6 dezembro 2017O NOVO E VELHO SÃO LUIZ



Domingo último, dia 4 de dezembro, voltei ao Cine São Luiz (sic) da minha juventude para assistir o lançamento do filme documentário 1817 – A Revolução Esquecida, da cineasta Tisuka Yamasaki, patrocinado pelo Ministério da Educação, que tem a frente o pernambucano José Mendonça Filho.

Confesso que, apesar da importância de uma produção inusitada, que tem por objetivo a divulgação junto às escolas de todo país a importância de Pernambuco na proclamação da República de 1817, me veio momentos de recordação de um tempo em que o Cinema de Luiz Severiano Ribeiro era a sala de visitas da cidade do Recife.

Recordo de suas palavras no folheto inaugural daquela casa de espetáculos:

A inauguração de um novo cinema é sempre motivo de grande contentamento, a inauguração do São Luiz, de uma forma particular, enche-nos de e bem compreensível orgulho, é que ao entregar grande púbico pernambucano um dos mais luxuosos e bem aparelhados cinemas do Brasil, colocamos a cidade do Recife no âmbito cinematográfico, numa posição de igualdade, se não de superioridade, em relação aos grandes centros do território nacional.” – Luiz Severiano Ribeiro

Com essas palavras o empresário Luiz Severiano Ribeiro iniciava o texto do convite para a inauguração do Cine São Luiz do Recife, em acontecimento ocorrido em 6 de setembro de 1952, que, por mais de meio século, esteve entre os mais belos e luxuosos cinemas do Brasil.

Nos dias de hoje, o tradicional cinema da Rua da Aurora, bem no centro do Recife, voltara a sua finalidade primitiva graças ao interesse do Governo do Estado, que pretende desapropriou o imóvel e seus pertencentes, e nele instalou uma espécie de Cinemateca, sob a administração da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE.

O Cine São Luiz (sic.) foi construído no início da segunda metade do século XX utilizando-se a criatividade de profissionais pernambucanos – Américo Rodrigues Campello, Maurício Coutinho, Oscar Dubeux Neto, Lula Cardozo Ayres e Pedro Correia de Araújo -, responsáveis que foram pela construção, acústica, instalações, ambientação e decoração da nossa mais importante sala de espetáculo.

Segundo depoimento do seu proprietário, na noite de sua inauguração, “tudo no São Luiz foi cuidadosamente estudado antes de se proceder a sua realização, de forma a obter a máxima perfeição aliada ao máximo conforto…”.

A partir de então, passa ele a dissertar sobre as modernas técnicas utilizadas no sistema de projetores – iguais aos que se encontram instalados no Rádio do City Music Hall de Nova York –; sonorização; climatização – uma temperatura ideal calculada cientificamente em relação à temperatura externa e equilibra o seu grau de umidade no ponto considerado ótimo para a saúde e bem-estar dos expectadores –; poltronas – optamos pela colocação de assentos de espuma de borracha, iguais aos que se encontram instalados em todos os aviões -; a localização dos assentos e a inclinação da plateia obedecia “a determinados cálculos modernos”, de modo a oferecer uma visibilidade perfeita da tela a qualquer um dos seus 1.290 expectadores.

Continuando a sua apresentação, Luiz Severiano Ribeiro chama atenção para o significado da monumental decoração: “Dentre todos os projetos apresentados, escolhemos aquele que tirava diretamente do cinema – São Luiz – o seu motivo decorativo. Mas, se São Luiz (sic) foi um grande Santo, foi também um grande Rei. Por isso, a decoração da plateia representa o interior de uma grande tenda real: vastas tapeçarias suspensas. Bordadas com os três lírios de França, sobre os quais repousam dezesseis escudos de guerra, em lembrança das Cruzadas, o teto é como um imenso véu de rede, que grossas cordas amarram”.

E continua, Severiano Ribeiro: “Na frente do palco, os variados ornatos simbolizam as grandes virtudes de um Rei, que desceu do trono para subir a um altar: a Palma (o prêmio da eterna bem-aventurança), a Concha (o brasão do peregrino), os dois besantes (os arautos do valor), a Flor de Lis (orgulho da Casa de França) e os dois ramos policromados (o perfume de todas as virtudes), em cujo colorido nossos olhos descansam”.

Durante toda segunda metade do século XX e início do século XXI, o Cine São Luiz se constituiu numa espécie de templo da sétima arte.

Gerações de cinéfilos, ou mesmo de expectadores sedentos de emoção, compareciam ao cinema da Rua da Aurora, sempre movimentada nas tardes românticas dos domingos da Sorveteria Gemba, do Quem-me-quer e das regatas do Capibaribe.

Aquele cinema com suas colunas de granito, dois grandes painéis de Lula Cardozo Ayres, detalhes em metal amarelo em todos os corrimões e minudências outras., recebeu nos seus primeiros anos uma sociedade na qual as mulheres faziam questão de exibir o que havia mais recente no mundo da moda e das joias; enquanto os homens só lá compareciam vestindo trajes formais, com destaque para as gravatas.

O mesmo cinema que, em 1998, recebia 30 mil pessoas por semana, quando do lançamento do filme Titanic, superando a frequência das melhores salas de projeção de todo o país.

Este mesmo cinema, antes o “Templo da Sétima Arte no Recife”, porém, permanecia fechado, sem qualquer utilidade, ameaçado no seu futuro em ser transformado numa filial de lojas de magazine (como já acontece com o Cine Moderno), ou em templo religioso, mesmo até a hipótese de ser riscado da paisagem recifense.

Hoje, porém, depois de ter tombado pelo Governo do Estado, o São Luiz parece ter renascido das cinzas, voltando a sobreviver como um centro de atividades cinematográficas, fazendo reviver as projeções de nossa adolescência.

2 Comentários

  1. Philippe Gusmão disse:

    Bela crônica, Leonardo. Belas memórias também !

    Também fui frequentador assíduo do Cinema São Luiz.

    Abraços.

  2. Edison Xavier de Brito disse:

    Eu fui vizinho de uma senhora que trabalhou na estreia e o filme foi Falcão dos Mares com Gregory Peck no papel principal.

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