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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 7

Sivuca (1930-Itabaiana-2006-João Pessoa)

DESCOBRIDOR DE SUSTENIDOS E BEMÓIS

Recém-chegado de Paris, ele tinha marcado encontro com Miriam Makeba para ensaiar umas ‘coisinhas’, no dizer dele. Parecia estar desconfortável com a grandeza de Nova Iorque, tão maior e cruel que o Rio de Janeiro, Recife ou até mesmo a sua Itabaiana. Na porta do hotel onde o encontrei, deixou-me a impressão de que gostaria mesmo é de estar em João Pessoa, junto ao seu povo. Na ponta daquelas ‘streets’ não havia qualquer sanfoneiro fazendo floreios para o povo dançar. O único fole que ali roncava era o seu. Mas disse-me estar feliz. Pedi para levar a sua sanfona, brincando que faria parte do meu curriculum aquele ‘carrego’. Ele riu consentindo que o fizesse. E levei seu instrumento pelas ruas largas daquela cidade cheia de gente e de indiferenças. Na porta do Teatro, perguntei se podia assistir ao ensaio. Ele sorriu novamente e nada disse. Entendi que sim e sentei-me na primeira fila. Deu-me vontade de dizer-lhe que o meu cavalo fala inglês e que já ensaiava um baião para as matinês. É como se ali estivessem o rei, o bedel e o juiz rindo todo o riso que há no mundo, de alegria e emoção por ver dedos mágicos descobrindo sustenidos e bemóis naquela sanfona preta. Ao sair dali, senti-me como tantos Joões e Marias chorando a saudade do ir embora. No outro dia voltei para o Recife, obrigando-me a ser feliz por aquele momento.


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 165

Na nossa história musical temos parceiros frequentes – Maria Dapaz é o mehor exemplo disso, com mais de 30 canções compostas em dupla e alguns eventuais, por falta de oportunidade, pela distância ou por outros fatores. Esta música é uma parceria minha com Biguá, músico talentoso, mas que mora em São Paulo, o que dificulta maior número de canções e parcerias. Esta é nossa única música e quem canta é próprio Biguá.

AMOR DE PASSARINHO
Xico Bizerra e Biguá

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xô! amor de passarinho,
bateu asas mundo afora pra bem longe voou
pegou o meu amor e foi embora
sem rumo, sem destino, vazia e deserta
deixou a minha vida e meu coração
quando você foi fiquei atrás da porta
lágrima no rosto, saudade que corta
esperando aqui pra ter você de volta
sem rumo, sem destino, ave incerta
deixou vazia a vida e muda a canção
e eu que não tranquei a porta da gaiola
tive que voltar de novo pra escola
pra aprender prender um coração


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PREGUIÇA DE ESCREVER TEXTOS LONGOS – 4

BOLERO

Dois pra lá, dois pra lá.
Como bolerar?

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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITADOS POPULARES – 5

DEPOIS DA TEMPESTADE VEM A BONANÇA.

Normalmente, acompanhada de uma gripe da ‘mulesta’ dos cachorros. E nesses tempos de Zica, longe de mim, tempestade.

26 dezembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITADOS POPULARES – 4

DIZ-ME COM QUEM ANDAS E TE DIREI QUEM ÉS

Jesus andava com Judas Iscariotes. De Jesus, todos falam bem. Do outro, nem tanto.

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19 dezembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 6

Manuel Bandeira (1886-Recife-1968-Rio de Janeiro)

DE PASSAGEM POR PASÁRGADA

Quando a andorinha pousou e disse que passou o dia todo à toa, à toa, a estrela da manhã brilhou no céu anunciando que Bandeira estava ali, poetando. Avistei-o em Pasárgada e me aproximei. Pensei encontrá-lo arrodeado de belas prostitutas, mas não. Estava só, deitado à beira do rio, cansado: acabara de fazer ginástica, andar de bicicleta e montar em burro brabo. Esperava a mãe-d’água contar-lhe história e fazer-lhe lembrar Rosa, de seus tempos de menino. Perguntei-lhe se estava triste e se já tinha escolhido a cama para aquela noite. Ele riu. Não me respondeu. Mas deixou transparecer no olhar e num sorrisinho sob os óculos, que teria, àquela noite, a mulher que queria, a mulher que amava. Afinal, em Pasárgada ele era feliz, pelos alcaloides, pelos telefones automáticos, pelos processos contraceptivos e pela aventura que era viver ali. E eu me contentava apenas em conversar com Bandeira. Naquele dia em Pasárgada, com a estrela da manhã acesa no firmamento e as andorinhas soltas no céu, eu também era amigo do rei.

