A luta diária pela água de beber

A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: os céus e o seu azul muito azulado e sem nuvens que continuassem a acalentar um sonho. A esperança de que o vento não leve a nuvem, e, garanta mais tarde, o milagre da chuva.

A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, elevando-a a uma temperatura que, nem os mais fortes conseguiam suportar. Doía. Doía muito mais que um corte sangrando na própria carne.

Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que num ambiente climatizado, percebemos com maior clareza, que aquela dor doía muito. Doía na alma, e transcendia para a vida que se pretendia eterna. Doía muito. Doía mais que a sede ou o martírio de sonhar acordado com a água.

Eu não sabia que doía tanto.

A seca dói. Dói mais na alma – e perpetua sua dor – que no corpo. Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas, e o corpo faminto as absorve. Não há força nem sofrimento que as façam escorrer olhos à fora.

Não há poesia nesse sofrimento. Só dor. Dor que dói.

A fome acompanhava a dor, mas a dor continuava doendo mais. A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não. A dor dói. A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo.

Não há direito de escolher o cardápio, porque a fome é analfabeta e não lê nada. Mas, a dor dói, porque está na mente, na alma.

A seca dói.

A transposição do rio São Francisco poderia diminuir o sofrimento de centenas de milhares de pessoas – e contribuir na produção ribeirinha de alimentos.

Trecho do rio São Francisco – uma provável solução para as famílias

Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.

Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E, … quando tem isso para comer sem que esteja posta a mesa.

Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”. Coisa de gente que nunca sentiu dor. Nem conviveu com a seca.

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12 Comentários

  1. C Eduardo disse:

    Paty Not Set do Alferes, 28/12/2016

    Governos, governos e mais governos… pra que servem os governos? À quem servem os governos?

  2. Aristeu Bezerra disse:

    Caro Zé Ramos,

    A seca foi retratada numa prosa tão bela que fico imaginando quanta dor existe no corpo e na alma do sertanejo! Houve um poeta chamado João Paraibano (1952 – 2014) que descreveu em versos todo o sofrimento provocado pela seca. Veja que pérola poética:

    “Só se vê urubus e carcará
    De um boi morto roendo um esqueleto
    A floresta vestiu um terno preto
    Com saudade da voz do sabiá
    Cobra cega, minhoca e imbuá
    Ninguém viu mais andando pelo chão
    A fartura deu féria ao batalhão
    Pra o exército da fome comandar
    Só Jesus tem poder pra consertar
    Os estragos da seca no sertão.”

    Atenciosamente,

    Aristeu

  3. Paulo Terracota disse:

    Senhor Deus dos desgraçados ! Dizei-me Vós, Senhor Deus! se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus… Sr José, infelizmente, um filho do nordeste, caboclo bazofeiro e safado, que teve condições de pelo mínimo, minimizar um pouco essa dor dos irmãos nordestinos, com a conclusão da transposição do velho Chico. O filho de Belzebu usou a dor dos outros para satisfazer seu ego e sua fome de poder. Muito comovente seu relato meu amigo “fubano”. Um abraço.

  4. Carlo Marqui disse:

    Vão arruinar o rio São Francisco. Só isso, nada mais.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Carlo: será mermão? Sem pretender contestar nada, esse é o mesmo discurso da atriz Letícia Sabatella, que nunca ficou sem a água Perrier nem sem o banho de espuma.

  5. Glória Braga Horta disse:

    Zé, Sua crônica é linda e comovente, mas a eventual transposição do Rio São Francisco é um projeto muito polêmico, porque pode trazer muitos pontos negativos para o Rio São Francisco, e não vai resolver a questão de seca do nordeste. Talvez apenas 7% da regão seria beneficiada, a troco de altíssimo custo e trágicos impactos ambientais e outros danos. Pelo que tenho lido, existem outros meios mais baratos que não causariam danos ao ecossistema do Velho Chico e de outros rios. Isso é um problema que o governo federal tem que resolver.
    Grande abraço.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Glorinha: tudo bem que, “in totum” não seja resolvido o problema. Mas, por que ficar parado? Sem segundas intenções (nas entrelinhas), pelo respeito que tenho por você, há dez anos atrás essa era a única solução. Politicamente falando. E Belo Monte não tem problemas? Beijo!

  6. severino souto disse:

    Rio Talhado,entre DElmiro Gouveia e Olho d’agua do Casado, afluente do “Chicão”.

  7. Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Mandei-lhe um e-mail, mas ele retornou. Por isso, uso este espaço, por sugestão de Luiz Berto, pedindo-lhe autorização para reproduzir sua Coluna no Almanaque Raimundo Floriano (www.raimundofloriano.com.br), o que viria, em muito, abrilhantar suas páginas.
    Feliz Ano Novo!
    (Poderíamos manter comunicação pelo Facebook)

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