23 dezembro 2016A PRAIA DA MARÉ



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Capibaribe, parte denominada: Rio dos Afogados. Foto de Carlito Santos

Um retrato descrito da década de 1940. Para memorialistas de plantão. Um pouco mais de sete décadas traçam vias paralelas separando os períodos da minha infância e a velhice.

Cheguei com meus pais para residir no bairro dos Afogados, no Recife, quando contava cinco anos. Meu primeiro alumbramento foi o rio Capibaribe. Aquela “piscina”… pois a correnteza era dolente.

Ali vislumbrei a “minha praia”. E por causa dela levaria muitos castigos severos. Das privação de liberdade às consideráveis lapadas de “palmatória. Com endiabrados amiguinhos, nadávamos, atravessando o rio, com destino ao Sítio do Coque e vice-versa, como se estivéssemos em competição.

Foi um dos períodos importantes da vida de meu pai, pois na Vila dos Remédios solidificou o patrimônio, comprando uma daquelas casas, pagando R$ 153,20 em parcelas mensais durante 30 anos, sob juros, hoje inimagináveis, pois era pela Tabela Price.

O rio era limpo. Tudo era atração. Jogávamos futebol na Salina e depois, “tibungo” na água. Dava-se o nome de “maré”. Era a praia dos meninos da Vila. Naquelas águas aprendi a nadar. Na salina, exercitei o futebol.

Naqueles anos era muito difícil se levar uma família à praia mais próxima. Teria que se tomar o bonde de “Largo da Paz”, saltar na Cabanga e pegar precários botes, para se atravessar o Rio Tejipió para chegar às terras do Sargento Pina.

Corria-se o risco de proximidades com os hidroaviões em voo, que poderiam vir descendo para amerissar na Bacia do Pina. Mas, utilizar aquela praia, nem pensar! O cheiro de bosta era terrível face aos despejos do “Cano do Pina”, emissário submarino do esgoto do Recife.

A Ponte do Pina, não dava passagem a carros nem pessoas. Só permitia acesso aos bondes. Como papai não possuía carro, para alugar um, na Praça da Paz, era um “destempero”.

No final dos anos 40, a atual Avenida Marechal Mascarenhas de Morais era uma espécie de trilha. Fora asfaltada pelos militares norte-americanos durante a II Guerra Mundial, cujos reflexos aqui vivemos, tanto em termos de progresso, modos de quanto e em preocupações das famílias.

Para se chegar à praia de Boa Viagem os choferes eram obrigados a seguir pela Estrada da Imbiribeira até o Aeroporto Militar do Ibura e de lá seguir até a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, onde a praia era um encanto; coisa para poucos. Só o cheiro do mar era inebriante.

Portanto, diante dessas dificuldades, era justo driblar nossos pais e pinotar na “maré” mesmo, que estava ali, todos os dias à nossa disposição. O mais incrível, porém, era o desafio de saltar da “Ponte de Gaiola”. Embora, depois, a “lapada” cantasse no lombo.

Esse rio, poético para alguns, generoso para os meninos da minha infância, foi um malvado na minha maturidade, quando avançou na casa de meus pais, inutilizando a biblioteca de meu velho, levando os livros escritos à mão por meu avô, Pacífico dos Santos. Maré desgraçada!

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5 Comentários

  1. FRED MONTEIRO DA CRUZ disse:

    Bela crônica, Carlos Eduardo ! São retratos de uma felicidade distante “tirados” por quem realmente ama o Recife.. Que venham muitas assim! Boas festas!

  2. Claudemiro Cajueiro disse:

    Sempre que acesso o JBF encontro verdadeiras jóias literárias ou musicais. O texto lembra os banhos de minha infância no Riacho dos Mocós, afluente da margem esquerda do Rio Ipojuca, em Caruaru-PE. Agradeço e parabenizo o autor.

  3. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Caro Fred.

    Como nos disse Vinícius, é preciso lembrar para ser lembrados.

    Há um passado que fica presente em nossas almas para sempre.

    Não se pode esquecer o que é tocante.

    Grato pela leitura e comentário.

  4. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Claudemiro amigo.

    Já me sinto parabenizado com seu atencioso comentário.

    Feliz Natal aproveitando as delícias enebriantes de lembranças que não se vão, jamais.

    Um abração.

  5. Brito disse:

    Carlão, memorialista do Recife

    Eu não me alembro dessa época, mas sua descrição me traz o Recife daqueles tempos de volta

    Obrigado

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