12 dezembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 164

Na construção do disco de Leninho, em 2012, faltava uma música para fechar o reepertório e combinamos, eu e Leninho, parceiro nesta canção, que enviaria rapidamente uma letra para ele musicar. Foi assim que nasceu Água Benta. Logo depois, Jesuino ouviu a música, gostou e a colocou em seu disco, também.

ÁGUA BENTA
Xico Bizerra e Leninho

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Na soleira do meu peito escanchou-se uma saudade
na lembrança eu sentia um gostinho de bombom
quando eu tinha o seu batom todo dia em minha boca
e o teu cheiro de cabocla, meu deus como era bom
me bateu uma tristeza, meus ‘oio’ virou açude
fez do meu coração rude sangradouro
por te amar vou colhendo esse penar
da alegria que plantei até quando eu não sei
até quando tu voltar
meu coração escancarado, acelerado, quase implora
pra te ver, não se demora, vem correndo, vem agora
não piora esse sofrer
há muito tempo ta vazio o meu abraço
e o meu braço ta que ta que não se agüenta
não se demora, vem correndo pro meu lado
vem ser minha água benta


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É MUITO ATREVIMENTO, MAS COMO EU SOU ATREVIDO … – 4

ANTONIO PEREIRA, falando sobre a Saudade, tratou-a como semente, que, se plantada em terra fértil, ela cresce e mata a gente:

Aí eu digo:

Escaldei bem a semente
Da saudade matadeira
Plantei-a em terreno quente
Pouca água a vida inteira
Joguei-a bem no baixio
Na beirada de um rio
Esperando invernia
Pra quando um dia chover
Ela, vexada, correr
Para outra freguesia

28 novembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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CONTOS MINUSCULOS QUE CONTRARIAM DITOS POPULARES- 3

QUEM TEM BOCA VAI À ROMA.

Mentira. O fogão lá de casa tem 6 bocas e nunca foi além de Juazeiro do Norte.

boca-e-roma

21 novembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 5

arraes

Miguel Arraes (1916/Araripe – 2005/Recife)

ENTRE UM PIGARRO E A CORAGEM

O cinzeiro repleto. Pontas fumadas de charutos e cigarros. A palavra, sábia como sempre, consciente, precisa. Perguntei-lhe por dona Benigna e percebi o brilho verde no olhar ao falar da mãe. Estava no Crato e rezava por ele. Tinha tanta sorte, disse-me, que a mãe morava ao lado da Igrejinha de São Vicente. Era só atravessar a rua. Ainda hoje tenho dúvidas se falava a sério ou com seu humor ferino, mas elegante. Aliás, era um homem elegante da cabeça aos pés, passando pelo coração e aprofundando-se na alma. Sabia que corria riscos mas seu ideal valia mais que sua vida e por ele lutaria até o fim. Como fez. Falou-me dos perigos, das conversas e zumbidos, dos homens de verde que vigiavam o Palácio e que chegariam a qualquer momento. E chegaram no dia seguinte a minha visita. Era homem que só se entregava às causas que defendia, jamais a quem quisesse lhe depor. Resistiu. Só sairia pela vontade de quem ali o colocou. Naquele tempo a força prevalecia a qualquer argumento democrático. No dia seguinte, pelos jornais, soube de sua viagem para Noronha. Cabeça em pé. Viajaram com ele a firmeza e a lealdade aos ideais que defendia. Levou consigo, também, o verdor de seus olhos, o sonho da volta e alguns charutos. Deixou o exemplo. 

