13 novembro 2017 XICO COM X, BIZERRA COM I


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SEVERINOS

 

Às vezes sonho com saudades
de quem sequer conheci.
Ontem, foi de João Cabral
e de seus Severinos tantos,
todos magérrimos, todos famintos.
Era um cinema, era escuro.
Eu e ele na última fila.
Fim do filme,
Latifúndio dividido, nem largo nem fundo,
Vi escorregar uma lágrima do olho de João.
Choro que molhou
O punhado final da terra
Que jogavam sobre o homem,
A poeira última, o derradeiro pó.
Senti escorregar uma lágrima do meu olho.
Era escuro e não era um cinema.
Solidário, disse-lhe:
– Nada mudou!
As luzes do cinema não se acenderam.


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HÁ GOSTO EM CANDEIAS

A rede de varandas perfumadas
balança um arco-iris de sete mil cores
enquanto a língua do mar
lambe grãos de areia mágica e conchas sorridentes.
U’a boca carinhosa, na janela dos afagos,
descansa ruminando ondas de abraços
açoitados por doce e terna ventania.
Sementes ninadas preparam setembros …

Nas telhas, uma gota d’água repleta de afetos
sussurra o canto feliz de quem avisa chuva …


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A MULHER QUE NÃO CRIA EM DEUS

Aquela mulher de tantos nãos bem que poderia transpirar futuros e exalar suores de um presente ausente, gostasse dos sins. Quem sabe, transferir seus íntimos backups para pendrives e liberar a memória para assuntos de amor? Perdeu tempo. Versos lhe assustavam, prosas não lhe interessavam e eventuais romances estavam todos ainda no prólogo, no aguardo de inspiração. Faltava-lhe um prefácio animador e uma apresentação decente. E assim seguia, passo a passo, sem índice definido, por São Joões tantos. Dela, sumiram as notícias. Talvez esteja a bordo de um balão, num céu azul e distante, olhando lá de cima, esperando crer num Deus que ela não cria e no aguardo de um milagre que ainda pode acontecer. Ou não. Estará dançando um forró ou deitada sob um pé de acerolas ainda verdes?


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UM JARDIM PARA CECILIA

Um jardim para Cecilia:
não o trago por falta de flores.
Os que conheço,
Sobram-lhes as dores dos dias de hoje,
sem borboletas ou lavadeiras,
sem folhas verdes faceiras
e passarinhos com ovos nenhum em seus ninhos…

Também não lhe trago um caracol.
De que adiantaria um se não há sol
que penetre sua concha?
Sequer sei onde busco
um vespertino lusco-fusco
que o torne mais molusco.

Não poderei trazer sapos e formigueiros,
nem cigarra e nem canções:
o povo é mudo, sem emoções
e jardineiros já não há…
Os sapos se foram e s formigas sumiram
levando com eles as canções e as cigarras
na maior das farras.
Onde estarão?

Resta-me trazer para Cecília
um carnaval, mas, sem Pierrots,
sem frevos e alegrias, sem serpentinas,
Sem Colombinas…
Apenas palhaços,
traços do povo e gente assim feito nós,
entre o muro e a hera,
trepadeira no outono da primavera,
ou no inverno do verão…
De quebra, e para alegria dela,
Prometo trazer-lhe um grilinho dentro do chão…

De tudo que lhe traga, Cecília mais gostará
Do grilinho dentro do chão…
Sei bem de Cecília, conheço seu coração…


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JOÃO E ZÉ

Vendo a vida atrás das lentes de um ray-bam João rumou à Academia pensando em um dia ser o maioral, músculos e bíceps à la Schwarzeneger. Na mão, o i-phone que lhe mantinha a par de todas as fofocas coloridas da periferia e lhe ofertava os sons mais modernos. Em tempo real. De bermuda suja e rasgada Zé o espreitava na primeira esquina. Mirradinho, a Zé interessava apenas o celular, com suas fofocas de what-zap e sua parada de sucessos e o óculos que tornavam a vida mais verde. De arma em punho, Zé deixava de ser mirrado e tornava-se gigante diante de um João, este sim, agora mirradinho e indefeso. Sem opção, João passou a ver a vida em sua natural cor. Naquele dia não correu cinco quilômetros na bicicleta parada e não pode mandar a foto para seus amigos do Facebook. Restou-lhe apenas, no bolso de trás de sua calça jeans, um carnê da Casas Bahia com duas prestações vencidas.


