2 abril 2016ELIZA DA BUNDA LISA



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Dr. Pacífico dos Santos

Na intimidade familiar ou diante de pessoas com quem tinha relação próxima, meu avô paterno, João Pacífico, era um cabra muito safado. Piadista, pornofonista e versejador aproveitando tudo quanto era possível esculhambar.

Um precursor da escola de onde saiu Luiz Berto Filho. Por coincidência, adotou Palmares como se o torrão de nascimento fosse. Era mote e glosa. Tiro e queda. Qualquer pretexto lhe servia para um improviso escrito ou falado, sempre escancarando sua verve fubanística.

Personagem que está na História do Recife, com nome de rua no bairro do Paissandu, Pacífico dos Santos, como se tornou conhecido, formou-se na Faculdade de Direito do Recife, foi jornalista de batente, e com, seu irmão, Claudino dos Santos e o grande Joaquim Nabuco, dedicou-se à causa da abolição da escravatura.

Na política sofreu um atentado recebendo um tiro de raspão no pé da orelha, quando discursava num palanque em favor da candidatura do General Emídio Dantas Barreto. Aproveitou para permanecer em casa durante uma semana, para o que tirou férias, recebendo correligionários, que se penalizavam em vê-lo com uma tira de gazes enrolando a cabeça. Aquela presepada.

Decorridos cinco dias da “maluquice” do “atentado” que só lhe provocara pequeno arranhão, mesmo vendo que ele recebia muitas visitas, levou um esbregue de minha avó, ao que respondeu:

– Santinha esse balaço tem que dar rendimento político!

Certa feita foi à barbearia e lá notou que o cabeleireiro fora substituído. Como precisava aparar a barba ficou logo de “cara fechada” porque o novo rapaz não conhecia seus hábitos. Logo que se sentou e abriu o jornal para ler, o novato perguntou:

– Como quer coroné?

– Quero calado! E não sou “coroné”. Sou Juiz de Direito!

Sabia que conversa de barbeiro tendo à mão uma lâmina afiada, era um perigo pra ser degolado, por isso não queria conversa. E barbeiro conversa, viu!…

Num dia sofrido pela asma que lhe fustigava, depois de medicar-se, atendeu uma visita daquelas que são totalmente inoportunas. Era Eliza, donzela já na idade do caritó, beirando os 40, que gostava de “passar o tempo” conversando com D. Santinha, minha avó. Não teve como puxar conversa e alfinetou o velho, que estava lendo o jornal.

– Dr. Pacífico, o senhor nunca fez um verso com meu nome! Já nos conhecemos há tanto tempo, as famílias são amigas…, mas nunca mereci ser musa de um dos seus versos. Mas eu lhe esculpo. Meu nome é ruim de ser rimado…

– Nada disso minha filha. Para seu nome eu tenho mil rimas… É que tenho andado sofrido com esta falta de ar e não estou com muita inspiração. Mas se você insistir eu posso pensar. Como é mesmo seu nome?

– Eliza.

Torceu o bigode, deu uma alisada na barba. Demorou-se por instantes e avaliou as consequências. Naquele ano de 1910 a Rua da Concórdia era o chic do Recife. A aristocracia estava em todas as casas. As famílias mais distintas da cidade ali moravam. Falavam português castiço. Algumas até francês. Nunca se ouvia uma palavra indecorosa nem indelicada. Jamais.

Porém Eliza Cardoso Mendes Caldeira estava ali, de olhos atentos, fisionomia desafiadora. A malícia do poeta aflorou como um raio. Perderia a amizade de sua família, mas a afoiteza da moça merecia boa resposta. Há que se entender que naquele tempo as saias também eram conhecidas como camisas. Cuspiu o verso infame:

Eliza bela moça
que a brisa passa e alisa
levanta a fina camisa
para eu dar um cheiro
na bunda liza.

Pano rápido. A moça horrorizada, embora transformada em musa, botou as duas mãos no rosto e procurou a porta e saída para nunca mais retornar. Minha avó disparou todos os impropérios que conhecia; sendo o menos ofensivo: “Velho safado!”

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1 Comentário

  1. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    Delícia o seu texto.Hilario, realista e picaresco.

    Abraço

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