar sobre ela antes que ele fale.

Chama-se Flávia Freire. Patrícia, morena. Flávia, lourinha. Jornalista, bonita e boa, nos dois sentidos, como Patrícia. Antes de assumir, pesquisou e entrevistou os caras que mais entendiam de previsão do tempo aqui e no mundo. Tá sabendo do babado. E, o que é melhor, sem chamar chuva de “precipitação” nem chuvisco de “pancada esparsa”.
         
Para os que acham que Flavinha não amarra o biquíni de Patrícia (vide imagens no Google), tudo bem; eu também não amarro a chuteira de Luis Fernando.

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Publicada originalmente no JC de 28/Abr/2012

PORÉM (AI, PORÉM)

Tentaram acabar com o exame da OAB. Mas a tentativa gorou. O Supremo julgou o exame constitucional. Por unanimidade. “Em razão da baixa qualidade do ensino jurídico.” São mais de 1.200 faculdades (faculdades?) por este país afora. “Há   mais cursos de Direito no Brasil do  que em todo o mundo” – diz Dr. Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, Presidente da Comissão de Estágio e Exame da OAB-PE. A grande maioria, caça-níqueis. Pagou, passou. Mas, pra virar doutor, tem que passar no exame da Ordem, sim, senhor. Senão, o diploma não passa de um mero pedaço de papel. Tempo e dinheiro perdidos, jogados fora, melhor dizendo, nos bolsos dos espertalhões.

 É fácil, facílimo adivinhar quem patrocinou a tentativa de acabar com a obrigatoriedade do exame. É só saber de onde vem o grosso dos alunos reprovados. E pra isso, basta ver na internet os índices de reprovação por faculdade. O que não adianta é ver anúncio. Fique esperto. Tem faculdade por aí que comemora 7% de aprovação (93% de reprovação, portanto), comparando seu índice ao de faculdades que se saíram ainda pior.

A decisão do STF aumenta a responsabilidade da OAB em separar “adevogados” de advogados. Mas, convenhamos, ainda deixa muito a desejar. Aqui tenho, em mãos, cópia de recurso impetrado por um advogado (ou “adevogado”?) que, com toda certeza, passou no exame e é portador de uma carteirinha da OAB. O recurso é um primor. E prova que o exame precisa ser mais, muito mais rigoroso.

Os problemas do rapaz com a língua portuguesa têm início logo no título do documento: “(…) Recurso em Sentido Extrito (sic)”. Assim grafado, com ‘x’. Será que “extrito” é o extrínseco do estrito? Extrinsecamente estrito? Não sei. Acho que não. Mas desconfio que o rapaz queria apenas dizer “estrito”, do latim strictus.

No encaminhamento, mais dois: “Senhor Relator da Colenta (sic) Camara (sic)”. Colenta? Colento, como se sabe, é uma ilha da antiga Ilíria, no Adriático. Será que “Colenta” é uma ilha próxima, no mesmo arquipélago? Não, não é. O rapaz queria dizer “colenda”, que significa “respeitável”, “veneranda”. Na sequência, “Camara”, assim grafada, sem acento, paroxítona, inexiste na língua portuguesa. Se fosse oxítona, camará, significaria o mesmo que cambará. O folclorista Luiz da Câmara Cascudo registra entre os pregões de vendedores nas ruas do Recife até as primeiras décadas do século passado: “Olha a bolinha de cambará, cura tosse e constipação! Olha a bolinha de cambará, um pacote custa um tostão.” Mas não era às bolinhas que o rapaz queria se referir. E sim à Câmara – cada uma das seções em que se divide um tribunal de apelação.

O jovem e impudente causídico continua sua peleja contra as leis da língua e do Direito: “O artigo 44 encontravam-se (sic) em plena vigência.” A concordância aqui deve ter sido feita com o numeral, “44”, e não com o sujeito, “o artigo 44”. Além do mais, o tal artigo citado, 44, não alude ao que ele pretendia citar.

 Mais adiante: “o texto (…) que escreveu atingiram (sic) e macularam (sic) a honra.” Que é isso, rapaz? Não precisa atingir nem macular a língua portuguesa com tanta fúria. Plural não é recurso de retórica. Ignorante, por exemplo, mesmo no singular, é suficientemente enfático.

Bem, paro por aqui. Espaço curto para listar tantas agressões à gramática e citações equivocadas numa simples petição. Além do mais, quem acha ruim o ensino jurídico no país não sou eu, mas o STF.

Porém (ai, porém), como no samba de Paulinho da Viola, o que dizer dos outros cursos, sobretudo dos que lidam com a saúde e a segurança das pessoas? Não seria o caso de, pelo menos, os conselhos federais de medicina e engenharia seguirem logo o exemplo da OAB? O lobby das faculdades privadas será pesado. Mas, por analogia, a gente já sabe qual é o entendimento do Supremo sobre a matéria. E, como dizem os advogados, “o direito é bom”.

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Publicada originalmente no JC de 21/Abr/2012

LOS PECADOS DE LA CARNE

Um escriba de coisas miúdas, como este, cujo texto o leitor se arrisca à leitura agora, tem em fatos próximos e cotidianos os seus pretextos e histórias mais recorrentes. A crônica, “coisa miúda”, como a via Machado de Assis, era duas velhas vizinhas fofocando sobre as “tropelias amatórias” de um solteirão, morador da casa em frente à delas.
 
Todo e qualquer fato cabe na pauta do cronista. De preferência, fatos que ele viu ou ouviu e a imprensa não deu ou não repercutiu. “De preferência”, disse. Mas nada impede. Na notícia, o fato. Na crônica, a percepção do escriba. Seu argumento. Ou contra-argumento, quando o fato já vem com argumento. “O senhor sabia: em toda a minha vida pensei por mim (…). Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa” – quiném nos conta Riobaldo no Grande Sertão: Veredas. “No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade.”

Como estou há mais de 20 dias num spa em Aldeia, não me resta alternativa senão contar a vocês como estão sendo esses dias por aqui. Antes, porém, os fatos. De um ano pra cá, dei uma engordada braba, relaxei nas caminhadas e, pior, voltei a fumar (depois de um ano e pouco sem). Resolvi, então, botar pra quebrar. Tudo de uma vez. Emagrecer, voltar a caminhar e parar de fumar.
 
Com fome e sem bebida (alcoólica, claro), sente-se menos vontade de fumar. É fato. Ponto para o spa. Mas o pior da síndrome de abstinência à nicotina é a CBA: crise de burrice aguda. Sabe o que é isso, gente fina? É algo como dobrar (ou triplicar) a burrice e a leseira próprias de cada um. E a CBA desencadeia um processo brabo de TDA (transtorno do déficit de atenção). A gente não consegue se concentrar em nada. Quando lê uma linha, já esqueceu a anterior. Ou seja, o babaca sem nicotina não consegue pensar nem se concentrar em coisa alguma. Escrever, então…

Em termos de emagrecimento, spa é bom pra bater o centro, dar início à brincadeira. Como perco peso rapidinho, aproveito a embalagem e emendo com uma dieta de longo prazo – que eu juro, todas as vezes, será a última.

Como paguei por conta e tô aqui pra isso, não tenho desculpa: malho. No meu caso, malhar significa caminhar. De manhã e de tarde. Em velocidade e ritmo compatíveis. Quando chove, na esteira; quando não, em torno de uma nesga de mata que ainda nos resta por aqui.

Disse Mário Prata numa crônica que em spa só se fala de uma coisa: comida. Verdade. Nunca vi gordo em spa falando de dieta. O papo é sempre sobre receitas gordas e açucaradas, restaurantes maravilhosos e farras pantagruélicas.
 
No almoço de ontem, mesmo, um gordinho sem-vergonha bateu três vezes com a faca no copo e deu a notícia: “Atenção, moçada! Inaugurou um restaurante de carnes importadas que é como o Museu do Louvre, não dá pra morrer sem conhecer. No Louvre, a gente encontra a arte. Em Boa Viagem, agora, encontra los prazeres de la carne, de las parrilas uruguaias e argentinas. Imagine 850 gramas da mais sensual e sedutora carne do mundo, selada por fora e por dentro, vermelhinha e suculenta, tenra… comovente, simplesmente comovente… da gente comer de joelhos… e chorando…”

E não é que o gordinho acabou o papo aos soluços.

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Publicada originalmente no JC de 14/Abr/2012

E VIVA O COENTRO!

Essa história tem bem 30 anos. Almoço com Hélio Mota no Leite como era costume. Chega Zito, nosso garçom de sempre, entrega o cardápio e suspira: “A gente ouve cada uma.” E vai atender outra mesa. Na volta, explica o suspiro: “O freguês pediu pra não botar coentro. Anotei na comanda e recomendei a Bigode na cozinha: ‘Nada de coentro, o freguês é paulista’. A gente já sabe, paulista é chato com coentro. Quando servi, ele cheirou, quiném gato, e devolveu fazendo graça: ‘Sabe por que não como nordestino? Porque tem cheiro de coentro’.” Zito tava indignado com o gracejo do paulista – que ninguém sabia se era paulista de fato; mas ficou sendo.

Lembrei essa história lendo Saturno nos Trópicos (que já citei aqui em outra crônica, a pretexto de outro assunto), porque Moacyr Scliar fala das especiarias da Índia. E, apesar de parecer um matinho nativo, coentro é, justamente, uma especiaria indiana. Aliás, não sei por que os professores de história não diziam à gente quais especiarias eram aquelas citadas nos livros; bastava dizer “procurem na cozinha de casa: pimenta-do-reino, cominho, cravo, canela, noz-moscada, açafrão, anis, pimenta malagueta, gengibre, tamarindo, louro, erva-doce, coentro…” Aqui pra nós, só agora, lendo Scliar, entendi por que as especiarias valiam tanto. Virtudes não lhes faltavam. Enchiam a vista, davam cor e gosto às comidas, curavam doenças, davam status e, de quebra, tesão.

“Pimenta-do-reino: conforta o estômago, dissipa os gases, faz urinar e neutraliza veneno de cobra. Cravo-da-índia: bom para os olhos, o fígado, o coração e o estômago. Noz-moscada: anti-inflamatório e adstringente.” E por aí ia. Algumas, sobretudo as “quentes”, prometiam resultados afrodisíacos (daí a origem de história “picante”). As especiarias também serviam para preservar os alimentos (ou, em alguns casos, disfarçar-lhes gosto e cheiro de podre). Como o ouro, bom negócio pra quem transportava, por ser carga de valor e ocupar pouco volume nos porões dos navios. Pra completar, tinham, como se diz hoje, valor agregado. Por elas, nobres e burgueses pagavam qualquer dinheiro. Era chique exibir à mesa as mais variadas e exóticas especiarias. Se o paulista de Zito soubesse desse lance, talvez não tivesse demonstrado tanto desprezo pelo coentro que ele, por certo, julgava ser nordestino. E não teria passado pelo vexame que passou, como se verá a seguir.

Hélio Mota pediu a Zito uma folha de papel, escreveu um bilhete, dobrou em quatro e recomendou entregar ao paulista sem dizer quem tinha mandado. Por mais que eu tenha insistido, não houve jeito de Hélio dizer o que tinha escrito. (Coisa boa eu sabia que não tinha sido.) E a gente ficou por ali, na cara de pau, tirando sarro do mico que o paulista tava pagando. O desgraçado dobrava e desdobrava o bilhete, lia e relia. Olhava de soslaio pra tudo que era lado, tentando adivinhar quem tinha mandado a mensagem desaforada (ou algo pior, como fiquei sabendo depois). Hélio me desafiou: “Quer apostar? Quando a comida chegar, ele vai comer em cinco minutos, pagar e se mandar.” Não deu outra. Nem cafezinho tomou. 

Chega Zito trazendo nossos pratos: “Doutor, que danado o senhor escreveu ali, que o homem elogiou a comida, agradeceu e ainda deu gorjeta?” Hélio reescreveu o bilhete e me deu para ler em voz alta: “Fungar ou ser fungado no cangote é problema seu. Agora, má vontade com coentro é ignorância e, em Pernambuco, ofensa. Minha pistola 9mm está aqui, embaixo da mesa, apontada pro seu bucho. Coma rapidinho, pague e desapareça!  P.S. Não esqueça a gorjeta do garçom.”

Assim era o bom e inofensivo Hélio Mota, incapaz de qualquer brabeza ou grosseria, mas sempre rápido no gatilho pra sacar algo imaginoso em defesa dos amigos.

E viva o coentro nosso de cada dia!

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Publicada originalmente no JC de 7/Abr/2012

E NÉ BOM NÃO, É?

Já faz algum tempo, mas parece que foi ontem. Vésperas de completar 60 anos. Antevéspera de um feriadão. Filas quilométricas nos caixas do supermercado. Nos exclusivos, menores. Tentação. Reli o aviso: “Caixas Exclusivos: Portadores de deficiências, Gestantes, Crianças de braço e Idosos.” O “idosos” bateu na trave e voltou. Mas resolvi arriscar. “Afinal, faltam poucos dias pros 60” – justifiquei pra mim mesmo. E fui. Grilado, mas fui. Sentei, até (filas preferenciais têm cadeiras “para o conforto da espera”, como no verso de Drummond). Assim, ainda que com alguma antecipação, inaugurei minha nova e nobre prerrogativa, de acordo com o Estatuto do Idoso.

Bateu a famosa noia, não vou negar. “E se me pedirem pra mostrar a identidade?” Pensei nas saídas possíveis. A mais óbvia: “Esqueci em casa”. Dar uma de joão-sem-braço: “Desculpe, não vi a placa”. Mas gostei e me diverti, mesmo, foi com a última das saídas que pensei: “Se me perguntarem por qual motivo tô na fila preferencial, respondo na lata: ‘Tô grávido, meu!’.”

Fiquei imaginando (ou escolhendo) quem seria o meu interlocutor, quem viria me cobrar carteira de identidade para provar que não era um aproveitador, usurpando o direito de deficientes, grávidas, crianças e idosos para aí, então, fazer a minha gracinha: “Tô grávido”.

Se alguém entra (ou cai) numa fila de paraquedas ou tali indevidamente, todos que estão atrás dele são prejudicados. Mas quem se julga mais prejudicado é quem tá imediatamente atrás. E eu, pelo visto, não tava com sorte. Atrás de mim, uma senhora com dois carrinhos de compra lotados e, digamos, com direito triplo à fila preferencial: grávida, filhinha no braço e sogra (idosa) ao lado. Soube que era sogra e não mãe porque a menininha a chamou de vó e a senhora grávida a chamou de dona Sara. Cedi minha vez na fila. Gentileza ou consciência pesada? Os dois, acho.

A velhinha de blusa estampada que chegou junto comigo, mas entrou na fila ao lado, já estava pagando as compras. Ou seja, escolhi a fila errada. E os dois carrinhos da senhora grávida, agora à minha frente, eram coisa para, no mínimo, meia hora no caixa. Pensei com meus botões: “Isso, se ela não tiver conta de celular pra pagar.” Tinha. E errou a senha duas vezes. Não tenho a menor dúvida, levei mais tempo na fila do caixa preferencial do que se tivesse ido para um caixa comum.

Pior. Já em casa, caiu a ficha. “Pô, ninguém duvidou dos meus 60.” Pelo contrário. Um senhor, esse, sim, velhinho mesmo, de verdade, até me ajudou a tirar as compras do carrinho pra botar na esteira do caixa. E não pintou nem uma coroa generosa pra dizer: “O senhor já tem 60? Nem parece!” Nada. Ninguém.

Mas fui à forra, alguns dias depois, no posto de vacinação contra a gripe instalado no Parque da Jaqueira. “Crianças e idosos”, esclarecia o banner da Prefeitura. Entrei na fila. Única, claro. Ali, todos eram preferenciais. Chegou minha vez. E a jovem auxiliar de enfermagem me barrou: “Moço, desculpe, mas a vacina é só para crianças e idosos”. Perguntei pra ter certeza:“Idoso é a partir de que idade?” “A partir de sessenta.” Fui pegar a carteira de motorista no carro pra provar. Provar que, justo naquele dia, fazia 60. Ganhei vacina, pirulito (que era pras crianças) e ainda cantaram Parabéns pra você; quer dizer, pra mim.

De lá pra cá, não abro mão de nada: fila preferencial, estacionamento exclusivo, meia-entrada em cinema e teatro, passe de ônibus, remédio, vacina, pensão… É pouco, eu sei; mas tô com o poeta Garibaldi Otávio: “E né bom não, é?”

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Publicada originalmente no JC de 31/Mar/2012

PRA NÃO PERDER O JEITO

Até hoje me pedem para voltar a escrever na revista Algomais (o editor Sérgio Moury, inclusive) e já me cobram um segundo volume do livro Pano rápido (o editor Ricardo Melo, diretor da Cepe, inclusive). Por algum motivo, o formato agradou. Apôs tá certo. Pra matar a saudade de alguns e, também, pra eu não perder o jeito, vez por outra, aqui mesmo no JBF, vou contar umas historinhas inéditas (quer dizer, inéditas pra mim, pelo menos). 

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Os dois lados

Inauguração da Ponte Rio-Niterói. Perguntaram ao médico, compositor e humorista Max Nunes o que ele achava da obra:

— Por um lado, é muito boa; por outro lado, é Niterói.

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Cubando, apenas

O jornalista Duda Guenes fazia o maior sucesso com as mulheres nos 60. Durante a semana, intelectual de esquerda: calça jeans surrada, camisa de manga arregaçada, sapato sem meia, barba por fazer, cabelo grande e ar displicente. No sábado (ou domingo) à noite, no entanto, caprichava no layout: barba feita, cabelo no Gumex, blazer azul marinho e “Vamos à luta!”, dizia ele antes de ir. Naquele domingo, a cidade parecia mais deserta do que nunca. Não se via viv’alma nas ruas. A única esperança era as que oravam na Igreja Presbiteriana, na Conde da Boa Vista. Vários carros parados na porta. Duda entra. Fica por ali, como quem não quer nada.  O pastor o vê. E convida pelo microfone: “Meu filho, aqui na primeira fila tem lugar.”
  
— Obrigado, reverendo, mas tô apenas cubando o mulherio.

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Atendendo a pedidos 

Tenente Gabriel, militar brioso e caxias, orgulho da Polícia Militar de Pernambuco. Reformado, começou a beber um pouco mais do que se poderia chamar de “socialmente”. A esposa, preocupada, chamou o filho mais velho. “Seu pai tá bebendo demais da conta.” O filho foi falar com o velho. “O senhor tá virando alcoólatra, pai. Já não é mais a sua vontade, é o seu organismo que pede a bebida.” 

— É ele pedindo e eu dando.

