1 setembro 2016BARQUINHOS DE PAPEL



Quando meus pais se mudaram para o bairro de Afogados, no Recife, nos idos de 1940, fomos residir nas proximidades do Rio Capibaribe. Falava-se em pavimentar as ruas da Vila dos Jornalistas.

A própria Estrada dos Remédios ainda era de barro e não estava ligada à Madalena, senão por precária ponte de madeira que dava acesso apenas a pedestres, local que sendo ermo se prestava para mictório público, tornando-a conhecida como: “Ponte do Mijo”.paper ship in children hand

Viria a Vila a ter calçamento à paralelepípedo em 1952, por iniciativa do Vereador Antonio Batista de Souza, conhecido como “Toinho Metralhadora”, um dos fundadores – juntamente com meu pai – do Atlético Clube de Amadores.

Eu contava pouco mais de seis anos e lembro-me que com meus amiguinhos, quando chovia, tínhamos motivo para uma brincadeira a mais. Ao aparecimento de vários pequeninos rios podíamos fazer corridas de barquinhos de papel, aproveitando a água que descia para a maré.

Hoje, decorridos mais de 70 anos fico imaginando em que pensávamos – naquela época – quando impulsionávamos à sopro, nossos minúsculos barquinhos a fim de aproveitar a correnteza e o vento.

Certa feita, já pai-de-família, fui ao Mercado de São José para comprar uma jangadinha. Com meu primogênito dias depois fomos colocá-la no mar de Boa Viagem, onde lhe ensinei como um barco podia navegar com ventos contrários.

Naqueles instantes, com ele, vi-me criança de novo. Não era mais um barquinho de papel que eu colocava na água, e sim uma embarcação de madeira e vela de pano, miniatura de uma jangada de verdade. Muitos anos depois, com ele também adulto, cortávamos o Rio da Prata num navio de verdade, viajando do Uruguai para a Argentina.

Naquele instante meditei no convés, vendo o grande barco de ferro singrando águas de um rio-oceano e assim realizei uma viagem talvez imaginada quando criança.

Agora não preciso mais de comparações e sim me lembrar que estou singrando há 80 anos a grande viagem da vida, onde os portos nem sempre são seguros e poucos deixam saudades. Mas nunca esquecerei da Ponte do Mijo, da maré de Afogados e dos barquinhos de papel.

4 Comentários

  1. violante pimentel disse:

    Parabéns pela belíssima e emocionante crônica, prezado escritor Carlos Eduardo Carvalho! O título e a ilustração também são lindos!
    Um abraço!

  2. Dalinha Catunda disse:

    Carlos Eduardo, eu amei sua crônica, pois me remeteu aos meus tempos de criança onde o barquinho de papel era uma das minhas brincadeiras preferidas, nos tempos de chuvas e calçadas alagadas.

  3. DECO disse:

    Excelente texto, que nos emociona e remete nossa memória aos belos dias que vivemos com os nossos pais.

  4. Marcos Tonizza disse:

    Belíssima crônica Carlos Eduardo, nos remete aos tempos de infância. Aliás, de onde vem esse seu sobrenome Carvalho? Eu também sou Carvalho.

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