Bajado – 1912 – 1996 (de Olinda)

O ano de 2012 tem sido especialmente repleto na comemoração e registro de datas importantes que nos levam ao centenários de grandes personalidades e efemérides, observem: entre os de 1912, que comemoram, os centenários de nascimento ou de fato histórico estão Luiz Gonzaga, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, a tragédia do Titanic, a fundação do Santos; de 80 anos, de Claudionor Germano, da Revolução Constitucionalista de 32 (MMDC); de 70 anos, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano Velloso e Paul McCartney.

Bom, dirão os senhores, e o que isso tudo tem a ver com a crônica de hoje, que homenageia Euclides Francisco Amâncio, ou melhor “Bajado”, pintor. Pois é, ele nasceu em 9 de dezembro de………1912. Falecido em 1996, faria agora também o centenário de nascimento.

É claro que estou dando alguns exemplos, provavelmente esquecendo muita coisa e muita gente.

Mas que aninho danado aquele de 12 – como diria meu avô (“fulano é de 12, sicrano é de 4, Maria é mais nova, é de 20”) – quanta gente boa fazendo centenário de nascimento.

Fico por aqui na minha constatação, que pode ser mera coincidência. Por curiosidade, já levei o assunto a sociólogos, e historiadores; também já tratei do fenômeno com especialistas em horóscopo, tarô e búzios. Em outra ocasião, me deterei na questão.

 

Bajado/1991 – Foto Clóvis Campelo

Bajado nasceu em Maraial, local que deixou ainda criança para residir em Catende, Zona da Mata Sul de Pernambuco, onde começou a pintar cartazes que anunciavam os filmes em exibição no cinema da cidade.

No início da década de 1930, fixou residência em Olinda, onde continuou pintando cartazes para cinema (Cine Olinda, até 1950) e abrindo letreiros em casas comerciais.

Depois, começaria a pintar telas, assinando esses trabalhos como “Bajado, um artista de Olinda”.

Homem simples, nunca participou de qualquer movimento cultural, pintou centenas de telas retratando cenas de festas populares como o carnaval, ciranda e outras. Sua obra foi exposta no Rio de Janeiro, na Bienal de Arte Nativa de Bratislava (atualmente, capital da Eslováquia) e na embaixada brasileira em Paris.

Nunca se ausentou de Olinda até sua morte, em 1996, e seu atelier era a casa alugada onde morava.

De acordo com a Net.Saber, este foi o depoimento do pintor João Câmara sobre a permanência de Bajado na terra pernambucana: “Livrou-se, portanto, do vôo do pássaro raro, livrou-se de ser pintor primitivo de festa de embaixada, com calças de veludo e cachecol de seda”.

Antes de continuarmos a história do grande Bajado, disponho aos leitores de uma das muitas homenagens que recebeu, em variadas formas artísticas.

Aqui, talvez, a que mais tenha divulgado seu nome nacionalmente: a composição “Bicho Maluco Beleza”, de Alceu Valença e Rubem Valença Filho. A troça inspirada no nome da música, foi criada em 1992, homenageando Raul Seixas e o artista plástico Bajado:

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Bicho maluco beleza do Largo do Amparo
Teu estandarte tão raro, Bajado criou
Usando tintas e cores do imaginário
Ai, quantas dores causaste ao teu caçador…
Com teu mistério, teu charme, teu sorriso largo
És o terror da família, não tens compaixão
Em quantas camas deitaste assim por acaso…
Quantas princesas roubaste, maluco vilão…
Ô Ô Ô, Bicho maluco beleza
Ô Ô Ô, Urso maluco beleza (Letras.Mus.Br)

Um Artista de Olinda

Eu digo “O artista de Olinda”. A minha afirmação baseia-se na tese de que quando assim se autodenominou, Bajado tinha Olinda como a sua marca maior; hoje, ouso dizer que ele é “O Artista de Olinda”, pois foi quem melhor reproduziu a cores, a alegria e a singela beleza da histórica cidade.

Não foi uma iniciativa á toa: ao ver que toda sorte de artesanato de outros lugares estava sendo vendida ali na Ribeira, Bajado resolveu assinar seus trabalhos com o seu nome e, a seguir, “Um artista de Olinda”.

Claro que a arte olindense está espalhada numa série de manifestações culturais, dos bonequeiros, do artesão, dos outros pintores, acadêmicos ou naïf, das oficinas de dança, de maracatu, das talhas, da culinária local e tudo o que de expressão artística e cultural oferece em seus cenários ao ar livre.