14 novembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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PREGUIÇA DE ESCREVER TEXTOS LONGOS – 3

BORBOFLORES

A borboleta é uma flor que voa?
Ou a flor é uma borboleta preguiçosa?

borboletear


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 163

acalanto

No AUTO DE NATAL que fizemos para o Estado da Paraíba, anjo de 2007, tínhamos, eu e meu parceiro Bebé de Natércio, que fazer uma música alusiva ao batismo de Jesus. Foi quando surgiu a ideia do ACALANTO PARA JOÃO BATISTA, que foi incluída no disco referente ao evento , na belíssima interpretação de Mayra Montenegro, artista paraibana de grande valor, como pode ser comprovado na audição que possibilitamos nesta semana.

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Dorme, meu filho, que deus que veio testificar
és o milagre em mim, sonho pra realizar
que a sombra do amor maior viestes profetizar
dorme meu mel que o céu só te trará sonhos bons
as harpas celestiais enviaram os seus sons
para que te fortaleça em deus com todos os seus dons
dorme meu filho querido que é grande a tua missão
comunicar a chegada de quem traz a salvação
na tua fala começa a paz do amor cristão


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É MUITO ATREVIMENTO, MAS COMO EU SOU ATREVIDO … – 3

Brás Costa conclui uma décima dizendo:

Entre sem fazer zuada
Que a minha dor tá dormindo

Aí eu digo:

Quando tu fores voltar
Favor chegar de mansinho
Venha bem devagarinho
Que é pra dor não se acordar
Puxe o trinco, pode entrar
Entre sem fazer zuada
A porta está destravada
e o meu beijo vai estar
esperando o teu beijar
com tu’alma abraçada


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O ‘SANTO’ E O RIO

A vida imitando a arte e a arte eternizando a vida. Há rasos e funduras nas águas desse Chico. Na aparente quietude de seu dorso se escondem redemoinhos e correntezas. Traiçoeiras. É da natureza dos rios. Ninguém os conhece por completo. O risco da ida sem volta é grande, o mistério pode ser sinônimo de perda. Quem se aventura pode não achar o caminho da volta. Foi assim com Domingos, o ‘Santo”desprotegido do Nego D’Água, escondido nas profundezas do Santo rio.


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITADOS POPULARES – 3

CONTOS MINÚSCULOS ... - 17.10

É DANDO QUE SE RECEBE.

A filha da manicure acreditou e recebeu, depois de 9 meses, uma menininha linda chamada Soraya. Pior que deu a um pobre e não emprestou a Deus: terá que criar a filha sozinha.


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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 4

HELDER 10.10

Helder Câmara (1909-Fortaleza/1999-Recife)

HÉLDER SEM FRONTEIRAS

Abri a porta daquele quarto minúsculo onde, além do padre, moravam sua cama, um livro, uma cadeira, um crucifixo. Não se acostumava com palácios e muito menos os queria. Era a simplicidade mais que simples de um homem tão grande que eu não sei como cabia ali. Também não cabia em mim a imensa alegria, por ali estar ouvindo aquele que tanto me inspirava em meus tempos de adolescente, muito jovem, mas já vítima moral de um sistema que não permitia a palavra de Hélder, sequer. Não usava do luxo, somente da palavra. Nunca permitia que a mutilassem. Exigia justiça. Isto, só. Com amarras na boca, ainda assim conseguia manter o corpo, a alma e o coração libertos para lutar em favor dos necessitados de pão e de luz. E os homens pensando que o povo era besta. Hélder ensinava o povo a pensar. Até hoje, tanto quanto naquele tempo, ainda não conseguiram proibir o sonho dos que sonham a Paz. Como o Dom. Conversamos. Quase seis horas e os sinos batem. Hora da missa na Igreja das Fronteiras. Antes de voltar para minha casa, feliz, demo-nos as mãos e rezamos um Pai Nosso.

