Brasão de Maurícia, criado por Frans Pos (1645)

 Brasão da Cidade Maurícia, criado por Frans Post (1645)

A paisagem pernambucana teve o seu destaque, além das narrativas de cronistas e viajantes que por aqui transitaram, através da rica iconografia que nos dá a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento desta área em toda sua plenitude do século XVI aos nossos dias.

Coube aos artistas da comitiva do conde João Maurício de Nassau retratar, com a mais impressionante riqueza de detalhes, os elementos de nossa paisagem deixando uma iconografia ímpar ainda hoje objeto de contínuos estudos por parte dos mais diversos especialistas. Documentários pictóricos assinados por Frans Post, Albert Eckhout, Zacarias Wagener, Georg Marcgrav, dentre outros, são, ainda em nossos dias, objeto de deleite e de pesquisas para os que se propõem ao estudo dos elementos básicos de nossa paisagem natural, arquitetônica e humana.

Se o século XVII é rico de informações iconográficas, o mesmo não se pode dizer do século XVIII do qual são raros e pouco conhecidos os mapas e vistas relativos ao Recife, existentes em arquivos portugueses e brasileiros. Deste período é a planta do bairro do Recife, levantada pelos engenheiros João de Macedo Corte Real e Diogo da Silveira Veloso (1733); a “Planta Geográfica da Villa de Santo Antônio do Recife em Pernambuco” (1749); a “Demonstração Geográfica” de parte do bairro do Recife (1760); o “Prospecto da Villa do Recife” levantado pelo padre José Caetano em 1759 retratando parte do núcleo populacional; “Configuração da Vila de Santo Antônio do Recife” pelo cartógrafo José Gonçalves da Fonseca (1763); “Plano da Vila do Recife de Pernambuco”, datado de 8 de junho de 1776; “Plano da Vila de Santo Antônio do Recife”, (c 1780); “Plano do Porto de Pernambuco” (1799); curioso mapa do Recife sem denominação, autor e datas, feito em colagens presumivelmente nos fins do século XVIII .(¹)

LAET Vista Recife e Olinda

Laet: vista de Recife e Olinda

Como iconografia do século XVIII, representando as Vilas do Recife, Goiana, Igarassu e Olinda, além das contidas nos mapas de 1759 e 1763, ressalte-se, ainda, o painel votivo existente na Pinacoteca do Convento de Santo Antônio de Igarassu, mandado confeccionar por Manuel Ferreira de Carvalho em 1729, em comemoração à intercessão dos Santos Cosme e Damião que defenderam Igarassu por ocasião da epidemia de 1685.

Ao contrário do século XVIII, o século XIX é detentor de uma rica iconografia do Recife e arredores. Talvez seja esta a parte do Brasil mais retratada pelos artistas, que aqui estiveram, a exemplo de Alberto Gabriel Frederico Secretan (1793–1852), um suíço de Lausanne que aportou no Brasil em 1827, demorando-se no Recife e em Salvador, chegando ao Rio de Janeiro em 5 de janeiro de 1836 onde faleceu em 1852. É dele a autoria da primeira litografia executada no Recife, datada de 1827 sob o título “Vista do Farol e do interior do Porto de Pernambuco tomada do Poço”.

A litografia, inventada pelo bávaro Senefelder na Alemanha, em c 1796, chegou à França em 1806–8, trazida por Charles Philibert de Lasteyric e logo depois por Engelmann. Tem a sua primeira oficina em Pernambuco, segundo Pereira da Costa, a partir de 1834 com o litógrafo e desenhista André Alves da Fonseca, segundo anúncio do Diario de Pernambuco de 25 de abril desse ano.

Mapa descritivo da tomada do Recife e Olinda, pela armadaholandesa (1630)

Mapa descritivo da tomada do Recife e Olinda, pela armada holandesa (1630)

Na primeira edição de Travels in Brazil (Londres 1816), Henry Koster publica várias paisagens do Recife, do interior e um Plano do Porto de Pernambuco (160/233 mm), gravado por Sidney Hall, que foi por nós republicado na edição recifense de Viagens ao Nordeste do Brasil, Henry Koster, descrevendo a vila de então. (²)
 
Outros viajantes preocuparam-se em retratar as belezas do Recife e interior, a exemplo de Spix e Martius (1817), James Henderson (1816), L. F. de Tollenare (1817), Maria Graham (1821), que documentou a ilha dos Cocos e o Arco do Bom Jesus; do marinhista inglês Emeric Essex Vidal (1791–1861), que documentou em aquarelas a entrada do porto (1827), além de outros anônimos.

