28 novembro 2011 VOOS POÉTICOS - Sandra Magalhães Salgado


Ainda que não saiba
Anseio pelo que latente
Espera germinar
Ainda que o sinta
Predador de mim
O caminho estreito
Fá-lo-á irromper
Ao tempo do agora
De uma hora
Que não sei precisar
Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja


Ainda que não saiba
Anseio pelo que latente
Espera germinar
Ainda que o sinta
Predador de mim
O caminho estreito
Fá-lo-á irromper
Ao tempo do agora
De uma hora
Que não sei precisar

Descortinei teu sorriso
Era só adereço
Pertences de cenas
De um mundo irreal
Nos bastidores
Retratos sem cores
Mostram só dores
Do mundo real
Descortinei teu sorriso
Remake de um filme
Ainda em cartaz
Nos bastidores
Roteiro à mostra
Li teu nome
Era mesmo o meu.

A dor calada
falsamente
fala e mente
e se diz ultrapassada
é chaga viva
lesão que fica
A dor vivida
sem ser oprimida
escancara
e mostra a cara
e então cicatrizada
é desenho para nova caminhada

Não economize palavras,
Nem gestos, nem falas
Meu amor é sedento
Mais que insaciável,
É inesgotável, fonte viva
Que jorra sem cessar
Ora em mares pacíficos
Ora em mares revoltos
Não o concebo sereno
Nem mudo, nem temente
Deixa que o mundo ensurdeça
Falemos, amemos,
Desmesuradamente.

Estivemos nos trópicos
em zonas quentes
sob o jugo das dopaminas,
endorfinas e noradrenalinas.
desatentos às tais linhas tênues
de Câncer e Capricórnio.
Estivemos nos trópicos
desatentos a outros olhos
que não os nossos
e em constante ebulição
éramos como o fogo que arde
chama que queima sem consumir
E no solstício de verão
em zonas quentes de sol a pino
fizemos juras de eterno amor
e desatentos às zonas temperadas
dissiparam-se as dopaminas
para algum lugar a ermo
deixamos ir a paixão vivida.

Que me importam as vestes que já não me cabem
se tantas outras haverei de vestir?
Que me importam as faces já transfiguradas
se tantas outras haverei de mostrar?
Desnuda, ainda veste-me a mente
que desmente e me aponta a retenção
Refletida, sou expectadora
sem falso testemunho, dou por visto os duelos
Algemadas, compartilhadas
faces e vestes, umas dominam outras se contêm
Sem jugo, sem tirania, um ponto de equilíbrio
constantemente trabalhado, conscientemente renovado

E ainda que o inverno pareça mais rigoroso
E que a névoa densa me turve a visão
Não desviarei o trajeto a ser seguido
Sigo o caminho finalista
Busco o apogeu do aprendizado
Que por obra do destino me foi dispensado

Quem é você
que levanta o véu da realidade
e me oferece as incertezas
dos trilhos incomuns?
Quem é você
que transforma meus dias mornos
em tempestades cheias de vida
em constantes explosões orgásticas?
Quem é você
que não me fala em amor
e em incessante desabrochar
me tem como uma flor?
Quem é você
que me tira as algemas
me aprisiona em liberdade
me dá e tira o fôlego
e, em êxtase, me faz chorar?

Que mistério vês
na face que te mostro
se é a mesma que vejo
até além do espelho
que me reflete?
Não me imponhas limites
não me traduzas em vãs palavras
sou capaz de ser quem tu vês
mas serei sempre o que posso ser
Que descobertas fazes
afora a realidade já distorcida?
Silencia tua mente
espera o tempo revelar nossas faces
Vivamos simplesmente!

Desamo o desamor
porque dele nada sei
além de desencanto
porque nada me tem
mais intensa que o amor
Deixa-me guardá-lo
nalgum lugar só meu
posso até silenciá-lo
como quem já o esqueceu
Desamo o desamor
porque dele tudo aprendi
mas nada me convenceu
mais que o amor
e amputá-lo dói-me tanto mais
que chorar a saudade
Deixa-me guardá-lo
onde só eu saberei
e se por você me perguntarem
jamais direi que morreu
mas que vive em algum lugar.

