29 junho 2017 FULEIRAGEM

DUKE – O TEMPO (MG)

UM BLOG RUIM, DIREITÃO E MENTIROSO QUE, ENFIM, BOTA PETISTA PRA TRABALLHAR

Novo comentário em ALEXANDRE GARCIA É HOSTILIZADO EM AEROPORTO MAS NÃO CAI NA PILHA

Paulo Machado:

“Desculpe, mas este blog é ruim demais, de direita e sem argumento nos seus conteúdos, tendencioso e falacioso, Direitão mesmo.

Uma hora essa merda de direita vai pro ralo, porque estamos trabalhando pra isso.

Porra , que merda de matéria que só mente sobre os outros.

* *

A Editoria do JBF dá as boas vindas ao mais novo descerebrado petralha zisquerdóide que passou a ler esta gazeta escrota.

Vamos botar o jegue Polodoro pra rinchar em homenagem a ele.

Rincha, Polodoro!

29 junho 2017 FULEIRAGEM

MÁRIO – TRIBUNA DE MINAS

A PRINCESA E O INFANTE

Conta a lenda que dormia/ Uma Princesa encantada. São os primeiros versos de um dos mais instigantes poemas de Fernando Pessoa, “Eros e Psique”. Publicado, na revista Presença, em maio de 1934. Como epígrafe, palavras de um Ritual dos Templários (“Assim vêdes, meus irmãos…”). Nada a estranhar. Que Pessoa era dado ao misticismo. Ele mesmo confessou, em carta a sua tia Anica (24/6/1916), ter começado a ser médium. Era capaz de prever o futuro. O suicídio do amigo Sá Carneiro, em Paris. O fim de Salazar. E sua própria morte. Não se poderia esperar é que fosse também capaz de, naquele tempo, saber o que se passa hoje no Brasil.

A Princesa encantada dos versos penso que é Dilma. Dando-se que dita Princesa encontra Um Infante que viria/ De além do muro da estrada (todas as citações são do poema). E esse Infante penso é Temer. Que veio de De além do muro (do PMDB). Só que dito Infante tentava deixar O caminho errado/ Por que à Princesa vem. Nenhuma novidade. Que até bilhetinhos queixosos mandou, para ela. Enfim O Infante, esforçado/ Rompe o caminho fadado. Com o impeachment. E acabaram se afastando. A partir daí, Ele dela é ignorado/ Ela para ele é ninguém. Sugerindo, Pessoa, que Cada um cumpre o Destino. Mas qual será tal Destino?, eis a questão.

A Princesa Dilma parece não ter ânimo para novas aventuras eleitorais. Devolveu a seu mentor, e criador, o comando. Não será suficiente. Lula jamais a perdoará por não lhe ter cedido lugar antes, em 2014. Tanto que já publicamente atribui, às medidas desastrosas tomadas pela Princesa, a crise do PT. Sem piedade. E aposta todas as fichas em um improvável “Diretas Já”. Que teria que vir antes de ficar inelegível, por conta da Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010).

Enquanto isso o Infante Temer, depois da denúncia de Janot (nesta segunda), já não parece ter condições para governar. Tornou-se um espantalho. “Uomo de paglia”, como dizem os italianos. Era carne, hoje é só palha seca. Rocha Loures, amigo íntimo que amava passear com malas endinheiradas, está preso. O Infante diz “duvidar de sua delação” (Folha SP, 3/6). Rezando pelo silêncio do assessor. Palavras erradas, senhores meus. Deveria pedir é que dissesse tudo. Quem seria o desconhecido beneficiário dessa propina. Porque, fora disso, acaba sendo legítimo acreditar fosse o próprio Infante.

Resumindo, hoje, dito Infante quer só permanecer no cargo. As reformas vão sendo desfiguradas, em busca de apoios. O fim do imposto sindical, por exemplo, já foi trocado por uma certa condescendência das centrais sindicais. E familiares têm seus imóveis restaurados com grana suja. Tudo como já vimos, antes, com outros.

Seu governo, a cada dia, fica melancolicamente mais parecido com o daquela Princesa que sucedeu. Semana passada, chamou o rei da Noruega de rei da Suécia. Frase digna da própria Dilma. Até ministros e assessores são os mesmos. E a gula por grana é a mesma. Só a equipe econômica se salva, graças ao bom Deus. Se o Infante aceitar conselhos, talvez pudesse ouvir o de Pablo Neruda (na sua “Canção Desesperada”): “É hora de partir. Oh Abandonado”.

O final do poema de Pessoa é profético. Ele imagina o Infante olhando para sua Princesa. Com A cabeça em maresia, ainda pensa que seus destinos poderiam ser diferentes. Embora saiba, no íntimo, que vão ser iguais. Todos sabemos. Afinal, como anunciado por Pessoa nos versos finais do poema, o Infante Ergue a mão, e encontra hera,/ E vê que ele mesmo era/ A Princesa que dormia.

29 junho 2017 FULEIRAGEM

BAGGI – CHARGE ONLINE

29 junho 2017 JOSELITO MÜLLER

BANCA AVALIADORA DA COR DE COTISTAS TERÁ COTA PARA DALTÔNICOS

SÃO PAULO – Com o justíssimo propósito de incluir os excluídos que até então se encontravam desprovidos de inclusão social no meio da sociedade brasileira, a Comissão Permanente do Vestibular da Universidade de São Paulo anunciou na tarde de hoje que adotará política de cotas para composição da banca que avaliará a cor dos candidatos cotistas eventualmente aprovados para ingressar naquela instituição.

A banca elaborou critérios objetivos, como por exemplo, reprovar todo e qualquer candidato de cor salmão, alaranjado e rosa claro, mas a discussão sobre a definição de cada cor pode gerar polêmica.

Isso porque a banca incluirá entre seus quadros 20% de membros com daltonismo.

