12 novembro 2017 REPORTAGEM

A VIDA DE UMA “ESCRAVA” BRASILEIRA

Luislinda com assessores em Nova York – Viagens ao exterior são constantes no dia a dia da ministra que, desde a época de desembargadora, se acostumou ao circuito internacional

O processo de abolição da escravatura no Brasil foi gradual: começou com a Lei Eusébio de Queirós de 1850, seguida pela Lei do Ventre Livre de 1871, a Lei dos Sexagenários de 1885 e finalizada pela Lei Áurea em 1888. Mas a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois (PSDB), não gosta de escalas. Ameaça recorrer diretamente à Princesa Isabel se continuar ganhando “apenas” R$ 33.700 por mês, enquanto a renda média do brasileiro é de R$ 1.226. É uma “escrava”, como ela mesmo se autoproclamou ao querer incorporar aos seus vencimentos mais R$ 30.471,10 que recebe como desembargadora aposentada do Tribunal de Justiça da Bahia. Só que escrava de luxo.

Vida de escravo é difícil, dizia a letra de Dorival Caymmi. Que o diga Luislinda. Além de ganhar salário que encosta no teto constitucional do funcionalismo, ou seja, só a nata dos servidores públicos pode desfrutar desse privilégio, a ministra leva uma vida de mordomias à custa do dinheiro público. Além dos R$ 33,7 mil por mês, a ministra tem direito a jatinhos da FAB para viagens profissionais, apartamento funcional em Brasília, carro com motorista e cartão corporativo. Ela ainda recebe diárias do governo federal, quando viaja. Só em 2017, foram mais de R$ 40 mil.

Isso tudo já a faz ocupar um confortável lugar no pico da pirâmide social, mas sua declaração de bens de 2014 é ainda mais eloqüente ao mostrar que a ministra está mais para Casa Grande do que senzala. Luislinda é proprietária de uma mansão no condomínio de luxo Porto Busca Vida Resort, localizado na praia privativa de Busca Vida, em Camaçari, na Bahia. Ela adquiriu o imóvel por R$ 750 mil. Hoje, o local está supervalorizado. Um terreno não sai por menos de R$ 1,5 milhão. Casas prontas, que variam de 300m2 a 1.100m2, custam entre R$ 3 milhões e 7,5 milhões. A ministra Luislinda também possui um apartamento em Salvador, comprado por R$ 330 mil, e outro em Curitiba, no alto da Glória, região nobre, adquirido por R$ 350 mil.

Praia privada

Como é possível notar, está mais do que evidente a exploração a que a ministra de Direitos Humanos vem sendo submetida pelo Estado-feitor. Em junho passado, Luislinda cobrou do governo R$ 10.758,68 por uma viagem de cinco dias a Israel. A viagem foi paga pela Confederação Israelita do Brasil (Conib). Ou seja, ela viajou de graça e mesmo assim quis ressarcimento. Verba extra, dinheiro a mais. Sua assessoria diz que ela devolveu os valores no dia 28 de junho. Em julho, ela deu outro “aplique” nos cofres públicos: pediu o ressarcimento de despesas durante final de semana em Salvador, onde reside, sem ter tido compromissos oficiais. Ela não trabalhou no final de semana. Na verdade, ela viajou para a capital baiana no dia 27 de julho, uma quinta-feira, em avião da FAB, para representar o presidente da República na posse de um juiz do TRE da Bahia. Na sexta, a ministra visitou uma escola pública. Ficou em casa descansando no sábado e domingo, mas mesmo assim cobrou as diárias por todos os dias, no valor de R$ 1.985,19.

Ao pedir o aumento salarial, ela explicou que a alta soma se destina a cobrir despesas “necessárias” ao exercício do cargo, como roupas, sapatos, perfumes e maquiagens. “Como é que eu vou comer, beber e calçar?”, disse Luislinda. “É cabelo, é maquiagem, é perfume, é roupa, é sapato, é alimentação”, completou a ministra, que deve fazer Isabel se remexer no túmulo. Com a repercussão negativa do caso, ela voltou atrás, abrindo mão do pedido por mais benefícios, mas ao pedir um salário acima do teto do funcionalismo, Luislinda se desconectou da realidade. Definitivamente, o contribuinte brasileiro não merece ser escravizado pelos privilégios de uma ministra dos Direitos Humanos. Ela parece só olhar para os direitos dela.

Transcrito da Revista Isto É

3 novembro 2017 REPORTAGEM

COMEÇOU (CEDO) A ENGANAÇÃO ELEITORAL

A campanha de 2018 nem começou e os principais pré-candidatos à Presidência da República já tentam iludir os eleitores com promessas falsas e discursos contraditórios. Utilizam a falácia, o ludíbrio e o populismo barato como arma eleitoral. Como se a população tivesse perdido de vista a atmosfera farsesca que permeou as eleições de 2014, vendem gato por lebre e esperam, com isso, conquistar o coração e o voto dos incautos que vão às urnas.

De Lula a Bolsonaro, passando por Ciro e Marina, todo se esmeram em prometer o que não vão entregar. A campanha da mentira já começou. Todo cuidado é pouco. É bom se preparar para não ser vítima de mais um estelionato eleitoral.

Um bom exemplo de incongruência retórica é o do ex-presidente Lula. Em recente discurso, o petista afirmou, por exemplo, que não pretende trabalhar para que empresários como Joesley Batista, dono do grupo J&F, sejam beneficiados pelo governo. “A gente não quer que esse País se desenvolva para o sr. Joesley ficar milionário, mas para o povo viver melhor”, disse Lula, ao passar por Ipatinga (MG).

Acontece que foi justamente em seu governo que a JBS, empresa do grupo J&F, recebeu mais benefícios do governo federal e se tornou a maior produtora de carne do mundo. O BNDES liberou mais de R$ 8 bilhões em financiamentos para a JBS. O faturamento da empresa saltou de R$ 4 bilhões em 2006 para R$ 170 bilhões em 2016.

CASCATEAR – Lula prometeu referendo para revogar medidas de Temer. Mas Constituição não prevê

O que disse

“A gente não quer que esse País se desenvolva para o sr. Joesley ficar milionário, mas para o povo viver melhor”.

O que é na realidade

Foi no governo Lula que a JBS conseguiu financiamentos bilionários do BNDES e, em dez anos, elevou seu faturamento de R$ 4 bilhões para R$ 170 bilhões.

O que disse

“As pessoas se sentiram traídas porque aquilo não era o que a gente tinha prometido na campanha”.

O que é na realidade

Em 2014, para garantir a reeleição de Dilma, o PT iludiu os eleitores ao dizer que não havia o que mudar na economia, mas já se sabia, na época, que seria necessário um forte ajuste fiscal.

O que disse

“Nós aprendemos a não ter ódio, pois quem tem ódio tem azia”.

O que é na realidade

Lula ataca investigadores da Lava Jato e o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara de Curitiba, sempre que tem oportunidade. Chegou a chamá-los de “canalhas”. Além disso, é o criador do discurso do “nós contra eles”.

Lula dá nó em pingo d’água. Em entrevista ao jornal espanhol ‘El Mundo’, ele admitiu que o PT enganou os eleitores na campanha de 2014, quando Dilma Rousseff foi reeleita. Na ocasião, o governo estava farto de saber que o Brasil enfrentava dificuldades que exigiam uma forte freada de arrumação na economia

O preço inevitável do ajuste fiscal seria o mergulho na recessão. Mas, para garantir a vitória nas urnas, o PT, Lula e Dilma esconderam dos eleitores a gravidade da situação. Diziam que estava tudo sob absoluto controle. “O País é estável, economicamente forte. O Brasil vai bombar”, insistiu Dilma, durante a campanha.

Apesar dos desmentidos oficiais, havia um cheiro de desastre no ar. Dilma derrotou Aécio Neves, mas por margem estreitíssima. Assim que reempossada, fez exatamente o que havia negado de pés juntos: um ajuste fiscal duro e conservador.

Lula nunca comentou a guinada de sua dileta discípula. Mas agora se aproxima a hora de pedir votos e ele decidiu entregar a cabeça de Dilma. “As pessoas se sentiram traídas porque aquilo não era o que a gente tinha prometido na campanha”, disse ao “El Mundo”. Faltou dizer a verdade: que o ajuste fiscal foi necessário para conter o desarranjo das contas públicas legado por Lula ao País, como consequência das desonerações e dos subsídios para empresários. Foi, portanto, mais uma mentira conveniente do petista.

Além de tentar se desvencilhar de Dilma, o ex-presidente faz o possível para passar uma imagem mais moderada. Em outubro, afirmou que “aprendeu a não ter ódio, pois quem tem ódio tem azia”. Sabe-se, porém, que ele não poupa ataques ao juiz Sérgio Moro e aos investigadores da Lava Jato. “Nenhum canalha teve coragem de apontar nada de errado que eu fiz”, disse Lula, em João Pessoa.

“O País é estável e com economia forte. O Brasil vai bombar a partir de 2014” (Dilma Rousseff, durante a última campanha eleitoral)

Quem também tem adotado um discurso cada vez mais inconsistente é Ciro Gomes, pré-candidato do PDT. Ele já afirmou, em várias ocasiões, que o Brasil não precisa de uma reforma da Previdência. “É uma audácia dizer que há déficit na Previdência”, disse o pedetista.

No entanto, o rombo na Previdência é uma realidade, e se não houver mudanças nas regras de aposentadoria, as contas públicas podem implodir. Em 2016, o déficit do Regime Geral da Previdência Social (RGPS) foi de R$ 149,7 bilhões. Para este ano, espera-se um resultado negativo na casa dos R$ 188,8 bilhões. Com a reforma aprovada, mesmo com as adequações discutidas com o Congresso, o governo espera uma economia na casa dos R$ 650 bilhões para os próximos dez anos.

Outro exagero de Ciro Gomes é prometer que uma das metas de seu governo, se eleito, será “ajudar a tirar do buraco 23 dos 27 estados que estão quebrados”. De acordo com relatório do sistema Firjan, apenas cinco estados não tinham, em 2016, recursos em caixa para honrar os compromissos em dia.

Eis os estados que fecharam o ano com saldo negativo: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Sergipe e Distrito Federal. Em outro ponto, Ciro se contradiz quando fala sobre a Operação Lava Jato. Ele disse à Rádio Jovem Pan que é “a favor da Lava Jato” e que nunca deixou ninguém duvidar disso. Em março, no entanto, afirmou que “receberia à bala a turma do Sérgio Moro”, se viesse a ser alvo da operação.

FREIO DE ARRUMAÇÃO – Candidato Jair Bolsonaro tem se esforçado em transmitir uma imagem menos radical

O que disse

Ao criticar a reforma da Previdência, defendeu “exposição maior dos bancos em vez de tirar o sangue dos aposentados” e questionou onde estaria “o sacrifício do sistema financeiro”.

O que é na realidade

No governo Dilma, foi o único deputado do PP a votar contra o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido para bancos.

O que disse

“No projeto da terceirização, eu me abstive por que entendo os pontos dos dois lados e qualquer que fosse meu voto, eu levaria porrada”.

O que é na realidade

Em pré-campanha, Bolsonaro preferiu não correr risco e ficou em cima do muro.

O que disse

“Minha briga nunca foi contra o homossexual”.

O que é na realidade

É autor de frases polêmicas contra a comunidade LGBT. Exemplos: “Se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”, em 2002; “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, e já muda o comportamento”, em 2010; e “Ninguém gosta de homossexual, apenas suporta”, em 2011.

Moderando o discurso

O deputado Jair Bolsonaro, como se sabe, não mede palavras. É o rei da polêmica e pouco se importa em ser coerente. Ao criticar o projeto de reforma da Previdência do governo Temer, Bolsonaro defendeu, em entrevista ao “Valor Econômico”, uma “exposição maior dos bancos em vez de tirar o sangue dos aposentados”. E perguntou onde estaria “o sacrifício do sistema financeiro”.

Incorreu em flagrante contradição com suas posições durante o governo Dilma. Na época, ele foi o único deputado de seu antigo partido, o PP, a votar contra o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido para os bancos. Agora, ele defende o aumento da arrecadação em cima das instituições financeiras. Bolsonaro também surpreendeu durante a votação do projeto que ampliou a terceirização às atividades fins das empresas.

Explicou que viu pontos positivos nos argumentos dos que atacavam e dos que defendiam a medida e preferiu se abster. Ou seja, para não se desgastar politicamente, lavou as mãos. Se negou fogo na terceirização por temer a perda de votos, Bolsonaro também tem recuado em seu tradicional combate aos direitos da comunidade LGBT.

Em evento político recente, ele chegou a dizer que sua “briga nunca foi contra o homossexual”. O problema é que, ao longo de sete mandatos na Câmara, ele coleciona frases violentíssimas contra os gays. Eis exemplos: “Se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”, em 2002; “ Filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, e já muda”, em 2010; e “Ninguém gosta de homossexual, apenas suporta”, em 2011.

Em entrevista à BBC no último dia 18, Marina Silva incorreu no mesmo pecado de seus adversários, ao cometer um evidente exagero. Ela afirmou que a Rede, o partido criado por ela em 2015, é o único a defender abertamente a Lava Jato. “Eu sempre defendi a Lava Jato, como eles não defendem, preferem dizer que não é um posicionamento”, disse Marina. Porém, há outras legendas que defendem a operação.

Na mesma entrevista, ela explicou que “não se pode concorrer à eleição para um país como o Brasil sem apresentar um programa de governo, sem dizer o que se vai fazer para a saúde, a educação, segurança pública, infraestrutura, proteção do meio ambiente”. Acontece que uma das críticas às duas campanhas de Marina à Presidência foi justamente a falta de objetividade e de embasamento técnico de seus programas de governo.

Há, ainda, contradição no discurso de Marina no que diz respeito às articulações visando o pleito de 2018. Ela tem negado encontros com figuras do meio jurídico para compor a chapa da Rede. Disse que se reuniu com o ex-ministro do STF, Carlos Ayres Britto, uma única vez para discutir uma decisão do Supremo que não fui cumprida pelo então presidente do Senado, Renan Calheiros. Porém, o próprio Ayres Britto declarou publicamente ter conversado, mais de uma vez, com Marina Silva – “uma querida amiga”.

Ao tentar engabelar a população, os candidatos lançam mão, de novo, do velho e surrado “estelionato eleitoral”. O termo surgiu após as eleições gerais de 1986, no governo José Sarney. Na época, para garantir a eleição do maior número possível de governadores, o governo iludiu a população brasileira ao dizer que o Plano Cruzado funcionava bem. Na verdade, o governo já preparava ajustes, mas adiou as mudanças para depois do pleito.

Deu certo: o PMDB de Sarney elegeu 22 de 23 governadores e conquistou a maior bancada no Congresso. Logo depois da vitória nas urnas, o governo desvalorizou a moeda e descongelou preços. Foi quando os opositores de Sarney criaram o termo “estelionato eleitoral”, que significa enganar a sociedade para vencer uma eleição.

SEM PAPAS NA LÍNGUA – Como em 2002, Ciro tropeça nas próprias palavras

O que disse

“É uma audácia dizer que há déficit na Previdência”.

O que é na realidade

O rombo na Previdência é irrefutável. Em 2016, o déficit foi de R$ 149,7 bilhões. Para este ano, espera-se um resultado negativo de R$ 188,8 bilhões.

O que disse

Uma das metas de seu governo, se eleito, será “ajudar a tirar do buracos 23 dos 27 estados que estão quebrados”.

O que é na realidade

De acordo com a Firjan, apenas cinco estados não tinham, em 2016, recursos em caixa para honrar os compromissos: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Sergipe e Distrito Federal.

O que disse

“Sou a favor da Lava Jato e nunca deixei ninguém duvidar disso”.

O que é na realidade

Em março, afirmou que “receberia à bala a turma do Sérgio Moro”, caso viesse a ser alvo da operação.

Nas eleições de 2018, além das mentiras dos candidatos, haverá outro problema gerado pelo crescimento das mídias sociais: o fenômeno chamado de fake news, notícias falsas que se espalham por sites, pelo Twitter e pelo Facebook como se fossem verdade absoluta. De acordo com levantamento de um grupo de pesquisas da Universidade de São Paulo (USP), cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no Brasil. Se considerada a média de 200 seguidores por usuário, o alcance pode chegar a toda a população.

É um fenômeno recente e que já impactou em eleições de outros países, como França e Argentina, especialmente os Estados Unidos. Em 2018, uma coisa é certa: o fake news terá forte presença da eleição brasileira. Atualmente, há cada vez mais pessoas consumindo informações nas redes sociais, muitas vezes sem checar a fonte de origem.

Notícias são compartilhadas sem critério, espalhando boatos e mentiras que podem acabar com uma candidatura. Segundo estudo da FGV, os perfis automatizados – os robôs de redes sociais – foram responsáveis por gerar 10% do debate nacional nas eleições de 2014. A expectativa é que esse índice pelo menos triplique no próximo ano.

A fim de evitar a proliferação de notícias inverídicas, a Abin e o TSE já preparam uma espécie de força-tarefa para entrar em funcionamento durante a campanha. “O ideal é regulamentar a propaganda eleitoral na internet”, defende o ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Segundo estudo da FGV, os perfis automatizados (robôs) geraram 10% do debate nacional nas eleições de 2014

Em meio à disseminação das fake news, há um dado bastante alentador. Trata-se das empresas especializadas no chamado ‘fact-checking’, ou seja, na checagem de informações divulgadas nas mídias sociais. Serão ferramentas importantes para os eleitores terem certeza do que foi dito ou feito por determinado candidato, sem cair na boataria virtual. Uma dessas empresas é a Agência Lupa criada em 2015 pela jornalista Cristina Tardáguila.

A Lupa é uma agência de notícias que tem como principal fonte de renda a revenda de matérias checadas para jornais, revistas e rádios. E a demanda por seus serviços não para de crescer. Neste exato momento, a empresa está reforçando a estrutura para 2018. “Vai ser uma trabalheira infernal. Imagine o tiroteio de informação entre os radicais do Lula, do Ciro, do Bolsonaro e da Marina”, prevê Cristina.

Para enfrentar o tsunami de notícias falsas, a Lupa está dobrando seus quadros de checadores. É uma demanda da população. Pesquisa da consultoria Kantar diz que 58% das pessoas já nutrem menos confiança em notícias políticas publicadas nas redes. Cristina avisa que está em discussão a troca do termo “fake news”. “Informação falsa soa como cópia original. Ou a informação é verdadeira ou é fraude”.

Fica, então, a advertência para os candidatos que insistem em fazer os eleitores de palhaços. Ou a informação é boa ou é fraude. Vale também para as falsas promessas e para o estelionato eleitoral. Peixe morre pela boca, candidatos também.

CONTRADIÇÃO – Marina conserva perfil ambivalente. Não será fácil mudar 

O que disse

Segundo ela, a REDE é o único partido a defender abertamente a Lava Jato. “Eu sempre defendi a Lava Jato, como eles não defendem, preferem dizer que não é um posicionamento”.

O que é na realidade

Há outras legendas que também defenderam a operação, inclusive nas propagandas eleitorais no rádio e na TV, como o PRTB e PSDC.

