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Na revista Domingo, do jornal O Globo de 11 de setembro, li um interessante artigo do ator e comediante Antônio Pedro (o ‘seu’ Bicalho) do humorístico Escolinha do Professor Raimundo, sobre a paranóia criada em torno da data 11 de setembro. Nesse artigo, o genial artista fala sobre enquadramento, mudança de comportamento das novas gerações e a ditadura do “politicamente correto” que se acelerou mais ainda após a data fatídica da queda das torres gêmeas do World Trade Center.

Dentre outras coisas, Antônio Pedro queixa-se que não pode mais chamar o amigo escurinho de “negão”, não pode mais chamar a sua nêga de “nêga”, não pode mais contar piadas de árabes, judeus e portugueses e qualquer dia desses vai ser multado pelo Ibama por contar piadas de papagaio. Por fim, Antônio Pedro faz um comparativo entre essas esquisitices de hoje e a liberdade de expressão que gozava em tempos idos, sobretudo após a queda da Ditadura Militar. Os programas humorísticos da década de 1970 sabiam driblar a censura magistralmente e vez por outra davam uma cutucada nos milicos.

Eu estava no Rio de Janeiro e havia participado no dia anterior do lançamento da coleção “Era uma vez… em Cordel”, ao lado do ilustrador Jô Oliveira, no estande da Editora Globo, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Pela manhã, li esse maravilhoso texto na recepção do hotel e logo em seguida dirigi-me ao aeroporto do Galeão, onde deveria pegar uma conexão Rio-São Paulo-Fortaleza. O avião que me transportou para São Paulo seguia para Caracas e levava pessoas de diversas nacionalidades.

Fomos olhados com certa desconfiança pelas pessoas que faziam a segurança do aeroporto. Um rapaz brasileiro, recém-chegado de Londres, disse-me que saíra da capital da Inglaterra sob esse mesmo clima pesado. Sua mochila foi milimetricamente farejada e babada por uma dupla de cachorros treinados. Eu trazia, como lembrança do lançamento, um banner (vide foto) onde aparecem as capas dos dois primeiros livros da coleção: “A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau” e “O coelho e o jabuti”. Resolvi trazê-lo como bagagem de mão.

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No aeroporto do Rio passei sem problemas mas ao chegar no aeroporto de Guarulhos o “bicho pegou”. Fui abordado por seguranças que queriam porque queriam que eu retornasse ao check-in a fim de embarcá-lo juntamente com a bagagem. E não adiantou de nada argumentar que eu era um poeta, pacifista por natureza e que vinha trazendo uma simples e inofensiva lembrança do meu lançamento. As filas eram imensas, o avião com destino a Fortaleza já estava embarcando os passageiros e eu não tinha como retornar ao check-in para embarcar meu precioso banner. Tive de deixá-lo nas mãos dos seguranças que certamente o jogaram no primeiro recanto empoeirado do aeroporto (se não tiver ido diretamente para a lata do lixo!)

Em 2001, época do terrível atentado, fiz um folheto de oito páginas em parceria com o mano Klévisson Viana que está esgotado há bastante tempo. Não adianta reeditá-lo, pois não compensa fazer segunda edição de folheto-reportagem, sobretudo muito tempo após o ocorrido. Na época, a Folha de São Paulo, se não me engano, fez uma ampla matéria sobre isso e conseguiu reunir mais de 10 folhetos de diferentes autores em todo o Brasil. A maioria dos autores lamentavam o trágico ocorrido, mas criticavam a política imperialista dos Estados Unidos, sempre prontos a interferir onde são e também onde não são chamados.

Voltando ao lançamento e o episódio do dia seguinte no aeroporto, vale ressaltar que eu estava de muito bom humor por conta do sucesso dos livros e a acolhida maravilhosa do pessoal da Editora. Então, abri mão da minha ‘lembrança’ e prossegui a viagem sem olhar para trás. Acabo de saber que aconteceu a mesma coisa com o amigo Jô Oliveira, que também levava um banner a tira-colo, porém teve mais sorte, pois o segurança que o abordou foi mais inteligente, retirou as duas varetas das extremidades, enrolou o baner e entregou de volta ao meu parceiro, que viajou tranquilamente para Brasília com sua relíquia.

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2 Comentários

  1. Dalinha Catunda disse:

    O importante Arievaldo, é que você fez bonito junto com Jô Oliveira e representaram muito bem nosso Nordeste. Não importa se você deixou o banner completo e se Jô deixou apenas o pau, o importante é que vocês trouxeram o sucesso e o reconhecimento e eu fico toda orgulhosa de pertencer esta cambada do Nordeste.
    Meu abraço

  2. ARIEVALDO VIANA disse:

    Valeu Dalinha, seu incentivo é o que interessa… Vamos em frente!

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