Em fins de 1948 Capiba havia comprado um automóvel Studbaker o arraso da época. Por isso estava todo prosa embora sem conhecer as inovações eletromecânicas do carro. Por isso, já saíra de casa para uma noitada, escoltado por seu colega Leovile Cavalcante.

Dias antes, na loja de Ibrahim Nejaim, quando foi receber o “possante”, o recepcionista gentilmente lhe entregou o manual e desejou dar uma orientação mais detalhada sobre certos recursos revolucionários que o carro apresentava.

Conhecido como cidadão muito engraçado havia se tornado renomado piadista. De tudo inventava uma graça. Ainda mais, por ser tato – certa disfunção na pronúncia de algumas palavras, – foi logo disparando contra o lojista e causando gargalhadas dos que estavam por perto.

– Eu “ero” “arro” pra andar e não pra “onsertar”!

Estávamos no auge dos espetáculos de auditório do Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto, onde funcionava a PRA-8. Foi-lhe sugerido dar um giro noturno para mostrar às artistas que nos visitavam, as belezas de Olinda. E lá se foram Emilinha Borba e Linda Batista para aproveitar a noite.

Na Ladeira da Misericórdia, logo no começo, u’a manobra de mal jeito fez o possante estancar. Aperreado, Capiba meteu o pé várias vezes no acelerador e encharcou o carburador. Deu ré na base da gravidade e estacionou junto ao meio fio.

Nada entendendo de mecânica tomou iniciativa para a solução, querendo evitar o vexame. Com ares de cão do “II Livro” de Felisberto de Carvalho, desceu, abriu o capô, deu uma olhadela e retornou com jeito de vencido pois não vira nada de anormal no motor:

– É ferro como o diabo!…

Leovile compreendera que era caso de encharcamento por excesso de combustível. Questão de dar um tempo e a “pane” se resolveria por si só.

Levaram tudo na brincadeira e ficaram passeando por onde as pernas suportaram. As duas cantoras, ruins de ladeira, voltaram descalças e exaustas pela subida em algumas ruas menos inclinadas.

Depois de uns bebericos retornaram ao carro, que foi ligado por Leovile e funcionou plenamente. Ao lhe ser perguntado o que ele vira ao abrir o capô do Studebaker, momentos antes, ele disse:

– As “velas” estavam todas “apa-adas!…Era ferro como o diabo!…

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4 Comentários

  1. Deco disse:

    Esse “Capiba” encontrava sempre uma saída. Boa, muito boa!

    • Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

      Caro Deco.

      Capiba era um mundo de gente numa só pessoa.

      Conheci de perto a figura porque trabalhamos no mesmo Banco e de sua família quase fiz parte.

      Ele sempre o dizia e eu acreditava: “Carlinhos, você faz parte de nossa família”.

      Tenho ainda outras histórias para contar, porque, ao se aposentar,às tardes de todas as primeiras quartas-feiras de cada mês eu ia ser motorista dele para visitar os amigos.

      Vivi momentos que jamais poderei esquecer.

      Vou preparar novas crônicas sobre o tema.

      Grato por sua leitura, amigo.

      Aqui em Olinda, às suas ordens: santosce@hotmail.com.

      Vivi

  2. Mardonio Gadelha Pessos disse:

    Ao ler sua crônica e ver a foto do automóvel Studbaker, me transportei para minha infância lá em Baturité(Ce). Nesta cidade o gerente do Banco do Brasil tinha um automóvel destes. Era uma raridade e uma atração na cidade. Bons tempos que vivi na mina feliz infância. Abraço meu caro CE80.

    • Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

      Mardônio amigo,

      Reviver coisas boias é um remédio para nos manter renovados e vivos nestes tempos tão desgraçados para alguns.

      Quando vi o primeiro Studbaker no Recife fiquei intrigado e confuso sem saber o que era capô ou mala. O envidraçamento do carro e o desenho da dianteir e da trazeira confundia qualquer apreciador.

      Fui menino do tempo dos carrões, de traseira alta e janelas pequenininhas. Veio o Studebaker e tirou todos nós do sério.

      Grato por sua leitura e gentil comentário.

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