O que disse

“Não se pode concorrer à eleição sem apresentar um programa de governo. Sem dizer o que se vai fazer para a saúde, a educação, segurança pública, infraestrutura, proteção do meio ambiente”.

O que é na realidade

Uma das críticas às campanhas de Marina à Presidência foi exatamente a falta de objetividade de seus programas de governo. Em 2014, por exemplo, pressionada por evangélicos, ela alterou as propostas voltadas à comunidade LGBT.

O que disse

Tem negado encontros com figuras do meio jurídico para compor sua chapa. Disse que se reuniu com o ex-ministro do STF Ayres Britto uma única vez para discutir decisão do STF sobre Renan Calheiros.

O que é na realidade

O próprio Ayres Britto declarou publicamente que conversa habitualmente com Marina Silva – “uma querida amiga” -, apesar de não admitir que os encontros têm relação com a eleição.

Transcrito da revista IstoÉ

9 outubro 2017 REPORTAGEM

OS ALGOZES DE LULA E AS PROVAS CABAIS

Implicado em uma série de crimes, agora o ex-presidente Lula encontra-se mais do que nunca cercado por farta e certeira munição. Os elementos que chegaram à Lava Jato nos últimos dias constituem provas irrefutáveis. Jamais se viu uma rota tão bem fechada, a demonstrar de forma cabal e definitiva o caminho da propina até um político – no caso, o heptaréu Lula. A trilha da confirmação do pagamento do dinheiro sujo ao petista começa pelo primeiro depoimento de Marcelo Odebrecht à Justiça,– no qual ele contou ter pago R$ 4 milhões a Lula, por meio do Instituto, numa operação negociada pelo ex-ministro Antonio Palocci, – passa pelas declarações do próprio Palocci ao juiz Sergio Moro, em que ele ratifica o acerto, e termina com os recibos e emails apresentados pelo empreiteiro à Lava Jato. É quando a última peça do quebra-cabeças se encaixa e torna-se claro como a luz do sol que, sim, Lula foi de fato e de maneira inconteste o destinatário final da dinheirama.

Para atestar o que tem reiterado à PF, Marcelo entregou quatro comprovantes de doações de R$ 1 milhão cada feitas pela Odebrecht. Os recibos totalizando R$ 4 milhões registram as datas de 16 de dezembro de 2013, 31 de janeiro de 2014, 5 de março de 2014 e 31 de março de 2014, e levam o carimbo do Instituto Lula. Segundo o executivo, os documentos referem-se a pagamentos de propina a Lula abatidos da conta-corrente “Amigo”. Não se trata de palavras ao vento, como quer fazer crer a defesa lulista. Os emails revelados por Marcelo Odebrecht comprovam o que ele diz.

Na mensagem de 26 de novembro de 2013, Marcelo fala do pagamento do suborno a Lula com Hilberto Mascarenhas, diretor do “Setor de Propinas”, e com Alexandrino de Alencar, executivo próximo ao ex-presidente petista: “Italiano (Palocci) disse que o Japonês (Okamotto) vai lhe procurar para um apoio formal ao inst de 4m (não sabe se todo este ano, ou 2 este ano e 2 do outro)”. No mesmo dia, em outro email a Hilberto, Marcelo escreve: “Do saldo de 15M do amigo (Lula) acertar com B: 500 + 500 para as próximas semanas”. Ou seja, naquele momento, a conta de propinas de Lula estava com saldo de R$ 15 milhões e o empreiteiro ordenava a realização de dois pagamentos de R$ 500 mil. “B” era Branislav Kontic, ex-assessor de Palocci responsável por receber o dinheiro em espécie e repassar a Lula. Mais didático impossível. Em determinado momento, a situação saiu de controle e os pedidos de dinheiro passaram a ser cada vez mais frequentes – a ponto de Hilberto Mascarenhas classificar a conta-corrente de “suruba” em outro email. As “doações” ao Instituto Lula são apenas uma das seis novas linhas de investigação contra Lula derivadas das colaborações da Odebrecht. Ainda em Curitiba, a PF investiga se as palestras feitas pelo petista no exterior foram pagas com valores ilícitos. O ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, também prometeu abordar temas correlatos em acordo de colaboração.

TUDO FORJADO

Quando não pelos seus algozes, Lula se encalacra por si próprio. Foi o que aconteceu na última semana, quando o ex-presidente, ao tentar justificar a Moro o pagamento de supostos aluguéis de uma cobertura em São Bernardo, produziu provas contra si mesmo. Os recibos são o retrato mais bem acabado da fraude desavergonhada. Em dois deles, há datas inexistentes, como 31 de junho de 2014 e 31 de novembro, em três, a cidade de São Bernardo do Campo está grafada com erro, nenhum recibo demonstra ter sido dobrado ou manuseado e, embora tenham seis anos de vida, os papéis entregues por Lula não apresentam qualquer sinal de envelhecimento. O contrato de aluguel, segundo a defesa, foi firmado entre Glaucos Costamarques, sobrinho do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo pessoal de Lula, e dona Marisa Letícia, morta em fevereiro. É ele o signatário dos recibos.

Em entrevista, na última semana, Costamarques não só conferiu verossimilhança à fraude, como fez uma revelação gravíssima: disse que assinou todos os documentos num único dia quando estava internado no Sírio-Libanês, em São Paulo, entre 22 e 28 de novembro de 2015. Os recibos foram levados ao hospital pelo contador João Muniz Leite, a pedido ao advogado de Lula, Roberto Teixeira. Nos próximos dias, o MPF vai pedir a perícia nos documentos. O caso representa uma situação clara e manifesta de obstrução de Justiça. Em 2015, quando as empreiteiras fraudaram recibos para pagar empresas ligadas ao doleiro Alberto Youssef, o juiz Sérgio Moro mandou prender os empresários. Não se sabe qual caminho o juiz seguirá desta vez. O fato é que há elementos de sobra para levá-lo à cadeia.

Para o ex-ministro Palocci, a ida de Lula para a prisão não constituiria uma injustiça. Pelo contrário. Em carta, ao pedir desfiliação do PT, Palocci disse que Lula sucumbiu ao pior da política. “Lula dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem crítica, do tudo pode, do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes no cenário entorpecido dos petrodólares”, disse Palocci, acrescentando:.

“Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou uma seita guiada por uma pretensa divindade?”. O ex-ministro também perguntou até quando o partido acreditaria no discurso de Lula de que é “o homem mais honesto do país” e criticou o fato dele tentar responsabilizar a falecida esposa pelos ilícitos que cometeu. Outro ponto alto da carta foi a menção a um encontro com a presença de Dilma e do ex-presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, em que Lula fala sobre sondas e propinas de forma extremamente natural. O ex-ministro classificou o encontro de a “cena mais chocante” que presenciou do “desmonte moral” de Lula. Se é Palocci quem diz …

Transcrito da revista Istoé

7 outubro 2017 REPORTAGEM

LULA E AS MÁS COMPANHIAS

Fotografia de Lula com Renato Duque (à esquerda, na imagem), que contou que ex-presidente cobrava liberação de propina, e Paulo Roberto Costa (à direita), que operava para o PMDB e o PP 

A fotografia acima foi tirada quando o maior esquema de corrupção da história já funcionava a pleno vapor. Lula era o presidente da República. À sua esquerda, está o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. À direita, o diretor de Serviços, Renato Duque. As investigações da Lava-Jato revelaram que Paulo Roberto recolhia 3% de propina das empreiteiras que detinham contratos em sua área. Ele repassava uma parte do dinheiro para o PMDB e o PP e enviava um naco para contas na Suíça. Renato Duque fazia a mesma coisa, mas tinha apenas um cliente, o PT. Os dois estão presos.

Paulo Roberto assinou o primeiro acordo de delação premiada da operação, confessou os crimes, revelou o nome de dezenas de políticos que se locupletavam com o dinheiro roubado e, hoje, cumpre pena em casa. Renato Duque está preso em Curitiba e tenta fechar um acordo de delação. Condenado a 67 anos de prisão, ele também já confessou que operava seguindo ordens do PT, especialmente do ex-presidente Lula, com quem, segundo afirma, teria tratado diretamente sobre recolhimento e pagamentos de propina. Lula nega. A imagem acima vai ser usada para reforçar a acusação.

Em depoimento ao juiz Sergio Moro, em maio, o ex-presidente refutou a afirmação de que pudesse influenciar as ações de qualquer um dos diretores da estatal. Questionado especificamente sobre eventuais contatos com Renato Duque e com Paulo Roberto Costa, Lula foi ainda mais taxativo. “Nos oito anos que fiquei na presidência, a gente não teve uma reunião com a diretoria da Petrobras”, disse.

Na foto, além de Paulo Roberto e Duque, Lula, usando uma jaqueta de petroleiro, aparece ladeado pelo então presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, o então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, e o então diretor de Gás e Energia Ildo Sauer. Com a exceção de Sauer, que deixou a estatal em 2007 e não é acusado de irregularidades, todos os outros presentes no encontro tornaram-se personagens do escândalo de corrupção. Para o Ministério Público, Lula chefiava a quadrilha, o que ele também nega.

Renato Duque é o personagem da fotografia que mais preocupa o ex-presidente. Principal operador do PT na Petrobras, ele tem a memória dos oito anos de governo Lula e de metade do primeiro mandato de Dilma Rousseff. Sua missão principal, desde o início, era recolher propina – 1% sobre o valor de cada contrato. Parte do dinheiro arrecadado era repassado ao partido, parte enviado para contas no exterior. Em depoimento a Sergio Moro, o ex-diretor fez revelações sobre o envolvimento de Lula no esquema. Afirmou que o ex-presidente sabia da corrupção na Petrobras, operava em favor das empreiteiras e cobrava pessoalmente a liberação de propina.

O ex-diretor ainda revelou ter mantido pelo menos três encontros com o ex-presidente para tratar de interesses espúrios. Num desses encontros, que aconteceu num hangar do Aeroporto de Congonhas – já durante as investigações da Lava-Jato -, Duque teria recebido ordens para fechar as contas secretas que mantinha no exterior. Quando ainda estava no governo, segundo o ex-diretor, Lula acionava o tesoureiro petista João Vaccari para levar recados e pedidos de dinheiro aos diretores da estatal.

O ex-presidente certamente tirou fotografias com milhares de pessoas das quais não se lembra. Mas para quem garante que nunca sequer se reuniu com os diretores corruptos, a imagem, embora protocolar, pode ser também comprometedora.

23 setembro 2017 REPORTAGEM

O BOICOTE DOS DESESPERADOS

NA CONTRAMÃO – O PT de Lula é um carro desgovernado: mesmo com 14 milhões de desempregados, votou contra a reforma trabalhista

Numa postura flagrantemente antidemocrática, o PT ameaça se recusar a ser submetido ao escrutínio popular em 2018. O anúncio, sem sequer corar a face, coube a presidente da legenda e senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR): “Estamos denunciando que o impedimento de Lula seria uma fraude nas eleições. Vamos caminhar para o boicote se ele for impedido de ser candidato”. Gleisi não está só nesse haraquiri petista. O ex-secretário de comunicação da agremiação e deputado estadual paulista José Américo entoa o mesmo discurso que não coaduna com os princípios erguidos pela legenda em sua fundação: “A primeira hipótese é apelar ao STF (para Lula concorrer mesmo condenado em segunda instância). A segunda hipótese é de se boicotar as eleições. E aí vai ser uma convulsão social, um risco de guerra civil no País”.

Essa não é a primeira vez, no entanto, que o PT rema contra a maré da opinião pública, que espera as eleições de 2018 para derrotar os corruptos nas urnas, entre os quais Lula. Recentemente, os petistas votaram contra a PEC do teto dos gastos. Depois disseram “não” para a imperativa Reforma Trabalhista, ignorando a população de desempregados que chega a 14 milhões. Mas perdeu feio em ambas as disputas. Das três reformas, apenas as mudanças nas regras das aposentadorias ainda não há previsão de serem votadas no plenário da Câmara.

Mas andar na contramão não é incomum na história da sigla. Ela sabotou importantes projetos nacionais. Alguns casos ilustram essa conduta esquizofrênica. Em 1988, integrantes da sigla votaram contra a Constituição democrática, que foi escrita para colocar um fim ao ciclo de 21 anos de ditadura militar. Em 1992, o partido ficou de fora da aliança construída em torno de Itamar Franco, que assumiu para acabar com os desmandos do governo Collor. E, pior, em 94 sabotou o Plano Real, conjunto de medidas que acabou com a inflação e proporcionou a estabilidade econômica do País. Em 2000, a bancada no Congresso se opôs à Lei de Responsabilidade Fiscal.

A agonia de Gleisi se justifica. Recentemente, o ex-procurador Rodrigo Janot denunciou ao STF, por crime de organização criminosa, o quadrilhão do PT. Na relação estavam os principais quadros, como os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, além dela própria e de seu marido Paulo Bernardo. A situação mais complicada é de Lula, que também enfrenta outras oito denúncias. Esta semana, o juiz Wallisney de Oliveira, de Brasília, aceitou denúncia feita pelo MPF contra Lula no caso Zelotes. O ex-presidente é acusado de ter vendido, por R$ 6 milhões, uma Medida Provisória para favorecer a indústria automobilística. Ele virou heptaréu, um recorde negativo.

Transcrito da Revista Isto É

16 setembro 2017 REPORTAGEM

QUEM “MATARÁ” OS FACÍNORAS?

Ministros de STF entram em sessão: eles, com a Constituição, “matarão” os facínoras

Ainda nos machuca os ouvidos a frase “nós não vai ser preso”. Não é pelo maltrato ao idioma não, nem pela aberração da conjugação do verbo, porque isso até que passa e vira formalidade num País de treze milhões de analfabetos, quando o mais grave (muito mais grave) é o conteúdo da frase mesmo. E também ainda nos machuca as retinas o cariz de pretensão de impunidade com os quais o “nós não vai ser preso” nos foi lançado na cara. O dono da pérola, isso todo brasileiro com um fio de barba de vergonha sabe quem é, porque em gente boa dói mais, muito mais, coisas desse tipo: o senhor Joesley Batista, ex-todo-poderoso dono da J&F. As voltas que o mundo dá, e ele agora está trancafiado, por irônica cilada do destino, juntamente com o seu interlocutor no tosco diálogo que gerou a frase. O nome do parceiro de corrupção é Ricardo Saud, ex-alto diretor da empresa. O irmão de Joesley, Wesley, seguiu o mesmo caminho, aquele que tem levado muita gente a sair de suas mansões, por ordem judicial, e ir morar contrariado em cubículos de nove metros quadrados, sem vaso sanitário e sem água quente. Wesley está preso sob acusação de manipular o mercado financeiro.

Falou-se de retinas. E as nossas retinas absorvendo malas e caixas de dinheiro escondidas num apartamento em Salvador, como olhos nus olhando eclipse? Igualmente isso nos fere, igualmente isso nos dói: são os R$ 51 milhões do senhor Geddel Viera Lima, ele mesmo, o bebê chorão, que chora para o juiz, que chora para o carcereiro quando vão lhe raspar a cabeça na cadeia, mas não chora quando gatuna dinheiro do povo, quando conta dinheiro do povo, quando deixa suas lombrosianas digitais no dinheiro do povo. Ah, a dor de treze milhos de desempregados olhando a dinheirama roubada nos tempos em que ele foi vice-presidente do departamento de pessoa jurídica da Caixa Econômica Federal. Bom, muito bom, Geddel também está trancafiado.

Cena de “O homem que matou o facínora”: a lei e a democracia vencem o tiro

Falou-se de povo. Eta povo, o quanto que essa palavra passa de boca em boca na turma do PT, como dela se apropriou a boca de Lula, do chefão da organização criminosa Lula et caterva – Lula, hoje réu em seis processos e com uma linha de montagem de denúncias e inquéritos contra si. A boca da coxa fala em povo, e não enlouquecemos não, não estamos falando que coxa tem boca, estamos dizendo é que essa coxa, apelido da presidente nacional do PT e senadora Gleisi Hoffmann no submundo da corrupção, também ela anda e desanda a falar de povo. E parece padecer de episódios persecutórios, acha agora que o língua-nos-dentes Antonio Palocci entregou tudo o que sabia de podridão de Lula porque está a serviço da CIA (chora não, leitor; ou, pelo menos, chore de rir). Pois é, Lula e Palocci eram amigos até debaixo d’água ou debaixo de milhões de dólares, e hoje é o salve-se quem puder – depondo a Sergio Moro, Lula declarou que Palocci é “frio e calculista”. Como diz a população carcerária feminina, “quando o bicho abraça playboy, a língua de playboy não tem osso” – ou seja, um deda o outro, só falta fazê-lo por ordem alfabética. Palocci, o super agente secreto americano (tem mais jeito de KGB), não honrou o ensinamento do santo que inspirou sua mãe na hora de seu batismo: Santo Antonio de Pádua. Pregava Antonio, o santo, não o Palocci: “se não puder falar bem de alguém, não fale nada”. Claro que é impossível falar bem de Lula. Então Palocci, mesmo sendo católico, resolveu falar para tentar aliviar a sua prisão. Eis, aqui, outro trancafiado.

Falou-se de organização criminosa. Inacreditável, as quadrilhas se entrelaçam, nunca se viu tanta corrupção, nunca se viu tantos milhões e bilhões desviados de cofres públicos. A impressão que dá, tamanha é a lama, é que se todas as cédulas de dinheiro pego da Viúva fossem colocadas lado a lado, com paciência de Jó se conseguiria organizá-las por sequência numérica. Como se disse, tudo se entrelaça, é um novelo. Olhe! É lama mesmo! Olhe! De onde saíram tantos facínoras? Na semana passada, Michel Temer disse que “facínoras roubam a verdade” no País. Ele se referiu apenas aos que o denunciam. ISTOÉ elege a expressão facínora em outro contexto bem mais amplo: refere-se a todos, todos mesmo, os predadores que assaltam politicamente o Brasil. É como se Temer falasse de alguns músicos; ISTOÉ fala da orquestra interina. E toda essa corrupção enoja. Tudo isso é obsceno. Tudo isso, machadianamente, “exaure” e “cansa”. Bom Machado de Assis, bom “bruxo do Cosme Velho”, o teu Simão Bacamarte, de Itaguaí, faria um belo trabalho de internação de muitos e muitos políticos dessa “Pindorama, hoje Brasil!”, de muitos e muitos empresários, de muitos e muitos empreiteiros, não fosse ele médico mas, sim, delegado da Polícia Federal. E a Casa Verde seria a Papuda. Reais e dólares, aos milhões, aos bilhões, viraram troco para corruptos e corruptores das mais diversas cores ideológicas e partidárias. Ok, bom e sábio “bruxo”, você avisou: no dia em que fosse proclamada a República, do jeito que tal proclamação estava sendo alinhavada, se veria no País uma quantidade de corruptos que o “sol jamais alumiou”.

Falou-se de corrupção. Como o poder no Brasil parou nas mãos desses delinquentes? De onde vem esse Irma de malversação do dinheiro público? Genética, a causa não é, porque a esmagadora maioria dos brasileiros é honesta, basta olharmos para os olhos da honestidade que se sabe roubada naqueles que bocejam à espera dos sobrelotados metrôs e trens e ônibus às seis da matina. Só em São paulo, oito milhões de sonolentos todos os dias. E é mão de mãe com calo puxando filho para creche, é mão de mãe com calo indo para o batente de arrumar casa dos outros, é mão de mãe com calo seguindo para a fábrica. Não, o povo brasileiro é íntegro sim. Mas há um ponto de partida para todo o nó. A República!