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Sabedoria

Conselho do septuagenário Luciano Araujo:

— Depois de certa idade, não confie em peidinho (pode vir molhado) e nunca desperdice uma ereção (pode ser a última).

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Pelo preço

Zeca Pagodinho veio fazer um show no Recife. Dia seguinte, o empresário levou Zeca pra dar um passeio de carro em Boa Viagem. Quando tavam passando em frente à loja Adroaldo Tapetes, Zeca pediu pra parar: “Tô precisando limpar a barra com a patroa; acho que um tapetinho pega bem.” Entrou na loja. “Quanto custa aquele tapete?” “É persa”, esclareceu a vendedora. E completou: “16 mil reais.”

— Voa?

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Dependente

Aécio Gomes de Matos estava dando aula em Garanhuns. No Recife, Walkíria, a mulher dele, entra em trabalho de parto e liga pra Clávio Valença. Clávio chama um táxi, pega Walkíria em casa, deixa a declaração de renda num banco (era o último dia) e chegam à maternidade Manuela já nascendo. No prontuário, a funcionária anotou com todas as letras: “Nome do pai: Clávio Valença.” Aécio chega. Mas antes de ver a filha, Clávio o obriga a ler o prontuário:

— Na próxima declaração de renda, ela vai como minha dependente.

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Aparências enganam

Ambulatório do Imip. Dr. Amaro Medeiros examina um velhinho que, a julgar pela aparência, tá mais pra lá do que pra cá.

— Doutor, só consigo dar uma por dia. Meus amigos dão duas, três.

— Ora, faça como eles.
 
— Como, doutor?

— Minta!

Em tempo: Melhor do que ser citado por Dayse de Vasconcelos Mayer numa crônica é, modéstia à parte, ter Dayse de Vasconcelos Mayer como leitora.

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Publicada originalmente no JC de 24/Mar/2012

O GRITO DA GÁVEA

As grandes navegações instigavam a imaginação dos escritores. E os escritores, por sua vez, fustigavam o ímpeto dos navegadores com seus escritos. Não se sabe quem Pedro Álvares Cabral lia, mas Cristovão Colombo era leitor de Marco Polo e de outros autores que escreviam sobre lugares tão imaginários quanto fantásticos.

Muito antes da viagem de Cabral, Brazil, com “z”, era descrito como uma ilha ao sudoeste da Irlanda. A denominação teria vindo de Bres, filho de uma divindade celta. “Ilha da vida, da alegria e de belas mulheres.” O nome Brazil, pois, teria chegado a Portugal levado pelos celtas da Galícia. (Portanto, não teria sido o pau que deu nome ao Brasil; mas a ilha que teria dado nome ao pau.)

Havia também no oceano a Ilha Inacessível. “À medida que o navegador dela se aproxima, mais ela se afasta”, dizia o autor. E eu desconfio que foi esta a que Cabral descobriu, mas por questão religiosa (e também por pensar que era ilha), a chamou de Ilha de Vera Cruz. A versão literária de que ela se afastava não passava, na verdade, de uma metáfora. Não era a suposta ilha que se afastava, mas o que lá se pretendia alcançar, obter ou realizar.

Assim, a ilha Inacessível teria resultado no Brasil, o país do empurra com a barriga. Veja só. Em 1916, Artur Neiva e Belisário Pena descreveram “a espantosa miséria e a deprimente condição sanitária do Brasil – o Nordeste, sobretudo”. Solução: saneamento básico. Água potável, esgoto e destino do lixo. Passados quase cem anos, o que se fez  de saneamento no país, “no Nordeste, sobretudo”? Para responder, é só caminhar por qualquer bairro do Recife: esgoto a céu aberto. E no interior, então, é trágico. Dos 5.565 municípios brasileiros, cerca de quatro mil ainda utilizam lixões; “no Nordeste, sobretudo”.

Por outro lado, até pouco tempo, as classes sociais no Brasil eram representadas percentualmente por uma pirâmide: A no vértice, B e C no meio, D e E na base. Mas, segundo os últimos indicadores, somos, agora, com muito orgulho, um trapezoide pentagonal. Cerca de 80% dos lares brasileiros são de classe B ou C e 18% de D. Nos vértices, as classes A e E, com menos de um por cento cada uma. Somos também, com muito orgulho, a sexta maior economia do mundo.

 A julgar pelos números, o Brasil vai bem, obrigado. Até parece que a ilha Inacessível tornou-se acessível. Os recém-emergidos sociais, que representam quase 65% da população, ou seja, 120 milhões de brasileiros, estão ganhando mais, sem dúvida. Alguns até aumentaram o dízimo da igreja evangélica por atribuírem a ela a melhoria de vida.

Mas onde e como vivem esses “novos ricos” brasileiros, tão celebrados pelo governo, pela mídia e pelas elites econômicas, que estão de olho neles, claro, como eleitores e consumidores?  Vivem nas periferias de sempre, nas condições de quase sempre; em morros que desabam e regiões que alagam. Trens e ônibus quentes e superlotados. Viagens de até quatro horas para o trabalho. Água, quando têm, racionada. Escolas precárias e sem material de ensino, professores despreparados e alunos desmotivados. Nos hospitais sem médicos e sem remédios, doentes no chão dos corredores. E a criminalidade comendo solta, porque lá onde moram é que se encontram as maiores vítimas dessa guerra urbana que vivemos, sem nem ao menos nos dar conta de que é uma guerra.

Saneamento básico? Nem pensar! Fosse o Brasil descoberto hoje, ouvir-se-ia o grito do marujo na gávea da caravela: merda à vista!

P.S. Anotações e reflexões do cronista durante a leitura do livro Saturno nos Trópicos, de Moacyr Scliar.

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Publicada originalmente no JC de 17/Mar/2012

COMPLEXO DE VIRA-LATAS

Não acho a menor graça em carro. E muito menos em corrida. Mas lembro que, quando Ayrton Senna morreu, alguém disse numa crônica que a maior prova do nosso subdesenvolvimento cultural era a comoção que tomou conta do país. Na época, dizia-se também que no Brasil, ao contrário do resto do mundo, ser rico era pecado e que, por isso, os milionários brasileiros escondiam o leite, andavam de Fiat Uno aqui para, lá fora, botarem as unhas de fora com suas Ferraris.
 
De 1994 pra cá, nenhum brasileiro jovem, carismático e célebre morreu de forma trágica e diante das câmeras de televisão. O último foi Senna. Portanto, não sei se continuamos “subdesenvolvidos culturais”. O que sei é que milionário jactar-se da riqueza não é mais pecado. Se não somos mais “subdesenvolvidos culturais” porque deixamos de nos comover, pena. Se milionário se jacta agora porque está se lixando para a miséria no país, pena. Sinal de que perdemos a alma. E a vergonha.
 
Vi gente de verdade chorando de verdade a morte de Senna. Não apenas mulheres, porque ele era jovem e bonito e porque as mulheres são mesmo mais emotivas, mas homens também. Trabalhadores. Gente acostumada ao sofrimento, que desde cedo convive com a morte; muitos perderam filhos ainda crianças. Gente que anda de ônibus, que nada sabe sobre carros e motores. Mas nem por isso tem inveja de ninguém. Vi um homem de 60 anos, voz embargada, dizendo na televisão: “Ele morreu trabalhando.” Como se dissesse, “era um dos nossos, brasileiro, trabalhador”, cada qual no seu ofício.  Por que haveria de me envergonhar? Não havia nada de histérico naquela comoção coletiva. Mas de generoso. E altruísta. Sou, sim, um “subdesenvolvido cultural” e, se fosse religioso, diria “graças a Deus!”.  Povo tem alma? Então, essa é a alma brasileira. Ou, pelo menos, era. Até outro dia.
 
Agora, “somos a sexta economia do mundo; desbancamos o Reino Unido”, jactam-se os que se envergonham de povo que chora; mas não se envergonham nem um pouco da miséria brasileira. Sexto PIB mundial. E daí? Nossa população: 192 milhões. A do Reino Unido: 62 milhões. Nosso PIB per capita: US$ 8.300/ano. O deles, cinco vezes maior: US$ 43.700. 

Aí alguns países que têm PIB per capita ainda maior e no ranking dos PIBs vêm muito atrás: Suíça (19º), Suécia (21º), Áustria (26º), Dinamarca (31º), Finlândia (36º) e Nova Zelândia (51º). Quem nos dera que os brasileiros vivessem como os neozelandeses no que de fato interessa: saúde, educação, segurança, mortalidade infantil, habitação, transporte, alimentação, água tratada, saneamento, corrupção, infraestrutura, ciência e tecnologia, cultura… Mas nem no futebol a gente anda lá com essas bolas todas. A Bósnia que o diga.

Teríamos o que comemorar, se tivéssemos batido o Reino Unido nos indicadores sociais. Aliás, nem precisava tanto. Bastava, mesmo com a crise que anda por lá, encostarmos em Portugal. Aí, sim. Viva o Brasil!  Viva o povo brasileiro! 

Mas é bom e prudente ficar de olho no mundo, senhores endinheirados com complexo de vira-latas. Pela primeira vez na história, a personalidade do ano (2011) da revista americana Time não foi alguém conhecido, mas um anônimo de gorro na cabeça e rosto encoberto: The protester. Simbolizando os excluídos e seus movimentos de protesto na Europa e em Wall Street, meca do capitalismo e da jogatina financeira internacional. 
 
Se a moda chegar por aqui, quem não chorou a morte de Senna… pode chorar o leite derramado.

P.S. Complexo de vira-latas é título de uma crônica magistral de Nelson Rodrigues publicada às vésperas de a seleção brasileira ganhar a Copa do Mundo pela primeira vez, em 1958, na Suécia.

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Publicada originalmente no JC de 10/Mar/2012

BARBA, CABELO E BIGODE

Quarta-feira de cinzas, meio da tarde; o sol, finalmente, deu o ar de sua graça depois de chover nos quatro dias de Carnaval. Parei o carro num sinal da Avenida Norte, no Rosarinho, e dei de cara com um letreiro no mínimo insólito: “Barbearia como antigamente.”

Quiném um flashback de filme, a barbearia de Seu Artur, na Rua Conselheiro Portela, no Espinheiro, pintou na minha memória; cadeiras de ferro trabalhado, com estofados em couro vermelho, barbeiros cortando o cabelo da freguesia, todos homens, apenas um ou outro menino. As batidas frenéticas das tesouras nos pentes, em meio aos cortes propriamente ditos, mantinham o mesmo ritmo; como se fosse coisa ensaiada. Máquina (manual) de cortar cabelo, só pra soldado e menino. Máquina de barbear? Nem pensar! Navalha de lâmina de aço, amolada na hora em afiador de madeira ou couro. Cheiro de talco Ross e Aqua Velva no ar.

Nem sempre, leitor amigo e distinta leitora, moderno é elogio e antigo é defeito. No exército, mesmo, antiguidade é posto. E modernidade, entre os filósofos gregos, era coisa de aprendiz. Platão justificou a ignorância de um filósofo por ele ser “moderno”, jovem, atribuindo ao homem idade para o saber e a razão. Contou-nos Fernando Pessoa (ou Bernardo Soares) no seu Livro do Desassossego: “Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.”

Reli o letreiro: “Barbearia como antigamente.” Pensei: “barbeiros e não cabeleireiros; tesouras e não máquinas.” Estacionei. E entrei. Mas qual o quê? De “antigamente”, a barbearia não tinha nada. Ao contrário. Hi-tech do piso ao teto; máquinas elétricas para fazer barba, cabelo e bigode. Mais grave: unissex. Pior: para todas as idades. E lembrar que barbearia já foi lugar para se pensar, conversar e trocar ideias. 

Mas como eu já estava lá e precisava mesmo cortar o cabelo, arrisquei: “Tem barbeiro de antigamente?” “Tem” – disse a mocinha da recepção com seu sorriso metálico de aparelho nos dentes. E completou: “Seu Tânio. Ele está cortando o cabelo de um cliente; o senhor será o próximo.”

Sentei para esperar, imaginando como seria alguém que se chama Tânio e é “barbeiro de antigamente”, como garantiu a mocinha da recepção. Mas o máximo que consegui foi lembrar de algumas Tânias. Nenhuma má, justiça se faça. Por que haveria Tânio de ser mau barbeiro?

No telão de plasma da sala de espera, o final da apuração das escolas de samba do Rio. Unidos da Tijuca campeã, com o enredo em homenagem a Luiz Gonzaga. Clientes e funcionários comemoraram como uma vitória pernambucana. (Dizia-se antigamente em Pernambuco que Gonzaga era pé frio porque apoiou candidatos a governador e presidente que perderam as eleições. Pois sim!)

Na sequência do noticiário, um balanço parcial do Carnaval, “a festa mais democrática do planeta”: número de assassinatos, de mortos e feridos nas estradas, estupros, assaltos, furtos, roubos, sequestros, ônibus e trens depredados, pessoas presas e foragidas da justiça… “Falta sangue nos hemocentros de todo o país,” disse o repórter. Em Olinda, os 50 anos do Bacalhau do Batata. Da Bahia, pela primeira vez juntas num trio elétrico, Ivete Sangalo e Cláudia Leite roubam a cena da quarta-feira que era tradicionalmente do Batata.

E eis que chegou minha vez de cortar o cabelo. Grata surpresa. Tânio tinha cara de barbeiro de antigamente, pinta de barbeiro de antigamente e era, de fato, um autêntico barbeiro de antigamente: “E aí, doutor? Cortei seu cabelo na época que trabalhava no Fígaro.” E assim foi meu reencontro com Tânio, a tesoura marcando o ritmo no pente.

Bela sonoplastia para uma quarta-feira de cinzas.

PRA ONDE VAI, VALENTE?

“O pernambucano não é bairrista, é orgulhoso”, diz Ida, Idalina Tomé, uma  baiana amiga minha, useira e vezeira em me provocar. No entendimento dela, “orgulhoso vive do passado; bairrista, do presente”. Bronca de pernambucano? Ou psico-antropologia histórica? “Os dois”, diz ela. “Também tenho conhecimento de causa. Fui casada com pernambucanos. Logo dois.”
 
Li um artigo outro dia que pretendia traçar um perfil do pernambucano (“precursor da independência e da república”): irredento, rebelde, revolucionário e valente. Não resisti. Mandei-o pra Ida. Pra variar, ela glosou logo a nossa valentia. “O artigo até parece embolada de Manezinho Araújo: Pra onde vai, valente?”.
 
“Os holandeses invadiram a Bahia seis anos antes de invadirem vocês” – diz Ida toda prosa. “Aí, passaram seis anos. Aqui, foram escorraçados com um ano e pouco. Quer saber? A gente nem fala disso. Quem deveria comemorar a expulsão dos holandeses eram os portugueses. Afinal, éramos colônia. Mas vocês se autoproclamam, orgulhosamente, ‘berço da nacionalidade’. Só se for da nacionalidade luso-tropical.”
 
Ida foi professora convidada de História do Brasil em Coimbra. Entre as revoltas e insurreições pernambucanas, a Revolução de 1817 é o xodó da baiana. “Muito mais importante para a independência do Brasil do que a celebrada Inconfidência Mineira. Pernambuco tornou-se independente de Portugal cinco anos antes do Brasil. E foi república 72 anos antes da proclamada por Deodoro. Uma república progressista, inspirada no iluminismo, nos ideais da revolução francesa e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão; com uma constituição que respeitava liberdade de imprensa, direitos individuais e cultos religiosos. Domingos Martins, o líder, herói brasileiro. E é nome apenas de uma ruazinha no Recife. Enquanto o teu parente, Joca, o Barão de Souza Leão, com todo respeito, é avenida. Afinal, título nobiliárquico, ainda que canavieiro, é com vocês mesmo.” (Eu sabia que ia sobrar pra mim.) “Gilberto se orgulhava mais do ‘y’ no Freyre do que dos seus (muitos e grandes) méritos como escritor e sociólogo. Nada mais pernambucano” – declara Ida com seu pretenso “conhecimento de causa”.
 
Pernambuco pagou caro ao império por suas lutas libertárias e republicanas. Como punição, perdeu boa parte do seu território. E virou a linguiça que é hoje no mapa do Brasil. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e um pedaço da Bahia eram tudo Pernambuco. “Se vocês fossem bairristas, teriam, com a proclamação da república, lutado para reaver, pelo menos, os territórios do estado de Alagoas e da comarca do São Francisco (que perderam pra gente, pra Bahia, por conta da Confederação do Equador). Os pernambucanos eram credores da república. Mas, por orgulho, preferiram passar à história como vítimas do império” – essa é a versão de Dra. Idalina, Ph.D. em História.

“Joca, você leu A Noiva da Revolução, de Paulo Santos? Arretado como historiografia e surpreendente como romance. Da próxima vez que eu for ao Recife, dê um jeito de me apresentar a ele.” Li, concordo com você e promessa é dívida, Ida: vamos tomar um uísque com Paulinho, sim. Mas, aviso logo: apesar de pernambucano, é bairrista até a medula.

Em tempo:

1º. Não tenho nada a ver com o que diz Dra. Idalina Tomé, baiana da Barroquinha, maior de idade e vacinada. A quem interessar possa a polêmica, aí vai o endereço da moça: idatome2009@gmail.com;

2º. A decoração de Carnaval do Recife (sem literatice e em poucas, pouquíssimas palavras) segundo a leitora e professora Lectícia Cortês: “Decoração, supõe-se, é pra decorar; diria o famoso conselheiro eciano”.

“CARNAVAL ANTIGO…”

Por preguiça e má vontade carnavalesca (que me acomete há anos), recorro, neste sábado de Zé Pereira, a Antônio Maria, um dos maiores cronistas do Brasil e compositor de frevos desbragadamente pernambucanos.

“Sou do Recife / com orgulho e com saudade / Sou do Recife / com vontade de chorar / E o rio passa / levando a barcaça / pro alto do mar / E em mim não passa essa vontade de voltar / Recife mandou me chamar…”

Geraldo Maia canta Frevo nº 3, de Antônio Maria, acompanhado pela Spok Frevo Orquestra.

A crônica Carnaval antigo… Recife transcrita logo abaixo é de 1964. Fevereiro. E ele morreu em outubro. A partir daqui, abro alas e aspas a Antônio Maria.

“No Recife, o Carnaval começava no Natal. Ou melhor, não havia Natal no Recife. A 24 de dezembro, os blocos saíam à rua, com suas orquestras de trinta a quarenta metais, seus coros de vozes sofridas, a tocar e a cantar as ‘jornadas’ mais líricas. Chamavam-se ‘jornadas’ alguns dos cantos carnavalescos do Recife, talvez por influência das ‘jornadas’ dos pastoris. Agora, por que os cantos dos ‘pastoris’ se chamavam jornadas, não sei.
 