Vista do istimo entre Recife e Olinda

Vista do istmo entre Recife e Olinda

Um dos panoramas mais impressionantes que bem demonstra o desenvolvimento do Recife, de 1770 a 1832, é de autoria de R. Schmidt. O desenho foi executado entre 1826–1832, segundo demonstra Gilberto Ferrez, tomado do mirante da casa dos comerciantes ingleses Crabtree Heyworth & Cia., à Rua do Amorim (bairro do Recife) na dimensão de 170 por 1. 020 mm Editado por João Steinmann, um suíço chegado ao Rio de Janeiro em 1825, e gravado pelo aquatintista Frederico Salathé, na Basiléia (Suíça), representa um panorama circular da já então cidade do Recife da maior importância para o estudo do seu desenvolvimento urbano. (³)

A partir do ano de 1840 surgem no Recife três aquarelas focalizando trecho de Olinda, dos arredores e uma vista do porto, reproduzidas por Gilberto Ferrez (op. cit.), cujos autores não foi possível uma identificação. Também é desse período uma aquarela do panorama da cidade, a partir do Cais de Santa Rita, atribuída a Emílio Bauch (1845), 510 x 1.295 mm, e duas outras vistas de W. Bassler, também coloridas, anunciadas pelo Diario de Pernambuco de dezessete de julho de 1848, tomadas da ladeira da Misericórdia (Olinda) e do forte do Brum (Recife), respectivamente nas dimensões de 404 x 542 mm e 414 x 542 mm. As duas últimas foram litografadas na oficina de J. Braunsdorf, de Dresden, e figuram no Catálogo da Exposição de História do Brasil da Biblioteca Nacional de 1881–1882. (51) 

A partir da década de 1840 aparecem no Recife os primeiros álbuns de vistas do núcleo populacional e seus arredores. Um deles é anunciado pelo Diario de Pernambuco, em 25 de novembro de 1848, referente ao álbum VI Ansichten von Pernambuco und seiner Umgebung. (Série de seis vistas de Pernambuco e de seus arredores), litografado por W. Bassler, da oficina de J. Braunsdorf, de Dresden  Nele estão contidos os panoramas da Entrada da Barra (folha de rosto), Olinda, Ponte da Boa Vista, Caxangá, Ponte do Recife e Arco do Bom Jesus – este último a porta Norte do Recife, então localizada no final da Rua do Bom Jesus, foi demolido em 1850 pelos chamados imperativos urbanísticos.

Ainda na primeira metade do século XIX o Recife foi retratado, por ordem cronológica, por Antônio Bernardino Pereira Lago (1809), Henry Koster (1816), H. Lalaisse e Vernier Arnout (1812), James Henderson (1819), Hippolyte Taunay (1820), Miranda de Brito (1821), Augustus Earle (1821), Charles Landseer (1825), Johan Moritz Rugendas, (1825), Jean Batiste Debret (c 1825), Pedro Cronenberger (1r27), François René Moreaux (1842), Afonso Garnier (1842), Conrad Jacob Niemeyer e Pedro Alcântara Bellegarde (c 1846), H. Lewis (1848), além dos anônimos, todos relacionados no catálogo da Exposição Comemorativa – Iconografia do Recife século XIX, organizado por Gilberto Ferrez (1954).52