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PAULA

Paula é do tempo em que ainda existiam relojoeiros, sapateiros e amoladores de tesoura. Morava vizinho à sua casa, nas quebradas de um sertão brabo, um alfaiate. Não mais costura: faltam-lhe encomendas. Paula sobreviveu à fome e à vida vendendo seu corpo frágil, mas bonito, nos cabarés mais lordes do Recife antigo. Sim, ela é do tempo em que existiam cabarés na parte velha da Cidade. Vivia à noite ali e dormia de dia no kitinete alugado no Califórnia. Até o dia em que aportou no cais um navio cheio de japoneses e um deles se apaixonou perdidamente por Paula. Daí, morar no outro lado do mundo foi ligeiro demais. Hoje, Paula ainda lembra daquele tempo, e vive entre Tókio e Cabrobó com a fotografia de um casal de Japonesinhos na bolsa. Ela ama seus filhos. Este fim-de-semana levou-os à praia, bem em frente ao Edifício Califórnia.


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ANJOS E PÁSSAROS

Em tempos de tanta música descartável, minha modesta – mas sincera homenagem ao músico que junta seu instrumento ao peito e saí por aí alegrando almas, corações e mentes do povo brasileiro: o Sanfoneiro:

Num salto profundo
Altura tantas de tantos tons
A sanfona agarra-se ao peito do sanfoneiro
Feito asa, feito pássaro,
Voam juntos
Ele e ela.
E das asas nascem as notas, bemóis,
Brotam sustenidos
Também flutuantes,
Sonoras avoantes
De xotes e baiões
E de tudo o mais que há.
Na leveza do voo
Prende-se, cada vez mais,
À caixa dos peitos,
A sanfona de cores tantas
Quanto os sons que dela saem.
Num pulo sem partituras,
Sem partes, Parto sem dor,
Num pulo de porte
Perto dos deuses que sabem voar,
Flutuam
Qual anjos e passarinhos …

25 setembro 2017 XICO COM X, BIZERRA COM I


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NA BEIRA DA ESTRADA

Sento-me à beira da estrada estreita para conversar com as pedras e trocar ideias com tantas folhas caídas à sua margem. Pequenos grilos cantam canções que só eles sabem cantar. Poucos as entendem. Borboletas cirandeiam alegres e felizes, colorindo o céu azul, de manchas brancas. Um vento sussurra que a chuva está por chegar e me apresso em busca de proteção. Desisto. Faz tempo não vejo a chuva e estou com saudades. Deixo que os pingos que caem me contem segredos guardados nas nuvens e só revelados a quem, como eu, não teme futuros e vive presentes. O peito nu é minha camisa e os cabelos, meu chapéu. Peito aberto, corpo molhado, despeço-me das amigas pedras, abraço as folhas e sigo o caminho rumo às alegrias vindouras. Acompanha-me sorridente um raio de sol pós-chuva, se encaminhando para a formação do primeiro arco-íris do dia. Ele, já brilhante, me deseja um bom dia e eu sigo. Feliz.

18 setembro 2017 XICO COM X, BIZERRA COM I


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TEMPO PERDIDO SEM POESIA

Tinha um coração povoado por sombras e uma alma que se incumbia apenas de transferir gelo para suas veias. Desconhecia o bem querer e o amor era algo estranho para ele. Seus ouvidos não tinham tempo para ouvir os acordes de uma canção ou a leveza suave de palavras ternas. Apenas zumbidos e sussurros lhe chegavam às ouças. Nada mais. Até que lhe foi apresentado um poema de Manoel. Uma poesia de Barros. Poderia ter sido de Bandeira ou de Drumond, mas foi de Manoel de Barros. Aí, as pedras ganharam cor, o escuro se encheu de Luz e a incerteza se vestiu de verdades. Viu quanto tempo foi perdido. Sumiram as sombras e o gelo se desfez. Havia conhecido todo o encanto que há nas palavras. Quanto tempo ele perdeu ao desconhecer o quanto de belo há em um grilo, quanta claridade se encontra numa poça d’água que reflete a luz da lua, quanta sinceridade pode se encontrar numa simples pedra largada à beira do caminho.

