15 novembro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

PARA RUBINHO VALENÇA

Texto de Apresentação do livro de Rubem Valença Filho, Olaria

Antes, o homem. Conheci Rubinho Valença nos anos 80. Convivemos no horizonte laborioso da Cultura e nas delícias gozosas de Porto de Galinhas. Em ambos os ambientes, ele mostrou sempre o lado leve da vida. Como um pássaro que navega o azul do Recife. A ponto de eu apelidá-lo de Fly Rubinho.

Depois, o autor. Neste meu outono de vida, recebo intimação: dr. Luiz, mando-lhe a novela; aguardo a apresentação. Então, está certo. Aí, vai. Com o prazer feito nas coisas gratas. E uma ponta de saudade.

Abro o arquivo. Começo a percorrer a história e o Recife. O Recife magro de ruas estreitas do bairro de São José. O Recife secular e frondoso da arquitetura portuguesa. O Recife orientalizado na transparência das treliças mouras.

Rubinho Valença faz uma ficção entrelaçada com o real. Onde a imaginação tem porosidade que chega a todos os sentidos. Na qual o suor úmido do trópico desenha o pentágono do forte. É texto que tem cheiro de escritura, acervo, memória. E também tem a lisura “clean” da escrita moderna, baudeleriana.

Rubinho Valença foi buscar na olaria inspiração para reiterar o que sempre foi pernambucano: o barro, o massapé, a argila. Os fazeres todos de Pernambuco nasceram na terra argilosa da Zona da Mata. Daí ele falar em João Cabral de Melo Neto, Mauro Mota e Zezinho de Tracunhaém. E Ascenço Ferreira, acrescento eu.

Rubinho Valença é um oleiro da imaginação. Ele pega o barro das palavras e as molda com precisão agrestina. O tempo vai girando. O pensar ganhando encanto. O escrever criando vida. Na grande casa da terra, a olaria.

No final, como disse dr. José Paulo Cavalcanti, pai: “Somos todos feitos do barro trágico rareado por estrelas”.

8 setembro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

A FAZENDA

O que marcou minha passagem na Fazenda? Não é a mesma coisa que o que me marcou na Fazenda.

O que marcou minha passagem na Fazenda, na primeira gestão, 1983/1986, foi principalmente a tecnologia. O avanço da inteligência eletrônica. O uso ampliado de computadores. O controle remoto. Apoiando a inédita fiscalização do comércio de varejo nunca antes investigado.

O que marcou minha passagem na Fazenda, na segunda gestão, 1992/1993, foi a articulação com o Poder Judiciário. A criação da Delegacia de Crimes contra a Sonegação. E o exercício da mão firme da lei.sefaz-pe-1

O que me marcou nas duas passagens pela Fazenda foi a beleza. A beleza estética dos painéis de Cícero Dias. A beleza ética de colegas fazendários. E a beleza social da obra pública.

A beleza estética dos painéis de Cícero Dias me chegou pelas mãos talentosas de Caio Souza Leão. Ele foi o guardião do tesouro. Foi o plantonista do zelo com a arte. Todo dia de manhã, quando eu chegava para trabalhar, a primeira tarefa era aprender sobre fatos e pessoas de Pernambuco. Caio foi meu professor de pernambucanidade.

A beleza ética de colegas fazendários foi um arquipélago do bom fazer. Muitos o fizeram. Opção pelo bem. Entre tantos, homenageio todos na dedicação íntegra de Eneida Ende. Ímpar entre pares. E humilde no brilho com que iluminou a Casa.

A beleza social da obra pública, viabilizada e feita. Porque a Fazenda não é um absoluto em si. É uma mediadora de necessidades coletivas. E uma propiciadora de resultados. A cena mais emocionante de minha vida pública foi a construção da adutora do Sertão. A água jorrando nos olhos perplexos dos sertanejos molhados de alegria.

SEMANA PASSADA

Enfim, o desenlace. Embora com ainda 180 dias para que seja pronunciada a sentença final.

A semana finda foi marco divisório. Por três razões:

1 – Fecho da era do PT, de modo improvável, após 13 anos no poder;
2 – Volta do PMDB ao poder, de onde ele nunca saiu;
3 – Retorno de governo de tom provincianamente liberal ao palácio do Planalto.

O governo Temer tem 90 dias para ganhar o sim da população.

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Política

O Brasil vive revolução silenciosa. Há cinquenta anos, todos sabíamos os nomes dos ministros militares. Discutia-se quem seria o substituto do general presidente.

Hoje, todos sabemos os nomes dos ministros do Supremo Tribunal Federal – STF. O tribunal tornou-se mais relevante politicamente do que a caserna.

Por sua vez, a operação Lava Jato está promovendo a mais extensa limpeza ética de quadros políticos, burocráticos e empresariais de que se tem notícia no país.

Depois de empresários e burocratas, chegou a vez dos políticos. Primeiro, foram os comissários do PT. Por ser o Partido majoritário no condomínio do poder.

Em seguida, foi a vez dos parlamentares do PP, seu parceiro preferencial nos negócios. Agora, é a hora da aristocracia mineira: o senador Aécio Neves aguarda os encaminhamentos da Procuradoria Geral da República – PGR e do ministro Gilmar Mendes.

Na fila, há chance para a nobreza do PMDB: o duque de Atalaia, Renan Calheiros, e o marquês de Boa Vista, Romero Jucá.
Aguardemos.

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Economia

Três tópicos:
1. Confiança; 2. Curto prazo fiscal; e 3. Previdência.

Primeiro, o país precisa de um choque de confiança. Henrique Meireles é o fiador dessa empreitada. Nome escolhido a dedo. Cortejado pela esquerda esclarecida e pela direita lúcida.

Ele poderá, com a cooperação do Congresso, obter avanços essenciais no ajuste fiscal. Que é o primeiro passo da equação política do governo. Tendo sido, durante oito anos, presidente do Banco Central no período Lula, tem diálogo com todas as tribos.

Segundo, no curto prazo, a questão fiscal é estratégica. E a primeira iniciativa deve ser a DRU, desvinculação de gastos obrigatórios do orçamento.

Porque, na prática, o governo só dispõe de 8% de recursos orçamentários que estão disponíveis para alocar livremente. É muito pouco. Trata-se de rigidez irracional numa economia que precisa atender a diversidade de investimentos.

Terceiro, idade mínima para aposentadoria é ponto determinante para a Previdência. Uma regra de transição entre a norma atual e a futura poderá viabilizar um acordo.

O governo vai precisar de boa vontade de deputados e senadores. Mas, pelo menos por enquanto, estão todos no mesmo barco. Parece.

* * *

Figura da semana – Pablo Neruda

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Fechemos a semana com o poeta da Ilha Negra, chileno universal, Pablo Neruda. Um pedaço de delicadeza, um trecho de seu soneto XCIX:

“Outros dias virão, será entendido
O silêncio de plantas e planetas
E quantas coisas puras passarão !
Terão cheiro de lua os violinos !

O pão será talvez como tu és;
Terá tua voz, tua condição de trigo,
E falarão outras coisas com tua voz;
Os cavalos perdidos do outono.”

Até a próxima.

LEMBRO

A lembrança mais remota que tenho dela é minha primeira ida para o colégio. Aos quatro anos de idade. Instituto Recife, avenida João de Barros, 1950. Soube, depois, que ela chorava ao me deixar.

Recordo, entre outras impressões, seu senso de escolha. Buscando sempre o melhor para a casa. Não o mais caro. Que papai, médico de classe média, não podia. Mas, o mais moderno. Como, quando conversava com Aloísio Magalhães, autor do projeto da nossa casa na rua André Rebouças, Rosarinho. Exemplo de leveza arquitetônica, com amplo terraço na frente, abertura de espaços feitos de vidro. E jardim de inverno no interior na sala.

Lembro de seu trato delicado com os demais. Sempre afável no falar. Sem jamais criticar quem quer que fosse. Nunca a ouvi pronunciar uma crítica a ninguém. Discretíssima.

Mesmo após os oitenta anos, continuava ligada nas coisas da vida, no cotidiano da cidade. Telefonava para mim:

– Ô Luiz Otavio, você viu isso? E acentuava sua indignação. Sua incredulidade. Marcado no rigor de tradição familiar, sertaneja, dos feitios de Serra Talhada.

Com o passar do tempo, foi se tornando referência atemporal. Quanto mais frágil fisicamente, mais sólida afetivamente. Quanto mais incerta no andar, mais firme no olhar. Sua recusa em partir foi reiteração de seu inconformismo. Na franqueza com o que não concordava. Na clareza com o que não desejava.

Assim era Naida, doce e forte ao mesmo tempo. Por isso, reuniu tantos no seu entorno. Fiel à linhagem das Rosas.

SEMANA PASSADA

Semana em que o Supremo Tribunal Federal desatou o nó da presidência da Câmara dos Deputados, suspendendo o mandato do deputado Eduardo Cunha?

Semana na qual o ex presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tentou provar que o crime pode ser sustentado nas pilastras do poder?

Semana na qual a Câmara substituiu face de granito cínico por bigode parvo dos anos vinte?

Sim.

Mas também semana em que os ministros do Supremo, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, conspiraram para interromper o processo do impeachment. Montados na ação da Rede da dúbia Marina Silva contra a permanência de Eduardo Cunha na presidência da Câmara.

Por isso, Lewandowski pautou subitamente o processo da Rede para a sessão do STF da quinta feira, 05 de maio. Percebendo a manobra, o ministro Teori Zawaski reagiu. E, na madrugada da própria quinta feira, 05 de maio, preparou parecer e deu provimento a despacho no sentido defendido por Rodrigo Janot.

A consequência mais importante da decisão unânime do Supremo foi frustrar a trama da dupla Lewandowski/Marco Aurélio. E garantir seguimento ao impeachment.

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No livro de ficção, 1984, George Orwell escreveu: “Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado”.

Não é a versão supostamente imparcial de historiadores que afeta o presente. Mas será a forma como a população recorda ou interpreta os fatos históricos.

Os sistemas políticos atuais estão modelados pelo passado. A partir de legados históricos. Esses legados são:

1 – Instituições políticas;
2 – Problemas sociais;
3 – Símbolos políticos;
4 – Valores políticos.

1 – Instituições políticas são os Partidos, a burocracia, os militares, o sistema educacional. Cada geração adapta e cria suas instituições políticas. Essas instituições, como tais, permanecem ainda quando modificadas ao longo do tempo.

Instituições antigas incorporam novas dimensões. Mais atuais. A experiência passada serve de modelo. E inspira a invenção do futuro. A social democracia europeia foi uma das respostas dadas pelo sistema político no século XX.

2 – Cada sistema político tem um legado de problemas sociais. Por exemplo, a discriminação dos negros nos Estados Unidos. E a desigualdade social no Brasil.

Superar tais problemas é desafio de lideranças modernas em cada sociedade. A transformação social é escritura pública passada no cartório da capacidade de liderar. E promover a mudança.

3 – Símbolos políticos são lemas, bandeiras, figuras, eventos políticos. Tais símbolos são importantes para gerar lealdade e unidade política. O ex primeiro ministro inglês, Winston Churchill, aglutinou a esperança e a dedicação dos ingleses com seu discurso e sua ação contra Hitler.

O Brasil é nação jovem. Tem emblemas políticos em Partidos, agências empresariais, movimentos sociais e figuras públicas. E precisa cultivar símbolos que agreguem socialmente. Mais do que separem circunstancialmente.

4 – Valores políticos decorrem de crenças políticas e sociais. A emoção sectária leva ao estreitamento ideológico. O realismo político levou ao liberalismo. Na prática da democracia e do mercado.

Elegendo a liberdade para homenagear a criatividade humana, o pensamento ocidental batizou o pluralismo político. E certificou a diversidade social. No fim de contas, a cultura política reconhece tais valores, crenças e comportamentos coletivos.

O que o Supremo Tribunal Federal fez, na decisão de afastar o deputado Eduardo Cunha, foi acolher judicialmente a cultura política brasileira. No que ela tem de superior, de mais saudável.

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* * *

Figura da semana – Vinicius de Moraes

Poeta, Vinicius de Moraes. Foto: Sidney Corrallo/AE. 18/12/1978. Pasta:

Então, na semana em que o Brasil foi maior do que homens pequenos, celebramos o Brasil em trecho de Pátria Minha. Do poeta, diplomata, amoroso e patriota, Vinicius de Moraes.

Pátria Minha

“Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

(…)

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!”.

Até a próxima.

SEMANA PASSADA

Esta foi a semana do limbo político. Nem a presidente Dilma governa mais, nem o vice presidente Temer governa ainda. O país está literalmente no ar.

Mas, mesmo na inércia que caracteriza o vácuo de poder, surgem símbolos. Improváveis emblemas do que restou de governo que foi se esfarelando na incompetência.

Entre ícones acabrunhantes, poder-se-ia escolher as acrobacias militantes no salão do palácio do Planalto. Ou a peregrinação inócua do ex presidente Lula, ministro sem pasta, catequista sem causa, perdido nos escaninhos do clientelismo.

Mas, entre tais, escolho o mais assustador. Aquele que, por inédita indignidade, certifica como os membros desse governo lidam com a Coisa Pública: o ensaio fotográfico da mulher do ministro do Turismo. Feito no gabinete do ministério.

Evento jamais imaginado, sequer nos tapetes de republiqueta bananeira, inscrito nos livros de Gabriel Garcia Marquez, aconteceu ali, na Esplanada brasiliense.

E o governo, de tão fraco, fez que não viu.

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Democracia brasileira

Democracia é incorporação. Incorporação de classes sociais às diversas formas de participação na tomada de decisões da sociedade.

Democracias começam como círculo de notáveis. Como na Grécia antiga. Depois, transformam-se em democracia de classe média. Como nos Estados Unidos dos anos 50. Que, por sua vez, se tornam democracias de massa. Como no Brasil dos anos 2000.

Na Grã Bretanha, a democratização foi gradual. Na Alemanha foi dialética, em avanços e recuos, muitas vezes sob conflito. Na Espanha e em Portugal ocorreu tardiamente.

Condição que influi no processo de democratização é a clivagem social em cada sociedade. Refletindo a estrutura de classes. E os graus de desigualdade, existentes ou não, em cada uma delas. Quanto menos desigualdade, mais participação. Quanto mais desigualdade, menos participação de todos e de cada um.

Por outro lado, os tipos de elite assumem igual influência nos processos de democratização. A natureza da elite de um país vai se refletir na relação massa/elite. E, com base nesta relação, vai contribuir para as configurações da democracia. Tal como existem, em cada nação.

Os principais tipos de elite são: elites sagradas, próprias das sociedades fundamentalistas; elites aristocráticas, encontradas nas sociedades tradicionais; elites privilegiadas, existentes nas sociedades desiguais; elites competitivas, surgidas nas sociedades modernas.

Elites competitivas dispensam privilégios. Ou estes lhes são dispensados. Porque elas internalizam os fatores de sua superior qualidade. Tornando-se aptas a exercerem liderança nas atividades políticas e econômicas. E a assumirem comando nas decisões coletivas.

A incorporação, nos quadros da elite, de novos membros, figuras de classe ascendente, constitui fator de fortalecimento da democracia. É este processo inclusivo que o Brasil deve continuar a palmilhar.

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De vice para vice

Email de Itamar Franco para Michel Temer

Prezado Michel

Reparando na agonia de tua espera, resolvi te escrever. Passei quase o mesmo que ti. A diferença é que o PT não ficou contra mim. Falou que não queria participar do meu governo. E, na inconsciência de pensamento hegemônico, ficou de longe, olhando. E torcendo. Não sei se contra.

Agora, com você, é diferente. Os petistas não conseguem enxergar seus próprios erros. E, frustrados por perderem tão bisonhamente o poder, montam peça de ficção. Com uma manta de enredo golpista. Que parece mais bizarro auto engano.

Mas, caro Michel, o que eu quero te dizer mesmo é o seguinte: o destino te entregou chance rara de se tornar estadista. Largar o jaleco curto de político convencional da província de São Paulo. E vestir toga larga de primeiro magistrado da Nação.

Vais precisar de ministros notáveis para dar legitimidade ao governo. E vais ter de conviver com a raia miúda que garante votos para aprovar teus projetos no Congresso. Vais precisar de tomar medidas fiscais duras porque dona Dilma colocou o Tesouro na pindaíba. E vais ter que acenar o lenço brando da gratificação subvencionada aos clientes das bolsas sociais.

Mas, por cima de tudo isto, Michel, te digo: pense grande. Pense além do cotidiano formidavelmente autofágico do governo. Pense acima dos interesses mesquinhos. Pense no Brasil moderno da eficiência privatizada. Pense no Brasil profundo das construções de longo prazo.

