Poeta Wellington Vicente, colunista fubânico

Wellington Vicente, em homenagem a Zé Marcolino, glosa o mote

Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

Sei que Raimundo Jacó
Ganhou um bom companheiro
Mas uma enchente de dó
Fez no meu peito um barreiro
E a saudade, num estouro,
Arrebenta o sangradouro
Que eu me ponho a chorar
Pois fiquei na soledade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

O meu sertão nordestino
Ficou triste sem seu filho
Porque José Marcolino
Foi cedo emprestar seu brilho
Ao que já tem o Infinito
Mas seu aboio bonito
Irá nos representar
À Suprema Majestade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

Ficamos eu e o Bira
E outros nossos parentes
Saudosos, seguindo a mira
Do alvo dos seus repentes
E a santa inspiração
Nas horas de aflição
Vem logo nos consolar
Com a musicalidade
Vinte anos que a saudade
Tá morando em nosso lar.

* * *

Alexandre Morais glosando o mote:

Do que fiz em minha vida
E do amor que foi meu
Não conto nem a metade
De tudo que aconteceu.

Escrevendo por mil linhas,
Falando por mil minutos,
Passando por mil redutos,
Deixando mensagens minhas…
Ou contando historinhas,
Sendo cada uma ouvida,
Muitas vezes repetida,
Regravada e remontada
Ainda não conto nada
Do que fiz em minha vida.

Nas passagens falaria
Em sonhos, realidade,
Regresso, ida, saudade,
Confrontos e calmaria.
Meninices, velharia,
Vaidades do meu eu,
Traquinagens do liceu,
O bom, o bem e o atraso,
Coisas do fundo, do raso
E do amor que foi meu.

Mas meu tempo é curto
E meu passado é extenso.
Quanto mais nele eu penso
Mais meu próprio tempo furto.
Já me toma como um surto
O registro da idade,
Redobro minha vontade
De rever a trajetória,
Mas do todo da história
Não conto nem a metade.

E do pouco que relato
São grandes as descobertas…
São muitas passadas certas.
A Jesus sou muito grato.
Entre a verdade e o fato,
A diferença sou eu,
Que só conto o que é meu
Sem temer quem me afronta,
Só no céu eu presto conta
De tudo que aconteceu.

* * *

Luciene Soares, poetisa paraibana e filha do poeta pernambucano Severino Dias, glosando o mote:

Eu aprendi pra não ser
Aluna de cantador.

Foi do meu pai que herdei,
Vate Severino Dias,
Pois em suas poesias
Inspiração encontrei
No versejar era rei
Nas rimas era doutor
Foi o maior professor
Outro igual tá pra nascer
Eu aprendi pra não ser
Aluna de cantador.

Meu versejar é peralta
Como criança travessa
Canto certo , cant’avessa
Rima para mim não falta
Já que está pronta a ribalta
Pra noite do esplendor
Onde cantarei o amor
A paz, o riso, o prazer…
Eu aprendi pra não ser,
Aluna de cantador.

Gosto da brisa no rosto
De montar no alazão
Das cantigas do sertão
Da tardinha, com sol posto
Da pimenta que dá gosto
Da manhã com seu frescor
Da voz do aboiador
O seu gado a tanger
Eu aprendi pra não ser
Aluna de cantador.

No murmúrio da cascata
Eu aprendi a rimar
Quando o pássaro cantar
Eu faço a duplicata
Madrigal e serenata
Pois o meu verso tem cor
Tem perfume , tem sabor…
Eu aprendi pra não ser
Aluna de cantador.

Minha cas’era lugar
De se reunir poeta
Onde traçavam as metas
Que deveriam cantar
“Mané” Xudu explicar
Lourival , grande cantor
Zé Alves , um esplendor
João da Silveira , o saber
Eu aprendi pra não ser
Aluna de cantador

* * *

 

Aldo Neves glosanto o mote:

 

Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

O sertão quando a terra está molhada
A enchente no rio faz rumores
As abelhas brincando com as flores
Sertanejo se acorda à madrugada
Meia noite uma serra é aguada
Com um chuveiro depois de destrancado
Carro pipa de tanque enferrujado
E a cigarra esquecida do verão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

Uma nuvem se forma no nascente
Com a força do vento se balança
Jitirana nas cercas fazem trança
Cantam os sapos felizes na enchente
Para a terra Deus manda esse presente
Tantas vezes e nada tem cobrado
E as formigas trabalham no roçado
Igual gente fazendo procissão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

Quando sobra fartura o pobre enrica
E recupera de novo a esperança
E um moleque com fome encosta a pança
Na panela melada de canjica
Vai embora o verão, o carão fica
Pra cantar quando o rio está de nado
E o nordeste só cheira a milho assado
Nas fogueiras de noite de São João
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

O cenário enfeitando a capoeira
Só o tempo querendo ele desmancha
E um enxame de abelhas se arrancha
Num buraco de um pau de aroeira
Na segunda o matuto vai à feira
Contar o que fez no seu roçado
E o fantasma da seca encarcerado
Sem querer Deus botou-lhe na prisão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

De manhã quando o sol enfeita a barra
Uma flor se desprende e cai do galho
Camponês recomeça o seu trabalho
Sem ouvir a cantiga da cigarra
À tardinha as gangarras fazem farra
Com o milho depois de pendoado
E a enchente parece um aleijado
Sem andar se arrastando pelo chão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

Passa a brisa de leve o chão bafeja
Deixa a terra bastante perfumada
Bate a água na telha compassada
Como o sino tocando na igreja
Se transforma a paisagem sertaneja
Com o mato depois de enfolhado
Parecendo um quadro desenhado
Que Deus fez sem triscar nem com a mão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

O trovão ribombando serra à baixo
Parecendo com um tiro numa guerra
Uma chuva bem leve molha a terra
Desce a água correndo prá um riacho
Uma jia cantando chama um macho
Como quem diz: Adeus, muito obrigado!
Um rosário de barro avermelhado
Forma um círculo enfeitando o cacimbão
Escutei a roqueira do trovão
Avisando o sertão está molhado.

 

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