11 setembro 2017 XICO COM X, BIZERRA COM I


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PASSAREIO

eu passarinhando,
passeio.
a dor passou
e é só passado …
num passo sem pressa,
passo.
passarinho vou,
vôo,
num feliz passarinhar.
e nem Quintana sou …

SALVE, SALVE
Mário Quintana, Manoel de Barros,
Manoel Bandeira, Pablo Neruda


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O CÃO, O HOMEM, A MESA

sobre a mesa
repousam grãos de pobreza
de um tempo sem cura …

à mesa, o homem.

sob a mesa
dormem farelos de incerteza
de uma vida escura …

cães farejam, rosnam.
ouve-se o ladrar …
e a caravana passa,
indiferente,
seguindo em frente,
sem dar ouvidos
ao dos cães, seus latidos,
ao do homem, os gemidos
da fome que cria
o pão da utopia …


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A ÚLTIMA MESA DO SAVOY

A Guararapes,
quase já não há …
tem escola, correios e calçadas …
Não mais a loja de discos e o Trianon …
já não parece um festim
às cinco da tarde.
Sumiram os trinta homens,
seus desejos se confundiram com seus sonhos
e os chopps não foram servidos …
nem sorvidos …
banhos às escondidas,
meio amor nas mãos,
vaidades rijas só na alma de Pena …
resta a mesa derradeira,
já sem copos a enfeitar-lhe …
Do Savoy,
Apenas o sorriso de Joaquim
e uma saudade danada …


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MONICAS E TELMAS

Disse-me o amigo José que sonhar é viver vontades. Poderíamos então dizer que, da mesma forma, viver vontades é sonhar? Segundo ele, é para isso que existem as Mônicas. E as Telmas, Com elas José sonha sempre de madrugada, já quase na hora de acordar. E várias são as Telmas: da recatada à mais depravada das moças, da religiosa quase freira àquela que só acredita nos poderes do corpo e da carne. Gosta de todas, José. As Telmas lhe ensinam o caminho da alegrias e prazeres. As Mônicas justificam suas vontades, realizando-as em sonhos. E entre Telmas e Mônicas, segue José seu caminho de devaneios, sonhando e dormindo, dormindo e sonhando, bebendo quimeras, sorvendo delírios, se alimentando de utopias. Sonhando desejos. Vivendo vontades. Sempre bem acompanhado de Mônicas e Telmas.


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INVERNIA

Debaixo de um céu quase azul, com nuvens se desmanchando sobre a plantação, vê-se a ribançã voltando pra casa, de asa molhada. Celebrando sua volta, o homem tira o chapéu, olha pro céu, se benze e agradece a chuva que vai pintar de verde o seu chão. São José atendeu suas preces. Dele e de tantos outros que têm na chuva a esperança d’água. Por isso aquele velho homem sorri. Sua mulher ajuda-o no sorrir e deixa bacias e vasilhas prontas à espera da bendita água que vem daquele céu benditamente escuro. O joelho tantas vezes dobrado, já tão ralado de tanto pedir, outra vez se curvará no piso da igrejinha, desta vez para agradecer. O menino sorri à beira do pote no aguardo do banho de chuva que está por tomar. Água virá. Sedes serão saciadas. O inverno anuncia que está chegando. Será bem recebido. ‘Tá bonito pra chover.


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PERDI O TREM

Fortaleza, Crato, Fortaleza. Quantas vezes, idas e vindas. Quantas madrugadas acordadas para não perder o trem que partia às cinco horas. Quantas malas carregadas, quantas saudades deixadas e outras levadas na bagagem. Quantos trilhos e estações, vendedores de pitomba, de tapioca, zoadentos com seus balaios nas cabeças. Do Crato até o Cedro, Várzea Alegre, Iguatu, Quixeramobim e sua ponte quase do mesmo tamanho do nome da cidade. E as frutas de Baturité, existem mais doces? O destino final, enfim. Havia sineta anunciando a partida, para alguns. Para outros anunciava a chegada. E aí se via os carreteiros sem carretos, acenos, risos e lágrimas. Dos bancos de madeira dava pra se ver pela ampla janela a paisagem de uma volta dali a algum tempo. Resta a saudade do apito, da fumaça, da Maria enfumaçada rastejando feito cobra cortando os sertões, levando gentes e sonhos, trazendo sonhos e gentes. Passou o trem, passou o tempo, passamos nós.