“Achamos que a inclusão de daltônicos para a banca que avaliará a cor dos candidatos é justa, pois inclui essa minoria, atualmente muito minoritária em nosso país, de modo a conferir mais inclusão”, explicou o idealizador da proposta.

ELE AFIRMOU TAMBÉM QUE “O CONCEITO DE COR VARIA DE PESSOA PRA PESSOA. O QUE É VERDE PRA MIM, PODE SER VERMELHO PRA VOCÊ. NÃO LEMBRA DO CASO DO VESTIDO QUE ERA VISTA DE CORES DIFERENTES CONFORME A PESSOA? É COMO A INSONDÁVEL COISA EM SI DE KANT, QUE VISTA SOB ÓTICAS DIFERENTES, PODE TER VÁRIOS SIGNIFICADOS”, FILOSOFOU.

28 junho 2017 FULEIRAGEM

SPONHOLZ – JORNAL DA BESTA FUBANA

28 junho 2017 JORGE OLIVEIRA

NO CONFRONTO, JANOT FICOU ENCURRALADO

O Temer jogou água no chope do Janot. Apesar de ter apresentado um rosário de indícios que conduzem ao envolvimento do presidente ao crime de corrupção passiva, o procurador-geral da República saiu chamuscado do confronto. Ele agora terá que esclarecer que realmente não está envolvido com o ex-procurador Marcelo Miller, homem de sua confiança, que deixou o cargo para fazer os acordos de leniência da JBS do Joesley Batista que, segundo o Temer, teria embolsado milhões de reais. É a primeira vez que Janot é acusado frontalmente de favorecimento a Joesley que, depois de confessar inúmeros crimes, saiu pela porta da frente da procuradoria com o salvo conduto da impunidade.

O embate entre o presidente e a procuradoria só favoreceu o Temer. Se não vejamos: Janot distribuiu seu parecer que envolve o presidente em corrupção passiva, papeis frios que chegaram à imprensa numa coletiva. Temer usou a televisão ao vivo para soltar um míssil contra Janot que vai destroçar a sua reputação e de seus procuradores caso ele não esclareça melhor que não tem nenhum envolvimento com Marcelo Miller, o procurador que deixou o cargo para trabalhar a soldo de Joesley e ajudar a aprovar os acordos de leniência que favoreceram o grupo bilionário dos Batista.

A pergunta que fica no ar é a seguinte: como um procurador que chegou ao cargo por concurso público deixa o emprego vitalício tão bem remunerado para se engajar na causa dos Batista, levando com ele todos os segredos das investigações? É no mínimo esquisito, não acha? Pois é, foi por achar estranho que os assessores de Temer foram investigar o afastamento do procurador e descobriram que ele não cumpriu nem a quarentena determinada por lei para exercer outra função na iniciativa privada. E o seu envolvimento com o Joesley, coincidentemente, aconteceu no momento em que ele fazia a delação premiada que resultou em todo esse fuzuê.

O lamaçal é geral. Tudo indica que dessa esculhambação generalizada não se salva ninguém. Janot, no afã de denunciar o presidente antes de deixar o cargo, não se preocupou com a retaguarda e agora deixa o órgão na UTI. Esqueceu-se que o Temer também é do ramo jurídico, como advogado e professor constitucionalista, e foi para o confronto sem as devidas precauções de zelar pela entidade que dirige até então a mais respeitada do país. Temer evidentemente, ao partir para o ataque, não estava sozinho quando traçou a sua estratégia de encurralar Janot. Contou com alguns simpatizantes dele dentro da Justiça que fazem oposição ao trabalho do procurador, agora de saia justa.

No seu parecer Janot parece ter vacilado, mesmo apresentando um rastro de documentação que comprometeria o presidente. Não conseguiu juntar provas de que o dinheiro da mala do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, assessor do Temer, teria chegado às mãos do presidente. Usou a palavra “ilação” para apoiar as suas denúncias. Temer aproveitou-se para fazer também uma ilação entre Janot e o procurador afastado e acusá-lo de se envolver com os milhões de reais que chegaram aos bolsos do seu ex-braço direito pelo trabalho de leniência que favoreceu as empresas de Joesley. As palavras de Temer, proferidas didaticamente, como um treinado professor, ao vivo e a cores para o Brasil, chegaram como um tiro certeiro aos ouvidos de Janot que se assustou com o petardo.

Na réplica, Janot não foi convincente. Em nota oficial, detalhou a trajetória de seu ex-assessor na procuradoria, mas só serviu para se afundar mais ainda quando confirmou que realmente ele trabalhou nas investigações da Lava Jato até deixar o cargo e se engajar na defesa de Joesley. A situação se agrava ainda mais, quando se sabe que existe outro procurador preso por ter sido flagrado como “homem” de informação de Joesley dentro do órgão. Ou seja: o empresário contaminou todo mundo. Comprou o Executivo, o Parlamento e a Justiça. Ninguém escapa das garras afiadas de Joesley que se revela um dos mafiosos mais estratégicos do mundo. Ele compra os poderes com o mesmo dinheiro que sai dos cofres desses poderes com a conivência de quem dirige esses poderes. Que coisa genial, hein!? É de deixar os sicilianos nova-iorquinos com água na boca.

Os crimes de Joesley ainda não estão perfeitos para um belo roteiro de filme porque os Batista ainda não entraram no mundo das drogas, da prostituição, das jogatinas e dos assassinatos por encomendas. Mas quem viver, verá.

28 junho 2017 FULEIRAGEM

AMORIM – CHARGE ONLINE

FAUNA BRASILEIRA

Dilma, Lula e Temer nasceram um para o outro

“Resultado do Golpe de 2016: deixar o País nas mãos do único presidente denunciado por corrupção”.

