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Minha avó dando uma das boas cachimbadas

Personagem constante nas minhas mal traçadas crônicas, minha falecida Avó (Raimunda Buretama) me reconduz mais uma vez ao passado, que não está tão distante assim. Tá bem ali, tanto quanto o tempo do bicho-de-pé e do intragável óleo de rícino como purgante para expulsar as lombrigas.

Com estrutura física de quase 2m de altura, mas parecendo uma vara de virar tripa de boi, verve cearense – tinha o hábito de fazer graça até em velórios de amigos e parentes.

Lembro que, certa vez, com o cadáver de um parente colocado temporariamente sobre a mesa, enquanto chegava o caixão encomendado na cidade, um vizinho daqueles que ela não suportava muito, ao ver o corpo estirado sobre a mesa, perguntou:

– Morreu, cumade?

A pergunta não foi para ela, mas, atrevida e com cabelos nas ventas, e diante de uma pergunta desse tipo, respondeu:

– Não! Não morreu! É que bebeu cachaça demais e tá drumindo, visse!

Vovó foi uma das primeiras professoras do “Seu Lunga”, no que tange a respostas para perguntas que não devem ser feitas.

Sim! É verdade! Minha avó foi “professora” de alguns sem nunca ter aprendido um “a”, nem um “b”, tampouco um “c”.

Quer dizer que, gente assim não pode ser “professora”?

E como é que um idiota que anda se cagando de medo de ir morar na Papuda, da noite para o dia virou “Doutor Honoris Causa”?

É esse mesmo, analfabeto que fala mais merda pela boca do que caga pelo fiofó. Quer dizer que ele pode ser “Doutor”, mas minha também analfabeta avó não pode ser “professora”?

Era quando estava dando suas “desestressantes” cachimbadas, sentada num tamborete com fundo de couro de bode, que Vovó costumava contar momentos da sua vida na juventude, antes de conhecer meu Avô João Buretama.

Contava ela que, certo dia, na “boquinha da noite” quando caminhava na volta para casa, com a enxada no ombro e espantando as mutucas e as muriçocas das pernas com um ramo de marmeleiro, que teve a atenção desviada por um desconhecido – e logo percebeu que o dito cujo não morava naquelas paragens e apresentava cansaço e ares de quem estava mais perdido que cachorro em caminhão de mudança de pobre.

– Naite! Falou o desconhecido.

– Vovó ergueu os olhos para o moço (na verdade, “baixou os olhos” – pois ela com seus quase 2m de altura teve que olhar para alguém com pouco mais de 1,60m):

– Moço, fale direito prumode eu lhe entender!

– N-a-i-t-e! Repetiu o moço.

– Arre égua! Cuma vou ajudar esse coitado, se ele é môco e não escuta o que eu falo?!

Depois de alguns minutos de “conversa”, sem que um entendesse o outro, finalmente, através de mímica Vovó pode entender e atender o cidadão que viera da capital numa condução errada e estava ali, perdido.

– Cuma é o seu nome, moço? Perguntou Raimunda Buretama.

– Albert Einstein! Respondeu.

– Vixe Maria! Foi seu pai quem butou esse nome nim você, moço? Credo! Cuma é mermo?

– Albert! Respondeu Einstein.

Pois, aperreada como ninguém, minha Avó acabou levando o “moço” até o povoado mais próximo e, soube-se depois, dali ele seguiu viagem de retorno.

Minha Avó “ensinou” o caminho da volta. E, quem “ensina” é professor, né não?

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Albert Einstein – aprendeu o caminho da volta com a Vovó