(…) Não se pode fazer ideia do que era o povo do Recife, solto nas ruas, após a declaração irresistível do Carnaval. Faziam parte da corte imperial mulheres morenas, que suavam, em bolinhas, na boca e no nariz. Mulheres de olhos ansiosos, presas de todos os atavismos de religião e dor, a dançar a mais verdadeira de todas as danças – o frevo. Ah, de nada serviam suas heranças de submissão, porque o despontar do Carnaval era um grito de alforria. E seus corpos, seus braços, seus pés, teriam sido repentinamente descobertos, assim que os clarins do Batutas de São José  romperam o silêncio a que os humildes eram obrigados. Tão louca e tão bela, aquela dança! Uma verdade maior que as verdades ditas ou escritas saía dos seus quadris, até então bem comportados.
 
Se fosse possível descrever, em palavras, a introdução, ao menos a introdução, da marcha do clube das Pás! Mas é possível dar uma ideia do que se passava por dentro de mim, que me sentia, inopinadamente, órfão e livre, desapegado de tudo e de todos. Eu era mais que um guerreiro. Era o vento. Cada homem e mulher era uma parte daquele furacão libertário. Todos se emancipavam (eu digo por mim) e se tornavam magnificamente dissolutos… porque o clarim estava tocando, porque os estandartes se equilibravam no espaço, porque o mundo, naquele exato e breve momento era, afinal, de todos.
 
Tudo deve estar mudado. O Carnaval do Recife talvez não seja, hoje, um desabafo. Talvez não contenha aquele desafio de homens e mulheres, livres de todas as sujeições e esquecidos de Deus. É possível que se tenha uma festa, simplesmente. Talvez seja alegre e isto é sadio. Mas os meus carnavais eram revoltados. Não tenho a menor dúvida de que aquilo que fazia a beleza do carnaval pernambucano era revolta – revolta e amor – porque só de amor, e por amor, se cometem gestos de rebeldia.
 
De madrugada, o menino acordava com o clarim e as vozes de um bloco. Eles estavam voltando. O canto que eles entoavam se chamava “de regresso”. Não sei de lembrança que me comova tão profundamente. Não sei de vontade igual a esta que estou sentindo, de ser o menino que acordava de madrugada, com as vozes de metais e as vozes daquele Carnaval liricamente subversivo. 

Meu quarto era de telha vã. Minhas calças, brancas. Meus sapatos, de tênis. Meu coração, inquieto. E nada tinha sido ainda explicado.”

(Aqui, fecho aspas à crônica do “meu Maria”, que era como Vinícius de Moraes o chamava.)

Aos que, como eu, querem distância do Carnaval de hoje em dia, bom descanso. Aos que não, que seja, então, do jeito que o diabo gosta: “Até quarta-feira, a pisada é essa.”

(Infelizmente, Capiba, meteram chiclete, banana e dendê no nosso frevo.)

PODEM TIRAR O CAVALINHO

Neguinho por aí confunde ficar quieto com depressão. “Fulano tá meio borocoxô; sai pouco e não viaja.” Ando quieto no meu canto. Mas, aviso logo, deprimido coisíssima nenhuma. Os psicoterapeutas amadores podem tirar seus cavalinhos da chuva pra não pegar resfriado. 

Na minha opinião, saio mais, até, do que deveria. Casa dos filhos, da namorada e dos amigos, cineminha da Fundação, Sarau Plural, lançamento de livro e exposição de arte, bar uma vez ou outra, compras semanais e caminhadas por aí, além de umas viagenzinhas de carro para o litoral e agreste, no máximo. Viajar pra longe, mesmo, faz tempo. E quer saber de uma coisa? Não sinto a menor falta. Viajo na maionese, nas ondas da internet e nas páginas dos meus livros.
 
Sou, caro leitor e caríssima leitora, do tempo da Panair e da Varig (BOAC, KLM, Lufthansa, Swissair…). Luxentozinho? Sou. Pra viajar, sobretudo. Mil vezes a lentidão dos aviões a hélice (Constellation, DC-7 ou Electra), bem sentado e bem servido, à velocidade dos jatos com poltronas coladas umas às outras e servindo barras de cereais. Mil vezes as aeromoças às comissárias de bordo. Mil vezes andar na pista, subir a escada do avião e embarcar na hora marcada aos fingers com overbooks, atrasos e cancelamento de voo sem aviso prévio nem satisfação.

Estados Unidos? Nem pensar! Quem quiser que me chame de orgulhoso. Mas não me submeto mais àquela entrevista humilhante no consulado, com um inquisidor  arrotando empáfia. Respeito é bom e eu gosto. Declaração de renda, comprovantes de bens e investimentos? És tu nada, baby! Minha grana é curta, mas vocês não vão ver nem a cor.
          
Ah!, além da entrevista, ainda tem um questionariozinho ridículo. “Possui treinamento com armas, explosivos, artefatos nucleares, biológicos ou químicos?” (“Não. Vamos fazer cursos de pilotagem” – responderam os caras da Al-Qaeda em 2001.) “Experiência com drogas?” (Nunca experimentei. Mas Obama disse que já.) “Participou de conspiração?” (Só na condição de vítima; com o golpe de 64, patrocinado pela CIA.) “E tortura?” (O que é isso, afinal? Recrutamento para o campo de concentração americano em Guantánamo?) “Pretende exercer a prostituição nos E.U.A.?” (O senhor acha que tenho alguma chance?) “Cometeu ou incitou assassinatos políticos?” (Pra isso, vocês não precisam de ajuda, my friend. Há mais de cem anos que tentam e matam presidentes e candidatos.) E por aí vai o tal questionário. Se você acha que estou exagerando, gente fina, é só acessar esse link aí: Visapro.

Há anos, venho programando voltar a Portugal. Viagem de um mês, um mês e pouco. Sem pressa. Nada de hoje aqui, amanhã acolá. Dormindo e acordando nas horas de sempre. Nada de excursão. Se possível, com um pequeno grupo de amigos. Alugar uma van. Com motorista, claro, pra poder tomar umas e outras. Melhor, uns e outros. Vinhos. De castas centenárias. Amor-não-me-deixes, Graciosa, Donzelinho, Malandra, Mulata, Carão de Moça, Dedo de Dama, Carnal, Perigo, Esgana Rapazes, Valente… São mais de cem as castas portuguesas. Região por região, de norte a sul. Trás-os-Montes, Porto, Douro, Bairrada, Dão, Óbidos, Alenquer, Ribatejo, Setubal, Alentejo…
 
Fazia parte da mitologia brasileira crer que os portugueses nos consideravam irmãos, patrícios, porque nos  colonizaram e falamos (segundo eles,“mal e porcamente”) a mesma língua. Na verdade, sempre nos tiveram na conta de sub-raça; mestiços, crioulos, índios, mazombos. Ignorantes.  Mas agora, meio lisos, estão menos arrogantes e mais amistosos. Até em Lisboa, imagine.  E nossos euros nunca foram tão bem-vindos. Talvez viaje este ano. Ou, quem sabe, no próximo?

Até lá, vou ficando por aqui, quieto no meu canto.

TEM DOIDO PRA TUDO

Do jeito que tem doido pra escrever dizendo que inventou um jeito de abrir vidro de geleia (furando a tampa), tem doido pra ler. Doido ou desocupado (com todo respeito).  E não são poucos. Choveram e-mails no meu laptop.

Jairo Lima e Glívio Coelho, mesmo, escreveram pra dizer que meu método não tá com nada; não adiantou furarem a tampa. Jairo teve que usar uma peixeira e Glívio um abridor de lata. De fato, amigos, faltou um item na minha crônica do ano passado (26/11).

Atenção, nobres leitores! Esta instrução complementar é da maior importância: se o furo na tampa não resolver, pegue uma colher de sopa e, com o verso (a parte convexa; a côncava é a que se usa pra comer), dê umas porradinhas secas e breves nas bordas. A explicação é simples. E científica. O furo alivia a pressão. E as porradinhas descolam. Acontece que, com o tempo e a variação de temperatura, tanto o metal pode dilatar quanto as resinas utilizadas na lata da tampa podem aderir ao vidro. Essa, acho, nem Ana Maria Braga sabe.

Agora, essa, aqui, todo gordo experiente sabe. Como esticar camiseta, suéter ou pulôver. Vestir e esticar, puxando pra cima e pra baixo, pra frente e pros lados, certamente não é. A malha fica cheia de pontas. Vamos, pois, à maneira certa. Antes de tudo, sente na cama. Em seguida, pegue a peça. E a vista nas pernas. Sem pressa e até acima dos joelhos. Um pé em cada manga. Aí, gentilmente, abra as pernas, forçando a malha. Duas, três vezes. Experimente no corpo. Se preciso, repita a operação.

Quem estava aí, todo animado, pensando qu’isso aqui é coluna de dicas de quebra-galho, gorou. Contente-se com a geleia e, se for gordo, com a camiseta. Este é um espaço nobre, caro leitor. Reservado para crônicas e artigos. E o tema da crônica de hoje é “tem doido pra tudo”. Voltemos a ele, pois.

Tem gente que é doido por encomendas. Não de receber, mas de levar, como portador. Ariano Suassuna conta que um tio dele dizia que não gostava de levar, mas era mentira, gostava. Quando ia viajar, prevenia a mulher e os filhos: “Não levo nada! Nem um berilo.” Mas era só encontrar um amigo ou conhecido e já ia se oferecendo: “Se precisar, disponha…” Certa vez, viagem marcada de Taperoá pro Recife, pediram pra ele levar um doido para o Hospital da Tamarineira. Só não disseram qual era a doidice do cidadão. Foram mais de doze horas de sufoco, o doido tentando pular do trem. Ao entregar a encomenda no hospital, prometeu: “Doido dessa qualidade, nunca mais!”

No romance A Porteira do Mundo, Hermilo Borba conta a história de um camarada que tinha uma coleção misteriosa. Memória ou ficção? Meu pai, amigo de Hermilo, dizia que ouviu-o contar antes de escrever o romance. E contava como fato. No livro, o personagem se chama Cláudio. E se apresenta às moças como “colecionador”. Só não diz de quê. Um dia, Hermilo (que é personagem do livro, narrado na primeira pessoa) pergunta: “Você coleciona o quê?” E Cláudio decide revelar o mistério. Leva Hermilo ao quarto da pensão onde morava, na Rua da Concórdia. Pega um livro ricamente encadernado, com título e autor em letras douradas: Inocência, Visconde de Taunay. Exibe a primeira página. No alto, em caligrafia caprichada, gótica: Semíramis. “No meio, louros pelos encaracolados, crespos, amarrados com um laço de fita azul.” E assim segue, página a página, exibindo os seus regalos, todos ofertados, nenhum surrupiado. “Havia-os de todos os tipos: louros, pretos, castanhos, fulvos, oxigenados, acajus, cada cacho com uma fitinha diferente, de acordo com a tonalidade; os nomes das mulheres no alto das páginas.” Na última, murmurou orgulhoso: “Todas virgens.”

E ainda dizem que colecionar borboleta é coisa de doido.

PERDOEM, AMIGOS, MAS…

Vou falar de decoração de Carnaval. Pisando em ovos, mas vou. Que me perdoem os amigos. E, este ano, são logo três, entre homenageados e decorador: Alceu, Zé e Carlinhos.

Os homenageados no Carnaval são, sempre, mais do que merecedores. Essa não é a questão. A questão é que a intenção não passa, não se realiza, não se expressa na decoração. Enquanto projetos, no papel ou em PowerPoint, tudo bem, a coisa funciona. Mas na rua são outros quinhentos.
 
A ideia de homenagear artistas no Carnaval é boa. Ótima. E vem de longe. Precisamente 1980. Krause, prefeito. Leonardo Dantas, na Fundação de Cultura. “Este ano o Carnaval tem nome: Capiba!” – dizia o filme publicitário que criei (na época, redator da Abaeté Propaganda). O filme abria com Capiba tocando um piano de cauda em frente ao Teatro de Santa Isabel. Guedes Peixoto (regente da Sinfônica) ficou uma fera (com toda razão) porque desafinaram o piano no transporte do palco para a rua.
 
Fazia tempo que não se tocava tanto frevo de Capiba no Recife. Essa, a homenagem. Ele saudado em todas as festas, desfilando em carro aberto, citado por toda a mídia e protagonista da campanha publicitária. Capiba, pra quem não sabe, também era pintor (naïf, como se diz hoje). Mas ninguém pensou em transformar seus quadros em decoração. Ainda bem.
 
Sou fã e amigo de infância de Alceu Valença. Estudamos o ginásio juntos, no Nóbrega (com Decinho, irmão dele, também). Mais: sou amigo-irmão de Clávio Valença, primo e conselheiro de Alceu.

Sou amigo de Zé Cláudio desde a juventude (quer dizer, eu muito jovem e ele já pai de família, Maria Júlia e Mané meninos; ela, Maria, se referia a mim como “aquele amigo de papai que parece um porquinho” – “É porque você tem o nariz arrebitado e é gordinho”, dizia Léo, a mãe dela, tentando amenizar o “porquinho”).

Sou amigo e admirador de Carlos Augusto Lira. A nova sede da agência de propaganda de João (meu filho), Toni e Matheus, a Plano B, em Casa Forte, é projeto dele, Carlinhos. Um craque. A agência tá show de bola. Nossas filhas têm a mesma idade e o mesmo nome: Joana.

Zé Cláudio e Alceu são os homenageados do Carnaval este ano. Carlinhos, o decorador da cidade. Amigos do peito. Por isso, “piso em ovos”. Mas já vi esse enredo em outros carnavais, com Vicente Monteiro e Tereza Costa Rêgo (minha amiga querida), pra citar apenas dois. Quando homenageados, tiveram suas obras traduzidas em peças de vinil e bonecos de isopor. Fora das telas, seus habitats naturais, os personagens resultaram em figuras melancólicas, solitárias, perdidas na moldura, no caso, a imensidão da cidade. (Se este ano, com Zé Cláudio, for diferente, escreverei, com prazer, uma crônica penitente.) 

A propósito, recebi diversos e-mails de leitores criticando a decoração de Natal. Queixa unânime: falta de luz. E acho que tinham toda razão. Natal é luz. Viva Nova York! Luz. Cascatas de luz. Viva o quartel da PM iluminado!  E não as borboletinhas da Agamenon Magalhães que, coitadas, mal iluminavam elas próprias (e me disse uma leitora que as borboletas eram importadas, francesas; notívagas mariposas, talvez).

Fincaram esdrúxulas estruturas de metal nas margens do canal e nos canteiros laterais da avenida, para instalar penduricalhos e refletores que não iluminavam coisa alguma. Ora, ora, minha gente, a Agamenon tá cheia de árvores e postes. Era só iluminá-los. Assim como as pontes e margens do rio, as luzes refletindo na água.
 
Melhor seria se a grana das borboletas, das decorações e dos trios elétricos baianos socorresse os autos natalinos e as agremiações carnavalescas; pois, eles, sim, é que deveriam, de fato, fazer as festas populares do Recife. Mas estão se acabando, morrendo à míngua, no escuro.
 
Pois que em vez de frevos, executem réquiens!  

EÇA & OUTRAS

O florista foi cortar o cabelo na barbearia. Depois do corte, perguntou o preço e o barbeiro respondeu: “Não posso cobrar porque estou prestando serviço comunitário esta semana.” O florista ficou feliz da vida e foi embora. No dia seguinte, quando o barbeiro abriu a barbearia, encontrou um buquê de rosas e um bilhete de agradecimento do florista.

Mais tarde, foi a vez de um padeiro cortar o cabelo. Após o corte, quando foi pagar, ouviu do barbeiro: “Não posso cobrar porque estou prestando serviço comunitário esta semana.” O padeiro foi embora feliz. No dia seguinte, o barbeiro encontrou um cesto com pães e doces na porta da barbearia e um bilhete de agradecimento do padeiro.
 
Naquele mesmo dia, um deputado foi cortar o cabelo. Quando foi pagar, novamente disse o barbeiro: “Não posso cobrar porque estou prestando serviço comunitário esta semana.” O deputado ficou feliz e foi embora. Na manhã seguinte, quando o barbeiro abriu a porta, teve uma surpresa: havia uma fila aguardando que a barbearia abrisse. Todos deputados.

Essa é de Eça (de Queirós), escrita em Portugal há mais de cem anos. Mas bem que poderia ter sido escrita outro dia e aqui, como as historinhas de deputados brasileiros que se seguem aí.

Uma comissão de banqueiros foi ao Palácio Bandeirante para uma audiência com o hoje deputado Paulo Maluf, à época governador de São Paulo, nomeado pela ditadura militar. O chefe de gabinete anunciou: “Governador, a comissão dos bancos chegou.” Recomendou Maluf: “Mande depositar na minha conta das Ilhas Caimã.”
 
Severino Cavalcanti, presidente da Câmara dos Deputados, e Aloizio Mercadante, senador, estão dando uma entrevista do lado de fora do Congresso, quando um passarinho, em voo rasante, dá uma cagada na careca de Severino. “Mercadante, vê o que é isso aqui, na minha cabeça.” “É merda, Severino.”  “Eu tô perguntando é o que tá fora.”
 
O deputado Heráclio Rego, o Heraclinho, filho do coronel Chico Heráclio, era tido e havido em Limoeiro como inteligente e versado, autor de muitas proezas. O coronel, no entanto, tinha opinião própria sobre as virtudes do filho: “É tão inteligente, que a verdade acaba e ele continua.”

Solenidade no Itamarati. O ministro Luiz Felipe Lampreia apresenta sua esposa ao deputado Valdemar Costa Neto. Simpática e diplomática, a esposa do ministro o saúda: “Já ouvi muito falar do senhor, deputado.” Diz Valdemar: “Mas ninguém prova nada, minha senhora.”
 
O ex-deputado Delfim Netto, na época todo-poderoso ministro da Fazenda, vai aos Estados Unidos negociar os juros da dívida brasileira com o FMI. Ao desembarcar, chovia a cântaros. O embaixador Mário Gibson, pernambucano, por sinal, o aguardava no JFK. E os dois seguiram direto para a sede do FMI. A chuva não dava trégua. E o carro teve que parar distante do edifício. Delfim propôs: “Arregacemos as calças, embaixador.” E lá se foram eles com suas capas, guarda-chuvas e calças arregaçadas. Já abrigados do aguaceiro, Gibson recomenda: “Ministro, abaixe a calça.” “Calma, embaixador! Primeiro, vamos tentar um acordo.”
 