Dilma Rousseff, pelo Twitter, ao lembrar que seu vice transformou-se no único presidente denunciado por corrupção, o que enriqueceu a exclusiva fauna política nacional que inclui, entre outras raridades, um ex-presidente prestes a se tornar seis vezes réu e uma ex-chefe de Estado com menos de um neurônio.

28 junho 2017 FULEIRAGEM

AMARILDO – A GAZETA (ES)

CHEGOU A HORA DA FOGUEIRA

Como no futebol, há juízes para decidir cada lance. Como no futebol, a derrota pode derrubar o time. Como no futebol, há quem se rebele contra o juiz. Como no futebol, muita gente levou uma bolada. Mas não se trata de futebol: trata-se de um país e de seu futuro. Futuro? Como no futebol, cada um pensa no próprio futuro, e os outros que, digamos, se danem.

O presidente Temer e o ex-presidente Lula buscam desmoralizar seus acusadores. Ataca-se o procurador-geral Janot, que denunciou Temer, e o Ministério Público, que, segundo Temer, não investigou procuradores cujo comportamento considera duvidoso. Ataca-se o juiz Moro, que Lula acusa de parcialidade, e procuradores da Lava Jato, porque fazem palestras pagas. Tanto Temer quanto Lula suspeitam que os acusadores tenham forçado delações “a la carte”, dando substanciais reduções de pena a quem atingisse determinado acusado. O embate nos tribunais mais parece uma guerra.

O juiz Sérgio Moro pode, a qualquer momento, emitir a sentença de Lula. A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, diz que só é aceitável a sentença que o absolva integralmente. O presidente do PT do Rio, Washington Quaquá, defende “o confronto popular aberto nas ruas” se Lula for condenado. Temer acena com o êxito da política econômica (a inflação ficou abaixo da meta, as exportações cresceram) que, indica, só será mantida caso fique no cargo. E o Brasil? O Brasil é apenas um detalhe.

Dois lados, uma defesa

Temer e Lula são hoje adversários ferozes, mas sua defesa é a mesma: há uma conspiração dos inimigos contra eles, e não há provas de nada. Mas cada um tem um antídoto diferente para a peçonha dos adversários. Lula, a ameaça de convulsão social, com apoio do PT, de partidos como PSOL e PSTU, de centrais sindicais como a CUT; Temer, a blindagem parlamentar, já que é preciso que 342 deputados (em 513) autorizem o processo contra ele. Só que Lula já ameaçou colocar nas ruas “o exército de Stedile” (o MST) e não deu certo. E Temer, em seu duro discurso de ontem, apareceu na TV ao lado de políticos de menor expressão. Os caciques se pouparam.

É o que temos

Outra arma de Temer é a falta de um bom nome para sucedê-lo, caso seja afastado. Mesmo que surja alguém, será eleito por um Congresso em que o presidente do Senado, Eunício Oliveira, e o da Câmara, Rodrigo Maia, são investigados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Caso Temer seja afastado, Rodrigo Maia é o favorito para sucedê-lo.

O Temer…

Um fato está intrigando os meios políticos: este Temer não é o Temer a que todos se acostumaram. Temer sempre foi discreto, afável, racional, cauteloso, frio e duro – foi quem assumiu com êxito a Secretaria de Segurança de São Paulo logo depois do massacre do Carandiru. O Temer presidente não tem como ser discreto. Mas anda ríspido, irritado, reagindo emocionalmente à pressão que sofre. O político cauteloso, que antes de falar “boa noite” pensava muito para não ser mal interpretado, referiu-se duas vezes aos russos como “soviéticos” – o que não são há 27 anos; e, em visita oficial à Noruega, confundiu o rei da Noruega com o da Suécia.

…que não é o Temer

O duro Temer levou um pito da primeira-ministra norueguesa sobre desmatamento na Amazônia e calou a boca. O sempre bem-informado Temer nem lembrou, ou nem sabia, que uma empresa controlada pelo Governo da Noruega está desmatando quase cinco mil hectares da floresta amazônica para extrair bauxita, o minério básico do alumínio; e que um país tão interessado no meio-ambiente talvez devesse repensar a poluente extração de petróleo no Mar do Norte e a autorização para a caça às baleias.

O cauteloso Temer ainda recebe Joesley Batista nos porões do Jaburu.

O dia da caça

Os procuradores da República elegem hoje três candidatos à Procuradoria-Geral, na sucessão de Janot. Mas o presidente Temer nomeia quem quiser, esteja ou não na lista tríplice. Uma escolha acertada pode fazer com que Janot se enfraqueça até deixar o cargo, em 17 de setembro. Temer acredita que, saindo Janot, se reduzam as pressões contra ele. Mas nem sempre é assim: o novo procurador-geral pode querer provar que não está lá para acochambrar, e que é tão duro quanto o antecessor.

Gravando lá e cá

O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu a família para dizer que ninguém deve se preocupar com delações premiadas em que é citado. Informou que, durante todo seu período como ministro, gravou todas as conversas que manteve em seu gabinete. São oito anos de gravações.

28 junho 2017 FULEIRAGEM

CLAYTON – O POVO (CE)

CARLOS ROCHA – GOIÂNIA-GO

Berto

Seu cabra desassombrado.

Segue aí um soneto.

Se achar que vale a pena publica esse “trem” ai.

* * *

Caminho incerto

Longo caminho o que tomei, incerto e triste,
deve levar, eu quero crer, ao que procuro.
pois eu bem sei que por mais frio e obscuro
tem as pegadas do local prá onde fugiste.

E o espinho tão cruel com o qual feriste
o peito amável de um poeta, hoje inseguro
do seu amor, que me juraste num murmúrio,
fazendo crer que era real o que não existe.

Mas não importa, o que eu quero na verdade
é refrigério num recanto onde a saudade
seja somente a companheira solitária.

E hei de um dia alcançar o que eu almejo
– o paraíso, o meu nirvana tão sonhado,
ou o castigo de morrer sem ser amado!

