Aos 27 setembro de 2013 eu estava sentado num salão de festas quando um senhor de 90 anos, que estava comigo e outro personagem ilustre, pegou-me pela mão e me chamou para cair no frevo.ah

Surpreso, atendi e ficamos alguns minutos frevando feito dois rapazolas. Ele, demonstrando pernambucanidade à toda prova, praticava vários rebolados. Surgiram palmas. Naturalmente, para ele, que se sobressaiu mais nos passos.

A frevança foi, de certo modo, longa porque éramos dois idosos, mesmo cheios de gás. Mas, ao cabo de uns dez minutos, houve o “recolhimento estratégico” à mesa. Quando os corações serenaram, lhe perguntei:

– Dr. Abelardo, qual é o “preventivo” que o amigo toma para ter tanto entusiasmo e força nos cambitos?

– Bem, amigo Carlos Eduardo, além de música ser vida e o frevo ser fascinante, a atividade física constante é uma forma de alongar os dias que ainda tenho. Quando o de “Lá de Cima” me chamar, já irei frevando…

Desse momento obtive uma foto e emoldurei, por tratar-se, ele e o outro, de serem os famosos irmãos: Abelardo e Claudionor Germano da Hora, meus fraternos amigos de muitos anos.

Naquele instante aprendi que, mesmo “usados pelo tempo”, nós, antigos, não devemos ter acanhamento de fazer o que gostamos, em momento e lugar próprios. Se der vontade caiamos na dança. Só não deveremos querer mostrar o que não somos. Porque aí se entra de cabeça no ridículo.

Ele me chamou para frevar não para mostrar sua vitalidade, mas para se satisfazer durante alguns minutos de boa música. Desejava lembrar-se de um desejo juvenil – comentou depois.

Abelardo da Hora tinha 92 anos. Era nome internacional da escultura e várias outras atividades. Nos deixou exatamente em 23 de setembro do ano seguinte. Parece que estava adivinhando que deveria aproveitar aquele momento alegre a fim de fazer o passo com alguns amigos.

Aprendi a lição. Agora que estou no portal da velhice, beirando os 80, e ainda com vigor, se der vontade de fazer, faço e refaço. Não posso perder oportunidades. Não há mais tempo. Dr. Abelardo sabia disso e aproveitou.

2 Comentários

  1. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    Belo exemplo de saber viver. Se estiver no Recife tem que frevar, se for em Fortaleza tem que xaxar, se for no Rio tem que sambar e se for em São Luis tem que dançar ao som das matracas do bumba-meu-boi.
    Abração meu caro Carlos Eduardo.
    Mardonio

  2. Anita disse:

    Parabéns pelo texto!!! Parabéns pela alegria! Fiquei até com inveja … Rsrs Um grande abraço, Anita.

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