15 novembro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

PARA RUBINHO VALENÇA

Texto de Apresentação do livro de Rubem Valença Filho, Olaria

Antes, o homem. Conheci Rubinho Valença nos anos 80. Convivemos no horizonte laborioso da Cultura e nas delícias gozosas de Porto de Galinhas. Em ambos os ambientes, ele mostrou sempre o lado leve da vida. Como um pássaro que navega o azul do Recife. A ponto de eu apelidá-lo de Fly Rubinho.

Depois, o autor. Neste meu outono de vida, recebo intimação: dr. Luiz, mando-lhe a novela; aguardo a apresentação. Então, está certo. Aí, vai. Com o prazer feito nas coisas gratas. E uma ponta de saudade.

Abro o arquivo. Começo a percorrer a história e o Recife. O Recife magro de ruas estreitas do bairro de São José. O Recife secular e frondoso da arquitetura portuguesa. O Recife orientalizado na transparência das treliças mouras.

Rubinho Valença faz uma ficção entrelaçada com o real. Onde a imaginação tem porosidade que chega a todos os sentidos. Na qual o suor úmido do trópico desenha o pentágono do forte. É texto que tem cheiro de escritura, acervo, memória. E também tem a lisura “clean” da escrita moderna, baudeleriana.

Rubinho Valença foi buscar na olaria inspiração para reiterar o que sempre foi pernambucano: o barro, o massapé, a argila. Os fazeres todos de Pernambuco nasceram na terra argilosa da Zona da Mata. Daí ele falar em João Cabral de Melo Neto, Mauro Mota e Zezinho de Tracunhaém. E Ascenço Ferreira, acrescento eu.

Rubinho Valença é um oleiro da imaginação. Ele pega o barro das palavras e as molda com precisão agrestina. O tempo vai girando. O pensar ganhando encanto. O escrever criando vida. Na grande casa da terra, a olaria.

No final, como disse dr. José Paulo Cavalcanti, pai: “Somos todos feitos do barro trágico rareado por estrelas”.

8 setembro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

A FAZENDA

O que marcou minha passagem na Fazenda? Não é a mesma coisa que o que me marcou na Fazenda.

O que marcou minha passagem na Fazenda, na primeira gestão, 1983/1986, foi principalmente a tecnologia. O avanço da inteligência eletrônica. O uso ampliado de computadores. O controle remoto. Apoiando a inédita fiscalização do comércio de varejo nunca antes investigado.

O que marcou minha passagem na Fazenda, na segunda gestão, 1992/1993, foi a articulação com o Poder Judiciário. A criação da Delegacia de Crimes contra a Sonegação. E o exercício da mão firme da lei.sefaz-pe-1

O que me marcou nas duas passagens pela Fazenda foi a beleza. A beleza estética dos painéis de Cícero Dias. A beleza ética de colegas fazendários. E a beleza social da obra pública.

A beleza estética dos painéis de Cícero Dias me chegou pelas mãos talentosas de Caio Souza Leão. Ele foi o guardião do tesouro. Foi o plantonista do zelo com a arte. Todo dia de manhã, quando eu chegava para trabalhar, a primeira tarefa era aprender sobre fatos e pessoas de Pernambuco. Caio foi meu professor de pernambucanidade.

A beleza ética de colegas fazendários foi um arquipélago do bom fazer. Muitos o fizeram. Opção pelo bem. Entre tantos, homenageio todos na dedicação íntegra de Eneida Ende. Ímpar entre pares. E humilde no brilho com que iluminou a Casa.

A beleza social da obra pública, viabilizada e feita. Porque a Fazenda não é um absoluto em si. É uma mediadora de necessidades coletivas. E uma propiciadora de resultados. A cena mais emocionante de minha vida pública foi a construção da adutora do Sertão. A água jorrando nos olhos perplexos dos sertanejos molhados de alegria.

SEMANA PASSADA

Enfim, o desenlace. Embora com ainda 180 dias para que seja pronunciada a sentença final.

A semana finda foi marco divisório. Por três razões:

1 – Fecho da era do PT, de modo improvável, após 13 anos no poder;
2 – Volta do PMDB ao poder, de onde ele nunca saiu;
3 – Retorno de governo de tom provincianamente liberal ao palácio do Planalto.

O governo Temer tem 90 dias para ganhar o sim da população.

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Política

O Brasil vive revolução silenciosa. Há cinquenta anos, todos sabíamos os nomes dos ministros militares. Discutia-se quem seria o substituto do general presidente.

Hoje, todos sabemos os nomes dos ministros do Supremo Tribunal Federal – STF. O tribunal tornou-se mais relevante politicamente do que a caserna.

Por sua vez, a operação Lava Jato está promovendo a mais extensa limpeza ética de quadros políticos, burocráticos e empresariais de que se tem notícia no país.

Depois de empresários e burocratas, chegou a vez dos políticos. Primeiro, foram os comissários do PT. Por ser o Partido majoritário no condomínio do poder.

Em seguida, foi a vez dos parlamentares do PP, seu parceiro preferencial nos negócios. Agora, é a hora da aristocracia mineira: o senador Aécio Neves aguarda os encaminhamentos da Procuradoria Geral da República – PGR e do ministro Gilmar Mendes.

Na fila, há chance para a nobreza do PMDB: o duque de Atalaia, Renan Calheiros, e o marquês de Boa Vista, Romero Jucá.
Aguardemos.

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Economia

Três tópicos:
1. Confiança; 2. Curto prazo fiscal; e 3. Previdência.

Primeiro, o país precisa de um choque de confiança. Henrique Meireles é o fiador dessa empreitada. Nome escolhido a dedo. Cortejado pela esquerda esclarecida e pela direita lúcida.

Ele poderá, com a cooperação do Congresso, obter avanços essenciais no ajuste fiscal. Que é o primeiro passo da equação política do governo. Tendo sido, durante oito anos, presidente do Banco Central no período Lula, tem diálogo com todas as tribos.

Segundo, no curto prazo, a questão fiscal é estratégica. E a primeira iniciativa deve ser a DRU, desvinculação de gastos obrigatórios do orçamento.

Porque, na prática, o governo só dispõe de 8% de recursos orçamentários que estão disponíveis para alocar livremente. É muito pouco. Trata-se de rigidez irracional numa economia que precisa atender a diversidade de investimentos.

Terceiro, idade mínima para aposentadoria é ponto determinante para a Previdência. Uma regra de transição entre a norma atual e a futura poderá viabilizar um acordo.

O governo vai precisar de boa vontade de deputados e senadores. Mas, pelo menos por enquanto, estão todos no mesmo barco. Parece.

* * *

Figura da semana – Pablo Neruda

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Fechemos a semana com o poeta da Ilha Negra, chileno universal, Pablo Neruda. Um pedaço de delicadeza, um trecho de seu soneto XCIX:

“Outros dias virão, será entendido
O silêncio de plantas e planetas
E quantas coisas puras passarão !
Terão cheiro de lua os violinos !

O pão será talvez como tu és;
Terá tua voz, tua condição de trigo,
E falarão outras coisas com tua voz;
Os cavalos perdidos do outono.”

Até a próxima.

LEMBRO

A lembrança mais remota que tenho dela é minha primeira ida para o colégio. Aos quatro anos de idade. Instituto Recife, avenida João de Barros, 1950. Soube, depois, que ela chorava ao me deixar.

Recordo, entre outras impressões, seu senso de escolha. Buscando sempre o melhor para a casa. Não o mais caro. Que papai, médico de classe média, não podia. Mas, o mais moderno. Como, quando conversava com Aloísio Magalhães, autor do projeto da nossa casa na rua André Rebouças, Rosarinho. Exemplo de leveza arquitetônica, com amplo terraço na frente, abertura de espaços feitos de vidro. E jardim de inverno no interior na sala.

Lembro de seu trato delicado com os demais. Sempre afável no falar. Sem jamais criticar quem quer que fosse. Nunca a ouvi pronunciar uma crítica a ninguém. Discretíssima.

Mesmo após os oitenta anos, continuava ligada nas coisas da vida, no cotidiano da cidade. Telefonava para mim:

– Ô Luiz Otavio, você viu isso? E acentuava sua indignação. Sua incredulidade. Marcado no rigor de tradição familiar, sertaneja, dos feitios de Serra Talhada.

