14 março 2011UM MOMENTO DE LUZ



avoante 

Imagem: Celi Aurora

Foi um momento de luz,
De muita iluminação,
O que aconteceu comigo
Numa certa ocasião,
Quando o dia terminava
E eu sozinho viajava
Pela estrada no sertão.

Estacionei na estrada
Para trocar um pneu
Que furou quando o meu carro
Em um buraco bateu,
Mas, logo que estacionei,
E as ferramentas peguei,
Algo estranho aconteceu.

Eu olhei à minha volta,
Para ver se via alguém.
Mas, naquele lugar ermo,
Não apareceu ninguém.
Só algumas avoantes
Sobrevoaram, rasantes,
E pousaram mais além.

Mas na hora em que olhei
Para onde o bando pousou
Algo na minha visão
De repente se alterou,
Pois vi cada passarinho
Tão de perto, tão pertinho,
Que isso até me assustou.

Foi como se em cada olho
Uma lente de aumento
Houvesse sido instalada
Naquele exato momento.
E tudo o que eu olhava
Depressa se aproximava
Num estranho movimento.

Como um “zoom” de filmadora
Minha vista funcionava
Aumentando qualquer coisa
Que minha vista alcançava.
Bastava eu me concentrar
Em algum ponto e olhar
E tudo se aproximava.

Estranhei aquilo tudo,
E era mesmo intrigante,
Pois olhei fixamente
Para uma avoante,
E, naquele campo aberto,
Vi a ave tão de perto
Que parecia um gigante.

E, à medida que a ave
Parecia estar crescendo,
Cada mínimo detalhe
Ia logo aparecendo.
De um olho vi a retina,
No bico, cada narina,
Tudo isso eu ia vendo.

Eu continuei olhando
E foi como atravessar
Entre as penas do seu peito
Até a pele alcançar.
Ao chegar à epiderme
Vi um parasita, um verme,
De sangue a se alimentar.

Vendo aquele parasita
Satisfazer sua fome
Pensei: “Meu Deus, neste mundo
Todo corpo se consome,
Um bicho come outro bicho,
Não existe sobra ou lixo,
Tudo se bebe ou se come”.

E, de fato, enquanto o verme
Faminto se alimentava,
Outro verme ali surgiu
E agora o atacava.
Houve uma luta entre os dois
E, alguns segundos depois,
Um ao outro devorava.

Foi então que percebi
Que outros bichos semelhantes
Habitavam entre as penas
Das pequenas avoantes,
Chegando mesmo a formar
Uma cadeia alimentar,
E das mais impressionantes.

Eu, então, naquele instante,
Olhei a areia, no chão,
E vi, que daquela areia,
Enxergava cada grão
E, entre os grãos, seres vivos
Movimentando-se ativos,
Eram vida em profusão.

Nessa hora refleti
Sobre o mundo em que vivemos:
“Com tanta vida na Terra,
Muito mais do que nós vemos,
A Terra bem pode ser
Um ser vivo a nos manter
E nós nunca percebemos”.

“Talvez o chão seja a pele
Deste ser que nos sustenta,
Que fornece as substâncias
Que a todos alimenta,
E nós, nada percebendo,
Por aqui vamos vivendo,
Nossa sina violenta”.

“Essa sina violenta
Que não nos deixa entender
Que estamos fazendo a Terra
Mais e mais adoecer.
A consequência evidente:
Se o planeta está doente,
Todos vamos padecer”.

Enquanto eu pensava nisso,
Minha vista escureceu,
Me senti um pouco tonto,
Não sei o que aconteceu.
Ao recobrar o sentido,
Vi que tinha anoitecido,
A noite agora era um breu.

Só então em me lembrei
Que ainda tinha que trocar
O pneu que, horas antes,
Aconteceu de furar.
Com muita pressa troquei
E pra casa retornei
Deixando aquele lugar.

Mas, ainda hoje eu lembro
Do dia em que eu pude ver
Coisas que são pequeninas,
Mas minha vista fez crescer.
Porém, mais que enxergar,
O que eu vi me fez pensar,
E aquela ocasião,
Para mim foi um momento
De luz, de esclarecimento,
De muita iluminação.