Falou-se de República. Não pelo fato de a República ser República, mas, isso sim, por ter sido decretada e não proclamada. Aristides Lobo, arguto observador, escreveu com maestria que o povo, atônito, pensou que se tratava de uma parada militar. Ao saber que um desafeto seu (dera em cima de sua mulher) poderia ser o chefe do novo gabinete do império (boato nascido da boca de Benjamin Constant), Deodoro da Fonseca decidiu assinar a mudança de regime, sequer em praça pública, mas nas dependências do que seria hoje uma câmara de vereadores. Aí, deu ruim para o Brasil. A chamada classe política nasceu e cresceu e espichou e engordou sem o menor compromisso popular – conceito desenvolvido pelo signatário, tristemente no Brasil “o povo é nota de rodapé, o povo é nota de pé de página”. Daí nasce o patrimonialismo. A maioria dos políticos misturando o público com o privado, o que significa, em bom português, avançar no dinheiro dos outros e receber propina para utilizar a máquina pública a favor de interesses privados.

Falou-se de tudo que anda por aí. E a saída, onde fica a saída? (antiga indagação do genial dramaturgo Oduvaldo Vianna Filha). Um dos maiores clássicos do cinema, em todos os tempos, chama-se “O homem que matou o facínora” (1962). Nele, o personagem Tom Doniphon (John Wayne) não acredita no ordenamento jurídico que começa a nascer nos EUA, a lei para ele é um revólver e um rifle. Ronson Stoddard (James Stewart), ao contrário, é um recém-formado advogado disposto a provar que a lei vence o tiro. Há um famoso bandido na história chamado Liberty Valance (Lee Marvin). Todos pensam que foi James Stewart quem conseguiu duelar e matar o facínora, mas na verdade quem o mata é John Wayne – e, importantíssimo, seu personagem evolui cultural e politicamente, abandona o cinturão e passa a pregar a soberania das leis e a democracia. Pois bem, a saída para o Brasil, a única saída, são os princípios constitucionais pelos quais o STF zela e saberá sempre zelar, até porque é essa a sua função precípua. Os onze ministros do STF serão, enfim, os homens que “matarão” os facínoras.

Transcrita da Revista Isto É

16 setembro 2017 REPORTAGEM

UM FANFARRÃO CADA VEZ MAIS ISOLADO

A CARAVANA DESGOVERNADA – Réu em seis ações por corrupção, Lula especializou-se em jogar para a platéia

O ex-presidente Lula deve achar que o banco dos réus é um puxadinho do sítio de Atibaia. Só pode. A caminho da segunda condenação da Lava Jato, o petista entrou na nova audiência com o juiz Sergio Moro, realizada na última quarta-feira 13, em Curitiba, a destilar fanfarronices, como quem se sentisse em casa e jogasse para a plateia – a dele, claro. Faltou colocar os pés sobre a mesa. Foi agressivo com o juiz, a quem desafiou, questionando sua imparcialidade, chamou uma procuradora de “querida”, como se fosse alguém que privasse de sua intimidade, e quis discutir com Moro a condenação a nove anos e meio de prisão no caso do tríplex do Guarujá. “Posso olhar na cara dos meus filhos e dizer que vim a Curitiba prestar depoimento a um juiz imparcial?”, indagou. Moro afirmou que não cabia a Lula fazer aquele tipo de pergunta, “mas de todo modo, sim”. “Não foi isso que aconteceu na outra ação”, retrucou o petista, ao que Moro respondeu: “Não vou discutir a outra ação. A minha convicção é que o senhor era culpado”. Lula chegou a elevar o tom de voz, mas não conseguiu dar explicações sobre os fatos pelos quais é acusado, numa ação por corrupção e lavagem de dinheiro: receber da Odebrecht um terreno para o Instituto Lula e ganhar de presente uma cobertura ao lado da sua em São Bernardo do Campo. Ao fim, atacou seu ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Em 2005, quando Palocci era ministro da Fazenda, o petista chegou a compará-lo a Ronaldinho, então astro do Barcelona.

Como sempre, Lula terceirizou responsabilidades. Ao dizer que a cobertura não é sua, e que pagava aluguel por ela, o ex-presidente não soube explicar por que não tinha pago os alugueis. De novo, jogou nas costas da mulher Marisa Letícia, morta em fevereiro, a culpa por ela não ter pago os alugueis. Disse que o apartamento foi alugado por sua falecida esposa e que era ela quem cuidava desse tipo de coisa. “Em 76, abri uma conta conjunta com a dona Marisa para ela administrar a casa. Passei quase 30 anos sem assinar um cheque, porque a dona Marisa fazia tudo. Foi ela que fez esse contrato”, disse Lula. Quanto à compra do terreno, afirmou que era tarefa de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula. Pressionado por acusações de delatores e colegas de partido de peso, como seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, Lula partiu para o confronto aberto. “Se o Palocci não fosse um ser humano, seria um simulador. É frio e calculista”. O ex-presidente foi acusado por seu antigo braço direito de agir, ao lado da ex-mandatária Dilma Rousseff, para frear a Lava Jato, além de fazer um pacto de sangue com Emílio Odebrecht para o recebimento de propinas.

TRAMA – Lula e Dilma fizeram conluio para frear a Lava Jato

Lula divide a esquerda

À medida que as ações da Lava Jato avançam, menores são as possibilidades de Lula disputar as próximas eleições presidenciais. Com o ex-presidente cada vez mais isolado, os petistas se preparam para enfrentar o eleitorado sem pai nem mãe. O próprio Lula acredita que pode ser carta fora do baralho e, na sua recente caravana pelo Nordeste, levou à tiracolo o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, “plano B” do PT. “Sem o Lula, a eleição será menos passional”, aposta Basileo Margarido, da REDE.

Marina Silva, em 2014, já atraiu para si parcela do eleitorado da antipolítica, agora espera canalizar ainda mais o voto do inconformismo. Quem também aposta em ocupar parcela do espaço que seria de Lula é o candidato do PDT, Ciro Gomes. Os trabalhistas acreditam que há uma tendência natural de unidade do Nordeste com Ciro.

Já a esquerda radical acredita que herdará parcela do eleitorado que ficou desencantado com o caminho adotado pelos petistas. Esse é o caso de Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que pode ser candidato pelo PSTU. “O projeto lulista se esgotou”, sentencia o deputado do PSOL, Chico Alencar, que trabalha para construir uma candidatura alternativa. Uma prova cabal e irrefutável do isolamento petista é que o PCdoB, um apêndice do PT desde 1989, pode até lançar candidatura própria. Cogita nomes como o do ex-ministro Aldo Rebelo. Que fase.

Uma prova inegável

Documentos encontrados pelo Ministério Público no sistema Drousys da Odebrecht indicam que pelo menos R$ 3,1 milhões dos R$ 12,4 milhões pagos por um imóvel para o Instituto Lula saíram do “departamento de propinas” da empreiteira. Os pagamentos foram feitos no exterior, através de empresas offshores ligadas a um ex-diretor da construtora. O sistema Drousys é um dos servidores usados pela Odebrecht para efetuar os pagamentos ilícitos.

No Drousys, os repasses aparecem registrados como “Prédio IL”, que seria uma referência ao Instituto Lula. Essa anotação é uma ligação direta do ex-presidente com as contas da Odebrecht fora do país. A partir disso, será possível rastrear eventuais pagamentos de propina a Lula. O Drousys, servidor localizado em Estocolmo, na Suécia, tem 1.781.624 arquivos, totalizando 2,67 terabytes de dados distribuídos em quatro discos rígidos. São e-mails, planilhas, comprovantes de pagamentos e outros arquivos e documentos que atestam os ilícitos praticados pela Odebrecht, e acima de tudo, os beneficiários das propinas milionárias.

Transcrito da Revista Isto É

16 setembro 2017 REPORTAGEM

A TRAJETÓRIA DE MÉDICO A MONSTRO

O ex-ministro Palocci saiu da condição de protegido de Lula para um ser desprezível aos petistas

A história do relacionamento do ex-ministro Antonio Palocci com o ex-presidente Lula é digna de um filme de amor que termina em tragédia, com ódio mortal no final. Palocci entrou na história do PT como um médico de periferia, militante do movimento de esquerda Liberdade e Luta (Libelu), que logo ascendeu no partido, muito respeitado por Lula, mas que hoje se transformou num monstro para os petistas. Lula passou a nutrir uma admiração especial por Palocci quando ele ainda era prefeito de Ribeirão Preto. Foi o escolhido para substituir o prefeito de Santo André Celso Daniel, assassinado em janeiro de 2002, na coordenação de sua vitoriosa campanha para presidente naquele ano. Eleito, Lula foi a Ribeirão Preto e fez um apelo em praça pública para que Palocci largasse a prefeitura e assumisse o Ministério da Fazenda de seu governo. Confiança máxima.

O que não se sabia, e agora a delação desnuda, é que Palocci, a partir dali, passaria a ser o homem da mala de Lula, arrecadando recursos junto a empresários paulistas e até entregando dinheiro vivo ao ex-presidente. Na negociação de sua delação premiada com o Ministério Público Federal em Curitiba, onde está preso, Palocci já disse o que a ISTOÉ antecipou em maio: a Odebrecht disponibilizou R$ 300 milhões para o PT e Lula em 2010 e que seu assessor Branislav Kontiac, o Brani, chegou a entregar a Lula em 2012 mais de R$ 13 milhões em dinheiro vivo. Pessoalmente, Palocci diz que repassava pacotes com até R$ 50 mil para o ex-presidente. Quando alguém, que era carne e unha de Lula, dá detalhes como os fornecidos por Palocci, poucos duvidam da veracidade dos fatos.

Desvios no Instituto Lula

Na sua delação, Palocci conta como ajudou a gastar os R$ 300 milhões de Lula e do PT contabilizados no “departamento de propina” da Odebrecht. Lula, que tinha a alcunha de “amigo”, chegou a ter em um saldo de R$ 40 milhões em 2012 só para suas despesas pessoais. Mas só Palocci tinha autorização para sacar o dinheiro, como revelou o empresário Marcelo Odebrecht em depoimento ao juiz Sergio Moro. Palocci disse também aos procuradores que o ex-presidente desviou dinheiro doado ao Instituto Lula para custear despesas pessoais e de membros de sua família. De acordo com o ex-ministro, o caixa paralelo do instituto era administrado por Paulo Okamoto, presidente da entidade. Ainda no acordo de colaboração premiada, Palocci afirmou também que a atual presidente do PT, Gleisi Hofmann (PT-PT), se beneficiou das maracutaias do partido para ajudar empreiteiras. Segundo o ex-ministro, o PT ganhou R$ 50 milhões da Camargo Corrêa em 2009 para ajudar na anulação da Operação Castelo de Areia. Parte do montante foi repassada para a campanha de Gleisi em 2010.

Transcrito da Revista Isto É

10 setembro 2017 REPORTAGEM

FUNARO ENTREGOU R$ 11,4 MILHÕES EM DINHEIRO VIVO A GEDDEL

O ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima – 22/11/2016 

Operador financeiro dos esquemas de corrupção do ex-deputado Eduardo Cunha e do chamado “PMDB da Câmara”, o doleiro Lúcio Funaro revela em detalhes, no acordo de delação, como funcionava a entrega de malas de propina para o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima. Na edição que começou a circular nesta sexta-feira, a revista Veja revela com exclusividade os principais trechos do roteiro apresentado pelo doleiro no acordo. Segundo Funaro, em apenas dois anos, 2014 e 2015, Geddel recebeu 11,4 milhões de reais em dinheiro vivo divididos em 11 entregas operadas pelo doleiro. Os pacotes de dinheiro eram levados em um jato particular e entregue ao próprio ex-ministro em um hangar privado do Aeroporto Internacional de Salvador. Funaro também cita entregas em hotéis de São Paulo e da capital baiana. Ele diz ter entregue propina até na festa de 15 anos da filha de Geddel.

“Ao descer do avião (com a mala de dinheiro), era indagado por Geddel a respeito da quantia que estava sendo entregue. Geddel demonstrava naturalidade ao receber os valores”, diz Funaro. “Recorda-se de ter entregue dinheiro para Geddel em São Paulo, no Hotel Renaissense, na Alameda Santos, e uma vez em Salvador, no Hotel Pestana, no dia em que a filha de Geddel estava fazendo uma festa para comemorar seus 15 anos”, complementa o doleiro.

Geddel voltou a ser preso em regime fechado, pela Polícia Federal, na manhã desta sexta-feira. Ele foi detido no último dia 3 de julho, por decisão do juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, tendo sido transferido para a prisão domiciliar nove dias depois, por decisão do desembargador Ney Belo. Agora, o ex-ministro será levado de volta para Brasília, onde cumprirá a nova detenção preventiva, também assinada por Vallisney. O juiz ainda determinou a prisão do advogado Gustavo Ferraz e mandados de busca e apreensão nas casas de Geddel, da mãe dele, e de Ferraz.

A ação acontece três dias depois da Operação Tesouro Perdido, a descoberta de um apartamento que serviria de “bunker” para o ex-ministro. Após uma denúncia anônima, a PF fez no imóvel maior apreensão de dinheiro em espécie da história do país: 51 milhões de reais. Segundo os policiais, as digitais do ex-ministro foram encontradas nas cédulas e nas caixas que guardavam o valor dentro do apartamento.

No acordo de delação, o doleiro Lúcio Funaro apresentou aos investigadores da Procuradoria-Geral da República (PGR) registros de trocas de mensagens de celular com Geddel, históricos de voos do jatinho que fazia o “delivery” das malas para o ex-ministro, planilhas de pagamentos e, em alguns casos, até extratos bancários das operações. Amigo pessoal de Temer, Geddel foi ministro da Secretaria de Governo e tinha aval do presidente para comandar as relações do Planalto com o Congresso. Na delação, o doleiro narra em detalhes como funcionou o propinoduto na Vice-Presidência de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, entre 2011 e 2015, período em que Geddel comandou a repartição. Funaro descreve o ex-ministro, “amigo e interlocutor de Temer”, como um “forte arrecadador de doações e propinas”.

Em 2014, por exemplo, Funaro diz ter feito nove entregas de dinheiro vivo a Geddel. Uma de 600.000 reais e outra de 500.000 reais em fevereiro, uma de 800.000 reais em março, 1 milhão em maio, mais 1 milhão em julho, 1,5 milhão em agosto, 3,2 milhões em setembro, 1,2 milhão em outubro e 500.000 em dezembro. Em 2015, foram duas entregas de 500.000 reais cada.

Durante os governos do ex-presidente Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff, o grupo do PMDB da Câmara apoderou-se de cargos estratégicos no banco. Funaro conta que os peemedebistas usavam a influência política para favorecer empresários dispostos a pagar milionárias propinas para acessar as linhas de financiamento da Caixa.

Funcionava assim. Ora Lúcio Funaro ora Eduardo Cunha faziam os contatos com empresários interessados em obter empréstimos junto ao banco. Depois de negociar os valores da propina, Cunha negociava a liberação dos recursos com Geddel, que ocupava a vice-presidência de Pessoa Jurídica do banco. Quando o dinheiro saia, a propina era paga às empresas do doleiro Lúcio Funaro, que providenciava a partilha da propina.

No período em que o PMDB comandou o esquema na Caixa, cerca de 5 bilhões de reais, a sua maioria extraídos do FI-FGTS, um fundo de investimentos em infraestrutura administrado pela Caixa, foram liberados para empresas que pagaram aos peemedebistas mais de 170 milhões de reais em propinas.

Lúcio conta que conheceu Geddel por intermédio de Eduardo Cunha. O doleiro pagou propina pela primeira vez a Geddel depois de o peemedebista ter favorecido o empresário Joesley Batista, da J&F, em um negócio de 300 milhões de reais. O primeiro encontro ocorreu no hangar da Ibero Star, no aeroporto de Salvador. Funaro desceu com a mala recheada de dinheiro, conversou com Geddel por menos de dez minutos e voltou para o avião. Um encontro frio e rápido.

Com o tempo, porém, as entregas tornaram-se cada vez mais frequentes e Geddel, perdeu a cerimônia. Lúcio passou a entregar malas de dinheiro para o peemedebista em hotéis de São Paulo e Salvador e até no aniversário de 15 anos da filha de Geddel. O doleiro lembra que era comum, nas entregas de propina, ser recebido por um Geddel ansioso no aeroporto. Segundo o doleiro, durante os minutos que estava com o ex-ministro no hangar para repassar as malas, os dois “conversavam brevemente sobre política e sobre as próximas operações vislumbradas”. Lúcio diz no acordo que

A rotina de entregas seguiu firme e forte mesmo depois da deflagração da Operação Lava-Jato. Lúcio conta que não interrompeu o esquema porque ele e Geddel acharam que as investigações da Lava-Jato na Petrobras não iriam se expandir para outros setores do governo. O esquema mudou quando Lúcio passou a figurar como potencial alvo da polícia. O delator conta que, um pouco antes de ser preso, recebeu um recado de Geddel para que interrompesse os pagamentos. “Não… Para. Dá uma segurada e depois nós acertamos isso aí”, disse Geddel.

A última operação realizada por Geddel na Caixa ocorreu em 2015 e rendeu 20 milhões de reais em propina. O empresário Joesley Bastista pediu a Funaro a liberação de um crédito de 2,7 bilhões de reais, para a compra da Alpargatas, combinando o pagamento de uma comissão de 3% pela operação. Lúcio pediu a Geddel a liberação do crédito no banco. Antes de receber a propina, no entanto, Funaro foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal, o que assustou Geddel, que avisou: “Deixa esse dinheiro aí com você, não quero saber desse dinheiro, não sei o que pode lhe acontecer, se precisar você já tem dinheiro contigo”

Transcrito da Revista Veja

8 setembro 2017 REPORTAGEM

INACREDITÁVEL

Imagine a revolta, a dor, o murro no estômago de um brasileiro desempregado, apenas de um entre os treze milhões de brasileiros desempregados, apenas de um entre todos os brasileiros que ainda temem ficar desempregados, olhando as imagens das caixas e malas com a dinheirama do senhor Geddel Vieira Lima, toda ela “mocosada”, como diz a bandidagem, em um apartamento na cidade de Salvador. É um acinte. É inacreditável. É obsceno. É a dignidade do Brasil jogada no bueiro. E existe acinte maior ainda, que é o fato de o senhor Geddel Vieira Lima estar curtindo, pelo menos até a tarde da quarta-feira 6, uma tranquila prisão domiciliar. Em se confirmando por meio das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público que de fato ele é o dono da grana (dúvida não há, mas para a Justiça, acertadamente, é necessário prova), o seu lugar para morar chama-se cela de cadeia de segurança máxima. Vamos ao valor? Vamos ao cenário? Tudo se assemelha às cenas de filmes de roubo a banco: um apartamento, oito malas e seis caixas abarrotadas de dinheiro, e o maior valor em espécie já apreendido na história do Brasil – cerca de R$ 51 milhões, distribuídos em R$ 42.643.500,00 mais US$ 2.688.000,00. A Polícia Federal, assim que detonou o “cativeiro” desse dinheiro, necessitou de sete máquinas de contagem de notas e, mesmo munida delas, gastou aproximadamente quinze horas na contabilização das cédulas. A origem da “bufunfa” seria herança ou “coisas do papai”, a se depreender do que foi dito à PF pelo empresário Sílvio Antônio Cabral da Silveira. Contou ele que emprestara o seu apartamento da rua Barão de Loreto, numa nobre área de Salvador, ao “seu conhecido” Geddel, porque ele, Geddel, lhe dissera que precisava “guardar pertences do pai”, já falecido. Silveira assegurou ainda que não sabia que o local estava sendo utilizado para esconder todo esse dinheiro.