Com o passar do tempo, foi se tornando referência atemporal. Quanto mais frágil fisicamente, mais sólida afetivamente. Quanto mais incerta no andar, mais firme no olhar. Sua recusa em partir foi reiteração de seu inconformismo. Na franqueza com o que não concordava. Na clareza com o que não desejava.

Assim era Naida, doce e forte ao mesmo tempo. Por isso, reuniu tantos no seu entorno. Fiel à linhagem das Rosas.

SEMANA PASSADA

Semana em que o Supremo Tribunal Federal desatou o nó da presidência da Câmara dos Deputados, suspendendo o mandato do deputado Eduardo Cunha?

Semana na qual o ex presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tentou provar que o crime pode ser sustentado nas pilastras do poder?

Semana na qual a Câmara substituiu face de granito cínico por bigode parvo dos anos vinte?

Sim.

Mas também semana em que os ministros do Supremo, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, conspiraram para interromper o processo do impeachment. Montados na ação da Rede da dúbia Marina Silva contra a permanência de Eduardo Cunha na presidência da Câmara.

Por isso, Lewandowski pautou subitamente o processo da Rede para a sessão do STF da quinta feira, 05 de maio. Percebendo a manobra, o ministro Teori Zawaski reagiu. E, na madrugada da própria quinta feira, 05 de maio, preparou parecer e deu provimento a despacho no sentido defendido por Rodrigo Janot.

A consequência mais importante da decisão unânime do Supremo foi frustrar a trama da dupla Lewandowski/Marco Aurélio. E garantir seguimento ao impeachment.

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No livro de ficção, 1984, George Orwell escreveu: “Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado”.

Não é a versão supostamente imparcial de historiadores que afeta o presente. Mas será a forma como a população recorda ou interpreta os fatos históricos.

Os sistemas políticos atuais estão modelados pelo passado. A partir de legados históricos. Esses legados são:

1 – Instituições políticas;
2 – Problemas sociais;
3 – Símbolos políticos;
4 – Valores políticos.

1 – Instituições políticas são os Partidos, a burocracia, os militares, o sistema educacional. Cada geração adapta e cria suas instituições políticas. Essas instituições, como tais, permanecem ainda quando modificadas ao longo do tempo.

Instituições antigas incorporam novas dimensões. Mais atuais. A experiência passada serve de modelo. E inspira a invenção do futuro. A social democracia europeia foi uma das respostas dadas pelo sistema político no século XX.

2 – Cada sistema político tem um legado de problemas sociais. Por exemplo, a discriminação dos negros nos Estados Unidos. E a desigualdade social no Brasil.

Superar tais problemas é desafio de lideranças modernas em cada sociedade. A transformação social é escritura pública passada no cartório da capacidade de liderar. E promover a mudança.

3 – Símbolos políticos são lemas, bandeiras, figuras, eventos políticos. Tais símbolos são importantes para gerar lealdade e unidade política. O ex primeiro ministro inglês, Winston Churchill, aglutinou a esperança e a dedicação dos ingleses com seu discurso e sua ação contra Hitler.

O Brasil é nação jovem. Tem emblemas políticos em Partidos, agências empresariais, movimentos sociais e figuras públicas. E precisa cultivar símbolos que agreguem socialmente. Mais do que separem circunstancialmente.

4 – Valores políticos decorrem de crenças políticas e sociais. A emoção sectária leva ao estreitamento ideológico. O realismo político levou ao liberalismo. Na prática da democracia e do mercado.

Elegendo a liberdade para homenagear a criatividade humana, o pensamento ocidental batizou o pluralismo político. E certificou a diversidade social. No fim de contas, a cultura política reconhece tais valores, crenças e comportamentos coletivos.

O que o Supremo Tribunal Federal fez, na decisão de afastar o deputado Eduardo Cunha, foi acolher judicialmente a cultura política brasileira. No que ela tem de superior, de mais saudável.

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* * *

Figura da semana – Vinicius de Moraes

Poeta, Vinicius de Moraes. Foto: Sidney Corrallo/AE. 18/12/1978. Pasta:

Então, na semana em que o Brasil foi maior do que homens pequenos, celebramos o Brasil em trecho de Pátria Minha. Do poeta, diplomata, amoroso e patriota, Vinicius de Moraes.

Pátria Minha

“Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

(…)

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!”.

Até a próxima.

SEMANA PASSADA

Esta foi a semana do limbo político. Nem a presidente Dilma governa mais, nem o vice presidente Temer governa ainda. O país está literalmente no ar.

Mas, mesmo na inércia que caracteriza o vácuo de poder, surgem símbolos. Improváveis emblemas do que restou de governo que foi se esfarelando na incompetência.

Entre ícones acabrunhantes, poder-se-ia escolher as acrobacias militantes no salão do palácio do Planalto. Ou a peregrinação inócua do ex presidente Lula, ministro sem pasta, catequista sem causa, perdido nos escaninhos do clientelismo.

Mas, entre tais, escolho o mais assustador. Aquele que, por inédita indignidade, certifica como os membros desse governo lidam com a Coisa Pública: o ensaio fotográfico da mulher do ministro do Turismo. Feito no gabinete do ministério.

Evento jamais imaginado, sequer nos tapetes de republiqueta bananeira, inscrito nos livros de Gabriel Garcia Marquez, aconteceu ali, na Esplanada brasiliense.

E o governo, de tão fraco, fez que não viu.

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Democracia brasileira

Democracia é incorporação. Incorporação de classes sociais às diversas formas de participação na tomada de decisões da sociedade.

Democracias começam como círculo de notáveis. Como na Grécia antiga. Depois, transformam-se em democracia de classe média. Como nos Estados Unidos dos anos 50. Que, por sua vez, se tornam democracias de massa. Como no Brasil dos anos 2000.

Na Grã Bretanha, a democratização foi gradual. Na Alemanha foi dialética, em avanços e recuos, muitas vezes sob conflito. Na Espanha e em Portugal ocorreu tardiamente.

Condição que influi no processo de democratização é a clivagem social em cada sociedade. Refletindo a estrutura de classes. E os graus de desigualdade, existentes ou não, em cada uma delas. Quanto menos desigualdade, mais participação. Quanto mais desigualdade, menos participação de todos e de cada um.

Por outro lado, os tipos de elite assumem igual influência nos processos de democratização. A natureza da elite de um país vai se refletir na relação massa/elite. E, com base nesta relação, vai contribuir para as configurações da democracia. Tal como existem, em cada nação.

Os principais tipos de elite são: elites sagradas, próprias das sociedades fundamentalistas; elites aristocráticas, encontradas nas sociedades tradicionais; elites privilegiadas, existentes nas sociedades desiguais; elites competitivas, surgidas nas sociedades modernas.

Elites competitivas dispensam privilégios. Ou estes lhes são dispensados. Porque elas internalizam os fatores de sua superior qualidade. Tornando-se aptas a exercerem liderança nas atividades políticas e econômicas. E a assumirem comando nas decisões coletivas.

A incorporação, nos quadros da elite, de novos membros, figuras de classe ascendente, constitui fator de fortalecimento da democracia. É este processo inclusivo que o Brasil deve continuar a palmilhar.

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De vice para vice

Email de Itamar Franco para Michel Temer

Prezado Michel

Reparando na agonia de tua espera, resolvi te escrever. Passei quase o mesmo que ti. A diferença é que o PT não ficou contra mim. Falou que não queria participar do meu governo. E, na inconsciência de pensamento hegemônico, ficou de longe, olhando. E torcendo. Não sei se contra.

Agora, com você, é diferente. Os petistas não conseguem enxergar seus próprios erros. E, frustrados por perderem tão bisonhamente o poder, montam peça de ficção. Com uma manta de enredo golpista. Que parece mais bizarro auto engano.

Mas, caro Michel, o que eu quero te dizer mesmo é o seguinte: o destino te entregou chance rara de se tornar estadista. Largar o jaleco curto de político convencional da província de São Paulo. E vestir toga larga de primeiro magistrado da Nação.

Vais precisar de ministros notáveis para dar legitimidade ao governo. E vais ter de conviver com a raia miúda que garante votos para aprovar teus projetos no Congresso. Vais precisar de tomar medidas fiscais duras porque dona Dilma colocou o Tesouro na pindaíba. E vais ter que acenar o lenço brando da gratificação subvencionada aos clientes das bolsas sociais.