28 junho 2017 FULEIRAGEM

ANTONIO LUCENA – BLOG DO NOBLAT


CABELOS BRANCOS

Seu Domingos – cabelos e bigodes brancos

O bairro tinha uma denominação elogiável: Bela Vista. Ficava na periferia de Fortaleza. Hoje, pelo crescimento demográfico, com a população praticamente dobrando, a distância para o centro da cidade diminuiu bastante – pela velocidade dos veículos, pela qualidade das vias e pelas várias opções do transporte urbano.

Pois, na Bela Vista havia um local que poucos não conheciam e muito menos não sabiam onde ficava. Era a bodega do Moreira. Francisco de Alencar Moreira, comerciante que não aceitava a adjetivação, naquele tempo considerada moderna. Preferia era “bodegueiro” mesmo.

Moreira vendia de tudo na bodega. Do carvão (desde o tempo em que o gás butano não era parte do orçamento familiar da grande maioria), passando pelo pão, feijão e outros secos e molhados, até chegar na cachaça.

Em local destacado e apropriadamente visível, pendurou uma placa: “Não vendo fiado. Só se o freguês estiver acompanhado do avô”.

A Bela Vista não conhecia “desemprego”. Ali, quase todos os moradores trabalhavam ou faziam algo considerado trabalho, e fórmula para ganhar alguns caraminguás.

Houve um tempo (e quem tem mais de 60 anos sabe disso) em que, o de comer diário precisava ser comprado todo dia.

Dona Ceci era uma dona de casa esperta, inteligência aguçada, e para não fugir do que determinava a placa afixada na bodega do Moreira, todo dia mandava Dirceu (o filho) comprar o “dicumê”, fiado. Dirceu andava alguns metros até a bodega, e a tiracolo levava “Seu Domingos”, o avô.

– Seu Moreira, mamãe mandou comprar fiado: feijão, arroz, farinha, tripa de porco salgada, pó de café, açúcar, colorau e banha de porco. E mandou dizer para não anotar no caderno. Eu trouxe o meu Avô!

Reclamar do que e como?

A encomenda consistia em: meio quilo de feijão de corda, meio quilo de arroz, um quilo de farinha seca, meio quilo de tripa de porco, 200 gramas de pó de café, um quilo de açúcar, duas colheres de colorau e 100 gramas de banha de porco. Tudo atendido e anotado no caderno.

– Seu Domingos, falta o senhor afiançar!

Com muito sacrifício e dores, Seu Domingos “arrancava” dois cabelos brancos dos bigodes e os entrega à Moreira. Pronto. Estava ali a garantia de que o fiado seria pago.

Mas, nem se animem e pouco se decepcionem. Isso acontecia lá pelos anos 50, quase chegando aos 60. Era no tempo em que, além de honrar os cabelos brancos, o “homem” tinha honra e presava por ela. Honrava a família e a sua história, sem estória nenhuma vivida. O homem tinha vergonha na cara.

Mas, nos dias atuais, o modernismo ia passando e freou. Estancou. Abancou-se. Apeou e para ser mais sertanejo como na roça onde nasci, “atamboretou-se” e está esperando que o café seja servido.

Reparem – em quase todos, exceção aos carecas – nos cabelos dos personagens envolvidos, ou, pelo menos denunciados como tal por quem vive de investigar (e eu não quero me dar o direito de, como outros, dizer que é mentira ou perseguição política). Todos de cabelos brancos. Todos com excelentes salários adjudicados pelos bons empregos. Aparentemente (embora os atos indiquem o contrário), todos com famílias constituídas – e nem por isso com inteligência e respeito por elas.

Para esses, pelo que vê nos noticiários das televisões, Seu Moreira, o da bodega da Bela Vista, não venderia fiado nem que estivessem acompanhados dos tetravós. Os cabelos brancos desses não valem nada, e ainda lhes falta vergonha nas caras e olhos remelentos.

28 junho 2017 FULEIRAGEM

SPONHOLZ – JORNAL DA BESTA FUBANA

28 junho 2017 JOSIAS DE SOUZA

PRIORIDADE DE TEMER É EVITAR O NAUFRÁGIO

27 junho 2017 FULEIRAGEM

VERONEZI – CORREIO POPULAR (SP)

MIUDINHO

Para alegrar a nossa terça-feira, Paulinho da Viola canta uma composição do trio Raul Marquês, Monarco e Bucy Moreira.

27 junho 2017 FULEIRAGEM

AMARILDO – A GAZETA (ES)

DAÍ PRA CIMA

Gilmar explica que Temer continua porque faltam fatos novos de grosso calibre

“Se não houver nenhum fato novo, a tendência é que ele continue”.

Gilmar Mendes, com cara de quem só apoiaria o afastamento de Michel Temer se aparecesse um “fato novo” realmente grave – por exemplo, um atentado a bomba planejado pelo presidente e executado por Michelzinho que exterminasse todos os deputados e senadores que sonham com o fim do governo.

27 junho 2017 FULEIRAGEM

MIGUEL – JORNAL DO COMMERCIO (PE)

27 junho 2017 DEU NO JORNAL

O REI DO ÓLEO DE PEROBA

“Se eu for condenado, não vale a pena ser honesto no Brasil.” – Lula

* * *

Ele cagou este tolôte oral hoje, terça-feira.

Podes crer, amizade: tem tabacudo que leva esta sujeito a sério.

Tem mesmo!

E este cabra safado já foi presidente desta merda de país.

Por duas vezes de direito e por mais duas vezes de fato.

Esta nossa Banânia é mesmo um circo!

27 junho 2017 FULEIRAGEM

SINFRÔNIO – DIÁRIO DO NORDESTE (CE)


www.cantinhodadalinha.blogspot.com
GLOSAS

Mote: Marcos Medeiros
Xilogravura: José Lourenço.