(Mais uma vez conto com a generosidade de Humberto Araújo, cuja ilustração ‘enfeita’ esta publicação. Desnecessário tecer algum comentário sobre a pertinência e a qualidade do trabalho de H!, de quem sou fã)

* * *

Encontros já publicados nesta série:

1 – Ariano Suassuna
2 – Naná Vasconcelos
3 – Luiz Gonzaga
4 – Hélder Câmara

Próximos Encontros: Miguel Arraes, Manuel Bandeira, Sivcuca


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS- 162

HISTORIA DE MINHAS MUSICAS -03.10

Sobre poema que escrevi para uma instituição ligada à terra e à natureza (gravada como poesia por Ronaldo Aboiador), o mestre Gennaro, conceituado músico acordeonista brasileiro, colocou melodia. A música foi gravada recentemente por Verônica e diz assim, em sua letra:

nunca vi nada mais lindo do que um céu se nublando
é são pedro anunciando a chuva que já tá vindo
o sertão fica sorrindo tudo vira uma beleza
é são josé, com certeza, mandando que o céu chore
de verde a chuva colore as vestes da natureza

quando pinga um gotejo ainda que seja neblina
mesmo sendo chuva fina é festa pro sertanejo
ele vê e eu também vejo a comida em sua mesa
esperança fica acesa alegria se avizinha
a chuva deixa verdinha a roupa da natureza

e se tudo ‘tá florado o inverno garantido
o feijão pra ser colhido e o milho penduado
na igreja, ajoelhado se agradece a formosura
de uma casa com fartura faz-se prece em louvor
da chuva que esverdeou a roupa da mãe natura

e o pinga-pinga pingando cada gota é um tesouro
são vários quilos de ouro o terreiro aguando
vendo a lavoura florando o caboco, satisfeito
se ajoelha, mão no peito agradece, bem contrito
pela trajar, tão bonito verdinho, daquele jeito

A ROUPA DA NATUREZA
Xico Bizerra e Genarro

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26 setembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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É MUITO ATREVIMENTO, MAS COMO EU SOU ATREVIDO … – 2

ANTONIO PEREIRA, falando sobre a Saudade, tratou-a como semente, que, se plantada em terra fértil, ela cresce e mata a gente:

Aí eu digo:

Escaldei bem a semente
Da saudade matadeira
Plantei-a em terreno quente
Pouca água a vida inteira
Joguei-a bem no baixio
Na beirada de um rio
Esperando invernia
Pra quando um dia chover
Ela, vexada, correr
Para outra freguesia

É MUITO ATREVIMENTO ... - 26.09

19 setembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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PREGUIÇA DE ESCREVER TEXTOS LONGOS – 2

SÃOS

Loucos, todos são.
Sãos, poucos

PREGUIÇA DE ESCREVER ... - SÃOS 19.09

12 setembro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITADOS POPULARES – 2

cada-macaco-no-seu-galho

CADA MACACO EM SEU GALHO

Fiel ao ditado popular o macaquinho morreu virgem porque não pulou para o galho próximo em que saracoteava a macaquinha traquina, louca por uma ‘traquinagem’.


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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 3

Gonzaga

Luiz Gonzaga (1912-Exu-1989-Recife) – Ilustração de Humberto

UM REI PRETO NO REINO DO NOVO EXU

Cenário simples: um pé de juazeiro bem copado e nós ali, costurando conversas e alinhavando casos um para o outro. Uma Chapada muito mais que bonita era o contorno daquele reino no pé da serra do Araripe. Um belo quadro pintado por celestiais mãos que adornava o sertão e alegrava sua gente. Ele ainda morava lá. Em pouco tempo partiria para ganhar o mundo, para a felicidade geral do povo brasileiro. Pensava em Nazaré e disse-me que a amava. E eu não tinha porque desacreditar no que ele me segredava, sorriso no canto da boca, tristeza num canto do olhar. Mas partiria em respeito aos pais e para não prejudicar a família. Seu Januário não merecia. Santana, muito menos. Dali a uma semana fugiria e iria pra minha cidade, o Crato, de lá pra Fortaleza, Juiz de Fora, Rio de Janeiro e o mundo. Falou da gratidão que tinha pelo Coronel Clóvis, que o acolhera e acreditara em seu talento. Ainda guardava a sanfoninha que ganhara. Não me contive e perguntei: Voltarás? – Sim, disse-me ele, só não sei quando. Soube que voltou e sentou-se à sombra do mesmo juazeiro em que conversávamos. E parece que tocou um baião lembrando de Nazaré.

(De novo, ilustro esta crônica com um belo trabalho de Humberto Araújo. Mais uma vez peço a ele complacência para entender e perdoar minha falta de educação em não solicitar-lhe autorização para tanto).


