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Ariano Suassuna e Capiba viveram os melhores tempos de suas vidas juntos. Eram estudantes de Direito, ambos muito engraçados e cheios de presepadas. Moravam na Pensão de D. Berta Nutles, na Rua Gervásio Pires, 224, na Boa Vista. Ali residiam outros rapazes que se tornaram famosos: o cientista Noel Nutles, os Suassuna: Ariano, Saulo e João, os dois últimos, médicos famosos.

Capiba já trabalhava no Banco do Brasil, cuja agência situava-se no Cais do Porto, para onde ele se deslocava a pé, a fim de economizar o dinheiro do bonde.

Nos anos de 1940 apreciar vitrinas na Rua Nova e Imperatriz era o atrativo das famílias, notadamente aos domingos. Tudo era preparado com o maior esmero. O profissional especialista era conhecido como “vitrinista”.

Nessa época não havia televisão e a propaganda ao vivo eram as exposições dos produtos na frente das lojas Clark, A Girafa, Sloper, O Regulador da Marinha, Sapataria Inglesa, Zé Araújo, Lojas Brasileiras, Viana Leal, Camisaria Aliança e outras, tornando-se estas ruas o ambiente para alguns discretos namoriscos.

Capiba, em dias úteis, só saia da Pensão em cima da hora. Mas dizia que confiava em seus cambitos porque jogava futebol. Certa feita, Ariano entendeu de ir com ele para aproveitar boa prosa pelo caminho. Às 12:30h a Folha de Ponto do BB era encerrada e chegar atrasado nem pensar…

Saíram os dois à todo gás, porque estavam em cima da hora. Ao seguir em linha reta, passando pela Rua da Conceição, iam às gargalhadas, zoando com os que iam passando, e soltando incríveis risadas pelas piadas que um contava ao outro.

Ali havia duas casas funerárias, que não tinham vitrinas, propriamente, mas colocavam seus caixões de defunto bem à porta, a fim de atrair a atenção, como ainda hoje ocorre em lojas do gênero.

Ariano gostava de afirmar: Quem não é visto não é lembrado! E evitava passar na frente da Casa Funerária Agra, preferindo transitar pela outra calçada. Nesse dia esqueceu sua própria “máxima” pois não notou por onde estava passando.

Antes de chegarem em frente à uma das funerárias, ambos notaram que vinha, lá na frente frente, um compositor que era muito amigo de ambos, mas costumava conversar muito. O encontro resultaria em terrível atraso. Tentaram escapar.

Pensando rápido, Capiba puxou Ariano pelo braço, a fim de se esconderem, a fim de desviarem-se do “conversador”. E entraram na funerária. Ocorre que Armindo Góes notou, e apressando o passo entrou também, para saber qual dos dois estava contratando serviços fúnebres. Trava-se um diálogo:

Capiba, o que é que vocês dois estão fazendo aqui?

– Estamos vendo as vitrinas!…

Nesse momento houve a perda de tempo para explicar a “estratégia de emergência”. Ambos perderam seus horários. O feitiço virou contra os feiticeiros. Afinal, ver vitrinas de “caixões de defunto” é muita força de expressão. Só mesmo uma presepada daqueles dois safados, que se encontram lá no Céu fazendo mil presepadas.

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