Confirmada sua eleição para deputado federal em 2006, um repórter pergunta ao estreante Clodovil Hernandes se ele não tinha medo das cobras que ia encontrar no Congresso. Clodô dá um beliscãozinho na bochecha do repórter: “De cobras entendo eu, meu filho. Não tenho medo de nada. Sou feito cachorrinho. É só passar a mão nas minhas costas que eu já abano o rabo.”
 
Como disse um bêbado a Tarcísio Pereira no Bar Savoy nos anos 70: “Nóis sofre, mas nóis goza.”

COMPRE UM NAVIO

“São seis tamanhos de manga para cada número de colarinho. Um deles, exatamente o seu”. Parecia uma grande ideia. E era. Se o sujeito tivesse pescoço grosso e braços curtos, tava resolvido. Se, ao contrário, pescoço de girafa e braços de chipanzé, idem. Na medida. Sem precisar de ajuste. Tecido da melhor qualidade e corte moderno. Camisas Torre. Made in Pernambuco. Aqui, no bairro da Torre. Sucesso em todo o Brasil.

Enquanto a Torre tinha lojas próprias, maravilha. Quer dizer, mais ou menos. Loja pra vender um único tipo de produto e de uma única marca tem custo alto. E pouco fluxo. (“O segredo está no mix”, ensina meu amigo Germano Haiut que sabe das coisas.) Por isso, a Torre passou a vender suas camisas em lojas de roupa masculina.

Número de colarinho vai de 36 a 46. Onze, portanto. Vamos dizer que um fabricante de camisa tirasse um pedido de 100 camisas para cada número de colarinho. 1.100 camisas ao todo, certo?  Certo. Desde que as camisas não fossem Torre. No caso da Torre, o pedido teria que ser de 6.600 camisas (1.100 x 6 diferentes tamanhos de manga). Haja estoque! A ideia parecia boa. E era. Um ovo de Colombo para o consumidor. E de avestruz para o lojista.

A Torre era uma potência. “Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade”, como a casa do avô do poeta Manuel Bandeira na Evocação do Recife. Mas a Torre não acabou por causa da camisa, não. Ora, nem pensar! A Torre era uma das maiores fábricas de tecido do país. A camisa, apenas um produto. Tiraram de linha e priu.

A fábrica e as vilas de funcionários e operários ocupavam praticamente todo o bairro. Tudo na Torre era da Torre. A cantina começou vendendo alimento apenas para os empregados. Mas eram tantos, que virou supermercado (“mercadinho”, como se dizia à época). O primeiro self-service do Recife. E a primeira rede de supermercados. Aí, claro, não apenas para os empregados: Comprebem.

Quando eu tinha 13, 14 anos, circulou um livreto que fez sucesso: Um dia na vida de Brasilino. Já ao acordar, Brasilino começa, sem saber, a pagar dividendos às multinacionais. Luz canadense, escova e pasta americanas, pincel de barba com fio de nylon francês, leite de vaca alimentada com farelo americano, linha inglesa para pregar o botão da camisa (a mesma linha que boicotou e quebrou Delmiro Gouveia), cigarro anglo-americano, carro alemão, gasolina anglo-holandesa… E assim ia Brasilino ao longo do dia. Nada que consumia e comprava era brasileiro, tudo pagava “royalty a um trust estrangeiro”. “Isso é publicação comunista, financiada pelo ouro de Moscou” – diziam os liberais mal-humorados.

Ao sentar, ontem, para tomar o café da manhã, lembrei de Brasilino. E digo por quê. Um adesivo no mamão: Frutas Doce Mel. Fui ver na internet. É da Paraíba. “Ainda bem”, pensei. “É daqui, do quintal do vizinho.” E voltei à mesa. Mas não resisti. Fui ver  rótulo de tudo: leite, café, geleia, manteiga, queijo, presunto, tudo, até açúcar, de fora. Nada de Pernambuco. Só Alagoas, São Paulo, Espírito Santo, Rio, Minas, Santa Catarina… E comprados em supermercados multinacionais ou paulistas. Fui pros remédios. Todos paulistas. E comprados em farmácia cearense ou maranhense. Sentei pra ler os jornais e peguei os óculos. Comprados numa ótica que até outro dia era daqui; agora, paulista. Pra completar, faltou luz. Liguei pra Prontidão. Sabe onde atenderam? Salvador, Bahia.

Somos brasilinos, por assim dizer, ao quadrado. Quando não pagamos royalties às multinacionais, pagamos às multiestaduais.
Se você quiser comprar algo made in Pernambuco, compre um navio. E pague royalty à Coreia.

DEI UM PITU

Na brincadeira de pega, quando o pega corria atrás de mim e tava quase me pegando, eu gingava, fazia que tava indo prum lado e ia pro outro. Dava um pitu. E o pega ia pro lado que eu tinha feito que ia, mas não fui. A meninada, em coro, gozava o pega: “Gorooou!”
 
Dei um pitu em você, caro leitor. Sem gozação. Mas dei. Disse que ia aproveitar as férias pra “ir até ali pegar umas histórias no ar pra contar”, mas não fui nem nada. Fiz que ia, mas não fui. Fiquei. Afinal, em todo canto tem ar. E histórias. Foi só pegar.

Peguei algumas. Poucas. Mas boas. Umas simpáticas, outras engraçadas; nenhuma dramática, que ninguém deve começar o ano contando história dramática. Mesmo porque histórias dramáticas, salvem-se honrosas e belíssimas exceções, não são histórias pra crônica.  Nem dramáticas nem (muito) líricas.  Escrevendo crônica, até os eus-líricos do poeta Bilac pegavam maneiro.
 
Pelo menos para as primeiras semanas do ano, a lavoura tá salva. As histórias  estão anotadas no meu caderno, que eu, como Camus, não me fio na memória. É pegando e anotando. Às vezes, só o mote. Outras, uma conversa, um personagem, um cenário, uma nota de jornal, um poema, um romance, uma piada, um xingamento, um galanteio, um telefonema, uma chuva, um gesto, um dito, um feito, o que for. Por vezes, apesar de acalentadas e cultivadas, as anotações não dão em nada. Outras, não dão na hora, mas, depois, quem sabe, cada qual não encontra o seu lugar?

Nesses seis anos escrevendo crônicas, já são 12 os cadernos. Numerados com caligrafia caprichada e algarismos romanos, em reconhecimento à importância que lhes dou. Todos iguais, da mesma marca e cor, amarelos, capa dura e papel pautado.  Daqueles que não foram feitos para arrancar página. Anotei, tá lá.

Lendo A Porteira do Mundo, de Hermilo Borba, encontrei um personagem (memória ou ficção?) que se apresentava como “colecionador”, só não dizia de quê. Até que Hermilo descobriu. Eita, lapa de doido! Se você não leu o livro, nem desconfia de que era a coleção. Aguarde a crônica. E quando li a história de Hermilo, lembrei uma contada por Ariano Suassuna há muitos anos. Um camarada de Taperoá que era doido por encomendas. Não de receber. Mas de levar. Anotei as duas no caderno: “Tem doido pra tudo.”

Um continho (melhor, fábula) de Eça de Queirós sobre deputados portugueses, trouxe-me à memória um monte de histórias de deputados brasileiros. Digitei a história de Eça no computador. E anotei as minhas no caderninho. Título: Eça & Outras (não sei se o trocadilho vai resistir ao texto final; mas achei engraçado e anotei).

“Seis tamanhos de manga para cada número de colarinho. Um deles, exatamente o seu”, slogan de uma marca de camisa que já nem existe mais, também foi pro caderno. E digo por quê. Desde que me aposentei da propaganda, há seis anos, não uso gravata. Mas, outro dia, precisei. E tentei. O colarinho da camisa foi que não atacou (encolheu, acho). Troquei o terno (que também não atacou) por um blazer e me mandei para a solenidade sem gravata, apesar de o convite recomendar “social completo”. Por conta do colarinho apertado, pintou o velho slogan. Quem sabe não vira crônica?

Mais uma. Na noite de Natal, meus netos brincavam de pega com os amiguinhos. Minha neta Maria Júlia deu um pitu no meu neto Pedro. “Boa, Júlia! Que pitu arretado você deu em Pedro,” exclamei. Terminada a brincadeira, ela veio me perguntar: “Vovô, eu dei o que em Pedro?” “Você deu um pitu.” “E o que é pitu?” Expliquei. E anotei: “Meus netos chamam ‘brincadeira de pega’ de ‘pega-pega’ e não sabiam o que é ‘dar um pitu’. Agora, sabem.”

Essa anotação deu crônica. As outras, citadas aqui, prometem. Espero que não me deem um pitu.

A GENTE PEGA NO AR

“Que tipo de mistério é esse, que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão, e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão, morrer de fome, de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada, e que afinal, pensando bem, não serve para nada? Algumas vezes acreditei – ou melhor, tive a ilusão de estar acreditando – que ia descobrir de repente, o mistério da criação, o momento exato em que uma história surge. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça. (…) Ouvi e li um sem-fim de conclusões, tentando ver se descubro o momento exato em que a ideia surge. Nada. Não consigo saber quando isso acontece.”

A elucubração é de Gabriel García Márquez, um craque, especulando sobre o lampejo, o insight, a centelha que dispara a ideia de uma história.  Mas, aí, claro, falando de quem escreve ficção, coisa de gente grande, graúda, e não de escribazinhos de coisas miúdas e cotidianas quinem este, aqui, que o leitor tem diante dos olhos.

Gabo se referia a onde – que danado – um José Saramago da vida ia buscar ideias tão alucinadas quanto a de um país se desprender do continente e virar uma ilha flutuante, uma jangada de pedra, a percorrer diferentes latitudes e longitudes; hoje aqui, amanhã acolá. Nem ele, Saramago, saberia dizer, creia. Sua natureza peninsular, por certo, o ajudou. Mas por que outros peninsulares não tiveram a mesma ideia? Simples: porque não eram escritores. Ou porque não eram Saramago.

A história do escritor de ficção está no ar, no éter, na quinta-essência, na cabeça (aliás, não está; só está na cabeça depois que surge, sabe-se lá como, nem García Márquez sabe “quando isso acontece”); enquanto a história do cronista está na rua, no mercado, no jornal, no velório, na livraria, em casa, na mesa do bar. Seu mérito, reconhecê-la. Pegá-la no ar.
 
Homero Fonseca contou numa crônica que estava num bar em Caruaru nos anos 60, quando um camarada chegou e apresentou o cara que estava com ele: “Pessoal! Este aqui é Fulano, um ladrão amigo meu.” Todas as atenções se voltaram para o ladrão, “na expectativa de narrativas eletrizantes” de roubos e furtos ou, na pior das hipóteses, de estelionatos e golpes. Mas, nada! O cara comeu e bebeu a noite toda de graça por conta de uma única e repetida frase: “O bom cabrito não berra.” O cronista Homero registrou o episódio. Os outros à mesa, necas. Pagaram a conta do ladrão sem lhe ouvir a odisseia.

Eu, mesmo, estava num bar no Pátio de Santa Cruz, depois de longa caminhada com um grupo de amigos, quando, duas mesas adiante, um camarada começou a contar a história de um criador de passarinho que trocou a mulher, “uma galega nova e viçosa”, por um canário de briga que morreu na primeira rinha. “Foi uma bicada só.” Se mais não sei, foi por que o camarada não contou. Nem eu perguntei. E não sou mentiroso nem ficcionista pra inventar.
 
Faz tempo, uns 30 anos, creio, eu estava na praia com meu amigo Aécio Gomes de Matos. Verão brabo. Céu azul, maré seca e mar absolutamente verde. Comendo ostra viva e tomando cerveja bunda de foca. Aécio me perguntou: “Joquinha, se Dostoiévski morasse aqui, você acha que teria escrito Crime e Castigo?” E ele mesmo respondeu: “No máximo, Capitães de Areia, né?” É certo. A vida do escritor o persegue na ficção. A história inventada se mira na geografia da crônica. Mas não se contenta. E dana-se pelos escaninhos e ocos do mundo.

Caro leitor: vou aproveitar as férias e ir até ali pegar umas histórias no ar,  pra ter o que contar quando voltar. Dia 7 de janeiro. Até lá, então. E um ótimo Ano Novo pra você e os seus.

* * *

Carlos Pena deu a receita de como fazer um soneto; mas eu acho que a receita serve pra prosa também:

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
E espere um instante ocasional.
Neste curto intervalo Deus prepara
E lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
Se você preferir a cor local,
Não use mais que o sol da sua cara
E um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure o cinza e essa vagueza
Das lembranças da infância, e não se apresse,
Antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
Dentro da escuridão a vã certeza,
Ponha tudo de lado… e então comece.

NUNCA MAIS

Nunca mais serei desmoralizado por um vidro de geleia. Foram anos e anos de humilhação. Menino, diante de minha mãe. Depois, adolescente e adulto, pior, diante de namorada, mulher, filhos e namorada novamente. Mas acabou. Fim. Nunca mais serei desmoralizado por um vidro de geleia. Pode ser do que for. Feita onde for. Pena que minha mãe não possa ver minha glória. “Ganhei, mãe!” Ela ficaria orgulhosa de mim.
 
Antes, quando eu via um vidro de geleia fechado, fugia ou me fazia de surdo. Agora, é só pedirem (ou mandarem): “Abra essa geleia aqui.” Aliás, não precisam nem pedir (ou mandar). Quando vejo alguém com um vidro na mão, já me ofereço: “Pode deixar.” E sigo o ritual que eu mesmo estabeleci.

Anote aí, caro leitor. Antes de qualquer coisa, faça uma propagandazinha do seu talento intelectual: “Simples. Em vez de força, uso a cabeça” (a frase deve ser acompanhada dos gestos correspondentes: “força” e “cabeça”). Em seguida, o instrumento de trabalho: uma faquinha de ponta fina (ou furador; o de canivete suíço é de primeira). Bote a ponta da faca (ou do furador) bem no meio da tampa (por razão puramente estética). E, com a base da outra mão (regiões tênar e hipotênar, próximas ao pulso, que, na mão, equivalem ao calcanhar, no pé) dê uma pancadinha no cabo. Pronto. Furou. Não abra. Deixe que a pessoa que lhe pediu o faça. Coisa que ele (melhor, ela) fará sem nenhuma dificuldade. E você lhe será inesquecível.

Sempre desconfiei de que houvesse um complô internacional dos fabricantes de geleia pra sacanear com a gente (os homens, sobretudo). E há. Eles participam de uma entidade secreta. E se reúnem todos os anos em Estocolmo (há controvérsias quanto ao local; algumas fontes asseguram que é em Helsinque), próximo ao Natal (período em que a imprensa internacional negligencia a pauta) para testar a inviolabilidade de suas embalagens. O teste consiste no seguinte: o campeão mundial de halterofilismo é contratado, a peso de ouro, para, de olhos vendados, tentar abrir tampas de geleias produzidas pelos fabricantes associados. Abriu, tá fora da entidade. O selo de qualidade, conferido apenas às que passaram no teste, ou seja, as que não abriram, é representado graficamente pela porta de uma caixa-forte (até o século 19, era representado por um cadeado do tipo Bayonet Padlock).

Só os fabricantes das melhores geleias do mundo têm, em seus cofres, o tal selinho. Alguns, brasileiros. Entre eles, o fabricante da Queens Berry. A de laranja é boa paca. Tem uns pedacinhos de laranja. Entre amarguinha e doce (não muito). Não há mau humor que resista. Café preto, torrada bem torradinha, manteiga, fatia fininha de queijo do reino e ela, a rainha (Queen), coroando tudo. Dieta? Segunda-feira, a gente volta à ela.

Cheguei, confesso, a desistir da Queens Berry. Pegava-a na prateleira do supermercado, mas, quando lembrava o sacrifício para abri-la, não comprava, deixava no caixa. Algumas vezes, cheguei a levar umas geleias que já vêm com um furo na tampa de metal, vedadas por uma tampinha de plástico. Tirou a tampinha, a bicha abre fácil. (Mesmo assim, nunca tinha me ocorrido o óbvio: furar a Queens.)

Como toda frase feita, esta é tão besta quanto verdadeira: a necessidade é a mãe da invenção. Não fosse ela, a minha necessidade de comer boas geleias de laranja, eu jamais teria inventado o furo na tampa. E você, amigo leitor, reconheça, passaria o resto da vida sendo humilhado por vidros de geleia.

Mas nem todos concordaram com a importância da minha sacação. “Você acabou de inventar a roda”, disse o poeta Francisco Schaedler com seu vozeirão de trombone. Respondi com um velho rock do Ultraje a Rigor: “A inveja é uma merda!”

UM INIMIGO NA PRAÇA

Convivi com deficientes mentais desde menino. Tive um tio deficiente. E um grande amigo de infância na Rua Nicarágua, adorado e protegido por todos nós, era deficiente. Há muitos anos, contribuo com uma entidade que cuida de deficientes. Por isso, tenho certeza, certeza absoluta, de que nenhum deficiente mental, com qualquer grau de deficiência, seria capaz de botar gelos-baianos sobre as calçadas de uma praça, como os caras da Prefeitura do Recife fizeram na Praça dos Manguinhos semana passada. Portanto, que não se chame essa gente de débeis mentais porque seria injusto. E ofensivo aos portadores de deficiência mental.

Dizia Albert Einstein que somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E ele não estava seguro quanto à primeira. Os gelos-baianos na Praça dos Manguinhos, no entanto, não são, apenas, um caso de estupidez humana, à qual se referiu Einstein. Mas, também, perversidade. Perversidade contra o Recife.  “Os moradores podem ficar tranquilos que até o Natal eles vão ter sua praça de volta”, disse o porta-voz da Prefeitura à reportagem do Jornal do Commercio. Cinismo. Descaso. Deboche. Escrevo sobre gelo-baiano, essa excrescência no Recife, há seis anos. Baiano? Baiano coisíssima nenhuma. Você já foi à Bahia? Não? Então, vá! Você não vai ver essa obscenidade por lá. Aliás, nem lá nem em parte alguma. Essa, a originalidade que nos resta.

Em várias crônicas (uma, inclusive, publicada quando o prefeito atual assumiu), sugeri substituir esses monstrengos por jardineiras. Com apoio da ABF Engenharia, participação do arquiteto e paisagista Luiz Vieira e realização da Oficina de Imagens, da minha amiga Alice Gouveia, produzi um filmezinho que, por meio de computação gráfica, transformava os gelos-baianos em canteiros de flores. E, a partir de um projeto de Luiz Vieira (que batizei de Gelo-pernambucano), a ABF Engenharia desenvolveu um protótipo de jardineira, utilizando carcaça de pneu. Ou seja, dois coelhos com uma cajadada: reciclagem de lixo industrial e urbanismo. Mais estética e ambientalmente correta, impossível. Tentei, por diversas vezes, apresentar filme e protótipo ao prefeito do Recife. Em vão.