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 161

Quando Joana foi gravar seu mais recente disco, ISSO É QUE É FORRÓ, pediu-me algumas músicas para nele incluir. Cedi-lhe, dente outras, A FELICIDADE VEM, uma parceria minha com Junior Vieira. Sempre gostei muito de Joana Angélica, remanescente do forró das antigas, ex-cronner da Bandinha de Camarão, grande músico recentemente ‘viajado’ para o céu. Resultado é o que se contém nesta postagem. Espero que gostem.

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prá que brincar de solidão? meu coração não é caixa de segredo
não aguenta essa maldade e quando bate a saudade fica morrendo de medo
e aí vem desassossego, o juízo pede arrego quase em tempo de endoidar
e o sujeito vai deitar pensando nela
‘tá na cama e o cheiro dela não lhe deixa cochilar

a solidão mata a força e tira a fé
e o caboco só quer encontrar quem lhe quer bem
e quando o amor bate a porta do seu peito
meu amigo, não tem jeito, a felicidade vem

ê ô a felicidade vem, ê ô a felicidade vem
ê ô a felicidade vem, a tristeza vai embora e a felicidade vem


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É MUITO ATREVIMENTO, MAS COMO EU SOU ATREVIDO… – 1

Nietzche disse: “A vida sem poesia seria uma coisa errada“.

Aí eu digo:

Uma rima é o que enobrece
O verso bem calculado,
Todo já metrificado
Tão bonito que parece
A curva da letra ‘S’
Sinuosa e bem esperta
É uma porteira aberta
Por onde entra alegria
A vida com Poesia
Só pode ser coisa certa


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PREGUIÇA DE ESCREVER TEXTOS LONGOS – 1

AMOR

Há o amor!
Ah, o amor!
Ao amor!


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITADOS POPULARES – 1

palhacotriste

QUEM RI POR ÚLTIMO RI MELHOR

Desistiu de ir ao Circo. O palhaço não lhe despertava a menor atenção. De que ria aquele povo?, perguntava-se, de si para si mesmo. Ria apenas para acompanhar todo o público que gargalhava com as peripécias e piadas do Palhaço. E ele ria por último. Ria por que todos riam. Não tinha prestado atenção ou não tinha entendido a piada? E todos riam dele.


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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 2

Naná

Naná Vasconcelos (1944-Recife-2016-Recife) – Ilustração de Humberto

UM BERIMBAU QUE SORRI FELIZ

Esperavam-me a risada gostosa e os braços abertos prontos para o abraço. No chão, ao seu redor, todo o arsenal do bem, armas do som: pandeiros, alfaias e ganzás. Continuava o mesmo menino de Sítio Novo que um dia ganhou o mundo e presenteou os povos com sua música, com seu batuque real. Coisa de rei. Seu atabaque baqueando solto ou virando o baque era sua alma travestida de música. Peguei-lhe as mãos e fiquei a imaginar quantas notas ali passeavam em suas viagens sonoras, alegrando os irmãos vassalos, calungas, juremas e lanceiros. Fitei aqueles dedos negros que só tocam amor, fazendo no tempo um maracatuzar compassado de paz e alegria. Abracei-o e senti toda a vibração que pode conter o coração e a alma daqueles que tem por missão alegrar o chão, os céus e os mares. Naquela casa não se percebe a hora passar. Deu vontade de não ir embora e de ficar bebendo daquele encontro por muito mais tempo. Mas era Fevereiro e ele estava de saída para um ensaio de maracatu. Saiu e carregou consigo a luz dos sons. Bendito sois, Naná.

(Mais uma vez sem autorização, ilustrei esta crônica com um belo trabalho de Humberto Araújo. Ele haverá de entender a justeza da causa e perdoar minha falta de educação).