OPERAÇÃO – O dinheiro de Geddel encontrado num apartamento em Salvador: 15 horas para ser contado por sete máquinas

Uma pergunta óbvia, que enoja todo cidadão portador de um mínimo de moral e ética -menos ainda, portador de um único fio de vergonha na cara: de onde vieram esses R$ 51 milhões? PF e MP têm o dever de dar uma resposta rápida e certa, mas o raciocínio lógico diz que é propina – assim como as caixas e malas, que o escondiam, indicam que é propina; assim como o fato de alguém camuflar tal fortuna aponta que ela nasceu, cresceu e se fez gorda na propina. Mais do que isso: já identificaram algumas digitais de Geddel no apartamento. É só dinheiro sujo que se esconde, dinheiro limpo e ganho no trabalho circula à luz do dia. E qual a “casa da moeda” que produziu as notas da gatunagem? O senhor Geddel Vieira Lima foi vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, entre 2011 e 2013, e não são de hoje as acusações de que em seu tempo se plantaram e se colheram maracutaias. Esse é o entendimento do juiz Vallisney de Souza Oliveira, de Brasília, para quem existem provas de crimes relacionados à manipulação de crédito e recursos. Foi o magistrado Vallisney que ordenou a invasão do apartamento, e vem dele a nossa fé: não é possível que o dono do “ervanário” não vá logo para a cadeia.

GEDDEL SUPERA AL CAPONE

As investigações começaram no dia 14 de julho, quando o Núcleo de Inteligência da Polícia Federal foi avisado de que um apartamento do segundo andar do edifício José da Silva Azi estava servindo de “aparelho” para uma pessoa guardar pertences da família – é a história na qual o nome do pai morto foi usado, sem o menor repeito à sua memória, pelo filho vivo, e muito vivo. Tal apartamento, de número 201, está registrado como sendo do empresário Sílvio, que por enquanto se exime dos rótulos de cúmplice e de laranja. Ocorre, no entanto, que também ele já está bem enrolado na Justiça, respondendo a processo por corrupção e sob a acusação de ter desviado R$ 620 milhões da Empresa Baiana de Alimentos. A menos de um quilômetro do apê da grana mora Geddel, um preso domiciliar sem tornozeleira porque esse instrumento, estranhamente, está cada vez mais raro no Brasil quando se trata de criminosos, digamos, do andar de cima – para preso rastaquera, se alguém mandar, tem até coleira. O senhor Geddel está supostamente recluso em casa porque atuou juntamente com Eduardo Cunha, trancafiado já em Curitiba, na liberação de nada menos R$ 1,2 bilhão em empréstimos para empresas em troca de propinas. Geddel também é acusado de obstrução de Justiça para evitar que Cunha, o ex-parceiro de quadrilha, fechasse acordo de delação premiada. Foi mais longe para tentar fechar a boca do megadoleiro Lúcio Funaro, que confessou a entrega de malas para Geddel no aeroporto de Salvador.

De volta ao dinheiro, é mesmo inacreditável! Com Geddel, como dito acima, o Brasil tem agora a sua maior apreensão de dinheiro roubado. Os seus R$ 51 milhões deixam comendo poeira os R$ 12,8 milhões da máfia de auditores da Receita Federal que já estiveram no topo da rapinagem em 2011. Deixam também em segundo plano os R$ 2,1 milhões do megatraficante Juan Carlos Abadia, preso em 2007. Geddel é profissonal. No ranking mundial de dinheiro apreendido pela polícia, ele situa-se agora na sétima posição, e lembre-se, leitor, que o mundo já teve, por exemlo, tipos como Alphonsus Capone, Pablo Escobar, Ronald Biggs. Geddel é “profissa”, deixou até o meganarcotráfico envergonhado. Mas ele se esforçou, fez carreira no crime, a sua “capivara” vem desde a juventude. Para ficarmos somente em dois casos, foi acusado de desviar dinheiro do Banco do Estado da Bahia, coisa grande, assim como grande foi o escândalo conhecido como “Anões do “Orçamento”, no qual Geddel liberava emendas parlamentares em troca de propina de empreiteira. Para se ter uma ideia do predador social que ele é, com os seus R$ 51 milhões (84 vezes o valor do apartamento que o ocultava) pagam-se 54 mil salários mínimos e executam-se 500 operações de fígado. Na caderneta de poupança (o mais conservador dos investimentos), esse “crime das malas” renderia mensalmente cerca de R$ 255 mil. Se comparada com a bagagem do senhor Geddel, a mala de rodinhas de Rocha Loures virou pochete. Talvez isso anime a 3ª Turma do TRF de Brasília, que o mandou para casa sem tornozeleira, a trancá-lo na prisão. E, falando de novo em tornozeleira de preso, com os R$ 51 milhões compram-se 170 mil peças – uma delas, urgente, Geddel pode dar de presente a si próprio. Os brasileiros que suam no trabalho e são honestos agradecem.

R$ 51 milhões ou…

– 54 mil vezes o valor do salário mínimo;
– 170 mil tornozeleiras eletrônicas poderiam ser compradas
– 22.174 professores de escolas públicas receberiam salário
– R$ 255 mil é o rendimento mensal na poupança- 618 ambulâncias seriam compradas pelo SUS

O que pesa contra Geddel

– Em 1984, aos 25 anos, foi acusado de desviar milhões do Banco do Estado da Bahia para beneficiar a família

– Em 1994, já deputado federal, foi associado ao escândalo dos “Anões do Orçamento”, quando seu nome apareceu em um papel encontrado na casa de um diretor da Odebrecht com a mensagem “4%”

– Entre 2011 e 2013, como vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, e mesmo após deixar o cargo, continuou a fazer negociações ilícitas prejudicando a instituição financeira

– Em julho de 2017, esteve preso preventivamente por decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira por tentar impedir que o doleiro Lúcio Furnaro fizesse delação

– Em depoimento, Funaro afirmou que Geddel teria recebido cerca de
R$ 20 milhões a título de propina pela atuação em esquema ilícito

– Funaro também revelou que fez diversas viagens para entregar malas de dinheiro para Geddel, na sala vip do aeroporto de Salvador

QUADRILHA – Geddel tentou impedir que Lúcio Funaro (à esq., no banco detrás) o denunciasse. O doleiro confessou que lhe entregava malas com dinheiro

Transcrito da Revista Isto É

8 setembro 2017 REPORTAGEM

A QUADRILHA DOS MALFEITORES

PauloBernardo, Vaccari, Dilma, Palocci, Lula, Gleisi, Mantega e Edinho

Nunca, na história deste País, se roubou tanto como nos governos petistas de Lula e Dilma. De 2003 a 2016, a quadrilha do PT, que teve Lula como “o grande idealizador”, recebeu R$ 1,485 bilhão em propinas. Desse valor, somente o ex-presidente Lula embolsou R$ 230,8 milhões das construtoras OAS e Odebrecht, como contrapartida por ter ajudado os negócios das empreiteiras em obras da Petrobras. Esse é o resumo da denúncia feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF) na última quarta-feira 6, e que enquadrou os dois ex-presidentes nos crimes de organização criminosa, como resultado do inquérito chamado de “quadrilhão do PT”. Foram denunciados também a senadora e presidente do PT Gleisi Hoffmann, o marido dela, o ex-ministro Paulo Bernardo, o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e mais três ex-ministros: Antônio Palocci, Guido Mantega e Edinho Silva. As penas aos petistas podem ir de três a oito anos de cadeia. Por ser chefe da quadrilha, como disse Janot, Lula deverá ser condenado a uma pena ainda maior.

O desfalque na Petrobras

Em 209 páginas de sua denúncia, o procurador Rodrigo Janot mostra que a alta cúpula do PT se estruturou para assaltar os cofres públicos, especialmente da Petrobras, mas também do BNDES e do Ministério do Planejamento. Somente à Petrobras, o esquema petista provocou um prejuízo de R$ 29 bilhões. Para ressarcir parte desses danos, o procurador pede que o STF faça o bloqueio de R$ 6,5 bilhões dos bens dos oito denunciados. Esta é a sétima denúncia contra Lula. Janot diz que o ex-presidente continuou recebendo propina inclusive depois que deixou a presidência. Se o STF aceitar a denúncia, Dilma pode se sentar no banco dos réus pela primeira vez na Lava Jato.

O “quadrilhão” petista tem um peso enorme em esquemas ilícitos por envolver dois ex-presidentes, que tinham pleno conhecimento de todas as falcatruas em seus governos, segundo o MPF. Somente as empresas do grupo Odebrecht, por exemplo, de 2002 a 2014, pagaram a título de propina mais de R$ 400 milhões ao PT. As relações espúrias do partido com empresas privadas também envolviam OAS, Andrade Gutierrez, UTC e JBS. Durante o primeiro mandato, de acordo com Janot, Lula articulou a compra de apoio político de parlamentares com uso de dinheiro público: o PP levou R$ 390 milhões, o PMDB do Senado pelo menos R$ 600 milhões e o PMDB da Câmara outros R$ 350 milhões.

Durante seu governo, Dilma deu seguimento a todas as tratativas ilícitas iniciadas por Lula. Em muitos casos, a ex-presidente atuou de forma indireta por intermédio dos então ministros Guido Mantega e Edinho Silva, na cobrança de valores ilícitos junto a empresários. O caso está nas mãos do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato em função do envolvimento da senadora Gleisi Hoffmann, que tem foro privilegiado.

Num recorde de Janot, que deixa o cargo no próximo dia 17, a Procuradoria-Geral da República fez nova denúncia contra Lula, Dilma e o ex-ministro Aloizio Mercadante na tarde de quarta-feira 6, desta vez por obstrução de Justiça. Lula e Dilma são investigados desde agosto de 2016, com base no vazamento de uma gravação feita pela PF nos telefones do ex-presidente. No diálogo entre os dois, em março do ano passado, Dilma diz a Lula que está enviando um emissário, “o Bessias” (na verdade ele chama-se Jorge Messias), com um termo de posse do petista como ministro da Casa Civil para qualquer emergência. Lula responde que está aguardando o documento e despede-se dizendo “tchau querida”. O Ministério Público entendeu que a nomeação açodada objetivava conceder foro privilegiado a Lula, impedindo eventual pedido de prisão contra ele. Já o ex-ministro Mercadante é acusado de tentar impedir a delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral.

Dr. Honoris Causa em corrupção

As investigações mostram que o ex-presidente Lula é expert em desvios de dinheiro público

– A Procuradoria-geral da República acusa o ex-presidente de ser o “grande idealizador” da organização criminosa formada no governo federal para desviar recursos da Petrobras. De 2002 a 2016, a quadrilha de Lula recebeu R$ 1,48 bilhão em propina

– Entre os 128,1 milhões que Lula recebeu da Odebrecht, estão R$ 12,4 milhões gastos na compra de um terreno para o Instituto Lula e R$ 504 mil na aquisição de uma cobertura ao lado da sua em São Bernardo

– Dos R$ 27 milhões que o ex-presidente recebeu da OAS, estão contabilizados o tríplex que ele ganhou no Guarujá. Por causa desse imóvel, Lula foi condenado a uma pena de nove anos e seis meses de prisão

– Lula é reu ainda em outros cinco processos, a maioria por corrupção. Na última denúncia, ele é acusado de receber R$ 1,02 milhão da OAS e Odebrecht para a reforma do sitio de Atibaia

Transcrito da Revista Isto É

8 setembro 2017 REPORTAGEM

PALOCCI ENTREGA LULA

FIM DA LINHA – Os crimes revelados por Palocci podem colocar Lula atrás das grades

O mito Lula foi, definitivamente, destruído. Primeiro petista a delatar o ex-presidente, o ex-ministro Antonio Palocci revelou que Lula fez um “pacto de sangue” com o empreiteiro Emilio Odebrecht para continuar a receber propinas da empreiteira mesmo depois de deixar o governo. Em depoimento de duas horas ao juiz Sergio Moro, Palocci foi demolidor ao revelar que no dia 30 de dezembro de 2010, no apagar das luzes de seu governo, Emílio pediu que Lula garantisse que Dilma Rousseff manteria as benesses para sua empresa no novo governo petista. “Emílio Odebrecht abordou Lula no final de 2010. Não foi para oferecer alguma coisa. Foi para fazer um pacto, que eu chamei de pacto de sangue, que envolvia um presente pessoal, que era o sítio de Atibaia. Envolvia o prédio do Instituto Lula pago pela empresa. Envolvia palestras pagas a R$ 200 mil, fora impostos. E envolvia mais R$ 300 milhões à disposição do ex-presidente para atividades futuras. E poderia ser até mais se fosse preciso”, afirmou Palocci. Até petistas que tiveram acesso ao depoimento de Palocci comentaram estupefatos: foi a pá de cal sobre Lula.

Crimes em série

Palocci, que está preso em Curitiba desde setembro do ano passado, foi intimado por Moro para depor no caso em que ele e Lula são réus pelo recebimento de R$ 75 milhões da Odebrecht em oito contratos com a Petrobras. Nesse valor, segundo a Força Tarefa da Lava Jato, estão incluídos R$ 12,5 milhões gastos na compra do terreno para o Instituto Lula na Vila Mariana, em São Paulo, e R$ 504 mil usados na aquisição de uma cobertura para Lula em São Bernardo do Campo, localizada ao lado de sua atual residência. O ex-ministro chegou à audiência com Moro disposto a entregar Lula e suas relações ilícitas com a Odebrecht. Falando pausadamente e aparentando calma, Palocci detonou o ex-presidente já ao responder a primeira pergunta feita por Moro sobre a compra do terreno para o Instituto Lula. “As acusações são verdadeiras doutor Moro”. Ele disse que chegou a alertar Lula de que esse negócio daria dor de cabeça. Confirmou que ele foi o intermediário de uma doação de R$ 4 milhões da Odebrecht para o Instituto Lula entre em 2013 e 2014, “para cobrir um buraco nas contas do instituto”.

RÉU CONFESSO Palocci confessou a Moro que ajudou Lula a cometer vários crimes 

O ex-ministro confessou ter participado dos crimes atribuídos a Lula e detalhou a relação ilícita existente entre a Odebrecht e os governos Lula e Dilma. O ex-ministro se colocou como um interlocutor dos interesses da empresa junto ao governo, tratando de todos os temas, inclusive ilícitos. “A relação da Odebrecht com os Governos Lula e Dilma sempre foi intensa, movida a vantagens e propinas”, disse. “Os fatos narrados nesta denúncia dizem respeito a um capítulo de um livro um pouco maior do relacionamento da Odebrecht com o governo do presidente Lula e da presidente Dilma. Foi uma relação bastante intensa, bastantes vantagens dirigidas à empresa, propinas pagas em forma de doação de campanha, caixa 1 e 2, benefícios pessoais”, relatou Palocci. Pela primeira vez, o ex-ministro reconheceu que a alcunha “italiano” nas planilhas da Odebrecht se referia a ele. Por meio da conta “italiano”, Palocci movimentou R$ 128 milhões. Ele garantiu, também, que Lula era o “amigo” das planilhas, que chegaram a registrar, em 2012, um saldo de R$ 40 milhões em nome do ex-presidente.

Em fase de negociação de acordo de delação premiada, Palocci confessou também outro crime: que ele e Lula tramaram para obstruir as investigações da Lava Jato. “Em algumas oportunidades, eu me reuni com o ex-presidente Lula no sentido de buscar, vamos dizer, criar obstáculos à evolução da Lava Jato”.

O homem que sabe demais – Palocci está preparando delação premiada e vai contar que:

– Ele é o “italiano” das planilhas da Odebrecht, que atribuíram a ele um total de R$ 128 milhões

– Lula é o “amigo” citado nas planilhas e chegou a ter uma conta corrente no departamento de propinas da empreiteira com R$ 300 milhões

– Em 2012, o saldo dessa conta de Lula era de R$ 40 milhões

– Em 2009, a Odebrecht deu R$ 50 milhões em propinas para o PT em troca de benefícios fiscais para a Brasken, pertencente ao grupo

– Em 2010, com a criação da Sete Brasil, destinada a fabricar as sondas para a exploração de petróleo, Lula ganhou R$ 51 milhões

– A Projeto, empresa de consultoria de sua propriedade, foi usada para o recebimento de propinas das empreiteiras. De 2006 a 2015, a empresa movimentou R$ 107 milhões

Transcrito da Revista Isto É

4 setembro 2017 REPORTAGEM

QUANDO A REALIDADE É MAIS FORTE QUE A FICÇÃO

Se fosse preciso resumir em uma única frase a operação Lava Jato, ela poderia ser a seguinte: a maior e mais espetacular investigação da história do Brasil começou com a apreensão de um caminhão carregado de palmito e resultou na queda de uma presidente da República, na prisão de empresários e políticos graúdos e no desmantelamento de um esquema de corrupção que movimentou dezenas, talvez centenas de bilhões de reais. Por mais absurda que a descrição acima possa parecer, ela corresponde à realidade. Não surpreende, portanto, que a história tenha virado filme. No próximo 7 de setembro, estreia no País a primeira versão da trilogia “Polícia Federal – A Lei é para Todos”, que tem a ingrata missão de desbravar os labirintos da Lava Jato. A tarefa é mesmo hercúlea. Inenarrável para ouvidos desatentos, a Lava Jato fez ruir o PT, até então o maior partido do Brasil, colocou na cadeia Eduardo Cunha, número 1 da Câmara dos Deputados, encarcerou o empreiteiro bilionário Marcelo Odebrecht, além de levar à condenação de Lula e de desfazer o mito em torno dele, para citar os exemplos mais vistosos. Como retratar tudo isso no espaço restrito de um filme? “A Lava Jato nasceu para o cinema”, diz o cineasta Marcelo Antunez, também diretor das comédias “Até que a Sorte nos Separe 3” e “Qualquer gato vira-lata 2.” Depois de assistir a “Polícia Federal – A Lei é para Todos”, descobre-se algo mais revelador do que o filme em si: no caso específico da Lava Jato, a realidade é mais extraordinária do que a ficção.