Com letras desenho imagens
que traduzem meu viver.
Eu leio para escrever,
além de empreender viagens.
Do mundo vivo às visagens,
busco fazer descrição.
Com métrica e oração,
dou vazão, entro no clima.
Com a chave da boa rima
Destranco meu coração!

Marcos Medeiros

Da letra monto a palavra
Da palavra monto o verso
Componho nesse universo
Estrofes de minha lavra
Quem com versos se apalavra
Mostra sua distinção
Por isso preste atenção
Você que me subestima:
Com a chave da boa rima
Destranco meu coração!

Dalinha Catunda

27 junho 2017 FULEIRAGEM

NANI – CHARGE ONLINE

PALOCCI É LULA AMANHÃ

Unidos por bandalheiras cometidas em parceria no passado recente, o ex-presidente e o ex-ministro terão um destino comum

Condenado pelo juiz Sérgio Moro a 12 anos de prisão, Antonio Palocci é Lula amanhã. O conteúdo da sentença avisou nesta segunda feira que o prontuário do Italiano, codinome do ex-ministro da Fazenda e ex-chefe da Casa Civil no departamento de propinas da Odebrecht, frequentemente se funde com as anotações na folha corrida do Amigo, como foi rebatizado o ex-presidente no mesmo listão da empreiteira. Os crimes que os uniram no passado recente prenunciam um destino comum.

A primeira condenação vai apressar a delação premiada de Palocci, que tem muito a revelar sobre o deus da seita petista. Mas a divindade apeada do altar, prestes a ser julgada por Moro, não poderá escapar da cadeia pela rota que seu ex-ministro está pronto para percorrer. Foi ele o chefe supremo do bando. Não há nenhum superior hierárquico a delatar.

27 junho 2017 FULEIRAGEM

DUKE – SUPER NOTÍCIA (MG)

27 junho 2017 DEU NO JORNAL

CORNO CARIDOSO

Juntos há três anos, o representante comercial Rodrigo, 27, e a estudante Leila, 23, são adeptos do fetiche do “cuckolding” (gíria em inglês para definir homens que são traídos e não se importam com isso).

Ele gosta que ela saia e transe com outros parceiros.

Aqui, o casal explica como essa prática deixa o relacionamento mais excitante.

“‘Tem um colega da faculdade dando em cima de mim, ele vive dizendo o quanto sou bonita‘, certa vez me disse minha namorada tentando fingir um ar de ofendida. Ela não conseguia sequer disfarçar o sorrisinho na cara, que deixava claro que estava gostando da situação. ‘Que safada‘, eu pensava. Mas ao invés de ciúmes, aquilo me deixou com um tesão doido! Que negócio estranho, eu estava curtindo saber que tinha outro cara interessado nela? Isso é coisa de corno! Eu não podia gostar disso, não!”

* * *

Eu gostei foi da expressão em inglês pra designar corno manso: cuckolding.

É vivendo a aprendendo.

No caso deste corno citado na notícia, o tal do Rodrigo, além de manso é também de testa bastante ampla.

Chifrudo existe em qualquer recanto do planeta Terra, mas caridoso assim é raro.

Este boi pacífico merece os parabéns da Editoria do JBF.

Bem que ele poderia passar pros nossos leitores fubânicos o celular de Leila, a sua amada chifreira.

27 junho 2017 FULEIRAGEM

SPONHOLZ – JORNAL DA BESTA FUBANA

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXV

José Leite Lopes (1918-2006)

José Leite Lopes nasceu no Recife, em 28/10/1918. Físico e renomado cientista, fundador de importantes organismos dedicado às ciências. É reconhecido internacionalmente por suas contribuições à física teórica. Filho de José Ferreira Lopes e de Beatriz Coelho Leite, perdeu a mãe três dias após o nascimento e foi criado pela avó junto com os dois irmãos. Realizou os primeiros estudos no Colégio Marista, e iniciou a formação acadêmica na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939, onde se graduou em Química industrial. Em 1940 ingressou no curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio Janeiro, concluído em 1942.

Durante o curso de Física, lecionou no Instituto Lafayette e estagiou com Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica. Ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Zerrener, em 1943, para estudar e trabalhar no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia da USP. No ano seguinte iniciou o doutoramento na Universidade de Princeton, USA, onde trabalhou com alguns cientistas, como Einstein, Jauch, Pauli e Reichenbach. Sua tese de doutorado foi orientada pelo Prof. Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física). Em 1946 recebeu o título de PhD e foi nomeado professor de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de Filosofia, onde realizou pesquisas em Eletrodinâmica em 1947. Manteve-se neste cargo até 1969, quando foi cassado pelo regime militar.

Em 1949, junto com César Lattes e outros pesquisadores, criou o CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, e no mesmo ano foi convidado por Oppenheimer para trabalhar no Advanced Study Institute de Princeton. Lá, junto com Feynman, publicou um trabalho sobre a descrição do deutron, pela teoria pseudo-escalar, com tratamento adequado à singularidade da força sensorial na origem. Em seguida, foi secretário científico da 1ª Conferência Internacional sobre Aplicações Pacíficas da Energia Atômica. A partir daí ficou conhecido também como pacifista, mantendo uma participação política.

A consagração internacional viria com a publicação do seu famoso artigo A Model of the Universal Fermi Interaction (1958), onde concluiu que se as interações fracas têm esta forma e se elas são os resultados da troca de bósons vetoriais entre os férmions, então estes bósons deveriam pertencer a uma mesma família, como os fótons que são também vetoriais. Neste trabalho foi previsto e provada a existência do chamado bóson Z0, uma partícula mediadora neutra nas interações fracas no núcleo de um átomo e criou uma equação abrindo caminho para a unificação eletrofraca. Algumas hipóteses fundamentais apresentadas serviram de base para estudos posteriores e foram confirmadas pelos cientistas Abdus Salam, Steve Weinberg e Sheldon Glascow, premiados (1979) com o Nobel de Física, pela publicação de um trabalho bastante semelhante ao desenvolvido por ele 20 anos antes, o que demonstra a injustiça política que permeia a premiação da Academia Sueca.