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DA COR DA FELICIDADE

Minha alma se alimenta de cores e só é feliz quando encontra os matizes em que se escondem os passarinhos coloridos. Procuro-os em todo campo, em todo céu, em todo mato e sempre os encontro. Se acaso, por um instante, me fogem os passarinhos e os versos, me contento em beber brisa e estrelas, e vou preparando a vida para o encontro que se dará, logo, dali a pouco, ali adiante. E então, versos e passarinhos me acariciam a pele e alisam meu cabelo, confortando minha alma. É quando volto a sonhar e a ter a certeza de que a felicidade existe e mora perto. Ela é verde, azul, amarela, de qualquer cor. É um arco-íris. Da cor que nossos olhos enxergam. Da cor que faça feliz nosso coração. São os pincéis que pintam nossa vida da cor do amor, seja que cor ele tenha.


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PEDRAS E PARALELEPÍPEDOS

Volto e nada mais é como era. Procuro e não encontro onde está o céu azulzinho em que se penduravam brancas nuvens em forma de carneirinhos. E o vento que batia no meu peito nu, sem camisa, onde está? Vejo as pedras nas ruas de minha pequena aldeia e me deparo com a dureza que é lembrar das estradas de terra em que meus pés corriam atrás de uma bola de meia. Hoje, paralelepípedos frios cobrem e soterram minhas pegadas infantis. São sonhos escondidos sob pedras, é um passado deitado embaixo do chão. Apenas o pequenino rio continua a nos levar nos sonhos e na vida, molhando nossa saudade e passando água em nossa criancice já tão distante, mas tão presente. Seu correr sereno lava minhas mágoas enxaguadas pela saudade que insiste em me acompanhar.


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BORBOLETAS E FLORES

Ao ver entre o céu e minha cabeça borboletas azuis, amarelas e de todas as cores e matizes veio-me à lembrança a dúvida que sempre tive: borboletas são flores que aprenderam a voar ou são as flores borboletas preguiçosas que preferem ficar no chão? Não importa. O bailar preciso e bonito desses voares me encanta desde sempre. Um corpo de baile coeso e colorido, um arco-íris voante a enfeitar o céu e a vida da gente. Me encantam as flores esvoaçantes nos céus do meu olhar do mesmo jeito que me enfeitiça a aquarela viva das borboletas com preguiça mágica seduzindo os jardins. Onde Deus se inspirou para criar tamanha beleza? Nas borboletas ou nas flores?


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O RATO ROEU

Francisco, junto com seus amigos, plantou estrelas no jardim de sua casa. A aldeia ficou linda. Sua mulher enfeitou a varanda com pés de manacá, junto a mandalas coloridas, para deles extrair seus cheiros. Todas as outras mulheres fizeram o mesmo. Hoje, Francisco não consegue mais ver suas estrelas e chora a ilusão de tê-las plantado. Roubaram-lhe todas. Seus filhos não podem sentir o cheiro das flores nas varandas. Elas não cheiram mais. Toda a luz que ali havia o gato comeu. O vento da alegria, o rato roeu junto com a roupa dos que habitam a aldeia e o povo está nu. Até o rio, outrora belo, quase desencheu de água tão suja a poluir-lhe o curso. E a paz, de tão rara, tão pouca, calou-se, enquanto a flor, que vivia a enfeitar a vida, sumiu nessa roça tão louca. Pior, com medo de quem tem a chave do ruim guardada em suas mãos, a tristeza fez morada na casa, na rua, na aldeia de Francisco. Sua mulher se arrepende de ter enfeitado a varanda e, triste, fez das bandeiras que empunhava alguns panos de chão. Ironicamente, hoje, eles se prestam a limpar sujeiras. Pior: as bandeiras de outras cores também se emolambaram e não têm outra serventia que não seja servirem de pano de chão. Do mais reles chão.


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MEDOS E TEMORES 

Já não me assombram as sombras que faziam minha noite durar muito mais do que o necessário para o regresso do dia. Já não mais me assusto com o arrastar de correntes imaginárias nos corredores da casa sem luz. Já não me mete medo o escuro de uma noite chuvosa e seus trovões zoadentos clareados por relâmpagos faiscantes. Nada disso me apavora, mais. Meus temores são outros. Temo pela injustiça social, pelo desrespeito do homem pelo próprio homem. Sofro pela presença maciça e constante de políticos ladrões, de governantes irresponsáveis, de gestores públicos descompromissados com seu povo, sua gente. Se pudesse, voltava a ter apenas os pequenos medos e temores de minha infância. Assustam menos as sombras, as correntes arrastadas e as noites chuvosas repletas de trovejar que ratos ricos e poderosos passeando livres pelos planaltos do meu País. Com bafo de uísque escocês e cheiro de perfume francês, tudo patrocinado por todos nós.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa