Bajado “Um Artista de Olinda” retratando  folguedos vindos do Recife

O primeiro trabalho de maior repercussão de Bajado foi a homenagem que prestou ao bloco carnavalesco “Donzelinhos dos Milagres” que estava encerrando, para sempre, os seus festejos de carnaval, pintando na parede de sua sede os versos: “O mar que levou a praia, levou também Donzelinhos.”

O gosto pela arte se intensificou quando Bajado retratou as principais agremiações carnavalescas de Olinda, como Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefante, O Homem da Meia-Noite, Cariri, Vassourinhas, assim como telas com frevo rasgado na Ribeira, no Largo do Amparo,  no Varadouro,  na Praça do Carmo (da Preguiça).

A Fundação Joaquim Nabuco (trabalho de Regina Coeli), descreve que, em 1964, junto com alguns amigos de profissão, inaugurou o Movimento de Arte da Ribeira, em Olinda, onde passou a expor seus trabalhos.
Bajado foi capaz de reproduzir inúmeras telas sobre a vida cotidiana, o sofrimento, as emoções e a cultura do povo pernambucano.

O artista possuía um temperamento calmo e brincalhão. Fluiu na arte, com a simplicidade de um homem humilde. Era considerado um artista primitivo, inserido no estilo da arte contemporânea.

Sua tendência artística era a liberdade de estética, comum na arte moderna, e suas obras retratavam tanto os folguedos carnavalescos, como também reverenciavam políticos e personalidades públicas: Agamenon Magalhães, Jânio Quadros,  general Teixeira Lott, entre outros.

Na década de 1970, um turista italiano, Giuseppe Baccaro, ao ver as suas pinturas e quadros a óleo expostos nas residências e estabelecimentos comerciais de Olinda, ficou impressionado diante do primitivismo artístico do pintor, a arte Naïf.  Tornou-se seu divulgador e administrador de seus trabalhos.

O imóvel em que morava fora cedido por Baccaro, o seu marchand italiano.

Nessa época, começaram a aparecer as suas primeiras exposições e mostras no Recife, na Casa da Cultura, na Fundação Joaquim Nabuco, na Caixa Econômica Federal, no Lions Club, no Cabanga Iate Clube.

Novas oportunidades continuaram a surgir, desta vez para o artista expor em outras capitais brasileiras como o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e Vitória.

Do exterior, Bajado recebeu vários convites para ir apresentar as suas obras. Elas circularam pela França, Itália, Espanha, Holanda e Eslováquia.

Em 1994, na faixa dos 80 anos, Bajado foi homenageado com uma mostra internacional na sede da Unesco, em Paris, com a participação de diversos artistas internacionais.

Contido, apesar da sua fama e do seu talento artístico, ele sempre viveu humildemente. Tinha como maior prazer da vida a expressão da sua arte primitiva, a alegria do seu povo.

Bajado passou seus últimos dias assistindo filmes antigos na televisão e recordando as peripécias da sua mocidade.

Além de tantas homenagens que recebeu, vale destaque o super 8 que o jornalista e cineasta Fernando Spencer (conhecido como o “cineasta das três bitolas”) rodou sobre “Bajado, um Artista de Olinda”, em parceria com Celso Marconi.

Bajado

Agora, pura emoção! Bajado já era o “Artista de Olinda” muito antes de eu morar ali, no Umuarama, na 13 de maio e de trabalhar no THBF – Teatro Hermilo Borba Filho -, localizado no início da ladeira 15 de novembro, em frente à Câmara Municipal olindense.

Pois bem, trabalhei cerca de 3 anos ali, neste endereço, como aprendiz, fazendo aulas de teatro, teoria e prática, expressão corporal, história do Teatro, até representando – ator de parcos recursos – etc. Entrei e saí dali por mais de mil dias.

Jamais me dei conta de que a pintura que definia a casa de espetáculos, que dava a graça e alegria à sua fachada era uma pintura de Bajado. Das duas uma: ou eu era muito desligado; ou a pintura de Bajado estampava o selo de qualidade artística e beleza de Olinda, com o qual ficamos mal acostumados.

Outra coincidência? Baccaro, o mesmo italiano ‘marchant’ que alavancou a carreira de Bajado, foi a pessoa que cedeu o espaço para a as atividades do Teatro Hermilo Borba Filho (de que falarei em outra ocasião).

               THBF – Olinda                      Teatro Hermilo Borba –  pintura da fachada feita  por Bajado

Arte naïf ou Arte Primitiva Moderna

É aquela produzida por artistas sem preparação acadêmica na arte que executam (o que não implica dizer que a qualidade das suas obras seja inferior). Caracteriza-se pela simplicidade e pela falta de alguns elementos ou qualidades presentes na arte produzida por artistas com formação nessa área.

Outro gênero artístico que tem algumas semelhanças com naïf é a arte bruta ou art brut, que será abordada ao final.

O termo naïf presume a existência (por contraste) de uma forma acadêmica de proceder nas artes – uma forma “educada” na criação, que os artistas desta corrente não seguirão.

Na prática, contudo, também existem “escolas” de artistas naïf. Ao longo do tempo, o estilo foi sendo cada vez mais aceito e valorizado. As principais características da arte naïf (por exemplo, na pintura) são a forma  desajeitada como se relacionam determinadas qualidades formais; ‘dificuldades’ no desenho e no uso da perspectiva que resultam numa beleza desequilibrada mas, por vezes, bastante sugestiva; uso freqüente de padrões, uso de cores primárias, sem grandes nuances; simplicidade no lugar da sutileza.

