16 novembro 2016MARMITAS E BORBOLETAS



O ENTREGADOR DE MARMITAS

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Marmitas de alumínio – um conjunto

Acabei de olhar a “lua grande”, e ela não me pareceu tão grande assim. Ou, provavelmente, o céu ficou maior e a lua diminuiu.

Ou, meus olhos que, hoje, cansados de ver pequenezas praticadas pelas pessoas, já não têm o mesmo grau de acuidade?

Calmamente, paro e espero a “lua grande” aumentar de tamanho. A transformação é lenta. Tão lenta que quase me desespero – será que ela, hoje, não vai ficar grande pra mim?

Enquanto não percebo se a “lua grande” aumenta, sinto que meu cérebro, ainda de elefante, tem um arquivo enorme de coisas boas e de boas realizações – quase todas vividas na distante infância.

Olho de novo e, para mim, a “lua grande” ainda não aumentou. Mas, meu pensamento me leva ao tempo de, quando menino, totalmente obediente aos pais, saía de casa levando as marmitas ao meu pai-herói. Sol à pique.

Mas, não seria diferente se fosse na chuva, e essa fosse torrencial. A marmita era a “tocha olímpica” que, transportada por quinze ou vinte quilômetros, tinha que chegar “quentinha” – a chama não podia apagar. Era uma longa caminhada, sempre a pé.

Na ida e na volta, o espaço preferido era no meio-fio, sempre me equilibrando e tomando cuidado para não derramar o caldo que dava o gosto no feijão, e era aproveitado para machucar a pimenta malagueta. Ia e voltava catando “dinheiro” de carteiras vazias de cigarros, que o vento levava ao meio-fio. Beverly, Pall Mall, Camell eram as mais valiosas. Continental, Hollywood, Globo, e até Minister sem filtro tinham valores comuns. Outras eram como políticos. Não valiam nada.

E, seguindo em frente, pensando sempre em entregar a marmita – e trazer o dinheiro para comprar e ainda preparar o jantar. A viagem era longa e, estranhamente prazerosa. Era o prazer de fazer o certo e obedecer.

A chegada a casa levava ao banho – e, depois, aos estudos. Afinal, entregar marmitas era apenas uma das muitas obrigações domésticas. E ainda hoje não criaram a “profissão” de Entregador de Marmitas.

Como os tempos eram outros, minha mãe tinha apenas uma preocupação:

– Vá rápido! A comida do teu pai não pode esfriar.

E, apesar da entrega distante, não esfriava mesmo.

Pôxa vida! A lua cresceu mesmo!

É enorme, e como o mundo ficou pequeno – quase do tamanho de uma única marmita!

* * *

PINTANDO BORBOLETAS

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Borboleta azul – da tela para o mundo

Manhã de um dia comum de mais uma semana de trabalho, com ares de domingo. Mas, domingo foi ontem ou será amanhã – mas pode ser hoje, em obediência à nossa intenção. Ou será que, uma coisa ou outra não terá grande importância?

Que diferença faz ou que importância tem um domingo?

O forte vento causava a impressão de querer nos puxar ou tanger para o outono, num redemoinho que nos faz passar, também, pelo verão. Mas, não há explicação plausível para tantas folhas ressequidas formando um tapete no onde pretendíamos trabalhar, pintando borboletas.

A beleza do lugar, que nos permite contar os iguanas passeando nos galhos retorcidos, parece nos transformar num novo Van Gogh escrevendo a Natureza com tintas e pincéis.

Pincéis à mão!

Tela preparada – e o vento, que aumenta em rodopios espalhando as folhas ressequidas, tecendo um tapete para deuses invisíveis e abrindo espaços com mãos de fada.

Um poema, com versos metricamente perfeitos e rimas que não deixavam margens para críticas.

A Natureza põe e retira o vento da forma que bem lhe convém.

Na direção que quer, tangendo e trazendo de volta o que ajuda compor aquela paisagem. O atelier.

A Natureza faz da vida um poema. E nos ensina a viver as estações do ano com suas cores vivas, e mutantes. Um arco-íris!

Cada mudança é mais um passo a caminho da perfeição.

Às mãos, tela e pincéis.

Os olhos escrevem o poema selecionando as cores do arco-íris e a tela ainda branca começa sugar a tinta, como se uma força estranha pintasse por nós. Cada traço um novo tom que vai formando uma imagem que o cérebro ainda não define.

Seria a “Natureza”?

A borboleta está no pano da tela ainda inconclusa. Falta terminar de pintar uma das asas, e o vento avisa que está voltando. Agora mais forte. Últimos retoques. Pronto. A borboleta está pintada. Quase perfeita.

O vento chega rodopiando as folhas secas, quase quebrando os galhos ainda nas árvores. Empurra para longe o cavalete com tela e tudo. Nos apressamos em desvirar a tela para garantir a secagem da tinta, e a ação nos surpreende e nos faz sentir a presença d´Ele.

A borboleta não está na tela. Voou!

12 Comentários

  1. Cicero Cavalcanti disse:

    Muito bom Zé. Muitíssimo bom.

  2. Luiz Berto disse:

    Meu caro colunista: mandei uma mensagem pra você, através do e-mail que começa com “k”, e não tive retorno.

    É importante que este Editor tenha um meio eficiente de contactar os colunistas. Que não seja como estou fazendo agora, por meio de um comentário. (Espero que você leia…)

    Algum problema com a sua caixa de mensagens?

  3. Beni Tavares disse:

    Seu Zé, voce é o CARA. Fico pensando o que seria de nós, desta Gazeta, sem os seus escritos que nos emociona e nos faz viajar.

  4. Paulo Terracota disse:

    O sr só catava as carteira de cigarros fumados por bacanas ou também catava carteiras dos arrebenta peito como, Rodeo, Saratóga, Marusca,Aspargo,Negritas ets. Viemos de longe, né não meu amigo? Um grande abraço.

  5. Orlando Silveira disse:

    Valeu, mestre Ramos. Bela crônica. Abraço.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Lando: o que valeu mesmo foi a sua presença. Finalmente você consegue se ausentar por pouco tempo da Vila Invernada, do Velho Marinheiro e de Deolinda.

  6. Leandro EAL disse:

    Caro Colunista (Enxugando Gelo), essa foi de arrebentar. Poxa vida, não era de entregar marmitas, mas já vendi picolé, coxinha, doces, capinava lote, lavava carro, e fazia um bucado de coisas pra ganhar uns trocados. Mas também era muito fã e feliz com minha coleção de maços de cigarro vazias. Essa lembrança foi incrível, nostálgica, sensacional. Estou muito agradecido pela recuperação delas, só pra lembrar Hilton e Charme eram as embalagens vazias que mais valiam lá em Unaí/MG. Forte abraço de um leitor e admirador.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Leandro: quem fica emocionado e agradecido sou eu. A “porteira” (está na cabeça do portal, acima) continuará escancarada. Chegue nesse “trem” na hora que bem entender. Vamos entornar uma pinga com uma pururuca? Saúde!

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