23 novembro 2016TRUMP / TREM



Quem é mais “ameaçador” – Donald Trump ou a impunidade brasileira?

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“O brasileiro elege Lula e Dilma e diz que Donald Trump é uma ameaça” – diz o Louva-Deus para a fêmea

Tirando a tramela da porteira, e indo direto ao assunto que andou tomando conta da mídia nacional, fico me perguntando se, quem vota em Tiririca, Paulo Malluf, Lula, Dilma, Zé Dirceu, Jáder Barbalho, Delcidio Amaral e tantos outros que exercem mandatos eletivos, tem o direito de criticar quem, nos Estados Unidos da América, distante daqui a milhares de quilômetros, votou em Donald Trump.

Tem mesmo esse direito?

O mote, cujo entendimento poucos ouviram falar, é dizer num uníssono tagarelar, que “Trump é doido” e, por isso, é uma ameaça para o mundo, mas, em especial para o Brasil.

Seria esse “doido” mais ameaçador que o desvairado consumo de crack, de maconha e de cocaína?

Seria esse “doido” mais ameaçador que a preguiça reinante, que a quantidade insuportável de feriados, que os bolsas isso e bolsas aquilo?

Seria o “doido” mais ameaçador que embriagado ou falando ao celular dirigir um veículo?

Seria o “doido” mais ameaçador que idiotas fazerem estupro de crianças de 6, 7 e até 8 anos e depois serem conduzidos e cobrirem o rosto?

Seria mais ameaçador que a corrupção que grassa neste país, desafiando e tecendo uma teia de aranha nos julgamentos e perpetrando a impunidade – que está virando ideologia e cultura no país?

Expliquem, por favor, quem é a verdadeira “ameaça” para nós!

Alguém já se preocupou em verificar a faixa etária dos marginais brasileiros de hoje – normalmente estacionada em 12, 13, 15, 16 anos?

Isso, para nós, não é mais ameaçador que a eleição de Trump para presidir os EUA?

Quem serve de “massa de manobra” para quem não tem coragem de aparecer nos episódios de ocupação das escolas na época do ENEM, tem moral para impedir a entrada de quem quer estudar?

E, não vimos nesses dias ninguém dizendo que, por conta disso, o mundo está de cabeça para baixo. Será que vamos ver, quando forem publicadas as notas do ENEM?

Eita mundo cruel!

Eita Brasil sem graça!

Meninos, continuem caçando os Pokémons de vocês!

* * *

A chegada do trem – as férias escolares

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O trem aparece na curva – é a alegria da chegada

Por muitos anos a infância dos meninos dos muitos interiores brasileiros teve dificuldades para se aproximar da juventude. Parece que, naquele tempo existia um empecilho separando um estágio do outro. Provavelmente por conta disso, muitos que ainda vivem nos dias de hoje guardam mais as lembranças da infância que da juventude. O jovem está muito próximo do homem maduro – enquanto a criança parece fazer muito para continuar criança. As boas lembranças são maiores e em maior número.

Cena marcante – que não perdeu o colorido nem entrou em nenhuma tonalidade de qualquer dos 50 tons de cinza – a posse e a devoção pela “baladeira”, única arma de quem, em vez de matar pessoas, prefere caçar passarinhos e outros que tais. Muitos – como nós fizemos algum dia – fazem isso por extrema necessidade de continuar na cadeia alimentar. Não se matava por matar. Se matava para comer. Ou, para melhorar o que tinha dentro do prato.

Conhecida em outros lugares como “estilingue”, a baladeira, como qualquer “arma” precisa de “munição”. Os meninos prevenidos andam com o seu “bornal” e algumas pedras apropriadas para serem usadas na baladeira.

Cena também muito comum, quase que um ritual indígena, era a troca do cabo da baladeira, ou a troca das borrachas que, por algum motivo começavam a quebrar. Qualquer dessas peças – cabo ou borracha – era “enterrada”, como se algo vivo fosse. E havia quem, ao fazer cumprir aquele “ritual” fosse obrigado a aceitar que, quem não o fizesse seria penalizado pelos “espíritos caçadores” – e ficaria meses sem matar nenhuma caça. Era quase que uma lei.

Muito comum era a estranha forma de estrear (e testar) a “nova peça” – cabo novo ou borracha nova. O teste era feito em casa, no quintal, escondido do pai ou da mãe, ou ainda dos avós. Atirar na mosca, era atirar na cabeça de uma galinha ou de um frango – e, na sequência, atingida a ave, enquanto ela se batia entre a vida e a morte, virava-se uma das bandas da cuia feita da cabaça e, em batidas ritmadas, se conseguia a “ressurreição” da ave.

Esse era um dos poucos pontos de atrito entre os avós e os netos – naqueles tempos.

Todas as maldades e traquinagens eram esquecidas, sempre – no final do mês de junho ou no início do mês de julho. Era o início das férias escolares, e nada melhor que curtir esse período na roça, quando abunda o milho verde, o feijão verde, a canjica, a pamonha e até algumas “farinhadas” – um dos melhores eventos das amizades das famílias interioranas.

Avisados, os avós (ou pais) se deslocavam para a estação ou para algum ponto de parada de ônibus nas estradas. Cavalos selados e/ou jumentos com cambitos, caçuás e cofos para carregar a bagagem dos meninos.

Mas, a chegada mais festejada era a chegada de trem. Da estação, muitos esticavam o pescoço e se alegravam quando o trem aparecia na curva, apitando, apitando e apitando, fazendo daquele som estridente e inconfundível, uma das sinfonias de Beethoven.

Malas e abraços. Bênçãos, lágrimas de alegria – que são sempre as melhores.

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6 Comentários

  1. Claudemiro Cajueiro disse:

    Parabéns. Durante a leitura fui levado em pensamentos aos campos de minha infância (nem sempre verdes).
    “Coisa esquisita é trem
    Quando sai pra uma cidade
    Pra uns leva alegria
    Pra outros deixa saudade (Luiz Vieira – João do Vale)”

  2. José de Oliveira Ramos disse:

    Claudemiro: obrigado pela visita. Volte sempre que desejar. A tramela da porteira está quebrada.

  3. Itaerço Bezerra disse:

    É muito bom ler Zé Ramos, eu só não o faço quando ele não escreve.

    Parabéns mano veio

    Um abraço

    Itaerço
    Imperatriz-ma

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Itaerço: melhor que ler o que escrevo, é ter você como leitor. Uma honra das grandes. Obrigado, amigo. Forte abraço desde esta Ilha Magnética.

  4. violante pimentel disse:

    Parabéns pelo excelente texto, prezado escritor José de Oliveira Ramos! Antes de tudo, acho simplesmente ridícula a preocupação de certos brasileiros em relação ao Presidente eleito dos Estados Unidos. Deviam se preocupar com a situação política do Brasil, onde os podres poderes continuam cinicamente mandando e desmandando.
    Quanto à infância e juventude de antigamente, nada se compara com o que acontece nos dias de hoje! Havia interação e respeito entre avós, pais e filhos.
    Um grande abraço.

    Violante Pimentel Natal (RN)

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Violante: senti sua ausência, mas compreendo. Você tem razão nos dois enfoques. Brasileiro é mesmo chegado a uma “nigrinhagem” e a se preocupar com a vida dos outros, sem cuidar da sua (dele).

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