Glosas de Marco Haurélio

Mote:

EU NÃO TROCO O MEU ÔXENTE
PELO OK DE SEU NINGUÉM

Além das falsas fronteiras
por mãos humanas forjadas,
das extensas paliçadas,
dos hinos e das bandeiras,
das invisíveis barreiras,
do deboche e do desdém,
a alma que um povo tem
é o que torna a gente GENTE
– eu não troco o meu ôxente
pelo “ok” de seu ninguém.

Escrevendo a sua história,
sem troféus e nem brasões,
preservando as tradições,
nos arquivos da memória.
esta é a maior glória
que o nordestino tem.
Pra século sem fim, amém
viva o cordel e o repente
– eu não troco o meu ôxente
pelo “ok” de seu ninguém.

* * *

Patativa do Assaré

ABC do Nordeste Flagelado

A — Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.

B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

C — Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando… sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

D — De manhã, bem de manhã,
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder,
pra de fome não morrer,
vai atrás de outro lugar,
e ali só há de voltar,
um dia, quando chover.

E — Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é
verde da cor da esperança,
com o flagelo que avança,
muda logo de feição.
O verde camaleão
perde a sua cor bonita
fica de forma esquisita
que causa admiração.

F — Foge o prazer da floresta
o bonito sabiá,
quando flagelo não há
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa
gorjeando por esporte,
mas não chovendo é sem sorte,
fica sem graça e calado
o cantor mais afamado
dos passarinhos do norte.

G — Geme de dor, se aquebranta
e dali desaparece,
o sabiá só parece
que com a seca se encanta.
Se outro pássaro canta,
o coitado não responde;
ele vai não sei pra onde,
pois quando o inverno não vem
com o desgosto que tem
o pobrezinho se esconde.

H — Horroroso, feio e mau
de lá de dentro das grotas,
manda suas feias notas
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau
o seu poema funério,
é muito triste o mistério
de uma seca no sertão;
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.

I — Ilusão, prazer, amor,
a gente sente fugir,
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.
Nas horas de mais calor,
se escuta pra todo lado
o toque desafinado
da gaita da seriema
acompanhando o cinema
no Nordeste flagelado.

J — Já falei sobre a desgraça
dos animais do Nordeste;
com a seca vem a peste
e a vida fica sem graça.
Quanto mais dia se passa
mais a dor se multiplica;
a mata que já foi rica,
de tristeza geme e chora.
Preciso dizer agora
o povo como é que fica.

L — Lamento desconsolado
o coitado camponês
porque tanto esforço fez,
mas não lucrou seu roçado.
Num banco velho, sentado,
olhando o filho inocente
e a mulher bem paciente,
cozinha lá no fogão
o derradeiro feijão
que ele guardou pra semente.

M — Minha boa companheira,
diz ele, vamos embora,
e depressa, sem demora
vende a sua cartucheira.
Vende a faca, a roçadeira,
machado, foice e facão;
vende a pobre habitação,
galinha, cabra e suíno
e viajam sem destino
em cima de um caminhão.

N — Naquele duro transporte
sai aquela pobre gente,
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.
Levando a saudade forte
de seu povo e seu lugar,
sem um nem outro falar,
vão pensando em sua vida,
deixando a terra querida,
para nunca mais voltar.

O — Outro tem opinião
de deixar mãe, deixar pai,
porém para o Sul não vai,
procura outra direção.
Vai bater no Maranhão
onde nunca falta inverno;
outro com grande consterno
deixa o casebre e a mobília
e leva a sua família
pra construção do governo.

P – Porém lá na construção,
o seu viver é grosseiro
trabalhando o dia inteiro
de picareta na mão.
Pra sua manutenção
chegando dia marcado
em vez do seu ordenado
dentro da repartição,
recebe triste ração,
farinha e feijão furado.

Q — Quem quer ver o sofrimento,
quando há seca no sertão,
procura uma construção
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento
que o pobre tem a comer,
a barriga pode encher,
porém falta a substância,
e com esta circunstância,
começa o povo a morrer.

R — Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura
vai engolindo o inocente.
Meu Jesus! Meu Pai Clemente,
que da humanidade é dono,
desça de seu alto trono,
da sua corte celeste
e venha ver seu Nordeste
como ele está no abandono.

S — Sofre o casado e o solteiro
sofre o velho, sofre o moço,
não tem janta, nem almoço,
não tem roupa nem dinheiro.
Também sofre o fazendeiro
que de rico perde o nome,
o desgosto lhe consome,
vendo o urubu esfomeado,
puxando a pele do gado
que morreu de sede e fome.

T — Tudo sofre e não resiste
este fardo tão pesado,
no Nordeste flagelado
em tudo a tristeza existe.
Mas a tristeza mais triste
que faz tudo entristecer,
é a mãe chorosa, a gemer,
lágrimas dos olhos correndo,
vendo seu filho dizendo:
mamãe, eu quero morrer!

U — Um é ver, outro é contar
quem for reparar de perto
aquele mundo deserto,
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar
o juazeiro copado,
o resto é tudo pelado
da chapada ao tabuleiro
onde o famoso vaqueiro
cantava tangendo o gado.

V — Vivendo em grande maltrato,
a abelha zumbindo voa,
sem direção, sempre à toa,
por causa do desacato.
À procura de um regato,
de um jardim ou de um pomar
sem um momento parar,
vagando constantemente,
sem encontrar, a inocente,
uma flor para pousar.

