18 dezembro 2016ESTAMOS EM PASÁRGADA?



Que saudade que nos dão as coisas do passado. Distantes de Pasárgada, vivemos e passamos por um tempo de proximidade, de confiança mútua, de respeito ao próximo (e até aos menos próximos) e de boa convivência. Isso está no “passado”, e, como dizia o personagem da televisão, “não nos pertence mais”.

Era prazeroso cruzar com alguém (conhecido, ou não), falar: “bom dia”, e escutar o cumprimento de volta – “diiiia”!

Quando tenho o prazer de ler as magistrais crônicas de Orlando Silveira, cujo foco retrata, como um fotógrafo “lambe-lambe”, a famosa Vila Invernada, me transporto para o passado e me sinto como Jessier Quirino, indo para Pasárgada. Vou ao orgasmo!

O passado é bom, quando não nos envergonhamos dele. É melhor ainda, quando nos deixou marcas positivas, diferentes das tatuagens atuais, que só nos sujam o corpo. Ainda bem que é um modismo, e passageiro.

Era bom ouvir o vinil com o samba de Donga, ou os batuques de Ciro Monteiro e melhor ainda escutar Dolores Duran e Sílvio Caldas. “Mulher de trinta”, cantado por Miltinho fez parte da vida boêmia de muitos de nós. Não dá para esquecer essas coisas (boas) de um dia para outro.

Como esquecer a irreverência de Oswaldo Sargentelli ou a cara de Aracy de Almeida de uma hora para outra? A voz marcante de Íris Lettieri, a voz inconfundível de J. Silvestre, quem esquece?

Duvido que alguém esqueça a figura do “Leiteiro” – aquele que, montado em um burro ou jumento, vendia leite de porta em porta pelos bairros da vida. Todos os dias. Um litro era realmente um litro – há quem afirme que ele, para aumentar a quantidade do leite que vendia, acrescentava água. Não era verdade!

Nunca se soube que aquele leite tenha provocado alguma doença ao consumidor (muitas mães o usavam para mingaus e papas – misturado à Arrozina, Maisena e Farroz), ao contrário do leite de hoje, vendido nos supermercados e “fiscalizado” pelos órgãos (in)competentes.

Vendedor de leite (porta em porta)

O passado é um tempo e um período da nossa vida que não nos deixa em paz. Isso, por que, o que fizemos nele (no passado), jamais nos envergonhará. Ao contrário. Só nos envaidece.

Nesse passado que falamos, o bom era andar a pé. Hoje, nem com determinação médica. O carro, a máquina carro, só falta dormir na cama ao lado do dono, no lugar da mulher. Tem gente que é assim. Isso é, entendemos, desestrutura mental e desconhecimento de valores.

Hoje, quem tem um carro – por mais mequetrefe que seja – é “rico”. Não gosta de oferecer caronas e, às vezes, sequer faz isso com os próprios familiares. Tem quem use apenas um carro por vez, para ir ao trabalho ou para passear. Mas, na garagem possui três e até quatro – é o verdadeiro bobalhão.

Imagine se possuísse duas ou três Vemaguetes; dois ou três Gordinis; dois ou três Simca Chambord; dois ou três Jeep Willis – o carro e ao mesmo tempo utilitário que nos levava para qualquer lugar. Levava e trazia. Hoje, alguns levam e não trazem – são roubados no translado.

Vemaguet 1966

A Vemaguet é um automóvel brasileiro produzido pela Vemag, sob licença da fábrica alemã DKW, entre 1958 e 1967, que teve dois derivados populares, a Caiçara e a Pracinha, produzidos respectivamente entre 1963 e 1965 e entre 1965 e 1966. Ao total, foram produzidas 55692 unidades (47769 unidades da Vemaguet, 1173 unidades da Caiçara e 6750 unidades da Pracinha).

Inicialmente era conhecida apenas como “Camioneta DKW-Vemag” ou como “Perua DKW-Vemag”, recebendo a denominação de Vemaguet apenas em 1961. Os modelos datados de 1956 a 1957, anteriores portanto à produção da Vemaguet, foram montados pela Vemag sob licença da DKW da Alemanha e eram derivados da perua DKW F91 Universal, enquanto os modelos da Vemaguet eram derivados da família F94.

