A tristeza da princesa  

Algumas poucas pessoas preocupadas com o rumo que está tomando a nossa maior festa popular,  já falaram tanto que não têm mais o que dizer. 

Por outro lado, há que se lembrar: afora os culpados por toda essa história, que vem se repetindo desde que a Prefeitura dos últimos 12 anos “inventou” o tal Carnaval Multicultural, para espalhar fartas verbas para roqueiros aposentados, funkeiros, disk-jockeys, cantores e dançarinos de axé-music, bregueiros, de todas as latitudes e longitudes do Brasil, existe algo mais. 

Sabem o que é?  É a terrível vontade, a imensa vaidade, a compulsão pela exibição que têm os nossos artistas e grupos carnavalescos. Tem gente que faz qualquer coisa para aparecer, mesmo naqueles vinte minutinhos de aparição numa chamada de TV, numa rua ou palco. Se não houvesse passarelas, palcos,  “organização” de shows, “homenagens” a figuras de destaque nos carnavais, essas baboseiras todas inventadas para botar na mídia os “queridinhos” dos poderosos do dia, haveria o que? Simples… Haveria a espontaneidade que sempre existiu e poderia voltar a existir, no nosso carnaval de rua.

A Prefeitura e o Estado teriam apenas que fazer a sua parte: dar fluidez ao trânsito, atendimento de saúde e segurança à população.  E pronto. E só.  Deixasse o povo brincar. Iríamos até, quem sabe, voltar a ver aqueles “Blocos do Eu Sozinho” em que gente como “O Lorde de Olinda” voltaria a desfilar seus sonhos carnavalescos, na maior Paz.

Sugiro aqui pra vocês e garanto vai dar certo. Se os detentores da verdadeira Cultura Popular, essa gente que, sem nenhum tostão da Prefeitura, sem nenhuma ajuda do Estado ou das Estatais federais, cheias de políticos corruptos, se recusar a esse “programa de índio” em que está se transformando o Carnaval do Recife, que só locupleta os sabidões de sempre, repito, se essa gente que realmente faz Cultura Popular se recusar a aceitar essas humilhações a troco de nada, nosso Carnaval vai voltar a ser uma festa do povo.

De minha parte já fiz o que achei que devia fazer. Mostrei, com o Bloco “Flor da Vitória-Régia”, com o Bloco “Cinema Mudo”e com o “Urso Maluvido”, que a gente pode fazer carnaval sem precisar esmolar junto a esses políticos inconsequentes, uma verbinha de nada ou uns minutinhos de palco, que vão acabar destruindo uma das poucas coisas que o povo sabe fazer todo ano: um Carnaval verdadeiramente popular.

Um rei exausto

E se isso não ocorrer, como tudo indica que vai acontecer, essas “autoridades culturais” vão acabar fazendo uma insípida canja com a nossa “galinha dos ovos de ouro”. 

Porque, fosse eu sulista, ou nortista, gaúcho ou pantaneiro, não viria ao Recife, tão longínquo, para assistir shows de rock, de funk, de brega, de axé ou de qualquer coisa que rolasse no meu quintal.  Vem aqui quem quer conhecer o nosso frevo, maracatu, caboclinho, blocos tradicionais, mascarados, laursas, bois, enfim, toda essa rica variedade de ritmos, de cores e de sons que só existem aqui.

Minha voz está rouca de tanto protesto, meu coração está ficando insensível, depois de tanta luta inglória.

Venceram os que acham que sabem o que o povo gosta. Bom proveito a todos.  Curtam bem a sua “canja”.  Um dia, muitos ou quase todos deixarão de procurar os iluminados palcos e passarelas, por inúteis.

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6 Respostas em: “CARNAVAL E EXPLORAÇÃO POLÍTICA”

  • Gonzaga Filho Diz:

    Estão assassinando a nossa cultura com essa fatídica invenção de “carnaval multicultural”. É tudo uma bosta só, não exite música, letra, melodia… O que existe é somente pornografia acompanhada de gestos obscenos, que somos obrigados ver os nossos adolescente e também as crianças dançarem(?) ao som do “enfinca” e outras merdas mais que tem sentidos dúbios.
    Carnaval antes era alegria, hoje tornou-se um meio dos prefeitos ladrões desviarem verbas públicas com contratos milionários, pagos por “artistas”(?) de quinta categoria…
    Desculpe o meu desabafo…

    Gonzaga Filho
    http://celeirodetalentos.blogspot.com

  • Monsenhor Fred Monteiro Diz:

    É isso, caro Gonzaga. Eu também vivo por aqui desabafando, brigando e tomando as dores da nossa cultura, como o Papa Berto tem feito e tantos outros colunistas aqui do JBF.. Se a gente descuidar, eles acabam com a arte do povo de vez. Vamos botar a boca no trombone. Sempre!