Participei de um debate no programa de Geraldo Freire, na Rádio Jornal, com Arthur Carvalho (mestre de todos nós, cronistas do Recife) e o secretário de Desenvolvimento Urbano e Obras à época, Amir Schvartz. Disse ele no ar: “Suas crônicas são lidas, apreciadas e anotadas pelo pessoal da Prefeitura, inclusive pelo próprio prefeito”. (Desculpe, secretário, mas não tenho por que acreditar em suas palavras. Como já disse em crônicas anteriores, o filmezinho taqui, comigo, e o protótipo da jardineira tá na ABF há mais de três anos, à disposição. É só ligar que vamos apresentá-los ao excelentíssimo senhor prefeito. E por um único motivo: o Recife.)

Qualquer sujeito limítrofe, no umbral da oligofrenia, teria aumentado a área dos canteiros e protegido com gradezinhas discretas, em vez de danar gelos-baianos em cima das calçadas, como fizeram os sacripantas na Praça dos Manguinhos. Mas, como se diz, há males que vêm para o bem. Como a burrice, o mau gosto e a perversidade contra o Recife, dessa vez, ultrapassaram todos os limites, os famigerados gelos-baianos ganharam, finalmente, o repúdio da população e mereceram matérias indignadas deste JC: primeira página com foto colorida, reportagem no caderno Cidades e comentário crítico de Fernando Castilho na coluna de economia.

A este modesto cronista, que há tanto tempo escreve e protesta, quase solitário, contra a excrescência do gelo-baiano, fica a certeza de que a luta, agora, ganhou dois novos e poderosos aliados: o povo e o JBF.

À vitória, pois!

PRA HOMEM NENHUM

Aos 17 anos, entrei numa agência de propaganda pela primeira vez. Saí aos 60, com alguma fama, muitos prêmios e nem tanto dinheiro. Mas fui publicitário meio por acaso.  Publiquei um poema no caderno literário do Jornal do Commercio e me convidaram para ser redator de propaganda. Pelo visto, o poeta não era lá essas coisas; senão, teriam  chamado para escrever poesia. E não anúncios.
  
Em propaganda, fiz de tudo. Ou quase tudo. Algumas coisas não fiz. Por exemplo, nunca arrumei mulher para cliente. O que quase me custa o primeiro emprego. E, consequentemente, a carreira. Explico. Um belo dia, liga um camarada do Rio chamado Oriovaldo Vargas, diz que está vindo ao Recife com dois clientes e me faz a seguinte encomenda: “Alugue um carro Galaxy; reserve duas mesas de pista na boate Rosa Amarela (c/ duas garrafas de Ballantine’s 12 anos) e providencie três mulheres de alto nível.” Fui ao meu chefe, falei do telefonema e disse: “Minha carreira de publicitário se encerra aqui, porque eu não arrumo mulher pra homem nenhum.” O chefe me mandou cuidar da primeira parte da encomenda e ficou, ele, de providenciar a última.

Dia seguinte, fui, dirigindo o Galaxy, receber o tal Oriovaldo no aeroporto. O homem era nada menos que o presidente da agência. Quando me apresentei, ouvi: “Quer dizer que você não arruma mulher pra homem nenhum?” (Meu chefe havia contado a história por telefone.) Eu disse “pra homem nenhum.” Ele caiu na gargalhada… e eu permaneci publicitário sem nunca ter arrumado mulher pra homem nenhum.
          
Ao deixar a propaganda, 43 anos depois, publiquei uma crônica (que eu não imaginava, seria a primeira de tantas), na qual contava a minha trajetória profissional (desde office-boy de um pequeno banco aos 13 anos até dono de agência), saudava meus primeiros patrões (que se tornaram grandes amigos, como Bernardo Ludermir e Mário Leão Ramos), sócios (como Jairo Lima), clientes, colegas de trabalho e meu pai (Caio Souza Leão, “de quem herdei o DNA de publicitário”). Dizia ainda que não tinha um projeto de aposentadoria. Mas, por absoluta falta de vocação – e não preconceito –, não iria cultivar orquídeas nem colecionar borboletas.
 
“Acho que posso fazer o que sempre fiz: escrever”, pensei. “Mas escrever o quê?” Ora, se a vida toda escrevi parábolas sobre produtos, que tal tentar parábolas sobre o cotidiano? Crônicas. E comecei. Com mil dúvidas. Entre elas, se o gênero ainda tinha leitores. Dúvida dissipada logo, logo. Já na terceira crônica, recebi dezenas de mensagens, centenas de manifestações de apoio (publicadas em nota nos jornais)… e quatro intimações judiciais. (A crônica denunciava uma faculdade que descaracterizou o Sítio Histórico da Capunga – incluindo a casa onde nasceu o poeta Manuel Bandeira —, pintando-o com suas cores publicitárias, como se fosse um mero outdoor. Eles repintaram as casas. Mas, em vez de me agradecer, processaram. Resultado, a cronicazinha repercute até hoje. E eu, sempre que posso, relembro o episódio aos leitores e agradeço aos amigos pela solidariedade.)
 
Semana retrasada, contei essas e muitas outras histórias a Homero Fonseca, Marco Pólo, Geraldo Maia e à plateia do Sarau Plural. Contar pequenas histórias do cotidiano é o que tenho feito nos últimos seis anos. Afinal, como disse Machado de Assis numa crônica há mais de cem anos, “o cronista é um escriba de coisas miúdas”. E a crônica, segundo Antônio Prata, “é gênero literário de várzea, numa época em que as várzeas foram asfaltadas”.
 
Quanto à carreira de publicitário, devo a duas coisas: a um poema (por certo, medíocre) e a um patrão inteligente e sensível. Dedicação, lealdade e profissionalismo, tudo bem. Agora, arrumar mulher? Pra homem nenhum!

O AUTOBIOGRÁFICO

Li uma crônica de Antônio Maria, há muitos anos, em que ele dizia que a pior coisa que pode acontecer com a gente num bar é encontrar com um cara autobiográfico. O sujeito chega, senta na sua mesa sem pedir licença e começa a falar da única coisa que considera interessante no mundo: ele mesmo.  “Acordo cedo e a primeira coisa que faço é tomar uma boa chuveirada.” E segue o cara autobiográfico na sua adjetiva crônica do cotidiano: “dou uma olhada nos jornais e tomo um café reforçado”. “Ah, a pena de morte para as pessoas que tomam ‘café reforçado’!”, desejava o bom Maria, como era chamado por Vinícius de Moraes.
 
E não é que topei com um cara autobiográfico esta semana. Logo daqueles que fala segurando o botão da camisa da gente. Meia dúzia de palavras e lá ia ele no botão da minha camisa; às vezes, com os dedos das duas mãos, desatacando e atacando. Não sei se isso está previsto no código penal (tá, Boris Trindade?). Eu dava um passo atrás; ele, à frente. Sinuca de bico. Se desse dois passos, corria o risco de perder o botão que, a essa altura, já devia estar por um fio. E que coisa desagradável é homem tocando na gente. De tanto murchar a barriga para evitar o contato, tive até cãibra.
 
O fatídico encontro foi num cartório da Dantas Barreto, onde eu tinha ido reconhecer firma de um documento. Mas, seja onde for, o cara autobiográfico se sente o protagonista. Em casamento, a noiva, pra ele, é coadjuvante. Em velório, então, o morto não tem vez. O cara dá pêsames à viúva contando o quanto sofreu com a morte do avô dele. “A senhora não imagina o quanto eu era pegado a vovô. Certa vez…”  e por aí vai.
 
Só estou contando essa história aqui porque tenho certeza de que o cara autobiográfico não vai ler. Os autobiográficos não são de muita leitura. Aliás, de leitura nenhuma. Jornal, só horóscopo. O próprio, claro. Da vida dos outros, não se interessam nem por personagem de novela. Crônica, então, que a gente escreve na primeira pessoa e conta passagens do cotidiano, nem pensar. “De problemas, bastam os meus.”
 
Não vou amolar você, caro leitor, contando o que o cara autobiográfico me contou no cartório. Deve ser sina. Todo cara autobiográfico tem uma vidinha “vulgar e silvestre”, como diria meu pai. Apenas para que você tenha uma vaga ideia do repertório (e se compadeça do meu infortúnio), vou citar os temas que lembro: sono (“durmo como um anjo; nem sonhar sonho” – mal sabe ele o que diz Freud sobre isso), exercício (“antes do banho, não dispenso a minha sueca” – referindo-se, claro, à ginástica sueca; com uma loura sueca é que não haveria de ser), café (“frugal” – pena de morte também, Antônio Maria, para quem toma café “frugal”), intestino (que ele, evidentemente, nominou com um verbo detestável, quase palavrão: “defeco como um justo” – nem que eu quisesse, amigo, poderia lhe dizer como os justos “defecam”, porque não fiquei para ouvir essa parte; aproveitei o pretexto do tema e caí fora, com a desculpa de que precisava ir ao banheiro).
 
Caro leitor, se você topar com alguém, nas cercanias, dizendo “minha vida daria um filme”, “minha vida daria um romance” ou “letra de música”, já sabe: trata-se de um autobiográfico de alta, altíssima periculosidade. Mantenha distância.

P.S. – Quarta-feira passada, lancei o livro Pano Rápido, ilustrado por Ricardo Melo, coeditado pela CEPE e revista Algomais. Agradeço aos leitores e amigos pela grande presença; aos leitores da revista Algomais que compraram o livro com antecedência; e às empresas que o adquiriram para dar de brinde a seus clientes. Agradecimentos especiais à brilhante equipe de criação da agência Plano B, às produtoras de imagem, Casa de Caju, e de som, Muzak. Não custa lembrar: Pano Rápido, já nas melhores livrarias e bancas de revista da cidade.

TRAILER DO PANO RÁPIDO

Ganhe meu livro “de grátis” (como diz minha neta Júlia)

Promoção exclusiva para os leitores do JBF. Participe!

Na crônica abaixo, não revelo os desfechos das histórias (em azul). Se você já as conhece (algumas foram publicadas na minha coluna da revista Algomais), tudo bem, melhor pra você. Se não, tente adivinhar o que dizem os personagens. E mande para o JBF. Quem acertar mais ganha um exemplar do Pano Rápido.

Respostas por aproximação (ou seja, o mesmo sentido, mas com outras palavras) valem como certas. E se houver empate, vale a ordem de chegada das mensagens. Portanto, não perca tempo.

Se o ganhador morar na Região Metropolitana do Recife, é só levar o e-mail (resposta) do JBF para o lançamento do Pano Rápido: Museu do Estado, dia 26 próximo (uma quarta-feira), a partir das 6 e meia da noite. Lá, entrego o livro autografado, tiramos uma foto e tomamos um drinque.

Se o vencedor morar em outra cidade, é só mandar o endereço completo que o JBF envia o livro.

“Simples, fácil e divertido”, como dizia o professor Câmara Lima nas provas de física.

Então, mãos à obra!

* * *
 
Trailer do Pano rápido

As histórias que contei aos leitores da revista Algomais na coluna Pano rápido, ao longo de dois anos e pouco, estão de volta. Agora, em livro. Mais de 200 histórias. Muitas novas, novíssimas. Com caricaturas e ilustrações de Ricardo Melo. Políticos, poetas, escritores, artistas, jogadores, boêmios, barões e varões, cristãos e hereges, não escapa ninguém. Pernambucanos. Não só, mas, principalmente.

Aqui, leitor, você tem um trailer do que vem por aí. Mas, porém, contudo, todavia, como num bom trailer, sem os respectivos desfechos, claro. É mais ou menos isso que os publicitários chamam de teaser (provocação).

 Sorte

O poeta Ascenso Ferreira ganha uma bolada no Cassino Americano, no Pina. Na saída, um mendigo lhe estende a mão. “Vou dividir minha sorte com você, amigo.” E dá uma esmola arretada. De lá, direto pra zona do Recife. E continua dividindo a sorte, agora com as putas. Torra quase tudo. Volta ao cassino. “Hoje é meu dia de sorte.” Perde o resto do que tinha ganho e mais algum. Na saída, o mendigo lhe estende a mão. (O que terá dito Ascenso ao mendigo? Tchan, tchan, tchan, tchaaaan…)

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Artilheiro

 Traçaia, Naninho, Gringo, Soca e Geo. Ataque mágico e arrasador do Sport de 1955 a 62. José Roque Paes, o Traçaia, maior goleador rubro-negro de todos os tempos: 201 gols. Em 1959, titular da seleção pernambucana, a famosa “Cacareco”, Traçaia disputa o Campeonato Sul-Americano Extra (hoje, Copa América) no Equador. Pernambuco fica em terceiro lugar. Café da manhã no hotel de Quito. O garçom exibe a bandeja e pergunta a Traçaia: “Te gusta papaya?” (Traçaia traçou seu melhor portunhol, como se verá no livro.)

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Burrice

“A lei é quiném uma cerca. Quando é fraca, a gente passa por cima; quando é forte, passa por baixo”, dizia o todo-poderoso Coronel Chico Heráclio. Certa feita, apareceu por Limoeiro um caboclo inteligente e bom de gogó. Elegeu-se vereador sem o apoio do Coronel. Na eleição seguinte, seu nome nem apareceu na lista de candidatos.

— Esse aí era muito precoce.

— Precoce como, Coronel?

— (Que danado terá respondido o Coronel?)

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Convertida

Dom Lamartine Soares, bispo auxiliar de Olinda e Recife, e Marcus Cunha, deputado federal, foram visitar Dom Hélder Câmara em casa, na Rua das Fronteiras. Encontraram Dom Hélder na calçada, cercado por mendigos. Um deles, camarada alto, cabelo e barba longos e grisalhos, vestindo um colete surrado, falava com a mão por sobre os ombros de uma mendiga.

— Dom Hélder, Tânia seguiu o seu conselho…  (Que santo conselho terá dado o Dom?)

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Grande coisa!

Caetano Veloso foi visitar o pintor Zé Cláudio em Olinda. Ciça, a cozinheira, gritou lá de dentro, sem nem ao menos abrir a porta: “Tá não. Saiu!” “Posso entrar pra esperar?”, perguntou Caetano. “Pode não!” “A senhora sabe quem eu sou?” (Ganha um doce quem adivinhar o que Ciça respondeu.)

* * *

Curioso? É só comprar o livro, gente fina. Coeditado pela CEPE e Algomais, o Pano Rápido será lançado no próximo dia 26, uma quarta-feira, no Museu do Estado, a partir das seis e meia da noite. Até lá, então.

Em tempo: E na terça, 25, sou o convidado especial de Homero Fonseca, Marco Pólo e Geraldo Maia para o Sarau Plural. Às sete da noite, em ponto, na Galeria Plural, Rua da Moeda, 140. Vocês, leitores e amigos, são meus convidados.

O NETO “POLIGROTA”

A filha de um amigo meu casou com um alemão. Tudo bem. Quer dizer, tudo mais ou menos. Bem, mesmo, só por um lado. O lado dela, que ganhou um bom marido. Pelo lado do pai é que entra o “mais ou menos”. Claro qu’ele queria que a filha casasse bem como casou. “Mas não precisava ter ido morar tão longe, né?” Ah!, não disse ainda: filha única. Ah!, deixei pra dizer agora: neto único.
 
Coisa que avó e avô mais gostam no mundo é quando os filhos vão pra uma festa e deixam os netos pra eles tomarem conta. Quando viajam, então, ah, é a glória: os meninos ficam na casa deles por uns dias. Dizem que os avôs estragam os netos, porque lhes fazem os gostos. Refrigerante e pizza todo dia, sorvete antes do almoço. Computador e videogame, então, é o dia todo. Pois bem, meu amigo ainda não teve a chance (e o prazer) de estragar o neto dele, que já tá com cinco anos.
 
O genro trabalha numa multinacional, dessas gigantescas, que tá em tudo quanto é buraco do planeta. Ganha bem e mora bem. Tudo do bom e do melhor. Em cinco anos e meio, já moraram na Alemanha, no Canadá e no México, onde estão agora. Mas, em reconhecimento ao seu talento e dedicação (as múltis são sempre muito reconhecidas às contribuições dos seus funcionários), este mês, finalmente, ele recebeu uma boa, melhor, uma ótima notícia: foi promovido. E com direito a transferência e tudo. Galgou dois degraus na hierarquia corporativa, e agora é chefe. A família já tá de malas prontas. Adiós, México! O novo destino os aguarda de braços abertos: Singapura.

Coitado do meu amigo. E ele achava que Alemanha, Canadá e México eram longe. Mesmo assim, visitava a filha e o neto duas vezes ao ano e eles vinham pelo menos uma vez ao Recife. E agora? Singapura é longe paca! Haja aeroporto, overbook, voo atrasado, cancelado, fila de espera e conexões. Sabe pra quando tá anunciado voo direto do Recife pra Singapura? Dia de São Nunca.

Se você tem uma filha pensando em casar, caro leitor, torça para não casar com um cara que trabalha em multinacional. Porque em matéria de múlti, quanto maior, pior. Se seu genro for competente, então, a chance de sua filha e seus netos irem morar na Cochinchina é enorme. Já se foi o tempo em que elas, as múltis, contratavam nativos para trabalhar em seus países e cidades de origem. Se o mundo não é global (e não é,  basta ver a zorra e as guerras que estão por aí), as múltis são. E a coisa é ideológica. O negócio é cortar todas as raízes do cara, para que a múlti seja sua única ligação e referência no planeta Terra. Quando o cidadão começa a esquentar a cadeira num lugar, fazer filhos e amigos, eles mandam o cara pro fim do mundo. “Ah!, já tá se enturmando aí, né? Então, vai pra casa de chapéu.”

O netinho do meu amigo fala alemão com o pai, português com a mãe e espanhol na escola. Quer dizer, “fala” é força de expressão. Entende as três línguas. E responde numa quarta: salada das três.

Além do inglês, os singapurianos falam malaio, mandarim e tâmil. Agora, sim, o garoto vai virar, como diz brincando o avô, “poligrota”.

P.S. Estou em plena contagem regressiva: dia 25, terça, participo do Sarau Plural como convidado especial de Homero Fonseca, Marco Pólo e Geraldo Maia. Galeria Plural, Rua da Moeda, 140, às 7 da noite; dia 26, quarta, lanço o livro Pano Rápido, ilustrado com caricaturas e desenhos de Ricardo Melo, coedição da CEPE e revista Algomais, no Museu do Estado, a partir das 6 e meia da noite. Leitores e amigos, espero vê-los nos dois eventos. Até lá, então!