Mas, por cima de tudo isto, Michel, te digo: pense grande. Pense além do cotidiano formidavelmente autofágico do governo. Pense acima dos interesses mesquinhos. Pense no Brasil moderno da eficiência privatizada. Pense no Brasil profundo das construções de longo prazo.

E apoie o campeão de Curitiba, o juiz Moro. Ele vai precisar de tua clava forte. Sim, já ia esquecendo, vigie aqueles meninos traquinas do PMDB. Não passe a mão na cabeça deles.

Boa sorte, Michel.

Sinceramente, Itamar.

* * *

Figura da semana – Vladimir Maiakovski

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O russo Maiakovski (1893/1930) foi o poeta da revolução. E a insubmissão acentua seu espírito crítico sem perder o senso da alegria de fazer.

Fechemos a semana trazendo sua convicção de atravessar ameaças.

E então, que quereis?

“Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.”

Até a próxima.

SEMANA PASSADA

A semana finda selou a aprovação da Câmara à admissibilidade do processo de impedimento da presidente da República.

Mostrou também as primeiras movimentações do vice presidente, Michel Temer, como possível sucessor da presidente. No caso de aprovação daquele processo.

Acentuou, ainda, a permanência granítica do deputado Eduardo Cunha na presidência da Câmara. E evidenciou uma espécie de xaxado político do presidente do Senado, senador Renan Calheiros: avançando e recuando. Como esperando que o passar do tempo desate o nó de seu próprio imbróglio moral.

Por isso, há a falsa impressão de que o país esteja numa crise monumental. Verdadeiramente falsa tal impressão.

Apesar da excepcionalidade do processo de impedimento presidencial, da resistência de Eduardo Cunha à falta de decoro, as instituições republicanas estão funcionando regularmente.

A Polícia Federal continua investigando. O Judiciário continua julgando. O juiz Sérgio Moro continua prolatando sentenças. O Legislativo continua votando. Paralisado mesmo só o Executivo. Na sua anomia habitual.

A seu tempo, chegará a vez de cada um enfrentar a sina de seu próprio destino. Sem eleições gerais. Porque estas representariam ruptura constitucional. Diferente do impedimento, previsto na Constituição.

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Escolhas e instituições

A evolução humana é guiada pela percepção das pessoas ao fazer suas escolhas. Para reduzir incertezas. Tanto a incerteza sobre sua própria vida. Quanto a incerteza que cerca o desempenho das organizações políticas.

A percepção das pessoas tem a ver com seu contexto individual. E suas escolhas refletem crenças. As crenças determinam escolhas pessoais.

Escolhas são de dois tipos: racionais e não racionais. Escolhas racionais guardam coerência com a ciência e com os fatos. E escolhas não racionais evidenciam principalmente emoções. Escolhas racionais e não racionais influem sobre as mudanças requeridas pelo conjunto da sociedade.

Se as escolhas cumprirem o estatuto da racionalidade, elas ajudarão o processo de mudança com estabilidade. Se as escolhas se colocarem no terreno da não racionalidade, elas determinarão desvios no processo de mudança com estabilidade.

Segundo Douglass North (Understanding the Process of Economic Change, p. 59), todo processo de mudança política passa por ciclo que envolve estas etapas:

1 – Base na realidade;

2 – Escolhas fundamentadas nas crenças pessoais;

3 – Instituições em funcionamento referenciando escolhas coletivas.

Há relação funcional entre crenças e instituições. Crenças são inspiração, formam a parte interna do pensar de cada um. Instituições são expressão, constituem a parte externa do fazer coletivo institucionalizado. No geral, crenças inspiram instituições e estas expressam o sentir da maioria.

A diminuição dos graus de incerteza política é alcançada com liberdade de informação. E funcionamento das instituições democráticas. Porque a informação esclarece a população. E as instituições fixam as regras do jogo.

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Instituições e estabilidade

Pesquisas de opinião atestam que os brasileiros almejam três objetivos: querem serviços públicos de qualidade, apostam na mudança e cultivam a liberdade.

Para diminuir o grau de incerteza política, o Brasil conta com liberdade de imprensa. E com o funcionamento regular das instituições republicanas.

No âmbito do Legislativo, o Senado se pronunciará sobre o impedimento da presidente da República até agosto deste ano. Sendo aprovado, assume o cargo o vice presidente. Se vai dar certo, é outra questão.

No âmbito do Judiciário, os processos tramitam. Inclusive no STF. Pode-se reclamar de demora neste ou naquele caso. Mas a pressão conjunta de investigação policial, denúncia dos Procuradores e cobrança social, vai aumentar. À medida que os fatos políticos forem evoluindo.

No âmbito do Executivo, aguarda-se o ciclo das estações. O inverno vai passar. E a primavera vai chegar.

Por isso, a tendência da transição política brasileira de 2016 será produzir mudança com estabilidade. Apesar da polarização partidária, da sectarização ideológica. E da mediocridade vã.

* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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Abril não é o mais cruel dos meses, como disse T.S.Eliot. Mas abril é o mês de Tiradentes. E todos os meses são de Carlos Pena Filho. Também quando ele fala sobre Tiradentes.

“É o muito esperar que existe em torno
Que me destina a ação desbaratada.
A morte é bem melhor do que o retorno
Ao nada.
Não nasce a pátria agora, o sonho mente,
Mas, em meio à mentira, sonho e luto
Pois sei que sou o espaço entre a semente
E o fruto”.

Até a próxima.

NOVO HORIZONTE

Eram mais de oito horas da noite do domingo. Chovia. E a televisão transmitia a sessão da Câmara sobre o impeachment. Não aguentei o festival de manifestações patéticas de parlamentares. Tomei o carro e saí.

As ruas vazias. O céu, um mingau. Um ou outro restaurante aberto. O recanto espinheirense quieto. Passei pela rua da Hora, onde moravam os Porto Carrero, os Raposo, o jornalista Mario Melo. Deixei o som no concerto duplo de Brahms. Rodei sem destino com as mãos no volante e a cabeça em Brasília.

Foi hiato reparador. Voltei para casa a tempo de ver o voto 342 que selou a sorte da presidente da República. Desliguei a tv e fui até o terraço. Silêncio. Olhei o asfalto molhado, refletindo o luminoso colorido de uma loja. As árvores mudas.

No entanto, algo mudara. Algo intangível. Mas, claramente perceptível ao coração. Sentia-se no ar. Por trás das trevas que se esfumavam. Sentimento passando, ao mesmo tempo, de fora para dentro da gente. E de dentro para fora. Sensação de alívio. Sopro de esperança. Misto de senso de reparação e recomeço.

Foi tanta corrupção, tanta desfaçatez ao longo desses anos. Como disse um ministro do Supremo, coisa de organização criminosa. Tanta omissão, tanta conivência. Tantas ilegalidades, tal inconstitucionalidade. De magnitude que só coube no impeachment.

Desafios? Serão muitos. Limpeza ainda por fazer? Certamente, sim. Mas, temos o que celebrar. As conquistas da Lava Jato. Processo exemplar. Atuação destemida.

E, agora, a introdução de outra chance, novo horizonte. Uma tela de Portinari. Um poema de João Cabral. Você escolhe. Segunda feira. Vamos trabalhar.

SEMANA PASSADA

Uma semana que redesenhou a história do país. Para o improvável ou para o possível. Para continuidade temerária ou para reinício desafiador.

Os dias da semana foram desfiar de despedidas. Adeuses políticos ao governo. A um governo que não soube cultivar a arte da política. Não lhe soube o gosto da conversa. A tessitura do fazer. A arquitetura do construir.

Primeiro, foi a explicitação cirúrgica da operação de ruptura do vice, Michel Temer. Sem sutura. Uma mensagem escapulida na digitação equivocada ? Não. Um código proposital para o futuro. E, com ele, o convite do PMDB para embarcar no poder.

Depois, foi o PP. A alternativa partidária acalentada por Lula para conter a avalanche adesista. Um nó. Mascate político, entronizado na clandestinidade luxuosa do Tulip brasiliense, o ex-presidente viu a chance escapar-lhe sem dó.

