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Galinha “Borboleta” – uma das joias do quintal da Vovó

O quintal era grande – como grande também era a área onde estava fincada a moradia dos Buretamas, um pedaço de terra recebido como meeiros. O patrão, que não impunha nem dirigia as escolhas dos moradores, queria apenas a sua parte: metade de tudo que fosse criado e produzido a partir da “posse”. Era uma decisão razoavelmente justa para quem não tinha nada de si.

Valores morais dos anos 40 e/ou 50 não enxergavam maldades. Muitos confiavam em quase todos, e era verdade que, um simples cabelo dos bigodes significava uma fiança. Infelizmente, vieram os “Tempos modernos” (lembram Charles Chaplin?) e tudo pegou a bifurcação equivocada.

Consciente dos compromissos assumidos com os patrões, Vovó Raimunda costumava dizer que, “para quem tem vergonha na cara e respeita o assumido, a cabaça deve ser partida em duas bandas”. E era assim que ela fazia.

Uma cabaça, duas bandas. Nessas duas bandas de cabaça, todos os ovos das posturas das galinhas eram meticulosamente divididos. Quando uma banda da cabaça ficava cheia, os ovos eram entregues ao patrão, e a parte do meeiro recebia seu destino.

Da mesma forma, havia uma terceira vasilha: e era nela que eram separados e guardados os ovos para “deitar” e postos para procriação. “Tirados” os ovos, os pintos eram “marcados com os olhos” – e sempre que o patrão queria comer uma galinha, mandava buscar na casa da Comadre Doca. E, sempre eram enviados aquelas “marcadas com os olhos”. Questão de respeito e honradez. Era assim que se vivia na roça naquele tempo. Esperteza, no mau sentido, era algo desconhecido.

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Cuidar das galinhas era tarefas diária da Vovó

Vovó, vivida e esperta, também tinha seus parâmetros – suas leis concebidas, votadas e aprovadas por ela mesma, sem qualquer contestação do “plenário” (no caso, meu Avô, galos, patos, perus e galinhas), que tinham a obrigação de “permanecer como estavam” para a necessária aprovação.

E, uma dessas leis era: aqui, ninguém come galinha – a não ser os galos, claro. Galinha era para “reprodução”, o que ensejava o cumprimento do acordo meeiro estabelecido com o patrão.

Milho bom, quintal limpo e sempre varrido com “vassourinhas”, boas sombras e quintal de areia para ciscar, água trocada duas vezes por dia nas terrinas apropriadas, isso tudo sem contar os “confortáveis” ninhos de palhas e garranchos para postura e chôco.

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Raposa do mato que comeu “Morena”

Vovó, como vocês já sabem, tinha o saudável hábito de “conversar” com as aves e alguns animais domésticos, como um jumento preto que ela chamava de “Biné” – se era preto, entendo que não preciso dar maiores explicações, certo?

Pois, certa manhã, quando jogava milho para as penosas, sentiu pela falta de uma galinha poedeira – a quem ela chamava de “Morena”, por conta de ter sabido, anos atrás, que uma certa “Morena” mantivera uma amizade íntima com meu Avô.

Minha Avó, acreditem, teria lugar cativo como “Ministra” do Itamaraty de qualquer governante brasileiro. Era uma verdadeira “madame” – e o fato de mijar em pé, jamais pesaria contra ela.

E, foi só conversando com as outras bichinhas, que minha Avó descobriu o desaparecimento de “Morena”.

– Cadê “Morena”? Perguntava ela para as companheiras de quintal.

Como nenhuma respondeu, e todas continuavam bicando o chão para pegar o milho jogado, ela resolveu terminar o serviço, enchendo a terrina d´água. Pegou uma foice e caminhou para o mato e aproveitou para chamar seu companheiro desses momentos, o cachorro Corisco, que tinha as mesmas cores e pintas de um Dálmata, mas era um vira-lata mesmo.

Antes de passar pela porteira do quintal da casa, disse, falando de si para si:

– “Morena” tem duas asas, mais nenhuma seuve para avuar, ô diacho!

Não demorou muito e, perto dali, por detrás de uma crescida moita de mofumbo, Vovó encontrou penas de galinha. Penas pretas que, provavelmente seriam de “Morena”. Falou alto para que o mundo inteiro escutasse:

– Miserave, tu divia ter au meno aprendido a avuar! Assim essa peste de raposa num teria te comido!

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Galinha à cabidela servida no aniversário de “Biné”

No domingo seguinte, Biné, o jumento preto de estimação fazia aniversário. Vovó resolveu matar um frango (galinha, nem pensar em matar. Galinha é pra por ovos e aumentar a prole) e dele fazer cabidela.

O presente de Biné, foi um bom banho com a água guardada da chuva e colhida nas biqueiras feitas com o pau sabiá – de noite, ganhou um demorado e favorável encontro com a jumentinha Dalmira em pleno cio. Biné, relinchava e gemia sem sentir dor.

8 Comentários

  1. Marcos Pontes/DF disse:

    Bom dia Zeramos, feliz de quem tem um neto que preza tão bem a memória de sua vó. Vida loga amigo…ia esquecendo, a foto da galinha a cabidela, dá água na boca.

  2. Marcos Mairton disse:

    Vida simples, Seu Zerramos.
    Tem hora que isso faz falta.
    Uma leitura dessas no domingo de manhã é um refresco para a alma.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      MMM: há quanto tempo, amigo! Só perdoo porque tenho certeza que sua vida aí não está sendo nada fácil. É muita coisa pra fazer amigo. Eita país doido, siô! Sei que vosmicê é do lado da gente de bem e nem precisa de lanterna para clarear o caminho. Confio em você e nos “jogadores” do seu time. Vamos vencer – o placar, pouco interessa.

  3. CARLOS FRANCISCO DE FARIAS disse:

    Caramba Zé Ramos,o nome da jumentinha Dalmira é muito parecido com o da vaca peidona de Berto a Dilma.Outra coisa seu cabra,não era só a sua vó que mijava em pé não,a minha também tinha essa maninha.E tem mais,minha vó só escovava os dentes com sabonete e,fumava pra caralho.Agora fazia uma galinha ao molho pardo gostosa que eu adorava.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Carlos: nossos tempos! Minha Avó só mascava fumo de rolo e fumava cachimbo. Todo santo dia que viveu na Terra, bebia uma “talagada” de quatro dedos, dos dela, claro, para tomar banho. Duas coisas que nunca faltaram nas catrevagens dela: uma garrafa de pinga, e fumo de rolo enrolado num pedaço de jornal velho. Agora, não morra de rir, pois não vale à pena. Mas ela guardava na “camarinha” (quarto que hoje chamam de suíte) dela, um chocalho de vaca ou de boi. Dizia que era para espantar muriçoca. Ela nunca nos revelou, mas eu acho que o nosso Chico Anysio aprendeu muita coisa com ela. Ela me ensinou como “matar mosca” sem usar da violência: punha um pouco de sal, e, ao lado, um copo de cachaça da branca, e, ao lado, um palito de fósforo e logo na frente uma pedra. Eu não entendia e ela me orientou: a mosca come o sal pensando que é açúcar. Fica com sede e bebe a cachaça pensando que é água. Fica bêbada, tropeça no palito de fósforo, cai e bate com a cabeça na pedra. Ela faleceu nos anos 60, mas já sabia inventar tudo isso, antes de caçar pokémon.

  4. Fred Monteiro disse:

    Vc tá cada vez melhor ZeRamos! Tem um modo fácil e divertido de burilar suas memórias! Sou fã de vó Buretama!

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