Em 1960, Bajado começou a dedicar-se à pintura de telas com tinta esmalte. Sua arte ingênua tornou-se conhecida internacionalmente.

O artista chegou a ser considerado pelo jornal francês Le Monde como um dos maiores pintores primitivista do mundo, como nos informa o blog do Clóvis Campelo. 

Faleceu aos 84 anos. Já doente e quase cego, desenhava compulsivamente. Com uma caneta hidrocor se auto-retratava e fazia inúmeros desenhos dos cow-boys americanos Tom Mix e Buck Jones.

Todos estes desenhos, feitos naquela ocasião, foram guardados pelo poeta e fotógrafo José Rodrigues Correia Filho.
Apaixonado por futebol e torcedor fanático do Santa Cruz, o tricolor, fez inúmeras telas retratando o tema e o time coral.

Um de suas muitas homenagens ao time do coração: Santa Cruz (Arquivo Coral)

Embora reconhecido internacionalmente, morreu pobre e sem recursos para financiar os tratamentos de saúde de que necessitava.

Bajado, patrimônio da cultura pernambucana, morreu, aos 84 anos, em 1996, em sua residência na rua do Amparo, nº 186, Olinda.

Um pouco da arte de Bajado:

   

Semana que vem: quando descobri Bajado, seus trabalhos já estavam na minha frente e eu nem desconfiava!!!!!!!!!!!!!

10 Comentários

  1. Eva Podolski disse:

    Padre Quincas

    Super interessante a história deste artista. Muito bonito seu trabalho e suas obras. O Brasil tem uma infinidade de pintores naifes, os quais precisam ser valorizados.
    Pena que o Brasil não cuida bem de seus artistas.
    Excelente crônica. Parabéns!

  2. Eduardo Araújo disse:

    Padre Quincas, reproduzi um texto seu maravilhoso no meu blog. Gostaria se possivel, contar sempre com vossa valiosa colaboração.
    Abraços,
    Eduardo Araújo
    O site: http://www.guerreirosdopasso.blogspot.com

  3. Padre Joaquim Macêdo Júnior disse:

    irmã Eva, tem toda razão. A arte naïf é absolutamente importante para a identidade de um povo, de uma região, dos valores mais singelos de uma comunidade. Não pode nunca ser deixada de lado.

  4. Padre Joaquim Macêdo Júnior disse:

    Meu caro Eduardo, fico feliz que tenha gostado do texto e o tenha aproveitado em seu Blog. Fique à vontade quanto a futuras publicações. Saúde e sucesso!!!!!!!!!

  5. Cardeal Jorge Macedo - Recife PE disse:

    Parabéns, Padre Quincas pela homenagem a este artista que amava Olinda e que permanecerá na memória e na história da cidade para sempre!

  6. Bispo Carlo Marqui disse:

    Padre Quincas

    Acompanho os cumprimentos dos demais confrades.

  7. Coroinha Ricardo disse:

    Muito interessante! Nos anos 80 tive a oportunidade de conhecer pela primeira vez, uma das obras de Bajado, desde então, sempre vejo alguns de seus trabalhos em casas aqui de Olinda, mas, não imaginava que havia morrido tão pobre. Tema muito bem escolhido, parabéns!!!!

  8. Padre Joaquim Macêdo Júnior disse:

    Essa hierarquia às vezes me deixa confuso. Obrigados pelas anotações e incentivo ao Cardeal Jorge, ao Bispo Carlo Marqui, e ao nosso coroinha Ricardo, aprendiz astuto e ágil de nossas normas canônicas e profanas………

  9. rafael disse:

    Cem anos de Bajado….onde Olinda o poderia colocar justamente em Olinda arte por toda a parte não o fez..pior nem uma coisa nem outra,um artista com esta grandeza quase foi votado ao esquecimento,salvaguardando o que o EJA fez…O espaço Mercado Eufrazio onde restam umas cópias de sua obra,no dia de seu aniversario era ocupado por um evento musical.Vejo tanto defensor da cultura de Olinda se silenciar perante agressões e esquecimentos do que deveria ser feito.O silencio da conveniencia,do ganha pão muitas vezes…o que não entendo numa cidade de tanto homem e mulheres livres sem pretensões politicas ou pessoais…E de alamentar tamanho esquecimento,tamanha cobardia…Viva a BAJADO QUE VIVA SEMPRE EM oLINDA POR TODA A PARTE

  10. bernardo neto disse:

    bajado é a tradução da propria arte popular,um dos respeitados nomes da criação originalidade.

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