E apoie o campeão de Curitiba, o juiz Moro. Ele vai precisar de tua clava forte. Sim, já ia esquecendo, vigie aqueles meninos traquinas do PMDB. Não passe a mão na cabeça deles.

Boa sorte, Michel.

Sinceramente, Itamar.

* * *

Figura da semana – Vladimir Maiakovski

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O russo Maiakovski (1893/1930) foi o poeta da revolução. E a insubmissão acentua seu espírito crítico sem perder o senso da alegria de fazer.

Fechemos a semana trazendo sua convicção de atravessar ameaças.

E então, que quereis?

“Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.”

Até a próxima.

SEMANA PASSADA

A semana finda selou a aprovação da Câmara à admissibilidade do processo de impedimento da presidente da República.

Mostrou também as primeiras movimentações do vice presidente, Michel Temer, como possível sucessor da presidente. No caso de aprovação daquele processo.

Acentuou, ainda, a permanência granítica do deputado Eduardo Cunha na presidência da Câmara. E evidenciou uma espécie de xaxado político do presidente do Senado, senador Renan Calheiros: avançando e recuando. Como esperando que o passar do tempo desate o nó de seu próprio imbróglio moral.

Por isso, há a falsa impressão de que o país esteja numa crise monumental. Verdadeiramente falsa tal impressão.

Apesar da excepcionalidade do processo de impedimento presidencial, da resistência de Eduardo Cunha à falta de decoro, as instituições republicanas estão funcionando regularmente.

A Polícia Federal continua investigando. O Judiciário continua julgando. O juiz Sérgio Moro continua prolatando sentenças. O Legislativo continua votando. Paralisado mesmo só o Executivo. Na sua anomia habitual.

A seu tempo, chegará a vez de cada um enfrentar a sina de seu próprio destino. Sem eleições gerais. Porque estas representariam ruptura constitucional. Diferente do impedimento, previsto na Constituição.

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Escolhas e instituições

A evolução humana é guiada pela percepção das pessoas ao fazer suas escolhas. Para reduzir incertezas. Tanto a incerteza sobre sua própria vida. Quanto a incerteza que cerca o desempenho das organizações políticas.

A percepção das pessoas tem a ver com seu contexto individual. E suas escolhas refletem crenças. As crenças determinam escolhas pessoais.

Escolhas são de dois tipos: racionais e não racionais. Escolhas racionais guardam coerência com a ciência e com os fatos. E escolhas não racionais evidenciam principalmente emoções. Escolhas racionais e não racionais influem sobre as mudanças requeridas pelo conjunto da sociedade.

Se as escolhas cumprirem o estatuto da racionalidade, elas ajudarão o processo de mudança com estabilidade. Se as escolhas se colocarem no terreno da não racionalidade, elas determinarão desvios no processo de mudança com estabilidade.

Segundo Douglass North (Understanding the Process of Economic Change, p. 59), todo processo de mudança política passa por ciclo que envolve estas etapas:

1 – Base na realidade;

2 – Escolhas fundamentadas nas crenças pessoais;

3 – Instituições em funcionamento referenciando escolhas coletivas.

Há relação funcional entre crenças e instituições. Crenças são inspiração, formam a parte interna do pensar de cada um. Instituições são expressão, constituem a parte externa do fazer coletivo institucionalizado. No geral, crenças inspiram instituições e estas expressam o sentir da maioria.

A diminuição dos graus de incerteza política é alcançada com liberdade de informação. E funcionamento das instituições democráticas. Porque a informação esclarece a população. E as instituições fixam as regras do jogo.

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Instituições e estabilidade

Pesquisas de opinião atestam que os brasileiros almejam três objetivos: querem serviços públicos de qualidade, apostam na mudança e cultivam a liberdade.

Para diminuir o grau de incerteza política, o Brasil conta com liberdade de imprensa. E com o funcionamento regular das instituições republicanas.

No âmbito do Legislativo, o Senado se pronunciará sobre o impedimento da presidente da República até agosto deste ano. Sendo aprovado, assume o cargo o vice presidente. Se vai dar certo, é outra questão.

No âmbito do Judiciário, os processos tramitam. Inclusive no STF. Pode-se reclamar de demora neste ou naquele caso. Mas a pressão conjunta de investigação policial, denúncia dos Procuradores e cobrança social, vai aumentar. À medida que os fatos políticos forem evoluindo.

No âmbito do Executivo, aguarda-se o ciclo das estações. O inverno vai passar. E a primavera vai chegar.

Por isso, a tendência da transição política brasileira de 2016 será produzir mudança com estabilidade. Apesar da polarização partidária, da sectarização ideológica. E da mediocridade vã.

* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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Abril não é o mais cruel dos meses, como disse T.S.Eliot. Mas abril é o mês de Tiradentes. E todos os meses são de Carlos Pena Filho. Também quando ele fala sobre Tiradentes.

“É o muito esperar que existe em torno
Que me destina a ação desbaratada.
A morte é bem melhor do que o retorno
Ao nada.
Não nasce a pátria agora, o sonho mente,
Mas, em meio à mentira, sonho e luto
Pois sei que sou o espaço entre a semente
E o fruto”.

Até a próxima.

NOVO HORIZONTE

Eram mais de oito horas da noite do domingo. Chovia. E a televisão transmitia a sessão da Câmara sobre o impeachment. Não aguentei o festival de manifestações patéticas de parlamentares. Tomei o carro e saí.

As ruas vazias. O céu, um mingau. Um ou outro restaurante aberto. O recanto espinheirense quieto. Passei pela rua da Hora, onde moravam os Porto Carrero, os Raposo, o jornalista Mario Melo. Deixei o som no concerto duplo de Brahms. Rodei sem destino com as mãos no volante e a cabeça em Brasília.

Foi hiato reparador. Voltei para casa a tempo de ver o voto 342 que selou a sorte da presidente da República. Desliguei a tv e fui até o terraço. Silêncio. Olhei o asfalto molhado, refletindo o luminoso colorido de uma loja. As árvores mudas.

No entanto, algo mudara. Algo intangível. Mas, claramente perceptível ao coração. Sentia-se no ar. Por trás das trevas que se esfumavam. Sentimento passando, ao mesmo tempo, de fora para dentro da gente. E de dentro para fora. Sensação de alívio. Sopro de esperança. Misto de senso de reparação e recomeço.

Foi tanta corrupção, tanta desfaçatez ao longo desses anos. Como disse um ministro do Supremo, coisa de organização criminosa. Tanta omissão, tanta conivência. Tantas ilegalidades, tal inconstitucionalidade. De magnitude que só coube no impeachment.

Desafios? Serão muitos. Limpeza ainda por fazer? Certamente, sim. Mas, temos o que celebrar. As conquistas da Lava Jato. Processo exemplar. Atuação destemida.

E, agora, a introdução de outra chance, novo horizonte. Uma tela de Portinari. Um poema de João Cabral. Você escolhe. Segunda feira. Vamos trabalhar.

SEMANA PASSADA

Uma semana que redesenhou a história do país. Para o improvável ou para o possível. Para continuidade temerária ou para reinício desafiador.

Os dias da semana foram desfiar de despedidas. Adeuses políticos ao governo. A um governo que não soube cultivar a arte da política. Não lhe soube o gosto da conversa. A tessitura do fazer. A arquitetura do construir.

Primeiro, foi a explicitação cirúrgica da operação de ruptura do vice, Michel Temer. Sem sutura. Uma mensagem escapulida na digitação equivocada ? Não. Um código proposital para o futuro. E, com ele, o convite do PMDB para embarcar no poder.

Depois, foi o PP. A alternativa partidária acalentada por Lula para conter a avalanche adesista. Um nó. Mascate político, entronizado na clandestinidade luxuosa do Tulip brasiliense, o ex-presidente viu a chance escapar-lhe sem dó.

Em seguida, outros Partidos, médios uns, nanicos outros, pressurosos todos, também se foram. Com a brisa soprada pelo sol nascente. Velha conhecida do planalto goiano. A brisa amena dos poderosos. Que aquece ambientes ministeriais. E encanta sonhos restaurados.

E, assim, parece encerrar-se um ciclo da história política do país. No segundo impeachment presidencial em vinte e quatro anos.

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Revisitando a história

Barbara Tuchman deixou lições em “A Marcha da Insensatez”. Ela relacionou uma dúzia de casos históricos nos quais o príncipe perdeu poder por abandonar a lógica dos fatos.

Não se trata de alinhar-se ao sentimento Splengeriano de declínio incontornável do Ocidente. Mas de chamar atenção para a falta de sensatez dos homens. Uns, pela soberba própria dos distraídos. Outros, por ignorância mesmo do feitio humano.

O Brasil tem sido berço de talentosos príncipes. O mais longevo deles, Getúlio Vargas, fundou o Brasil moderno. Na siderurgia, na CLT e no jogo ambíguo de ditadura transformada em celeiro de votos cinco anos depois.

Seguiu-se a ele Juscelino Kubitschek. Um sedutor que governava sorrindo. Tão realizado no poder que exerceu duas vezes a remissão presidencial: perdoou os oficiais revoltosos da Aeronáutica acoitados em Aragarças e em Jacareacanga.

Após o interregno de ferro, vieram o sociólogo e o metalúrgico. Síntese pendular de nação de contrastes. Desigualdade social esculpida na presidência da República. E nivelada pelo talento político no alcance do poder. À estabilidade econômica seguiu-se a prioridade social.

E, então, veio a prepotência abissal. Viés ideológico inteiramente ultrapassado. Atrasando o comércio externo. Destroçando as finanças públicas. Instalando a mais perversa e inédita recessão econômica no país. Que termina melancolicamente em face cheia de ira. E oca de sensibilidade.

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Adágio para projeto verde e amarelo

Um povo alegre e desigual. Curtido na decepção. Recriado na esperança. Uma casa caiada de azul. Crianças na calçada. Fidelidade ao Brasil. Alicerces feitos de sonho. Drummond e Portinari.

Elos improváveis abrem porta para costurar o estandarte. Preparando o desfile inicial. Refazer o país. Com mãos de pedreiro. E alma de educador.

Começo ágil. Com lâmina que corte o supérfluo. Ajustando o ângulo reto. Instalando reformas de urgência. Previdência, tributária. Crescimento, teu nome é produtividade. Inovação.

Limpar a casa. Tirar as teias de aranha burocráticas. Desaparelhar dutos e fios. Reaver o mar perdido. Retomar o comércio natural. Sem muros ideológicos. Invenção.

Extinguir a patota. Combater a praga da corrupção. Premiar colaboradores no confessionário de suposto arrependimento. Preservar investigadores que lavam a lama. Manter o jato que edifica a instituição vertical. Paixão.

Uma casa assim para morar. Viver e trabalhar. Cultivo de flores e amizade. Fábricas de chocolate. Pipas coloridas na praia escultural. Chope decente. Sena e suor. Sina tropical. Emoção.

Uma casa complexa assim. Verde e amarela. Não tem outro jeito. Porque assim é a vida. Luta infinda. Perde-se e também se ganha. Vitória e derrota. Desta vez, o polvo da insinceridade perdeu. Mas, atenção: o duelo continua. Porque o tecer da ética não morreu. Estética.

* * *

Figura da semana – Joaquim Cardoso

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O poeta calculista, que emigrou e voltou, mediu e voou, brasileiro de Pernambuco, está aqui.

Seu poema Amanhecer tem muito a ver com o agora.

Aí vai um trecho:

“A luz nasce no Oriente, os pássaros despertam
Amanhecer ! Amanhecer !
As cinzas da noite já se afastam
E promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã
Amanhecer ! Amanhecer !
É grito agudo de quem espera
Chegar ao fim da noite”.

Até a próxima.

RÉQUIEM PARA UMA DECADÊNCIA

Análise em perspectiva dá visada na história. Percurso notável de talento nato. Que foi do chão da fábrica ao selo do palácio.

Esse é o cara, como disse Obama. Carisma feito de palavra solta, mágica, ululante. Formação sem polimento graduado, mas intuitiva. Perfurante.

De repente, um falsete. Toma pela mão Sarney. Homem acima do bem e do mal. Como? Depois contrata omissões com Renan. E arremata traições com Collor.

Em seguida, outro susto. Mensalão. Mas eu não sabia. Me enganaram. O tempo passa. E, no subsolo do petróleo, tenebrosas transações. Bomba de efeito retardado. Petrolão. Tudo começara tão antes. Sob as asas do grão senhor.

Para repouso do guerreiro, a oferta de sítio. Para gáudio do praieiro, a reforma de tríplex. Pura perseguição. Querem acabar comigo. Mas a jararaca está viva. O réptil está no subconsciente.

Ornando jornada de tal decadência, virou ministro clandestino. Ou mascate político de cargos públicos? Semi oculto no luxo do Tulip, tece outras bolsas para clientes de ocasião. Perdão. Por cair na sarjeta da coisa vil.

SÁBADO DE OUTONO

O Capitão, no verdor dos três anos, foi posto na cadeirinha de segurança do carro. E partimos. O outono conduzindo a primavera. O sábado estava destinado à visita ao avô. Primeira parada, tomar a vacina contra o H1N1. Fomos encontrar uma clínica na rua da Hora.

Depois de espera de noventa minutos, conseguimos a vacina. O Capitão não é de muito riso. Sequer atende aqueles pedidos bobos: – Como é seu nome ? É cioso de si. Comportou-se bem quando a agulha da injeção penetrou seu bracinho tenro. Nenhuma palavra. Nenhum temor. E nos despedimos sob os parabéns da vacinadora.

Segunda parada, cabelereiro para aparar os cachos do Capitão. Ele chegou no salão, sentou no jipe suspenso e começou uma viagem pelas rodovias de sua irredutível imaginação. E só parou quando os cachos cortados estavam no chão.

Saímos e fomos almoçar. Tratoria italiana. Sentamos. Maria defronte de mim e ele ao meu lado. Perguntei:

– O que você quer comer?

Ele rápido:

– Pizza.

Fizemos o pedido e ele virou-se pra mim:

– Vem mais pra junto de mim, vô.

Em casa, distribuímos os brinquedos na sala. Ele pintou, jogou boliche, montou lego. Atravessou planícies e savanas com seus cavalos coloridos. Voou sonhos de alturas transatlânticas em pequenos aviões. E, suado, foi intimado a tomar banho. Depois de ser lavado e de lavar o espaço do chuveiro, vestiu a cueca. E Maria foi colocar nele a camisa do avô para terminar as brincadeiras da tarde. Quando ela começou a botar a camisa por cima da cabeça dele, ouvimos a pergunta:

– Mas eu não vou ficar barrigudo não, né ?

Já noite, fizemos a viagem de retorno. Antes de chegarmos ao destino, ele adormeceu. Pelo retrovisor, eu vi o Brasil do futuro, pleno, lindo, venturoso. E traído. Pelo patrimonialista malsão. De qualquer modo, como disse o poeta, importa que o dia vença a noite e tenhamos enxutos os olhos na intenção de madrugar.

SEMANA PASSADA

Esta semana mostrou, pela primeira vez, que parte da campanha da presidente Dilma Rousseff foi financiada com recursos desviados de propina da corrupção na Petrobras. Embora apresentados como doação legal, tais recursos significam lavagem de dinheiro.

Em discurso quando a notícia circulou, a presidente Dilma, mais uma vez, exaltou-se. E, mais uma vez, acusou suposto esquema de vazamento de informação. Sem dizer uma palavra sequer sobre o mérito da questão.

A semana evidenciou também que a divisão política que abala o país aprofundou-se exatamente onde não deveria dar-se: o STF.

O ministro daquela Corte, Marco Aurélio de Melo, determinou que o presidente da Câmara desarquivasse pedido de impeachment contra o vice presidente da República. Que imediatamente licenciou-se da presidência do PMDB.

O ministro Gilmar Mendes já havia manifestado publicamente sua posição sobre a crise. Fora dos autos.

Isto é o que de pior poderia ocorrer ao Brasil nessa altura. Porque o Executivo, já aparelhado, teve os salões do Planalto tomados de assalto por grupos de inflamados militantes, orquestrados pela própria presidência da República. Inimaginável.

Por sua vez, o Legislativo é presidido por dois parlamentares que aguardam autorização do STF para tornarem-se réus de processos por corrupção. Com baixa autoridade moral, portanto, para liderar uma saída política.

Restava o Judiciário. Mas, não resta mais. O que resta?

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O saldo

O resultado do processo de impeachment está cada vez mais curvado a uma convergência perversa: clientelismo parlamentar e sem cerimônia do Planalto.

Qualquer que seja aquele placar, há questão de fundo que precisa ser avaliada: a forma moralmente descuidada como o PT exerceu o poder esses anos. O modo patrimonialista como os governos petistas maltrataram os negócios do Estado. Como se tivessem lidando com reles objeto.

