Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
Somos todos passageiros de um trem chamado tempo. O roteiro é definido pelo maquinista chefe, lá de cima, do topo do mundo, em meio às nuvens branquinhas que brincam de ser o que não são e que parecem ser a fumaça daquela Maria que andarilha sobre trilhos. A viagem, com suas paradas, subidas, descidas e solavancos, o senhor destino vai impondo, direta e silenciosamente, da estação central. Esse trem, com carregamentos de alegrias e de tristezas e que também tem vagões com cargas de saudades, risos e lágrimas, parte célere em direção à estação da paz, para um canto qualquer de um lugar desconhecido, talvez próximo à Ilha de Abrolhos ou, quem sabe, para um gramado ao leste do céu. A todos, uma boa viagem.
Música composta em parceria com Carlos Vilella em homenagem a um dos maiores gênios de nossa música popular, o Mestre Dominguinhos. Faixa contemplada no Forroboxote 9, cantada por Nena Queiroga, fato que torna redundante falar da beleza de interpretação incorporada à música. Recentemente esta mesma música foi gravada por Chambinho, músico/cantor que fará o papel de Luiz Gonzaga jovem no filme De Pai pra Filho, comemorativo de seus 100 anos, dirigido por Breno Silveira. Esta versão fará parte da coletânea PERNAMBUCO FORROZANDO PARA O MUNDO, a ser lançada pela Passadisco até o final de Maio andante.
DOMINGOS Carlos Vilella e Xico Bizerra
essa luz tem domingos de paz de um jeito que já não se faz essa voz tem domingos de cor matiz que o mundo encantou passarinho recitando o soneto do mundo chão fecundo, tanta flor, água benta regando a terra finda guerra, fim da dor, domingos de amor chuva que enche o bucho do rio, terra em cio a florar semente que o chão engravida, domingos de um sonhar é clarão nas curvas do escuro, sertão puro, ser tão mar é presente, passado e futuro, um eterno carinhar domingos pra cantar
A placa estava lá: PROIBIDO ESTACIONAR. Também estavam lá as listas no chão e o meio-fio pintado de amarelo indicado a proibição de ali estacionar. Havia, porém, a truculência, a prepotência e a falta de educação de quem deveria zelar pelas leis. Parou seu carro e desafiou todas as outras autoridades locais. Achando pouco, saiu esbravejando: daqui não saio, daqui ninguém me tira. Jogou no lixo todo e qualquer resquício de dignidade, de respeito à missão que abraçou. Achou-se Deus e era apenas um Juiz a desrespeitar toda a população e o estado de direito. O povo, atônito, a tudo assistia naquele circo-esquina de uma cidade do interior. Deu-se o poder a alguém que passou a ser a verdadeira pessoa que é. A autoridade fez prevalecer sua vontade e seu carro ali ficou, indiferente à lei e aos pedidos de outras autoridades mobilizadas para contornar a situação. Na outra esquina, o vendedor ambulante parou de vender suas canetas. Ninguém as queria e a população sequer o enxergava. Ele também assistia ao espetáculo grotesco que se lhe oferecia. O camelô, com a dignidade de um magistrado, perdeu de 1×0 pro juiz enfezado. A cidadania, impiedosamente goleada.
nunca fui numa escola não tive facilidade hoje só sou o que sou não tenho qualquer vaidade nunca pensei ser ‘doutô’ a vida mais me ensinou que os bancos da faculdade
se eu não leio de ‘carreirinha’ eu não posso reclamar minha caneta é a enxada onde aprendo o bê-a-bá o meu livro é a viola das ‘conta’ que dão na escola não sei nem a de somar
posgraduado em carinho me especializei em beijar de cafuné, meu diploma sou um mestre no cheirar e quando maior eu quis ser foi olhando pra você que aprendi o verbo amar soletrando, faço a rima que minha mente arquiteta levar alegria ao povo sempre foi a minha meta ‘doutô’ eu nunca quis ser não sei ler nem escrever sei muito mais, sou poeta
Quando o sonho era só a manga do quintal vizinho a grande vontade era crescer para poder ver as pernas de Bardot no cinema. Esse tempo, embora ainda houvesse o medo de responder a tabuada pelo temor da palmatória, era um tempo bom em que o sonho era apenas encontrar um grande amor, ver o dia clarear e andar de trem buscando o Cariri. Não precisava dormir para sonhar. Era tão bom quando os sonhos eram só sonhos e a gente podia sonhá-los. Hoje resta a TV e o medo de ir às ruas, às praças, de namorar no escurinho deserto, território privativo dos namorados. Quem senta nos bancos das praças? Quem namora na penumbra do cinema? Onde estou? Que é da Rural Willys do meu pai?
Todos já devem ter percebido o respeito e a admiração que tenho pelo sanfoneiro, aquele homem que cola a sanfona junto ao peito e por aí sai, no meio do mundo, fazendo a alegria da alma e dos corações das pessoas simples e humildes. Veio-me a idéia de compor essa música, em formato de oração, em agradecimento pela bem-aventurança da existência desse tocador em nosso meio. A interpretação é de Santanna, O Cantador.
