MANCHETE DA SEXTA-FEIRA – O PRIMEIRO AMIGO VAI OBRAR DE CÓCORAS NO BOI

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Na sentença, Sérgio Moro também condena o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto por crimes de corrupção passiva

Vaccari foi sentenciado com seis anos e oito meses de reclusão.

* * *

Agora, depois da condenação do Primeiro Amigo, só falta o Doutor Moro enfiar sua caneta no meio do olho do toba de Lapa de Canalha.

Quanto à nova condenação do petralha Vaccari, é importante ressaltar que o PT é recordista planetário na quantidade de ex-tesoureiros encarcerados.

Um recorde fantástico e muito significativo.

Tesoureiro, como o nome já diz, é o encarregado do tesouro, da bufunfa, do milho, do cobre, da pataca, do apurado, da grana, da prata, do numo, da nota, do vintém, da moeda, do níquel, do vil metal, da bolada, do arame, da gaita, do bagarote, do montante, da importância, da pecúnia, da quantia, da verba, do numerário, da soma.

Pra fechar este ciclo, só falta a prisão do proprietário do partido

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Paulo Ferreira, João Vaccari Neto e Delúbio Soares: a trinca tesoureiral guabirutífera, o trio que levou uma pajaraca da justiça no olho do furico e que cuidava das “finanças” da quadrilha amoitada na sigla PT

SONIA REGINA – SANTOS-SP

Nossos meninos estão bem espertinhos.

A turma do Kim Kataguiri do MBL, já colocou a venda a nova camiseta do movimento.

Lá vai:

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IZÂNIO – DIÁRIO DO PODER

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E AGORA, LULA?

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Nos próximos dias, o ex-presidente Lula terá de enfrentar uma tempestade perfeita – expressão inglesa usada para designar uma combinação desfavorável de fatores que se agravam até constituir o pior cenário possível. Vão prestar depoimento ao juiz Sérgio Moro o publicitário Marcos Valério, na segunda-feira 12, o ex-sócio da OAS, Léo Pinheiro, na terça-feira 13, e Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira que leva seu nome, na quinta-feira 15 de setembro. Todos têm potencial explosivo para detonar o petista: Léo Pinheiro cuidou da reforma do tríplex de Lula e é conhecedor dos segredos mais recônditos do ex-presidente. Marcos Valério operou a compra de parlamentares no esquema conhecido como mensalão e já se dispôs a detalhar a chamada Operação Portugal Telecom, um acordo endossado por Lula, em encontro no Palácio do Planalto, que teria rendido a ele, a José Dirceu e o ex-tesoureiro Delúbio Soares a soma de R$ 7 milhões. E a empresa de Marcelo Odebrecht não só fez reformas no sítio frequentado por Lula, como pode desnudar as nebulosas negociações envolvendo a construção do estádio do Itaquerão, em São Paulo – que atingiria Lula em cheio, podendo levá-lo à prisão.

As provas contra o ex-presidente petista se acumulam e o cerco se fecha a cada átimo de tempo. Lula já é réu na Justiça Federal do DF sob acusação de tentar comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, que negociava um acordo de delação premiada e poderia revelar a relação do petista com o Petrolão. Este será o primeiro processo em que Lula vai se sentar no banco dos réus. O julgamento final não deve passar de novembro. Em despacho obtido por IstoÉ, o juiz da 10º Vara do DF, Vallisney de Souza Oliveira, marcou para o dia 8 de novembro, às 9h30 da manhã, a primeira audiência de instrução e julgamento do processo contra o ex-presidente da República. Em geral, os réus costumam comparecer pessoalmente às audiências. Além de Lula, também são réus nesta ação seu amigo pecuarista José Carlos Bumlai, o filho dele, Maurício Bumlai, o ex-controlador do banco BTG Pactual André Esteves, o ex-senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS) e seu ex-assessor Diogo Ferreira. Neste dia, Lula ficará frente a frente com integrantes do Ministério Público Federal e com o juiz Vallisney. Depois dessa etapa, a ação penal entra na reta final e Lula pode receber sua primeira condenação.