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ENCONTROS QUE GOSTARIA DE TER TIDO – 1

ariano

Ariano Suassuna (1927-João Pessoa / 2014-Recife) ,

O DIA EM QUE TOMEI SOPA COM ARIANO

Foi olhando para o açude que o encontrei no balanço de seu trono. Presenteei-lhe com os originais de meu livro que ainda estou escrevendo e ele ficou de lê-lo. Cogitei convidá-lo para fazer o prefácio mas a vergonha foi maior que a coragem. Entre um balançar e outro, no vai-e-vem da cadeira-trono, senti seu coração palpitar sob o pijama listrado quando tratamos de Taperoá e da Pedra do Reino. Sim, ele ainda estava de pijama embora fosse cinco e tanto da tardinha; sim, ele já estava de pijama apesar de ser pouco menos de seis, noite adolescente a aguardar o Ângelus. Tomamos sopa e sua mulher perguntou sobre meus filhos, João e Mariana. Falei deles. Falamos do Sport e ele me presenteou com um largo sorriso rubro-negro. Não jogamos conversa fora. Ao contrário, ainda que em sonho, foi bom jogar palavras de Ariano para dentro de minha alma. A sopa estava com pouco sal mas uma sopa ao lado do Mestre é sempre muito saborosa. Quase tanto quanto aquela prosa doce à beira do Apipucos. E as torradas estavam uma delícia.

(Ainda que sem autorização, ilustrei esta crônica com um belo trabalho de Humberto Araújo. Ele haverá de entender a justeza da causa e perdoar minha falta de educação).


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 160

Esta é inédita e é mais uma parceria minha com Maria Dapaz, minha parceira mais frequente. É um blues, que recebeu arranjo de Luciano Magno. Gravaram, além do próprio Luciano nos violões, Guto Santana, na gaita. As vozes são de Edilza e Bárbara Aires, talento que se transferiu de mãe para filha. O detalhe maior é que esta música é inédita e consta de nosso disco VALSAS, CANÇÕES E TUDO O MAIS QUE HÁ, a ser lançado em Julho vindouro. No JBF em primeiríssima mão.

A CANÇÃO QUE ELIS NÃO CANTOU
Xico Bizerra e Maria Dapaz

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E o amor com seu passo trôpego
Foi dar milho aos passarinhos
Colher pitanga nos quintais vizinhos

E o amor com cheiro de pétalas
Foi andar pela cidade
Depois dançar um tango com a saudade

E o amor entornou o cálice
Foi com a lua namorar
E tirar onda com as ondas do mar

De tão ocupado não sobrou tempo ao amor
Pra se chegar a mim, pra me dizer que sim
De tão desprezado nenhum tempo houve em mim
Pra esquecer a dor, para brincar de amor
Nem houve tempo pra escutar a canção que Elis não cantou

E o amor beijou o sol flácido
Repartiu sua luz com as rãs
Na casa das mais distantes manhãs

De tão ocupado não sobrou tempo ao amor
Pra se chegar a mim, pra me dizer que sim
De tão desprezado nenhum tempo houve em mim
Pra esquecer a dor, para brincar de amor
Nem houve tempo pra escutar a canção que Elis não cantou


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SEU DOMINGOS, HOJE E SEMPRE

Só hoje percebi que José Domingos de Moraes, seu DOMINGUINHOS, está presente em 7 das 30 faixas do nosso CD duplo VALSAS, CANÇÕES E TUDO O MAIS QUE HÁ : em 4 tocando sua sanfona, em 1 cantando e em outras 2 dando-me a enorme honra da parceria. Fiquei muito feliz quando descobri isso. É minha homenagem sincera e espontânea, não premeditada, ao meu maior ídolo da música popular brasileira. Quando o disco for lançado, início de Julho, todos atestarão, mais uma vez, o talento desse grande personagem de nossa história artística, seja tocando, cantando ou compondo.

d3


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITOS POPULARES – (7)

DEVAGAR SE VAI AO LONGE

– Vai, menino, devagar, porque assim se vai ao longe, disse a avó ao neto pequenino. O problema é que o longe é muito longe e, devagarzinho, nunca se chega ao destino final. O neto, hoje adulto e já avô, anda não chegou sequer ao meio do caminho.

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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS- 159

Em parceria com meu amigo Bebé de Natércio, de Itaporanga, na Paraíba, construímos a trilha sonora do Auto de Natal do Colégio Marista de João Pessoa. Um dos trabalhos mais prazerosos eu fiz na área artística. Um grande musical, com vários e bons intérpretes, dentre eles Irah Cadeira que cantou, dentre outras, esta canção em louvor à Maria. Não lembro exatamente o ano, mas algo em torno de 2004.