Ou o Estado fosse coisa sua: desde a estrela do PT que a ex primeira dama, Marisa Letícia, plantou no jardim do palácio da Alvorada. Até o saque criminosamente continuado feito nos cofres do Petrobras. Passando pela programação da Rede Brasil que, no noticiário, trata oposicionistas como golpistas. Uma televisão pública custeada com dinheiro do contribuinte.

É como se eles, sob o manto profanado da defesa dos pobres, estivessem a salvo de qualquer arguição. E estivessem dispensados de prestar contas.

Na prática, os petistas não sabem, ou não querem saber, que o vitorioso numa eleição governa para todos. Este é um princípio republicano. Que decorre de regra democrática. O eleito por parcela do eleitorado governa para todos.

Mas, não no mundo do PT. O governo petista partidariza. E, por essa via estreita, assume postura antidemocrática. Distante da premissa constitucional da impessoalidade.

O pacto

A fratura que afeta a sociedade brasileira atualmente é consequência da partidarização patrocinada pelos governos Lula e Dilma. O discurso neo populista do ex presidente entronizou o bordão “nós e eles”. Foi manipulação política que provocou cisão social.

As consequências do discurso divisionista de Lula são danosas ao país. Porque, ao estimular o sentimento de separação na sociedade, produz o conflito social. Ora, a dispersão social induz o surgimento de violência política.

Os primeiros sinais deste quadro já aparecem nas ruas no enfrentamento entre grupos pro e anti governo. Prevalecendo esta sensação de discórdia insuperável, elimina-se a chance de criar consensos. E consensos sociais são elemento fundamental para selar pactos políticos.

Não há saída para a crise atual fora da apuração de certo nível de consenso. É preciso promovê-lo. Em torno de questões básicas. Com apoio em quatro ou cinco pontos de reformas forma-se o pacto. Trata-se, pois, de pacto programático, apoiado em propostas objetivas consensuadas no diálogo.

Resta a antecipação das eleições presidenciais de 2018 para 2016. Se o impeachment for aprovado.

SPT

* * *

Figura da semana – Geir Campos

Geir

Carioca e comunista, Geir Campos foi piloto, poeta, autor e editor. Deixou extensa obra em teatro e poesia. Seus poemas têm a resistência do metal. E a delicadeza das flores.

Lembrança de meu estimado amigo Jaime Galvão, fechemos semana pesada com a suavidade destes versos de Alba:

“Não faz mal que amanheça devagar
As flores não têm pressa nem os frutos
Sabem que a vagareza dos minutos
Adoçam mais o outono por chegar.

Portanto não faz mal que devagar
O dia vença a noite em seus redutos
Do leste – o que importa é ter enxutos
Os olhos e a intenção de madrugar.”

Até a próxima.

SEMANA PASSADA

Pedaços de paixão constroem uma insensatez?

A semana finda, o PMDB faz que sai, a presidente diz que fica e a Nação se divide. Cada vez mais. O ex presidente Lula continua suspenso. E o vice-presidente Temer aterrissa no imponderável.

O ministro Luís Alberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal – STF, sem saber que estava sendo gravado, ao ver a direção do PMDB reunida para desembarcar do governo, disse:

– É esse o projeto de poder para o país? É um desastre.

Pois é. Essa é a primeira parte do problema. À parte a discussão sobre a base jurídica do impeachment, a alternativa de poder está prometida a grupo de políticos do PMDB que sofre processo de investigação no Supremo por corrupção: Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho.

A segunda parte do problema é que o fundamento do impeachment é uma tecnicalidade jurídica. De complicada compreensão por parte da maioria da população. E não há, ainda, acusação direta de corrupção à presidente Dilma.

Aproveitando a perplexidade da população, o discurso surrado de conhecido neo populismo de Lula encontra terreno fértil. E a militância paga do PT, misturando sindicalistas, movimentos sociais e estudantes, voltou às ruas.

O que parecia ser passeio primaveril, o impeachment, dado o quadro de incompetência da gestão Dilma, virou pesadelo de impressentido inverno. Com rumo indecifrável.

O atual processo de impedimento da presidente pode ser recusado, pelos votos manipulados de parlamentares clientelistas. Então, virá outro pedido para impedir a presidente: o processo encaminhado pela Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. Com mais clara motivação jurídica.

Em seguida, se for o caso, o processo que tramita no Tribunal Superior Eleitoral-TSE por abuso de poder na campanha.

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Futuros

A vertigem do presente costura horizonte viável?

Por trás do cenário, cresce a expectativa sobre dois fatos: o primeiro, é o futuro da Lava Jato. A mais importante investigação sobre corrupção jamais feita no Brasil.

Que articulações estão sendo arquitetadas, nas negociações do poder, sobre os desdobramentos da operação judiciária do juiz Sérgio Moro?

Esta é a chance de se diminuir a taxa de impunidade no país. É a oportunidade de se promover a substituição de lideranças oligárquicas que enriqueceram, por anos a fio, na fímbria dos palácios.

Os acordos políticos envolvem promessas de fragilizar a ação da Polícia Federal na Lava Jato? Abrangem a tentativa de delongar a denúncia para investigar parlamentares? Nos casos de Renan e Collor os pedidos para investiga-los já fazem fila.

O segundo fato, por trás do fragor cotidiano, é o tom de ameaça de violência contido nos discursos do PT. Dois são mais recentes. O do ex presidente Lula, dizendo que é o único com capacidade de incendiar o país. E o de Stédile, do MST, afirmando que desembarca nas ruas com seu exército para defender a presidente.

O caráter hegemônico do PT reflete cultura autoritária. O senso burocrático da estrutura interna transborda para afirmar um tipo de política voluntarista. Modelado antigamente pelo temperamento forte de José Dirceu. E atualizado no figurino brizolista da presidente da República.

Política, como dizia Hannah Arendt, é diálogo. Política é cooperação e compartilhamento de ideias em torno de objetivos que, no final, estarão próximos. Porque política trata do bem comum.

Mas, parece que, na cultura petista, o espírito de hegemonia não admite alternância de poder. Adversário político é visto como inimigo mortal. Como se o PT tivesse o monopólio do interesse social. Já que perdeu o discurso da ética.

Esse viés petista de atuar no espaço público impregnou a sociedade de graus de intolerância. Ocupou, sem cerimônia, sob a forma de palanque, o palácio do Planalto. Destinando a Casa de todos a uma facção irada. E estendeu-se nas dobras do tecido partidário brasileiro. Envolvendo setores militantes do PSDB, seu principal oponente.

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* * *

Figura da semana – Jorge Luis Borges

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Fechando a porta estreita da semana, a poesia larga, feita de prata legítima, do argentino universal, Jorge Luis Borges.

Os justos

“Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.”

Até a próxima.

27 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEXTA DA PÁSCOA

A sexta feira santa começou cedo, sete e meia da manhã. Fui buscar o Capitão para passar o dia com o avô. Estava pronto, banho tomado, carregando dr. Batata.

Dr. Batata é brinquedo de montar em que se vai colocando orelhas, bigode, óculos, braços. Ele não larga dr. Batata. Nem ao dormir. A primeira parada foi no Mercado da Encruzilhada. Onde eu levava minha mãe, Naida, para comprar carne nos idos dos 60. Eu queria revisitá-lo levando pela mão meu neto. Mostrando a ele o passado, ele vendo o presente.

Depois, no apartamento, fomos para a piscina. Lá, navegamos mares e enfrentamos tempestades. Empurrando um barquinho vermelho de vela branca. Ele disse logo:

– Vô, você é o comandante.

– E você é meu ajudante, respondi.

Almoçamos carne assada, como ele havia pedido. E, após eu ler para ele trecho do livrinho do rei Leão, ele adormeceu na minha cama. Eu me acomodei junto a ele. Mudei o canal do Discovery Kids para assistir documentário sobre as crises políticas brasileiras.

Veio Vargas, cuja saga terminou em tragédia. Veio Juscelino e veio Jânio na renúncia improvável. Eu botei a mão levemente sobre o Capitão. Ele respirava sua inocência.

A crise prosseguia. Veio o golpe de 64, as cassações, as prisões. Veio o AI 5. A crise aumentou. Eu levei a mão sobre a cabecinha do Capitão. Toquei seus cabelos, senti, ao mesmo tempo, ternura e temor pela infância do meu neto e do meu país.

Veio a redemocratização. Vieram os embates da privatização. E veio impressentida radicalização. Encostei meu corpo outonal ao frescor primaveril do Capitão. Uma emoção antiga prendeu minha garganta. Eu olhei o futuro ao meu lado.

No mesmo instante, ele abriu os olhinhos e disse:

– Vô, vamos passear?

Desliguei a tv, dispensei perdida angústia e abracei ventura sonhada.

26 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

A semana finda rompeu com a tediosa espera do impasse. Primeiro, foi o Supremo Tribunal Federal – STF manifestando-se por meio de despachos de dois ministros: Gilmar Mendes e Teori Zavascki.

Depois, veio a gangorra indisfarçada do senador Renan Calheiros, apoiando levemente o impeachment. Para, após conversa com os ex presidentes Lula e Sarney, recuar.

E, para tirar o sono de meio mundo político na santa semana, gesto profano: a Polícia Federal descobre na Odebrecht departamento especializado em oferecer propina. E, nele, relação com nomes de mais de 200 parlamentares. De mais de 20 Partidos.

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A divulgação do grampo não autorizado da presidente da República é encontro imprevisto entre legalidade e legitimidade. Entre o que diz a lei e o que é de interesse público.

O juiz Sérgio Moro sabia que tal divulgação dependia de prévia autorização do Supremo Tribunal Federal – STF. Por envolver a figura presidencial. Embora o alvo da gravação não fosse ela. Mas o ex presidente Lula. Então, por que o juiz Moro promoveu a divulgação do áudio?

O áudio

O áudio tornou-se moeda de duas faces. De um lado, a legalidade estrita recomendava a não divulgação do áudio. De outro lado, o legítimo interesse público sobre seu conteúdo induzia sua divulgação.

O teor da conversa entre a presidente Dilma e o ex presidente Lula sugeria um acerto visando evitar a prisão dele. Por meio da entrega antecipada a ele do termo de sua posse na Casa Civil. O que configuraria obstrução de Justiça.

Ocorre que a conversa entre Dilma e Lula não foi fato isolado. Situou-se em contexto no qual outros indícios indicavam sequência de iniciativas voltadas a bloquear a prisão de Lula. Dentro e fora do Palácio do Planalto.

Essas iniciativas, segundo outras gravações, passaram também pelo presidente do PT e pelo ministro Jacques Wagner.

O legal e o legítimo

A questão que se põe é: dado o grave interesse público de tais conversas, justificava-se sua divulgação mesmo sem autorização do STF? Ou por outra: seria legítimo manter a sociedade brasileira ignorando a tentativa de bloquear a prisão de Lula? Com a participação da presidente da República?

É clara a contraposição entre o legal e o legítimo. Entre lei e interesse da Nação. No Brasil, prevalece o legalismo. Ou seja, o juiz deve julgar em estrita observância do que dispõe a lei.

Nos Estados Unidos, prevalece o conteúdo fático. Ou seja, se fatos justificam uma decisão, ela deve ser proferida. Foi o que aconteceu, em 1974. O ex presidente Nixon tinha gravadas conversas que o incriminavam no episódio Watergate.

Ele alegou o princípio do sigilo presidencial para não fornecer as informações solicitadas pelos investigadores. Mas a Suprema Corte decidiu contra ele acentuando que o princípio não era absoluto. E liberou as gravações.

No caso do audaz Moro, observar estritamente a lei seria contribuir para subtrair ao público episódios cometidos nas sombras do crime de responsabilidade. Agir conforme o legítimo interesse público seria atuar para que os brasileiros tivessem conhecimento de trama tecida contra a República.

É hora de fazer a interpretação extensiva da lei. Aceita no Direito nacional. Com base em dois argumentos: um, no contexto de conspiração contra processo legal em que ocorreu a conversa entre a presidente e o ex presidente. E, dois, no interesse social de publicizar informações que interessam ao povo e à República.

Autoritarismo

Para além dessa questão jurídica, que também é política, um fato estarrece. O estilo mafioso como age o ex presidente Lula. Articulando com o presidente do PT ações estranhas aos objetivos de um Partido político. Manobrando para infiltrar pressões na máquina do Estado. E assim produzir iniciativas em seu benefício pessoal.

O Brasil tem exemplos de estadistas que honraram a história republicana. Getúlio Vargas deu a vida em defesa de seu nome. Juscelino Kubitschek, pela grandeza de gestos, tornou-se maior depois que deixou a presidência.

Ao contrário de Getúlio e Juscelino, Lula veste ambiguidades. Sentindo-se soberano, oculta, distorce e tenta sobrepor-se à lei. Em patética prepotência, torna-se militante em causa própria.

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* * *

Figura da semana – Paulo Mendes Campos

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Para encerrar semana tão cheia de brumas da incerteza, a palavra certeira de Paulinho Mendes Campos. Mineiro de Belzonte, foi cariocar no Rio, onde ficou. E aprimorou a pena. Com outros mineiros, Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Oto Lara Resende.

Eis trecho do poema Carta a Pero Vaz de Caminha:

“Na praia há que ser feliz,
Mas devagar, como quem diz e não diz,
Pois, em sua divina inclemência,
Nêmesis pune a insolência
E não nos permite
Os desmandos da euforia
(apesar de ser demais a poesia
Celta de Brigite).

São elas, as belas, belas demais,
Umas menos, outras mais,
Uma parada, Pero Vaz, uma parada,
Em que não nos vai nada –
Mas é doce como se nos fosse”.

Até a próxima.

19 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

A semana começou como pintura de Portinari. Ruas pintadas de verde e amarelo. Alegria cívica expressa nos rostos de milhões de brasileiros. Pedindo o impeachment da presidente da República.

A semana terminou como a ópera Nabuco de Verdi. Com o coro dos escravos hebreus. O choro dos perplexos da terra. Na assinatura de nomeação fuga do ex presidente Lula vê-se atestado de óbito. De governo cadáver.

Com isso, a presidente Dilma levou a crise para dentro do palácio. Junto com a operação Lava jato. E a tragédia do ato maroto traz em si contradição. O que o governo quer não é o que Lula faz.

O governo queria, com Lula, restaurar o mínimo de governabilidade. O que Lula faz, no governo, é defender a si próprio de investigação. Como ficou audível nas gravações telefônicas.

O patrimonialismo, que equipou Atibaia e Guarujá, é o mesmo que transforma nomeação ministerial em proteção policial. Investigado vira ministro. E presidência, de costas para o coletivo, serve o singular.

Como cantou a ária de Verdi: “Vai, pensamento, sobre as asas douradas. Oh, minha pátria, tão bela e perdida. Que o Senhor te inspire harmonias”.

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A militante presidente

Na posse dos novos ministros, o vocabulário da presidente da República foi de militante. O ambiente foi de militância. Gritos e palavras de ordem foram de militantes. Uma bandeira vermelha com estrela do PT, agitada, era da militância. Só paredes e vidros do salão do Palácio do Planalto eram protocolares.

Assim, no momento em que mais precisava unir, a presidente desune. Na passagem em que mais precisava juntar, a presidente dispersa.

A postura militante da presidente dentro do palácio é sectária. Não condiz com o senso republicano de neutralidade que se espera do governante. Ela se coloca como presidente de parcela da população brasileira. E não de todos os brasileiros.

Presidência não combina com militância. Presidência diz do todo. Militância diz da parte. Presidência é integradora. Militância é desintegradora. Militante, a presidente ficou menor.

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Permanências

Com a chegada de Lula à Casa Civil, o contencioso do governo aumentou. Os ácidos comentários feitos por Lula em ligações telefônicas produziram destruição de um tsunami institucional. De uma só vez, ele atacou os ministros do STF, os presidentes da Câmara e do Senado, e o Procurador Geral da República.

Nenhum deles compareceu à posse de Lula. Também lá não apareceu o vice presidente da República, Michel Temer. Nem os ministros militares. Precisaram de poucas cadeiras na fila de autoridades presentes ao ato.

O efeito político da presença de Lula no governo foi o inverso do esperado. Ao invés de mais articulação ao governo, sua entrada no ministério provocou o caos. O governo está tonto. E isolado.

É o fim da estrada. A comissão do impeachment foi instalada na Câmara. O presidente e o relator são aliados do presidente da Casa, deputado Eduardo Cunha. Que é inimigo declarado da presidente. Em quarenta e cinco dias o processo será submetido ao plenário. Seguindo, depois, para o Senado.

Paralelamente, corre processo no Tribunal Superior Eleitoral-TSE. Onde se argui abuso de poder econômico na eleição da presidente. E para onde convergem informações colhidas na operação Lava Jato.