ORAÇÃO DO SANFONEIRO Xico Bizerra
seu sanfoneiro, muito obrigado o meu verso cantado é pra lhe agradecer por esse xote marcolinizado e o baião gonzagueado que só tu sabe fazer com a sanfona ‘garrada no peito sustenidos satisfeitos puxados do coração bemóis saídos de dedos malinos verdadeiros bailarinos do balé do meu sertão
santo zé, meu padroeiro, protegei o sanfoneiro dai-lhe festa o ano inteiro, rogai por ele e por nós valei-me, nosso senhor, olhai pr’esse tocador que só toca o amor, guardai os nossos forrós
e cada nota, cada acorde que tu toca toca fundo a alma de quem ouve esse teu tocar
O sol nasce do mesmo jeito, forte e altaneiro. O vendedor de jornal esgoela, tal qual fizera no dia anterior. No sinal, o motorista impaciente com o sinal preguiçoso aperta com a mesma força a buzina do seu carro. O vendedor de picolé bendizerá o sol. Na praia, um porta-malas será aberto e a zoada de um axé perturbará todos os que não gostam de axé ou que estão com dor de cabeça. No final, o sol, indiferente a quem não gostaria que assim fosse, também irá se por. E, no outro dia, um mesmo sol, um vendedor de jornal, um motorista impaciente, um falso baiano , um vendedor de picolé, esperarão um outro domingo para fazer tudo de novo. Em plena segunda-feira, igual a tantas outras segundas-feiras que se sucedem aos domingos.
No disco COM A SANFONA AGARRADA NO PEITO presto homenagens aos grandes instrumentistas brasileiros da sanfona, a exemplo de seu Luiz, Sivuca, Oswaldinho, Camarão, dentre outros. Claro que o Mestre Dominguinhos não poderia ficar de fora dessa minha demonstração de admiração e respeito. A música no CD está em duas versões – como arrasta-pé, na voz de Santanna, e como Canção, na voz de Liv Moraes, filha de Dominguinhos. É esta a versão que poderá aqui ser escutada.
CANÇÃO ADOMINGADA Xico Bizerra e Beto Hortis
alumia a noite escura teu abrir-fechar de fole a tristeza escapole, adomingas corações escancaras alegrias quando abraças a sanfona és o dono, ela é a dona do aconchego das canções
brancas-asas, sabiás, pretos-assuns se enternecem sob o céu de Garanhuns e os acordes que acordam melodias lembram os dias de um nenê que se adomingou e o xodó do teu tocar ilumina e toca em frente a semente que pra nós luiz deixou quem me levará sou eu, isso aqui ‘tá bom demais com essa paz abri a porta para o amor
Faltou-lhe o ar. Fazia tempo que Afonso não a via, coisa de 10, 12 anos. Maura continuava bela, embora seu sorriso não fosse tão aberto quanto fora naquele passado que, agora, lhe vinha à mente, mais que nunca. A ela, o ar também pareceu-lhe faltar. Como o tempo foi generoso com aqueles olhos, com aquela pele, com seus cabelos – pensou Afonso. Parecia-lhe ontem o último encontro. Mas os tempos eram outros, o destino escreveu outros roteiros para suas vidas, destinando-lhes parceiros outros. Ele, que julgava esgotadas todas as frases de amor, olhou-a no fundo dos olhos, e disse-lhe, apenas: eu te amo! Falou tão baixo, de si pra si, que nem sabe se ela o ouviu: a orquestra que passava produzia um barulho tanto maior, quase infernal se divino não fosse. Ao saxofonista sobrava ar nos pulmões, entoando um frevo de Nelson Ferreira.
busquei no céu a estrela mais bela, apaixonado, conversei com ela, conversa mole, ao pé do cangote, prá dançar um xote, eu chamei, dona lua deixou
e assim ganhei o brilho dessa estrela, se quero vê-la é só olhar pro meu amor
tu és a flor do sertão, da seca todo o aguar, dos sons, tu és a canção, és o meu cessa-chorar, desaprendi a dor, eu desentristeci, depois que te bebi, água, amor
A cada rodada, máquina na mão, cálculos efetuados, projeções feitas. Tão importante quanto o resultado do seu time, os resultados alheios, daqueles que lhe seguem na tábua de classificação. Mas Ivan continua torcendo e achando que os destinos do País, do ponto de vista social, econômico e político, têm muito menor valor que o título ambicionado, que às vezes se mostra próximo, outras horas se esvai em decorrência da derrota não prevista. Ao final, faixa no peito depois de um ano de incertezas e dúvidas, alegria nos lábios e a contagem dos dias para o início da competição futura. Às vésperas de um ano eleitoral, o bi-campeonato é muito mais importante que o governante que está por vir. E os Ivans continuam enchendo os estádios e gritando Gol! Gol de quem?
FRUTO SEVERINO (Ao Mestre SIVUCA) De Xico Bizerra e Ozi dos Palmares
Na voz de Flávio José FORROBOXOTE 8
Fruto severino de fino sabor peregrino ‘biu’, feira de amor tempero itabaiana, iguaria cigana da paraiba ao mundo arriba com o seu dom
no peito brilha o matiz da luz e na cabeça o algodão cor da paz dedos de uma doce magia fazem poesia embutida no som mangaios de um ser tão feliz de quem quis a vida em tom maior
meu cavalo fala português e um baião já ensaio pras matinês o rei, o bedel e o juiz riem todo o riso que há no país a zefa de purcina veio teu floreio ouviu e então pôs-se a dançar
não se vê mais verde nos quintais e já passou o tempo dos pardais joões e marias lá do joá choram a saudade que é tua naquela vendinha da rua onde o povo todo ia se animar
Num espaço infinito entre o céu e o chão o sol passeia, preguiçosamente derramando sua luz. Nem dá pra entender direito quando esse mesmo sol, com a mesma preguiça, prefere esconder-se não se sabe aonde. Depois de uma noite toda de descanso, continuar descansando? A praia sente sua falta. Eu, nem tanto. Com ele escondido a gente pode dormir um pouco mais, talvez até sonhar além do já sonhado. E, se os sonhos forem bons, menos falta ainda fará o sol a nos tirar da cama num domingo de Dezembro ou de qualquer outro mês. Começo a imaginar que os atrasos do sol podem se dever ao percurso do Japão pra cá, caminho possivelmente engarrafado por luas e estrelas que fazem o mesmo trajeto, em sentido inverso, pela mão única do firmamento, pela estrada poética dos sonhadores. E, ao que me consta, sem qualquer guarda de trânsito. Aliás, ainda bem que sem qualquer guarda de trânsito a atrapalhar o trânsito.
