30 dezembro 2012O SAPO CURURU



Pote coberto, parte da mobília nobre da casa de pobre

Uma casa de estuque, piso de chão batido que sumia a cada dia, fruto das duas ou até três varrições diárias – conforme o anúncio de uma visita que pudesse chegar inesperadamente.

A sala que tinha como mobília um tamborete, os cambitos para os animais colocados junto à porta principal, para facilitar quando tivessem que ser usados. Uma rede tijubana sempre armada, onde qualquer um deitava e balançava, e de cujos balanços se escutava o gemido, como se fosse o sofrimento de um besouro.

Num dos cantos, sempre o mais sombrio, um pote com água, sobre um parapeito – verdadeira geladeira da casa. Na umidade do parapeito, provocada pelo botar e tirar água, a vigília do Casquinho, um sapo cururu de tamanho desproporcional aos da espécie, que ali vivia 25 horas por dia para não deixar cair dentro do pote algum inseto – besouro, barata, mosquito.

Casquinho era, no frigir dos ovos, a cria de estimação de João, o patriarca. Tinha, com provas documentais, cerca de 20 anos. Fora pego nunca se soube como, nem aonde. Além dos insetos, se alimentava com a mesma alimentação dos seres humanos da casa. De sobremesa, se lambuzava todo de rapadura. Merecia. Afinal, era o vigia do pote, garantia da pureza da água coada num pedaço de saco de morim, depois de carregada numa cabaça, trazida do açude que ficava a oito léguas de distância. Imagine, para essa casa, a importância da transposição do rio São Francisco.

Poder-se-ia afirmar que a vida de Casquinho era muito melhor que a de alguns humanos. O trabalho mais pesado era esticar um pouco mais a língua pegajosa para fisgar mosquitos e insetos que se aproximavam da boca do pote.

Casquinho, uma beleza de sapo cururu. Gordo como um bezerro

João cuidava de Casquinho como se um filho fosse. E alguns até chegavam a imaginar que fosse, devido terem sido flagrados várias vezes em demorados cochichos. Faça isso, não faça aquilo, É isso, não é aquilo. E por aí iam as conversas.

Mas, esses diálogos só aconteciam quando João confundia cana com água e abusava dela. Da cana, claro!

Eis que, numa tarde, quando ninguém esperava (até porque era um dia comum de trabalho – e porque sertanejo nunca soube o que é fim de semana ou feriado, a não ser pela missa dominical) João, depois de demorada permanência na bodega de Aristeu – o único dono de comércio da área que tinha moinho para moer sal e grãos de café. E o fazia sem cobrar a mais do freguês, embora nunca tivesse a preocupação de lavar o moinho e muitas vezes o café ficava salgado ou o sal com cor diferente – resolveu pegar a vereda para casa e aproveitava para falar com todos por onde passava.

Ora, se falava com o pé de ipê amarelo, com os galhos de marmeleiro, com as folhas da catingueira e terminava seu périplo cachaçal num longo diálogo com a porteira da cerca da casa, por que faria alguma discriminação e deixaria de falar baixinho com Casquinho?

– Cuma foi teu dia oije, bixim munitim e cherosim do papai?

– Casquinho, botando um pouco da língua gosmenta para fora, revirava os óios, como se assentisse e agradecesse o carinho ou, digamos, o bate-papo!

– Espia o presentim que papai trouve procê (e, esmagando na mão, ofereceu uma broa de goma com erva-doce para Casquinho)!

– Casquinho, como se pretendesse rir de felicidade, esticou mais um pouquinho a língua e até fez sinal com a cabeça, em agradecimento.

Eis que João levanta, satisfeito com o carinho feito ao bichinho de estimação, coloca o chapéu de palha suado num pedaço de pau de sabiá, estrategicamente posto na parede para aquela finalidade.

Pega o caneco de alumínio, muito bem ariado, de brilho incandescente com a luz da lamparina, mergulha no pote e o leva à boca. Junto, no primeiro gole, João sentiu um ainda agonizante grilo, que começara a morrer afogado na água fria do pote.

– Seu sapo cururu fela de uma puta, eu te trato como um fio querido, e tu num é capaiz de vigiar um pote, seu merda! E eu ainda te dou broa, seu miseráve! Tu vai vê o qui é bom! Espera só, fio de uma égua, imprestave!