A LEI É PARA TODOS – O ex-presidente Lula foi conduzido coercitivamente para depor na PF do Aeroporto de Congonhas. Ele protestou dizendo-se “preso político”. O ator Ary Fontoura (acima) interpretou Lula no filme

A apreensão do carregamento de palmito é uma das cenas mais eletrizantes do longa, mas ela traz apenas uma fração de como foi o episódio e o que ele representou de fato. A Operação Lava Jato surgiu porque a Polícia Federal queria desmantelar quadrilhas lideradas por quatro grandes doleiros brasileiros. Entre eles, Carlos Habib Chater, de Brasília, que possuía uma casa de câmbio, um posto de gasolina e um lava jato de automóveis. Por ordem do juiz Sergio Moro, a PF fez demorada escuta em seus telefones, mas a investigação não evoluía. Embora falasse com vários doleiros, Chater não citava nomes. Até que um doleiro ligou e identificou-se como Beto. Ao ouvir a escuta, o delegado Marcio Anselmo, de Curitiba, reconheceu a voz. Tratava-se de Alberto Youssef, que Anselmo havia prendido em 2003, na Operação Banestado.

DOLEIRO DRIBLOU – A PF Alberto Youssef iria ser preso em seu apartamento em São Paulo, mas ele fugiu do cerco dos agentes e foi parar em São Luís (MA), onde entregou uma mala de dinheiro

No dia 21 de novembro de 2013, a PF desencadeou uma operação que resultou na apreensão de 698 quilos de cocaína, na rodovia Washington Luiz, nos arredores de Araraquara, no interior de São Paulo. A droga estava escondida em meio a uma carga de palmito. A PF descobriu que a cocaína foi paga com dinheiro de Charter, o que reforçou a denúncia do envolvimento dele com o câmbio ilegal e o tráfico de drogas. Diante das conexões entre Chater e Youssef, o juiz Sergio Moro mandou prender os dois. Yousseff, lembre-se, foi o ponto de partida que levou aos desvios na Petrobras. Depois disso, o enredo da Lava Jato começou a se aproximar cada vez mais do ambiente político. Em pouco tempo, Brasília inteira estaria desmoralizada.

O FIO DA MEADA – Para desmantelar o maior esquema de corrupção do País, o juiz Sergio Moro ouviu mais de 300 acusados e milhares de testemunhas. Em quase quatro anos de operação, o depoimento mais conturbado foi o do ex-presidente Lula

O choro do delegado

A trama de “Polícia Federal – A Lei é para Todos” não faz jus aos eventos impressionantes que se desenrolavam na vida real, mas causou diferentes sensações nos personagens envolvidos. Na pré-estreia realizada na semana passada, em Curitiba, o delegado Márcio Anselmo, aquele que reconheceu a voz de Youssef na gravação telefônica, emocionou-se ao se ver retratado no cinema. Em uma das cenas em que aparece, Anselmo chorou. “É que ele achou que fosse Titanic”, brincou o também delegado Maurício Moscardi. Durante a exibição do longa, os juízes Marcelo Bretas e Sergio Moro, figuras centrais da operação, permaneceram impassíveis enquanto saboreavam uma porção generosa de pipoca. A plateia formada principalmente por procuradores, delegados e juízes não resistiu a duas cenas. A sala 5 veio abaixo quando o japonês da federal, famoso por aparecer em um sem-número de prisões realizadas pela PF, surge na tela. O ator Ary Fontoura também arrancou risos ao imitar a voz e os trejeitos do ex-presidente Lula. No final, embora o filme não seja nenhuma obra-prima, ele foi aplaudido de pé pela plateia. Ninguém, porém, foi mais reverenciado do que o juiz Moro, que tem se acostumado a ser recebido assim em eventos públicos.

PRISÃO DO PRÍNCIPE – A prisão de Marcelo Odebrecht, conhecido como “o príncipe”, foi um divisor de águas: com ele foram obtidas provas que desmoronaram o cartel das empreiteiras

É sintomático que um País tão machucado por denúncias de corrupção quanto o Brasil aguarde com ansiedade a estreia nas telas de um filme que tem a Lava Jato como inspiração. Segundo o cineasta Marcelo Antunez, “Polícia Federal – A Lei é para Todos” chegará a 1.000 salas de cinema. Para efeito de comparação, o longa “Tropa de Elite”, um dos maiores sucessos da história do cinema nacional, foi exibido em 500 endereços. A Lava Jato não só tem colocado corruptos nas cadeias. Um de seus efeitos notáveis será a profunda transformação do País. Graças a ela, o próprio sistema político vem sendo questionado e, também em decorrência de seus desdobramentos, as grandes corporações ficaram mais atentas a desvios de conduta.

Na semana passada, ISTOÉ entrevistou cerca de 30 personalidades brasileiras para ouvir o que tinham a dizer a respeito da Lava Jato. É quase um consenso que ela representa uma oportunidade única para o País. Com a Lava Jato, quebra-se o tabu que prevalecia na sociedade brasileira de que a lei penal só existia para os pobres”, diz o jurista Miguel Reale Júnior. Para o médico Claudio Lottenberg, presidente do UnitedHealth Group Brasil, “sua grande contribuição é o resgate de valores em um País que precisa de honestidade e transparência.” Segundo o publicitário Nizan Guanaes, o mais importante é o legado que a operação deixará. “Não conheço país emergente que esteja fazendo uma lição de casa tão importante quanto a nossa.” A opinião é compartilhada pelo empresário Carlos Wizard. “Depois da Lava Jato, o Brasil tem tudo para decolar.” Os elogios vêm de todas as áreas. “A Lava Jato é a porção redentora da Justiça brasileira”, diz a jornalista Marília Gabriela. “Ela é uma luz no fim do túnel”, afirma o apresentador Jô Soares. O grande sentimento da sociedade é que a Lava Jato não vai – e não pode em hipótese alguma – parar.

MESTRE DO POWER POINT -NO procurador Deltan Dallagnol, um dos principais investigadores da Lava Jato, ficou conhecido pela riqueza de dados expostos em suas apresentações

A Fuga de Youssef

A Lava Jato não é apenas espetacular pelo que representa. A estratégia e as ações da PF foram elas próprias cinematográficas. Por ironia, o filme não consegue traduzir nas telas a fortuna dos acontecimentos reais. Tome-se como exemplo o cerco a Alberto Youssef. Apesar de o filme representar a prisão de Youssef como uma tentativa de fuga, que não existiu, o caso teve contornos dramáticos que superam qualquer ficção. O juiz Sergio Morou determinou que Youssef fosse preso no dia 17 de março de 2014, uma segunda-feira. No domingo anterior, agentes da Polícia Federal constataram que ele estava no apartamento em um bairro nobre de São Paulo e depois retornaram para o hotel onde passariam a noite. No dia seguinte, por volta das 6h da manhã, voltariam para prender o doleiro. Desconfiado de que estava sendo monitorado, Youssef desligou os celulares e foi para o Aeroporto de Congonhas, onde havia um jatinho à sua espera. Ele ficou no ar por quatro horas e chegou a São Luís, capital do Maranhão, no início da madrugada. Só então ele religou os celulares. O delegado Marcio Anselmo fazia o monitoramento dos telefones de Youssef em Curitiba. Quando viu no sistema que Youssef estava longe de São Paulo, enlouqueceu. Anselmo esbravejou contra os agentes que o deixaram sair do apartamento sem vigia.

HORA DE RELAXAR – O juiz Sergio Moro (à dir.) assiste à pré-estreia do filme sobre a Lava Jato dividindo pipoca com o juiz Marcelo Bretas

Para encontrar Youssef, o delegado telefonou para vários hotéis de São Luís. Numa derradeira tentativa, o encontrou no Hotel Luzeiros. Antes de ser preso, Youssef precisava concluir o trabalho que o levou àquela cidade: entregar uma mala com R$ 1,4 milhão em propinas a João Abreu, chefe de gabinete da governadora Roseana Sarney. Fez isso em um dos quartos do hotel e esperou tranquilamente a PF chegar às 6h, quando foi preso. Convenhamos: os episódios descritos acima não parecem cena de cinema? É uma pena que o filme não apresenta tamanha riqueza de detalhes. O longa também comete o pecado de ignorar o passado de Youssef. Em 2003, ele foi preso no caso Banestado e fechou um acordo de delação premiada. Tempos depois, voltou a praticar os ilícitos que o conduziram ao escândalo da Lava Jato.

Preso, Youssef levou a Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da Petrobras com quem fazia negócios escusos. A história de Costa é igualmente cinematográfica. Foi ele quem revelou em detalhes o funcionamento do cartel de empreiteiras que fraudavam licitações da Petrobras, além de citar nomes de políticos beneficiados com propinas milionárias. Uma história pouco conhecida do público foi retratada no filme. Enquanto ainda negava a prática de atos ilícitos, o ex-diretor ordenou que familiares destruíssem documentos comprometedores. Os papéis foram queimados em uma churrasqueira. No longa, os agentes da PF encontram, nos restos do fogo, papéis intactos que levam até uma conta secreta na Suíça. Na realidade, foram achados vestígios de documentos queimados. O filme, porém, ignora o aspecto mais importante: em sua delação, Costa contou como funcionavam os cartéis na Petrobras, os valores que eram destinados aos políticos, deu detalhes preciosos do envolvimento do PT, PP e PMDB no esquema e enumerou mais de 15 empreiteiras que participavam da engrenagem de corrupção. Foi a partir disso que a Lava Jato desmantelou uma fábrica de propinas da Petrobras que desviou mais de R$ 40 bilhões dos cofres da estatal para o bolso sujo dos políticos.

Apesar de falhar em reproduzir os meandros da Lava Jato, o filme traz cenas saborosas. A prisão do empreiteiro Marcelo Odebrecht é uma delas. Ao receber os policiais em casa, o personagem os alerta: “Cuidado com tapetes e móveis, porque eles são novos.” A frase realmente foi dita aos agentes, que lembram que Odebrecht, na viatura e já sob as garras da Justiça, queria orientá-los sobre qual caminho seguir para fugir do trânsito. “Marcelo Odebrecht foi preso exatamente com aquela postura de quem achava que logo seria solto”, diz o delegado Igor de Paula, delegado-chefe dos investigadores da Lava Lato. De novo, porém, o longa falha em retratar a real dimensão dos personagens. A apreensão do celular de Odebrecht foi o fio condutor de um esquema sem precedente no Brasil. Somente um longo trabalho de perícia permitiu acessar o conteúdo do aparelho. Com as informações contidas ali, descobriu-se, entre outras preciosidades, que a empresa contava com um “setor de operações estruturadas”, eufemismo para o departamento da Odebrecht destinado a pagamentos de propinas.

Em Curitiba, cidade que foi tomada por R$ 4 bilhões falsos como marketing para divulgar o longa

Protagonistas – Os atores em frente ao prédio da PF em Curitiba: orçamento de R$ 15 milhões

A primeira parte da trilogia sobre a Lava Jato decepciona quando trata dos dois personagens mais simbólicos da operação: o juiz Sergio Moro e o ex-presidente Lula. Por razões inexplicáveis, Moro surge nas telas em breves momentos, enquanto o filme termina com a condução coercitiva de Lula. Graças a Moro, 157 pessoas foram condenadas a 1.563 anos de prisão. O juiz autorizou 158 acordos de delação, que acabaram por implodir a corrupção sistêmica na Petrobras. Como o filme é contado sob a ótica da Polícia Federal, Moro tem papel secundário, e isso de certa forma deixa a obra desconectada da realidade. Acredite: o personagem sequer tem nome, uma injustiça que precisa ser corrigida nas duas próximas sequências da trilogia. Ao que tudo indica, Lula e seus desvios também serão abordados com maior profundidade. Mesmo assim, é possível vislumbrar o personagem canastrão. “Vocês ainda vão me pedir perdão de joelhos”, disse o ex-presidente em discurso no Recife. Na vida real, Lula foi ainda mais irresponsável. Peitou autoridades (para ele, o procurador Deltan Dallagnol não passa de “um moleque”), disse que a Lava Jato era palhaçada e, depois da delação do senador Delcídio do Amaral, referiu-se a ele como imbecil e idiota. Agressões como essas não deixam dúvidas: no caso da Lava Jato, a realidade dá um banho na ficção.

Luz, câmera e ação

– O filme “Polícia Federal – A Lei é para Todos” tem cerca de duas horas e dez minutos de duração

– A produção do longa custou R$ 15 milhões

– Os financiadores do filme não querem ser identificados e não contaram com leis de incentivo à cultura

– As gravações começaram em novembro de 2016, mas o trabalho de pesquisa teve início um ano antes

– A Polícia Federal deu apoio e suporte logístico para a produção, com filmagens em finais de semana na sede da Superintendência da PF em Curitiba

– A produção contratou centenas de figurantes em Curitiba, que receberam cerca de R$ 50 por dia de gravação

– O filme estreia no dia 7 de setembro e tem direção de Marcelo Antunez, com produção de Tomislav Blazic. O elenco é composto por artistas como Antonio Calloni, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky, João Baldasserini, Marcelo Serrado, Rainer Cadete e Ary Fontoura

– Foi Inspirado no livro homônimo de autoria de Carlos Graieb e Ana Maria Santos

– Haverá ainda outros dois filmes sobre a operação. O segundo já em desenvolvimento e abordará eventos ocorridos após março de 2016, como as delações de Marcelo Odebrecht e da JBS, além da prisão do ex-governador Sérgio Cabral

Transcrito da Revista Isto É

28 agosto 2017 REPORTAGEM

A DELAÇÃO DO DECANO DAS PROPINAS

O ELO – Vaccarezza era quem informava Lula sobre as operações; FALTA POUCO – Negociações de Jorge Luz com a Lava Jato estão avançadas; DE NOVO ELE – O hexa-réu Lula está enredado em escândalo filhote do Petrolão

Lobista com 30 anos de experiência no submundo da Petrobras, Jorge Luz prepara uma bomba de potencial devastador para ser detonada em breve. Ao lado de seu filho Bruno Luz, o operador está em estágio avançado de negociação com o Ministério Público Federal para celebrar um acordo de delação premiada. Nos últimos dias, Jorge e Bruno Luz, presos desde fevereiro, compartilharam com a Polícia Federal informações, documentos e arquivos eletrônicos que compõem o arcabouço daquilo que irão revelar. O MP sabia, até então, que a família Luz era useira e vezeira em operar propinas na Petrobras em favor de expoentes do PMDB, PP e PT. No PT, o elo com o esquema arquitetado pelos Luz era o deputado e ex-líder do PT na Câmara Cândido Vaccarezza, preso pelo juiz Sergio Moro há duas semanas. O material entregue à PF acrescenta personagens de proa da política nacional ao enredo de desvios na estatal intermediados por Jorge e Bruno Luz. O principal deles é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A julgar pelo que contam os lobistas, o petista, hoje réu em seis processos e condenado em primeira instância a nove anos e seis meses de prisão, coloca suas digitais nessa nova vertente do escândalo do Petrolão: a que apura negócios criminosos operacionalizados pela “Brasil Trade”, uma sociedade composta por corruptos, corruptores e operadores de propinas criada para desviar recursos de contratos com a Petrobras.

Mais um propinoduto

Em material entregue ao MPF, delatores falam de reunião entre Lula e Vaccarezza para tratar do esquema Trafigura/Brasil Trade. Segundo os Luz, ex-presidente avalizou operação

Desde a semana passada, a Polícia Federal tem em seu poder anotações fornecidas pelos lobistas que indicam um encontro de Vaccarezza, o intermediário dos Luz no esquema, com Lula. Na reunião com o então líder do PT, segundo informaram os delatores à PF, o ex-presidente deu aval a uma negociata nada republicana entre a Petrobras e a Trafigura – que, de 2003 a 2015, ou seja, durante a era petista no poder, movimentou US$ 8,6 bilhões em compras e vendas de derivados de petróleo. Segundo a proposta de delação, hoje na mesa do MPF, em 2010, último ano de Lula na Presidência, a “Brasil Trade” de Jorge Luz, com ajuda de Vaccarezza, fazia o diabo para tentar celebrar um dos contratos entre a estatal e a Trafigura, dona de escritórios em 58 países. Para a negociação sair, teve de envolver, segundo os informes da família Luz, as três principais diretorias da Petrobras. Elas eram controladas pelo PT, o PMDB e o PP. Os petistas sustentavam Renato Duque, na diretoria de Serviços. Os peemedebistas Jorge Zelada, que sucedeu Nestor Cerveró, na diretoria Internacional. E a bancada do PP, com as bênçãos dos senadores do PMDB, mantinham Paulo Roberto Costa, na diretoria de Abastecimento.

Pelo acordo, os partidos endossariam a tramóia e, em contrapartida, se beneficiariam financeiramente do negócio. Leia-se: seriam contemplados com polpudas propinas. Para concretizar a operação, Vaccarezza participou pessoalmente da articulação. Mas não agiu sozinho: contou com o sinal verde do ex-presidente Lula. Os manuscritos fornecidos pelos Luz à PF contém relatos de que, no encontro com o ex-presidente Lula, Vaccarezza comunicou-lhe que as três legendas concordaram com a operação ilegal. Ao que Lula aquiesceu. ISTOÉ teve acesso ao documento no qual a PF reproduz a anotação dos delatores. A Polícia Federal ainda tenta arrancar mais detalhes dos encontros com o ex-presidente petista. O que os investigadores já são capazes de concluir é que Vaccarezza atuava como uma espécie de pombo-correio de Lula. Era por meio dele que o ex-presidente, hoje hexa-réu, acompanhava de perto as negociatas na Petrobras de interesse dos partidos integrantes de sua base de apoio.

Para cumprir a tarefa, Vaccarezza era bem aquinhoado. De acordo com os delatores, o líder petista era contemplado com R$ 400 mil. A propina era entregue a Vaccarezza em espécie, em geral, em restaurantes: um self-service localizado no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo e em um estabelecimento em Campinas, no interior paulista. Segundo os lobistas, Vaccarezza chegou a pedir, em determinado momento, R$ 100 milhões, para fazer deslanchar inúmeros negócios na Petrobras.

DELATADOS PELA FAMÍLIA – Luz, Lula e Renan, ao lado de seu filho, trocaram afagos durante caravana em Alagoas. A imagem tem tudo para virar a expressão do abraço de afogados

Nas últimas semanas, a Lava Jato começou a fechar o cerco sobre a “Brasil Trade”, que intermediou a transação entre a Petrobras e a Trafigura, com a providencial contribuição de Vaccarezza e a anuência de Lula. Os investigadores acreditam que a empresa seja uma complexa organização destinada a sangrar a Petrobras – e desviar dinheiro para partidos. De acordo com as apurações preliminares, na distribuição do butim , 40% do total de propinas caberiam a PT e PMDB.

Segundo Cerveró, como o volume de dinheiro envolvido na operação da Trafigura era muito grande, os centavos das negociações rendiam milhões de dólares em propinas

Não é a primeira vez que a área de trading de combustíveis e derivados do petróleo aparece na Lava Jato. Em suas delações premiadas, o ex-diretor Internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró, e o ex-senador Delcídio Amaral relataram que essa área era um “terreno fértil para ilicitudes”, pois os preços poderiam variar artificialmente gerando uma “margem para propina”. Durante colaboração à Lava Jato, Cerveró disse que a Trafigura era uma das principais empresas atuantes no setor e que como o volume de dinheiro envolvido era muito grande apenas “os centavos” das negociações diárias podiam “render milhões de dólares ao final do mês em propina”. Documentos apreendidos na residência de Paulo Roberto Costa também já faziam referência aos negócios envolvendo a Trafigura. Num dos relatórios que o doleiro Alberto Youssef trocava com Paulo Roberto, ele tece críticas à Trafigura. “Está inadimplente em 2013”, escreveu. “Estou cobrando o Mariano. Disse que resolveu, mas ainda não tive confirmação do banco.” Mariano é o empresário Mariano Marcondez Ferraz, executivo do grupo Trafigura preso em outubro de 2016 pela Lava Jato, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Para solucionar o impasse, Costa recorreu aos lobistas.