Em seguida, outros Partidos, médios uns, nanicos outros, pressurosos todos, também se foram. Com a brisa soprada pelo sol nascente. Velha conhecida do planalto goiano. A brisa amena dos poderosos. Que aquece ambientes ministeriais. E encanta sonhos restaurados.

E, assim, parece encerrar-se um ciclo da história política do país. No segundo impeachment presidencial em vinte e quatro anos.

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Revisitando a história

Barbara Tuchman deixou lições em “A Marcha da Insensatez”. Ela relacionou uma dúzia de casos históricos nos quais o príncipe perdeu poder por abandonar a lógica dos fatos.

Não se trata de alinhar-se ao sentimento Splengeriano de declínio incontornável do Ocidente. Mas de chamar atenção para a falta de sensatez dos homens. Uns, pela soberba própria dos distraídos. Outros, por ignorância mesmo do feitio humano.

O Brasil tem sido berço de talentosos príncipes. O mais longevo deles, Getúlio Vargas, fundou o Brasil moderno. Na siderurgia, na CLT e no jogo ambíguo de ditadura transformada em celeiro de votos cinco anos depois.

Seguiu-se a ele Juscelino Kubitschek. Um sedutor que governava sorrindo. Tão realizado no poder que exerceu duas vezes a remissão presidencial: perdoou os oficiais revoltosos da Aeronáutica acoitados em Aragarças e em Jacareacanga.

Após o interregno de ferro, vieram o sociólogo e o metalúrgico. Síntese pendular de nação de contrastes. Desigualdade social esculpida na presidência da República. E nivelada pelo talento político no alcance do poder. À estabilidade econômica seguiu-se a prioridade social.

E, então, veio a prepotência abissal. Viés ideológico inteiramente ultrapassado. Atrasando o comércio externo. Destroçando as finanças públicas. Instalando a mais perversa e inédita recessão econômica no país. Que termina melancolicamente em face cheia de ira. E oca de sensibilidade.

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Adágio para projeto verde e amarelo

Um povo alegre e desigual. Curtido na decepção. Recriado na esperança. Uma casa caiada de azul. Crianças na calçada. Fidelidade ao Brasil. Alicerces feitos de sonho. Drummond e Portinari.

Elos improváveis abrem porta para costurar o estandarte. Preparando o desfile inicial. Refazer o país. Com mãos de pedreiro. E alma de educador.

Começo ágil. Com lâmina que corte o supérfluo. Ajustando o ângulo reto. Instalando reformas de urgência. Previdência, tributária. Crescimento, teu nome é produtividade. Inovação.

Limpar a casa. Tirar as teias de aranha burocráticas. Desaparelhar dutos e fios. Reaver o mar perdido. Retomar o comércio natural. Sem muros ideológicos. Invenção.

Extinguir a patota. Combater a praga da corrupção. Premiar colaboradores no confessionário de suposto arrependimento. Preservar investigadores que lavam a lama. Manter o jato que edifica a instituição vertical. Paixão.

Uma casa assim para morar. Viver e trabalhar. Cultivo de flores e amizade. Fábricas de chocolate. Pipas coloridas na praia escultural. Chope decente. Sena e suor. Sina tropical. Emoção.

Uma casa complexa assim. Verde e amarela. Não tem outro jeito. Porque assim é a vida. Luta infinda. Perde-se e também se ganha. Vitória e derrota. Desta vez, o polvo da insinceridade perdeu. Mas, atenção: o duelo continua. Porque o tecer da ética não morreu. Estética.

* * *

Figura da semana – Joaquim Cardoso

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O poeta calculista, que emigrou e voltou, mediu e voou, brasileiro de Pernambuco, está aqui.

Seu poema Amanhecer tem muito a ver com o agora.

Aí vai um trecho:

“A luz nasce no Oriente, os pássaros despertam
Amanhecer ! Amanhecer !
As cinzas da noite já se afastam
E promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã
Amanhecer ! Amanhecer !
É grito agudo de quem espera
Chegar ao fim da noite”.

Até a próxima.

RÉQUIEM PARA UMA DECADÊNCIA

Análise em perspectiva dá visada na história. Percurso notável de talento nato. Que foi do chão da fábrica ao selo do palácio.

Esse é o cara, como disse Obama. Carisma feito de palavra solta, mágica, ululante. Formação sem polimento graduado, mas intuitiva. Perfurante.

De repente, um falsete. Toma pela mão Sarney. Homem acima do bem e do mal. Como? Depois contrata omissões com Renan. E arremata traições com Collor.

Em seguida, outro susto. Mensalão. Mas eu não sabia. Me enganaram. O tempo passa. E, no subsolo do petróleo, tenebrosas transações. Bomba de efeito retardado. Petrolão. Tudo começara tão antes. Sob as asas do grão senhor.

Para repouso do guerreiro, a oferta de sítio. Para gáudio do praieiro, a reforma de tríplex. Pura perseguição. Querem acabar comigo. Mas a jararaca está viva. O réptil está no subconsciente.

Ornando jornada de tal decadência, virou ministro clandestino. Ou mascate político de cargos públicos? Semi oculto no luxo do Tulip, tece outras bolsas para clientes de ocasião. Perdão. Por cair na sarjeta da coisa vil.

SÁBADO DE OUTONO

O Capitão, no verdor dos três anos, foi posto na cadeirinha de segurança do carro. E partimos. O outono conduzindo a primavera. O sábado estava destinado à visita ao avô. Primeira parada, tomar a vacina contra o H1N1. Fomos encontrar uma clínica na rua da Hora.

Depois de espera de noventa minutos, conseguimos a vacina. O Capitão não é de muito riso. Sequer atende aqueles pedidos bobos: – Como é seu nome ? É cioso de si. Comportou-se bem quando a agulha da injeção penetrou seu bracinho tenro. Nenhuma palavra. Nenhum temor. E nos despedimos sob os parabéns da vacinadora.

Segunda parada, cabelereiro para aparar os cachos do Capitão. Ele chegou no salão, sentou no jipe suspenso e começou uma viagem pelas rodovias de sua irredutível imaginação. E só parou quando os cachos cortados estavam no chão.

Saímos e fomos almoçar. Tratoria italiana. Sentamos. Maria defronte de mim e ele ao meu lado. Perguntei:

– O que você quer comer?

Ele rápido:

– Pizza.

Fizemos o pedido e ele virou-se pra mim:

– Vem mais pra junto de mim, vô.

Em casa, distribuímos os brinquedos na sala. Ele pintou, jogou boliche, montou lego. Atravessou planícies e savanas com seus cavalos coloridos. Voou sonhos de alturas transatlânticas em pequenos aviões. E, suado, foi intimado a tomar banho. Depois de ser lavado e de lavar o espaço do chuveiro, vestiu a cueca. E Maria foi colocar nele a camisa do avô para terminar as brincadeiras da tarde. Quando ela começou a botar a camisa por cima da cabeça dele, ouvimos a pergunta:

– Mas eu não vou ficar barrigudo não, né ?

Já noite, fizemos a viagem de retorno. Antes de chegarmos ao destino, ele adormeceu. Pelo retrovisor, eu vi o Brasil do futuro, pleno, lindo, venturoso. E traído. Pelo patrimonialista malsão. De qualquer modo, como disse o poeta, importa que o dia vença a noite e tenhamos enxutos os olhos na intenção de madrugar.

SEMANA PASSADA

Esta semana mostrou, pela primeira vez, que parte da campanha da presidente Dilma Rousseff foi financiada com recursos desviados de propina da corrupção na Petrobras. Embora apresentados como doação legal, tais recursos significam lavagem de dinheiro.

Em discurso quando a notícia circulou, a presidente Dilma, mais uma vez, exaltou-se. E, mais uma vez, acusou suposto esquema de vazamento de informação. Sem dizer uma palavra sequer sobre o mérito da questão.

A semana evidenciou também que a divisão política que abala o país aprofundou-se exatamente onde não deveria dar-se: o STF.

O ministro daquela Corte, Marco Aurélio de Melo, determinou que o presidente da Câmara desarquivasse pedido de impeachment contra o vice presidente da República. Que imediatamente licenciou-se da presidência do PMDB.

O ministro Gilmar Mendes já havia manifestado publicamente sua posição sobre a crise. Fora dos autos.