  • JH II Diz:

    Parabéns pela postagem, muito boa.Essa situação me dá tristeza, medo e indignação.Como fazer o povo enxergar que não é gado, que não pode aceitar tudo que lhe imposto?

  • Amaro Francisco Diz:

    Concordo plenamente com Fred quando ele credita (debita?) ao Poder Público e a ‘multiculturalidade’ propagada como responsável pelo insucesso do carnaval pernambucano. Acho, porém, que a discussão merece uma reflexão mais aprofundada sobre as causas do marasmo. Tentarei listar algumas delas:
    - a falta do novo, o não surgimento de novos valores no mundo do frevo (não se consegue citar 5 exemplos de frevos de rua, canção ou de bloco que tenham feito sucesso nos últimos 10 anos). Primeira questão: a que atribuir isto? Entendo que há uma certa ‘reserva de mercado’ por parte dos tradicionalistas, conservadores, que não permitem a inserção de novos nomes no meio do frevo. O próprio Claudionor, grande nome pernambucano, em diversas entrevistas afirma com todas as letras que ele, e somente ele, sabe cantar frevo. Onde ficam André Rio, Ed Carlos, Almir Rouche, também grandes intérpretes atuais?; Nossos grandes maestros também não aceitam o novo, nem reconhecem os talentos que surgem (exemplo é Spok, ‘escanteado’ pelos tradicionalistas);
    - a incompetência da cadeia produtiva do frevo que não sabe aproveitar a qualidade de nossa música como instrumento alavancador do sucesso Brasil afora. Como exemplo: o trio elétrico foi inventado no Recife mas o baiano se apropria desse fato como nascido na Bahia e vende essa e outras falsas verdades no Brasil inteiro. O amadorismo prevalece em detrimento do profissionalismo. Limitam-se, os críticos, a condenar a participação de artistas qualificados no nosso carnaval.
    - a falta de união entre os ‘frevistas’. Não há uma associação que congregue os homens do frevo para defesa da causa mais que justa da preservação de nosso ritmo tão bonito e tão injustiçado. Meu receio é que daqui há alguns anos o frevo seja tratado apenas como algo relacionado com folclore e, a exemplo do maracatau e do caboclinho, nem no carnaval toque;
    - as estações do rádio não tocam frevo, a não ser algumas raras exceções e apenas no período do carnaval. Mais uma vez o poder público: o concurso de música carnavalesca – excelente iniciativa da Prefeitura é feito em dezembro e o disco com as músicas só sai com o carnaval já em curso. Como divulgá-las?
    A meu ver, o Poder Público é culpado por uma parcela do que acontece, mas há outros culpados.
    É o que penso.

  • Irmã Glória Braga Horta Diz:

    Fred, parabéns pela reportagem!

  • Monsenhor Fred Monteiro Diz:

    Sr Amaro Francisco:
    Com todo o respeito que me merecem as opiniões todos os que comentam aqui no Jornal e ena minha modesta coluna, gostaria de -ponto a ponto- dar a minha opinião acerca do que o sr levanta como argumentos para rebater meus pontos de vista acerca do chamado “carnaval multicultural” que representa e visão “oficial” da Prefeitura do Recife sobre essa festa popular.

    01- entendo bem a ironia da sua afirmação acerca do que o sr chama de “insucesso” do carnaval pernambucano. É obviamente claro que financeira e políticamente, os senhores mandatários dessa festa recifense conseguiram grande sucesso na sua “venda” para o Brasil e para o mundo.
    Milhões de reais são aplicados e com retorno garantido neste chamado carnaval multicultural. Porém aí aparece minha primeira indagação: isso que está se fazendo no Recife é realmente o que se entende, na linguagem do povo como Carnaval? Acho que não. Secularmente, o nosso carnaval vinha sendo uma festa de rua, não de palco; uma festa animada por nossos ritmos locais, não por ritmos alienígenas que não encontram guarida no inconsciente coletivo pernambucano (o que não quer dizer que não sejam verdadeiramente adorados por outros); o show em cima de palcos ricamente ornamentados, iluminados, sonorizados até o absurdo de cobrir centenas de orquestras de rua juntas, não traduz o que o povo quer, no meu entender: ouvir, estar perto, brincar, dançar, com seus blocos, troças, laursas, maracatus, bumba-meu-bois preferidos; os artistas populares são colocados em último plano nessa divisão injusta de palcos e honras, de homenagens e muito dinheiro gasto com cachês milionários, mordomias injustificadas para quem -nas suas terras de origem passam até desapercebidos, por obsoletos, ou para quem no auge da fama somente quer acumular mais alguma grana fácil aqui em Pernambuco.