Os acusadores

A ação tem como base a delação premiada de Delcídio. O ex-senador contou que participou da compra do silêncio de Cerveró a pedido de Lula. Foi por causa disso que o ex-líder do governo no Senado acabou preso, flagrado em um áudio no qual oferecia ajuda financeira à família do ex-diretor e até articulava um plano de fuga dele. Após abrir a boca, Delcídio deixou a prisão e delatou seus antigos companheiros de partido. O procurador Ivan Cláudio Marx, ao ratificar denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República, atribuiu ao petista o papel de “chefe da organização criminosa” para obstruir os trabalhos da Justiça. “Não se pode desconsiderar que, em uma organização criminosa, o chefe sempre restará na penumbra, protegido”. O próprio Lula confirmou em depoimento que se encontrou com Delcídio no seu instituto, em São Paulo, e que discutiram sobre a Lava Jato, embora negue que nunca conversaram sobre a compra do silêncio de Cerveró. A versão é completamente inverossímil, no entendimento dos procuradores. Ouvido na quinta-feira 1 em Curitiba, Delcídio reforçou que Lula tinha participação direta no esquema de loteamento político na Petrobras.

Não apenas os procuradores da República estão convencidos da atuação direta de Lula no sentido de atrapalhar o trabalho do Judiciário. Na última quinta-feira 8, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), demonstrou ter pedido a fleuma ao se referir a Lula. Normalmente técnico e circunspecto, o ministro fez uma de suas manifestações mais contundentes. Acusou Lula de agir para “embaraçar” as investigações da Operação Lava Jato por ingressar com vários pedidos de transferência de competência dos processos hoje nas mãos de Moro. Como se nota pela sucessão de eventos capazes de encrencá-lo de vez, o medo do petista se justifica.

Às 9h do último dia 16, um oficial de Justiça bateu à porta do apartamento de Lula em São Bernardo para comunicá-lo oficialmente de que havia se tornado réu e lhe dando prazo de 20 dias para apresentar sua defesa. A defesa foi apresentada na última terça-feira 6. Nela, Lula alegou ausência de “demonstração da conduta individualizada” do ex-presidente nos fatos criminosos e pedindo a nulidade da ação. As justificativas do petista não são factíveis. A acusação contra Lula de obstruir a Justiça prevê pena de prisão de três a oito anos, além de multa. Mesmo assim, o petista flana a fazer política por aí como se intocável fosse.

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A postura de Lula e até mesmo de seus familiares já beira o desacato à Justiça. Sua mulher Marisa Letícia e o seu filho Fábio Luís Lula da Silva se recusaram a comparecer a um depoimento marcado para o último dia 16 na Polícia Federal em Curitiba, no qual seriam questionados sobre o sítio em Atibaia (SP). Na última semana, como se estivesse acima dos demais cidadãos, Lula reiterou não reconhecer a competência de Moro na investigação sobre as 23 caixas com presentes recebidos pelo petista no período que ocupou a Presidência. Em mais uma inequívoca afronta ao Judiciário, Lula afirmou que somente prestará esclarecimentos à Justiça Federal de Brasília. Se fosse um mero mortal, fatalmente já estaria atrás das grades, tamanho o ultraje às autoridades. A confiança e a ousadia esboçadas pelo líder petista em sua peça de defesa escancaram, na verdade, um sentimento de preocupação. Pressentindo que seu destino esteja selado, e a volta à cadeia esteja próxima, Lula tem recorrido até às instâncias internacionais para tentar escapar das mãos de Moro. E não é para menos. Seis meses depois do seu depoimento, a PF concluiu o inquérito que investiga a ocultação do patrimônio e outras vantagens ilícitas recebidas pelo ex-presidente da construtora OAS. Valores que alcançaram a ordem de R$ 2,4 milhões, afirmam os investigadores. O ex-presidente foi indiciado por corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