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 8 de outubro de 2011

A MORTE DA BEZERRA

“Tá pensando na morte da bezerra.” Diz-se de alguém absorto, o pensamento longe, no oco do mundo, alheio a tudo e a todos. Na minha cabeça, expressão nordestina, sertaneja, desde menino lhe sei o sentido. E, na minha cabeça de menino, vinha a imagem do lamurioso proprietário de uma bezerrinha querida e valiosa que, com sua morte, o deixara saudoso e liso.

Mas eis que, lendo um texto que discutia os méritos da tradução literária, a encontrei na boca de Roskónikov, protagonista de Crime e Castigo, traduzido por Paulo Bezerra do russo para o português, sem passar, como em outras traduções, a maioria,  pelo (romantismo) francês: “E eu falo pelos cotovelos porque não faço nada. Foi neste último mês que aprendi a matraquear, varando dias e noites deitado num canto pensando… na morte da bezerra.”

Apesar de a questão ser, justamente, a pertinência à língua para a qual se traduz a obra – e não tão somente, nem mesmo principalmente, com a língua traduzida –, fui atrás da origem da expressão. E veja só, caro leitor, que coincidência: eu pesquisando sobre “a morte da bezerra” e o tradutor, Paulo, que hoje é nosso grande especialista em Dostoievsky, é Bezerra. Bezerra da Paraíba.

Fiquei sabendo que a coisa vem de longe. Tá em Câmara Cascudo (Locuções Tradicionais no Brasil). Diz ele que o hebreu Absalão não tinha mais bezerros para oferecer em sacrifício a Deus e, por isso, ofereceu a bezerra do filho. O menino, então, passou o resto da vida ao lado do altar que se prestara ao sacrifício, “pensando na morte da bezerrinha”.

Foi bom reler o velho Cascudo; quanta coisa a gente pensa que veio de ontem e de perto, mas veio, na verdade, da época e do lugar em que Judas perdeu as botas (para trair Jesus, como se sabe, Judas recebeu 30 dinheiros; quando os soldados souberam que ele tinha se enforcado, foram em busca do dinheiro, mas encontraram o cadáver sem a grana e descalço, sem as botas – isso também tá lá, nas Locuções Tradicionais do Brasil.)

É muita coincidência para uma crônica só, mas, acho eu, as coincidências andam mesmo me perseguindo. Estava, trasanteontem, no terraço de casa, absorto, pensando num tema para a crônica de hoje, quando chegou o poeta Garibaldi Otávio: “Tá pensando na morte da bezerra?” Reagi como se tivesse sido flagrado fazendo algo errado; contradisse: “Não. Na morte da cachorra.” E, aí, passei a falar de Nana, minha cachorrinha que morreu. Aliás, ela nem minha era. Era de Joana, minha filha. Eu era, digamos, avô. Nana era como Baleia de Graciliano em Vidas secas, “uma pessoa da família: para bem dizer não se diferenciava.”

“Foram 13 anos de chamego e encanto”, disse Carlos Heitor Cony na crônica em que se despediu da sua Mila, que tinha a mesma idade de Nana. Pela idade dos cachorros, uma senhora. Mas ela também vivia o tempo como gente. Aos 13, era apenas uma mocinha, brincalhona e trelosa. Como ser, melhor que muita gente, afetiva e generosa.
 
Esta piada é velha, mas boa e verdadeira. Se você tiver alguma dúvida de quem  gosta mais de você, se seu cachorro ou seu amigo, prenda os dois na mala do carro e abra duas horas depois. Você vai ver quem vai lhe fazer festa.

Todo cachorro é bom. Até pitbull. Se alguém é ruim, é o dono. Se é que existe alma e se é que as melhores vão para o céu, não tenho a menor dúvida: o céu é uma cachorrada só. E lá estão elas, Nana, Baleia e Mila, brincando com a bezerrinha do filho de Absalão.

O poeta Garibaldi caprichou na dose de uísque e não perdeu o mote: “Um brinde às quatro, então!”

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 1º de outubro de 2011

TELEFONEMA

Atendi o telefone. Foi só ouvir o “quem fala?” e já fui dizendo quem tava ligando: “André Carneiro Leão”.  Ele ficou surpreso: “Tás bom de ouvido.” Tinha ligado, por certo, pra falar outra coisa. Mas, pegou o mote. O fato de eu tê-lo reconhecido de cara ganhou o papo. “Os membros de uma tribo reconhecem uns aos outros pelos mais diferentes sinais”, disse ele. “Já escrevi sobre isso”, emendei. E lembrei três histórias, nas quais eu dizia como reconheci pernambucanos (e fui reconhecido por eles) em diferentes circunstâncias. 

Numa, estava em São Paulo, quando passou um camarada que eu achei que poderia ser um amigo de infância. Arrisquei: “Ricardo, reconheci você de costas.” Ele, sem se virar: “Joca, reconheci você pela voz.” Noutra, no cinema São Luiz, na época em que, antes dos trailers e do filme principal, passava o jornal da tela com notícias e futebol. Alguém tossiu. Reconheci a tosse: “Caio (meu irmão) taqui.” Tossi de volta. Ele tossiu. E assim foi, ele de lá e eu de cá, até que descobri onde estava sentado e sentei ao lado. E a terceira, em Toledo, na Espanha, identifiquei a gargalhada que vinha de um ônibus de turismo, estacionado ao lado de outros. Subi no ônibus e lá estava, como eu imaginava, o dono da gargalhada: Jorge Carneiro da Cunha.
 
Aproveitando a embalagem, contei a André outras histórias que se passaram comigo e sobre as quais ainda não escrevi.
 
Aeroporto do Galeão. Entrei no saguão de embarque correndo, em cima da hora do voo. Sei lá quantos portões, uns vinte.  Nem olhei para o cartão de embarque para checar o número. À distância, vi logo, pelo jeitão dos que estavam na fila, qual era o portão do voo para o Recife. “Aquela é minha gente.”

De outra vez, em Congonhas, também atrasado, fui numa kombi da Infraero direto para o avião. Ao entrar, vi logo que havia alguma coisa errada. Perguntei à aeromoça: “Esse voo vai pra onde?” “Aeroporto Salgado Filho, senhor, Porto Alegre.” Vexame. Desembarquei e a kombi me levou para outro avião. Quando embarquei, não tive a menor dúvida: aquele era o meu voo.
 
Na calçada da Oxford Street, em Londres, vinha um sujeito falando português alto atrás de mim. “Esse é do Recife.” Fiz que entrava numa loja e esperei que ele passasse. Era Linaldo Uchoa de Medeiros conversando com um cara baixinho. Falava, gesticulava e gargalhava como se estivesse na Rua Nova.
 
“André, até nossos mortos a gente reconhece pela pinta, rapaz.” E contei-lhe mais uma de Londres, onde conheci Osman, um cara daqui, de Camocim de São Félix. O avô dele tinha ido operar a catarata em Londres. Morreu, coitado, atropelado por um ônibus double decker (aquele de dois andares). Fui ao velório. Cheguei na hora do almoço.  Seis velórios sem identificação dos inquilinos. E não tinha viv’alma em nenhum deles. Dei um tempo. Não apareceu ninguém. O jeito foi espiar os defuntos.  Por razões óbvias, exclui dois, eram mulheres. Restavam quatro. Mas só um de suéter e cachecol. “Deve ser esse que tá com frio”, pensei. E arrisquei. Deixei um cartão para Osman na salva de metal que estava sobre um pedestal, na entrada do velório. Dia seguinte, o encontrei na aula de inglês. Fiquei na minha, calado. Bingo!  Ele me abraçou e agradeceu a presença. “A gente tinha ido ao pub fazer um lanche e tomar uma lager”, desculpou-se.
 
Como praticamente só eu falei e nos despedimos sem que André dissesse o que pretendia, da próxima vez, acho, não vai me dar a mínima chance de reconhecê-lo já de cara. A saudação telefônica será, prudentemente, à portuguesa: “Estou cá, quem está lá?”

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 24 de setembro de 2011

AOS SÓCIOS DO COUNTRY (II)

Recebi carta do amigo, médico, escritor e ex-presidente do Country Club Rostand Paraíso, a qual transcrevo, a seguir, quase na íntegra.

Prezado Joca,

Excelente sua crônica sobre o Country (3/9). Ótima, como, aliás, todos os seus textos: bem escritos, leves e de um humor delicioso. Saborosa a história de João Burro, que eu não conhecia (caso contrário a teria colocado entre aquelas que enumerei ao falar, certa vez, daquela figura folclórica).

No entanto, Joca, cabe um esclarecimento sobre as árvores do Country. A história é diferente da que você contou. Em artigo no JC (8/7/2007), eu me alonguei sobre o assunto. Disse, entre outras coisas, mais:

“Uma árvore que muito me marcou foi uma velha mangueira, frondosa e de acolhedora sombra, existente no Country e que dominava o pátio ao lado da varanda. Apesar das podas a que, para lhe restabelecer o equilíbrio, era periodicamente submetida, numa tarde de sábado de 1972, com o clube cheio de crianças, ela foi, repentinamente, ao chão. Lembro-me: um estrondo assustador; todos correram, pressurosos, para prestar socorro a algum acidentado. Milagre, ninguém se feriu. A árvore soubera cair.

No seu lugar, foi plantada uma outra, sua filha, que cresceu soberana. Pois bem, apesar dos frequentes cuidados, há poucos dias, subitamente, caiu, rompendo-se ao meio. Era uma tarde de sexta-feira e, à maneira da sua mãe, soube cair. Não machucou ninguém. Mereceu uma belíssima crônica de Gustavo Krause, frequentador assíduo do Country, que assim se expressou: ‘A emoção era de tristeza e de dor. Isso mesmo, a dor de quem perde amigo. Um amigo igual e diferente de nós. Igual: tem cabeça/copa, tronco/tronco, membros/galhos, sangue/seiva, pulmões/folhas, sêmen/frutos, sementes. Diferente: é incapaz de fazer o mal, melhor dizendo, só faz o bem (…)’

Confesso que, no momento, uma dupla sensação me domina: com a repetição da queda brusca, felizmente sem consequências, tive uma estranha sensação de ‘déjà vu’. Ao mesmo tempo, olhando o vazio do território onde, durante décadas, ela reinara e que, com o piso rapidamente restaurado, nada mais tem a lembrá-la, invade-me outra sensação, a de ‘jamais vu’, chegando a dar a impressão de que ali nada existira anteriormente. Meu receio é que essa última sensação, a de ‘jamais vu’, perdure e que os mais novos no clube se habituem à ausência daquela sombra acolhedora. E que possa surgir a ideia de uma obra de cimento e cal, de um palco para espetáculos musicais, por exemplo, ou de qualquer outra coisa, em lugar da gostosa sombra verde de que usufruímos durante tanto tempo. Impõe-se que os arquitetos e paisagistas do Country pensem, de imediato, no que plantar ali, se não uma mangueira, árvore ou arbusto mais adequado para a área.”

Felizmente, meu caro Joca, a preocupação ecológica é tão forte no Country que, no ano de 2009, o presidente Caio Pereira plantou, festivamente, no mesmo local onde reinava a antiga mangueira, uma maçaranduba, árvore que, embora de crescimento lento, é, segundo os peritos, a mais indicada para aquela área.

Com esses esclarecimentos, receba um forte abraço do seu grande admirador,

Rostand.

Amigo Rostand,
           
A versão que contei em minha crônica não foi, esteja certo, inventada por mim. O caso eu contei como o caso me foi contado por um velho sócio e ex-diretor do clube. Mas, com seus esclarecimentos, acho, agora, que foi apenas intriga da oposição, como se diz na política. Infelizmente, o autor da versão já morreu, como as duas mangueiras. Vida longa, pois, à maçaranduba!
 
Tenha-me na conta de seu amigo, admirador e seguidor.

Abraço afetuoso

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 17 de setembro de 2011

TAMOS AÍ, VIU, OBAMA?

A cidade de Santander fica na costa norte da Espanha. É muito antiga. Mas não  tão grande (menos de 200 mil habitantes) nem tão conhecida. O banco, sim. Santander. Um dos maiores do mundo. No Brasil, comprou o Real. E aqui, por tabela, o Bandepe.

O board do Santander, o banco, reuniu-se recentemente em Santander, a cidade, para avaliar a economia mundial e projetar seus investimentos. É que as coisas nos Estados Unidos e Europa andam ruças. Espanha, Portugal, Itália e Grécia, no pendura. Inglaterra, no freio de arrumação. França, na banguela, perdendo o embalo, nem Carla Bruni levanta.  Alemanha, se segurando (e segurando os outros). E o Tio Sam empurrando com a barriga e pra debaixo do tapete.

Enquanto isso, no Brasil, sabe qual foi o lucro do Santander apenas no primeiro semestre deste ano? R$ 4,154 bilhões. É mole? “É mole, mas sobe”, como diz Zé Simão. E, segundo matéria do Estadão, já tem neguinho por aí, brasileiro acionista do banco, com as barbas de molho, temendo que mandem essa grana para a matriz espanhola. Multinacional, bicho. Não faz graça pra ninguém.

Na reunião em Santander, disse o presidente do banco, Marcial Portela: “Em poucos anos, o Brasil terá menos pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza do que os Estados Unidos”. (Tamos aí, viu, Obama? Brinque! Se bobear, nóis passa vocês também acima da linha de riqueza.)

A crise da bolha americana (aquela em que a bolha era deles, mas os bolhas éramos nós, habitantes do planeta), 2008/09, veio quente. A gente a esfriou. E até crescemos. Pouco, mas crescemos. E aumentamos nossas reservas.  A crise de agora, que inclui a Europa, pode vir, até, mais quente, que a gente tá fervendo. Temos, hoje, US$ 350 bilhões em reservas; US$ 130 bilhões a mais do que tínhamos na época da bolha. E o presidente do Santander tá de olho nessa grana. “25 milhões de brasileiros ingressarão no sistema bancário nos próximos quatro anos, e nosso grande desafio será conquistar as camadas mais baixas da população.”

Mas nem tudo são rosas por aqui, senhor presidente. Na área econômica, mesmo, nossas taxas de juros (na qual o Copom acabou de dar uma cortadinha de 0,5%) só interessam a quem especula. E a inflação deve beirar os 6,5% este ano. Na área política, corrupção e impunidade ainda nadam de braçadas. E na social, apesar da melhora, a coisa continua braba. Em saúde pública, saneamento, habitação, transporte, segurança, justiça e, sobretudo, educação estamos mal na foto. São dados da ONU: entre os brasileiros com mais de 25 anos, a média de estudo é de 7,2 anos, contra 13,2 nos Estados Unidos. E entre as crianças que estão entrando na escola agora, a expectativa é que estudem por 13,8 anos, contra 20,6 na Austrália. E a qualidade do ensino, muito ruim.

Ainda segundo a ONU, “até 2029, o Brasil terá 55 milhões de favelados”. Entre eles, por certo, boa parte corresponderá à sua expectativa, presidente. Morando em favela, mas cliente do sistema bancário.

Ótimo que em poucos anos tenhamos menos pessoas abaixo da linha de pobreza do que os Estados Unidos, o país capitalista mais poderoso do mundo. Mas, para sermos uma grande nação, ainda falta coisa paca.

O Haiti não é aqui. E a parte que parece Suíça é ilusão de ótica.

P.S.- Recebi e-mails de sócios nostálgicos do Country dizendo que levarão adiante a ideia de comprar parte do terreno do Náutico. Minha promessa na última crônica tá de pé. Se a proposta vingar, vou lutar para que o trecho da Rosa e Silva em frente ao clube passe a se chamar Av. Country Club. Afinal, além dos sócios, os moradores das cercanias serão os grandes beneficiados. O prefeito João da Costa bem que poderia dar uma mãozinha.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 10 de setembro de 2011

AOS SÓCIOS DO COUNTRY

O Náutico tá à venda. Que tal o Country Club comprar um bom pedaço do terreno na área em que são vizinhos de muro? Seria bom para todo mundo: para os (aflitos) sócios do Náutico, para os sócios do Country e para nós, seus vizinhos, moradores da Tamarineira, Jaqueira, Rosarinho, Encruzilhada, Aflitos, Graças e Espinheiro. Porque imagine só se todo o terreno (41 mil m²) virar edifícios. Caos. Nas ruas não cabem mais carros. E no esgoto não cabe mais merda; vive transbordando. Em reconhecimento pela compra, proporia que o trecho da Av. Rosa e Silva, entre a Rua Amélia e a Santos Dumont, passasse a se chamar Av. Country Club. (O vice-presidente da República e conselheiro Rosa e Silva haveria de concordar; como, por certo, o fariam Dantas Barreto, seu adversário político, e Delmiro Gouveia, seu arqui-inimigo. Afinal, tudo pelo Recife!)

Meu pai nunca foi rico, mas tinha dois títulos de sócio-proprietário do Country. Num aperto, vendeu os dois. E nem foi por tanto dinheiro assim. Na época, dava para um cara de classe média, como ele, ser sócio do Country. Passei parte da infância e adolescência lá. Fazia jus ao nome. “Country”, aí, é adjetivo, significa “do campo, campestre” (ex. country house, casa de campo). E assim era o Country. Paradisíaco.

A portaria, um telheirozinho singelo e simpático, sugeria, já na entrada, a intenção de clube campestre. Logo à direita, quadras de tênis (de saibro até hoje). À esquerda, a sede. Simples. Telha-vã (sem forro), caibros e tesouras aparentes. Terraço em L em toda a extensão. Mesas de madeira, cobertas com toalhas de tecido monogramadas. Confortáveis cadeiras de palhinha (jamais de plástico) e braço. Tinha um garçom antigo chamado de Sapateiro (ganhou o apelido, segundo minha mãe, porque, numa festa, final dos anos 40, consertou o salto do sapato de Helena, mulher do médico José Otávio de Freitas Jr.). Na entrada, a sala de sinuca e bilhar. (Dizem que o médico João Elihimas, famoso, desde o tempo de faculdade, pelo apelido de João Burro, estava aguardando sua vez de jogar: “Agora é eu.” O filho corrigiu: “Papai, ‘agora sou eu’.”  “E eu não jogo não, é?”, teria esbravejado João.)  Um grande salão de festas (tá lá até hoje). E o bar, que lembrava um pub inglês. Balcão longo, bancos altos e jogo de dardos. As garrafas de destilados penduradas de cabeça para baixo sobre os dosadores. No alto, ao fundo, os retratos da Rainha Elisabeth II e do Príncipe Philip. (Para provar que o gim nacional – mais barato – era bom, meu pai dizia “os ingleses do Country bebem Seagers e não Gordon’s”.)

