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Aldemar Paiva – Multimídia

Ficava invocado quando aquele moço de voz potente, riso largo e palavras bonitas, dizia: “Pernambuco, Você É Meu”. Lembro do programa quando o apresentador já havia trocado a Rádio Clube de Pernambuco pela Rádio Jornal do Commercio, entre 1968 a 1977. O programa, um dos mais longevos do rádio brasileiro, durou 25 anos, de 1952 a 1977, sendo que os primeiros 18 anos foram ao ar na Rádio Clube (PRA-8).

– “Mas que petulância – bufava – repudiando aquela ‘posse’ tão dissonante frente a meu verdadeiro amor por minha terra”. Pior foi saber depois que o homem poeta, engraçado, contador de casos e que punha a tocar músicas da terra, principalmente, o frevo, não era conterrâneo, era alagoano. Deus meu! Que heresia.

Fiquei fulo da vida. Não me contentei enquanto não soube direito quem era o cidadão. – “Ôh fulano – dizia eu a quem esclarecer pudesse, para desfazer aquela minha implicância – ‘quem é o radialista?’

– Joaquim, o homem é gente boa, um dos melhores do rádio, um show-man etc.
Aos poucos, fui me desarmando, aceitando a idéia e até refletindo que a frase era algo de muito generoso, terno e espontâneo. Afinal, bradar “Pernambuco, Você é Meu”, sendo de fora é uma gentileza fora do comum. Não petulância, como queria pensar esse bobo que aqui vos fala.

O programa era bom demais. O homem falava muito, mas com uma cadência especial, não perdíamos uma palavra. E os frevos, todos lindos, escolhidos a dedo, assim como as demais músicas, poemas e casos. Rendi-me ao programa tornei-me um ouvinte quase freqüente.

Para compor esta crônica, arredondar os fatos e pesquisar os dados para que fossem precisos, tive como uma das principais fontes o trabalho do querido amigo Geraldo de Majella, em duas referências: “majellablog” e no Jornal da Besta Fubana, onde tenho a honrar de partilhar espaço. Conheci Majella em Sampa, já há uns bons 15 anos, onde trabalhamos juntos – ele me chefiando. O alagoano Majella continua na sua lida intelectual e sua luta pelos princípios humanísticos mais nobres. Suguei muito do que está aqui no seu “O Menestrel Aldemar Paiva” sobre o conterrâneo famoso.

Nascido em Maceió-AL, em julho de 1925, Aldemar Buarque de Paiva é poeta, cordelista, ator, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário (hoje, seria um multimídia).

Em 1948, fundou a Rádio Difusora de Alagoas, transferindo-se em 1951 para o Recife. Substituiu ninguém menos que Chico Anísio no cast da Rádio Clube. Ocupou os cargos de diretor artístico da PRA-8 (Rádio Clube) e de diretor-geral da emissora e da Rádio Tamandaré (ambas dos Diários Associados).

Assinou colunas de humor nos jornais Diário de Pernambuco, Diário da Noite e Jornal do Commercio. Durante um quarto de século comandou o já citado “Pernambuco, Você É Meu”, líder nacional de audiência. Participou como produtor e ator dos programas ‘Som Brasil’, ‘Praça da Alegria’ e ‘Chico City’, na rede Globo.

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No Teatro Santa Isabel

Na Ceará Rádio Clube, onde também trabalhou, fez um dos seus programas de maior sucesso – ‘Dona Pinóia e seus Brotinhos”, considerado o embrião da “Escolinha do Professor”. Eis o depoimento de Chico Anysio: “O programa ´Dona Pinóia e seus brotinhos’ teve um sucesso enorme. Era uma escola, onde, tanto eu (Chico Anysio) quanto ele (Aldemar) éramos alunos.