A BOA MÃE
Xico Bizerra e Bebé de Natércio

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a luz lá do alto sobre ti desceu
oh santa maria que deus escolheu
minh’alma se encanta na tua canção
cantar de maria – mãe da salvação
concebeste o filho sem pecado
o bendito fruto do amor
do teu ventre veio o mais amado
rogai por teu povo pecador
maria das graças, maria das dores
traz a nós a benção dos amores


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TUDO COMO ERA

A lua existe. Ainda. Nós é que às vezes esquecemos de abrir os olhos. E sempre valerá a pena abri-los. Também valerá a pena apurar o paladar para perceber o que de bom se esconde entre a casca e o caroço do fruto mais saboroso do mais próximo pomar. Tudo no tempo valerá a pena se bem gozado. Nada como uma sombra grande de um juazeiro que aparece na estrada num dia de sol mais escaldante. Coisas simples, naturais, sem os avanços tecnológicos de um celular de última geração. Coisas que foram do conhecimento de nossos avós e que permanecem tão belos e puros, ainda que sem qualquer atualização. E é assim que conto meu tempo, vendo a lua, o fruto bom e a sombra de um juazeiro. Tudo sem megabytes e sem HD. Tudo como era. Tudo como é. Talvez um dia eu aprenda a mandar uma mensagem pelo WhatZap.


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM DITOS POPULARES – (6)

Os últimos serão os primeiros.

Desde início do campeonato passeou pela ‘rabeira’ da tabela achando que, um dia, estaria lá na frente. A CBF entendeu diferente e os quatro últimos foram rebaixados da série A para a série B.


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FLORESTA DE BICHOS TRISTES

A floresta era governada pelos macacos que se revezam entre si, ditando as normas, prendendo e arrebentando quem deles discordasse. Bastava que um passarinho cantasse um pouco mais alto ou que um peixe nadasse contra a correnteza para que a situação ficasse preta. Até que os animais se conscientizaram e resolveram por fim àquela situação, lenta e gradualmente. E aí vieram alguns outros: um deles, acho que a raposa, sequer tomou posse. Morreu antes. Uma cágado, desses que vivem 200 anos e de largos bigodes, assumiu a floresta e nada resolveu. Veio um rato que juntou-se com outro e outros e terminou expulso do trono. Vieram mais alguns até que os guabirus resolveram se apossar do poder. E se lambuzaram. Hoje, alguns animais pedem a volta dos macacos. Eu jamais pediria nem peço. Por outro lado, os bichos todos olham em volta e não enxergam nenhum outro animal capaz de lhes ser guia, de torná-los felizes. A floresta chora. Os bichos estão tristes.


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NOITE QUE ADOLESCE

Minha noite adolesce e abraça a madrugada que chega. Logo, logo a manhã aquecerá meu dia e aguardará uma tarde morna a que se seguirá o barulho suave dos passarinhos anunciando a ave-maria. E, de novo, a noite chegará, lenta e gradual, até o meia-anoitecer dos sem sono que não me permite dormir, reiniciando o ciclo dos dias. Restar-me-á, na amanhacença do dia, embalar meus sonhos numa rede com varandas cor do sol, embrulhando a alma em lençóis de cambraia, ternurando o amor sonhado. E tentando dormir.


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 158

Sempre estou a reportar-me às parcerias que tive com o Mestre Dominguinhos. Não à toa. É uma marca que permanecerá até o fim essa sorte que tive de tê-lo como parceiro. A música de hoje é uma delas, das que fazem parte de meu Forroboxote 10 – LUAR AGRESTE NO CÉU CARIRI. Interpretada por Tonfil, sobrinho de Bia Marinho e filho de São José do Egito, região em que todos são Poetas. Tonfil, além de Poeta, é um grande cantador.