vou pintar de azul nosso chão pra quando tu pisar azular minh’alma, meu mundo e todo o meu coração pra gente se amar
vou tingir de branco essa lua pra quando tu olhar branquear a cantiga de paz que um dia eu compus pra ti pra gente cantar
e um arco-iris luzente e aceso de brilho e cor matizando a terra, o mar e o sol com todo o realce que tem o amor a pintar minha vida, noite e dia teu riso, magia, minha alegria a colorir meu jardim em flor, meu jardim em flor
vou pintar de ouro a mais bela estrela pra quando tu passar cintilar caminhos, ternurar carinhos, trazer sonho bom pro nosso sonhar
vou deixar pura e bela a água do rio pra quando te banhar cristalizar teu cheiro, teu beijo, abraço, encanto pra me encantar
nesse chão que se recheia de meu verso enfeitado de sanfona e cantoria vou tentando fazer minha poesia muitas vezes sabendo que tergiverso procurando no eixo do universo a palavra e a rima independente pra agradar ao meu povo e a minha gente num poema mais sucinto e conciso e assim eu vou vivendo de improviso na certeza que vou morrer de repente
vou remando com a rima da emoção dirigindo cada mote da harmonia velejando nos ares da poesia flutuando para qualquer direção sou o sim em meio à safra de não sou a tarde enfeitada de poente me escondendo para nascer novamente pra levar no rosto um novo sorriso e assim eu vou vivendo de improviso na certeza que vou morrer de repente
Alguém já disse que os abismos dos céus são mais profundos que os abismos dos mares, mas ambos são abismos. Eu complementaria dizendo que a angústia de alguns sonhos atormentam mais que as angústia reais, embora sejam apenas duas formas distintas de angústia. Corri pro mestre Google. Existiria a cidade de Lievo, na Itália? Não, não existe. Este lugar foi inventado apenas para ilustrar meu sonho. Sonho agoniado … Tão agoniado que vou reparti-lo com vocês pra desagoniar-me a alma. Perdido numa rua, entre a Torre e a Madalena, no Recife, vi-me de repente pedalando minha bicicleta numa longa e larga estrada, deserta e sem fim. De repente, vejo um caminhante que, indagado, responde-me que estou em Lievo, na Itália, e como prova me mostra a placa de três carros que estavam à beira da pista. Lá estava escrito: LIEVO. Sonhei Lievo, acordei Recife, perdido na angústia das desertas estradas da imaginação, tão distantes de onde deveriam ser, tão vizinhas de onde não são. Onde fica a Lievo de verdade ou ela só existe na geografia dos meus sonhos?
descobri um arco-íris que tem mais que sete cores tem a cor dos meus amores lá no meio entranhada uma cor amorenada cor da cor de uma paixão que me adoça o coração a cada desanoitecer
quando do adeus das cores num cortejo de aquarela que essa cor morena e bela não se esqueça de ficar e num doce acalantar num sussurro de emoção amorene uma canção a cada desamanhecer
e a brisa amena beijando tua cor morena, serena e a mão pequena do tempo a ensinar que as cores todas mãos dadas, desaparecem, guardadas num infinito colorido pelas tintas do mar
Onde está Chaplin e seu humor quase infantil? Decifre-se o grande mistério de saber para onde foi Hithcock. Será que o último tiro disparado pelo bandido atingiu Jonh Ford? E Bardot, dos juvenis sonhos dos anos 50, continua linda como sempre foi ou o tempo também não a perdoou, apesar de ser Brigitte Bardot? Saudade dos tempos em que cada bairro tinha seu cinema e, em suas portas, trocávamos revistas, de Zorro, de Roy Rogers, de Tarzan. A modernidade acabou com mais esse sonho juvenil. As facilidades tecnológicas nos permite hoje assistir filmes até pelo celular ou na tela de nossas TVs de 50, 60 polegadas. Foi-se o encanto, o Canal 100 e o cinemascope, o technicolor de anos atrás hoje são apenas termos utilizados por quem teve a ventura de viver a época do cinema. Do cinema de verdade.
Esta está contida no mais novo CD, o CANDEEIROS E NEONS, e é a primeira parceria com um novo músico recifense de muito talento – André Macambira. Dentre as canções constantes do CD citado é a preferida minha mulher. Cantando, o próprio André Macambira com arranjo de sua autoria.