A ação policial não é a única apontada em direção ao ex-sindicalista. Uma outra investigação, em andamento na Procuradoria do Distrito Federal, apura a suspeita de participação dele na liberação de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) à Odebrecht para financiar as obras construção de uma hidrelétrica em Angola. A PF quer comprovar se houve influência de Lula na operação de crédito. Em contrapartida, a Odebrecht teria de contratar a Exergia Brasil Engenharia, que tem como sócio Taiguara Rodrigues dos Santos, conhecido por ser sobrinho do ex-presidente Lula. Também ainda está em fase de diligências e debaixo do guarda-chuva da Lava Jato, em Curitiba, o inquérito que apura o aluguel de um galpão por parte da empreiteira OAS para guardar bens pessoais do ex-presidente durante os anos de 2011 e 2016. Essa frente também pode encrencar Lula. A despesa custou R$ 1,3 milhão. Os policiais suspeitam que os itens encaixotados tenham sido retirados da União. Em março, a PF cumpriu um mandado de busca extra para apreender todo o material recolhido ao depósito. De acordo com a lei 8.038 de 1990, o Ministério Público tem até 15 dias para se pronunciar sobre os inquéritos que forem concluídos pela polícia, pois os crimes imputados a Lula são de ação penal pública.

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Outro auspício que aterroriza o ex-presidente é alimentado pelas cada vez mais cristalinas digitais da participação dele no maior esquema de desvios de dinheiro público da história do País, o Petrolão. “Nessa toada, considerando os dados colhidos no âmbito da Operação Lava Jato, há elementos de prova de que Lula participou ativamente do esquema criminoso engendrado em desfavor da Petrobras, e também de que recebeu, direta e indiretamente, vantagens indevidas decorrentes dessa estrutura delituosa”, afirmaram recentemente procuradores da Lava Jato em robusto despacho de 70 páginas.

Embora ainda não tenha tomado nenhuma medida extrema contra o ex-presidente, o procurador-geral Rodrigo Janot demonstra estar convicto da participação dele nos desvios milionários da Petrobras. Em maio, Rodrigo Janot pediu a inclusão de Lula na relação de investigados no inquérito-mãe da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, que investiga a existência de uma organização criminosa que devastou a Petrobras. Ao relatar a suposta participação do petista no esquema, Janot fez duras afirmações. “Pelo panorama dos elementos probatórios colhidos até aqui e descritos ao longo dessa manifestação, essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado por tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva no âmbito do governo federal sem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dela participasse”, disse o procurador. E completou: “Lula mantém o controle das decisões mais relevantes, inclusive no que concerne às articulações espúrias para influenciar o andamento da Operação Lava Jato”.

Além das acusações que Lula enfrenta nas esferas policial e da Justiça, somam-se ainda – e para o temor dele – a delação de ex-companheiros de negócios e de degustação de cachaça. É o caso do ex-presidente da OAS José Aldemário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro. O executivo já revelou em conversas preliminares que o tríplex no Guarujá (SP) seria abatido das propinas que a empreiteira tinha de pagar ao PT por obras na Petrobras. Segundo Pinheiro, o acerto foi feito com a anuência do ex-tesoureiro do partido, João Vaccari Neto. Da mesma forma, segundo o empreiteiro, ficou acertada a reforma do sítio da família de Lula em Atibaia executada pela OAS.

Léo Pinheiro provou mesmo ser próximo ao ex-presidente. Em outra conversa preliminar com integrantes da Lava Jato, o executivo afirmou que Lula usou a empreiteira envolvida no escândalo da Petrobras para comprar o silêncio de sua protegida Rosemary Noronha. Ela foi demitida do escritório da Presidência da República, em São Paulo, após a deflagração da operação Porto Seguro, que investigava a participação de Rosemary com uma organização criminosa que fazia tráfico de influência em órgãos públicos. Conforme Léo Pinheiro já adiantou aos integrantes da Lava Jato, uma das maneiras encontradas pela OAS para ajudá-la foi contratar a New Talent Construtora, empresa do então cônjuge de Rose, João Vasconcelos. A contratação, disse Pinheiro, atendeu a um pedido expresso de Lula. Documentos em poder da força-tarefa da Lava Jato e de integrantes do Ministério Público de São Paulo, aos quais ISTOÉ teve acesso, confirmam que a New Talent trabalhou para a OAS.