No pátio, duas enormes mangueiras sombreavam generosamente o terraço (teriam sido derrubadas porque “sujavam muito e ocupavam um espaço precioso”, que poderia ser ocupado – e é hoje – por mesas para as festas).

“O melhor gramado do Recife”, diziam os peladeiros deslumbrados, eventualmente convidados para jogar no campo do Country. Que gramado! Impecável. (“Ainda é”, disse-me Marcos Arraes, que nunca jogou nem de goleiro.) Viva o soccer (à época, chamado pelos speakers de rádio de “esporte bretão”), pois salvou boa parte da área verde do clube. Depois do campo, lá ao fundo, um bosque a perder de vista; alamedas entre dezenas (ou centenas?) de árvores. Em meio às arvores, um campo de críquete (não aquele, mais conhecido, mas o que tem meias-argolas fincadas no chão e os jogadores tacam as bolas de madeira por dentro delas). E um espaço de terra para jogar bocha (de origem italiana, mas praticado, sobretudo por velhos, em toda a Europa). No final do bosque, a igrejinha anglicana (no terreno do clube); hoje, separada por um muro, com frente para a Rua Carneiro Vilela.

Ah, como seria bom para os sócios, para o Recife e para todos nós, seus vizinhos, se o Country comprasse um bom pedaço do Náutico!

Afinal, “livre pensar é só pensar”, como diz Millôr.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 3 de setembro de 2011

O CHATO DO GOOGLE

“O ignorante afirma, o sábio duvida e o sensato reflete”, disse Aristóteles. “E o chato consulta o Google”, digo eu, pois também sou filho de Deus e discípulo de Platão. O Chato do Google é o cara que, tablet ou smartphone em punho, consulta o Google na hora da discussão e destrói a afirmação do ignorante, esclarece as dúvidas do sábio e interrompe a reflexão do sensato. Fim de papo. Só ele pontifica. Datas, grafias, literatura, autores, atores, letras de música, história, geografia, mitologia grega… e tudo o mais que possa ser tema de uma boa discussão de bar. Se um cara desses baixar na sua mesa, expulse-o imediatamente, antes que seja tarde.
 
Numa mesa do Dom Pedro, cuba-libre e uísque corriam soltos, cada um sabia mais medicina que o outro, apesar de não haver um único médico presente. Discussão acirrada: a diferença entre caduquice e Alzheimer. Clávio Valença resolveu a parada: “Da Serra das Russas pra cima é caduquice; pra baixo, Alzheimer.” Tivesse um Chato do Google por lá, não tinha discussão. Nem a frase de Clávio.
 
Mas, vez por outra, felizmente, o Chato do Google quebra a cara. Outro dia, mesmo, num eventozinho desses que reúne intelectuais e curiosos, um cidadão impudente anunciou e recitou um poema que seria de Carlos Drummond de Andrade. Não era. Vexame. (Fosse ele leitor do poeta e não do Google, reconheceria, logo no primeiro verso, que o dito cujo era fake.) Dia seguinte, um leitor de verdade pôs em suas mãos um exemplar das obras completas de Drummond: “Se achar o poema que você recitou ontem, o livro é seu.” 

Larry e Sergey, os donos do Google, não criaram o site para sacanear nem acabar com a farra de ninguém (dizem até que o Sergey é bom de copo). O Google é um negócio arretado. Só não faz mágica, não transforma ignorante em sábio num clique. Tem que saber consultá-lo. Antes de tudo, saber, ainda que superficialmente, sobre o que se está pesquisando. Confiar desconfiando, checando, rechecando e, sobretudo, observando as fontes. Coisas que o Chato do Google geralmente não faz ou não sabe fazer.

A USP coordenou uma pesquisa sobre a qualidade dos textos publicados na internet. Selecionaram, aleatoriamente, mil e um artigos e teses que tratavam do mesmo tema, antibiótico, e os submeteram aos doutos da Universidade nas áreas de Medicina, Biomédica, Farmácia e Química. Resultado: cerca de 70% dos textos eram absurdos completos; 25% tinham algo a ver, ou seja, “ouviram o galo cantar, só não sabiam onde”; 5%, apenas, tinham, de fato, valor técnico ou científico reconhecido.
 
Apesar da pesquisa da USP, os médicos são as maiores vítimas do Chato do Google. O sujeito já baixa no consultório do médico com seu autodiagnóstico. E ai do doutor se o diagnóstico não coincidir. Veja só. Um paciente entrou no consultório de um médico conhecido no Recife, nem bom-dia deu: “Doutor, tenho Síndrome de  Carpaccio.”  “Síndrome de quem?”   O  paciente,  com  certo ar  de  superioridade,  soletrou a iguaria italiana. E discorreu sobre seus sintomas e queixas. O doutor o examinou. “Clinicamente o senhor não tem nada.” E prescreveu a receita: “Pare de consultar o Google sobre doenças! Vá a um restaurante italiano e peça, como entrada, um bom carpaccio com mostarda, parmesão e azeite.”

Enquanto isso, no Bar do 28, o poeta Garibaldi Otávio cantarolava o “Torresmo à Milanesa” (não precisa consultar o Google pra saber de quem é o samba: Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro): “Vamos armoçar / Sentados na calçada / Conversar sobre isso e aquilo / Coisas que nóis não entende nada.” 

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 27 de agosto de 2011

UM JOVEM APOSENTADO

Comecei a trabalhar com 13 anos. Desde os 17, com carteira (de menor) assinada. Sem férias. Semana Santa e dia enforcado eram consagrados como férias. Viagem de trabalho, levava a família. Para os filhos, pelo menos, virava de lazer.
    
Publicitário por 43 anos, resolvi me aposentar. Apenas da propaganda, diga-se. Certa vez, encontrei com um desses caras que acha que a vida é só trabalho e dinheiro: “Você tá muito bem, jovem, ainda teria muito a dar.” Não disse, mas pensei: “Que papo é esse de ‘dar’, bicho? Se é dar expediente, já dei os que tinha que dar. É só somar férias e feriados trabalhando. Nessa conta, devo estar com uns setenta e lá vai fumaça.” “Tá fazendo o quê?”, insistiu ele. “Escrevendo”, respondi. “Sim, mas como trabalho?” – queria saber, óbvio, era do que eu estava sobrevivendo. “De escrever é que não é”, deve ter pensado.
      
Alguns amigos, entre eles Chico Mendonça e Abelardo Baltar, preocuparam-se com minha aposentadoria (da propaganda, insisto) precoce. Contaram histórias de tédio, depressão e, até, suicídio. Vôte! Abelardo, mesmo, que é engenheiro e sessentão, já avisou aos sócios dele: “Vocês vão ter que me engolir até os cem. Aposentadoria, nem pensar!”  
   
Mas, no meu caso, foi coisa cultivada e pensada. Pesada em balança de precisão: prós num prato, contras no outro. “E vestido de branco eu subi”, como no samba de Vanzolini. E subi leve. No meu julgamento, pelo menos.
           
Tédio? Que danado é isso qu’eu não sei. Vai ver, era aquilo qu’eu sentia aos domingos antigamente, esperando pela segunda-feira. “As tediosas tardes de domingo”, quiném disse García Márquez. Agora, todo dia é sábado. Sábados inteiros, inteirinhos, pra fazer o qu’eu quero, vivendo, como Xico Sá, “de flozô e brisa”.

Visitar meus filhos e netos. Ler, sobretudo reler (quem leu direito o Conde de Monte Cristo e Lord Jim na juventude?). Ir ao cinema num fim de tarde (o da Fundação só passa bons filmes). Tomar meus uisquinhos com os amigos. Cortar cabelo em pleno horário de expediente (imagine só!). Estender almoços tarde adentro, sem remorsos. Ir à Livraria Cultura, responder e-mails e navegar na internet. Fazer compras de supermercado e mercado, mercado mesmo, público; ir à feira, que há quinhentos anos eu não ia. Dar umas viajadinhas aqui pra perto, Gravatá, Garanhuns, Muro Alto (na baixa estação, resort cinco estrelas a preço de pousada), Natal (conversar com Jairo Lima) e Petrolina (só conheço de sobrevoo, mas será a próxima). Frequentar exposições de arte e lançamentos de livro. Não perder, na última terça-feira do mês, o Sarau Plural, com Homero Fonseca e Marco Pólo conversando com gente que vale a pena e Geraldo Maia cantando e tocando violão. Ou, a qualquer dia e hora, assistir a uma palestra maluca, como a que fui um dia desses, sobre vidas pregressas. Ou sobre sexo na terceira idade (é bom saber, pra quando chegar lá, saber o que fazer). Ver televisão sem ser publicitário, sem ver comerciais. Ler jornal e revista sem prestar atenção a anúncio. Ler (mais) e escrever (menos) crônicas e contos.  É pouco? Pode até ser.  Mas duvido que alguém faça, no seu expedientezinho de trabalho, mais do que eu faço num dia (dando toda a pinta de que não tô fazendo nada). E ainda sobra um tempinho pra namorar.
             
Aviso logo, contra mau-olhado e inveja, tô usando uma figazinha que herdei do meu pai. Just in case, como dizem os ingleses, just in case.

P.S. – Francisco de Assis Carvalheira de Mendonça, Chico, morreu semana passada. Um grande, enorme, amigo desde a infância. Modéstia à parte, tive esse privilégio. A crônica de hoje, escrita há algum tempo, saiu da gaveta em sua homenagem.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 20 de agosto de 2011

OS VÍCIOS DE CADA UM

O cara parecia uma chaminé. Cigarro no bico, um atrás do outro. Aí, começou a chupar bala de menta pra dar uma maneirada. Andava com duas carteiras de Carlton. Numa, cigarro; na outra, bala de menta. Quando a vontade apertava, fazia quiném menino pra sortear quem vai ser o pega da brincadeira. Botava as carteiras sobre a palma da mão esquerda e, com o dedo indicador da direita, ia, no ritmo das sílabas, apontando pra uma e pra outra caixinha: “uni duni tê, sala-mê min-guê, a es-co-lhi-da foi vo-cê!” Mas, foi não foi, roubava no sorteio. Acelerava ou moderava o ritmo, para que a última sílaba, “cê”, indicasse a carteira com cigarros. Com o tempo, nem esperava mais a bala derreter na boca e já ia acendendo um. E foi gostando. “A fumaça entra friinha”, dizia. Ficou viciado. Em vez de um vício, dois. Cigarro com bala de menta. Engordou bem 20 quilos. Sabe lá o que são 60 balas por dia?! 28 calorias por bala. 1.680 no dia.  Equivalia a mais duas refeições. Ainda bem que não viveu para assistir à intolerância de hoje em dia. Intolerância aos gordos e fumantes. Pelo que conheci dele, não suportaria. Teria morrido, sim, mas de raiva. Melhor, pois, como foi: fumando e chupando bala de menta.

Não é novidade pra ninguém que droga, fumo, bebida e jogo viciam. Mas tem muito viciozinho safado por aí. Outro dia, mesmo, fiquei sabendo de um no barbeiro. O camarada da cadeira ao lado disse que estava viciado em mulher. Não sei se era propaganda, nem se era enganosa. Mas que ele disse, disse. E parecia falar sério. Sério e infeliz: “É doença, pô, até pro médico já fui.” “E que foi que o médico disse?”, quis saber o barbeiro. “Passou umas pílulas.” “Tomaste?” “Não! Disseram que podia dar um revestrés e eu brochar de repente.”

Conheço um poeta viciado em doença. O que, como se sabe, é, em si, uma doença: hipocondria. O hipocondríaco é viciado em doença. E em remédio. A primeira coisa que ele, o poeta, procura nos jornais, de manhã cedo, é doença, virose e epidemia. E, quando as matérias descrevem os sintomas, ele já sente todos. Tem dia que fica indignado: “Nada! Eita!, jornalzinho sem notícia.” Aí, passa na farmácia da esquina, onde já é íntimo dos vendedores: “Alguma novidade?” A pergunta tanto vale para novas doenças quanto para novos remédios. Os amigos, por sacanagem, prometem  escrever na lápide do seu túmulo: “Vocês acreditam agora?!”

Minha mãe dizia que eu e meus irmãos, Caio e Lula, éramos viciados em coceira. Melhor, em ser coçados. Era ela coçando e a gente instruindo o lugar da coceira nas costas: “Mais pra cima um pouquinho… mais pro lado… mais pra baixo… aíííííí…” E ela ficou viciada em dar de presente, pra gente, coçador, que é aquela mãozinha com o cabo cumprido pra coçar as costas. De madeira, porque as de plástico quebravam nas primeiras coçadas. Mas bom mesmo pra coçar as costas é portal e quina de parede. A gente se coça quiném boi, roçando o lombo.

Como em tudo na vida, existe o bom e o mau. O bom vício e o mau vício. Jairo Lima, por exemplo, é viciado em leitura e música. Vício mesmo, tecnicamente falando: “dependência que leva ao consumo irresistível.” Com direito a síndrome de abstinência e tudo: prisão de ventre e insônia. Isso, desde menino, em Arcoverde. E, com o tempo, a coisa só foi piorando (ou melhorando, depende do ponto de vista).

Há também os viciados generosos. Paulo Francis, mesmo, só bebia “para tornar as outras pessoas mais interessantes”. E o vício também pode ser relativo. “A mentira é um vício apenas quando faz o mal; quando faz o bem, é uma virtude”, escreveu Anatole France.

Mas quem discorda de Liz Taylor? “O problema das pessoas que não têm vícios é que elas têm virtudes irritantes.” E até virtudes viciam.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 13 de agosto de 2011

AGORA É CINZA

Foi tudo muito simples; melhor, singelo, e rápido. Sem as cafonices cenográficas nem as frescuras tecnológicas que se vê em eventos dessa natureza no cinema americano; sem jogo de luzes nem trilha sonora. Silêncio. Recurso, digamos, tecnológico, só o que foi acionado por controle remoto (quiném esses de televisão): uma lâmina de aço escovado desceu, lenta e silenciosa, até fechar por completo o espaço em que se encontrava o esquife. Fim.
 
Numa crônica há quatro anos, ameacei, como protesto, fazer a minha a parte: “só morro quando tiver crematório no Recife.” Agora, tem. Não tô dizendo que é pra já. Apenas, agora, posso. Sem pressa. Pois, como no poema de Edson Régis, é “a pressa que aniquila o verso”. 
 
Fortaleza e João Pessoa já tinham. Perguntei por que a Prefeitura do Recife não construía. “Porque seria antieconômico”, disse-me uma autoridade municipal que não manjava nada de negócios rentáveis. Pois, pelo visto, o negócio vai, literalmente, a todo gás. E não só aqui. Li na Folha de São Paulo, semana passada, que no Rio há fila de espera de até quatro dias na câmara refrigerada, com diária igual à de um hotelzinho três estrelas em Copacabana. No hotel, diga-se, inclui café da manhã.
 
Na crônica já citada, disse que morto conveniente é o que morre de manhãzinha cedo, entre seis e sete horas, porque, aí, até o final do dia, estará tudo resolvido, sem que ninguém precise passar a noite no velório, tomando café frio e contando os segundos. Acrescento aqui que morte súbita também é conveniente. Poupa o moribundo de sofrimento e a família de despesas. O tal “infarto fulminante” que Carlos Drummond de Andrade pediu à sua cardiologista. 
 
Não sou de natureza tão generosa e altruísta, mas, quando penso nessas coisas, penso nos meus filhos, parentes e amigos. Penso em poupá-los da noite insone no velório, do calor ou da chuva no Cemitério de Santo Amaro, onde minha família tem jazigo, e, sobretudo, livrá-los da “sinfonia dos tijolos”, protagonizada por coveiros (pedreiros) maltrapilhos, coitados, misturando cimento com pá e enxada numa sucata de carro de mão, quebrando tijolo por tijolo (sem um “desenho lógico”), para, ao final, numa parede mal enjambrada e sem reboco, escrever, com um graveto, a data no cimento fresco.
 
Se você me perguntar se cremação é coisa de rico, direi que é. Melhor, de remediado pra cima. Se alguém estiver pensando em comprar jazigo num desses cemitérios privados, por exemplo, sai mais barato a cremação. Fiz as contas. Dependendo da localização, que inclui distância, arborização e paisagem (?!), e do número de gavetas, duas ou três, um jazigo custa de oito a 15 mil, mais taxa de condomínio mensal. Contra três mil da cremação. Negociáveis. Ou em quatro vezes no cartão.
 
Não consultei, mas acho que é possível entregar o corpo na véspera para que eles o guardem direitinho. Aí, é só voltar no dia seguinte na hora da cremação. A urna pra cinzas é cara e perfeitamente dispensável. Um belo pote de barro do Mercado de São José dará conta do recado. Agora, que não se invente nada complicado, como lançá-las de helicóptero ou jogá-las em alto mar. Que tal adubar o que nos resta de Mata Atlântica em Dois Irmãos?
 
“Agora é cinza / Tudo acabado e nada mais”, nos ensinaram Bide e Marçal, na voz de Noite Ilustrada. Mas, por enquanto, “eu vou levando a minha vida cantando”, como porta-estandarte de Geraldo Vandré. “Na avenida girando, estandarte na mão pra anunciar.”

P.S. Pixotada na última crônica: “Coeli” é latim. Em italiano, cielo. Peço desculpa ao leitor.

VIVENDO E APRENDENDO

A velhinha estava na porta da farmácia. Quando passei, ela disse “meu filho, se não comprar no cartão, traga um trocadinho pra mim”. Respondi “tá”, mas sem entender direito o que ela tinha dito. Só registrei o “trocadinho”. Quando estava pagando, foi que me toquei: “Se não comprar no cartão…” Claro, no cartão não tem troco. Já sai com a desculpa pronta: “Foi no cartão”. E ela: “Hoje é tudo no cartão.” Fui até o carro, juntei as moedas que guardo pros flanelinhas e dei todas a ela. “Como é seu nome?” “Regina. Regina Celi.” (Ou Coeli, em italiano? Bateu-me a dúvida agora.)
 
A caminho de casa, Dona Regina não me saía do juízo. “Tudo é no cartão.” E é. Menos esmola. Nunca tinha pensado nisso. O cartão ferrou Dona Regina. Lembrei de outro mendigo, Lauro, que é conhecido de Bóris Trindade, e achei que ele também tivesse se ferrado. Mas, pensando melhor, talvez não. Lauro é mendigo na feira de Fazenda Nova. E na feira não se compra no cartão. Já contei esta história na coluna Pano Rápido da revista Algomais: Lauro anota num caderno o nome de quem lhe dá esmola, valor e data, tudo direitinho. Bóris lhe perguntou pra quê. “Pra não pedir de novo, doutor. Só quero o que é meu.”
 