X — Xexéu, pássaro que mora
na grande árvore copada,
vendo a floresta arrasada,
bate as asas, vai embora.
Somente o saguim demora,
pulando a fazer careta;
na mata tingida e preta,
tudo é aflição e pranto;
só por milagre de um santo,
se encontra uma borboleta.

Z — Zangado contra o sertão
dardeja o sol inclemente,
cada dia mais ardente
tostando a face do chão.
E, mostrando compaixão
lá do infinito estrelado,
pura, limpa, sem pecado
de noite a lua derrama
um banho de luz no drama
do Nordeste flagelado.

Posso dizer que cantei
aquilo que observei;
tenho certeza que dei
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura,
indigência e desventura.
— Veja, leitor, quanto é dura
a seca no meu sertão.

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6 Comentários

  1. DeAmbrosio disse:

    Tem o fôlego, a estrutura e a carga emocional de uma epopéia !
    A pena que faz é que retrata uma verdade.
    É a vida imitando a Arte.

    Arre égua !

  2. Ele Dantas disse:

    Comentario,não, pedido! Adoro este poeta o Patativa e procuro onde posso encontrar uma obra em que ele conta a história do engenho de pau que fora substituido por um engenho de ferro. A questão do progresso. Deve pertencer ao acervo em livro ou em cd.
    Parabéns pelo trabalho dando espaço à cultura nordestina, a brasileira.

  3. CRISTINA ALBUQUERQUE disse:

    ADMIRO MUITO O NOSSO INESQUECIVEL POETA NORDESTINO PATATIVA DO ASSARÉ. ME DELEITO AO LER CADA UMA DE SUAS POESIAS. GOSTARIA MUITO DE ENCONTRAR, POR INTEIRO,A POESIA:ENGENHO DE FERRO. ATÉ AGORA NÃO CONSEGUI LOCALIZA-LA.

  4. Manoel Bernardo disse:

    Vivo a procura da poesia deste imortal poeta Patativa (engenho de ferro e engenho de pau) que foi recitado por um apresentador da TV diario mas, nunca encontrei, como se conceguir?

  5. Lu Miranda disse:

    Ingém de ferro
    INGÉM DE FERRO

    Ingém de ferro, você
    Com seu amigo motô,
    Sabe bem desenvorvê,
    É munto trabaiadô.
    Arguém já me disse até
    E afirmo que você é
    Progressita em alto grau;
    Tem força e tem energia,
    Mas não tem a poesia
    Que tem o ingém de pau.

    O ingém de pau quando canta,
    Tudo lhe presta atençao,
    Parece que as coisas santa
    Chega em nosso coração.
    Mas você, ingém de ferro,
    Com este horroroso berro,
    É como quem qué brigá,
    Com a sua grande afronta
    Você tá tomando conta
    De todos canaviá.

    Do bom tempo que se foi
    Faz mangofa, zomba, escarra.
    Foi quem espursou os boi
    Que puxava na manjarra.
    Todo suberbo e sisudo,
    Qué governá e mandá tudo,
    É só quem qué sê ingém.
    Você pode tê grandeza
    E pode fazê riqueza,
    Mas eu não lhe quero bem.

    Mode esta suberba sua
    Ninguém vê mais nas muage,
    Nas bela noite de lua,
    Aquela camaradage
    De todos trabaiadô.
    Um falando em seu amô
    Outro dizendo uma rima,
    Na mais doce brincadeira,
    Deitado na bagacêra,
    Tudo de papo pra cima.

    Esse tempo que passô
    Tão bom e tão divertido,
    Foi você quem acabô,
    Esguerado, esgalamido!
    Como, come interessêro!
    Lá dos confim do estrangêro,
    Com seu baruio indecente,
    Você vem todo prevesso,
    Com história de progresso,
    Mode dá desgosto a gente!

    Ingém de ferro, eu não quero
    Abatê sua grandeza,
    Mas eu não lhe considero
    Como coisa de beleza,
    Eu nunca lhe achei bonito,
    Sempre lhe achei esquisito,
    Orgoso e munto mau.
    Até mesmo a rapadura
    Não tem aquela doçura
    Do tempo do ingém de pau.

    Ingém de pau! Coitadinho!
    Ficou no triste abandono
    E você, você sozinho
    Hojé é quem tá sendo dono
    Das cana do meu país.
    Derne o momento infeliz
    Que o ingém de pau levou fim,
    Eu sinto sem piedade
    Três moenda de do sodade
    Ringindo dentro de mim.

    Nunca mais tive prazê
    Com muage neste mundo
    E o causadô de eu vivê
    Como um pobre vagabundo,
    Pezaroso, triste e pérro,
    Foi você, ingém de ferro,
    Seu safado, seu ladrão!
    Você me dexô à toa,
    Robou as coisinha boa
    Que eu tinha em meu coração!

  6. Lu Miranda disse:

    Ele Dantas e manoel Bernardo, o melhor dessa obra é a circustancia em que ela ocorreu. Segundo um amigo de patativa, um dono de engenho procurou o poeta para solicitar uma poesia a qual elogiasse o funcionamento do engenho de ferro e o progresso o qual ele estava trazendo para a regiao e em troca pagaria pelo trabalho, uma quantia “gorda” para a epoca. Então patativa perguntou: quer uma poesia falando o que eu acho do engenho de ferro? eu faço sem carecer de pagamento. Entao o dono do engenho ficou no aguardo da referida poesia, e quando ele terminou…era essa aí, na verdade só falava o quanto o “progresso” com o engenho de ferro destruiu a cultura daquele lugar.

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