    02- A falta do novo a que o senhor se refere, me remete a terras distantes e costumes igualmente afastados do que o senhor afirma como renovação do frevo. Pergunte a qualquer vienense se ele quer eletronizar, modernizar, atualizar, ou seja lá o que for que modifique a estrutura e forma consagrada das suas valsas; pergunte a qualquer músico de New Orleans se ele quer modificar a estrutura do traditional jazz que ele toca no Mardi Gras da sua terra natal; por que somente aqui em Pernambuco teríamos que modificar, modernizar, eletronizar, atualizar ou seja lá o que for, um ritmo, uma música, uma dança, centenários, marca registrada do nosso Estado ? Para agradar aos que querem a sua dissolução no empastelado tum-tum-tum de ritmos inventados do dia para a noite em busca de grana fácil ? em pretensos “movimentos” musicais revolucionários sem substância nem estrutura cultural? Mudar somente por mudar, por experimentar, por alimentar o ego de alguma “estrela” nascente ou cadente no cenário já tão carente de boa música e de boa arte? Nem sempre o “novo” significa “o bom, o ideal”, meu caro Sr Amaro. Há novidades, na vida moderna, que duram apenas a experimentação e logo se vão pelo ralo das inutilidades.

    03- Os demais itens levantados pelo sr. se resumem numa só coisa: a eterna luta do capital contra a cultura. Como chamar de incompetentes os nossos melhores criadores que nunca são chamados a opinar sobre coisa alguma? quem decide o que mostrar, quando e como mostrar nesses “carnavais multiculturais” ? Os baianos, sr Amaro estão regiamente patrocinados por uma indústria festeira que patrocina aqueles trios, grupos com tremendo poder financeiro/político e de mando em tudo o que acontece naquele Estado em matéria de festejos populares. O mesmo modelo é aplicado na eletronização do forró e do brega, no Ceará e em Belém.. A maior parte das bandas de forró eletrônico pertence a grupos financeiros poderosos que ditam às dezenas de clones o que fazer e programam todo o calendário festeiro desses estados. Como os artistas do povo, aqui em Pernambuco poderiam efetivar uma reação a toda essa dinheirama derramada, principalmente pelos poderes públicos que detêm a chave dos cofres em todos os níveis? Do que adianta essa “união de frevistas em torno de uma associação classista” como o Sr. sugere? Não, Sr. Amaro, a solução não é tão simples assim. Também discordo quanto à sua opinião de que o frevo vá virar folclore e ser esquecido com o decorrer dos anos. Há mais de cem anos ele está aí, cada vez mais forte no coração do nosso povo. A última observação -sinceramente, sr. Amaro, perdoe-me a sinceridade- é ingênua. As emissoras de rádio não tocam frevo, porque os compositores de frevo e o povo em geral não lhe dão dinheiro. Só por isso. O povo também não tem dinheiro para pagar o famoso “jabá” a locutores, apresentadores, radialistas, produtores, que dominam a comunicação radio-televisiva do Estado. Isso é mais do que sabido. Quanto ao Concurso promovido pela Prefeitura (já tive muitas músicas aprovadas e por 3 vezes fui premiado nesses concursos, das 5 que participei) posso lhe assegurar. Aí é que está o que eu chamo de incompetência gerencial e de propósitos. Esse Concurso, aliás, só existe por força da aplicação de uma lei que o tornou obrigatório e que poderia ser simplesmente revogada, por inútil.
    Mantenho minha opinião, sem medo de estar errado, Sr Amaro. Fico grato pela oportunidade que o Sr me proporcionou de continuar na defesa intransigente do nosso frevo. E um último adendo: quem está falando aqui nem sequer é pernambucano de nascimento. Sou alagoano, de Maceió, e vim para o Recife muito pequeno, com apenas 3 meses, o que não me tira a qualidade de pernambucano de coração e alma. Um grande abraço, Sr Amaro e um excelente carnaval para o senhor, com muita Paz, Saúde, Alegria e sobretudo muito Frevo, Maracatu, Caboclinho, LaUrsa, Boi de Carnaval, e tudo o mais quanto de pernambucano haja para acompanhar esse povo na sua alegria desses quatro dias de festa que é sua.

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