Mas, para além do provisório do poder, ficam lições. Experiência acumulada pelas instituições brasileiras. Fortalecendo-as.

A atuação conjunta de Polícia Federal e Ministério Público abriu caminho para afirmação do Poder Judiciário. A leniência moral do sistema político encontrou contraponto na solidez ética do juiz.

O custo Dilma foi muito alto. A economia está desorganizada. Inflação elevada e investimentos paralisados. Finanças públicas destroçadas. Mas as instituições sociais estão mais preparadas para o futuro.

Para além do contingente das pessoas, brilha a pedagogia dos fatos. E dos feitos. Na latitude das permanências.

* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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Fechemos a semana de caos com a serena reflexão do tempo. Na palavra límpida e permanente de Carlos Pena Filho. Como em trecho de Os Interesses Perdidos.

“Sem ter chegado a parte alguma, espia
Os interesses que perdeu na viagem.
E sem ter mais nenhum, tarde confia:
É mais leve o viajante sem bagagem.

Deserto, sem caminho e sem linguagem,
Sem a lembrança até que outrora havia,
Nem sabe se existiu, quando existia,
Ou se era a parte morta da paisagem.

Muito tem de perder, mas não tem nada,
Por isso é tempo de ir adquirindo,
Pra não entregar a alma endividada.”

Até a próxima.

12 março 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta foi semana na qual procuradores do Ministério Público estadual de São Paulo pediram a prisão do ex presidente Lula. Por suposta ocultação de patrimônio e falsidade ideológica. Ligada ao tríplex do Guarujá. Ação que não tem a ver com a operação Lava Jato.

A iniciativa tem duas leituras políticas: para adversários de Lula, acentua sua responsabilidade criminal. Para partidários do ex presidente, reforça o sentido de vitimização que o PT adotou. Desde a condução coercitiva autorizada pelo juiz Sérgio Moro.

O pedido do MP paulista foi, no mínimo, inoportuno. Porque feito às vésperas da manifestação pró impeachment de domingo, 13 de março. Ampliando o risco de conflitos em ambiente de crescente radicalização.

Do outro lado da rua, o governo chegou ao limite das forças que o sustentam. A presidente não tem mais suporte parlamentar para aprovar nenhuma das reformas que ajudariam a economia.

Desapoiada, correu pressurosa, em viagem patética a São Bernardo do Campo, para abraçar seu tutor. Desvestindo perfil compenetrado que se espera de presidente. A crise política está no limiar do seu clímax.

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Derrota de Lula

Grandes políticos alcançam grandes vitórias eleitorais. Como Bill Clinton, ex governador do pequeno Arkansas, estado sem expressão política e econômica. E como Barack Obama, jovem senador negro.

Grandes políticos sofrem esmagadoras derrotas eleitorais. Como Winston Churchill. Vencedor brilhante da Segunda Guerra Mundial, destruiu Hitler. E foi derrotado na eleição seguinte ao final da guerra.

Grandes políticos conseguem grandes vitórias morais. Como o general Charles De Gaulle. Que, após renunciar à presidência da França, recolheu-se a Colombey- les- Deux-Églises. Onde recebia peregrinações de políticos. Tornou-se figura ainda maior que no governo.

Grandes políticos sofrem improváveis derrotas morais. Por se perderem na miudeza do patrimonialismo. Como o ex presidente, Luís Inácio Lula da Silva.

Lula perdeu o senso de gravidade da hora. Após depor aos procuradores da Lava Jato, voltou ao palanque. Magnificou seu governo, incitou aliados, ameaçou adversários.

Maior que sua egolatria, sua derrota moral. Mais imponderável que sua linguagem ofídica, sua presença esquiva no tríplex.

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Dilma

A presidente Dilma Rousseff é um ponto na solidão do planalto. Ao seu redor, apenas o sopro frio do vento vésper. Nada atrai na presidente. Sem gesto suave. Sem palavra amena. O cume do poder terá esvaziado sinal de delicadeza.

No horizonte de duas dezenas de Partidos, rara solidariedade. O PT não apoia a reforma fiscal. O PDT não apoia a CPMF. O PMDB não apoia a reforma da Previdência. Os demais Partidos são entes improváveis à espera de sobras de enganoso butim.

A presidente termina cercada de vazios. Sem simpatias. Sem lealdades. Seu último reduto é a bancada peemebebista no Senado. A cuja decisão está entregue o impeachment. É pouco para quem perdeu tanto.

A República encontra-se na encruzilhada de três fatores:

1. Delações de empresários na operação Lava Jato, que poderão trazer mais fatos não conhecidos das autoridades e da opinião pública;

2. Extensão das manifestações a favor do impeachment da presidente, agendada para amanhã, 13 de março;

3. Agravamento da economia sem perspectiva de mudança por falta de liderança que produza mobilização transformadora.

* * *

Figura da semana – Rainer Maria Rilke

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Considerado o maior poeta moderno de língua alemã, Rilke (1875/1926) tinha uma escrita diáfana. Sua precisão revelava a profundidade de quem sabia olhar. E ver.

Fechemos a semana com trecho dos Poemas Esparsos:

“Meus adeuses, dei-os todos. Mil partidas
Me formaram desde a infância, devagar.
Mas volto outra vez e recomeço a lida:
A volta franca liberta meu olhar.

O que me resta é cuidar de o expandir,
E minha alegria sempre contumaz:
A de ter amado coisas quase iguais
A essas ausências que fazem agir”.

Até a próxima.

A PRINCESA

Ontem, levei o Capitão ao Instituto Ricardo Brennand. Eu lhe disse:

– Vovô vai lhe levar a um castelo de verdade.

No frescor de seus três anos, indagou:

– Tem janela?

– Tem. Por que você quer saber?

– Porque o príncipe tem que salvar a princesa, respondeu.

– Ah, sim, disse eu.

Entramos, visitamos o castelo, mostrei a ele janelas. Depois, fomos ao museu, vimos as esculturas. Chegamos às pinturas, mostrei a ele as telas de Aloísio Magalhães e de Mirella Andreotti.

Na saída, comemos um pãozinho de queijo e tomamos o caminho de volta.

Então, perguntei:

– Então, viu as janelas?

– Vi. Agora, vou salvar a princesa.

Segurei a mãozinha do pequeno Perseu, que acabara de ver como enfrentar a Medusa para salvar sua princesa. E caminhamos o caminho do futuro cheio de passado.

SEMANA PASSADA

Aletheia. Erga omnes. Verdade e realidade. Vale para todos.

Ex presidente Lula

A expedição do mandado de condução coercitiva dirigida ao ex presidente Lula foi uma coincidência. Não é reação da Polícia Federal à substituição do ministro da Justiça.

Outra fortuita coincidência: as cinco maiores empresas envolvidas na corrupção na Petrobras, investigadas pela Lava Jato, são as empresas que financiaram o Instituto Lula, pagaram as palestras do ex presidente e fizeram obras no apartamento de Guarujá e no sítio em Atibaia.

Simples coincidência: o conjunto daquelas empresas destinou R$ 20 milhões em doações ao grupo PT/Instituto Lula e R$ 10 milhões para palestras do ex presidente.

Mera coincidência: a guarda de dez contêineres, contendo objetos de propriedade do ex presidente, foi paga por uma daquelas empreiteiras durante mais de quatro anos.

Não é coincidência a politização que PT e governo tentam, a partir de agora, impingir à investigação.

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A semana

Semana shakespeariana. Cheia de ambiguidades e temor. E cheiro de ódio queimado. Semana que trouxe fatos históricos: na economia, a queda de 3,8% do PIB brasileiro. Recorde negativo desde que, a partir de 1994, o IBGE apura esse número. Alto preço paga a sociedade brasileira por má gestão econômica.

Na política, o STF autorizou, pela unanimidade dos dez votos dos ministros da Corte, abertura de inquérito penal contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha. É a primeira vez que o dirigente maior da Câmara sofre tal arguição.

Outro fato, a ser confirmado, é a delação premiada do senador Delcídio Amaral. Que atribui à atual presidente da República, Dilma Rousseff, e ao ex presidente, Lula, tentativas de obstrução de Justiça, no âmbito da operação Lava Jato. Entre outras acusações.

O terceiro fato, policial, foi a condução coercitiva do ex presidente Lula para prestar declarações ao Ministério Público Federal.

A volta por cima

Tudo isso ocorreu quando o ex presidente Lula obteve breve vitória. Ele conseguiu que a presidente Dilma substituísse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Seria o primeiro passo para frear a ação da Polícia Federal que constrange a família Lula da Silva. E enfraquecer a operação Lava Jato.

Após a delação do senador Delcídio, será muito mais difícil mexer na Polícia Federal. A PF dá a volta por cima ?

O novo ministro da Justiça

Confesso que não sei seu nome. Obscuro procurador baiano da confiança do Chefe da Casa Civil, Jacques Wagner. Colocado no governo para sustar a operação Lava Jato?

Imagino como terá sido seu primeiro café da manhã, no cargo, ontem.

Usina de ilegalidades

A delação do senador Delcídio confirma que o petismo tornou-se escola de transgressores: Dirceu, Delúbio, Vaccari. Crescendo a cada descoberta.

Improvável central de delitos, o petismo dispensou ideias e ideias, abandonou o estatuto da ética. Transformou-se em gerência de projetos patrimonialistas.

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* * *

Figura da semana – Jorge Luís Borges

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Fechemos a semana em verde e amarelo. Com trecho de poema de Jorge Luís Borges, intitulado Xadrez.

“Em seu grave rincão, os jogadores
as peças vão movendo. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o amplo tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.”

Até a próxima.

27 fevereiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta semana o cerco de ferro apertou um pouco mais o duque de Atibaia. Ou será o barão do Guarujá?

Não importa o apelido. Pois quem, sendo ex presidente da República, não se digna prestar informação à Nação sobre seu patrimônio, oculto ou não, pouco acrescenta o nome que se lhe dê.

Trata-se de silêncio esquivo. Que não condiz com rigor ético exigido de alguém com tal medalha. Nem está à altura do respeito que se auto impõe qualquer senhor de cabelos de prata.

Pois é. O Conselho do Ministério Público autorizou a continuidade da investigação sobre a cooperativa que construiu o edifício onde se localiza o triplex mais falado do país.

O outro fato, este na área econômica, ocorrido na semana finda, foi o rebaixamento do Brasil pela agência de classificação de risco, Moody’s. O terceiro rebaixamento, depois de igual medida adotada pela Standard & Poors e pela Fitch. Significa menos capital à disposição do Brasil. E mais caro. Pois o país foi confirmado mau pagador.

Na prática, estamos cuidando de governo que declarou auto falência.

Porque submeteu ao Congresso Nacional proposta de orçamento deficitária para 2016. Nenhum país, até hoje, tivera a audácia mambembe de tomar tal iniciativa. Ou seja, confessar-se publicamente incompetente para administrar suas contas.

O que fazer? Se a presidente não lidera nem governa ? Se o impeachment é miragem feita de recursos e prazos infindos?

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Renúncia: uma arquitetura

Renúncia não é para qualquer um. É preciso ter coragem cívica. E, às vezes, arriscar cálculo político.

Há dois tipos de renúncia:

1. O primeiro tipo de renúncia é feito de desprendimento pessoal, de desapego. É instrumental. Porque relaciona-se com valores mais relevantes. Valores ligados ao país, a princípios morais, à honra pessoal. Foram os casos dos ex presidentes Getúlio Vargas e Charles de Gaulle;

2. O segundo tipo de renúncia é feito de cálculo. É de mérito. Porque refere-se a interesses concretos de uso de poder, de sobrevivência ou improbabilidade política. Foram os casos dos ex presidentes Jânio Quadros e Richard Nixon.

Getúlio Vargas cometeu suicídio em 1954. Foi uma espécie de renúncia. Ele colocou o gesto extremo de morrer para exterminar a vida na política alheia. E conseguiu.

Charles de Gaulle renunciou duas vezes: a primeira, em 1946, após ser eleito presidente um ano antes. E não conseguir maioria na Assembleia Nacional. A segunda, em 1969, depois de ser reeleito presidente em 1965, por ter sido derrotado em referendo nacional sobre a organização do Senado francês.

Jânio Quadros renunciou em 1961 aparentemente em jogada política para tornar-se ditador. Voltaria nos braços do povo e respaldo de tanques. Não deu certo.

Richard Nixon renunciou em 1974, sob ameaça de impeachment, depois de processo sobre espionagem de sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, em Washington.

O que há de comum em todos esses casos de renúncia presidencial ? A existência de grave crise política. Do lado do governo, esgotamento das condições do presidente assegurar a governabilidade. Do lado do sistema produtivo, ausente confiança de agentes econômicos, paralisação de investimentos e aumento de inflação e desemprego.

Pois bem. No caso da presidente Dilma Rousseff, sobrepõem-se três crises: crise de liderança, crise política e crise de confiança.

Crise de liderança de presidencialismo sem presidente. A presidente não governa efetivamente. Ela exerce mando formal. Ela não lidera nem sua própria base parlamentar.

Crise política dentro e fora do governo. Dentro do governo porque o PT não subscreve os projetos de reforma previdenciária nem de reforma fiscal. Fora do governo porque as investigações sobre corrupção avançam. Com a prisão de João Santana e com o prosseguimento da investigação do Ministério Público de São Paulo sobre a cooperativa habitacional que construiu o tríplex do Guarujá.

Crise de confiança como consequência das duas crises anteriores. As empresas não investem em clima de incerteza como esse. Os políticos acentuam a política do ganho imediato. Pensando em 2018.

Toda renúncia tem uma arquitetura. Que seria construída ao redor da presidente. Arquitetura tecida em dois níveis:

• No nível de fatos reais, cujo contexto político e social é insustentável, em impasse político de governo e paralisia de decisões econômicas no setor privado;

• No nível de lideranças políticas, com reconhecimento da insustentabilidade da situação e coordenação de iniciativas suprapartidárias para superar o impasse.

Trata-se de cenário inspirado em choque de realismo político. Constatando o óbvio: o país é mais importante que as pessoas. Cria-se o consenso de que é preciso agir.

Então, por que as lideranças do país não se entendem para produzir a solução do impasse? E levar à presidente escritura política abolindo sua escravidão pessoal? E, logo, o ato de vontade ou a vontade dos fatos produzirá o futuro.

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* * *

Figura da semana – Pablo Neruda

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Encerremos a semana com a poesia do chileno Pablo Neruda. Dono literário da Ilha Negra e condômino do prêmio Nobel. Sua obra tem o tom rubro do lirismo e a lira prata do coletivo. Sendo lírica e social, é amplamente ética. Como neste trecho do soneto LXXXVIII de Cem Sonetos de Amor:

“O mês de março volta com sua luz escondida
E deslizam peixes imensos pelo céu,
Vago vapor terrestre progride sigiloso,
Uma por uma caem ao silêncio das coisas.

Por sorte nesta crise de atmosfera errante
Reuniste as vidas do mar como as do fogo,
O movimento cinza da nave de inverno,
A forma que o amor imprimiu à guitarra”.

Até a próxima.

20 fevereiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Política

Três fatos marcaram esta semana:

1. A comissão de ética da Câmara dos Deputados não conseguiu, pela quinta sessão, votar relatório para discutir a admissibilidade de processo contra o presidente da Casa, deputado Eduardo Cunha;

2. A presidente da República exonerou o ministro da Saúde, que é deputado federal pelo PMDB, para votar no candidato do palácio a líder do seu Partido. E, vinte e quatro horas depois, o renomeou para o cargo;

3. O Conselho Nacional do Ministério Público suspende o depoimento que o ex presidente Lula e sua mulher dariam a um promotor de Justiça federal.

Embora em esferas distintas, os três fatos estão interligados. Eles atestam o que o grande San Tiago Dantas afirmou: “O povo brasileiro, enquanto povo, é melhor que a elite brasileira enquanto elite”.

Esses fatos demonstram também que o impasse institucional no país vai continuar. E que se estenderá até 2018. Salvo uma improvável renúncia presidencial. Com reconhecido teor de patriotismo. Mas incoerente com a formação guerrilheira da autora.

A mentalidade de combatente política da presidente é realidade que transcendeu o tempo. Ela trouxe para o século XXI mentalidade do século XIX. Por isso, não lida bem com os auxiliares. Não tem o gosto da conversa com políticos. E não exerce a criatividade própria do fazer conjunto.

O terceiro fato acentua ainda traços da sociedade senhorial brasileira. Que trata desigualmente os cidadãos. Há os que estão submetidos à lei. E há os que passam ao largo. Nesse aspecto, a exemplaridade dos Sergio Moro precisa do acolhimento (e respaldo) dos colegiados.