Em outra delação sob negociação, o ex-diretor de serviços da Petrobras Renato Duque, apadrinhado pelo PT no esquema de desvios da estatal, disse ter se reunido com Lula para acertar os detalhes sobre a divisão das propinas advindas de contratos com a empresa. O encontro com o ex-presidente teria ocorrido no Instituto Lula, em São Paulo.

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A fidelidade de outrora por parte de alguns aliados do ex-presidente enfraquece a cada aperto da Justiça. Condenado à maior pena da ação penal conhecida como mensalão, o publicitário Marcos Valério tem demonstrado por meio de seus advogados de defesa que está disposto a fazer acordo de delação premiada. O depoimento de Valério poderia encalacrar ainda mais o parceiro Lula na Operação Lava Jato. A investigação tem como origem o depoimento dele em 2012 ao MPF. O publicitário disse que a empresa Portugal Telecom pagou uma dívida de US$ 7 milhões do PT. O depoimento de Valério em Curitiba aos integrantes da força-tarefa da Lava Jato está marcado para segunda-feira 12. Em caso de confirmação do acordo de delação premiada, Valério pode abrir o verbo.

Mesmo diante de tantas evidências, o ex-presidente Lula segue sua rotina de ataques à Lava Jato e ao juiz Sérgio Moro. E o que chega a ser mais constrangedor: sem qualquer punição até o momento, enquanto casos menos graves já foram alvos de pedidos de prisão. Janot, por exemplo, pediu ao STF as prisões do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), do senador Romero Jucá (PMDB-RR) e do ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP). Janot argumentou que eles se articulavam para obstruir e enfraquecer as investigações da Lava Jato, com base em áudios gravados pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Em março de 2014, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa foi preso depois que os investigadores detectaram que parentes dele estavam destruindo documentos em sua empresa, para tentar escapar de uma operação de busca e apreensão da PF e atrapalhar as investigações. Em junho de 2014, logo depois de ser solto, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa foi preso pela segunda vez por ordem do juiz Moro por omitir conta na Suíça com depósitos que totalizavam US$ 23 milhões. Para convencer o titular da ação, o MPF argumentou que havia risco de Paulo Roberto fugir do país. Depois disso, Paulo Roberto Costa decidiu fazer uma delação premiada. Perto da ficha corrida do petista, o que implicou próceres do esquema do Petrolão é considerado café pequeno por delegados que conduzem a Lava Jato. Até quando Lula ficará impune é a pergunta que povoa as mentes de parcela expressiva da população hoje.

Transcrito da revista IstoÉ

JÁ VAI TARDE!

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), liquidou talvez a última esperança do deputado Eduardo Cunha de suspender a sessão convocada para votar a proposta de cassação do seu mandato, marcada para as 19h desta segunda-feira (12).

Fachin negou o pedido liminar solicitado por Cunha, confirmando a realização da sessão deliberativa convocada pelo atual presidente da CAsa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Para cassar o mandato de Cunha serão necessários no mínimo 257 votos, correspondentes a metade mais um do total de 513 deputados federais.

Em resposta a enquetes, um número que oscila entre 280 e 300 deputados garantiram a vários jornais e sites que votarão favoravelmente à cassação.

Neste domingo, Eduardo Cunha deixou o apartamento funcional onde mora, em Brasília, por volta das 15h20, para almoçar com sua mulher na Trattoria do Rosário, que há anos é considerado o melhor restaurante de comida italiana de Brasília, localizado no Lago Sul.

Cunha pediu um prato saboroso, com a simbologia de “última” grande refeição antes da sessão de cassação do seu mandato, além de uma garrafa do vinho italiano Sassoalloro, um supertoscano muito apreciado.