Paulo Roberto Costa era mesmo muito próximo da família Luz. A relação se estreitou entre 2005 e 2006, quando Costa (ex-diretor de Abastecimento) e Nestor Cerveró (ex-diretor da área Internacional) estiveram ameaçados nos respectivos cargos. Para mantê-los em plena operação, era necessário o apoio político de cabeças coroadas do PMDB, entre os quais os senadores Renan Calheiros (AL), Jader Barbalho (PA) e o ex-ministro Silas Rondeau. O apoio só foi alcançado, no entanto, mediante o pagamento de R$ 11,5 milhões em propinas a Renan e seus aliados no PMDB. Em recente depoimento ao juiz Sergio Moro em Curitiba, Jorge Luz admitiu as transações. Na delação, os lobistas se propõem a detalhar como foram efetuados esses repasses. Na última semana, Renan recepcionou Lula em caravana a Alagoas. Trocaram afagos e posaram juntos para fotos. A julgar pelo que vem por aí na delação de Jorge e Bruno Luz, a imagem tem tudo para vir a se tornar o retrato mais bem acabado do abraço de afogados.

PRISÃO – Mariano Ferraz, do grupo Trafigura, foi detido em outubro pela Lava Jato 

FIGURA CARIMBADA

Aos 73 anos, Jorge Luz é um velho conhecido do mundo político. Sua atuação na Petrobras remonta à década de 80. Para o Ministério Público Federal, a participação do operador não está limitada à Petrobras e inclui outros setores e áreas do governo ainda pendentes de uma investigação mais detalhada. Como os Luz viraram figuras importantes para o desenlace da Lava Jato, são grandes as chances de a delação premiada sair do papel. O acordo ainda não foi assinado, mas conforme apurou ISTOÉ há interesse de ambas as partes, investigadores e defesa, e as conversas avançam a cada átimo de tempo.
Discreto, mas dono de uma sinceridade ímpar, Luz promete delatar pessoas e empresas que ele mesmo angariou para integrar esquemas ilícitos. Pois mais do que um operador financeiro, responsável por fazer o meio-campo entre corruptores e corrompidos, Luz também cooptava participantes para ampliar o alcance das propinas. “Há uma diferença do Jorge Luz em relação ao Alberto Youssef, por exemplo, que era eminentemente um doleiro. Luz tinha um papel maior, de angariar empresas e pessoas para esse tipo de negociata”, resumiu o procurador Paulo Roberto Galvão, integrante da força-tarefa da Lava Jato no MPF do Paraná.

JOGO COMBINADO – O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa atuava na estatal afinado com Jorge Luz

Nesse contexto, conforme apurou ISTOÉ, quem também merecerá um capítulo especial na delação é o senador Edison Lobão (PMDB), ex-ministro de Minas e Energia do governo Dilma. Os lobistas detalharam aos investigadores a atuação de Murilo Barbosa Sobrinho na Petrobras, uma espécie de representante dos assuntos de interesse de Lobão.

Hoje, Jorge Luz é réu em um único processo conduzido pelo juiz Sérgio Moro, mas que está em fase final de julgamento, com a sentença prestes a ser proferida. Na iminência de ser condenado, sujeito a caneta pesada do juiz da 13ª Vara de Curitiba, o lobista não vê outra alternativa senão partir para a colaboração com a Justiça. O interesse aumentou à medida que as investigações avançaram na direção da família. Seu filho, Bruno, também está preso, acusado de atuar junto com ele nos esquemas de repasses de propina. A filha, Fernanda, também é investigada. Jorge, no entanto, tenta minimizar a responsabilidade dos filhos. À Polícia Federal, disse que “Bruno não decidia nada”, apenas cuidava de questões burocráticas e operacionais, como movimentações de contas no exterior, confirmações de pagamentos e confecção de documentos. O lobista assim resumiu a divisão de tarefas na organização: “Jorge era a cabeça. Bruno os braços”. Independentemente de como eles se articulavam, o MPF negocia para que a dupla lance luz sobre fatos até agora obscuros para a Lava Jato. Pelo cardápio apresentado até agora, Luz não será problema.

Transcrito da Revista Isto É

20 agosto 2017 REPORTAGEM

AS MANOBRAS PETISTAS NA PGR

Há duas semanas, a futura chefe do Ministério Público Federal, Raquel Dodge, foi procurada por emissários da Lava Jato de Curitiba. Na bagagem, os integrantes da maior operação de combate à corrupção da história recente do País levaram uma denúncia. No epicentro do escândalo, a entourage do ainda procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Segundo o relato, há cerca de um ano e meio, Janot e sua equipe desenvolveram um roteiro paralelo às investigações da Lava Jato com o objetivo de favorecer o PT e seus principais líderes. Nos últimos dias, sem a anuência da turma de Curitiba, o grupo do procurador-geral resolveu protelar a homologação da delação da OAS, cujo conteúdo – “nitroglicerina pura” para Lula e o PT – já está à disposição da PGR para ser encaminhada ao STF há mais de 10 dias, para dar prioridade máxima à conclusão de forçados acordos com o ex-deputado Eduardo Cunha e o doleiro operador do PMDB, Lúcio Bolonha Funaro. O objetivo da ação seria o de fortalecer uma suposta nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Os aliados de Janot querem, a qualquer preço, que as delações de Funaro e Cunha envolvam Temer e a cúpula do PMDB, mesmo que para isso tenham que agir ao arrepio da lei.

Os interlocutores de Raquel Dodge enxergam nos métodos nada ortodoxos do time de Janot um movimento claro, objetivo e muito bem direcionado, mas de fins nada republicanos: um esquema montado e conduzido pelo procurador-geral da República destinado a favorecer o ex-presidente Lula e os principais líderes petistas nos processos em que são alvos. Ou seja, as delações da OAS que comprometem definitivamente Lula e Dilma e narra detalhes sobre o tríplex no Guarujá e o sítio em Atibaia, casos em que o ex-presidente já é réu, ficam para as calendas. Já as delações ainda sem provas concretas que possam comprometer o presidente Temer e seus aliados são aceleradas. Há quinze dias, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato sediado no Rio Grande do Sul já havia feito desabafo sobre o esquema do PT no Ministério Público a um ministro do STJ. O encontro ocorreu no saguão de embarque do aeroporto de Brasília. “Agora se sabe que a operação montada por Janot só não dominou completamente a Lava Jato porque houve uma forte resistência do pessoal de Curitiba”, sapecou.

O esquema funciona desde meados de 2015, com momentos de maior e menor intensidade. Ganhou musculatura depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e, nas últimas semanas, enfureceu os procuradores e agentes federais hoje mais alinhados com o coordenador da força-tarefa do MPF, Deltan Dallagnol. O estopim foi a maneira como se desenrolaram as tratativas para a delação de Eduardo Cunha. O acordo estava sendo negociado havia mais de três meses. São cerca de 100 anexos, que comprometem 20 políticos entre parlamentares e governadores. Os procuradores de Curitiba sustentam que já têm provas suficientes para apontar Cunha como chefe de uma organização criminosa e afirmam que o que ele está revelando agora já está bem caracterizado nas investigações da Lava Jato. Portanto, são contra oferecer ao deputado os benefícios da delação premiada. Apesar disso, os procuradores ligados a Janot procuram, desde julho, convencer Cunha a informar sobre uma conta ou um truste mantido em paraíso fiscal que pudesse ter ligação com o presidente Michel Temer e chegaram a oferecer ao ex-presidente da Câmara a possibilidade de ser colocado em liberdade até o final do ano. Como o peemedebista não trouxe à luz fatos que se enquadrassem às conveniências do grupo de Janot, na segunda-feira 14, os advogados de Cunha receberam a notícia de que as negociações estavam encerradas. Na última semana, procuradores próximos à futura comandante da PGR manifestaram que delações obtidas pelo esquema de Janot poderão ser alvo de revisões, o que será possível apenas com a anuência do Supremo Tribunal Federal. “Embora tenha sido indicado pelo PT e não esconda suas simpatias pelo partido, não acreditamos que o ministro Fachin, responsável por acompanhar a Lava Jato no STF, compactue com esse tipo de coisa”, afirmou à ISTOÉ um procurador ligado à Raquel Dodge na terça-feira 15.

De acordo com os relatos feitos ao grupo da futura procuradora-geral, no início da Lava Jato, o esquema de Janot procurava dificultar as delações que apontassem para os líderes do PT. Depois de aceito o processo do impeachment de Dilma na Câmara, Janot e seu grupo passaram a facilitar as delações que envolvessem adversários do PT. O objetivo era o de procurar interferir nos votos contra Dilma. “Ficou claro que há um direcionamento das delações”, afirma o procurador do Rio Grande do Sul. “Num primeiro momento para procurar evitar o impeachment colocando os líderes de todos os partidos em um mesmo saco. Agora, o roteiro de Janot é o de levar a pique o governo”.

O problema, para o procurador-geral, é que ele está cada átimo de tempo mais esvaziado na PGR. Desde que a Câmara rejeitou a denúncia contra o presidente e com a ascensão de Raquel Dodge ao posto máximo do MPF, o esquema vem ruindo como castelo de cartas. Escaldados, os procuradores antes unha e carne com Janot já atuam no sentido de se reposicionar internamente. Ninguém quer ficar carimbado como “preposto de Janot” a menos de um mês da troca da guarda na PGR. “Aos poucos, ele vai virando uma rainha da Inglaterra. Ninguém mais o obedece”, afirmou um integrante do MP de Brasília. Diante desse cenário, até a propalada segunda denúncia contra Temer estaria comprometida. “Sem as novas delações, falta substância e até apoio interno para uma nova investida contra o presidente”, acrescentou o mesmo procurador.

Claro há exceções. Uma delas é o procurador Carlos Fernando. Na semana passada, ele declarou que havia sido convidado por Temer, ainda na condição de vice-presidente, para uma conversa noturna fora da agenda, no Palácio Jaburu, para discutir os rumos da Lava Jato. O procurador não tem como provar o que diz e também não consegue explicar por que não fez tão importante revelação no momento em que o convite teria sido feito há um ano.

DELAÇÕES DIRIGIDAS

“Além do empenho em dirigir os depoimentos de Cunha, há duas delações que foram conduzidas pelo esquema de Janot para favorecer o PT”, confidenciou o procurador de Porto Alegre ao ministro do STJ. A primeira delas foi a do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Historicamente ligado ao PMDB, Machado afirmou que líderes do partido como o ex-presidente José Sarney, o ex-ministro Romero Jucá e o senador Renan Calheiros, estariam empenhados em paralisar as investigações da Lava Jato. Como Machado não tinha como provar o que disse, ele foi orientado pela turma de Janot a gravar conversas com Sarney, Jucá e Renan no sentido de tentar obter algo que os comprometessem. A PF chegou inclusive a fornecer equipamentos de gravação e escuta para que o delator dirigido fizesse seu trabalho. As gravações foram feitas, mas não conseguiram elucidar nada. Mesmo assim, Machado teve a delação homologada. Recentemente, a PF reconheceu que a delação do ex-presidente da Transpetro se revelou ineficaz. “Não apenas quanto à demonstração da existência dos crimes ventilados, bem como quanto aos próprios meios de prova ofertados”, resumiu a delegada Graziela Machado da Costa e Silva. A delação dirigida de Machado foi feita em maio do ano passado e gerou notícias negativas para o PMDB e seus principais líderes. A votação do impeachment ocorreu três depois.

O mais flagrante esquema de favorecimento ao PT implantado por Janot na PGR se deu com a delação do empresário Joesley Batista. Nesse caso, além dos procuradores ligados ao grupo de Curitiba, as críticas também partem da Polícia Federal. Os policiais condenam com eloquência o acordo entre os sócios da JBS, os irmãos Joesley e Wesley Batista, que estão soltos, sem tornozeleira eletrônica, e tiveram até o direito de partir para um exílio dourado em Nova York. “As críticas internas são enormes”, contou um investigador à ISTOÉ. Para a Polícia Federal, os Batista não entregaram o que prometerem e, mesmo assim, continuam usufruindo dos benefícios como se tivessem cumprido o prometido. “Não havia motivo para conceder tantos privilégios a um grupo que cometeu crimes graves”, afirma outro delegado que atua há anos na Lava Jato. Janot é acusado de ter concedido um salvo conduto a Joesley, que não ficou nem um dia preso. Enquanto outros delatores não viveram esse ‘dolce far niente’. Além dos demasiados benefícios, delegados criticam abertamente a falta de provas nos acordos dos sócios da JBS. Eles entendem que apesar de todo o alarde, muito pouco foi documentado, o que fragiliza a delação.

Um dos exemplos da falta de elementos para assegurar a delação da JBS é o das investigações de contratos com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Para a Polícia Federal, os trabalhos caminhavam bem antes da assinatura dos acordos. “As investigações já estavam adiantadas, não precisava dessa delação”, disse um delegado na quarta-feria 16. “A gente alcançaria o mesmo resultado sem conceder tantos benefícios a pessoas que lesaram os cofres públicos por anos”, completou outro investigador ouvido por ISTOÉ. O objetivo do grupo de Janot ao acelerar a delação da JBS era o de desestabilizar a gestão de Temer ás vésperas da votação das reformas e obter elementos para forçar uma denúncia oficial contra o presidente.

Diante do escândalo, o grupo de Raquel Dodge já definiu que essa delação vai passar por um pente fino. Em algumas conversas, a futura procuradora- geral já afirmou que será rigorosa numa eventual revisão do caso. Ele terá que comprovar as acusações que fez. Além de facilitar e até incentivar as acusações contra o PMDB, Temer e parte do PSDB, principalmente Aécio Neves, o esquema paralelo montado por Janot dentro do Ministério Público procurou dificultar as delações que envolvem o alto escalão petista e até fez vistas grossas a algumas arbitrariedades. Quando a ex-presidente Dilma tentou nomear Lula para a Casa Civil, por exemplo, Janot cambaleou. No final de março, deu sinal verde dizendo que um presidente teria o direito de escolher seus ministros. Constrangido, foi obrigado a recuar e dez dias depois, em abril, pediu a anulação da nomeação porque o ato estava maculado de desvio de finalidade.

O esquema pró-PT passou a operar de forma mais visível e incisiva a partir de abril do ano passado, quando a Câmara dos Deputados aprovou a abertura de processo de impeachment contra ex-presidente Dilma Rousseff. Até então, a atuação do grupo se dava de maneira discreta, tentando impedir que as delações envolvendo a cúpula petista fossem homologadas. Para tanto, de acordo com um procurador que atua em Porto Alegre, Janot e seu grupo eram absolutamente rigorosos na busca de provas para tudo o que fosse revelado pelos delatores. No caso do ex-senador Delcídio Amaral, por exemplo, as confissões feitas por ele só receberam sinal verde da procuradoria após exaustiva investigação da Polícia Federal, que confirmou suas declarações por intermédio dos sistemas de segurança de restaurantes e cópias de passagens aéreas. Diretores de empreiteiras como Andrade Gutierrez e UTC só obtiveram os benefícios da delação premiada após apresentarem cópias de extratos bancários e de longas perícias feitas na contabilidade das empresas. “As exigências eram muitas e boa parte da investigação só foi avante devido o posicionamento do juiz Sérgio Moro e o respaldo encontrado por ele nos desembargadores do Tribunal Regional Federal”, disse o procurador ao ministro do STJ. Pelo bem do País e do estado democrático de direito, que hoje resvala no estado de exceção, os dias da atual gestão à frente da PGR estão contados.

Transcrito da Revista Isto É

19 agosto 2017 REPORTAGEM

APOSENTADORIA IRREGULAR

Na manhã de 1 de setembro de 2016, o ex-ministro da Previdência Carlos Gabas e uma secretária pessoal da ex-presidente Dilma Rousseff entraram pela porta dos fundos de uma agência da Previdência na Asa Sul, em Brasília. No dia anterior, o Senado havia formalmente cassado o mandato de Dilma Rousseff. Gabas, já ex-ministro do moribundo governo petista, chamou a atenção dos funcionários da agência ao surgir na porta e logo se isolar na sala do chefe da agência. O que o ex-ministro da Previdência faria ali? Vasculhando o sistema do INSS, um grupo de servidores logo descobriu algo errado: no intervalo de poucos minutos que o ex-ministro e a secretária de Dilma estiveram na agência, o processo de aposentadoria da ex-presidente foi aberto no sistema e concluído sigilosamente. Graças ao lobby de Gabas e a presença da secretária, que tinha procuração para assinar a papelada em nome da petista, em poucos minutos, Dilma deixou a condição de recém-desempregada para furar a fila de milhares de brasileiros e tornar-se aposentada com o salário máximo de 5.189 reais. Ao tomar conhecimento do caso, o governo abriu uma sindicância para investigar a concessão do benefício.

Nesta sexta-feira, Veja obteve as conclusões dessa investigação. No momento em que o PT trava uma luta contra a reforma da previdência, os achados da sindicância não poderiam ser mais desabonadores à ex-presidente petista. Segundo a investigação, aposentada pelo INSS desde setembro do ano passado, Dilma Rousseff foi favorecida pela conduta irregular de dois servidores do órgão que manipularam o sistema do INSS para conseguir aprovar seu benefício e ainda usaram influência política para conseguir furar a fila de benefícios. Despacho assinado pelo ministro do Desenvolvimento Social, Osmar Terra, aplica punições ao ex-ministro Carlos Gabas, responsável por Dilma ter furado a fila do INSS, e à servidora Fernanda Doerl, que manipulou irregularmente o sistema do INSS para regularizar o cadastro da petista.

Por ter usado da influência de ex-ministro da Previdência para furar a fila de agendamentos do INSS a fim de acelerar o processo de aposentadoria de Dilma, Carlos Gabas foi suspenso do serviço público por 10 dias. Servidor de carreira do órgão, Gabas está cedido para o gabinete do petista Humberto Costa (PE), líder da minoria no Senado. Com a punição assinada pelo ministro Osmar Terra, ele não poderá trabalhar nesse período e terá o salário descontado em folha. “As apurações demonstraram que as ações do indiciado (Gabas) contribuíram para agilizar a concessão do benefício, assegurando seu deferimento em condições mais favoráveis ou benéficas que o usual”, registra o relatório final da sindicância: “O servidor atuou como intermediário junto à repartição pública, fora das exceções permitidas em lei, em atitude incompatível com a moralidade administrativa”, complementa

Examinando a papelada apresentada pela ex-presidente Dilma Rousseff ao INSS e os procedimentos adotados pela servidora no sistema do órgão, os integrantes da sindicância concluíram que Fernanda Doerl considerou, para efeitos de cálculo de tempo de serviço de Dilma, informações que a ex-presidente não comprovava com documentos. Como todo brasileiro que procura o balcão dos mortais no INSS costuma aprender de maneira dolorosa, não ter documentos é uma falha que inviabiliza a concessão de aposentadoria. Para Dilma, no entanto, isso não foi um problema. O cadastro de Dilma foi aprovado em um dia mesmo sem contar com todos os papeis necessários. “A não observância à norma legal e regulamentar nos autos presentes, foi materializada na medida em que se deixou de exigir documentação necessária para a alteração cadastral da segurada Dilma Vana Rousseff”, diz a sindicância. Para se ter uma ideia do favorecimento que Dilma teve, dados do INSS mostram que os brasileiros que estão com toda a documentação regular esperam pelo menos 90 dias – entre apresentação e a concessão – para obter o benefício. Números atualizados nesta semana mostram que pelo menos 400.000 brasileiros estão com processos de aposentadoria represados no INSS nessa situação.