EU E NÓS Xico Bizerra e André Macambira
vou embalar meu sonho pra quando o nosso amor luzir vou calar meus olhos enquanto a tua voz dormir na sombra desse verso meu fecundo um bem-querer e o cheiro das estrelas vai estar onde estiver você iluminando toda a minha vida perfumando todo o meu viver
silêncios e zumbidos já não consigo ouvir só escuto saudades se estou longe de ti teu amor de lua, vinho tão atroz estrada longa e nua a calar a minha voz quantos sóis terei que ver no céu pra que eu um dia seja nós
Mal começou, está minguando, quase acabando, este 2011. Que ano avexado, este. Quando eu pensei Janeiro, Dezembro já era. Ano em que quebrei o pé, consertei o pé e não acertei na Mega-Sena. Ano em que dormi todas as noites, sonhei como sempre e acordei todos os dias, exceto naqueles em que não dormi e só cheguei de manhã em casa. Aconteceu de tudo no meu universozinho particular: fiquei puto com o cara que parou em frente à minha garagem impedindo que eu entrasse. Perdoei o cara que ficou em frente à minha garagem impedindo que eu entrasse. Perdi apenas 20 minutos de tempo e poesia. Lancei o Cd novo – Candeeiros e Neons, tendo a honra e o prazer de ver canção de minha lavra interpretada, pela primeira vez, por Xangai. Elba Ramalho também está no disco. Reservei as terças e sextas para apresentar o Forró e Ai na Radio Folha FM 96,7 e fiz 103 programas durante o ano, entrevistando um monte de gente boa. Perdi a paciência com o motoqueiro que quase arranca meu retrovisor. Relaxei, ele devia estar atrasado e com pressa. Foi só um arranhãozinho leve. Escrevi um bocado de bobagem para o Jornal da Besta Fubana, pra Gazeta Nossa, pro Blog do Sanharó, pro Cacimba da Poesia e pro Além do Horizonte e teve um magote de gente que leu essas bobagens. Comi fava na casa do papa Berto e conheci uma cachaça muito boa chamada Volúpia. Minha espirradeira alérgica continuou sendo uma companheira fiel e constante durante todo o ano. Como já recebi os títulos de cidadão do Recife e de Pernambuco, dei de presente a alguém que precisava um paletó novinho em folha, apenas duas vezes usado, e uma gravata vermelha e cinza, combinação perfeita com o dito-cujo paletó. Fui a Minas conhecer Tiradentes, Ouro Preto e conheci Dores do Indaiá. Depois fui ao Crato reabastecer as baterias. Aproveitei e dei uma esticada até o Bodocó, Ouricuri, Petrolina, beira do rio São Francisco. Descobri o que era saudade quando em 23 de agosto deixei meu filho no aeroporto pra uma temporada no Canadá. O Sport subiu pra serie A. No reveillon de 2010 estava vivo e no de 2011 espero assim continuar. Mas, o mais importante: amiudei meu tempo de bate-papo com Deus e, quase sempre, ele teve tempo de me escutar. Que venha 2012.
Não. Tenho que ir. Minha paciência é muito curta pra agüentar um trânsito tão lento quanto este aqui, da Capital. O para-anda-para sem fim, essa hora e meia perdida de minha casa até o centro da Cidade é uma hora e meia perdida que poderia muito bem ser aproveitada olhando o mar, passeando descalço na areia branca da praia, escutando um Maciel Melo ou um Xangai ou lendo alguma coisa que preste. Que fazer? Voltar pro interior e não sofrer tanto com o caos urbano? Mas, e a Praia, a areia, o sol se pondo onde acaba o mar? É, como tudo na vida, uma questão de escolha entre alternativas que se nos apresentam. O ideal seria um mar no Crato ou um Crato no Recife, com suas ruas desentulhadas de carros, com o poder ir e vir ao centro sem precisar parar a cada 5 metros e, enquanto isso, ingerir tudo que a poluição nos oferece, de graça. Sem a menor graça.
Mais uma que consta de nossos Forroboxotes, o de número 3 – MULHERES CANTADEIRAS DE UMA NAÇÃO CHAMADA NORDESTE, na belíssima interpretação de MARIA DAPAZ, uma de minhas parceiras mais freqüentes. A música é de minha autoria em parceria com um mestre do Bandolim, Adalberto Cavalcanti, conhecido como Beto do Bandolim.
COBERTOR DE ESTRELAS Xico Bizerra e Beto do Bandolim
prá ter certeza que nem tudo se perdeu pr’eu ser feliz e ter motivos pra cantar reencontrar a paz que um dia se escondeu e toda noite, noite plena de luar pra olhar pro ceu e ver milhões de estrelas sonhar trazê-las pra ser nosso cobertor saber que o amor ainda não me esqueceu basta botar esses teus ‘ói’ em riba deu
prá ter sede bem ‘pertim’ do pote prá dançar xote agarradinho com você prá ser invernia toda hora não ir embora, não, sempre te ter pra ser feliz ficando aqui ao lado teu basta botar esses teus ‘ói’ em riba deu
As meninas, bem mais recatadas que as de hoje. Nós, recém saídos da adolescência, sonhávamos a semana inteira com aqueles sábados, com aquelas tertúlias. Cada fim-de-semana na casa de um, em sistema de revezamento. Havia a necessidade do ‘esquente’, antes da festa, para ter coragem de tirar as meninas recatadas para dançar. Mas havia, também, a falta de dinheiro, fator que limitava um ‘esquente’ decente. O jeito era, num só copo, misturar conhaque, cachaça, rum e um pouco de cerveja e, copo cheio, botar aquelas mistureba pra dentro deixando o fogo sair pelas ventas. Pouca coragem, quase nenhum dinheiro. Bom e barato. Nada de beber lenta, gradual e socialmente. Bastava uma dose e estávamos no ponto para dançar. E aquelas moças, bonitas e recatadas, aceitavam um convite à dança de um cabra cambaleante e com um hálito de quem engoliu tudo que não presta misturado com tudo que também não presta. Mas os tempos eram outros e aquelas moças dançavam a noite toda com aquela cambada de cabrinha recém-saído da infância, com todos os hormônios saindo pelos poros e com todas as catingas saindo pelas bocas. A embalar os sonhos ouvia-se Paulo Sérgio, Roberto Carlos e, tantas vezes, Renato e seus Blue Caps. Dançávamos, alegres, festiva e inocentemente bêbados.