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* * *

Ao invés da última ceia, Eduardo Canalha Cunha optou pelo Último Almoço.

Que a digestão lhe seja horrível e dolorosa!

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SEVERINO ELÓI

Quando cheguei em Monteiro, lá pelo anos sessenta, conheci Severino Elói, que tinha um caminhão velho e somente um braço. Usava um paletó surrado, com uma das mangas penduradas, como se não se conformasse com a falta do braço perdido.

Era casado, se não me engano, com Raimunda. Depois se mudou pra Rio da Barra e lá colocou um hotelzinho na beira da pista que liga Sertânia a Iguaracy, onde ostentava uma bateria de panelas de alumínio sempre limpas e polidas, o que era, na época, um cartão de visitas que recomendava qualquer restaurante.caminhao

O meu velho e saudoso amigo Wilson Galdino, sempre que nos encontrávamos na Bodega do Cearense aqui no Recife, me contava inesquecíveis histórias da nossa saudosa Monteiro. Uma delas, que Wilson deixou comigo e nunca esqueci foi essa de Severino Elói.

Num tempo em que o trajeto entre as duas cidades, era todo de barro, ele saiu de Monteiro com destino a Arcoverde, com uma carga de carvão. Não era tarefa pra qualquer caminhão não, principalmente pra o de Severino que se arrastava penosamente cumprindo aquela longa travessia de marmeleiro, caatinga branca e favela.

Num trecho ladeiroso, entre Monteiro e Sertânia, era preciso dar toda a carga no acelerador numa descida, pra garantir a subida da outra ladeira, em função da limitação da potência da velha máquina, que por estar sempre com os pneus na lona, só podia viajar no período da tarde quando o sol era mais brando e maneirava mais no estouro dos velhos pneus.

Pois bem, numa dessas tardes, lá vai ele descendo a fatídica ladeira, dando tudo que podia em velocidade para subir a outra que lhe esperava. Só não contava com uma pedra no meio do caminho, que estourou logo um dos pneus. No impacto, aquela patinha que ficava no capuz “voou” também e uma de suas asas metálicas se incumbiu de rasgar o outro pneu.

Severino, desceu, cubou a situação e olhou pra o relógio, a tarde já indo embora, o sol dando adeus a todos. O pior é que a viagem estava apenas começando e havia um longo percurso a ser vencido.

Severino desceu da boléia, olhou pro caminhão todo inclinado para um lado, tirou o sapato e, com a ponta do pé, começou a cutucar umas locas de pedras que havia no leito da estrada.

O ajudante que a tudo assistia imaginou:

– Meu Deus, o homem dessa vez endoidou! Severino, o que é que tu estás procurando.

E ele bem tranquilo:

– Nada não: é só uma cascavé pra me morder…

MANOEL FERREIRA DA SILVA (CABOCLO FERREIRA OU CABOCLO DE MIMOSA)

Caboclo Ferreira era uma conjunção perfeita de força física, extravagância e coragem, fatores que faziam dele uma pessoa que não conhecia o impossível. Nasceu em Boi Velho-PB, em data não precisa, viveu sempre dali para Itapetim-PE, embora a sua fama na boca do povo o tivesse levado várias vezes a São Paulo ou Brasília, cidades destino dos desvalidos daqueles Cariris.

Era muito comum ouvir histórias de Caboclo, passadas nesses lugares, embora ele nunca houvesse estado lá. Era o imaginário popular dando asas a um herói que onde quer que chegasse formava-se uma roda ao seu redor para ouvir ou ver as suas proezas.

Uma delas , foi acontecida em Itapetim-PE, quando ainda se chamava Umburana.

Genival Duda, de Monteiro, que o conheceu de perto, conta que num dia de feira, dois cabras se desentenderam e se travaram no bufete, bem no meio da feira, provocando correria e desespero nos presentes, porque matuto é assim: corre pra cima pra ver, ou corre com medo sem sequer saber de que.