Além de pesquisador incansável, foi também articulador, fundador e diretor de destacadas instituições, tais como: CNEN-Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNPq-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, FINEP- Financiadora de Estudos e Projetos, SBF-Sociedade Brasileira de Física, ELAF-Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro, para onde convidou para dar cursos físicos da estatura de Feynman, Yang, Laguarrique e Puppi. Para ele, a física a “mãe das ciências” e lutou para que os países subdesenvolvidos desenvolvessem mais pesquisas. Sempre se mostrou crítico à falta de incentivos à ciência no Brasil. Devido ao senso crítico, não era bem visto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Com o Golpe Militar, foi acusado de manter ligações com o Partido Comunista, sendo obrigado a viver como exilado na França. Em Paris, a convite de Maurice Lévy, foi professor da Faculdade de Ciências de Orsay até 1967. No ano seguinte retornou ao Brasil e passou a organizar o Instituto de Física da UFRJ, onde foi nomeado Diretor. As condições políticas do Brasil recrudesceram e ele foi novamente perseguido pelos militares. Foi vitimado pelo famigerado AI-5, teve os direitos políticos cassado e foi aposentado compulsoriamente em 1969. Prestigiado no exterior, aceitou o convite para lecionar na Carnegie-Mellon University (1969-1970) e na Universidade de Strasbourg, onde ficou de 1970 a 1986, onde acumulou o cargo de Vice-Diretor do Centro de Recherches Nucleaires de 1975 a 1978.

Publicou vários livros adotados em universidades de todo o mundo, tais como Fondements de la physique atomique (Hermann, 1967), Lectures on symmetries (Gordon & Breach, 1969) e Gauge Field Theories (Pergamon Press, 1981, 1983), Theorie relativiste de la gravitation (Masson, 1993) e Sources et Évolution de la Physique Quantique (em colaboração com B. Escoubès, Masson, 1995). Em 1989, recebeu da UNESCO o “Science Prize”, único físico brasileiro detentor dessa prestigiada premiação. Outras condecorações: Medalha da Universidade de Strasbourg (1986), Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasília, 1994), Medalha Nacional de Ciências, Alvaro Alberto(1989).

Seu colega Amós Troper diz que “Leite Lopes é um apóstolo do homem total concebido no iluminismo, interligando o trabalho científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada”. Mas poucos conhecem seu lado artístico, desenvolvido a partir da década de 1950. E não se trata apenas de uma atividade de lazer destinada a descarregar as tensões da vida. “Se constitui numa parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida, bradando contra a ‘desespiritualização’ moderna e a morte”. São desenhos e pinturas, onde prevalecem paisagens, casario, figura humana, madonas, cristos, catedrais e vitrais, e cujo colorido revela alguma influência de seu conterrâneo Cícero Dias. Parte de sua produção artística foi apresentada na exposição “Espaços da Catedral Imaginária”, realizada pelos seus colegas, no hall do CBPF, em outubro de 1998, com a curadoria de Miriam de Carvalho e Francisco Caruso. Outra exposição intitulada “Construção e desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes”, apresentando novas obras foi realizada pela Academia Brasileira de Ciências, em novembro de 2003, com a curadoria de Celeste Nogueira Campos.

Seu retorno definitivo ao Brasil se deu em 1985, com a promulgação da Anistia. Voltou a dirigir o CBPF, onde permaneceu como Pesquisador Titular até fins de dezembro de 2005, quando foi internado no Hospital Samaritano, devido a complicações de uma endoscopia. Faleceu em 12/06/2006, após seis meses em coma, por falência múltipla dos órgãos. Seu corpo foi enviado para velório no CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que ele ajudou a fundar e foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

Clique para acessar: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

27 junho 2017 FULEIRAGEM

CLAYTON – O POVO (CE)

NAS TETAS DA VIÚVA

Comentário sobre a postagem UNE… UNIÃO NACIONAL DO QUE MESMO?

Maurício Assuero:

“Faz alguns anos, mas não muito, estava dando aula na universidade quando um grupo de 5 alunos me chamou à porta. Um deles pediu uns minutos para conversar com os alunos e foram atendidos.

Eles se identificaram como dirigentes da UNE e informaram que estavam ali para convidar os alunos a participar de um debate que a UNE estava promovendo com ideias que ela apoiava: financiamento público de campanha e voto em lista fechada.

Depois da exaltação ao papel da UNE, da exaltação do que a UNE estava fazendo pela educação no Brasil, o mesmo jovem que pediu para falar com a turma perguntou se alguém tinha alguma pergunta. A sala ficou silenciosa, mas eu disse que tinha uma.

Esclareci que fui estudante no fim do regime militar, que levei carreira da polícia em protestos contra o sucateamento da educação e contra o regime, etc. e perguntei onde estava a UNE combativa que denunciava todas as mazelas dos governos, que nunca deu um pio contra os bandidos do mensalão nem contra a corrupção no governo do PT.

Perguntei se o silêncio era em função dos recursos aprovados para construir a sede da UNE, cerca de R$ 20 milhões de reais.

Eles não tinham respostas.

Saíram da sala e foram confabular. Provavelmente, estudando uma resposta para perguntas dessa mesma natureza.

Participei de movimento estudantil, como presidente do DA do meu curso, mas não se senti à vontade de servir de escada para quem queria fazer do movimento estudantil, um movimento puramente partidário.

Meu interesse era sanar as deficiências do meu curso, mas nunca topei vender chaveiros para delegados da UNE participar de congresso do PCdoB, por exemplo.

Hoje a UNE não tem uma vírgula de luta estudantil. Todos são carreiristas querendo mamar nas tetas da viúva.”