Do meu disco infantil FORROBOXOTE 7 – SER TÃO CRIANÇA, recentemente reeditado. Este trabalho me gratificou com mais de uma dúzia de homenagens em escolas do Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes, que o utilizaram como tema dos festejos juninos a partir de 2009. Tive notícias de que foi também adotado pela Secretaria de Educação do Estado, nas escolas da região metropolitana, como instrumento pedagógico – pelo ludismo da poesia, e de iniciação à cultura, pelo regionalismo das canções– xotes, baiões, xaxados e arrasta-pés. Registrada na bela voz de Cristiane Quintas. Se a alguém interessar, o disco está a venda em meu site Forroboxote.
ESTRELA
Xico Bizerra e Roberto Cruz
luzinha que apaga e acende brincando de ser pirilampo estrela tão incandescente alumia a cidade e o campo
a estrela é vizinha da lua brinca com a nuvem branquinha clareia a calçada e a rua vai dormir de manhazinha
acorda o céu no meio da noite, vem sonhar estrela cadente ilumina a gente, vem brilhar
Ele produzia uvas e seus frutos eram conhecidos como os melhores do local. Tanto que, nos últimos dez anos, foi o maior fornecedor de toda a região. Todos o procuravam e degustavam os vinhos que delas se originavam, saborosos, doces. Às vezes, ele misturava seus frutos com os de outros produtores e conseguia criar um sabor diferente, mas também de boa qualidade. Mas certa noite ele percebeu que as pessoas, aos poucos, estavam deixando de provar suas uvas. Será que elas tinham caído de qualidade? Ficou chateado quando certa vez lhe disseram que não existiam mais uvas como antigamente, que os bons produtores tinham desaparecido. Será que outros produtores estavam conseguindo produzir algo melhor que seu produto? E ele resolveu parar de plantar suas uvas. Fechou as terras e não mais as produziu. E aqueles que consumiam suas uvas passaram a produzir não mais vinho, mas sucos de sabor duvidoso e que não caíram no gosto, no paladar dos consumidores (ou até caíam, mas logo, logo, era abusado). Ele riu, baixinho, e numa noite resolveu voltar a produzir suas uvas. Não pensou naqueles que as usavam para fabricar os vinhos, mas naqueles que os bebiam. Aqueles, sim, mereciam boas uvas e vinhos bons.
Parceria minha com Luciano Nunes e incluída no disco MULHERES CANTADEIRAS DE UMA NAÇÃO CHAMADA NORDESTE. A interpretação coube a Amelinha que abrilhantou a canção, aliás, como é do seu feitio, sempre.
CÉU DE BALÃO Xico Bizerra e Luciano Nunes
o amor se aboletou de vez dentro do meu coração ardo de paixão em meio a massapês sou fogueira de são joão ó, balão que sobe lá no céu leva à lua o meu cantar que as estrelas num grande escarcéu acendam para celebrar
a lua por uma fresta alumiando um bem-querer meu coração fazendo festa em tempo de endoidecer nesse caminho só tem carinho só tem eu e você
Bom é passear no Crato. Andar a pé, passar em frente ao Tênis Clube, ao Hospital São Francisco que um dia me viu desembuchar. Dali, descer até a Praça da Sé, sentar um pouco perto da fonte e contemplar o tempo, companheiro fiel da Igreja onde, eu menino, via Padre Rubens rezar missa e fazer seu sermão. Felicidade chega ali, se aboleta no primeiro banco e tome tempo pra ir embora! Ainda bem que a felicidade é preguiçosa. Antes de seguir viagem rumo ao centro, agradecer à Senhora da Penha pelo vento gostoso e pela sorte de ali ter nascido. Na Siqueira Campos, devagar, sem qualquer pressa, tomar um cafezinho quente e lembrar-se do Cine Cassino, dos bang-bangs de antigamente, da tabuleta caprichosamente feita por Amarílio anunciando o filme do dia. Maldito ‘progresso’ dos dias de hoje; malditos os que derrubaram o prédio da esquina para construir um não-se-sei-o-quê. Na entrada da cidade, procuro ver a casa que era do meu avô e onde eu passava as férias. Não mais a vejo. O ‘progresso’, faminto e ganancioso, comeu a casa do meu avô e vomitou mentiras para justificar o atentado. Palavras mentirosas que ainda hoje escorrem, a céu aberto, no esgoto da hipocrisia.
Música originalmente gravada no Forroboxote 9 e recentemente regravada por Irah Caldeira no seu mais recente disco, Sem Segredos. Falar da interpretação de Irah é ser redundante: é uma de nossas maiores intérpretes e qualifica qualquer canção. Na versão ora divulgada, a interpretação é de Socorro Lira.