Bom, os cabras da briga rebolavam pelo meio da feira, derrubando tudo que tava em pé por lá, farinha, feijão, o diabo a quatro.

Alguém teve a idéia de chamar Caboclo pra apartar a briga, coisa que ele também gostava de fazer. Caboclo conhecia um dos cabras e correu pra lá. Chegando no meio da “imbuança”, pegou um dos brigões pelo pescoço e jogou ele pra cima. O cabra caiu com todo corpo dentro de um caixão de farinha.

O outro, que era mais sambudo, ele agarrou pelo meio da cintura e jogou também pra cima. O cabra se estatelou em cima de um caminhão e ficou lá aquela porcaria.

A briga acabou aí.

Na outra feira, um deles, chegou todo empenado, com um braço numa tipóia e chamou Cabolco num canto:

– Seu Cabôco, eu queria pedir uma coisa ao senhor!

– Pois peça!

– O que eu queria pedir ao senhor seu Cabôco, é que quando o senhor me “ver” numa briga, mesmo que eu tiver apanhando, o senhor num aparte não, por caridade!

PAIXÃO – GAZETA DO POVO (PR)

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DUKE – O TEMPO (MG)

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PIRIPAQUE FUBÂNICO 12

Olá pessoal,

o meu amado está muito melhor. Tudo volta a funcionar devagarinho. Se continuar assim pra semana, dizem os médicos, ele sai da UTI.

Ainda continua divagando em seus pensamentos. Não entende o porquê está ali, deitado. Pede pra ir embora. Mas o importante é que ele está bem.

Aguardem mais notícias.

O SERTANEJO E O INVERNO

A televisão, quando chegou lá pelo sertão, bagunçou com a cabeça dos matutos. E, se brincar, até hoje tem gente que não acredita caber tanta gente ali dentro.

Na primeira ida dos americanos à lua, Zé Quelé, ex- cangaceiro e ex-soldado, que era irmão de Quelé do Pajeú, já com quase oitenta anos, e morando na Prata da Paraíba, puxava o punhal pra quem dissesse que aquele foguete que ele vira entre chiados e chuviscos das TVs da época, tinha realmente pousado na lua.arca de noé

– Tá doido! Como é que um troço grande desse jeito, senta num troço tão pequeno daqueles, dizia se referindo à lua.

Chico de Dedês, em Ouro Velho, não só gostou, como aprovou a televisão. E descobriu coisas novas:

– Num sei como é que esse povo da rua gosta de ver briga de murro, parêia de carro e o pior, matam e morrem por causa de home jogando futebol.

Na verdade, o sertanejo, mudou os seus conceitos, a partir da magia da televisão.

Mas nem sempre foi assim. Enquanto hoje, principalmente nas grades cidades, o assunto que prevalece entre os homens é cem por cento futebol (mulher nem pensar) os velhos sertanejos gostavam mesmo era de falar de inverno de pegas de boi e… de mulher.

– Visse as calça de Maria?

– E eu lá tive essa sorte!

Conversavam os dois matutinhos de Jessier na feira de Itabaiana.

Contam que um bando de sertanejos toda tardinha se reunia num cantinho lá no céu pra falar de inverno e chuva (já que no céu deve ser proibido falar de mulher). Ficavam ali jogando conversa fora até a boquinha da noite, quando se recolhiam.

– Pense num inverno grande foi aquele de 37!

– Foi nada. Aquilo foi lá chuva! Chuva mesmo foi em 28!

Nisso passava um velhinho baixinho branquinho com a barba branca quase arrastando no chão, que nunca parava pra conversar, só dizia:

– Vocês nunca viram chuva!

Ficava todo mundo puto, por que ele nunca conversava com ninguém, só passava, entrava na conversa dos outros e ia embora, até que um dia um deles perguntou pra um dos mais velhos:

– Me diz uma coisa, quem é esse velho abusado que não quer conversa com ninguém e fica dizendo que nós nunca vimos inverno?