* * *

27 junho 2017 FULEIRAGEM

PAIXÃO – GAZETA DO POVO (PR)

27 junho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MOACIR SANTOS III

O maestro e sua big-band americana, Moacir Santos Band, na Califórnia, em 1970

Neste terceiro e último artigo sobre Moacir Santos, tomei a liberdade de reproduzir excelente material da Enciclopédia Itaú Cultural sobre o assunto. Diz o texto:

Assim como outros maestros do rádio, entre os quais Radamés Gnattali e Lyrio Panicalli, Moacir Santos produz uma obra na fronteira entre a música popular e a erudita. Obrigado a dominar os diferentes estilos orquestrais em voga nos anos 1940 e 1950, do jazz ao folclorismo sinfônico, passando por ritmos latinos como a rumba e o merengue e por gêneros brasileiros, como o samba, a marcha e o choro, ele desenvolve um estilo eclético.

Tamanha versatilidade transparece tanto em seus arranjos como em suas composições, áreas que se confundem em sua obra.

Após duas décadas de profícua atuação como orquestrador e maestro, Santos vê seu campo de trabalho diminuir sensivelmente na segunda metade dos anos 1960, quando o desaparecimento das orquestras de rádio e TV, somado à valorização da canção com letras de cunho político na cena musical brasileira pós-1964, reduz o espaço para a música instrumental no país.

Nesse contexto, ele integra o grupo de músicos que, ligados à Bossa Nova ou ao samba-jazz (gêneros considerados “alienantes” num meio musical fortemente politizado), seguem carreira na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, como Naná Vasconcelos, Baden Powell, Sérgio Mendes, João Donato, Airto Moreira e a cantora Flora Purim.

Gravado num momento em que o compositor já atingira a maturidade, o álbum Coisas (1965), considerado um marco na música instrumental brasileira, sintetiza as principais características da obra de Moacir Santos. A começar pela valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a matrizes africanas.

Sou Eu (Moacir Santos/Nei Lopes) cantaVirginia Rodrigues e Tiganá Santana

Nesse sentido, o uso de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias constitui um gesto deliberado para que sua música “soe negra”, efeito igualmente obtido no plano melódico-harmônico por meio do emprego de escalas modais e da ambiguidade no uso das terças – ora maiores, ora menores.

Vale destacar que, ao “africanizar” a música brasileira, Santos age em sintonia com iniciativas semelhantes ocorridas na época: no mesmo ano do lançamento de Coisas, Elizeth Cardoso grava um disco só com sambas de morro (Elizeth sobe o morro), pondo em evidência a negritude da música brasileira; no ano anterior, são lançados Samba Esquema Novo, de Jorge Ben, e Tem “Algo Mais”, de Wilson Simonal, e Hermínio Bello de Carvalho revela Clementina de Jesus, com seu repertório repleto de cantos de escravos e pontos de macumba; no ano seguinte, Baden Powell e Vinícius de Moraes gravam seus Afro-sambas, inspirados no candomblé e na capoeira. Vinícius de Moraes, aliás, é um dos precursores da valorização musical da cultura afro-brasileira, ao conceber, em 1956, a “tragédia negra carioca” Orfeu da Conceição.

Além da valorização da cultura afro-brasileira, a obra de Moacir Santos se caracteriza ainda por certo hibridismo, em que ritmos regionais cariocas ou nordestinos (como o samba, o xaxado, o coco, o baião e o maracatu) são reelaborados de maneira singular, por meio de levadas oriundas do jazz, dos gêneros latino-americanos e da música de concerto brasileira ou internacional.

Embora “Coisas” seja comumente classificado como um álbum de samba-jazz, suas músicas dificilmente se enquadram nesse gênero, pois não seguem sua estrutura padrão, nem se atêm a seus cânones rítmicos (também chamados de “levadas”). Segundo Zuza Homem de Mello, o disco “não se encaixa em nenhum estilo da música popular brasileira de sua época”, dialogando com diferentes tradições.

Foi com este trecho da Enciclopédia Itaú que resolvemos encerrar nossa série-homenagem a Moacir Santos.

Ah, um bônus, coisa linda:

Aproveitem. Até a semana que vem.

27 junho 2017 FULEIRAGEM

ANTONIO LUCENA – BLOG DO NOBLAT

NUNCA ESQUECEU E NADA APRENDEU

Antes de o presidente Michel Temer viajar na semana passada para Moscou e Oslo, muita gente se lembrou de uma frase famosa do então senador Fernando Henrique Cardoso a respeito do à época presidente José Sarney. Sempre que este viajava para o exterior, do posto sem compromisso, que ocupou por quatro anos, enquanto o eleito, Franco Montoro, governava o maior Estado da Federação, aquele que foi espírito santo de orelha de Ulysses Guimarães, multipresidente da Câmara, da Constituinte, do maior partido da República e de praticamente tudo o mais, menos da República, se divertia com os périplos do soit-disant chefe do Executivo. “A crise viajou”. A frase foi lembrada quando Dilma Rousseff foi à Índia passear sua insignificância de carta quase fora do baralho. Praticamente de férias a flanar na Ásia, como Nilton César em seu sucesso instantâneo.

Dilma voltou de todas as viagens e não escapou do impeachment. E o beneficiário desse impeachment, Michel Temer, desembarcou no último fim de semana em Brasília em situação bem pior que antes de seu embarque sem sentido. A ausência em Brasília não evitou que a Polícia Federal PF) a concluísse e mandasse proo Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório em que o enquadrou em crime de “corrupção passiva”, pelo qual só não foi indiciado porque para tanto precisaria ter sido autorizada pelo STF e este por dois terços dos deputados federais reunidos em plenário, depois de passar pelo crivo da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Notícia ainda pior seria ficar sabendo que a mesma PF divulgaria sorrateiramente seu laudo pericial sobre a validade da gravação feita pelo bamba do abate, mas isso já ocorreu no último dia de seu périplo.

