Meu velho – Arthur Guaraciaba Lins dos Santos – sempre foi cheio de presepadas. Gostava de botar apelido nas pessoas. Tinha vigor de expressão tanto na palavra quanto na escrita. Herdou, certamente, ao meu avô – Pacífico dos Santos – que vivia “aprontando”, saindo um pouco da seriedade do ofício de Juiz de Direito, só para ouvir boas gargalhadas.

Mamãe era injicada com uma empregada que tínhamos, Nina, pois a moça só tomava banho de dois em dois dias. Até mais… E gostara de defender-se dizendo que naquela casa somente Seu Arthur a compreendia. E na defesa da “empregada” papai partir pra cima das críticas de mamãe, como defensor da “porca”, na maior gaiatice:

– Alice, você já viu em algum Atestado de Óbito, na parte da causa-mortis, constar: sujeira?

– Não.

– Então, sujeira não mata ninguém!…

Na questão dos apelidos era um mestre. Ninguém escapava. O homem da venda, por exemplo, tinha um lábio leporino e, por isso, era fanho. Botou-lhe o apelido de “Vicente Fon-fon”. Como havia na Vila dos Remédios dois vizinhos com o mesmo nome, logo os identificou o que gostava de falar muito, como “Abelardo Falabarato” e o outro, sendo Investigador de Polícia, ganhou a alcunha de “Abelardo Metralhadora”.

Vivi menino nos anos 40 e usava uns sapatos russos chamados “Bostok”; e circulava nas lojas do Recife os relógios “Roskof”. Numa conversa sobre o meu futuro lhe respondi que algum dia eu seria uma pessoa ilustre, como meu avô, e que ele se orgulharia de mim. De imediato ganhei o título de “Dr. Kagalhostof de Bostoleflax.

O apelido pegou de tal forma que a alguns curiosos tive de explicar o motivo e quem criou aquela denominação. Como a onda de produtos russos era moda em nossa cidade, papai resolveu juntar “cagalhão de bosta” e criar um nome tipicamente russo: “Kagalhostof de Bostoleflax”. Ainda hoje sou identificado por amigos que se foram para terras distantes, sob o infame e curioso apelido, que bem sei, é inédito..

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3 Comentários

  1. Roberto Lima disse:

    Um apelido fantástico me foi contado por meu pai e não lembro se foi na época dele ou de meu avô:
    Um colega de escola tinha gigantismo e, por causa disto, tinha um crescimento exagerado das extremidades (braços, pernas, queixo etc.).
    Qual o apelido?
    >>> Dobra lençol <<<<

  2. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    Meus apelidos quando era viajante: filé de borboleta e três pernas.
    Abraços

  3. Marcos Tonizza disse:

    Meu pai também era mestre em colocar apelidos. Uma vez o vizinho ganhou um filhote de pastor alemão e andava exibindo o animal a todos da rua. Deu-lhe o nome de Max e fazia questão de dizer a todos o nome do animal. Meu pai olhou, pensou e disse: Pastor alemão? Que nada, isso tá parecendo cruzamento de macaco com gambá e já deu logo o apelido de Gâmba (com acento circunflexo no a mesmo) para o cachorro. O sujeito ficou doido, exigia que todos o chamassem de Max. Uma semana depois vi a mulher dele chamando o cachorro que saiu na rua: Gâmba, vem gâmba. Adivinha o nome que ficou valendo kkkkk

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