Segundo o regulamento do INSS, ao verificar que a papelada de Dilma Rousseff estava irregular, a servidora do INSS deveria ter se recusado a proceder com o benefício. Aos constatar as falhas, Fernanda Doerl, que levou a pena de advertência por não ter atuado com “zelo”, “dedicação” e sem “observar as normas legais” no episódio, tinha a obrigação, diz a sindicância, de “alertar (Dilma) acerca das impropriedades e que o seguimento do pleito só se daria a partir da apresentação, por completo, de todo o contexto documental exigido e necessário”.

Ironicamente, apesar de apontar irregularidades e reconhecer condutas impróprias no caso dos servidores, a sindicância justifica as penas brandas aplicadas alegando que não verificou “intenção clara” dos investigados em beneficiar Dilma Rousseff. Já sobre a própria ex-presidente a sindicância limita-se a cobrar a devolução de 6.188 reais, referentes a um mês de salário que teria sido pago irregularmente pelo INSS. Apesar da concessão irregular de aposentadoria por falta de documentos, a sindicância constatou que o valor do benefício da petista é compatível com o determinado. Dilma Rousseff está recorrendo para não ter que devolver o dinheiro.

Para justificar a aplicação de advertência a Fernanda Daerl, os integrantes da sindicância registram que a servidora, embora tenha atuado de maneira displicente, não agiu de má-fé. “Foram demonstrados o descumprimento das normas regulamentares e a falta de zelo da servidora. Por outro lado, não há qualquer indício de que tenha havido má-fé da servidora. Não houve qualquer contato indevido entre a indiciada e a segurada (Dilma) ou qualquer preposto seu”, registra o relatório. Já Gabas, teve a punição atenuada por ter “bom comportamento e bons antecedentes” enquanto servidor.

Ao prestar depoimento na sindicância, Gabas negou que tivesse favorecido Dilma Rousseff ao cuidar pessoalmente do processo na agência da Previdência em Brasília. Gabas alegou aos investigadores que “o atendimento diferenciado de pessoas públicas era comum e tinha o objetivo de assegurar a integridade física e moral dos demais segurados”. Já Fernanda Daerl sustentou durante todo o processo que agiu de acordo com a lei e que se guiou por normas do INSS para aprovar os dados cadastrais de Dilma.

Transcrito da revista Veja

14 agosto 2017 REPORTAGEM

A CORRUPÇÃO DA BOLIVARIANA DO PT

É DO LEVANTE – Para Gleisi, o Brasil poderia se tornar uma grande Venezuela

A senadora Gleisi Hoffmann não é apenas a representante legal do Partido dos Trabalhadores – enquanto presidente da legenda da estrela rubra. Gleisi é hoje o retrato mais bem acabado do fosso profundo em que se embrenhou a sigla. Como irmãos siameses, ambos podem ser facilmente confundidos. Cordeiro só na epiderme de porcelana, Gleisi é como o PT dos últimos tempos: posa de tolerante, mas nunca apresentou-se tão autoritária. Finge-se de democrata, mas não hesita em franquear apoio a ditaduras – como a instaurada por Nicolás Maduro, na Venezuela. Alega ser vítima de perseguição política, mas é quem melhor encarna o papel de algoz de parcela dos brasileiros. Arvora-se paladina da ética, mas é constantemente flagrada com as mãos sujas da corrupção. É a tal cegueira mental de que falava José Saramago: consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que for suscetível de servir aos seus interesses.

Na última semana, a Polícia Federal concluiu um contundente relatório em que imputa a Gleisi os crimes de corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro. O relatório congrega laudos técnicos, registros de telefonemas, planilhas e trechos de delações de executivos da Odebrecht e de sócios de uma agência de publicidade da qual a petista se valeu para receber propina. A partir dos documentos é possível traçar o caminho do dinheiro até Gleisi Hoffmann. Uma das planilhas em poder da PF indica as datas de oito pagamentos de R$ 500 mil cada para a campanha de “Coxa” ao Senado em 2014. Segundo a delegada Graziela Machado “existem elementos suficiente a confirmar que o codinome Coxa se refere a Gleisi Helena Hoffmann”. O esquema envolveu também o Ministro do Planejamento no governo Lula e das Comunicações no governo Dilma, Paulo Bernardo – marido de Gleisi e que chegou a preso por desviar recursos de empréstimos concedidos a servidores públicos aposentados. O conjunto de desembolsos à petista perfaz um total de R$ 4 milhões, mas os colaboradores chegaram a mencionar repasses de R$ 5 milhões apenas no ano de 2014.

A apuração começou em fevereiro de 2016, quando a PF apreendeu documentos na residência de Maria Lúcia Tavares, secretária do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, o já famoso departamento de propinas da empresa. Em dezembro do ano passado, três executivos da Odebrecht detalharam as anotações apreendidas pela PF e as mensagens de correio eletrônico relacionadas a Gleisi e ao codinome “Coxa”: o presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, o da unidade infraestrutura, Benedicto Júnior, e o diretor da empresa na região Sul, Valter Lana. Segundo a PGR, o trio narrou “diversos repasses financeiros” nos anos eleitorais de 2008, 2010 e 2014, por solicitação direta de Paulo Bernardo. De acordo com Odebrecht, o acerto para pagar Gleisi passou pelas mãos do ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antonio Palocci, hoje preso em Curitiba.

O advogado do casal Rodrigo Mudrovitsch disse à ISTOÉ que as informações levantadas “não autorizam” as conclusões dos investigadores. A PF, no entanto, é taxativa: “Há elementos suficientes para apontar a materialidade e autoria dos crimes de corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro praticados pela senadora, seu então chefe de gabinete, Leones Dall Agnol e seu marido, Paulo Bernardo da Silva. Os autos também comprovam que a parlamentar e seu marido, juntamente com Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Valter Luiz Arruda Lana, foram responsáveis pelo cometimento de crime eleitoral”. Agora, o destino de Gleisi está nas mãos da Procuradoria-Geral da República, a quem caberá pedir ou não seu indiciamento ao relator do caso no Supremo Tribunal Federal, o ministro Edson Fachin.

AFINIDADE ELETIVA – Gleisi esteve com Maduro na posse Dilma

Espelho de um PT que deixou as bandeiras históricas de lado para enveredar pelo caminho da indigência moral, Gleisi é alvo da Lava Jato desde os primórdios da investigação. Na ocasião, os policiais descobriram que ela recebera R$ 1 milhão em propinas desviadas da estatal. Para emitir sua versão sobre esse processo em particular, no qual é ré, a senadora será interrogada pela Justiça no próximo dia 28, ao lado do marido Paulo Bernardo. É possível que o julgamento ocorra ainda este ano. O dinheiro, neste caso, foi repassado por doleiros. Seria apenas o fio de um extenso novelo que implicava o até então casal mais influente da Esplanada. A propina era desviada para um escritório de advocacia de Curitiba por meio de uma operação dissimulada: a Consist, empresa originalmente de software, fazia de conta que pagava pelos serviços advocatícios e, sem deixar digitais, os advogados bancavam as despesas do casal. Um dos sócios, o advogado Sasha Reck, depois de acusado de envolvimento na falcatrua, resolveu se mexer. Encomendou uma auditoria independente nas contas do escritório e descobriu aquilo que a Polícia Federal não levaria muito tempo para entender: o contrato de serviços jurídicos com a Consist era de fachada. A empresa também operou no Ministério do Planejamento e irrigou as contas do PT, por meio do ex-tesoureiro João Vaccari — razão pela qual Bernardo amargou seis dias na prisão, em 2016.

Gleisi discursa durante abertura do 23º encontro do Foro de São Paulo 

“O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), seus aliados e ao presidente Maduro, frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela”

“Gostando-se ou não de Maduro, ele tem legitimidade, foi eleito na urna, o que não é o caso de quem governa o Brasil”

“Temos a expectativa que a Assembléia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica”

“A vitória da Assembleia Constituinte demonstra claramente que é possível enfrentar e derrotar as novas táticas eleitorais e golpistas da direita”

“No Brasil também defendemos uma Constituinte para implantar as reformas”

Como é possível notar, Gleisi e PT sempre tiveram tudo a ver. Hoje, suas conveniências entrelaçam-se mais do que nunca. Em junho, Gleisi conquistou a presidência do partido com 60% dos votos dos delegados. Em sua primeira declaração, disse que o partido não iria fazer autocrítica de seus atos escabrosos “porque não contribuiria para fortalecer o discurso dos adversários”. “Não somos organização religiosa, não fazemos profissão de culpa, tampouco nos açoitamos. Não vamos ficar enumerando os erros que achamos para que a burguesia e a direita explorem nossa imagem”, discursou Gleisi. Em seguida, na mesma toada de seu padrinho mais ilustre, o ex-presidente Lula, a senadora petista passou a dourar outra narrativa: a de vítima. Foi para exercitá-la que “Coxa” foi guindada ao posto também com a bênção de José Dirceu. Em recente reunião em sua residência, o ex-capitão do time de Lula assim classificou a petista: “Ela é orgânica e focada”.

Além de se esgueirar dos avanços da PF sobre ela, o foco da presidente petista, ultimamente, consiste em tecer loas ao regime ditatorial de Nicolás Maduro, na Venezuela. No PT, a senadora é quem entoa com mais vigor o discurso pró-Maduro. Desde o início da repressão, Gleisi deu toda sorte de demonstrações de solidariedade ao governo venezuelano. No último Congresso do PT, por exemplo, recebeu uma delegação da embaixada venezuelana. Presente ao evento, o ex-presidente Lula não mencionou o tema, como era aguardado, uma vez que na campanha eleitoral ele havia gravado um vídeo em favor de Maduro. Razão: ele e outros petistas seriam contra a Constituinte, em dissonância com o que tem pregado Gleisi. No partido, no entanto, há quem diga tratar-se de uma estratégia. Enquanto Lula é poupado da exposição a um tema para lá de delicado, caberia a presidente do PT, por assim dizer, o “serviço sujo” — o qual ela pratica com convicção e impressionante entusiasmo.

PT ajudou a bancar a ditadura de Maduro

De 2006 a 2014, os governos de Lula e Dilma financiaram, por meio do BNDES, importantes projetos na Venezuela

Durante greve de petroleiros na Venezuela em 2002, o presidente eleito Lula enviou navio com gasolina para ajudar Chávez

Os governos de Lula e Dilma emprestaram R$ 11 bilhões à Venezuela, para obras no Metrô de Caracas, siderúrgicas e pontes

Em 2013, o PT de Dilma mandou o publicitário João Santana ajudar a reeleger Maduro. A ditadura venezuelana se intensificou

Sem segredo

Ao abrir o 23º encontro do Foro de São Paulo, dia 16 na Nicarágua, a presidente do PT declarou, em nome do partido, apoio ao governo do Partido Socialista Unido da Venezuela. “O PT manifesta o seu apoio e solidariedade ao PSUV, seus aliados, e ao presidente Nicolás Maduro, frente à violenta ofensiva da direita pelo poder na Venezuela. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica”, disse. O endosso da Constituinte feito por Gleisi carrega um outro significado: escancara o desejo irrefreável do PT de executar um programa bolivariano no País. Nos 13 anos em que esteve no poder foram inúmeras as tentativas de aplicá-lo, sem sucesso devido à solidez de nossas instituições. Mas o programa de censura a meios de comunicação e perseguição a adversários políticos, caso o partido retorne ao poder, já não constitui mais um segredo de polichinelo no PT, a julgar pelos recentes discursos de Lula.

Independentemente das reais intenções, o apoio à ditadura de Maduro representa, sem sombra de dúvida, a página mais vergonhosa da história do Partido dos Trabalhadores e, consequentemente, de Gleisi. O que se vê por lá é uma catástrofe humanitária sem precedentes. Os números são eloquentes, por desoladores. Em quatro Estados daquele País, a desnutrição infantil já alcança 20% das crianças com menos cinco anos de idade. O País amarga ainda a segunda maior taxa de homicídios do mundo. O índice de assassinatos em Caracas é 14 vezes maior que o de São Paulo, por exemplo. A inflação projetada para este ano é de 2.200%. Para se manter a qualquer custo no poder, Maduro apela para a violência extrema. Só nas últimas semanas, a guerra civil conflagrada no País deixou um saldo de mais de 100 mortes. É para ele que Gleisi bate palmas. Para justificar essa cumplicidade, os petistas, Gleisi à frente, praticam uma desonestidade intelectual: cada denúncia contra o regime é encarada como parte de uma campanha da CIA ou da imprensa “golpista”. Nada mais falso. São os órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos, nos quais se escudaram a esquerda latino-americana no passado, quem mais apontam para os descalabros venezuelanos. “Na Venezuela toda a gama de direitos humanos é violentada. Direitos econômicos, sociais, culturais. As liberdades fundamentais, o direito à associação, a liberdade de expressão. Está havendo um contexto repressivo e militarizado diante das demonstrações de descontentamento social, no qual, além disso, são feitas detenções arbitrárias como ferramenta de controle, de calar as vozes da dissidência”, afirmou recentemente Erika Rivas, diretora da Anistia Internacional para as Américas.

Não foram apenas as afinidades eletivas que levaram Gleisi a alcançar a presidência do PT. A senadora se cacifou para assumir o partido quando passou a adotar a postura de líder da tropa de choque de Lula e Dilma no Senado. Na verdade, começava ali a manchar publicamente a própria biografia. Depois do impeachment, para deleite do petismo, ela transformou sua atividade parlamentar em sinônimo da política do quanto pior melhor, promovendo uma oposição inconsequente que em nada contribui para o avanço do País. A postura da presidente do PT ecoou entre os eleitores. Recentemente, Gleisi conversava com um jornalista quando foi abordada por uma cidadã: “Oi, Gleisi, você já está preparada para ser presa?”, perguntou. Ao que a petista replicou com uma resposta atravessada. “Não, querida, mas você pode ir”. Resultado: abriu o flanco para tomar outra invertida. “Eu não. A bandida aqui não sou eu”, sapecou a mulher. O diálogo foi gravado e viralizou nas redes sociais. Internamente no partido, a atitude intempestiva da senadora não foi bem recebida. Houve quem recomendasse recato, no momento em que a sigla experimenta a maior crise de sua história. Ela não aquiesceu.

O PT a conhece bem

Outro motivo de desgaste interno é a maneira imprudente, para dizer o mínimo, com que Gleisi sempre escolheu seus assessores mais próximos. Seu mais lamentável intento foi nomear Eduardo Gaievski (PT/PR) para trabalhar no gabinete contíguo o da presidente deposta Dilma Rousseff (PT), quando ela era ministra da Casa Civil. E, pasme, como responsável pelas políticas da Presidência para Jovens e Adolescentes. Gaievski não tem currículo. Ostenta uma ficha corrida de dar calafrios. Hoje ele é acusado de crimes sexuais, sendo a maior parte deles contra menores. Na sequência, Gleisi escolheu o deputado André Vargas (PT/PR) para chefiar sua campanha ao governo do Paraná, para depois ter de afastá-lo pelo envolvimento com o doleiro Alberto Youssef e o ex-Diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, em fraudes investigadas pela PF. A petista não pode alegar que desconhecia a face mais obscura de Vargas. Em 1998, ele foi indiciado por desvio de R$ 14 milhões da Prefeitura de Londrina (PR) para abastecer o caixa 2 da campanha a deputado do seu marido Paulo Bernardo. Na verdade, ela o conhecia muito bem. E era por isso que ele estava lá. É como ela própria, Gleisi: é por conhecê-la a fundo que o PT a alçou ao comando máximo da legenda.

Os malfeitos de Gleisi

– A senadora Gleisi Hoffmann é investigada no STF por ter recebido R$ 1 milhão em propinas da Odebrecht para sua campanha ao Senado em 2010

– No próximo dia 28, ao lado do marido Paulo Bernardo, Gleisi estará sentada no banco dos réus para dar sua versão sobre o caso

– O dinheiro era repassado a Gleisi por doleiros. A propina era desviada por um escritório de advocacia de Curitiba

– O casal Gleisi e Paulo Bernardo usava a empresa de software Consist para simular o pagamento de serviços advocatícios. Na verdade, era por meio dela que o casal tinha suas contas pessoais bancadas. A Consist também mantinha polpudos contratos com o Ministério do Planejamento, comandado por Paulo Bernardo durante o governo Dilma

– No departamento de propinas da Odebrecht foram encontradas planilhas de três repasses de R$ 150 mil cada, no total de R$ 450 mil, feitos à Coxa, o codinome de Gleisi. Os pagamentos foram feitos entre 2008 e 2010

– A senadora está sendo julgada na Comissão de Ética do Senado por quebra de decoro, ao invadir a mesa diretora do Senado, em 11 de julho deste ano

Transcrito da Revista Isto É

5 agosto 2017 REPORTAGEM

DESFAÇATEZ

Dezembro de 2010. Lula ainda era presidente. Dona Marisa, falecida no início deste ano, procurou Emílio Odebrecht, dono da Construtora Odebrecht, e pediu para que a empreiteira reformasse o sítio de Atibaia, onde o então presidente passaria a descansar depois que deixasse a Presidência. “Vou para o meu sítio”, contou Lula a amigos. O patriarca da empreiteira ordenou, então, que Alexandrino Alencar, diretor da companhia, se encarregasse das benfeitorias. Com a propriedade moldada a seu feitio, o petista e sua família passaram a frequentar o local religiosamente. Em seis anos, esteve no sítio por 270 ocasiões. Até a eclosão das denúncias contra ele, ao se manifestar sobre o paradeiro do ex-presidente, sua assessoria emitiu pelo menos 12 notas oficiais em que afirmava com todas as letras que o petista passaria os fins de semana “em sua casa de veraneio em Atibaia”. Ou seja, até ser acossada pela Lava Jato, a família Lula não tinha o menor constrangimento em reconhecer o imóvel como seu. A retórica se ajustou à luz dos novos fatos. Agora, perto de ser condenado de novo em primeira instância, Lula, que se tornou réu pela sexta vez na última semana, recorre a subterfúgios para negar o óbvio ululante: que o sítio lhe pertence e foi repaginado pelas empreiteiras OAS e Odebrecht como contrapartida a obtenção de contratos na Petrobras.