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Economia

Retalhos da cena econômica brasileira:

1. O PIB nacional, este ano, decresce 4%;

2. A taxa de inflação alcança dois dígitos, 11%;

3. O dólar oscila em torno dos R$ 4,00.

São dados econômicos. Mas, a origem de sua inscrição na realidade é política. Pois, como sabemos, a economia reflete a política. E vice versa. São faces de uma mesma íntegra paisagem. E a confiança é moeda que circula entre elas.

A fragilidade da economia do país está na ausente liderança da presidente. Ela não consegue produzir característica inerente ao líder: inspiração. Ela não consegue inspirar as pessoas. Não tem esse dom.

Onde está o talento que o tutor Luiz Inácio Lula da Silva apontou na sua candidata ? No fundo, terá prevalecido, no inconsciente de Lula, a escolha de criatura que não fizesse sombra ao criador.

Por outro lado, o facciosismo ideológico a fez afastar-se dos Estados Unidos. E aproximar-se do bolivarianismo. Ora, trata-se de equívoco espetacular. Que só prejudicou os negócios no setor externo.

Na prática, o governo ideologizou a diplomacia. O Itamaraty, uma das instituições do Estado brasileiro mais respeitadas internacionalmente, apequenou-se.

Por fim, para resolver o nó econômico, a presidente enfrenta, dentro de casa, o PT. Os petistas não querem fazer o ajuste fiscal. Não querem igualmente cumprir a reforma da Previdência. E a presidente não renuncia.

Então, o país vai prorrogando o futuro. E nós vamos dançar um tango argentino.

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Figura da semana – Jorge Luis Borges

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Fechemos a semana brasileira com trecho de poema de um argentino. Que soube percorrer o findar com recomeçar. Que foi luminoso na escuridão. Viu estrelas nas trevas. Na recusa magnífica de não enxergar.

Como em Elogio da Sombra:

“A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.”

Até a próxima.

13 fevereiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Festa finda, drama reinaugurado. Os últimos rumores do Carnaval foram levados pela quarta feira ingrata. E os primeiros albores da aurora, na quinta, trouxeram de volta conhecida realidade.

Se, no patropi, o rufar de tambores ocupou o hiato pertencente a Momo, lá fora, dois personagens ocuparam a cena. Cada um a seu modo. De modo distinto. Um, universalmente argentino. Veio do céu para a terra. Outro, bestialmente americano. Vai das primárias para as brenhas? Francisco Bergoglio e Donald Trump.

SP

O Papa Francisco

O cenário mundial, hoje, mostra um deserto de líderes. Até Obama, com lampejos de brilho, desfila falta de ousadia que desbota sua presidência.

Mesmo com feitos na política energética, resistência ao desembarque na Síria e reatamento com Cuba, falta ao Barack a audácia dos conquistadores.
Ele deve ter lido, mas não aderiu ao mote do combatente da Revolução Francesa: “L’audace, l’audace, toujours l’audace”.

Sem os exércitos e orçamentos de maior potência contemporânea, o Papa Francisco dá um show de política. Pratica o apostolado do bem que não fica só na retórica. É gestual. Porque visível na indignação contra a violência transmitindo emoção partilhada.

Mas não é só gestual. É pragmático. Construiu na Palestina alternativas onde só havia becos sem saída. Teceu no Leste europeu caminhos onde só existia abismo. Reaproximou religiões. Restabeleceu a unidade americana. Botou a bandeira dos Estados Unidos em Havana. E a de Cuba em Washington.

Agora, depois de cisma de mil anos, fez duas Igrejas reencontrarem-se: a de Roma e a do patriarca Cirilo da Igreja Ortodoxa russa. Onde? Precisamente em território cubano. De lá, parte para visitar, no México, uma das cidades mais violentas do mundo. Ferida pelos bandidos do tráfico.

Este é Bergoglio, o peregrino do bem.

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Donald Trump

A democracia americana é um valor imponderável. Porque a eleição americana é um risco calculado. Até hoje, em mais de dois séculos, candidatos de vários matizes se apresentaram ao eleitorado estadunidense. Mas o indecifrável gosto americano tem elegido presidentes moderados. Com raras exceções.

A solidez do sistema político do Norte tem resistido a intempéries. Recebeu o golpe da morte de Lincoln. Sofreu o abalo sangrento do assassinato de Kennedy. Absorveu a renúncia de Nixon.

A trunfa de Donald Trump está dentro do risco calculado das eleições americanas?

Trump mostra um desenho político peculiar. Porque feito de uma associação improvável: muito dinheiro e larga arrogância. Ele não é oriundo de dinastia como a dos Bush. Que cultiva certa tradição de modos. Ele é pessoalmente milionário. E esse fato parece que o leva a se dispensar de contenções consensuais.

Por outro lado, seu jeitão arrogante não traz a marca do duelo contra o bandido que fez a fama de John Wayne. É uma prepotência metálica, feita do aço das colunas da Trump Tower. Por isso, não sabe o que é sentir, ser sensível.

Seu discurso assume radicalismo desatrelado da lógica dos fatos. Lógica certificada na evolução de conceitos que distingue a modernidade. Modernidade que impõe equilíbrio de conduta como preliminar de poder.

Este é Trump, o cavaleiro do apocalipse.

* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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Encerremos a semana com uma renda pernambucana. Perfeitamente branca e sustentável. Assinada por Carlos Pena Filho.

Tentativa para os Cinco Sentidos

“De início, entrei nos olhos quando insones
E vi a gestação das gambiarras.
Depois fui aos ouvidos e as guitarras
Levaram-me às origens dos ciclones.

Nas mãos, pouco mais fui do que um ousado,
Por ver a improcedência dos extremos.
Já nos perfumes fui aos crisântemos,
Por faunos e pavões acompanhado.”

Até a próxima.

9 fevereiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

TARDE DE CARNAVAL

O sol da tarde da segunda de Carnaval se despedia. Desfolhava seus raios dourados por trás do mangue de Chico Science. A brisa alisava os estandartes de blocos e maracatus que chegavam. Prontos para a cerimônia da festa.

Cheguei à praça do Arsenal. E vi os deuses da cultura pernambucana selando com os foliões tratado de animação. Enfeitado de cores e sons. Sem rigor de organização. Mas na ordem perfeita de movimentos inspirados na arte que os pernambucanos guardam como legado.

Vi super heróis, pierrôs, mandarins, bailarinas. Ouvi o bloco dos Artesãos de Pernambuco saudar lenda viva do teatro pernambucano, Geninha Rosa Borges.

Dancei com vigor feito de batuque e suor do maracatu Paranambuca. Que assina irresignação dos que cortam cana e recortam a saga de cada dia. Senti doce emoção com os acordes tão recifenses de Evocação nº 1. Hino que canta sentir de um povo que tem a si e ao azul.

Mas, percebi, principalmente, valores da cultura pernambucana. Valores consignados no ar de tarde única. Valores inscritos nas raízes sociais do caboclo de lança. Valores registrados nas tradições calorosas dos frevos de Capiba e Nelson Ferreira. Valores que não mudam a cada ano. Porque não são modismo. Porque estão sedimentados há séculos nos fazeres de Pernambuco eterno.

* * *

Coral do Bloco da Saudade cantando Evocação Nº 1, de Nelson Ferreira

6 fevereiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta foi semana que repercutiu anúncio da presidente Dilma aumentando oferta de crédito. Desta vez, envolvendo recursos do FGTS. Nem os militares, durante a ditadura, praticaram tal temeridade. Apropriar dinheiro dos trabalhadores com finalidade diversa da prevista no Fundo de Garantia.

É inacreditável. As famílias estão endividadas. As empresas não enxergam retorno econômico.

É notável a capacidade de errar da presidente. A pedagogia moderna ensina que errar é maneira eficaz de aprender. Dilma é exceção à pedagogia do erro. Ela erra. Mas não conserta. Ela erra para repetir o erro. Parece ter gosto masoquista no errar.

Ou talvez não. A mania presidencial por crédito pode ser gesto do seu inconsciente. Como o governo não tem crédito político, ela pensa em crédito bancário. Como o governo não tem crédito popular, ela pensa em crédito bancário. Como o governo não tem crédito fiscal, ela pensa em crédito bancário. E, agora, com abalo do crédito moral de seu tutor, ela não teve dúvida: tome crédito bancário na reunião do Conselhão.

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As instituições políticas brasileiras acentuaram, no século XIX, as seguintes características:

1. Centralização do poder central, reforçando a prática do reformismo pelo alto, sem participação da sociedade;

2. Prática do escravismo que, em face da falta de instrução e de ocupação dos ex escravos, gerou um país desigual; e

3. Corporativismo no qual os servidores buscam beneficiar-se a si próprios.

Essa concepção foi produzida na época da Monarquia pelo Partido Conservador, apoiado nas ideias do Visconde de Uruguai, na segunda metade do século XIX.

Como consequência, no século XX, o Brasil desenvolveu modelo no qual:

1. Prevaleceram instituições corporativas na época de Vargas, como a CLT e o imposto sindical;

2. Estabeleceu-se a política do Estado nacional desenvolvimentista, nos governos militares, sobretudo de Geisel, e na gestão Dilma Rousseff; e

3. Fixou-se a noção do reformismo pelo alto com baixa participação da sociedade nas políticas de reforma das instituições.

O fato concreto é que países maduros aprofundaram a democracia e fortaleceram o Estado. Como os Estados Unidos de Franklin Roosevelt, nos anos 30. Como a França, de De Gaulle, e a Alemanha, de Willy Brandt, nos anos 60. E como a Inglaterra, de Margareth Thatcher, nos anos 80. O Brasil fortaleceu o Estado, mas não aprofundou a democracia especialmente no plano social.

O resultado prático do cenário brasileiro é a existência de ordem social de acesso limitado, como diz o pesquisador Douglass North. O acesso limitado da população aos benefícios do desenvolvimento, caracterizado por desigualdade, pobreza e impunidade, contribuiu para a criação do PT.

O PT foi inspirado, nos anos 50, pelo bispo de Santo André, dom Jorge Marques de Oliveira. Seu objetivo imediato era mediar a luta operária no ABC. Teve certidão de batismo católica. Obteve a adesão de trabalhadores e intelectuais. E elegeu a bandeira da ética como estandarte de sua atuação.

Essa característica religiosa (o bem contra o mal) fez com que o PT assumisse pêndulo maniqueísta: nós contra eles. Tornando-se Partido de pretensão hegemônica. E dificuldade de lidar com a diversidade partidária. O maniqueísmo religioso envenenou o PT com o vírus do autoritarismo, de pretensa hegemonia política.

Por outro lado, o PT, para sobreviver, apoia seu discurso na luta de classes. Ora, luta de classes, no final do século XX, já era conceito diluído na aspiração geral por mais educação, lazer, ocupação, consumo, cultura.

No mundo tecnológico e competitivo, em que vivemos, as pessoas querem melhorar de vida. Seja governo de direita ou de esquerda. O que as interessa é emprego, qualificação, conforto, qualidade de vida.

Liberdade e mercado são valores mais defendidos pela direita. Igualdade e justiça são valores mais ligados à esquerda. Mas, na paisagem globalizada do século XXI, as pessoas querem é democracia e mobilidade social. Querem menos ideologia e mais serviços sociais, prazer e segurança.

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Figura da semana – Ascenso Ferreira

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Fechemos a semana com a poesia do enorme (por dentro e por fora) Ascenso. Cantando o Carnaval do Recife:

“Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
Que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo de arraia em Arlequim,
Um clister de sebo quente em Pierrô!
E somente ficaram os máscaras da terra:
Parafusos, Mateus e Papangus …
E as Bestas Feras impertinentes,
Os Cabeções e as Burras Calus …
Realizando, contentes, o carnaval do Recife,
O carnaval mulato do Recife,
O carnaval melhor do mundo!”.

Até a próxima.

30 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Não há presidencialismo sem presidente, disse Delfim Neto. Ministro mais de uma vez, embaixador, conselheiro presidencial, Delfim, mais uma vez, foi na veia. O que falta à República é um presidente.

Tomemos dois exemplos da semana finda. O do ministro da Saúde e o do Conselho de Desenvolvimento, o Conselhão.

Nos albores de sua gestão, o ministro (deixa eu ver o nome dele no Google), Marcelo Castro, mostrou-se pouco afeito ao cargo. Disse o que não devia ter dito sobre mulheres grávidas. E afirmou que o governo perdeu a guerra contra o zika vírus.

Na verdade, a situação da saúde, no Brasil, é calamitosa. Faltam remédios e médicos. Mas falta sobretudo uma estratégia de governo para implantar uma política de saúde pública. Diante da crise de aedes aegypti, dengue e zika, o que deveria ter feito a presidente Dilma?

Ela devia ter assumido pessoalmente a luta contra as doenças. Ido para as ruas, para a televisão, para as comunidades. Feito de um limão uma limonada. Transformado a crise numa oportunidade. Mas, não. Permaneceu enclausurada no palácio. Muda.

O exemplo do Conselho é tão eloquente quanto o da saúde. Desativado pela solidão auto imposta da presidente, o instituto voltou a funcionar após quatorze meses. O tamanho da crise reanimou o imobilismo presidencial.

Mas, neste caso, a mudez trocou de lado. Porque a presidente não gosta de ouvir. O conselho é mero teatro, mera cena. Serve apenas para anunciar medidas já preparadas. Foi o que ocorreu. Sem debate, nem troca de opiniões.

E assim, de mudez em mudez, não mudamos nada. Serão três anos opacos.

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O que teria acontecido com a operação Lava Jato se tivesse prevalecido o impeachment da presidente Dilma Rousseff? Assumiria a presidência o vice, Michel Temer. Que é presidente do PMDB.

Muito bem. Ocorre que todas as mais expressivas lideranças do mesmo PMDB estão sendo investigadas pela Polícia Federal ou denunciadas no Supremo Tribunal Federal pelo Procurador Geral da República. Por suposta ligação com a Lava Jato. São eles:

Renan Calheiros, presidente do Senado;

Eduardo Cunha, presidente da Câmara;

Henrique Eduardo Alves, ministro do Turismo;

Jader Barbalho, senador;

Gedel Vieira Lima, ex diretor da Caixa Econômica Federal.

Agora, imagine Temer presidente da República. Meça a pressão que ele iria sofrer dos correligionários para sustar ou esvaziar a operação Lava Jato. Não seria pouca.

No cenário atual, pela fragilidade política do governo Dilma, a possibilidade de este esvaziamento ocorrer é zero. O governo é tão fraco politicamente que a Lava Jato se autonomizou.

Mas, assumindo novo governo, com base político-parlamentar do PMDB, a hipótese de a Lava Jato ser bloqueada não seria pequena.

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Figura da semana – Joaquim Cardozo

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Para fechar semana de dúvidas, a certeza da poesia do brasileiramente pernambucano Joaquim Cardozo. Uma breve amostra de Canção de Uma espera Sem Fim:

“Não se sabe o que vem para ficar
Não se sabe o que vem, se inda demora
Dessa planície não se encontra o fim
Ao longe passa o carrossel da aurora
Vem até mim o carro do horizonte.

Não se sabe quando é, quando será
Não se sabe o que vem para ficar
Não se sabe, ao que vem, se inda demora;
Sobre a planície estendo o coração
já que os olhos esperam o horizonte
a chegada ilusória de um perdão”.

Até a próxima.

26 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

JUAZEIRO DO NORTE, UMA RABECA AFINADA

Juazeiro do Norte é caso singular no Nordeste. Porque promove vários encontros.

Encontro entre o religioso de Padre Cícero e o profano da educação. Encontro entre a ciência da academia e a arte popular. Encontro entre o tangível do artesanato de madeira, couro e barro, e o intangível da religiosidade. Encontro entre o mundo antigo, da vida rural, e o universo moderno, urbano, das tecnologias.

Nascido e crescido dessas confluências, Juazeiro do Norte tomou corpo. E criou alma. Sua personalidade urbana foi assumindo formas nas peças dos seus artesãos. Foi produzindo sons na orquestra de rabecas. Escrevendo estórias na literatura de cordel. Graduando profissionais nas faculdades. Recortando um projeto de desenvolvimento.

Este projeto tem nome: economia criativa de Juazeiro do Norte. É fé que inspira artesanato; artesanato que modela empreendimento; empreendimento que busca faculdade; faculdade que especializa turismo; turismo que estrutura rede hoteleira; rede hoteleira que recebe turistas; turistas que compram artesanato; artesanato que volta à fé. E assim o ciclo se recria.

Fincada nas raízes da tradição religiosa, a economia de Juazeiro do Norte foi se ampliando. E inaugurou um polo com funções características de economia criativa. Ao juntar atividades produtivas afins.

Nesse contexto, o município reuniu especialistas, dinamizou investimentos, agregou valor e vestiu um projeto de desenvolvimento viável. Que apresenta, em termos de atividades de serviços do terciário, números surpreendentes. É o sexto maior aeroporto em movimento do interior do país, 56 cursos de graduação e 1,5 milhão de turistas por ano.