O programa era um protótipo da “Escolinha do Professor Raimundo”, afirmou Chico. Anos depois, quando que comecei a fazer a ‘Escolinha’, lembrei de ‘Dona Pinóia’ e liguei para ver se ele me vendia os scripts. Mas os originais, que estavam numa casa dele, em Gravatá-PE, foram comidos pelo cupim. Eu brinquei, dizendo que ele tinha os cupins mais engraçados do Brasil”, relata Chico Anysio, no depoimento ao documentário “Aldemar Paiva é genial, ele é especial”.

Não é preciso dizer que Aldemar Paiva é “cidadão recifense” e “cidadão pernambucano”, sem qualquer discussão, pois poucos artistas, mesmo nativos, elevaram tão bem o valor artístico e cultural de Pernambuco.

Aldemar escreveu livros, destacando-se: “O Causo eu Conto”; “A chegada de Nelson Ferreira ao Céu”; e “O Encontro de Capiba e Nelson Ferreira”.

Como compositor, fez parcerias com músicos como Rossini Ferreira, Inaldo Vilarim, Beto do Bandolim, José Meneses, Zé Gonzaga, Juraci Alves e o maestro Nelson Ferreira.

A dupla Aldemar e Nelson Ferreira, seu parceiro mais constante, compôs: ‘Bloco do Ataulfo’, ‘Saudade’, ‘Ninguém segura este Recife’, ‘Pernambuco, você é meu’ e ‘Tem jeito, sanfona’.

Frevo da Saudade, de Nelson Ferreira e Aldemar Paiva

Encerro mais este perfil não-autorizado com uma entre tantas aberturas o inesquecível “Pernambuco, Você é Meu”.

“…Estas são as ondas mais quentes e mais vibrantes
do Brasil. Estamos nas ondas do frevo. Do frevo de
Pernambuco, terra de gente agitada, de gente
honrada, de gente iluminada. É manhã bonita no
Recife. Céu azul claro, limpo, lindo. Sol aberto,
chamando para as praias. Mar azul-esverdeado
como nunca. Boa Viagem para os que chegam. Nossa
Copacabana do Nordeste está irresistível. Comece
bem o dia com uma preciosa e gostosa água de côco.
Desses maravilhosos coqueiros que embelezam a
tropicalíssima paisagem pernambucana. Aos que
estão indo mergulhar, bom dia! Olha a morena cor
de canela, desfilando sua beleza mais do que
escultural. Que natureza! E lá vai passando a
lourinha bronzeada. Pura sensualidade. Aos que já
estão trabalhando, bom dia!”

Com um frevo sempre ao fundo, as aberturas eram à semelhança desta, pode-se imaginar o clima do programa.

Fontes: Onordeste.com; Blog do Majella; Wikipédia; Jota Alcides “Pernambuco, Você é Meu”.

9 Comentários

  1. Eva Podolski disse:

    Monsenhor,

    Tenho algo em comum com este cidadão alagoano, Ademar Paiva, também tomo como meu “Pernambuco”. Adorei a descrição do dia começando em Recife, feita por ele. Amei conhece-lo através de seu texto. Parabéns!

    • Monsenhor Quincas II disse:

      Eva, o rádio ainda é coisa regional, mesmo com as redes. Ainda há espaços para artistas qualificados da província.

  2. orlando silveira disse:

    Quincas, você é nosso.
    Coisa boa, de se admirar, amigo escrevendo bem, tratando de fatos e gente que precisam ser bem tratados.
    Só não posso dizer que Pernambuco é meu, porque ainda não filei boia de dona Zezé. Cardeal Jorge Macedo não perde por esperar.
    Boa.

  3. Cardeal Jorge Macêdo - Recife - PE disse:

    Aldemar Paiva foi um dos mais importantes radialistas de Pernambuco e do Brasil na época de ouro do rádio. Dotado de uma verve privilegiada, a sua trajetória foi muito bem relatada nesta excelente crônica. E um dos seus principais jargões era quando solicitava calma aos motoristas para preservar a vida deles. Ele dizia com aquele vozeirão: “….É melhor chegar tarde em casa do que cedinhooooooooooo no cemitério….”
    Parabéns Monsenhor Quincas!

  4. Monsenhor Quincas II disse:

    Boa lembrança, Cardeal.

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