Chico Anísio e Aldemar Paiva devem estar fazendo graça lá no céu. Dois beneméritos da humanidade. Não conheci Chico pessoalmente. Mas, Aldemar Paiva, alagoano que se tornou pernambucano por adoção, foi uma de minhas grandes amizades. Infelizmente o perdemos em 4 de novembro de 2014. Era poeta, cordelista, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico, ator e publicitário. Nossa aproximação foi para sempre e teve como padrinho Capiba. Fez até um verso em minha homenagem. Éramos fraternos amigos.

Na antiga PRA-8, nos idos de 50, os dois inventaram o programa “Dona Pinóia e seus Brotinhos”, apresentado ao vivo, no auditório do “Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto”.

Mais adiante viria a ser imortalizado como: ”A Escolinha do Professor Raimundo”, quando Chico foi tangido, por seu valor, para o Rio de Janeiro, fixando-se na Rede Globo. Mas nunca negou a Adelmar essa parceria. Isso é um fato histórico que andava engavetado na memória de muitos.

CA

Um dos últimos encontros de dois gênios do humor: Chico Anysio e Aldemar Paiva, no Recife. Ao centro, Angelita, esposa de Aldemar

Vi, menino ainda, uma apresentação desse teatrinho, onde o inocente humor predominava lotando o auditório da Rádio com famílias inteiras, nas manhãs de domingo. Dava gosto ver os atores Chico, Aldemar, Bombinha, Mercedez del Prado e outros, todos já marmanjos, com as canelas cabeludas de fora, “aprontando” junto à professora, coitada.

O exercício do jornalismo me proporcionou grandes realizações face à conquista de amizades com pessoas de variadas qualificações, sobremodo os que cultivam a intelectualidade através das artes. E ainda por estar em lugares onde ocorreram fatos que se tornaram história; como este.

Voaram os anos. Estando eu na casa de Aldemar, acertando para lhe fazer uma homenagem pelos 80 anos de vida, quando surge um telefonema de Chico Anysio. Por educação Aelmar comunicou que estava comigo e iria colocar o aparelho no “viva voz”:

– Aldemar, tô querendo fazer uma homenagem a você na “Escolinha” e me lembrei de citar os velhos quadros que fizemos no Recife, na Rádio Clube. Você pode me mandar aqueles seus primeiros textos escritos para o “Dona Pinóia e seus Brotinhos”?

– Ah, meu camarada, você não sabe do pior!… Não podendo guardar toda a minha troçada aqui em nosso apartamento de Boa Viagem resolvi, há alguns anos, entulhar tudo em nossa garagem, na casa de Gravatá. Há poucos dias fui lá e me senti golpeado pelas traças. Aquelas infelizes devoraram principalmente os meus textos daqueles nossos anos juntos na Rádio Clube, e outras coisas que guardei com tanto cuidado por mais de cinquenta anos.

Aí dispara Chico Anysio com toda a sua irreverência, admitindo que as roedoras comeram todos os textos de bom humor:

– Aldemar, vejo que serão as traças mais “cheias de graça” que teremos visto!…

* * *

Dados colhidos na coluna “Megaphone do Quincas“:

Nascido em Maceió-AL, em julho de 1925, Aldemar Buarque de Paiva foi poeta, cordelista, ator, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário (hoje, seria um multimídia). Em 1948, fundou a Rádio Difusora de Alagoas, transferindo-se em 1951 para o Recife. Trabalhou com Chico Anísio no cast da PRA-8 Rádio Clube de Pernambuco. Ocupou os cargos de diretor artístico e diretor-geral da emissora, e da Rádio Tamandaré (ambas dos Diários Associados). Assinou colunas de humor nos jornais Diário de Pernambuco, Diário da Noite e Jornal do Commercio. Durante um quarto de século comandou o “Pernambuco, Você É Meu”, líder nacional de audiência. Participou como produtor e ator dos programas ‘Som Brasil’, ‘Praça da Alegria’ e ‘Chico City’, na rede Globo. Como compositor tornou clássicos “Pajussara” e “Boneca”, frevo em parceria com o maestro José Menezes.

2 Comentários

  1. Anita disse:

    Começar “o” domingo lendo um texto “cheio de graça”, não tem preço!!! Um abraço!

  2. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Gratíssimo pela leitura e o comentário. Viva Anita! Olinda, Mãe da República do Brasil, cidade que adora receber mineiros – uai! – tá lhe esperando. Seu ciceroni, Carlos Eduardo.

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