Isto é o que de pior poderia ocorrer ao Brasil nessa altura. Porque o Executivo, já aparelhado, teve os salões do Planalto tomados de assalto por grupos de inflamados militantes, orquestrados pela própria presidência da República. Inimaginável.

Por sua vez, o Legislativo é presidido por dois parlamentares que aguardam autorização do STF para tornarem-se réus de processos por corrupção. Com baixa autoridade moral, portanto, para liderar uma saída política.

Restava o Judiciário. Mas, não resta mais. O que resta?

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O saldo

O resultado do processo de impeachment está cada vez mais curvado a uma convergência perversa: clientelismo parlamentar e sem cerimônia do Planalto.

Qualquer que seja aquele placar, há questão de fundo que precisa ser avaliada: a forma moralmente descuidada como o PT exerceu o poder esses anos. O modo patrimonialista como os governos petistas maltrataram os negócios do Estado. Como se tivessem lidando com reles objeto.

Ou o Estado fosse coisa sua: desde a estrela do PT que a ex primeira dama, Marisa Letícia, plantou no jardim do palácio da Alvorada. Até o saque criminosamente continuado feito nos cofres do Petrobras. Passando pela programação da Rede Brasil que, no noticiário, trata oposicionistas como golpistas. Uma televisão pública custeada com dinheiro do contribuinte.

É como se eles, sob o manto profanado da defesa dos pobres, estivessem a salvo de qualquer arguição. E estivessem dispensados de prestar contas.

Na prática, os petistas não sabem, ou não querem saber, que o vitorioso numa eleição governa para todos. Este é um princípio republicano. Que decorre de regra democrática. O eleito por parcela do eleitorado governa para todos.

Mas, não no mundo do PT. O governo petista partidariza. E, por essa via estreita, assume postura antidemocrática. Distante da premissa constitucional da impessoalidade.

O pacto

A fratura que afeta a sociedade brasileira atualmente é consequência da partidarização patrocinada pelos governos Lula e Dilma. O discurso neo populista do ex presidente entronizou o bordão “nós e eles”. Foi manipulação política que provocou cisão social.

As consequências do discurso divisionista de Lula são danosas ao país. Porque, ao estimular o sentimento de separação na sociedade, produz o conflito social. Ora, a dispersão social induz o surgimento de violência política.

Os primeiros sinais deste quadro já aparecem nas ruas no enfrentamento entre grupos pro e anti governo. Prevalecendo esta sensação de discórdia insuperável, elimina-se a chance de criar consensos. E consensos sociais são elemento fundamental para selar pactos políticos.

Não há saída para a crise atual fora da apuração de certo nível de consenso. É preciso promovê-lo. Em torno de questões básicas. Com apoio em quatro ou cinco pontos de reformas forma-se o pacto. Trata-se, pois, de pacto programático, apoiado em propostas objetivas consensuadas no diálogo.

Resta a antecipação das eleições presidenciais de 2018 para 2016. Se o impeachment for aprovado.

SPT

* * *

Figura da semana – Geir Campos

Geir

Carioca e comunista, Geir Campos foi piloto, poeta, autor e editor. Deixou extensa obra em teatro e poesia. Seus poemas têm a resistência do metal. E a delicadeza das flores.

Lembrança de meu estimado amigo Jaime Galvão, fechemos semana pesada com a suavidade destes versos de Alba:

“Não faz mal que amanheça devagar
As flores não têm pressa nem os frutos
Sabem que a vagareza dos minutos
Adoçam mais o outono por chegar.

Portanto não faz mal que devagar
O dia vença a noite em seus redutos
Do leste – o que importa é ter enxutos
Os olhos e a intenção de madrugar.”

Até a próxima.

SEMANA PASSADA

Pedaços de paixão constroem uma insensatez?

A semana finda, o PMDB faz que sai, a presidente diz que fica e a Nação se divide. Cada vez mais. O ex presidente Lula continua suspenso. E o vice-presidente Temer aterrissa no imponderável.

O ministro Luís Alberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal – STF, sem saber que estava sendo gravado, ao ver a direção do PMDB reunida para desembarcar do governo, disse:

– É esse o projeto de poder para o país? É um desastre.

Pois é. Essa é a primeira parte do problema. À parte a discussão sobre a base jurídica do impeachment, a alternativa de poder está prometida a grupo de políticos do PMDB que sofre processo de investigação no Supremo por corrupção: Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho.

A segunda parte do problema é que o fundamento do impeachment é uma tecnicalidade jurídica. De complicada compreensão por parte da maioria da população. E não há, ainda, acusação direta de corrupção à presidente Dilma.

Aproveitando a perplexidade da população, o discurso surrado de conhecido neo populismo de Lula encontra terreno fértil. E a militância paga do PT, misturando sindicalistas, movimentos sociais e estudantes, voltou às ruas.

O que parecia ser passeio primaveril, o impeachment, dado o quadro de incompetência da gestão Dilma, virou pesadelo de impressentido inverno. Com rumo indecifrável.

O atual processo de impedimento da presidente pode ser recusado, pelos votos manipulados de parlamentares clientelistas. Então, virá outro pedido para impedir a presidente: o processo encaminhado pela Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. Com mais clara motivação jurídica.

Em seguida, se for o caso, o processo que tramita no Tribunal Superior Eleitoral-TSE por abuso de poder na campanha.

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Futuros

A vertigem do presente costura horizonte viável?

Por trás do cenário, cresce a expectativa sobre dois fatos: o primeiro, é o futuro da Lava Jato. A mais importante investigação sobre corrupção jamais feita no Brasil.

Que articulações estão sendo arquitetadas, nas negociações do poder, sobre os desdobramentos da operação judiciária do juiz Sérgio Moro?

Esta é a chance de se diminuir a taxa de impunidade no país. É a oportunidade de se promover a substituição de lideranças oligárquicas que enriqueceram, por anos a fio, na fímbria dos palácios.

Os acordos políticos envolvem promessas de fragilizar a ação da Polícia Federal na Lava Jato? Abrangem a tentativa de delongar a denúncia para investigar parlamentares? Nos casos de Renan e Collor os pedidos para investiga-los já fazem fila.

O segundo fato, por trás do fragor cotidiano, é o tom de ameaça de violência contido nos discursos do PT. Dois são mais recentes. O do ex presidente Lula, dizendo que é o único com capacidade de incendiar o país. E o de Stédile, do MST, afirmando que desembarca nas ruas com seu exército para defender a presidente.

O caráter hegemônico do PT reflete cultura autoritária. O senso burocrático da estrutura interna transborda para afirmar um tipo de política voluntarista. Modelado antigamente pelo temperamento forte de José Dirceu. E atualizado no figurino brizolista da presidente da República.

Política, como dizia Hannah Arendt, é diálogo. Política é cooperação e compartilhamento de ideias em torno de objetivos que, no final, estarão próximos. Porque política trata do bem comum.

Mas, parece que, na cultura petista, o espírito de hegemonia não admite alternância de poder. Adversário político é visto como inimigo mortal. Como se o PT tivesse o monopólio do interesse social. Já que perdeu o discurso da ética.

Esse viés petista de atuar no espaço público impregnou a sociedade de graus de intolerância. Ocupou, sem cerimônia, sob a forma de palanque, o palácio do Planalto. Destinando a Casa de todos a uma facção irada. E estendeu-se nas dobras do tecido partidário brasileiro. Envolvendo setores militantes do PSDB, seu principal oponente.

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* * *

Figura da semana – Jorge Luis Borges

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Fechando a porta estreita da semana, a poesia larga, feita de prata legítima, do argentino universal, Jorge Luis Borges.

Os justos

“Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.”

Até a próxima.

27 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEXTA DA PÁSCOA

A sexta feira santa começou cedo, sete e meia da manhã. Fui buscar o Capitão para passar o dia com o avô. Estava pronto, banho tomado, carregando dr. Batata.

Dr. Batata é brinquedo de montar em que se vai colocando orelhas, bigode, óculos, braços. Ele não larga dr. Batata. Nem ao dormir. A primeira parada foi no Mercado da Encruzilhada. Onde eu levava minha mãe, Naida, para comprar carne nos idos dos 60. Eu queria revisitá-lo levando pela mão meu neto. Mostrando a ele o passado, ele vendo o presente.