“Albert Einstein nasceu em Ulm, na Alemanha, a 14 de março de 1879, e faleceu em Princeton, cidade do estado de Nova Jérsei, nos EUA, a 18 de abril de 1955. Foi um físico teórico alemão. Entre seus principais trabalhos desenvolveu a teoria da relatividade geral, ao lado da mecânica quântica um dos dois pilares da física moderna. Embora mais conhecido por sua fórmula de equivalência massa-energia, E=mc² – que foi chamada de “a equação mais famosa do mundo” -, foi laureado com o Prêmio Nobel de Física de 1921 “por suas contribuições à física teórica” e, especialmente, por sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico, que foi fundamental no estabelecimento da teoria quântica. Nascido em uma família de judeus alemães, mudou-se para a Suíça ainda jovem e iniciou seus estudos na Escola Politécnica de Zurique. Após dois anos procurando emprego, obteve um cargo no escritório de patentes suíço enquanto ingressava no curso de doutorado da Universidade de Zurique. Em 1905 publicou uma série de artigos acadêmicos revolucionários. Uma de suas obras era o desenvolvimento da teoria da relatividade especial. Percebeu, no entanto, que o princípio da relatividade também poderia ser estendido para campos gravitacionais, e com a sua posterior teoria da gravitação, de 1916, publicou um artigo sobre a teoria da relatividade geral. Enquanto acumulava cargos em universidades e instituições, continuou a lidar com problemas da mecânica estatística e teoria quântica, o que levou às suas explicações sobre a teoria das partículas e o movimento browniano. Também investigou as propriedades térmicas da luz, o que lançou as bases da teoria dos fótons. Em 1917, aplicou a teoria da relatividade geral para modelar a estrutura do universo como um todo. Suas obras renderam-lhe o status de celebridade mundial enquanto tornava-se uma nova figura na história da humanidade, recebendo prêmios internacionais e sendo convidado de chefes de estado e autoridades.” (Transcrito do Wikipédia)

Era uma tarde de domingo, daqueles ensolarados em que a noite tem dificuldades de chegar. O sol ainda reluta com a lua pelo “reino” terreno.

Vovô deitado na rede armada na latada da casa, entretido em coçar as frieiras na beirada da rede, pouca atenção dava para Vovó, que já estava acostumada mesmo a contar causos para os atenciosos (e obedientes) netos.

… E eu me alembro que tivera dificuldade prumode drumir. Tava cansada por demais e o danado do sono num chegava. Cheguei até a pensar em tomar um píula, prumode ver se agarrava no sono. Qual nada!

Sem nunca ter arredado pé das Queimadas, sequer para voltar a Pacajus, Vovó sonhou que estava passeando em Londres e ali conhecera um jovem de nome Charles.

Ela mesma se apressou em desmentir que pudesse se tratar de Charles, o Príncipe herdeiro dos ingleses.

– Era um moço bonito, que me disse que era artista. Artista de cinema. Afirmou Raimunda Buretama.

Mas, Vovó, como cinema, se naquele tempo não existia isso?

– Inzistia, sim senhor! O que os hômi num fazia, era falar!

É estava certa. Era a época do cinema mudo, que teve em Charles Chaplin um dos precursores.

– E vó, o que a senhora ensinou pra ele, para o Charles?

– Ensinei ele a rodar uma bengala!

Tá certa. Quem ensina é professora.

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Charles Chaplin – aprendeu rodar a bengala com a Vovó

“Charles Spencer Chaplin, KBE, mais conhecido como Charlie Chaplin nasceu em Londres, a 16 de abril de 1889 e faleceu em Corsier-sur-Vevey, na Suíssa, a 25 de dezembro de 1977. Foi um ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. Chaplin foi um dos atores da era do cinema mudo, notabilizado pelo uso de mímica e da comédia pastelão. É bastante conhecido pelos seus filmes O Imigrante, O Garoto, Em Busca do Ouro (este considerado por ele seu melhor filme), O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Ribalta, Um Rei em Nova Iorque e A Condessa de Hong Kong.

Influenciado pelo trabalho dos antecessores – o comediante francês Max Linder, Georges Méliès, D. W. Griffith Luís e Auguste Lumière – e compartilhando o trabalho com Douglas Fairbanks e Mary Pickford, foi influenciado pela mímica, pantomima e o gênero pastelão e influenciou uma enorme equipe de comediantes e cineastas como Federico Fellini, Os Três Patetas, Peter Sellers, Milton Berle, Marcel Marceau, Jacques Tati, Rowan Atkinson, Johnny Depp, Michael Jackson, Sacha Baron Cohen, Harold Lloyd, Buster Keaton e outros diretores e comediantes. É considerado por alguns críticos o maior artista cinematográfico de todos os tempos, e um dos “pais do cinema”, junto com os Irmãos Lumière, Georges Méliès e D.W. Griffith.