Ensinar sobrevivência a Dona Regina seria muita pretensão minha. Mas, não estivesse o trânsito tão ruim, teria voltado à farmácia para lhe dar a dica que me ocorreu, sacada da história de Lauro. Pensei até no que lhe diria, com jeito e cuidado para que não se ofendesse com minha intromissão: “Dona Regina, como a senhora sabe, rico e remediado não andam mais com dinheiro, é tudo no cartão. Mas tem um lugar que ainda se compra com dinheiro e, portanto, tem troco e trocado: feira pública. E  tem feira todos os dias (ou quase todos, acho), cada dia num bairro.” Nunca mais a encontrei na porta da farmácia. Prefiro acreditar que ela sacou o lance da feira. Se bem que, vez por outra, vou às feiras da Encruzilhada e de Casa Amarela e nem sinal dela por lá.
 
Esse encontro com Dona Regina foi há mais de um ano. Mas até hoje sua figura e resignação me comovem. Devia ter uns 70 e poucos (ou tantos, a julgar pela aparência; a pobreza envelhece), magrinha, baixinha e pele clara. Olhos também claros, verdes, talvez, e muito vivos, brilhantes e atentos. Nosso diálogo foi breve, mas falou olhando nos meus olhos. Pareceu-me muito limpinha, cabelos encanecidos e lisos, presos num coque. Unhas cortadas e limpas, pude ver quando recebeu as moedas. Apenas agradeceu: “Obrigada.” Nada de “Deus lhe pague”; “que Jesus lhe proteja”… Resignada, no entanto. “Tudo hoje é no cartão.” Como se dissesse: “Que se há de fazer?” E generosa, também. Suas palavras continham a justificativa a ser dada pelo fato de não se ter trocado: “A culpa não é sua. São os novos tempos, a modernidade.” Que lição, hein?

Aprendi duas outras coisas importantes, recentemente, num pequeno mercado, que eu pensei nem existisse mais, em frente à Igreja Rosário dos Pretos, no Centro. A especialidade é queijo-manteiga e queijo-coalho, manteiga de garrafa, linguiça matuta, carne de sol e salpresa (carne de sol de porco, que dá de dez a zero na carne de sol de boi). Perguntei ao vendedor como ele preparava a linguiça e a salpresa. “Doutor, nada de escaldar a linguiça nem deixar de molho. É só lavar. E fritar ou assar na brasa. Salpresa, uma ou duas horas antes de fazer, o senhor deixa de molho em água gelada. Depois, meia hora no leite. E pronto. Aí, é só fritar ou assar, no forno ou na brasa. O pessoal escalda a linguiça, deixa a carne de molho de um dia pro outro e ainda quer que tenha gosto. Gosto de nada, né?” 
 
É isso. “Vivendo e aprendendo”, como nos versos de Shakespeare; aqui, nas sábias palavras de Dona Regina e do vendedor de salpresa.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 30 de julho de 2011

SANTOS DE CASA

A contemporaneidade pode ser cruel. E a proximidade com os contemporâneos, promíscua. Os malquerentes intelectuais e políticos (estes, sobretudo) de Gilberto Freyre diziam (por sarro) que ele era o segundo sociólogo de Apipucos, porque o primeiro era Bebinho Salgado. (Bebinho virara nome de uma associação que promovia festas populares e eventos folclóricos numa ex-olaria de sua propriedade em Apipucos.) Gilberto não passava recibo. Quer dizer, recibo explícito. Porque nas suas Crônicas do Cotidiano, publicadas no Diário de Pernambuco, não cansava de citar seus feitos, títulos, comendas e reconhecimentos internacionais. Nem precisava. Pois tinha a exata dimensão de sua grandeza, acentuada pela mediocridade da crítica provinciana. Mas, não resistia. Foi não foi, dava um chega pra lá na turma.

Lendo o artigo de Alfredo Cordiviola sobre o livro “Borges, uma vida”, de Edwin Williamson, publicado no último Suplemento Cultural da CEPE, foi-me inevitável comparar a vida de Jorge Luis Borges em Buenos Aires com a vida de Gilberto Freyre no Recife. A vida; não a obra. Óbvio.

Borges era seis meses mais velho que Gilberto. Um, de agosto de 1899; o outro, de fevereiro de 1900. Borges retornou da Espanha para Buenos Aires em 21. Gilberto, ao Recife em 24, depois de seis anos nos Estados Unidos e Europa. Jovens, gênios e promissores. Já nos anos 30, reconhecidos dentro e fora de suas paróquias.

Nos anos 40, foram politicamente corretos, dir-se-ia hoje. Gilberto, tachado de comunista, é preso pela ditadura de Vargas por denunciar atividades nazistas e racistas no Brasil. Borges, simpático ao comunismo na juventude e, depois, anarquista (“à moda de Spencer”, como se definia), perseguido pelo peronismo.

Ambos poderiam ter dado o fora. Viver onde quisessem. Era só escolher. Mas escolheram ficar. Borges lá e Gilberto cá. Poderiam escrever em outra língua, inglês ou francês (os dois, alfabetizados em inglês). Mas escreveram, sobretudo, nas suas próprias línguas, espanhol e português.

Além de conviver com as dificuldades políticas, Borges era tido pelos portenhos como hermético, barroco e “pouco argentino”, mais influenciado por suas leituras inglesas que pela realidade que o circundava, “e por suas posições políticas elitistas e conservadoras”, como observa Cordiviola. Aqui, como não se podia acusar Gilberto de “pouco brasileiro”, ao contrário, criticavam os seus excessos de brasilidade (e regionalismo, até). A fascinante (aí, o grande escritor) narrativa de Gilberto sobre a formação da sociedade patriarcal brasileira, agrária, escravocrata e híbrida em sua composição étnica e cultural, é distorcida nos méritos e desqualificada na forma. “Gilberto tenta justificar a escravidão e romantiza a dura realidade social”, diziam. Sua tese sobre miscigenação, que recusa a inferioridade racial do mestiço, estaria mais para estupro étnico do que para “democracia racial”. E o estilo inovador do escritor, incompatível com o rigor científico.

Com os golpes militares no Brasil e na Argentina, tanto Gilberto quanto Borges cortejaram os ditadores de plantão. Borges chegou a mudar-se para o Chile, talvez por preferir Pinochet a Videla. Prato cheio para os críticos locais. Enquanto cresciam como escritores no reconhecimento internacional, mais eram ignorados ou execrados pelos intelectuais conterrâneos.
 
Borges morreu em 86. Gilberto, em 87. Vidas incrivelmente paralelas. Dois grandes escritores. E como tal devem ser vistos e julgados; equívocos políticos à parte. Borges é, hoje, atração turística em Buenos Aires. Orgulho nacional. Os argentinos cultivam os seus mortos. Nós, não.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 23 de julho de 2011

O VOO DA COQUELUCHE

Só existia vacina pra varíola. Menina tomava acima da coxa pra que a marca ficasse escondida, e menino, no braço (minha marca taqui até hoje). Papeira, catapora, sarampo e coqueluche eram “doenças de criança”, e não existia vacina. Como só se pega uma vez, era senso comum: melhor tê-las logo. (Minha avó Carmen, que teve dez filhos e 31 netos, mandava juntar a meninada pra todos pegarem de uma vez.) Também porque, em adultos, podiam complicar, até matar. A papeira, mesmo, se descesse para os testículos, o sujeito poderia ficar estéril. Ou brocha, diziam os mais dramáticos.

Papeira é a inflamação de duas glândulas (parótidas) que a gente tem nessas covinhas, bem no pé das orelhas. Aí, o âmago da dor. Mas doía até pra engolir saliva. Inchava primeiro uma banda da cara, da bochecha à papada; depois, a outra banda. Em mim, inchou a cara toda de uma vez. Dor dobrada. E febrão. Dez, doze dias.

No ano seguinte, catapora. Pra mim, a pior delas. Corpo todo pipocado de bolhinhas cheias de um líquido amarelado. Coceira infernal e insaciável; quanto mais a gente coçava, mais elas coçavam. E bolha estourada virava ferida, infectava e, aí, é que danava a coçar – com as meninas, cuidado redobrado pra não deixar marcas. Haja banho morno com permanganato de potássio. Vários por dia. O banho aliviava. Mas bom mesmo era a toalha felpuda com que minha mãe me enxugava. Cada enxugada, uma carinhosa coçada. Aí, ela enrolava as pontas de vários palitos com algodão (o cotonete da época), mergulhava-os no vidro de violeta de genciana e pintava as bolhinhas e feridas, uma por uma. Dezenas de pintas roxas da cabeça aos pés. Meses depois, já completamente curado, as marcas da catapora ainda estavam por todo corpo. Algumas, para sempre.

Sarampo, tirei de letra, acho eu. Tanto que não lembro bem. Coçar, coçava. Mas nada parecido com a catapora. Placas vermelhas, como urticárias, por todo o corpo. Minha mãe dizia que foi a única vez que tive 40 graus de febre; ela me botou no chuveiro com água fria pra não ter convulsão. Na época, creio, não se dava tanta importância ao sarampo. Era mais uma, apenas. Hoje, sabe-se, é a mais grave.

Coqueluche foi a última. Depois de dois, três dias tossindo, doía tudo, até a alma. As epidemias eram anuais e nacionais. Por isso, “coqueluche” também era adjetivo. Significava algo que tava na moda em todo o país: “Maiô de duas peças é a coqueluche deste verão.” Dizia-se que a altitude curava. E a FAB fazia os “Voos da Coqueluche”. Não sei se por prestígio de meu pai ou sorte, mas fui um dos escolhidos entre milhares de crianças inscritas. Já tinha viajado de avião, mas, dessa vez, era num B-17, a Fortaleza Voadora, armado com canhões e metralhadoras. Glória total. Até quem não tinha coqueluche ficou com inveja. Uns 50 meninos por voo. Meia hora sobrevoando o Recife. Desembarquei com dor de ouvido. Mas sem tosse. Valeu a troca.

Com as vacinas, pensei que “doença de criança” era coisa do passado.  Ledo engano. No mundo, 60 milhões de crianças têm catapora todos os anos. Sobretudo em países pobres. Mas não só. As epidemias estão em toda parte. A Europa (França, principalmente) está enfrentando uma epidemia de sarampo; na Califórnia, há dois anos, foi coqueluche e em Campinas, há quatro, papeira.  

Nunca mais ouvi falar de menino com catapora, sarampo, coqueluche nem papeira aqui no Recife. Nada como viver no primeiro mundo. Maria Júlia, Pedro e João Francisco estão livres das coceiras infernais, da cara inchada e dos acessos de tosse que o avô padeceu. Em compensação, necas de “Voo da Coqueluche”.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 16 de julho de 2011

O CRUZEIRO

Amigo da onça. Se alguém aí acha que me referi a um defensor da espécie ameaçada de extinção, por certo tá longe dos “enta”, nem tão cedo entra nos cinquenta.

O Amigo da Onça foi personagem famoso, criado pelo cartunista pernambucano Péricles Maranhão. A partir de 1943, ganhou página inteira, cativa e colorida na revista de maior circulação do país: O Cruzeiro. E virou sinônimo do cara que aprontava pequenas, porém dramáticas sacanagens com os outros, sobretudo bacanas, poderosos e ricaços. Mas não só. Podia sacanear qualquer um. Vestia summer-jacket, gravatinha borboleta e polainas. Cabeça grande, olhos enormes, ovais e verticais, bigodinho e cigarro no canto da boca. Autocaricatura de Péricles.

Numa charge de 1960 (em 61, Péricles morreu; suicidou-se com gás de cozinha), O Amigo da Onça pendurava etiquetas nos fraques e casacas dos grã-finos numa festa a rigor, sem que eles percebessem: “Aluguel: Rolas”. Rolas era uma famosa loja de aluguel de roupas.

Millôr Fernandes, que se assinava Emmanuel Vão Gôgo, tinha duas páginas coloridas: O Pif-Paf. Pequenas crônicas, charges, filosofia e pensamentos. “Virgem, completamente autodidata.” “Livrai-me da justiça, que dos malfeitores me livro eu!” “Mais cedo ou mais tarde as pessoas dignas e puras terão seu justo castigo.”

No final dos anos 50, depois de ler O Amigo da Onça e O Pif-Paf, o leitor ia direto pra reportagem de David Nasser, saber como andava o julgamento de Ronaldo, acusado de matar Aída Cury. Uma garota bonita, ingênua e pobre, vítima de um filhinho de papai endinheirado e endiabrado. Bebida. Sexo. E morte. “Quem matou Aída Cury?” Os óculos escuros de Ronaldo viraram moda no Brasil. Naquele tempo, só havia novela no rádio e n’O Cruzeiro, aqui em verídicos capítulos semanais. Depois de Aída Cury, entrou em cartaz “O crime do Sacopã”.

Olha só o time de cronistas que escrevia pra O Cruzeiro: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino (que depois foram pra revista Manchete). E, ainda, Raquel de Queiroz, na “Última Página”, que era a primeira para milhares de leitores.

Um médico maluco disse numa entrevista que os franceses não comemorariam a Queda da Bastilha em 1960 porque o mundo iria acabar justo no dia 14 de julho. Na edição seguinte, O Cruzeiro celebrou com seus leitores: “Não acabou, mas se acabasse, com qual das garotas ao lado você gostaria de tomar uma xícara de chá nos instantes finais?” Nas fotos, Sophia Loren, Marilyn, Kim Novak, Brigitte, Lollobrigida e Liz Taylor. Ah!, tinha também os astrólogos de plantão. Em 64, dias antes do golpe militar, Francesco Waldner consultou os astros: “Ninguém tira a presidência de Carlos Lacerda.” Tiraram. A ditadura cassou Lacerda. Anos de chumbo. O Cruzeiro ficou na sua, com os militares. Chateaubriand, o dono da revista, não pregava prego sem estopa: “Brasil. Ame-o ou deixe-o.”

Na primeira edição de O Cruzeiro, em 1928, um urbanista francês apresentou seus projetos para o Rio de Janeiro dos anos 50. “Com o novo plano, serão resolvidos todos os problemas urbanos do Rio.” Pois, sim! E na matéria principal, o “redactor” levantava a grande questão: “Onde nos levará a evolução que hoje se processa tão acceleradamente? Como será a vida no ano 2000?”
 
Como se sabe, a vida no Rio deu samba. E samba de Billy Blanco: “o que dá pra rir dá pra chorar / questão só de peso e de medida.”

Em tempo: Vi de passagem, mas, a julgar pelas cores, abriram uma funerária na Capunga. Nada contra funerárias. Mas bem que poderiam ter escolhido outro local.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 9 de julho de 2011

A SANTA QUIABADA

Começou na brinca e virou de vera. Era assim que a gente, meninos, dizia pra anunciar que algo tinha começado como brincadeira e terminado como coisa séria, de verdade. No jogo de bola de gude, mesmo, na brinca, ninguém ganhava nem perdia bola. De vera, corria o risco de perder o olhinho, bola preciosa, algumas com uma carambola no interior, outras, de louça, com uma nesga de cor. Um olhinho podia valer até dez bolas comuns, de vidro.

O fato é que comecei a fazer uma quiabada aqui em casa na brinca. E virou de vera. Seguinte. Vez por outra, um almocinho para os amigos. Só homens. Héteros, não custa dizer. Às sextas, sempre. Mas não toda sexta pra não virar obrigação. Uma sociedade perfeita. Zé Cláudio entra com o quiabo e eu com o resto (se fosse negócio, eu tava rico; tava, não?). O “resto” é a carne, o charque e tudo o mais, tempero, vinha d’alho (de véspera), refogado e horas de fogão. Mas devo reconhecer que os quiabos são de primeira, verdinhos como não se encontra por aí (pra saber, é só virar a pontinha; se dobrar, tá velho; se quebrar, joia).

E pra comprovar que a coisa é de vera, Arthur Carvalho encomendou, em Salvador, camarão seco defumado e dendê (que a gente vai usar só um pouquinho – né, mestre Arthur? – pra não virar caruru, que também é bom, porém quiabada é outra coisa; daremos um necessário toque baiano, mas sem perder o caráter pernambucano). O convescote etílico-comestível começa com caldinhos e, no mínimo, cinco petiscos, todos de panela. Para eliminar o colesterol, desanuviar o juízo e molhar as palavras, a bebidinha corre solta. 

Mulher acha que homem só se reúne pra falar safadeza. Meia verdade. De fato, também, mas não só. Fala-se de tudo. Até de literatura, filosofia, arte e política. Mas o forte, mesmo, são as histórias e malfalanças. Desde que bem-humoradas, vale tudo.

Os casados são maioria, sempre. E as respectivas mulheres não veem minha quiabada com bons olhos, reconheço. Aí pelas quatro da tarde, começam os telefonemas: “Você ainda taí?” “A que horas esse negócio acaba?” Tem até quem desconfie de “sirigaita na parada”. Por isso, tô pensando em abrir uma igreja para quando elas perguntarem aos maridos “Tá indo pra onde?”, eles responderem “Pra igreja”. Quando ligarem, “Tá fazendo o quê?”, “Orando”.

Saquei essa de abrir igreja lendo uma matéria da Folha de São Paulo, na qual dois repórteres abrem uma igreja para mostrar o quanto a coisa é fácil. Bastaram R$ 418,00 em taxas e cinco dias úteis. Nada de requisitos teológicos ou doutrinários nem número mínimo de fiéis. Pronto. Com registro e CNPJ, abriram conta bancária e poderiam fazer aplicações financeiras. Como reza a Constituição (artigo 150), isentas de IR. E seus sacerdotes isentos de qualquer imposto: IPTU, IPVA, ISS, ITR… Livres de serviço militar e com direito a prisão especial. São milhares de igrejas evangélicas no Brasil.

Eis os nomes de algumas (pode crer, leitor, estão todas legalmente registradas): Evangélica de Abominação à Vida Torta, Automotiva do Fogo Sagrado (segundo Zé Maria Pereira Gomes, em vez de igrejas, tem concessionárias), da Cobrinha de Moisés (quem viu diz que é pequena, mesmo), Abre-te Sésamo (com seus 40 bispos), Pentecostal Marilyn Monroe (os fiéis entram de peito), Quadrangular do Mundo Redondo, Cruzada de Emoções (adora Roberto Carlos), Fiel Até Debaixo D’Água (nos dias de chuva, enche).

Você acha que vou ter algum problema com o nome da minha? Igreja Evangélica do Fogo (de fogão) Eterno, do Uísque e do Vinho Sagrados, da Convivência Fraterna e da Quiabada Universal. Como ficou um pouquinho longo, será chamada por nós, fiéis, simplesmente de “Igreja”.

Tá pensando que é na brinca? É de vera.

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Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 2 de julho de 2011


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