Quando falta
resolvem jogá-la
para então resgatá-la
Quando a tiram
falta a educação
e até o respeito
e dói no peito
de quem sente
a reação
Quem a perdeu
culpa os outros
diz que a tem
mas que de santo não é
e pensa que tem
o que só se mostra
quando prestes ao dissabor.

Amniótico fluido que já me envolveu
a tentar me proteger de externos choques
amniótico líquido que já me amparou
na medida exata do que precisei
Etéreo líquido que me conduziu à vida
a minha ótica me mostra tua verdadeira natureza
não és fluido nem líquido
és esse ser chamado MÃE
Sem mais fluidos
envolve-me em tuas noites de vigília em oração
MÂE etérea e terrestre
deixa-me ser frágil se precisar
deste-me a demonstração de tua fortaleza
e dela não descuidarei
deixa-me ser, vou crescendo na dor,
deixe-se ser mais liberta de teus cordões
jamais me perderei de ti.

Não há tempo para discutir e teorizar os reclamos,
urge a solidariedade em favor dos que padecem.
.

Do ventre ao embalo do colo
e vieram as mãos
a sustentar as quedas
dos destemidos
primeiros passos.
Do amparo das mãos
ao pés que transportaram outros
ávidos e curiosos
em desvendar novos caminhos
até mesmo aqueles cheios de espinhos.
Quem dera esses pezinhos
que já pisam tão firmes
continuassem a sentir
a força do amor materno
e a compreender que mudar a posição
não é uma inversão de valores
é o fundamento maior do amor.

(a quem sabe quem é)
Arde-me em fogo
o som etéreo do tom
que tocas em sol
E ainda que em múltipla direção
eclode em minha alma
toda inspiração de tuas notas
Teus sons e acordes
turvam minha visão
ampliam minha sensibilidade
Do grave ao agudo
sinto-me tua própria partitura
do sissone ao pas de valse
sinto-me até uma bailarina
Ou mesmo uma semicolcheia
a compor um compasso
harmônico e singular
Ah! Como sou incauta!
Quantos frívolos sentimentos!
Ao maestro o êxtase vai além
o som que irradia não há de aportar
mas rebentar em todos os vazios.
E em lágrimas choro
a musa que nunca fui
sequer a simples fusa
que o proporcionou tanta inspiração.

Quero o mundo vivo
Pulsante, visto e sentido
Cada mistério
É só uma questão de prisma
Um mundo preconcebido
Não cabe numa película sensível
Capto o não concebido
Transformo o que já de antemão
Revelo o mundo
Pelos contornos dos meus olhos
Sem fixador
Meu negativo é metamórfico
Sem ácido acético
Sem sala escura
Meu projetor de luz
É minha alma

Porta fechada
e lá dentro
um coração que sofre
esconde o medo
e as possibilidades do novo
Porta fechada
viver o que conforta
talvez fosse a chave da felicidade
mas muito mais dói sofrer por mais vida querer
sem o novo se permitir
Porta fechada
nada há de encerrado
que a ansiedade já não pressinta
deixa então vir o que é preciso
guarda só o que já vivido

Arvoro-me em desvendar novos caminhos
em terras áridas de um solo gasto
numa clausura que parece me tolher
Em terras secas, a estiagem assola
a paisagem cinza embacia a aquarela dos sonhos
nesse cenário, redesenho meus caminhos
Em terras áridas de um solo gasto
redescubro minha diversidade
e passo a repensar a liberdade tão sonhada
outrora tão encadeada, refém das memórias recorrentes
Nesse palco inóspito,
a clausura passa a ser a liberdade
a liberdade, cada elo aprisionado
e passo a deixá-lo cada um desobrigado
Nessa paisagem desertificada
a inteira liberdade não mais me assusta
é o elo que me leva da caatinga à terra preta amazonense
da vegetação em extinção a um vasto solo frutificado
com recursos sustentavelmente utilizados.

E toda vez que me batem a porta, outros caminhos se abrem.
E não me cega a escuridão, meu norte é o horizonte.