A aposta que a defesa de Temer fazia na adulteração da gravação não tinha possibilidade de alterar coisa nenhuma. Afinal, ninguém que tenha ouvido a gravação, perito ou não, seria inapto a entender que essa eventual adulteração em nadica de nada poderia interferir na falta de justificativa para a conversa na calada da noite, no porão do Palácio do Jaburu, entre o chefe do governo e um bandido notório, como todo mundo já sabia e quem não sabia ficou sabendo por reiteradas informações de Temer, de seus defensores e aliados. Em segundo lugar, porque o estilo espalhafatoso de Ricardo Molina, o perito escolhido pela defesa para garantir, essa invalidade, pôs por terra alguma possibilidade de alguém ter dúvida a respeito.

De qualquer maneira, a divulgação da perícia oficial da polícia pioraria a situação do presidente, estivesse ele em Tietê, Taguatinga ou na Sibéria. Essa seria a única má notícia da qual ele foi poupado antes e depois de seus encontros na plateia do Teatro Bolshoi ou diante dos espelhos do salão do Kremlin quando foi ciceroneado por um dos homens mais poderosos do mundo, o líder russo (que o Itamaraty ainda considera soviético, a levar a sério a nota sobre a visita de nosso comandante-chefe).Temer ficou deliciado com as gentilezas que lhe foram dispensadas pelo líder de uma das maiores potências mundiais. Vladimir Putin, aquele eslavo de cuja amizade o maior líder ocidental, Donald Trump, presidente dos EUA, tanto se orgulha, cedeu a própria poltrona no teatro e lhe fez mesuras inesperadas. Na verdade, em seus relatos entusiásticos sobre a passagem em Moscou, Sua Excelência omitiu alguns dados menos lisonjeiros, que a imprensa registrou. Dos empresários que foram ouvi-lo, só foi notada a presença de um CEO. De fato, comanda uma empresa com negócios no Brasil. Nenhum repórter encontrou um único acordo relevante assinado entre a potência russa e o Brasil em crise agônica. O presidente foi recebido e acompanhado por funcionários de segundo escalão dos serviços diplomáticos russo e norueguês.

Nada houve em Moscou, contudo, que pudesse comparar-se em vexame ao que ocorreria na segunda metade da visita à Noruega. Temer deu uma entrevista coletiva em Oslo, à qual um iniciante, de 23 anos, pautado para perguntar sobre algo que não se dignou a responder – a crise política e os escândalos de corrupção no Brasil –, foi o único repórter norueguês a comparecer. Enquanto isso, em Brasília, o contador Lúcio Bolonha Funaro trouxe vários fatos novos que em nada podiam melhorar seu humor no exterior. Um deles dava conta do testemunho do pagamento de uma propina de R$ 20 milhões ao presidente em pessoa em troca de interferência na gestão do Fundo de Investimentos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS). E de mais R$ 20 milhões que ele teria encaminhado para um lugar-tenente do qual o chefe teve de se livrar para evitar mais constrangimentos com a autoridade policial: o baiano que protagonizou uma tentativa de interferência no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan -, que, mesmo malsucedida, terminou com a rumorosa demissão de um diplomata em começo de carreira que ele mesmo havia nomeado, com grande pompa e circunstâncias ministro da Cultura e, portanto, chefe da instituição. O baiano Geddel Vieira Lima e o diplomata Marcelo Caleiro frequentam com tal assiduidade os pensamentos de Sua Excelência que foram citados na conversa do Jaburu com o bamba do abate, Joesley Batista.

Mas o governo norueguês não poupou o ilustre visitante de constrangimentos de outra natureza. No dia em que foi noticiado que o país visitado cortara metade (R$ 196 milhões) da verba de ajuda no combate ao desmatamento da Amazônia, Erna Solberg, premiê no governo da monarquia parlamentarista da Noruega, referiu-se expressamente ao interesse específico que ela e seus compatriotas têm em relação à Operação Lava Jato, que tem povoado os pesadelos presidenciais nos últimos dias. Vexame ainda maior foi saber que José Sarney Filho, o Zequinha, rebento menos dotado intelectualmente do ex-presidente homônimo, negou o corte da verba noticiado pelos meios de comunicação. E Antônio Imbassahy, tucano baiano que ocupou o lugar vago pelo anspeçada e estafeta Geddel na poderosa Secretaria de Governo do alto comando federal, negou qualquer referência que a anfitriã (de verdade, pois o rei Harald V é mera figura decorativa e sem o charme da mais famosa ocupante desse tipo de honraria no mundo, Elizabeth II, da Grã-Bretanha) não tinha pronunciado nenhuma vez as palavras operação, lava e jato. Claro que não o fez. Afinal, a moça falou em norueguês, não em português. Ora, ora!

De volta ao Brasil, depois da aventura única de trazer de uma viagem de uma semana ao exterior um corte de verbas, em vez de novos contratos lucrativos, Temer teve de encarar a realidade de lembrar, durante a agonia lenta, mas, ao que tudo indica, inexorável de seu governo, os Bourbons espanhóis, da mesma casa real a que pertenciam outros chefes de Estado brasileiros. Após a restauração da dinastia Bourbon no trono da Espanha, com a derrota final de Napoleão Bonaparte em Waterloo e a realização do Congresso de Viena, o ministro das Relações Exteriores da França à época, Talleyrand, fez o seguinte comentário a respeito dos parentes espanhóis dos imperadores brasileiros depostos pelas tropas do Marechal Deodoro: “Não aprenderam nada, não esqueceram nada”. Constrangedor para ele e, enquanto ele resistir na nossa Presidência, também para nós.

27 junho 2017 FULEIRAGEM

IOTTI- ZERO HORA (RS)

NÉLIO SANTANA – SANTA MARIA-RS


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