Depois, no apartamento, fomos para a piscina. Lá, navegamos mares e enfrentamos tempestades. Empurrando um barquinho vermelho de vela branca. Ele disse logo:

– Vô, você é o comandante.

– E você é meu ajudante, respondi.

Almoçamos carne assada, como ele havia pedido. E, após eu ler para ele trecho do livrinho do rei Leão, ele adormeceu na minha cama. Eu me acomodei junto a ele. Mudei o canal do Discovery Kids para assistir documentário sobre as crises políticas brasileiras.

Veio Vargas, cuja saga terminou em tragédia. Veio Juscelino e veio Jânio na renúncia improvável. Eu botei a mão levemente sobre o Capitão. Ele respirava sua inocência.

A crise prosseguia. Veio o golpe de 64, as cassações, as prisões. Veio o AI 5. A crise aumentou. Eu levei a mão sobre a cabecinha do Capitão. Toquei seus cabelos, senti, ao mesmo tempo, ternura e temor pela infância do meu neto e do meu país.

Veio a redemocratização. Vieram os embates da privatização. E veio impressentida radicalização. Encostei meu corpo outonal ao frescor primaveril do Capitão. Uma emoção antiga prendeu minha garganta. Eu olhei o futuro ao meu lado.

No mesmo instante, ele abriu os olhinhos e disse:

– Vô, vamos passear?

Desliguei a tv, dispensei perdida angústia e abracei ventura sonhada.

26 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

A semana finda rompeu com a tediosa espera do impasse. Primeiro, foi o Supremo Tribunal Federal – STF manifestando-se por meio de despachos de dois ministros: Gilmar Mendes e Teori Zavascki.

Depois, veio a gangorra indisfarçada do senador Renan Calheiros, apoiando levemente o impeachment. Para, após conversa com os ex presidentes Lula e Sarney, recuar.

E, para tirar o sono de meio mundo político na santa semana, gesto profano: a Polícia Federal descobre na Odebrecht departamento especializado em oferecer propina. E, nele, relação com nomes de mais de 200 parlamentares. De mais de 20 Partidos.

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A divulgação do grampo não autorizado da presidente da República é encontro imprevisto entre legalidade e legitimidade. Entre o que diz a lei e o que é de interesse público.

O juiz Sérgio Moro sabia que tal divulgação dependia de prévia autorização do Supremo Tribunal Federal – STF. Por envolver a figura presidencial. Embora o alvo da gravação não fosse ela. Mas o ex presidente Lula. Então, por que o juiz Moro promoveu a divulgação do áudio?

O áudio

O áudio tornou-se moeda de duas faces. De um lado, a legalidade estrita recomendava a não divulgação do áudio. De outro lado, o legítimo interesse público sobre seu conteúdo induzia sua divulgação.

O teor da conversa entre a presidente Dilma e o ex presidente Lula sugeria um acerto visando evitar a prisão dele. Por meio da entrega antecipada a ele do termo de sua posse na Casa Civil. O que configuraria obstrução de Justiça.

Ocorre que a conversa entre Dilma e Lula não foi fato isolado. Situou-se em contexto no qual outros indícios indicavam sequência de iniciativas voltadas a bloquear a prisão de Lula. Dentro e fora do Palácio do Planalto.

Essas iniciativas, segundo outras gravações, passaram também pelo presidente do PT e pelo ministro Jacques Wagner.

O legal e o legítimo

A questão que se põe é: dado o grave interesse público de tais conversas, justificava-se sua divulgação mesmo sem autorização do STF? Ou por outra: seria legítimo manter a sociedade brasileira ignorando a tentativa de bloquear a prisão de Lula? Com a participação da presidente da República?

É clara a contraposição entre o legal e o legítimo. Entre lei e interesse da Nação. No Brasil, prevalece o legalismo. Ou seja, o juiz deve julgar em estrita observância do que dispõe a lei.

Nos Estados Unidos, prevalece o conteúdo fático. Ou seja, se fatos justificam uma decisão, ela deve ser proferida. Foi o que aconteceu, em 1974. O ex presidente Nixon tinha gravadas conversas que o incriminavam no episódio Watergate.

Ele alegou o princípio do sigilo presidencial para não fornecer as informações solicitadas pelos investigadores. Mas a Suprema Corte decidiu contra ele acentuando que o princípio não era absoluto. E liberou as gravações.

No caso do audaz Moro, observar estritamente a lei seria contribuir para subtrair ao público episódios cometidos nas sombras do crime de responsabilidade. Agir conforme o legítimo interesse público seria atuar para que os brasileiros tivessem conhecimento de trama tecida contra a República.

É hora de fazer a interpretação extensiva da lei. Aceita no Direito nacional. Com base em dois argumentos: um, no contexto de conspiração contra processo legal em que ocorreu a conversa entre a presidente e o ex presidente. E, dois, no interesse social de publicizar informações que interessam ao povo e à República.

Autoritarismo

Para além dessa questão jurídica, que também é política, um fato estarrece. O estilo mafioso como age o ex presidente Lula. Articulando com o presidente do PT ações estranhas aos objetivos de um Partido político. Manobrando para infiltrar pressões na máquina do Estado. E assim produzir iniciativas em seu benefício pessoal.

O Brasil tem exemplos de estadistas que honraram a história republicana. Getúlio Vargas deu a vida em defesa de seu nome. Juscelino Kubitschek, pela grandeza de gestos, tornou-se maior depois que deixou a presidência.

Ao contrário de Getúlio e Juscelino, Lula veste ambiguidades. Sentindo-se soberano, oculta, distorce e tenta sobrepor-se à lei. Em patética prepotência, torna-se militante em causa própria.

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* * *

Figura da semana – Paulo Mendes Campos

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Para encerrar semana tão cheia de brumas da incerteza, a palavra certeira de Paulinho Mendes Campos. Mineiro de Belzonte, foi cariocar no Rio, onde ficou. E aprimorou a pena. Com outros mineiros, Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Oto Lara Resende.

Eis trecho do poema Carta a Pero Vaz de Caminha:

“Na praia há que ser feliz,
Mas devagar, como quem diz e não diz,
Pois, em sua divina inclemência,
Nêmesis pune a insolência
E não nos permite
Os desmandos da euforia
(apesar de ser demais a poesia
Celta de Brigite).

São elas, as belas, belas demais,
Umas menos, outras mais,
Uma parada, Pero Vaz, uma parada,
Em que não nos vai nada –
Mas é doce como se nos fosse”.

Até a próxima.

19 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

A semana começou como pintura de Portinari. Ruas pintadas de verde e amarelo. Alegria cívica expressa nos rostos de milhões de brasileiros. Pedindo o impeachment da presidente da República.

A semana terminou como a ópera Nabuco de Verdi. Com o coro dos escravos hebreus. O choro dos perplexos da terra. Na assinatura de nomeação fuga do ex presidente Lula vê-se atestado de óbito. De governo cadáver.

Com isso, a presidente Dilma levou a crise para dentro do palácio. Junto com a operação Lava jato. E a tragédia do ato maroto traz em si contradição. O que o governo quer não é o que Lula faz.

O governo queria, com Lula, restaurar o mínimo de governabilidade. O que Lula faz, no governo, é defender a si próprio de investigação. Como ficou audível nas gravações telefônicas.

O patrimonialismo, que equipou Atibaia e Guarujá, é o mesmo que transforma nomeação ministerial em proteção policial. Investigado vira ministro. E presidência, de costas para o coletivo, serve o singular.

Como cantou a ária de Verdi: “Vai, pensamento, sobre as asas douradas. Oh, minha pátria, tão bela e perdida. Que o Senhor te inspire harmonias”.

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A militante presidente

Na posse dos novos ministros, o vocabulário da presidente da República foi de militante. O ambiente foi de militância. Gritos e palavras de ordem foram de militantes. Uma bandeira vermelha com estrela do PT, agitada, era da militância. Só paredes e vidros do salão do Palácio do Planalto eram protocolares.

Assim, no momento em que mais precisava unir, a presidente desune. Na passagem em que mais precisava juntar, a presidente dispersa.

A postura militante da presidente dentro do palácio é sectária. Não condiz com o senso republicano de neutralidade que se espera do governante. Ela se coloca como presidente de parcela da população brasileira. E não de todos os brasileiros.