VOU DEIXAR NÃO Xico Bizerra
um dia essa danada da saudade vai saber que acabou a festa e tudo que me resta é uma dor no peito que não quer calar e vai querer se apossar de vez, machucar meu coração vou deixar não, não, não, não, vou deixar não vai-te embora, vade-retro, que saudade é tudo que não quero o que espero é com dona solidão a sangue e fogo me intrigar pode bater e rebater na minha porta até criar calo na mão vou deixar não, não, não, não, vou deixar não saudade boa eu nunca vi, só no verso do poeta ela maltrata, ela inquieta, rói por dentro, é ruim que só se fosse boa essa lágrima que rola no meu rosto não teria aquele gosto amargo feito jiló
Exatamente como se fora, ei-lo de volta. Por entre estradas e pelo mundo, por entre o sol, cansado, suado, triste. A viagem, tantas léguas a pé, não lhe fizera bem. Seus pés doíam, suas costas doíam, sua cabeça doía. Doía-lhe o corpo inteiro, além da alma. Teria valido a pena? Só o tempo, com sua sabedoria, responderá a pergunta tão difícil de ser respondida. Mas viera. Cumprira seu destino e sua vontade. As coisas estavam no mesmo lugar, como se sua saída tivesse acontecido ontem e não há exatos 2 anos. Mesa, tamboretes, a taipa e a miséria. Até o bule do último café estava sobre a mesa com a toalha que um dia foi branca. Pra que e por que voltara? Nem ele mesmo sabe. Mais uma vez, deixava ao tempo a obrigação da resposta. Um dia se fora para o outro lado da estrada, para o outro lado do seu mundo, para o lado avesso do amor. Mas voltou.
Minha primeira parceria com o grande artista pernambucano André Rio. Quando ele foi fazer sua participação no nosso Forroboxote 9 me mostrou a melodia, encantando-me, de pronto. Gentilmente ele ofereceu-me para que eu colocasse a letra e o resultado aí está. Gravada no mais recente trabalho de André Rio.
MANHÃ DE INVERNO André Rio e Xico Bizerra
manhã de inverno face oculta de um sol clandestino feiticeira a pintar meu destino de mãos dadas com a loucura sã que é tão sã
manhã de inverno tua miragem em cada esquina cavalgando sob a chuva fina nesse hoje sem ter amanhã amanhã
se a saudade de um instante desanoitecer se essa metade tão distante pedir pra me ver serpente, vou ser maçã se o frio se cansar de ser tão frio e se for se u’a estrela viajar pra te dizer do meu amor te espero nessa manhã
Quantas mentiras se escondem no poço das vaidades! Quantas hipocrisias se entrelaçam quando o egoísmo é rei! Quantas inverdades são jogadas no ar, ainda que com a certeza da pequenez de suas pernas! Quantas trinta moedas são necessárias para mentir envolvendo quem já se foi, sem chance de defesa! Quantos auto-enganos permeiam essas vidas cheias de dissimulações e falsidades. Quantos sorrisos, beijos e abraços fingidos e enganosos! Será que eles dormem tranquilamente, sem pesadelos e assombrações? Serão verdadeiros seus sonos? Têm eles a noção de consciência que os homens de bem conservam e protegem para que possam tranqüilos dormir? Ou seus egos, de tão grandes, se contentam e se alegram em se inflar com tais virtudes, mesmo sabendo-as de mentira, mesmo sendo estas invenções fruto apenas de sua própria insignificância e pequenez moral? A estes não entrego as chaves da minha casa, nem coloco coroa em suas cabeças. Prefiro saudar os verdadeiros que moram distante do que não presta, que habitam mundos cada vez mais desabitados.
Um de meus sonhos, enquanto compositor, era ter uma canção gravada por Xangai, a mais bela voz do Brasil. Isso veio a acontecer no meu último CD, Candeeiros e Neons, onde ele interpreta, juntamente com Bia Marinho, esta música de minha autoria em parceria com o Poeta Baiano Carlos Vilella. Trata do romance entre dois matutos, personangens do livro Ciço de Luzia, de Efigênio Moura, que tive o prazer de prefaciar no ano passado, oportunidade em que me apaixonei pelos personagens.
