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Seu Néco vendia bananas e comprava jornais velhos e garrafas

A década de 40 não está tão distante. Mas, é bom relembrar. Em algumas oportunidades gosto de escrever as palavras que me foram ditadas por Fernando Lobo, quando o entrevistei para a biografia de Capiba. Disse-me ele:

Recordar não é querer que o tempo volte, é mais comparar as horas de ontem e achar graça no contraste das comparações.

Naquele tempo do Recife vivíamos sob modos bem diferentes de hoje. Contávamos apenas com uma emissora. A Rádio Clube de Pernambuco, começou a funcionar de fato, como um clube de “radiófilos”, cujo estatuto data de 1919.

A confraria congregava aficionados sobre técnicas de radiofonia, sendo um associados o nosso tão saudoso Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba. Somente anos depois se tornou “Rádio Broadcasting”. Ou seja, uma espécie de Centro Cultural.

A PRA-8 tinha um noticiário que se assemelhava ao “Jornal Nacional” atual. Era o “Reporter Esso”. Para seu estúdio e auditório convergiam apreciadores do entretenimento, da educação e da cultura. O “Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto”, sede da Rádio, na Av. Cruz Cabugá, era o point.

No setor de esportes já predominavam o futebol e as aulas de Educação Física. A religião católica imperava. Às 18 horas mamãe se concentrava para ouvir a “A Ave Maria” escrita por Mário Libânio, na palavra de Abílio de Castro.

Durante a Corrida Luiz Clericuzzi, o destaque era a da primeira “unidade móvel de rádio”. Uma caminhonete “Studebaker” – onde o radialista Tavares Maciel, na carroceria, fazia a locução. Era emocionante.

Todas as manhãs, às 6h,, sob acompanhamento do pianista Antonio Paurílio, havia a “Aula de Educação Física”. Tudo ao vivo. Papai era ouvinte e aluno desse curso. Fazia os exercícios de ginástica criados pela Marinha canadense. Por isso ele tinha boa saúde.

Na porta das casas, eram oferecidos os serviços de amoladores de tesoura, verdureiro, leiteiro, consertadores de panelas de alumínio e outros profissionais.
Os programas cômicos eram inocentes e sem palavrões. Ria-se ao ouvir as vozes dos artistas durante as apresentações do programa: “Dona Pinóia e seus Brotinhos”, one se apresentavam Chico Anísio, Bombinha, Aldemar Paiva e outros.

Mas, de tudo ficou-me forte lembrança. Um certo cidadão com uma carroça cheia de bagulhos, que saia anunciando, aos gritos, pelas ruas da Vila dos Remédios.
Seu Néco, com sua carroça cheia de bagulhos, desempenhando a função atual de “Catador”, era um “Comprador” de cacos de vidro, garrafas e jornais velhos, serviço que era anunciado no grito:

– Jorná véio e garrafa!!!… Jorná véio e garrafa!!!…

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4 Comentários

  1. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    Meu caro Carlos Eduardo.
    É gostoso e salutar relembrar os acontecidos em décadas passadas. Eu nasci em 1945. Tenho uma memória relativamente boa pra minha idade(71). Com meus botões estou sempre matutando o que vivi nesta minha jornada. Foi tudo muito bom e prazeroso. Um dia vou colocar tudo no papel e no computador.

  2. CÍCERO TAVARES DE MELO disse:

    Felizes recordações meu caro colega Carlos Eduardo Carvalho:

    São essas preciosidades cotidianas de tempos idos e vividos relembradas por você que tornam essa Gazeta Escrota mantida a dura labuta por Luiz Berto, um palco iluminado de sabedoria e liberdade e fuleiragem!

    Parabéns pelo artigo e pelas lembranças idas e vividas!

  3. Deco disse:

    Gostei muito do texto. Parabéns! Lendo me deu “Saudades”. Saudades do tempo dos leiteiros, padeiros, do amoladores de facas, verdureiros, vendedores de biju, Kibon e outros sorvetes e por vai…até dos bondes que passavam ao lada de minha rua. Dos bondes, então, como era prazeroso viajar naquele veículo aberto, um convite para sentir a brisa no rosto, principalmente nos estribos. E os cobradores, então! Dobravam o dinheiro de forma vertical e o colocavam por entre os dedos. Era sim o maior barato, que época!

  4. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Dedo.

    Mande-me seu e-mail e a cidade onde viveu essas cenas. Poderei lhe mandar algumas coisas interessantes.

    Grato por seu comentário.

    De Olinda, um historico abraço. Carlos Eduardo – santosce@hotmail.com.

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