No total, as empreiteiras gastaram R$ 1,025 milhão nas reformas do sítio, conforme concluiu o juiz Sergio Moro, ao aceitar, na terça-feira 1, a denúncia contra Lula por corrupção e lavagem de dinheiro. Em seu despacho, Moro afirmou que o ex-presidente “teria participado conscientemente do esquema criminoso. Como parte de acertos de propinas destinadas à sua agremiação política, o grupo Odebrecht e o grupo OAS teriam pago vantagem indevida ao ex-presidente Lula consubstanciada em reformas no sítio de Atibaia por ele utilizado”. Formalmente, o sitio está registrado em nome de Jonas Suassuna e Fernando Bittar, sócios de Lulinha. Mas extraoficialmente, “a propriedade é de Lula”, diz o juiz. “O sítio passou a sofrer significativas reformas ainda em 2010, durante o mandato presidencial e que prosseguiram até 2014”, lembrou Moro. Lá, foram feitos investimentos “sempre com o conhecimento de Luiz Inácio”.

Para comprovar que Lula é o verdadeiro dono do sítio, o MPF anexou ao processo mensagens eletrônicas trocadas entre o caseiro da propriedade, conhecido como Maradona, com seguranças do ex-presidente. Uma delas falava que “um pintinho” havia sido atropelado pela “perua”. O MPF ainda incluiu na denúncia que, quando a PF fez buscas no local, roupas e bens pessoais do petista e de dona Marisa estavam guardadas no quarto do casal. Até uma camisa do Corinthians, escrito Lula nas costas, foi apreendida. Também foram encontradas notas fiscais de compra de material de construção – em nome de Marisa. Em outra devassa feita no imóvel de Lula em São Bernardo, a PF apreendeu uma minuta da escritura de compra e venda do sítio. Estava lá a digital do advogado de Lula, Roberto Teixeira, a quem coube preparar o documento de compra e venda em nome de Fernando Bittar. Um verdadeiro “batom na cueca”, como se diz no jargão policial quando há provas irrefutáveis de um crime.

A reforma de R$ 1 milhão

– O MPF afirma que Lula é o verdadeiro dono do sitio de Atibaia

– A propriedade, no entanto, está em nome de Fernando Bittar e Jonas Suassuna, sócios de seu filho Lulinha

– O imóvel está avaliado em R$ 1, 5 milhão

– Mas, a pedido de Lula, a Odebrecht, a OAS e seu compadre José Carlos Bumlai, gastaram R$ 1,025 milhão para reformar a propriedade

– Lula diz que não é dono do local, mas nos últimos 6 anos esteve lá 270 vezes

– Em emails, o caseiro do sítio, Maradona, comunicava os seguranças de Lula até sobre a morte de “pintinhos” na propriedade

– Em buscas em seu apartamento, a PF encontrou uma minuta da escritura do sítio

Transcrito da Revista Isto É

30 julho 2017 REPORTAGEM

AS PROVAS DA JBS

Demilton de Castro e Florisvaldo de Oliveira estavam suando. No estacionamento da JBS em São Paulo, eles tentavam, sem sucesso, enfiar uma volumosa caixa de papelão num limitado porta-malas de Corolla. Plena segunda-feira e aquele sufoco logo cedo. Manobra para cá, manobra para lá, e nada de a caixa encaixar. Até que, num movimento feliz, ela deslizou. Eles conseguiram. Estavam prontos para desempenhar a tarefa a que Florisvaldo fora designado. E que ele tanto temia. Dez dias antes, Florisvaldo despencava até uma rua na Vila Madalena, também em São Paulo, para fazer uma espécie de “reconhecimento do local” onde teria de entregar R$ 1 milhão em espécie. Seu chefe, o lobista Ricardo Saud, havia encarregado Florisvaldo do delivery de propina para o então vice-presidente da República, Michel Temer. O funcionário, leal prestador de serviço e carregador de mala, não queria dar bola fora. Foi dar uma olhada em quem receberia a bufunfa. Ao subir as escadas do prediozinho de fachada espelhada, deu de frente com a figura inclemente de João Batista Lima Filho, o coronel faz-tudo de Temer. “Como é que você me aparece aqui sem o dinheiro?”, intimou o coronel. “Veio fazer reconhecimento de que, rapaz?” Florisvaldo tremeu. “Ele me tocou de lá”, comentou com os colegas, ainda assustado. Receoso da bronca que viria também do chefe, Florisvaldo ficou quietinho, não contou a Saud que a entrega não fora feita.

Naquele 1º de setembro de 2014, Saud, o lobista, batia as contas dos milhões em propina que distribuía de lá para cá, para tudo que é político de tudo que é partido – a JBS não discriminava ninguém. “Cadê o dinheiro do Temer?” Florisvaldo admitiu sua falha. “Tá doido, Florisvaldo? Vai entregar esse dinheiro agora!” Lembrando da pinta do coronel, o funcionário replicou: “Só se o Demilton for comigo”. Toca Florisvaldo e Demilton a tentar enfiar a caixa com notas de R$ 50 no porta-­malas. Demilton, quatro décadas de empresa, é o planilheiro da JBS. A Odebrecht tinha o drousys, o software de distribuição de propinas. A JBS tem Demilton, exímio preenchedor de tabelas do Excel. Demilton topou ajudar o amigo. Os dois deixaram o estacionamento da JBS ao meio-dia. Florisvaldo, meio nervoso, tocou a campainha. Depois de instantes angustiantes, o coronel Lima apareceu. “Trouxeram os documentos?”, perguntou Lima. Florisvaldo já tomava fôlego para carregar a caixa de papelão escada acima, mas o coronel ordenou que o dinheiro fosse depositado no porta-­malas do carro ao lado. “Não tem perigo com essa parede espelhada aí?” Florisvaldo era todo paúra. “Não, fica tranquilo.” A transação estava completa.

Aquele 1º de setembro de 2014 era mais um dia intenso na maior compra já promovida no Brasil, segundo as evidências disponíveis, de uma eleição – de centenas de eleições. A JBS dos irmãos Joesley e Wesley Batista, maior empresa do país, viria a gastar, ou investir, quase R$ 600 milhões naquela campanha. R$ 433 milhões em doações oficiais, R$ 145 milhões entre pagamentos a empresas indicadas por políticos e dinheiro vivo – tudo isso já com a Lava Jato na rua. No raciocínio dos irmãos e de alguns de seus executivos, hoje delatores, os pagamentos, seja pelo caixa oficial, seja por empresas indicadas pelos políticos, seja diretamente por meio de dinheiro vivo, eram um investimento por favores futuros ou uma quitação por favores pretéritos. Favores não republicanos, evidentemente. Ou seja, havia uma relação de troca entre o dinheiro que saía da empresa e o que o político fazia por ela – mesmo que essa troca, em alguns momentos, não fosse verbalizada, por tão corriqueira e natural num quadro de corrupção sistêmica. Havia, em muitos casos, uma relação de troca criminosa, que se tipifica como corrupção.

Assim que a delação da JBS veio a público, em maio, a força irrefreável das provas contra o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves, provas de crimes em andamento, assim como a crise política que se instalou imediatamente, escamoteou o poder igualmente destrutivo dos crimes pretéritos cometidos por executivos da JBS – e por centenas, talvez milhares, de políticos. As provas apresentadas foram largamente ignoradas. Como os delatores haviam fechado o acordo poucas semanas antes, a empresa ainda não tinha levantado tudo o que poderia e deveria, em termos de evidências para corroborar os crimes descritos nos anexos da colaboração. Agora, a um mês do prazo estipulado para entregar à Procuradoria-Geral da República todas as evidências necessárias, os delatores e a JBS já dispõem de um novo e formidável conjunto de documentos.

Nas últimas semanas, ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, a esses papéis inéditos – milhares deles. Investigou os principais casos ali presentes e obteve informações, reservadamente, junto a alguns dos envolvidos nos episódios mais relevantes dos crimes apontados nas delações. Há planilhões de propina que perfazem quase dez anos de campanhas – da eleição municipal de 2006 à eleição presidencial de 2014. Há comprovantes bancários. Há notas fiscais frias. Há contratos fraudulentos. Há, ainda, depósitos em contas secretas no exterior. Em comum, as evidências corroboram ou comprovam pagamentos ilícitos a políticos, numa escala que, ao menos no Brasil, nem mesmo a Odebrecht atingiu. De 2006 a 2017, a contabilidade da propina da JBS – e outras empresas dos irmãos Batista – a políticos é espantosa: R$ 1,1 bilhão. Mais precisamente, R$ 1.124.515.234,67. Desse volume extraordinário de pagamentos, R$ 301 milhões ocorreram em dinheiro vivo e R$ 395 milhões por meio de empresas indicadas por políticos. Houve, por fim, R$ 427,4 milhões em doações oficiais.

Da primeira parte dessa investigação, que ÉPOCA publica agora, emergem provas consistentes sobre casos conhecidos por poucos, como pagamentos fraudulentos a empresas indicadas por Temer à JBS, na distante campanha presidencial de 2010. Ou, ainda, dos pagamentos igualmente fraudulentos a empresas indicadas por José Serra em sua campanha presidencial, também em 2010. Há as provas dos famosos extratos das duas contas mantidas por Joesley nos Estados Unidos – e não na Suíça – com saldo de propina no BNDES, por combinação com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. São aquelas contas cujo saldo, cerca de US$ 150 milhões, serviu para financiar a campanha de Dilma em 2014 – e também dos partidos que toparam, por valores altíssimos, aliar-se a ela.

Surgem com especial força, no entanto, casos inéditos, como a propina de US$ 1 milhão paga a Antonio Palocci, em 2010, por meio de uma conta nos Estados Unidos. Ou os pagamentos em dinheiro vivo ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, entre outros parlamentares; e a ministros do governo Temer, como Bruno Araújo, Gilberto Kassab, Helder Barbalho e Marcos Pereira. Kassab, por exemplo, também aparece como beneficiário de um valor extraordinário em propinas, recebidas, segundo os documentos, até o ano passado: R$ 18 milhões.

O acervo, sobre o qual os investigadores da Procuradoria-Geral da República vão se debruçar por meses, demonstra que a JBS comprava sistematicamente políticos de todos os partidos. Não havia critério ideológico; o valor do político era proporcional a sua capacidade de proporcionar benefícios à empresa. Em estados como Ceará, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, onde a JBS tinha mais interesses comerciais, a quantidade de propina distribuída era proporcionalmente maior. Como a JBS tinha interesses e vendas em todo o território nacional, os investimentos em políticos alcançavam o país inteiro, com uma capilaridade superior ao esquema da Odebrecht. Enquanto a Odebrecht, uma empreiteira, atuou no atacado, na compra de políticos maiores, a JBS, no comércio de carne, atuava no varejo, em busca não só dos grandes líderes nacionais, como também dos políticos regionais que poderiam remover obstáculos.

O crescimento da JBS é rápido, explosivo. Entre 2006 e 2014, a receita líquida do grupo cresceu cerca de 2.800%, dos R$ 4,3 bilhões de uma grande empresa brasileira para os R$ 120,5 bilhões características de uma gigante mundial, graças em boa parte ao bom relacionamento com o PT, que lhe proporcionou acesso a fartos financiamentos amigos do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Quanto mais crescia, mais a JBS tinha negócios pelo país, mais seus interesses se diversificavam, mais ela precisava do governo e dos políticos. Por isso, no mesmo período, a propina distribuída subiu junto. Os registros internos mostram um salto de 4.900% nos gastos com corrupção, de R$ 12,5 milhões em 2006, ano da reeleição do então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, para R$ 617 milhões em 2014, na reeleição de Dilma Rousseff. Em 2006, a JBS pagou propina para políticos de 11 partidos em seis estados; em 2014 foram beneficiados integrantes de 27 partidos em todos os estados brasileiros.

Tais volumes necessitavam de um acompanhamento cuidadoso e de uma logística afiada. A operação rotineira da propina era artesanal. Em vez de um Setor de Operações Estruturadas e do drousys, como tinha a Odebrecht, a JBS tinha Demilton e Florisvaldo, os dois funcionários dedicados. Os acertos com os políticos eram feitos por Joesley Batista (na maioria dos casos), por seu irmão Wesley (em poucos casos) e pelo lobista Ricardo Saud, todos colaboradores da Procuradoria-Geral da República. Uma vez que o crédito fosse aprovado por Joesley, Demilton era avisado por telefone ou pessoalmente e se encarregava de combinar com quem de direito. Nos casos em que bastava pagar uma empresa indicada pelo político, Demilton só tinha de cobrar as notas fiscais frias; em alguns casos, nem isso: os interessados entregavam os papéis e Demilton entregava dinheiro vivo. Para depósitos no exterior, Demilton acionava um doleiro chamado Chico, baseado no Uruguai. Demilton organizava a conta-corrente do grupo com Chico: os pedidos de pagamento eram feitos por e-mail e nunca falhavam. Para fazer pagamentos próprios de propina no exterior, a JBS tinha duas contas no banco Julius Bär em Genebra, na Suíça, a Lunsville International e a Valdarco Investments – aliás, foi de lá que saíram os pagamentos para Palocci e para manter o silêncio do doleiro Lúcio Funaro, entre outros que quiseram receber no exterior.

No Brasil havia facilidades das quais só a JBS dispunha. Com clientes no varejo espalhados por todo o país, como supermercados, atacados e frigoríficos, havia um fornecimento garantido de dinheiro vivo para atender à demanda dos políticos. Assim, boa parte dos pagamentos nessa modalidade era resolvida com uma ligação. Seja no Rio de Janeiro, seja em Minas Gerais, Demilton entrava em contato com o cliente e pedia que separasse um valor. Era comum que empresários e até políticos buscassem valores diretamente, tamanha a despreocupação com a operação ilegal. Foi assim com o senador Ciro Nogueira, do Piauí, o principal líder do PP, partido que apoia o governo Temer; foi assim com Raimundo Colombo, governador de Santa Catarina pelo PSD, com o suplente de senador Antonio Carlos Rodrigues, do PR de São Paulo, e com o ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, do PMDB.

No Nordeste, onde a chaga do voto de cabresto ainda persiste e a facilidade para lavar dinheiro em postos de gasolina ou compra de gado é maior, Joesley Batista encarregou o publicitário André Gustavo, uma espécie de Marcos Valério de Pernambuco, para cuidar de entregas de dinheiro. Quando necessário, Joesley autorizava a contratação de um carro-forte e André recolhia o dinheiro nos clientes da JBS e transportava até o político que deveria ser beneficiado. Foi André quem, segundo a JBS, organizou a entrega de propina em dinheiro vivo ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, ao senador Jader Barbalho e a seu filho, o ministro Helder Barbalho, todos do PMDB. André Gustavo foi preso nesta semana na 42ª fase da Operação Lava Jato, acusado de ajudar o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine a chantagear a Odebrecht, obter uma propina de R$ 3 milhões e lavar dinheiro. Como Marcos Valério, André Gustavo está na cadeia.

Trecho da reportagem de capa da revista ÉPOCA desta semana

24 julho 2017 REPORTAGEM

ONDE FORAM PARAR OS ESCUDEIROS DE DILMA

ALOIZIO MERCADANTE Aposentado, recebe R$ 15 mil e complementa a renda prestando consultorias sobre política educacional – JOSÉ EDUARDO CARDOZO Dedica-se a proferir palestras nos EUA, Inglaterra, Portugal e Espanha – ERENICE GUERRA Fechou o escritório de advocacia por falta de clientes e ainda não definiu o que vai fazer da vida – RICARDO BERZOINI Nos bastidores, trabalha para ser candidato em 2018 no Distrito Federal

Eles haviam alcançado o Olímpo político. Eram figuras do mais alto escalão na Esplanada dos Ministérios em Brasília e donos de trajetória ascendente no PT. Hoje, vivem no ostracismo. E, por ora, por mais contraditório que possa parecer, querem mesmo ficar por lá – de preferência longe das luzes da ribalta. Alvos da Lava Jato, Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini, José Eduardo Cardozo e Erenice Guerra tentam tocar suas vidas de forma reclusa, bem diferente de um passado recente, quando encarnavam os papéis de principais escudeiros da ex-presidente Dilma Rousseff.

Acusado de obstrução de Justiça e delatado por suposto caixa dois, o ex-ministro da Casa Civil, da Educação e da Ciência e Tecnologia Aloízio Mercadante pediu aposentadoria este ano. Recebe R$ 15 mil mensais como ex-senador, ex-deputado e professor da Unicamp. Para complementar a renda, se vira como consultor. “Ele está desenvolvendo uma consultoria sobre política educacional brasileira para um organismo multilateral”, confirmou sua assessoria. Em setembro, foi hostilizado em Portugal. Conhecido por seu temperamento difícil, o ex-senador foi vaiado e xingado de “ladrão” e “corrupto” no Aeroporto de Lisboa, por supostamente furar a fila do check-in. Ele nega.

Tal como o companheiro de partido, Berzoini, hostilizado recentemente num restaurante, só que sem furar o lugar de ninguém, também resolveu submergir. Neste caso, um recuo tático: o petista já trabalha com um olho nas eleições de 2018. Ex-deputado por São Paulo, ele mudou seu domicílio eleitoral para Brasília este ano. Petistas ouvidos por ISTOÉ garantem que ele é um dos cotados para ser candidato a deputado federal ou mesmo a governador do DF.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Berzoini deixou de disputar as eleições de 2014 para ajudar na campanha de Dilma Rousseff. Agora, avaliam, seria a hora de o PT retribuir o esforço. Em Brasília, o ex-parlamentar disputaria o mesmo nicho de votos da sindicalista Érika Kokay (PT), uma das principais lideranças da legenda na cidade. Segundo Érika, ainda não há definição de nomes para a disputa de 2018. “Mas seria uma honra e um orgulho para o PT ter o ex-deputado Berzoini disputando qualquer cargo”, disse Érika.

O que representa um orgulho para o PT não necessariamente constitui um orgulho para a população. Berzoini foi duplamente delatado na Lava Jato. Em 2016, o executivo da Andrade Gutierrez Flávio Machado contou que Berzoini pediu 1% de propinas de todas as obras da empresa com o governo federal. Já o ex-presidente da OAS Leo Pinheiro envolveu Berzoini numa trama para enterrar a CPI da Petrobras, potencialmente constrangedora para o governo Dilma.

POSTURA ANUNCIADA

O serviço prestado por Berzoini certamente teria agradado a outro integrante da tropa de Dilma: o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Linha de frente da ex-presidente deposta, hoje, Cardozo não aparenta estar preocupado com governos. Abandonou a política. Dedica-se somente à advocacia e à carreira acadêmica. É sócio de escritórios em São Paulo e Brasília, cidades onde leciona direito administrativo em instituições como a PUC-SP.

Em entrevista à ISTOÉ disse que se ocupa a proferir palestras nos EUA, Inglaterra, Portugal e Espanha. Assegurou que não pretende lançar-se em 2018. Rechaçou, contudo, que esteja no ostracismo. “Tive uma postura publicamente anunciada em relação a sair da vida pública, após muitos anos”, afirmou Cardozo.

Erenice Guerra não fez declaração pública de desistência da política. O que ela abandonou foi seu escritório de advocacia em Brasília. Desde que a Lava Jato irrompeu, seus negócios haviam minguado. Até que ela decidiu fechá-lo. Agora, também quer distância dos holofotes. A ex-ministra da Casa Civil é uma das investigadas no chamado inquérito do “quadrilhão” no Supremo. Sem cargo e sem perspectivas de reativar o trabalho de advogada, ela vai ter que dançar quadrilha em outras plagas.

Transcrito da Revista Isto É


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