Juazeiro do Norte é uma rabeca afinada.

jn

23 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Você sabe o que é trifásico?

Tratando-se de energia, o sistema trifásico é a forma mais comum da gerar, transmitir e distribuir energia elétrica em corrente alternada. É sistema que usa três ondas senoidais balanceadas, defasadas em 120 graus entre si, tornando-o mais eficiente ao se comparar com três sistemas isolados.

E você sabe o que é trifásico em política?

É o ex presidente Lula. Ele tem três fases: na primeira ele disse que não sabia de nada. Na segunda, ele disse que o Brasil acabaria com a marolinha. Na terceira, ele disse que não há viva alma mais decente que a dele.

Agora, vejam a como as verdades de Lula são simétricas: ele realmente foi enganado o tempo todo em que esteve na presidência. Não diziam nada a ele. De nada.

Depois, o país enfrentou galhardamente a marola econômica. Tanto que, este ano, vamos crescer apesar de todo mundo pregar que o PIB vai cair 3%. Vocês vão ver.

E, finalmente, puro como ele só, mostra candura de quem diz o que não é. E não diz o que é.

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Outro lado da crise

A alta de quase 50% do dólar frente ao real nos últimos doze meses tem reduzido o valor patrimonial das empresas brasileiras. É a principal razão que tem levado muitos investidores estrangeiros a olharem para o Brasil.

Apesar da piora nas expectativas de crescimento do país, os estrangeiros identificam chances de fazer bons negócios. É uma aposta no longo prazo. Quando a crise passar, eles estarão posicionados no mercado.

Ano passado, quarenta por cento das 773 fusões e aquisições no país foram operações feitas por estrangeiros comprando empresas localizadas no país. Se somadas às 102 transações realizadas entre estrangeiros, envolvendo companhias brasileiras, mais investidores de fora atuaram como compradores no Brasil.

Três setores da economia brasileira apresentaram maior número de transações: Tecnologia da Informação, 121 transações; empresas de Internet, 70 transações, e Alimentos, Bebidas e Tabaco, 65 transações.

Esse incentivo cambial deve seguir por algum tempo. Porque o dólar tende a continuar no patamar dos R$ 4,00. Nesta quinta-feira, o dólar foi cotado a 4,16 reais. Um recorde histórico.

Se empresas americanas e inglesas fazem aquisições mais na indústria e nos serviços, os chineses atuam no setor de infraestrutura. Eles arremataram as concessões das usinas hidrelétricas de Jupiá e Ilha Solteira, por R$ 13,8 bilhões. Outra operação, foi a do grupo chinês NHA, que adquiriu 23,7% da companhia aérea, Azul. Transação de R$ 1,7 bilhão.

A visão de longo prazo é que levou também a Cubico Sustainaible Investiments, empresa que associa o Santander e fundos canadenses como acionistas, a investir no setor de eólicas. A empresa adquiriu dois complexos eólicos por cerca de R$ 2,0 bilhões da empresa brasileira Casa dos Ventos.

É isso aí. Tem gente enxergando o horizonte além das nuvens pesadas do presente. No final, aumenta a inserção da economia brasileira na configuração do mercado mundial.

MP

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Figura da semana – Clarice Lispector

Não, ela não era poeta. Poderia ter sido. Se o quisesse. Ela foi tamanha. Mas não o quis. Preferiu romance, crônica, conto. E como foi boa no que escreveu.

Outro dia, fiz questão de passar na praça Maciel Pinheiro. Só para sentir mais perto a presença ausente dela. Tocar o mistério de sua felicidade clandestina.

Continuando caminho, trouxe comigo a imagem dela: o rosto claro e belo, olhos verdes e oblíquos, boca feita de lábios desenhados a cinzel. E a provisoriedade do tempo.

Neste janeiro abstrato, piso seu território perene com a revelação do improvável.

“Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto, quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou ! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia”.

Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina, página 152.

Até a próxima.

16 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta foi semana na qual ficou nítida a diferença da cultura política no Brasil e nos Estados Unidos. Gostemos ou não dos americanos. Eu, por exemplo, admiro muito o senso prático deles. Admiro demais a música deles: Cole Porter, Gershwin, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sara Vaughn. Admiro a capacidade que eles têm de harmonizar a liberdade individual e o sentido do coletivo.

Pois bem. Aqui, a presidente Dilma exime-se de falar na televisão para não provocar panelaços. Lá, o presidente Obama deu aula de política no último pronunciamento de seu mandato no Congresso.

Não vou comentar o silêncio obsequioso da presidente brasileira. Vou acentuar ponto que chamou minha atenção na fala do Barack. O esperado era que ele discorresse sobre os oito anos em que dirigiu seu país. Elencando as conquistas alcançadas. E enumerando as dificuldades enfrentadas;

Ele não fez nada disso. Ele falou sobre o futuro. No qual ele não estará inserido como presidente. Mas que interessa a todos os cidadãos americanos. E ao mundo. Destacou três aspectos importantes no amanhã: uma economia mais equitativa; tecnologia para inovar e combater a mudança climática; e um estilo de fazer política menos polarizado.

A frase mais lúcida do discurso, a meu ver, foi: “Como trazer para a política o que a nação tem de melhor e não o que a nação tem de pior?”. Pergunta que cai como luva para a política no Brasil. Confesso minha boa inveja dos americanos.

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Regência Trina Provisória

As notícias do cotidiano brasileiro formam barragem que nos impede de enxergar além dos fatos. Para buscar razões que produziram tais acontecimentos. Para compreender o que se passa e o que pode se passar no país.

O que principalmente lemos e ouvimos, atualmente, é tsunami de informações sobre corrupção e tráfico de influência. Ao lado de condenações de empresários, políticos e funcionários públicos. O que gerou esse quadro de desagregação política e moral?

Penso que três fontes convergiram para alimentar esse cenário:

1) Desigualdade social;

2) Radicalização política; e

3) Desprestígio de valores.

A primeira fonte terá sido a desigualdade. Anthony Pereira, do King’s College, de Londres, diz que a desigualdade “é o que permite que certas pessoas no Brasil de hoje se achem capazes de roubar”.

Ou seja, a desigualdade cria patamares, distâncias entre segmentos da população. Induzindo os ricos, poderosos, a pensarem que podem tudo. A sociedade termina combinando duas realidades: de um lado, privilegiados que fazem tudo para obter o máximo das posições oficiais. E, de outro lado, o povo que não se vê capaz de se organizar para combater tal situação.

A segunda fonte de desagregação é a radicalização política. Radicalização é consequência de desigualdade. Porque a maioria do povo vê a corrupção, o enriquecimento ilícito. E assiste a impunidade. Sente que seu trabalho decente, de anos a fio, frutifica em breve patrimônio. Que, em pouco tempo, corruptos ficam milionários. Então, nasce a revolta. Revolta filha da impotência diante do furto social.

Revolta que é também radicalizada na demagogia política. No mote maroto, cunhado pelo prestidigitador Luiz Inácio Lula da Silva, do “somos nós contra eles”. Pregando a divisão social. Impregnando o ambiente político de taxas elevadas de intolerância com o outro.

A terceira fonte de desagregação seria o desprestígio de valores morais. Vivemos numa época midiatizada em que o ter é imperativo e imperial. Vivemos em sociedade plástica na qual carro importado e roupa de grife fazem parte da espetacularização da vida.

A ética foi relegada a menções de conveniência eleitoral. Em lugar dela surgiu a esperteza como valor cultivado na assembleia de sabidos. Subliminarmente, criou-se fissura social por onde entra a corrupção. E o espaço da responsabilidade pública virou picadeiro de cínicos. Democracia precisa de padrão razoável de educação. E nível aceitável de renda.

Junte população desigual, com parcela de mais de 40% de analfabetos funcionais; discurso radical inspirado por líder populista; e ausência de valores morais. Mexa tudo num sistema sem liderança presidencial. Estarão criadas condições para funcionar a regência trina provisória de Renan Calheiros, Fernando Collor e Eduardo Cunha.

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* * *

Figura da semana – Manuel Bandeira

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E para fechar a semana com a leveza dos deuses da palavra, escolhi trecho de Poética, do pernambucano, modernista e poeta do Brasil, Manuel Bandeira:

Poética

“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico”.

Até a próxima.

11 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

COMPRANDO SOL

Maciez dos anos. sabor de chocolate. Sábado do neto, o Capitão. Vou buscá-lo. Cadeirinha amarrada no banco de trás do carro. Ele entra. E pergunta:

– Vovô, por que seu cabelo é branco? Por que você não dá jeito nisso?

Evito a resposta e retruco com outra pergunta:

– E o seu, de que cor é?

– Marrom.

Chove. Ele pergunta que barulho é aquele. Eu digo que é a água de chuva no carro. E ele acrescenta:

– Não é melhor ir pelo outro caminho, vovô? Vou conversar com a chuva.

Chegamos. Ele entra no apartamento e fica à vontade. Distribuí presentes na sala. Ele os foi abrindo. A preferência instantânea foi o caminhão de bombeiros. Sobre a camisa, sem experimentar, ele foi logo dizendo:

– É grande.

Conversou, brincou, pintou. E pediu televisão. Deitou na minha cama. Perguntou pelo nonô. Nonô é a fralda com que ele cobre parte do rosto. Dormiu profundamente por uma hora. Acordou para comer carne de sol. Comeu e arrematou:

– Agora quero o suco de laranja de vovô.

Decidimos ir ao cinema. Mas, antes vamos guardar as coisas. Aponto o pote onde estão os lápis. Digo a ele:

– Pegue o pote de lápis.

– É pote de sorvete vazio, vovô.

Verdade. Copo da Frisabor reaproveitado para guardar lápis. Chegamos ao elevador. Ele toca o quadrado para chamar. Como o toque foi leve, a luz não acende. Ele, rápido, se dirige ao elevador de serviço e diz:

– Vamos pro outro que esse tá quebrado.

Cinema cheio. Jeito foi perambular pelo shopping. Nos dirigimos para ao Game station. Mas, antes, ele viu os carrinhos para as crianças dirigirem. Má ideia. Porque quem empurra é o avô. Pedi à moça dez minutos. Ela disse:

– O mínimo são trinta minutos, senhor.

Hora da volta. Ele comenta:

– A gente nem foi à piscina, vovô.

– Pois é, Luiz Sávio. Teve chuva, né?

– Compra um sol, vovô, nem que seja de faz de conta.

9 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta foi a semana de improvável metamorfose. Dilma gastadora deu lugar à Dilma controladora de gasto. Dilma despreocupada com a Previdência Social deu lugar à Dilma serva da reforma previdenciária. Dilma defensora de nova matriz econômica deu lugar à Dilma fiel à austeridade fiscal.

Tudo isto na entrevista coletiva que concedeu no Palácio na manhã da quinta-feira, 7 de janeiro. Por que a presidente teria dado tal guinada política?

Para incutir confiança no meio empresarial? Para reconhecer que seu governo errou na política adotada no primeiro mandato? Para dar aval à política do novo ministro da Fazenda? E onde ela vai buscar apoio parlamentar para aprovar projetos relativos s estas matérias?

Curioso: o conteúdo do que ela afirmou na entrevista coletiva não afina com o que o ex presidente Lula defendeu ao sair do encontro que ele teve com a presidente na terça feira à noite.

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Cenários para 2016

Três são os cenários possíveis de ocorrer no Brasil, este ano.

Primeiro cenário: o governo Dilma alcança patamar de relativa recuperação econômica e algum fôlego político.

Segundo cenário: o governo Dilma assume circunstância social na qual o sentimento do provisório é prorrogado no impasse político. Cenário mais provável.

Terceiro cenário: a presidente Dilma sofre processo de impeachment e deixa o poder. Cenário menos provável.

No primeiro cenário, o governo contaria com quatro fatores favoráveis:

a) A atividade econômica recuperaria parte de seu dinamismo baseado em três pontos: aumento das exportações, em programa de concessões de infra estrutura e em programa habitacional reativado com recursos das pedaladas recolhidos ao FGTS. Por outro lado, a política fiscal de controle de gastos ajudaria a política monetária na contenção de preços. A inflação estabilizaria em torno dos 11% em face da queda de demanda. E a taxa de desemprego não ultrapassaria 9%. Embora a política fiscal ativa vá desafiar centrais sindicais e setores ortodoxos do PT;

b) O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, adversário do governo, deixaria o cargo por decisão do STF. E o governo conseguiria eleger um sucessor simpático ao Palácio. Dessa forma, o Planalto conseguiria graus desejados de governabilidade para aprovar projetos no Congresso;

c) O governo continuaria a receber a cooperação política do presidente do Senado, Renan Calheiros. Tal colaboração ajudaria a neutralizar a ação do vice-presidente, Michel Temer, com o PMDB temporariamente pacificado. Esta semana, Temer perdeu a batalha interna no PMDB. Que virou governista outra vez;

d) A operação Lava Jato não alcançaria frontalmente o ex presidente Lula e membros do governo.

No segundo cenário, a situação de provisoriedade política e imobilismo administrativo do governo prosseguiria até 2018, a partir de quatro elementos:

a) A atividade econômica continuaria estagnada com taxa negativa de crescimento do PIB (menos 3%); taxa de inflação oscilaria para 15% até dezembro e taxa de desemprego ficaria nos 10%;

b) O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, deixaria o cargo, mas elegeria seu sucessor. Continuaria, então, o quadro de enfrentamento político entre Câmara dos Deputados e governo. Gerando dificuldades à aprovação de medidas propostas pelo Executivo;

c) Os desdobramentos políticos da operação Lava Jato alcançariam outros membros do governo e parlamentares de vários Partidos. O impacto daí decorrente contribuiria para manter o clima de tensão que contamina o ambiente político. É o que ocorreu, esta semana, com as denúncias envolvendo os ministros Jaques Wagner e Edinho Silva, e o ex presidente da OAS;

d) Esses desdobramentos da operação Lava Jato também contribuiriam para acentuar a incerteza que pesa sobre o quadro econômico. Determinando a continuação da paralisia de investimentos por parte do setor privado.

Este segundo cenário seria, a meu juízo, o mais provável de ocorrer.

No terceiro cenário, a presidente Dilma sofreria processo de impeachment e deixaria o governo até o final de 2016.

Neste cenário, há duas hipóteses:

Hipótese um, na qual prosperaria o processo atualmente instalado que aprecia as pedaladas fiscais. E a presidente seria impedida com base nas ilegalidades configuradas nas pedaladas fiscais e na abertura de créditos orçamentários sem autorização legislativa.

Hipótese dois, na qual o processo das pedaladas fiscais é arquivado pelo Supremo Tribunal Federal – STF. E a presidente acaba condenada no processo por abuso de poder político e econômico que tramita no Tribunal Superior Eleitoral – TSE. E vai desembocar no STF.

Este terceiro cenário, a meu ver, é o menos provável de ocorrer.

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* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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Para fechar semana sem encanto e sem rima, o canto pernambucano e azul de Carlos Pena Filho, intitulado Um Velho Soneto.

“No pobre e roto azul da tarde antiga
Andavas sobre a relva, à beira d´água.
Eras quase uma inglesa, a tua mágoa
Era serena e só e doce e amiga.

Não sabias do mundo ou do perigo,
Se apascentavas desencantos, era
Porque, afinal, é desencanto a espera
Entre o verde parado e o azul antigo.

Depois, a noite, a branca toalha, a mesa,
Os óculos do pai, a voz do amigo,
A conversa monótona e burguesa.

Enfim, a lua vã, despedaçada
Que entrava pelas frinchas do postigo
No pacífico ardor da madrugada”.

Até a próxima.

6 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

MORANGOS

Avenida 17 de agosto. Três horas da tarde de uma terça feira de janeiro. Estou indo participar de banca examinadora. O sinal fecha. Eu paro o carro. Na calçada, um caixote com pacotinhos de morangos. Pensei na chance de tê-los, de noite, na volta da faculdade. Para comer com creme de leite docemente derramado sobre eles.

Baixei o vidro e disse à moça que os oferecia:

– Um pacote. Quanto é?

– Sete reais, respondeu.

Ela os colocou à minha vista para que eu escolhesse. Disse a ela:

– Me dê os mais bonitos. Os que você levaria para casa.

– Tome esse. Mas, bonita, aqui, sou eu.

E acrescentou:

– Desculpe a brincadeira.

Virou-se para guardar o dinheiro e sentar novamente no banquinho. Disse sem maldade. Não teria mais de quinze, dezesseis anos. Sandálias bem usadas. Vestida com a simplicidade que a vida severina permite. Cabelos curtos, tez branca. Um ar de jovem que a necessidade tira do estudo e bota na rua.