Por se referir a uma tendência estética e não particularmente a uma corrente de pensamento é recorrente a errônea classificação “naif” de artistas na realidade conscientes de sua produção formal que optam por uma figuração sem compromisso fotográfico com a realidade (como exemplo o pintor Henri Rousseau, exímio colorista, considerado diversas vezes um “ingênuo”). Tornou-se um estilo tão popular e reconhecido que já existem obras que podemos classificar como pseudo-primitivas.

Arte bruta , expressão proveniente do francês “Art brut”, foi concebida pelo pintor francês Jean Dubuffet, em 1945, para designar a arte produzida por criadores livres de qualquer influência de estilos oficiais, incluindo as diversas vanguardas, ou das imposições do mercado de arte.

Dubuffet via nesses criadores – oriundos de fora do meio artístico, a exemplo dos internos em hospitais psiquiátricos – a forma pura e inicial de arte.

O suíço Adolf Wölfli (1864-1930), que viveu em um asilo de alienados desde 1895 até sua morte, é apontado por Dubuffet como autor símbolo da arte bruta.

Em 1948 é fundada por Dubuffet a Companhia de Arte Bruta, com o objetivo de constituir uma coleção dessas obras. Existe um museu da arte bruta em Lausane (Suíça) com obras de artistas como Carlo, Aloïse e Alfredo Pirucha.

Em 1967, aconteceu exposição importante no Musée des Arts Décoratifs de Paris, apresentando uma seleção 700 destas obras.

14 Comentários

  1. Cardeal Jorge Macedo - Recife-PE disse:

    Congratulo-me com o Ilustre Colunista do JBF e Padre da Igreja Sertaneja-ICAS, Padre Quincas, pelo complemento da história deste grande artista de nossa amada Olinda. Graças a Regina Coeli da Fundação Joaquim Nabuco ele passou a ser conhecido em sua própria terra. E ao turista italiano Giuseppe Baccaro, o seu reconhecimento no exterior.
    E a maioria dos leitores tomou conhecimento de que o Jornalista Macedo Junior, foi uma das promessas do teatro brasileiro em suas atuações no Teatro Hermilo Borba Filho. Mas, sempre tem uma compensação. Se o Teatro perdeu um grande ator, o Jornalismo brasileiro recebeu em seu berço um grande repórter, sendo admirado por grandes Jornalistas como Osmar Santos, Orlando Silveira e tantos outros.
    O mundo fubânico se orgulha de sua presença no seu meio cultural.

  2. cardeal Irineu disse:

    Ler o padre Quincas é uma emoção dupla:se viaja no espaço recifense e adjacência e no tempo Sua ação de escrever hist´ria dessa cidade pôe em evidência o que há de relevo em sua his´ria,antiga ou contemporânea.É,sem dúvida uma ação digna de elogios! Gosto muito dessa leitura.seu estilo nos prende a cada parágrafo e nos faz acompanhar a evolução cultural da “Veneza” brasileira.Parabéns caríssimo!!!!!!

  3. cardeal Irineu disse:

    Aí,Cardeal jorge Macedo!Belo texto!! Fez bonito e burilado!!!!parabéns!!!!

  4. Cardeal Huytamar disse:

    Padre Quincas e mais alguns professores dessa gazeta, dão um show em seus artigos, coisa que nem o Google e a Wikipédia são capazes.
    Às vezes eu penso e me pergunto: “o que porra estou fazendo nesse antro de malassombrados O papa deve ser mesmo doido, além de um escroto presepeiro”!

  5. Cardeal Huytamar disse:

    Pensando bem, acho que fui contratado a peso de banana, para ser “âncora” do JBF. Hahahahaháááá …

  6. Cardeal Jorge Macedo - Recife-PE disse:

    Agradeço a gentil observação do Nobre colega Cardeal Irineu! Isto demonstra a sua bondade para com este seu amigo.
    Cardeal Huytamar e Cardeal Irineu, com certeza o Padre Quincas ficará feliz com os seus comentários. Logo que possível, ele responderá os mesmos.Podem aguardar!
    Abraços!

  7. Eduardo Marques disse:

    Quincas…Cada dia me surpreendes mais com tuas cronicas repletas de conteúdo…É gostoso de ler e nos transporta a nossas origens, aos nossos valores, etc.
    Grande abraço

    Eduardo

  8. Zeildo Nóbrega disse:

    Boatarde,em uma casa aqui na PB que estava fazendo uma limpeza
    encontrei um quadro deste pintor datado de 1981.
    gostaria de saber sobre este quadro se poderemos mostarar para vocês.

    Zeildo

  9. Zeildo Nóbrega disse:

    Encontrei um quadro deste pintor datado de 1981 aqui na Paraíba
    favor entrar em contato para verificar a autenticidade do mesmo
    no fone 83 99080003 Zeildo

  10. Padre Quincas disse:

    Prezado Zeíldo Nóbrega (sobrenome forte, hein!), obrigado por comunicar-se conosco. Ao que me conste, a família de Bajado ainda mora no mesmo lugar, onde ele faleceu, na rua do Amparo, 186 – Olinda-PE. Se não obtiver sucesso, tentarei verificar outras vias. Nunca tive contato com o grande artista, que tanto orgulha a todos nós, nordestinos. Como cronista, fiz uma homenagem……….Meu e-mail é jmacedo@uol.com.br

    • Simone Vilaça disse:

      A casa de bajado virou uma sorveteria e lá tem um desenho dele na parede, a placa do atelier, o banco que ele usava p/ pintar os quadros e mais duas obras dele. Ainda iremos fazer outras homenagens a ele.

      • Monsenhor Quincas II - São Paulo disse:

        Simone, obrigado por contribuir com informações atualizações. Não se teria condições de enviar registro (foto – vídeo) do que ficou como homenagem a Bajado!!!

  11. viviane disse:

    adorei

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