Não tenho o olhar do silêncio
Não reflito sentimento escondido
Meus olhos falam o que sinto
São janelas abertas
Raios de luz que me guiam
Retrato fiel do meu mundo
Não tenho o olhar reprimido
Se me olhas, me vês
Sou um espelho (in)discreto
Uma vitrina invendável
Com transmissão ininterrupta
Conectada à ligações nervosas
I N T E N S A M E N T E
A M O R (OSAS)

E cada vez que nos perdemos
deixamos a porta aberta
e cada vez que não nos vimos
deixamos lá fora um pouco de amor
trancamos o ciúme no peito
e quando demos conta
já não éramos nós
ficamos a sós
o encanto acabou
a porta se fechou

Antes que o sol caísse
procurei a poesia
e só encontrei pieguice
sem encanto, nem magia
Procurei criar o irreal
e me perdi em memórias
nada além de minhas histórias
com um enredo pouco original
Antes que o sol caísse
procurei a poesia
vi só minha fotografia
era só uma mesmice
Procurei o mundo e só me vi
e ao me ver nada senti
como um galho seco
sem brilho, sem vida.

Ah! Tempo inelutável
foste mais longe do que minha imaginação
trouxeste-me até uma sacada
em plena segunda-feira de carnaval
Ah! Tempo que não para
continuo a te acompanhar
agora sem tanta pressa
te admirando devagar
Nunca te perdi
cuidei de dar passos largos
para nunca lamentar
o que não faria
se fosse te desperdiçar
Ah! Tempo insuperável
meu companheiro invencível
vencemos juntos o medo do futuro
sinto-me a mesma menina de outrora
Sempre te encontrei
até nos momentos de ócio
nada foi em vão
ensinaste-me a te seguir sem cansar
e aqui estou com tantas memórias para contar

Como ser inteira e zelar pelo encanto que nos envolve,
Se me vês a meia face da mulher que sou?
Deixa-me ser intensa na meia face que te encanta
Guardarei meu lado sombrio para as horas de reflexão
Deixa-me lapidar meu avesso
Quero poder ser tão inteira quanto intensa
Deixa-me ser como te permito ser
Não me vejas mais que a bela imagem que te revelo.

E porque meu amor-próprio anda de mãos dadas com minha liberdade,
não me permito ser prisioneira de sentimentos menores.
Concedo-me sempre o salvo-conduto, sob escolta de minha própria consciência,
e aos outros, o direito de se libertar de toda e qualquer energia ressentida.

Carnaval de tantas magias
que tantos já tentaram descrever
indizível o prazer de entrar na folia
com ou sem fantasias.
Da Commedia dell’Arte
surgiram o Pierrô, a Colombina e o Arlequim,
da Comédia da Vida como ela é,
tantas outras caricaturas até anônimas
como a tentar retratar a vida como ela poderia ser.
Embriaga o prazer dos envolventes ritmos,
a alegria pretensiosa ou despretensiosa,
os encontros descompromissados ou eternizados,
a liberdade de fazer de contas ser livre das opressões,
um ópio absolutamente personalizado
cada um faz a viagem que lhe convém
simplesmente inefável o prazer de cair na folia.

Às vezes, é preciso balançar as raízes para sabermos se foram bem alicerçadas.
Algumas nos aprisionam e são meros rótulos que nos foram impostos.

Ah! Quão belas são as penas
que adornam os corpos
maquiam as faces
e a todos encantam
Ah! Como enche o ego
a beleza que saltam aos olhos
andar como um pavão
e a todos ofuscar
Ah! Como dói verem as penas ao chão
o corpo já padecido
o espírito enrijecido
já não há olhos que tudo veem
Ah! Vaidade que amordaça
a idade a todos alcança
vai onde o cego te espera
liberta o espírito da tua graça
deixa-o voar como um falcão
deixa-o ter os olhos que tudo sentem.

Seria o encanto e encantaria
sem deduções lógicas
seria absurdamente insana
a magia do meu amor
não fosse o mesmo caminho
sombrio que traçaste
na tentativa de me transformar
em mero objeto de prazer.
Sou mais que a dama rubra
que te cobre de prazer
que sem pudor te entrega o corpo
sou mais que a meia parte que me tomas
sem meias verdades, inteira,
amante e companheira,
um complexo chamado mulher.

