28 fevereiro 2012JESSIER QUIRINO



Daniela Câmara (para o jornal O Mirante de Olinda)

Ao entrarmos na residência de Jessier, percebi o bom gosto da casa do arquiteto por formação, por conta da quantidade de peças de arte, muitas delas adaptadas ou mesmo restauradas por ele. Aguardamos um pouco, enquanto sentíamos a ambiência da casa. Eis que surge o franzino poeta, nosso personagem central que chega simplório e cumprimenta-nos. Em seguida nos conduz a um cantinho especial para a nossa entrevista.

Quando começa a falar, ele deixa de ser franzino e torna-se grande a cada coisa que diz.

Jessier nasceu em Campina Grande, mas mora na terra de sua esposa, Itabaiana, lugar quente e pacato.

Ele diz que desde a infância foi “amoitado”, expressão utilizada no interior, que cabe aos mais tímidos. Na época em que era criança, o poeta popular criou o hábito de desenhar por causa da sua introspecção e dos seus costumes caseiros.

A poesia veio do interesse pela palavra. A força da palavra sempre o encantou. Mas foi a força e a coragem de dizê-la, que transformava o texto devido ao seu caráter interpretativo, dando vida ao tema. Desde então, percebia-se o seu talento. Através desse contato com a palavra dita, Jessier conquistava o respeito dos mais velhos e já formava pequenas platéias.

Em 1975, passou no vestibular de engenharia da Universidade de Campina Grande. Em seguida, transferiu seu curso para o de arquitetura na universidade de João Pessoa, onde formou-se. Lá mesmo trabalhou em diversos escritórios de arquitetura. Até 3 anos atrás, ele ainda fazia projetos na área para concessionárias de carros, a exemplo das lojas Italiana e Meira Lins, entre outras concessionárias do Brasil. O talento de Jessier também foi reconhecido na arquitetura, pela quantidade de projetos executados ao longo de sua carreira.

Mas a poesia verdadeiramente o tomou. Sua agenda está sempre lotada de shows Brasil afora, de modo que o seu tempo está voltado somente, para as apresentações e a produção textual.

Em seu imaginário popular, o artista explora temas engraçados pelo viés do humor hilariante. Um dos personagens populares que mais influenciaram Jessier foi o Ciço Galinha, com suas histórias vindas do sertão. Outra forte influência é o rádio. Em sua casa vimos uma mesa com rádios antigos, tal importância do meio de comunicação que tanto o seduz. Outras influências artísticas vieram de Marinês, Genival Lacerda e Jackson do Pandeiro, dos violeiros e repentistas, além do programa de rádio, “O Forró de Zé Lagoa”.

Ele conta que no rádio ouve-se e constrói-se uma imagem através do que se escuta. Jessier além de um excelente orador, também tem o dom de tocar violão. No campo artístico é um autodidata que segue com primazia a intuição. Ele diz que alguém já havia perguntado qual a técnica de respiração que utiliza no palco. A resposta: “Aprende-se a respirar respirando”. Com essa forma de falar, basta olhar para Jessier Quirino, que dá vontade de rir.

O sucesso literário foi reconhecido, quando publicou seu primeiro livro, estabelecendo uma relação maior com outros escritores e poetas. A crítica de Mário Hélio, poeta paraibano, diz que “A poesia de Jessier se sustenta mais na declamação do que na leitura”.

E Jessier de fato, prende o espectador ao palco, chamando a partir daí o seu público, à leitura. O roteiro que utiliza em cena não é muito bem definido quando o poeta atua em eventos. Ele diz primeiro sentir a reação da plateia, para depois ir moldando o improviso de acordo com o que vão gostando, ou através do olho a olho com seu público. Já no teatro, ele segue à risca o roteiro e o texto como deve ser realmente, até porque no teatro as pessoas vão assistir ao que gostam. Ele explica que em certos eventos, o popular sempre é recebido com alguma reserva. É preciso primeiro quebrar o gelo, para só depois colocar temas que contextualizem o evento. Se for um encontro de medicina por exemplo, ele capricha nas tiradas com temas relacionados a médicos.

Mas é a voz do povo, a qual ele chama de “Verdade Melhorada”, quem mais contribui para uma boa apresentação.

O elemento surpresa de seu espetáculo é a própria figura, porque ele não aparenta ser o matuto. Seu tipo foge a isso.

Quando me referi ao termo Stand–Up commedy, ele disse: “Essa palavra apareceu de uns 2 anos prá cá. Não gosto dessa palavra. Prefiro que se refiram a mim como o poeta Jessier Quirino e não o humorista”.

Quanto aos hábitos do exercício da escrita, ele declara que gosta muito de deixar o texto dormir para ler no outro dia. Assim pode revisar e ter um olhar mais analítico sobre o que escreve.

Quando o poeta viaja, usa temas universais e explora os causos, que ao serem contextualizados, geram o entendimento. Isto refere-se aos vocabulários locais, que por vezes não são de fácil compreensão, para aqueles que moram em outras regiões.