Presidência não combina com militância. Presidência diz do todo. Militância diz da parte. Presidência é integradora. Militância é desintegradora. Militante, a presidente ficou menor.

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Permanências

Com a chegada de Lula à Casa Civil, o contencioso do governo aumentou. Os ácidos comentários feitos por Lula em ligações telefônicas produziram destruição de um tsunami institucional. De uma só vez, ele atacou os ministros do STF, os presidentes da Câmara e do Senado, e o Procurador Geral da República.

Nenhum deles compareceu à posse de Lula. Também lá não apareceu o vice presidente da República, Michel Temer. Nem os ministros militares. Precisaram de poucas cadeiras na fila de autoridades presentes ao ato.

O efeito político da presença de Lula no governo foi o inverso do esperado. Ao invés de mais articulação ao governo, sua entrada no ministério provocou o caos. O governo está tonto. E isolado.

É o fim da estrada. A comissão do impeachment foi instalada na Câmara. O presidente e o relator são aliados do presidente da Casa, deputado Eduardo Cunha. Que é inimigo declarado da presidente. Em quarenta e cinco dias o processo será submetido ao plenário. Seguindo, depois, para o Senado.

Paralelamente, corre processo no Tribunal Superior Eleitoral-TSE. Onde se argui abuso de poder econômico na eleição da presidente. E para onde convergem informações colhidas na operação Lava Jato.

Mas, para além do provisório do poder, ficam lições. Experiência acumulada pelas instituições brasileiras. Fortalecendo-as.

A atuação conjunta de Polícia Federal e Ministério Público abriu caminho para afirmação do Poder Judiciário. A leniência moral do sistema político encontrou contraponto na solidez ética do juiz.

O custo Dilma foi muito alto. A economia está desorganizada. Inflação elevada e investimentos paralisados. Finanças públicas destroçadas. Mas as instituições sociais estão mais preparadas para o futuro.

Para além do contingente das pessoas, brilha a pedagogia dos fatos. E dos feitos. Na latitude das permanências.

* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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Fechemos a semana de caos com a serena reflexão do tempo. Na palavra límpida e permanente de Carlos Pena Filho. Como em trecho de Os Interesses Perdidos.

“Sem ter chegado a parte alguma, espia
Os interesses que perdeu na viagem.
E sem ter mais nenhum, tarde confia:
É mais leve o viajante sem bagagem.

Deserto, sem caminho e sem linguagem,
Sem a lembrança até que outrora havia,
Nem sabe se existiu, quando existia,
Ou se era a parte morta da paisagem.

Muito tem de perder, mas não tem nada,
Por isso é tempo de ir adquirindo,
Pra não entregar a alma endividada.”

Até a próxima.

12 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta foi semana na qual procuradores do Ministério Público estadual de São Paulo pediram a prisão do ex presidente Lula. Por suposta ocultação de patrimônio e falsidade ideológica. Ligada ao tríplex do Guarujá. Ação que não tem a ver com a operação Lava Jato.

A iniciativa tem duas leituras políticas: para adversários de Lula, acentua sua responsabilidade criminal. Para partidários do ex presidente, reforça o sentido de vitimização que o PT adotou. Desde a condução coercitiva autorizada pelo juiz Sérgio Moro.

O pedido do MP paulista foi, no mínimo, inoportuno. Porque feito às vésperas da manifestação pró impeachment de domingo, 13 de março. Ampliando o risco de conflitos em ambiente de crescente radicalização.

Do outro lado da rua, o governo chegou ao limite das forças que o sustentam. A presidente não tem mais suporte parlamentar para aprovar nenhuma das reformas que ajudariam a economia.

Desapoiada, correu pressurosa, em viagem patética a São Bernardo do Campo, para abraçar seu tutor. Desvestindo perfil compenetrado que se espera de presidente. A crise política está no limiar do seu clímax.

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Derrota de Lula

Grandes políticos alcançam grandes vitórias eleitorais. Como Bill Clinton, ex governador do pequeno Arkansas, estado sem expressão política e econômica. E como Barack Obama, jovem senador negro.

Grandes políticos sofrem esmagadoras derrotas eleitorais. Como Winston Churchill. Vencedor brilhante da Segunda Guerra Mundial, destruiu Hitler. E foi derrotado na eleição seguinte ao final da guerra.

Grandes políticos conseguem grandes vitórias morais. Como o general Charles De Gaulle. Que, após renunciar à presidência da França, recolheu-se a Colombey- les- Deux-Églises. Onde recebia peregrinações de políticos. Tornou-se figura ainda maior que no governo.

Grandes políticos sofrem improváveis derrotas morais. Por se perderem na miudeza do patrimonialismo. Como o ex presidente, Luís Inácio Lula da Silva.

Lula perdeu o senso de gravidade da hora. Após depor aos procuradores da Lava Jato, voltou ao palanque. Magnificou seu governo, incitou aliados, ameaçou adversários.

Maior que sua egolatria, sua derrota moral. Mais imponderável que sua linguagem ofídica, sua presença esquiva no tríplex.

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Dilma

A presidente Dilma Rousseff é um ponto na solidão do planalto. Ao seu redor, apenas o sopro frio do vento vésper. Nada atrai na presidente. Sem gesto suave. Sem palavra amena. O cume do poder terá esvaziado sinal de delicadeza.

No horizonte de duas dezenas de Partidos, rara solidariedade. O PT não apoia a reforma fiscal. O PDT não apoia a CPMF. O PMDB não apoia a reforma da Previdência. Os demais Partidos são entes improváveis à espera de sobras de enganoso butim.

A presidente termina cercada de vazios. Sem simpatias. Sem lealdades. Seu último reduto é a bancada peemebebista no Senado. A cuja decisão está entregue o impeachment. É pouco para quem perdeu tanto.

A República encontra-se na encruzilhada de três fatores:

1. Delações de empresários na operação Lava Jato, que poderão trazer mais fatos não conhecidos das autoridades e da opinião pública;

2. Extensão das manifestações a favor do impeachment da presidente, agendada para amanhã, 13 de março;

3. Agravamento da economia sem perspectiva de mudança por falta de liderança que produza mobilização transformadora.

* * *

Figura da semana – Rainer Maria Rilke

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Considerado o maior poeta moderno de língua alemã, Rilke (1875/1926) tinha uma escrita diáfana. Sua precisão revelava a profundidade de quem sabia olhar. E ver.

Fechemos a semana com trecho dos Poemas Esparsos:

“Meus adeuses, dei-os todos. Mil partidas
Me formaram desde a infância, devagar.
Mas volto outra vez e recomeço a lida:
A volta franca liberta meu olhar.

O que me resta é cuidar de o expandir,
E minha alegria sempre contumaz:
A de ter amado coisas quase iguais
A essas ausências que fazem agir”.

Até a próxima.

A PRINCESA

Ontem, levei o Capitão ao Instituto Ricardo Brennand. Eu lhe disse:

– Vovô vai lhe levar a um castelo de verdade.

No frescor de seus três anos, indagou:

– Tem janela?

– Tem. Por que você quer saber?

– Porque o príncipe tem que salvar a princesa, respondeu.

– Ah, sim, disse eu.

Entramos, visitamos o castelo, mostrei a ele janelas. Depois, fomos ao museu, vimos as esculturas. Chegamos às pinturas, mostrei a ele as telas de Aloísio Magalhães e de Mirella Andreotti.

Na saída, comemos um pãozinho de queijo e tomamos o caminho de volta.

Então, perguntei:

– Então, viu as janelas?

– Vi. Agora, vou salvar a princesa.

Segurei a mãozinha do pequeno Perseu, que acabara de ver como enfrentar a Medusa para salvar sua princesa. E caminhamos o caminho do futuro cheio de passado.

SEMANA PASSADA

Aletheia. Erga omnes. Verdade e realidade. Vale para todos.

Ex presidente Lula

A expedição do mandado de condução coercitiva dirigida ao ex presidente Lula foi uma coincidência. Não é reação da Polícia Federal à substituição do ministro da Justiça.

Outra fortuita coincidência: as cinco maiores empresas envolvidas na corrupção na Petrobras, investigadas pela Lava Jato, são as empresas que financiaram o Instituto Lula, pagaram as palestras do ex presidente e fizeram obras no apartamento de Guarujá e no sítio em Atibaia.