Charlie Chaplin atuou, dirigiu, escreveu, produziu e financiou seus próprios filmes, sendo fortemente influenciado por um antecessor, o comediante francês Max Linder, a quem dedicou um de seus filmes. Sua carreira no ramo do entretenimento durou mais de 75 anos, desde suas primeiras atuações quando ainda era criança nos teatros do Reino Unido durante a Era Vitoriana quase até sua morte aos 88 anos de idade. Sua vida pública e privada abrangia adulação e controvérsia. Juntamente com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith, Chaplin fundou a humorista britânico em 1919.” (Transcrito do Wikipédia)

10 Comentários

  1. José Salvador Pedroza disse:

    Oliveira Ramos, óleo de rícino, excelente para lombrigas, era simplesmente extraido da mamona, que era também conhecido como óleo de carrapateira. Pelo seu gosto desagradável, para ser tomado, o pai e mãe juntos, com uma colher cheia, uma chinela ameaçadora e as palavras , engole, engole. Isso, em jejum e o resto do dia trancado dentro do quarto para não vê fôlha verde, como também o indispensável pinico ao lado da cama. Dias depois, começava o tratamento com Biotônico Fontoura ou emulsão de Scott. Daí, só nas próximas férias.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      José Salvador: nessa arrumação do quarto para o “resguardo” do purgante, você esqueceu o sabugo de milho – a papel higiênico ainda não estava tão difundido e tinha pouco uso. Quando o chá era de “cene”, nunca vi tanto fedor. Cruz credo!

  2. Fred Monteiro disse:

    Muito boa essa, Zé Ramo! Dona Raimunda Buretama foi a Forrest Gump do Piauí.. Só falta agora contar cuma foi que ela trevessou o país correndo cum uma pragata de rabicho nos pés, visse ?

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Fred: Vovó sequer saiu da estradinha dela, onde caminhava para pegar “!um caminho d´água” no açude. Esse tá de Einstein foi quem, assim como que saído da lâmpada, num estalo, apareceu por lá. E ela “ensinou” a ele o caminho da volta. Já com o Chaplin, ela ensinou a rodar a bengala. Mas, até onde me lembro, a bengala que tínhamos em casa era de “jucá”. Mas, como dizia ela, quem sonha, sonha com o que quer. Arre égua!

  3. Aristeu Bezerra disse:

    Dona Raimunda Buretama tinha a sabedoria que se aprende com a vida. Ela não precisou de escola, pois trouxe de existências anteriores conhecimentos necessários a viver e distribuíu com generosidade a alegria de quem está de bem com a vida. Sua avó tanto fazia subir como descer, pois tudo para ela era plano. E você herdou essa plenitude…

    Atenciosamente,

    Aristeu

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Aristeu: você é o máximo em generosidade. Vovó ensinou muita coisa para o seu Lunga; para o Saraiva; e nem duvido que tenha sido professora também do Patativa de Assaré. Obrigado amigo.

  4. juan netti disse:

    Charlie Chaplin atuou, dirigiu, escreveu, produziu e financiou seus próprios filmes. Pois é, aqui nesta bosta de país us intelequitual e artista só querem saber da tar lei ruaneti….

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Juan: seria você um calo que provoca alegria? Pois bem. Fiquei alegre com seu comentário e sua sapiência. Engraçado que já li muita coisa sobre Chaplin e sei até que é o pai de Geraldine. Entretanto, não lembro de ter lido em algum lugar o nome da mulher dele. Isso, só de lembrança!

  5. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    Meu caro Zé Ramos.
    As estórias e causos de sua saudosa avó me lembraram os causos do Pantaleão. Parabéns pelo hilário e gostoso texto. A minha avó paterna, D. Anunciada, mulher branca de olhos azuis e estatura que chegava a 1,80 metros, também tinha um espírito observador e criativo. Abração deste leitor assíduo do JBF.

    • José de Oliveira Ramos disse:

      Mardonio: obrigado amigo. “Anunciada” era o nome de uma prima minha. Engraçado como Raimunda, Joana, Anunciada, Maria do Socorro, Quitéria, Faustina foram – foi quando aprovamos a submissão aos EUA – substituídos por Kate, Shirley, Mirley, Karina, Charlotte e por aí vai….

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