 Um dos mais bonitos álbuns de vistas do Recife tem o traço de Emílio Bauch (Hamburgo 1828 – fim do século XIX) e reúne doze cromolitografias (293 x 544 mm) editadas por F. Kaus, provavelmente na Alemanha, em cerca de 1852. No álbum são retratados em singular colorido a Entrada do Porto, a Rua da Cruz (hoje Bom Jesus), Alfândega, Rua do Crespo (hoje 1º de Março), Largo do Teatro e Palácio do Governo, Ponte da Boa Vista, Largo da Matriz da Boa Vista, Cais da Ponte D’Uchoa, Ponte do Manguinho, Ponte Pênsil de Caxangá e Olinda. O conjunto foi recentemente reeditado por Cândido Guinle de Paula Machado (Rio 1985).(53)

Outro panorama de grande beleza do Recife tem o traço de Frederick Hagedorn (1814–1899), obtido da torre da igreja do Espírito Santo em 1855. Trata-se de um dos mais belos e detalhados panoramas circulares do Recife, dividido em três estampas (350 x 827 mm) da maior importância para o estudo do desenvolvimento urbano da cidade. Tal panorama pode ser apreciado no Museu do Estado, Museu do Instituto Arqueológico; além de um por nós adquirido em excelentes condições à Livraria Kosmos do Rio de Janeiro, em 1982, para o Museu da Cidade do Recife (Forte das Cinco Pontas).(54)

Interessantes vistas do Recife foram divulgadas quando da visita do Imperador Pedro II, em 22 de novembro de 1859, pelo O Monitor das Famílias, por nós reeditado em fevereiro de 1985 Os desenhos são de autoria de Alphonse Besson, um francês que já se encontrava em Pernambuco em agosto de 1859, sendo litografados por F. H. Carls, um alemão que se radicou em Pernambuco a partir de 21 de novembro de 1859. (55)

O Monitor das Famílias teve curta duração, tendo Alphonse Besson falecido no Recife em 25 de fevereiro de 1861, ficando apenas Franz Heinrich Carls que atuou como litógrafo no Recife até o início do século atual, quando veio a falecer em 15 de setembro de 1909 aos oitenta e dois anos.

Uma das mais expressivas coletâneas de vistas do Recife e de seus arredores, incluindo algumas cidades do interior do Estado, é de autoria do artista suíço Luís Schlappriz, chegado ao Recife em 30 de março de 1858. A série de trinta e três litografias foi publicada entre os anos de 1863 e 1865, de forma esparsa, conforme se depreende do noticiário Diario de Pernambuco de 6 de outubro e 20 de novembro de 1863 e nove de fevereiro de 1864. O conjunto impresso pela oficina de Francisco Henrique Carls foi novamente reunido por Gilberto Ferrez e reeditado por nós dentro da Coleção Recife em novembro de 1981.(56)

O mais importante conjunto de litografias sobre o Recife e arredores, no final do século XIX, tem a edição de Henrique Carls a partir de 1878. Trata-se do Álbum de Pernambuco e seus arrabaldes,(57) litografado por Luís Adam Cornell Krauss com base nas fotografias de João Ferreira Vilela, Alfredo Ducasble e outros. A coleção, segundo levantamento de Gilberto Ferrez, totaliza 58 cromolitografias algumas das quais assinadas por L. K. e L. Krauss. Luís Adam Cornell Krauss nasceu em 18 de janeiro de 1850, em Ziegelhausen, perto de Heidelberg (Alemanha), e faleceu no Recife em 8 de outubro de 1877.(58)

Diversos artistas, segundo levantamento de Gilberto Ferrez, preocuparam-se em documentar a paisagem do Recife e, por vezes, do interior de Pernambuco, na segunda metade do século XIX, alguns anônimos e outros conhecidos como William Hadfield (1853), o engenheiro José Mamede Alves Ferreira (1855), Ladislau José de Souza Melo Neto (1860), C. B. Lane e Charles Neate (1862), Antônio José Alves dos Santos Souza (1863), Manuel Ricardo Couto (1864), Leon Chapelain (1862), Manuel de Barros Barreto (1865), Bartolomeu Catão Mazza (c 1865), Marc Ferrez (1877), Jerônimo Teles Júnior (trabalhos realizados entre 1886 e 1910), Emídia Lemos (1896 E. Lassailly (1897–1898), além do notável mapa de Victor Fournié e Émile Beringer (1881).