João, descontrolado, pega um cacete de jucá e começa a dar porradas em Casquinho que, como se pretendesse se proteger das pancadas, se encolhia todo. Apanhou que sangrou! Sangrou, não. Soltava aquele leite esbranquiçado, mas sem sair do lugar, sem cochar nem soltar um único grunhido.

Como anoitecera, João expulsou Casquinho de casa, com seguidos golpes de jucá e depois, de vassoura. Dois ou três minutos depois, na porta de entrada, lá estava Casquinho, de novo. Mais uma vez João deu-lhe outra surra, agora terminando com água de sal. Casquinho sumia e depois, mais uma vez estava de volta.

Enraivecido, João pegou novamente no jucá e deu umas vinte porradas nas costas de Casquinho, jogou água de sal e o enxotou novamente. Fechou a porta, foi deitar, esquecendo a ferrenha briga contra o preguiçoso Casquinho, tudo porque o bicho não conseguiu vigiar o pote direito.

Dia claro, João, antes de beber o café com cuscuz de milho, foi selar o animal que o levaria para a distante roça. Demorou. Demorou a voltar. Demorou tanto que incomodou a mulher. Atônita, a mulher foi procurar João e o encontrou agachado, chorando copiosamente, ao lado do que as formigas ainda deixaram de Casquinho.

7 Comentários

  1. Cardeal Fred Monteiro disse:

    Zé Ramu, seu fidumamãe, você qu´[e matá o véio, disgracento ? Arriégua que históra bunita dos seiscento, homed. O véi aqui só num chorô pela morte de Casquim, mode qui já tá calejado qui só as costa so cururu. Avimaria ! Rapái, tu já butaste esas crônica tua num livro? Se butô num me negue e diga adonde quei eu encontro esse livro ducarái. Ô historinha bunita da peste, home de Deusi.. Até parece que foi Nô de Seu Paulo da Fazenda Pereiro que me contou debaixo dum juazeiro depois qua a boiada chegou. Ainda tô uvindo os abôio dos vaquêro, rapai. Eita que saudade da gota !

  2. Cardeal Fred Monteiro disse:

    Zé Ramu, seu fidumamãe, você qué matá o véio, disgracento ? Arriégua que históra bunita dos seiscento, home. O véi aqui só num chorô pela morte de Casquim, mode qui já tá calejado qui só as costa do cururu. Avimaria ! Rapái, tu já butaste essas crônica tua num livro? Se butô num me negue e diga adonde que eu encontro esse livro ducarái. Ô historinha bunita da peste, home de Deusi.. Até parece que foi Nô de Seu Paulo da Fazenda Pereiro que me contou debaixo dum juazeiro depois qui a boiada chegou. Ainda tô uvindo os abôio dos vaquêro, rapai. Eita que saudade da gota !

  3. José de Oliveira Ramos disse:

    Maestro e Cardeal Fred Monteiro: você meu véi é que é um leitor das muléstias do cachorro! Vosmicê num veve telefonando meia noite, mas você é o cara. O cara é você, veim, obrigadão!

  4. Hardy Guedes disse:

    Caro José Ramos,

    Adorei o Casquinho, embora o desfecho me tenha dado pena: do sapo, não do véio.

  5. José de Oliveira Ramos disse:

    Hardy Guedes, meu querido parceiro: obrigadão amigão por esta e pelas outras visitas e comentários durante o ano que, felizmente, está terminando. Que Deus te abençoe ao lado da família, chegando até ti com coragem para trabalhar, saúde e principalmente, consiga manter essa inteligência ímpar.
    Casquinho, coitadim, apanhou demais! Sapo cururu sempre apanha muito. Muito mais pela teimosia e, desta vez em particular, porque deixou um grilo entrar no pote. Feliz Ano Novo.

  6. Cardeal Fred Monteiro disse:

    Seu Zé Ramu.. Tu deixa eu contar essa história de Casquinho em forma de cordel ? Tá prontinho, prontinho aqui, pra eu botar no meu Blog. Qui nem a triste história do pinto zé, que eu contei no versejado por lá. E é claro que eu dou os créditos ao nobre cronista, né não ?

  7. José de Oliveira Ramos disse:

    Hômi, meu Maestro perferido, doravante vosmicê num percisa nem pedi. Tá desimpedido! Cordelise pra vê se alguém gosta e pode meter lá no seu blog. Pra mode que pedi, né não?

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