CIÇO E LUZIA – UMA OPERETA MATUTA Carlos Vilela e Xico Bizerra
NARRADOR: ciço amava Luzia e luzia amava ciço,
era grande o rebuliço por causa desse namoro,
muito riso, nenhum choro, fartura de alegria
e o ciço só queria os carinhos da morena,
no final valeu a pena esse amor de noite e dia
luzia amava ciço, ciço amava Luzia,
toda noite, todo dia, tinha beijos e carinho,
para os dois um só caminho sem saberem o que é dor,
tinha um cheirinho de flor se os dois se encontrassem,
faziam a mesma viagem com destino ao amor
CIÇO CANTANDO: eu sou ciço do sertão, fí de santana e rumão, sou vaqueiro em zabelê
me endoidici por Luzia, ai meu deus, vige maria, sem ela num sei vivê
ela tem um feitiço no zoiá, ela tem o mais branco dos sorriso’ela tem um jeitinho de gostá ela tem a chave do paraíso
LUZIA CANTANDO: eu sou luzia, sou lu, vige maria, ai Jesu,s ciço vei me endoidecê
penso nele toda hora, choro s’ele vai-simbora, ele é meu bem-querê
ele tem as cantigas de elomar, ele tem as rimas de Maciel
ele tem um benvindo ‘chego já’ ele tem um pedacinho do céu
CIÇO DECLAMANDO: hoje a noite bem Cedinho, hora das zave mariam,
robo u’a duza de estrela dô de presente a Luzia
e dessa ruma de estrela do meu presente pra ela
num vai ter u’a que brie que nem bria os zóio dela
LUZIA DECLAMANDO: das estrela do presente vou guardá a mais formosa
pr’alumiá minha vida me deixá mais amorosa
pra que tu fique sabendo sem precisar preguntá
qu’esses meus zóio só bria quando espia o teu oiá
CIÇO CANTANDO: eu sou ciço do sertão …
LUZIA CANTANDO: eu sou luzia …
Sou Xico, adjetivo, verbo e substantivo, próprio ou comum, no espaço de um tempo qualquer. Vim do Crato e trouxe meu coração pra se banhar no Capibaribe, por sob as pontes, brincando com os caranguejos e siris, dançando frevo com o sol da Guararapes, adoçando os pés no areal das praias de Candeias. Quando me canso, ligo a vitrola da saudade e ouço o Rei cantando a Letra I ou os cantadores em versos direitos e esquerdos, centrados ou escorrendo pelas pontas da emoção. Vim do aboio e da cantoria do cego de feira, dos fazedores de brinquedos de barro, das redes em que se deita toda a solidão, mas em que também se balança a alegria maior de ser do sertão, ninando sonhos de poesia.
Sou Xico, hoje do Recife e de Pernambuco, de papel passado, pela vontade do seu povo, mas do Crato pela vontade de Deus. O bandolim de minha mãe se fez acompanhar dos versos do meu avô e entraram, juntos, por um ouvido e pelo outro não mais saíram. Dali foram direto pras veias em que corre um sangue que se mistura ao som dos pífanos, da sanfona e do zabumba.
Sou Xico. Daqui e dali e de outros cantos também, dos chãos que pisei e pisarei pela força da música, guiado pelas asas dos deuses da arte. Se eles assim permitirem. Tomara que sim!
Sou Xico. Só isso!
Uma de minhas primeiras composições, regravada por 21 vozes distintas, desde 2003. Gosto muito desta música pela ‘salada rítmica’ que ela oferece, começando com baião e culminando num xaxado, em sua gravação original. Na versão ora mostrada, ouve-se NÁDIA MAIA, uma de nossas maiores intérpretes, que introduziu no arranjo um violoncelo muito bonito. Espero que gostem.
TANGENDO A DOR Xico Bizerra
vem sanfonar meu coração, vem meu peito zabumbar,
vem baiãozar minha emoção, vem comigo forrozar
nós arranhando esse chão nosso peito se assanhará,
arrasta o pé e o coração termina por se arrastar
e no passo de um forró ou de um xote vou cheirando o teu cangote, aliviando a minha dor
no baiãozado dos meus pés nesse forró, riscando um mosaico só, vou baiãozando o meu amor
no chiadinho da chinela chinelando, a poeira levantando, assanhando o nosso amor
o tum-tum-tum do coração vai aumentando, nossos pés vão arrastando, vão tangendo a nossa dor
Rui precisou andar pelas ruas da cidade grande e tentou fazê-lo da mesma forma como sempre fizera pelas ruas do Crato: devagar, despreocupado, ciceroneado pelo vento que lhe batia à cara, assobiando de quando em vez. Era assim que ele ia, pra cima e pra baixo, do bairro do Pimenta ao Centro, ou do Centro às proximidades da Estação Férrea, na Praça Francisco Sá, onde morava sua filha Bia. Sempre chegava onde se programara chegar, sem sobressaltos, sem assaltos e com os saltos dos seus sapatos inteiros, como saíram de casa. Rui começou a andar pelas ruas da cidade grande, pois pelas calçadas não lhe era possível, por buracos e camelôs, que lhe atrasavam o passo e lhe quebravam os saltos de seus sapatos tão acostumados às calçadas do Crato. Maior sobressalto, o assalto, até então desconhecido, mas inevitável, àquela hora, àquela rua. Restou a Rui a volta pro Crato, às suas ruas e calçadas, ao seu passear tranqüilo, despreocupado. Ganhou de presente o vento que lhe acariciava a face e a paz de constatar ser ainda possível viver.
Música composta no intervalo das gravações do CANDEEIROS E NEONS, meio pro brincadeira, meio a sério, meio passatempo, relatando o namoro, o noivado e o casamento do Fole com a Viola, felizes para sempre desde então. Pronta a melodia e esboçada a letra, lembrei-me da insistência com que pedem pra que eu seja cantor, o que não desejo por pretender deixar minhas limitações restritas à área da composição. Decidi, então, cantar nessa faixa para, a partir daí, não mais insistam com a proposta indecorosa de me colocar à frente de um microfone. Na interpretação do Rap ‘Abaiãozado’ ou do Baião ‘Rapeado’, Zé Brown, um dos maiores intérpretes do gênero.
