20 fevereiro 2016CAPIBA E MARIA BETÂNIA



capiba

Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (Out/1904 – Dez/1997)

Ônibus são um teatro de gaiatices. Notadamente aquelas cadeiras que são reservadas aos idosos. É um local onde surgem as histórias mais engraçadas. Durante palavras trocadas entre os passageiros ouvem-se cada coisa de lascar.

Algumas sérias e que merecem correções. Via de regra, alguns contam histórias de vida. E assim se refazerem os mais velhs através da narrativa de episódios pitorescos de suas passagens. Coisas que o cronista não deixa escapar.

Costumo usar esses espaços para minhas observações, às vezes até participando com algum assentamento histórico, alguma peruada oportuna, de forma a dar mais conteúdo aos temas ali ouvidos e fazer os devidos acertos ou complementos.

Outro dia ouvi de um senhor elegante, cabeleira vistosa, avançado nos anos, cheio de goga, falando com certa desenvoltura, mas soltou um contrassenso daqueles. Já não bastava o besteirol tão desenfreado, que houve necessidade de interferência a bem da História.

Dizia ele – a propósito da cantora Maria Betânia – recentemente homenageada pela Mangueira – que Capiba nela havia se inspirado para compor a famosa música que se tornou clássica na voz de Nelson Gonçalves. Um disparate! A música foi composta em 1944, no Recife e editada em São Paulo no ano seguinte. Maria Betânia, a cantora, nem era, ainda, esperma…

Descemos juntos e eu lhe fiz ver, discretamente, que ele estava muito enganado. E, como notei que se interessou na corrigenda de sua bobagem, dei-lhe a seguinte explicação.

Jornalista há mais de 60 anos convivi próximo de Capiba, porque fui seu biógrafo, e trabalhei com escritor Hermógenes Viana, que no Banco tinha o carinhoso apelido de “Sábio Lusitano”, porque se ufanava de haver sido graduado na Universidade de Coimbra e fora contemporâneo do Cardeal Cerejeira. Portanto, dado à intimidade com os personagens dos fatos eu conhecia bem a história daquela música.

Mário Sette, escritor pernambucano, se tornou famoso inclusive em Portugal por reedições várias de seu notável romance: SENHORA DE ENGENHO, que por iniciativa de funcionários do Banco do Brasil – José Hermógenes de Araújo Viana e Mílton Persivo Rios Cunha – se transformou em peça teatral cujos ensaios e produção se realizaram sob o patrocínio do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, em dias memoráveis quando os sindicatos promoviam a cultura.

A produção foi esmerada e o próprio Mário Sette fez as adaptações. O inusitado, a ideia genial de Persivo, foi compensar o espaço entre os intervalos com uma trilha sonora de piano e voz. Coube a Lourenço da Fonseca Barbosa – o Capiba, a criação de letra e música, ele que era também funcionário do Banco do Brasil. Fez a canção em menos de uma semana.

A peça estreou num espetáculo inesquecível no Teatro Santa Isabel. Um fato interessante cabe divulgar. A canção nasceu no Banco do Brasil. Capiba sempre trabalhava assobiando. Não era incomum ver-se uma gaveta aberta e uma partitura com anotações. Era o funcionário compondo, como o fez certo dia de 1944, completando a música solicitada para a peça, considerada pelo próprio Nelson Gonçalves aquela que ele mais gostava de cantar. Exatamente MARIA BETÂNIA.

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Finalizando, devo informar que nos encontramos no Shopping Center Recife, em dias de 1984 – eu, Capiba, Zezita, a cantora e sua mãe, D. Canô – e esta nos disse que realmente solicitara ao seu marido colocar o nome de Maria Betânia em sua filha, porque ela sempre apreciou a música de Capiba. E para fugir do comum, acrescentou um “h”, registrando-se a menina como Maria Bethânia Vianna Telles Velloso, nascida aos 18 de junho de 1946, dois anos depois do lançamento da canção.

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