O sinal abriu e continuei meu caminho. Levei comigo a notável auto estima da moça do morango. Sem roupa de grife, sem sapato novo, sem cabelo aparado, sem nada no rosto. Sem nada, sem acréscimo acidental. Ela tinha só o essencial. Mãos segurando morangos. E uma alma cheia de confiança. Capaz de extravasar naturalmente uma sólida convicção sobre si própria.

Chegando ao destino, tive a certeza de que a moça do morango é uma metáfora do povo brasileiro. Massacrado, enganado, mas livre para pensar que é bonito. E é.

2 janeiro 2016 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

O poeta anglo-americano, T. S. Eliot (1888/1965), escreveu:

“O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro.
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível”.

Então, somos o que fomos. E o que somos é, em parte, o que seremos. Busca perpétua para melhorarmos. Como pessoas e como sociedade.

2015 findou, tempo para esquecer. 2016 começou, tempo para semear. Moto contínuo de pintura a aprimorar, promovendo encontros. Feitos de tolerância. Paisagem na qual se reconheçam as diferenças. País no qual seja possível olhar o outro.

Bem-vindo ao eterno presente.

AAN

Nova oligarquia

A história do PT é o registro de uma tragédia. O PT nasceu na ética em 1980. E desfaleceu na corrupção em 2003. Não vai fenecer. Mas está pagando juros. No presente, juros penais. No futuro, juros eleitorais.

O PT deixa legado ameaçador na burocracia. Pois criou nova oligarquia de agentes burocráticos: a oligarquia dos afortunados. Afortunados de produtividade duvidosa, rala probidade administrativa e gestão política hegemônica.

Essa nova oligarquia, beneficiária de recursos públicos, sonega exemplos construtivos. E não contribui para formar consensos políticos. Pois o que fica é uma trilha caudilhesca.

Como cobrar mais imposto da sociedade ? O governo deve, primeiro, mostrar austeridade. A presidente Dilma não age com esse propósito: hospeda-se em hotéis de luxo, contrata frota de US$ 100 mil no exterior; efetivou apenas 11% dos cortes de pessoal anunciados. E não reduziu seu salário como proclamado.

A propósito, transcrevo palavras de um ex presidente de país sul americano:

“É preciso levar o capitalismo a sério. Porque se uma empresa capitalista sucumbe, todos perdemos. Embora me escandalize com a exploração do homem pelo homem, se não houver o que repartir, não há condições para o socialismo. A solução para a sociedade não se encontra no monopólio burocrático da miséria.”

E finaliza:

“O Estado, como instrumento de governo, não é de direita nem de esquerda. A burocracia se mostrou pior que a burguesia. Porque pelo menos a burguesia tem impulso criador. Mesmo que seja para comer seu fígado. A burocracia vive só do que outros já criaram”.

Assinado, Pepe Mujica, socialista, ex presidente do Uruguai.

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Razões para esperançar

Fiel gregoriano, ingresso no ano novo defendendo um neologismo: esperançar. Eu esperanço, tu esperanças, ele esperança. Reforço verbal ao sentimento de confiança no futuro.

Mas, esperançar, no Brasil, não é conceito sem suporte. Esperançar é aspiração amparada em dois fatos concretos: um fato ocorrido no âmbito do Executivo. E outro fato, no do Judiciário.

No Executivo, presidente da República que promete, deve cumprir o prometido. A presidente Dilma, na campanha, prometeu uma coisa. No governo fez outra. Resultado: um dígito de aprovação popular. Nunca a presidente se dignou explicar claramente o que se passou no país. A cidadania disse não à mentira.

No Judiciário, Justiça com novo perfil surge no Estado brasileiro. É geração de jovens magistrados e promotores que assume vocação pública. Eles demonstram compromisso com a ética e com a lei. Sem ódio e sem medo. A cidadania os acompanha. E aprova.

Esses fatos compõem cenário inspirador. Que revela via social de mão dupla: de um lado, ação do Estado no sentido da sociedade, em fazeres de juízes e promotores. Instruindo denúncias e firmando sentenças que refletem Justiça independente.

De outro lado, protestos da sociedade na direção do Estado, pela voz do cidadão. E pelo voto do eleitor. Voz de cidadãos protestando contra conluios clandestinos. Voto de eleitores revogando a incompetência. Que 2016 modernize o barroco da política nacional.

* * *

Figura da semana – Wendell Berry

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Encerramos a semana com o poeta norte americano de 81 anos, Wendell Berry. Autor de mais de vinte obras, é dos mais respeitados poetas contemporâneos da América.

Para Minha Mãe

“Eu era seu filho rebelde
Você lembra ?
Às vezes, me pergunto se você lembra.
Tão completo tem sido este seu esquecimento
Tão completo tem sido o seu perdão.
E, às vezes, me pergunto se ele não precedeu meu erro.
Eu me perdi e me encontrei seguro dentro do seu amor
Preparado antes de mim.
No caminho de casa, na minha cama de noite,
Então eu quase deveria perdoar você.
Talvez prevendo o pior que eu poderia fazer, você perdoou.
Antes que eu pudesse agir
Que me faz sorrir agora como foi ínfimo o meu pior
Comparado com seu perdão já dado.
E esta, então, é a visão do tão falado paraíso
Onde os que se ama perdoaram uns aos outros.
Onde, por isso, as folhas são verdes, a luz é uma música no ar
Todos os nós se desatam e todo desalento se acaba.”

Até a próxima.

31 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

TEMPO DE MEMÓRIA (4)

Anos 50. O endereço era Visconde de Suassuna, 254. O telefone (de quatro dígitos) era 2347. O dono da casa era Odorico Melo, antigo Fiscal do Consumo do Ministério da Fazenda. Mas a síndica do pedaço era Santa. Assim chamada porque virtuosa, solidária e benemerente. O nome mesmo era Rosa de Magalhães Melo.

Pois bem. Dona Santa, nascida em Serra Talhada, teve nove partos. Acompanhando o marido, andou por vários lugares do Nordeste. Carregando ventre crescido e número cada vez maior de filhos. Não teve chance de estudar. Mas ensinou muita coisa a muita gente.

Era magra como o caule de uma figueira. Mas firme como o tronco de uma mangueira. Sua magreza levava ao engano de que ela não pudesse arcar com o peso da família. Com a complexa relação de filhos, filhas, noras, genros. E netos. Driblava os problemas com talento surpreendente. Uma liderança insuperável.

Produzia ordens que eram obedecidas fielmente pelos filhos já casados. Seu Odorico não ousava discutir uma vírgula de suas determinações. Dona Santa tinha duas tarefas diárias, improrrogáveis: rezar o terço na cadeira de balanço, colocada na sala de estar. E fazer a fezinha no jogo do bicho. Cuja banca ficava defronte, na padaria da esquina.

O terço era rezado em etapas. Podia ser interrompido para conversar com a irmã, Aracy, que morava na rua do Sossego. Mãe do ex presidente do TRT, Francisco Solano. E quando chegava o mensageiro do bicho, ela só fazia dar o dinheiro certo. Porque o jogo era preparado minuciosamente na semana anterior.

Lembrei-me de minha avó Santa, hoje, pela manhã. Quando voltava da caminhada. Por que lembrei-me dela ? Não sei. Ou talvez seja porque hoje celebramos a continuidade do tempo. E eu sempre fui muito próximo a ela. Me sinto, neto, um seu prolongamento. Sendo avô. No final de contas, só sabe ser avô quem experimenta o sentimento de ser, ao mesmo tempo, neto.

27 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

TEMPO DE MEMÓRIA (3)

Naquela época, anos 50, havia mais silêncio nas ruas do Espinheiro. E mais verde nas árvores da Santo Elias, da Barão de Itamaracá, da rua da Hora. A percepção do tempo era mais lenta. Ou as pessoas menos apressadas. Não sei.

Na rua Santo Elias, moravam os Chaves, os Ventura e os Freitas. De geração anterior à minha. Curioso: juntavam-se quase diariamente, após o almoço, para bater bola. Não era para disputar partidas. Mas para controlar, como se dizia. Um jogando a bola para o outro. Eu, mais moço, ficava olhando de longe aqueles veteranos. Que não me davam bola nenhuma.

Na rua Barão de Itamaracá, morava uma de minhas admirações juvenis. Uma colega do Instituto Recife, dirigido por dona Eulália Fonseca. Que tinha uma sobrinha, Tânia. Mas minha atenção especial era para Cecília Buarque de Macedo. Também nunca me deu bola. E nunca mais a vi. Soube que se graduou em Engenharia. De qualquer modo, foi uma visão de beleza, muito pessoal, que não tive mais chance de apreciar.

Na rua da Hora, moravam os Porto Carreiro. Uma casa plantada no meio de amplo terreno com várias mangueiras. No qual ainda sobrava espaço para o futebol. Era lá que eu jogava pelada com Marco Antônio, Rui e outros mais. Rui foi meu colega de turma no Instituto Recife. E casou com Elzinha da Fonte, filha de dr. Raimundo.

Personagem mais respeitado no pedaço era o jornalista Mario Melo. Figura quase temida. Pela energia de seus artigos. Ele era de baixa estatura, cabelos lisos, brancos, puxados para trás. Inseparável charuto na boca. Nos textos, ele atacava o futebol. Não via no esporte senão perda de tempo. E defendeu arduamente antiga gameleira que fica ao lado da igreja do Espinheiro.

Mario Melo gostava de bilhar francês. E jogava com meu pai. Eu sabia de seus artigos. E o via jogar. Debruçado sobre o retângulo verde, duas bolas vermelhas, uma bola branca. Segurava o taco, charuto pendente da boca, fumaça nublando o ar. Ele mirava as bolas, mirava, e eu o olhava. Tinha na minha frente o homem que sabia defender a cidade. Pequeno, mas enorme.

Aquele mundo verde e pacífico transformou-se. Mas continua vivo. Nas paredes da antiga matriz. E na memória do menino que não soube esquecê-lo.

26 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

O ex-presidente Lula fez um governo de direita com um discurso de esquerda. Deu certo.

A presidente Dilma tentou fazer um governo de esquerda com um discurso de direita. Não deu certo.

O que sobrou a um, faltou a outra: sinceridade. Lula governou sinceramente com Sarney, Renan e Collor. E construiu castelos de areia com Fidel Castro e Ahmadinejad.

Dilma governou sem compromisso com Joaquim Levy. E produziu túneis de vento com Miguel Roseto e Aloízio Mercadante.

O escritor italiano Tomasi de Lampedusa, no romance O Leopardo, publicado nos anos 50, escreveu: “É preciso mudar para continuar como está”. Auto ilusão a que se entregou a presidente Dilma.

Com 10% de aprovação popular e base parlamentar fragmentada, a presidente volta-se para o que lhe resta: o nicho petista e movimentos sociais cativos de fundos públicos.

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Levy, Barbosa, que importa?

Um governo é feito de conceito, pessoas e programa. Conceito é essência política: liberal, socialista, populista,
autoritário.

Pessoas são imagem visível do conceito governamental. Mas, vão além do que aparenta seu rosto. São o que, moralmente, trazem em si: responsabilidade pública, capacidade de fazer.

E programa é governo em ação. É no programa que se elegem as prioridades dando o tom social e econômico da administração.

Vê-se, no horizonte, algo parecido a isto? O que importa?

Porque assistimos espetáculo inédito no país. Gente graúda na cadeia. Instituições funcionando. Sim, há tentativas de resistir à lei. Mas, há também boa cumplicidade trabalhando: promotores, juízes, imprensa. Cúmplices na oferta da lei, da ética e da verdade.

A substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa não muda nada. Sem apoio popular, subtraída a si própria, a presidente diminuiu de tamanho político. Restringe-se ao apoio ambíguo do petismo. E ao aceno servil de movimentos sociais. Cativos de verbas oficiais.

O que importa?

O que vale um Renan Calheiros, tão miúdo na esperteza provinciana, diante do juízo cidadão? O que vale um Eduardo Cunha, velho clown de circo sem graça, perante a reprovação social?

Os valores da lei, da ética e da verdade, desta Nação contraditória, desigual, estes ficarão. E o tempo os esculpirá na escritura da mudança.

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Deserto brasileiro

Fim de ano. E recomeço do tempo. Ano infindo. Decisões cruciais para o país, adiadas. Impeachment, talvez no primeiro semestre de 2016. Julgamento do deputado Eduardo Cunha, quando março vier?

2015 foi época de cicatrizes no corpo moral da Nação. O PT aprofundou vínculos com o óleo abissal do petrolão. O PMDB partiu-se em duas facções, cada uma mais investigada que a outra, nos descaminhos de biografias temerárias, de Cunha a Calheiros.

Por sua vez, o PSDB ensaiou pacto com o diabo. E recuou quando viu sua alma arder nas chamas de opróbio político. Pacto que despertaria a ira ética de Franco Montoro e Mario Covas.

Tocar impeachment para entregar o país a oligarcas, Renan, Barbalho, Jucá, destinatários de uma dezena de processos de investigação na Justiça?

Politicamente, o Brasil é um deserto. Deserto de Atacama. O único lugar da Terra onde não há umidade. O deserto brasileiro não tem fertilidade política. O país terá que atravessar seu deserto de homens.

Isto é resultado da desmoralização do papel de governar. Mensalão e petrolão esterilizaram o diálogo político. Estabeleceram parâmetros amorais para a gestão pública.

A consequência: desapareceram lideranças de qualidade no Congresso Nacional. Com poucas exceções, sumiram líderes de três metros de altura moral. Restaram políticos anões.

Mas, a mudança virá. Porque o germe da transformação está na própria natureza das coisas. Na Espanha, veio das ruas. Na França, veio dos intelectuais. Na América, veio das instituições políticas. Inauguremos o novo ano afastando o pessimismo do velho do Restelo. Esta maré há de passar.

* * *

Figura da semana – Carlos Pena Filho

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E como estamos na época, fechemos a semana com Canção deste Natal, de Carlos Pena Filho:

“Procurou na terra
Procurou no ar
Procurou na guerra
E não soube achar.
Procurou no rio
Procurou no mar
No telégrafo sem fio
E outra vez no ar.
Muito velho e sábio
Foi que se lembrou
Dentro dele mesmo
Nunca procurou”.

Até a próxima.

20 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

TEMPO DE MEMÓRIA (2)

Ela era professora. Séria danada. Nas fímbrias da brabeza. Casada com seu Fernando. Mãe de Fernando Antônio e Vitória Maria. Chamava-se dona Inalda. O bairro era Espinheiro, claro. E a rua, Manoel Arão. Anos 50, acho que já disse.

Na casa dela, aconteciam os campeonatos de botão. Feitos de chifre de boi. Comprados na Casa de Detenção, hoje Casa da Cultura. Eu perdia todos. Fernando Antônio ganhava sempre. Ele tinha um atacante chamado Zague, antigo jogador do Corinthians.

Pois bem. Eu tinha má fama desde o Instituto Recife. Porque brigava todo santo dia. Era da turma de Rui Porto Carreiro, Roberto Rosa Borges, Almir Cesário Mota. Minha má fama arraigou-se porque eu briguei com Luciano Ventura. Filha de dr. Altino. Que morava na rua Santo Elias.

E veio o constrangimento: eu e Luciano éramos alunos de inglês de Janine Alimonda, filha de dr. Alimonda. No dia seguinte à briga, eu cheguei à casa de Janine. Em seguida, chegou Helena Ventura, irmã de Luciano. Disse a Janine que dona Lurdes Ventura não queria mais que Luciano tivesse aula com aquele mau elemento.

Mas, o pior estava por vir: eu gostava muito de bater bola na rua. E jogava até sozinho. Chutando a bola contra os muros das casas. Numa dessas vezes, um chute mal calculado ultrapassou o muro da casa de dona Inalda. E espatifou o vidro da porta de entrada. Corri e sentei na calçada em frente.

Ela veio ao terraço, tomou a bola nas mãos, chegou até o portão e disse:

– Você ?

E eu, amarrotado, sem buraco no chão para me meter:

– Foi.

Bem, o prejuízo foi pago pelo professor José Otavio.

Sim, ia esquecendo: eu tinha uma bicicleta Bristol, como lembrou Paulo Caldas. Preta. Quem a consertava era Antônio Fernando. Não sei onde ele anda. Há uns anos, eu vi Vitória Maria. Mas ela tem o ar da mãe: severo, fechado. Não me animei a puxar conversa.

De qualquer modo, estão todos aqui. Nesta sala onde digito a emoção de fim de uma tarde prosaica. Mas única. Porque ancorada nas nuvens de uma estima que não se perdeu.

19 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Certa vez, Antônio Carlos Jobim disse que “o Brasil não é para principiantes”. Não, não é.

Olhe-se o que se passa nesta República nos recentes doze meses. Uma presidente da República faz o contrário do que defendeu na campanha que a reelegeu.