O daguerreótipo, invento do francês Louis Daguerre (1787–1857), anunciado em Paris em 1839, aparece no Recife em doze de junho do ano seguinte. Nesta data o ourives francês, A. Piloux, então residente no Aterro da Boa Vista (depois da Rua da Imperatriz), anunciou no Diario de Pernambuco a venda de um daguerreótipo:… “por via desta máquina qualquer pessoa, ainda mesmo não conhecendo o desenho, pode tirar qualquer vista com muita facilidade”. Conclui José Antônio Gonsalves de Mello  que esta máquina, antecessora da fotografia, fora adquirida pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, então residente no Recife, que, em 14 de outubro de 1840, escreveu no seu Diario: “Depois do jantar, à tarde, dei um segundo passeio com Mr. Bolitreau. Fomos para os lados de Olinda. Linda vista para um daguerreótipo, quando eu tiver tempo”.

A fotografia no Recife contou com inúmeros apreciadores, sendo uma cidade, ainda em nossos dias, de grandes profissionais nesta arte. O primeiro fotógrafo profissional estabelecido no Recife foi José Evans, norte-americano chegado em 13 de fevereiro de 1843, que veio a se estabelecer na Rua Nova, nº 14, seguindo-se de J. F. Waltz (1849), Carlos de Forest Fredericks (1847), A. Lettart e Joaquim Insley Pacheco (1854), Augusto Stahl (1853–1861) responsável pela cobertura fotográfica da visita do Imperador Pedro II a Pernambuco, em 1859, João Ferreira Vilela (1855) – pernambucano cujos trabalhos obtiveram grande destaque na segunda metade do século -, Alberto Henschel (1862) – que tinha como sócio o também fotógrafo Carlos Gutzlaff -, Leon Chapelain (1862), Maurício Lamberg (1880), Alfredo Ducasble (1873), Marc Ferrez (c 1877), Constantino Barza (1875), Francisco Labadie (1876), Manuel Inocêncio Mena da Costa (1878), dentre outros que gravaram para a posteridade a paisagem pernambucana. Alfredo Ducasble, cujos panoramas da cidade tomados da torre leste da igreja do Divino Espírito Santo foram publicados no livro Le Brésil, de autoria do Barão do Rio Branco e Émile Lavasseur (Paris 1889), juntamente com as obtidas pelas objetivas de Lindermann e Luschnath.59

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1) COSTA, F. A. Pereira da. Anais pernambucanos, 2. ed. Recife: FUNDARPE, 1983-85, v. 6 e (Coleção Pernambucana, 2ª fase; v. 7, 8).

2) KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Op. cit.
 
3) FERREZ, Gilberto. Raras e preciosas vistas e panoramas do Recife 1755–1855. Recife: FUNDARPE, 1984. (Coleção Pernambucana, 2ª fase; v. 12).

51) As duas últimas foram litografadas na oficina de J. Braunsdorf, de Dresden, e figuram no Catálogo da Exposição de História do Brasil da Biblioteca Nacional de 1881–1882.

53) O RECIFE de Emil Bauch. Rio de Janeiro: Cândido Guinle de Paula Machado, 1985.

54) Dos panoramas existentes em Pernambuco, este exemplar é um dos poucos a reunir as três vistas montadas em uma só lâmina.

55) O MONITOR das famílias. Organização e prefácio de  Leonardo  Dantas Silva.  Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais, 1985. 76 p. il. (Coleção pernambucana; 2ª fase, v. 15). Edição comemorativa à visita do Imperador Dom Pedro II a Pernambuco, 1859. Fac-símile da “série extraordinária” de 1859-1860. Primeira publicação ilustrada reunindo 11 gravuras litografadas.

56) FERREZ, Gilberto. O Álbum de Luís Schlappriz: Memória de Pernambuco – Álbum para os amigos das artes 1863. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 981. (Coleção Recife; v. 17) Fac-símile da edição de 1863 impresso pela Lith. F. H. Carls, Pernambuco.

57) ÁLBUM de Pernambuco e seus arrabaldes. Recife: Lith. F. H. Carls, 1878.

58) MELLO, José Antônio Gonsalves de. Ingleses em Pernambuco. Recife: IAHGP, 1972.

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