12 Comentários

  1. Dalinha Catunda disse:

    Olá Mairton,
    Gostei muito deste seu cordel em setilha, está tão gostoso de ler que a gente vai de um fôlego só.
    Parabéns, amigo,
    Dalinha

  2. Dom (agora nomeado padre) Marcos T. Alencar de Carvalho disse:

    Não sou muito da literatura de cordel, mas entendo alguma coisa de pássaros. Se me permite…
    …trata-se de uma Zenaida Auriculata, também conhecida como Arribaçã ou Ribançã no nordeste ou amargosinha na região sul e sudeste e mais uma dezena de nomes Brasil afora.
    Em alguns lugares chega a ser praga. No sudeste o pessoal sai à noite para pegá-las em seus ninhos no meio do canavial, até como forma de conter a invasão delas.
    Uma vez fui numa empresa em Pirassununga e lá tinha uma árvore que elas usavam para dormir. Ao final da tarde chegavam centenas delas para dormir na árvore no páteo da empresa que era obrigada a colocar um funcionário no dia seguinte com uma mangueira para lavar o chão que ficava repleto de sujeira.
    No sertão já está mais escassa, aliás como todos os pássaros e animais. Infelizmente os sertanejos, por ignorância ou por necessidade estão acabando com a fauna.

  3. Marcos Mairton disse:

    Dom Marcos, meu xará,
    obrigado pelos esclarecimentos ornitológicos (acertei?!).
    Nos últimos cinco anos tenho feito duas coisas muito relacionadas às avoantes: uma é viajar pelo sertão, devido às minhas atividades em Juazeiro do Norte, depois, Mossoró, Sobral e agora Quixadá; a outra é ouvir depoimentos de sertanejos em processos envolvendo pedidos de aposentadoria rural.
    Para minha alegria, ambas as experiências têm me dado alguma esperança quanto ao futuro das Zenaida Auriculata no sertão nordestino. É que, ao viajar pelo sertão, tenho visto muitos bandos das aves, dando-me a impressão de que seu número tem voltado a crescer. Em seus depoimentos, os sertanejos têm se queixado que o abate das avoantes não tem valido a pena, porque, ao tentar vendê-las à beira da estrada, arriscam-se a serem pegos pelo pessoal do IBAMA. Pelo mesmo motivo, as pessoas que passam na estrada já não querem comprá-las.
    Ou seja, por mais que a fiscalização ambiental seja falha em nosso país, algum efeito está fazendo, não sei se o suficiente para evitar a extinção dessa e de outras aves.
    Abraço.

  4. Marcos Mairton disse:

    Obrigado, Dalinha.

  5. CARDEAL CÍCERO CAVALCANTI disse:

    O Marcos faz poesia como se estivesse conversando.Muito boa Marcos.

  6. selma disse:

    Ainda bem que tinha um buraco no seu caminho…..fez vc observar a natureza e nos repassar, em forma de poesia.

  7. Leirton disse:

    Parabéns Mairton pelo cordial muito gostoso de ler e que nos instiga a pensar na natureza. Eu que nasci no interior sou um apaixonado por pássaros. Na minna infância as avoantes eram muito comuns, assim como os canários da terra, os cabeças de fita, os paladins, os bigodeiros, os periquitos, os sabiás, as graúnas…

  8. Marcos Mairton disse:

    Cardeal Cícero, acho que esse é o comentário mais original que alguém já fez sobre os meus versos. Eu ainda não tinha parado para pensar nisso, mas devo admitir que faz sentido…

  9. Marcos Mairton disse:

    Selma,
    eu sou um homem de sorte. Até quando acerto o pneu do carro dentro de um buraco a sorte me beneficia, dando-me oportunidade de viver experiências fantásticas como essa.
    Obrigado por comparecer aqui novamente.

  10. Marcos Mairton disse:

    Leirton, meu bom amigo!
    Se você ainda não conhecia o Jornal da Besta Fubana, seja bem vindo a esta gazeta da bixiga lixa. Dizem que a Internet é um espaço muito democrático. Pois eu lhe digo que este é um dos espaços mais democráticos da Internet.
    Fico feliz que meus versos tenham lhe conduzido a um passeio pela sua infância, com sua rica fauna. Venha sempre!

  11. NEZITE ALENCAR disse:

    Prezado poeta-juiz,
    Seu poema tem o sabor das coisas puras: temperada com ecologia e cheirando a mato. Parabéns!!!

  12. Natália Guberev disse:

    Amado,amei mais uma vez!! Você é mesmo demais!
    Beijos,
    Sua Natália.

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