Até 1963 as portas dianteiras abriam ao contrário, da frente para trás, no sentido do conforto, conquistando o apelido de portas “suicidas” (conforme os americanos se referem a este tipo de abertura) ou portas “deixa ver” ou “DêChaVê” (como ficou comum no Brasil). Esta última denominação refere-se obviamente ao uso dessas portas por mulheres vestindo saias. No ano de 1964 as portas foram alteradas para a forma tradicional de abertura, de trás para frente, a favor da segurança.

Seu motor de três cilindros em linha e dois tempos (precisa misturar óleo a gasolina), com volume de 1 litro, é dianteiro, assim como a tração. Uma bobina por cilindro, refrigeração liquida, partida elétrica. Motor que ao invés de usar buchas, casquilhos ou bronzinas em suas partes móveis, usa rolamentos, proporcionando assim uma durabilidade acima do comum para os carros da época. (Wikipédia)

Escovão utilizado para encerar o assoalho

Por que o domingo é um dia diferente dos outros dias?

Por que, ainda que a família toda esteja reunida, numa quarta-feira, para um almoço, o almoço de domingo é diferente?

Por que nos preparamos para o domingo?

Nós, nossas roupas, nossa casa – ficam mais bonitas e mais alegres aos domingos?

Por que?

Pois, não no domingo, mas aos sábados – e quase sempre na parte vespertina, o trabalho da limpeza da casa era aos sábados. Uma “preparação” para o domingo, ainda que nada de extraordinário estivesse programado para esse dia.

Limpar a casa, era uma das tarefas escolhidas pelas “donas”. E, uma dessas limpezas era varrer bem, limpar bem, e encerar bem o assoalho – o piso formado por tacos de madeira.

Retirada a poeira do assoalho com um pano umedecido, uma rápida espera para a secagem. Passar a cera (Cachopa, Parquetina ou Poliflor) era a etapa seguinte. A seguir vinha a etapa mais “massacrante” – tão “massacrante” que, quem fazia aquilo, só fazia aquilo pela tarde inteira: pegar o escovão e esfregar todo o assoalho, deixando-o como se fora um espelho. Isso era feito todo sábado à tarde. Massacrava.

Anos depois, o prêmio para aquele castigo. Inventaram as enceradeiras elétricas. Foi mais importante que o dia 13 de maio de 1888.

6 Comentários

  1. Cardeal Xico Bizerra disse:

    Caro Ramos, por coincidência, na minha coluna de 19.12, falo de Pasárgada e de meu encontro ficcional com Manoel Bandeira. Abraço

  2. José Salvador Pedroza disse:

    Oliveira Ramos, hoje, com meus 73 anos, gosto muito de relembrar o passado. Nós eramos seis irmãos, todos foram embora de Fortaleza. Papai comprou uma casa na Padre Mororo, próximo ao Mercado São Sebastião, onde residiu ao lado da mamãe até se encantar aos 100 anos e 7 meses. Como ele só acreditava em leite in natura, descobriu um leiteiro. Alguns dias depois, ele reclamou que o leite não era puro. Sabe qual a resposta? Seu Pedroza, hoje só quem bebe leite puro é bezerro. Vejam só. Isso há 25 anos.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      José Salvador: pois é amigo! Estou morando fora de Fortaleza desde 1967. Me responda uma coisa: estive em Fortaleza há cerca de três anos, e, para matar a saudade, dei uma passada rápida no Mercado São Sebastião. Percebi que, em algumas ruas laterais e transversais proliferou a venda de peixes. Será que eu encontro por ali, “biquara”?

  3. José Salvador Pedroza disse:

    Oliveira Ramos, também sai de Fortaleza em 1970. Tenho uma filha que mora lá. Raramente visito minha terra natal.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Salvador: tenho duas filhas nascidas no Rio de Janeiro, que moram lá (em Fortaleza) desde 1984. Moram no Henrique Jorge. Hoje moro em São Luís, mas vou muito pouco a Fortaleza. Mas não perco os laços familiares e de amigos.

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