25 dezembro 2016O DIA SEGUINTE



Carne enlatada – parte da nossa ceia de Natal

Na minha casa, por anos e anos a cena se repetiu. Toda manhã do dia 25, a barafunda dos meninos abrindo suas embalagens de presentes de Natal. De Natal, não. De Papai Noel. Alegrias e decepções. Mas, mais alegrias. Felizmente, para a satisfação dos papais. Papais Noeis, diga-se.

Na minha casa, muito mais por falta de condições, não conhecíamos a “ceia do Natal”. Meu pai, digo, “nosso Papai Noel”, não aprendeu nunca subir no telhado e descer pela lareira. Nem lareira tínhamos.

Na verdade, durante anos, tínhamos apenas um fogareiro para cozinhar o feijão, o arroz e a “intera” – fosse o que fosse. Por anos, dávamos graças ao Senhor, por termos sardinhas em lata, kitute, carne fiambrada, pão e ovo e uma boa e salvadora farofa de toucinho.

Tudo que tenho e consumo nos dias de hoje, é lucro. É benesse divina. É fruto de trabalho honesto – e a minha felicidade está justamente aí. É o presente de Natal que, todos os anos permito a mim mesmo.

Sardinha em lata – componente da maravilhosa farofa do Natal

Voltando aos pacotes. Ao abrirmos os pacotes de presentes, uma mistura de alegria e decepção. Lembro de um Natal, que meu irmão ganhou uma caixa com três lenços e dois pentes Flamengo. Na ausência dos tabletes e celulares de hoje, meu irmão mais velho (já falecido) ganhou o seu primeiro livro, mais tarde considerado obra prima dos seguidores do comunismo (ele, não era e nunca foi): “Capitães da Areia”, de Jorge Amado.

Eu, mais uma vez, abri meu pacote com cuidado. Ganhei mais presentes que os outros irmãos. Ganhei uma serra tico-tico, um martelo e um par de sapatos Vulcabrás 752, que abria e pontuava a grande lista de necessidades para o ano letivo seguinte.

Nunca amei tanto o meu papai….. ops! Meu Papai Noel!

Feliz Natal para todos. Independentemente da família que temos, e do tempo em que vivemos.

A expectativa da abertura do presente

EM TEMPO – recomendação das mães, aos filhos, na noite do dia 24 de dezembro:

1 – Banhar e dormir cedo. Pois o papai (ops!)… pois o Papai Noel é um velhinho cansado e nunca dorme tarde da noite;

2 – Não deixe o fogo da lareira diminuir. E o que fazer aonde não tem lareira?

3 – Ponha um par de chinelos limpos debaixo da rede ou ao lado da cama.

4 – Não mije na rede, pelo menos hoje!

OBSERVAÇÃO: Tudo que descrevi acima, foi a minha realidade. Por isso, é que não aceito, que nenhum filho da puta me chame de “coxinha”, apenas porque não compactuo com a ladroagem instalada neste País.

21 Comentários

  1. Sergio disse:

    Linda história, as dificuldades nos prepararam bem.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Sergio: é assim mesmo. A vida reserva a todos nós, bons e nem tão bons momentos. Se aproveitarmos bem os bons momentos, isso já será suficiente para qualquer um de nós. Pena que nunca tenhamos aprendido a identificar os bons e os maus momentos. Feliz Natal, amigo!

  2. Marcos Pontes/DF disse:

    Zeramos, nordestinos como nós e hoje na faixa “otária” dos 70 anos sabemos bem de nossas agruras para sobrevivermos aqueles tempos difíceis, não tínhamos água encanada, esgoto, energia era precária, mas sobrava amor, irmandade e o Kitute/Sardinha fizeram parte de nossas vidas. Feliz Natal amigo, esqueça esta malta de vagabundos, órfãos da corrupção, ladravazes. Curta sua família e comemore bem, o nascimento de Cristo.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Marcos: obrigado pela leitura e pelo incentivo. Já estou calejado, amigo. Esse “povinho” que soma, por algum motivo, aos ladrões, não me comove mais. Mas, que eu fico puto da vida, isso fico. E, repito, “coxinha é a puta que os pariu”.

  3. Quincas disse:

    José de Oliveira Ramos, parabéns. A verdade não é incompatível com o amor, nem com narração de realidade, que não é de todos….

  4. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Caro Zé Ramos,

    Você acabou de escancarr a porteira de minha memória. Lá em casa, valia, tanto durante as festas de final de ano quanto em outros dias, a famosa “Carne Presuntada Wilson”, que a gente devorava como quem come filé. Lembrei-me de alguns talhos que levei a meter aquela chavezinha e rodar cortando a lata para facilitar minha mãe. Era uma carne ótima, sem osso. Maravilha.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Carlos Eduardo: Era uma festa. Se alimentava, eu não sei. Mas que matava a necessidade, isso matava. Fico lembrando a cena que fez parte da minha juventude: papel de embrulho sobre o balcão da bodega, farinha seca, cebola roxa picada, uma lata de sardinha aberta. A farofa ficava divina e não tinha quem não consumisse duas garrafas de “Colonial”. Arre égua, que coisa boa!

  5. Fiorot disse:

    Tem um cantor famoso que é do lado deles este sim é um coxinha petralha.

