Para o sertanejo antigo O ponteirar do relógio De hora em hora a passar Da escurecença da noite A sol-nascença do dia É dizido ao jeito deles No mais puro boquejar. Se diz até que os bicho: Galo, nambu e jumento Sabe às hora anunciar.
Uma hora da manhã: Primeiro canto do galo. Quando chega às duas horas: Segundo galo a cantar. As três se diz: madrugada As quatro: madrugadinha Ou o galo a miudar. As cinco é o cagar dos pintos Ou mesmo o quebrar da barra. Quando é chegada às seis horas Se diz: o sol já de fora Cor de Crush foi-se embora E tome dia clarear.
Sete horas da manhã É uma braça de sol. O sol alto é oito em ponto O feijão tá quase pronto E já borbulha o manguzá.
Sendo verão ou se chove Ponteiro bateu as nove É hora de almoçar. As dez é almoço tarde De quem vem do labutar. Se o burro dá onze horas Diz: quase mei dia em ponto As doze é o sol a pino Ou pino do meio dia O suor desce de pia Sertão quente de torar.
Daí pra frente o dizido Ao invés de treze horas Se diz: o pender do sol Viração da tarde é duas Quando é três, é tarde cedo. As quatro, é de tardezinha – Hora branda sem calor O sol perde a cor de zinco… Quando vai chegando as cinco: Roda do sol a se pôr.
As seis é o-pôr-do-sol Ou Hora da Ave Maria. Dezenove ou sete horas Se diz que é pelos cafus.
As oito, boca da noite. Lá pras nove é noite tarde. As dez é a hora velha Ou a hora da visagem É quando o povo vê alma Nos escuros do lugar É horona perigosa Fantasmenta e assustosa Do cabra se estupefar.
As onze é o frião da noite É sertão velho a gelar. Meia noite é MEIA NOITE E acabou-se o versejar Mais um dia foi-se embora E assim é dizido as horas Nesse velho linguajar.
Poema baseado nas “Horas sertanejas” de Câmara Cascudo
O ministro Alexandre de Moraes, que é o relator de tudo no Brasil, liberou para julgamento no STF uma ação que acusa Eduardo Bolsonaro do crime de coação contra o Supremo no julgamento do pai dele, Jair Messias Bolsonaro. Explicando: o Supremo é a vítima, e a vítima vai julgar o suposto agressor. Não é incrível? É incrível – a acepção da palavra “incrível” é algo em que não é possível acreditar, de tão absurdo que é. Mas isso não é novidade: no 8 de janeiro, há gente acusada de planejar o sequestro e o assassinato de Moraes, e o próprio Moraes é relator e julgador. Nenhuma escola de Direito aceitaria uma coisa dessas, mas é o que acontece no Brasil.
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Era previsível que tentassem incluir Flávio Bolsonaro nos inquéritos
Como era previsível também, uma vez que Flávio se tornou candidato, também virou alvo. Há pedidos do Psol e do PT para incluir Flávio nesse mesmo caso, alegando que ele foi para os Estados Unidos para pedir aos americanos que pressionassem o Supremo. O líder petista, Lindbergh Farias, acionou a Procuradoria-Geral da República pedindo a inclusão de Flávio, e agora um deputado do PSOL, Henrique Vieira, pediu a mesma coisa. Era de se esperar, até porque Flávio não só é candidato, mas também aparece nas pesquisas como o principal adversário de Lula.
A esquerda também se aproveita da relação entre Flávio e Daniel Vorcaro, quando o senador pediu ao banqueiro que pagasse o que ele havia se comprometido a desembolsar para a produção do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. A defesa de Vorcaro está preparando uma segunda versão da delação; na primeira, ele já tinha prometido devolver R$ 60 bilhões. Isso é praticamente o orçamento do Exército Brasileiro inteiro! Vorcaro tinha tudo isso? É incrível! E, se ele tinha tudo isso para devolver, é claro que ele tem reservas de toda ordem, bens imóveis, ativos de giro, em paraísos fiscais, em nome de laranjas…
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Brasil não se cansa de comprovar que, aqui, o crime compensa
Esse é o problema do Brasil, que todo dia mostra como a desonestidade, a vigarice e a bandidagem recompensam. Não estamos em um país onde que vigora o dito “o crime não compensa”. Em qualquer país civilizado, a pessoa pratica o crime e é punida. Aqui no Brasil, vejam a Lava Jato, vejam o mensalão: a pessoa está envolvida, comprova-se tudo, e acaba solta. Na Lava Jato, já houve até devolução de multas pagas em delações premiadas. Gente que confessou o crime, que devolveu o dinheiro, recebe tudo de volta. Os jovens, as novas gerações, olham para isso e vão imaginar o quê?
Dia desses andei relendo esse livrinho e me encantei, de novo. 30 conversas interessantes com gente do Nordeste, tipo Dom Hélder, Manoel Bandeira, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Jackson do Pandeiro, Sivuca, dentre outros.