“Algumas viagens que faço extendem-se a passeios. Nesse caso, sempre levo minha mulher”.

Em janeiro o poeta descansa e depois segue de viagem à São Paulo. “Não me sinto à vontade fora de casa”.

Os hábitos diários de Jessier Quirino são atípicos. Acorda sempre às dez e demora a sair da cama.  Sua produção textual é feita à noite. Ele declara-se um notívago. As ideias surgem quando vem a insônia e muitas vezes o poeta não dorme. Mas ele diz que também podem surgir a qualquer momento em seu dia–a–dia, por isso carrega consigo cadernos, papéis e canetas, para que possa anotar o que vem em mente.

Em uma sala ampla no primeiro andar do sobrado antigo, ele fala que desconstrói temas de obras clássicas a exemplo do livro infantil “Chapéu Mal e Lobinho Vermelho”.

Jessier bebe pouco, segundo ele, de duas a quatro lapadas de whisky ou cachaça no máximo. Seu lazer é sempre desfrutado junto à família.

O poeta tem 57 anos, mas parece um menino retraído. Depois que dá a deixa da fala hilária, solta um risinho bem contido. Não há quem não morra de rir, muito menos quem não se encante com a poesia desse matuto interessante e crítico.

Ainda no primeiro andar, conta-nos uma história pitoresca da rádio difusora de Itabaiana, que certa vez, noticiou um sepultamento que iria ocorrer às 16:30, e alguém lembrou na rua que já passava das 17 horas. O locutor por sua vez respondeu que se corresse, ainda daria tempo de seguir o funeral.

Assim seguimos rindo por toda a tarde. Ao final da entrevista fizemos fotos junto ao poeta e ainda desfrutamos de um lanche farto e delicioso. Salada de frutas, queijo manteiga, bolo de chocolate, regados a suco de laranja feito na hora.

Com hábito de comprar em brechós ou de adquirir peças em antiquários e em cidadezinhas de interior, ele nos mostrou uma geladeira antiga Prest Cold, em uma das salas da casa, que virou uma estante de livros e vinis.

Perguntei ao poeta se não gostaria de ser nosso correspondente internacioná, direto da Paraíba para Pernambuco. Ele diz que não gosta da correria da produção de textos para jornais. Insisti que se quisesse, poderia nos enviar seus escritos sem compromisso. Então o poeta nos premiou com uma poesia inédita, de um livro recém publicado, que homenageia o centenário de Maria Bonita, a pedidos da neta do capitão Virgulino Ferreira, Vera Ferreira. Foi uma grata surpresa e uma alegria enorme tê-lo em nossas páginas.

Jessier tem 8 livros publicados e 5 CD’s.

Escutá-los e lê-los hei desde já. O Mirante foi presenteado com a obra completa do autor, que sem dúvida, nos deixou saudosos.

* * *

MARIA BONITA

Maria Bonita
Bonita Maria
De laço de fita.

Escrita de embelezar.

Moça de cor azeitonada
Gestos cáqui
Chapéu-valente…
Bem dizer fez Virgulino
Levitar em munição.

Sem a mínima ligança
Pras balas ferinas
De boas avenças
Entrou na questão.

De água em moringa
Deu seiva ao cangaço
Que nem sorveteiro
De grito em morango:

– Sorvete!!!!!!!!!!!

E ganhou alvará
Para se arvorar
No bravo Sertão.

E de Royal Briar
Banhou-se de cheiro
De alma em paixão.

E de rifle e punhal
É flor principal
Do amor fortidão.

E de léguas beiçais
Embrenhou-se na história
De toda a nação.

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8 Respostas em: “JESSIER QUIRINO”

  • Cardeal Paulo Carvalho Diz:

    Taí poeta gostei da foto que abre a coluna, só faltou um aaaaìííííííííííí.
    Muito melhor que aquela da meditação no aeroporto, afffff Maria.

  • Madre Lux (mãe de 2) Diz:

    O lugar pode fazer carorão – Itabaiana – mas o poeta está sempre c/ a mão na geladeira…

  • Madre Superiora Neide Diz:

    Daniela Câmara está de parbéns… Pense na inveja que senti dela. É pq se depender de Berto e Zelito, vou continuar conhecendo a casa de Jessier, assim, apenas por fotos… Esse povo nem promesas cumprem.

  • Goiano Diz:

    Jessier é o bicho!

  • NATAN Diz:

    Goiano, Jessier é o Cara, bicho!

  • Irmã Glória Braga Horta Diz:

    Jessier é muito bão, sô!

  • Germano Alves Feitosa Diz:

    Não sei se o poeta Jessier gosta de “celveja”, mas de geladeira ele está bem servido.

  • Cecília Diz:

    Ai, ai, que saudade!!!
    Sinto-me renovada em ler essa entrevista com o Jessier, um dos meus mais mais…
    Não sou paraibana, mas corre nas minhas veias as histórias que ele encanta em seus versos.

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