O ROMANCE DO FOLE COM A VIOLA Xico Bizerra
o mestre lua com abdias de lado ‘garrou na mão de marinês e foi pra lá
abraçado com louro a pajeuzar surgiu toinho e seu baião bem violado
jacinto veio com seu ‘jack’ pandeirado, trouxe ary lobo, gordurinha e muito mais
chega depois lampião com todo o gás soltando a sabiá de dantas da gaiola
era o NAMORO do fole com a viola naquele céu em que a lua inventa a paz
o vento verso/patativa foi chegando ‘amuntado’ n’asa branca de humberto
marcolino semeou o poema certo colheu cantigas pro seu povo bom e brando
de monteiro veio pinto versejando, trouxe a concórdia amancebada com o amor
cancão desenssinava o que era dor, felicidade nesse dia fez escola
era o NOIVADO do fole com a viola naquela esquina em que o céu descobre a cor
foi-se achegando todo o povo brasileiro e a poesia espalhou-se pelo ar
vitalino pegou barro pra moldar um boi bonito pra esse casal faceiro
o padim ciço num milagre verdadeiro fez um coral com mais de quarenta lindus
rezou a missa, no final, sinal da cruz, abençoou os noivos com sua estola
no CASAMENTO do fole com a viola naquela curva onde o sol concebe a luz
os poetas, repentistas, violeiros, tocadores, sanfoneiros todos foram festejar
sou testemunha desse acontecimento desde o primeiro momento eu também estava lá
desde o namoro no araripe começado, no moxotó o noivado desse casal tão feliz
no pajeú foi que deu-se o bole-bole, o casório do artista fole com a viola atriz
- me diga aí, zé brown, se você também tava na festança, se na dança você também foi dançar
- eu tive que dançar e fazer parte dessa história, pois fica na memória um conto bom de se contar. juntando o rap, o repente e a toada, o aboio e a embolada a gente faz uma fusão. aí mistura o coco com o forró e tudo numa nota só pode fazer um baião. é o som do sertão, difícil de decifrar, sei lá, é deixar a natureza declarar, registrar todo aquele momento entre os dois instrumentos que trataram de se juntar. vamos lá. vou recitar a poesia, assim a viola dizia no pé do mourão esperando o fole que se fazia de mole numa bela canção, de coração. é de onde vem a junção e a criação, é onde surge a festa e a diversão. por isso eu fui dançar, sem parar, pergunte a xico bizerra, testemunha ocular. dancei, suei, até gastar a sola no casamento do fole com a viola … naquele céu em que a lua inventa a paz … naquela esquina em que o ceu descobre a cor … naquela curva onde o sol concebe a luz …
Gosto de ler e escrever crônicas, pequenas, ‘croniquetas’, como as apelido. Vez por outra também escrevo alguns contículos, contos curtos, também. Isto, talvez, reflita meu lado preguiçoso de ser, minha porção Caymmi. Sempre fui assim e esse defeito chamado preguiça, por mais que me esforçasse, nunca deixou de me acompanhar. Hoje posso me dar ao luxo de estimular esse ‘dom’ e balançar-me sem pressa, vendo as horas correrem sem freio e numa velocidade que me impossibilita de acompanhá-las. Não tenho a inteligência necessária para entender a razão da pressa. Acho até que já escrevi sobre isso um dia desses. Se corrermos ou ficarmos observando o pôr-do-sol, sentados, com calma e sem pressa, o dia amanhecerá no mesmo horário, os passarinhos cantarão do mesmo jeito, ou não, dependendo da preguiça do sol, e as crianças irão à escola. Muitas também com preguiça.
Música que integra o meu disco SER TÃO CRIANÇA, recentemente relançado. Paralelamente ao lançamento a boa notícia de que, em breve, as faixas do citado disco virarão livro, por iniciativa de editora pernambucana comprometida com a cultura, tendo um olhar voltado para o público infantil. O SER TÂO CRIANÇA me possibilitou alegrias e emoções grandes por ter sido adotado como instrumento pedagógico (letras) e cultual (música) na rede estadual de ensino. Também ensejou várias homenagens a mim na rede privada de ensino da região metropolitana do Recife. Nada, porém, me agrada mais que a receptividade do trabalho junto às crianças, público para o qual o trabalho foi especialmente dirigido.
SOL Xico Bizerra e Roberto Cruz
cadê o sol?
ninguém sabe ou responde
brinca de esconde-esconde com a lua lá no céu
quando escurece,
pega nuvens pela mão
vai passear no japão até a noite se esconder
de manhazinha ele volta e vem de novo clarear
o nosso povo com a sua luz maior
e dona lua, já cansada, coitadinha
vai dormir com as estrelinhas
brincando ao seu redor
lá vem o sol, lá vem o sol, lá vem o sol
No mundo encantado da poesia os passarinhos falam e todas as suas palavras se tornam verso e todos os seus versos viram canção. Assim é com os Blancs, os Vinicius, os Angenores e outros da mesma fauna, como Chico, pássaros de asas coloridas e bicos afinados que falavam e cantavam, que falam e cantam. De Chico, as Luizas, Ritas e Carolinas provaram seu cantar e foram tema de sua prosódia. Sua coragem e destemor ganharam o céu, o sol, o sul e o norte e viraram manchete de jornais e notícias de TV. Foi não foi, sua palavra se encontrava com a tesoura de uma certa Solange, obrigando-o a deixar de ser sabiá para ser ‘passarim’ desconhecido, de ser Chico pra ser Julinho. Escapou de alçapões, badoques e gaiolas e passou a escrever livros. No mundo encantado da poesia tudo é possível aos passarinhos, até calar por uns tempos e apenas escrever livros. Sou do tempo em que os passarinhos falavam, cantavam. Sou do tempo em que os passarinhos escrevem romances. Sou do tempo de Chicos e Franciscos.