O outro respondeu:

-Sei quem é não, dizem que é um tal de Noé!

GLÓRIA – Maria Braga Horta

Essa glória que os outros me preparam
buscando-a na poeira dos meus versos
é como a glória dos que a conquistaram
com aparência de heróis incontroversos…

E eu anseio subir, de olhos imersos
na luz dos astros que jamais brilharam
para os olhos de tantos universos
que, pelo Espaço, em giros, os buscaram…

E transpor, tendo embora a alma sangrando,
esse augusto infinito, esse horizonte
que espalha louros no alto, me acenando,

fazendo essa helicônica escalada
com a luz da glória a iluminar-me a fronte
e a própria luz me iluminando a estrada…

Manhumirim, 2-10-1932

LÉ PINTOR

Hermes de Siqueira Santos era o seu nome de batismo.

Era pintor, letrista, contador de histórias, alfaiate e boêmio ungido pela graça do Divino Espírito Santo. Seu tipo físico de estatura baixa, barriga saliente, sua cor branca e seu nariz comprido, lembravam o célebre Toulouse-Lautrec, pintor da “belle époque” francesa, também boêmio, muito popular, famoso e querido pelas mulheres do “Moulin Rouge“.

Lé, como era chamado, viveu intensamente nos cabarés e bebeu na boemia de São José do Egito, até quando Deus, impaciente com tanta demora, resolveu chamá-lo, até meio antes do tempo. Devia ter uns sessenta e poucos quando deixou este mundo velho.

O sargento Chiquinho foi mandado de encomenda para ser de­le­gado de São José, numa época de contendas “brabas”, na agitadíssima política de lá. E mandou ver: fechou bares, prendeu gente, reprimiu o jogo e decretou o célebre toque de recolher, prática muito usual nas ditaduras da desvalida “nuestra Latino-América”.

Numa de suas rondas noturnas, lá pelas dez da noite, quando tudo já deveria estar fechado, como mandava a lei, e até a luz (de gerador), já estava apagada, o sargento foca a sua lanterna na cara de Lé, que acabara de sair de casa, cumprindo a sua rotina de notívago, numa ronda onde a noite mal começara.

– Pra onde o sr. pensa que vai?

– Vou pro cabaré, sargento!

– O sr. tá doido? Não sabe que eu mandei fechar tudo?

– É, mas essa é a minha hora e eu só vou dar uma olhadinha por lá!

– O senhor é quem escolhe: quer voltar pra casa ou dormir na delegacia?

Diante de tão “convincente” argumento, Lé não discutiu e foi voltando pra casa, quando já estava com a chave na fechadura, voltou-se e perguntou para o delegado:

– Ô sargento Chiquinho, eu não tenho costume de dormir a essa hora da noite, como o sr. tá mandando. Será que eu posso me deitar e ficar com os ói aberto?

SONETO SINTÉTICO – Glauco Mattoso

De como a poesia é definida
depende da trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?

Segundo Rilke, a lira não duvida.
mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.

Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um Dom.

Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.

O NÃO DO AMOR

Uma caboca faceira
Esqueletou meu juizo
Pousou sem nenhum aviso
No corpo nu da paixão.

Uma fofinha malvada
Uma fofura morena
Uma almofada de pena
De sobre-cu de pavão.

Meu tangedor de viver
Ganhou um trote seguro
Escutando com apuro
A fala dessa mulher
Nem escura nem acesa
Água quebrada a frieza
Na fonte do bem-me-quer.

Contorniei as fronteiras
Do corpo da caboquinha
Que nem a fada madrinha
Com varinha de condão
Que mesmo dizendo NÃO
Só parecia que sim
Pois NÃO de amor é assim
Se engana com o coração.

Porque o NÃO do amor
Tem sentido diferente
Um NÃO bem forte diz: NÃO!
Depois um NÃO displicente
Traz dez NÃOZINHOS manhosos
Pra bem juntinho da gente.