Um presidente da Câmara dos Deputados é acusado de corrupção, de falta de decoro e posa de acusado a acusador. Assunto que só será resolvido em fevereiro, após o recesso

Um presidente do Senado Federal tem cinco inquéritos contra si no Supremo Tribunal Federal – STF e distila autoridade como se fosse Cícero contra Catilina.

Um ministro da Fazenda se despede do cargo, não em seu gabinete, mas em reunião do Conselho Monetário Nacional (O ministro foi embora, viva o ministro !).

Por tudo isso, depois de refletir sobre a história do país, eu passei a ver o Brasil atual com mais otimismo. Paradoxalmente.

Porque, ao mesmo tempo, estão na cadeia o dono da maior empreiteira brasileira; o ex líder do governo no Senado Federal; ex deputados, doleiros. E as instituições jurídicas estão funcionando regularmente. Podendo colocar as coisas no lugar onde devem estar.

O Brasil é para crédulos.

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Chegamos aos anos de 1950

O modelo político que tem baseado a governança, no Brasil, é o do nacional-desenvolvimentismo. Vem desde a revolução de 1930. Sob inspiração dos tenentes. E, então, enfrentando duas oligarquias: a oligarquia cafeeira de São Paulo e a oligarquia leiteira de Minas.

Aquele modelo político constitui aliança que une, em arco político, setores do empresariado, Partidos, sindicatos e parte da elite burocrática. Estes setores reúnem-se visando obter benefícios para si próprios. Em termos de renda funcional, financiamento público e ganhos corporativos. No exercício de perfeito patrimonialismo.

É um tipo de governança de Estado revogado em países desenvolvidos. Um tipo de governança superado pelos avanços da tecnologia, da eficiência e da inovação. Mas, que resiste. Resiste em países onde o populismo impera. Caso da Venezuela e da Argentina até Cristina Kirchner. E do Brasil de Lula/Dilma.

Este projeto foi renovado, nos anos de 1950, na figura fundadora de Vargas. Tanto no Estado financiador, que criou o BNDE. Quanto no Estado populista, fundador do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. Infiltrado entre a classe média rural do PSD e a classe média urbana da UDN.

Este mesmo projeto foi reforçado no conceito militarista que impregnou o golpe de 64. O Estado nacional corporativo de então criou mais de duas centenas de empresas estatais. Desdobrado, por duas décadas, até 1985.

O governo Sarney (1985/90), crivado na morte de Tancredo Neves, buscou fixar uma identidade política. E não conseguiu. O governo Itamar Franco (1992/94) foi cometa que produziu breve e veemente discurso nacional desenvolvimentista. Entre um e outro, aconteceu o hiato Collor (1990/92), privatista e iconoclasta.

A gestão de Fernando Henrique Cardoso (1994/2002) dispensou o nacional desenvolvimentismo. Buscou produzir o ajuste em economia fragmentada. Por meio de acertos orçamentários, gerando relação harmoniosa entre mercado e estabilização econômica. Com base fiscal consistente. E incentivo aos investimentos privados na concepção competente do Plano Real e em ambiente de confiança.

O governo Lula seguiu as diretrizes do Plano de FHC: respeitou o orçamento, manteve a sanidade das contas fiscais, colocou no Banco Central especialista admirado no mercado, Henrique Meireles.

Por sua vez, o governo Dilma voltou aos anos 50. Olhando para trás, retornou ao padrão nacional desenvolvimentista. Pretendeu inventar uma nova matriz econômica. Gastou mais do que arrecadou. Estourou as contas públicas. Pedalou. Desprezou o orçamento.

E, assim, o país avançou para o passado.

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Dilma/Levy, encontro equivocado

Com a experiência que me dá os cabelos de prata, fiquei espantado. Quando o economista Joaquim Levy aceitou convite da presidente Dilma para virar ministro da Fazenda.

Ora, governo é espaço de afinidades. E somente elas, as afinidades, calçadas em convicções comuns e cimentadas em ideário confluente, são capazes de enfrentar as pedras do caminho. Como disse o poeta.

Nada menos convergente politicamente que Dilma e Levy. Nada mais distante ideologicamente que Bradesco e PT. Nada menos viável socialmente que a matriz da nova economia da esquerda latino-americana.

O que pasma é que as pessoas do governo Dilma estão assistindo, de um lado, a derrocada econômica da Argentina e da Venezuela. E, de outro lado, estão vivendo na pele oficial o declínio da economia brasileira. Agravado pelo surgimento de deficits primários nas contas fiscais. Lembrei da Marcha da Insensatez, de Bárbara Tuchman.

Na prática, avalio que há dois problemas graves na economia nacional:

1. Indexação de preços no mercado, atrelando custos e valores ao salário mínimo. A remuneração de grupos mais organizados e fixados legalmente são sempre maiores que a produtividade. E, a longo prazo, nenhuma economia suporta produtividade menor que custos econômicos;

2. Elevação da dívida pública para 80% do PIB até 2019. É preciso gerar superávits primários, ordenando as contas fiscais. Sob pena de a política monetária não atenuar a inflação e continuar inflando os preços.

O substituto de Levy será o ministro do Planejamento e Gestão, Nelson Barbosa. Ele vai ter o que fazer.

* * *

Figura da semana – Pablo Neruda

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Encerrando semana tão insípida, nada menos que o capítulo XXIII da Manhã, de Neruda:

“Foi luz o fogo e pão a lua rancorosa,
O jasmim duplicou seu estrelado segredo,
E do terrível amor as suaves mãos puras
Deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.

Oh amor, como de repente, dos rasgos
Fizeste o edifício da doce firmeza,
Derrotaste as unhas malignas e zelosas
E hoje diante do mundo somos como uma só vida”.

Até a próxima.

17 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

XAXÁ

Tempo de memória. Era, como se dizia, uma rua descalçada. Bairro de classe média. Anos cinquenta. Nenhum edifício. Uma paz de cidade feita de certo vagar. Costurada de sólidos silêncios. Somente quebrados pelo vendedor de sorvete Xaxá.

Meu pai tinha um carro verde, compacto, inglês, chamado Prefect. A casa, onde morávamos, tinha terraço, sala e três quartos. Era alugada. Defronte, morava Carlos Assunção, casado com Maria Clara, irmã do grande Nelson Rodrigues.

Eles tinham três filhos: Sandra, que depois casaria com o violonista Turíbio Santos; Andrea e Carlos, que se tornou fotógrafo. Na casa do lado direito da nossa, morava um alemão chamado Luís Herzog. Comia dez ovos fritos no café da manhã. Tinha uma filha muito simpática, Érica.

Nelson, releio quase sempre. Turíbio, vi, outro dia, na televisão com seu violão. E os demais? Por onde andará Sandra e sua beleza suave, branca, esmerilhada nos sustos de nossa admiração?

Estão todos vivos. Em nós. Na nossa lembrança. Na nossa perfeita convicção de termos vivido o improvável. E termos tecido o futuro que hoje é passado. Sendo presente. Eterno. Neste olhar.

12 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

Esta foi a semana na qual três fatos improváveis ocorreram:

1 – O vice presidente, Michel Temer, saiu de sua discrição;

2 – A presidente, Dilma Rousseff, saiu de sua arrogância;

3 – Deputados da Comissão de Ética da Câmara mergulharam no radicalismo de ofensas e tapas.

Com uma carta, forrada convenientemente de reclamações, o vice, Temer, abriu a porta por onde quer chegar à presidência da República.

Com humildade, a que se dá raríssimamente, a presidente Dilma implorou a Temer que chegasse até o Alvorada para uma palavrinha.

E parlamentares da Comissão de Ética certificaram a má educação dos debates no recinto. Com tapas e sem beijos.

O governo terminou sofrendo duas derrotas: na composição da Comissão que vai julgar a admissibilidade do impeachment. E na destituição do líder do PMDB, Leonardo Picciani, carioca, aliado do Planalto. Substituído por Leonardo Quintão, mineiro, ligado à cúpula do PMDB.

Mas, nem por isso, o impeachment ficou mais próximo.

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As diferenças entre 1992 e 2015

O impeachment da presidente Dilma, em 2015, será muito mais difícil de ser aprovado do que foi o de Collor, em 1992.

Por quatro razões:

1 – Collor não tinha respaldo de um grande Partido. Dilma tem o suporte do PT e de parte do PMDB, além do PSD e da Rede;

2 – Collor não tinha apoio da rua. Dilma tem a solidária presença urbana de sindicatos, movimentos sociais e artistas;

3 – Collor não tinha uma reconhecida liderança política promovendo sua defesa. Dilma tem a participação ativa, na formulação política e na articulação partidária, do ex presidente Lula;

4 – Collor foi acusado de ilícito por corrupção. De fácil entendimento pela população. Dilma é acusada de ilícito por má gestão fiscal. Tema mais complexo de ser entendido pelo povo.

Registre-se, ainda, documento firmado por dezesseis governadores de Estado, posicionando-se contra o impeachment e a favor da presidente.

Na eleição para eleger a Comissão da Câmara, que vai apreciar o pedido de impeachment, foram 199 votos contrários ao pedido. Estes são os votos com os quais conta o governo. Hoje.

É pouco? Ou é suficiente para barrar o impeachment?

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O ruim e o bom da crise

Sociedade é cultura. E política são fazeres dessa cultura. É preciso olhar a crise política brasileira também a longo prazo. Que efeitos ela produzirá sobre o sistema político nos próximos anos? Que tipo de incentivo e/ou esterilização social ela induzirá na cidadania?

A crise atual mostra três aspectos negativos. E apresenta um lado positivo. Os três aspectos negativos são:

1 – Os malefícios da cultura lulopetista de fazer política. Baseada nos mensalões. O lulopetismo sequestrou moralmente o Estado. E degradou economicamente Petrobras e Eletrobras.

2 – A mediocridade a que a prática do lulopetismo rebaixou o padrão de fazer política no país. O Brasil é um deserto de líderes de envergadura moral. Com exceção de poucos. A má qualidade dos políticos é subproduto da cultura implantada no modo de conduzir os negócios públicos, aqui.

3 – A inércia da cultura lulopetista em relação às reformas de que o país precisa. Para não absorver desgaste político com mudanças institucionais. Porque ao lulopetismo interessa apenas conquistar e manter o poder.

Mas, há um ponto positivo nesta crise: as instituições políticas e sociais continuam funcionando. No âmbito investigativo, Polícia Federal e Ministério Público continuam atuando. Na esfera do Judiciário, os juízes prosseguem decidindo. No Legislativo, há luta aberta para se debater e se apurar supostos ilícitos do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha. No Executivo, mesmo na paralisia decisória feita de fisiologismo, há traços de vida anêmica.

Nesse cenário de baixa qualidade política, as instituições brasileiras operam como âncoras a longo termo. Porque são estruturas capazes de lastrear recursos políticos e sociais de que o futuro necessita para sobreviver.

* * *

Figura da semana – T. S. Eliot

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Na quietude verde de mangueiras amigas, encerremos a semana com a palavra universal de T. S. Eliot. Um trecho de Dificuldades de um estadista.

“Incógnito na imobilidade do meio dia,
No silêncio da noite que coaxa.
Cheguei no frêmito das álulas do morcego,
No tíbio lampejo do pirilampo ou do lampírio.
Subindo e caindo, coroadas de pólvora, as pequenas criaturas,
As pequenas criaturas ciciam impressentidas sob a pólvora,
Tremeluzindo noite adentro.
Ó mãe
Que deverei gritar ?
Solicitamos uma comissão, uma comissão parlamentar, uma comissão de inquérito.
RENÚNCIA RENÚNCIA RENÚNCIA.”

Até a próxima.

5 dezembro 2015 LUIZ OTÁVIO CAVALCANTI

SEMANA PASSADA

A semana finda foi a da separação de xifópagos políticos: a presidente Dilma e o presidente Eduardo Cunha. Eles estiveram ligados institucionalmente sem querer o vínculo. Um detestando o outro.

Pois bem. Os fatos encarregaram-se de fazer a cirurgia política. Separando-os. Os votos dos três deputados do PT na Comissão de Ética da Câmara foram os cirurgiões. E a anatomia política voltou ao seu normal. Na feiura de quadro em que todos são coautores.

Na verdade, o país enxerga caricatura atroz, distante do humor de tempos benignos. Embora a nação sonhasse produzir pintura de Portinari, de traço leve e contemporâneo.

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O contingente e o permanente

O impeachment de Collor aconteceu. O impeachment de Dilma não vai acontecer. O de Collor baseava-se em razão de ordem moral. Que a população logo entendeu. O de Dilma baseia-se em motivo de natureza legal. Que a população não entende bem.

Na prática, o impeachment depende de três fatores:

a) Crime de responsabilidade previsto na Constituição;

b) Maioria de 342 votos na Câmara dos Deputados;

c) Pressão popular na rua.

Dificilmente, os defensores do impeachment de Dilma vão contar com tal número de votos na Câmara. E a população, por sua vez, não vai clamar pela dispensa da presidente. Porque teme o desconhecido.

Na época de Collor, o desconhecido tinha fiadores com credibilidade: Mario Covas, Fernando Henrique Cardoso, Lula. E o vice-presidente de então, Itamar Franco, era de integridade férrea.

Agora, o desconhecido não tem luzes sugerindo caminhos. E o vice-presidente da hora, Michel Temer, carrega mais interrogações que afirmações.

O que temos visto é a troca oportunista de valores permanentes por becos contingentes. Foi o PSDB votando, na Câmara, contra suas próprias teses. Negociando com o deputado Eduardo Cunha o inegociável.

O que vimos foi a presidente Dilma incorrer em igual equívoco. Submetendo-se a chantagem política que os mais isentos sabiam que terminaria na baixaria de acusações que se viu.

Ou seja, os dois polos mais vigorosos da política nacional caíram no erro de trocar o permanente pelo contingente. Por isso, a população está desconfiada. E, neste quadro de ausente confiança, a cidadania raciocina: Que fique como está. Porque, se já está ruim, pode ficar pior.

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O pós bolivarianismo

Nos recentes quinze anos, onda política de esquerda varreu a América Latina. Financiada pela exportação de commodities para a China. E pelo elevado preço do petróleo no mercado internacional.

Um movimento esquerdista de variados tons. Desde o capitalismo de Estado chavista, na Venezuela; passando pelo populismo argentino dos Kirchner; até a esquerda monástica de José Mujica na planície uruguaia. Sem falar no dueto Lula/Dilma, no Brasil.

Essas nuances políticas receberam capa comum que o autoritarismo chavista chamou de bolivarianismo. Recuperando a figura histórica da independência latino-americana, o libertador Simon Bolívar.

Passados dois anos, o cenário começou a mudar. Os chineses passaram a importar menos minério. E o preço do barril de petróleo perdeu 50% do valor. Minguaram os recursos nos orçamentos públicos. Instalou-se a escassez fiscal. Com ela, veio a crise social. E o não eleitoral.

Primeiro, foi a eleição de Mauricio Macri, na Argentina. Derrotando o candidato de Cristina Kirchner.

Na próxima semana, haverá eleição legislativa na Venezuela. Onde as pesquisas indicam vitória da oposição a Nicolas Maduro por mais de sessenta por cento dos votos. O líder oposicionista é Henrique Capriles, de 43 anos. Baseando seu discurso nos conceitos de liberdade e de mercado.

No Uruguai, a liderança emergente é Luis Lacalle, de 42 anos. Defensor do mercado, perdeu a eleição presidencial em 2014. Mas, continua em campo.

No Peru, a figura, que representa as forças da direita, é Keiko Fujimori, de 40 anos. Foi derrotada pelo atual presidente, Ollanta Humala, em 2011. Lidera as pesquisas para a eleição de 2016.

É a alternância de ideias. E de poder. São formas diferentes de governar. Que a realidade sanciona. Ou não. Dependendo de sua adequação aos fatos. O bolivarianismo é arremedo de história. E parece que fica assim.

* * *

Figura da semana – Joaquim Cardozo

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Fechemos a semana, de incerta agonia, com o verso certeiro de Joaquim Cardozo. Ele traz, na palavra, a calma que queremos em casa, na rua, na paz.

Soneto da paz

“Este soneto é natureza morta,
Traço na alvura, sombra de uma flor.
Sinal de paz que inscrevo em cada porta
Gesto, medida de comum valor.

É letra e clave, é módulo que importa
Na redução da voz, do som. Calor
Do que vivido foi e inda importa
Palpitação de implícito lavor.

Moeda que correu por muitas mãos,
Brinquedo que ficou perdido a um canto
Num lago de esquecidas esperanças.

Mas nos seus versos fecho os sonhos vãos
E em notas claras digo, exalto e canto:
– Paz ! Paz ! Brincai, adormecei, crianças !”

Até a próxima.


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