Como se não bastasse tem prefácio e apresentações de Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, Maciel Melo, Luiz Berto e Paulo Rocha.
Gostei e recomendo.
É só pedir pelo imeio xicobizerra@gmail.com – que eu entrego em todo o Brasil.
Há uma estranha patologia social que acomete certos espíritos domesticados: a necessidade quase litúrgica de ver todos agrupados, catalogados, alinhados e, de preferência, ajoelhados diante de alguma engrenagem coletiva que lhes dite o que pensar, o que repetir, a quem reverenciar e em qual direção moral devem inclinar o pescoço. Para muitos, existir parece insuficiente; é preciso pertencer. Não basta raciocinar; urge aderir. Não se admite a solidão intelectual de quem caminha por convicção própria. É necessário um selo, uma bandeira, uma fraternidade, uma comissão, uma sigla, uma ordem, um círculo, uma irmandade ou qualquer outro teatro burocrático onde almas voluntariamente tuteladas possam sentir o conforto pueril de não precisar pensar por si.
Eu, porém, nutro um apreço quase herético pela autonomia.
Não porque despreze a convivência humana — seria uma tolice misantrópica e pueril —, mas porque sempre me causou profunda estranheza essa devoção febril por estruturas que, sob o verniz da organização, frequentemente ocultam mecanismos de conformismo, vaidade grupal, hierarquias de ego e a silenciosa substituição do pensamento pela adesão.
Há indivíduos que, ao descobrirem que alguém não pertence a partido algum, irmandade alguma, confraria alguma, agremiação alguma ou clube de iluminados autoproclamados, olham com a perplexidade quase zoológica de quem observa um animal improvável.
“Mas como?”, perguntam. “Tu não és filiado?” “Não participas?” “Não te identificas?” “Não te engajas?”
E por trás dessas perguntas, muitas vezes, esconde-se uma premissa tacitamente ridícula: a de que o homem só adquire densidade social quando incorporado a alguma máquina ideológica, cívica, ritualística ou institucional.
Discordo com a serenidade cortante de quem não precisa pedir licença para pensar.
Jamais me encantou a ideia de submeter minha consciência a catecismos partidários, cartilhas ideológicas ou fidelidades de rebanho travestidas de militância esclarecida. A política organizada, quando excessivamente idolatrada, frequentemente transforma homens em repetidores de slogans e mulheres em guardiãs histéricas de ortodoxias ocasionais. Não raro, o sujeito deixa de pensar e passa a reproduzir. Troca o cérebro pela sigla e a reflexão pelo aplauso tribal.
E o fenômeno não se restringe à política.
Há confrarias, ordens, clubes, fraternidades e associações que, embora revestidas de respeitabilidade social, frequentemente carregam consigo o fascínio quase medieval da pertença cerimonial. Reuniões, títulos, protocolos, solenidades, hierarquias, símbolos, formalidades e aquela velha tentação humana de confundir ritual com profundidade. Como se usar insígnias, sentar-se em mesas deliberativas ou participar de encontros regados a discursos autocelebratórios convertesse automaticamente alguém em entidade moralmente superior.
Não converte.
A pompa não fabrica lucidez. O rito não gera caráter. A filiação não substitui inteligência. O pertencimento não garante grandeza.
Sempre preferi o desconforto fértil da liberdade ao conforto plastificado da tutela. Pensar por conta própria é um ofício solitário e, por vezes, ingrato. Exige coragem para contrariar tribos; exige serenidade para não implorar aprovação; exige firmeza para suportar o espanto daqueles que confundem independência com arrogância e autonomia com rebeldia vazia. Mas há uma dignidade rara em não terceirizar a consciência.
Não desejo que estruturas definam o que devo admirar. Não desejo que grupos ditem o que devo defender. Não desejo que organizações me instruam sobre quais indignações são permitidas, quais silêncios são elegantes ou quais crenças são aceitáveis no mercado das virtudes públicas.
Se quero refletir, reflito. Se quero discordar, discordo. Se quero me afastar, afasto-me. Se quero permanecer só com minhas ideias, minha música, meus livros, minha ciência e meu silêncio — permaneço.
E nisso não há isolamento patológico. Há escolha. Porque a liberdade, quando compreendida em sua forma mais austera, não é gritaria, exibicionismo ou pose pseudoanárquica de salão. Liberdade é não precisar de tutorias emocionais, ideológicas ou institucionais para validar a própria existência.
Há quem se realize em partidos. Há quem floresça em irmandades. Há quem encontre sentido em clubes, conselhos, ordens ou fraternidades.
Que lhes faça bem. Mas não me peçam reverência àquilo que jamais me despertou interesse. Não me seduz o coro. Não me impressiona a liturgia da obediência. Não me encanta a arquitetura social da submissão elegante. Gosto de pensar por conta própria. E não quero minha vida organizada por estruturas que não me interessam. Se isso incomoda alguns, talvez não seja um defeito da liberdade. Talvez seja apenas o incômodo inevitável que a independência causa em espíritos excessivamente acostumados a marchar em fila.