CENSURADO
O JBF tem no anarquismo, enquanto filosofia política ideológica a sua principal linha. Em seguida, a irreverência e humor fazem parte da tônica do jornal, que tem sido palco de boas e esclarecedoras disputas do ponto de vista acadêmico. O próprio jornal propicia um espaço para o debate, onde os leitores podem colocar suas opiniões contra ou a favor do artigo publicado.
Recorrer à força, mandar retirar do ar, ameaçar de levar o caso a justiça, são práticas autoritárias, às quais não estamos acostumados. A última vez que isso aconteceu foi quando Dom Dedé, reacionário fascista que todos nos abominamos, se rebelou contra o jornal por ter patrocinado um cordel alusivo a eleição de Bento. Daí fomos todos excomungados, ainda bem. Não usou o direito de resposta, usou da força e do autoritarismo, prática comum nestas pessoas, saudosas dos tempos da ditadura militar.
Vamos para Triunfo.
Este ano durante o carnaval, estivemos em Triunfo, eu, Xico Bizerra, Salvador Soler, Anselmo Alves, e respectivas esposas. Quando o desfile terminou estávamos todos chocados com o que vimos. Na papeleta dos Caretas mirins podia-se ler frases de mau gosto, além de forte conteúdo pornográfico, machista, preconceituoso e discriminatório.
Escrevi um e-mail para a prefeitura da cidade de Triunfo, do qual nunca obtive resposta. Reclamava do conteúdo das papeletas, ofensivos, não só aos da cidade, mas, como aos que ali estavam de passagem esperando ver uma festa com o mínimo de respeito às crianças e às mulheres.
Eis na íntegra o conteúdo da missiva:
Já visitei Triunfo em várias ocasiões e sou um admirador da cidade. Pela primeira vez, atraído pela apresentação dos caretas, estive este ano no período carnavalesco.
Apesar da beleza do espetáculo, fiquei chocado com o que se escreve nas papeletas dos caretas mirins, frases preconceituosas, com palavrões, racistas, enfim de péssimo gosto.
Uma delas ofendia todos os triunfenses, claro que não preciso repetir.
Não voltarei a esta bela cidade neste período. Me senti agredido, por mim, recifense e também por todos ali presentes.
É uma lastima!
Paulo Carvalho
Na ocasião não citei o que estava escrito nas costas das crianças. Agora, apenas como exemplo, citarei alguns. Quem quiser ver mais é só assistir ao vídeo feito na ocasião, pela própria Prefeitura, ou conversar com algumas pessoas presentes incluindo o corpo de jurados.
Vimos e ouvimos coisas assim:
- Se puta fosse tanque de guerra e fresco fosse fuzil, Triunfo estava preparada para defender o Brasil!
Não vi ninguém da cidade se pronunciar contra, mas acredito que nem todos concordam com isso. Nenhum dos que agora censuram o jornal estavam lá para defender a honra da cidade.
- Mulher é como macarrão, a gente enrola, enrola, depois come.
Que desrespeito às mulheres… não sei se estavam se referindo apenas as deles, quem sabe.
- Homem é feito vassoura, sem o Pau não vale nada.
Seria o “pau” que define a grandeza dos homens do sertão? Ou os seus atributos de caráter?
Não vou perder tempo reproduzindo todas as frases, bastava só a primeira para representar toadas as outras, com raras exceções algumas traziam versos com algum conteúdo.
Bar do Beto, no qual, segundo o editor deste pasquim, reunem-se os leitores do jornal.
Ora, o local é conhecido pelo barulho do som de carros, (hoje crime previsto em lei) a todo o momento, agredindo nossos ouvidos com o volume e a péssima qualidade das músicas, se é que se pode chamar de músicas, estas também de conteúdo pornográfico: é na bundinha, rachadinha, rebolation e coisas assim. O lixo musical que infelizmente prolifera em todo sertão pernambucano.
Impossível permanecer no local. A falta de respeito com o ser humano é de doer na alma e nos ouvidos. Aliás, nunca vi um sujeito abrir a mala de um carro e colocar um som exageradamente alto para ouvir algo que preste. É só baixaria e estelionato cultural como diz meu amigo Anselmo Alves.
Outro dia quebraram a regra. O cantor e compositor Paulo Matricó fez uma bela apresentação no local, e foi só, o resto do ano é a mesmice de sempre.
Falta na realidade educação, caseira mesmo, para se respeitar quem está ao lado e não quer ouvir essas porcarias, e é obrigado por conta da altura em que o som é colocado.
Vocês precisam, quando incomodados, responder, dialogar, protestar, discordar, tudo isso de forma acadêmica, no próprio espaço destinado ao debate.
Antes de simplesmente discordar, pesquisem, conversem com os mais velhos, com as mulheres do baixo meretrício. Elas têm muito a contar e a esclarecer. Nada de discriminar essas pessoas, elas fazem parte da vida da cidade. Não é só de freiras, beatas e conventos e cachaça que vive o povo de Triunfo.
Em Triunfo tem área de baixo meretrício, ou não? Se tem cabaré tem quenga, se tem quenga tem quengueiro e raparigueiro.
E o que impede que estes usem máscara para comparecer ao recinto, e depois descer o morro com o chicote na mão, mascarado e com um lenço na cabeça?
Isto nunca aconteceu?
Existe a versão oficial, eu conheço, mas não acredito. Existem pessoas que ainda, nos dias de hoje crêem em anjos, sacis, duendes, espíritos que descem ladeiras, encarnações e outras bobagens. É um direito pensar assim, que façam teses a respeito. Só não queiram que todos acreditem. E, em caso de discordância, querer queimá-los na fogueira. Assim como a ditadura, a idade média já passou.
Nós estamos falando de bares, boêmios e bordéis, fonte de muitos conhecimentos, que contestam a história oficial.
Durante o carnaval a única exceção a música carnavalesca foi a apresentação de Marron Brasileiro, o resto é brega da pior qualidade. No São João são as bandas de “forro” estilizado, do tipo Calcinha Preta, Menina Safada, os nomes falam por si, e as prefeituras bancam com o dinheiro do povo. Não se ouve Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Maciel Melo, Flávio Jose, nada, é só música baiana de mau gosto e brega que instiga a violência, a pedofilia e a cornitude.
Pessoal, vamos salvar o sertão, vamos retomar a verdadeira e autêntica cultura sertaneja, vamos crescer, abrir a cabeça, deixar essas picuinhas de lado, vamos conversar, trocar idéias, foi assim, não foi, digam isso nos espaços destinados à boa e salutar polêmica, leiam, pesquisem, discutam, mas deixem o coronelismo de lado.
Gosto de Triunfo e do povo de lá, faço elogios à beleza da cidade do seu casario antigo, do seu verde, e da sua hospitalidade, pelo menos da maioria das pessoas. Divulgo como fiz, aqui mesmo no JBF o carnaval dos Caretas. Agora, críticas devem ser encaradas com calma e inteligência, não com censura e proibições.
Considero a censura feita por alguns Triunfenses e não pelo editor do JBF.
Berto, mantenha a censura, é bom para o currículo, gosto de ser censurado, excomungado, como no caso de Dom Dedé. Aliás, eles se merecem.
Fico com a IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA SERTANEJA, esta não censura ninguém.