Sabes como ninguém o que sou
o que sinto e o que vivo
conheces minha luz e minha sombra
deixo-te seguir teu curso
na esperança que leve contigo
um pouco da saudade posseira do meu ser

Quero ser essa eterna menina destemida
que tem medo de ser mulher
quero ser essa eterna mulher destemida
que carrega sempre uma menina
de olhos ávidos por desvendar o mundo
Quero ser essa alegria contagiante
desconhecer as meias verdades
falar sem pensar
imaginar o que não parece importante
Quero tentar tocar as cores do arco-íris
Imaginar meu príncipe encantado
Lamber os beiços e os dedos
Brincar de pera, uva, maçã
Quero ser essa eterna menina destemida
E carregar no colo a mulher que chora
Desapontada porque amadureceu
Escondendo a criança que queria mais vida

Entre letras e rimas
Encontro-me em teus versos
Como se em teus braços estivesse
Entre letras e versos
Perco-me pelo avesso em tua métrica
Como se envolvida em desmedidas carícias
Toca-me a derme como a me desnudar
Cada palavra que me traduz
Toca-me ardentemente a alma
Cada sentimento impresso em teus poemas
Não importa que imagens
outros olhos possam criar
míopes e distorcidas elas serão
Só mesmo eu sei onde me colocas e onde me tens.

O que me causa estranheza
Não são mais as notícias políticas
O que me causa estranheza
Não são sequer as notícias econômicas
Chamem-me de alheia ou desvairada
Resolvi tentar ser feliz num mundo à parte
Onde eu possa cumprir e esperar o prometido
Onde responder civil ou penalmente seja coisa de outro planeta
O que me causa estranheza
São mesmo os acintes de quem espero o melhor
A quem me dôo com amor a cada dia
E me pergunto se existe outra forma de ser feliz
Sem a possibilidade de ser refém do amor?

Apenas sei de ti
o que te imagino
apenas sinto de ti
o que te ofereço
não te espero mais que isso
mas te quero muito mais
Nosso encontro nada tem de acaso
e quando chegar a hora
veremo-nos como jamais
pudemos imaginar
somos mais que nossas fantasias
já éramos antes um para o outro
um grande reencontro.

(Foto de Tatica Guerra)
Tenho medo das palavras
que o silêncio emudece
distanciam a proximidade
Tenho medo da omissão
que fala e ensurdece
fragiliza e desfaz os afetos
Melhor seria que não existisse
a palavra maldita
melhor seria que não existisse
a omissão insensível
Melhor seria que o silêncio
falasse a palavra omissa
que rumina e corrói
a alma dos orgulhosos

Foto de Vicente Wallace
Não era a forma
era a inspiração
não era o perfume
era a insinuação
Um desejo natural
reprimido ou permitido,
estaria sempre à margem
da ótica do oprimido
Não eram as palavras
era o indizível
era a lascívia
talvez o incompreensível
Não era a razão
era mesmo o prazer
a paixão que aprisiona
e faz escarnecer
Não era só o olhar
era o mistério além da íris
o toque além da pele
era o início de um grande amor.

Ah essa inquietude!
que me aflige se está tudo bem
que me maltrata se está tudo mal
Às vezes me pergunto
se inquietude ou falta de gratidão
ao presente tão precioso que é o agora
Inquietude ou ansiedade
ambos querem saber do amanhã
queria domar esse estado de insensatez
Desembrulhar o presente
já não é fácil, tantos nós ainda apertados
tantos laços mal acabados
E o que há por vir, se não se sabe esperar
é antever as possibilidades
se fechando ao que já é.

Como parar o tempo
e esperar novas primaveras
se mesmo adormecidos
estamos a semear novos campos?

Entre ir e vir
Percorri o que desejei
Entre ir e não voltar
Permaneci onde estive
Entre ficar e me arrepender
imaginei ter deixado de descobrir novos caminhos
Até entender que sempre que escutei meu coração
Fiquei no exato lugar onde deveria estar.
Foi quando deixei meu anjo falar

Não era a forma
era a inspiração
não era o perfume
era a insinuação
Um desejo natural
reprimido ou permitido,
estaria sempre à margem
da ótica de alguém
Não era a forma
era a imaginação
não eram as palavras
era o indizível
Não era a razão
era mesmo o prazer
a paixão que aprisiona
e faz cegar
Não era só o olhar
era o mistério além da íris
o toque além da pele
além da paixão, era o início de um grande amor.