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO – Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

MOTIVO – Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

ZÉ QUEBRA PANELA

Zé Quebra Panela era um matutinho nascido ali perto de Tabira. Comprido, zarolho e desdentado, feio de quebrar resguardo de raposa, mas portador de uma sagacidade e de uma capacidade de enganar o seu semelhante sem limites.

Andava bem vestido, calçava sapatos de duas cores, um evidente indicativo de malandragem na época pra uns, pra outros, um traço de boemia que distinguia os seres iluminados e raros que ousam ser diferentes. De nome José, que chamávamos de Zé, ele era o nosso João Grilo.

Zé vendia e comprava tudo, mas gostava mesmo era de negociar com fumo de rolo nas feiras. A sua banca de fumo era talvez a mais mal montada, uma vez que não tinha sequer uma lona cobrindo. Era aquela mesinha feita com velhas tábuas de caixão acinzentadas pelo sol e pela chuva, com os pregos torcidos e mal pregados, de um lado um tronco de pinhão, ou um pedaço de corda queimando como o fogo eterno de uma pira sagrada, onde os matutos iam acender os cigarros e economizar os fósforos que, como todo produto industrializado, eram caros. O matricó era pouco usado pois dava trabalho pra acender, o isqueiro nem pensar, viria muitos anos depois.

Mas Zé achava que Deus vivia lhe chamando pra outra missão mais nobre do que envenenar os pulmões daqueles desgraçados que lhe compravam fumo.

Então se meteu a fazer imagem de santo, talvez com a intenção de ser o novo Aleijadinho daqueles Pajeús, numa inspiração que ele considerava ter vindo direta do céu. Passou o nosso Roque Santeiro a viver dentro das caatingas, juntando troncos secos de imburana, com os quais praticava a sua arte. Mas, por faltar-lhe um mínimo de trejeito artístico pra coisa, as imagens sagradas saíam todas tronchas e com as feições “labrogeiras”, como dizem os matutos.

Aproveitando o “embalo” e a inspiração das coisas santas, quando a ocasião favorecia, vendia também lascas de tábuas de velhos caixotes de sabão, que jurava serem milagrosas por terem sido tiradas do caixão do santo “Padim Ciço”. Repetia o gesto dos soldados romanos que ratearam o manto sagrado, quando negociava mulambos de tecido preto afirmando serem garras miraculosas da batina do “Meu Padrinho”.

Um dia estava ele na feira, comercializando esses produtos absolutamente heterogêneos, banca de fumo e banca de santo, quando chegou uma devota velhinha, com cara de rezadeira, beata com ar de quem entendia de santos, por força da devoção.

– Meu senhor, eu conheço um magote de santo, já “froquentei” muita novena, igreja, tudo que o senhor pode imaginar. Já paguei muita promessa, mas tou aqui “mei atrapaiada”. Me responda uma coisa: Isto aqui é São José ou é Santo Antônio?

Zé, com ar professoral, explicou:

– Olhe, minha senhora, o santo se estiver com o menino no braço direito é São José. Se estiver com o menino no braço esquerdo, é Santo Antônio. Agora, se o bicho tiver um par de chifres, um rabo e um espeto comprido na mão, não chegue nem perto, que isso aí é o satanás!

JORNADA INGLÓRIA – Maria Braga Horta

Eu quis colher, erguendo aos céus a mão,
uma a uma as estrelas do infinito.
Mas nada mais, na efêmera ascensão,
logrei que pô-las em rochas de granito.

Se erguia os pés no ar, voltando ao chão
feriam-se nas pedras. E ao meu grito
de dor, bailava no ar a extrema-unção
que uma estrela mandou na asa de um mito.

Alcei em vão o olhar pelos espaços…
E em vez de estrelas julgo, de imprevisto,
que sairá do meu túmulo em pedaços,

na decomposição da minha história,
como um simples santelmo, sem ser visto,
o fogo-fátuo azul da minha glória.

1932

PARA FAZER UM SONETO – Carlos Pena Filho

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e Ihe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

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