    1 sorvete para quem adivinhar quem é esta figura impoluta.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Fiorot: sou cearense. Por natureza e certamente também por cultura, o cearense gosta de apelidar. Cabeção, narigudo, venta de fole, rolha de poço e daí por diante. É verve cômica.E na infância e ou na juventude, nunca vimos isso com a frescura de hoje, “bullying”. Mas, aí é outro assunto. O que dói mesmo, é saber que, quem te chama de “coxinha”, rouba tanto quanto os ladrões oficiais.

  6. Glória Braga Horta disse:

    Linda e emocionante crônica, Zé! Quanto a ser chamado de “coxinha”, console-se, amigo. Aqui nesta gazeta já tem gente chamando coxinha até de “coxinha petralha”. Aí, sim, Zé, acho que você devia ficar revoltado. Kkkkkkkkkkkk

    Feliz Natal, Zé!

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Glorinha: o melhor Natal é ter você, mais uma vez, enriquecendo nosso espaço com sua presença. Não fico revoltado mesmo, porque, tenho absoluta certeza que, quem bebe água mineral Perrier ou come carne e frutas importados da Argentina ou do Uruguai, vai lutar pela transposição do Velho Chico, por que? Nunca vi quem fuma maconha ser contra a liberação dela. É o brasileiro. Quem mora nos cafundós do Judas, sequer conhece a capital do seu Estado, vai se preocupar com a limitação de Trump para entrar em Miami, por que?

  7. Claudemiro Cajueiro disse:

    Apesar das dificuldades, da privação de conforto e alimentos, observo que cronistas do JBF trazem um tom nostálgico em seus artigos quando se referem à infância.
    Passei por tudo e mais alguma coisa. Mas tenham uma certeza: fomos crianças felizes e a vida nos forjou diferentes de quem teve tudo fácil ao alcance.
    Parabéns pelo texto.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Claudemiro: nostálgico, sim! Sofrido, jamais! Quando você “cria” o seu próprio brinquedo, a tendência será, sempre, ama-lo muito mais. Quando o brinquedo vem da “loja”, ainda que venha carregado de sacrifício e trabalho, você vai achar que, “comprar é fácil” e não vai sentir a falta dele. Troca-o por outro, facilmente.

  8. CARLOS FRANCISCO DE FARIAS disse:

    Caramba seu Zé Ramos,eu também usei muito esses sapatos vulcabrás,quando ficava apertando nos pés,meu pai cortava o bico.Que sapatinho duradouro hem!e o kichute?Esse era foda.Agora comi muito sururu e caranguejo todos os dias da semana.Galinha,só quando aparecia alguma visita.Época boa!nada a reclamar!tenha um FELIZ NATAL.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Carlos Francisco: acredito que apenas as gerações de 80 pra cá tenha algo para reclamar – e eles não reclamam, pois vivem nos celulares procurando pokémon, né não? Obrigado, amigo.

  9. violante pimentel disse:

    Parabéns pelo bonito e emocionante texto, prezado escritor José de Oliveira Ramos! Essa expectativa do Natal, que você tão bem descreveu, era comum entre a maioria das famílias nordestinas. Presente de Papai Noel era coisa que todas as crianças desejavam. E as desilusões eram grandes.
    Apesar da simplicidade da alimentação e dos brinquedos, existia amor e harmonia dentro da família.
    O povo era mais feliz!!!

    Meus votos de Feliz Natal e Venturoso Ano Novo, extensivos aos seus familiares!
    Um abraço!

    Violante Pimentel Natal (RN)

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Violante: começo retribuindo os votos de Feliz Natal para você, Diana e Bernardo – todos meus amigos diletos, feitos através deste JBF. Depois, te dar a certeza (por experiência) que pobreza material é uma coisa e pobreza espiritual é outra. Infelizmente, o somatório da pobreza espiritual com a pobreza moral, tem ocupado os maiores espaços neste nosso (????) país. Recomendações aos familiares.

  10. Jesus de Ritinha de Miúdo disse:

    Em Acary, logo que chegou Kitut, Décio de Seu Gutemberg, então fiscal de rendas na cidade, andava pra cima e pra baixo com uma lata em seu bisaco.
    Conforme ia parando em algum bar ou bodega, pedia uma lapada para o tira-gosto que já estava pronto.
    Ousou vaticinar que aquele invento seria o fim das cozinhas de bares.
    Esqueceu que carne de bode torrada dá certo com todo tipo de bebida.
    Até com mijo.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Jesus: bom ter você por aqui, amigo. Ainda que seja a cada Natal. Me honra sua presença. Só quem não gosta nem come carne de bode, dizem no Piauí, é a cabra. Aliás, a cabra gosta mesmo é de ser comida. Comida dos deuses: linguiça “pedaçuda” feita de carne de cabra. “Pedaçuda” é a carne que não é moída. Cortada em pequenos pedaços, é temperada com pimenta do reino, sal a gosto, manjericão (ou agrião) e generosos pedaços de toucinho. Experimenta!

  11. Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Estimado Conterrâneo,

    Mandei-lhe um e-mail, mas ele retornou. Por isso, uso este espaço, por sugestão de Luiz Berto, pedindo-lhe autorização para reproduzir sua Coluna no Almanaque Raimundo Floriano (www.raimundofloriano.com.br), o que viria, em muito, abrilhantar suas páginas.
    Feliz Ano Novo!

    (Poderíamos manter comunicação pelo Facebook)

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