Simples coincidência: o conjunto daquelas empresas destinou R$ 20 milhões em doações ao grupo PT/Instituto Lula e R$ 10 milhões para palestras do ex presidente.

Mera coincidência: a guarda de dez contêineres, contendo objetos de propriedade do ex presidente, foi paga por uma daquelas empreiteiras durante mais de quatro anos.

Não é coincidência a politização que PT e governo tentam, a partir de agora, impingir à investigação.

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A semana

Semana shakespeariana. Cheia de ambiguidades e temor. E cheiro de ódio queimado. Semana que trouxe fatos históricos: na economia, a queda de 3,8% do PIB brasileiro. Recorde negativo desde que, a partir de 1994, o IBGE apura esse número. Alto preço paga a sociedade brasileira por má gestão econômica.

Na política, o STF autorizou, pela unanimidade dos dez votos dos ministros da Corte, abertura de inquérito penal contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha. É a primeira vez que o dirigente maior da Câmara sofre tal arguição.

Outro fato, a ser confirmado, é a delação premiada do senador Delcídio Amaral. Que atribui à atual presidente da República, Dilma Rousseff, e ao ex presidente, Lula, tentativas de obstrução de Justiça, no âmbito da operação Lava Jato. Entre outras acusações.

O terceiro fato, policial, foi a condução coercitiva do ex presidente Lula para prestar declarações ao Ministério Público Federal.

A volta por cima

Tudo isso ocorreu quando o ex presidente Lula obteve breve vitória. Ele conseguiu que a presidente Dilma substituísse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Seria o primeiro passo para frear a ação da Polícia Federal que constrange a família Lula da Silva. E enfraquecer a operação Lava Jato.

Após a delação do senador Delcídio, será muito mais difícil mexer na Polícia Federal. A PF dá a volta por cima ?

O novo ministro da Justiça

Confesso que não sei seu nome. Obscuro procurador baiano da confiança do Chefe da Casa Civil, Jacques Wagner. Colocado no governo para sustar a operação Lava Jato?

Imagino como terá sido seu primeiro café da manhã, no cargo, ontem.

Usina de ilegalidades

A delação do senador Delcídio confirma que o petismo tornou-se escola de transgressores: Dirceu, Delúbio, Vaccari. Crescendo a cada descoberta.

Improvável central de delitos, o petismo dispensou ideias e ideias, abandonou o estatuto da ética. Transformou-se em gerência de projetos patrimonialistas.

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* * *

Figura da semana – Jorge Luís Borges

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Fechemos a semana em verde e amarelo. Com trecho de poema de Jorge Luís Borges, intitulado Xadrez.

“Em seu grave rincão, os jogadores
as peças vão movendo. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o amplo tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.”

Até a próxima.

27 fevereiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta semana o cerco de ferro apertou um pouco mais o duque de Atibaia. Ou será o barão do Guarujá?

Não importa o apelido. Pois quem, sendo ex presidente da República, não se digna prestar informação à Nação sobre seu patrimônio, oculto ou não, pouco acrescenta o nome que se lhe dê.

Trata-se de silêncio esquivo. Que não condiz com rigor ético exigido de alguém com tal medalha. Nem está à altura do respeito que se auto impõe qualquer senhor de cabelos de prata.

Pois é. O Conselho do Ministério Público autorizou a continuidade da investigação sobre a cooperativa que construiu o edifício onde se localiza o triplex mais falado do país.

O outro fato, este na área econômica, ocorrido na semana finda, foi o rebaixamento do Brasil pela agência de classificação de risco, Moody’s. O terceiro rebaixamento, depois de igual medida adotada pela Standard & Poors e pela Fitch. Significa menos capital à disposição do Brasil. E mais caro. Pois o país foi confirmado mau pagador.

Na prática, estamos cuidando de governo que declarou auto falência.

Porque submeteu ao Congresso Nacional proposta de orçamento deficitária para 2016. Nenhum país, até hoje, tivera a audácia mambembe de tomar tal iniciativa. Ou seja, confessar-se publicamente incompetente para administrar suas contas.

O que fazer? Se a presidente não lidera nem governa ? Se o impeachment é miragem feita de recursos e prazos infindos?

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Renúncia: uma arquitetura

Renúncia não é para qualquer um. É preciso ter coragem cívica. E, às vezes, arriscar cálculo político.

Há dois tipos de renúncia:

1. O primeiro tipo de renúncia é feito de desprendimento pessoal, de desapego. É instrumental. Porque relaciona-se com valores mais relevantes. Valores ligados ao país, a princípios morais, à honra pessoal. Foram os casos dos ex presidentes Getúlio Vargas e Charles de Gaulle;

2. O segundo tipo de renúncia é feito de cálculo. É de mérito. Porque refere-se a interesses concretos de uso de poder, de sobrevivência ou improbabilidade política. Foram os casos dos ex presidentes Jânio Quadros e Richard Nixon.

Getúlio Vargas cometeu suicídio em 1954. Foi uma espécie de renúncia. Ele colocou o gesto extremo de morrer para exterminar a vida na política alheia. E conseguiu.

Charles de Gaulle renunciou duas vezes: a primeira, em 1946, após ser eleito presidente um ano antes. E não conseguir maioria na Assembleia Nacional. A segunda, em 1969, depois de ser reeleito presidente em 1965, por ter sido derrotado em referendo nacional sobre a organização do Senado francês.

Jânio Quadros renunciou em 1961 aparentemente em jogada política para tornar-se ditador. Voltaria nos braços do povo e respaldo de tanques. Não deu certo.

Richard Nixon renunciou em 1974, sob ameaça de impeachment, depois de processo sobre espionagem de sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, em Washington.

O que há de comum em todos esses casos de renúncia presidencial ? A existência de grave crise política. Do lado do governo, esgotamento das condições do presidente assegurar a governabilidade. Do lado do sistema produtivo, ausente confiança de agentes econômicos, paralisação de investimentos e aumento de inflação e desemprego.

Pois bem. No caso da presidente Dilma Rousseff, sobrepõem-se três crises: crise de liderança, crise política e crise de confiança.

Crise de liderança de presidencialismo sem presidente. A presidente não governa efetivamente. Ela exerce mando formal. Ela não lidera nem sua própria base parlamentar.

Crise política dentro e fora do governo. Dentro do governo porque o PT não subscreve os projetos de reforma previdenciária nem de reforma fiscal. Fora do governo porque as investigações sobre corrupção avançam. Com a prisão de João Santana e com o prosseguimento da investigação do Ministério Público de São Paulo sobre a cooperativa habitacional que construiu o tríplex do Guarujá.

Crise de confiança como consequência das duas crises anteriores. As empresas não investem em clima de incerteza como esse. Os políticos acentuam a política do ganho imediato. Pensando em 2018.

Toda renúncia tem uma arquitetura. Que seria construída ao redor da presidente. Arquitetura tecida em dois níveis:

• No nível de fatos reais, cujo contexto político e social é insustentável, em impasse político de governo e paralisia de decisões econômicas no setor privado;

• No nível de lideranças políticas, com reconhecimento da insustentabilidade da situação e coordenação de iniciativas suprapartidárias para superar o impasse.

Trata-se de cenário inspirado em choque de realismo político. Constatando o óbvio: o país é mais importante que as pessoas. Cria-se o consenso de que é preciso agir.

Então, por que as lideranças do país não se entendem para produzir a solução do impasse? E levar à presidente escritura política abolindo sua escravidão pessoal? E, logo, o ato de vontade ou a vontade dos fatos produzirá o futuro.

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Figura da semana – Pablo Neruda

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Encerremos a semana com a poesia do chileno Pablo Neruda. Dono literário da Ilha Negra e condômino do prêmio Nobel. Sua obra tem o tom rubro do lirismo e a lira prata do coletivo. Sendo lírica e social, é amplamente ética. Como neste trecho do soneto LXXXVIII de Cem Sonetos de Amor:

“O mês de março volta com sua luz escondida
E deslizam peixes imensos pelo céu,
Vago vapor terrestre progride sigiloso,
Uma por uma caem ao silêncio das coisas.

Por sorte nesta crise de atmosfera errante
Reuniste as vidas do mar como as do fogo,
O movimento cinza da nave de inverno,
A forma que o amor imprimiu à guitarra”.

Até a próxima.


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