29 janeiro 2017JUMENTO DE CIGANO



Antiga agência do BB, Av. Rio Branco, na década de 1950

Na década de 50, quando ingressei na instituição, o Banco do Brasil só contava com uma agência no Recife, a qual funcionava na Praça Rio Branco, tomando o nº 427 da Avenida Alfredo Lisboa, onde está atualmente o moderno prédio do Grupo Empresarial João Santos.

O prédio tinha estilo neoclássico e completava o conjunto do atual Marco Zero, conforme nos mostra a foto cedida por W.K. Okasaki.

Servia para encantar os turistas que chegavam à cidade em navios a vapor, pois ali se iniciava o cais. O cenário era idêntico a uma praça europeia face ao magnífico conjunto de edificações.

Não havendo Estação de Passageiros os que se dirigiam para embarque ou desembarque, eram obrigados a ficar misturados com os guindastes, as barulhentas carroças que conduziam as malas e pisando nos trilhos do trem fixados em pavimento à paralelepípedos.

Ao lado da pujança material do BB convivia um patrimônio humano realmente excepcional, que era seu quadro de funcionários. Além de sua inegável capacidade de trabalho, seu pessoal possuía nível intelectual aliado a uma forte emulação profissional tudo em ambiente de alegria.

Verdadeiro exército civil, selecionados através de criteriosos concursos de provas sempre estiveram empenhados na tarefa de contribuir para a grandeza nacional.

Porém, na intimidade de seu funcionamento, se ocultava o alegre conviver, predominando a camaradagem e a integração. As tiradas pitorescas eram coisa predominante no convívio que estimulava o trabalho. Ali se agrupavam figuras mais conhecidas pelos apelidos, como Capiba, Carnera, Biu da Lixeira, Macaco-seco, Saco de Coco Cu de Pato, etc.

O remanejo de seu quadro de funcionários era constante e não raro se via colegas novos chegando, vindo de agências distantes e outros se afastavam para cumprir tarefas mais elevadas pelo interior de vários estados.

O sanitário do prédio era composto de um salão onde havia muitas privadas, pias e até banheiros. Ambiente para breves encontros e algumas historietas rápidas sobre putaria.

Certa feita, chegando para o primeiro dia de trabalho, transferido de Garanhuns, de onde fora dispensado do cargo de Gerente, surgiu um a figura de fisionomia fechada, que fora urinar.

Não estava pra conversa, face às circunstância de ter retornado ao Posto Efetivo, como Escriturário, deixando pomposo gabinete de gerência na “Suíça Pernambucana”.

Surgia, diante de modesto serventuário da limpeza, um homem alto, bem afeiçoado, terno de linho branco “York Street”, sapatos de duas cores, pérola na gravata, bigode bem aparado, que mais adiante ficaria conhecido pelo apelido de “Jumento de Cigano”, tal os barangandãs que ostentava no vestuário dando-lhe certa imponência.

Era Eunício dos Santos Portela, que ficaria imortalizado por uma historieta sem par. Vendo aquele sujeito tão alinhado, um servente que estava por perto imaginou ser aquele o novo administrador e logo, olhou para ele, deu respeitoso Bom Dia e indagou:

– O senhor é o novo Gerente?

– Não. Sou um merda igual a você!

3 Comentários

  1. Deco disse:

    Kakakakakaka…O grupo João Santos destruiu um patrimônio cultural, tanto o quanto o Cabral com a Odebrecht destruíram o Maracanã, que tinha de ter sido preservado como patrimônio cultural. O Maracanã está “Jogado”, não de futebol, mas de destruição.

  2. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Caro Deco, grato por seu comentário.

    No início dos anos 60 um grupo de historiadores do BB, liderados por Mílton Persivo Cunha, Capiba, Gastão de Holanda, Hermógenes Viana, João de Belli, Gentil Brasileiro da Costa e o Autor, documentou protocolo e promoveu audiências locais com a gerencia do BB para que se transferisse o referido prédio, a título de comodato, para a Cooperativa dos Funcionários.

    Porém, o sr. João Bernardino Pereira dos Santos, titular do Grupo Empresarial João Santos, muito audaz, pessoalmente conseguiu uma negociação, num lance espetacular e negociou diretamente a compra com a Direção Geral, em Brasília.

    Quando o grupo teve notícia já foi o anúncio que o prédio fora vendido.

    Nosso grupo não teve força para evitar, pelo menos que se descaracterizasse a Praça Rio Branco.

    A empresa proprietária fez um projeto moderno, completamente disforme, “encamisando” o velho edifício com um envidraçamento.

    Quebrou um dos principais ornamentos da praça, hoje mais conhecida como Marco Zero.

    E o que infelizmente vemos são fotografias dos turistas focalizando apenas os antigos prédios da Caixa de Crédito Mobiliário de Pernambuco, da Associação Comercial e do antigo London Bank.

    E a paisagem histórica completa do Recife, oh!…

    De Olinda, um abraço à sua atenção. santosce@hotmail.com

  3. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    Prezado CE.
    Também fui bancário em Fortaleza. Os apelidos que surgiam no ambiente de trabalho eram hilários e criativos. Fui viajante propagandista-vendedor da indústria farmaceutica em Belém do Pará. Eu tinha um amigo/colega que botava apelidos em todos. Em breve estarei enviando pra você uma lista destes apelidos.
    Abraço do Mardonio.

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