TODO TUDO E POUCO NADA
Xico Bizerra e Dominguinhos

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quando o teu olhar chega junto do meu
é chuva derramada no sertão
a nota que faltava na minha canção
lua que enluara o estradar
o brilho que há no riso dos teus olhos
faz festa no raso do meu olhar
celebrando a tua chegada
recitando o verbo amar

meia hora antes de te ver
eu já começo a ser feliz
com um minuto do teu bem-querer
tenho o céu que eu sempre quis

tantos poema tentei compor
mil versos fazer pra ti
esse teu amor
é a poesia mais bonita que já vi

todo tudo e pouco nada
vou deixando para trás
teu olhar é a pousada
em que dorme a minha paz


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM OS DITOS POPULARES (5)

Quem tem boca vai à Roma. O fogão lá de casa tem 6 bocas e nunca foi além de Juazeiro do Norte.

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29 fevereiro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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CONTOS MINÚSCULOS QUE CONTRARIAM OS DITOS POPULARES (4)

Depois da tempestade vem a bonança. Com minha tia aconteceu: veio a bonança (apelido que ela deu pra uma gripe da ‘mulesta’ dos cachorros). E nesses tempos de Zica, longe de mim, tempestade e bonança.

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22 fevereiro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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THE VOICE KIDS – EMOÇÃO E TRISTEZA

Voice-Kids

Vi no Facebook um comentário do grande músico Chico Chagas, sobre o The Voice Kids, que eu assino embaixo, sem tirar nem por. Muito triste ver o talento de tanta criança e saber que, possivelmente, quando adultas, não terão a menor chance de se destacar num cenário musical que se transformou em esgoto cultural, recheado de letras grotescas, baratas e vulgares e melodias (melodias?) pobres e repetitivas, onde se faz horas de um estilo usando a harmonia de uma música (música?) só. Falta espaço para quem faz música séria num país desacreditado culturalmente. Num país em que o submundo da falsa cultura é habitado por produtores e políticos que usam a música para se promoverem e lavar dinheiro. Vejo no The Voice Kids a morte do sonho de pequenos e talentosos brasileirinhos que teriam tudo para mudar o rumo dessa história, se os poderosos da mídia e da política deixassem. Choro com eles: de emoção pelo talento de todos e de tristeza pelo futuro que lhes é reservado.

15 fevereiro 2016 XICO COM X, BIZERRA COM I


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HISTÓRIAS DE MINHAS MÚSICAS – 157

Sempre gostei de brincar com as palavras e com seus sentidos. O ‘me ninar’ tanto pode ser interpretada como cantiga de ninar como pode ser entendida como ‘meninar’, de tornar a canção criança, menina. O curioso é que pedi a Maciel Melo que participasse dela junto com Cléo Dantas e Maciel preferiu participar de uma outra canção do disco, SE TU QUISER, que, com o tempo, veio a ser minha canção mais gravada (193 vezes, que eu tenha conhecimento). Ela está no nosso FORROBOXOTE 2:

CANÇÃO DE MENINAR
Xico Bizerra

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voltasse o tempo feito uma carrapeta
bailarina borboleta, piruetando prá trás
retiraria, das gavetas da memória
os brinquedos, as histórias, da criança tão fugaz
meu coração, nu da cintura prá cima
pés descalços, com a prima, na vida a cabracegar
minha emoção, calça curta sem destino
nesse meu peito malino, bundacanastra a virar

subir mangueira, atiradeira, pontaria
‘passarim’ que não sabia da mão certa foi ao chão
bucho, mercúrio, quem mandou fazer besteira?
treloso, descer ladeira pinotando, escorregão
portão alto, salto, joelho ralado
e o quintal que está ao lado fica com caju de menos
goiaba verde, tá de vez seriguela, vou levar mangas prá ela
beijos, pecados pequenos

– seis padre-nossos, salve-rainha no altar
quem me mandou desejar tão cedo o que eu não devia?
nesse teatro, do amor fui aprendiz
brincamos de ser feliz, todo tempo era invernia
e na escola, soletrar felicidade
tabuada da verdade, palmatória, noves fora
banhos de açude, jogos de bola e pião
no são joão, soltar balão, brincante ator, sertão afora

perambulo, veredas da meninice
coração, mestre em tolice
emoção, menoridade
e todo dia, vários sonhos a beber
sou criança a renascer
nas varandas da saudade


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